26/08/2009 - 12:34h Rubini alerta contra corte prematuro de gastos públicos e Celso Ming replica: agora há governo!

celso_ming1.jpgAdvertências valem, mas agora há governo

Análise

Celso Ming – O Estado SP

As advertências de Nouriel Roubini têm de ser levadas em conta. O grande reparo que se pode fazer a elas é o de que não está dando a devida importância à condução de corações e mentes pelos dirigentes políticos.

Se houve um elemento novo nesta crise foi a percepção de que a motivação das pessoas e, mais do que isso, a capacidade das autoridades em conduzir o processo cumpre papel decisivo. O futuro das pessoas não está abandonado ao sabor de forças irracionais.

Ficou bem mais difícil, por exemplo, enfrentar a crise a partir do momento em que prevaleceu o pânico e as pessoas perderam a capacidade de tomar decisões com um mínimo de racionalidade. O derretimento de um grande número de patrimônios pessoais e familiares foi, em grande parte fruto do efeito manada e não da irresponsabilidade dos senhores de Wall Street. E, no entanto, num segundo momento, quando o pânico foi embora, ficou bem mais fácil procurar por saídas.

Em outras palavras, a principal percepção pós-crise é a de que agora tem governo. Se falhou no início de tudo, quando deixou que as bolhas se formassem e, em seguida, estourassem, num segundo momento, o governo não se omitiu, tomou decisões difíceis e passou um mínimo de segurança que não existiu em setembro de 2008.

Há, sim, razões técnicas para acreditar que a recuperação será mais demorada e sujeita a recaídas, como diz Roubini, mas já não há mais lugar para uma situação em que toda a sociedade se considere desamparada, à beira de uma catástrofe. E isso muda muita coisa.

Muda, por exemplo, a avaliação que as pessoas fazem agora dos ativos. Ninguém mais espera que seu patrimônio vire pó. Ele perdeu valor, sim. Mas é valor recuperável, como mostra o comportamento das bolsas e até do mercado imobiliário.

Muda também a visão sobre os bancos. Tão cedo eles não voltarão às irresponsabilidades de antes. Ninguém mais espera que um grande banco afunde e arraste um montão de contas bancárias junto com ele.

 

Jin Lee / Bloomberg News Foto Destaque
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Nouriel Roubini: crescimento “anêmico” e “abaixo da tendência”

 

 

 

Roubini alerta para ”duplo mergulho”

Em artigo, economista aponta risco de que, depois de ligeira melhora, economia volte a mergulhar em uma crise

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP

O economista Nouriel Roubini, um dos primeiros a prever a crise financeira, acredita que o risco de recaída da economia mundial está crescendo. “A recuperação provavelmente será anêmica e há um grande risco de termos uma recessão ?duplo mergulho?”, afirma Roubini em artigo no Financial Times de domingo. Para ele, aumentaram as chances de um “duplo mergulho”, ou recessão em W – ou seja, depois de uma ligeira melhora, a economia voltaria a mergulhar em uma crise.

Roubini cita Brasil, Austrália, Alemanha, França, Japão, China e Índia como países onde a recuperação já começou. Mas ele acha que a recuperação será “anêmica por pelo menos dois anos”. Para o economista, o mundo vive apenas dois trimestres de rápido crescimento movido pela reposição de estoques e recuperação de produção.

“O nível de emprego ainda está caindo rapidamente nos EUA e outros lugares, e isso é má notícia para demanda, resultados de bancos, e também para a qualificação dos trabalhadores, um fator essencial para o crescimento da produtividade a longo prazo”, diz Roubini.

O economista acredita que esta é uma crise de solvência, e não apenas de liquidez. Segundo ele, “o processo de desendividamento ainda não começou, porque os prejuízos nas instituições financeiras foram socializados e transferidos para o balanço dos governos”. “Isso restringe a capacidade dos bancos de emprestar, dos lares de gastar e das empresas de investir.”

Além disso, nos países com déficit em conta corrente, como os EUA, os consumidores precisam cortar os gastos e poupar muito mais – mas esses mesmos consumidores estão endividados e sofreram perdas com a queda nos preços dos imóveis.

O sistema financeiro, apesar da injeção de recursos, continua muito danificado, diz Roubini. “A maioria do sistema financeiro não bancário desapareceu, os bancos tradicionais esperam prejuízo de trilhões de dólares por causa de calote em empréstimos e estão seriamente subcapitalizados.”

O crescimento da dívida dos governos, por sua vez, ameaça a disponibilidade de crédito para o setor privado. “E os efeitos do estímulo vão acabar até o início do ano que vem, exigindo mais investimento privado para sustentar o crescimento.”

Para Roubini, o principal motivo para uma recessão em W são os riscos na chamada estratégia de saída da maciça expansão fiscal e afrouxamento monetário adotados pelos governos contra a crise. Com ou sem estratégia de saída, os países terão problemas. Se os formuladores de políticas levarem a sério os déficits do orçamento e elevarem impostos, reduzirem gastos e enxugarem liquidez, vão sabotar a recuperação e jogar a economia em estagdeflação (recessão e deflação). Mas, se mantiverem os déficits do orçamento, as expectativas de inflação vão subir, a remuneração dos títulos do governo vai aumentar e as taxas de juros vão acabar nas alturas, levando a uma estagflação.

30/05/2009 - 12:59h Uma CPMF global

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Celso Ming, O Estado SP

celso.ming@grupoestado.com.br

O governo da França apresentou quinta-feira, em Paris, durante um evento realizado na sede da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), a proposta de taxação das operações financeiras internacionais.

A ideia é instituir uma espécie de CPMF cuja criação foi defendida pela primeira vez em 1972 pelo economista James Tobin, Prêmio Nobel de 1982, que na ocasião se preocupava com o aumento do risco de crise internacional, uma vez que o presidente Nixon havia acabado com o padrão-ouro. Funcionaria como um pedágio que desestimularia operações especulativas.

