25/07/2012 - 09:57h Economistas preveem baixo crescimento por anos

Por Sergio Lamucci | VALOR

Do Rio

A economia global caminha para um longo período de baixo crescimento, mesmo se não se ocorrer uma ruptura da zona do euro, um risco visto hoje como cada vez mais provável, dada a inação dos líderes políticos europeus. Nesse cenário delicado, ter um mercado interno forte e finanças públicas saudáveis serão trunfos importantes, assim como contar cada vez mais com a poupança doméstica deverá ser uma necessidade. Em linha gerais, esse foi o quadro traçado por economistas como Dani Rodrik, da Universidade de Harvard (EUA), e José Antonio Ocampo, da Universidade de Columbia (EUA), que participaram ontem e anteontem do seminário “O Brasil e o Mundo em 2022″, promovido pelo BNDES em comemoração aos 60 anos do banco.

Rodrik acredita num ambiente muito negativo para a economia global nos próximos anos, o que terá como consequência derrubar o potencial de crescimento de todos os países. Na zona do euro, a possibilidade de que vários países deixem a união monetária cresceu com força; na China, existe o risco de um tombo significativo do ritmo de crescimento, talvez para a casa de 5% ao ano; e nos EUA, o quadro de impasse político nos EUA tende a prosseguir, afetando a expansão da economia.

Nesse quadro hostil, países com grandes mercados internos, como Brasil e Índia, tendem a se sair relativamente melhor que os outros, apontou ele. O colombiano José Antonio Ocampo, professor da Universidade de Columbia (EUA), destacou o mercado doméstico como um fator de dinamismo importante para a América Latina nesse cenário global, em que os preços de commodities têm perspectivas bem menos róseas.

O quadro internacional adverso reforça a importância de se mobilizar a poupança doméstica, destacou o russo Vladimir Popov, professor da Nova Escola Econômica de Moscou, para quem também é preciso tomar cuidado com fluxos de capitais voláteis.

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, também destacou a necessidade de se aumentar a poupança doméstica nesse mundo mais complicado, apostando na elevação do investimento no Brasil. Para ele, há grandes oportunidades nos setores de petróleo e gás, energia e infraestrutura, que levarão a uma alta da taxa de investimento como proporção do PIB.

Coutinho salientou ainda a importância hoje de fundamentos macroeconômicos sólidos, como baixos níveis de déficits externos, inflação sob controle – sem o que não se faz inclusão social, segundo ele – e de finanças públicas em ordem. Ocampo lembrou que a América Latina conseguiu enfim superar o problema do endividamento público, abrindo espaço para políticas fiscais contracíclicas.

O grande risco para o mundo, segundo consenso dos participantes do seminário, é de que a zona do euro viva uma ruptura. Rodrik e Wolfang Munchau, presidente da consultoria Eurointelligence, acham que essa possibilidade cresceu muito, o que teria consequências catastróficas para a economia global, especialmente se um país grande como a Espanha ou a Itália deixarem a zona monetária. Para Munchau, os países precisam pensar suas estratégias levando em conta que o baixo crescimento mundial deverá durar muitos anos, mesmo se a zona do euro evitar o pior.

Outro risco no radar dos analistas é a China. O país terá mais dificuldades num quadro de baixo crescimento global, em que os países desenvolvidos serão menos tolerantes com grandes exportadores que usam medidas “heterodoxas” para sustentar o crescimento, como políticas industriais amplas e agressivas e a manutenção do câmbio em nível desvalorizado, segundo Rodrik. Ele acha possível que a China caminhe para um período de crescimento significativamente mais baixo, na casa de 5% ao ano, o que poderia ter consequências graves no front político. Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), é menos pessimista. Acha que a China evita um tombo forte da economia, mas insistindo nos incentivos às exportações e ao investimento, o que tende a aumentar os desequilíbrios da economia.

12/07/2012 - 08:48h Não é a Europa, é a China!

12 de julho de 2012

Alberto Tamer – O Estado de S.Paulo

O Brasil está preparado para enfrentar a crise na zona do euro, tem reservas, tem liquidez, pode reduzir os juros porque a inflação recua, tem um mercado financeiro saudável, conta ainda com o potencial do mercado interno, mas está preparado para a desaceleração da China. E aumentam os sinais de que o PIB chinês não deve passar de 7,5% este ano. Muitos analistas falam no comércio entre os dois países, com a China importando menos, mesmo assim, ainda comprando commodities, petróleo, minério de ferro, soja. Além disso, argumentam, o comércio entre os dois países – importação e exportação -, hoje de US$ 37,2 bilhões, continua vigoroso. Cresceu 7% no primeiro semestre do ano, sobre igual período de 2011. É verdade que as importações da China aumentaram 9% enquanto as exportações apenas 6%, mas o Brasil ainda acumula um superávit de US$ 5,1 bilhões no semestre.

Medo de quê? Sim, se a China continua sendo um dos maiores e mais vigorosos mercados do Brasil, onde está o problema? Aqui, um aspecto para o qual poucos atentam. A China não está importando menos do Brasil ou algo parecido, está crescendo menos e importando menos do mundo, Ou seja, dos nossos parceiros comerciais – Estados Unidos, Europa – e nem falamos do espaço que ela está roubando dos produtos brasileiros na Argentina e no mercado mundial. A China é, com os Estados Unidos, o maior importadora mundial, em torno de US$ 2 trilhões por ano; representa cerca de 16% do comércio mundial. Seus principais parceiros são Estados Unidos, União Europeia e Japão – em recessão, ou crescendo não mais que 1,5%.

E os números divulgados esta semana em Pequim mostram que a economia chinesa está crescendo menos; o FMI estima 7,5%, o governo fala em 8,0%. E um crescimento sustentado pelo setor imobiliário onde surgem nítidos sinais de superaquecimento e especulação. Uma pesquisa feita na China mostra que 1 entre 5 pessoas compraram dois imóveis. Já se viu isso nos Estados Unidos e, agora, na Espanha. Esses mesmos indicadores informam que os investimentos representam 49% do PIB, em obras do governo, sim, mas a maior parte no setor imobiliário. Desde 2010, o governo procurou desestimular as compras especulativas, aumentou em 60% a entrada para adquirir um segundo imóvel, mas dá sinais de estar recuando. O consumo interno, que representa 35% do PIB chinês, não está reagindo e a saída encontrada pelo governo é forçar o aumento das exportações, importar menos e intensificar a compra de produtos nacionais.

E é isso que os números do comércio exterior chinês confirmam. As exportações chinesas aumentaram 11,3% em junho e as importações apenas 6,3%. E isso ocorreu em todos os setores, não apenas de commodities. A China voltou a usar o câmbio. “O ritmo no crescimento do comércio na segunda economia do mundo recuou para o nível mais baixo desde a crise global de 2008. Como a demanda interna não reagiu aos estímulos ainda indefinidos do governo, pode-se esperar mais pressão sobre o mercado externo”, afirma Alister Cham, da Moody’s Analistic.

“A desaceleração das importações chinesas foi maior do que se esperava”, e se espera mais porque há nítidos sinais de que a economia chinesa não deve reagir este ano. Haverá mais protecionismo e mais pressão sobre o mercado externo. Só que será difícil encontrar mais espaço nos Estados Unidos ou Europa, que representam quase 50% das exportações chinesas. Restam os outros países. Nós.

Comércio encolhe. O que a OMC e a Unctad (Agência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento) estão prevendo é uma forte desaceleração do comércio mundial, que deve crescer menos de 3,7% depois de haver aumentado apenas 5% no ano passado e 13% em 2010.

Não é só isso. Mas os indicadores da China não mostram apenas uma retração do comércio mundial; afinal, isso poderia ser compensado pelos outros países com maior incentivo à demanda interna e aos investimentos. É muito mais. O que a China confirma é a desaceleração da economia mundial que, já se prevê, não deve crescer muito mais de 3% este ano. Não há mercado externo, não há incentivos internos nos países que representam quase 60% do PIB mundial. Um cenário inquietante e desanimador no qual o Brasil tenta, mas ainda não se ajustou. Não é a Europa, a zona do euro. É tudo. É a economia mundial que está parando.

10/07/2012 - 10:09h OCDE prevê mais freada, exceto para o Brasil

Por Paul Hannon | Dow Jones Newswires – VALOR

A maioria das principais economias deverá desacelerar nos próximos meses. Apenas o Brasil deverá registrar uma aceleração, segundo os indicadores antecedentes compostos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Os indicadores, que se mostraram confiáveis no passado, representam um golpe a qualquer esperança que ainda havia entre as autoridades do mundo inteiro de uma rápida saída de um período de atividade anêmica. Eles aumentam também a probabilidade de os bancos centrais adotarem novas medidas destinadas a respaldar o crescimento.

O instituto de análise e pesquisa sediado em Paris disse ontem que seu indicador antecedente do nível de atividade econômica dos 34 países desenvolvidos que o compõem caiu para 100,3 pontos em maio, em relação aos 100,4 pontos de abril. Os números, segundo a OCDE, apontam para um “crescimento declinante”.

Seus indicadores antecedentes das economias em desenvolvimento foram ainda mais pessimistas, ao sinalizar “desacelerações” – ou um crescimento inferior à taxa tendencial de longo prazo – para China, Índia e Rússia.

“Os indicadores antecedentes compostos apontam para uma diminuição da atividade econômica na maioria das principais economias da OCDE e para uma desaceleração mais marcante na maioria das principais economias não filiadas à OCDE”, afirmou a organização.

Entre os países desenvolvidos, o principal foco de fragilidade continua sendo a zona do euro, para a qual o indicador antecedente aponta para a persistência da desaceleração. No entanto, as perspectivas das principais economias em desenvolvimento também se enfraqueceram significativamente nos últimos meses.

O indicador antecedente para a China caiu por todos os meses deste ano e voltou a diminuir em maio, para 99,2 pontos, a partir dos 99,4 pontos de abril. Os indicadores antecedentes de Índia e Rússia também estão em persistente trajetória descendente.

Em mais um sinal de que a segunda maior economia mundial está desacelerando, os dados divulgados ontem mostraram que a taxa anual de inflação da China caiu em junho para seu nível mais baixo de quase dois anos e meio.

Os indicadores antecedentes da OCDE são concebidos para fornecer antecipadamente indícios de pontos de inflexão entre a expansão e a desaceleração do nível de atividade econômica. Eles têm como base uma ampla variedade de séries de dados que têm um histórico de indicar modificações do nível de atividade econômica.

A principal exceção à tendência declinante geral foi o Brasil, que teve seu indicador antecedente elevado de 99,0 pontos de abril para 99,2 pontos em maio, o que, segundo a OCDE, é sinal de que o crescimento do país vai se acelerar.

26/06/2012 - 08:36h Brasil, Argentina e Uruguai iniciam negociações com a China

Por Cesar Felício – VALOR

O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, e Brasil, Argentina e Uruguai, os três países que estão como membros plenos do Mercosul, anunciaram de modo oficial o interesse em firmar uma declaração conjunta estabelecendo uma “aliança estratégica global” entre o país asiático e o bloco econômico. Wen fez o anúncio em uma teleconferência organizada pela presidente argentina Cristina Kirchner na Casa Rosada, com a participação da brasileira Dilma Rousseff e do uruguaio José Mujica.

Este foi o primeiro evento relativo ao Mercosul sem a participação do Paraguai. O quarto membro do bloco foi suspenso neste domingo em razão da destituição do presidente Fernando Lugo pelo Congresso daquele país. A suspensão paraguaia viabilizou uma postura comum do bloco, já que o país era o único do Mercosul que não reconhece o governo de Pequim como o representante da China. O Paraguai ainda concede este “status” ao governo de Taiwan.

“A China e o Mercosul possuem interesses comuns e amplas perspectivas”, disse Wen, que está encerrando uma visita a Buenos Aires para celebrar os quarenta anos de relação entre os dois países. “Estamos dispostos a coordenar posições comuns nos temas internacionais e a desenvolver ainda mais o nosso intercâmbio. A China quer uma frente comum”, afirmou o dirigente chinês, que deixou claro o objetivo de abrir caminho para um tratado de livre comércio. “Temos que desenvolver os estudos de viabilidade para isso”, disse o premier.

Ao se pronunciar, Dilma evitou tratar dessa possibilidade, centrando sua fala na possibilidade de uma ação conjunta com a China na discussão de iniciativas para fazer frente à crise econômica global. Durante a cúpula Rio+20, encerrada na semana passada, Brasil e China já haviam anunciado um acordo para fortalecimento mútuo de reservas em moeda estrangeira. “É preciso evitar que a crise contamine nossos mercados e provoque consequências que não desejamos. Sabemos que esta é uma crise de mercado e que os Estados Unidos e a União Europeia estão com seus potenciais comprometidos. É estratégico construir um relacionamento produtivo com a China”, disse a presidente.

O Brasil receberá na cúpula do Mercosul em Mendoza, nesta quinta-feira, a presidência pro-tempore do bloco para os próximos seis meses, inicialmente prevista para ser entregue ao Paraguai. A presidente brasileira confirmou que a possibilidade de uma aliança estratégica global com a China “será avaliada” no encontro.

Tanto Mujica quanto Cristina Kirchner mencionaram a possibilidade da aliança com os chineses derivar em ampliação do intercâmbio comercial. “A China é o grande comprador e o grande vendedor de nossa época. E temos que vender mais com maior valor agregado”, afirmou o presidente uruguaio. “A vinculação com a China é uma oportunidade histórica para o Mercosul, para agregar valor para nossa matéria prima, gerando trabalho para a nossa gente”, concluiu a presidente argentina. (Colaborou Yvna Sousa, de Brasília)

25/06/2012 - 09:20h Cúpula constrangida, sem Lugo e com China


Por Sergio Leo – VALOR

A crise no Paraguai deu nova dimensão à reunião de cúpula do combalido Mercosul, no próximo fim de semana. Há poucos dias, era a China que prometia ser a grande novidade no encontro, por ter apresentado uma proposta – convenientemente mantida sob sigilo, até agora – de acordo de livre comércio com o bloco formado por Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Curiosamente, a Argentina insistiu para levar a proposta da China à cúpula, talvez pela falta de agenda que justifique o encontro de presidentes.

Com a crise no Paraguai, é a reação dos governos do Cone Sul à situação do país vizinho, a ser tomada nesta semana, que dominará o encontro. Embora o governo brasileiro insista que o que está em jogo não é a blindagem do mandato do presidente paraguaio, mas a defesa de processos democráticos na sucessão de poder entre os países do continente, a confirmação da saída de Fernando Lugo, decidida pelo Senado, priva o Brasil de uma peça importante no jogo geopolítico regional.

