17/11/2011 - 18:11h Droga eleva colesterol bom e reduz o ruim

Pesquisa divulgada em congresso de cardiologia nos EUA nesta semana analisou a ação do remédio em 400 pessoas

Médicos ainda temem possíveis efeitos colaterais; remédio similar está sendo testado no Brasil

DÉBORA MISMETTI – FOLHA SP – EDITORA-ASSISTENTE DE SAÚDE

Estudo apresentado nesta semana no congresso da American Heart Association, em Orlando, nos EUA, mostra que um novo remédio conseguiu aumentar os níveis do chamado colesterol bom, o HDL, e baixar as taxas do ruim, o LDL.
Quando combinado aos remédios já usados para baixar colesterol (estatinas), o evacetrapib mais que dobrou os níveis de colesterol bom e reduziu em até 35% o colesterol ruim, além de diminuir os triglicérides, outro indicador de risco cardíaco que é medido em exames de rotina.
O novo remédio pertence a um grupo de substâncias que inibem uma proteína responsável por transferir colesterol do HDL para o LDL, aumentando a proteção contra o entupimento dos vasos.
O HDL funciona “limpando” o colesterol das artérias e o levando até o fígado. De lá, ele é eliminado do corpo.
Segundo Raul Santos, diretor da unidade de lípides do Instituto do Coração (InCor), um nível baixo de HDL é um sinal de risco de infarto. Resultados abaixo de 40 mg/dl para homens e 50 mg/dl para mulheres são um sinal de alerta, de acordo com as diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
Remédios da mesma família do evacetrapib vêm sendo testados há alguns anos. O primeiro deles foi uma grande decepção para os médicos, afirma Santos, porque aumentou a pressão arterial dos pacientes e o risco de problemas cardíacos.
“Depois disso, foram desenvolvidas mais três moléculas que, até agora, não causaram esses efeitos.”
Um desses medicamentos, o dalcetrapib, está sendo testado no InCor por 20 pacientes, há dois anos. “Em 2013 devemos ter uma resposta sobre os efeitos da droga.”
Os médicos ainda precisam determinar se o mecanismo usado pela droga para aumentar o colesterol bom pode prejudicar a pessoa a longo prazo. A proteína cuja ação é inibida pelo remédio para aumentar o colesterol bom pode ter uma ação protetora para as artérias.
“O efeito do remédio sobre o colesterol é ótimo, mas ainda não sabemos se isso vai prevenir eventos cardíacos”, diz Santos.
O novo estudo, feito por médicos da Cleveland Clinic e publicado no “Journal of the American Medical Association”, sugere testes maiores para comprovar os benefícios do remédio.
polêmica
Um outro estudo apresentado no congresso americano de cardiologia e publicado no “New England Journal of Medicine” levanta o debate sobre outra substância usada há mais de 50 anos para aumentar o HDL, a niacina.
A pesquisa analisou o impacto da substância em pessoas com LDL controlado (abaixo de 70 mg/dl). Segundo os autores e um editorial publicado na revista médica, o remédio deve ser aposentado, porque não aumenta o colesterol bom dos pacientes e causa vermelhidão da pele.
Segundo o cardiologista do InCor, no entanto, ainda é preciso esperar o resultado de um estudo maior, com 25 mil pessoas, antes de desistir do remédio. “Ele é seguro, está no mercado há décadas.”

12/01/2011 - 17:24h Tempo demais sentado eleva risco cardíaco

Pesquisa mostra que se levantar por períodos curtos várias vezes ao dia já é suficiente para reduzir o perigo

Dar descanso para a cadeira resulta em cintura mais fina; medida é indicador de doença cardíaca

JULIANA VINES – FOLHA SP

SÃO PAULO

Levantar mais vezes, mesmo que seja para beber água ou mudar o canal da televisão, diminui o risco de desenvolver doenças cardíacas.
A conclusão é de pesquisadores da Universidade de Queensland, Austrália, em estudo publicado hoje na versão on-line da revista “European Heart Journal”.
Segundo a pesquisa, até quem é sedentário, mas faz várias pausas para levantar durante o dia, tem menor risco do que quem faz atividades físicas e fica longos períodos sentado.
A pesquisa acompanhou 4.757 pessoas com mais de 20 anos entre 2003 e 2006. Cada voluntário recebeu um aparelho que monitorou a atividade física durante sete dias.
Também foram medidos os níveis de quatro marcadores de risco de doença cardiovascular: a quantidade de uma proteína que sinaliza a formação de aterosclerose, os níveis de HDL (colesterol “bom”), triglicérides e a circunferência abdominal.
Quem se movimentou mais teve todos os índices melhores.
A diferença mais significativa foi na circunferência abdominal: os participantes que ficaram menos tempo sentados sem pausas tiveram, em média, 4,1 centímetros a menos de cintura do que as pessoas que ficaram paradas na mesma posição.
“Já se sabe que a atividade física moderada ou intensa reduz o risco cardiovascular. O surpreendente é que o estudo mostra que mesmo as pequenas quebras no sedentarismo já ajudam”, diz Raffael Fraga, cardiologista do Incor (Instituto do Coração).
Segundo Fraga, uma das explicações é que mesmo as atividades físicas mais leves aumentam o gasto energético total diário e, consequentemente, ajudam a diminuir a circunferência abdominal.
A gordura intra-abdominal está relacionada à probabilidade maior de desenvolver aterosclerose e também ao aumento do colesterol.
“Qualquer redução na gordura abdominal já representa uma queda de risco. Quatro centímetros é uma diferença muito grande”, diz o cardiologista Ricardo Pavanello, do HCor (Hospital do Coração).
O recomendado, segundo a Federação Internacional de Diabetes, é que mulheres tenham no máximo 80 cm de cintura e homens, 94 cm.

DOSES HOMEOPÁTICAS

Para o cardiologista Antonio Sergio Tebexreni, da Unifesp, a pesquisa mostra que qualquer atividade física é importante.
“É possível dividir os 30 minutos de exercícios em etapas. Se você se movimentar várias vezes durante o trabalho, já é válido.”
Além de aumentar o gasto energético total, sair da cadeira e movimentar os músculos das pernas ativa a circulação sanguínea.
“Isso melhora a pressão arterial e ajuda no gasto calórico. Facilita o trabalho do coração, além de prevenir a formação de coágulos.”
O cardiologista Nabil Ghorayeb, do HCor, discorda do estudo. Segundo ele, a atividade física só traz benefícios quando é realizada a longo prazo e frequentemente.
“Levantar poucas vezes não muda a vida de ninguém”, diz o médico. Para ele, qualquer mudança de hábito para o sedentário faz diferença nas estatísticas, mas isso não quer dizer que o risco cardíaco vá ficar menor.

