18/11/2009 - 18:44h La seda se desliza entre dos mujeres

Carmen Pascual – Carmensabes

  • Queridos amigos, siguiendo con el tema que en este blog tiene un especial protagonismo: mujeres en el arte, hoy os mostraré a una escritora que cultivó la poesía, casi diría que como un milagro, dada la dura vida que le fue impuesta.

  • Nació en China hace unos dos mil años, cuando las mujeres no tenían ninguna oportunidad de expresarse ni de demostrar su talento, éste, era dado solamente a los hombres, los cuales en su educación y en su cultura, concebían la poesía como algo esencial y obligatorio.
  • Y en ese tiempo, en la antigua china, una mujer llamada Yü Hsüan-Chi, se atrevió a escribir, expresó a través de su poesía sutil su sexualidad y sus sentimientos.
  • Fue concubina abandonada a su suerte y sacerdotisa del Tao.
  • Viajó por todo el país chino para posteriormente acusada de asesinato, morir ejecutada.

  • Os dejo una muestra de su poesía, lírica delicada e intensa que nos hace volar con ella y sentir algo de su esencia y su talento.
  • Por otra parte, para ilustrar los poemas de Yü Hsüan-Chi, una pintora, china también, llamada Xi Pan, joven y brillante que nos recuerda con sus trabajos a Matisse, klimt y a Schiele, nos deleita con un erotismo fresco, delicioso y lleno de guiños a Oriente y a Occidente.
  • Qué disfrutéis.

  • Sus hermosos poemas reposan
  • en la sombra del verano.
  • En una visita al templo taoista de Ch’hung Chen, veo
  • en la sala sur la lista de los candidatos triunfadores
  • en las examinaciones imperiales
  • Picos coronados de nubes llenan los ojos
  • en la luz de primavera.
  • Sus nombres están escritos en hermosos caracteres
  • y colocados por orden de mérito.
  • Levanto mi cabeza y leo sus nombres
  • con envidia impotente.
  • Cómo odio este vestido de seda
  • que oculta a un poeta.

  • Despierto
  • y el pequeño bote, a cuya proa
  • la Serpiente del Poder
  • navega,
  • ciega e inmóvil, me conduce
  • al mar de arena. Un sol nos derrite
  • mientras vuela
  • el pájaro de las rocas
  • y soberbia
  • cruza su sombra
  • sobre la fresca fuente de nuestras manos.
  • Se desliza la seda.
  • Por un largo camino
  • más allá del crepúsculo
  • van nuestros rostros enlazados.

  • Húmeda y fresca la noche.
  • Un suave viento del este
  • trae y disipa bancos de niebla.
  • Sueño que veo tu rostro
  • frente a las lámparas.
  • Me sonríe tras el leve maquillaje,
  • mientras tu mano reposa en mi mano.
  • Amiga mía,
  • millones de años a través de los cuales el Universo
  • asciende y declina,
  • y tú allí,
  • en tu vestido transparente de seda
  • viendo caer
  • las flores de ciruelo sobre la hierba.

(mais…)

16/11/2009 - 12:17h EUA e China adiam para 2010 a possibilidade de acordo climático

CoP-15: Posição assumida por Obama e Hu Jintao deve levar a prolongamento de negociações

http://img.timeinc.net/time/daily/2009/0904/obama_hu_0401.jpg

Edward Luce, Kevin Brown, Fiona Harvey e Joshua Chaffin, Financial Times – VALOR

O presidente dos EUA, Barack Obama, admitiu ontem que a cúpula de Copenhague, no mês que vem, não vai produzir um tratado com força de lei para combater o aquecimento global, mas manteve a porta aberta para uma negociação substantiva de um novo quadro sobre mudanças climáticas.

Ao dizer que “não devemos transformar o ‘perfeito’ em inimigo do ‘bom’ “, o presidente americano selou o crescente consenso internacional de que o melhor a ser esperado do encontro no mês que vem é um forte comprometimento político.

A posição de Obama, assumida durante o encontro do Fórum de Cooperação Econômica Ásia Pacífico (Apec, na sigla em inglês), foi apoiada por todos os 21 países presentes, inclusive a China.

Analistas dizem que isso reflete um entendimento entre americanos e chineses de que não há a possibilidade ainda de os dois maiores poluidores do planeta de entrar num acordo mais amplo sobre mudanças climáticas.

Autoridades americanas disseram que os membros da Apec, responsáveis por dois terços das emissões mundiais, chegaram a um consenso sobre a fórmula de “um acordo, dois passo”, elaborada pelo premiê dinamarquês, Lars Rasmussen. Por essa abordagem, Copenhague produziria um acordo em questões substantivas, incluindo cortes significativos nas emissões dos países desenvolvidos até 2020, além de medidas dos países em desenvolvimento para segurarem os crescimentos de emissões.

Os países podem assinar um acordo sem força de lei, mas de “comprometimento político”.

Advogados poderiam então produzir um tratado articulado pronto para ser assinado na conferência da ONU em Bonn, em junho, ou no próximo encontro sobre mudanças climáticas, no México, em dezembro de 2010.

Michael Froman, conselheiro-sênior de Obama, disse: “Essa abordagem de dois passos significa que houve uma avaliação dos líderes de que não seria realístico esperar um acordo internacional com força de lei a ser negociado entre agora e o início da cúpula de Copenhague, em 22 dias”.

Autoridades europeias disseram não terem ficado surpresas com os comentários de Obama, mas pediram aos governos que tentassem fazer progressos reais no mês que vem.

Entretanto mesmo chegar a acordos políticos será difícil.

Obama ainda encontra muita dificuldade em adotar dois dos principais objetivos de Copenhague: chegar a um comprometimento dos EUA de cortar suas emissões até 2020 e definir o financiamento por parte dos EUA e dos outros países ricos para ajudar os países pobres a cortar suas emissões. E os EUA não podem adotar esses compromissos até que a legislação de clima e energia que está sendo analisada no Senado seja votada.

13/11/2009 - 14:15h EUA decaem, mas China ainda não é páreo

Nova ordem: Analistas creem na emergência de um mundo multipolar, mas não na débâcle total americana

http://www.galizacig.com/avantar/files/images/20080723_sonho-americano.JPG

John Plender, Financial Times – VALOR

Com o presidente Barack Obama iniciando uma viagem por capitais asiáticas, a suposição corrente no Ocidente é de que ele vai se encontrar com líderes de países tidos como parceiros inferiores aos EUA. Mas, a realidade é mais complexa. Em meio aos escombros da crise financeira, a posição dos EUA de superpotência e líder da economia mundial parece cada vez mais ameaçada.

Em especial, quando ele chegar a Pequim, no domingo, nada conseguirá disfarçar o fato de que Obama estará fazendo uma visita ao maior credor de seu país.

Aqueles que ficam satisfeitos com o desconforto dos EUA observam que esse colosso econômico global carrega o maior endividamento internacional do mundo e vem sendo abalado por uma moeda em desvalorização. É consenso geral que a China é a principal beneficiária de uma débâcle financeira e uma séria desafiante à hegemonia dos EUA.

Como o poder econômico frequentemente anda de mãos dadas com o poderio militar, essa mudança no poder econômico, juntamente com a fraqueza recente do dólar, vem sendo proclamada como um prenúncio do declínio americano. Esse clima é descrito de maneira primorosa por Fareed Zakaria em seu mais recente livro de sucesso, “The Post-American World And The Rise Of The Rest” (”O Mundo Pós-Americano”, Companhia das Letras). Assim veio a referência de Obama, em seu discurso de posse, de “um enfraquecimento da confiança em nosso país; um temor incômodo de que o declínio da América é inevitável, de que a próxima geração terá que reduzir suas esperanças”.

Paul Volcker, ex-presidente do Federal Reserve (Fed) e conselheiro do presidente, declarou em uma entrevista recente à PBS, a rede de televisão pública dos EUA, que a ascensão dos mercados emergentes é “simbólica da menor posição dominante relativa dos EUA, não só na economia, mas também na liderança intelectual e de outras formas”.

Os bancos centrais dos países em desenvolvimento estão esfregando sal nas feridas do gigante enfermo. O Reserve Bank da Índia juntou-se, na semana passada, aos bancos centrais de China, Rússia, México e Filipinas na decisão de aumentar suas reservas em ouro, em detrimento dos títulos denominados em dólar. Um verdadeiro coro de formuladores de políticas de países que estão com superávit em conta corrente declarou que a posição do dólar como moeda de reserva é insustentável.

A essa altura, é importante lembrar que já estivemos aí antes. No fim da década de 80, Paul Kennedy, da Yale University, chocou o mundo com sua afirmação, em “The Rise And Fall Of The Great Powers” (”Ascensão e Queda das Grandes Potências”, Ed. Campus), de que “a única resposta à questão cada vez mais discutida da capacidade dos EUA de preservar ou não sua atual posição é ‘não’”.

Esse veredito pessimista surgiu na época do crash do mercado de ações, em 1987, quando houve uma preocupação contínua com os déficits gêmeos dos EUA e os déficits em conta corrente. O país havia se tornado um devedor internacional pela primeira vez e dependia crescentemente da entrada de capital europeu e japonês. Um Japão extremamente confiante estava em ascensão. O sentimento de decadência chegou perto da histeria nos EUA quando empresas japonesas compraram o Rockefeller Center, em Nova York, a Columbia Pictures, em Hollywood, e o campo de golfe de Pebble Beach, na Califórnia. “Quem é o dono da América?”, exigiu saber a ABC News.

De certa forma, a tese do professor Kennedy estava certa. Com a China, a Índia e os outros mercados emergentes alcançando o mundo desenvolvido, os EUA deverão sofrer um declínio econômico relativo, na forma de uma parcela menor do PIB mundial, mesmo com o país crescendo mais do que a maioria das grandes economias desenvolvidas e ainda sendo a maior economia do mundo em termos absolutos.

A globalização e a liberalização doméstica estão dando a esses países em desenvolvimento a chance de obter uma participação no PIB mundial proporcional ao seu tamanho na história. O desempenho econômico da China antes de 1978 era, afinal de contas, uma aberração vista a partir de uma perspectiva de séculos.

Em um estudo sobre as maiores economias, Angus Maddison, da Universidade de Groningen, calcula que a a participação da China no PIB mundial em 1820, antes de a Revolução Industrial na Europa ganhar força, era de mais de 30%, o que é bem mais do que a participação atual dos EUA. Assim, um retorno a algo mais normal pode estar a caminho.

Mas a tese de Kennedy parecia errada ao sugerir que os EUA talvez tivessem ampliado demais o seu império, ao ponto de não conseguirem mais administrá-lo, como aconteceu com a Espanha no século XVII e o Reino Unido no século XX. O caso mais óbvio de incapacidade de administração da década de 80 foi na verdade a União Soviética, que entrou em colapso, enquanto os EUA foram bem-sucedidos logo depois no restabelecimento de seu equilíbrio orçamentário, durante o governo Clinton, sem um recuo integral em seus compromissos internacionais.

Enquanto isso, o desafio econômico japonês perdeu o passo com o estouro das bolhas imobiliária e acionária, e o país se viu ameaçado pela deflação. O pânico da mídia americana com a invasão japonesa se mostrou um indicador perfeito, ainda que involuntário, de um ponto de virada.

A questão agora é se a tese da incapacidade de administração do império estava errada ou era simplesmente prematura. Mesmo assim, prever os períodos de ascensão e queda de nações e economias é uma coisa notoriamente difícil. Charles Kindleberger, o falecido historiador econômico, foi um dos muitos que acreditavam que a vitalidade nacional se movimentava em um ciclo de vida. Entre as causas internas do declínio identificadas por ele, estavam o aumento do consumo, a queda da poupança, a resistência à tributação, a desigualdade, a corrupção, grandes endividamentos e as finanças se tornarem mais dominantes na economia do que a indústria.

Mesmo que isso bata com as atuais circunstâncias, é preciso observar que muitas dessas coisas também estavam presentes nos EUA em 1929, quando a crise financeira coincidiu com a longa transição da hegemonia econômica do Reino Unido para os EUA. Quando Kindleberger escreveu “World Economic Primacy 1500-1990″, em 1996, ele acreditava que os EUA estavam decaindo. Mas ele não tinha ideia de qual país provavelmente surgiria como a próxima potência econômica mundial, e tinha a China apenas como “azarão” para o posto.

O argumento mais poderoso de apoio à hipótese da decadência envolve o que o professor Kennedy chamava de “tarefa antiga de relacionar as intenções nacionais às finalidades nacionais”. Como há uma correlação significativa de longo prazo entre a capacidade produtiva e a capacidade de aumentar as receitas, e o poderio militar, muita coisa depende da sustentabilidade da política fiscal. Aqui, os prognósticos não são bons para os EUA.

Sob as pressões gêmeas da crise financeira e do problema de longo prazo do envelhecimento dos “baby boomers”, as projeções oficiais apontam para déficits orçamentários numa escala sem precedentes. O Peterson Institute for International Economics, de Washington, estima que, depois de chegar perto de US$ 1,5 trilhão no ano fiscal corrente – mais de três vezes o recorde anterior -, o déficit provavelmente ficará perto de US$ 1 trilhão ao ano até 2020 ou além.

Da perspectiva do fluxo de recursos que entra na economia, a contrapartida desses déficits será em grande parte encontrada na conta corrente do balanço de pagamentos. Aqui, o instituto calcula que o déficit em conta corrente poderá subir de um recorde anterior de 6% do PIB para surpreendentes 15% ou mais até 2030, o equivalente a mais de US$ 5 trilhões por ano. Ele avalia que a dívida externa subirá dos atuais US$ 3,5 trilhões para até US$ 50 trilhões, ou 140% do PIB, no mesmo período.

Esses números representam um desafio assustador para o governo Obama e uma ameaça evidente ao dólar, uma vez que há um volume muito grande de reservas em dólares em mãos estrangeiras. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que, do fim de 2000 até metade de 2009, as reservas internacionais subiram de US$ 1,9 trilhão para US$ 6,8 trilhões, dos quais US$ 2,3 trilhões estão sendo mantidos pela China. Mais de 60% dessas reservas estão em dólares.

A retórica chinesa recente, que inclui um pedido para a substituição do dólar como principal moeda de reserva do mundo por direitos especiais de saque (uma unidade contábil usada pelo FMI no trato com seus membros), sugere uma perda preocupante de confiança nas políticas monetária e fiscal dos EUA. Ao mesmo tempo, Fred Bergsten, diretor do Peterson Institute, afirma que agora é interesse dos EUA reduzir o papel do dólar e encorajar um fluxo maior de reservas para o euro, o yuan e os direitos especiais de saque (SDR, na sigla em inglês).

Mesmo assim, a ameaça ao dólar pode estar sendo exagerada. A China está sacudindo as barras da gaiola que ela mesma fez, uma vez que as reservas são uma consequência da intervenção colossal para impedir a valorização de sua moeda. Na verdade, ela está presa ao equivalente econômico da aniquilação mútua descrita pelos teóricos da guerra nuclear durante Guerra Fria. Com as exportações chegando a dois quintos do PIB, convém à China ter os EUA como tomador e gastador de último instância na economia mundial. E ela não pode abandonar o dólar sem reduzir o valor de suas próprias reservas em dólar.

Quanto ao potencial da moeda chinesa de desafiar o papel do dólar de moeda de reserva, isso poderá existir no longuíssimo prazo, mas na ausência de mercados financeiros desenvolvidos e um compromisso muito mais forte de internacionalização do yuan, isso continua sendo muito remoto.

Na verdade, o elemento mais fraco do ponto de vista do declínio dos EUA pode ser as atuais estimativas elevadas da força do desafio chinês. Elas foram elegantemente apontados em um ensaio recente sobre assuntos externos de Josef Joffe, editor adjunto do jornal alemão “Die Zeit”. A China, diz ele, é um lugar onde o resto do mundo essencialmente aluga trabalhadores e espaço de trabalho a preços muito baixos e taxas de câmbio distorcidas. Sua dependência das exportações, além de ser um calcanhar-de-aquiles econômico, tem consequências políticas. Estas incluem 70 mil casos de distúrbio social todos os anos, que não são computados nas previsões lineares de crescimento de que os banqueiros de investimento tanto gostam.

A demografia da China não ajuda: Joffe afirma que a população vai crescer antes de começar a enriquecer. Pelos números do Goldman Sachs, a China terá em 2050 superado os EUA, com um PIB de US$ 45 trilhões, contra os US$ 35 trilhões dos EUA. A idade média nos EUA será, então, a menor entre todas as grandes potências mundiais com exceção da Índia. Na verdade, a população economicamente ativa dos EUA terá crescido cerca de 30%, enquanto que na China haverá queda de 3%.

Junto com a dependência das exportações, isso representa um grande desafio para as autoridades chinesas, num país que é muito pobre. Enquanto isso, os EUA ainda possuem um sistema de ensino superior e de pesquisas sem paralelos. E, em 2008, seu orçamento militar foi de US$ 607 bilhões, representando quase metade dos gastos militares totais no mundo. O orçamento militar da China, frequentemente alardeada como a próxima superpotência, é de menos de um sétimo disso.

Ninguém pode negar as conquistas extraordinárias da China na mais acelerada revolução industrial da história humana. Estamos claramente nos movimentando para um mundo multipolar e um sistema de reserva multimoedas, no qual o poder dos EUA será mais restrito. Mesmo assim, os EUA continuam sendo de longe a mais flexível das grandes economias. A história não se move sobre trilhos – exceto para os marxistas. Se as autoridades dos EUA se mostrarem à altura do desafio fiscal e se os americanos passarem e poupar mais, há todas as chances do país escapar de um declínio significativo e continuar sendo a principal economia e potência militar do mundo por muito tempo ainda.

Isso é um “se” enorme. Mas, para o prazer de muitos, a próxima geração de americanos não vai reduzir suas esperanças e ambições no curto prazo.

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Retranca

China já viveu uma decadência como império


Financial Times – VALOR

A teoria da expansão excessiva dos impérios, lançada por Paul Kennedy em “The Rise And Fall of The Great Powers”, afirma que, se uma proporção grande demais dos recursos do Estado é desviada da criação de riqueza para os gastos militares, o poder nacional vai se enfraquecer no longo prazo. A questão é se um determinado Estado pode conseguir um equilíbrio razoável entre as necessidades básicas de defesa e os recursos econômicos.

A tarefa fica ainda mais difícil quando uma nação está sofrendo um declínio econômico relativo. O professor Kennedy afirmava também que os EUA não conseguiriam preservar sua posição relativa porque “simplesmente a nenhuma sociedade é conferido o direito de continuar permanentemente à frente das outras, uma vez que isso implicaria num congelamento dos padrões diferenciados das taxas de crescimento, dos desenvolvimentos tecnológico e militar, que existem desde tempos imemoriais”.

Ele concluiu que era dever dos estadistas americanos reconhecer essa ampla tendência e administrar o país, de modo que a corrosão relativa da supremacia ocorresse lentamente e tranquilamente, em vez de implementar políticas vantajosas no curto prazo, mas que seriam prejudiciais no longo prazo.

