21/02/2009 - 16:01h O adeus

por Rubem Braga

 

Fonte Blog Releituras

 

 

No oitavo dia sentimos que tudo conspirava contra nós. Que importa a uma grande cidade que haja um apartamento fechado em alguns de seus milhares de edifícios; que importa que lá dentro não haja ninguém, ou que um homem e uma mulher ali estejam, pálidos, se movendo na penumbra como dentro de um sonho?

Entretanto a cidade, que durante uns dois ou três dias parecia nos haver esquecido, voltava subitamente a atacar. O telefone tocava, batia dez, quinze vezes, calava-se alguns minutos, voltava a chamar; e assim três, quatro vezes sucessivas.

Alguém vinha e apertava a campainha; esperava; apertava outra vez; experimentava a maçaneta da porta; batia com os nós dos dedos, cada vez mais forte, como se tivesse certeza de que havia alguém lá dentro. Ficávamos quietos, abraçados, até que o desconhecido se afastasse, voltasse para a rua, para a sua vida, nos deixasse em nossa felicidade que fluía num encantamento constante.

Eu sentia dentro de mim, doce, essa espécie de saturação boa, como um veneno que tonteia, como se meus cabelos já tivessem o cheiro de seus cabelos, se o cheiro de sua pele tivesse entrado na minha. Nossos corpos tinham chegado a um entendimento que era além do amor, eles tendiam a se parecer no mesmo repetido jogo lânguido, e uma vez, que, sentado, de frente para a janela por onde se filtrava um eco pálido de luz, eu a contemplava tão pura e nua, ela disse: “Meu Deus, seus olhos estão esverdeando”:

Nossas palavras baixas eram murmuradas pela mesma voz, nossos gestos eram parecidos e integrados, como se o amor fosse um longo ensaio para que um movimento chamasse outro: inconscientemente compúnhamos esse jogo de um ritmo imperceptível, como um lento bailado.spacca_braga2.jpg (17305 bytes)

Mas naquela manhã ela se sentiu tonta, e senti também minha fraqueza; resolvi sair, era preciso dar uma escapada para obter víveres; vesti-me lentamente, calcei os sapatos como quem faz algo de estranho; que horas seriam?

Quando cheguei à rua e olhei, com um vago temor, um sol extraordinariamente claro me bateu nos olhos, na cara, desceu pela minha roupa, senti vagamente que aquecia meus sapatos. Fiquei um instante parado, encostado à parede, olhando aquele movimento sem sentido, aquelas pessoas e veículos irreais que se cruzavam; tive uma tonteira, e uma sensação dolorosa no estômago.

Havia um grande caminhão vendendo uvas, pequenas uvas escuras; comprei cinco quilos. O homem fez um grande embrulho de jornal; voltei, carregando aquele embrulho de encontro ao peito, como se fosse a minha salvação.

E levei dois, três minutos, na sala de janelas absurdamente abertas, diante de um desconhecido, para compreender que o milagre acabara; alguém viera e batera à porta, e ela abrira pensando que fosse eu, e então já havia também o carteiro querendo o recibo de uma carta registrada, e quando o telefone bateu foi preciso atender, e nosso mundo foi invadido, atravessado, desfeito, perdido para sempre — senti que ela me disse isso num instante, num olhar entretanto lento (achei seus olhos muito claros, há muito tempo não os via assim, em plena luz), um olhar de apelo e de tristeza onde entretanto ainda havia uma inútil, resignada esperança.


Texto extraído do livro “Figuras do Brasil – 80 autores em 80 anos de Folha”, Publifolha – SP, 2001, pág. 132.

Conheça a vida e a obra de Rubem Braga visitando “Biografias”.