20/06/2010 - 15:52h Medidas simples para ter um coração saudável

Médico ensina como se manter em forma e se proteger da arteriosclerose, a principal causa de infarto

Antônio Marinho – O GLOBO

http://i204.photobucket.com/albums/bb124/paulolima01/Blog/infarte.jpgA Organização Mundial de Saúde (OMS) estima que até 2040 o índice de doenças cardiovasculares no Brasil deve aumentar em 250%. Hoje, 300 mil brasileiros morrem anualmente por causa desses problemas.

E de 14% a 25% dos infartos ocorrem sem sinal de dor. Além disso, 30% dos brasileiros são hipertensos, e, de cada cem, apenas de 25 a 30 têm a doença controlada. Com o estresse, o excesso de informações e a vida sedentária, o coração fica ainda mais sobrecarregado.

Uma hora começa a falhar. O médico Cláudio Domênico, doutor em cardiologia pela UFRJ e membro do Colégio Europeu e Americano de Cardiologia, diz que medidas simples ajudam a proteger não só o coração, mas os demais órgãos. Ele lançou o guia “Detalhes” — que distribui a seus pacientes e amigos — com dicas de bem-estar. Nesta entrevista, ele ensina como melhorar a qualidade de vida.

ESTILO DE VIDA: “Um coração saudável mantém os outros órgãos saudáveis. Se o coração vai mal e bombeia sangue em quantidade insuficiente, o cérebro, os rins e o pâncreas sofrem. Daí a importância de prevenir e tratar a arteriosclerose, doença que pode começar precocemente e piorar, dependendo de estilo de vida e hábitos alimentares.

Hoje há maior consumo de fast-foods, de produtos com mais corantes, antibióticos e hormônios. E, com os avanços tecnológicos, a vida tornou-se confortável demais; antes as pessoas se mexiam mais. O ideal é associar exercícios aeróbicos, como corrida, caminhada e natação, ao alongamento e à musculação (com orientação de profissional de educação física), que retarda a perda progressiva de massa muscular. Exames são importantes, mas é fundamental que motivemos nossos pacientes a mudarem seu comportamento em benefício de sua saúde

HORA DO CHECK-UP: “Pessoas sem sintomas e histórico de doença cardiovascular podem iniciar o check-up clínicocardiológico a partir dos 35 anos. A avaliação inclui exame de sangue completo, teste de esforço, eletrocardiograma, consulta oftalmológica, ginecológica ou urológica. Se a pessoa quer praticar atividade física mais intensa, o médico deve incluir o teste de esforço e o ecocardiograma. É uma medida para tentar prevenir a morte súbita, cuja principal causa é a hipertrofia anormal do coração, que pode causar arritmias malignas. Apenas o exame clínico pode ser insuficiente para detectar essa alteração.

Já o teste de esforço mostra, entre outras coisas, o comportamento da pressão em repouso e no exercício, o condicionamento físico, os sintomas e as arritmias na prática da atividade física. Por exemplo, a queda de pressão num esforço pode indicar entupimento grave de artérias coronárias”.

OUTROS EXAMES: “Em pacientes com mais de dois fatores de risco cardiovascular, como diabetes, colesterol alto, hipertensão, histórico de doença coronária precoce e medida de cintura do quadril acima do normal (até 0,9 para homens e 0,85 para mulheres; a gordura no abdômen é a mais nociva) recomenda-se a tomografia de tórax com escore de cálcio coronário e o ultrassom das carótidas.

A angiorressonância do crânio é indicada para pessoas com histórico de aneurismas no cérebro. Os exames mostram o que o médico William Osler já dizia: ‘O homem é tão velho quanto suas artérias’. Isto é, o que se observa é que a idade vascular nem sempre corresponde à sua idade cronológica”.

GORDURAS NO SANGUE: “Ter a fração de bom colesterol, o HDL, baixa é tão perigoso quanto ter o LDL, a gordura má, alto. E os medicamentos que existem para aumentar o HDL são pouco eficazes e têm efeitos adversos. Portanto, é melhor tentar elevar o HDL praticando atividade física regularmente e se alimentando de forma saudável, com orientação de nutricionista, até para evitar as dietas da moda. O ideal é que o HDL represente pelo menos 25% do colesterol total. Com relação aos triglicerídeos, esta gordura tem relação com o aumento do açúcar — a glicose — no sangue. Os triglicerídeos podem ser reduzidos com o uso de drogas do tipo fibratos, porém elas não devem ser associadas rotineiramente a estatinas (receitadas para baixar colesterol), porque essa combinação afeta os rins. Então devemos tratar primeiro a alteração mais grave.”

NOVOS MARCADORES: “Um marcador muito estudado é a proteína C-reativa (a PCR). Quando está alta, indica inflamação em algum órgão.

Esse é o problema de usá-la, porque não é específica para o coração. Pode estar alterada numa infecção por vírus ou num infarto. Mas estudos mostraram que pacientes sem diagnóstico de doença coronária e que apresentavam PCR acima de 2 se beneficiavam de estatinas. Então é preciso avaliar melhor esse marcador”.

HIPERTENSÃO E CÂNCER: “Quem tem pressão alta deve ser avaliado individualmente.

Esta semana saíram estudos relacionando o uso de drogas bloqueadoras dos receptores da angiotensina ou BRA (um dos mais receitados) a risco moderado de câncer. Porém, são necessárias novas pesquisas.

Para cada caso há um tratamento, dependendo da avaliação médica. Geralmente, o uso isolado de um único fármaco só funciona em casos leves.

Não há receita de bolo”.

CLÍNICO OU CIRÚRGICO: “De maneira geral, quem precisa de implante de três ou mais stents é candidato à cirurgia de revascularização do miocárdio.

Por outro lado, pacientes tratados com angioplastia tendem a se descuidar com o tempo, voltam a se alimentar mal, a levar vida sedentária e suas artérias vão se obstruindo.

Já os operados aderem melhor ao tratamento. Talvez porque se lembrem dos dias no CTI, no pós-operatório”.

SONO RELAXANTE: “É essencial para o coração dormir bem. Alguns indivíduos chegam ao consultório se queixando de cansaço e acreditam que o coração está falhando.

Quando investigamos, descobrimos que o problema está associado a distúrbios do sono, como apneia, que causa várias paradas respiratórias por alguns segundos, com queda de oxigenação, aumento de pressão, arritmias, falhas de memória, sonolência durante o dia. Às vezes basta melhorar a qualidade do sono para o coração ficar bem”.

SAÚDE DA BOCA: “Cuidar da boca também é importante para o coração. Muitas das bactérias que vivem na cavidade oral entram no sangue e atingem o coração, o que pode ser perigoso em certos casos, como prolapso de válvula. Estudos com pacientes submetidos à angioplastia indicaram que a mesma espécie de bactéria encontrada no cateter balão vivia na boca”.