Isso carrega um reflexo notável da observação feita por Robert Temple Armstrong, o ilustre servidor público britânico, que disse na década de 70 que “o negócio do serviço civil é a administração ordeira do declínio”.

A China, embora vista por muitos como a principal beneficiária da potencial exaustão dos EUA, já passou por uma experiência própria de declínio. Até a meta de milênio anterior, ela era tecnologicamente mais avançada que a Europa, com uma agricultura mais eficiente, e a classe dos mandarins não tinha rivais em seu profissionalismo. Mesmo depois que o Ocidente a superou, economica e tecnologicamente, entre os séculos XVI e XVIII, a economia da China ainda era a maior do mundo quando a revolução industrial começou.

No entanto, entre 1820 e 1952, quando a Europa experimentou taxas de crescimento econômico sem precedentes na história, a produtividade per capita da China caiu, enquanto sua participação no PIB mundial despencou de um terço para um vigésimo. A renda per capital caiu de um nível igual ao mundial, para um quarto de média mundial no período*.

Esse desempenho terrível tem sido atribuído a várias causas, incluindo a intervenção colonial estrangeira, distúrbios internos e a inflexibilidade da burocracia diante dos desafios apresentados pelo renascimento do Ocidente.

Todos os números foram extraídos de “Chinese Economic Performance In The Long Run”, de Angus Maddison

06/11/2009 - 17:22h Conceição, a crise e o Brasil

Valor: Como é sua avaliação do governo Lula?

Conceição: Muito boa. Esta é a minha avaliação e de 70% da população. Na verdade, só a classe média dita ilustrada e a grande imprensa são contra. Contra também não sei o quê. Caiu a inflação. Portanto, mantiveram a política econômica dura que diziam que não iam manter, mas mantiveram. Contra meu ponto de vista. Perdi a parada, mas fico contente que tenha perdido, porque naquela altura ia ser complicado. Como estava tudo fora do lugar, era muito ousado fazer uma política alternativa no início do primeiro mandato. Do ponto de vista da política macro, eles começaram a fazer coisas no segundo mandato. Mas não creio que vão terminar. Fizeram o correto na infraestrutura, contemplando obras nas regiões Norte e Nordeste, como a ferrovia Transnordestina, a Norte-Sul, a transposição do rio São Francisco e portos. O PAC é uma seleção de projetos muito pesada e muito boa, de que não convém desviar. Também acertaram na política social, com o Bolsa Família. O governo Lula está tocando três coisas importantes: crescimento, distribuição de renda e incorporação social. E ainda por cima fez uma política externa independente. Por que acha que ganhamos a Olimpíada? [a escolha do Rio de Janeiro para sede dos jogos, em 2016]. Porque passamos a ter prestígio de fato lá fora.

Valor Economico /06 de novembro de 2009


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Maria da Conceição Tavares, pessimista com os Estados Unidos e o mundo, tem crítica menos dura para o Brasil, “que vai bem na crise”.

É ela mesmo, 55 anos depois

Por Vera Saavedra Durão, do Rio – VALOR


Fiel ao seu estilo questionador e arrebatado, a economista Maria da Conceição Tavares continua contestando as apostas dos mercados financeiros. “A crise não acabou”, alerta a decana dos economistas brasileiros e representante da tradição crítica do pensamento econômico latino-americano, no melhor estilo de Celso Furtado. “Com a subida das bolsas, fica todo mundo no oba-oba e parece que passou. O mau sintoma é justamente a bolsa ter refluído, os bancos terem voltado a ganhar dinheiro. Isso é simplesmente aparência.”

Conceição, como é sempre chamada, fala com ceticismo sobre as perspectivas da economia americana. “O Estado está tendo de sustentar como um Hércules todo um sistema falido, mas não consegue fazer as coisas mudarem de rumo, não tem se mostrado ativo. Está fraco e isso é ruim.”

A seu ver, o governo Obama não está tendo apoio suficiente para fazer as mudanças necessárias. “Não dá para fazer reforma da saúde porque os laboratórios e os seguros de saúde não querem. Não dá para fazer reforma financeira porque os bancos não querem. Como é uma sociedade de lobby pesado, fica difícil reformar.”

Os Estados Unidos não têm, aparentemente, uma “saída boa”, diz. Para ela, todas as indicações de estagnação mais longa estão presentes na economia americana, o que coloca a liderança do país sobre a economia mundial em xeque. “Eles não têm mais liderança nenhuma. Têm peso político, diplomático e militar. Mas isso não é liderança. É império. Não têm como resolver seus problemas [financeiros e militares], nem conseguem avançar. São um império congelado.”

Conceição se diz pela primeira vez otimista com o Brasil de Lula. “Ele é um gênio político.” Mas adverte que o problema básico da economia brasileira, no momento, é o câmbio. “O Brasil não pode continuar engolindo dólares.”

Conceição tem 55 anos de Brasil. Chegou em fevereiro de 1954, casada com o engenheiro português Pedro Soares. A filha Laura nasceria meses depois. Naturalizou-se em 1957. Seu segundo marido, Antonio Carlos Macedo, professor de ciências biológicas da UFRJ, é o pai de Bruno, 44 anos. É amistoso seu relacionamento com os ex-maridos.

Portuguesa de Anadia, nascida em 24 de abril de 1930, formada em matemática em Lisboa, Conceição conta que optou pela economia influenciada por três clássicos do pensamento econômico brasileiro: Celso Furtado (1920-2004), Caio Prado Jr. (1907-1990) e Ignácio Rangel (1908-1994) – que a despertou para as questões relacionadas ao capital financeiro. “Eles marcaram profundamente minhas ideias.”

Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Conceição foi aluna de Octávio Gouvêa de Bulhões (1906-1990) e Roberto Campos (1917-2001). Escreveu centenas de artigos e vários livros, dos quais o clássico dos clássicos é “Auge e Declínio do Processo de Substituição de Importações no Brasil – Da Substituição de Importações ao Capitalismo Financeiro”, de 1972. O texto original foi escrito no fim dos anos 1960, quando chefiava o escritório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) no Brasil. Na época da ditadura militar, autoexilou-se no Chile, depois de escapar da prisão graças à intervenção de Mario Henrique Simonsen, seu ex-aluno, ministro do governo Geisel.

Teve rápida passagem pelo MDB, então partido de oposição à ditadura militar. Em 1994, foi eleita deputada federal pelo PT do Rio de Janeiro, ao qual continua filiada. Aposentou-se como catedrática do Instituto de Economia da UFRJ, onde é professora emérita, e da Universidade de Campinas (Unicamp). Mas permanece ativa, dando cursos de economia internacional no Instituto Rio Branco e aulas na pós-graduação da UFRJ.

No momento, Conceição trabalha num ensaio sobre a América do Sul para um livro que José Luís Fiori, também professor na UFRJ, ex-aluno, a quem conhece desde o exílio, pretende lançar em 2010 sobre questões econômicas, financeiras e sociais da região, temas aos quais sempre esteve ligada.

Mesmo com problemas de bronquite por causa do cigarro – quando deputada, operou um nódulo benigno no pulmão – Conceição ainda consome dois maços por dia. Não tem intenção de parar. Diz que morrerá se deixar de fumar. “Para minha idade, estou ótima”, avalia a economista de palavra sempre apaixonada, que pretende comemorar seus 80 anos, em 2010, com os dois filhos, dois netos e os muitos amigos e admiradores.

A seguir, os principais trechos da entrevista que Maria da Conceição Tavares concedeu ao Valor.

Valor: Quais lições podemos tirar da crise ?

Maria da Conceição Tavares: A crise ainda não passou e não deu as lições . Nos Estados Unidos já tem um pessoal dizendo que o gasto fiscal é muito, que isso acaba dando inflação e tem que parar. Se parar o gasto fiscal, como é a única componente ativa que vem sendo acionada pelo governo Obama, as coisas não vão melhorar. Todos os sintomas estão ainda muito embaralhados. E aí sobe a Bolsa de Valores, porque houve uma pequena bolha e o pessoal já começa a dar vivas . O desemprego também não terminou, e há muita capacidade ociosa. Então, todas as indicações que apontam para uma estagnação mais longa estão lá presentes. Não houve nenhuma mudança estrutural até agora para reverter a crise.

Valor: Como fica, então, o papel do Estado neste momento?

Conceição: O Estado americano está fraco. Não está ativo. E está botando o dinheiro todo em cima dos bancos e também em cima do seguro social, do desemprego que subiu muito. Todo o sistema falido, ele sustentando, feito um Hércules, e não está fazendo essa coisa tomar rumo. É um estado fraco, desse ponto de vista. E isso é ruim, porque denota que o governo americano não tem realmente força. Não tem apoio, nem na sociedade, que é dilapidada pelo neoliberalismo, nem no “establishment”. Então, não dá para fazer a reforma da saúde porque os laboratórios e os seguros-saúde não querem. Não dá para fazer reforma financeira porque os bancos não querem. Como é uma sociedade de lobby pesado, não tem como reformar. E não tem mecanismos de demanda efetiva do lado do setor privado para aumentar o emprego. O que não é bom.

Valor: Isso significa que a liderança dos Estados Unidos sobre a economia mundial está em xeque?

Conceição: Está. Não tem mais liderança nenhuma. Eles têm peso político, diplomático e militar. Mas isso não é liderança. É império. Eles têm um poder imperial sustentado num poder militar e financeiro. A iniciativa diplomática e militar só visa manter com mão de ferro o que já conquistaram. Mas não têm como resolver os problemas, nem avançar . Os Estados Unidos não podem tomar iniciativa militar em mais lugar nenhum. Primeiro, quem vai pagar e, depois, quem vai dar o apoio? É o império congelado.

Valor: Essa fraqueza americana pode arrastar o mundo para onde?

Conceição: É uma fraqueza sistêmica. O sistema era todo estruturado por eles. Como estão débeis, o sistema fica com um peso morto muito grande. Só tem possibilidade de sair quem tem dimensão para sair, como os BRICs. O que vão fazer o México, a Argentina, o Chile? São todos atrelados à economia mundial. Quem está puxando o comércio é a Ásia. A Alemanha não está puxando mais nada. Se a Europa e os Estados Unidos puxam para baixo, só sobra a Ásia.

Valor: E a China, especificamente?

Conceição: Os chineses estão tentando substituir os americanos nos investimentos em matérias-primas que eles precisam. Estao investindo em toda parte. Em petróleo, em infraestrutura na África. Aqui na América Latina estão vindo para tudo. Siderurgia, portos. Estão fazendo um movimento de expansão não pelo comércio apenas, mas principalmente via investimento direto. Isso é que é novidade. Sobretudo na África. Coitados dos africanos. Saem de um imperialismo e entram em outro.

Valor: A China teria a liderança?

Conceição: O mundo caminha para uma multipolaridade.

Valor: Então, nesse mundo a China pode vir a ser uma liderança ?

Conceição: Aí entra outra questão. Como se resolve o nó do entrelaçamento entre China e Estados Unidos? É uma simbiose. A China tem resolvido não ser agressiva com os Estados Unidos. Do ponto de vista diplomático e militar, tem estado “low profile”. Não está dizendo que os Estados Unidos são um “tigre de papel”, como na época do Mao. É consenso em Pequim que não é para enfrentar os Estados Unidos. Mas eles têm que resolver esse impasse. O que fazem? Compram ativos dos Estados Unidos? Foi o que o Japão fez e se deu mal. E é claro que eles viram o Japão fazer isso e não vão fazer. Então, estão vindo pela periferia. Que é o correto. O Japão saiu da periferia para investir nos Estados Unidos, disparado. Os chineses não estão fazendo isso. Eles têm participação daqueles fundos soberanos em várias coisas. No Citi, por exemplo. Fazem essas aplicações para sustentar os dólares que têm, para ter alguma aplicação.

Valor: China e Estados Unidos vão se pôr de acordo para garantir uma saída da crise?

Conceição: Difícil. Não vejo nenhuma semelhança de estrutura política e ideológica. São muito dessemelhantes. Se não vão se pôr de acordo, como vai ser? A China abre mão crescentemente do mercado americano e aumenta o mercado no resto do mundo. Ela pode fazer isso. Os Estados Unidos vão fazer o quê? Estão no mundo inteiro, mas são uma potência comercial declinante.

Valor: Vão se voltar para o mercado interno?

Conceição: É o que deveriam fazer, como prometeu Obama, mas aí têm que resolver primeiro a situação da regulação do sistema bancário, das empresas e do desemprego.

Valor: Qual o papel dos BRICs na recuperação da economia global?

Conceição: Vão ter papel importante, porque têm peso específico. Não podem estabelecer uma política comum, porque são estruturas diferentes. Somos uma economia mista, a China é estatal, a Rússia era tudo privado, quebrou tudo, e está em processo de reconstrução pelo Estado. O Brasil não é potência militar, mas tem tomado muitas iniciativas na política externa e vai bem na crise.

Valor: Ben Bernanke, presidente do Fed, anunciou que pode aumentar os juros.

Conceição: Coisa sem pé nem cabeça. A dívida externa e a dívida pública deles, gigantescas, vão ficar caríssimas. Eles estão querendo fazer isso porque estão com medo da inflação. Inflação de demanda não é, porque não tem demanda efetiva. Inflação de custos de matéria-prima também não é, pois não está tendo nenhuma explosão de matéria-prima. Acho que o Bernanke está com medo é de que rejeitem a dívida pública. Ninguém está querendo comprar aqueles papéis [títulos do Tesouro]. Uma forma de atrair investidores seria subir os juros. Mas tudo isso são perfumarias. Não vai para lugar nenhum. A raiz do problema seria a reforma do sistema bancário.

Valor: O que mais, além dessa reforma, o governo americano teria que fazer?

Conceição: Reforçar o papel do Estado e fazer um ajuste global que teria que ser negociado com a China. Os dois países teriam que acertar um acordo na área comercial. Mas não há negociação entre os dois. Os Estados Unidos não têm aparentemente uma saída boa. O Obama está falando no vazio. É por isso que os conservadores prenunciam um golpe.

Valor: Existe esse risco?

Conceição: O primeiro risco que existe é que o matem. Esse é um risco clássico nos Estados Unidos. E existe o risco de ele não se reeleger. Fico com muita pena. Ele seguramente não é o cara. Parecia, mas não é.

Valor: Como as dificuldades vividas pelo Estado americano podem impactar o mundo?

Conceição: Vai depender do resto do mundo. Vamos tentar esquecer um pouco os Estados Unidos. Temos que buscar construir outras lideranças. O ideal é que houvesse um acordo mínimo entre todos os grandes, para aliviar a crise e resolver o problema global. Bastava o G-20, bastavam os 20 se porem de acordo. Mas não há acordo.

Valor: E o dólar?

Conceição: Não dá ainda para tirar o dólar [de seu papel de moeda de reserva internacional]. O dólar está fraco. Os países, em geral, se pudessem, saiam do dólar. Está ruim acumular reservas em dólar. O problema é com os que já estão acumulados, como os BRICs, sobretudo a China.

Valor: O que a China vai fazer com US$ 2 trilhões de reservas?

Conceição: Está empacada. E os títulos americanos que ela detém servem de lastro às reservas. Ela não tem como vendê-los no mercado. Está com um mico na mão. É um patrimônio morto. Não tem o que fazer com as reservas. É como se tivesse no cofre, de um lado, o patrimônio futuro, de fábricas, de realizações etc. e, do outro, um montão de estrume que não pode jogar fora.

Valor: O que pode vir daí ?

Conceição: Prevejo uma coisa arrastada, prolongada, com crises que vêm uma atrás da outra, uma bolha disso, uma bolha daquilo.

Valor: Qual a próxima bolha?

Conceição: A bolsa. Já temos uma aí montada, é a bolsa, que voltou a subir. O pessoal está investindo pesado. Mas isso mostra que o sistema está frágil, ao contrário do que julgam, não é um bom sinal. É um mau sinal. Aqui, no Brasil, por exemplo, na Bovespa, o grosso do dinheiro que está vindo de fora pra cá é pra bolsa. Não é para investimento direto no sentido autêntico da palavra. Direto, vieram US$ 11 bilhões e para a bolsa vieram US$ 17 bilhões, este ano.

Valor: Qual seria a consequência dessa bolha?

Conceição: Volta de novo a afundar. Aí vem nova bolha. Se o mercado de commodities estiver melhor, vão fazer bolha de commodities. Podem fazer outra vez bolha em cima do petróleo. Acho que vamos de bolha em bolha.

Valor: Então, a crise não acabou….

Conceição: É uma falsa euforia. Provavelmente o governo americano vai ter que parar de ajudar o setor privado, pois o déficit fiscal já está em 17% do PIB. Como já socorreram no limite, já gastaram trilhões de dólares, na próxima crise não vão poder socorrer. Foi o que aconteceu no decorrer da crise de 1929. Em 1931 e 1932, nada mudou. Só ocorreu mudança no sistema financeiro depois, quando teve outra crise bancária, em 1933. Na primeira crise ninguém se deu conta, pois despejaram toneladas de dólares em cima dos bancos. Como agora.

Valor: A história pode se repetir?

Conceição: A crise atual começou em 2007 com os empréstimos “subprime”. Em 2008 foi o auge. E agora, neste segundo semestre, está com ares de que se vai respirar. Em 2010 pode haver uma recuperação, mas em 2011 ninguém sabe o que pode acontecer.

Valor: Como o Brasil ficaria com uma reforma bancária nos Estados Unidos?

Conceição: O Brasil tem um sistema financeiro público e privado. E os bancos privados não entraram em crise. Já tinham entrado em crise com o Fernando Henrique. Aí limparam e não deixaram de manter o controle. Não temos um sistema financeiro que opera “à la livre”. Não existe isso. Temos regulação. Nosso problema básico é o câmbio. Tem que dar um jeito. A coisa cambial vai mudar no próximo governo. Não teremos mais esse presidente no Banco Central, e nem Dilma, nem Serra estão a favor dessa política cambial.

Valor: Obama disse que o cara é o Lula…

Conceição: É. O Lula, um gênio político, mistura de Vargas e JK, uma liderança do povo brasileiro que tem uma sorte danada, ademais de ser muito competente. Tem que ter competência e sorte. As coisas têm que estar a favor.

Valor: Como é sua avaliação do governo Lula?

Conceição: Muito boa. Esta é a minha avaliação e de 70% da população. Na verdade, só a classe média dita ilustrada e a grande imprensa são contra. Contra também não sei o quê. Caiu a inflação. Portanto, mantiveram a política econômica dura que diziam que não iam manter, mas mantiveram. Contra meu ponto de vista. Perdi a parada, mas fico contente que tenha perdido, porque naquela altura ia ser complicado. Como estava tudo fora do lugar, era muito ousado fazer uma política alternativa no início do primeiro mandato. Do ponto de vista da política macro, eles começaram a fazer coisas no segundo mandato. Mas não creio que vão terminar. Fizeram o correto na infraestrutura, contemplando obras nas regiões Norte e Nordeste, como a ferrovia Transnordestina, a Norte-Sul, a transposição do rio São Francisco e portos. O PAC é uma seleção de projetos muito pesada e muito boa, de que não convém desviar. Também acertaram na política social, com o Bolsa Família. O governo Lula está tocando três coisas importantes: crescimento, distribuição de renda e incorporação social. E ainda por cima fez uma política externa independente. Por que acha que ganhamos a Olimpíada? [a escolha do Rio de Janeiro para sede dos jogos, em 2016]. Porque passamos a ter prestígio de fato lá fora.