Ilustração: Spacca

João Spacca de Oliveira (1964), nasceu em 1964,  em São Paulo (SP), é cartunista e ilustrador. Fez “storyboards” para filmes publicitários no começo da carreira, depois, entre 1985 e 1995, criou charges políticas para o jornal “Folha de São Paulo” e ilustrou o suplemento infantil “Folhinha” por dois anos. Escreveu histórias em quadrinhos para as revistas “Níquel Náusea” e “Front”, e também trabalhou com animação. Atualmente faz charges para a versão on-line do “Observatório da Imprensa” e para publicações empresariais. Ilustrou , para a “Companhia das Letrinhas”, “O Mário que não era de Andrade”, de Luciana Sandroni; “O jogo da parlenda”, de Heloísa Prieto; “A reunião dos planetas”, de Marcelo Oliveira; e “Vice-versa ao contrário”, de vários autores. Escreveu e ilustrou “Santô e os pais da aviação — A jornada de Santos-Dumont e de outros homens que queriam voar” (vencedor do prêmio HQMIX 2006 nas categorias Desenhista Nacional, Edição Especial Nacional e Roteirista Nacional); “Debret em viagem histórica e quadrinhesca ao Brasil”, e “D. João Carioca — A corte portuguesa chega ao Brasil (1808 – 1821)”, publicados pela Cia. das Letras. Em 2005, Spacca recebeu o primeiro prêmio de charge no Salão Internacional de Humor de Piracicaba.

E-MAIL: spacca@spacca.com.br

21/05/2008 - 15:44h Antonio Candido é eleito intelectual do ano

L'image “http://www.cultura.mg.gov.br/arquivos/Gabinete/Image/antoniocandido_materia.jpg” ne peut être affichée car elle contient des erreurs.

Crítico é o vencedor da 44ª edição do prêmio Juca Pato, da União Brasileira de Escritores

DA REPORTAGEM LOCAL – FOLHA SP

A UBE (União Brasileira de Escritores) escolheu o crítico literário Antonio Candido, 89, para receber o troféu Juca Pato de Intelectual do Ano de 2007.

Em comunicado oficial, a UBE justifica a decisão ao afirmar que Candido é considerado “uma das inteligências mais completas e influentes da cultura brasileira contemporânea” e “autor de várias obras de análise, interpretação e avaliação crítica do principal acervo literário do Brasil e da herança européia”.

Em entrevista à Folha, Candido disse: “Para mim, o prêmio Juca Pato é uma honra, não apenas devido à sua importância, mas porque na sua base estão duas entidades que foram decisivas na minha vida literária: a Folha e a Associação Brasileira de Escritores, a ABDE, da qual a UBE é sucessora. A partir de 1943 eu me tornei realmente conhecido como crítico titular da Folha, e quando se fundou a ABDE, em 1944, fui segundo secretário na primeira diretoria da seção paulista, da qual fui presidente em 1949. Além disso, ao longo dos anos o Juca Pato vem sendo atribuído a intelectuais de grande qualidade. Estar ao lado deles é muito desvanecedor”.

O prêmio Juca Pato foi entregue pela primeira vez em 1963. Seu nome é uma homenagem ao personagem criado pelo cartunista Belmonte para a “Folha da Noite”, jornal que foi fundido com a “Folha da Tarde” e com a “Folha da Manhã” para dar origem à Folha de S.Paulo.

Livro mais recente

No ano passado, Candido relançou o livro “Um Funcionário da Monarquia – Ensaio Sobre o Segundo Escalão” (editora Ouro sobre Azul, R$ 31, 196 págs.). Para a UBE, o crítico, por meio da história de Antônio Nicolau Tolentino (1810-1888), filho de lavradores que se tornou conselheiro do Tesouro no Brasil imperial, conseguiu “caracterizar o tipo social do alto funcionário que extravasou da burocracia, sem, todavia, integrar o alto escalão oficial”.

Nascido em 24 de julho de 1918 no Rio de Janeiro, Antonio Candido de Mello e Souza se formou em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia da USP. Até 1978, foi professor titular de Teoria Literária e Literatura Comparada na mesma universidade.

É autor, entre outros, de “Formação da Literatura Brasileira: Momentos Decisivos” (1959). O livro foi estopim para uma polêmica com o escritor Haroldo de Campos (1929-2003) em relação à importância do barroco na história da literatura brasileira. Em 1962, Campos lançou o livro “O Seqüestro do Barroco na Formação da Literatura Brasileira: o Caso Gregório de Matos”.

Candidato único, o crítico literário foi apontado por 50 associados à UBE, entre eles Lygia Fagundes Telles, Nelly Novaes Coelho, Sábato Magaldi, Claudio Willer e Edla van Steen. A data da cerimônia de entrega do troféu ainda não foi definida.

No ano passado, o vencedor do Juca Pato foi o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, secretário-geral do Itamaraty, por conta do livro “Desafios Brasileiros na Era dos Gigantes” (Contraponto Editora, R$ 55, 456 págs.).

08/08/2007 - 21:06h Enfadado no Blog de Noblat