DISFUNÇÃO ERÉTIL: “A disfunção erétil pode ser o primeiro sinal de que as artérias estão mal ou entupidas. Há drogas para tratar a dificuldade de ereção, e uma restrição é para cardíacos que tomam nitratos. E não adianta tratar apenas a disfunção. É preciso avaliar o paciente de forma geral, inclusive com relação à necessidade de reposição hormonal, com testosterona”.

CUIDADO NA MENOPAUSA: “O efeito protetor do estrogênio ao coração diminui na menopausa.

Estudos mostraram que a reposição hormonal nesse período pode ser perigosa, quando feita sem controle.

Se a mulher não tem queixas graves, recomendo que evite a reposição. Mas se sofre com irritabilidade, ressecamento da pele, ondas de calor etc, deve consultar o ginecologista para saber se vale a pena tomar os hormônios.

Se teve infarto, o cuidado deve ser maior”.

CUIDAR DA MENTE: “Além do físico, é importante cuidar da mente. Muitos pacientes vivem sob estresse, carga enorme de informações, de poluição mental. É essencial controlar o estresse, ter momentos de lazer. Recomendo que as pessoas leiam mais para relaxar, mas não livros técnicos ou apenas jornais. A leitura de livros como romances é como uma ‘musculação’ para o nosso cérebro, e o coração agradece.”

09/05/2010 - 17:16h A polêmica do colesterol


Médicos criticam o uso exagerado de estatinas para reduzir níveis da substância


COMO AGEM AS DROGAS

Cerca de 60% do colesterol que circula no corpo é produzido no fígado por meio da enzima HMG CoA redutase. Uma pequena parte vem da dieta. Essa substância tem função importante em reações químicas, como, por exemplo, construir e manter as membranas celulares; produção de bílis para digerir gorduras e metabolismo de vitaminas. Mas, em excesso, entope as artérias

Antônio Marinho – O GLOBO

Ter níveis considerados adequados de colesterol está se tornando impossível somente seguindo uma dieta saudável e praticando exercícios físicos. A cada nova diretriz ou revisão de estudos, cardiologistas recomendam baixar mais e mais as taxas de gorduras no sangue em pessoas saudáveis, principalmente o colesterol ruim, o LDL, associado a infarto e derrame. E quando o coração ou as artérias já estão com problemas, a meta a alcançar é quase inatingível. Para o grupo com aterosclerose grave, médicos dizem que o LDL tem que ficar abaixo de 70mg/dl. Nesses casos só tomando estatinas, drogas que baixam o colesterol, mas podem causar efeitos colaterais como dor muscular e até hepatite. Quem tem ganhado com isso é a indústria farmacêutica.

Para se ter ideia de ganhos dos laboratórios, no Brasil estima-se que há 30 milhões de pessoas com alto risco cardiovascular e, portanto, potenciais usuárias de estatinas. Estudo do Instituto de Cardiologia de Laranjeiras (em parceria com a Uerj e o Hospital do Coração, de São Paulo) mostrou que o setor público gastou R$ 92 milhões com essa droga em um ano.

A polêmica entre os favoráveis às estatinas — tomadas pelo resto da vida — e aqueles que acham que há abuso na sua prescrição aumentou depois que a FDA (o órgão que controla drogas e alimentos nos EUA) aprovou novos critérios para o Crestor (rosuvastatina, do AstraZeneca). Ela é a segunda mais vendida, atrás do Lipitor e Citalor (atorvastatina, da Pfizer). Pela nova diretriz, indivíduos sem colesterol alto são candidatos a usar os comprimidos.

O remédio recebeu a aprovação para reduzir risco de ataque cardíaco e derrame considerando-se a idade (homens a partir de 50 anos, mulheres a partir de 60), nível alto de proteína Creativa (PCR, marcador de inflamação antes sem tanta importância) e hipertensão, tabagismo ou história de doença cardíaca. Só que a autorização foi baseada no estudo JUPITER (sigla em inglês), um dos maiores realizados com uma estatina (17.802 participantes), justamente com o Crestor.

Por esses critérios, estimase que mais 6,5 milhões de pessoas terão de tomar estatinas.

Isso acontece num momento em que laboratórios estão perto de perder as patentes de suas fórmulas, sofrendo grandes prejuízos.

Para Francisco Fonseca, chefe do setor de aterosclerose da Unifesp, é possível cortar colesterol com adoção de hábitos saudáveis: — As reduções são em geral mais modestas do que com os medicamentos, mas podem ser suficientes para muitos.

Remédio causa dores musculares

Níveis aceitáveis de colesterol, especialmente o LDL, são baseados em estudos grandes e com resultados positivos, tanto em termos de segurança como de benefícios.

Entretanto, diz o cardiologista, a maior parte da população não está em alto risco. E na ausência de fumo, diabetes, hipertensão ou colesterol fora de controle, dificilmente uma pessoa sofrerá ataque cardíaco. Mas, se houver qualquer um deles, a chance cresce, especialmente quando há história familiar de infarto ou derrame e outros marcadores, como proteína C reativa elevada.

Para o cardiologista Cláudio Domenico, muitos estudos sobre estatinas apenas consideram o nível do LDL. Porém, afirma que é preciso pensar no HDL (a fração boa), porque mesmo pacientes que apresentam reduções grandes do LDL e que mantêm o HDL baixo correm perigo. O problema é que não se descobriu nada eficaz para elevar o HDL. Uma medida é praticar exercícios. Os medicamentos são pouco eficazes e têm efeitos adversos sérios.

O que chama a atenção, diz Domenico, são estudos indicando estatinas para prevenção em pessoas que não sofrem de doenças cardiovasculares ou diabetes: — Será que as estatinas serão adicionadas à água, assim como flúor? Muitos estudos são patrocinados pela indústria farmacêutica.

Portanto, é preciso analisar criteriosamente esses dados.

O cardiologista Marco Antonio de Mattos, diretor do Instituto Nacional de Cardiologia, também diz que mesmo ensaios clínicos precisam ser bem estudados e lembra que a Sociedade Brasileira de Cardiologia tem diretrizes para tratar o excesso de colesterol e a prevenção de aterosclerose.

— Em pessoa de baixo risco não se dá remédio.

A diretriz indica apenas mudança de estilo e reavaliação em seis meses. Mas não há dúvidas de que as estatinas trazem benefícios em casos indicados.

Segundo Mattos, o problema é a pessoa em risco médio. Aí sim, se poderia, diante dos resultados do JUPITER, avaliar a PCR e pensar na possibilidade de receitar estatinas.

— É provável que exista muita gente tomando estatina sem necessidade, mas não temos esses dados.

