23/09/2009 - 12:30h Uma leitura indispensável
Editorial Jornal da Tarde
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- Luis Favre
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Piscinão cancelado está entre as prioridades, diz Kassab
Contrato para fazer reservatório na zona leste foi anulado em setembro

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Marcela Spinosa e Vitor Sorano, JORNAL DA TARDE e O Estado SP
O prefeito Gilberto Kassab (DEM) afirmou ontem que está entre suas “prioridades” a construção de um piscinão na região da Vila Prudente, na zona leste- uma das mais atingidas pelas chuvas de terça-feira. Ontem, a reportagem divulgou que o contrato fechado em junho de 2008 para elaboração do projeto de um desses reservatórios na região foi cancelado em setembro. “Temos um cronograma de prioridades, essa é uma delas. Será iniciada o mais rápido possível”, disse Kassab, em entrevista coletiva, quando questionado sobre o reservatório na Vila Prudente.
O piscinão que teve o contrato cancelado é previsto para o Córrego da Mooca, que deságua no Tamanduateí – um dos rios que transbordaram na terça-feira. A empresa Drenatec Engenharia havia sido contratada em junho por R$ 245 mil para elaborar, em 150 dias, projeto básico da estrutura a ser instalada entre as Avenidas Luiz Inácio de Anhaia Mello e Jacinto Menezes Palhares, na Vila Prudente. A contratada deveria fazer também estudo ambiental sobre o impacto da estrutura.
Em setembro, foi publicada no Diário Oficial da Cidade uma declaração de rescisão unilateral do contrato. A Drenatec confirma ter desistido, na expectativa de que uma nova licitação – que incluísse a realização do projeto executivo, mais detalhado – fosse lançada. No dia 20 de dezembro, foi publicada a aplicação de multa à empresa por “inexecução total” dos serviços contratados.
Ontem, a Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb) informou que nenhum pagamento foi feito à Drenatec. Em nota, disse que em 8 de dezembro a unidade fiscalizadora da Siurb autorizou o cancelamento dos recursos para pagar o serviço. Em seguida, diz a nota, é que ocorreu a rescisão do contrato. O texto diz que foram gastos R$ 2,3 milhões em projetos hidráulicos (construção de piscinões e galerias, entre outros) em 2008. Ontem, a reportagem mostrou que o orçamento de 2008 contabilizava R$ 1,5 milhão até 31 de dezembro.
A construção de piscinões na região da Anhaia Mello – que teve três alagamentos na terça-feira – foi o motivo alegado pela São Paulo Transportes (SPTrans), em outubro de 2008, para suspender a licitação do trecho 4 do Expresso Tiradentes – antigo Fura-fila.
Esta estampado na capa do Jornal da Tarde (JT) de hoje. Kassab cortou verbas para os piscinões e canalização de córregos. Mesmo assim, do dinheiro previsto que era de R$5,7 milhões, só gastou R$1,5 milhões. O descaso com o problema é evidente.
Qual foi a resposta de Kassab, após passar o dia em Brasília enquanto a cidade virava o caos? “Nem todo o dinheiro do orçamento bastaria”, disse ele. A questão porem é outra: porque não foi utilizado o pouco dinheiro previsto? Porque tão poucos piscinões e córregos canalizados em mais de 4 anos? Porque o único mapeamento das áreas de risco remonta a 2003? porque aumentaram tanto os pontos de alagamento e enchentes nos últimos 4 anos? porque a prevenção funciona tão mal?
O impecável cabelo preto-acaju do prefeito teria seguramente ficado eriçado, se tivesse que responder concretamente a cada uma dessa perguntas. Os jornalista começaram a responder por ele, como mostra este artigo do JT. LF
***
Contrato de piscinão foi cancelado
Estrutura fica no córrego da Mooca, que deságua no Tamanduateí. Rio foi um dos que transbordou
Vitor Sorano, JT
vitor.sorano@gruopoestado.com.br
O contrato para realização de projeto para construção de um piscinão na Vila Prudente, na zona leste, uma das áreas mais atingidas pela chuva de terça-feira, foi cancelado em setembro do ano passado pela gestão Kassab (DEM). A justificativa oficial é “inexecução total” por parte da empresa contratada, a Drenatec Engenharia. A Secretaria de Infraestrutura e Obras (Siurb), responsável pela obra, não comentou o caso.
O equipamento está previsto para ser instalado na região do Córrego da Mooca, que deságua no Rio Tamanduateí. Na enchente de anteontem, o rio transbordou. O piscinão é previsto para ser instalado na confluência das avenidas Jacindo Menezes Palhares e Luiz Inácio de Anhaia Mello. Os três pontos de alagamentos dessa via registrados anteontem ficam num raio de cerca de 2,5 km a 3,5 km dali, segundo o Centro de Gerenciamento de Emergência (CGE).
A vitória da Drenatec na licitação para fazer o projeto chegou a ser anunciada pela Prefeitura em maio. A empresa fechou um contrato de R$ 241.536,95, que incluía o projeto básico, um estudo de termo de referência e de vazão para a implantação do “reservatório de vazão ou amortecimento de cheias”. Segundo a publicação, feita no site da administração, “a área, como é de conhecimento, é um dos pontos da região que sofre com enchentes e alagamentos”.
A decisão de encerrar o contrato consta como “unilateral” no Diário Oficial em setembro. Em 20 de dezembro, foi publicado no Diário Oficial a aplicação de uma multa de R$ 6.038,42 à Drenatec por “inexecução” do contrato.
A Drenatec, por meio de um representante que pediu para não ter seu nome revelado, confirmou ter feito o pedido. “Normalmente não fazemos só o projeto básico. Fazemos o básico mais o executivo. Vamos recorrer da multa, mas esse valor não muda nada no giro da empresa”, afirmou.
Obras emergenciais
A verba para a execução do serviço sairia de uma rubrica denominada “Projetos Hidráulicos”, da Siurb, que incluem piscinões e canalização de córregos. Em 2008, o orçamento para esses serviços começou com R$ 8,6 milhões.
No segundo semestre, porém, remanejamentos de parte dessa verba para outras áreas – inclusive obras emergenciais antienchente – reduziram o valor disponível para R$ 5,7 milhões.
Desse total, foram empenhados (tiveram despesa programada) 42%, ou R$ 2,5 milhões. O valor liquidado (efetivamente gasto), chegou a R$ 1,5 milhão. A assessoria da Prefeitura de São Paulo enviou uma lista de 30 projetos com os recursos empenhados. A assessoria de imprensa afirma que essa verba e os serviços não são as únicas intervenções. A lista, afirmou, é parcial e há um número “muito maior” na Siurb. Para este ano, a rubrica prevê R$ 7,4 milhões, dos quais R$ 371 mil foram empenhados e R$ 27,5 mil liquidados. A verba não liquidada em um ano é repassada ao próximo .
CORTE
1,5 milhão de reais
foi o valor gasto dos R$ 8,6 mi previstos a projetos hidráulicos
colaboração para a Folha Online
Dois homens morreram após sofrerem parada cardiorrespiratória dentro do carro, presos nos congestionamentos causados pelo temporal que atingiu São Paulo na terça-feira (17).
De acordo com informações do 1º DP de São Caetano do Sul (região metropolitana), o aposentado José Mendes Moreira Filho, 74, sofreu parada cardiorrespiratória por volta de 16h30 na avenida do Estado, no cruzamento com a rua Pedro Alexandrino, bairro Fundação.
Diego Padgurschi/Folha Imagem

Bombeiros recebem 60 pedidos de resgate de pessoas ilhadas em áreas alagadas de São Paulo; alguns foram resgatados em botes
A avenida do Estado foi uma das vias afetadas pelos alagamentos ontem. Moreira Filho foi socorrido pelos bombeiros, que tentaram reanimá-lo a caminho do pronto-socorro do hospital municipal Albert Sabin, mas ele já chegou morto à unidade.
Na zona leste de São Paulo, o empresário Ciro de Souza Nogueira, 81, um dos fundadores da Brinquedos Bandeirantes, morreu também após sofrer parada cardiorrespiratória depois de escapar de seu carro –que estava submerso– na avenida Luís Inácio de Anhaia Melo.
Segundo informações da Polícia Militar, o empresário chegou a receber os primeiros socorros por moradores de uma casa na altura do número 2.367, mas não resistiu. O caso foi registrado no 56º Distrito Policial da Vila Alpina.
Alagamento
Na terça (17), o temporal que atingiu a cidade de São Paulo provocou 60 pontos de alagamento, deixou dezenas de pessoas ilhadas em suas casas e veículos, mais de 200 km de congestionamento e interrompeu a circulação das linhas dos trens da linha 10-Turquesa (Luz – Rio Grande da Serra).
Segundo previsão do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) para esta quarta, o céu ficará nublado com possibilidade de pancadas de chuva isoladas a partir do período da tarde. A temperatura máxima é 26ºC.

