04/09/2008 - 17:04h As divas de Manuel Puig

Las divas de Manuel Puig

Sus divas fueron dos: las de carne y hueso y las películas, y a las dos, junto al mismo Manuel Puig, se les rinde homenaje en estos días.

Así es, el Complejo Teatral de Buenos Aires y la Fundación Cinemateca Argentina arrancan mañana con un ciclo que promete: Los ojos de Manuel Puig. Tendrá lugar en la Sala Leopoldo Lugones del Teatro San Martín (Avenida Corrientes 1530) hasta el 14 de septiembre.

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Greta

El ciclo incluye diez films del período clásico de Hollywood que sirvieron de disparador al genial Manuel Puig para escribir su novela The Buenos Aires Affair, publicada por primera vez en 1973.
“Desde chico, Puig desarrolló una cinefilia voraz que se veía sujeta a los títulos -en su gran mayoría películas hollywoodenses- estrenados en su General Villegas natal.

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Bette

Este ‘cine de la transparencia’ y la excelente memoria del escritor para recordar escenas y diálogos -afirma el crítico Luciano Monteagudo, director de la Sala Lugones- fueron utilizados por Puig para encabezar cada capítulo esta novela tan controvertida y perseguida por la censura de su época”.

The Buenos Aires affair fue el desencadenante para el exilio definitivo del escritor.

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Rita

Como complemento del ciclo se proyectará también Felices juntos rodada enteramente en Buenos Aires por Wong Kar Wai, quien afirma haberse basado en la novela de Puig para su realización.

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Marlene

El ciclo es, además, una excusa oportuna para celebrar los 35 años de la edición de esta obra clave y de ruptura en la literatura argentina contemporánea.

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Joan

Toda la info sobre el ciclo la podés encontrar aquí.

21/08/2008 - 21:20h Antonio Candido: “Preservo convicções socialistas”

Claudio Leal/Terra Magazine
Intelectual do ano, Antonio Candido reafirma suas convicções políticas
Intelectual do ano, Antonio Candido reafirma suas convicções políticas

Antonio Candido

(Discurso do crítico literário Antonio Candido, 90 anos, ao receber o prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE), no Salão Nobre da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo, na noite de 20 de agosto de 2008). Fonte Terra Magazine.

Agradeço as palavras do embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, detentor do Prêmio Juca Pato ao qual tenho o privilégio de suceder como agraciado pela mesma honraria. Agradeço também muito à União Brasileira de Escritores, representante dos confrades que me consideraram merecedor deste simpático e famoso troféu, declarando a minha gratidão a cada um desses confrades.

Leia também:
» Antonio Candido: “Não dou entrevistas, nem leio obras novas”

O troféu Juca Pato tem para mim grande significado, inclusive porque as entidades que o criaram foram importantes na minha carreira intelectual. Uma é sucessora da Associação Brasileira de Escritores, a outra é sucessora da Folha da Manhã, e a ambas se prende a fase inicial da minha atividade de crítico literário e de intelectual participante, como se dizia naquele tempo.

Em 1942 a Associação Brasileira de Escritores foi fundada no Rio de Janeiro com uma finalidade ostensiva e outra implícita. Ostensivo era o intuito de lutar pela regularização dos direitos autorais, então muito desrespeitados. Implícito era o ânimo de lutar contra a ditadura do Estado Novo e seu duro arrocho em relação à liberdade de pensamento e de expressão. Eu estava presente ao encontro fundador da seção paulista, do qual saiu a deliberação de eleger Sérgio Milliet seu presidente, pois Mário de Andrade, que também estava ali, recusou o cargo, ficando discretamente como vice. A mim, jovem principiante, foi atribuída a função de 2o. secretário, não devido a mérito pessoal, mas como reconhecimento de um grupo de moços ao qual eu pertencia e estava se lançando na vida intelectual com a nossa revista Clima, cujo título passou a nos designar: éramos o “grupo de Clima”.

Na seção paulista da ABDE, sigla com a qual a Associação ficou famosa, participei da organização e da realização do histórico Primeiro Congresso Brasileiro de Escritores, que teve lugar em São Paulo no mês de janeiro de 1945 e foi um movimento significativo de oposição ao regime, que aliás começou a se dissolver no mês seguinte. Mais tarde, em 1949, fui eleito presidente da seção de São Paulo e nessa qualidade presidi o Segundo Congresso Paulista de Escritores, realizado naquele ano em Jaú. A declaração de princípios deste congresso afirmou que o dever básico do escritor é a fidelidade à sua vocação, não a obediência a imperativos externos, aos quais poderia, no entanto, servir como intelectual em sentido amplo. Isso era uma retificação à tendência demasiado política justificada em tempo de ditadura. Pouco depois esse problema gerou a cisão que dividiu a entidade, recomposta felizmente mais tarde com o nome atual.

Quanto à outra instituidora, menciono que em 1943 tornei-me o que se denominava então “crítico titular” do jornal Folha da Manhã, que mudara de proprietário e passava por uma reforma modernizadora. Ligado aos autores desta era o meu grande amigo e companheiro da revista Clima Lourival Gomes Machado, que se encarregou da crítica de arte. Como os reformadores queriam estabelecer um rodapé semanal de crítica literária, ele me indicou para esta tarefa de grande responsabilidade. O meu nome foi aceito e eu, verde principiante, assumi o compromisso de fornecer semanalmente um artigo de cinco a seis laudas tamanho ofício a dois espaços sobre os livros da hora. Foi nessa tarefa, não na Universidade, que me formei como crítico, pois sou licenciado em Ciências Sociais, não Letras, e naquele tempo dava aulas de Sociologia. O meu tirocínio foi portanto adquirido dentro da tradição franco-brasileira do jornalismo, o que me ensinou antes de mais nada a procurar clareza e simplicidade na escrita. Sou, portanto, um crítico de jornal que passou mais tarde ao ensino da literatura, o contrário do que é freqüente em nossos dias.

Aquele momento era de intensa politização dos intelectuais, segundo o espírito predominante no decênio que sucedeu ao movimento armado de 1930. Eu embarquei nesse rumo, politizando talvez um pouco demais a minha atividade crítica, mas correspondendo assim ao ânimo de militância que era o dos intelectuais contrários à ditadura do Estado Novo. Afinado com as tendências radicais do momento, assumi então posições socialistas que não abandonei mais e continuam a nortear as minhas convicções relativas à necessidade de transformar profundamente a nossa sociedade desigual e mutiladora.

Mas não posso ir adiante sem mencionar que na redação da Folha da Manhã conheci e vi muitas vezes ninguém menos que o inventor do popular Juca Pato, personagem pitoresco que dá o nome a este prêmio. Refiro-me a Benedito Carneiro de Bastos Barreto, famoso sob o pseudônimo de Belmonte, escritor e desenhista de alto valor, um dos mais altos praticantes da caricatura no Brasil. Era um homem discreto e cortês, de pouca fala, mas muito simpático. Naquela altura participava da luta ideológica por meio de charges mordazes contra o nazismo.

Tendo mencionado dois motivos que contribuem para fazer deste prêmio uma alegria para mim, resta mencionar como terceiro o fato de ser ele conferido neste local. Estudei na Faculdade de Direito durante sete anos, dois no chamado “pré-jurídico”, designação corrente na 1a. Seção do Colégio Universitário Anexo à Universidade de São Paulo, mais cinco no bacharelado, sendo que os três primeiros de maneira assídua e os dois últimos com muita ausência, acabando por não prestar em segunda época os exames finais, segundo o sistema da época e segundo também a minha intenção.

Portanto sou quase bacharel e sempre me senti uma espécie de aluno permanente que ainda não cumpriu a tarefa, mas tenho a honra de ser bacharel do XI de Agosto, grau que me foi conferido solenemente por uma turma de formandos. Por isso trago neste momento na lapela o distintivo do Centro, quase igual ao que, em seguida ao trote de 1939, depois de raspado o cabelo e pagas as devidas taxas, recebi junto com a flâmula e o diploma de burro em bom latim macarrônico, diploma que conservo como antídoto salutar contra eventuais assomos da vaidade…

Foi nesta Casa que comecei a militar contra as ditaduras, como um dos fundadores do Partido Libertador, surgido aqui em 1939, quando eu estava no primeiro ano do bacharelado, e que não deve ser confundido com o de âmbito nacional de mesmo nome, criado sob a inspiração de Raul Pilla. Mais tarde fui também um dos fundadores da Frente de Resistência, formada quando eu estava no 5o. ano por estudantes liberais e socialistas desta e de outras faculdades, que desenvolveu uma atividade ponderável apesar dos apertados limites impostos pela censura e a repressão.