A PCR sozinha não é um fator para doença coronariana.

Mas aterosclerose tem componente inflamatório.

Revisão de pesquisas na revista “Lancet”, com 160 mil pacientes, mostrou que fumar, ter pressão alta, obesidade e diabetes são mais importantes que a PCR alta.

A companhia AstraZeneca diz que a nova indicação de Crestor aprovada nos EUA não é para pessoas saudáveis.

No Brasil, ele ainda não tem a autorização dessa nova indicação baseada no estudo JUPITER. Aqui é receitado para reduzir ou retardar a aterosclerose, o LDL e elevar o HDL.

Para o cardiologista Eurico Correia, gerente médico de grupo de produtos da Pfizer, os cientistas ainda terão que discutir mais se a PCR é mesmo um bom marcador para a doença cardiovascular, e concorda que usá-la isoladamente não é bom.

— O que ainda prevalece é associação de fatores de risco.

A estatina é apenas um auxílio na prevenção e no controle de doença cardiovascular.

E até hoje não se sabe se qual é o nível mínimo seguro para baixar o colesterol.

19/02/2010 - 15:32h Reconheça os cinco principais sintomas de um ataque do coração

Enfarte

O Globo com agências internacionais

Aprenda a  prevenir problemas cardíacos. Foto: AFP

RIO – Quando as mãos de Eugenia Smith, de 46 anos, começaram a formigar, ela achou que as luvas que usava para pedalar precisavam de mais recheio. Quando sentiu falta de ar durante uma pequena caminhada, imaginou que estivesse com pneumonia. E quando seu peito doeu, atribuiu a uma indigestão. As três vezes ela errou: Eugenia estava tendo um ataque do coração e precisou pôr três stents. Até então, sua saúde era perfeita. Pode parecer estranho não perceber os sinais de um ataque do coração, mas os cardiologistas garantem que não identificar os sintomas é muito comum.

- Isso acontece o tempo todo, toda a semana – garante o cardiologista americano Kenneth Rosenfield, do Massachusetts General Hospital.

” Digo para meus pacientes que eles devem estar atentos a qualquer sintoma diferente ou incomum “


Ele diz que um ataque do coração à la Hollywood – quando a pessoa cai devido a fortes dores no peito – é uma exceção, não uma regra.

- Temos que fazer um trabalho melhor para as pessoas reconhecerem os sintomas ligados a um ataque cardíaco.

Os sinais para reconhecer um ataque do coração variam de pessoa para pessoa, mas alguns sintomas, listados abaixo pela Associação Americana do Coração, não podem passar despercebidos. Reconhecê-los pode evitar que os danos sejam maiores. Confira.

1) Desconforto na região do peito

Mesmo que nem todos que estão enfartando sintam dores no peito, este é o sinal mais comum, segundo a Associação Americana do Coração. A dor não é necessariamente esmagadora e pode ser confundida com indigestão. Não espere a dor aumentar para procurar um médico.

2) Dores na parte superior do corpo

Algumas pessoas sentem uma pressão incomum atrás dos ouvidos junto com uma pressão na nuca. Rosenfield diz que dores fortes em diferentes partes do corpo simultaneamente podem indicar que a pessoa está tendo um ataque do coração.

- Digo para meus pacientes que eles devem estar atentos a qualquer sintoma diferente ou incomum, como sensação de peso, pressão, compressões, dores no peito, atrás do pescoço, nos ombros ou nos braços, no cotovelo, no queixo, na garganta e até mesmo nos lóbulos das orelhas – explica Rosenfield.

Para saber a diferença se estas dores são características de algum problema cardíaco, o cardiologista pede para prestar atenção no histórico familiar – se alguém próximo sofre de males do coração – ou se a pessoa tem pressão alta ou colesterol alto. Outros motivos para prestar atenção aos sintomas são se eles aparecem sem nenhuma causa aparente, se pioram durante o exercício físico, se não passam nunca ou se vão e voltam.

3 – Problemas gastrointestinais

Dores no estômago e náusea podem ser um indicativo de enfarte. São incômodos diferentes dos causados por uma úlcera, por exemplo. Pacientes com histórico de hipertensão arterial e problemas vasculares devem ter maior atenção.

4 – Sintomas de gripe

” As pessoas descrevem o ataque do coração como se fosse um resfriado “


O médico Robert Superko, autor do livro “Antes do Ataque do Coração”, diz que uma forte fatiga, uma sensação de exaustão por muitos dias e problemas gastrointestinais, e uma sensação geral de não estar se sentindo bem podem ser sintomas de um ataque do coração ou de problemas cardíacos – e são fáceis de serem deixados para lá.

- As pessoas descrevem o ataque do coração como se fosse um resfriado – diz Superko.

5 – Falta de ar

Sentir falta de ar pode ser um sintoma de enfarte mesmo que a pessoa não esteja com dores no peito ou qualquer outro mal-estar.

11/05/2009 - 15:00h Cintura e risco cardíaco

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Um novo e abrangente estudo trouxe mais evidências que apontam que uma circunferência abdominal grande, mesmo em pessoas de peso normal, eleva de forma significativa o risco de doenças cardíacas.

Pesquisadores avaliaram 80.360 homens e mulheres suecos de 45 a 83 anos entre 1997 e 2004. Durante esse período, 1.100 dessas pessoas foram hospitalizadas ou morreram em decorrência de doenças cardíacas.

A pesquisa mediu a circunferência da cintura, a proporção entre cintura e quadris, cintura e altura e IMC (índice de massa corporal), a proporção entre peso e altura. Mas só a circunferência da cintura previu o risco de doenças cardíacas independentemente das outras medições. O IMC previu males cardíacos entre mulheres apenas quando estas tinham circunferência de cintura grande.

O estudo, publicado em abril no periódico “Circulation: Heart Failure”, constatou que um aumento de 10 cm na circunferência da cintura é associado a um aumento de 15% no risco de doenças cardíacas, tanto para pessoas de peso normal, com IMC de 25, quando para obesos, com IMC superior a 30.

NICHOLAS BAKALAR

27/09/2008 - 18:39h População desconhece doença do coração como principal causa de morte, mostra pesquisa

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CAROLINA FARIAS da Folha Online

Pesquisa realizada pela Socesp (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo) mostra que os paulistas desconhecem que os problemas cardiovasculares são as principais causas de mortes no Estado. De acordo com a organização, o infarto é a principal causa de morte em São Paulo, seguida de derrames, câncer e causas externas –como as relacionadas à violência e ao trânsito, por exemplo. A população demonstrou desconhecer os dados e apontou a violência como a principal causa de morte no Estado.