DIRIGINDO NA CHUVA
Se você estiver na rua no meio de uma chuva forte, procure parar em um local seguro, numa posição mais alta
Evite cruzar vias inundadas, pois elas podem conter buracos encobertos pela água
Não tente dar a partida se o carro “morrer” na água. O motor pode aspirar líquido e com isso, ficar danificado
Se a água da enchente cobrir aproximadamente 3/4 da roda, já há o risco de o veículo boiar
DEPOIS DA ENCHENTE
Se o carro foi alagado em um enchente, faça uma pesquisa de preços antes de mandá-lo para o conserto. Os valores cobrados variam entre as oficinas e conforme o estrago do veículo
Nos casos mais simples, deve-se trocar o forro embaixo do carpete. Quanto mais cedo for feito o serviço, mais fácil será remover o mau cheiro

Trecho inicial da Avenida Luiz Inácio de Anhaia Mello, na Vila Prudente. Foto: José Patrício/AE


Fotos Agencia Estado
Folha Online
O temporal que atingiu São Paulo nesta terça-feira provocou 60 pontos de alagamento na cidade e deixou dezenas de pessoas ilhadas em suas casas e veículos. Por volta das 21h, no entanto, a chuva havia perdido intensidade e o CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências) decretou o fim dos estados de atenção e alerta na cidade –a escala passa por observação, atenção, alerta e alerta máximo.
De acordo com o Corpo de Bombeiros, até as 21h, o órgão havia recebido cerca de 60 pedidos de resgate de pessoas ilhadas em áreas alagadas. Algumas pessoas tiveram de ser resgatadas em botes, pois muitas vias estavam intransitáveis.
Apesar das ocorrências, até as 21h não havia registros de feridos em decorrência da chuva. De acordo com os bombeiros, ao menos 14 árvores caíram –a maioria na zona sul da cidade–, prejudicando o trânsito.
Um helicóptero da Polícia Militar também auxiliou no resgate de pessoas ilhadas na avenida do Estado, no Cambuci (região central de São Paulo).
De acordo com os bombeiros, no início da noite, o helicóptero da PM foi acionado porque passageiros de ônibus e de carros ficaram ilhados em cima dos veículos e o carro da corporação não conseguia chegar ao local.
Trânsito
Com as chuvas, São Paulo teve o maior congestionamento do ano: 201 km às 19h, ou 24% das vias monitoradas. O recorde anterior do ano era de 188 km de lentidão, registrado no último dia 6 de março, quando também choveu em São Paulo.
Por volta das 21h15, o congestionamento havia diminuído, mas continuava alto: 124 km de lentidão, ou 15% das vias monitoradas.
Na noite de hoje, a Secretaria Municipal de Transportes informou que o rodízio de veículos foi suspenso na cidade no período da tarde devido às chuvas. Nesta quarta-feira (18), no entanto, o rodízio volta a funcionar normalmente.
Rodovia
Por volta das 16h, a Ecovias (concessionária que administra o sistema Anchieta-Imigrantes) bloqueou todas as pistas da via Anchieta –no sentido São Paulo e litoral– devido ao transbordamento do Ribeirão dos Couros, na altura do km 13 da via. Cerca de 4 horas depois, apenas o sentido litoral tinha sido liberado, mas ainda havia lentidão na região.
A alternativa para o motorista que está no sentido São Paulo é utilizar a saída do km 23 ou km 18.
Trens
A CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) de São Paulo interrompeu a circulação das linhas dos trens da linha 10-Turquesa (Luz -Rio Grande da Serra), nesta terça-feira, devido às chuvas.
A linha está interrompida entre as estações da Luz, na região central de São Paulo, e Santo André, desde as 17h30.
No trecho entre Capuava e Rio Grande da Serra, os trens circulam sem restrição, segundo a CPTM. A operação será normalizada assim que o nível da água baixar, segundo a empresa.
Com os problemas nos trens, os usuários do metrô enfrentaram vagões lotados. Para atender a demanda, o Metrô informou que deve estender seu horário de funcionamento, até que o fluxo de passageiros volte ao normal.
Energia
O temporal também deixou pontos sem energia elétrica em várias cidades da Grande São Paulo e em seis bairros, além da região central da cidade de São Paulo.
De acordo com a Eletropaulo (concessionária de distribuição de energia), há trechos sem energia elétrica nos bairros de Pirituba, Casa Verde, Pinheiros, Vila Clementino, Jardim Aeroporto, Planalto Paulista e centro.
Carros alagados
A chuva de hoje provocou ainda o alagamento do pátio onde ficam os carros novos da Ford, na unidade de São Bernardo (Grande São Paulo). A empresa informou que ainda está calculando os prejuízos e o número de veículos atingidos pelas águas.
A fábrica de São Bernardo produz os modelos Ka e Courrier. Pelas imagens, no entanto, há mais unidades do Ka entre os veículos atingidos pelas águas.
Previsão
De acordo com o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), das 15h às 18h, choveu cerca de 50 mm –a média para o mês de março é de 178 mm.
Para esta quarta-feira (18), o instituto prevê mais pancadas de chuvas isoladas na cidade de São Paulo.

São Paulo (SP) Hoje por volta de 1:30hs, na rua Professor Cosme Deodato Tadeu em Guaianases, carros foram arrastados e tombados pela forte enxurrada. Um muro de uma vila desabou e as águas do córrego avançaram para as demais casas da rua, moradores perderam tudo, desde móveis, carros até comida. Os bombeiros foram acionados e compareceram após as águas terem baixado. Por sorte nao houve vítimas fatais. Foto: Alex Elias Ibrahim/FotoRepórter/AE
Marici Capitelli – JT
Embora os alagamentos sejam frequentes, os moradores da região do Córrego Itaquera Mirim, no Lajeado, zona leste, não viam tamanha destruição desde 1985. A força da água foi tanta que os muros de contenção do córrego caíram na madrugada de ontem e a água invadiu cerca de 30 imóveis destruindo tudo que estava pela frente.
Ontem, a comunidade estava chocada e responsabilizava a Prefeitura por não realizar obras necessárias para evitar as enchentes. A Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana e Obras (Siurb), que seria a responsável pela canalização do córrego, não comentou o assunto. A Subprefeitura de Guaianases informou que limpa periodicamente os 7,5 km do córrego.
Uma das ruas mais atingidas foi a Professor Cosme Deodato Tadeu, principalmente a parte que dá fundos para o córrego.
“A força da água era tanta que destruiu as portas das casas”, conta a moradora Sabrina dos Santos Silva (foto), de 21 anos, que foi carregada pela correnteza e precisou ser hospitalizada por ter engolido muita água. Foi retirada do local de bote. A moça, que casou há três meses, perdeu tudo que estava em sua casa recém-mobiliada.
Esgoto ameaça Parque Tizo

