31/10/2008 - 13:41h Eleições municipais

Agrupei as três notas que escrevi sobre as eleições municipais, para facilitar a leitura e agrupá-las no arquivo.

27/10/2008 – 09:42h

Ir além da aritmética eleitoral (I)

Concluídas as eleições municipais corresponde avaliar a situação política e as novas relações de força que emergiram do escrutínio.

Com a mesma ênfase com que pretendia que as eleições municipais eram essencialmente locais e não tinham qualquer relação com o plano federal, os jornais hoje procuram projetar os resultados em sentido inverso, procurando destacar uma suposta derrota eleitoral do governo e uma vitória da oposição.

Essencialmente os resultados das eleições municipais de 2008 (os números, tanto de votos, como de prefeituras) repetem o mapa das eleições de 2004, mas amplificando a votação e as conquistas dos partidos da base do governo, em detrimento dos partidos da oposição (DEM-PSDB-PPS).

Sem desprezar as vitórias obtidas pela oposição, sua força simbólica e seus desdobramentos políticos, a aritmética eleitoral mostra uma diminuição de sua influência e dos municípios por ela governados, particularmente nas cidades acima de 200 mil habitantes e nas capitais.

As eleições municipais confirmaram o quase desaparecimento do DEM-PFL das prefeituras. Perdeu Rio de Janeiro, onde contrariando a tendência que favoreceu a continuidade, Cesar Maia não fez seu sucessor. Afastou o “carlismo” de um retorno com ACM Neto em Salvador e ganhou sobrevida com a vitória de Kassab, porem estreitamente limitada as decisões de José Serra. O PPS virou pó e o PSDB conseguiu manter sua força, diminuída de muitas prefeituras, em cidades já governadas por eles. No plano nacional, a oposição e a mídia não podem sustentar na aritmética eleitoral uma vitória, de fato inexistente, ou uma derrota de Lula e do governo federal. O PT foi o segundo partido mais votado no país e passou a governar 566 prefeituras, 143 a mais que em 2004 . O PMDB, por sua vez, cresceu 54% em termos eleitorais em relação a 2004 (Fonte jornal VALOR).

Mas entre a aritmética eleitoral e a política, as percepções e suas repercussões nos partidos, não existe automaticamente equivalência ou identidade. Por isso não é suficiente constatar os ganhos e perdas, requer-se ir além e aprofundar a analise política sobre as projeções dos resultados eleitorais.

Vou tentar aportar minha opinião em várias notas sobre diversos elementos destas eleições, sem a pretensão de aportar respostas a uma série de problemas revelados nesta campanha. Em outras notas tratarei especificamente das eleições em São Paulo.

Se no plano geral do cômputo municipal, os partidos da base do governo federal obtiveram as maiores vitórias, um analise pormenorizado mostra que destes partidos, é o PMDB quem mais se fortalece e o crescimento dos municípios conquistados pelo PT não compensa este fato, diminuído assim o peso do partido do presidente, na disputa política no campo da base aliada.

A diminuição do voto e dos municípios controlados pela oposição, não deve ocultar a importância política da vitória de Serra na cidade de São Paulo. Não só por ter conseguido a reeleição de Kassab, mas por ter obtido este resultado derrotando ao mesmo tempo seu principal adversário no PSDB, o ex-governador Alckmin e impedido assim o crescimento em São Paulo de seu rival Aécio Neves. A vitória de Serra é por isso uma vitória política muito significativa, reforçada mais ainda pela derrota de Marta e do PT, por uma margem grande e significativa.

Ao mesmo tempo, os limites desta vitória inegável de José Serra é que ela não conseguiu se projetar fora do Estado, na vitória de Gabeira no Rio, candidato do Serra e maior esperança deste segundo turno, após Kassab, para a oposição e a mídia. A vitória do candidato de Aécio em BH também constituí um limitador da vitória do paulista e de suas pretensões para 2010.

O PT deverá proceder a uma avaliação aprofundada sobre sua situação. Ele não pode limitar sua avaliação dos resultados a constatar o simples crescimento em prefeituras e em votos obtido pela legenda, ou no crescimento dos partidos da base do governo. Em primeiro lugar porque o PMDB é um aliado muito dividido nos diferentes Estados (em São Paulo está na oposição). Em segundo lugar, porque o PT, como partido, não conseguiu resolver o divorcio com uma parte significativa do eleitorado, particularmente da região sudoeste e sul e nestas regiões, de seu afastamento de contingentes significativos de eleitores da classe média urbanizada. Isto é particularmente válido nas capitais, como em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre.

27/10/2008 – 14:52h

Ir além da aritmética eleitoral (II)

Quando os dirigentes do PT, os senadores Mercadante e Suplicy, os deputados federais e estaduais de São Paulo e os vereadores do partido, foram a Brasília pedir para Marta ser novamente candidata à prefeitura, as pesquisas e as analises eleitorais indicavam uma vitória quase certa para o ex-governador Geraldo Alckmin. Mesmo assim era impossível para Marta recusar esta convocatória unânime do seu partido, na medida em que só ela podia assegurar um resultado eleitoral expressivo em São Paulo.

O curso dos acontecimentos mudaram em parte esta analise, tirando Alckmin do segundo turno, mas não o favoritismo do centro-direita que acabou vitorioso na cidade.

A vitória de Serra se reveste de uma força maior, pois conseguiu ao mesmo tempo eliminar seu adversário tucano e derrotar a candidata petista com uma avalanche de votos.

Esta vitória de Kassab e Serra na cidade de São Paulo foi contundente. Ela só tem equivalente na vitória de Pitta e Maluf em 1996. O paralelo não é só numérico, mas político e social.

A estrutura econômica, social, política e midiática que tem como eixo e expressão partidária o tucanato, conseguiu uma importante vitória, preservando assim seu projeto de recuperar o poder, perdido para Lula e o PT em 2002.

A decadência do malufismo foi substituída pela emergência e consolidação do PSDB na cidade. A evolução do PSDB para o centro-direita permitiu que ele incorporasse as bases de sustentação social e política do malufismo, o conservadorismo e o anti-petismo.

Esta substituição foi facilitada pela ação militante da mídia, que no passado foi reticente ao malufismo e que hoje faz corpo e alma com o tucanato contra o PT.

Mas este processo que hoje manifesta com força sua consolidação, só foi possivel pela incapacidade do PT em conquistar a hegemonia na cidade a partir da vitória de Marta em 2000. Evidentemente que intervém nesta dificuldade a sadia recusa do PT a virar um partido do conservadorismo e do status quo, mas também sua dificuldade a superar suas limitações programáticas e administrativas, em favor de uma visão mais moderna da esquerda e da luta contra a desigualdade social.