Lugo, um bispo afastado da Igreja Católica com incontrolável compulsão aos pecados da carne (são pelo menos dois os filhos reconhecidos na Justiça), é, porém, até prova em contrário, honesto em matéria de dinheiro, coisa rara pelas redondezas. Realizou também uma gestão responsável no governo e, mais importante, o Brasil contava com Lugo como aliado nas disputas dentro da Unasul – em matéria de finanças e decisões nos órgãos multilaterais.

Confusão paraguaia salva a reunião do bloco da quase irrelevância

Pertencente ao grupo mais à esquerda (com Venezuela, Equador, Bolívia, Argentina e, agora, Peru), o paraguaio deposto muitas vezes fortalecia posições mais moderadas em matéria econômica, do Brasil e dos governos conservadores do Chile e da Colômbia.

A ascensão ao poder do vice-presidente liberal Frederico Franco cria enorme mal-estar, já que seria ele, teoricamente, a representar o Paraguai na cúpula dos chefes de Estado, em Mendoza.

De forma bizarra, a confusão paraguaia salva a reunião do Mercosul da quase irrelevância. Nos últimos meses, os argentinos tentavam apontar alguma medida de destaque para marcar a reunião do Mercosul sob a presidência do país. A Argentina mudou toda a representação do país no Mercosul para ajustá-la ao mergulho protecionista pilotado pelo secretário de Comércio Interior, Guillermo Moreno, e abandonou qualquer ação de fortalecimento do bloco nos últimos meses. Não tinha muito o que levar a Mendoza nesta semana.

Contra a resistência do governo brasileiro, os argentinos insistiram em incluir na agenda da cúpula o acordo proposto pelos chineses, que sugere medidas capazes de conduzir a um acordo de livre comércio com o bloco. O Brasil, que, durante a Rio+20, anunciou um importante acordo com os chineses para fortalecer mutuamente as respectivas reservas em moeda estrangeira, trabalhou nos bastidores para esvaziar a proposta para o Mercosul, na correta avaliação de que nem a Argentina tem interesse em facilitar agora a entrada de mercadorias chinesas na região, nem aceitaria as condições que a China costuma incluir em projetos de investimento como os previstos no documento entregue ao bloco.

“Inconveniente” foi como uma autoridade brasileira classificou, em conversa reservada, o acordo proposto pela China. Há interesse pela aproximação com os chineses, forte até, mas em tratativas bilaterais, ou em outras esferas, como no acordo dos Brics (Brasil, Índia, China, Rússia e África do Sul) para reforço mútuo de reservas internacionais, alardeado durante a reunião do G-20, no México, e complementado pelo anúncio, na Rio+20, de acordo entre brasileiros e chineses para permitir uso compartilhado das respectivas reservas em moeda estrangeira, contra emergências.

Paraguai e Uruguai animaram-se com a perspectiva de abrir-se aos chineses, fazendo lembrar os tempos em que os dois sócios menores do Mercosul excitavam-se com a perspectiva de um acordo de livre comércio com os Estados Unidos, na Área de Livre Comércio das Américas.

A discussão sobre China no Mercosul serve para mostrar que, mesmo desacreditado, o bloco entra no cálculo estratégico de atores importantes, ainda que nem sempre da maneira como desejaria o governo brasileiro.

Será, por todos os motivos, inédita essa próxima reunião do Mercosul, que também receberá uma Dilma Rousseff aparentemente mais empolgada com o papel de estadista internacional. Dilma vem de uma semana em que patrocinou uma instantânea reunião da Unasul contra a crise no Paraguai; forçou, com palavras duras, o secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki Moon, a retratar-se de críticas que havia feito ao documento final da Rio+20; fechou acordo financeiro com China; e até quis enquadrar uma ministra da Dinamarca, com quem se desentendeu na conferência do Rio. Parece estar tomando mais gosto pela política externa.

Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras

E-mail – sergio.leo@valor.com.br

25/06/2012 - 08:57h Queda de commodities afetará Brasil

Bel Pedrosa/Valor / Bel Pedrosa/Valor
Yilmaz Akyüz, economista-chefe do South Centre: “Não usem as reservas cambiais, a não ser para investimento, produção e importação de bens essenciais”


Por Diogo Martins | VALOR

Do Rio

Os preços das commodities no mercado internacional cairão consideravelmente, afetando toda a América Latina, inclusive o Brasil. Esse será o principal impacto da desaceleração da economia chinesa na região avalia o economista-chefe do South Centre (órgão internacional de países em desenvolvimento com sede em Genebra, na Suíça), o turco Yilmaz Akyüz. Ele, que veio ao Brasil para a Rio+20, lembrou que, num momento em que os países da zona do euro estão em crise e os Estados Unidos, com baixo crescimento torna o cenário mais grave.

Ele falou com exclusividade ao Valor e disse que a redução no preço dos produtos básicos mostrará que o Brasil viveu, durante os últimos anos, duas bolhas: uma relacionada à própria valorização das commodities, que garantiu o saldo positivo na balança comercial, e outra que sobrevalorizou o real, com a forte entrada de dólares no país. Na visão do economista, o Brasil se caracterizou como um grande produtor de commodities, bens que atraíram recursos estrangeiros ao país, inflando o real. Com o fim do ciclo de alta das commodities, ele diz que o fluxo de capitais para o país poderá ficar comprometido.

“O Brasil precisa ter cuidado com o balanço de pagamentos. O problema é que o fluxo de capitais e as commodities estão além do poder do governo. Ou seja, o Brasil não pode adotar medidas para os preços das commodities subirem e não pode, facilmente, adotar medidas para atrair capitais para o país”, diz ele, acrescentando que o processo de queda das commodities foi iniciado há dois meses. “Com isso, há um deslocamento rápido de recursos dos países emergentes e suas moedas se desvalorizam”.”

Na avaliação do economista, o governo deveria praticar ações domésticas. Entre elas, destaca, deveria preparar-se para fazer controle de capitais e ser mais “seletivo na importação”.

“Meu conselho é: não usem as reservas cambiais, a não ser para investimentos, produção e importação de bens essenciais”, afirma ele, para quem o real ficou valorizado por muito tempo, situação que impôs ao país a desindustrialização. Na época em que o real se valorizou, Akyüz diz que o governo deveria ter elevado o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de maneira menos “tímida”. “Aumentar 3%, 4% é ineficiente. Quando se aumenta imposto cambial, tem de se aumentar 10%, 12% para ajudar a indústria”, diz.

Akyüz conta que, em 2008, quando a crise financeira estourou, a China manteve o patamar de preços das commodities e funcionou como “a fábrica do mundo”. Ele diz que, agora, isso acabou, porque as exportações chinesas estão perdendo mercado na Europa e nos Estados Unidos. Em razão disso, avalia, a China deverá mudar seu padrão de crescimento. Além de investimentos em infraestrutura, algo que o país já faz, seu governo terá de aumentar os esforços para promover a elevação do consumo da população.

“A China não voltará a crescer 9,5%. Acho que o país crescerá algo em torno de 7,8% em 2012 e sustentará esse patamar nos próximos anos”, diz. “É um crescimento bastante decente. Muitos países adorariam ter uma taxa de crescimento dessa, inclusive, o Brasil.”

22/05/2012 - 08:37h Emergentes vão acelerar em 2013, preveem analistas

Por Assis Moreira | VALOR

De Paris

A zona do euro deve ter crescimento negativo neste ano, mas o impacto sobre a China e o Brasil não impedirá que esses dois grandes emergentes voltem a crescer mais em 2013, segundo projeções de diferentes analistas.

No caso da China, a avaliação nos meios internacionais é que a desaceleração da segunda economia do mundo já ocorreu, para estabilizar o PIB em cerca de 8%. E o país ganhará ritmo no segundo semestre, devendo recuperar o patamar de 9% no ano que vem, com estímulos que o governo prepara (leia texto abaixo).

O Brasil se beneficiará da expansão chinesa e pode voltar à taxa de crescimento potencial, por volta de 4%, em 2013. O Instituto Internacional de Finanças (IIF) vai além e prevê expansão economica de 5,2% no Brasil no ano que vem – quase o dobro da deste ano.

Há um impacto da crise europeia sobre os emergentes, mas a aposta é de que a demanda interna desses países será mais e mais vigorosa e lhes permitirá voltar a uma taxa importante de crescimento.

A economia internacional continua marcada pela forte divergência entre uma zona do euro que se enfraquece ainda mais e, de outro lado, os EUA e o Japão melhorando seu desempenho econômico.

As tensões causadas pela discussão sobre uma eventual saída da Grécia e sobre a saúde do sistema bancário da Espanha ampliam as dificuldades para a recuperação europeia. As estimativas do IIF para o PIB europeu neste ano variam de -0,1% a -0,2%, comparado a 2,4% nos EUA.

Para este ano, a entidade representativa dos grandes bancos fez uma baixa substancial nas projeções para os emergentes. Para a China e Índia, a estimativa foi cortada em 0,4 e 0,5 pontos percentuais, respectivamente. Mas, para 2013, a tendência é mesmo de recuperação, a não ser que um grande desastre surja pela frente. Mas o preço do petróleo, por exemplo, caiu quase 20% desde seu pico de US$ 128 em março.

Em relação à China, há porém divergências no mercado. Um especialista da economia chinesa, Qinwei Wang, não acredita que Pequim conseguirá fazer mais de 7,5% de crescimento este ano e não chegará a 9% ano que vem. Ele não confia muito na demanda doméstica e aponta excesso de capacidade provocado por muitos investimentos na industria.

No geral, os emergentes devem continuar perfazendo dois terços da expansão econômica global.

A economista-chefe de pesquisa para mercados emergentes do Deutsche Bank, Maria Laura Lanzeni, nota que, até agora, a América Latina foi afetada pela crise na zona do euro principalmente pelo canal financeiro.

Houve três ou quatro episódios de vendas fortes nos mercado por causa de temores com a zona do euro, desde abril de 2010, e isso levou moedas na América Latina a se desvalorizar e elevou os spreads de bônus, diz ela.

Quanto ao canal bancário, o impacto não tem sido importante até agora em relação à Grécia, mas Lanzeni acha que pode se tornar uma preocupação se a crise na Espanha e no setor bancário do país aumentar.

A maior presença de bancos espanhóis na região é no Chile. No entanto, a economista do banco alemão nota que os fundamentos econômicos do Chile são bons e isso torna improvável uma crise causada pela situação espanhola.

Quanto ao impacto no comércio, a zona do euro é destino de apenas 11% das exportações latino-americanas. Isso comparado com 37% para os EUA e 38% para outros mercados emergentes. Pela primeira vez desde 2011, os emergentes compraram mais produtos latino-americanos do que os EUA.

A zona do euro sozinha não é o mais importante mercado de exportação para a América Latina, apesar de Brasil e Chile terem vendas maiores para o bloco, de cerca de 17% de suas exportações. “A preocupação assim vem não de um impacto direto, e sim indireto. Se uma forte crise tiver impacto também nos EUA e na China, isso vai pesar sobre a América Latina.”

China sinaliza com mais estímulo ao crescimento

Por Leslie Hook | Financial Times, de Pequim

O premiê da China, Wen Jiabao, preparou o caminho no fim de semana para uma nova rodada de políticas voltadas ao crescimento da economia, o que levou mercados asiáticos e de commodities a subir, na expectativa de uma onda de medidas de estímulo na segunda maior economia do mundo.

Economistas alertaram, porém, que os comentários de Wen não significam que Pequim prepara o mesmo tipo de pacote “big bang” lançado depois da crise financeira de 2008. Acreditam que qualquer estímulo provavelmente será gradual e cauteloso.

O receio de uma desaceleração da economia chinesa vêm pesando sobre o desempenho das commodities e ações em todo o mundo. Os comentários de Wen foram o primeiro sinal claro de que Pequim planeja adotar políticas para estimular a expansão econômica.

“Deveríamos continuar adotando políticas fiscais pró-ativas e uma política monetária prudente, enquanto damos maior prioridade à manutenção do crescimento”, disse Wen, cujas declarações logo dispararam uma onda de alta nos mercados acionários da Ásia.

Os comentários, embora apenas com uma pequena mudança na escolha de palavras, foram considerados como sinal claro da preocupação de Pequim com a perda de força dos indicadores econômicos.

Embora oficialmente o crescimento econômico tenha sido de 8,1% no primeiro trimestre do ano, em comparação ao mesmo período de 2011, o volume de novos empréstimos e as importações de commodities despencaram nos últimos 30 dias, sinal de que a economia enfrenta mais problemas do que os índices principais indicam.

Wen delineou um conjunto amplo de políticas graduais para manter o crescimento econômico bem encaminhado, como a concessão de mais créditos para grandes projetos de infraestrutura, o corte no custo de financiamento, redução de impostos e mais empréstimos para pequenas e médias empresas. O premiê indicou também que deverá ampliar um programa para encorajar a compra de eletrodomésticos e materiais de construção.

“Ele quer pisar um pouco mais no acelerador e menos do freio do que antes”, disse Yu Song, economista do Goldman Sachs. “Essa declaração é a sua expressão de preocupação mais clara nos últimos seis meses.”

Analistas disseram que a mudança de direção nas políticas dará mais espaço para governos locais levarem adiante projetos de investimento de grande escala e pode significar mais apoio do governo central a esses planos.

Não há indicações, no entanto, de que Pequim abriria a torneira de crédito da mesma forma que na esteira da crise financeira. “Não haverá um grande pacote, mas os esforços graduais serão muito significativos”, disse o economista Ken Peng, do BNP Paribas. “Pouco pode ser feito com a política monetária neste momento, mas a política fiscal tem mais espaço para medidas pró-crescimento.”

Wen fez as declarações durante visita a áreas próximas à cidade Wuhan, centro industrial com dez milhões de habitantes. Em longo texto divulgado no site do governo chinês, ele descreveu seus encontros com dezenas de líderes empresariais na região e expressou suas preocupações com a queda na demanda e nas vendas.

O executivo-chefe da fabricante de produtos eletrônicos Hai’er disse a Wen que as vendas de eletrodomésticos caíram 13% no primeiro trimestre de 2012, em relação aos mesmos meses do ano passado. O chefe da Wuhan Heavy Duty Machine Tool Group afirmou que as vendas estavam constantes, mas que havia menos novos contratos sendo assinados.

A crise da região do euro e o enfraquecimento da economia mundial desaceleraram o crescimento das exportações da China para meros 4,9% em abril, na comparação anual. Em abril de 2011, a expansão havia sido de 29,9%.

15/05/2012 - 08:15h Dados sugerem pouso mais brusco do que o esperado para a China

Por Jamil Anderlini | Financial Times – VALOR

Num momento de descuido em 2007, o homem ungido para assumir no ano seguinte como o timoneiro da segunda maior economia mundial expôs suas dúvidas sobre as estatísticas relativas ao crescimento da economia da China.

Os dados oficiais do Produto Interno Bruto (PIB) do país são “produzidos pelo homem” e, portanto, pouco confiáveis, disse Li Keqiang ao embaixador dos Estados Unidos na época. Acrescentou, sorrindo, que os encarava como sendo “apenas para fins de referência”.