O que estou dizendo se refere cronologicamente aos anos de 1940, isto é, mais de meio século atrás. Portanto, os generosos confrades da União Brasileira de Escritores foram buscar um intelectual bem antigo, bem fora do tempo, para confortá-lo com esta distinção consagradora. Devo ser de fato tão antiquado, que venho sendo definido em algumas instâncias como “ilustrado”, devidamente entre aspas, e como alguém preso a uma visão de tipo teleológico da história e do pensamento. Devo esclarecer que, ao contrário do que se poderia pensar, considero esta restrição um elogio. Ela quer dizer que me mantenho fiel à tradição do humanismo ocidental definida a partir do século XVIII, segundo a qual o homem é um ser capaz de aperfeiçoamento, e que a sociedade pode e deve definir metas para melhorar as condições sociais e econômicas, tendo como horizonte a conquista do máximo possível de igualdade social e econômica e de harmonia nas relações. O tempo presente parece duvidar e mesmo negar essa possibilidade, e há em geral pouca fé nas utopias. Mas o que importa não é que os alvos ideais sejam ou não atingíveis concretamente na sua sonhada integridade. O essencial é que nos disponhamos a agir como se pudéssemos alcançá-los, porque isso pode impedir ou ao menos atenuar o afloramento do que há de pior em nós e em nossa sociedade. E é o que favorece a introdução, mesmo parcial, mesmo insatisfatória, de medidas humanizadoras em meio a recuos e malogros. Do contrário, poderíamos cair nas concepções negativistas, segundo as quais a existência é uma agitação aleatória em meio a trevas sem alvorada.

É com este espírito talvez obsoleto de velho intelectual participante, como se dizia naquele tempo, que aqui estou para agradecer de coração esta desvanecedora homenagem.

Antonio Candido, 90 anos, é crítico literário, ensaísta, autor de “Formação da Literatura Brasileira”, entre outros livros. Vencedor do Prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano de 2007, é professor emérito da USP.

05/08/2008 - 10:07h Tartuffo: Berlusconi esconde seio em pintura de Tiepolo

Il tempo scopre la verità e fuga la menzogna

http://www.rositour.it/Italia/Veneto/Vicenza/Museo%20Civico_G.B.%20Tiepolo-Il%20tempo%20scopre%20la%20verit%C3%A0%20e%20fuga%20la%20menzogna.jpg
Giambattista Tiepolo

http://www.lastampa.it/redazione/cmssezioni/politica/200808images/tiepolo01g.jpg

Porta-voz diz que decisão de mudar imagem evidente em entrevistas de líder italiano veio de assessores; ex-vice-ministro critica a medida

Quadro é reprodução de obra de pintor veneziano; canais do premiê exploram sexualidade, e sua vida amorosa é alvo de dúvidas

DA REDAÇÃO - FOLHA DE SÃO PAULO

Assessores do primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, mandaram cobrir o seio de uma personagem retratada numa tela do século 18, sob o pretexto de que a imagem poderia “incomodar” telespectadores ou leitores de jornais.

O episódio, qualificado de “uma loucura” por Vittorio Sgarbi, vice-ministro da Cultura em um gabinete anterior do premiê, foi o grande assunto na Itália no fim de semana.

O quadro é uma cópia de “O Tempo que Desvenda a Verdade”, pintado provavelmente em 1743 pelo veneziano Giovanni Battista Tiepolo (1696-1770).

Foi o próprio Berlusconi quem o escolheu para decorar o salão em que recebe a mídia no palácio Chigi, em Roma, luxuosa sede do governo italiano.

O jornal “La Stampa” notou que, durante as entrevistas coletivas, o seio nu e arredondado da personagem alegórica “pairava sobre a calva do premiê como se fosse uma auréola”.

Apesar de o patrimônio histórico do país reunir milhares de telas e esculturas em que a nudez é retratada sem nenhum preconceito e com a maior naturalidade artística, o porta-voz de Berlusconi, Paolo Bonaiuti, disse ao “Corriere della Sera” que a decisão partiu “de assessores responsáveis pela imagem do primeiro-ministro”.

Sem moralismos

O chocante, na história, é que o direitista Berlusconi não tem seu comportamento associado ao conservadorismo com relação à sexualidade. As emissoras comerciais de TV de que é proprietário têm programas de variedade em que bailarinas se apresentam quase nuas da cintura para cima. O premiê, lembra o jornal britânico “Guardian”, também não tem travas na língua ao conversar em reservado sobre suas aventuras amorosas de juventude.

O mesmo jornal diz que, no mês passado, Berlusconi, de 71 anos, cancelou uma entrevista coletiva em que seria inevitavelmente indagado sobre suas relações com a ministra da Igualdade, Mara Carfagna, 34. Ela é uma lindíssima morena, foi dançarina e apresentadora numa das TVs do atual primeiro-ministro. O marido de uma outra apresentadora de TV o está processando, sob o argumento de ter sido demitido da emissora depois que Berlusconi assediou sua mulher, versão que os advogados do premiê julgaram fantasiosa.

Mesmo que tudo não passe de pura maldade -que não é politicamente explorada pela oposição de esquerda-, o fato é que pintar uma redinha sobre os seios fartos e arredondados da personagem de Tiepolo foi qualificado de censura.

“La Stampa” comparou os assessores do premiê a Daniele Da Volterra, pintor medíocre que cobriu o sexo dos personagens de “O Julgamento Final”, parte das cenas bíblicas retratadas por Michelangelo na capela Sistina, no Vaticano. Volterra, lembra o jornal italiano, tinha por apelido “Braghettone”, o que significa “cuecão”.

Com agências internacionais

21/07/2008 - 12:58h Olimpíadas com arte

Veja também aqui no blog
Conhecido como 798, este é o bairro de Pequim que reúne o maior número de artistas, estúdios e galerias e parece praticamente imune à rígida censura do país

Cláudia Trevisan - O Estado de São Paulo


A meteórica ascensão econômica da China se replica no mundo das artes plásticas, no qual a produção contemporânea do país bate sucessivos recordes de preços no mercado internacional. O bairro que reúne o maior número de estúdios e galerias de Pequim se transforma em um dos principais pontos turísticos da cidade, depois da Grande Muralha e da Cidade Proibida.

Conhecido como 798, o distrito artístico da capital chinesa é um enorme território livre de criação - ou pelo menos mais livre que seu entorno, submetido à estrita censura chinesa. O local era um parque industrial construído nos anos 50 com ajuda de arquitetos da ex-Alemanha Oriental, que conceberam os edifícios no melhor estilo Bauhaus, simples e funcionais.

Várias fábricas identificadas por números se dedicaram durante anos à produção de equipamentos eletrônicos para as Forças Armadas. Desativadas nos anos 90, muitas delas começaram a ser ocupadas por artistas no fim da década, o que transformou a região em uma versão chinesa do SoHo nova-iorquino.

A que tinha o número 798 foi recriada como um dos primeiros locais de exposição e acabou emprestando seu nome a todo o distrito. Em suas paredes, ainda estão os slogans da Revolução Cultural (1966-1976), que pediam longa vida ao comandante Mao Tsé-tung (1893-1976), escritos em ideogramas vermelhos.

As galerias seguiram os artistas e atrás deles foram restaurantes, bares, livrarias e lojas. No ano passado, o distrito 798 recebeu 1,5 milhão de visitantes, número três vezes maior do que em 2005. Livre das amarras ideológicas do passado, a arte contemporânea chinesa floresceu a partir de meados dos anos 80, pelas mãos de artistas que nasceram ou cresceram durante a Revolução Cultural, o movimento que levou ao extremo a idéia de que a criação deveria estar submetida aos interesses da construção do socialismo.

A arte contemporânea chinesa começou a ganhar o mundo na década atual, com exibições na Europa e nos Estados Unidos e colecionadores dispostos a pagar preços cada vez mais altos por seus trabalhos.

O caso mais emblemático da ascensão meteórica dos chineses no mercado internacional é a obra Execução, de Yue Minjun, de 46 anos. Inspirado no massacre de estudantes na Praça Tiananmen, em 1989, o quadro foi pintado em 1995 e vendido em seguida por US$ 5 mil ao marchand de Hong Kong Manfred Schoeni. No ano seguinte, o investidor Trevor Simon desembolsou US$ 32 mil pela pintura, com a condição de não exibi-la em público durante dez anos em razão de seu tema ‘’sensível”. Em outubro de 2007, Execução foi arrematada por US$ 5,9 milhões em um leilão da Sotheby’’s de Londres, tornando-se a mais cara obra contemporânea chinesa vendida até então.