Diego Zanchetta – O Estado SP
No extremo da zona sul de São Paulo, às margens do Rodoanel, um terreno coberto com 70% de mata nativa, quase do tamanho do Parque Ibirapuera, preserva cinco nascentes e espécies de veados, jararacas, tatus e araras. Em março de 2006, após o Ministério Público proibir o Estado de construir uma central de abastecimento na área, um decreto do governador Geraldo Alckmin (PSDB) definiu que o terreno seria transformado no Parque Tizo (Terras Institucionais da Zona Oeste), voltado para o desenvolvimento de pesquisas biológicas. A medida surgiu após uma década de reivindicação de ambientalistas e parecia colocar fim à intenção de construtoras de erguerem novos empreendimentos na região.
Passados três anos, as obras do futuro parque seguem paradas. A previsão inicial do Estado era de que pelo menos a infraestrutura estivesse pronta em 2007. Só que nem a instalação da cerca para proteger o entorno da mata foi feita. Vista do alto, a vegetação exuberante contrasta com o avanço de barracos de madeira nas encostas, a menos de dez metros da área de preservação permanente, no limite dos municípios de São Paulo e Taboão da Serra.
A maior ameaça ao parque hoje, segundo ambientalistas, é o esgoto de uma invasão com cerca de 500 famílias, chamada Vila Nova Esperança, que escorre para dentro da mata do futuro parque. Os próprios moradores da ocupação vizinha relatam que toda semana invasores tentam levantar barracos dentro do parque. “A mata só não foi invadida de vez porque nós não deixamos”, diz Valdemir Monteiro de Sales, de 43 anos, líder comunitário da Vila Nova Esperança.
As famílias rejeitaram a proposta da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) de mudança para um conjunto habitacional em Cotia. Com as chuvas intensas desde dezembro, pelo menos oito barracos desmoronaram, após seguidos deslizamentos. “Nós pedimos a urbanização do bairro. O saneamento aqui é fundamental, também não queremos que o esgoto escorra para a mata”, argumentou Sales. Para o governo, contudo, a melhor alternativa é a remoção das famílias, para evitar futuros impactos ambientais.
É comum, por exemplo, moradores encontrarem cobras e tatus vindos da mata. Alguns ainda costumam caçar aves, como coleiros e araras, para revender. “Esta ainda é pequena”, diz o pedreiro Rafael Marques dos Santos, de 41 anos, ao mostrar uma jararaca que havia acabado de matar. “Ela estava no meu quarto. Sorte que eu vi antes de deitar para um cochilo depois do almoço.”
Para Mário Mantovani, ambientalista da Fundação SOS Mata Atlântica, o projeto do parque está abandonado. “O problema é que a região sofre com constantes invasões. E um espaço como aquela mata, não ocupado pelo poder público, torna-se suscetível às invasões numa região com alta densidade populacional como é o extremo da zona sul”, apontou o ambientalista. “Pela construção do Rodoanel, a Dersa também teria de fazer compensações na área verde, como o replantio de mudas e um viveiro. O receio é de que essas contrapartidas sejam esquecidas com o passar do tempo, com a chegada de novas eleições em 2010.”
A Sabesp informou que realizará serviços de coleta de esgotos na Vila Nova Esperança, com 2,7 mil metros de redes coletoras, totalizando um investimento de R$ 843 mil. As obras de saneamento estão previstas no cronograma da terceira etapa do Programa de Despoluição do Tietê. “A previsão da empresa é começar os trabalhos no primeiro semestre do ano que vem e a finalização das obras está prevista para o segundo semestre de 2010″, informou a Sabesp.
AVES EM EXTINÇÃO
A área do parque ecológico também abriga aves ameaçadas de extinção, como o pica-pau rei e a araponga, além de espécies de canelas e plantas arbóreas, caso da guaçatonga (planta usada como anti-inflamatório e cicatrizante) e da flor hirtella triandra. Como parte da área do parque segue aberta, moradores fazem trilhas dentro da mata, cortando pequenos arbustos e galhos. Oito seguranças se revezam em dois turnos na vigilância de 1,3 milhão de metros quadrados do parque e tentam coibir as invasões na mata.
Paralelamente às constantes invasões de barracos no entorno do parque, em 2007, um ano após a área ser definida como de proteção permanente, o Ministério Público desbaratou o esquema de uma cooperativa de Cotia que vendia ilegalmente lotes no terreno. “Por isso é tão importante que o parque seja logo ocupado para o desenvolvimento de pesquisas”, completou Mantovani.

Vitor Sorano – JT
O Jornal da Tarde consultou empresas de dragagem sobre a retirada de lodo de um lago em duas condições: seco e cheio d’água. A opinião dominante é que, em tese, fazer o serviço na segunda hipótese – a ser adotada pela gestão Kassab (DEM) no caso Aclimação -, provavelmente sai mais caro. Em alguns casos, a reportagem se identificou e informou qual era o local de execução dos serviços.
“A retirada com o lago seco é três vezes mais em conta”, disse um representante da Wüstenjet Engenharia que não quis se identificar. Ele respondeu sabendo que se tratava do lago do Parque da Aclimação. Mesma avaliação foi dada por uma empresa de Santa Bárbara D’Oeste, no interior do Estado – à qual o JT não se identificou. “Seco é bem melhor. Dá bastante diferença de preço, umas três vezes.”
Avaliação positiva sobre a secagem também teve uma empresa de Ribeirão Preto. “Seco seria mais viável. A vantagem é que o acabamento é outro, mas tem de ver as condições”, disse um funcionário.
“Se conseguir desidratar o sedimento, é mais econômico. Por ser uma área urbana, quanto menos água tiver é melhor, porque o volume (a ser transportado) é menor”, afirmou o coordenador da Associação Brasileira de Dragagem, Paulo Roberto Rodriguez, falando em tese sobre o caso Aclimação. “Mas não é uma questão de custo, e sim de técnica. ”
Na FOS Engenharia Limitada, a opinião era de que o serviço com água irá causar menos impacto para a população. “Para esperar esse lodo secar vai demorar mais e vai provocar mau cheiro.”
Obra rápida para encher lago
Água de minas é liberada uma hora e meia depois do fim da concretagem de equipamento que falhou
Vitor Sorano, JT
vitor.sorano@grupoestado.com.br
Uma hora e meia depois de concluída a concretagem do vertedouro – equipamento de controle de volume de água – que quebrou e esvaziou o lago do Parque da Aclimação na última segunda, a água voltou a ser liberada para encher o local, por volta das 15h30 de ontem. A Secretaria Municipal do Verde e Meio Ambiente não divulgou estimativa de quando o reservatório estará completo. Uma das variáveis que influencia esse prazo é a quantidade de chuva.
A água começou a voltar ao lago a partir de minas – há três mapeadas no local – que estavam contidas. As outras fontes são a chuva que atinge o local e o excesso de água que transborda do Córrego da Pedra Azul, próximo ao parque, e é desviado para o lago.
A concretagem do vertedouro terminou por volta das 14 horas. Hoje a Épura, empresa contratada pela Prefeitura, voltará ao local para implantar tubos um pouco abaixo do limite superior do vertedouro. Cada um deles funcionará como uma espécie de “ladrão” de caixa-d’água. A mudança permitirá que o equipamento comece a escoar um eventual excesso de água antes de chegar ao nível máximo, o topo do vertedouro.
A medida, diz a Épura, dá mais segurança. Uma das hipóteses da Prefeitura para o incidente é que o excesso de chuva tenha colocado muita pressão na base do vertedouro, causando o rompimento e a drenagem total do lago.
Para o engenheiro José Eduardo Cavalcanti, do Instituto de Engenharia, especialista em remoção e transporte de resíduos, “o enchimento nesse momento é como se colocasse um carpete novo sobre um piso podre”.
Quase metade da capacidade do lago está ocupada por lodo, segundo a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras (Siurb). O volume do lago, até hoje, é de 75 milhões de litros de água. Com a retirada do lodo, diz a prefeitura, esse volume chegará a aproximadamente 100 milhões de litros.
A limpeza de lagos, na maioria das vezes, é feita por meio de dragagem dos sedimentos. Para Cavalcanti, esse procedimento é mais custoso (leia ao lado) e traz inconvenientes ambientais.
Já Kassab disse que é indiferente retirar o lodo com o lago vazio ou cheio. “A Secretaria do Verde e Meio Ambiente fez estudos mostrando que não é necessária a retirada do lodo para as próximas obras que serão feitas no lago.” A terceira fase das obras, que inclui a remoção do lodo e a construção de novo vertedouro, custará R$ 20 milhões. A licitação deve ser aberta nas próximas semanas.
A pasta diz que é necessário encher o lago para fazer a limpeza. Um dos motivos é que o transporte do material sem isso geraria grande transtorno para o parque e para o bairro. O outro é que será usada a técnica de bombeamento, que exige água. Eduardo Reina, Mônica Cardoso e Vitor Sorano