Ao avaliar o crescimento da economia, Li, que deverá formalmente substituir Wen Jiabao como o premiê chinês em março, disse que ele se concentra, em vez disso, em três conjuntos de dados – o consumo de energia elétrica, os volumes de carga ferroviária e a concessão de empréstimos bancários. Se sua avaliação estiver correta, a economia chinesa está com muito mais problemas do que os dados oficiais do PIB indicaram até agora.

Dados econômicos não observados tão atentamente e divulgados nos últimos dias, como os números do consumo de energia elétrica, o volume da carga ferroviária e os empréstimos bancários, mostraram uma queda vertical do nível de atividade da economia, que parece ter pegado as autoridades de surpresa.

Os números do PIB da China são divulgados apenas a cada três meses e, no primeiro trimestre deste ano, pareciam mostrar uma continuidade da queda gradual que já ocorria nos 12 meses anteriores.

A expansão de 8,1% computada nos três primeiros meses, em relação ao mesmo período do ano passado, representou uma nítida desaceleração em relação ao crescimento de 8,9% contabilizado no quarto trimestre do ano passado, mas dificilmente pode ser considerada um “pouso forçado” para os altos voos da economia chinesa.

Depois desse indicador relativamente sólido, a maioria dos analistas e autoridades do governo declarou que o crescimento alcançou seu patamar mais baixo no primeiro trimestre e que a recuperação começaria em abril.

“Analistas ’sell-side’ e autoridades chinesas quiseram crer na história de que aquela foi apenas um pequeno mergulho e de que a economia voltaria a disparar”, diz Patrick Chovanec, professor de administração de empresas da Universidade Tsinghua, de Pequim. “Mas essas projeções representaram, acima de tudo, a vitória da esperança sobre a razão.”

O consumo de energia elétrica de abril ainda não foi divulgado, mas a produção aumentou apenas 0,7% em relação ao mesmo mês de 2011, bem abaixo do crescimento ano a ano de 7,2% computado em março e do de 11,7% registrado em abril de 2011.

O aumento dos volumes de carga ferroviária nos primeiros meses do ano correspondeu a cerca de metade do ritmo de expansão observado na mesma época do ano passado, e os bancos concederam muito menos novos empréstimos do que o previsto.

“A China viveu, nos últimos três anos, um boom de investimentos que todo mundo reconhecia como sendo insustentável, e agora estamos vendo o que é a insustentabilidade”, diz Chovanec. “A dissolução desse boom de investimentos está acontecendo sem nada que o substitua, e isso significa que a China deverá ter um crescimento do PIB muito menor que o que nos acostumamos a ver.”

Boa parte da desaceleração proveio do mercado imobiliário, área em que os esforços do governo para coibir uma bolha alimentada pelo crédito estão começando a parecer um pouco exagerados.

Os investimentos em imóveis, que respondem diretamente por cerca de 13% do PIB, caíram verticalmente nos últimos tempos, com o recuo de 4,2% na construção de imóveis residenciais observado nesse período de três meses, em relação ao mesmo período do ano passado. Esse percentual deve ser comparado com o crescimento de 5,1% contabilizado nos dois primeiros meses.

Mas essa desaceleração transcende a mera desaceleração do mercado imobiliário. As exportações e importações chinesas de abril revelaram-se bem mais fracas que o previsto. As importações cresceram apenas 0,3% na comparação ano a ano, bem abaixo da média das previsões dos analistas, de uma expansão de cerca de 11%.

As importações das principais commodities desaceleraram significativamente, enquanto as compras externas de maquinário caíram, indicando um “desaquecimento alarmante do investimento industrial”, segundo o economista Stephen Green, do banco Standard Chartered.

“Na ausência de um novo afrouxamento da política econômica, prevemos que o crescimento continuará a desacelerar no restante do segundo trimestre”, diz ele.

Muitos analistas acham que a China esperou demais para estimular a economia em desaceleração. O expurgo do mês passado do dirigente chinês Bo Xilai e a resultante turbulência política foram um dos motivos pelos quais Pequim não agiu antes, mas alguns economistas dizem que suas alternativas para impulsionar o crescimento estão mais limitadas.

Em resposta aos recentes dados decepcionantes, o Banco Central chinês reduziu no sábado o depósito compulsório dos bancos, a fim de estimular o fluxo do crédito.

Mas a enorme enxurrada de crédito fácil e de investimentos apoiados pelo governo, desencadeada após a crise financeira, deixou Pequim com pouco poder de fogo desta vez, em meio ao temor de ressurgimento da inflação e da alta da inadimplência de empréstimos junto aos bancos estatais.

Enquanto se prepara para assumir no ano que vem, Li deve estar fazendo votos de que suas suposições estejam erradas e de que os dados do PIB sejam o indicador mais preciso. Caso contrário, ele poderá se defrontar com uma situação em deterioração, e terá um poder relativamente pequeno para solucioná-la.

07/05/2012 - 10:29h Inflação em queda é tendência global

VALOR

A inflação brasileira acumulada em 12 meses está em queda desde o quarto trimestre do ano passado, um fenômeno que se observou também em muitos países emergentes e desenvolvidos, mostrando uma tendência global de alívio da pressão sobre os preços. O nível mais baixo das cotações de commodities tem peso importante para explicar o movimento, também influenciado pela perda de fôlego da atividade econômica em diversos países, resultado de altas de juros promovidas especialmente na primeira metade de 2011.

No Brasil, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses caiu de 7,31% em setembro de 2011 para 5,24% em março deste ano, na China, a inflação em março ficou em 3,6%, depois de ter atingido 6,5% em meados do ano passado. Nos Estados Unidos, caiu de quase 4% em agosto e setembro para 2,7% em março, com o núcleo, que exclui energia e alimentos, em 2,3%. Segundo analistas, a maior parte da queda da inflação global nessa base de comparação já ocorreu – agora, a tendência é de maior equilíbrio entre a inflação e ritmo de crescimento como foco de preocupação dos BCs.

Os preços dos produtos primários subiram com força nos últimos meses de 2010 e nos primeiros de 2011, jogando a inflação para cima em muitos países, lembra o analista-sênior para a América Latina da Economist Intelligence Unit (EIU), Robert Wood. Naquele momento, a atividade econômica global estava mais forte e, como diz o economista Raphael Martello, da Tendências Consultoria, a chamada Primavera Árabe colaborou para pressionar os preços do petróleo.

Essa trajetória “contaminou” os índices de preços em 12 meses até o terceiro trimestre do ano passado em grande parte dos países, com alta de alimentos e de combustíveis. A partir do fim de 2011, contudo, o período de inflação mais salgada – grosso modo, de outubro de 2010 a abril do ano passado – começou a “deixar” as taxas acumuladas em 12 meses, afirma Wood. Do segundo trimestre de 2011 em diante, os preços de commodities ficaram mais comportados, o que, de acordo com Wood, “explica em grande parte a tendência” de perda de fôlego dos preços em muitos países nessa base de comparação.

“No entanto, também houve um aperto monetário em alguns mercados emergentes em 2011″, reforça o economista da EIU. Isso contribuiu para controlar a inflação, ao ajudar a esfriar a atividade econômica. O Banco Central brasileiro, por exemplo, elevou os juros básicos entre janeiro e julho do ano passado, de 10,75% para 12,5% ao ano, além de ter adotado medidas para restringir o crédito. O BC chinês aumentou as taxas do fim de 2010 a meados de 2011, enquanto a autoridade monetária da Índia promoveu 12 altas dos juros. Até mesmo o Banco Central Europeu (BCE) elevou as taxas por duas vezes no ano passado, porque a inflação em 12 meses superava a meta, de até 2%, uma atitude fortemente criticada por vários analistas, já que a zona do euro já passava por uma complicadíssima crise da dívida e a atividade se mostrava anêmica em muitos países do bloco.

A partir do fim do terceiro trimestre do ano passado, a preocupação começou a mudar da inflação para o ritmo de crescimento. A crise europeia se agravou e a atividade econômica de muitos países, entre eles a China, começou a desacelerar. Foi nesse cenário que o BC brasileiro inverteu a mão da política monetária, passando a cortar a taxa Selic em agosto de 2011 – desde então, caiu de 12,5% para 9% ao ano.

No Brasil, a queda da inflação não foi maior por causa dos preços de serviços, que rodam na casa de 8% em 12 meses, em boa parte refletindo um mercado de trabalho ainda aquecido. Em compensação, a Petrobras não reajustou a gasolina com base na oscilação dos preços internacionais do petróleo, contendo esse foco de pressão inflacionária. Em países como os EUA, lembra o economista da EIU, o nível elevado das cotações do petróleo no começo do ano impediu um recuo mais acentuado da inflação ao consumidor em 12 meses.

Hoje, o maior risco inflacionário para a economia global é o petróleo, avalia Martello. A tensão no Oriente Médio, com o temor de que Israel ataque o Irã, mantém elevados os preços do produto, mesmo num quadro de mais equilíbrio entre a oferta e a procura. Um conflito, diz ele, poderia fazer os preços dispararem. Além do risco do petróleo, Wood considera que a abundância de liquidez internacional também pode provocar bolhas especulativas nos preços de ativos, citando como outra possível fonte de pressão inflacionária uma eventual recuperação mais forte da economia americana, o que hoje lhe parece improvável.

Para os próximos meses, Martello acredita que haverá mais equilíbrio entre as preocupações dos bancos centrais com inflação e crescimento, com os índices de preços mais tranquilos do que em 2011. A tendência seria de mais estabilidade dos juros do que de movimentos para cima ou para baixo, diz ele, destacando, porém, as diferenças entre as ações dos bancos centrais.

O BC da Colômbia, por exemplo, elevou os juros duas vezes neste ano, por causa da demanda doméstica forte, decidindo pela manutenção da taxa em 5,25% ao ano na reunião de segunda-feira. Já o BC brasileiro indicou que pode continuar a reduzir a Selic, enquanto o da Índia começou a afrouxar a política monetária na semana passada.

04/05/2012 - 10:21h Emergentes puxam expansão global

Por Assis Moreira | VALOR

De Genebra

O crescimento econômico da China chegará a 70% em termos acumulados entre 2007 e 2013, comparado a zero na União Europeia e 6,6% nos Estados Unidos, refletindo como a crise financeira empurrou os rumos da economia mundial para a Ásia.

Estudo do Deutsche Bank, um dos maiores bancos do mundo, mostra que, na média, os emergentes terão crescimento acumulado de 37% no período. No caso dos países da América Latina, incluindo o Brasil, a expansão econômica acumulada ficará em 22%; no Leste Europeu, em 15%.

A fatia dos emergentes na economia mundial cresce cada vez mais. Era de 39,5% em 1995 e deve passar para 56,5% no ano que vem. No caso da China, triplica de 5,6% para 15,6%, em termos de paridade de poder de compra (PPP).

Pelos cálculos do banco alemão, ainda mais importante é a contribuição significativa dos emergentes para o crescimento mundial. Com os países ricos em crise, o bloco dos emergentee foi responsável por 92% da expansão econômica em 2012, e a cifra deve ser similar neste ano. É quase o dobro dos 52% de 2000.

Para a economista Maria Laura Lanzeni, chefe de pesquisa de mercados emergentes do banco, os emergentes vão se consolidando como nova locomotiva da economia mundial, com expansão interna impulsionada por uma nova classe média de dezenas de milhões de pessoas.

Na sua avaliação, os emergentes continuarão a superar as economias desenvolvidas. Devem crescer 5,5% neste ano, comparado a 1,7% dos países ricos e 3,5% da economia mundial. Ao mesmo tempo, as bolsas de valores do grupo emergente continuarão sensíveis a choques globais.

Enquanto a dívida pública dos ricos continuará a crescer neste ano, para quase 120% do PIB, a média dos emergentes fica abaixo de 40%. O risco país, no caso do Brasil, é menor do que o da França e boa parte dos outros europeus.

Mais multinacionais dos emergentes estão entre as maiores do mundo em capitalização, como PetroChina, número 2 em 2011. A Petrobras ficou na quinta posição.

Sobre a questão de por que os emergentes ainda não são países industrializados, a resposta é a baixa qualidade das instituições em vários países. Basta ver a percepção sobre corrupção e dificuldades para fazer negócios por causa da burocracia.

06/03/2012 - 09:53h China se prepara para uma era de crescimento mais lento

Por Bob Davis | The Wall Street Journal, de Pequim – VALOR

Ao reduzir a meta de crescimento da China para 7,5% este ano, o primeiro-ministro Wen Jiabao indicou que a era de expansão voraz do país possa estar chegando ao fim, uma mudança com implicações profundas para economias como a da Austrália e do Brasil, que prosperaram a com a forte demanda chinesa por commodities.

O ajuste sugere que os líderes chineses chegaram a um nível de conforto com relação a um crescimento mais lento e que não pretendem estimular a economia através de grandes investimentos estatais, como o fizeram no passado. Em vez disso, planejam permitir uma mudança há muito recomendada, que afaste o país de uma expansão liderada pelas exportações.

As consequências desta mudança dependem da forma como Pequim vai gerenciar a transição. Os parceiros comerciais da China muito provavelmente serão afetados de diversas maneiras.

Uma desaceleração no ritmo de investimento em infraestrutura, geração de energia e exportações provavelmente implicará um crescimento mais lento nas importações de aço, concreto, petróleo e outras commodities, potencialmente um golpe para Brasil, Austrália, os países produtores de petróleo do Oriente Médio e outros grandes fornecedores de commodities.

“Acreditamos que o superciclo das commodities da China ficou para trás”, disse Dong Tao, analista do Credit Suisse.

Mas a mudança também trará novas oportunidades, tanto domesticamente como no exterior.

Uma China que dependa mais do consumo interno talvez polua menos, aliviando preocupações mundiais com o meio-ambiente, e produza mais empregos. A mudança também poderia elevar as importações de software, entretenimento, turismo e bens e serviços de alta tecnologia dos Estados Unidos, Europa e outros países ricos.

“Acelerar a transformação do modelo de desenvolvimento econômico [...] é tanto uma tarefa de longo prazo como a tarefa mais premente no momento”, disse o premiê chinês Wen Jiabao ontem, na sessão de abertura do Congresso Nacional do Povo, versão chinesa de um parlamento, que se reúne uma vez a cada ano.

A meta oficial de crescimento da China tem sido fixada em 8% desde setembro de 2005. A meta é, em grande parte, simbólica: durante os últimos sete anos, a economia chinesa tem crescido a uma média anual de 10,9%. No entanto, analistas dizem que a meta de crescimento do PIB de 7,5% para 2012 indica que direção os mais altos funcionários do governo querem dar à economia. O Fundo Monetário Internacional prevê um crescimento de 8,2% este ano para a China.