A proposta ficou conhecida como Taxa Tobin e nunca teve boa acolhida. Em 2001, poucos meses antes de morrer, o próprio Tobin desistiu da sugestão, alegando que fora desvirtuada.

Ela havia sido incorporada pela Internacional Socialista como fonte de recursos para combater a pobreza. Mais interessados na arrecadação do que na sua função regulatória, também os movimentos antiglobalização liderados pela ONG francesa Attac se encarregaram de manter a peteca no ar.

Tal como apresentada agora pela França, essa taxa corresponderia a 0,005% (cinco milésimos) do valor das operações financeiras, o suficiente para proporcionar uma arrecadação anual de US$ 60 bilhões.

Em 1998, o então presidente brasileiro Fernando Henrique pediu, em carta enviada aos chefes de Estado do Grupo dos Sete (G-7), a instituição dessa taxa. Quatro anos mais tarde, o presidente Lula fez a mesma colocação no Fórum Econômico Mundial de Davos, repetida em 2005 pelo então presidente conservador da França, Jacques Chirac.

Os obstáculos políticos para a implantação da taxa são enormes. Os Estados Unidos e a Inglaterra nunca a aceitaram, um pouco por motivos ideológicos e outro pouco por razões práticas. Além disso, um imposto desse tipo exigiria cobranças e controles globais, mais a criação de uma instituição supranacional com poderes para cobrar, transferir recursos e punir sonegadores.

Os obstáculos técnicos também são relevantes. Não há, por exemplo, como distinguir rapidamente uma operação financeira de outra comercial, já que o comércio mundial (de mercadorias e serviços) é largamente financiado. Uma análise sobre a natureza de uma operação dessas levaria dias e, no entanto, as transações são feitas à velocidade da luz, 24 horas por dia.

Numa União Monetária, como a que prevalece na Europa, onde as operações de câmbio entre países foi eliminada, boa parte do fato gerador do imposto desapareceu. Além disso, uma taxa assim criaria mecanismos de compensação que evitariam transferências entre países. Se o Itaú, por exemplo, devesse US$ 1 milhão para o Deutsche Bank e este devesse US$ 1 milhão para o Bradesco, ficaria tudo resolvido se o Itaú passasse US$ 1 milhão para o Bradesco. Não existiria transferência, o imposto estaria sendo driblado e não haveria como impedir esse jogo.

O próprio Partido Socialista Francês uma vez no governo, sob o primeiro-ministro Lionel Jospin, havia desistido da proposta por considerá-la impraticável. Mas, como ocorreu com a ideia do idioma único (o esperanto), sempre aparece alguém que desenterra a Taxa Tobin e proclama que ela tem de ser adotada.

10/04/2009 - 09:45h A política e o Banco do Brasil

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Celso Ming, O Estado SP

celso.ming@grupoestado.com.br

A demissão do presidente do Banco do Brasil, Antônio Francisco de Lima Neto, apenas por ele não ter cumprido a contento a determinação do acionista majoritário (o Tesouro Nacional) de derrubar os juros e o spread, encerra um punhado de equívocos. (Spread é a diferença entre o que o banco paga e o que cobra pelos recursos com que trabalha.)

O primeiro desses equívocos está em imaginar que, se o Banco do Brasil passar a praticar juros e spread substancialmente mais baixos, levará o mercado automaticamente a operar também a juros e spreads mais baixos. O Banco do Brasil não tem toda essa força. É, de fato, um bancão com boa densidade financeira, mas não detém mais do que 17,1% do mercado interno de crédito.

O segundo equívoco é o de imaginar que basta querer para poder. Juros e spreads altos são velhos de guerra no Brasil. Estão lá em cima por muitas razões bem conhecidas e outras menos conhecidas. Não vai ser apenas um ato de vontade política que será capaz de endireitar um pepino torto de nascença.

A derrubada do spread implica outras providências: queda do empréstimo compulsório a que estão submetidos os bancos, redução de impostos e taxas, compressão dos custos operacionais das instituições financeiras e baixa da inadimplência. (Veja no gráfico a composição do spread.) Ainda que a nova direção determine uma redução artificial dos juros e do spread, dia virá em que o Banco do Brasil não conseguirá mais enfrentar a parada sozinho.

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Um grande número de observadores argumentou que, por ser sociedade de economia mista, o Banco do Brasil teria de se ater ferreamente a uma administração técnica e que seus critérios de governança não poderiam estar submetidos a uma política de governo.

Mas um banco oficial tem, sim, certas funções políticas. Uma delas é mesmo a de ajudar o governo na quebra do oligopólio bancário existente no Brasil. É mais ou menos a função de uma empresa estatal de transporte público (caso da antiga CMTC em São Paulo), que tem por obrigação atuar de forma a facilitar o bom funcionamento das concessionárias privadas.

O erro aí não está em impedir que um banco público tenha uma governança racional. Está em deixar que seus resultados e seu balanço patrimonial se deteriorem por estar executando uma política que, em princípio, provoca prejuízos à instituição. As autoridades podem entender que o Banco do Brasil deva distribuir créditos subsidiados ou a juros favorecidos porque essa prática pode ser essencial para o cumprimento de determinado objetivo de governo. Mas, nesse caso, não podem deixar que a hemorragia leve o banco ao colapso; têm de prover a instituição com os recursos públicos previstos em orçamento em volume tal que “indenizem” o banco pelos custos ou pela perda de rentabilidade que decorram dessa política.

Falta examinar a reação da oposição à determinação do governo de substituir o presidente do Banco do Brasil. Foi um vexame atroz. Tão logo se espalhou a informação, saiu a atacar o governo por indícios de corrupção e desvios de recursos sem que, em nenhum momento, isso tenha sido a razão principal, ou mesmo algo significativo no episódio. Enfim, essa é a qualidade da oposição que temos por aqui.