Valor: Como vê a questão ambiental no mundo e no Brasil, às vésperas da reunião de Copenhague?

Conceição: Para variar, os Estados Unidos não assinam meta nenhuma. O país de Obama, digo, o Departamento de Estado, não assina nada. O problema ambiental está complicado e complexo. No Brasil, independente do desmatamento da Amazônia, a floresta vai sofrer com o aquecimento global. Mas a coisa da Amazônia, no nosso caso, é importante e é difícil. Mas não somos decisivos para o aquecimento global. Decisivos são os Estados Unidos e a China.

Valor: A exploração do petróleo das camadas do pré-sal pode impactar as boas intenções ambientais do Brasil?

Conceição: Começamos com a ideia do verde, o álcool combustível, mas, agora que veio o pré-sal, ninguém fala mais nisso. Agora, tudo vai depender do próximo governo.

16/10/2009 - 17:51h Brasil é líder no combate à fome entre emergentes, diz ONG

Action Aid elogia esforços do governo do Brasil e critica Índia e EUA.

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BBC- Portal Estado

O Brasil é líder no combate à fome entre os países em desenvolvimento, de acordo com um ranking elaborado pela ONG antipobreza Action Aid e publicado nesta sexta-feira para marcar o Dia Mundial da Alimentação.

Segundo o documento, o país demonstra “o que pode ser atingido quando o Estado tem recursos e boa vontade para combater a fome”.

A lista foi elaborada a partir de pesquisas sobre as políticas sociais contra a fome em governos de 50 países. A partir da análise, a ONG preparou dois rankings – um com os países em desenvolvimento, onde o Brasil aparece em 1º lugar, e o outro com os países desenvolvidos, liderado por Luxemburgo.

Em último lugar na lista dos desenvolvidos está a Nova Zelândia, abaixo dos Estados Unidos. Entre os países em desenvolvimento, a República Democrática do Congo e Burundi aparecem nas últimas colocações.

Segundo a diretora de políticas da Action Aid, Anne Jellema, “é o papel do Estado e não o nível de riqueza que determina o progresso em relação à fome”.

Brasil

O documento elogia os esforços do governo brasileiro em adotar programas sociais para lidar com o problema da fome no país e destaca os programas Bolsa Família e Fome Zero.

“O Fome Zero lançou um pacote impressionante de políticas para lidar com a fome – incluindo transferências de dinheiro, bancos de alimentação e cozinhas comunitárias. O projeto atingiu mais de 44 milhões de brasileiros famintos”, diz o texto.

Segundo o relatório, o programa ainda ajudou a reduzir a subnutrição infantil em 73%.

A ONG afirma ainda que o Brasil é “exemplar” no exercício do direito ao alimento e cita a Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional (Losan 2006) e o Ministério do Combate à Fome como medidas de que exemplificam que o direito à alimentação está sendo cada vez mais reconhecido como direito fundamental.

Apesar do aspecto positivo, a ONG afirma que o Brasil “ainda tem áreas em que pode melhorar” e cita o desafio de incluir os trabalhadores sem terra e pequenos agricultores nos programas sociais de alimentação.

“É imperativo que famílias em pequenas fazendas também estejam protegidas da expansão dos enormes programas industriais de biocombustíveis do Brasil”, afirma o relatório.

Índia

Em segundo lugar no ranking dos países em desenvolvimento aparece a China, seguida por Gana (3º) e Vietnã (4º).

A Action Aid destaca a redução no número de famintos na China – 58 milhões em dez anos – e elogia os esforços do governo em apoiar os pequenos agricultores.

Em contrapartida, o documento critica a Índia onde, segundo o relatório, 30 milhões de pessoas teriam entrado para a taxa dos famintos desde a metade dos anos 90.

Além disso, a ONG destaca que 46% das crianças estão abaixo do peso e subnutridas no país.

“A fome existe não porque não há alimento suficiente na Índia, mas porque as pessoas não conseguem chegar até ele. O governo indiano enfrenta um enorme desafio para proteger os direitos dos pobres”, diz o texto.

Ricos

Não só os esforços e as políticas dos governos de países em desenvolvimento e mais pobres são criticados no documento divulgado nesta sexta-feira.

No ranking dos países desenvolvidos, atrás de Luxemburgo está a Finlândia (2º) e a Irlanda (3º), com a Nova Zelândia(22º) e os Estados Unidos (21º) nas últimas colocações.

A ONG acusa o governo neozelandês de ordenar cortes acentuados no incentivo oficial à agricultura e classifica o incentivo do governo americano à agricultura como “mesquinho”.

“A contribuição (desses países) para expandir programas de segurança social permanece insignificante”, diz o documento, agregando Grécia, Portugal e Itália. BBC Brasil – Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

16/10/2009 - 13:37h Relatório de ActionAid elogia Brasil: “Fome Zero, do presidente Lula , reduziu a desnutrição infantil em 73 por cento e a mortalidade infantil em 45 por cento no Brasil”, constata a entidade

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SILVIA ALOISI – REUTERS – AGENCIA ESTADO

ROMA – O grupo ativista ActionAid divulgou relatório nesta quinta-feira em que elogia o Brasil e a China pelos esforços feitos para combater a fome nesses países.

O documento cita o programa Fome Zero, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que reduziu a desnutrição infantil em 73 por cento e a mortalidade infantil em 45 por cento no Brasil. A China reduziu o número de pessoas que passam fome em 58 milhões ao longo de dez anos.

Contrastando com isso, outros 30 milhões de pessoas se somaram às fileiras dos que passam fome na Índia desde meados dos anos 1990, apesar do aumento da renda per capita nesse país, e 47 por cento das crianças com menos de 6 anos de idade estão abaixo do peso.

O documento aponta ainda que a maioria dos países ricos vem descumprindo suas promessas de aumentar a ajuda alimentar e agrícola dada aos países pobres, diz um relatório do grupo ativista ActionAid divulgado na sexta.

Divulgado no Dia Mundial da Alimentação, o relatório também afirma que as promessas recentes do Grupo dos Oito de gastar 20 bilhões de dólares nos próximos três anos para ajudar os países pobres a se alimentarem não estão sendo cumpridas e que não foi fixado nenhum cronograma claro para as ações.

O número de pessoas que passam fome no mundo ultrapassou 1 bilhão este ano –105 milhões mais que em 2008–, e o ActionAid redigiu uma tabela mostrando até que ponto os países ricos vêm cumprindo suas promessas de aumentar a ajuda.

A tabela mede a ajuda dada para a agricultura e a segurança alimentar entre 2005 e 2007, comparando-a com um chamado lançado pela ONU por 30 bilhões de dólares anuais adicionais até 2012.

De acordo com o documento, com a exceção dos três maiores doadores –Luxemburgo, Suécia e Noruega–, a maioria dos países ricos não cumpre nem sequer metade do que é esperado deles para atingirem o alvo fixado para 2012.

Os resultados piores são da Grécia, Portugal, Itália, Estados Unidos e Nova Zelândia.

O relatório também lança um olhar crítico sobre as promessas do G8 feitas numa cúpula na Itália em julho.

A cúpula do G20 realizada em setembro resultou num pedido ao Banco Mundial para que fosse criado um fundo para aumentar os investimentos agrícolas nos países pobres. Mas não foi fixado um prazo ou cronograma para a criação.

O embaixador dos EUA junto às agências alimentares da ONU disse à Reuters em Roma esta semana que Washington vai depositar nesse fundo os 3,5 bilhões de dólares que prometeu como parte da iniciativa do G8, mas que a forma exata que o valor irá tomar ainda não foi determinada.

07/10/2009 - 14:48h Estudo aponta inovação como saída para setor têxtil

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Chico Santos, do Rio – VALOR

“O crescimento exponencial” dos produtores asiáticos de têxteis e confecções, liderados pela China, causou a desestabilização dos demais produtores, inclusive o Brasil, e tornou fundamental para estes “desenvolver estratégias competitivas diferenciadas, baseadas na utilização da inovação tecnológica como um instrumento relevante para inserção no mercado mundial”.

A conclusão é do estudo “Panorama da Cadeia Produtiva Têxtil e de Confecções e a Questão da Inovação”, recém-divulgado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O trabalho foi realizado por Ana Cristina Rodrigues da Costa, gerente do departamento de bens de consumo, comércio e serviços da área industrial do banco e por Érico Rial Pinto da Rocha, estagiário do setor.

Passados mais de oito anos desde que o BNDES realizou um estudo setorial detalhado da cadeia têxtil e de confecções (setembro/2000), o novo trabalho constatou que os mesmos gargalos detectados na versão anterior permanecem válidos.

Entre esse gargalos apontados pelo estudo estão a crescente entrada de bens importados, “muitas vezes contrabandeados”, participação “insignificante” nas exportações mundiais e concentrada nos elos de menor valor agregado da cadeia, especialização em fibras naturais – apesar de o consumo mundial crescer mais para o lado das fibras químicas e dos tecidos mistos -, parque de máquinas com idade média elevada, falta de ações coordenadas na cadeia produtiva, alta informalidade, baixa capacidade técnica e gerencial e dificuldade de acesso ao crédito.

Neste contexto, e diante da ofensiva asiática, não é estranhável que a participação brasileira nas exportações mundiais do setor tenha recuado de 0,7% para incipiente 0,3% em 2007, em um contexto no qual o valor do comércio mundial da cadeia cresceu 50% de 2000 a 2006, atingindo a soma de US$ 530 bilhões, 27,2% dos quais abocanhados pela China.

Apesar dos reveses, os técnicos do BNDES constatam que a importância da indústria têxtil e de confecção para a economia brasileira permanece intacta. Essa relevância é facilmente percebida quando se sabe que em 2007 o setor empregava 1,56 milhão de pessoas, número equivalente a 17,3% de todos os empregos gerados pela indústria de transformação no país.

As oscilações cambiais tiveram papel decisivo no comportamento das importações e exportações brasileiras, mas o crescimento do comércio mundial também foi um agente importante, tanto que em 2004 e 2005 – já em pleno ciclo de valorização do câmbio, só quebrado em setembro de 2008 – houve crescimento das exportações.

O estudo constata que, historicamente, a indústria têxtil e de confecções brasileira tem o foco voltado para o mercado interno. O Brasil é o sexto maior produtor mundial, responsável por 2,5% da produção total, mas ocupava em 2006 apenas o 46º lugar entre os maiores exportadores.

Para Carlos Eduardo Castello Branco, chefe do departamento ao qual estão subordinados os autores do estudo, o atual ciclo de valorização do real é novamente um obstáculo à conquista do mercado externo pelo setor têxtil brasileiro, mas representa também uma janela de oportunidade para que as empresas renovem seus parques fabris a custos favoráveis. Isto porque a quase totalidade das máquinas usadas no setor tem origem externa, principalmente da Alemanha, Itália e, mais recentemente, da China.

Renovar o maquinário, um tipo de inovação de fora para dentro, é apenas um dos requisitos apontados pelo BNDES para que a indústria têxtil e de confecções brasileira seja capaz de defender seu próprio mercado e disputar a demanda global. Desenvolver produtos de maior valor agregados diferenciados por estilo – “tribos”, como a do surfe, a da música eletrônica e outras-, faixa etária e gênero, além de ser capaz de dar resposta rápidas às tendências do mercado consumidor, são caminhos considerados essenciais para a sobrevivência do setor.

Paralelamente à oferta de crédito, o BNDES está trabalhando em conjunto com a Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) e a Associação Brasileira de Estilistas (Abest) no esforço para combinar o desenvolvimento de tecidos inovadores com a “reconhecida força do design brasileiro”, explica Ana Cristina.

De 1999 a 2007, o setor têxtil e de confecções, um dos prioritários na atual política industrial brasileira , batizada de política de desenvolvimento produtivo (PDP), captou anualmente no BNDES valores que foram de R$ 485,9 milhões, em 1999, a R$ 220,4 milhões, em 2004. Em 2008, com a economia pisando no acelerador, um ponto fora da curva: R$ 1,35 bilhão. De janeiro a junho deste ano, o valor foi de R$ 208,7 milhões, indicando que o fluxo deverá retornar à média histórica.

Os técnicos do BNDES destacaram que, apesar da queda dos valores, o número de operações saltou de 1.852 nos primeiros sete meses do ano passado para 5.206 no mesmo período deste ano. No subsetor de confecções, principal gerador de empregos, o total de operações passou de 1.323 para 4.294 (mais 224,6%).

17/09/2009 - 11:39h Lula teve ‘visão correta’ ao falar que crise era ‘marolinha’, diz ‘Le Monde’

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Segundo jornal, governo foi ‘preciso em estratégia concentrada no apoio do mercado interno’.

- O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve uma visão “bastante correta” ao dizer, no ano passado, que a crise no Brasil provocaria apenas uma “marolinha”, diz artigo publicado no jornal francês Le Monde nesta quinta-feira.

O diário argumenta que a recessão no Brasil durou apenas um semestre, citando o aumento de 1,9% do PIB no segundo trimestre de 2009, após queda nos dois trimestres imediatamente anteriores, além da recuperação da Bolsa de Valores de São Paulo e do real.

“A rápida recuperação do Brasil demonstra a precisão da estratégia adotada pelo governo e concentrada no apoio do mercado interno. As reduções de impostos a favor das indústrias de automóveis e de eletrodomésticos mantiveram as vendas nestes nestes dois setores cruciais”, afirma o jornal, lembrando ainda que a confiança do consumidor brasileiro jamais chegou a ser abalada.

No artigo, intitulado “A retomada do crescimento mundial se baseia nos Brics”, o Le Monde traça o panorama econômico dos países do grupo – Brasil, Rússia, Índia e China – um ano após a queda do banco Lehman Brothers, considerada o marco da atual crise financeira global.

Outros países

“É para os grandes países emergentes que se direciona hoje a esperança de que a fase de recuperação do nível de vida vai se acelerar. E que seus modelos de crescimento, até hoje essencialmente baseados nas exportações, vão progressivamente dar lugar a um novo modelo de desenvolvimento, garantindo mais importância à demanda interna”, diz o jornal.

Sobre a China, o Le Monde afirma que a previsão de crescimento de 8% para o PIB de 2009 deve ser atingida, mas ressalta que o modelo econômico do país favorece o investimento em detrimento do consumo.

O diário francês lembra que a Índia conseguiu manter um crescimento sustentado, principalmente nos setores de indústria e serviços.

Já a Rússia, tida como o país mais atingido dos Brics pela crise, também parece estar se recuperando, de acordo com o Le Monde, com um aumento do PIB nos últimos meses. BBC

 

 

 

Le rebond de la croissance mondiale repose sur les BRIC

16/09/2009 – LE MONDE

Le président de la Réserve fédérale américaine (Fed), Ben Bernanke, a célébré à sa manière le premier anniversaire de la faillite de la banque d’affaires Lehman Brothers en annonçant, mardi 15 septembre, que la récession économique était “très probablement terminée” aux Etats-Unis.

Le même jour, confirmant ses propos, le département du commerce américain a fait savoir que les ventes de détail avaient progressé de 2,7 % au mois d’août, leur plus forte hausse depuis janvier 2006. Si c’est le signe que le consommateur américain retrouve un peu d’appétit, les économistes sont aussi d’accord pour dire que la ménagère du Texas ne pourra plus jouer le rôle de moteur de croissance de l’économie mondiale, comme elle l’était depuis deux décennies. Le temps du désendettement et de l’épargne est venu pour les Américains. Ce n’est guère non plus sur la vieille Europe, engluée dans ses problèmes structurels de dettes publiques, de prélèvements obligatoires record et de retard technologique, que l’économie mondiale peut compter pour retrouver son dynamisme passé.

C’est vers les grands pays émergents, les fameux BRIC (Brésil, Russie, Inde, Chine) que l’espoir se porte aujourd’hui – l’espoir que la phase de rattrapage de leur niveau de vie vis-à-vis des pays occidentaux va se poursuivre, voire s’accélérer. Et que leurs modèles de croissance, jusqu’à présent essentiellement basés sur les exportations, qu’il s’agisse de T-shirts ou de matières premières, va progressivement céder la place à un nouveau mode de développement, faisant la part belle à la demande intérieure. Etat des lieux dans les économies des BRIC, un an après le séisme.

Chine. Avec des ventes de voitures en hausse de près de 30 % sur les huit premiers mois de l’année, une reprise soutenue des importations de matières premières et une Bourse en surchauffe, la Chine ne donne pas vraiment l’impression de souffrir de la crise mondiale. Le taux de croissance annuel de 8 % du PIB, l’objectif initial du gouvernement pour 2009, devrait être atteint, a récemment déclaré le Bureau national des statistiques.

La robustesse de la croissance chinoise s’explique par le méga-plan de relance de 4 trillions de yuans (400 milliards d’euros) sur deux ans annoncé fin 2008, source d’une frénésie d’investissement en infrastructures sans pareil dans l’histoire économique mondiale. Dans l’urgence, le gouvernement chinois a ordonné aux banques d’ouvrir toutes grandes les vannes du crédit. Et après un fort ralentissement en juillet, les crédits sont repartis en août.

Cette stratégie de relance aux stéroïdes, qui a permis d’amortir le choc sur l’emploi et d’éviter que n’explose le chaudron social, est aussi porteuse de déséquilibres : une partie de l’argent des banques s’est visiblement dirigée vers la spéculation (bourse, immobilier et matières premières), tandis que de futures mauvaises créances s’accumulent. Le modèle économique chinois, ont dénoncé plusieurs économistes chinois réunis vendredi 12 et samedi 13 septembre, au Davos chinois, à Dalian, penche un peu plus du mauvais côté, celui de l’investissement au détriment de la consommation.

Inde. Malgré la crise mondiale survenue il y a un an, la croissance indienne s’est poursuivie à un rythme soutenu. Elle a atteint 6,7 % sur l’année fiscale qui se termine au 31 mars 2009, et devrait descendre aux alentours de 6 % lors de l’exercice suivant. La mauvaise mousson de cet été, avec la moitié du pays touchée par la sécheresse, explique ce léger fléchissement. Hormis l’agriculture, tous les secteurs sont épargnés par la crise. La production industrielle a connu en juin sa meilleure performance en un an et demi. Et le secteur des services a maintenu son rythme de croissance de 6,3 % au premier trimestre 2009. L’Inde doit sa bonne performance à la robustesse de sa demande intérieure et à la résistance de son système financier, “peu connecté au reste du monde”, comme le note Rajiv Kumar, directeur du Conseil indien pour la recherche sur les relations économiques internationales (Icrier).