Em seu último ano como a segunda maior autoridade da China, Wen argumentou que a única alternativa viável para o país é mudar sua fórmula de crescimento, num cenário em que os mercados para suas exportações da Europa, EUA e Japão atravessam um recessão ou crescimento lento.

Wen tem defendido esse argumento de uma forma ou de outra, desde pelo menos 2007, mas a parcela do consumo como porcentual da economia durante esse período caiu. Analistas dizem que a oposição de estatais industriais e os governos das províncias, que se beneficiam do sistema atual, têm impedido a mudança. Também o fez a crise financeira global de 2008 e 2009, quando a China se protegeu da recessão com um enorme programa de estímulo que se baseou em gastos em infraestrutura.

Stephen Green, analista da Standard Chartered, disse que pode haver um apetite renovado por mudança, citando um editorial publicado recentemente no “Diário do Povo”, jornal do Partido Comunista, que argumentou que “reformas imperfeitas devem ser preferíveis a uma crise provocada pela ausência de reformas”. Um relatório do Banco Mundial e um centro de estudos chinês influente, o Centro de Pesquisa de Desenvolvimento, também defendeu uma mudança nos fundamentos da economia chinesa.

Wen listou uma série de iniciativas, incluindo aumentos do salário mínimo, apoio do governo à expansão do crédito ao consumidor e “novas formas de consumo”, como compras on-line e veículos mais econômicos. Ele disse que a China poderia minimizar as exigências de registro para os trabalhadores rurais que migram para as cidades, tornando mais fácil para eles obter empregos melhor remunerados. Wen também disse que a China vai ampliar seus sistemas de de saúde e previdência, o que poderia incentivar as famílias chinesas a gastar mais das suas poupanças.

Em um tom mais político, Wen destacou a necessidade de proteger os direitos dos agricultores à terra em que trabalham e vivem, dizendo que “esses direitos não podem ser violados por ninguém.”

A China tem visto uma onda violenta de protestos nos últimos anos relacionada à apreensão de terras por governos locais, que frequentemente oferecem uma indenização simbólica e, em seguida, vendem a propriedade a urbanizadores por preços de mercado. A questão veio à tona no ano passado, quando moradores de Wukan, vilarejo no sul do país, realizaram protestos sobre uma suposta desapropriação de terras, obrigando as autoridades locais a demitir líderes do governo local, congelar os projetos de urbanização e realizar novas eleições.

Um dos líderes da rebelião em Wukan foi eleito como prefeito do vilarejo no fim de semana numa eleição democrática – uma reviravolta impressionante que alguns analistas acreditam que representa exatamente uma possível nova abordagem para a agitação social.

Wen também traçou uma a meta de 4% para o índice de preços ao consumidor em setembro de 2012. Embora essa seja a mesma meta do ano passado, desta vez parece ser um objetivo real e não simbólico. No ano passado, o índice de preços ao consumidor cresceu 5,4%, mas foi diminuindo no segundo semestre. De 2001 a 2010, a média da inflação foi de apenas 2,2%.

Wen listou áreas onde o governo fez progressos, incluindo o controle da inflação e dos disparos nos preços dos imóveis residenciais.

(Colaborou Jeremy Page)

21/01/2012 - 18:00h O premiado Yu Hua fala de Crônica de Um Vendedor de Sangue e da realidade do país

Sob o signo da política

21 de janeiro de 2012

Cláudia Trevisan – O Estado de S.Paulo

Filho de médicos, o escritor Yu Hua passou a infância em um hospital e todos os dias via filas de camponeses que vendiam sangue para complementar sua escassa renda e sustentar suas famílias nos turbulentos anos do regime maoista.

Dessa visão saiu o personagem principal de Crônica de Um Vendedor de Sangue, Xu Sanguan, que descobre nas visitas regulares a bancos de sangue o caminho para sobreviver e alimentar seus três filhos.

O pano de fundo da saga do camponês são os anos do Grande Salto Adiante (1958-1962) – quando 30 milhões de pessoas morreram de fome – e a Revolução Cultural (1966-1976), que fechou escolas, queimou livros e deixou o tecido social chinês à beira da ruptura.

“A venda de sangue era extremamente comum naquela época e ainda é hoje, apesar de ser ilegal”, disse Yu Hua em entrevista ao Estado. Entre os mais festejados escritores chineses contemporâneos, ele nasceu em 1960 e cresceu durante a Revolução Cultural, quando o mais inocente gesto ou frase poderia ser tachado de “burguês” ou “contrarrevolucionário” e dar margem a uma perseguição implacável pelos temidos guardas vermelhos de Mao Tsé-tung (1893-1976).

“Foi um período deprimente e muito repressivo. É por isso que na minha obra não há enredos muito felizes”, disse o escritor, que fuma cigarros Panda e se veste com simples sobriedade.

Mas Yu Hua é hábil no uso do humor, que ganha um tom ligeiramente negro em meio à precariedade em que vivem seus personagens. Em Crônica de Um Vendedor de Sangue, a saga de Xu Sanguan é temperada por traições, intrigas e a diversidade dos habitantes de uma típica vila rural chinesa em um período de alta voltagem política.

Editada pela Companhia das Letras, a obra é a terceira de Yu Hua a ser lançada no Brasil, depois de Viver e Irmãos, seu mais ambicioso trabalho, que apresenta de maneira épica a trajetória de dois irmãos dos anos 60 até o período de abertura econômica nos quais o enriquecer passou a ser glorioso.

A improvável sucessão de eventos que marcaram a história chinesa das décadas de 1950 a 1980 são o pano de fundo da maior parte da obra do escritor, que trabalha em um novo livro ambientado no mesmo período, que viu o igualitarismo maoista ser substituído pela busca desenfreada da prosperidade material.

Na sua mais recente obra, China in Ten Words (sem tradução para o português), Yu Hua provoca risos no leitor ao lembrar da impossibilidade de acesso a livros durante a Revolução Cultural. Os únicos disponíveis eram as Obras Selecionadas de Mao Tsé-tung e o Livro Vermelho, que trazia citações do líder comunista.

Quando a loucura daqueles dez anos chegou ao fim, Yu Hua mergulhou na leitura de obras estrangeiras, que exerceram influência determinante sobre seu trabalho. Sua primeira fonte de inspiração foi o japonês Yasunari Kawabata (1899-1972), vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1968, a quem ele tentou imitar na habilidade de descrever detalhes e ainda deixar espaço para a imaginação do leitor.

A fase durou até 1986, quando Yu Hua conheceu a obra de Franz Kafka (1883-1924), que segundo ele “libertou” sua maneira de criar. “Aprendi com Kafka que o ato de escrever não deve ter limites e que eu deveria escrever qualquer coisa que quisesse.”

Fiel a esse princípio, Yu Hua disse não se influenciar pela existência da censura chinesa, que impediu a publicação de China in Ten Words, um trabalho de não ficção que tenta fazer um retrato de temas fundamentais do país. “Nunca mudei nada por causa da censura. Se um livro é proibido, eu sempre posso lançá-lo em Taiwan”, observou.

O principal motivo do veto à obra é a maneira explícita com que o autor relata os protestos pró-democracia realizados em 1989 na praça Tiananmen, que terminaram em uma sangrenta repressão no dia 4 de junho daquele ano.

“Essa é a diferença entre ficção e não ficção. Na China não se pode falar do dia 4 de junho, mas em uma obra como Irmãos eu posso me referir ao mesmo evento como o dia 35 de maio”, exemplifica, mencionando a data fictícia que muitos chineses usam para se referir ao massacre de Tiananmen.

Com 14 milhões de seguidores em uma das versões chinesas do Twitter, Yu Hua é um ativo crítico do governo chinês na internet, onde vários de seus posts acabam deletados pela censura. “O futuro político da China é muito claro e só há uma opção: ou o país caminha na direção da democracia ou haverá outra revolução.”

Em sua opinião, a disseminação de informação na rede e o crescente número de chineses que desafiam os limites impostos pelo governo tornam insustentável a manutenção de um regime autoritário. “Mais e mais pessoas estão dispostas a manifestar suas opiniões e não é possível controlar todas elas.”

A censura também afetou de maneira oblíqua Viver, a obra que projetou Yu Hua internacionalmente e que o autor considera como o trabalho que lhe trouxe sorte. “Quase 20 anos depois de sua publicação, o livro ainda vende 100 mil cópias ao ano na China, o que é extraordinário”, ressaltou.

Parte do sucesso se deve à adaptação para o cinema realizada pelo mais célebre diretor chinês, Zhang Yimou. Mesmo com uma série de mudanças no roteiro, o filme até hoje é proibido na China, mas pode ser encontrado em qualquer das inúmeras lojas de DVDs piratas do país.

18/01/2012 - 17:58h Em crise, capitalismo ocidental vê dinamismo se mudar para a Ásia

Por David Pilling | Financial Times – VALOR

Alguns anos atrás, teria sido difícil, senão impossível, imaginar os líderes europeus, tigela na mão, recorrendo ao socorro financeiro de Pequim. Igualmente, poucos teriam previsto que líderes chineses em visita a Washington repreenderiam publicamente os políticos americanos pela má gestão da maior economia do mundo. Mas o mundo mudou. A implosão do sistema financeiro nos EUA e na Europa em 2008 e a crise da dívida soberana europeia deflagrada no ano passado têm acelerado o deslocamento do dinamismo econômico para a Ásia.

Em 2012, os EUA e a Europa provavelmente estarão flertando com uma recessão na maior parte do ano. Salvo um pouso forçado na China, a Ásia, exclusive o Japão, deverá continuar a avançar bem, a cerca de 7%, segundo a maioria dos economistas.

A mudança dramática na sorte dos países gerou um certo triunfalismo entre alguns asiáticos. “Não há crise do capitalismo”, diz Meghnad Desai, professor emérito da London School of Economics. “Há uma crise do capitalismo ocidental, que entrou na terceira idade. O capitalismo dinâmico, com sua energia, inovação e pura gana de crescer foi para o Oriente.”

Os manuais de economia não contêm respostas para os atuais problemas do capitalismo ocidental

Desai não está sozinho na percepção de uma espécie de punição moral. Os países asiáticos foram “atropelados” pelo Ocidente durante séculos, diz ele, e até há relativamente pouco tempo eram acusados veementemente de serem “casos perdidos” incapazes de prover suas necessidades alimentares. Agora, diz ele, é o povo do sul em geral e da Ásia em particular que estão administrando de forma mais eficiente as forças geradoras de riqueza do capitalismo.

Mas essa sensação triunfalista tem limites. Por pelo menos três razões interligadas, a crise do capitalismo no Ocidente é profundamente inquietante também para o Oriente.

Em primeiro lugar, com exceção do Japão, da Coreia do Sul e de alguns pequenos países, como Cingapura, as nações asiáticas continuam a ser majoritariamente pobres ou, na melhor das hipóteses, de renda média. Muitas tinham traçado um caminho rumo à prosperidade futura mediante a adoção de políticas cada vez mais “capitalistas” de abertura de suas economias às forças do mercado, afrouxando o controle do Estado sobre os bancos, juros e câmbio. Mas esse caminho para a prosperidade agora parece cada vez mais perigoso, vulnerável a altos e baixos e a catástrofes financeiras.

Os tecnocratas asiáticos que confiam numa mudança gradual para um capitalismo de livre mercado, muitas vezes em oposição a vozes mais intervencionistas ou nacionalistas em casa, estão confusos ou desiludidos. Changyong Rhee, economista-chefe do Banco de Desenvolvimento Asiático (BDA), diz que grande parte disso vem do fato de os governos ocidentais terem mudado de tom radicalmente desde a crise financeira da própria Ásia, em 1997. Na época, o Fundo Monetário Internacional – padrasto do laisser-faire pregado pelo Consenso de Washington – receitou remédios drásticos para economias como as de Tailândia, Indonésia e Coreia. Esses países foram orientados a cortar gastos governamentais mesmo nas garras da recessão, a aumentar as taxas de juros, a cortar os vínculos entre os bancos e o Estado; e a desregulamentar. Agora, porém, as economias ocidentais estão prescrevendo quase o oposto para si mesmas. Elas estão apertando sua política fiscal, reduzindo as taxas de juros e usando dinheiro público para salvar bancos.

Pouca gente na Ásia ainda afirmaria que os asiáticos podem viver sem uma sólida demanda de EUA e Europa

Do ponto de vista asiático, isso faz o Ocidente parecer hipócrita, na melhor das hipóteses. Na pior, parece que as acalentadas premissas sobre como governar uma economia são besteirol cínico. “Nós nos sentimos amargos”, diz Rhee. “Nós queríamos praticar essas políticas intervencionistas, mas fomos proibidos de praticá-las. Então, qual modelo devemos seguir agora?” A China, diz ele, tinha se comprometido com uma reforma gradual do mercado. “A questão era: qual seria a velocidade certa? Agora, eles estão se perguntando se o destino está correto ou não.”

Richard Koo, economista-chefe do Nomura Research Institute, analisa a crise do ponto de vista do Japão. Tóquio, diz ele, foi repreendida durante anos pelos formuladores de políticas ocidentais por não liquidar contabilmente seus empréstimos problemáticos mais rapidamente e por não tomar mais medidas drásticas de política monetária para reaquecer a economia. O que eles não compreenderam foi que numa “recessão de balanço de pagamentos” em período pós-colapso econômico, quando o setor privado fica muito endividado, soluções econômicas normais deixam de funcionam, diz ele. Os manuais de economia não contêm respostas para os atuais problemas do capitalismo.

“O que nós passamos nos últimos 20 anos no Japão, e que os EUA e o Reino Unido agora estão passando, é que, mesmo com taxas de juros nulas, as pessoas não querem tomar empréstimos”, diz ele. “Elas limitam-se a pagar suas dívidas.” Se ele estiver certo, então as economias ocidentais tendem a passar por um prolongado período, ao estilo japonês, de crescimento lento. Pode não servir de grande consolo, mas Tóquio, pelo menos, poderá dizer: “Nós avisamos”.

A segunda razão pela qual os problemas do Ocidente são desconcertantes para o Oriente é que, a despeito de toda a conversa, antes na moda, sobre valores asiáticos, nenhuma economia da região criou uma alternativa coerente ao capitalismo. Sem dúvida, houve variações sobre o tema, inclusive um Estado mais intervencionista. Mas os experimentos anticapitalistas radicais, principalmente o comunismo de estilo chinês e o “socialismo” da Índia de Nehru (1889-1964), foram grandes fracassos.

A China abandonou o comunismo no fim dos anos 1970, quando Deng Xiaoping abriu a economia para as forças do mercado. Em 1991, a Índia abandonou sua própria versão de socialismo, que a havia condenado à penosa “taxa hindu de crescimento”. Outros países, como o Vietnã, seguiram o exemplo, abrindo suas economias, promovendo seu próprio crescimento rápido. Por outro lado, aqueles que aferraram-se obstinadamente a sistemas não centrados no mercado, como a Coreia do Norte, Mianmar e Laos, continuaram chafurdando na pobreza.