A hegemonia da direita em São Paulo tem uma longa tradição e história. As vitórias eleitorais da esquerda foram exceção, só duas, e diretamente ligadas à conjunturas eleitorais (divisão da direita e modo de escrutínio que permitiu a eleição de Erundina em 1988; experiência Pitta e declínio do malufismo, combinado com apoio eleitoral do centro-esquerda tucano em favor da Marta em 2000). A divisão também se fez presente nesta eleição, mas com carateristicas diferentes, é suas conseqüencias podiam ter pesado no resultado do pleito se tivessem servido para ampliar a base social de apoio da candidata petista o que não foi conseguido pela campanha e pela candidata.

Romper esta hegemonia exige muito mais que uma vitória eleitoral como foi a de 2000, requer a consolidação de um governo com ampla base de sustentação social e política, além de uma disputa de valores com muito peso numa cidade conservadora como São Paulo.

Ter governado São Paulo na difícil situação econômica e financeira deixada por Pitta na cidade, e de FHC no país, permitiu que o PT consolidasse seu cacife eleitoral no patamar de 40%, mas não permitiu ir além. Ele fincou firme sua força e sua inserção na periferia e entre os mais pobres, porém não conseguiu mudar suas relações com setores médios arrastados pelos conservadorismo para um anti-petismo reacionário.

A incapacidade do PT aqui mencionada, combinou-se com as conseqüências dos erros cometidos por quadros e dirigentes do PT com relação as questões de financiamento irregular dos partidos, amplamente explorados pela mídia e a direita nos últimos anos contra o PT.

Um fator importante em São Paulo é o peso do poder da mídia aqui, diferente do resto do Brasil. Esse peso está a serviço do PSDB contra o PT e quando os demo-tucanos ficam inaudíveis a mídia os substitui como partido de oposição, visando a desestabilizar o governo federal. Mas este peso é maior em São Paulo porque o discurso de direita encontra respaldo no conservadorismo das classes médias que são diretamente influenciadas pela mídia em um processo no qual um alimenta o outro dialeticamente.

Penso que é a partir de esta reflexão que deverá ser elaborado um balanço específico do processo eleitoral, de seus erros e acertos. Evidentemente isto inclui o papel da política eleitoral, do marketing, dos dirigentes e da candidata.

Neste aspecto reproduzo como conclusão desta nota um parágrafo de um e-mail que recebi hoje de um jornalista conhecido que prefere ficar no anonimato: “Oi Luis, poucas certezas foram tão repetidas ontem à noite na TV quanto o encolhimento político da Marta. Blá-blá-Blá, não vou perder tempo. Bem, essa mesma turma disse que Marta estava morta ao perder a reeleição em 2004. E depois quando não foi escolhida candidata ao governo em 2006. E ainda quando disse o famoso ‘relaxa e goza’ no ano passado. É estranho que tantos analistas tão inteligentes, tão isentos, tão preocupados com a correção de suas previsões errem tanto. Talvez seja o fato de que 40% dos paulistanos não estão nem aí para o que eles dizem. Quem consegue a confiança de 2,5 milhões de paulistanos apenas com a sua militância…”

30/10/2008 – 12:34h

Ir além da aritmética eleitoral (III)

No começo do segundo turno da eleição municipal em São Paulo, em ato que contou com a participação de 11 ministros, Marta lançou um manifesto “Compromisso com São Paulo”.

Relendo esse manifesto percebo agora que ele não ocupou nenhum lugar na campanha e que provavelmente ele tenha chegado tarde demais. O manifesto, que reproduzo novamente aqui embaixo, deveria ter ocupado um lugar central no momento em que Marta aparecia com crescimento nas pesquisas no primeiro turno, enquanto o noticiário estava ocupado pela disputa brava entre Alckmin e Kassab.

Esse manifesto poderia ter balizado uma série de iniciativas em direção à sociedade civil e também em direção à setores das classes médias. O conjunto teria ampliado a base de apoio e o diálogo da candidata do PT, com provável desdobramento na queda da taxa de “rejeição”. As referências nesse documento à Carta ao povo brasileiro do então candidato Lula põe em evidência, na minha opinião, o erro de “timing” no lançamento deste manifesto e o lugar marginal que acabou ocupando esta orientação na própria campanha.

Esse erro político ma parece importante, porque a orientação do manifesto teria dado substância à linha de conquistar a maioria, intervindo assim na crise dos adversários. Ao contrário me parece que ficamos simplesmente aguardando que o eleitorado decidisse qual dos dois passaria para o segundo turno, sem apresentar uma alternativa aos eleitores de ambos e à franja de eleitores indecisos.

A questão da “rejeição” ao PT ou a seus candidatos não será resolvida com iniciativas só de marketing e sim por iniciativas políticas que rompam o “isolamento” (utilizo “isolamento” em relação a um percentual maior de eleitores, que a nossa base eleitoral de 30-40% que está longe de ser pouca coisa ou isolada).

Outro elemento crítico foram as conseqüências políticas do comercial que foi transformado pela mídia e nossos adversários em instrumento de paralisia e crise. O erro reconhecido por João Santana, de não ter detectado nenhuma carga particular nos grupos “qualis” e de não ter previsto o significado que a mídia colaria no mesmo, provém de uma subestimação do papel da mídia paulista como força política organizada em favor da direita. Basta pensar qual teria sido a opinião da própria candidata, se tivesse sido consultada antes, para perceber que as “qualis” não podem ter a palavra final quando as decisões incumbem à política.

Pensar que a mídia, tendo permanentemente feito campanha sobre a vida privada da Marta, não sairia em defesa de Kassab, é atribuir a ela “princípios éticos ou deontológicos”, que evidentemente ela não tem. Como duvido que alguém na campanha tenha esta ilusão, penso que o questionamento válido -ninguém sabe qual é a trajetória de Kassab-, levou à perguntas que serviram de pretexto para uma campanha anti-Marta. O erro é grave, paralisou a agenda da candidata durante vários dias e mesmo se não teve maior conseqüência no plano eleitoral, reforçou os argumentos contra o PT no curso final do pleito.

O conteúdo da famosa “rejeição” ao PT deve ser avaliado corretamente, recusando a manipulação da mídia. Esta manipulação se apóia no termo rejeição e sua ambigüidade. A pergunta que os institutos fazem é: “em quem o senhor (a) não votaria de jeito nenhum?”. Alguns institutos a formulam perguntando sobre o nome de cada candidato: “votaria, poderia votar, não votaria de jeito nenhum” seguido de cada nome; ou apresentando a tabela inteira com os nomes dos candidatos.

Nenhuma pergunta sobre a motivação é feita. O Datafolha não formulou esta questão no segundo turno, pois é pouco relevante na medida em que só tem dois candidatos e a “rejeição” é mais ou menos equivalente à decisão do voto (está determinado em votar em fulano).