Dans un pays où seuls 15 % de l’économie dépendent des exportations, la demande intérieure a été peu affectée par la récession mondiale, surtout dans les zones rurales, qui constituent la moitié du revenu national. Grâce aux programmes sociaux et à la hausse des investissements publics dans les infrastructures, les campagnes ont, au contraire, vu leurs revenus augmenter. L’Etat en paie le prix fort, avec un déficit budgétaire représentant 6,8 % du PNB. Et l’agence de notation Standard & Poor’s a ramené de “stable” à “négatif” sa notation souveraine sur l’Inde. Le pays reste toutefois une destination attirante pour les investisseurs du monde entier, car il est perçu comme un relais de croissance idéal aux marchés saturés, et touchés par la crise, des pays développés.

Brésil. En prédisant avec ironie il y a un an que “le tsunami” de la crise provoquerait dans son pays une simple “vaguelette”, le président brésilien, Luiz Inacio Lula da Silva, avait vu assez juste : la récession n’aura duré qu’un semestre.

Le produit intérieur brut a augmenté de 1,9 % au deuxième trimestre 2009, après avoir régressé pendant deux trimestres consécutifs : – 3,4 % (octobre-décembre 2008) et – 1 % (janvier-mars 2009).

Selon le ministre de l’économie, Guido Mantega, le géant sud-américain devrait, sur sa lancée, retrouver en 2010 sa vitesse de croisière d’avant la crise, autour de + 4,5 %.

Happé par la récession plus tard que la plupart des pays du monde, le Brésil en sort plus tôt, comme l’attestent deux autres indices : la bourse de Sao Paulo a retrouvé son très haut niveau d’il y a un an et la monnaie, le real, a reconquis toute sa vigueur face au dollar et à l’euro.

La rapide récupération du Brésil témoigne de la justesse de la stratégie adoptée par le gouvernement et axée sur le soutien du marché intérieur. Des réductions d’impôts en faveur de l’automobile et de l’électroménager ont maintenu les ventes dans ces deux secteurs industriels cruciaux.

La banque centrale a aidé les banques en difficulté, puisant dans ses grosses réserves – 200 milliards de dollars – pour irriguer le marché asséché. De grosses entreprises, comme le géant minier Vale, ont pris peur, en gelant leurs investissements, ce que le président Lula leur reproche aujourd’hui. Mais la confiance des consommateurs, elle, n’a guère été ébranlée : “L’économie a survécu grâce aux plus pauvres”, souligne Lula.

Russie. Bien plus touchée par la crise que les autres pays du BRIC (Brésil, Inde, Chine), la Russie connaît un semblant de reprise. Son PIB a augmenté, en glissement mensuel, de 0,4 % en juin et de 0,5 % en juillet.

Le ministre russe des finances, Alexeï Koudrine, se veut optimiste : le pays émergera “complètement” au troisième trimestre 2009. “Sur le long terme et pour de multiples raisons, la Russie restera dotée d’une solide croissance” qui lui permettra de se hisser “au sixième rang de l’économie mondiale”.

Après un essor économique sans précédent ces dix dernières années, la Fédération russe a subi la crise de plein fouet. Son PIB a chuté de 9,8 % au premier trimestre sur un an, et de 10,9 % au deuxième trimestre.

Cet atterrissage brutal s’explique par le modèle russe de croissance, axé sur les exportations de matières premières et le recours massif aux crédits étrangers. La crise a révélé l’échec des autorités à mettre en place des réformes structurelles au moment où l’Etat engrangeait les recettes de la vente du pétrole. Conscientes de ces faiblesses, les autorités russes ont plaidé ces derniers mois en faveur d’une diversification et d’une modernisation des infrastructures.

Ces bonnes résolutions risquent d’être vite oubliées. Le frémissement actuel de l’économie a une seule cause, la remontée des prix du pétrole, passés de 33 dollars en décembre 2008 à 70 dollars ces derniers mois. Quant au recours aux emprunts à l’étranger, il s’est tari, ce qui signe la fin de la consommation effrénée et des projets de développement. “Vingt années de tumultueux changements dans notre pays n’ont pas changé son humiliante dépendance aux matières premières. (…) A de rares exceptions près, nos entreprises ne créent pas les biens et la technologie nécessaires à la population”, a récemment souligné le président, Dmitri Medvedev.

Jean-Pierre Langellier (à Rio), Marie Jégo (à Moscou), Julien Bouissou (à New Delhi), et Brice Pedroletti (à Shanghaï)

30/08/2009 - 16:12h Um ano depois, Brasil passa no teste e sai da crise maior do que entrou

Para especialistas, avanço do País e de outros emergentes é uma das características do mundo pós-crise

Fernando Dantas – O Estado SP


O Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual. “O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instilar confiança”, diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para Jim O’Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Bric (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), “o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos”.

O crescimento de importância do Brasil e de outras economias emergentes é uma das características do novo mundo surgido com a crise econômica. Para comentar essa e várias outras mudanças, o Estado ouviu oito grandes economistas estrangeiros e brasileiros: Rogoff; O’Neill; Barry Einchengreen, da Universidade de Berkeley; José Alexandre Scheinkman, de Princeton; Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio gestor do Gávea Investimentos; Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA e codiretor do Instituto de Estudo de Políticas Econômicas – Casa das Garças (Iepe/CdG); Affonso Celso Pastore, consultor e ex-presidente do BC; e Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Pastore observa que a recessão no Brasil foi curta, de apenas dois trimestres, comparada a quatro em países como Estados Unidos, Alemanha e França. Goldfajn nota que há os países que estão saindo da recessão no segundo trimestre e os que estão saindo no terceiro – o Brasil está entre os primeiros, com várias nações asiáticas. “Mesmo no primeiro trimestre, se olhar mês contra mês, há números fortes de crescimento no Brasil”, acrescenta.

Para Goldfajn, a crise foi um teste de estresse para diversos países, no qual alguns passaram, outros não, alguns tiveram nota boa e outros nota ruim. “Acho que o Brasil tirou nota boa, e agora está todo mundo olhando e dizendo ‘esse cara é bom’”, diz Goldfajn.

Uma das principais razões para o sucesso do Brasil em enfrentar a crise, segundo Pastore, é que ela pegou o País com o regime macroeconômico adequado – câmbio flutuante, bom nível de reservas, inflação controlada, superávit primário, dívida pública desdolarizada e caindo em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB). Essa solidez combinou-se com o sistema financeiro capitalizado, pouco alavancado, que estava proibido pela regulação de operar com os ativos perigosos, como os títulos estruturados no mercado americano de hipotecas subprime. “Uma das lições da crise é que países que tinham uma abordagem equilibrada da regulação do mercado financeiro, como Brasil, Austrália, Canadá , não tiveram crise bancária”, diz O’Neill.

A política anticíclica, baseada em corte de impostos e ampliação de gastos públicos, também ajudou, embora esta segunda parte seja criticada pelos efeitos de médio prazo. Para Pastore, os aumentos do funcionalismo e do Bolsa-Família tiveram efeitos contracíclicos, mas “por coincidência”, já que foram decididos antes da crise. “O defeito é que, se fosse política contracíclica mesmo, teria de expandir gastos transitórios, e não permanentes.”

Para a maioria dos economistas, o aumento dos gastos públicos correntes reduz o espaço do investimento, e impede que o Brasil cresça a um ritmo ainda mais forte do que os 4% a 5% que estão sendo previstos. “Não é nem preciso dizer que há um monte de coisas que o Brasil poderia fazer para crescer mais rápido”, comenta Rogoff.

De qualquer forma, o sucesso diante da crise jogou o Brasil no radar dos investidores. “À medida que continuarmos a crescer mais que o mundo, é natural que o País receba um aporte muito grande de investimentos estrangeiros diretos”, diz Pastore, acrescentando que eles aumentaram, mesmo com recessão e queda de lucros nos países que sediam as empresas que investem no Brasil.

A contrapartida dos fluxos de capital é o câmbio valorizado e o déficit em conta corrente, o que significa que o mundo está financiando o Brasil para consumir muito (o que implica poupar pouco) e investir ao mesmo tempo. Segundo Goldfajn, os brasileiros serão um dos povos convocados, junto com os asiáticos, a preencher o espaço deixado pelo fim da exuberância do consumidor americano, atolado em dívidas e necessitado de reconstruir seu patrimônio.

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”Não foi o fim do mundo que se prenunciava em dezembro”

Reação global de governos impede crise pior; papel da China se torna vital para retomada

Fernando Dantas – O Estado SP

A crise global não foi tão ruim quanto parecia no pior momento, entre o fim do último trimestre de 2008 e o primeiro de 2009. “Não foi o fim do mundo que se prenunciava em janeiro e dezembro, porque a reação dos governos foi do tamanho da crise”, diz Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA, comentando os maciços pacotes fiscais e a política monetária expansionista convencional (corte de juros) e não convencional (injeção de dinheiro na economia pela compra de títulos em poder do mercado) das principais economias do mundo.

Hoje, mesmo um observador relativamente pessimista, como Kenneth Rogoff, de Harvard, prevê que o mundo deve se estabilizar num crescimento em torno 4%, menos que o ritmo próximo de 5% dos anos anteriores à crise, mas já claramente fora da recessão. Ele ressalva que a atual recuperação “não é normal, com o sistema todo na UTI, o sistema bancário bancado pelo governo, e o mercado residencial se estabilizando apenas por causa dos grandes subsídios às hipotecas.”

Barry Eichengreen, da Universidade Berkeley, é outro que mostra ceticismo quanto ao vigor da recuperação mundial. “A mudança mais importante na economia pós-crise é o grande endividamento nos países industriais avançados, que tornará as finanças públicas restritivas, criando um ambiente inamistoso para o investimento, e que não é bom para o crescimento.” Ele se refere à necessidade que os governos dos países ricos terão de aumentar impostos e cortar gastos para contrabalançar o enorme crescimento da dívida pública na esteira dos grandes déficits fiscais da política contracíclica.

Um ponto crucial para sustentar a recuperação global é a capacidade da China de insuflar a demanda global. Para Rogoff, “a mudança número um do mundo pós-crise é que o consumidor americano, o combustível da economia mundial no último quarto de século, provavelmente será menos energético nos próximos cinco a dez anos.”

A grande questão, hoje, é saber se o recuo do superendividado consumidor americano pode ser compensado pelo avanço do consumo na China e em outros países emergentes asiáticos, e até no Brasil.

Para Rogoff, “a demanda dos mercados emergentes vai substituir a dos EUA, mas isso não acontecerá de um dia para o outro.” Essa mudança, ele continua, exige uma grande reestruturação da economia chinesa, que ainda está voltada para as exportações, e não para expandir o consumo interno.

Jim O’Neill, do Goldman Sachs, discorda: “Essa crise talvez tenha sido necessária, porque forçou a China a fazer uma transição para o crescimento puxada pela demanda interna. Isso era exatamente o que o mundo precisava para evitar a crise, e é o que mundo precisa para sair da crise.”

Para O’Neill, os dados da expansão de consumo da China são muito claros. As vendas de varejo saltaram 15,2% em julho e, nos últimos dois anos, convertidas em dólares, apresentam um avanço maior do que o recuo no consumo americano. Em relação ao setor externo, o economista inglês diz que tentou apostar recentemente, com membros da equipe econômica do governo britânico, que a China terá déficit comercial nos próximos dois anos. “Mas agora nós achamos que é possível que isso aconteça nos próximos 12 meses. Desde abril, o crescimento das importações chinesas é muito mais forte que o das exportações.”

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Crise mudou mapa da globalização

Mudança ocorreu tanto no comércio quanto nos investimentos e nas relações de poder de órgãos internacionais

Jamil Chade – O Estado SP

Os fluxos de investimentos mudaram de direção, a China se transformou no maior exportador do planeta e organizações consideradas como pilares das decisões internacionais hoje são questionadas e até substituídas. Em 12 meses, a crise acelerou processos de profunda mudança na geografia da globalização e uma incipiente nova relação de poder entre países.

No campo comercial, a maior novidade foi a transformação da China na maior exportadora do mundo. Por uma margem mínima, superou a Alemanha, que liderava desde 2003. A China exportou US$ 521,7 bilhões em seis meses, ante US$ 521,6 bilhões da Alemanha. Os americanos estão na terceira colocação.

A China já vinha subindo no ranking mundial. Mas a crise na Europa acelerou sua nova posição. Em 2002, a China era a quinta maior exportadora, com vendas anuais de US$ 325 bilhões, US$ 200 bilhões abaixo do que o país vendeu apenas nos últimos seis meses. Em 1997, a China era apenas a 16ª maior exportadora, com US$ 24,5 bilhões em vendas.

Nos últimos anos, dezenas de medidas foram adotadas contra os produtos chineses, que são hoje os mais afetados por medidas restritivas. Uma delas foi adotada pelo Brasil no início do ano para barrar a entrada de produtos siderúrgicos.

A crise ainda redesenhou o mapa dos principais destinos das exportações de vários países, inclusive o do Brasil. Neste ano, a China superou os EUA como o principal comprador de bens brasileiros. Além disso, passou a ser o maior fornecedor de produtos à Europa, acabando com 50 anos de relação comercial privilegiada entre europeus e americanos.

Em junho, as importações americanas estavam 34,5% abaixo dos níveis de junho de 2008. No ano passado, os Estados Unidos foram os maiores importadores do planeta, consumindo mais de 12% de tudo o que o mundo exporta.

No setor de investimentos, a crise também mudou a estratégia de multinacionais e coloca os países emergentes no centro da internacionalização. Levantamento com mais de 240 multinacionais elaborado pela ONU deixou claro que não há um risco de “desglobalização” da produção. O processo de internacionalização será retomado, mesmo mais lentamente. E será direcionado de forma cada vez mais clara aos emergentes.

A pesquisa mostrou que as multinacionais continuarão a investir no exterior para a internacionalização de suas vendas, produção e compra de ativos. Tanto em países emergentes como nos ricos, o levantamento indica que a crise está dando um incentivo extra para as empresas buscarem novos mercados, além de novos locais de produção para reduzir custos.

A tendência de uma maior atenção aos emergentes já vinha ocorrendo nos últimos dez anos. Em 1998, os países em desenvolvimento tinham 8% dos fluxos de investimentos, ante 13% em 2007. A tendência é de que a taxa aumente até 2011.

A preferência será pela Ásia, pelo tamanho do mercado e acesso a trabalhadores mais baratos. Cinco dos 15 maiores destinos de investimentos estarão na Ásia até 2011. Os países que formam o Bric – Brasil, Rússia, Índia e China – ocupam agora quatro dos cinco primeiros lugares preferidos para investimentos até 2011 e dividem as preferências com os americanos.

Em termos gerais, porém, o mundo ainda verá uma queda de investimentos em 2009 de cerca de 50%, ante 2008. Os mais afetados serão os países ricos, com redução de 60%. Mas os emergentes mostrarão certa resistência, com queda de apenas 25%. Em 2008, o mundo já sofreu queda de 15% nos investimentos, depois de atingir recorde de US$ 1,9 trilhão em 2007.

Outro sinal de mudança no mapa da globalização é a iniciativa de alguns países de reduzir sua dependência em relação ao dólar e acelerar a compra de papéis emitidos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A decisão de Brasil, China e Rússia de se tornarem credores do FMI promove uma pequena revolução no mercado. Parte da estratégia dos emergentes é mostrar que têm como ser credores e, portanto, têm direito a uma maior voz em entidades como o FMI e o Banco Mundial.

O debate sobre os grupos e instituições financeiras ainda deixa alguns na defensiva. É o caso de Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países ricos e por anos tentou atrair os emergentes. Para Gurría, o mundo passará a viver em nova relação entre instituições e diferentes grupos de países, como o G-8 ou o G-20. “Cada grupo precisa de seu espaço. Hoje, o mundo é das redes, do network. E assim é que podemos imaginar uma nova configuração de países.”

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25/08/2009 - 11:21h China supera a Alemanha como maior exportador

Comércio: Dados do 1º semestre mostram pequena vantagem chinesa

Ralph Atkins, Financial Times, de Frankfurt – VALOR

As exportações chinesas abriram uma ligeira dianteira em relação às da Alemanha no primeiro semestre deste ano, segundo novos dados divulgados ontem, em mais uma indicação de que a posição da Alemanha, de principal país exportador do mundo, está ameaçada.

A China exportou mercadorias em valor equivalente a US$ 521,7 bilhões no primeiro semestre do ano, enquanto o total da Alemanha foi US$ 521,6 bilhões, conforme anunciou a Organização Mundial do Comércio (OMC), com sede em Genebra.

Estes números de exportação são acompanhados de perto na Alemanha, a maior economia da Europa, que terá eleições nacionais no próximo mês. As vendas dos seus produtos industriais têm impulsionado em grande parte o crescimento econômico nos últimos anos e, durante toda a crise econômica, o governo da premiê conservadora Angela Merkel tem defendido firmemente o modelo econômico do país, voltado às exportações.

Foto Destaque

A Alemanha há muito tempo vem se preparando para que a economia chinesa, de crescimento muito mais acelerado, assuma o seu título de “campeã mundial de exportações”.

O valor provável das exportações alemãs e chinesas para o ano cheio continua, porém, incerto e dependerá decisivamente das oscilações das taxas de câmbio nos próximos meses.

Um euro forte poderia ajudar a reduzir as vendas da Alemanha. Os setores exportadores do país mostraram sinais de recuperação nos meses recentes.

“Está apertado demais para podermos extrapolar para o ano todo e, quem dirá, para o próximo ano”, afirmou Patrick Low, economista-chefe da OMC.

As exportações alemãs foram duramente abaladas pela queda na confiança mundial que se seguiu à derrocada do banco de investimentos americano Lehman Brothers, no ano passado.

Mas surgiram sólidos sinais de uma sólida retomada no crescimento. Em junho, mês mais recente para o qual há dados disponíveis, as exportações alemãs deram um salto de 7% na comparação com o mês anterior. Apesar disso, elas ainda ficaram 22,3% abaixo do nível do ano anterior. As exportações chinesas seguiram um padrão semelhante.

O aumento repentino nas exportações ajudou a explicar porque a Alemanha conseguiu registrar um aumento no PIB no segundo trimestre, na comparação com o trimestre anterior – dando a entender que o país teria saído da recessão antes dos EUA, Reino Unido e da maioria das demais grandes economias da UE.

Por sua vez, a recuperação na Alemanha está ajudando a elevar o desempenho global da zona do euro. As encomendas à indústria na zona do euro dispararam, numa alta de 3,1% em junho, na comparação com o mês anterior (leia texto ao lado), segundo dados da Eurostat, a agência oficial de estatísticas da União Europeia.

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Para Pequim, estímulo ainda é necessário

Agências internacionais – VALOR

O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, disse que a economia de seu país “ainda enfrenta muitas novas dificuldades e problemas” e que o governo manterá suas políticas de estímulo uma vez que recuperação ainda carece de bases sólidas.

Wen disse que apesar de melhoras nas condições da economia chinesa, não se pode ser “cegamente otimista”. As declarações foram feitas ontem durante visita ao sul do país e veiculadas pelo site do gabinete do premiê.

“Ainda há muitos fatores de instabilidade e de incerteza pela frente e a situação econômica futura é ainda muito grave, embora tanto a economia mundial quanto a economia nacional estejam passando por mudanças positivas neste momento.”