Leia a integra da coluna de Celso Ming no jornal O Estado SP

21/01/2009 - 09:20h O mundo quer confiar

 

Celso Ming,O Estado SP

 

 

celso.ming@grupoestado.com.br


Creso, rei da Lídia no século 6º antes de Cristo, era o homem mais rico do mundo conhecido. Mas, lá pelas tantas, inseguro sobre seu futuro, mandou consultar o oráculo de Delfos. O deus respondeu que ele deveria fugir quando o mulo ocupasse o trono do país dos medos. Creso se tranquilizou. “Nunca um mulo chegaria a rei de lugar nenhum”, disse.

Quando Ciro, rei dos medo-persas, invadiu a Lídia, Creso não fugiu como lhe recomendara o oráculo. Perdeu a coroa e sua riqueza espantosa. Tarde demais para entender. Ciro era um híbrido, filho do rei persa e de uma princesa dos medos.

Se a analogia é um tanto forçada, vale a torcida. Barack Obama, um híbrido de pai africano e mãe americana, assume o comando do país mais poderoso do Planeta e terá de enfrentar os reis do mundo financeiro e sua crise, que não podem ser deixados soltos. Como Creso, não tem agora para onde fugir. O mundo quer acreditar que essa vai ser a guerra que este mulo do século 21 vai vencer.

Na cerimônia de posse, o presidente Obama fez ligação direta com o coração e a alma dos americanos e dos demais cidadãos do mundo. Falou de escolhas novas mas baseadas em valores antigos, no uso da inteligência, no trabalho duro, no aproveitamento das oportunidades, na coragem necessária para enfrentar problema por problema.

“Nossa economia está muito enfraquecida, consequência da ganância e da irresponsabilidade por parte de alguns, mas também por nossa falha coletiva em fazer escolhas difíceis e preparar a nação para uma nova era. Casas foram perdidas; empregos destruídos; empresas fechadas. Nossa assistência à saúde é cara demais; nossas escolas reprovam demais; e cada dia traz mais evidências de que as maneiras como usamos a energia fortalecem nossos adversários e ameaçam nosso planeta.”

Não só os americanos, mas também o resto do mundo canaliza sua energia e está disposto a agarrar a confiança que vem de gente de boa vontade e sem mentira.

É provável que a nova equipe econômica de Obama não saiba ainda o que fazer agora para acabar com a crise. O novo pacote econômico, de US$ 825 bilhões, cujo projeto será formalmente encaminhado ao Congresso americano para discussão, parece de longe insuficiente para enfrentar as demandas do contra-ataque.

Obama falou também que o mercado não pode ser deixado solto e que precisa de vigilância (watchful eye). Sem isso, descontrola-se e sai dos trilhos.

O problema é que, se o mercado está globalizado, também precisa de vigilância globalizada. Instituições de bairro não darão conta de tanta supervisão.

Além disso, um olho poderoso não é nada se não houver um braço forte. E não está claro como essa coordenação pode ser feita por instituições globais, num mundo onde o poder continua sendo exercido por estados nacionais limitados e egoístas e, até agora, destituídos de liderança.

Também aí, não importa se o organismo de controle é grande ou pequeno, mas se funciona e quanto funciona.

Por ser híbrido, Ciro uniu reinos antes antagônicos e com essa união de forças enfrentou, uma a uma, as ameaças a seu império. Por isso, foi chamado de Ciro, o Grande.

Confira

A virada não aconteceu – As bolsas não se deixaram influenciar pelo pronunciamento envolvente do presidente Obama. Ao contrário, os preços caíram nas principais praças.

Prevaleceu a percepção de que não há mágica e que a saída para a crise vai demorar.

As próximas semanas enfrentarão a divulgação dos balanços. E a tendência é de que será um susto atrás do outro.

E é provável que as primeiras estimativas sobre o PIB dos países ricos no quarto trimestre também venham ruins. E aí veremos se o governo Obama terá respostas para tudo isso.

13/01/2009 - 12:08h Terra sem lei

Celso Ming, O Estado SP

celso.ming@grupoestado.com.br

celso_ming1.jpgVai-se espalhando a percepção de que os bancos e outras instituições que também são chamadas de quase-bancos, estão soltas demais. Assim como deitaram e rolaram nas operações que precipitaram a crise, continuam deitando e rolando com os recursos que vêm recebendo dos bancos centrais e dos Tesouros nacionais.

Domingo, em entrevista à rede ABC News, o presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, declarou que está desapontado com a qualidade de gerenciamento dos primeiros US$ 350 bilhões de recursos do Programa de Alívio de Ativos Problemáticos (Tarp, na sigla em inglês). Este é o plano de US$ 700 bilhões do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Henry Paulson, para salvar os bancos. Obama pediu prestação de contas sobre o uso dos recursos.

E ontem, na sede do Banco de Compensações Internacionais (BIS), na Basileia, dirigentes dos bancos centrais nacionais da região do euro criticaram a supervisão bancária do bloco. O problema é tanto de flacidez na fiscalização como de falta de transparência.

Enfim, a questão central é de regulação precária, de fiscalização omissa e de supervisão falha. É um tema que tem sido genericamente tratado como “inexistência de regulação” ou como “terra sem lei”.

Antes, é preciso delimitar os campos. Uma coisa é falta de regulação e outra, bem diferente, falta de supervisão. Não dá para negar que muita coisa está sob a lei da selva. Os bancos de investimento não são considerados bancos e, no entanto, operam no crédito. O Morgan e o Lehman mostraram que essas instituições vinham excessivamente alavancadas. Seus ativos chegavam a 30 ou 40 vezes seu patrimônio líquido (o máximo tolerado pelos Acordos de Basileia é 10 vezes). Não tinham condições de cobrir os rombos se os tomadores de crédito não honrassem seus compromissos, como ocorreu.