A mídia e seus articulistas, anos a fio construíram em parte essa “rejeição” e, em relação a “rejeição” dos principais líderes do PT, forneceram e fornecem em permanência seus desejos, como conteúdo desta rejeição. Sem nenhuma base em pesquisas, anos a fio atribuíram à falta de diploma de Lula sua rejeição, ou ao fato de ser operário. Não que estes argumentos não existissem, mas eles eram reiterados e propagados com o intuito de serem transformados em barreira intransponível. Agindo assim a mídia procura destruir os dirigentes do PT, pois ela sabe que eles não se improvisam do dia para a noite. Se o fato dele ser operário, falar português com erros e não ter diploma motivou as três derrotas seguidas de Lula (1989-1994-1998), logicamente o PT deveria trocar de líder ou transformá-lo em alguém  ‘diplomado” (as duas coisas aconteceram, em 1999 alguns petistas começaram a organizar outro candidato e Eduardo Suplicy aconselhou Lula a fazer um curso nos Estados-Unidos).

Como Marta é “rejeitada” por ser mulher ou arrogante, divorciada de “senador querido”, casada com argentino, defender os gay’s, ser do PT, ser rica, ou defender os pobres…

Luis Favre

A seguir o documento Compromisso com São Paulo que foi publicado aqui no blog com o título “A palavra de Marta”

A palavra de Marta

 Compromisso com São Paulo

Quero agradecer de todo o coração a cada um dos mais de dois milhões de paulistanos que me deram sua confiança no primeiro turno destas eleições. E de tudo vou fazer para estar à altura deste apoio firme e caloroso.

Tenho certeza de que cada um desses votos vai se confirmar no próximo dia 26. Mas peço ainda um pouco mais a todos vocês: vamos trabalhar juntos, com garra e vitalidade, para que novos votos venham se somar aos nossos, no caminho para a vitória.

Nesses poucos dias que faltam para o momento decisivo, quero me comprometer com a população de São Paulo de que continuarei a fazer uma campanha sem ataques pessoais. Meu propósito é apresentar e debater propostas capazes de melhorar a vida de nosso povo.

Minha agenda vem desde o meu primeiro mandato. Com as coisas boas que fizemos na educação, nos transportes, na habitação, na saúde, na cultura e em nossas demais áreas de atuação. Até mesmo nossos tropeços, que reconheço com humildade, nos deram ensinamentos.

Depois da desastrosa experiência que atormentou São Paulo, ao longo da gestão de Celso Pitta, entendi que, para enfrentar o imenso desafio de reconstruir São Paulo, era necessária a união de todas as forças vivas da cidade. O apoio que recebi de Mário Covas e do PSDB, no segundo turno das eleições municipais de 2000, me fez ver que a união era possível e que poderíamos realizar um governo de reconstrução com a participação de todos. Isso só não se concretizou, na dimensão pretendida, por atropelos do processo das eleições presidenciais que se avizinhavam.

Mas em 2002, em sua Carta ao Povo Brasileiro, o então candidato Lula convocou o espírito da parceria e do consenso, assumindo compromissos que respondiam com clareza à vontade de união e mudança. Espírito e compromissos que dariam, em seguida, a marca de sua ação governamental. De que foi exemplo maior, desde logo, a criação do Conselho Econômico e Social, reunindo representantes de todos os setores sociais – para começarem juntos, sob a presidência de Lula, a construção de um novo caminho nacional.

Por esse caminho, o Brasil reencontrou o rumo do crescimento, da superação da dependência do FMI, da diminuição da pobreza, da geração de emprego e renda, da promoção da ascensão social e da ampliação de oportunidades educacionais para jovens de baixa renda. O avanço foi possível – e sensível – porque a disposição do presidente, no combate à desigualdade, se firmou na convergência do esforço de todos.

Não estou na disputa política para dividir. Mas, sim, para unir e construir. Não virão de mim apelos ao ódio, à destruição ou à rejeição de adversários. O que farei será mostrar com firmeza, ao povo de São Paulo, a alternativa que represento para a cidade. Seu voto indicará o destino que se deseja. E vou me empenhar para que tal destino coincida com o caminho que o presidente Lula traçou para o país.

Como primeiro passo no sentido da união de São Paulo, assumo aqui o compromisso de, se eleita, constituir um Conselho da Cidade. Um conselho de representantes de todos os segmentos da população. Das entidades representativas da sociedade civil, dos empresários e dos sindicalistas, do comércio e da universidade, das igrejas, da cultura, do esporte e dos usuários dos serviços públicos. Com um só objetivo: realizar uma cruzada – e canalizar o esforço de todos, a fim de enfrentar as questões mais cruciais do município, a começar pelo transporte coletivo.

Tenho apoio do presidente Lula para, na articulação das três instâncias de governo, construir 228 km de corredores de ônibus e 47 km de metrô, nos próximos quatro anos. Para, assim, dar um salto de qualidade na vida paulistana, superando um problema crítico que vem prejudicando fortemente a economia urbana e a saúde da cidade e do cidadão. E assim como, para combater a segregação dos mais carentes, o metrô deve chegar a mais lugares da periferia, me comprometo a não criar qualquer pedágio urbano, que atingiria em cheio os menos privilegiados, sem resolver o problema do trânsito, como já ficou demonstrado em grandes cidades do mundo.

Quero também assumir uma nova atitude na questão tributária. Os níveis recordes de arrecadação da prefeitura permitem um amplo programa de incentivos à produção e ao empreendedorismo, tão forte em nossa capital, com desoneração dos impostos municipais e desburocratização dos procedimentos. E reafirmar meu compromisso de isentar os profissionais liberais autônomos do pagamento do ISS.

Com a união de todos os setores sociais, poderemos projetar São Paulo na era digital. Segmentos empresariais da área de informática já manifestaram interesse em participar do programa de acesso gratuito à internet banda larga em nossa cidade. O governo federal assinou convênio para equipar, com esse fim, 800 escolas municipais. E pretendo combinar esta ação com investimento em qualificação profissional no espaço dos CEUs, que, com a construção de mais 20 unidades, irão configurar a Rede-CEU.

Uma outra ofensiva do governo de união por São Paulo deverá se desenvolver no campo da saúde, diante da realidade da falta de médicos e de atendimento em especialidades. Venho propondo a criação de 31 policlínicas na cidade, uma em cada subprefeitura. E quero agora incorporar, ao desenho dessa rede, a proposta de criação de centros de atendimento aos idosos, apresentada pelo candidato Geraldo Alckmin.

Para finalizar, quero dizer que, para governar São Paulo e superar a crise que estamos vivendo, será fundamental a mobilização de nossas melhores energias. A coragem de ousar e inovar, combinando planejamento e imaginação. Generosidade e rigor.

São Paulo precisa crescer. Mas crescer com inclusão social. Crescer em benefício de todos. E é para isso que a todos convoco, no sentido da construção de um governo de união por São Paulo. Um governo voltado para construir uma cidade melhor, mais forte e mais justa.