O premiê advertiu também que os efeitos de algumas das medidas do governo podem começar a perder força enquanto outras levarão algum tempo até apresentarem resultados. No comunicado do gabinete com as declarações de Wen não há mais detalhes dos problemas mencionados por ele.

A cautela do líder chinês contrasta com um otimismo crescente entre muitos analistas que dizem que a China está fazendo progressos impressionantes para deixar para trás os efeitos da crise. Muitos têm repetido que a China será a primeira grande economia a sair da maior retração mundial desde os anos 30.

Wen prometeu que Pequim continuará aplicando suas políticas para incrementar a demanda doméstica, ampliar o crédito e melhorar eficiência. O país está pondo em prática a um plano de estímulo de US$ 586 bilhões previsto para durar dois anos. O objetivo é injetar recursos do Estado na economia para estimular o consumo doméstico por meio de maiores gastos públicos em obras e ampliação de crédito.

O Banco da Construção da China afirmou ontem, no entanto, que há o excesso de recursos no sistema bancário está criando uma bolhas do mercado, o que deu asas a temores de que autoridades chinesas estejam preparando – ao contrário da promessa de Wen – um aperto no crédito.

“Há incerteza na economia e bolhas no mercado de capitais”, disse Guo Shuqing, presidente do banco, o segundo maior do país. “O sistema bancário chinês ainda tem excesso de liquidez.”

No primeiro trimestre, bancos do país concederam um valor recorde de US$ 1,1 trilhão em novos empréstimos para ajudar a por em prática o pacote de estímulo do governo.

Foi o pacote que contribuiu para que a economia chinesa tivesse um crescimento de 7,9% no último trimestre – ante os 6,1% do trimestre anterior. O premiê e outras autoridades chinesas têm alertado, no entanto, que muitas empresas no país ainda registram resultados ruins e que outras áreas mostram que a fase de recuperação ainda não está bem fundada.

“A fundação da recuperação econômica não está estável, não está firme, não está equilibrada e certamente não podemos ser cegamente otimistas”, disse Wen.

A meta de crescimento do governo para este ano é de 8%. Estimativas de analistas privados variam de 7% a 9,4%.

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Demanda chinesa puxa o Japão

Bloomberg – VALOR

A demanda da China, a economia que mais cresce entre as principais do mundo, está contribuindo para tirar o Japão de sua mais grave recessão do pós-guerra, disse uma destacada economista do governo japonês.

“Não há dúvida de que a recuperação econômica da China está contribuindo para uma reação no Japão e em outras economias da região”, disse Tomoko Hayashi, diretora para economias externas da Secretaria de Governo em Tóquio.

Indústrias, da Honda à Komatsu, se beneficiaram no trimestre passado com o pacote de incentivo econômico da China, de 4 trilhões de iuan (US$ 585 bilhões), o que ajudou a economia do Japão a crescer pela primeira vez em mais de um ano. As exportações para a China superaram as vendas para os Estados Unidos e fizeram com que o país se tornasse o maior mercado externo do Japão este ano. O mercado chinês está compensando a fragilidade dos gastos do consumidor e das empresas no mercado japonês.

A “recuperação [do Japão] seguirá dependendo muito da demanda externa e do pacotes de estímulo no segundo semestre de 2009 e início de 2010″, disse Tetsufumi Yamakawa, economista-chefe para Japão do Goldman Sachs.

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Imóvel comercial dispara na China

Bloomberg – VALOR

A China superou os EUA e o Reino Unido juntos em vendas de imóveis comerciais no primeiro semestre do ano, disse a empresa de pesquisa Real Capital Analytics, sediada em Nova York.

As transações chinesas totalizaram US$ 31,2 bilhões, depois da disparada de vendas propiciada pelo boom de crédito patrocinado pelo governo chinês. As vendas nos EUA somaram US$ 16,2 bilhões no primeiro semestre, segundo o relatório, e as do Reino Unido, US$ 13,7 bilhões.

“Não há dúvida que de a China será um participante mais significativo no cenário mundial de transações de imóveis comerciais”, disse Dan Fasulo, diretor-executivo da Real Capital.

Cerca de US$ 62,8 bilhões em imóveis comerciais foram negociados mundialmente no segundo trimestre, 17% a mais que nos três meses anteriores, o que representa o primeiro aumento em 18 meses, disse a Real Capital.

Esse crescimento indica uma recuperação mundial. O total mundial de vendas no primeiro semestre foi de US$ 116,4 bilhões, 65% a menos que no mesmo período do ano passado e US$ 500 bilhões a menos que no pico no primeiro semestre de 2007. Espera-se que as vendas cresçam neste semestre.

24/08/2009 - 09:27h A crise financeira um ano depois

O problema agora é que o desemprego continua em alta tanto nos EUA como na Europa.

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Por Jeffrey D. Sachs – VALOR

Um ano depois do início da crise, ela parece estar sanada. Mas o desemprego continua em alta

Já transcorreu quase um ano desde que a economia mundial balançou à beira da calamidade. No espaço de três dias, de 15 a 18 de setembro de 2008, o Lehman Brothers apresentou seu pedido de falência, o controle da mega-seguradora AIG foi assumido pelo governo dos EUA e o Merrill Lynch, ícone falido de Wall Street, foi absorvido pelo Bank of America numa transação intermediada e financiada pelo governo dos EUA. Sobreveio o pânico e o crédito parou de circular. Companhias não conseguiam capital de giro, quanto mais recursos para investimentos de longo prazo. Uma depressão parecia possível.

Hoje, a tempestade foi domada. Meses de ações emergenciais promovidas pelos principais bancos centrais do mundo impediram o colapso dos mercados financeiros. Quando os bancos pararam de fornecer liquidez de curto prazo a outros bancos e companhias industriais, os bancos centrais preencheram a lacuna. Consequentemente, as principais economias evitaram um colapso do crédito e da produção. A sensação de pânico diminuiu. Os bancos estão mais uma vez emprestando uns aos outros.

Apesar de o pior ter sido evitado, muitas aflições persistem. A crise culminou no colapso dos preços dos ativos no fim de 2008. Famílias ricas e de classe média em todo o mundo se sentiram mais pobres e, portanto, reduziram suas despesas radicalmente. Os preços de alimentos e de petróleo nas alturas se somaram às aflições e, por conseguinte, à depressão econômica. Empresas não conseguiam vender a sua produção, o que acarretou cortes de produção e demissões. O desemprego crescente agravou a perda de riqueza familiar, arremessando famílias em profundo perigo econômico e levando a reduções adicionais nos gastos dos consumidores.

O grande problema agora é que o desemprego continua aumentando nos EUA e na Europa, já que o crescimento é lento demais para gerar suficientes postos de trabalho novos. Deslocamentos continuam sendo sentidos por todo o mundo.

Seguiu-se um enorme debate em torno do chamado “gasto de estímulo” nos EUA, Europa e China. Esse gasto tem como objetivo usar os maiores gastos ou incentivos fiscais do governo para compensar a queda no consumo das famílias e no investimento empresarial. Nos EUA, por exemplo, praticamente um terço do pacote de estímulo de US$ 800 bilhões consiste em redução de impostos (para estimular gastos de consumidores); um terço é composto por despesas públicas em estradas, escolas, energia elétrica e outros tipos de infraestrutura; e um terço assume a forma de transferências federais a governos locais e estaduais para serviços de saúde, seguro-desemprego, salários para escolas.

Os pacotes de estímulo são controversos, pois aumentam o déficit orçamentário e, consequentemente, implicam na necessidade de reduzir gastos ou elevar impostos no futuro próximo. A pergunta é se eles estimulam a produção e a geração de empregos com êxito no curto prazo, e, caso afirmativo, se fazem o suficiente para compensar os inevitáveis problemas orçamentários que virão.

A real eficácia desses pacotes não está clara. Suponhamos que o governo conceda uma redução de imposto para aumentar o salário líquido dos consumidores. Se os consumidores decidirem poupar essa redução em vez de estimular o consumo. Nesse caso, o estímulo terá pouco efeito positivo sobre o gasto da família, mas agravará o déficit orçamentário.

Uma avaliação inicial dos pacotes de estímulo sugere que o programa da China funcionou bem. A queda acentuada nas exportações da China para os EUA tem sido compensada por uma queda expressiva nos gastos do governo chinês com infraestrutura, digamos, na construção de metrôs nas maiores cidades da China.

Nos EUA, o veredicto é menos claro. O corte de impostos foi mais provavelmente economizado que gasto. O componente de infraestrutura ainda não foi gasto devido a longas demoras para transformar o pacote de estímulo dos EUA em projetos de construção reais. A terceira parte – a transferência para governos locais e estaduais- quase certamente tem sido bem sucedida, na manutenção das despesas com escolas, saúde e desempregados.

Em suma, os efeitos do estímulo sobre os gastos nos EUA provavelmente têm sido positivos, mas reduzidos, e sem um efeito decisivo sobre a economia. Além disso, temores em torno do enorme déficit orçamentário dos EUA, agora na casa dos US$ 1,8 trilhão (12% do PIB) por ano, tendem a aumentar, não só gerando enormes incertezas no meio político e nos mercados financeiros, mas também diminuindo a confiança dos consumidores.

Quando a crise se aprofundou há um ano, Barack Obama inseriu na campanha presidencial o tema de uma “recuperação verde”, baseada num surto de investimentos em energias renováveis, novos veículos elétricos, edifícios “verdes” ambientalmente eficientes e agricultura ecologicamente segura. No calor da batalha contra o pânico financeiro, a atenção das políticas públicas se afastou daquela recuperação verde. Agora, os EUA precisam retornar a essa ideia importante.

As políticas públicas do governo nos EUA e em outros países ricos deveriam estimular aqueles investimentos por meio de incentivos especiais. Esses incentivos incluem um sistema de teto e mercado para emissões de gás estufa, subsídios para pesquisa e desenvolvimento em tecnologias sustentáveis, tarifas do tipo “feed-in” (que visam estimular tecnologias de geração de energia limpa alternativa) e incentivos reguladores para energia renovável e outros atrativos para a absorção de tecnologias. “verdes”.

O mundo rico também deveria fornecer aos países mais pobres subsídios e empréstimos a juros baixos para comprar tecnologias energéticas sustentáveis, como energia solar e geotérmica. Fazê-lo se somaria à recuperação global, melhoraria a sustentabilidade ambiental de longo prazo e aceleraria o desenvolvimento econômico. A crise ainda pode ser uma oportunidade para sair de uma rota de bolhas financeiras e consumo excessivo rumo a uma rota de desenvolvimento sustentável. Na verdade, aproveitar essa oportunidade é a única receita para crescimento genuíno que nos resta.

Jeffrey D. Sachs é professor de Economia na Universidade Columbia e consultor especial do secretário-geral das Nações Unidas para as Metas de Desenvolvimento do Milênio. Copyright: Project Syndicate, 2009.

23/08/2009 - 11:55h EUA, China e a ordem econômica emergente

 

Henry Kissinger*, TRIBUNE MEDIA SERVICES – O Estado SP

 


http://www.thewashingtonnote.com/archives/kissinger.jpgNum recente jantar de encerramento anual de seu diálogo estratégico e econômico em nível ministerial em Washington, dirigentes dos Estados Unidos e da China expressaram seu compromisso com uma atitude cooperativa com um entusiasmo maior que nos quase 40 anos desde que os dois países retomaram contato em 1971. É bom que seja assim, pois a próxima década testemunhará desafios radicais à sua adaptabilidade e visão.

O diálogo anual, tal como é, se concentra inevitavelmente nos problemas do momento. Por mais proveitoso que seja, o desafio mais profundo para uma relação descrita pelo presidente Barack Obama como tão importante quanto qualquer outra no mundo, é alcançar uma visão com respeito à ordem mundial emergente.

A suposição de que o fim da recessão vai restaurar o sistema econômico global familiar, ignora a subversão psicológica e política que ocorreu.

Uma vasta maré de liquidez combinada com o apetite americano por bens de consumo enviou quantidades imensas de dólares para a China que, por sua vez, a China nos emprestou de volta para um consumo ainda maior.

Antes da crise, a China enviou legiões de especialistas aos Estados Unidos e investiu em grandes instituições financeiras americanas para aprender os segredos do sistema que parecia produzir um crescimento global permanente com pouco risco.

A crise econômica abalou essa convicção. Os dirigentes econômicos chineses perceberam que o sistema financeiro americano submeteu uma década de suas poupanças a flutuações potencialmente catastróficas.

Para proteger o valor de seu investimento em títulos do Tesouro e para sustentar sua própria economia movida a exportações, a China se vê obrigada a continuar aumentando a posse desses títulos para perto de US$ 1 trilhão.

A ambiguidade é a consequência inevitável tanto na China como nos Estados Unidos.

Por outro lado, as duas economias se tornaram cada vez mais dependentes uma da outra. A China tem grande interesse numa economia americana estável – e de preferência em crescimento. Mas a China também tem um interesse crescente em reduzir sua dependência das decisões americanas.

Como tanto a inflação como a deflação americanas se tornaram pesadelos tão graves para a China quanto são para os Estados Unidos, os dois países se defrontam com o imperativo de coordenar suas políticas econômicas.

Como maior credora dos EUA, a China tem um grau de alavancagem econômica sem precedentes na experiência americana. Ao mesmo tempo, a busca pela ampliação do escopo de decisão independente existe numa combinação ambivalente em ambos os lados.

Algumas iniciativas chinesas refletem essa tendência. Autoridades chinesas se sentem mais livres para oferecer conselhos públicos e privados aos Estados Unidos do que antes. A China começou a fazer comércio com Índia, Rússia e Brasil em suas próprias moedas.

A proposta do presidente do banco central chinês de criar gradualmente uma moeda de reserva alternativa é outro ponto em questão. Muitos economistas americanos fazem pouco dessa ideia. Mas ela aflora em tantos fóruns, e a China tem um histórico tão consistente de perseguir seus projetos com grande paciência, que deveria ser levada a sério.

Para evitar uma deriva gradual para políticas antagônicas, a influência chinesa nos mecanismos globais de tomada de decisões econômicas precisa ser reforçada.

A sabedoria convencional de uma nova ordem econômica mundial cria outro imperativo de coordenação de políticas econômicas de longo alcance. Segundo ela, a economia mundial recuperará sua vitalidade assim que a China consumir mais e os EUA consumirem menos. Mas à medida que ambos os países aplicarem essa prescrição, isso inevitavelmente alterará a estrutura política.

Uma América que consome menos importará menos da China. À medida que as exportações chinesas para os EUA diminuírem e a China mudar a ênfase de sua economia para um maior consumo e um aumento nos gastos com infraestrutura, uma ordem econômica diferente surgirá. A China será menos dependente do mercado americano e seu padrão de mudanças comerciais, enquanto a crescente dependência de países vizinhos de mercados chineses aumentará a influência política da China. Até certo ponto, a cooperação política terá de compensar essa mudança.

Uma definição cooperativa para um futuro longo não será fácil.

Historicamente, China e Estados Unidos têm sido potências hegemônicas capazes de estabelecer suas próprias agendas de forma essencialmente unilateral.

Elas não estão acostumadas a alianças estreitas ou a processos consultivos que restrinjam sua liberdade de ação numa base de igualdade. Quando estiveram em alianças, elas tenderam a dar como certo que o manto de liderança lhes pertencia e exibiram um grau de dominação inconcebível numa emergente parceria sino-americana.

Para fazer esse esforço funcionar, os líderes americanos precisam resistir ao canto de sereia de uma política de contenção extraída do manual de estratégia da Guerra Fria. A China precisa evitar uma política voltada para reduzir alegados desígnios hegemônicos americanos e a tentação de criar um bloco asiático para esse fim. No fim das contas, um confronto esgotará as duas sociedades em detrimento do bem-estar global como a 2ª Guerra fez com a Europa. Questões que só podem ser tratadas numa base global, como energia, meio ambiente, proliferação nuclear e mudança climática, requererão uma visão comum do futuro.

No outro extremo, alguns argumentam que Estados Unidos e China deviam se constituir num G-2. Um órgão governante global sino-americano tácito não é, porém, do interesse de nenhum dos dois países ou do mundo. Os países que se sentirem excluídos poderiam derivar para um nacionalismo rígido no preciso momento em que se requer uma perspectiva universal.

A grande contribuição dos Estados Unidos nos anos 50 foi tomar a frente no desenvolvimento de um conjunto de instituições pelas quais a região atlântica pudesse lidar com sublevações sem precedente. Uma região até então dilacerada por rivalidades nacionais encontrou mecanismos para institucionalizar um destino comum, reduzindo, em grande medida, as perspectivas de guerra, e levando, com o tempo, a uma ordem mundial muito mais benigna.

O século 21 hoje requer uma estrutura institucional apropriada para este tempo. As nações que margeiam o Pacífico têm um senso de identidade nacional mais forte que o dos países europeus que saíram da 2ª Guerra. Elas não devem derivar para uma versão do século 21 da clássica política de equilíbrio de poder. Será particularmente pernicioso se blocos antagônicos se formarem em cada lado do Pacífico.

Enquanto o centro de gravidade dos assuntos internacionais pende para a Ásia, e os Estados Unidos descobrem um novo papel diferente da hegemonia, mas compatível com a liderança, precisamos de uma visão de estrutura do Pacífico baseada numa cooperação estreita entre os Estados Unidos e a China, mas também suficientemente ampla para permitir que outros países que margeiam o Pacífico concretizem suas aspirações.

*Henry Kissinger é ex-secretário de Estado dos Estados Unidos

22/08/2009 - 13:23h China vai crescer mais que 8%, dizem analistas

Previsão oficial é descartada por especialistas, que sustentam que expansão chinesa, puxada por estímulo oficial e crédito bancário, deve ser de até 9%

Cláudia Trevisan, PEQUIM – O Estado SP

O ritmo de expansão da economia chinesa vai acelerar para 8,5% no terceiro trimestre, segundo previsão divulgada ontem pelo Centro de Informação do Estado, organismo de pesquisas da Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento, o equivalente local do Ministério do Planejamento.

Depois de atingir 6,1% nos primeiros três meses do ano, o índice subiu para 7,9% no trimestre seguinte, em relação a igual período do ano passado. A expansão se deu sob impulso do pacote de estímulo de US$ 584 bilhões anunciado pelo governo em novembro e da espetacular expansão no crédito bancário – mais de US$ 1 trilhão nos primeiros sete meses do ano.

Antes mesmo de a previsão oficial para o terceiro trimestre ser divulgada, alguns analistas já haviam revisto para cima suas projeções de crescimento O Citibank espera agora expansão de 8,7%, enquanto o Goldman Sachs aposta em 9,4%.

A meta de 8% fixada pelo governo para 2009 parece cada vez mais conservadora. São raros os analistas que esperam índices inferiores e as previsões para 2010 são ainda mais positivas. O Morgan Stanley prevê 9% de expansão em 2009 e 10% no próximo ano.

Sob o impacto da crise global, o crescimento chinês desacelerou de 13% em 2007 para 9% no ano passado. A economia atingiu o fundo do poço no fim de 2008, mas reagiu a partir do segundo trimestre de 2009, graças ao pesado estímulo oficial.