E, no entanto, há uma quantidade enorme de subsetores que direta ou indiretamente operam no crédito e, no entanto, não estão regulados: sociedades de crédito imobiliário, fundos de hedge, seguradoras de crédito, agências de avaliação de risco e empresas que trocam grandes volumes de títulos de dívida (commercial papers). Estão também de fora os mercados de derivativos e os paraísos fiscais, que o primeiro-ministro da Inglaterra, Gordon Brown, quer controlados.

A encrenca é mais profunda. Os mercados estão muito globalizados, funcionam à velocidade da luz, 24 horas por dia e, no entanto, as instituições que os deveriam controlar, além de serem excessivamente pulverizadas (há dezenas de organismos de supervisão nos Estados Unidos, por exemplo), têm alcance apenas local. Quem, afinal, deverá fiscalizar um fundo de hedge ou uma seguradora de crédito que opera em 20 mercados diferentes?

Problema igualmente intrincado é o de que nem mesmo a supervisão regular está sendo feita. O Federal Reserve (banco central dos Estados Unidos) deixou que os bancos americanos fizessem o que fizeram. A Securities and Exchange Commission (SEC) não conseguiu enxergar a lambança que o estelionatário Bernard Madoff armou sob suas pernas. As agências de classificação de risco distribuíram fartamente certificados AAA para títulos que, na verdade, não passavam de fumaça.

Confira

Dureza – Desta vez, o presidente Lula deixou de lado o diagnóstico da “marolinha” e não escondeu que a situação do emprego nos primeiros três meses do ano “é preocupante”.

Mas não dá para saber qual será a força do desemprego no Brasil e até que ponto o consumo interno está rateando.

Ele vem aí – O centro da crise ainda são os Estados Unidos e é de lá que vem a incerteza. Mas muito dessa incerteza pode ser dissipada em prazo relativamente curto se o novo presidente Barack Obama conseguir inspirar confiança. Por isso, seus primeiros cem dias de governo serão decisivos.

08/01/2009 - 11:21h O talo do repolho

Celso Ming, O Estado SP

celso.ming@grupoestado.com.br

celso_ming.jpgA crise global é como o repolho. Você tira a folha de fora, tem a seguinte, depois mais uma… Dá trabalho chegar ao talo.

Os analistas agora já não se contentam em conferir as manifestações externas do problema. Tentam se aprofundar. Não dá para parar nos créditos hipotecários podres (subprime), na crise patrimonial dos bancos, no estrangulamento do crédito. Para chegar às razões subjacentes é preciso avançar camada por camada.

Um dos atuais focos dos analistas é o enorme desequilíbrio macroeconômico que divide o mundo entre cigarras e formigas; entre gastadores contumazes e poupadores inveterados. Entre as cigarras se encontram os países ricos, especialmente os Estados Unidos. Entre as formigas, os emergentes, e nesse grupo não está apenas a China; estamos – quem diria – nós, do Brasil.

Simplificadamente, a China exporta produtos industrializados para os Estados Unidos e forma superávits comerciais (exportações substancialmente mais altas do que importações). Eles vão para as reservas que, por sua vez, são aplicadas em títulos da dívida americana (T-Bonds). Na prática, os dólares do superávit comercial chinês são reinjetados nos Estados Unidos que, assim, recuperam dólares para continuar a consumir, a importar produtos asiáticos… E assim vai.

Tudo se passa, então, como se o resto do mundo e, em especial os emergentes, estivessem aí a exportar produtos de consumo para os países ricos e estes se obrigassem a fazer dívidas para continuar financiando seu consumo e suas importações.

O problema agora é que o consumo das famílias americanas praticamente estancou. Ainda na segunda-feira saíram os números da indústria automobilística nos Estados Unidos que dão boa indicação das proporções do fenômeno. Em 2008, a queda das vendas da General Motors foi de 22,7%, pior desempenho em 49 anos; a da Ford, de 20,7%; e a da Chrysler, de 30,0%.

Para que a roda continue girando, o consumo das famílias tem de ser substituído pelo do governo americano (aumento das despesas públicas). É o que explica a necessidade de pacotes fiscais sucessivos.

Ontem o presidente eleito Barack Obama advertiu que o déficit orçamentário anual vai superar US$ 1 trilhão, número visto como conservador. Ainda ontem, o analista Martin Wolf avisou, em coluna do Financial Times, de Londres, que o rombo orçamentário necessário para manter o nível de consumo interno nos Estados Unidos (e de produção global) é de pelo menos 10% do PIB, o que dá US$ 1,5 trilhão. E não basta que ocorra só no primeiro ano; tem de se repetir ano após ano.

Como ficou dito, o Brasil é parte desse jogo global. É forte exportador para o mundo rico (37% do total para os Estados Unidos e União Europeia) e fornecedor de alimentos e matérias-primas para os emergentes asiáticos (19%). Além disso, na medida em que também acumula reservas e as aplica em títulos do Tesouro americano, o Brasil é financiador do consumo americano.

Ainda não está claro como o talo do repolho será recomposto. Mas um pedaço da solução está no aumento do consumo interno dos emergentes. E é essa a razão pela qual se pode dizer que a força do mercado interno do Brasil contribui para isso.

Confira

Destrancou – Nesta semana, o Tesouro voltou a tomar recursos em dólares por meio do lançamento de títulos públicos. É a primeira aguinha que chega desde maio do ano passado, quando o crédito externo ficou bloqueado pela crise.

Na cola do Tesouro, as grandes empresas brasileiras voltam agora a garimpar financiamentos em moeda estrangeira. A Petrobrás, por exemplo, está buscando US$ 12 bilhões.

Se esse movimento for bem-sucedido, aumentará a fatia disponível para pequenas e médias empresas. À medida que os bancos tiverem de disputar o cliente, o custo do crédito pode cair.

16/12/2008 - 10:13h Inimigo novo

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Celso Ming – O Estado SP

O mundo está acostumado a identificar a inflação e a lutar contra ela. Não está acostumado a combater o inimigo oposto, a deflação.