07/10/2008 - 09:52h Oposição perde espaço pelo país; PT tem o maior crescimento

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Desempenho do partido de Lula, porém, ficou aquém do projetado por sua direção; em números absolutos, o PMDB foi o partido mais vencedor do domingo, com 1.194 prefeitos eleitos no primeiro turno

ALAN GRIPP – LETÍCIA SANDER da FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Os três principais partidos de oposição ao governo Lula foram os que mais perderam prefeituras no primeiro turno da eleição de domingo. O DEM deixará o poder em 176 cidades; o PSDB, em 109; e o PPS, em 70.

Embora com desempenho aquém do projetado por sua direção, o PT sai das urnas com o maior crescimento no número de municípios. O partido tem atualmente 391 prefeitos, esperava chegar a 700 e saiu das urnas com 548 eleitos.

Mas, pelo critério de número de votos nominais, o grande vencedor no primeiro turno é o PMDB. Seus candidatos a prefeito receberam 18,4 milhões de votos, embora o número de prefeituras do partido tenha ficado praticamente estável (de 1.212 para 1.194).

A comparação foi feita pela Folha entre os resultados parciais da eleição divulgados até o fechamento desta edição pelo Tribunal Superior Eleitoral e a lista dos partidos hoje no poder, elaborada pela CNM (Confederação Nacional de Municípios), a principal entidade municipalista do país. Esse cruzamento retrata mais fielmente a realidade política brasileira, pois contempla o troca-troca partidário desde 2004.

O TSE havia computado até o final da tarde de ontem os votos em 5.544 municípios -em 29 deles, a eleição será decidida somente no segundo turno.

Além do PT, o PTB e siglas que compõe o chamado “bloquinho de esquerda” foram os partidos que mais ganharam prefeitos. O PT fez 157 prefeituras a mais do que tem hoje e ainda disputa o segundo turno em 15 cidades, entre elas 3 capitais (São Paulo, Salvador e Porto Alegre).
O PSB obteve o resultado mais consistente entre as legendas do bloquinho -95 prefeitos a mais do que os 214 que governa hoje, de acordo com os dados da CNM. O PTB terá a partir do próximo ano 35 prefeituras a mais, e o PDT, 33. PC do B e PV também cresceram -cada um ganhou no primeiro turno 21 prefeituras a mais.

Hoje, os 14 partidos que apóiam o governo Lula no plano federal têm 3.360 prefeituras, contra 1.852 governadas pelas demais siglas. Os três principais partidos de oposição no plano federal -PSDB, DEM e PPS- têm juntos 1.761.

No primeiro turno desta eleição, os partidos da chamada base aliada conquistaram 4.036 cidades, um crescimento de 20% em relação a hoje. Os demais enxugaram seus quadros -saíram do primeiro turno com 1.479, uma queda de 20%. PSDB, PPS e DEM fizeram 1.406 prefeituras, de acordo com os dados parciais do TSE.

Parte do declínio do DEM no número de prefeituras se deve ao fraco desempenho da sigla na Bahia, na primeira eleição após a morte do ex-governador Antônio Carlos Magalhães. O partido tem atualmente 116 prefeitos, de acordo com a lista da CNM. Neste primeiro turno, só elegeu 44, aponta o TSE. Se comparado ao resultado no primeiro turno da eleição de 2004, a derrocada do DEM fica ainda maior (71%) na Bahia. Naquele ano, a legenda chegou ao poder em 153 cidades.

O PMDB, comandando na Bahia pelo ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional), sai deste primeiro turno como o grande herdeiro do carlismo. Em 2004, os peemedebistas fizeram 20 prefeituras no Estado. Atualmente têm 57. Saem das urnas com 113.

O PT, do governador Jaques Wagner e que disputa com o PMDB o espólio político de ACM, elegeu 66 prefeitos no domingo -hoje tem 25, seis a mais do que elegeu em 2004.

Sob a liderança do governador Eduardo Campos, o PSB consolidou Pernambuco como um forte reduto do partido. Em 2004, a legenda fez 12 prefeituras no Estado. Agora, assegurou o controle de 49.

Considerando o número total de votos nominais computados até agora, o PT ficou em segundo lugar, atrás do PMDB, com 16,5 milhões de votos. Em terceiro, ficou o PSDB, com 14,45 milhões de votos, seguido do DEM, com 9,3 milhões, puxado pelo bom desempenho de Gilberto Kassab em São Paulo.

No fim da tarde, em reunião do conselho político, Lula ironizou a oposição, segundo relato de presentes: “Existem três partidos que estão muito nervosos: o DEM, porque perdeu muitas prefeituras, e o PSDB e o PPS, que perderam boas prefeituras”.

30/09/2008 - 11:12h “Popularidade de Lula não é capaz de eleger postes”, diz governador da Bahia

Ruy Baron/Valor – 9/12/2005

Jaques: governador baiano mantém discurso conciliador em relação ao ministro Geddel Vieira Lima

Raymundo Costa, VALOR

Na reta final da campanha, a eleição embolou em Salvador, Bahia. Talvez mais que em qualquer outra cidade, o clima entre os aliados é tenso.

Os três dos dois candidatos cotados para passar para o segundo turno são da base de apoio do governo Luiz Inácio Lula da Silva e do governador Jacques Wagner: João Henrique, do PMDB, atual prefeito, e Walter Pinheiro, do PT. O terceiro é Antonio Carlos Magalhães Neto, ACM Neto, do DEM e herdeiro do carlismo.

Em poucos Estados a disputa pelo uso da imagem do presidente foi tão intensa, a ponto de levar o ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional), um dos fiadores da aliança PT-PMDB, ao ponto de ameaçar um rompimento com o governo. Jaques diz que não é de “esquentar” briga. Acredita na recomposição, apesar da “tensão” entre os aliados.

O governador da Bahia acha que não basta a popularidade para eleger “um poste”. É preciso haver sinergia com o eleitorado. “Há uma maximização da imagem do governador e do presidente da República, que eu acho que contam, mas não é uma coisa absoluta de o cara sair de zero para 60%!”, disse ao Valor, em conversa na sexta-feira. O petista também não vê o governador de Minas Aécio Neves como candidato pelo PMDB com o apoio de Lula. “Só se for na oposição”, diz.

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: O apoio do presidente e do governador desequilibra a eleição?

Jaques Wagner: Quando alguém diz ‘eu sou Lula desde criancinha’, quando é Lula só a partir do ano passado, as pessoas se dão conta. Até porque eu acho que as pessoas lêem errado as pesquisas. Quando ela diz assim: 60% dos eleitores dizem que o apoio do presidente Lula é benéfico, o que eles estão dizendo é que, para 66% do eleitorado, saber que o candidato que ele escolheu é aliado do presidente Lula, aumenta a vantagem dele em 60%. Mas é o que eu digo aqui é que 60% de 1% é 0,6%. Então o cara sairá de 1% para 1,6%. É que as pessoas querem ler assim: se o presidente Lula botar a mão eu saio de zero para 60%. O que não é verdade.