Para engenheiros, Prefeitura perde chance única de limpar área
O Estado SP
A Prefeitura de São Paulo vai perder uma grande oportunidade de realizar a limpeza da sujeira acumulada por anos e anos no fundo do lago do Parque da Aclimação e economizar dinheiro. Essa é a opinião do engenheiro José Eduardo Cavalcanti, do Instituto de Engenharia, especialista em remoção e transporte de resíduos. “Encher o lago nesse momento é como colocar um carpete novo sobre um piso podre”, afirmou Cavalcanti.
Segundo ele, a retirada de toda a lama e do material sólido que está no local poderia demorar semanas, já que é preciso fazer a separação do material sólido do líquido. “Provavelmente o lodo teria de passar por um processo de secagem antes de ser enviado a um aterro”, explicou o engenheiro. Atualmente, os aterros que podem receber esse tipo de material cobram em torno de R$ 120 por tonelada a ser despejada.
Quase metade da capacidade do lago está ocupada hoje por lodo, de acordo com a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Obras (Siurb). O volume do lago é de 75 milhões de litros de água. Desse total, cerca de 30 milhões de litros correspondem ao lodo existente, composto por terra, água e material orgânico como esgoto, algas, micro-organismos, animais mortos e vegetais que chegam ao local pelo Córrego Pedra Azul.
Antes de entrar no corpo do lago, a água do Pedra Azul passa por processo de flotação numa estação ao lado do parque. Mas parte das impurezas acaba ficando no líquido. Com o esvaziamento do lago, foi possível ver a quantidade de sujeira existente no local. Há desde garrafas plásticas e pneus até carrinho de feira.
DRAGAGEM
O processo de limpeza de corpos de água, na maioria das vezes, é feito através de dragagem dos sedimentos. Para o engenheiro Cavalcanti, esse procedimento é mais custoso e traz inconvenientes ambientais. Com o local vazio, poderia ser feito com escavadeiras e caminhões. “Está se desperdiçando uma oportunidade única de limpar o lago da Aclimação”, disse.
O enchimento do lago nas atuais condições seria ruim para o local, segundo Julio Cerqueira Cesar Neto, outro engenheiro da área sanitária e ambiental e ex-presidente da Agência da Bacia do Alto Tietê. “Esse lago sempre esteve sujo. E já que está vazio, é preciso corrigir. Se tirar os detritos do fundo, ao reencher, as condições serão excelentes. A limpeza a céu aberto é mais barata”, disse Cesar Neto.
Já o prefeito Gilberto Kassab disse que é indiferente retirar o lodo com o lago vazio ou cheio. “A Secretaria do Verde e Meio Ambiente fez estudos mostrando que não é necessária a retirada do lodo para as próximas obras que serão feitas no lago.” A terceira fase das obras, que inclui a remoção do lodo e a construção de um novo vertedouro, custará R$ 20 milhões. A licitação deve ser aberta nas próximas semanas.
TAMPÃO
Ontem, dois tubos de concreto foram colocados no interior do vertedouro – sistema hidráulico que regula o nível do lago. Foi formada uma peça que funcionará como tampão provisório permitindo o acúmulo de água que virá de algumas minas de água próximas do parque e também da chuva.

Marcela Fonseca, Renato Santiago do Agora e Agência Folha
Desde o início do ano, os temporais que acometem o Estado já causaram a morte direta ou indireta de 23 pessoas. Até agora, a capital é a região que mais registra mortes, seis ao todo. Segundo a Prefeitura de São Paulo, 591 famílias foram afetadas e são assistidas pela administração. A Secretaria Municipal de Saúde aponta 40 pessoas com leptospirose decorrente do contato com enchentes.
A região de Campinas é a segunda mais atingida. Segundo dados Defesa Civil, quatro pessoas morreram e quase 4.000 estão desalojadas. Cidades do ABC também sofrem com os estragos.
Em São Paulo, o CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências) aponta a região do Butantã (zona oeste de SP) como a mais prejudicada. A segunda é São Mateus (zona leste de SP).
A Prefeitura de São Paulo trabalha com um mapa de áreas de risco desatualizado. Um novo estudo será providenciado, mas só depois da temporada de chuvas. O Jardim Esperança (zona norte), onde morreram os primos Maxwel Oliveira, 17 anos, e Ednaldo de Lima, 26, na noite de anteontem, está na lista dos novos pontos de risco.
Todas as fotos são deste verão na cidade de São Paulo e do jornal O Estado de SP