Uma das advertências que, nas últimas semanas, vêm sendo feitas por um número crescente de economistas é a de que os países ricos, especialmente os Estados Unidos, estão fortemente ameaçados pela rara síndrome denominada estagdeflação. É um período em que não só ocorre recessão (queda acentuada da atividade econômica e da renda), mas também deflação (queda relevante dos preços). A propósito veja o Entenda.

Como tanta coisa em Economia, não há causas únicas de deflação. Várias delas se reforçam uma à outra. Em geral, são dois os principais causadores primários de deflação: forte queda dos preços das commodities, especialmente petróleo e alimentos; e retração do consumidor, que provoca grande redução da procura e queda generalizada de preços.

Como a inflação foi sempre uma das principais ameaças da economia, muita gente estranha que o contrário dela, em vez de ser um benefício, possa ser uma grave ameaça.

É que a estagdeflação empurra o sistema produtivo para graves distorções, tanto quanto as provocadas pela inflação. Confira algumas.

(1) Aumento das dívidas – Se os preços caem e os passivos permanecem como estão, a dívida real aumenta. Como, em geral, numa recessão, o desemprego cresce e os salários caem, um aumento da dívida tende a dificultar os pagamentos, o que leva a calotes e inadimplências.

(2) Baixa da arrecadação – A maioria dos impostos é calculada como certa porcentagem cobrada sobre os preços. Assim, se os preços caem, a arrecadação de impostos vai atrás.

Como o setor público (governos) trabalha com despesas relativamente fixas (salários, aposentadorias e contratos), a queda da arrecadação tende a aumentar o déficit público (despesa sem cobertura de receita).

Além disso, como ficou dito, a deflação aumenta os passivos e, quase sempre, o maior deles é o dos tesouros. Isso significa que a deflação tende a dificultar o pagamento das dívidas públicas.

(3) Redução das vendas – A partir do momento em que se forma a percepção de que começou um processo de deflação, o consumidor tende a adiar suas compras, porque vai achar que quanto mais esperar para fechar um negócio, mais barato vai pagar. Quando se generaliza, essa atitude leva ao aumento do encalhe de mercadorias que, no momento seguinte, obriga as empresas a torrarem os estoques de maneira a reduzir as perdas (stop loss).

Por aí se vê, também, que a deflação tende a reduzir as encomendas ao setor produtivo, a aumentar o desemprego, a achatar o salário real e a derrubar os lucros. Radicalizado o processo, os preços das ações tendem a afundar e, com elas, se desvaloriza o patrimônio dos fundos de pensão e das carteiras das famílias.

(4) Trava na política de juros – Outro grave risco é o de que os juros caiam tanto que cheguem às cercanias do zero. A partir daí, a política monetária (política de juros) perde a capacidade de tração. Ou seja, o banco central não pode mais derrubar os juros para fazer a produção andar. E foi desse mal que a economia japonesa sofreu ao longo da década de 90.

Entenda

O que é – Deflação não é aquilo que, por desinformação ou falta de traquejo, os jornais brasileiros às vezes denominam quando usam o termo. Deflação não é queda eventual da inflação, mas queda constante de preços.

Se a inflação foi de 1% no mês 1 e caiu para 0,5% no mês 2, isso não é deflação. É inflação (aumento dos preços), embora mais baixa no mês 2 do que no mês anterior.

Também não é deflação a queda dos preços por um prazo curto, digamos de 1% no mês 1 para 0,3% no mês 2. Ela só ocorre quando a queda acontece por períodos mais longos, de cerca de seis meses ou mais.

05/11/2008 - 10:05h Efeito Obama

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Celso Ming – O Estado SP

celso.ming@grupoestado.com.br

A economia mundial ainda está atolada na mais profunda crise financeira depois dos anos 30. No entanto, isso não impediu que ontem vivesse um dia de quase euforia.

Deixou para trás as aplicações financeiras conservadoras e voltou com apetite ao risco. O dólar se desvalorizou em quase todos os mercados, as bolsas viveram um dia de altas generalizadas, os preços das commodities se recuperaram, a remuneração dos títulos de renda fixa subiu por redução do interesse dos aplicadores. Enfim, tudo se passou como se essa crise já estivesse sendo revertida.

Esses movimentos não foram motivados por nenhum fato econômico novo relevante. Apenas reagiram antecipadamente à escolha do novo presidente do mais importante país do mundo, os Estados Unidos. Esse pode ter sido, então, o primeiro impacto econômico positivo desse acontecimento cuja natureza é político-eleitoral.

Embora as pesquisas tenham apontado a vitória do candidato democrata, Barack Obama, a reação de ontem dos mercados, que foi chamada talvez prematuramente de “Efeito Obama”, pode não ser comemoração antecipada da vitória. Talvez seja demonstração de que até mesmo a escolha do candidato republicano seria substancialmente mais efetiva para a futura reversão do jogo do que tudo o que tem feito – e não foi pouco – o governo americano nesse resto de mandato.

O novo presidente herda um país prostrado pela recessão, pela perda de patrimônio financeiro e imobiliário, pelo medo do futuro, pela falta de confiança e pelo desvanecimento de alguns dos sonhos americanos: a casa própria, o emprego digno, a aposentadoria tranqüila, o futuro promissor para os filhos.

No jargão político inglês, o presidente George Bush não passa de um pato manco (lame duck). Está lá no Salão Oval, ainda tem mandato, mas não passa credibilidade nem consegue mobilizar a população para o contra-ataque à crise.

Ele bem que tentou. Nos dias de maior pânico, Bush foi à TV para tentar injetar confiança e pedir serenidade, mas tudo o que obteve foi indiferença.

Tantas foram as lambanças produzidas por sua administração que o chefe de Estado do país mais poderoso do mundo não consegue mais impor liderança.

Outras autoridades globais tentaram preencher o vácuo de poder. Uma delas foi o presidente da França, Nicolas Sarkozy; outra, o primeiro-ministro da Inglaterra, Gordon Brown, que fez o melhor diagnóstico da crise e foi o primeiro a atacar o incêndio de forma correta: injetando capital nos bancos.