Valor: Não é automático.

Wagner: Não existe isso. É óbvio que quando você cria uma sinergia, quando há uma consciência coletiva, as pessoas raciocinam assim: eu vou votar nesse cara que ele é amigo do governador, é amigo do presidente e não é um babaca, para falar um termo bem objetivo. Agora, se o cara for um babaca, diz assim ‘pô Lula, você vai me perdoar mas nesse aí eu não voto não’. Então não funciona aquela idéia de eu ‘elejo um poste’. Não existe isso.

Valor: No entanto, o senhor acha que o PT vai crescer mais que os outros.

Wagner: Com essa identificação do 13, eu acho que os candidatos do PT ganham mais que os outros. Não é em detrimento dos outros.

Valor: O fato é que há reclamação. Como é que a base vai chegar em Brasília para as votações?

Wagner: Óbvio que a volta é uma volta com pontos de tensão. Não tem como. Toda eleição, evidente que mais na eleição municipal, não é um mar de rosas. A lógica municipal é mais intensa que a estadual e que a nacional. O que está em jogo agora? Os deputados estaduais e federais lutam fortemente para a eleição do seu prefeito, e isso na contabilidade dele significará uma posição melhor para a eleição dele em 2010. É essa a briga. E o governador? O prefeito pesa X para deputado estadual e federal e pesa um pouco menos para governo do estado e presidente da República. Evidente. Isso porque ele consegue muito mais coordenar o voto para deputado estadual e federal.

Valor: Mas a eleição de prefeitos agora não dará uma base melhor para a eleição do presidente e de governador de 2010?

Wagner: A população está estabelecendo uma lin ha direta entre ela e os cargos majoritários, principalmente governador e presidente da República. Vou dar o meu exemplo: eu tinha 50 prefeitos em 417. E ganhei na faixa de 230 cidades. Significa que nem os prefeitos que trabalharam contra convenceram a população. Eu não estou menosprezando, evidentemente que ele é um elemento da política, e da base de apoio, mas ele pesará muito mais na eleição de deputado estadual e federal, eventualmente na de senador, do que na de governador e presidente da República.

Valor: Por quê?

Wagner: Eu me convenço cada vez mais que as pessoas não querem intermediário para escolher governador e presidente. Por que dá tensão? Dá uma tensão maior aqui e vai dar uma tensão menor em nível nacional. É uma coisa até curiosa: onde você vai e ganha, em geral o cara vai dizer que foi ele que ganhou. Onde você não vai e o cara perde, ele vai dizer que você é que foi o culpado pela derrota dele.

Valor: A base fica unida?

Wagner: Está todo mundo mais maduro e todo mundo dá importância a estar participando de um projeto, até agora, exitoso, que é o do presidente Lula, em nível nacional, e na Bahia. até agora, a gente está bem. Então eu não acho que vá haver alguma sangria desatada.; Agora é fato que haverá uma tensão pós eleitoral normal. Eu, por exemplo, estou tentando ser o mais equilibrado possível. Há uma maximização da imagem do governador e do presidente da República, que eu acho que contam, mas não é uma coisa absoluta de o cara sair de zero para 60%. Quando está pau a pau, digamos um está com 40% e outro está com 38%, aí eu concordo que pode fazer a diferença.

Valor: O senhor e o ministro Geddel saem como entraram nessa eleição?

Wagner: Temos um ponto de conflito que foi produzido por alguém que não era meu nem dele, que é o prefeito atual, que foi eleito pelo PDT, com vice do PSDB, e baixíssima participação do PMDB, que não tinha nem interesse em ficar no governo. Tinha lá uma secretaria marginal. De repente, quando o cidadão viu que estava com problemas de sobrevivência política, ele teve de sair de um partido pequeno e procurar um partido maior para se abrigar. Ele é muito midiático. Eu até gosto dele, não é um mau caráter, não é um larápio, mas é um cara confuso. Confuso na política e confuso na gestão. Ele precisava de tempo de televisão. Quis vir para o meu partido, coisa que eu recomendei.

Valor: Mas o PT não quis?

Wagner: O vício do cachimbo deixa a boca torta. A gente vai amadurecendo mas alguns vícios vez por outra aparecem. Então apesar de o governador dizer: ‘rapaz, põe o cara pra dentro. A gente já está no governo, põe logo o cara no PT’, o meu partido não acolheu a minha sugestão, o pedido de seu governador. E ele acabou indo para o PMDB. Ao ir para o PMDB gerou então um pólo de tensão. Não por culpa dele, por culpa da conjuntura. Geddel e o PMDB receberam esse presente – tinham pouquíssima coisa em Salvador e ganharam um prefeito e uma prefeitura, como máquina política para fazer a operação da política, no bom sentido. É óbvio que gostariam de ter todo mundo em torno deles. Então lutaram por isso. Eu defendi a tese da minha base de sustentação (um candidato só), pelo menos na capital. As pessoas não se convenceram. Até porque diziam que ele é ruim de compromisso. O pessoal de pesquisa dizia que ele tinha dificuldade de ir até para o segundo turno. O argumento é que era melhor não jogarmos com uma hipótese só e perdermos para o PFL. A outra hipótese era o Imbassahy, com quem eu tenho relação. Mas isso não animava muita gente exatamente porque era um alinhamento com o PSDB nacional e as pessoas aqui não tinham interesse óbvio nessa aproximação. Quando acabar a eleição tem um rescaldo a ser tratado. E eu tenho que ficar administrando esse conjunto todo.

Valor: A base se mantém até 2010?

Wagner: Político é um animal objetivo, que eu dividiria em dois tipos: uns um pouco mais programáticos e outros, vamos dizer assim, mais conjunturais. Quem é mais programático, tende a continuar, apesar de ter havido um estremecimento com o chamado bloquinho (a união congressual de PSB, PCdoB e PDT). Mas eu acho que diminuiu essa tensão. Já vinha diminuindo antes, com a solução de São Paulo (a indicação de Aldo Rebelo para vice de Marta Suplicy). A relação do Eduardo Campos (governador de Pernambuco e presidente do PSB) com o presidente é excepcional. O episódio de Minas, por mais que localmente tenha ha reflexos no PT – e há um rescaldo a ser cuidado internamente – , do ponto de vista externo da relação dos aliados o PT acabou marcando um tento positivo, porque bem ou mal apoiou um candidato do PSB com interligação do PSDB, o que mostra que, aos trancos e barrancos, o PT também consegue apoiar os outros.