Terceiro, os asiáticos não estão em posição de alegrar-se com uma crise do capitalismo no Ocidente, uma vez que suas economias, nas palavras de Donald Tsang, executivo-chefe de Hong Kong, todos estão no mesmo barco mundial. “Se parte do barco tem um buraco no meio, você não pode manter-se à tona”, diz ele. Na Índia, existem preocupações profundas com que uma história de crescimento impulsionado por empresas familiares e por financistas capitalistas ocidentais possa estar desaparecendo. Mesmo a China está desacelerando, e uma minoria de economistas prevê um pouso forçado.

Pouca gente na Ásia ainda afirmaria que os asiáticos podem viver sem uma sólida demanda dos EUA e da Europa. Zhu Min, economista chinês e vice-diretor-gerente do FMI, disse recentemente que os consumidores chineses responderam por apenas US$ 2 trilhões da demanda, em comparação com os consumidores americanos, que mesmo em sua atual situação precária, gastaram cerca de US$ 10 trilhões em um ano. Se o capitalismo ocidental está em chamas, as labaredas cedo ou tarde lamberão as portas da Ásia.

A crise do capitalismo no Ocidente coloca muitas questões quanto à gestão adequada das economias asiáticas. O tema unificador é: quão ativo deve ser o papel do Estado? As economias asiáticas têm sido criticadas por especialistas ocidentais por serem demasiado intervencionistas. Até recentemente, o plano, para a maioria, era remover gradualmente a mão balizadora do Estado. Mas o fracasso da teoria ocidental de mercado racional e as armadilhas óbvias de regulamentação moderada deixaram algumas autoridades econômicas asiáticas mais cautelosas quanto a marchar aceleradamente no caminho da liberalização.

A questão de como o Estado deve agir envolve quase tudo, de supervisão financeira a política industrial. Um dos temas mais cruciais é o papel dos bancos. Na Ásia, eles tendem a ter uma função mais estreita: seu papel tem sido canalizar dinheiro para a economia “real”, principalmente o setor de manufatura.

Os asiáticos poderiam ser tentados a manter-se dentro de seu estreito modelo – não apenas é menor a probabilidade de esses bancos colocarem a economia em apuros, como também é mais fácil controlar seu comportamento em tempos de estresse. Desde 2008, Pequim julgou útil ter bancos “domesticados” através dos quais o governo pode alocar crédito à economia real a taxas de juros fixas. Agora que eles já viram os perigos de deixar os bancos à vontade, por que partiriam os governos asiáticos para modelos mais “sofisticados” de bancos ocidentais?

Yao Yang, da Escola Nacional do Desenvolvimento, na Universidade de Pequim, argumenta que essa seria uma lição totalmente errônea. “Há pessoas na China, tanto no governo como na intelligentsia, para as quais a China deveria voltar a seu antigo modelo centrado no governo”, diz ele. “No entanto, a maioria das pessoas ainda acredita que a China precisa continuar em seu caminho rumo a uma economia mais aberta.”

Outros ressaltam o fato de que os bancos sob governança estatal podem entrar – e realmente entram – em apuros ao alocar capital de acordo com o “diktat” do governo. Rhee, do BDA, diz que as economias asiáticas fariam mal em abandonar o aprofundamento de seus mercados de capital. “Se você não viajar de avião, não acontecerá nenhum acidente”, diz ele sobre as recentes catástrofes ocidentais. “O Ocidente tem muitos aviões, por isso caem. Deveríamos não ter aviões?”

Uma questão pendente de resposta, com a crise do capitalismo, é em que medida deveriam as sociedades asiáticas ser desiguais. Muitos países, principalmente a China e a Índia entre eles, têm estratégias de crescimento baseadas na “teoria do gotejamento” – segundo a qual todos acabarão se beneficiando com o surgimento de uma classe de super-ricos. Mas, como no Ocidente, os asiáticos estão questionando essa abordagem de laisser-faire.

“A vantagem do modelo anglo-saxão é clara. Incentiva a inovação, é versátil e promove as liberdades individuais”, diz Yao. “Mas suas desvantagens são igualmente evidentes. É muito fluido, cruel para os trabalhadores e desencadeia grandes forças destrutivas quando irrompem crises econômicas.” Ele prefere um sistema nórdico: altos impostos, relativa igualdade e menos bolhas nos ciclos econômicos. Mas na Ásia, somente o Japão e a Coreia do Sul se aproximam, e apenas de longe, desse modelo.

Depois de o Ocidente ter despejado tantas regras, os asiáticos podem ter algum prazer em face do desconforto americano e europeu. No entanto, a única grande economia asiática que se aproximou dos padrões de vida americano foi a do Japão, no fim dos anos 1980 e início dos 1990, e sua economia estagnou antes que pudesse consolidar sua posição dominante. A China construiu uma máquina de produzir rápido crescimento em um país pobre, mas não há garantias de que será capaz de igualar os padrões de vida ocidentais se não promover uma reforma radical.

Certamente, no contexto de uma definição ampla de capitalismo, o Estado pode ser maior ou menor; pode intervir mais ou planejar menos. Essas alternativas de política econômica estão em discussão em muitos países asiáticos. No fim das contas, porém, a maioria está convencida pelo capitalismo – e, na ausência de algo melhor, aqueles que querem elevar a renda de seu povo terão de praticá-lo em alguma forma.

“Se você olhar a China, verá que o país mostra efetivamente o poder do capitalismo, o poder dos mecanismos e incentivos de mercado”, diz Rhee. “Alguns elementos do capitalismo são evidentemente necessários.” (Tradução de Sergio Blum)

05/01/2012 - 09:42h Chineses crescem em todas as áreas do setor de energia no Brasil

Por Josette Goulart | Valor

De São Paulo

As sucessivas crises econômicas, que desde 2008 levaram os chineses a aproveitar as liquidações de empresas mundo afora, começam a ter reflexo mais robusto na composição acionária das elétricas brasileiras. Os chineses hoje já são sócios indiretos de três grandes distribuidoras de energia no Brasil (Eletropaulo, Bandeirante e Escelsa), que juntas detém 16% do mercado brasileiro de distribuição, e das geradoras da AES Tietê e da EDP, com capacidade de gerar, juntas, mais de quatro mil megawatts (MW) de energia. Além disso, são donos da concessão de mais de seis mil quilômetros de linhas de transmissão e dez subestações.

A investida dos chineses no mercado brasileiro tem sido acompanhada com atenção pelo governo brasileiro. Fontes do alto escalão dizem que um dos mecanismos usados é tentar manter sócios estratégicos em negócios nos quais os chineses tenham participação, usando o BNDESPar, o fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil (Previ) ou mesmo a Eletrobras. Mas essa é uma estratégia limitada. Em transmissão, por exemplo, o governo chinês, por meio da State Grid, é dono de uma empresa no Brasil e tem pretensões de disputar leilões importantes de linhas de transmissão, como a que vai ligar a usina de Belo Monte ao Sudeste do país.

O setor de transmissão é, por enquanto, o que mais tem recebido a atenção do governo, já que é a única área do setor elétrico em que os chineses entraram diretamente no país. Eles desembolsaram R$ 3,5 bilhões para comprar as linhas de transmissão que pertenciam a um grupo de empresas espanholas. O governo chegou a acelerar o pagamento das dívidas que a Plena Transmissoras tinha com o BNDES, elevando o custo da compra em R$ 1 bilhão, mas mesmo assim os chineses bancaram a entrada no país. A alta capitalização dos chineses é o que mais assusta. “Eles colocaram oito bilhões de euros no negócio da EDP”, disse importante fonte do governo. “Nós não temos esse dinheiro para competir”.

A referência é feita em função da disputa recente em que a Eletrobras tentou comprar 21,35% do capital da EDP que estava nas mãos do governo português e perdeu para os chineses. A estatal brasileira fez uma oferta de € 2,5 bilhões, muito próxima dos € 2,7 bilhões oferecidos pelos chineses. O problema é que a China ainda se comprometeu a dar liquidez à companhia e a instalar uma série de fábricas em Portugal, que foi uma proposta imbatível em relação à feita pela estatal brasileira.

A companhia portuguesa tem nos ativos brasileiros um dos principais geradores de caixa. As distribuidoras Bandeirante Energia (SP) e Escelsa (ES), junto com as geradoras do grupo no Brasil, respondem por 20% da capacidade de geração de caixa medida pelo Ebtida (sigla em inglês do lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) da empresa no mundo. O capital é bastante pulverizado e, no curto prazo, os chineses não podem se associar a outros acionistas para deter o controle de fato. Poderão fazê-lo em quatro anos. “Os chineses não têm pressa”, diz uma fonte ligada à Eletrobras. “Mas daqui a pouco eles podem ser acionistas controladores de importantes distribuidoras no Brasil”.

Em distribuição, único negócio em que o governo brasileiro ainda se sente blindado, é o caso da AES. Os fundos soberanos chineses são donos de 15% da companhia nos Estados Unidos, participação adquirida em 2009. Mas no Brasil, onde a AES é dona da Eletropaulo e da Tietê, a empresa é sócia do BNDESPar. De qualquer forma, a entrada dos chineses já atrapalhou os negócios pretendidos pelo governo brasileiro. A ideia era o BNDES se desfazer de sua participação na Eletropaulo em favor da CPFL Energia, que tem a Camargo Corrêa e a Previ como sócias. Mas desde que os chineses capitalizaram a companhia americana, o negócio travou. Além disso, a AES tem reafirmado seu interesse em exercer o direito de preferência caso o BNDES saia da companhia.

17/12/2011 - 11:37h Stiglitz: China moderará los efectos de crisis en Latinoamérica

GESTIÓN

El economista estima que el país asiático mantendrá su apetito por las materias primas.

SANTIAGO (Reuters).- China probablemente estimulará su economía el próximo año y mantendrá su apetito por materias primas, ayudando a proteger a América Latina de la crisis de deuda de Europa, dijo el ganador del premio Nobel de economía, Joseph Stiglitz.

La región no sólo verá recortes en sus exportaciones a Europa, sino también reducción de préstamos de los bancos españoles, que tienen una fuerte presencia en Sudamérica, y cuyas unidades locales podrían verse obligadas a enviar dinero a su país el próximo año si continúan los tiempos difíciles.

“Europa está entrando en una recesión, que va a afectar la demanda. Por lo tanto, el daño a Chile será en su mayoría a través del comercio. Y luego está el canal de financiamiento”, dijo Stiglitz, quien es conocido por su opinión de que los gobiernos deberían gastar en tiempos de crisis.

“Es difícil no ver a los bancos españoles que operan en Chile pasando por una contracción. Y esto requiere un manejo muy cuidadoso de la oferta de crédito”, dijo Stiglitz en una entrevista con Reuters en Santiago.

Situación china
El gobierno chino promete que el crecimiento económico continuará a pesar de un panorama global sombrío.

“Si la economía china necesita estímulo, cuentan con los recursos y la voluntad política para hacerlo. Además, a diferencia de Estados Unidos, no tienen a la mitad del país comprometido con una ideología que dice que la manera de resolver el problema es cortar el gasto”, dijo.

Stiglitz dijo que China puede aumentar los programas públicos de vivienda como parte de sus políticas contracíclicas. Esto podría ayudar a apuntalar la demanda de cobre chileno.

“Si su economía se desacelera, ellos van a gastar para seguir avanzando”, agregó.

Chile y sus vecinos “casi seguro” quedarán atrapados en la crisis mundial del próximo año, empujando a las autoridades a liberar liquidez, dijo Stiglitz.

Brasil, en tanto, tiene mucho espacio para recortar su tasa clave de interés y apoyar a su economía frente a la debilidad global, dijo el viernes su presidenta, Dilma Rousseff.

“Va a ser un momento muy precario para la economía global”, dijo Stiglitz.

15/12/2011 - 10:03h Rumo da China determina o destino das commodities

Por Liam Pleven | The Wall Street Journal – VALOR

Você quer saber para onde os mercados de commodities irão nos próximos anos? Então, é melhor que você tenha em mente uma palavra: China.

Como a maior e uma das economias que mais crescem entre as emergentes, a China se tornou uma voraz consumidora de commodities industriais e agrícolas. As mudanças em sua demanda são hoje o principal motor dos preços de vários produtos. Os produtores costumam tomar decisões sobre grandes investimentos com base na expectativa da demanda da China por seus produtos. Investidores fazem cálculos semelhantes para vender ou comprar contratos de commodities ou relacionados a elas.

É por isso que nenhum outro fator, provavelmente, terá um impacto mais abrangente sobre o mercado de commodities nos próximos anos que as transformações da economia chinesa, conforme a evolução econômica do país. “Essa é a grande questão”, diz Richard Adkerson, diretor-presidente da Freeport-McMoRan Cooper & Gold Inc.

Se o consumo chinês de commodities continuar crescendo no ritmo dos últimos dez anos, isto é o que o mundo deveria fazer para atender à demanda em 2020 (considerando que o apetite coletivo global não mudasse em nada):

- Extrair adicionalmente quase o mesmo volume de petróleo ofertado atualmente pela Arábia Saudita;

- Produzir três vezes o volume de soja que hoje sai do Estado americano de Iowa, que sozinho é responsável por 5% da produção mundial;

- Retirar das minas quase três vezes mais a produção anual de cobre do Chile, que já produz cerca de quatro vezes mais que qualquer outro país.

E isso seria só para começar. Grandes quantidades de suprimento seriam necessárias também para várias commodities.

Os preços que dispararam para valores recordes nos últimos anos, puxados pela demanda chinesa, poderiam voar até mais alto. Seria uma boa notícia para empresas que produzem essas commodities e para os investidores que apostaram nelas – a menos que os preços altos, abruptamente reprimam a demanda ou estimulem os chineses e outros consumidores de commodities a buscarem produtos alternativos.

Produtos que têm estoques apertados ou risco de restrições, como é o caso do petróleo, do cobre e do paládio, poderiam se tornar vulneráveis a fortes altas.

Muitos analistas consideram o cenário de forte expansão como improvável. O consenso é que a China está caminhando para um crescimento econômico mais lento que o visto entre 2001 e 2010, quando a taxa anual de expansão variou entre 8,3% a 14,2% e alcançou dois dígitos em seis ocasiões, de acordo com o Banco Mundial. Se o consenso estiver correto, a questão é em quanto o crescimento da China vai cair.

Uma taxa de crescimento de 4% a 6% seria de ótimo tamanho para o Brasil e outras economias. Mas não para a China. Essa é a faixa de expansão projetada para a economia chinesa para ao redor de 2013 ou 2014 pela Roubini Global Economics LLC, empresa de consultoria e pesquisa sediada em Nova York. Shelley Goldberg, diretora de estratégia global para commodities e recursos naturais, considera isso uma “freada brusca”, ou “hard landing”, depois de uma expansão bem mais veloz na década passada. “Obviamente, não é um bom presságio para as commodities”, diz Goldberg.