As evidências de que a política expansionista do primeiro semestre chegou ao fim provocaram quedas na Bolsa de Xangai no início da semana passada, mas os investidores recuperaram o entusiasmo nos dois últimos dias de pregão, quando as ações se valorizaram 6,21%.

Os financiamentos bancários caíram de US$ 220,6 bilhões em junho para US$ 52,4 bilhões no mês seguinte. A previsão dos analistas é que o volume de novos créditos gire em torno US$ 65 bilhões ao mês até o fim do ano, patamar mais próximo do registrado em 2008.

A agência de notícias Bloomberg afirmou ontem que as autoridades chinesas vão impor aos bancos mudanças contábeis que, na prática, reduzirão a quantidade de recursos disponíveis para empréstimos.

Mas ninguém espera um aperto drástico da política monetária e a maioria dos analistas prefere falar em “acomodação” e “ajuste”. Nas previsões divulgadas ontem, o Centro de Informação do Estado ressaltou que a política monetária deverá continuar frouxa no segundo semestre, já que os preços estão em queda e não há risco de inflação.

Mesmo com a expectativa de menor liquidez, os analistas do Morgan Stanley esperam que a Bolsa de Xangai mantenha trajetória de alta e chegue ao patamar de 4.000 pontos dentro de 12 meses, o que significaria valorização de pouco mais de 30% em relação aos níveis atuais.

A Standard & Poors também espera recuperação do mercado, ainda que não descarte queda adicional de 5% para realização de lucros, depois da forte alta registrada até julho. A agência acredita que o índice da Bolsa de Xangai poderá estar em 3.300 pontos no fim do ano.

O Morgan Stanley afirma que a oferta de recursos para especulação com ações vai diminuir, mas ressalta que haverá liquidez suficiente para financiar o crescimento da economia e a operação das empresas.

Além disso, os analistas do banco sustentam que o lucro das companhias está em trajetória de recuperação. O lucro operacional de 706 empresas que divulgaram resultados aumentou 50% no segundo trimestre deste ano ante o primeiro, diz relatório do Morgan Stanley.

14/08/2009 - 09:49h China deve liderar saída da crise na Ásia

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RETOMADA

O Estado SP

Todas as grandes economias da Ásia vão crescer no próximo ano, lideradas pela China, conforme a região sai da crise global, afirmou ontem a agência de classificação de risco Standard & Poor?s. O economista-chefe para Ásia Pacífico da agência, Subir Gokarn, disse que a China vai crescer entre 7,5% e 8% este ano – perto das estimativas do governo chinês – e entre 8% e 8,5% em 2010, com a Índia também contribuindo fortemente para a recuperação asiática. Por outro lado, a economia do Japão poderá ter contração entre 6% e 6,5% este ano, e deve crescer só em 2010, entre 0,8% e 1,3%.

10/08/2009 - 11:31h Pesquisa põe Brasil na liderança de otimismo na indústria

da BBC Brasil – FOLHA Online

Mais de duas em cada três empresas da indústria no Brasil estão otimistas com as perspectivas para os negócios nos próximo 12 meses, segundo um levantamento divulgado nesta segunda-feira pela consultoria KPMG.

O nível de otimismo no Brasil foi o maior expressado por empresários nos quatro países emergentes do chamado grupo Bric –Brasil, Rússia, Índia e China– e superou os percentuais observados em outra pesquisa da consultoria com empresas europeias.

Segundo a KPMG, 67,8% das empresas no Brasil expressaram otimismo em relação aos próximos 12 meses, contra 28,3% que esperam um panorama igual ao atual e 2,9% que esperam um panorama pior.

“Com os níveis de atividade indicando um aumento, as indústrias brasileiras estão planejando elevar seus níveis de empregados”, disseram os autores do levantamento.

“As previsões para gastos de capital e pesquisa e desenvolvimento também estão mais altos que na pesquisa feita no início do ano, porque o crescimento sólido nos lucros suporta níveis mais altos de investimento.”

Bric

A pesquisa ouviu 1,8 mil empresas nos quatro países dos Bric. Na Rússia, a expectativa de melhora nos próximos 12 meses ficou em 55,7% contra 6% de piora.

Na China os números foram semelhantes: 55,3% e 8,7%, respectivamente.

Já na Índia os empresários se mostraram mais cautelosos que no resto dos emergentes. Do total, 38,5% têm boas expectativas para os próximos 12 meses, contra 16% que esperam uma piora.

O diretor do braço da KPMG para mercados em crescimento acelerado, Ian Gomes, disse que o crescimento “robusto” dos Bric se baseará na demanda doméstica, o sucesso de medidas de estímulo adotadas pelos governos e sinais de estabilização da economia mundial.

“O crescimento mais rápido deve ser acompanhado por um repique nas pressões inflacionárias, à medida que a demanda por matérias-primas se acentua e as indústrias recuperam alguma capacidade de ditar preços”, afirmou.

Para ele, tais pressões devem ser “moderadas” em relação aos níveis elevados de 2008.

Europa

Em uma pesquisa separada, mas com temática e metodologia idêntica à realizada para os Bric, a KPMG consultou 3,7 mil empresas européias sobre suas expectativas em relação aos próximos 12 meses.

No continente como um todo, o percentual de empresas otimistas superou o das otimistas em 28 pontos. O Reino Unido (diferença de 54 pontos percentuais) e a Itália (49 pontos) lideraram a lista e foram os únicos que superaram a média européia.

Alemanha (diferença de 24 pontos), Áustria (22 pontos) e França (18 pontos) dão seqüência à lista.

Apenas na República Tcheca e na Grécia os empresários pessimistas ainda superam os otimistas.

O diretor da KPMG, Alan Buckle, disse que há muitas razões para um “retorno à confiança no coração industrial da Europa”, mas ressaltou que há razões para cautela.

“Antes de nos deixar ser levados pelos sinais de recuperação, não esqueçamos que ainda estamos firmemente inculcados perto do fundo do ciclo econômico. Apenas o Reino Unido expressa otimismo em relação a mais empregos, e ainda há sinais de redução no investimento”, afirmou.

“O fato de o otimismo estar muito menos em evidência quanto aos prospectos de aumento na renda nos diz que ainda há muito caminho na estrada da recuperação.”

27/07/2009 - 10:49h Jim O’Neill, criador do Bric, diz que crise foi boa para alguns países

Dominic Elliott, especial para The Wall Street Journal* – VALOR

Siglas podem poluir a linguagem de negócios com jargões complicados. Mas algumas conseguem transformar algo desajeitado em um sonho de marketing.

Foi assim com “Bric”, a sigla criada em 2001 por uma equipe de Jim O’Neill, o economista-chefe do Goldman Sachs Group, em referência a Brasil, Rússia, Índia e China. O banco criou a sigla quando fazia uma previsão sobre o crescimento dos quatro grandes mercados emergentes.

O Goldman Sachs previu que o produto interno bruto coletivo do quarteto iria representar mais de 10% da economia mundial no fim desta década. Eles já ultrapassaram isso, chegando a 15% no ano passado.

O’Neill discutiu nesta entrevista como os Brics têm se recuperado da crise financeira, se eles já superaram sua classificação e que países podem ocupar o lugar deles. Trechos:

George Soros dizia em março que os mercados emergentes corriam o risco de ser os mais prejudicados pela crise, mas os chamados países periféricos têm sido os mais fortes até agora na recuperação. Por quê?

A recuperação se deveu à força dos fundamentos econômicos. Quando a China lançou seu pacote de estímulo, no ano passado, o Goldman Sachs recomendou: “compre ações chinesas”. Muitos acharam que estávamos loucos, já que elas haviam desabado nos meses anteriores. Agora elas têm alta de 80%.

Em parte isso se deve ao crescimento do mercado interno. O declínio das vendas no varejo americano foi equiparado por um aumento na China. As vendas no varejo chinês subiram 18% ante igual período do ano passado, segundo os números mais recentes. O aumento nos volumes de carros, de 48% em junho em comparação com o mesmo mês um ano antes, também é significativo e não se deve apenas ao estímulo.

Como o sr. acha que a crise mudou a economia mundial?

Estou ficando mais convencido de que a crise foi de fato uma coisa boa para alguns países. É certamente o caso da China, onde a demanda interna melhorou e houve crescimento de base mais ampla, menos dependente das exportações.

Os países do Bric parecem ter se saído particularmente bem. Um dos motivos de eles terem se recuperado tão bem é o forte controle sobre os sistemas bancários?

Bem, antes de tudo, eu deveria dizer que não considero realmente os Brics como mercados emergentes. Eles são grandes demais para isso. Mas o controle estatal de bancos foi decididamente um fator e isso é algo que muitos dos países ricos tendem agora a fazer. Talvez haja um reconhecimento de que deveria haver mais responsabilidade social para o setor financeiro e que o controle estatal do sistema bancário é uma boa coisa.

Há alguns mercados emergentes que ainda sejam uma grande preocupação?

Os Estados do Báltico e outras partes da Europa Central e Oriental continuam com problemas, mas mesmo lá temos diversidade. Quando estive em Tóquio recentemente, todo mundo perguntava sobre a Letônia. Mas a economia letã é um décimo do tamanho da de Tóquio. Em contraste, a Polônia é a menos exposta e tem a maior economia e a menos dependente de exportações.

Sua equipe no Goldman Sachs identificou “os próximos 11″ países que poderiam pegar o bastão do Bric. O sr. disse recentemente que Turquia, México, Nigéria, Irã e Indonésia eram os líderes entre esses. Esses cinco são os que o sr. escolheria como os destaques para o segundo semestre?

Esses cinco só são similares no que diz respeito a terem grandes populações. A Indonésia parece estar num caminho para o desenvolvimento com base na demanda interna, apesar da ameaça do terrorismo. Sinais iniciais são de que o PIB do segundo trimestre mostrará que o país cresceu, o que é um feito significativo no contexto do acesso (à União Europeia), considerando os problemas que a Europa desenvolvida enfrenta. O Irã é uma sociedade altamente adepta da tecnologia com uma enorme população. A Nigéria é o maior país do continente africano em população e seus líderes estão dispostos a engajar-se internacionalmente.

Por isso esses quatro – Nigéria, Irã, Turquia e Indonésia – estão bastante no nosso radar. Vietnã e México também são interessantes.

O sr. acha que esses países ou os Brics serão capazes de descolar do mundo desenvolvido?

Não tenho certeza sobre o desacoplamento. As relações preço/lucro futuro (das ações) da China e da Índia estão mais altas que nos Estados Unidos, mas nos níveis atuais eu não encorajaria quem nunca investiu na China ou na Índia a aplicar lá; espere uma correção. É mais barato atualmente fazer isso via multinacionais ocidentais.

Como o sr. acha que os investidores deveriam olhar para os mercados emergentes?

Mercados emergentes são um conjunto diverso de países. Por isso não faz muito sentido investir num índice amplo de mercados emergentes. O tamanho dos países é um dos fatores mais importantes (…). Se um país é capaz de criar demanda interna sustentável, tem melhor chance de ser resistente.

*Dominic Elliott é editor do Financial News, publicação da Dow Jones, editora do Wall Street Journal

19/07/2009 - 12:09h Gasto público e consumo interno. Dá bom resultado na China… e no Brasil também

PIB da China avança 8%. Graças ao consumo

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Alberto Tamer – O estado SP

E a China surpreende novamente. Quando todos, inclusive o governo, esperavam um crescimento de apenas 5%, ela anunciou nesta semana uma expansão do PIB de 7,9%. E isso, graças ao pacote fiscal de US$ 586 bilhões, que incluía recursos orçados para o ano passado não utilizados; mas, por isso mesmo, encontrou projetos prontos que estão sendo imediatamente executados, com excelentes resultados sobre o crescimento.

A ausência desses projetos certamente é uma das causas da baixa eficiência do pacote fiscal americano. Mesmo com mais recursos, US$ 786 bilhões, o governo Obama ainda não sabe onde aplicá-los de forma a gerar mais empregos.

POR QUE O MILAGRE?

Diante desses resultados, surgem perguntas como qual seria o desempenho da economia mundial com ou sem o crescimento da China. Afinal, qual a origem desse milagre?

Para obter respostas a essas dúvidas, a coluna conversou com Rodrigo Tavares Maciel, secretário executivo do Conselho Empresarial Brasil-China, uma entidade privada que trabalha em parceria com o governo brasileiro e dispõe do melhor banco de dados sobre o comércio entre os dois países.

“Eu continuo acreditando que a China não está descolada do mundo, como confirma o impacto provocado pela queda das exportações, principalmente para os EUA e a Europa. A China cresceu acima de 10% ao ano entre 2002 e 2007, e agora 7,9%. O lucro das empresas privadas também caiu”, lembra Maciel.

O MUNDO COM E SEM A CHINA

Qual seria o crescimento da economia mundial sem esse resultado do PIB chinês? Maciel informa que, tomando como base os indicadores divulgados em junho pelo FMI, Banco Mundial e o Consensus Economics, sem o efeito do comércio da China, a economia mundial teria caído 2,1% em março e 3% em junho. Com a China, em março esse declínio foi menor, 1,9% em março e 2,4% em junho. Para 2010, os indicadores de crescimento passam a ser positivos, desde que a economia chinesa mantenha o desempenho atual.

EXPORTAÇÃO NÃO É TUDO

E aqui a surpresa: as exportações não pesam tanto no crescimento chinês. “Poucos atentam para isso, mas a China é menos dependente do exterior do que se imagina. As exportações chinesas não desempenham papel de principal motor da economia.O que verdadeiramente impulsiona hoje são os investimentos em ativos fixos e o consumo interno, incluindo gastos residenciais e públicos”, diz Maciel.

“O grande mito de que exportações líquidas são o principal motor do crescimento tem sido cada vez mais refutada diante do agravamento da crise mundial e consequente retração do mercado mundial.”

“Em 2008, elas contribuíram com apenas 0,5 ponto porcentual para o aumento do PIB e, no primeiro semestre de 2009, essa contribuição foi negativa em 2,9 pontos. Impulsionados pelo pacote de estímulo, aumentou consideravelmente a contribuição do investimento fixo para o crescimento do PIB no primeiro trimestre de 2009, com 6,2 pontos ante 4,3 pontos em 2008. Já o peso do consumo interno foi de 3,8%.

HÁ ESPAÇO PARA MAIS

Até onde a China consegue manter esse ritmo impressionante de investimento? Para Rodrigo Maciel, o grande superávit fiscal em 2008 vai permitir que ela mantenha a política de incentivo à economia com aumento dos gastos públicos. Os investimentos em ativos fixos cresceram 33,5% no primeiro semestre motivados por grandes obras (rodovias, fábricas, redes de energia, ferrovias) e províncias do interior da China carentes de infraestrutura foram extremamente beneficiadas.

Um número impressionante informado pela correspondente Claudia Trevisan: “Só em junho, os bancos concederam empréstimos no valor de US$ 225 bilhões, o que elevou o crédito no primeiro trimestre a nada menos que US$ 1,5 trilhão, ou seja, 25% do PIB.

Com o grande e crescente superávit fiscal, a China poderá sustentar a atual política de investimento por muito tempo e manter sua enorme demanda por recursos naturais. Continuará, assim, a contribuir cada vez mais para reduzir os efeitos da crise mundial, sobretudo em países fornecedores de matérias primas, como o Brasil.

BRASIL SE APROVEITA BEM

E aqui estamos sendo beneficiados, principalmente pela nova estratégia do governo chinês de aproveitar preços relativamente baixos das commodities para aumentar as compras e os estoques. A China tornou-se o principal parceiro comercial brasileiro, ultrapassando os EUA pela primeira vez, atesta Rodrigo Maciel. E tudo indica que poderemos continuar assim nos próximos trimestres. É uma oportunidade única, num mercado mundial deprimido.

*E mail – at@attglobal.net

13/07/2009 - 13:01h A questão do investimento público

Sergio Leo – VALOR

A nova era inaugurada com a crise financeira, que convive tranquilamente com uma GM sob controle estatal do governo dos Estados Unidos, promete trazer um bom debate sobre o lugar e as condições para os antes demonizados investimentos do setor público. É uma discussão particularmente interessante no Brasil, onde debates em economia se dão frequentemente com base em esquemas mentais rasos, rígidos e maniqueístas, como o que classifica automaticamente como ruins as despesas em custeio e benéficos os gastos em instalações físicas.

Hoje e amanhã, no Rio de Janeiro, o Itamaraty e a Unctad, órgão das Nações Unidas para o comércio, realizam um seminário de alto nível sobre investimento público, uma oportunidade de ver esse tema tratado com maior profundidade. A necessidade de se considerar a importância do investimento em capital humano é um dos pontos ressaltados no documento que serve de base ao seminário, preparado pelo Centennial Group, uma firma de consultoria estratégica, a pedido da Unctad.

O estudo preparado para a Unctad tem bases bem assentadas, e ressalta a importância da “regra de ouro”: a necessidade de manter os gastos correntes abaixo das receitas correntes dos governos e restringir empréstimos públicos ao financiamento de investimentos. Mas aponta os limites dessa regra, que tem de ser complementada com restrições à quantidade de dívida assumida para financiar investimentos e com mecanismos para garantir taxas de retorno econômicas e sociais adequadas aos projetos a serem financiados.

A “regra de ouro” tem, ainda, uma tendência a ser “procíclica”, isto é, facilitar investimentos em momentos de bonança e dificultá-los em períodos de crise, o que, para vários autores, exige que seja flexibilizada em momentos como o atual, com exceções para investimentos capazes de gerar renda em médio e longo prazos.

O grande mérito da discussão levantada no seminário da Unctad é fugir das fórmulas simples e estereotipadas para lidar com as necessidades de investimento em infraestrutura e serviços públicos. Ele aponta, por exemplo, o modelo chinês de investimentos em infraestrutura, baseado em poupança doméstica, da população, estatais e governos locais, como uma fonte de boas ideias, entre elas a de privatização ou concessão de ativos públicos para financiamento dos investimentos necessários.

No caso chinês, as autoridades regionais fizeram do aluguel de terras públicas uma importante fonte de financiamento. Essa experiência não é reproduzível em outros países, mas mostra que os governos devem buscar suas próprias fontes de recursos privados a partir de ativos públicos, sugere a Unctad.

Apesar de preparado após uma provocação feita pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na última cúpula da Unctad, em Gana, em 2008, o texto do seminário desta semana não menciona o Programa de Aceleração de Crescimento brasileiro e busca na Austrália o outro modelo, além da China, para inspirar países às voltas com as dúvidas sobre investimento público. O seminário será uma boa oportunidade para verificar em que o PAC se aproxima ou se afasta dos modelos internacionais considerados bem sucedidos.

Tanto Austrália quanto China, diz o estudo, têm algo que a maioria dos países não têm: uma lista de projetos já definidos e avaliados, para orientar os investimentos públicos. A falta dessa lista cria vários problemas para os países decididos a usar os investimentos públicos como instrumento anticíclico, de superação da crise: pelo prazo necessariamente mais lento desses projetos, a falta de uma lista prévia cria o risco de investimentos mal desenhados e ineficientes. Mesmo para os projetos bem elaborados, a inexistência de projetos selecionados previamente ameaça os governos de aventurar-se em uma política procíclica, aquecendo a economia no momento em que ela começar a recuperar-se da crise, e não antes, com indesejáveis efeitos desestabilizadores. Uma avaliação atualizada das necessidades de manutenção da infraestrutura pública ajudaria nessa lista, e deveria ser uma das prioridades dos governos, recomenda o documento.