O recorde logo foi quebrado por Zeng Fenzhi, de 44 anos, e seu quadro Série Máscaras,1996, nº 6, vendido em maio de 2008 por US$ 9,7 milhões, o mais alto preço já pago por uma obra de arte contemporânea asiática.

A cifra foi o triplo da estimativa inicial de US$ 3,2 milhões feita pela Christie’’s, responsável pelo leilão. O quadro mostra oito jovens de braços dados, com máscaras sorridentes e os lenços vermelhos no pescoço, típicos da Revolução Cultural.

Os artistas chineses que nasceram na década de 60 tentam captar o turbilhão de mudanças no qual o país mergulhou nos últimos 30 anos e refleti-lo de diferentes maneiras em suas criações. Muitos deles sofreram influência decisiva do massacre de estudantes na Praça Tiananmen, em 1989, que enterrou as aspirações por mudanças democráticas e mais liberdade alimentadas desde o início daquela década.

O resultado foi o movimento ”Realismo Cínico”, do qual fazem parte Yue Minjun e Fang Lijun, outro artista que usa figuras carecas em suas pinturas. A escola é marcada pela ironia, o desencanto e o fim do idealismo dos primeiros anos do processo de reforma e abertura da China, iniciado por Deng Xiaoping em 1978.

A memória do passado socialista está presente nos quadros de Zhang Xiaogang, que realiza séries inspiradas na estética de fotografias de família do início do século passado, mas com a maioria dos personagens vestidos com o guarda-roupa que imperou durante o maoísmo.

”Os retratos familiares mudos de Zhang Xiaogang parecem ter capturado a verdadeira essência do drama histórico, ou mesmo trauma, da construção de uma sociedade contemporânea próspera a partir das brasas de uma revolução”, diz o catálogo da Sotheby’’s sobre sua obra.

O impacto das transformações econômicas na vida de milhares de chineses é refletido nas criações de Liu Xiaodong, pintor figurativista, autor de uma longa série sobre a construção da gigantesca hidrelétrica de Três Gargantas, que inundou um trecho de 600 km de extensão e 1,1 km de largura e forçou a realocação de pelo menos 1,4 milhão de pessoas. Xiaodong estabeleceu um novo nível de preço para a arte contemporânea chinesa em 2006, quando sua obra Pessoas Recentemente Deslocadas foi vendida por US$ 2,7 milhões.

ESTRELAS CHINESAS

AI WEIWEI
Ano de nascimento: 1959

Misto de artista e agitador cultural, Ai Weiwei já realizou trabalhos de design, arquitetura, escultura, instalações, performances e foi consultor da dupla Jacques Herzog e Pierre de Meuron, arquitetos responsáveis pelo desenho do Estádio Olímpico de Pequim, batizado de Ninho de Pássaros. Ai Weiwei é diretor do China Art Archives and Warehouse, galeria voltada para a arte conceitual e experimental

ZENG FENZHI
Ano de nascimento: 1964

Bateu o recorde de preço de arte contemporânea asiática depois que seu quadro Série Máscaras, 1996, nº 6 foi arrematado por US$ 9,7 milhões em maio deste ano. A série ”máscaras” é seu mais célebre trabalho e mostra personagens dos anos 90 usando máscaras com olhos bem abertos e expressões ensaiadas e artificiais

YUE MINJUN
Ano de nascimento: 1962

Sua marca registrada são auto-retratos sorridentes (foto acima)que aparecem em todos os seus trabalhos, sejam pinturas ou esculturas. Inspirado pelo massacre de estudantes na Praça Tinanmen, em 1989, seu quadro Execução foi vendido por US$ 5,9 milhões em outubro de 2007, o mais alto preço pago por uma obra contemporânea chinesa até então. Yue integra o movimento Realismo Cínico, que surgiu depois do massacre na Praça Tiananmen, em 1989

ZHANG XIAOGANG
Ano de nascimento: 1958

Inspirados no estilo de fotos de família do início do século passado, seus quadros mostram figuras tristes e silenciosas, que evocam com suas roupas ‘’socialistas” a memória do período maoísta que a China começou a abandonar em 1978 em favor do crescimento econômico. Zhang é um dos artistas chineses preferidos pelas galerias internacionais

FANG LIJUN
Ano de nascimento: 1963

Um dos líderes do movimento Realismo Cínico, que surgiu com o sentimento de desencanto provocado pelo massacre de estudantes na Praça Tiananmen, em 1989. Seus personagens costumam ser homens carecas, com expressões ambíguas, apresentados sobre paisagens infinitas

LIU XIAODONG
Ano de nascimento: 1963

Pintor figurativista que se destacou com uma série sobre o custo humano e ambiental da hidrelétrica de Três Gargantas, que forçou a realocação de pelo menos 1,4 milhão de pessoas. Seu quadro Pessoas Recentemente Deslocadas foi vendido por US$ 2,7 milhões em 2006 e estabeleceu um novo patamar de preço para a arte contemporânea chinesa

Melhor da produção contemporânea, fora das quadras

Durante os jogos olímpicos, estão programadas exposições, performances, instalações e arte digital

Cláudia Trevisan, Pequim


Os estrangeiros que forem a Pequim para os Jogos Olímpicos terão a chance de ver a mais completa mostra de arte contemporânea chinesa já realizada em todo o mundo. Apenas no distrito 798, 27 galerias vão realizar 103 exibições no período próximo ao das competições, que começam dia 8 e terminam dia 24 de agosto.

A mostra mais representativa foi organizada pela Ullens Center for Contemporary Art (Ucca), começou no sábado e segue até 12 de outubro. Fundada no mês de novembro de 2007, a galeria reúne a coleção de arte contemporânea chinesa que o casal belga Guy e Myriam Ullens começou a construir em meados dos anos 80 e é o maior centro de exposições do 798, com uma área de 8 m². A exibição da Ucca reúne 92 trabalhos de 60 artistas e inclui performances, instalações e arte digital.

O interesse do casal surgiu quando ninguém fora da China prestava atenção à produção artística do país. Ao longo de duas décadas, eles reuniram cerca de 1.700 obras, que representam os trabalhos de diferentes gerações de artistas, em vários momentos de suas carreiras.

Desde março, a Ucca é dirigida pelo francês Jérôme Sans, co-fundador e ex-diretor do museu de arte contemporânea Palais de Tokyo, em Paris. “As exibições têm o melhor da arte contemporânea chinesa e os visitantes podem ver os artistas de milhões de dólares, mas também os talentos emergentes”, observa Robert Bernell, dono da livraria e editora Timezone8, especializada em livros de arte e criador do site www.chinese-art.com.

O 798 é o mais badalado endereço da arte contemporânea de Pequim, mas está longe de ser o único. A pioneira nessa área foi a galeria Red Gate, fundada em 1991 pelo australiano Brian Wallace em uma antiga torre de observação que integrava a Muralha de Pequim - quase toda destruída depois da Revolução Comunista de 1949. No ano passado, a Red Gate emprestou seu prestígio ao distrito 798 e abriu uma filial no local.

Na medida em que os aluguéis começaram a subir no antigo distrito industrial, alguns artistas se mudaram para uma área a cinco quilômetros de distância, chamada Caochangdi. O primeiro endereço do local foi a China Art Archives and Warehouse, dedicada à arte experimental e conceitual.

A galeria é dirigida por Ai Wewei, um dos mais importantes artistas chineses, com talento para design, arquitetura, performances, instalações e escultura. Filho do poeta Ai Qing, enviado para o campo durante a Revolução Cultural, Ai trabalhou como consultor dos arquitetos Jacques Herzog e Pierre de Meuron na concepção do Ninho de Pássaros, o Estádio Olímpico de Pequim que sediará as principais competições dos Jogos de agosto.