A demanda por aço, cobre e outros metais industriais poderia encolher bastante se a China, de fato, estagnar, já que esses materias são muito na construção civil – que estaria em risco, no caso de um desaquecimento do mercado imobiliário chinês. A China normalmente responde por cerca de 40% da demanda global por esses materiais. A demanda de carvão também poderia despencar, diz ela, porque ele é muito utilizado na China para gerar energia.

Algumas commodities poderiam sofrer não porque a China as utiliza mais que qualquer um, mas porque o país tem sido o grande responsável pelo crescimento de seus mercados. Por exemplo, embora a China responda por apenas cerca de 11% da demanda global de petróleo, de acordo com o Barclays Capital, o país é responsável por 60% do crescimento dessa demanda.

Da mesma forma, uma freada brusca poderia ser mais danosa para o mercado de soja que o de milho porque a China é um grande importador de soja, mas produz quase todo o milho que consome, diz Kevin Norrish, diretor-gerente da área de pesquisa de commodities do Barclays Capital.

A China já se tornou o principal destino das exportações brasileiras, e a soja é a segunda maior exportação para o país, atrás de minério de ferro, segundo o Ministério do Desenvolvimento.

Para muitos observadores da China, incluindo o Barclays, o mais provável é um cenário em que a economia continue se expandindo fortemente, mas num ritmo menos acelerado. Isso se traduziria em uma contínua pressão de alta para os preços da maioria das commodities, com algumas subindo bastante, mas na maioria dos casos não atingindo a disparada que seria provocada por uma economia ardente.

“Nós ainda vemos uma série de razões pelas quais o crescimento deve continuar, mas com o tempo a taxa de expansão vai se desacelerar”, diz Jim Lennon, analista especializado no mercado chinês de commodities, do Macquarie Group Ltd, uma das principais referências para os produtores de commodities.

Mesmo em um momento mais lento, mas estável, a demanda – e os preços – de algumas commodities podem dar saltos. Por exemplo, a China usa menos gás natural per capita que muitos outros países, diz Neil Beveridge, um analista sênior do banco de investimento Sanford C. Bernstein, em Hong Kong. Isso vai mudar, diz ele, à medida que mais pessoas usarem o combustível para aquecer ou refrescar suas casas e volumes maiores sejam consumidos pela indústria.

Ao mesmo tempo, a demanda por algumas commodities agrícolas deve crescer, mas pode diminuir por outras, diz Scott Rozelle, professor da Universidade de Stanford, que estuda agricultura chinesa.

Afinal, a China é um mercado tão grande que qualquer aumento em consumo – mesmo uma expansão econômica lenta, mas estável – cria um grande volume de demanda fresca e proporcionalmente estimula dos preços. Como diz Goldberg: “Eles ainda são 1,3 bilhão de pessoas”.

13/12/2011 - 08:21h Crise nos países ricos contagia as principais economias emergentes

Por Assis Moreira e Alex Ribeiro | VALOR

De Genebra e Washington

A forte queda na produção industrial da Índia, divulgada ontem, após dados similares relativos a Brasil e China, confirma que as principais economias emergentes estão em desaceleração, contagiadas pela crise nos países ricos.

A produção industrial da Índia caiu 5,1% em outubro, comparado ao mesmo mês de 2010, na primeira contração observada em mais de dois anos. Ainda ontem, o México divulgou que sua produção industrial caiu 0,54% em outubro, em relação a setembro, apesar de ainda manter alta de 3,3% nos últimos 12 meses.

Na semana passada, o IBGE divulgou números que mostram que a economia brasileira ficou estagnada no terceiro trimestre, comparado com o período imediatamente anterior, numa forte desaceleração em relação ao crescimento de 7,5% observado em 2010. O indice de atividade industrial da China caiu para 49 em novembro, ante 50,4 em outubro, o que já indica contração do setor, no pior resultado desde o início de 2009. No sábado, a China relatou ainda uma forte queda de seu superávit comercial em novembro, de US$ 17 bilhões para US$ 14,5 bilhões.

“A situação [dos emergentes] tende a piorar, porque a crise é na Europa, EUA e Japão, e os três juntos perfazem 70% da produção mundial”, afirmou o economista-chefe da Agência da ONU para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), Heiner Flassbeck.

“Os emergentes estão longe de serem imunes à crise da zona do euro, especialmente nas manufaturas”, disse Chris Williamson, economista-chefe da consultoria britânica Markit, especializada em monitorar a atividade industrial globalmente. As exportações de bens estão sob pressão por causa da demanda em baixa, principalmente dos países mais endividados da Europa, que agora aplicam novas medidas de austeridade.

Essa desaceleração já começa a repercutir nas projeções para os países emergentes. A empresa de avaliação de risco de crédito Fitch Ratings reduziu em 0,4 ponto percentual, para 6,3%, a sua projeção para o crescimento dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) em 2012. Para 2011, a projeção é expansão de 6,7%, abaixo dos 8,4% observados no ano passado.

Coletivamente, o crescimento econômico dos emergentes desacelerou para cerca de 6% em novembro, bem abaixo dos dois dígitos do começo do ano. Antes da recessão, esse crescimento fraco dos emergentes não ocorria desde metade de 2003. A desaceleração tem sido evidente no Brasil, na China e na Índia, mas também em economias como Coreia do Sul e Taiwan.

A perda de dinamismo nas economias emergentes se deve, de um lado, ao contágio da crise da Europa, que tornou investidores mais avessos a riscos. Também é resultado, de outro lado, de políticas monetária e macroprudenciais mais restritivas postas em prática por alguns países, como Brasil, Índia e China, para conter pressões inflacionárias e combater o surgimento de bolhas nos seus mercados.

“É a cada dia menor o número de economias emergentes que mostram alguma resistência”, afirma o estrategista-chefe para mercados emergentes do banco Societe Generale, Benoit Anne.

Uma rara exceção positiva é a Turquia, que divulgou ontem uma expansão de 8,4% no terceiro trimestre (leia texto abaixo).

O temor sobre o impacto de menor crescimento no mundo desenvolvido sobre os emergentes se intensificou em agosto, e só aumentou desde então. Com a expansão nos ricos próxima de 1% no momento, e pouco espaço de melhora para o ano que vem, o crescimento dos emergentes “inevitavelmente será contido por algum tempo”, disse Williamson.

A expectativa nos mercados é de que mais bancos centrais nos emergentes vão baixar os juros para promover o crescimento, como já vem fazendo o Brasil. É o que se espera na India, onde a manutenção do aperto monetário, devido à inflação em alta, claramente afetou a atividade industrial na terceira maior economia da Asia.

“A produção industrial na China também vem caindo, especialmente na indústria pesada, que precisa de muita energia”, diz Qinwei Wang, da Capital Economics, de Londres. A produção chinesa cresceu 12,4%, abaixo do 13,2% anterior e o mais baixo nivel desde meados de 2009. Isso ocorreu por duas razões: queda nas exportações e na construção civil.

“A queda de novembro na inflação, produção industrial e nos investimentos fez o governo chinês falar de politica monetária prudente, mas que na prática já vem sendo flexibilizada”, diz o analista.

Para Flassbeck, da Unctad, os emergentes vão ser mais afetados à medida que as três grandes economias – Europa, EUA e Japão – estão quase em recessão. Os resultados nos EUA foram menos ruins no terceiro trimestre porque os consumidores começaram a usar a poupança. No Japão, o consenso é de que os estímulos para recuperação do desastre do tsunami já estão se esgotando. E na Europa, a cúpula na semana passada acertou mais cortes de gastos, o que “piora a situação” para os emergentes.

O Instituto Internacional de Finanças (IIF) continua a projetar sólido crescimento na demanda doméstica nos emergentes em 2012-13. Muito desse vigor representa “um processo de longo prazo de convergência economica”. Os emergentes estão num processo de crescimento da classe média.

Países têm margem para estímulo

Por De Washington

Os países emergentes, com a exceção da Índia, ainda têm bastante munição para estimular as suas economias no caso de uma desaceleração mais prolongada. Mas seu crescimento, daqui por diante, será bastante dependente da duração e da intensidade da crise na Europa.

“A China é o país que tem mais espaço para adotar medidas de estímulo à sua economia”, afirma o estrategista-chefe para mercado emergentes do banco Societe Generale, Benoit Anne. “O Brasil também tem bastante margem de manobra para cortar juros.”

Essa é uma diferença crucial, afirma ele, em relação à situação de economias avançadas, como Europa, Estados Unidos e Japão, que já estão com taxas de juros próximas de zero e já não têm mais espaço para adotar medidas fiscais de estímulo às suas economias.

O forte poder de reação dos emergentes, porém, não significa que essas economias estão imunes ao que acontece na Europa. Seu crescimento será prejudicado enquanto se prolongarem as incertezas no Velho Continente, diz Anne.

O Brasil e a China promoveram um ciclo de aperto monetário no último ano para combater o superaquecimento de suas economias, a aceleração inflacionária e a criação de desequilíbrios em seus mercados financeiros. No caso do Brasil, houve alta de juros e o uso de instrumentos macroprudenciais, como limites à expansão da carteira de crédito dos bancos. Na China, foram impostos limites quantitativos á expansão de crédito.

A desaceleração nas economias emergentes é apenas cíclica, o que significa que elas tem grande potencial para voltar a crescer assim que o pior da crise passar, atraindo investimentos estrangeiros. “O desempenho dos países emergentes continuará a ser superior ao das economias avançadas”, afirma Anne. “Esse fato não muda nos próximos anos.”

Entre os Bric, a India é a que tem menos espaço para medidas de estímulo. O dado negativo divulgado ontem foi acompanhado da desvalorização do câmbio, reforçando uma tendência de fuga de capitais de longo prazo que vinha ocorrendo já há algum tempo. “Há um movimento de aversão de risco na Índia”, afirma Anne. As pressões inflacionárias que atingem a India, reforçadas pela desvalorização cambial, diminuem o espaço para o corte de juros. (Alex Ribeiro)

Atividade nos países ricos segue caindo, diz a OCDE

Por Agências internacionais

As maiores economias do mundo continuam se desacelerando, mas a taxas diferentes, disse ontem a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). O índice de indicadores econômicos antecedentes do bloco formado por 34 países recuou de 100,4 em setembro para 100,1 em outubro.

Esse foi o oitavo declínio mensal consecutivo, indicando que o arrefecimento da atividade apresentado pelos países desenvolvidos desde o terceiro trimestre do ano passado deverá continuar.

A OCDE disse, no entanto, que há sinais de que algumas economias não terão um desempenho tão ruim quanto outras. Na avaliação da entidade, Brasil (que não faz parte do bloco), França, Alemanha, Índia, Itália, Reino Unido e a zona do euro como um todo deverão apresentar resultados mais fracos do que a tendência de longo prazo, enquanto a atividade no Japão e na Rússia deverá permanecer acima dessa tendência.

“Os indicadores antecedentes do Canadá, China e EUA continuam apontando para desacelerações da atividade econômica em torno das tendências de longo prazo, mas apenas com declínios marginais em comparação com o mês anterior”, disse a OCDE.

Também ontem, o banco Standard Chartered divulgou uma previsão pessimista sobre as economias do Reino Unido e da zona do euro. Economistas da instituição afirmaram que o PIB na região deve se contrair mais do que o esperado no ano que vem.

Para a zona do euro, a estimativa do banco é de uma retração de 1,5% do PIB em 2012. O banco previu que a economia britânica encolherá 1,3% no ano que vem, contra estimativa anterior de 0,6%.

Segundo a instituição, o agravamento da crise em economias desenvolvidas, sobretudo na zona do euro, levou a uma revisão de suas estimativas.

A estimativa do banco é mais pessimista do que a da maioria dos analistas. O governo britânico havia previsto uma contração de 0,9% do PIB em 2012. Em novembro, o Tesouro do país divulgou um levantamento com previsões para a economia no ano que vem, e o índice variou entre uma queda de 0,4% e alta de 2,3%.

O Standard Chartered previu um “triplo choque” na economia europeia, que incluirá queda de investimentos e gastos de consumidores, aperto no crédito e restrições orçamentárias no continente.

21/10/2011 - 09:12h Ásia ganha força nos planos das múltis brasileiras


Mais da metade das empresas que planejam aquisições em outros países nos próximos anos estudam países como China e Índia

21 de outubro de 2011

MARINA GAZZONI – O Estado de S.Paulo

A China e a Índia ganham força como rotas de expansão das multinacionais brasileiras. É o que aponta uma pesquisa feita pelas consultorias Marsh e Mercer com 30 grandes empresas do País que fizeram aquisições internacionais nos últimos três anos. Metade delas planeja comprar ativos no exterior em dois anos. E os países emergentes asiáticos estão no alvo de 53% dessas companhias.

A procura de ativos na Ásia é um movimento relativamente novo entre as multinacionais brasileiras. As grandes companhias fizeram 16 aquisições internacionais neste ano, uma soma que chega a US$ 3,6 bilhões, segundo dados da consultoria Mergermarket. Mas nenhuma delas foi na Ásia.

A Totvs, líder brasileira no setor de softwares, é uma das companhias que estuda aquisições na China, entre outros mercados emergentes, de acordo com o presidente da empresa, Laercio Cosentino. “Não vale a pena fazer aquisições em mercados maduros, como os Estados Unidos, onde o setor de softwares cresce 2,5% ao ano. Nos emergentes, podemos crescer em um ritmo de 20%”, diz.

A fabricante de motores Weg saiu na frente e comprou uma companhia chinesa em 2004. “Além de adquirimos uma carteira local de clientes, ganhamos muitos clientes globais que já haviam instalado suas fábricas no país”, afirmou o diretor-superintendente da Weg Motores, Siegfried Kreutzfeld.

As multinacionais brasileiras seguem uma tendência global de busca de ativos em países emergentes. O grande poder de atratividade dessas economias é o potencial de expansão dos negócios, a competitividade global e os custos reduzidos, de acordo com o diretor de fusões e aquisições da Marsh, Paulo Baptista.

As aquisições na América Latina ainda lideram os planos de internacionalização das empresas, com 73% das intenções de compra. Neste ano, metade das companhias estrangeiras adquiridas está na região. “É a continuidade de um movimento que já vem acontecendo. Os latino-americanos são próximos ao Brasil e também têm características de economias emergentes”, afirma a diretora da Mercer no segmento de fusões, Luiza Barguil.

A internacionalização do Itaú Unibanco passou por um processo de aquisições de ativos na América Latina e deve continuar com esse foco, afirmou o vice-presidente executivo do banco, Alfredo Setúbal. “É onde a nossa marca é mais conhecida”, diz. O Itaú comprou a operação do Bank Boston no Chile e no Uruguai em 2007. Ele também atua como banco de varejo na Argentina e no Paraguai.