A Austrália tem a mostrar também um inteligente desenho institucional, que soma um fundo constituído com superávit fiscal (baseado no fundo de petróleo norueguês) a um organograma que submete os ministérios a uma esfera superior de decisão sobre prioridades e acompanhamento dos projetos – tarefa que deveria, no Brasil, ser assumida pelo Ministério do Planejamento, pouco equipado até hoje para esse trabalho de administração de interesses e fiscalização de resultados.

De consolo para as autoridades brasileiras, que se debatem para tirar do papel os projetos do PAC, o estudo traz a constatação de que é mundial a dificuldade em fazer avançar os investimentos públicos como alavanca eficiente para o crescimento. Evidências na Inglaterra e Alemanha mostram um prazo de três a quatro anos para que projetos de infraestrutura comecem, de fato, a ter impacto nos níveis de investimento público, aponta o estudo da Unctad.

O debate é bem-vindo, especialmente quando se levantam dúvidas legítimas sobre a qualidade da estratégia fiscal do governo brasileiro, que tem aumentado significativamente os gastos de pessoal. O estudo da Unctad enfatiza a necessidade de se fugir à análise rastaquera que automaticamente classifica investimentos em prédios vazios como de melhor qualidade que o aumento de salários para professores e médicos do setor público, porque uns são gastos “de capital” e outros despesas “correntes”.

“A falha no investimento em capital humano – particularmente na educação superior – pode criar gargalos importantes que impedem um país de sustentar uma rápida taxa de crescimento”, alerta o estudo. Não é um aval para o desperdício de dinheiro que se constata nas universidades brasileiras, mas um apelo a análises mais sofisticadas sobre o que seja o investimento público necessário para um país como o Brasil.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas-feiras

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

13/07/2009 - 11:39h O mundo se resume a Brasil e China

De Olho na Bolsa

Daniele Camba – VALOR

Desde que a atual crise financeira deu os seus primeiros sinais, no início do segundo semestre do ano passado, o que mais se falou é do descolamento positivo do mercado brasileiro (o “decoupling”), consequência direta dos sólidos fundamentos econômicos do país. Essa, no entanto, é uma meia verdade. Os gráficos mostram que, além do Brasil, os investidores estrangeiros também foram para a bolsa da China, à procura dos melhores retornos entre os países emergentes.

Um estudo feito pela RC Consultores revela como a bolsa brasileira e a chinesa se alternaram na preferência dos investidores internacionais, com ganhos muito interessantes. Desde o início da crise, é possível perceber três momentos bem distintos entre os dois mercados. No primeiro, entre setembro do ano passado – quando houve a quebra do banco americano Lehman Brothers e a crise internacional de fato se deteriorou – e fevereiro deste ano, o Índice Shangai teve um desempenho muito melhor que o Índice Bovespa, especialmente em janeiro e fevereiro deste ano. Entre 15 de setembro, dia da quebra do Lehman, e o fim de fevereiro, o Índice Shangai se valorizou em dólar 0,21%, enquanto o Ibovespa caiu 45,11% na moeda americana.

Num segundo momento, entre março e maio deste ano, o mercado brasileiro nitidamente tem um desempenho melhor que o chinês. Nesse período, o Ibovespa teve uma alta de 67,95% em moeda americana e o Índice de Shangai de apenas 26,63%. No último movimento, que começou no mês passado e vai até hoje, os dois mercados inverteram as posições, com o Índice Shangai subindo 18,12% e o Ibovespa registrando uma queda de 9,39%, ambos em dólar.

“Houve uma polarização entre Brasil e China, com o investidor estrangeiro preferindo ora a bolsa chinesa, ora a Bovespa”, diz o economista-chefe da RC Consultores, Marcel Pereira, responsável pelo estudo. Esse fluxo maior ou menor de recursos internacionais explica boa parte do movimento cambial desde o começo da crise. “É um comportamento inédito já que, historicamente, o câmbio sempre esteve ligado muito mais ao lado real da economia e menos ao fluxo para ativos financeiros”, diz Pereira.

Até fevereiro, quando o saldo líquido (diferença entre compras e vendas de ações) de estrangeiros na Bovespa continuava fortemente negativo, o câmbio se aproximava dos R$ 2,40 por dólar. A partir de então, esses investidores trocaram a China pelo Brasil e, no fim de maio, até quando durou a valorização da Bovespa, o dólar chegou a R$ 1,94.

“Não foi uma simples coincidência as ações subirem no mesmo momento em que o real se valorizou frente o dólar; foi a entrada de dinheiro externo na bolsa que fez as ações subirem e o dólar cair”, explica o economista-chefe da RC Consultores. Por fim, desde junho, com a saída de uma parte dos recursos estrangeiros, o Ibovespa caiu e o dólar voltou a se valorizar ante o real, fechando a sexta-feira em R$ 2,00.

A atual crise só reforçou a preferência pelas bolsas chinesa e brasileira que já vinha ocorrendo nos últimos anos. Entre 2003 e 2007, o Ibovespa, por exemplo, acumulou uma valorização de 1.031% em dólar (é esse percentual mesmo, não é erro de digitação). Já entre agosto de 2006 e outubro de 2007, o Índice Shangai subiu 287,96% na moeda americana. Os fundamentos macroeconômicos explicam essa predileção pelos mercados financeiros dos dois países. Em primeiro lugar está a China, cujo Produto Interno Bruto (PIB) nos últimos anos cresceu a taxas de dois dígitos. No caso do Brasil, a história é bem mais modesta, pelo menos em termos de crescimento do PIB. No entanto, a razoavelmente recente estabilidade econômica trouxe junto uma importante evolução dos fundamentos do país.

É importante lembrar, no entanto, que as duas economias já deram alguns sinais de alerta que vale a pena considerar. “No Brasil, há uma piora na situação fiscal, enquanto na China a economia cresce bem menos do que nos últimos anos”, diz Pereira. “Além disso, existem dúvidas sobre a força do mercado de crédito chinês, mesmo com o pacote de estímulo do governo.”

Também não é à toa que os dois mercados prediletos são de países altamente relacionados às commodities: o Brasil como produtor e a China tanto como produtor quanto como consumidor. O ciclo de alta dessas matérias-primas, como petróleo, minério de ferro e aço entre 2003 e o primeiro semestre de 2008, trouxe prosperidade para os dois países. Consequentemente, atraiu olhares e bolsos cheios internacionais.

O futuro das commodities no médio prazo também é um fator a se pensar quando se fala do destino das bolsas brasileira e chinesa. “Recentemente, houve uma valorização de algumas matérias-primas, como o petróleo, mas graças apenas a um movimento especulativo por parte dos investidores, já que não existe um aumento de demanda real”, completa Pereira.

Daniele Camba é repórter de Investimentos

E-mail: daniele.camba@valor.com.br

15/06/2009 - 11:01h Emergentes vivenciam novo boom. Será exuberância irracional ou sinais de crescimento forte?

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Ming Uong/The New York Times

Há sinais de uma retomada econômica global, com pouca ajuda da Europa e dos EUA

Por VIKAS BAJAJ e KEITH BRADSHER   newyorktimes_folha2.gif

Mumbai, Índia
Investidores em Londres e Nova York têm testemunhado primeiros sinais de uma tênue retomada, mas seus colegas nos países em desenvolvimento dizem estar assistindo a uma recuperação plena.
Após uma queda esmagadora, os mercados de ações nos países emergentes navegam numa onda de otimismo de que a recuperação da economia global seja iminente e estaria sendo liderada pelo mundo em desenvolvimento, especialmente a China. Embora os mercados emergentes ainda estejam muito abaixo dos picos que alcançaram há mais de um ano, os investidores estão novamente vendo suas chances de crescimento como melhores que as de EUA ou Europa.
O resultado disso é que o índice acionário Nifty, da Índia, deu um salto de mais de 60% nos últimos três meses. O índice acionário chinês CSI 300, de Xangai e Shenzehen, e a brasileira Bovespa tiveram alta de cerca de 35% cada durante o mesmo período. Comparada com isso, a alta de cerca de 25% do índice Standard & Poor’s 500 parece modesta.
“Houve uma corrida para a porta de saída no quarto trimestre”, disse Gonzalo Pangaro, gerente de portfólio no Fundo de Ações de Mercados Emergentes T. Rowe Price. “O mercado está começando a perceber que, embora esses mercados enfrentem problemas, os problemas são administráveis.”
A produção industrial vem se recuperando na China, e o mesmo ocorre com as vendas de carros na Índia e o varejo no Brasil.
Pode tudo isso ser exuberância irracional? As avaliações atuais são extremamente fortes: os preços das ações no Nifty indiano e na Bovespa estão cerca de 20 vezes maiores que os rendimentos. No CSI 300, os preços estão 29 vezes maiores que os rendimentos (os analistas se guiam pelo axioma de que ações de uma empresa vendidas por cerca de 15 vezes os rendimentos são corretamente precificadas).
A visão otimista é que esses índices preço/rendimento altos refletem o retorno do interesse pelo risco nos mercados, algo que normalmente acompanha uma perspectiva mais positiva, e a crença de que esses países estariam preparados para retomar um crescimento econômico forte.
A visão cética diz que as economias teriam de saltar para índices de crescimento de dois algarismos para justificar essas avaliações e que isso só pode indicar a formação de uma bolha.
Os mercados emergentes normalmente apresentam oscilações maiores que os países desenvolvidos. Cada uma das grandes economias em desenvolvimento -os países Bric, ou seja, Brasil, Rússia, Índia e China- enfrenta fraquezas que podem prejudicar sua recuperação.
Os fluxos de exportações e investimento estrangeiro, cruciais para muitos países em desenvolvimento, continuam anêmicos. Os gastos governamentais vêm tomando parte do lugar deles, mas os déficits fiscais crescentes em países como a Índia podem limitar o que os governos podem fazer para estimular suas economias.
Por enquanto, fala-se pouco em cautela. Na Índia, o mercado acionário subiu ainda mais quando o governo saiu vitorioso das eleições nacionais, no mês passado.
Madhabi Puri-Buch, executiva-chefe da Icici Securities, em Mumbai, disse que a Índia tem condições melhores que outros países de superar a crise porque o consumo interno continua a crescer. As vendas da maior montadora de automóveis do país, por exemplo, a Maruti Suzuki, cresceram mais de 10% em maio. “Os conselhos de direção da maioria das empresas estão dizendo que precisamos traçar planos de crescimento futuro, e não tanto que deveríamos estar nos preparando para um inverno prolongado”, disse ela.
Outros analistas afirmam que os fundamentos da economia indiana não melhoraram suficientemente para justificar o grande crescimento.
Na China, a produção industrial começou a se recuperar, e as importações de commodities vêm aumentando. Mas a recuperação se concentra em setores domésticos que se beneficiam do programa de estímulo do governo. As exportações ainda sofrem dificuldades.
“Prevemos que a atividade manufatureira continue a se ampliar nos próximos meses, auxiliada pelos estímulos oferecidos pelo governo”, disse Jing Ulrich, diretor do JPMorgan Chase na China.
Mercados emergentes da Ásia oriental também dão sinais de recuperação. A economia de Taiwan, por exemplo, encolheu 10,2% no primeiro trimestre em comparação com o mesmo período do ano passado, mas a aproximação com a China continental elevou a confiança dos investidores.
Bancos centrais em toda a região têm mantido os juros baixos, e alguns, como o das Filipinas, têm reduzido os índices para contrabalançar as exportações fracas.
A Indonésia esteve protegida contra a recessão global por seu grande mercado doméstico e sua dependência limitada das exportações. E o país está se beneficiando do aumento da demanda internacional por seus recursos naturais.
No Brasil, prejudicado pela queda nos preços de commodities, a produção industrial tem crescido a cada mês desde janeiro, embora ainda esteja muito mais baixa que no período correspondente de 2008.
Apesar da recessão, o mercado acionário brasileiro vem subindo. “Quando houve pânico, os investidores fugiram para os EUA para comprar títulos do Tesouro”, comentou Alessandra Ribeiro, economista da consultoria Tendências. “Agora estão diversificando outra vez. O Brasil é claramente um dos escolhidos.”

Vikas Bajaj reportou desde Mumbai, e Keith Bradsher desde Dongguan, China. Colaborou Andrew Downie, em São Paulo

10/06/2009 - 16:16h China tem primeiro festival do orgulho gay

http://3.bp.blogspot.com/_68EAEGLzs4M/SJ23AnoBr0I/AAAAAAAAAfk/usfsVts_QME/s320/ChineseGays.jpghttp://file.asianlife.com/magazinearticle/old/1849133cc6e7db98.51220446.jpg

BBC – Portal O Globo

A comunidade homossexual de Xangai comemora nesta semana o primeiro festival do orgulho gay já realizado na China.

A iniciativa foi organizada por um grupo de jovens homossexuais estrangeiros que moram na metrópole chinesa.

Os organizadores do festival, no entanto, decidiram não fazer um desfile pelas ruas da cidade para não desagradar o partido comunista.

Paradas coloridas ao ar livre fazem parte dos eventos de orgulho gay celebrados em outras partes do mundo, como em Berlim, San Francisco e São Paulo.

O governo, porém, demonstrou simpatia com a iniciativa publicando uma matéria de capa e um editorial no jornal estatal China Daily.

A atitude das autoridades é um raro sinal de reconhecimento da comunidade gay.

Até 2001, o homossexualismo era considerado “doença mental” pelo governo e a prática de relações com alguém do mesmo sexo era um ato criminoso até 1997. Ainda hoje o tema é tabu na sociedade, principalmente nas áreas rurais.

Por causa da forte pressão sobre filhos homens decorrente da política de controle de natalidade – segundo a qual as famílias só podemter apenas um descendente – muitos chineses homossexuais acabam optando por manter um casamento heterossexual de fachada.

Festival

O festival pioneiro, batizado de Shanghai Pride (Orgulho de Xangai em tradução livre), teve inicio no último domingo 7 e vai até o próximo fim-de-semana, encerrando no dia 14.

As comemorações com temática gay incluem a exibição de filmes, peças de teatro, exposições de arte e painéis de debate.

A principal atração é uma festa que durará o dia todo no sábado e deverá atrair mais de duas mil pessoas, segundo estimativas dos organizadores.

A americana Tiffany Lemay, que participou da montagem do evento, disse ao jornal China Daily que a ideia de realizar uma parada ao ar livre foi descartada depois que os organizadores buscaram aconselhamento legal.

“Esperamos chamar atenção para questões pertinentes à homossexualidade, aumentar a visibilidade da comunidade gay ajudar as pessoas a sair do armário e aumentar o contato entre os heterossexuais e homossexuais”, explicou Lemay.

O jornal estatal afirmou no editorial que o festival é de “profunda significância” e “exibe o progresso social do país”.

Segundo estimativas oficiais, há entre 5 e 10 milhões de homossexuais vivendo na China.

No entanto, a população homossexual seria maior de acordo com Zhang Beichuan, acadêmico especializado no assunto ouvido pelo jornal.

Zhang afirmou que atualmente existem 30 milhões de homossexuais na China – 20 milhões de homens e 10 milhões de lésbicas.

07/06/2009 - 13:00h O futuro vai ser bom para o Brasil

 

Alberto Tamer – O Estado SP

 

O futuro vai tratar bem o Brasil

O futuro vai ser bom para o Brasil

O amanhã vai ser bom para o Brasil

O futuro do mundo agora é menos sombrio

O futuro do mundo é menos sombrio

Economia mundial está saindo das trevas

Economia mundial sai das trevas

O futuro está chegando e vai ser bom para nós

O artigo publicado no jornal impresso começa aqui embaixo. Na versão eletrônica aparece com todas as frases acima. Prováveis títulos cogitados antes de escolher o definitivo. Parece gozação de algum raivoso na redação do Estadão. Ou de um poeta do ‘realismo socialista’ reciclado na miragem do mercado. Deixei como está na versão eletrônica para os leitores poderem sair cantando baixo a chuva, neste ensolarado domingo.

Será que já dá para ver o futuro? É ainda uma visão meio nebulosa, com nuvens escuras ameaçando no céu, mas há sinais de que o futuro não vai tão assustador como se temia. Deixará menos mortos e feridos pelo caminho.

Vejam bem, não se trata de fazer previsões, que condeno, pois prever o futuro neste momento é ser pouco responsável e até mentir, mas registrar os sinais que apontam o presente dos dias de amanhã. Sinais de que, à exceção da Europa, a recessão perde força lá sob os golpes vigorosos da China e do novo Estados Unidos de Obama.

Os mais recentes indicadores econômicos apontam que teremos ainda alguns meses de recessão, mas ela poderá ser superada no fim do ano. A confirmar-se, teria sido uma grande e arrasadora, mas curta. Um ano. Os bancos centrais e os governos – de novo, com exceção da União Europeia – aprenderam com a experiência do passado. Não para prevê-la, mas para debelá-la. E até agora está funcionando.

AQUI TERMINA MAIS CEDO

No Brasil, a crise de desconfiança parece superada. A sociedade já acredita nas medidas anticíclicas do governo, como revela o IBGE. No cenário macroeconômico, não faltam sinais positivos. Entre eles, o aumento dos preços das commodities agrícolas, a boa safra, o retorno gradual do crédito, das vendas e, acima de tudo, a queda menor da produção industrial.

ELES VOLTARAM

O indicador mais importante é o aumento da confiança no Brasil das grandes empresas estrangeiras. Ao contrário dos que buscam apenas o lucro volátil na bolsa ou ganhos com a taxa de juros, elas estão fazendo investimentos produtivos. É dinheiro que fica, que gera produção, exportação, emprego, riqueza. Crescimento, enfim. São os Investimentos Estrangeiros Diretos, IED. A colega Renée Pereira, neste caderno de Economia do Estado de quinta-feira, revela, com exclusividade, que só em maio foram US$ 2,75 bilhões. “É mais do que o dobro dos US$ 1,3 bilhão que o País absorveu em maio do ano passado”, assinala. É verdade que, em 12 meses, o ingresso é 17% inferior, ressalta Renée. Mas houve, sem dúvida, uma forte retomada a partir de março, após enorme recuo no primeiro trimestre do ano. Isso se deve a três fatores: 1) o retorno do crédito e do capital no mercado financeiro internacional; 2) a consolidação da grande credibilidade do Brasil no exterior; 3) a ausência de oportunidades seguras de investimentos produtivos num mundo em recessão. Com exceção da China, nenhum país oferece um potencial de crescimento do mercado interno como o Brasil. A manter-se esses cenários interno e externo, os investimentos diretos só tendem a crescer este ano. Podem ficar entre US$ 25 bilhões e US$ 30 bilhões, atrás apenas do recorde de US$ 43 bilhões em 2008.

E O DÓLAR?