Mas o resultado dessas tentativas de surfe político foi limitado porque a solução econômica da crise está irremediavelmente condicionada à renovação da liderança nos Estados Unidos.

A posse do novo presidente será só no dia 20 de janeiro, mas já nos próximos dias estará instalada a equipe de transição encarregada de preparar a transferência de poder.

E, na semana que vem, o novo presidente integrará a reunião de cúpula de chefes de Estado encarregada de encaminhar as mudanças no sistema financeiro global. Será a primeira oportunidade para se saber como o novo presidente americano lidará com as atuais mazelas da economia mundial.

Confira

Para cima – Não foi só a expectativa do surgimento de nova liderança nos Estados Unidos que puxou os preços das ações em todo o mundo. Parte da reação pode ser creditada à procura por pechinchas.

18/01/2008 - 08:59h Clima pesado



Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br

Esperado com ansiedade, o pronunciamento feito ontem pelo presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Ben Bernanke, reforçou uma dupla sensação negativa: a de que as condições da economia americana podem estar ainda mais deterioradas do que até agora admitido; e a de que as autoridades da área continuam inseguras quanto ao que fazer para reverter a crise.
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29/12/2007 - 11:19h Decolou


Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br

O presidente Lula talvez tenha exagerado quando disse que 2007 foi o melhor ano econômico da história econômica do Brasil. Mas não dá para negar, há o que comemorar.

Esta é apenas uma lista limitada de fatos que poderão ser tomados como linhas divisórias entre antes e depois.
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10/11/2007 - 07:09h Risco maldito

* Celso Ming para O Estado de São Paulo

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, antevê um belo futuro para o Brasil enquanto potência energética: “Seremos grandes exportadores de petróleo.”

Para o presidente da Petrobrás,Sérgio Gabrielli, o petróleo e o gás recuperáveis das jazidas compreendidas nas novas fronteiras de petróleo, abaixo da camada de sal, puxarão as reservas,hoje entre 17 bilhões e 20 bilhões de barris, para algo entre 70 bilhões e 100bilhões de barris.

São apostas. É como contar com os ovos da galinha ao longo de certo tempo. Os ovos não estão lá,mas podem vir a estar,desde que tudo se comporte como imagina o dono do galinheiro.

Em todo o caso, há justificativas para as projeções da ministra e do presidente da Petrobrás. O que já se sabe é suficiente para produzir conseqüências econômicas – algumas imediatas. Uma delas é a de que,uma vez confirmadas perspectivas tão promissoras para o petróleo e o gás, num quadro de escassez global, crescerá o nível de interesse por sua exploração. Só isso deverá trazer enxurrada de capitais novos para o Brasil, além dos que já vinham sendo aguardados, só porque, dentro de alguns meses,a dívida do Brasil será promovida na tabela de qualificação de risco e terá o grau de investimento.

Ontem, o economista-chefe da corretora Hedging Griffo (Grupo Credit Suisse), Elsom Yassuda, quantificou a condição exportadora anunciada pela ministra Dilma Rousseff. Avaliou que, em alguns anos, o Brasil poderá faturar US$ 20 bilhões por ano (cerca da metade do superávit comercial deste ano) apenas com exportações de petróleo.

Se essas expectativas se confirmarem,será preciso ver como essas receitas não se tornarão “riqueza maldita”, como aconteceu em outras paragens.

Para ser mais específico, a forte entrada de recursos em moeda estrangeira leva o risco de causar exagerada valorização do real e, mais do que já possa estar ocorrendo, prejudicar a competitividade do produto brasileiro.

Um dos principais objetivos da anunciada criação de um fundo de riqueza soberana no Brasil é desviar do câmbio interno certo volume de recursos em moeda estrangeira e, assim, evitar novas valorizações do real.

Essa é a principal razão pela qual não faz sentido usar esses recursos nos investimentos em infra-estrutura no País, como algumas autoridades aventaram. Se tivessem essa finalidade, esses recursos teriam de ser convertidos em reais e, outra vez, produziriam impacto sobre o câmbio,justamente o que se quer evitar.

O ministro Guido Mantega afirmou que esse fundo será criado tão logo as reservas externas do Brasil atingirem US$ 180 bilhões.Como,em novembro,as reservas têm crescido acima de US$ 900 milhões por dia útil e ontem estavam em US$ 172,5 bilhões, conclui-se que, antes do fim do mês, esse nível poderá ser ultrapassado.

Não estão claras as fontes de recursos em reais com os quais o Tesouro ou o Banco Central comprarão os dólares que formarão o fundo. No Chile, na Noruega e na Rússia, essa transferência direta de receitas de exportação para fundos soberanos administrados no exterior é facilitada porque as receitas são obtidas por empresas públicas. No Brasil, a maior parte dessas receitas e os recursos de investimento são do setor privado.

CELSO MING

26/09/2007 - 09:44h A crise mudou de lado

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br

O Estado de São Paulo (para assinantes)

A conta-gotas, os analistas internacionais vão se apercebendo de que os países emergentes estão cada vez mais importantes e têm de ser levados mais a sério.

Ontem, por exemplo, o jornal parisiense Le Monde publicou matéria cujo título diz quase tudo: ‘A grande revanche dos países do Sul.’ Ainda em meio à turbulência da crise dos créditos de alto risco (subprime), multiplicam-se as observações dos comentaristas de que as coisas só não estão piores graças aos emergentes.

A crise mudou de lado. Ao longo das décadas de 80 e 90, foram os emergentes que contaminaram a economia mundial. Foi o México em 1982 e 1994, os tigres asiáticos em 1997, a Rússia em 1998, o Brasil em 1999 e a Argentina em 2001. Em seguida, as grandes crises foram geradas nos Estados Unidos: a da bolha da Internet, também em 2001, e agora a das hipotecas.