Cultura. Para ganhar mercado no exterior, o Itaú optou por manter executivos locais à frente da operação e respeitar as características regionais de produtos e serviços. “No Brasil, percebemos que os bancos estrangeiros trazem produtos com nomes impronunciáveis e que não têm nada a ver com a realidade do País. Achamos isso errado e não queremos repetir esse erro no exterior”, diz Setúbal.

Para operar no mercado asiático, os desafios culturais são maiores e começam pela comunicação no ambiente corporativo. “Os chineses jamais dizem ‘não’ explicitamente. E aquilo que parece um ’sim’ pode ser apenas um ‘talvez’”, diz o diretor-superintendente da Weg Motores.

20/10/2011 - 09:49h Brasil depende muito da China

20 de outubro de 2011

ALBERTO TAMER – O Estado de S.Paulo

A China vacila, mas não tropeça. Cresceu menos no terceiro trimestre, mas respeitáveis 9,1% sobre 2010. No segundo, cresceu 9,5%. É sinal de que está desacelerando gradualmente, o que afasta, por enquanto, o risco de uma aterrissagem brusca, como aconteceu em 2007, quando o PIB ficou abaixo de 7%. Pode fechar o ano em 9% ou talvez um pouco menos. Não é grave porque o governo manteve a política de estimular a demanda interna, que representa 40% do PIB e conter a inflação por meio de subsídios ao setor que mais pesa nos preços – alimentos. Ela se mantém em 6,2%, com sinais de leve recuo. Pode aumentar, mas a China tem ainda a arma do câmbio. O yuan valorizado pode ser usado para reduzir o custo dos produtos importados e, principalmente, dos alimentos. Com isso, evita tensões sociais mais graves. Ou importá-los absorvendo a diferença. Tem recursos para isso. O cenário atual não tranquiliza, mas alivia o clima de recessão na economia mundial com países importantes crescendo 1,5%.

Importa. Esse resultado da China é vital para a economia mundial, pois ela importa anualmente cerca de US$ 1,5 trilhão. Só se equipara com os Estados Unidos, que representam quase 50% do mercado mundial. Tem superávit comercial de US$ 172 bilhões nos últimos 12 meses, a maior parte com os Estados Unidos. No último trimestre, as exportações aumentaram 17,1% e as importações 20,9%.

Essa tendência deve se acentuar por causa do novo modelo chinês voltado para a expansão do mercado interno no qual há pelo menos 500 milhões de pessoas que consomem pouco. Esse modelo começa a dar resultado. As vendas no varejo em setembro cresceram 17% ante agosto e a produção industrial, que havia recuado, cresceu 13,5%. “Esses resultados são surpreendentes e reforçam a visão de que o crescimento da China é cada vez mais guiado pela demanda domestica”, afirma Zhwei Zhang, economista do Nomura.

Bom para eles. E melhor para nós. Mesmo que a economia recue, a demanda interna deverá aumentar.

Os chineses vão continuar comprando e comendo mais. Aqui entra o Brasil. As exportações de soja triturada para a China aumentaram 38,4% até setembro; óleo de soja, 78%; carne de frango, 111%. A China lidera as exportações brasileiras e está no segundo lugar entre os importadores. É hoje o maior parceiro, com um comércio bilateral aumentando quase 40%.

O que não tem sido destacado é a crescente dependência da China. Uma “dependência passiva”, de acordo com análise recente do banco Nomura, em Nova York: “Vemos a dependência se aprofundar. Para o melhor ou pior, o futuro econômico do Brasil será mais e mais em função das decisões tomadas em Pequim.”

Mais e mais o Brasil está deixando de exportar para outros países para agarrar-se ao barco chinês que continua navegando, mas meio à deriva no que diz respeito ao comércio bilateral, com os produtos básicos dominando as exportações.

Estamos mudando para a China a dependência que antes tínhamos com os Estados Unidos, que chegou a ser de 26%. A nossa com a China se aproxima de 20%. Só que, nesse caso, é mais danosa pela primarização da pauta comercial. Para outros economistas, a dependência é “relativa” e existe só no setor de commodities, diz Welber Barral. Não é tão grave. No mais, estamos bem com eles. Só que quase todas as exportações para a China estão concentradas nesses produtos. Portanto, ela existe, sim. E vai agravar-se nos próximos meses, porque o comércio mundial se retrai.

Tudo bem, por enquanto. E ficamos à mercê do que acontecer na China. Felizmente, por enquanto, o que está acontecendo nos ajuda em parte. O governo chinês reafirmou esta semana que vai manter o crescimento interno, mesmo tendo adotado medidas de restrição de credito. Ele quer que a participação do mercado interno no PIB passe dos atuais 40% para 60%. Isso pode trazer mais inflação – o governo está conseguindo conter com subsídios oferecendo o consumo de alimentos

Esse cenário pode trazer mais tranquilidade ao Brasil, mas não reduz o delicado risco de dependência. Na verdade, não há apenas uma, mas uma dupla dependência: da China e dos preços das matérias-primas que, por sua vez, não devem aumentar – podem até recuar – tendo em vista que a economia mundial não vai crescer nos próximos meses.

E isso mesmo que se resolva a crise europeia no curto prazo. Eles podem até encontrar uma solução na reunião de domingo, mas isso não deverá tirar a União Europeia do caminho da recessão prevista por muitos economistas para este trimestre. Depois de 18 meses de discussão sobre como superar a crise financeira na Eurozona, eles iniciaram outra: o que vamos fazer para voltar a crescer. Mais 18 meses? Política fiscal ou monetária? Incentivar o consumo ou cortar o crédito e conter a demanda por causa da inflação? Mais um ano e meio de discussão?

06/10/2011 - 11:19h Commodities em baixa podem ser ameaça a oásis sul-americano

Por John Paul Rathbone | Financial Times | VALOR

Todos os dias Luis Castilla, o ministro da Fazenda do Peru, diz que acende uma vela e “reza para a China não entrar em colapso”. Suas orações são repetidas por muitos numa região que é um dos poucos oásis da economia mundial.

As economias sul-americanas, ricas em commodities, cresceram 5% no primeiro semestre deste ano. No ano passado, a região foi propulsora da economia mundial, acrescentando 0,5 ponto percentual à produção global. Mas a desaceleração da demanda asiática e a queda dos preços das commodities fizeram surgir o espectro de que a América do Sul, após ter ficado, em grande medida, a salvo da grande recessão de 2008-09, poderá não ter tanta sorte desta vez.

Uma recessão “trará mais danos do que da última vez, já que não haverá os mesmos efeitos positivos decorrentes [do crescimento] da China e da Índia”, disse Sebastian Edwards, ex-economista-chefe do Banco Mundial para a América Latina. Essa recessão “será mais mundial, e, portanto, nos afetará mais.”

Induzidos pelo sombrio cenário americano e europeu, os mercados logo embutiram essa possibilidade nos preços. O cobre, que sustenta as exportações do Chile e do Peru, respectivamente o maior e o segundo maior produtor mundial, caiu 27% este ano, para US$ 6.990 a tonelada, valor inferior à sua média dos últimos cinco anos. A soja, que responde por 25% das exportações da Argentina, recuou 11%.

Já o petróleo, responsável por 90% das exportações da Venezuela, se manteve relativamente bem. Mas, a US$ 100 o barril, o preço do de tipo Brent está 20% inferior ao pico deste ano e apenas US$ 17 acima da média dos últimos cinco anos. Novos recuos restringirão a capacidade do presidente do país, Hugo Chávez, de elevar os gastos antes das eleições de 2012.

No entanto, a apertada oferta de commodities faz com que a maioria preveja só um breve declínio dos preços, e não um colapso. “Num cenário de 12 meses a dois anos, a perspectiva é muito boa”, diz Catherine Raw, gerente de carteira de recursos naturais da administradora de fundos BlackRock.

Mas, se a queda do preço das commodities se revelar mais longa, haverá três consequências principais, segundo os analistas.

A receita de impostos cairá e os investimentos em projetos de mineração serão adiados ou até cancelados. Só o Peru espera mais de US$ 40 bilhões em investimentos na mineração nos próximos anos.

“Estou certo de que [a queda dos preços] afetará a decisão da implementar projetos que… pareciam bem interessantes com os preços altos”, diz Diego Hernández, principal executivo da estatal chilena de cobre Codelco. “Agora haverá uma atitude mais cautelosa.”

Em segundo lugar, os déficits em conta corrente vão aumentar. Num cenário extremo (a queda dos preços das commodities para os baixíssimos patamares a que recuaram no início de 2009), Brasil, Chile, Colômbia e Peru teriam déficit em conta corrente de mais de 5% do PIB, segundo previsão da consultoria Capital Economics.

Em terceiro lugar, a queda dos fluxos de capital ligados às commodities pressionará a taxa de câmbio para baixo. Isso poderá ajudar os exportadores brasileiros e mexicanos de manufaturados, mas comprometerá o poder de compra local e desacelerará o boom do crédito ao consumidor, fatores impulsionaram o surto de crescimento da economia latino-americana, que já dura dez anos.

“Infelizmente, o crédito ao consumidor e a valorização das moedas são os principais propulsores da arrancada do consumo”, afirmou Walter Molano, economista de mercados emergentes da BCP Securities. “Isso significa que ela é vulnerável às mudanças nas condições externas.”

Para enfrentar uma desaceleração interna, as economias mais bem-administradas da região ainda contam com armas poderosas. As taxas de juros têm muito espaço para cortes, os níveis de endividamento soberano continuam baixos e as reservas cambiais, altas.

Em contrapartida, os países contam com menos munição fiscal do que alguns anos atrás.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) advertiu esta semana que os gastos públicos continuaram a aumentar, especialmente na Argentina e na Venezuela. Nos outros países, boa parte da região está computando déficits públicos estruturais depois de lançar poderosos pacotes de incentivo, em 2009.

Ninguém, portanto, está prevendo tempos apocalípticos para uma região que, sob muitos aspectos, está em melhor situação macroeconômica que o mundo desenvolvido. Os sistemas bancários estão saudáveis, apesar de muitos deles serem controlados por capital externo. As contas fiscais estão sólidas. E a inflação, baixa.

Mas uma queda prolongada das commodities porá de fato à prova, pela primeira vez, o que quase se tornou a nova ortodoxia econômica da região. (Colaboraram Javier Blas e Jack Farchy)

28/09/2011 - 11:28h Empreiteiras da China planejam entrada no mercado brasileiro

VALOR

De Genebra

Depois de décadas de forte crescimento das operações na Ásia e na África, empresas de construção da China agora estão de olho no mercado brasileiro, e do resto da América Latina, para expandir os negócios. Chunhe Diao, presidente da China International Contractors Association (Cica), que reúne empresas do setor com contratos de US$ 134 bilhões no exterior em 2010, disse ontem que várias empresas chinesas examinam operações de fusão ou aquisição no Brasil, visando especialmente projetos de infraestrutura.

“O Brasil é um dos mercados que vamos explorar para crescer, e temos interesse também em construção de usinas, estradas e petróleo”, afirmou o executivo ontem em Genebra. Ele participou de um seminário focado na estratégia internacional chinesa e avisou que os investimentos chineses no exterior “estão apenas no começo”.

Nada menos de 800 empresas sócias da Cica participam de projetos internacionais, apoiadas pelo crédito barato que Pequim fornece para ganharem licitações. Os contratos externos das empreiteiras chinesas passaram de US$ 2,5 bilhões em 1990 para US$ 134,4 bilhões no ano passado e provavelmente US$ 150 bilhões este ano.

O plano chinês procura combinar comércio e investimentos. Diao afirmou que a China tem excesso de produção de aço, cimento e outros produtos, sugerindo indiretamente que quer ter mais companhias operando no exterior pode ajudar a escoar esse excesso.

No Brasil, um dos projetos que interessa aos chineses é o do trem-bala, estimado em R$ 33 bilhões, para o qual Pequim está disposto a entrar com financiamento.

Qitao Liu, presidente da China Communications Construction Company, confirmou que a empresa continua interessada em participar do leilão do trem-bala. Em relação ao financiamento da obra,, disse que isso estava sendo tratado “no mais alto nível”, indicando que a participação poderia vir de decisão política.

O China ExIm Bank financia, por exemplo, 85% da construção de ponte sobre o rio Danúbio, na Sérvia. Dois terços da construção de um cassino nas Bahamas, também nas mãos de construtoras chinesas, são financiados por Pequim.

Para Changgi Wu, professor da Universidade de Pequim, o interesse da China pelo Brasil “é enorme”. Conta que, no ano passado, acompanhou alunos empresários ao Rio, todos interessados no país. Segundo ele, um empresário, que foi seu aluno, produz pisos de madeira no Brasil e está ficando cada vez mais rico. “Ele agora comprou terreno na floresta”, disse.

Os investimentos diretos estrangeiros (IDE) da China pularam de US$ 1 bilhão em 2000 para mais de US$ 60 bilhões no ano passado. Cerca de 70% foram na Ásia, outra fatia importante na África. O plano estratégico de Pequim prevê aquisições e fusões no exterior de pelo menos US$ 100 bilhões por ano, nos próximos cinco anos. É uma maneira de usar as reservas internacionais, de US$ 3,2 trilhões, e que podem duplicar até 2013.

Empresas como China National Machinery e China Railway Construction também participaram do seminário em Genebra, todas interessadas em expansão nos mercados emergentes. A mensagem principal dos chineses, trazida pelo vice-ministro de Comércio, Jian Chen, foi para os governos deixarem Pequim investir e não levantarem barreiras, sob o pretexto de segurança nacional.

Na Europa em crise, o primeiro contrato de uma gigante chinesa da construção na Europa terminou em fiasco. A empreiteira Covec está bem implantada na Ásia, tem operações na África, mas faltava a Europa. Ganhou licitação para a construção de uma estrada ligando a fronteira alemã a Varsóvia, para a Eurocopa de 2012.

A proposta chinesa era imbatível, bem mais barata que o previsto pelo governo polonês. Empresários poloneses reagiram, denunciando dumping e, na prática, um preço político, para que a Covec entrasse no mercado europeu. O grupo chinês disse que o preço era baixo em razão dos métodos de trabalho. Só que, depois de iniciar a obra, viu que não daria conta da tarefa. Quis renegociar o contrato, o que foi rejeitado pelo governo polonês, e teve que voltar para Pequim.” (AM)

23/09/2011 - 11:06h Indústria chinesa recua e analistas já reduzem suas previsões para PIB

Por Assis Moreira | VALOR

De Genebra

A China não ajudou ontem a diminuir o pessimismo nos mercados globais. O Índice de Gerente de Compras (PMI) chinês mostrou, de um lado, que a atividade no setor industrial na segunda maior economia mundial parece ter parado de se deteriorar. Mas também mostrou que são poucas as chances de retomada significativa.