Vai continuar se desvalorizando. É um desafio que a equipe econômica enfrenta. Sério? Sim, mas não fatal. Fere mas não mata. Os seus efeitos negativos podem ser compensados em parte pela estabilização econômica, o equilíbrio e até superávits nas contas externas e o aumento das reservas, entre outros pontos positivos.

EUA E CHINA AJUDAM

O cenário externo continua sério, mas preocupa menos. Só a zona do euro não faz nada e não reduz os juros, apesar de a inflação ter caído de mais de 4% para… 0%! Os Estados Unidos e a China estão executando uma vigorosa política financeira e fiscal com a injeção de trilhões de dólares na economia, sem parar. Nos EUA, decididamente Obama está contendo a recessão. É uma pena que não tenha chegado antes. Lembro-me bem que Krugman, entre outros, nos quais a coluna se inclui, chegou a propor a antecipação excepcional das eleições, argumentando, com razão, caso de gravidade máxima. E era mesmo. A economia americana caminhava para o caos nos últimos meses do ano passado e no primeiro trimestre deste ano.

Hoje, o cenário ainda é grave,mas, mesmo assim, melhor. O teste de estresse dos bancos afastou a ameaça de um novo Lehman Brothers, embora o sistema ainda continue frágil. O déficit aponta para US$ 1,8 trilhão, mas, se a economia voltar a crescer e com ajustes tributários, ele poderá recuar nos próximos anos. Enquanto isso, o mundo continuará investindo nos EUA simplesmente porque não há lugar mais seguro.

Na China, que é a chave da recuperação mundial, a economia reage bem ao estímulo fiscal de US$ 586 bilhões e ao enorme aumento do crédito bancário. Só no trimestre, nada menos que US$ 668 milhões, mais do que em todo o ano passado! A manter-se nesse ritmo, até o fim do ano mais de US$ 2 trilhões estarão financiando as empresas e os consumidores chineses. E há ainda 800 milhões que pouco consomem.

São esses fatos que levam a coluna não a fazer previsões, mas dizer que os dias de amanhã serão menos sombrios. Não haverá ainda recuperação econômica, crescimento, mas o pior da recessão está ficando para trás. E isso principalmente no Brasil, que, ao contrário de outros, soube enfrentá-la mais cedo.

*E mail: at@attglobal.net

31/05/2009 - 11:19h Trimestre até que está bom

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Alberto Tamer* – O Estado SP

Falta apenas um mês para terminar o segundo trimestre e já podemos fazer um balanço preliminar do que passou e o do que pode ocorrer nos próximos 30 dias.

Já sabemos que a recessão mundial tem sido contida, não foi tão grave como se esperava, embora tenha atingido duramente a economia e jogado na rua milhões de desempregados. Só não foi pior porque, mesmo com atraso agora perdoável, os bancos centrais e governos socorreram o sistema financeiro em sua coreografia de ganhos insustentáveis, estimularam a demanda, o emprego e atenuaram o impacto da crise no mercado de trabalho.

O que podemos constatar neste quase fim de trimestre é que os EUA, pelo menos até agora, evitaram um aprofundamento da recessão. Ela pode até mesmo ser superada no próximo trimestre. Não deve haver crescimento mas, pelo menos, tudo indica que a economia deixou de piorar. E se eles se recuperarem, o mundo pode ir atrás.

O BRASIL NO BIMESTRE

Já dissemos: estamos nos saindo bem nestes dois meses. Agimos com ousadia e em tempo. Não vou repetir aqui o que o governo fez de certo, pois os leitores da coluna já estão informados. O desemprego é grande, mas parou de aumentar. A indústria continua declinante, mas a agricultura segue vigorosa. As exportações recuam, mas os investimentos externos não param de aumentar.

É tanto dinheiro que até incomoda e preocupa o governo. O crédito era escasso no bimestre, mas está voltando. E o povo confia mais, com os supermercados e as lojas vendendo mais.

O caso brasileiro é singular. Nós entramos na recessão com atraso, depois dos EUA e da Europa que já afundavam nela. Estávamos fortes e tínhamos espaço para recuar com perda e sofrimento menores.

Com as medidas financeiras, fiscais, tributárias e monetárias do governo, e o impulso do passado, a economia pode sair da recessão mais cedo e menos enfraquecida.

O ministro da Fazenda reconheceu, afinal, que estamos em recessão. Não teve acanhamento em contradizer tudo o que ele e o presidente afirmavam antes. Eram os otimistas de plantão… Mas acertou ao dizer: “passou e vamos continuar lutando para que isso não se repita”.

No fim deste bimestre, podemos dizer que recebemos bem o impacto da crise e estamos prontos para sacudir a poeira, não voltar por cima, mas sair andando. Aos tropeços, sim, mas andando. Há ainda o fantasma do desemprego, a retração da indústria, o consumo interno que ainda pouco se anima, os salários reduzidos e em risco, as exportações que sofrem o triplo impacto do câmbio, do financiamento e da retração da demanda externa. Mas são desafios para os quais as soluções já estão encaminhadas.

O EXIMBANK OPORTUNO

Veio bem na hora a proposta de criar um banco especial para financiar o comércio exterior – não só as exportações, mas também as operações externas ligadas a elas. A experiência mostra que desempenho do comércio é um dos sinalizadores da economia mundial. Geralmente, é um dos primeiros a reagir após um período de forte retração. E já existem indicações de alguma reação, principalmente no mercado de commodities agrícolas que são o sustentáculo das nossas exportações.

O Eximbank brasileiro é bem-vindo. Se for mesmo instalado neste ano, certamente vai ajudar muito o País a sair da recessão e voltar a crescer. Nota 9 para a equipe econômica.

MAIS UM PARA A EXPORTAÇÃO

“Por que 9 e não 10?”, deve estar se perguntando o leitor. Pois falta outra medida fundamental para reanimar as exportações: um organismo que concentre a política de comércio exterior, hoje distribuída por vários ministérios que não se entendem. Em tese, o Ministério do Desenvolvimento é oficialmente responsável, mas vá dizer isso ao ministro Miguel Jorge…

Quando se trata, então, de acordos ou negociações internacionais, parece um samba do crioulo doido. O Itamaraty não ouve ninguém, se mete em tudo, e até agora ou não fez nada ou, quando fez, foi só tolice.

O ministro Celso Amorim sonha ainda o sonho de Doha. Mas Doha é a “virgem terminal” da diplomacia comercial. Só o nosso ministro ainda espera por ela nos altares vazios de Genebra.

Falta isso, sim. Um organismo único, com poderes de decisão. Não me venham falar de conselhos, que existem muitos em Brasília, em parte para aumentar os vencimentos dos funcionários ou a renda dos que os frequentam. Um conselho é o que a palavra diz, um “conselho”, aquele que “aconselha”, recomenda mas não decide. De que adianta dizer que é preciso fazer acordos bilaterais se o multilateralismo da OMC não funciona e o Itamaraty só promete e não faz nada? De que adianta dizer que não se deve desprezar o mercado americano como desprezamos estupidamente?

O mercado americano é o maior do mundo. Importava US$ 2 trilhões antes da crise, e importam ainda hoje US$ 1,7 trilhão. E a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caíram de quase 13%, em abril do ano passado, para 10,7%, em abril deste ano.

“Mas aumentamos as vendas para a China, senhor colunista!” Sim, sim, só que 70% do que a China importa são commodities e, dos EUA, manufaturados. Sem dúvida, uma troca “muy inteligente…”

Presidente, por que, juntamente com o Eximbank, não criar logo um organismo só para comandar (não coordenar) as exportações?

*Email: at@attglobal.net

26/05/2009 - 11:34h O milagre chinês

Antonio Delfim Netto – VALOR

Agora que a dura realidade começa a ensinar que “negócio da China só existe para chinês…”, talvez seja interessante tentar entender como foi criado o mais importante fenômeno econômico do último quartel do século XX. É claro que, como todo processo histórico, ele tem múltiplas causas. Num supremo esforço reducionista, entretanto, podemos encontrar a sua “causa causans” (a causa de todas as causas) na continuação do movimento estratégico dos EUA para isolar a URSS. Ele foi iniciado logo depois da vitória na Segunda Guerra e perseguido com afinco durante a Guerra Fria.

Na conferência de Potsdam (17 de julho a 2 de agosto de 1945), os representantes dos EUA, do Reino Unido e da extinta URSS decidiram como administrariam, em conjunto, a vencida Alemanha nazista e impuseram um ultimato ao Japão. Este rendeu-se, incondicionalmente, depois de experimentar os efeitos devastadores de duas bombas atômicas e foi ocupado, administrativamente, pelos EUA. A intrigante história das relações de Mao Tsé-tung com a União Soviética e a vitória sobre Chiang Kai-shek, que lhe deu o controle da China em 1949, ainda está para ser contada. Há evidências que, durante a guerra, tanto EUA como URSS o ajudaram para impedir a completa conquista da China pelo Japão.

Terminado o conflito armado, no final dos anos 40 o mundo estava claramente dividido entre países de inspiração democrática, cuja organização econômica se apoiava em mercados descentralizados, e países de inspiração autoritária, cuja organização econômica se inspirava numa espécie de “engenharia social”, o planejamento centralizado. Esta última vigorava na URSS e passou a vigorar na China, sob o controle da primeira, mas as relações entre elas foi se deteriorando a partir de 1956. Houve um rompimento em 1963, quando a “assistência técnica” soviética foi interrompida. Mao prosseguiu com seu voluntarismo até o desastre da Revolução Cultural (1976-1979).

Qual foi a reação estratégica dos EUA para enfrentar a dupla frente de oposição (a URSS na Europa e a China do Oriente)? Estimular a rápida e vigorosa expansão da Europa com o Plano Marshall e, particularmente, da Alemanha Ocidental, dando-lhe taxa de câmbio extremamente favorecida (4,2 marcos alemães/dólar) e abrindo-lhe o mercado para “segurar” a URSS na frente ocidental. Fez o mesmo com o Japão, modernizando suas instituições (com respeito a sua tradição), dando-lhe uma taxa de câmbio extremamente favorecida (360 ienes/dólar) e abrindo seu mercado, para “segurar” a China na frente oriental.

A economia centralizada sucumbiu na URSS (juntamente com o regime autoritário) com a queda do Muro de Berlim em 1989. Começou a morrer na China (com a permanência do regime autoritário) nos anos 70, quando o primeiro-ministro Chu En-lai (com Mao ainda vivo!) abriu negociações com os EUA e recuperou o pragmático Deng Xiaoping.

Em 1972, houve um acontecimento fundamental para a criação do “milagre chinês” que hoje conhecemos. Em Xangai, o presidente Richard Nixon e o primeiro-ministro Chu En-lai terminaram 23 anos de completo isolamento entre os EUA e a China, num comunicado em que se menciona, de passagem, uma desejada cooperação entre eles em “ciência e tecnologia”. As relações diplomáticas só foram restabelecidas em 1979, quando o presidente Jimmy Carter (1977-1981) assinou com Deng Xiaoping o Tratado da Cooperação em Ciência e Tecnologia.

Trinta anos depois (2009), o seu resultado é o seguinte:

1) mais de um milhão de estudantes chineses fizeram seus cursos nos EUA, 2/3 dos quais sob as condições especiais do tratado, especialmente em ciência e tecnologia;

2) nos anos mais recentes, 40% dos artigos escritos por cientistas chineses em publicações internacionais têm como co-autores cientistas americanos;

3) por outro lado, quase 8% dos artigos de cientistas americanos têm como co-autores cientistas chineses;

4) em 2004, as empresas americanas instaladas na China aplicaram mais de US$ 600 milhões em pesquisas (e desenvolvimento) – R&D – em laboratórios chineses. E esses investimentos têm crescido continuamente.

O segredo chinês, ou melhor, o “milagre chinês” seguiu os passos dos “milagres” alemão e japonês: 1) capacitação profissional (não necessária nos primeiros dois); 2) taxa de câmbio subvalorizada; e 3) abertura do mercado dos EUA. Neste caso houve, ainda, uma completa abertura (as zonas de exportação) ao investimento físico das empresas americanas para produzir na China e vender nos EUA. Quase 2/3 das exportações industriais chinesas são realizadas por empresas com algum capital americano. Com isso criou-se o atual mercado interno urbano da China com sua mão de obra chinesa barata submetida a um regime de capitalismo selvagem, que só agora começa a civilizar-se.

O motor de partida desse formidável “milagre” foi o não menos formidável déficit em conta corrente dos EUA de 2000 a 2008 registrado na tabela ao lado. A competente administração chinesa soube usar, pragmaticamente, essa oportunidade para realizar seu eterno desejo de expansão, mas sabe, também, que seus interesses estão umbilicalmente ligados aos EUA

O Brasil beneficiou-se desse movimento que multiplicou por sete as reservas totais em divisas dos países emergentes, que são fonte de financiamento do déficit americano. Entre 2002 e 2008, nossas reservas cresceram cinco vezes: de US$ 40 bilhões para US$ 200 bilhões (3/4 dos quais aplicados em bônus do Tesouro americano), que eliminaram nosso sufoco externo sem que fizéssemos qualquer esforço exportador significativo.

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

22/05/2009 - 08:21h ‘Economist’: emergentes podem sair da crise antes que os EUA


Publicação britânica ressuscita a tese do ‘descolamento’, mas diz que agora ele será mais limitado.

- Um artigo na edição mais recente da revista britânica The Economist afirma que as grandes economias emergentes, principalmente Brasil, China e Índia, podem se recuperar mais rapidamente da crise econômica do que os Estados Unidos.

A revista defende uma nova tese do “descolamento”, teoria defendida no ano passado por alguns analistas (entre eles a própria Economist) que afirmavam que os emergentes estariam mais resistentes a uma recessão nos EUA.

Admitindo que esta tese não se mostrou correta durante a crise, a Economist apresenta agora a tese do “descolamento 2.0″ (”Decoupling 2.0″, que dá nome ao artigo), que, segundo a publicação, seria “um fenômeno mais limitado, restrito a algumas das maiores e menos endividadas economias emergentes”.

“Mesmo se a economia americana continuar fraca, há sinais de que as algumas das maiores economias emergentes podem ter uma recuperação razoável”, diz a publicação.

A revista argumenta que esta nova teoria é baseada em dois fatores subestimados: que as grandes economias emergentes seriam menos dependentes dos gastos americanos do que se acredita e por elas terem se provado mais capazes e desejosas de responder à fragilidade econômica.

Como prova desse “novo descolamento”, a revista cita o exemplo da China, cuja economia começou a se acelerar novamente nos primeiros quatro meses deste ano.

“Apesar dos debates sobre a precisão dos dados do PIB da China (…) o crescimento este ano pode ser perto de 8%. Este otimismo abasteceu os preços das commodities, o que, por sua vez, melhorou as previsões para o Brasil e outros exportadores de commodities”.

Novo descolamento

Segundo a revista, durante a crise, países como o Brasil e a China não foram atingidos apenas pela queda na demanda dos EUA. O que talvez tenha afetado mais essas economias foi o quase colapso dos mercados de crédito globais e os cortes de estoques de companhias “traumatizadas”.

Além disso, muitos dos emergentes apertaram sua política monetária para combater a inflação antes da crise, o que fez a demanda doméstica cair ao mesmo tempo em que as exportações entravam em declínio.”Mas os choques globais estão se acalmando agora. Empresas não podem reduzir estoques para sempre. O pânico dos investidores está recuando, o que faz os mercados de crédito começarem a funcionar. Isto pode não ser o suficiente para estimular uma recuperação vibrante nos EUA (…) mas remove um obstáculo para as grande economias emergentes, que soltaram as rédeas ficais e monetárias”, diz a revista, citando os pacotes de estímulo da China e os cortes na taxa de juros do Brasil.

Para a Economist, ações como essas por parte dos governos podem fazer as economias se recuperarem mais rapidamente, mas não criam uma resistência de longo prazo.

A publicação afirma que, para ter uma recuperação sustentável, a China deve substituir mais investimentos estatais por consumo privado e outros países, como a Índia, devem administrar melhor as finanças do governo.

“A ideia do descolamento continua viva, mas isso não significa que a prosperidade sustentável nas grandes economias emergentes seja uma conclusão necessária”, diz a publicação.

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Emerging economies

Decoupling 2.0

May 21st 2009
From The Economist print edition

The biggest emerging economies will recover faster than America

Bloomberg

REMEMBER the debate about decoupling? A year ago, many commentators—including this newspaper—argued that emerging economies had become more resilient to an American recession, thanks to their strong domestic markets and prudent macroeconomic policies. Naysayers claimed America’s weakness would fell the emerging world. Over the past six months the global slump seemed to prove the sceptics right. Emerging economies reeled and decoupling was ridiculed.

Yet perhaps the idea was dismissed too soon. Even if America’s output remains weak, there are signs that some of the larger emerging economies could see a decent rebound. China is exhibit A of this new decoupling: its economy began to accelerate again in the first four months of this year. Fixed investment is growing at its fastest pace since 2006 and consumption is holding up well. Despite debate over the accuracy of China’s GDP figures (see article), most economists agree that output will grow faster than seemed plausible only a few months ago. Growth this year could be close to 8%. Such optimism has fuelled commodity prices which have, in turn, brightened the outlook for Brazil and other commodity exporters.

That said, even the best performing countries will grow more slowly than they did between 2004 and 2007. Nor will the resilience be universal: eastern Europe’s indebted economies will suffer as global banks cut back, and emerging economies intertwined with America, such as Mexico, will continue to be hit hard. So will smaller, more trade-dependent countries. Decoupling 2.0 is a narrower phenomenon, confined to a few of the biggest, and least indebted, emerging economies.

It is based on two under-appreciated facts: the biggest emerging economies are less dependent on American spending than commonly believed; and they have proven more able and willing to respond to economic weakness than many feared. Economies such as China or Brazil were walloped late last year not only, or even mainly, because American demand plunged. (Over half of China’s exports go to other emerging economies, and China recently overtook the United States as Brazil’s biggest export market.) They were hit hard by the near-collapse of global credit markets and the dramatic destocking by shell-shocked firms. In addition, many emerging countries had been aggressively tightening monetary policy to fight inflation just before these shocks hit. The result was that domestic demand slumped even as exports fell.

Not such a bad idea after all

But the global shocks are now abating. Firms cannot slash stocks for ever. And as investors’ panic recedes, so credit markets are beginning to function. This will not be enough to spur a vibrant recovery in America, where households must painfully rebuild their balance-sheets. But it removes a drag on big emerging economies—all the more so because their governments have dramatically loosened the fiscal and monetary reins. China’s stimulus is the most spectacular, but Brazil has also been able to cut interest rates and boost spending.

Government activism helps explain why the creditworthy big emerging economies can recover more quickly. But it cannot create long-term resilience. China’s rebound will only be sustained if the economy shifts further from state-sponsored investment to private consumption. That will require tough structural changes, from forcing state-owned firms to pay fatter dividends to a stronger social safety net. Other countries, notably India, must calibrate their government finances even more carefully (see article). The idea of decoupling lives on, but that does not mean sustained prosperity in the big emerging economies is a foregone conclusion.