12/07/2008 - 21:33h Sobre o tédio

ANTONIO CICERO

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Uma pessoa que esteja sempre entediada não pode deixar de ser, em 1º lugar, entediante

EM CERTO ponto do romance “O Vermelho e o Negro”, de Stendhal, um dos personagens -o príncipe Korasoff- censura a tristeza do herói, Julien Sorel, explicando-lhe que “o ar triste não pode ser de bom tom; o que é necessário é o ar entediado. Se você está triste, há alguma coisa que lhe falta, alguma coisa que você não conseguiu. É mostrar-se inferior. Se você está entediado, ao contrário, o que é inferior é aquilo que em vão tentou agradá-lo”.
É sem dúvida por essa razão que o ar blasé é tido por muitos como sinal de superioridade.
Não vejo superioridade nenhuma na pessoa cronicamente entediada. Se alguém, para parecer superior, precisa fingir estar entediado, é porque, na verdade, se sente inferior. Seu ar entediado é uma tentativa de se vingar dessa inferioridade. Por outro lado, uma pessoa que esteja sempre ou quase sempre genuinamente entediada não pode deixar de ser, em primeiro lugar, entediante: ela é entediada exatamente porque entendia a si própria.
Refiro-me aqui, é claro, às pessoas livres, isto é, àquelas que podem dispor, em medida considerável, do seu tempo. O que digo não se aplica, por exemplo, a enfermos, a prisioneiros ou a trabalhadores forçados.
E todos nós estamos sujeitos a momentos de tédio, como, por exemplo, quando nos encontramos, sem material de leitura, numa fila de banco, ou numa cerimônia da qual, por alguma razão, não conseguimos deixar de participar.
Fora semelhantes casos, porém, quase todos os nossos tédios são, como diz o poeta Paul Valéry, “nossa criação original”. Difamar o mundo -e o mundo é sempre o mundo contemporâneo-, chamando-o de tedioso, diz muito sobre o difamador e nada sobre o mundo. Este não pode ser classificado nem de tedioso nem de interessante, pois é nele que se encontra tudo o que pode haver de interessante e de tedioso. Por isso, ele é entediante para quem é entediante, superficial para quem é superficial, profundo para quem é profundo, e interessante para quem é interessante.
Assim é que, por exemplo, com um estado de espírito oposto ao do difamador do mundo, Montesquieu anotou num caderno que quase nunca tinha tristeza, e menos ainda tédio. Na mesma página, escreveu também: “Acordo de manhã com uma alegria secreta; vejo a luz com uma espécie de arrebatamento”. Esse, sim, é um sentimento verdadeiramente superior.
Contudo, não ignoro que haja pessoas livres, com saúde, e até interessantes, que às vezes se entediam exatamente quando têm lazer, isto é, quando poderiam, por exemplo, não digo nem viajar, mas simplesmente ler um grande romance, escrever uma carta ou um poema, ou não mais que andar na rua, apreciando a paisagem ou o movimento, ou, quem sabe, a passagem dessa ou daquela promessa de felicidade. Nem ignoro que qualquer uma das atividades que acabo de citar -ou qualquer outra que se imagine- seria capaz de lhes sugerir exatamente o cúmulo do tédio. Por quê? Como é possível ser tediosa a vida de uma pessoa que dispõe do seu tempo?
Creio que a resposta é que o tédio costuma acometer qualquer um que tenha orientado tudo na sua vida por uma única causa final.
A pessoa para quem o tédio se dá desse modo é aquela que tem um interesse obsessivo por uma só coisa. Nesse caso, encarando todas as demais coisas como meros caminhos ou obstáculos para a consecução do seu objetivo, ela as destitui de qualquer interesse intrínseco.
À medida que, em vez de facilitar o avanço dela rumo a esse ponto final, algo possui uma espessura e opacidade própria, à medida que exige atenção para si mesmo, passa a ser um obstáculo. Sendo assim, o tempo que, a contragosto, tal pessoa é obrigada a lhe dedicar, passa a ser um tempo de desvio, tempo que gostaria de ver passar o mais rapidamente possível, abrindo-lhe novamente caminho para a retomada da corrida rumo à finalidade última. Tal é o tempo do tédio, que ela tenta “matar”, como se o tempo não constituísse a própria substância da vida.
O ponto final pode ser, por exemplo, uma paixão devoradora, que atropele tudo o mais. Digamos que uma pessoa vá a uma festa esperando ver o objeto de sua paixão e, lá chegando, não o veja. Então a festa que, não fosse por essa frustração, poderia ser uma delícia, torna-se, para ela, o mais puro tédio. Sem ganhar o objeto da paixão, ela perde o mundo. Eis uma das razões pelas quais tantos filósofos -inclusive Epicuro, que elogiava o prazer- apreciam o amor e a amizade, mas desconfiam da paixão.

19/06/2008 - 10:27h “Nunca vi isso em toda a minha carreira”, diz Carlos Velloso sobre decisão judicial

Sérgio Lima - 17.ago.00/Folha Imagem

O ex-presidente do Tribunal Superior Eleitoral Carlos Veloso, durante uma sessão em Brasília

CLAUDIO DANTAS SEQUEIRA - FOLHA SP

Ex-ministro do STF, o advogado mineiro Carlos Velloso, avaliou como equivocada a sentença do juiz Francisco Carlos Shintate, que considerou “propaganda antecipada” a veiculação da entrevista da ex-ministra Marta Suplicy. “É um caso inédito. Nunca vi algo parecido em toda a minha carreira.”
Além de presidir o Supremo, Velloso comandou o TSE duas vezes: de 1994 a 1996 e de 2005 a 2006. Entre outras passagens pelo tribunal, são mais de dez anos dedicados à análise da legislação eleitoral.

FOLHA - O senhor leu a entrevista de Marta na Folha?
CARLOS VELLOSO
- Sim. Não se tratou propaganda eleitoral. Aí (na entrevista) é a imprensa informando. Se ocorresse na TV ou no rádio poderia existir (o entendimento) de propaganda antecipada, mas não com relação ao jornal. TV e Rádio constituem serviços públicos, são concessões, o que não ocorre com a imprensa escrita. Essa distinção é feita no que toca o horário gratuito, tanto para partidos como para candidatos. A lei eleitoral distingue as duas mídias.FOLHA - É legítimo restringir a liberdade de informação para preservar a igualdade entre os candidatos?
CARLOS VELLOSO
- Não. Afinal, o jornal não poderia publicar entrevistas com todos os candidatos numa única edição. A segunda entrevista (com o prefeito Gilberto Kassab) prova que não há violação do princípio isonômico.FOLHA - A punição (multa) é uma forma de censura?
CARLOS VELLOSO
- Pode ser, se aplicada inadequadamente, fora da exata tipificação da pena. Se amanhã, tem-se uma edição escancaradamente favorável a um candidato, que realmente beneficie um candidato, ela não é uma forma de censura, porque estaria sendo aplicada adequadamente. O que não foi o caso.

FOLHA - A manutenção de decisões como essa poderá tolher a livre informação sobre candidatos?
CARLOS VELLOSO
- Acho que vai haver recurso e certamente os tribunais superiores vão se manifestar. O Tribunal Regional Eleitoral, o Tribunal Superior Eleitoral. E considerando que liberdade de expressão é matéria constitucional, isso poderá chegar ao STF.

18/06/2008 - 11:35h Porque a censura?

Estas entrevistas na Folha de São Paulo e na Veja São Paulo são condenadas pela justiça eleitoral

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Esta entrevista de Gilberto Kassab na Folha de São Paulo não é questionada pela justiça eleitoral

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E esta entrevista de Geraldo Alckmin, também na Folha de São Paulo não é questionada pela justiça eleitoral

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Porque?

18/06/2008 - 10:32h Juiz proíbe entrevistar candidato. Para Saulo Ramos, decisão é totalmente equivocada e fruto de ignorância

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Magistrado pune jornais e Marta Suplicy e provoca forte reação de juristas

Tatiana Farah e Carolina Brígido - O GLOBO

Ojuiz da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, Francisco Carlos I. Shintate, condenou ontem a “Folha de S.Paulo” e a revista “Veja São Paulo” por propaganda eleitoral extemporânea pela publicação de entrevista com a ex-ministra do Turismo e ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy (PT), no último dia 4. O juiz entendeu que, como Marta é pré-candidata a prefeita pelo PT, a entrevista fere a lei eleitoral. A decisão causou protestos de juristas e entidades jornalísticas, que viram na medida uma forma de censura e ameaça à liberdade de imprensa.

Cada veículo foi condenado a pagar multa de R$ 21.282. A ex-ministra foi multada em R$ 42.564. O juiz acolheu as representações contra a Folha da Manhã S/A, empresa que publica a “Folha”, e a Editora Abril, que publica a “Veja”, movidas pelo promotor Eduardo Rheingantz. Para Shintate, as reportagens “exorbitaram do mero interesse jornalístico, exercida a liberdade de informação de modo inadequado, a ponto de caracterizar propaganda eleitoral extemporânea”.

O juiz Shintate argumenta que o princípio constitucional da liberdade de imprensa colide com a igualdade dos candidatos: “A publicação de entrevista em mídia escrita poderia violar a igualdade entre os pré-candidatos ao permitir que um deles expusesse, antes dos demais e fora do período permitido, sua pretensão de concorrer ao cargo, sua plataforma de governo, enaltecendo suas qualidades e realização passadas, criticando as ações do atual governo e imputando qualidades desfavoráveis aos adversários”.

O advogado da “Folha” Luís Francisco Carvalho Filho informou que vai recorrer: — A expectativa é que a decisão seja modificada no Tribunal Regional Eleitoral (TRE). Considero a sentença absurda. Ela transforma o período eleitoral em um período de exceção, em que não existe mais liberdade de imprensa.