Às vésperas do natal, apenas dois meses atrás, o editorial do jornal O Estado de São Paulo manifestava um genuíno entusiasmo pelo tratamento dado às enchentes pela administração demo-tucana. (ver Euforia natalina). Vários alagamentos, enchentes, desabamentos e mortos nestes dois meses jogaram provavelmente um balde de água fria no entusiasmo dos editorialistas do Estadão (ver Melhora o tratamento da questão das enchentes em São Paulo; Áreas crônicas voltam a sofrer alagamento). As questões se acumulam e os problemas continuam.
Vale a pena reiterar o que foi dito aqui no blog comentando entrevista do prefeito em 27 de dezembro último:
“E as enchentes? Porque com R$10 bilhões de reais a mais foram construidos nos últimos quatro anos muito menos piscinões que na gestão anterior? A pergunta não foi feita, mas o entrevistador não deixou passar o assunto. Kassab não consegue dar nenhuma indicação do que foi feito na área. Diz que o fundamental é salvar vidas. Vários já morreram nos últimos 4 anos como conseqüência das enchentes. Ainda hoje três crianças estão desaparecidas. Os mapas estão desatualizados (o último é de 2003). As obras projetadas não foram realizadas. Sem rir, Kassab diz que a coisa melhora e melhorará se a cidade continuar elegendo administrações como a dele. Mas para continuar fazendo o que, no combate as enchentes?” (ver O congelamento de Gilberto Kassab).
Em todo caso, as informações que o jornal publica hoje sobre o tema mostram que, longe da proclamada melhora no tratamento do assunto, a prefeitura de Kassab e seu “padrinho” o governo estadual, nadam na maquiagem dos problemas procurando ocultar a lentidão para combater o flagelo. LF
O Estado de São Paulo
O governo de São Paulo se recusa, desde dezembro de 2008, a fornecer dados sobre as áreas de risco no Estado. As informações existem e são produzidas e compiladas tanto pelo Laboratório de Riscos de Ambientais do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) quanto pelo Instituto Geológico (IG). Embora nem todos os mapeamentos estejam atualizados, técnicos ouvidos pelo Estado foram unânimes em dizer que eles são hoje o único instrumento capaz de fornecer aos governantes e à população um panorama das áreas e localidades em que há riscos de deslizamentos de terra – uma das principais causas de mortes em épocas de chuvas.
Em dezembro do ano passado, a reportagem solicitou os dados ao IPT, que se comprometeu a repassá-los desde que houvesse autorização da Defesa Civil Estadual, financiadora dos estudos. Em nota, o governo alegou que “cabe a cada município a avaliação da existência de população em áreas de risco e a atuação nesses locais, quando necessário”. Esclareceu que “o levantamento citado foi realizado em 2000 e vem, desde então, sendo utilizado como referência para a ação da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec)”. Argumentou, no entanto, não se tratar da “única informação disponível” e que ela “não serve como indicador global das áreas de risco no Estado”, o que contraria a opinião de técnicos no assunto. A nota, encaminhada em 4 de dezembro, assinala ainda que a divulgação dos dados “poderia causar pânico desnecessário nas populações dos locais indicados”.
Desde então, o Estado vem reiterando os pedidos de liberação dos dados – sem sucesso. Os únicos dados à disposição do público estão no site do Ministério das Cidades, que reúne 11 Planos Municipais de Redução de Riscos (PMRR) de municípios paulistas, em que constam os mapeamentos das áreas de risco. Atualmente, 67 municípios fazem parte do Plano Preventivo de Defesa Civil e a maioria dele tem PMRR.
Quatro pessoas morreram soterradas, duas delas na capital paulista; houve 400 quedas de barreiras na SP-50
Eduardo Reina e Renato Machado – O Estado SP
Em dois dias, pelo menos seis pessoas morreram em quatro cidades do Estado de São Paulo, por causa das fortes chuvas. Na capital, dois operários foram soterrados na noite de anteontem, dentro de uma obra, no Tremembé (zona norte). No mesmo horário, um aposentado acabou arrastado pela enxurrada em Pedro de Toledo, a 149 quilômetros de São Paulo.
Na quarta-feira, no Guarujá, litoral sul de São Paulo, houve a morte de duas crianças após o desabamento de oito casas na Vila Baiana. Em 24 horas, o índice pluviométrico do município atingiu a quantidade de uma semana. De acordo com a empresa Desenvolvimento Rodoviário S.A. (Dersa), nesse período foram registrados 400 deslizamentos de terra no trecho entre o km 128 e o km 145 da SP-50, entre os municípios de São José dos Campos e Monteiro Lobato, no Vale do Paraíba. A estrada se encontra interditada para ônibus e caminhões. Ainda anteontem, um lavrador foi fulminado por um raio, quando estava trabalhando num canavial de São Simão, na região de Ribeirão Preto.
O mapa mais recente das áreas com risco de enchentes, inundações, escorregamentos e erosão no Estado de São Paulo, feito em 2005 pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), mostra que 193 dos 645 municípios estão classificados como de situação muito crítica. Nessa categoria estão a capital e a cidade de Marília, onde uma ponte desabou na madrugada de ontem e um ônibus foi arrastado pelas águas. O veículo levava 15 passageiros, além do motorista, e ia de Sarandi (PR) para Ibitinga (SP). Uma caminhonete com dois ocupantes também caiu dentro do Rio Tibiriçá, na SP-333. Todos ficaram ilhados, com água até o peito. Os passageiros usaram celulares para chamar a polícia.
No relatório do IPT, os técnicos destacam que “acidentes decorrentes de processos de inundações, erosão e escorregamentos têm ocorrido frequentemente no Estado de São Paulo”. Tudo isso é consequência de um “crescimento urbano nas cidades, propiciando a criação de áreas de risco, comumente associadas a assentamentos urbanos precários, em terrenos sujeitos a processos geológico-geomorfológicos (escorregamentos e erosão) e hidrológicos (enchentes, inundações, alagamentos e solapamento de margens).”
São avaliadas no estudo condições do solo ao lado de estradas, rios, pontes, viadutos e túneis em todas as cidades. Na lista de municípios em estado muito crítico aparecem ainda Presidente Prudente, Botucatu, Franca, Bananal, São José do Rio Preto, Paraguaçu Paulista e Tupã, entre outros. Classificados como moderadamente críticas estão 345 cidades, incluindo Barretos, Cunha, Getulina, Brotas, Peruíbe e Itirapina.
Além disso, há 107 municípios considerados pouco críticos, como Iguape, Avaré, Guaira, Ilha Solteira e Araraquara. Entre a segunda e a quarta-feira, por exemplo, choveu perto de 250 milímetros em Iguape, no litoral sul de São Paulo. É mais do que a precipitação prevista para a capital durante todo o mês de fevereiro.
CGE
Ontem à tarde voltou a chover na capital. O Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) chegou a decretar estado de atenção na zona sul por uma hora. Hoje, a previsão é de tempo nublado e chuvas isoladas no decorrer do dia. As temperaturas ficarão entre os 20°C e os 31 °C.
COLABOROU LAIS CATTASSINI
Cidade impermeabilizada e chuva atípica agravam quadro
Renato Machado – O Estado SP
A média mensal de desabamentos de residências na cidade de São Paulo neste ano já é três vezes maior que a registrada em 2008. Em menos de dois meses – entre 1º de janeiro e ontem -, a Defesa Civil Municipal registrou 43 casos, média superior a 21 por mês. Em todo o ano passado, foram 89 desabamentos ao longo dos 12 meses, aproximadamente 7 mensais.
A situação é pior em relação aos deslizamentos de terra. Foram registradas em menos de dois meses 24 ocorrências desse tipo, o que corresponde a 77% do número total de casos do ano de 2008 – 31. Uma das causas apontadas para esse quadro é o nível atípico de chuvas. De acordo com a Climatempo, foram registrados em janeiro 350 milímetros de chuva, quando a média histórica para o mês é de 240 mm. Neste mês, foram 190 mm de chuva até as 9 horas de ontem, pouco abaixo da média de 220 mm.
Segundo o coordenador da Defesa Civil Municipal, coronel Orlando Rodrigues de Camargo Filho, a situação é agravada pela quantidade de famílias que vivem às margens dos rios e perto de encostas. “A cidade está muito impermeabilizada, então uma chuva mais intensa provoca grandes estragos.”
Alguns casos podem ser considerados tragédias anunciadas, como o da noite de anteontem, no Parque Colonial, em São Mateus, na zona leste. O vendedor Nelson Bossi, de 48 anos, havia telefonado no mesmo dia para o telefone 156 da Prefeitura para alertar que sua casa apresentava riscos. Após a instalação de uma antena de telefonia na região e, principalmente, por causa de uma obra ao lado, a casa em que vive com outros sete parentes passou a ter infiltrações e rachaduras.
A atendente do serviço registrou todos os dados e afirmou que a reclamação seria passada para a Defesa Civil Municipal e um atendimento ocorreria entre 1 e 40 dias. “Em nenhum momento, a atendente me falou que o telefone da Defesa Civil era outro e seria mais rápido se eu ligasse direto para eles”, diz Bossi. O coronel Camargo vai averiguar o caso, pois situações de emergência têm prioridade.
Por causa da chuva forte, a obra alagou e a água começou a pressionar o muro que faz divisa com a casa de Bossi. Às 21h30, a parede cedeu e destruiu a sala e a cozinha. Os irmãos de Nelson Bossi – José Roberto, de 42 anos, e Luís Antônio, de 49 – estavam na sala, assistindo à televisão, quando a parede desabou. Os dois tiveram escoriações no corpo. A mais atingida foi a sobrinha do vendedor, Jaqueline Matos, de 11 anos, que usava o computador na sala e teve fraturas na clavícula e no tornozelo e diversos cortes no rosto. Ela está internada no Hospital São Miguel e não corre risco. A avó da menina, Vera Lúcia Bossi, de 47 anos, teve cortes no rosto, foi hospitalizada e teve alta ontem.
Também anteontem, outras duas pessoas morreram vítimas de um desabamento em Tremembé, na zona norte da cidade. Edinalvo Ferreira de Lima, de 26, e Maxwel Santos de Oliveira, de 17 anos, trabalhavam em uma obra quando a forte chuva fez ruir uma pilha de madeiras e tijolos. Lima veio para São Paulo há dois meses para trabalhar. De acordo com vizinhos, ele deixou na terra natal a mulher, que está grávida, e seu objetivo era juntar dinheiro e voltar para o Nordeste. Ele fazia diversos trabalhos com construção na região e sempre era ajudado pelo primo, Maxwel Santos de Oliveira.
Por causa da chuva anteontem, os primos resolveram descer da parte de cima do sobrado em construção e buscaram abrigo da chuva embaixo da laje. A força da água, no entanto, provocou o soterramento dos dois. Ainda não se sabe a hora exata em que o acidente ocorreu, pois ninguém presenciou.
À noite, a mãe de Oliveira foi procurá-lo e um comerciante disse que os tinha visto trabalhando à tarde. Quando chegaram à obra, ligaram para o celular do adolescente e viram que o toque vinha de dentro do canteiro. Os corpos foram resgatados por volta de meia-noite e seriam velados ainda na noite de ontem.
FRASES
Coronel Orlando de Camargo Filho,
Coordenador da Defesa Civil Municipal
“A cidade está muito impermeabilizada, então uma chuva mais intensa
provoca grandes estragos”
Nelson Bossi
Vendedor
“Liguei alertando e ninguém fez nada. Agora está tudo destruído e não tenho para onde ir”