Durante dois dias no mês de junho, 2.096 pessoas, entre 14 e 70 anos, foram entrevistadas em 85 cidades do Estado. O objetivo da pesquisa, realizada pelo Datafolha, foi documentar o grau de conscientização da população sobre os fatores de risco de doenças do coração.

“Apesar de ser a principal causa [doenças cardiovasculares], a população não percebe. O Estado tem maior nível de educação [do país], mesmo assim a população desconhece”, afirmou o diretor da divisão de pesquisas da Socesp, Álvaro Avezum.

Foram apresentados para os entrevistados dois tipos de questionamentos. Um em que questionava, no geral, a principal causa de morte, e outra que perguntava quais os fatores de risco que se associam a doenças cardiovasculares. O que mais foi citado, segundo Avezum, foi o tabagismo –32%. “Isso significa que 68% da nossa população no Estado não identifica o cigarro como fator de risco cardiovascular. É muito pobre o conhecimento, bem abaixo do que gostaríamos que a população tivesse”, afirmou o médico.

Pesquisas realizadas na América Latina apontam que os fatores de risco que mais levam aos problemas no coração são, em primeiro a obesidade abdominal, seguida de tabagismo e alterações do colesterol.

De acordo com a pesquisa, a população praticamente ignora os principais contribuintes das doenças cardiovasculares. Depois dos 32% que disseram acreditar que o cigarro é o que mais mata aparecem 18% que apontaram como maior causa da pressão alta, 17% citaram o alcoolismo, 16% sedentarismo e somente 15% apontaram o colesterol como principal fator.

“O grau de conscientização sobre os fatores é inferior a 30%. Significa que 70% da população do Estado não reconhece os fatores de risco associados a infartos, derrames, que são responsáveis por mortes no Estado”, disse Avezum.

Segundo o médico, a Socesp não imaginava que detectaria níveis tão baixos de conhecimento sobre problemas do coração. Para a organização, a falta de campanhas adequadas sobre os riscos de doenças cardíacas e a maior divulgação de casos de violência.

“Para mudar [de hábitos], a população tem de conhecer. Quem desconhece, não vai buscar prevenção”, afirmou o médico.

Mortes

Por ano, no Brasil, cerca de 300 mil pessoas sofrem infarto, segundo Avezum. Um quarto desse volume é do Estado de São Paulo.

A cada dez pessoas que infartam, três morrem em casa ou a caminho do hospital. Dos sete que chegam ao hospital, um morre. Dos seis que recebem alta hospitalar, um morre em um ano. “Ou seja, é uma doença que mata metade de suas vítimas”, explica o médico.

De acordo com Avezum, se houver a prevenção da obesidade, evita-se 46% dos casos de infarto, ou seja, cerca de 140 mil casos a menos por ano. Se proibir o tabagismo no país diminuiria 38% no número de infartos.

“Evitando isso diminui o número de cirurgias, angioplastias, etc. O impacto é brutal”, afirmou Avezum.

Seis fatores que aumentam os riscos de doenças cardiovasculares e dois que diminuem são aceitos em todo mundo, segundo o médico.

Os elementos que contribuem para os riscos, na ordem, são a alteração do colesterol –LDL alto, chamado de colesterol ruim, e o HDL baixo, chamado de colesterol bom–, cigarro, diabetes, pressão alta, obesidade abdominal e estresse e/ou depressão.

Os fatores protetores são a atividade física regular, no mínimo três vezes por semana durante uma hora, e o segundo ponto é comer verduras e legumes diariamente.

01/09/2008 - 10:28h A saúde está doente

Sobrevivendo à base de soro caseiro

Crianças convivem com más condições em favelas

Roberto Almeida, O ESTADO DE SÃO PAULO


Se Denise dos Santos chora, é porque a vida ela diz que “só vai levando”. Para a dona de casa, cada avanço parece que vem seguido de dois retrocessos – sensação comum entre os moradores da favela Jardim Floresta, na zona sul de São Paulo. O esgoto foi canalizado, as vielas receberam pavimento, mas as benfeitorias, que continuam sob a lei do tráfico, agora são palco para um surto de diarréia entre crianças. A causa para o problema, que incomoda moradores há um mês, ainda não foi descoberta.Não se sabe se é a água, ou se é a comida, mas a filha de Denise, S., de 10 anos, desmaiou duas vezes no banheiro com febre e fortes dores de barriga. Foi levada ao posto de saúde para fazer exames, e hoje aguarda os resultados. Enquanto isso, soro caseiro. A mãe, esperançosa, até esboça um sorriso. “Se Deus quiser, vai ficar tudo bem”, diz, olhando para a filha. Ela espera o melhor porque Simone Pereira, a poucos metros dali, ri à toa. Seu filho mais novo, J., de apenas 4 anos, também está passando mal, mas desta vez saiu do banho apressado, brincando mesmo molhado, escapando das mãos de sua avó, que queria enrolá-lo na toalha. Ainda assim, soro caseiro.

Mais crianças com problemas de saúde vão aparecendo. Outras quatro, em 15 minutos de caminhada. Na creche que atende a favela, administrada pela ONG Reconciliação, o panorama é o mesmo: são duas reclamações por semana, com média subindo desde julho, segundo a enfermeira Cássia Tomé. Ela aguarda uma análise da água que abastece a região.

A favela é parte da Vila São José, à beira da Avenida Teotônio Vilela, área de manancial. Um pequeno ponto da região da Capela do Socorro, que em 2007 foi líder em mortalidade infantil. Segundo dados da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), divulgados pelo Movimento Nossa São Paulo, a cada mil nascimentos, 17 morrem antes de completar 1 ano – três vezes mais em comparação a um nascimento em Pinheiros, na zona oeste.

Os filhos de Denise e Simone sobrevivem, assim como as crianças do outro lado da avenida, na Favela da Minhoca. Ali, canos desembocam em um córrego, que segundo moradores está infestado de ratos. Tudo a um quilômetro da Represa Guarapiranga, que abastece parte da cidade.

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Saúde é a área mais mal avaliada de todas as últimas gestões

Adriana Carranca – O Estado de São Paulo

Os três dos candidatos à Prefeitura de São Paulo que já ocuparam o posto anteriormente falharam na saúde. A área se tornou o calcanhar de Aquiles das administrações municipais. Na opinião dos eleitores, foi neste setor que os prefeitos Paulo Maluf (1993-1996), Marta Suplicy (2001-2004) e o atual, Gilberto Kassab (2006-2008), tiveram o pior desempenho. Na gestão José Serra (2005-2006), que apóia o candidato tucano Geraldo Alckmin, não foi diferente.