Segundo o advogado, a “Folha” já havia entrevistado o pré-candidato Geraldo Alckmin (PSDB), ex-governador de São Paulo, quando ele decidiu se candidatar. No sábado, o entrevistado foi o prefeito Gilberto Kassab (DEM).

— As entrevistas são realizadas de acordo com o interesse jornalístico. A única questionada na Justiça foi esta. Confundir entrevista com propaganda é elementar. A entrevista questiona Marta criticamente — disse o advogado.

Para ele, o problema é a forma como a Justiça Eleitoral vê os eleitores: — A Justiça Eleitoral trata o eleitor como incapaz.

Quer, num período em que deveria existir maior liberdade de manifestação, que os órgãos de imprensa sejam limitados no seu exercício do direito de informar. Uma representação como essa ser acolhida, nunca vi acontecer. Foi uma surpresa ruim. Acreditamos que seja revertida no TRE. Do contrário, é uma decisão muito perigosa para a liberdade de imprensa.

A Abril afirmou que não contrariou a lei, que vai recorrer da decisão e que continuará a publicar entrevistas com os pré-candidatos a prefeito.

“Trata-se de material jornalístico, de interesse público, conforme tradição que vem se repetindo nos anos eleitorais por toda a mídia brasileira, durante o presente regime democrático.

Mesmo durante os anos do regime de exceção inaugurado em 1964 não se privou o cidadão de informações relevantes sobre os candidatos a cargos eletivos”, disse a Abril em nota.

Presidente do TSE pede cuidado a juízes e jornais

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Carlos Ayres Britto, recomendou que juízes eleitorais tomem cuidado para não pôr em risco a liberdade de informação ao condenar jornais e revistas pela publicação de entrevistas com pré-candidatos. Evitou comentar a decisão que puniu os veículos e Marta.

— A Justiça Eleitoral deve tomar cuidado com esse tipo de questão para não colocar em risco o direito à liberdade de informação, que, no Brasil, tem o mais alto lastro constitucional. Traduz o direito de informar, se informar e ser informado.

A imprensa é quem melhor cumpre esse papel.

O ministro afirmou que, neste caso, a Justiça deverá analisar se houve excesso da imprensa ao divulgar pontos positivos sobre Marta. E lembrou que nenhum órgão de imprensa está proibido de entrevistar pré-candidatos.

— É preciso examinar se o jornal se conteve nos limites da informação ou enveredou no caminho da propaganda antecipada. Não está proibido fazer entrevistas com supostos candidatos.

Mas é preciso que a entrevista não traduza propaganda eleitoral. O candidato pode transmitir idéias. O que ele não pode é antecipar plataforma de governo. É muito delicado — ponderou.

Para ele, quando um candidato faz muita propaganda de si mesmo, o jornalista deveria cortar parte da entrevista, sem prejudicar o conteúdo: — O jornal pode podar um pouco a entrevista sem adulterá-la, para não incidir no risco de promover propaganda eleitoral antecipada.


Entrevista não é propaganda’
Para Saulo Ramos, decisão é totalmente equivocada e fruto de ignorância

SÃO PAULO. “Desde quando entrevista em jornal é propaganda eleitoral?”. A pergunta é do ex-ministro da Justiça Saulo Ramos. O jurista de 78 anos, autor de “Código da vida”, protestou ontem contra a decisão do juiz eleitoral de São Paulo: — É uma rapaziada (juízes eleitorais) que não estuda bem o Direito. Entrevista em jornal não é propaganda eleitoral nem antes nem depois da lei (eleitoral). A liberdade de expressão do jornal é total. Porque a liberdade de expressão garantida na Constituição não tem essa limitação de lei de propaganda.

Propaganda é outra coisa. Propaganda é quando o cigarro faz.

Uma entrevista para saber as idéias de uma pessoa, embora ela seja política, ou no futuro seja candidata, não significa propaganda eleitoral.

Jurista acredita que TRE reformará sentenças Para Saulo Ramos, as representações do Ministério Público Eleitoral de São Paulo e as sentenças do juiz da 1aZona Eleitoral não são apenas uma ameaça à liberdade de imprensa: — É um equívoco mesmo. É falta de estudo. Eles assistem a muita televisão e lêem poucos livros.

É uma questão de senso comum.

Até os leigos sabem disso.

Entrevista não se confunde com propaganda. Pode difundir o candidato, mas não é propaganda — disse ele.

O ex-ministro crê que as sentenças serão reformadas no Tribunal Regional Eleitoral (TRE): — Não há dúvida disso.

Saulo Ramos deixa ainda um conselho aos jornalistas: — Não tem nada (de censura).

Usem a liberdade como quiserem, respeitando, é claro, o direito à honra e à privacidade.

A liberdade de imprensa não deve se intimidar.

Ela está muito bem assegurada na Constituição.

A decisão da Justiça Eleitoral também foi criticada pelo diretor-executivo da Transparência Brasil, Claudio Weber Abramo, para quem o juiz auxiliar da 1aZona Eleitoral de São Paulo, Francisco Carlos I. Shintate, teve uma interpretação “bastante estrita” da lei, assim como o Ministério Público Eleitoral, que apresentou as denúncias contra a “Folha de S.Paulo” e a “Veja São Paulo”.

— Não é crível que o jornal e a revista tenham tido a intenção de favorecer alguém.

Tudo isso me parece uma coisa completamente descabida. É um mecanismo para dificultar o acesso das pessoas a informações sobre os pré-candidatos — disse ele.

Claudio Abramo analisou pontos diferentes da sentença do juiz Shintate, que afirma que a entrevista foi extemporânea (fora de época) e, ao mesmo tempo, não teria tratado os candidatos com igualdade.

“É necessário ter bom senso, ou, pelo menos, senso mínimo” Nas duas situações, o juiz diz que a entrevista é uma “típica propaganda direta (ausente apenas a indicação do número da candidata), explícita e extemporânea, dirigida a todos os eleitores”.

— Se era para saber se os précandidatos seriam tratados igualmente, seria o caso de a Justiça esperar um pouco para ver se os demais candidatos seriam entrevistados ou não. Mas o problema é que a entrevista está sendo tratada como propaganda.

É necessário ter bom senso, ou, pelo menos, senso mínimo — disse Abramo.

Ele apontou diferenças no comportamento da Justiça Eleitoral: — Essa medida contra a imprensa vem ao mesmo tempo em que o Tribunal Superior Eleitoral não deu provimento ao que pediu o TRE da Paraíba de impedir candidatos que sejam meliantes de participar das eleições.

17/06/2008 - 19:36h ANJ critíca decisão da justiça de acolher representação do MP contra Folha, Veja e Marta

“A Associação Nacional de Jornais (ANJ) protesta com veemência contra a decisão do juiz auxiliar da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, Francisco Carlos Shintate, de acolher representações propostas pelo Ministério Público contra a Folha de S.Paulo e a “Veja”, em função de entrevistas concedidas pela pré-candidata a prefeita de São Paulo Marta Suplicy.

A decisão do juiz de multar os veículos de comunicação constitui uma clara violação ao direito constitucional da liberdade de expressão. Não é possível considerar como propaganda eleitoral aquilo que, obviamente, é matéria jornalística. Isto é subestimar a capacidade de discernimento dos leitores e dos cidadãos. Não é possível também, em desrespeito ao que determina a Constituição e ao espírito de um regime democrático, determinar aquilo que a imprensa pode ou não publicar. Isto é censura.

A ANJ espera que a Justiça Eleitoral reveja essa absurda decisão. Se mantida, estará decretando o fim da liberdade de imprensa.

Brasília, 17 de junho de 2008
Júlio César Mesquita
Vice-Presidente da ANJ
Responsável pelo Comitê de Liberdade de Expressão.”

17/06/2008 - 15:41h Ameaça à democracia

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‘A imprensa só é boa porque tem liberdade’

Historiador diz que representação por entrevista com Marta Suplicy significa grave ameaça à democracia

O GLOBO ENTREVISTA

Marco Antonio Villa

Para o historiador Marco Antonio Villa, se a Justiça acolher a representação do Ministério Público Eleitoral que classifica como propaganda eleitoral uma entrevista da ex-ministra Marta Suplicy concedida à “Folha de S.Paulo” no início deste mês, será um sinal de que “acabou a liberdade de imprensa” no país. Leitor dos principais jornais brasileiros, além dos regionais do Nordeste, Villa avalia que a imprensa “não precisa de tutela” e que tampouco os leitores brasileiros dariam uma chancela à imprensa sem leitura crítica.
Professor de história da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), autor do livro “Jango, um perfil (1945-1964)” e das coleções de história do Instituto Teotônio Vilela (1999-2001), Marco Antonio Villa disse ao GLOBO acreditar que a representação movida contra a “Folha” não deverá ser julgada procedente pela Justiça. Marta é pré-candidata a prefeita, e o Ministério Público Eleitoral quer punir o jornal por entrevistála antes da abertura oficial da campanha.