Gabriela Gasparin do Agora
Sob descontentamento dos frequentadores do parque da Aclimação, a prefeitura voltará a encher o lago da área verde amanhã sem a retirada do lodo e lixo acumulados no fundo do ex-lago. O material, além de malcheiroso, transmite doenças à população.
O lago esvaziou na segunda-feira após o vertedouro (equipamento que controla o nível de água do lago) ter a base rompida durante um temporal. Animais morreram.
O Prefeito Gilberto Kassab (DEM) disse que o motivo da tragédia não foi falta de manutenção, mas a pressão que a água da chuva provocou no equipamento.
O reparo da base do vertedouro deve ser finalizado hoje pela empresa contratada emergencialmente por cerca de R$ 160 mil. Será feito o encaixe de um tubo de concreto na base rompida e o lago voltará a ser enchido.
Kassab disse anteontem que não haverá a necessidade de retirar o lodo antes de encher. Segundo o prefeito, o material será removido com o lago já cheio, quando será colocado um novo vertedouro e as galerias da região serão revistas. A previsão do prefeito é que essa etapa esteja concluída em até 10 meses por causa da licitação. Kassab disse que a obra já estava prevista antes da tragédia e estava orçada em R$ 20 milhões.
Descontentamento
A ideia de colocar água sobre o lamaçal que restou do que era um lago, entretanto, não agradou nem um pouco os frequentadores do parque.
Indignada, a população quer que o material seja retirado antes de encher o lago de novo. Além de peixes mortos que provocarão mal cheiro, há pneus, bacias, entulho, pedaços de madeiras e garrafas no lodo.
A Assuapa (Associação dos Usuários e Amigos do Parque Aclimação) fará um movimento amanhã exigindo a retirada do lodo antes de o lago encher. “Aconteceu uma tragédia, a prefeitura não tem que ficar fazendo licitação para a retirada do lodo”, disse o diretor da entidade, Roberto Casseb. A associação pretende montar um conselho para a recuperação do lago.
Ontem pela manhã, a sujeira do lago seco prendia a atenção visitantes do parque, que paravam para assistir à cena. “Eu queria saber como que essa sujeira entrou aqui. Podia aproveitar que o lago secou para tirar a lama”, disse a atendente Solange Guimarães, 28 anos, que visitava o parque na tarde de ontem.
O lodo do parque pode transmitir doenças, como hepatite e leptospirose, às pessoas, segundo o infectologista Paulo Olzon. O zootecnista da Unesp (Universidade do Estadual Paulista) disse que, apesar de não fazer mal aos peixes, é correto retirar o lodo do fundo do local onde havia o lago.
Ontem formulei aqui algumas perguntas sobre os problemas de manutenção do lago do Parque da Aclimação. O lago seco do engenheiro Kassab
“Em 2005, o então prefeito José Serra soltou um decreto autorizando as empresas privadas a “assumirem” a manutenção dos lagos dos parques municipais. Os quatro parques visados pelo decreto eram: Ibirapuera, Aclimação, Carmo e Cidade de Toronto. As empresas deveriam, segundo o decreto de Serra, cuidar de poluição da água, erosão ribeirinha, vegetação local, assoreamento dos lagos, fauna aquática, avaliação de qualidade da água e campanhas que estimulem a participação da população na conservação dos lagos. Em troca fariam a publicidade nos locais.
Que fim recebeu o decreto? Quais empresas assumiram “cuidar” do lago?
Segundo a Folha de São Paulo da época “Um relatório com a atual condição desses lagos e as medidas de manutenção e recuperação necessárias em cada um deles deve ser publicado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) em 120 dias.” (Folha SP 10/8/2005).
O relatório foi feito? Quais foram suas conclusões?”
Segundo o jornal O Estado SP a prefeitura produziu um relatório em 2006 identificando os problemas. Aparentemente a lista é a mesma que figurava no decreto de Serra em 2005. Segundo o Estado SP nenhuma empresa assumiu cuidar do lago e o jornal não consegue saber se a prefeitura cuidou do que seu próprio diagnostico considerava problemas à resolver.
Como para evitar que estes e outros elementos provantes do desfuncionamento da administração demo-tucana veiam a luz do dia, Kassab quer encher o lago rapidamente sem proceder a remoção do lodo contaminado, nem a limpeza da sujeira acumulada e isto contrariando opinião de técnicos ouvidos pela imprensa.
Kassab está preocupado com o cheiro de podre que emana do lago seco. Para esconder o cheiro, quer pressa para pôr água encima.
O acidente deveria servir para passar a limpo o tratamento dado pela prefeitura durante estes 4 anos, questão de pelo menos alguma coisa ficar limpa depois do ocorrido, já que aparentemente o lago continuará com o lodo contaminado e o fundo sujo. LF
Prefeitura identificou problemas na área em 2006
Vitor Sorano – O Estado SP
Um relatório da Prefeitura de São Paulo divulgado em 2006 apontava a necessidade de cinco “intervenções” no Lago da Aclimação – que se esvaziou na segunda-feira. Dentre elas estava a promoção de “mecanismos de manutenção do volume de água”. A Secretaria do Verde e Meio Ambiente não informou quando e como esses serviços foram realizados nem quanto foi gasto.
O Relatório Preliminar do Estado dos Lagos dos Parques Municipais de São Paulo – no qual constam as intervenções necessárias – foi elaborado pela atual gestão para subsidiar convênios com entidades públicas e privadas. O objetivo do prefeito Kassab (DEM) era passar a responsabilidade por cuidar dos lagos de parques públicos a terceiros. Nenhuma parceria, porém, foi fechada para o caso da Aclimação.
Além da manutenção do volume de água, o relatório ainda cita a necessidade de recomposição da flora à beira do lago. “Em áreas ao redor ocorre ausência da vegetação, provocando erosão”, diz o documento. Também são previstos o diagnóstico da profundidade do lago e das características do lodo ao fundo.
As obras de melhoria no lago são feitas há cerca de um ano, segundo a Prefeitura. A primeira e a segunda etapas – que incluem a despoluição do Córrego Pedra Azul e a retomada da circulação de água – já foram concluídas. A terceira etapa, que entrará em fase de licitação, prevê a retirada do lodo e a construção de um novo vertedouro. Após a licitação, a obra deve ser concluída até o fim do ano. Dessa forma, a capacidade vai aumentar de 70 milhões para 110 milhões de litros.

Lama e peixes mortos vieram de bueiros; prefeito admite que sujeira pode até fazer mal
Marcela Spinosa e Mônica Cardoso – O Estado SP
Pelo menos três ruas vizinhas do Parque da Aclimação, na região central de São Paulo, amanheceram ontem com lama e peixes mortos. A sujeira subiu pelos bueiros, por onde passa a galeria de água pluvial. A tubulação sai do vertedouro, que rompeu segunda-feira e sugou, em menos de uma hora, a água do lago. Sem a “tampa”, a sujeira escoou pela estrutura, com a chuva de anteontem. Segundo a Prefeitura, o refluxo da água pelo bueiro pode ter sido causado pela própria galeria, que não suportaria o volume de água.
Os moradores receiam pegar algum tipo de doença se entrarem em contato com o lodo, uma vez que o lago recebeu esgoto até 2007, quando foram fechadas 42 ligações clandestinas. O prefeito Gilberto Kassab admitiu que o material está contaminado. Para o professor de Clínica Médica da Universidade Federal de São Paulo, Paulo Ozon, é preciso evitar o contato. “As pessoas que entraram em contato com o lodo podem desenvolver leptospirose e salmonelose (doenças causadas por bactérias). Elas devem procurar o médico e fazer uso de antibióticos.”
Os sintomas da leptospirose incluem febre alta, dor de cabeça forte, calafrio, dor muscular, vômito, olhos e pele amarelada, dor abdominal, diarreia e erupções na pele. Os sintomas mais comuns da salmonelose são diarreia, febre, cãibras estomacais, náusea, vômitos e dores de cabeça.
Apesar de estarem acostumados com enchentes, os moradores das Ruas Oscar Guanabarino, Maracaí e Albina Barbosa nunca imaginaram que veriam as vias com lodo. “Jorrava pelo bueiro. Parecia um poço de petróleo de tão escura que a água estava”, afirmou a aposentada Neide Moraes Fera, de 63 anos. Ela disse que a chuva durou cerca de 20 minutos, mas foi suficiente para deixar marcas de quase 1 metro de altura nas paredes. E pelo menos 17 rachaduras abriram no asfalto da Albina Barbosa, por onde passa a tubulação.
OBRA
Para evitar que o lodo do lago da Aclimação caia no vertedouro, a empresa Épura, responsável pelo conserto da estrutura, cercou ontem com pedaços de madeira o buraco por onde a água do lago escoa. A reconstrução da parte danificada deve começar hoje. No interior da estrutura será colocado um tubo de concreto, que pesa 2.300 quilos.