Quanto mais temem pelo mergulho na recessão global, tanto mais os analistas vão se dando conta de que o mundo rico já não é suficientemente denso para arrastar o resto do globo se algo grave acontece. Com as exceções de praxe, os emergentes já não afundam na crise e dispensaram tanto os recursos como as recomendações do Fundo Monetário Internacional, organismo hoje praticamente sem função.

A economia da China já produz mais riqueza do que a dos Estados Unidos. Fácil fazer as contas. O PIB americano é de US$ 13,3 trilhões e o da China é de US$ 3 trilhões. Se cresce a 2%, o PIB americano soma US$ 270 bilhões anuais à sua renda; se o PIB da China cresce a 11%, acrescenta US$ 330 bilhões. A Índia cresce a 8,4%; a Rússia, a 6,7%; a Turquia, a 6,0%; a Indonésia, a 6,3%; Cingapura, a 6,2%; e o Brasil, a 4,6% (projeções da revista Economist).

Outra novidade, os emergentes já dependem menos do mercado consumidor dos ricos para garantir a expansão econômica. Só a China incorpora a cada ano 40 milhões de bocas (mais do que uma Argentina) a seu mercado de trabalho. Aqui no Brasil, quase todos os dias um integrante da equipe econômica e o próprio presidente Lula lembram o distinto público que o consumo vai crescendo à velocidade de 7%.

Ao longo da segunda metade do século 20, eram os países ricos que tinham de emprestar recursos para os pobres para livrá-los da quebradeira. Hoje, acontece o contrário. Na medida em que são detentores de vastas reservas, os emergentes (Brasil entre eles) tornaram-se credores líquidos dos países ricos, especialmente dos Estados Unidos, pois esses recursos estão aplicados predominantemente em títulos do Tesouro americano (T-Bonds). Há anos a população dos Estados Unidos deixou de poupar. Para manter a economia de pé, precisam importar poupança. Para cobrir seu rombo em conta corrente, precisam garantir a entrada de US$ 3 bilhões a cada dia útil, recursos que lhes são fornecidos, outra vez, pelos emergentes.

Viradas assim não ficam só nisso. Conseqüências geopolíticas virão a galope. Falta saber quais serão.

15/09/2007 - 10:17h Algo melhorou

Celso Ming

O Estado de São Paulo (para assinantes)

Para melhorar de vida, as pessoas são capazes de tudo. Na versão do dramaturgo inglês Christopher Marlowe (século 16), o Doutor Fausto, símbolo do homem, vendeu a alma ao Diabo em troca de três coisas: comer até fartar-se, vestir roupas finas e voar entre as estrelas.

Mas Fausto quase nunca valoriza o que já obteve. Tem uma enorme propensão a lamentar-se por ainda não ter conseguido tudo. Por isso é preciso lembrá-lo de quanto progrediu.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) faz o inventário anual da trajetória do Fausto brasileiro. O levantamento de 2006 mostra notórios avanços, embora sempre se possa dizer que nenhum dos grandes objetivos originais esteja perto de ser alcançado. Comparado com o padrão da Dinamarca, de onde acaba de sair o presidente Lula, o brasileiro continua subalimentado; ainda se veste mal e porcamente; e só mesmo em sonhos e nas novelas de TV se sente voando entre as estrelas. Mas já não dá para sustentar que os resultados da Pnad não passam de propaganda do governo.

Em 2006, o poder aquisitivo do trabalhador brasileiro aumentou 7,2%. O rendimento médio por família (domicílio) passou de R$ 1.494 em 2004, para R$ 1.687. Só no ano passado, cresceu 7,6%. E pormenor importante: foram os mais pobres que melhoraram mais. Isso tem sim a ver com o reajuste do salário mínimo, que foi de 16,7% no ano passado. Mas esse avanço só foi possível graças à derrubada da inflação.

Um notável número de economistas brasileiros que se dizem identificados com as causas dos mais pobres sustenta que é preciso ser tolerante com inflação para beneficiar o crescimento econômico. Fazer o contrário, dizem eles, é fazer o jogo dos neoliberais e dos “rendeiros”, os que vivem de aplicações de capital. Não lhes entra na cabeça que a primeira e principal vítima da inflação são os mais pobres, que não têm defesa contra a desvalorização da moeda. E que o melhor que se pode fazer para ajudar na vida do povão é garantir a estabilidade.

A novidade é que os políticos parecem ter entendido isso mais rapidamente do que esses economistas. Vai ficando claro – não só para o presidente Lula – que não há melhor cabo eleitoral do que uma política econômica vitoriosa no controle da inflação.

Outra revelação da Pnad é a de que, só em 2006, cresceu 4,7% o número de trabalhadores com carteira de trabalho assinada. De cada 5 novos empregos, 3 foram no mercado formal, com inevitável impacto positivo para as contas da Previdência Social.

Há outros progressos: queda do analfabetismo, melhora do nível de educação, redução do trabalho infantil, etc. Em compensação, a população está ficando mais velha, a taxa de fecundidade está caindo e isso traz problemas novos. Está cada vez mais perto, por exemplo, o dia em que será preciso ter menos escolas e mais lares para os velhinhos.

Convém pinçar mais dois dados de impacto. Em 2005, 71,8% dos domicílios tinham telefone; em 2006, já eram 78,8%. Em 2001, só 12,6% dos lares contavam com computador; no ano passado, já eram 22,4%. São passos importantes para o brasileiro que não abre mão de um dia poder voar entre as estrelas.

07/09/2007 - 11:03h Recaída

Celso Ming para O Estado de São Paulo (para assinantes)

O assunto do dia não é o novo corte dos juros, mas a recaída inflacionária.

Ainda é preciso observar melhor esse movimento para identificar a natureza da estocada. Mas dá para dizer que os indícios são de que a forte procura por bens e serviços está permitindo que a inflação de demanda ponha a cabeça para fora da toca.