As entrevistas foram feitas no penúltimo ano das administrações, exceto por Maluf, realizada ao fim da gestão. A saúde foi a área de pior desempenho de Kassab para 23,1% dos entrevistados, seguida dos transportes, para 12%. A enquete foi respondida por 605 moradores e eleitores, de ambos os sexos e com idades entre 18 e 70 anos, distribuídos proporcionalmente à população de cada região da cidade, critérios adotados em todas as pesquisas.

Na gestão Serra, 31% apontaram a saúde como pior área, também seguida dos transportes, com 16,3%. Na administração Marta, a insatisfação com saúde e segurança foi similar, para 19,5% e 17,7%, respectivamente. Maluf foi o que teve a pior avaliação da área: para 50,6%, a saúde era o principal problema, seguida da violência.

Isso, apesar de a saúde ter sido a principal bandeira de Maluf e de seu sucessor, Celso Pitta, que iniciaram a terceirização dos serviços municipais com o Plano de Atendimento à Saúde (PAS). O programa gerou polêmica e foi alvo de denúncias. “Os médicos tinham de aderir ao PAS, formando cooperativas para administrar cada unidade, ou eram afastados. Conheço profissionais tarimbados que foram cuidar de asfalto”, diz o médico Clóvis Constantino, do Conselho Federal de Medicina. “Até alimentação e lavanderia eram terceirizados. Isso dificultava a fiscalização.”

Ele, no entanto, não é contra a terceirização, adotada até hoje com o repasse da gestão dos equipamentos públicos às chamadas Organizações Sociais (OSs), entidades sem fins lucrativos do terceiro setor. “Essas parcerias otimizam recursos e as organizações sociais são entidades com tradição na gestão da saúde, como o Hospital Santa Catarina”, defende. Outra vantagem é que as OSs podem administrar várias unidades na mesma região, o que, em tese, facilitaria a integração dos serviços, embora isso ainda não funcione bem na prática.

A falta de integração entre as unidades com funções diversas e de fluxo no encaminhamento dos pacientes são o principal gargalo da saúde, segundo os especialistas. “As Unidades Básicas de Saúde (UBSs) não conversam com os hospitais municipais nem estaduais, não há um sistema de informações integrado”, diz Paulo Mangeon Elias, do departamento de Medicina Preventiva, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Segundo ele, é preciso garantir que o paciente recebido nos postos de atendimento básico – as chamadas portas de entrada – sejam encaminhados para exames laboratoriais e tratamento, quando necessário, o que ainda é falho. “Essa coexistência de diferentes modelos como UBS, AMA e PSF dificulta a gestão. E o atendimento de média complexidade continua falho. Você faz consulta, mas espera meses por um exame ou atendimento que demande especialidade, como oncologia e cardiologia”, diz Áurea Ianni, pesquisadora do Instituto de Saúde do Estado. Ela defende uma estratégia metropolitana, já moradores das cidades vizinhas buscam atendimento em São Paulo.

DESCONTROLE

As OSs receberão repasses de R$ 168 milhões neste ano e já gerenciam 226 das 412 UBSs e 57 das 115 unidades de Assistência Médica Ambulatorial (AMAs), além de quatro prontos-socorros, quatro unidades de pronto-atendimento (menores, para emergências) e 69 outros serviços. Embora seja elogiado por boa parte da comunidade médica e da administração da saúde por otimizar recursos e dar maior agilidade ao sistema, como na contratação de profissionais e compra de equipamentos, já que dispensa licitações, o processo é hoje duramente criticado por falta de controle nos repasses de dinheiro público.

O Tribunal de Contas do Município (TCM) apontou falta de fiscalização na transferência de verbas e de exigência do cumprimento de metas de atendimento, como previsto na Lei Municipal 14.132, de 2006, que regulamentou as OSs. Com base em relatórios do TCM, o Ministério Público move uma ação civil pública contra a Prefeitura. “A prestação de contas sobre a aplicação dos recursos tem de ser mensal porque, se houver sobras, isso deve ser compensado no repasse subseqüente. Mas o Programa Saúde da Família, por exemplo, funciona desde 2001, com parte da gestão terceirizada via convênios ou OSs e a primeira análise dos repasses só foi feita em 2005″, diz a promotora de Justiça Anna Trotta Yaryd. Em resposta, a Secretaria Municipal de Saúde informou que a ação se refere a contratos anteriores e que o controle de repasses é feito trimestralmente, sendo compensadas as sobras no quarto mês.

O médico Oswaldo Tanaka, professor do Departamento de Prática de Saúde Pública, da Faculdade de Saúde Pública da USP, defende a criação de uma agência reguladora “forte e competente” para a saúde. “O setor privado produz mais com menos. Mas é preciso aprimorar as parcerias, garantindo a eficiência dos serviços geridos pelas entidades”, diz o médico.

COLABOROU FABIANE LEITE

PRINCIPAIS PONTOS DO SISTEMA MUNICIPAL

UBS: É a porta de entrada no sistema, onde são agendadas consultas com clínico-geral, ginecologista, pediatra e vacinação

AMA: Atendimento sem consulta marcada para casos de baixa complexidade, como diarréia, dores, pequenas contusões, problemas respiratórios

PSF: Criado pelo Ministério da Saúde, em 1994, prevê atendimento integral por equipe multiprofissional – clínico-geral, enfermeiro e dois auxiliares, cinco agentes comunitários – responsável por 4 mil famílias

ORGANIZAÇÕES SOCIAIS

O que são: Para caracterizar-se como organização social, a entidade não pode ter fins lucrativos e deve atender a princípios como legalidade, impessoalidade e moralidade. Elas recebem repasses da Prefeitura para gerir hospitais e unidades de saúde

Principais gestores: Casa de Saúde Santa Marcelina, Associação Congregação Santa Catarina, Fundação Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e Irmandade da Santa Casa de São Paulo, entre outros

PROBLEMAS DO SISTEMA:

Falta de integração entre os serviços das unidades e hospitais

Há falhas e demora no encaminhamento dos pacientes, após atendimento nas UBSs e AMAs, chamadas de portas de entrada

Faltam serviços especializados, como oncologia e cardiologia, e o agendamento de exames pode demorar meses

Ainda não há uma estrutura bem montada para tratamento contínuo de doenças agudas

Os repasses para OSs são feitos sem fiscalização ou exigência do cumprimento de metas

SAÚDE EM NÚMEROS

R$ 4,9 bilhões
é o orçamento da saúde em 2008

412 unidades
Básicas de Saúde (UBSs)

115 unidades
de Assistência Médica Ambulatorial (AMAs)

1.052 equipes
do Programa Saúde da Família (PSF)

16 hospitais
e prontos-socorros, além de unidades de menor porte, para pronto-atendimento de
casos mais graves

 

 

Entre os desafios, organizar sistema e integrar serviços

Especialistas dizem também que é preciso garantir fluxo de atendimento

Adriana Carranca

Os candidatos à prefeito de São Paulo prometem “criar, implantar, ampliar” o sistema municipal de saúde, mas na opinião do economista Áquilas Mendes, professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e presidente da Associação Brasileira de Economia da Saúde (Abres), isso é uma falácia. Ele explica que apenas 3% dos R$ 4,9 bilhões do orçamento da pasta em 2008 referem-se a investimentos. O restante é custeio com a manutenção dos serviços já existentes, que não pode ser reduzido.