Tatiana Farah
SÃO PAULO

O GLOBO: Qual a sua opinião sobre a representação movida contra a “Folha”?

MARCO ANTONIO VILLA: É um verdadeiro absurdo. É bater de frente com a liberdade de imprensa e com o direito do cidadão de ser devidamente informado em relação a sua opção para uma possível candidatura à prefeitura, ao governo do estado, à Presidência da República.Se começar a fazer limitações em relação a isso, o perigo é, se isso virar jurisprudência, em 2010 a imprensa passar a ter um papel extremamente limitado, o que é danoso para a democracia.

A imprensa brasileira tem sido vítima de tentativa de censura de vários setores.
De um setor religioso, e agora essa representação eleitoral.Isso acontece por ser um momento especial ou acontece o tempo todo?

VILLA: Isso foi uma coincidência.Especialmente porque é um ano eleitoral. As representações acabam tendo uma vinculação direta ou indireta com o processo eleitoral. Isso vai virar uma prática em anos pares. Por isso é importantíssimo um posicionamento radicalmente contrário em relação à punição.Porque pode abrir um precedente perigosíssimo. Daqui a pouco, a imprensa vai pautar suas matérias pedindo autorização ao Ministério Público, né? O direito à liberdade de imprensa está garantido na Constituição, que completa agora 20 anos.Ela (a Constituição) tem muitos defeitos, mas muitas qualidades.E uma das qualidades é justamente a garantia das amplas liberdades.

O senhor é um leitor assíduo de jornais…

VILLA: Eu leio todos. Desde pequenino. Sou tão fanático que, logo depois de aprender a ler, já estava lendo jornal.E devo minha formação, em grande parte, às leituras de jornais e revistas. Eu me lembro de reportagens de 40 anos atrás. Uso como fonte histórica, no meu trabalho.Leio os principais jornais e alguns do Nordeste, além do “El País”.

Em sua opinião, os jornais que o senhor lê, de uma maneira geral, precisam desse tipo de tutela do Ministério Público?

VILLA: Acho que o Ministério Público tem muita coisa com o que se preocupar, coisas extremamente relevantes,que ocorrem no país.
Com o que ele não deve se preocupar é justamente a imprensa. Uma das boas coisas que o país tem é a imprensa. E só é boa porque tem liberdade. Com censura, com repressão, não tem como fazer uma boa imprensa.
Causa profunda estranheza essa preocupação do Ministério Público, quando há coisas profundamente lesivas, como lesões ao erário público, aos direitos humanos.

Nesse caso foi o Ministério Público Eleitoral…

VILLA: No caso do eleitoral, tem coisas graves que envolvem as eleições. Uma coisa que chama a atenção é a apresentação das contas dos candidatos. Acho que foi o presidente do TRE em São Paulo que recentemente deu uma entrevista dizendo que não acredita naquelas prestações de contas. E uma das razões da corrupção no Brasil é a existência dos caixas dois, que financiam as campanhas eleitorais.Então, acho que, se o Ministério Público estivesse mais preocupado com isso, seria extremamente mais relevante para o país do que estar preocupado com censurar a imprensa.

O senhor avalia que o leitor brasileiro não tem senso crítico?

VILLA: Ainda não é o ideal, mas há um senso crítico por parte dos leitores, mesmo daqueles que lêem rapidamente a notícia na banca de jornal. Hoje você tem uma visão crítica em relação a isso.Achar que o leitor está simplesmente passando uma chancela em qualquer coisa que lê, sem ter a mínima criticidade, não me parece verdadeiro.

Estamos nesta fase pré-eleitoral em que ninguém é candidato de fato, mas qualquer político, dentro das especificações do TSE, pode ser. Se seguirmos com rigor a representação do Ministério Público, quem poderá ser entrevistado, afinal?

VILLA: Criou-se uma situação esdrúxula. Essa representação não tem pé nem cabeça. E parece que foi feita sem pensar no reflexo que isso vai ter não só no cotidiano da vida do repórter como, principalmente, sobre a liberdade do cidadão. Há coisas que só acontecem no Brasil. Certamente essa medida deve ser rejeitada pela Justiça.

E se passar na Justiça, se for acolhida pela Justiça Eleitoral?

VILLA: Daí acabou a liberdade de imprensa. As sedes dos jornais deveriam ser transferidas para o Tribunal Regional Eleitoral ou para o Ministério Público que cuida disso. E eles passariam a fazer os jornais.

14/06/2008 - 09:34h A promotoria está contra você

marta_coluna.jpgPLÍNIO FRAGA

FOLHA DE SÃO PAULO

RIO DE JANEIRO - A absurda, injustificada e temerária tentativa de censura do Ministério Público Eleitoral a esta Folha -ao propor representação contra o jornal por ter publicado entrevista com um dos pré-candidatos à Prefeitura de São Paulo, entendendo que nela havia propaganda antecipada- expõe uma toada autoritária. Com um discurso supostamente moralizador, normatizador e igualitarista, setores que atuam na Justiça eleitoral estão vilipendiando valores democráticos que o país construiu a partir da queda da ditadura militar. É difícil crer que ajam irrefletida ou inocentemente.
A prosperar a ação da promotoria eleitoral contra a Folha, o seu direito de informação, leitor, será cerceado. Caberia à idiossincrasia de promotores e juízes eleitorais decidir a extensão das informações que você, leitor, receberá para corretamente avaliar candidaturas, propostas, projetos, políticas públicas. Em outras palavras, é a censura das priscas eras.
A quem interessa essa ação restritiva? A entrevista questionada pela promotoria era com a petista Marta Suplicy e saiu em 4 de junho. Em 10 de maio, a Folha havia publicado entrevista com o tucano Geraldo Alckmin, que falava abertamente de sua pré-candidatura à prefeitura. Em 15 de março, havia sido a vez de Soninha Francine, pré-candidata do PPS. Hoje, é a de Gilberto Kassab (DEM). Recentemente, foram publicadas entrevistas com pré-candidatos a prefeito do Rio, como Marcelo Crivella (PRB) e Fernando Gabeira (PV), só para citar mais alguns.
Os promotores não acharam que nenhuma dessas entrevistas era propaganda antecipada? E não podiam achar mesmo, pois não eram. O jornal cumpria seu papel no debate de idéias políticas, com a pluralidade que o sistema democrático requer e o bom jornalismo exige.

13/06/2008 - 08:03h Para ABI, ação contra jornal é ”totalitária”

ANJ critica promotor que acionou veículo por entrevista

Gabriel Manzano Filho - O Estado de São Paulo

justica.jpgA decisão do promotor Eduardo Rheingantz, do Ministério Público Eleitoral em São Paulo, de representar contra o jornal Folha de S. Paulo por ter publicado uma entrevista com a ex-ministra Marta Suplicy - pré-candidata do PT à prefeitura - foi ontem considerada “uma manifestação totalitária” pela Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e “um lamentável equívoco” pela Associação Nacional de Jornais (ANJ).

“Não se pode confundir matéria jornalística com propaganda eleitoral”, disse em nome da ANJ o assessor da diretoria, Ricardo Pedreira. “O que a Folha fez foi jornalismo e não cabe punição”, acrescentou.

Pela ABI, o presidente, Maurício Azedo, afirmou que a iniciativa “atenta contra as liberdades e garantias asseguradas pelo art. 220 da Constituição”. Além disso, segundo Azedo, trata-se de “um exercício de adivinhação” da parte do promotor Eduardo Rheingantz, autor da ação. “Esse promotor se atribui poderes mediúnicos”, reagiu o presidente da ABI. “Pois Marta Suplicy nem candidata é ainda, a convenção só se realiza no dia 5. Até lá pode acontecer muita coisa.” Em sua avaliação, a idéia de que tal entrevista constitui propaganda antecipada de uma candidatura “é uma forma de censura prévia, uma coerção do direito e da liberdade de expressão, que merece ampla condenação de toda a sociedade brasileira”.

A entrevista foi publicada no último dia 4. Segundo o representante do Ministério Público, ela desobedece ao art. 36 da Lei 9.504 e ao art. 3º da resolução 22.718 do Tribunal Superior Eleitoral. Esses textos determinam que a propaganda eleitoral só é permitida após 5 de julho, quando começa a campanha eleitoral.