O que aconteceu na manutenção do lago do Parque da Aclimação? Porque o lago secou? O acidente era evitável?
Estas e outra interrogações devem estar na cabeça de muitos frequentadores do parque e também dos cidadãos que se preocupam pela situação da cidade.
Estas perguntas são legitimas e outras surgem à leitura dos jornais.
Em 2005, o então prefeito José Serra soltou um decreto autorizando as empresas privadas a “assumirem” a manutenção dos lagos dos parques municipais. Os quatro parques visados pelo decreto eram: Ibirapuera, Aclimação, Carmo e Cidade de Toronto. As empresas deveriam, segundo o decreto de Serra, cuidar de poluição da água, erosão ribeirinha, vegetação local, assoreamento dos lagos, fauna aquática, avaliação de qualidade da água e campanhas que estimulem a participação da população na conservação dos lagos. Em troca fariam a publicidade nos locais.
Que fim recebeu o decreto? Quais empresas assumiram “cuidar” do lago?
Segundo a Folha de São Paulo da época “Um relatório com a atual condição desses lagos e as medidas de manutenção e recuperação necessárias em cada um deles deve ser publicado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) em 120 dias.” (Folha SP 10/8/2005).
O relatório foi feito? Quais foram suas conclusões?
Segundo Gilmar Altamirano, 50, gerente de águas da SVMA, – citado no artigo da Folha na época- “o lago da Aclimação, na zona sul, é o que apresenta mais problemas. Levantamento da Sabesp (agência de saneamento paulista) apontou a existência de 23 imóveis que lançam irregularmente o esgoto nas galerias destinadas à água das chuvas -os dejetos são levados ao córrego Pedra Azul, que abastece o lago.”
Pois bem, é demais perguntar o que foi implementado nesses 4 anos para sanear esses e os outros problemas? A sujeira encontrada no lago pode ter sido uma das causas do rompimento do vertedouro?
Hoje, a Folha SP, mostra o jogo de esconde-esconde da prefeitura para escapulir das suas responsabilidades. Segundo o jornal: “A gestão do prefeito Gilberto Kassab (DEM) afirmou ontem ter realizado uma inspeção técnica em conjunto com a Sabesp no vertedouro do lago do parque da Aclimação em 2007, sem ter encontrado qualquer problema na estrutura que, na segunda-feira, se rompeu e dragou os 78 milhões de litros d’água que banhavam o local.
A companhia de saneamento do Estado de São Paulo, porém, desmentiu a prefeitura, ao ser procurada pela Folha, também ontem, para falar sobre o assunto. A assessoria de imprensa da Sabesp ressaltou que a empresa se limita a lidar com a qualidade da água do lago e que nunca participou de inspeções estruturais.”
Como se vê, muitas interrogações e poucas certezas. Uma dessas poucas certezas, pelo que mostram os jornais, é que Kassab não deseja transparência sobre o assunto. Os vereadores talvez desejem passar a limpo o assunto. A mídia poderá ir atrás é mostrar o que realmente levou a esse lamentável acidente que esvaziou o lago. LF
Nota.- A ação dos trolls*, completada pela preguiça de alguns jornais provavelmente devido ao carnaval, dificulta o entendimento sobre o acidente que esvaziou o lago do Parque da Aclimação.
É inverídica a afirmação dos trolls* sobre suposta reforma do lago durante a gestão petista como possível causa do acidente. Trata-se de uma campanha de propaganda visando a proteger a gestão Kassab sobre as carências em matéria de manutenção dos espaços e equipamentos públicos.
Sobre os trolls ver Prestem atenção aos Trolls
Prefeito nega que tenha havido falta de manutenção, mas admite que desgaste do vertedouro e temporal possam ter causado acidente ambiental. CGE, contudo, diz que chuva na região estava dentro da média para estação
MARCELA SPINOSA, JT
marcela.spinosa@grupoestado.com.br
A forte chuva de anteontem e o desgaste do vertedouro, sistema hidráulico que regula o nível de água, podem, segundo o prefeito Gilberto Kassab (DEM), ter causado o rompimento da tubulação que escoava o excesso de água do lago do Parque da Aclimação. Em uma hora, o acidente secou o lago e provocou a morte de peixes e aves – em número ainda desconhecido pelas autoridades.
Técnicos da empresa Épura, contratada ontem pelo município para investigar as causas, devem entrar hoje na tubulação para analisar a estrutura. Depois que descobrirem as causas do acidente e fizerem a despoluição da área, a Prefeitura informou que reconstruirá um novo lago, mas não apresentou um prazo para isso.
O vertedouro só não foi inspecionado ontem porque foi preciso construir uma espécie de passarela para caminhar sobre o lodo. “Não tem como andar ali porque a lama chega na altura do peito”, disse Valter Luis Verdramin, diretor do Departamento de Parques e Áreas Verdes (Depave).
De acordo com a Prefeitura, o dano ocorreu na tubulação que fica na base do vertedouro. Com o rompimento, onde antes havia um cano para a água escoar, ficou um buraco. Ou seja, o lago perdeu a “tampa” que retinha sua água. O resultado foi a drenagem da água do lago, 70 mil m³ – equivalente a 30 piscinas olímpicas -, e de peixes, aves e outros bichos. A água e os animais foram levados pelo “ralo” do lago, que passa pelos córregos Pedra Azul e Jurubatuba antes de desaguar no Rio Tamanduateí.
A Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente não soube informar o número de animais mortos. Equipes de fauna da pasta trabalharam ontem no resgate dos sobreviventes e contaram com a ajuda de frequentadores .
“Além do volume de água bastante intenso tivemos, muito possivelmente, um desgaste do extravador”, afirmou ontem Kassab, durante visita ao Parque da Aclimação. O Centro de Gerenciamento de Emergências da Prefeitura informou que choveu anteontem na região central 51,4 milímetros, quantidade considerada normal para a época de chuvas.
Em relação à manutenção do vertedouro, Kassab afirmou que o parque e a água do lago passam por inspeções e manutenções rotineiras. A Secretaria do Verde e o Depave não souberam informar quando foi feita a última vistoria na estrutura. “Não havia indícios nas observações visuais de que o vertedouro tivesse algum problema”, disse o chefe de gabinete da secretaria, Hélio Neves.
Segundo ele, a despoluição do lago ocorria normalmente. Neves disse ainda que o processo de limpeza era feito pela estação de tratamento de água instalada no interior do parque, modernizada há um ano pela Sabesp ao custo de R$ 800 mil, e pela instalação da máquina que faz a circulação da água do lago, inaugurada há um mês ao custo de R$ 170 mil. “A recirculação (da água) trata a água que já está no interior, sem haver necessidade de lançar líquido de fora no lago”, explicou.
Com a secagem do lago, foi possível ver a sujeira no interior dele. Ficaram à mostra pneus, pedaços de vidro, pedaços de plástico, garrafas, entre outros.
Ontem, durante o dia, técnicos da divisão de fauna retiravam os animais que insistiam em “nadar” no local. Apenas um deles resistiu: é um cisne negro fêmea que, até as 18h de ontem, continuava no meio do lago.
200 PEIXES E 40 AVES RESGATADOS
Técnicos da divisão de fauna da Secretaria do Verde e do Meio Ambiente retiraram, desde anteontem, 40 aves aquáticas, como patos, gansos e marrecos, e 200 peixes, entre eles carpas, do lodaçal em que se transformou o lago
Os bichos foram levados para o Parque do Ibirapuera e devem ficar lá até que um novo lago seja reconstruído na Aclimação
O único animal que resistiu foi a fêmea de um cisne negro. Ela continuava lá até as 18h. Segundo técnicos, a ave está no meio do lago, o que dificulta seu resgate