A economia da China é considerada hoje menos forte do que antes da crise global de 2008 e não será capaz de ignorar os problemas globais nem compensá-los completamente. Depois de terem rebaixado as expectativas para a Europa e os EUA, agora certos analistas projetam crescimento econômico chinês para 8,5% no ano que vem, comparado a 9% antes.

Uma desaceleração maior é considerada plausível, dependendo de como as economias desenvolvidas vão reagir à deterioração global. A expectativa é que Pequim adote mais estímulos e o crescimento de 8,5% em 2012 não deve ser uma grande preocupação.

No entanto, as chances de maior desaceleração nos próximos anos são maiores do que a maioria pensa, segundo Qinwei Wang, analista da Capital Economics, de Londres. Para 2013, projeções apontam para consenso em torno de 7,5%.

O índice PMI da indústria ficou abaixo de 50 (foi 49,4) pelo terceiro mês consecutivo, nível só registrado durante a crise financeira global, levando em conta dados desde 2004. Qualquer leitura abaixo de 50 indica contração do setor.

Metade da queda foi atribuída à menor produção causada por escassez recente de energia. Mas o fato de que o volume de novas encomendas de produtos chineses não piorou e que estão mesmo ligeiramente mais altas do que em junho deram um certo alívio.

O PMI é ligeiramente melhor do que foi em julho, confirmando análises de que o crescimento está mais do lado da estabilização do que de declínio – e, portanto, que a aterrissagem pode ser mesmo suave e não brusca. O Credit Suisse agora calcula crescimento de 8,6% para este ano, ligeiramente menos do que previamente estimado.

O crescimento das exportações e importações chinesas diminuiu nos últimos meses. Além das encomendas de exportações não serem fortes como antes, as importações para processamento e reexportação sugerem que não há expectativa de forte alta na demanda.

Mas analistas do banco Barclays acreditam que, mesmo com esse menor crescimento, as importações de commodities pela China continuarão em ritmo sustentável. Avaliam que indústrias chinesas utilizaram muito seus estoques de commodities, como soja, açúcar, cobre e petróleo. Agora, mesmo com menor expansão econômica, vão manter um certo ritmo na demanda.

A fragilidade da economia mundial está levando à redução de projeções de crescimento do resto da Ásia emergente. A situação regional é boa, os consumidores não estão endividados como os dos países desenvolvidos, o sistema bancário é relativamente sólido. A maior fraqueza de vários países, porém, é a exposição ao comércio global.

Para 2012, novas projeções de crescimento, feitas por analistas, apontam na Malásia redução de 6,2% para 4,5%. Para a Índia, de 8,3% para 8%. Mas os emergentes asiáticos vão, em todo caso, continuar a ter melhor desempenho do que a América Latina e Europa do Leste.

31/08/2011 - 09:55h Otimista, China acelera compra de commodity

Por Jack Farchy e Javier Blas | Financial Times de Santiago e Londres – VALOR

Empresas e investidores chineses estão aumentando suas compras de commodities industriais como o cobre, em uma demonstração da confiança na economia global que contrasta com a turbulências nos mercados do Ocidente.

A onda de compras está dando suporte aos preços de metais e minérios, após a queda nas cotações das commodities no último mês – em meio a preocupações com uma recessão. Importantes executivos de tradings, companhias mineradoras e bancos afirmam que os consumidores chineses aproveitaram a recente baixa nos preços para refazer seus estoques.

“A China está muito menos pessimista em comparação às pessoas no Ocidente”, disse Raymond Key, chefe de negócios com metais do Deutsche Bank. “Eles estão fazendo estoque na baixa, especialmente de cobre.”

Segundo um executivo de uma trading chinesa, “não há dúvida de que alguns traders estão comprando [cobre] recentemente”.

O aumento da procura pelo metal beneficia as maiores nações exportadoras, incluindo o Chile e o Peru, e mineradoras com Freeport-McMoRan Copper & Gold, BHP Billiton e Xstrata. Tradings como a Glencore e Trafigura também saem ganhando.

Os preços do cobre atingiram o menor nível em oito meses no início de agosto, caindo a US$ 8.846 por tonelada. Mas recuperaram mais de 9% desde então, e chegaram ontem a US$ 9.225.

A China responde por 38% da demanda mundial pelo produto e tem o poder de levantar o mercado mesmo em momentos de retração dos compradores ocidentais. Apesar disso, traders vêm alertando que os consumidores chineses podem se retirar a qualquer momento do mercado se acharem que os preços cairão ainda mais.

As compras da China revertem a tendência registrada no primeiro semestre deste ano, quando consumidores reduziram suas aquisições de metais. No período, o governo apertou o crédito, o que dificultou as compras e derrubou as importações em 37% nos primeiros sete meses do ano, em comparação a 2010.

A Glencore, maior negociador de commodities do mundo, apontou que os que os estoques no país asiático caíram pelo menos à metade desde o começo do ano.

A demanda chinesa nas últimas semanas tem sido impulsionada por uma alta do iene. Mas traders afirmam que grandes compradores locais têm tido mais acesso a crédito, o que ainda não ocorre com os pequenos.

29/08/2011 - 07:51h Crescimento chinês dá sinais de esgotamento

Desenvolvimento do país é baseado no excessivo volume de investimentos, que alimenta a inflação, por isso, especialistas preveem forte turbulência
29 de agosto de 2011

Cláudia Trevisan – O Estado de S.Paulo

CORRESPONDENTE / PEQUIM

A China pode conseguir um “pouso suave” no curto prazo, mas é cada vez maior o número de economistas e instituições que veem um cenário turbulento para o país em um futuro não muito distante, fruto do esgotamento do modelo de crescimento baseado no excesso de investimentos, que alimenta a inflação e empurra o endividamento a patamares insustentáveis.

O desequilíbrio crônico da economia chinesa se acentuou em 2009 e 2010, quando os bancos financiaram um boom de investimentos com empréstimos recordes de US$ 2,7 trilhões, valor que supera o PIB brasileiro. Muitos desses recursos foram destinados a projetos sem viabilidade econômica, que não vão gerar caixa para o pagamento do crédito.

Segundo a agência de classificação de risco Fitch, a explosão de financiamento dos últimos dois anos superou a registrada no Japão antes do colapso das bolhas de imóveis e ações no anos 90 e pode elevar o porcentual de créditos podres do sistema financeiro a 30% – hoje, ele ronda os 7%. “Esse não é um modelo de crescimento sustentável, porque é movido a esteroides”, afirma o americano Patrick Chovanec, professor da Universidade Tsinghua, em Pequim. “É inevitável uma correção e quanto mais tempo ela demorar, pior.”

O grupo The Conference Board previu que a China vai desacelerar de forma “significativa” dentro de dois a três anos, em razão de medidas “drásticas” que Pequim terá de adotar para mudar seu modelo de crescimento. Michael Pettis, professor da Universidade de Pequim, prevê redução “dramática” do ritmo de expansão da segunda maior economia do mundo, para um patamar de 3%, mas acredita que os ventos só mudarão depois que a nova geração de líderes chineses assumir o comando do país, em 2013.

Desequilíbrio. Com queda da demanda global, inflação superior a 6% e aumento do endividamento, os dois economistas acreditam que Pequim não conseguirá mais adiar o reequilíbrio de seu modelo de desenvolvimento, o que significa redução na velocidade de expansão dos investimentos e aumento do consumo.

Para o Brasil, a eventual mudança se refletirá na queda das vendas de minério de ferro, principal item da pauta de exportação do país, cujo maior comprador é a China. Em tese, o impacto sobre a balança comercial brasileira poderia ser neutralizado caso houvesse elevação significativa do consumo, que levaria ao aumento da demanda por alimentos, dizem Chovanec e Pettis. Nesse caso, a pauta mudaria, mas as exportações poderiam se manter em patamares elevados.

Mas o professor da Tsinghua acredita que o cenário mais provável é a desaceleração dos investimentos sem elevação correspondente do consumo. Para ele, a inflação é a principal restrição à continuidade do atual modelo, já que a expansão do crédito aumenta a quantidade de dinheiro em circulação e pressiona os preços.

No mês passado, a inflação atingiu 6,5%, o maior patamar em três anos, apesar das medidas de aperto monetário adotadas pelo Banco do Povo da China – desde outubro, houve cinco altas da taxa de juros e nove elevações do depósito compulsório dos bancos. Chovanec não está seguro de que os dirigentes chineses conseguirão esperar até a transição de poder em 2013 para enfrentar o ajuste.

Crucial para o desempenho futuro da economia chinesa, o setor imobiliário pode sofrer uma correção no fim de 2011 ou início de 2012, na avaliação de Stephen Joske, diretor da Economist Intelligence Unit na China.

Segundo ele, os investimentos na construção de imóveis aumentaram em patamar muito superior às vendas nos últimos meses, o que pode provocar excesso de oferta. A resposta dos empreendedores será o adiamento ou suspensão de projetos, o que afetará o nível de investimentos e, por tabela, a demanda pelo minério de ferro brasileiro.

O cenário de curto prazo do Morgan Stanley e do Deutsche Bank piorou, apesar de ambos continuarem a apostar em um pouso suave. Na semana passada, as duas instituições reduziram suas projeções de crescimento. A estimativa para 2012 do Morgan Stanley passou de 9,0% para 8,7%, enquanto a do Deutsche caiu de 8,6% para 8,3%.

25/08/2011 - 09:19h Cresce dependência do Brasil em relação à China, diz banco

Por Assis Moreira e Arícia Martins – VALOR

O Brasil está ajustando “passivamente” sua economia a demandas da China, numa forma crescente de dependência, avalia o banco Nomura, em Nova York, em nota enviada aos clientes. “Vemos a dependência se aprofundar. Para o melhor ou pior, o futuro econômico do Brasil será mais e mais em função de decisões tomadas em Pequim”, estima o banco.

A relação econômica bilateral, avaliam os economistas da instituição, está sendo marcada por uma parceria do tipo Norte-Sul (rico e pobre) entre duas economias em desenvolvimento. O relatório destaca que o Brasil se torna mais dependente das exportações de commodities para o mercado chinês. Ao mesmo tempo, companhias brasileiras estão cada vez mais dependentes de componentes baratos produzidos na China.

O mercado chinês absorveu 15,2% das vendas externas brasileiras em 2010, ante 2% em 2000, segundo estudo divulgado em abril pelo Banco Central. A autoridade monetária ressalta que o saldo comercial da balança voltou a ser “amplamente favorável” ao Brasil a partir de 2009, ano em que o país asiático passou a ser o principal parceiro comercial do Brasil, destronando os EUA. Em 2010, o Brasil exportou US$ 30,8 bilhões à China e importou US$ 25,6 bilhões, o que resultou em superávit de US$ 5,2 bilhões, praticamente igual ao registrado em 2009.

As exportações brasileiras à China se concentram em matérias-primas. Em 2001, 63% dos embarques brasileiros eram representados por produtos básicos. No ano passado, o número cresceu para 84%. Em 2010, os chineses absorveram 46,1% das exportações brasileiras de minério de ferro, 64,6% das de soja e 24,9% do petróleo.

Na prática, a relação Brasil-China replica a relação de dependência experimentada pelo Brasil com os EUA no período pós-Segunda Guerra Mundial, escrevem os analistas Tony Volpon e George Lei, do Nomura. O banco constata que, com a eleição de Dilma Rousseff, a natureza do debate envolvendo a política econômica no país mudou e mais atenção tem sido dada aos perigos da desindustrialização e da excessiva valorização do real. No entanto, estima que o governo Dilma “não desenvolveu alternativa coerente para sua crescente dependência em relação à China”.

Analistas consultados pelo Valor concordam em parte com o Nomura. Segundo um deles, a dependência existe no setor de commodities, mas a exportação total do país tem outros destinos relevantes além do mercado chinês.

Caso o país asiático diminua a taxa de crescimento, como reflexo das turbulências externas, o superávit comercial brasileiro seria atingido com a queda do volume de importações chinesas, assim como do preço das commodities, influenciados pela forte demanda da China, projetam economistas. A única saída para diminuir a dependência chinesa seria fortalecer a indústria nacional e aumentar as exportações de manufaturados.

“Se a relação Brasil-China não é igual à relação Brasil-EUA no passado, uma hora será”, prevê Fabio Silveira, sócio-diretor da RC Consultores, que vê como “óbvia” a redução do crescimento chinês nos próximos anos. Em um primeiro momento, diz, o impacto seria relativamente pequeno, mas no prazo de um ano e meio a dois anos, a exportação brasileira seria prejudicada e a atividade interna teria desaceleração mais forte.

Para Welber Barral, sócio da Barral M Jorge Consultores, a dependência do Brasil em relação à China só é verdadeira no mercado de commodities, mas não se estende a toda a pauta de exportações. Segundo ele, apesar de a China ser no momento o principal parceiro comercial do Brasil, não há como comparar a relação Brasil-China com a Brasil-EUA há dez anos.

“A China não chega a ter um percentual tão grande das exportações brasileiras. Os EUA, ao contrário, já chegaram a ter 26% das vendas externas do Brasil”, observa o consultor. Barral ressalta, no entanto, que o país sai perdendo com a pouca diversificação das exportações destinadas aos chineses. “O Brasil é muito dependente da China em algumas commodities. Isso não é bom para o país.”

Relatório do departamento de relações internacionais e comércio exterior (Derex) da Fiesp mostra que o predomínio de produtos básicos na pauta exportadora brasileira à China se aprofundou em 2011. De janeiro a julho, enquanto as commodities representaram 88% do valor exportado à China, 96% das importações procedentes do país asiático foram de manufaturados. O superávit total do Brasil com a China atingiu US$ 16,2 bilhões em sete meses, mas a balança de manufaturados acumula déficit de US$ 16,2 bilhões de janeiro a julho, com previsão de encerrar o ano em US$ 32 bilhões.

O setor de commodities, nota o Derex, tem receita garantida pelo aumento de preços, já que, em volume, as exportações de minério de ferro tiveram crescimento pouco expressivo entre janeiro e julho (13%), enquanto as de soja caíram 5% e a de óleos brutos de petróleo, 14%. No mesmo período, as importações brasileiras de manufaturados chineses aumentaram 34% em quantidade embarcada e 33% em valores absolutos.

Para Barral, caso a China desacelere o crescimento nos próximos anos, o Brasil seria afetado de três formas: o quantum de exportações seria reduzido, assim como o valor delas, e o real seria desvalorizado. “Boa parte do superávit brasileiro vem de preços de commodities. Se houver redução da demanda, o preço cai. Se cai o preço, o real se desvaloriza.”

Para reagir ao impacto, Silveira, da RC, diz que o Brasil poderia, em um primeiro momento, praticar políticas anticíclicas, como o incentivo ao crédito, mas não pode “queimar reservas para o resto da vida”. “Chegará uma hora em que os preços das commodities vão ser ajustados para baixo. Isso vai custar caro para o país”, diz o economista.