Para o diretor jurídico do jornal, Orlando Molina, essa ação deve ser arquivada, pois não tem fundamento. “A Folha nada mais fez do que o exercer seu dever de informar”, disse ele ao Estado. “Qualquer tentativa de impedir ou embaraçar essa atividade é censura.”

O advogado do Estado Manuel Alceu Ferreira considera a representação “um absurdo”, pois “no momento, Marta Suplicy sequer é candidata. Ela é, no máximo, uma ex-ministra”.

Idêntica reação teve o advogado Ricardo Penteado, que atua como representante jurídico do candidato do DEM, o prefeito Gilberto Kassab. “Não tem cabimento proibir tais entrevistas”, afirmou ele.

Para Penteado, “a própria instrução sobre propaganda eleitoral permite entrevistas com pré-candidatos, e até no rádio e na TV”. A propaganda, diz ele, “é constituída de juízos de valor e nada tem a ver com a divulgação de informações pela imprensa.”

12/06/2008 - 07:46h Censura a Folha e a imprensa é inadmisível

Promotoria eleitoral move ação contra Folha

Entrevista com Marta Suplicy foi considerada propaganda antecipada; jornal recorre e defende que acusação é “censura inaceitável”

Segundo Luís Francisco Carvalho Filho, advogado da Folha, artigo citado pela acusação não se aplica a jornais, só a rádio e TV

FREDERICO VASCONCELOS
DA REPORTAGEM LOCAL

A promotoria de Justiça Eleitoral ofereceu representação ao juiz da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo contra a Empresa Folha da Manhã S/A, que edita a Folha, por considerar propaganda eleitoral antecipada a entrevista concedida por Marta Suplicy, pré-candidata do PT à Prefeitura de São Paulo, aos jornalistas Renata Lo Prete (editora do Painel) e Fernando de Barros e Silva (editor de Brasil), publicada na edição do último dia 4.
Os representantes do Ministério Público entendem que a entrevista jornalística infringiu os artigos 36º da Lei 9.504/97 e 3º da Resolução 22.718 do Tribunal Superior Eleitoral. Esses dispositivos estabelecem que a propaganda eleitoral só é permitida após 5 de julho, e fixam multa, em casos de infração, de R$ 21,3 mil a R$ 53,2 mil.
“A entrevista publicada não é propaganda, é material jornalístico”, afirma a Folha, em defesa que será protocolada hoje. O jornal sustenta que “não tem e nunca teve vínculo com partidos políticos ou candidatos”, e considera a acusação “despida de fundamento e lógica”.
O artigo citado na acusação é específico para rádios e TV, não se aplica aos jornais. Não existe regra proibindo jornais de publicar entrevista ou reportagem com quem pretende disputar as eleições.
O jornal argumenta que “não há impedimento legal para a publicação de entrevistas com eventuais candidatos a prefeito de São Paulo ou de qualquer cidade do país”. O advogado Luís Francisco Carvalho Filho, que representa o jornal, afirma que a Folha “exerceu um direito e um dever: informar”. “Qualquer tentativa de embaraçar o livre exercício da atividade jornalística, como no caso concreto, é censura, e censura é inaceitável”, diz Carvalho Filho.
A Constituição assegura, diz a defesa, que “nenhuma lei poderá criar dispositivo capaz de criar embaraço à plena liberdade de informação jornalística”. “É interesse do leitor saber e é dever do jornal divulgar o pensamento das diversas forças políticas que disputarão o governo da maior cidade do país.”
O advogado Eduardo Muylaert diz que a acusação levanta hipótese que ele rejeitou, várias vezes, ao votar quando atuou como juiz do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo: “Em matéria de imprensa, prevalece o princípio constitucional da liberdade. Não se poderia impedir o jornal de criticar ou divulgar opiniões favoráveis a candidatos sem grave atentado à democracia”.
Muylaert diz que a Folha poderia, se quisesse, até apoiar qualquer candidato.
O advogado Alberto Rollo, especialista em direito eleitoral, diz que “a promotoria é capaz, mas, nesse caso, se equivoca”. Segundo Rollo, “todo jornal tem o direito de manifestar sua opinião -ao contrário do rádio e da televisão”.
Rollo diz que “o jornal tem o direito de escolher, por motivos jornalísticos, os entrevistados entre aqueles mais bem situados nas pesquisas”.
O presidente da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), Sérgio Murillo de Andrade, diz que o rigor da Justiça Eleitoral “acaba resvalando no direito constitucional da liberdade de imprensa”. “É censura, sim, e isso prejudica o cidadão, que ficaria sem conhecer os candidatos se houvesse apenas a propaganda eleitoral que, como o próprio nome diz, não é jornalismo”, afirma Andrade.
Procurado, o promotor Eduardo Rheingantz, um dos autores da ação, afirmou: “Entendemos que a entrevista foi uma infração à norma que proíbe a propaganda eleitoral antecipada”.

11/06/2008 - 16:56h Notas de Brickman

Carlos Brickman para o Observatório da Imprensa

mordaca2.jpgA Censura, mais uma vez

O jornal Agosto, de Ribeirão Bonito, SP, teve uma edição censurada por ordem judicial. Motivo: o jornal, pertencente à Associação Amarribo (Amigos Associados de Ribeirão Bonito), publicou entrevista com um dos candidatos a prefeito da cidade, escolhido por sorteio. O promotor da cidade considerou a reportagem um tipo de propaganda eleitoral antecipada, interpretação aceita pela Justiça. Não apenas a edição foi recolhida, como teve de ser retirada da Internet.

Acontece que, na mesma edição em que foi publicada a entrevista, Agosto anunciava que todos os candidatos à Prefeitura seriam entrevistados, recebendo o mesmo espaço, um por edição, sempre definidos por sorteio. Ou seja, não havia propaganda eleitoral: apenas informação, e informação do interesse da cidade.

As leis eleitorais existem e têm de ser cumpridas. Mas não podem se sobrepor à Constituição, que veda explicitamente a censura à imprensa.

trem_456.gifA imprensa boazinha 1

Um ministro quase foi crucificado pela imprensa porque comeu uma tapioca e pagou com o cartão corporativo. Outra ministra foi crucificada porque comprou um pouco menos de R$ 500,00 em produtos importados, num duty-free, e pagou com cartão corporativo. Os dois ministros mereceram as críticas: não tinham o direito de considerar o cartão corporativo governamental, criado para cobrir despesas efetuadas a serviço, como uma espécie de salário complementar.

No entanto, coisas muito mais graves estão merecendo tratamento bem mais ameno de nós, jornalistas. Investigações conduzidas pela Suíça e pela França apontam uma multinacional, a Alstom, como pagadora de uma propina de US$ 7 milhões, que lhe valeu boas vantagens nas encomendas do Metrô de São Paulo. Na época da distribuição da propina, os governadores foram Mário Covas e Geraldo Alckmin, ambos do PSDB. Alckmin, até o momento em que esta coluna foi redigida, havia escapado tranquilamente de dar entrevistas, e continuava se dedicando à luta para ser candidato à Prefeitura de São Paulo.

A atriz Kate Lyra celebrizou um bordão, há alguns anos, para definir a generosidade com que os homens, encantados com seu visual, costumavam tratá-la: “Brasileiro é tão bonzinho!” Nossa imprensa também é boazinha. Agora, o IPT, Instituto de Pesquisas Tecnológicas órgão de reputação impecável ligado ao Governo de São Paulo, informa que a famosa cratera do Metrô paulistano, que matou sete pessoas, surgiu por uma combinação de fatores, entre os quais a indevida economia de materiais, por parte das construtoras, e a falta de fiscalização do Metrô. Com exceção de alguns dias, após a posse do governador José Serra, o Metrô paulista foi comandado durante toda a construção da linha que caiu pelo governador Geraldo Alckmin.

Será que agora a imprensa buscará explicações com Alckmin, em vez de contentar-se com notícias sobre suas pretensões à Prefeitura paulistana?

tv_digital.jpgA imprensa boazinha 2

Quando o Brasil adotou o sistema japonês de TV Digital, foi-nos dito que o Japão montaria no Brasil uma grande fábrica de semicondutores, transferiria tecnologia de última geração, aproveitaria o trabalho brasileiro em seu sistema. E haveria caixas de adaptação a preço bem baixo, por volta de R$ 150.

Não houve qualquer transferência de tecnologia, até agora; a fábrica de semicondutores já foi desmentida pela indústria que a instalaria, a Toshiba; o sistema japonês continua centrado exclusivamente no Japão, sem aproveitamento de qualquer experiência brasileira; e a caixa de adaptação é caríssima.