“Ampliar serviços significa aumentar a despesa, mas isso depende de ampliar a base de arrecadação, o que não tem sido um esforço das administrações”, diz. O orçamento da Secretaria Municipal de Saúde, entre 2005 e 2007, ficou em cerca de 16% da receita – o mínimo exigido por emenda constitucional é 15%. Em 2008, a revisão orçamentária prevê 20%. “Mas, o comprometimento das despesas rígidas ainda é enorme. A folha compromete 30%”.

Para os especialistas, a questão central da próxima gestão deve ser organizar o sistema, integrar os serviços e garantir o fluxo dos atendimentos. “Precisa construir mais UBSs e hospitais? Sim. Mas, desde que haja eficiência no atual sistema. Ou vamos continuar fazendo mais do mesmo”, diz Paulo Mangeon Elias, do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da USP. Para ele, falta nas propostas um plano para o município, com metas e financiadores definidos, tendo como diretriz o Sistema Único de Saúde (SUS). “A partir dele, cada administração cumprirá a sua parte. Mas isso não se faz com uma proposta de governo. Os problemas da saúde em São Paulo não serão resolvidos em uma gestão, por mais brilhante que ela seja”, diz.

Na avaliação de Oswaldo Tanaka, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP) as propostas deste ano demonstram uma “valorização da saúde como política pública, como prevê a Constituição”. As propostas dos candidatos Marta Suplicy (PT), Geraldo Alckmin (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM), diz ele, são semelhantes. “Propõem atenção à saúde básica e composição de serviços para diferentes complexidades, além da construção de três hospitais em áreas precárias. Kassab, porém, dá mais ênfase às AMAs. A curto prazo, a população fica satisfeita, mas o problema é que você tem de garantir o atendimento pós-AMA dos casos agudos e seu acompanhamento contínuo”.

Tanaka considerou as propostas de Soninha e Ivan Valente “mais intencionais do que operacionais”. “O que eles propõem não nos dá parâmetros para, mais tarde, cobrar as promessas”, disse. Sobre a criação de mutirões de consultas proposta por Soninha, ressaltou: “É boa, mas o que eu faço com as doenças encontradas? Essa é a grande questão hoje.” Ele também criticou a proposta de Paulo Maluf. “Se retomado, o PAS enfrentará novo embate técnico e político. Era gerido como um plano de saúde, por cooperativas privadas e, portanto, não atende aos princípios de universalidade do SUS. E não podemos correr o risco de sermos excluídos novamente do SUS porque os financiamentos federais e estaduais são muito importantes”, diz o médico.

27/05/2008 - 15:50h Machismo faz mal a saúde… do homem

SAÚDE
Contra o machismo


Governo federal prepara política específica para doenças masculinas. Especialistas apontam preconceito e falta de tempo como os principais fatores alegados para que os homens não adotem medidas de prevenção

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Hércules Barros – Correio Braziliense

Os últimos meses não têm sido fáceis para o taxista Hélio da Silva Barbosa (na arte ao lado), 40 anos. Complicações por conta de uma pedra na vesícula no final do ano obrigaram o morador da Estrutural a ir ao hospital com uma freqüência nunca praticada. A dolorosa experiência resultou em duas cirurgias, três meses de internação e uma lição: “Mais vale a pena perder um dia de serviço para cuidar da saúde do que deixar para procurar o médico só quando a situação piora”, avaliou Hélio.

Ao ser questionado sobre a última vez em que conferiu os níveis de colesterol e glicose, respondeu com naturalidade. “Não faz tanto tempo assim. Foi aos 21 anos, quando eu estava no Exército”, disse. O primeiro e último exame de toque de próstata foi há 17 anos e por acaso, quando procurou um urologista porque estava com hemorróidas. O histórico de falta de prevenção se repete com o irmão do taxista, Lélio Barbosa, 41 anos, e o pai, Luís Fernandes Barbosa, 68, que nunca consultaram um especialista.

No Brasil, 38 milhões de homens entre 25 e 59 anos são como os familiares de Hélio: deixam para procurar o médico somente quando já não agüentam mais. Essa população corresponde ao grosso da faixa etária produtiva do país e representa toda a população da Argentina. Para tentar reverter o quadro, o Ministério da Saúde ouve representantes das áreas de urologia, cardiologia, psiquiatria, gastrologia e pneumologia — especialidades que concentram 72% das doenças mais comuns na população masculina.

O ministério espera receber sugestões de quem está na ponta. “Eles é que vão dizer quais são as necessidades para que a gente possa fazer uma política nacional de atenção à saúde do homem”, ressalta o médico e antropólogo Ricardo Cavalcanti, coordenador do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas da Área Técnica da Saúde do Homem. A medida está prevista para ser lançada em agosto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “Se ele não tem tempo de ir ao médico, a gente tem que procurar agir por meio do serviço médico da empresa, nos sindicatos, nas Forças Armadas”, observa.


A distância do preconceito

De acordo com Cavalcanti, falta de tempo e machismo são apontados pelos especialistas como os principais motivos que distanciam a população masculina dos médicos. “Se você disser que vai ser um centro de referência para a saúde do homem, nenhum deles vai. Mas se você fizer a mesma coisa chamando isso de centro para check-up, a palavra vai ter um efeito bem diferente”, ensina. Cavalcanti adiantou que a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) fez uma solicitação para montar o primeiro pólo de atendimento que sirva de modelo para o país. “Eles vão dar o cardiologista, urologista, eletrocardiograma e esteira”, adiantou.

Com a colaboração das universidades, o ministério acredita ser provável que instituições sindicais e até hospitais das Forças Armadas, que já têm atendimento nessas áreas, invistam na especialização. “Qual é o presidente de sindicato que não vai abraçar uma coisa dessas?”, diz.

O encontro com a área de gastroenterologia está marcado para os dias 30 e 31 (sexta-feira e sábado) e com a pneumologia no primeiro fim de semana de junho, mas algumas ações que devem fazer parte da nova política já estão definidas. Segundo Cavalcanti, investir em profissionais do sexo masculino no atendimento aos homens é uma delas. “Qual é o homem que quer deixar o médico fazer um exame de próstata na frente de uma atendente?”, exemplifica. Cavalcanti também adiantou que a pneumologia e a urologia já se prontificaram a dar cursos para os profissionais do Programa Saúde da Família.