Como senhor vê a questão de Minas?

Wagner: Internamente ainda tem muita coisa a ser trabalhada. Ficou a tensão com o Fernando Pimentel, vem a eleição para governador e ele evidentemente é um nome. Há insatisfações que terão de ser aparadas. Eu não sou de Minas e não quero me meter, mas o problema parece sido mais de método mesmo.

Como encaixar esse grupo no plano da sucessão federal.?

Wagner: Eu acho que a administração que foi feita em Minas, é óbvio que ela sempre terá contornos nacionais, mas na minha opinião ela terá muita influência na questão estadual. Eu acho que o Fernando e o Eduardo não têm peso para influir na questão interna do PSDB. Portanto não têm peso para ajudar o Aécio a ser o candidato do PSDB. Também não vejo nenhuma hipótese de o Aécio ser candidato em composição, vamos dizer, como Eduardo Campos, o PSB. A relação do PSB com o presidente é excepcional. O Ciro Gomes, o Eduardo. Então, sinceramente, eu não consigo ver a tal história de o Aécio vir ao PMDB para virar candidato, só se for para ser candidato contra o candidato do presidente Lula.

A eleição de São Paulo prova que não há como ter dois candidatos da situação?

Wagner: Se o presidente Lula desembarca em 2010 extremamente bem avaliado, e coloca uma candidatura à sucessão que mostre fôlego, não acho que os aliados atuais queiram sair fora. Tendo uma candidatura boa,. a tendência é manter isso tudo junto.

Valor: O PT vai para o segundo turno em Salvador?

Wagner: De há muito esta é a primeira eleição de Salvado equilibrada. Está dando o que eu imaginava: Neto tem o público deles (carlismo, que está na casa entre 23% e 25%, não cai mas também não sobe, que foi o índice do último candidato deles (César Borges); Imbassahy perde fôlego…

Valor: E foi abandonado pelos tucanos?

Wagner: Pelos daqui não, pelo Serra (José, governador de São Paulo) não, mas pelos outros talvez sim, porque ele está numa posição meio autônoma em relação ao comando nacional. Pinheiro está crescendo, e aí vamos ver. Qualquer dois dos quatro pode ir.

Valor: Para o governador seria mais fácil administrar uma disputa Neto-Pinheiro, não é?

Wagner: Politicamente, se forem dois aliados para o segundo turno a mensagem política é positiva, e a administração é difícil.

02/10/2007 - 13:13h Geddel comanda desmonte do carlismo

Paulo Totti para Valor

Ruy Baron/Valor

Às 10h00 de segunda-feira nos sofás da sala de estar de um apartamento em ensolarado edifício do bairro de Ondina, 14 pessoas esperam a oportunidade de trocar algumas palavras com o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima (PMDB). Ao meio-dia, já serão mais de 20 os visitantes. Comissões de prefeitos, vereadores, deputados estaduais conversam com Geddel na sala de jantar, paredes nuas e sem luxo, com uma mesa em condições de assentar mais de dez pessoas. Os encontros individuais ocorrem num gabinete ao lado, mais exíguo e também despido de ornamentos. “O ministro hoje teve que transferir alguns encontros para a própria casa porque havia muita gente querendo falar com ele. Não sei o que vai acontecer com os que estão lá na sede da Codevasf (Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba), onde o ministro costuma despachar todas as segundas”, diz uma assessora. “No sábado e no domingo ele vai para o interior e na segunda o interior todo parece que vem para cá. É a nossa rotina”.

Tanta atividade não é exclusiva do ministro. Com a agenda sobrecarregada na terça-feira, o governador Jaques Wagner (PT), por exemplo, só começou às 13h30 uma audiência marcada para as 11h. Quatro pessoas ainda aguardavam na ante-sala e, ao lado do gabinete, às 14h30, a mesa do almoço continuava posta à espera do governador e dois convidados. O prefeito João Henrique Carneiro (ex-PDT, hoje PMDB), na mesma tarde, depois de uma circulada pelo centro da cidade para “fiscalizar o comércio” (e fechar uma agência do Real ABN Amro, por irregularidades num alvará), foi receber vereadores na prefeitura, ao lado do Elevador Lacerda, e correu ao gabinete de despachos do governador, no Centro Administrativo estadual, para a assinatura de um contrato com a Infraero destinado à construção de viadutos que facilitarão o acesso ao aeroporto Luís Eduardo Magalhães.

A primeira-dama, Fátima e Jaques Wagner, governador da Bahia

Do outro lado de Salvador, no escritório de um conjunto conhecido como As Torres Gêmeas, na avenida Tancredo Neves, o ex-governador Paulo Souto (DEM) acabava de voltar, quarta-feira, do velório da mulher de um prefeito do interior, recebia um outro prefeito, dava entrevista pelo telefone à Rádio Metrópole e aguardava a chegada de uma equipe da TV Bahia.

Em Brasília, na sexta-feira, o senador César Borges (ex-PFL, ex-DEM, e, a partir desse dia, oficialmente no PR), saía do gabinete do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento (vice-presidente do PR), e ia direto para o aeroporto, para um fim de semana em suas bases na região de Jequié, onde o sertão começa a 360 quilômetros de Salvador. Na manhã do mesmo dia, no bairro da Pituba, as escadas que levam ao terceiro andar, e também os corredores e as quatro pequenas salas do modesto escritório de Antonio Carlos Magalhães Neto (DEM), estão tomadas por correligionários (é sexta-feira e três deles vestem-se de branco, da gravata aos sapatos). O deputado chega sem seguranças, cumprimenta cada um, despacha com alguns deles no próprio corredor, reúne-se individualmente num gabinete apertado com meia dúzia de outros, e sai para uma participação ao vivo na TV Bahia. Aos 28 anos, casado, ACM Neto tem pouco tempo para a filha de sete meses, Lívia, para jantar fora, ir ao cinema, fazer com a mulher um programa de jovens. Sábado e domingo terá novos compromissos, obviamente políticos, com agenda não revelada.

Na plácida Bahia, todos os expoentes da política demonstram excepcional disposição para o trabalho nestes dias que antecedem o 5 de outubro, data limite para a troca de partido dos que pretendem concorrer por outra legenda às eleições municipais de 2008. No país inteiro, há movimentação e expectativas. Mas, na Bahia, a situação é diferente e especial. Pela primeira vez, desde os anos 60 do século passado, Antonio Carlos Magalhães não está presente, não disputa, não decide, não influi pessoalmente (pró ou contra) numa eleição. E sem ACM, o avô, como ficam os prefeitos, acostumados com o alinhamento automático ao poder estadual e, por meio dele, ao poder federal, um disciplinado verticalismo que lhes assegurava não só a eleição, mas os favores no exercício do mandato que os levaria à própria reeleição ou à sobrevivência de seu grupo?