Tudo bem, o ministro Hélio Costa foi nosso colega, é simpático, bem-falante, mas tem de explicar direitinho por que o sistema japonês até agora não funcionou no Brasil. Aliás, o presidente Lula, cuja decisão em favor do sistema japonês foi firme e rápida, também poderia nos dizer quando é que haverá TV digital no Brasil e quando é que o Japão vai entregar as compensações por ter levado tudo.

10/05/2008 - 18:46h O detetive da imagem e as fraudes visuais

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FUEGO FALSO. El milagro de la ‘Ignición fatua’, de la serie Milagros & CO. (2002)

Fotografía | Joan Fontcuberta

De paso por Buenos Aires, el fotógrafo catalán expone en esta entrevista su idea de la fotografía como “media verdad”, una herramienta tramposa pero necesaria para acceder a una realidad solo cognoscible por la mediación. Una mirada imprescindible en una época en la que hasta las guerras se justifican por “fraudes visuales”

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IMAGEN MANIPULADA. BASADA EN UNA FOTOGRAFÍA TOMADA POR UN CORRESPONSAL EN IRAK, FONTCUBERTA MANIPULA LA IMAGEN Y SE CONVIERTE EN EL TERRORISTA QUE DIRIGE UNA ACCIÓN INSURGENTE. DE LA SERIE DECONSTRUYE

Sábado 10 de mayo de 2008 | Publicado en la Edición impresa

Por Leonardo tarifeño

De la Redacción de LA NACION

El fotógrafo catalán Joan Fontcuberta dice que aprendió a desconfiar de las imágenes gracias a la dictadura de Franco, donde “la manipulación y la censura obligaban a leer entrelíneas. En esas circunstancias, se crece con el síndrome de la sospecha, y llega el momento en el que la duda se convierte en estilo de vida”. Eso, de niño. Ya de grande, lo que terminó de formar su conciencia de lo ilusorio y el simulacro (por no decir la mentira) fue trabajar en periodismo y publicidad. “Siempre digo que allí me entrenaron en la media verdad, una técnica de persuasión mucho más peligrosa que la mentira”, cuenta ahora, en Buenos Aires, invitado por el Cceba para un diálogo con Marcelo Brodsky. “¿Cómo me explico? A ver, hay una frase de Oliver North, el principal implicado en el escándalo Irangate , que puede servir. Para defenderse, durante el juicio en su contra, él dijo: ´yo no miento, simplemente economizo la verdad . Esa idea de economizar la verdad sin mentir es maquiavélica. La mentira es detectable, en cambio la ´economía de la verdad es un recurso casi florentino del que la política contemporánea da grandes muestras. Y hay que saber cómo reaccionar frente a esta situación actual. En ese sentido, sin ninguna pretensión ni paternalismos, yo esperaría que mi trabajo fuera pedagógico y hasta profiláctico.”

Fontcuberta es fotógrafo y, en particular, cazador iconográfico, un detective artístico empeñado en mostrar los riesgos de la credulidad en un mundo edificado por toda clase de imágenes. Premio Nacional de Fotografía en 1988 y ordenado Caballero de las Artes y las Letras por el Ministerio de Cultura de Francia en 1994, este militante de la sospecha visual trabaja con herramientas informáticas para poner en evidencia la poca verdad de la verdad fotográfica, a la que califica de “imagen-trampa”. Pero, además de su extensa obra, también expone su mirada en lúcidos ensayos ( El beso de Judas. Fotografía y verdad , o Ciencia y Fricción. Fotografía, naturaleza y artificio ) dirigidos a poner al descubierto la trampa que él advierte en la imagen. “La dimensión política del documento fotográfico, la problemática de la representación y el cuestionamiento de la veracidad de la imagen son mis temas recurrentes”, explica “porque la fotografía siempre se ha jugado a partir de un efecto de convicción, una idea de prueba de evidencia en la que basa su potencial político. Y lo que yo intento es desmantelar esa creencia y mostrar cómo la fotografía, a la manera de cualquier otro producto humano, es una construcción intelectual, cultural e ideológica”.

-¿La revolución tecnológica en el campo de la imagen no ha vuelto caduco el discurso de sospecha ante la fotografía? Hoy en día, cualquier chico sabe que las fotografías se manipulan.

-Efectivamente, el conocimiento y la conciencia crítica del espectador se han refinado, pero también se han refinado, en la misma proporción, las posibilidades sibilinas de la manipulación. La tergiversación propagandística de la imagen se ha sofisticado, y entonces las herramientas críticas tienen que sofisticarse en la misma dirección. Recientemente hemos tenido grandes ejemplos de fraude visual. El más relevante: se nos ha vendido una guerra internacionalizada con el pretexto de la supuesta presencia de armas de destrucción masiva, justificada por el testimonio de un documento fotográfico. ¿Hasta qué punto esa idea ha sido vehiculizada y fortalecida por la confianza que nos merecen los supuestos documentos fotográficos? La guerra en Irak demuestra que no podemos pensar en un espectador consciente ante el engaño que se vive en la iconosfera, solo porque hoy cualquier niño juega con Photoshop.

-¿El desarrollo tecnológico impulsa la fotografía hacia la mentira y la manipulación?

-La fotografía y la imagen siempre han estado involucradas en el discurso del poder y los tratamientos propagandísticos, eso no es un producto de las recientes innovaciones tecnológicas. Porque, no nos engañemos: la verdad no existe, no es más que un punto de vista, una versión interpretativa de los acontecimientos sustentada por una posición de autoridad. La verdad es una abstracción que representa más un objetivo que una cualidad definible. Cualquier fotógrafo de prensa sabe perfectamente que, delante de un mismo hecho, diez fotógrafos que trabajan para diez medios diferentes ven diez situaciones distintas. Las imágenes no coinciden, pero todos han tenido la misma verdad delante. Los fotógrafos han sido afectados por sensibilidades, intereses, ideologías y puntos de vista, y eso influye en su manera de moldear esa realidad. Y luego, esa información la toman los medios y los intereses a los que sirven, el marketing en el que se insertan y toda una serie de problemáticas y factores someten el significado de una imagen a factores ajenos al fotógrafo mismo. Está claro que la fotografía se ha vendido como una máscara de verdad, pero no ha sido más que un intento de reconstruir una cierta realidad.

-Dice que una fotografía es una construcción cultural, ¿cuáles son los presupuestos filosóficos de esa idea?

-Yo parto de un planteamiento filosófico para el cual la realidad no preexiste nuestra experiencia, sino que es un efecto de construcción intelectual e ideológica. El fotógrafo, al hacer una imagen, contribuye a esa noción de lo real que tenemos. La idea de “documento” se basa en unas presunciones culturales e históricas controvertibles, nada objetivas, que obedecen a la voluntad de influir en los procesos de comunicación.

-¿La realidad se construye?

-Efectivamente, la realidad, o al menos la experiencia que tenemos de la realidad, es un efecto de construcción. No se trata de debatir si la realidad existe o no, como lo hicieron las corrientes filosóficas clásicas, sino de darnos cuenta de que, exista o no, no podemos ver la realidad directamente, sino a través de unas mediaciones como, por ejemplo, la de los medios de comunicación. La cultura de masas y las imágenes que los medios nos transmiten son nuestra fuente de conocimiento, más que la experiencia directa. Nuestra idea de realidad viene condicionada por ese cúmulo iconográfico generado por los medios.

-¿La revolución iconográfica exige una nueva ética?

-En el caso del arte contemporáneo, siento que vale la pena generar una dinámica de reacción y resistencia, un compromiso importante aunque muchas veces sus efectos sean testimoniales. No se puede competir con el establishment mediático y político, pero con trabajos críticos se consigue mostrar que otro discurso visual es posible. Un discurso que active y movilice una capacidad de reacción crítica contra ese discurso dominante.

-¿Cómo sería ese discurso?

-Hay muchas posibilidades. Están quienes han renunciado a hacer fotografías y solo reciclan las que ya existen, para mostrar que esas fotos no son imágenes, sino realidades, objetos. Otra es mostrar que las imágenes en apariencia neutrales esconden significados ocultos y tienen agendas concretas para incidir en la opinión pública. Y también están los que buscan erosionar la credibilidad del documento fotográfico, que sería la estrategia en la que yo me inserto. Para mí, el arte comprometido contemporáneo, aquel que debe interesarnos y que dejará una huella en nuestro tiempo, es hoy el que busca formas de oponerse a la situación hegemónica de la avalancha de imágenes seductoras que componen la iconosfera en la que vivimos.

adnFONTCUBERTA

Artista y crítico

Es uno de los principales referentes en la crítica de la imagen contemporánea. Premio Nacional de Fotografía en su país, sus proyectos buscan desarticular la fuerza del documento fotográfico como testimonio de una verdad incuestionable