Sem recursos

Representante do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) nas discussões, o médico Antônio Carlos de Oliveira acredita que, mesmo com o treinamento, vai demorar para as equipes da Saúde da Família colocarem em prática uma política de atenção à saúde do homem. “Envolve um montante de recursos que os municípios não dispõem”, observa Oliveira, ao lembrar que a Saúde não conta mais com os cerca de R$ 40 bilhões da CPMF. “Se nós otimizarmos as medidas preventivas, a gente diminui as internações e também os gastos gerados por um paciente internado”, rebate Cavalcanti.

No encontro com os cardiologistas, realizado na semana passada, os especialistas pontuaram a necessidade de investimentos em prevenção contra colesterol alto, obesidade e hipertensão. “AVC (acidente vascular cerebral) e infarto do miocárdio são as duas principais causas de mortes de homens nas cidades de médio porte. Tudo por conta de hipertensão não controlada”, destaca o presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), Antônio Palandri Chagas.

Ele acredita que a troca de informações entre as áreas e o ministério vai ser fundamental para que a política de atenção ao homem supere a perda da CPMF. “Demora-se muito tempo para criar posicionamentos que influenciem a sociedade. Sem ações estruturadas nas causas das doenças, como tabagismo e alcoolismo, não atingiremos os objetivos da política da saúde do homem”, acrescenta.


“Se você disser que vai ser um centro de referência para a saúde do homem, nenhum deles vai. Mas se você fizer a mesma coisa chamando isso de centro para check-up, a palavra vai ter um efeito bem diferente”. Ricardo Cavalcanti, coordenador do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas da Área Técnica da Saúde do Homem


Preocupações recorrentes

Os dois primeiros encontros para discutir a saúde do homem foram realizados há duas semanas, tratando das áreas de urologia e de psiquiatria. As doenças mais freqüentes ligadas à psiquiatria estão relacionadas a causas externas — conseqüências de acidentes de trânsito e agressões decorrentes de violência, geralmente provocadas por alcoolismo e uso de drogas. “Aqui não há que se combater bactérias nem doença infecciosa. Isso é campo que exige interface com o Ministério da Justiça e o Detran (Departamento de Trânsito)”, afirmou Ricardo Cavalcanti, coordenador do Departamento de Ações Programáticas Estratégicas da Área Técnica da Saúde do Homem do Ministério da Saúde.

No caso da urologia, a preocupação maior é o câncer de próstata, mas os urologistas destacaram casos como o do Maranhão, onde é muito mais freqüente o câncer de pênis. “É quase uma média de 5 casos (de pênis) para 1 (de próstata)”, ressaltou Cavalcanti. Para o coordenador, a surpresa maior no encontro com os urologistas foi saber que um médico dá o diagnóstico de câncer de próstata e o paciente fica sem ser internado porque os hospitais fixam um teto de internação para as diferentes especialidades como forma de driblar a superlotação. “Isso é um absurdo. A gente não pode deixar uma pessoa com câncer de próstata esperando um ano. Câncer é emergência médica em qualquer parte do mundo”, esbravejou.

Cavalcanti afirmou que o Sistema Único de Saúde gasta, “desnecessariamente”, mais de R$ 5 milhões com vasectomias realizadas em regime hospitalar, pois na maioria dos casos a cirurgia demora 30 minutos e não exige internação. “Se fossem feitas como procedimentos ambulatoriais, a gente economizaria R$ 5 milhões para outras coisas. Em raros casos você pode precisar internar o paciente”, salientou.

A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) aproveitou o encontro com o ministério para reclamar do sucateamento da Saúde no país. De acordo com o urologista Pedro Cortado, diretor da SBU, falta material de endoscopia e endourologia — equipamento que serve para a retirada de cálculo do ureter sem a necessidade de fazer cirurgia aberta. “Muitas vezes é preciso fazer uma cirurgia aberta pois não há material para o procedimento minimamente invasivo, o que permitiria a recuperação muito mais rápida do paciente”, esclareceu. Muitas vezes o tratamento urológico é feito pelo clínico-geral ou cirurgião-geral por falta de especialistas.(HB)

03/09/2007 - 18:03h Mulheres correm mais risco de morrer de infarto do que os homens

EFE

VIENA – As mulheres correm um risco de morrer de infarto maior do que os homens, apesar de a incidência ser maior entre eles. Elas devem procurar imediata quando surgem os primeiros sintomas, segundo um estudo apresentado nesta segunda-feira, em Viena, durante o Congresso Europeu de Cardiologia. Nesta segunda, uma participante do encontro morreu de parada cardíaca , apesar dos esforços dos colegas para reanimá-la.

As mulheres deveriam procurar mais rapidamente a ajudar de um especialista quanto tiverem problemas de coração ou se sentirem mal (M. Masotti, cardiologista)


De acordo com o levantamento realizado pela equipe da cardiologista Mónica Masotti, do Instituto do Tórax do Hospital Clínico de Barcelona, a porcentagem de mortalidade pós-infarto entre as mulheres subiu para 18%, enquanto entre os homens está restrita a 8% dos casos. Segundo a cardiologista, a explicação é que a população feminina sofre infartos numa faixa etária mais elevada e em estados de saúde piores.

A pesquisa envolveu 529 pacientes, sendo 417 homens e 112 mulheres, entre janeiro de 2002 e dezembro de 2006. Todos eles foram operados em menos de 12 horas após apresentar os primeiros sintomas do infarto. As mulheres morreram durante a cirurgia para a desobstrução das artérias com cateter.

- As mulheres deveriam procurar mais rapidamente a ajudar de um especialista quanto tiverem problemas de coração ou se sentirem mal – recomendou a Masotti, destacando que as mulheres se diferenciam dos homens por uma série de fatores: quando procuram um cardiologista elas são mais velhas e sofrem mais de insuficiência cardíaca e diabetes, apesar de fumarem menos.

Fumo em debate no congresso

Cerca de 25 mil especialistas estão reunidos em Viena até quarta-feira. Em outros painéis, cardiologistas enfatizaram a relação entre fumo e problemas cardíacos. Baseados em estudos realizados na Irlanda e na Itália, o austríaco Kurt Huber reforçou a necessidade de suspensão do fumo em espaços públicos. O estudo irlandês mostrou que o número de infartos caiu no primeiro ano em que se estabeleceu a proibição. Na Itália, o número de hospitalizações por infarto agudo também caiu cinco meses depois de a nova lei entrar em vigor.

Além disso, o cardiologista francês Nicolas Amabile apontou uma relação entre doenças cardíacas e a saúde bucal: os pacientes com gengivite apresentam maior risco de apresentar obstruções nos vasos coronarianos. Fonte portal do O Globo