Nenhum dos grandes próceres da Bahia disputará eleições municipais, mas o cacife de cada um no jogo do poder estadual começará a ser calculado pelo número de fichas de filiação de prefeitos e vereadores que empilhar no seu estoque partidário a partir de sexta-feira.

Em 2004, dos 417 municípios da Bahia, 370 elegeram prefeitos do então PFL ou de partidos perfilados com Antonio Carlos. PMDB e PSDB elegeram perto de 40 e o PT saltou de 7 para 19. O PDT fez o prefeito de Salvador, com 75% dos votos. Nas duas cidades do interior mais populosas, o PFL tem o prefeito reeleito de Feira de Santana e o PT, o prefeito de Vitória da Conquista. Nos maiores colégios eleitorais do Estado, à exceção de Salvador, os carlistas elegeram cinco prefeitos, o PT quatro e o PMDB, um. Muitos dos prefeitos, num êxodo a que se juntaram vereadores, deputados estaduais e federais, abandonaram o DEM já na derrota para Jaques Wagner em 2006, mas a restruturação completa do quadro partidário ocorrerá somente agora, quando se saberá se e como, morto Antonio Carlos, sobreviverá o carlismo.

Adesões

Nenhum dos próceres ouvidos pelo Valor arriscou previsão sobre o placar final dessa corrida por adesões. A exceção foi o ministro Geddel Vieira Lima, presidente de honra do PMDB na Bahia (o irmão, Lúcio, é o presidente da executiva regional). “O carlismo é hoje uma Ong em desagregação”, disse Geddel, referindo-se não só às derrotas sofridas pelo PFL, em 2004 nas eleições para prefeito em Salvador e em 2006 para o Senado e o governo do Estado, como à crise que sucedeu à mudança do nome do partido para Democratas e culminou com a saída do senador e ex-governador carlista César Borges para o PR. Às vésperas do encerramento do prazo de filiações, Geddel contabiliza como certa a adesão de 70 prefeitos ao PMDB e esperava chegar a 100, “ou perto disso”. Jaques Wagner diz que a corrente que ACM chefiou continua forte eleitoralmente e, apesar de fragmentada, merece respeito. “Minha vitória em 2006 foi no primeiro turno e com folga. Mesmo assim, a diferença foi de cinco pontos (52,5% a 47,5%). Isso é pouco para considerar que o adversário desapareceu”.

Paulo Souto e Antonio Carlos Magalhães Neto reconhecem que sua corrente perdeu substância. A derrota de 2006 é atribuída por ambos à “avalanche lulista” que soterrou a oposição em todo o Nordeste e, diz Paulo Souto, “a uma certa fadiga de material. Depois de 16 anos ininterruptos, o eleitor quis experimentar uma mudança”. A atual debandada é vista como resultado natural da necessidade de aproximação com o poder. “Fomos beneficiários disso durante muito tempo”, diz Paulo Souto, pragmática e sinceramente. Dois dias depois, ACM Neto faria o mesmo raciocínio. Numa comprovação de que o carlismo sempre teve bons analistas do contexto político da Bahia, um assessor do jovem ACM simplifica numa frase a situação atual de sua corrente: “Estamos sendo picados pelo nosso próprio veneno”.

Antonio Carlos Magalhães
Geddel Vieira Lima, que testemunhou de perto a prática política de Antonio Carlos Magalhães – foi seu inimigo pessoal por mais de dez anos e, atraído por Luís Eduardo, se tornou próximo ao final da década de 90, para ser novamente inimigo após a morte do filho do então senador – faz uma longa descrição do que consideraria o “veneno” de ACM.

Estamos sendo picados pelo nosso próprio veneno, É natural. Nos beneficiamos disso durante muito tempo”

Diz Geddel: “ACM cresceu na ditadura, uma época em que o governador era nomeado em agosto e a eleição geral era em outubro. Então, prefeitos, deputados, todos queriam o apoio do governador para eleger-se, manter-se no poder e evitar cassações. ACM fortaleceu-se regional e nacionalmente com a nomeação em rodízio de subservientes e a perseguição aos adversários. Na redemocratização, aproximou-se de todos os presidentes. No primeiro mandato de Fernando Henrique reuniu mais poder até do que na ditadura. Brigou com FHC mas manteve o controle de todos os cargos federais que nomeara. Houve esperança de modernização quando o filho começou a aconselhá-lo. Mas Luís Eduardo morreu. Depois, houve os dois escândalos de grampos, um na Bahia em episódio pessoal que a imprensa explorou bastante e o outro em Brasília no caso do painel do Senado. A herança de ACM não exibe um chefe político formado, árvore para abrigo na intempérie. É natural que os políticos procurem esse abrigo em outras paragens”.

A movimentação de Geddel indica que pretende acolher a orfandade à sombra de sua autoridade de ministro e de “chefe de partido” aliado dos governos federal e estadual. O ministro parece gostar da expressão “chefe de partido”. Usou-a três vezes em seu contato com o Valor. Perguntado se tentou atrair César Borges para o PMDB, Geddel respondeu: “Não o procurei. Ele incorpora todos os defeitos do carlismo. Morto o dono do estilo, eu não iria chamar para o PMDB quem quer preservar esse estilo.”

César Borges, que sai do DEM por não concordar com o controle da legenda pelo ex-governador Paulo Souto, acabou no PR e recebeu do presidente de honra do partido, o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi, e do vice-presidente Alfredo Nascimento, uma carta atribuindo-lhe “o irrestrito comando sobre os destinos do PR na Estado da Bahia”, o que representa a deposição do atual presidente, deputado federal José Carlos Araújo. Jaques Wagner disse ao Valor que não teve interferência no ingresso de Borges na base de apoio ao governo federal -”isso é coisa de Brasília” – mas, para evitar surpresas, apressou a cerimônia de adesão da bancada estadual do PR à sua própria base de apoio (três deputados hoje e mais três que virão nos próximos dias). Em Brasília, Borges disse que pretende chegar ao PR baiano “com uma bandeira branca” e que não se recusa a dialogar com Wagner, se convidado. Sobre a adesão a um partido da base federal, Borges disse que continua contra a CPMF, mas, no Senado, trabalhará para um acordo entre governo e oposição sobre o tema.