Os economistas identificam dois tipos de inflação. O primeiro é o de custos. Simplificadamente, é a alta de preços que decorre de fatos sazonais ou fortuitos. É geada que estraga a produção de verduras; um furacão, como o Katrina, de 2005, que desorganiza a produção de petróleo numa região importante; a seca que quebra a safra. Essa inflação não tem a ver com o volume de dinheiro da economia e, portanto, não pode ser rebatida com alta dos juros. Ocorre por elevação dos custos ou queda da oferta.

O outro tipo é a inflação de demanda. Aparece quando o poder aquisitivo do consumidor aumenta mais do que a oferta de bens e serviços. Agora, por exemplo, a massa salarial está se expandindo mais do que o PIB. Pelas contas do Dieese, vem crescendo a 7,6% ao ano. Em parte, isso é efeito do aumento de 8,6% do salário mínimo deste ano (de R$ 380). O crédito para pessoas físicas está se expandindo a 25%. E os juros, em queda desde setembro de 2005, despejam cada vez mais dinheiro na economia. A expansão do consumo está perto dos 10%. A indústria de veículos festeja vendas 27,4% maiores neste ano.

Um sinal de alerta saiu dia 5, com a divulgação de um avanço surpreendente do Índice Geral de Preços – Disponibilidade Interna (IGP-DI) em agosto, de 1,39%. Este não é o termômetro oficial de inflação. Sua metodologia dá peso enorme (60%) para a evolução dos preços no atacado. Mas é aí que está o ferrão. Na ponta atacadista, em 30 dias os preços saltaram 1,96%, uma enormidade diante do 0,37% de julho.

O IPCA, este sim o índice levado em conta pela política de juros, avançou menos: 0,47%. Mas esse número aponta para dois fatos inquietantes. O primeiro é o de que, ainda que mais baixo do que o do avanço do IGP-DI, é o dobro do visto em julho (0,24%). O risco é o de que essa alta seja repassada para o custo de vida, com base na regra de que o atacado de hoje é o varejo de amanhã.

Quando se fala da ameaça de inflação, os de sempre logo disparam: “Por que essa obsessão com uma esticadinha dos preços, especialmente quando a inflação está no seu ponto mais baixo em mais de 50 anos? Deixe que os mortos enterrem seus mortos…”

Aí tem duas coisas. A primeira é que é mais fácil matar a cobra no ovo do que no capinzal. Segunda, o governo Lula já entendeu qual é o preço de uma escapada da inflação e a recompensa eleitoral por evitá-la. Ele não vai deixar que, no ano que vem, quando serão escolhidos perto de 6 mil prefeitos, a inflação corroa o poder aquisitivo do eleitor. E isso pode implicar juros caindo mais devagar. Ou deixando de cair.

Tomara que também aqui o pessoal da Associação dos Alcoólicos Anônimos tenha razão. Dizem eles que as recaídas são parte do processo de recuperação.

12/07/2007 - 09:55h Trololó de político

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br

Se está tudo errado no câmbio, como denuncia o governador José Serra, o que então seria preciso para consertá-lo?

Descartem-se as manobras fáceis. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem alertado que ‘não é simples mudar o câmbio’. O ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, também não vende ilusões. Para ele, ‘o câmbio é problema, mas não tem solução’ – como disse alguns minutos antes do pronunciamento em contrário do governador José Serra.

O antecessor de Miguel Jorge no ministério, Luiz Furlan, lutou três anos e meio dentro do governo para mudar o câmbio e, no fim de sua gestão, concluiu, pesaroso, que ‘não há o que fazer’…

Mas Serra entende que ‘o Brasil é trouxa em política externa e vive desvario cambial’. Insiste em que a trajetória do dólar no câmbio ‘é artificial’ e que as explicações do governo – e aí entendam-se as do presidente Lula, dos ministros Mantega e Miguel Jorge e do presidente do Banco Central, Henrique Meirelles – não passam de ‘trololó para enganar quem não é economista’.

Para Serra, a atual política vai desembocar no desastre cambial. No entanto, nunca se viu confluência tão favorável. Pela primeira vez na história, o Brasil é credor líquido do resto do mundo. O balanço de pagamentos apresenta superávit pelo quinto ano seguido, inexplicável se tudo estivesse tão errado com o câmbio. As exportações seguem crescendo a 20% ao ano e as de manufaturados, mais vulneráveis à valorização do real, avançam a ritmo mais lento mas, ainda assim, inegavelmente forte, de 14,5%.

Não há quebradeira na indústria. O setor de veículos cresce a 22% ao ano. O consumo segue a 6% e o avanço do setor produtivo, que tende a ser superior a 4,5% neste ano, parece mais sustentável do que nos tempos de desvalorização diária do real.

O governador não adianta o que seria preciso para desentortar o câmbio. Mas suas críticas à política monetária (’uma insanidade’) são uma pista do que faria se estivesse no comando: derrubaria os juros, sem-cerimônia. O governador aparente quer que os juros sejam acionados prioritariamente para reduzir a entrada de dólares, dentro do pressuposto de que o grande responsável pela valorização do real é a especulação: os recursos vêm para cá de países onde os juros são baixos para serem convertidos em reais e tirar proveito dos juros altos aqui dentro. Para dizer o mínimo, isso exigiria forte guinada na política de metas de inflação.

Mas Serra não se limitaria a usar os juros para derrubar o câmbio. Anuncia uma das providências complementares: a volta da cobrança do Imposto de Renda nos juros pagos aos tomadores estrangeiros de títulos públicos, como se essa isenção fosse fator relevante de afluxo de dólares.

É provável que defenda outras mudanças, as mesmas que são preconizadas por quem pensa como ele: o controle na entrada de capitais de curto prazo e a imposição de um Imposto de Exportação (confisco) sobre exportações de produtos primários (minério de ferro, matérias-primas alimentícias e metálicas e, provavelmente, etanol).

Mas esse não é trololó de economista; é de político de olho no Palácio do Planalto.

O Estado de São Paulo (para assinantes)