Apesar da ausência de previsões que reflitam a realidade e não os desejos, o PMDB baiano é o partido com a maioria das adesões pré-5 de outubro (na prática, o prazo para o recrutamento se esgota amanhã, pois dois dias serão gastos na tramitação da nova filiação na Justiça Eleitoral). A adesão mais visível foi a do prefeito de Salvador, João Henrique, ao PMDB no mês passado. O pai do prefeito, ex-governador João Durval Carneiro (ACM indicou-o candidato do PDS em 1982 para substituir Clériston Andrade, morto num acidente de helicóptero em plena campanha) derrotou Rodolpho Tourinho (PFL) em 2006 e elegeu-se senador pelo PDT. O PMDB é o mais forte aliado do governador Jaques Wagner. Geddel indicou o vice, ex-deputado estadual João Pereira, e tem várias secretarias no Estado e na prefeitura. Na atração dos “órfãos”, o PT segue a orientação nacional, recusa adesões “não ideológicas” e isso facilita o inchaço dos outros partidos que apóiam o governador. Com seu estilo calmo e muita articulação nos bastidores, preferindo usar a palavra “liderança” à “chefia” ou “comando”, tão ao gosto dos políticos mais tradicionais da Bahia, Wagner conseguiu vitória em todas as votações importantes na Assembléia. Na semana passada, eram 38 deputados num total de 63, e com a atração mais recente de deputados do PR e outras aproximações, sua maioria pode chegar a 46, quatro cadeiras a mais do que o carlismo dispunha na legislatura passada. ACM Neto inclui o PSDB, do deputado federal Jutahy Magalhães e do ex-prefeito Antônio Imbassahy, na “linha auxiliar ” de Wagner. O presidente da Assembléia, com efeito, é do PSDB e facilita a tramitação dos assuntos de interesse do governador.


Aos 48 anos, casado, duas filhas, Juliana, 8, e Mariana, 4, Geddel diz que não quer ser governador em 2010. “Leitor de Ortega y Gasset, sou eu e minhas circunstâncias. Respeito a fila. Jaques tem a preferência. Se quiser ser reeleito, eu o apóio e me candidato ao Senado. O pacto com Jaques será respeitado. Jaques me apoiou para o ministério de Lula e se ele for candidato a presidente em 2010, ou a vice, destaco, pode contar comigo”.

O ingresso do prefeito no PMDB foi, segundo Geddel, “pactuado” com Jaques Wagner, que prometeu apoio a João Henrique para a reeleição em 2008, uma decisão incômoda para as bases do PT de Salvador, que pretendiam mais uma vez lançar a candidatura do deputado federal Nélson Pellegrino. “O ciúme existe”, diz Geddel, “mas Jaques e eu somos políticos sensatos”.

O carlismo está disposto a explorar o provável ressentimento do PT e de outros partidos da base de Wagner com o crescimento de Geddel. “Geddel pode criar problemas ao Jaques. A coabitação com o PMDB não é uma coisa boa”, diz Souto. “O culpado é o próprio PT, que deu tantas asas ao Geddel”, diz, por sua vez, César Borges, que, segundo amigos e inimigos, sai do carlismo mas continua carlista.

Um sinal de que PMDB e PT não estão tão afinados é o que ocorre neste momento com a escolha de um novo membro do Tribunal de Contas do Estado, em vaga tradicionalmente preenchida por um indicado pela Assembléia. A bancada do PT tem candidato, Zilton Rocha, e o PMDB resolveu indicar o pai de seu líder na Assembléia, nada menos do que Leur Lomanto, recém-saído da desprestigiada diretoria da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). “Foi uma decisão da bancada. Não poderia vir de Brasília e emasculá-la”, diz Geddel.

Alan Rodrigues  
• Paulo Souto, ex-governador

Com esse quadro, o que faz o DEM para garantir a sobrevivência? Paulo Souto e ACM Neto fazem a mesma análise do passado e pensam igual sobre o futuro. O deputado considera que, “no sistema eleitoral brasileiro”, as chefias locais dependem muito do poder estadual ou do poder federal. “Perdemos os dois. O eleitor nos tirou do poder e só ele pode nos colocar de volta”, Por isso, o DEM, com os poucos aliados que lhe sobrarem, pretende falar diretamente ao eleitor. A defesa da redução dos impostos, adotada nacionalmente, será um dos instrumentos desse contato. “Em 2006 tínhamos apoio de 380 prefeitos, 42 dos 63 deputados estaduais, 25 dos 39 deputados federais e, mesmo assim, perdemos”, contabiliza ACM Neto. Já as lideranças intermediárias, diz, são atraídas de duas formas: pelo exercício do poder ou pela expectativa de poder. “Perdemos a primeira, mas podemos ser a segunda”. A Prefeitura de Salvador pode ser o início do caminho de volta. Para Souto, as chances de vitória na capital são boas, devido principalmente “ao desempenho fraco do atual prefeito”. Neto acrescenta que em pesquisa da Qualy, uma empresa baiana, os que consideram ruim ou péssima a administração de João Henrique são o dobro dos que lhe atribuem nota boa ou ótima. Segundo a pesquisa, ACM Neto tem 15% das preferências para prefeito. “Mas só vou decidir lá por dezembro”, afirma. Na eleição para a Câmara, Neto teve na capital 107 mil votos de um total de 437 mil. Sobre alianças, diz ele que César Borges se comprometeu a apoiá-lo. Pelo telefone, de Brasília, César Borges afirmou que não se lembra da promessa.

ROBERTO CASTRO/AG. ISTOÉ

Souto e ACM Neto poupam até aqui o governo de Jaques Wagner, mas destacam que a violência aumentou na capital e na região metropolitana. Assessores de Wagner dizem que os dados sobre criminalidade no governo de Souto eram manipulados. “É criminoso dizer isso”, responde Souto. “Mas mesmo os números do atual governo mostram que a violência aumenta a cada mês”. Perguntado se confirma a fama de que o carlismo, apesar de tudo, era um primor de gestão, Wagner responde: “Montaram uma boa máquina arrecadadora. Mas no restante, especialmente na área social, o desempenho foi muito fraco”. Ao assumir, Wagner revelou a herança de uma dívida de R$ 400 milhões. Uma auditoria mais profunda, diz sua assessoria, indicou o comprometimento do orçamento de 2007 em R$ 1 bilhão. A Bahia, na atual gestão, foi um dos poucos Estados do Nordeste que não teve problemas em seus hospitais. “Isso ocorreu porque entreguei a Saúde em bom estado”, diz Souto.

O cientista político Paulo Fábio Dantas Neto, diretor do Centro de Recursos Humanos da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal da Bahia, é o mais conhecido estudioso do fenômeno que ele próprio passou a chamar de carlismo. Crítico severo (e documentado) do carlismo e simpático ao PT, Paulo Fábio não acha que o carlismo desapareceu: “Perdeu substância nos últimos anos, mas nunca passou mesmo de 30%”. A volta do carlismo ao poder seria um retrocesso, mas ele revela um temor maior: o de que Jaques Wagner, empolgado com o sucesso, “desmanche seu projeto de governo em nome da unanimidade, a Bahia una sob seu comando”. Diz o professor: “Tornar-se o coveiro do carlismo é até possível, mas isso só será conseguido se recorrer aos mesmos métodos do carlismo. Ter oposição é bom para a democracia. Jaques tem que afastar de si esse cálice”.