Moradores protestam contra inundações no Aricanduva
Cerca de 500 pessoas interditaram avenida contra obra feita pela prefeitura
PM conteve manifestantes; engenheiro da prefeitura diz que chuva foi forte demais para a capacidade de vazão do córrego Bento Henriques
LAURA CAPRIGLIONE – FOLHA SP
DA REPORTAGEM LOCAL
Cerca de 500 pessoas (a avaliação é da PM) interditaram a avenida Aricanduva, ontem à tarde, para protestar contra a obra de reurbanização da favela 9 de Julho, a cargo da Prefeitura de São Paulo. Foram contidos pela polícia, que usou balas de borracha. Até as 22h, a avenida, uma das principais artérias da zona leste, permanecia intransitável. Funcionários da prefeitura limpavam-na de entulhos, pedras e pneus queimados, espalhados por 800 metros pelos manifestantes.
Segundo os moradores, avalizados pelo engenheiro da prefeitura Carlos Tatsuo Hoshii, 56, erros de projeto nas obras de reurbanização, somados à forte chuva, provocaram a inundação de 700 barracos. Um caldo de água e esgoto com 1,20 metro de profundidade tomou a favela.
Eliana de Almeida, 28, que trabalha com reciclagem, chegou do serviço e encontrou a geladeira boiando no único cômodo de sua casa. O rack e o guarda-roupas recém-comprados nas Casas Bahia por R$ 600 ficaram imprestáveis.
Eliana tem três filhos que moram com ela, uma irmã e a mãe. Só restou um colchão de solteiro (o do andar de cima de um beliche) para acomodar toda a família. Ontem, o fogão não funcionava e os sacos de arroz e feijão da cesta básica se haviam perdido, encharcados.
Segundo o engenheiro Hoshii, uma chuva como a de ontem já seria forte demais para a capacidade de vazão do córrego Bento Henriques, que atravessa a favela e desemboca no rio Aricanduva. A situação piorou porque no ano passado foi construído um piscinão bem em frente, no Aricanduva. “Quando chove, o nível da água no piscinão sobe e , em vez de o Bento Henriques desembocar no Aricanduva, é o Aricanduva que joga as suas águas na calha do Bento Henriques, inundando a favela”, disse.
Ouvido pela Folha, o secretário Andrea Matarazzo (Subprefeituras) disse não dispor de informações de que o piscinão agrave a enchente.
Peixes, cisnes, gansos e tartarugas foram arrastados pela tubulação após rompimento do sistema de circulação da água
Sensibilizados, moradores e frequentadores tentavam resgatar animais que se debatiam na lama; causas ainda não estão claras

ANDRÉ CARAMANTE – FOLHA SP
DA REPORTAGEM LOCAL
O rompimento do sistema de circulação de água fez com que o lago do parque da Aclimação, no centro de São Paulo, se transformasse em um enorme lodaçal ontem à tarde. A água vazou para a tubulação interligada ao sistema que deságua no rio Tamanduateí, arrastando peixes, cisnes, gansos e tartarugas que nadavam no lago.
Sensibilizados, moradores e frequentadores tentavam resgatar animais que se debatiam na lama -segundo eles, nenhum funcionário do parque os ajudou na tarefa.
Peixes iam sendo colocados em baldes e transferidos para uma espécie de tanque próximo ao lago, em um resgate improvisado pelos usuários do parque. No entanto, apesar do empenho, vários dos animais não sobreviveram à mudança.
“Eles [os funcionários] ficaram de braços cruzados vendo a gente tirar peixes, gansos e cisnes e não fizeram nada. Agora querem expulsar a gente daqui com a desculpa que o parque fecha às 20h”, disse o músico Waldir Borges, 45, que havia ido fazer cooper no parque.
A instrumentadora cirúrgica Cristina Bertolozzi, 45, também ajudou no resgate. “Cheguei por volta das 18h e os peixes estavam morrendo. Eu e meus sobrinhos começamos a pegar os peixes e ninguém ajudou a gente em nada. Usamos baldes que outros moradores trouxeram para o resgate.”
A Folha presenciou o momento em que Cristina pediu a seguranças uma lanterna para ajudar no resgate dos peixes, já que a copa das árvores encobre as luminárias do parque na região do lago. A resposta do funcionário foi que a bateria do equipamento seria suficiente para apenas dez minutos, e que o tempo para recarga é de cerca de cinco horas.
Cautela
Heraldo Guiaro, diretor do Departamento de Parques e Áreas Verdes da Cidade São Paulo, órgão da prefeitura, tentava convencer as pessoas a saírem do lago. “A gente não sabe o que tem aí nesse lodo todo. Muito provavelmente é uma água que coloca a vida humana em risco. Temos preocupação com quem está entrando porque não se sabe o que pode acontecer. Não dá para ser assim, tem de ser com cautela.”
Às 20h20 um carro dos bombeiros com quatro homens chegou ao parque para resgatar dois cisnes atolados na parte mais central do lago.
Um bombeiro com uma corda amarrada ao corpo tentou caminhar até os animais, mas afundou no lodo até a cintura e teve de desistir da missão. À noite, funcionários da prefeitura buscavam um bote para fazer o resgate. Puxado por cordas, ele serviria como uma espécie de plataforma para que os bombeiros deslizassem na superfície de lodo.
Causas
O lago, de cerca de 33 mil metros quadrados, secou entre as 16h40 e as 17h30, após a forte chuva que afetou São Paulo.
Guiaro diz que o problema ocorreu com o rompimento da base de sustentação do vertedouro (canal artificial) do lago, espécie de caixa d” água que integra o sistema de circulação e controla o nível da água que entra pelo córrego Pedra Azul.
Segundo Guiaro, só hoje será possível definir as causas do acidente e elaborar obras emergenciais, que deverão ficar sob responsabilidade da Secretaria de Infraestrutura e Obras.
Parece lógico que retornando de suas férias, o governador José Serra perceba que a situação provocada pelas chuvas exige um acompanhamento mais apurado e uma intervenção mais eficiente, colaborando com os prefeitos que enfrentam situações difíceis nas suas cidades. Particularmente quando, como é o caso na cidade de seu afilhado Kassab, a prefeitura não tomou as medidas necessárias para minimizar os estragos provocados pela chuva (nem mapa de áreas em risco Kassab tem. O último foi de 2003, feito na administração de Marta Suplicy). A revolta da população de Cidade Ademar, que ontem voltou a manifestar, alem de expressar o desespero, mostra a irritação com o sumiço de Kassab. Datena, no seu programa na TV, tem explorado esta indignação vociferando: “Kassab, cadê você?”. LF
Adriana Ferraz do Agora
Os estragos causados pelas chuvas de verão já mataram 14 pessoas em todo o Estado de São Paulo e feriram outras 26. Dados da Coordenadoria Estadual de Defesa Civil também mostram que o número de pessoas desalojadas (que não podem ficar em casa pelo risco de enchente), apenas neste ano, já chega a 5.127. A Região Metropolitana de Campinas é a mais atingida.
Para amenizar os prejuízos foram gastos, até ontem, R$ 88,9 mil em assistência às famílias prejudicadas. O governador José Serra (PSDB) afirmou que o serviço está sendo prestado da melhor forma e que, por isso, não há plano emergencial em discussão.
Na capital, as maiores ocorrências estão relacionadas a deslizamentos de terra, quedas de muros e barracos, segundo a Defesa Civil.
O órgão também informou que foram registradas 51 ocorrências de queda de árvore durante o final de semana.
Áreas de risco serão mapeadas só após as chuvas
Adriana Ferraz do Agora
A Prefeitura de São Paulo vai fazer um levantamento das áreas de risco da cidade no período pós-chuva. O edital para a contratação de uma nova análise só será lançado em março e, por isso, os resultados poderão ser usados apenas no verão de 2010.
A falta de planejamento vai impedir, por mais um ano, que o período crítico seja trabalhado com dados mais atualizados. Segundo o CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências), da própria prefeitura, o primeiro trimestre acumula 42% das chuvas registradas em um ano.
A previsão do tempo para esta semana confirma a necessidade de um trabalho direcionado para evitar tragédias em temporais.
“Amanhã [hoje], por exemplo, vai chover o dia inteiro, mas mesmo sem pancadas fortes é possível que aconteçam inundações, por conta do volume d’água”, afirmou o meteorologista da CGE Michael Rossini Pantera.
De acordo com a previsão do CGE, fevereiro deste ano deve superar a média histórica de 217 mm -cada milímetro representa um litro de água no espaço de um metro². Nos nove primeiros dias deste mês, já choveu o equivalente a 34% do esperado.
Mapeamento de 2003
A última pesquisa contratada pelo município para áreas de risco é de 2003, ainda na gestão Marta Suplicy. Na época, 57.500 pessoas viviam em 562 pontos que foram considerados perigosos por estarem próximos a encostas e margens de córregos. Quase a metade oferecia risco alto ou muito alto.
“De lá pra cá, solucionamos praticamente 70%. Sabemos, porém, que a cidade é dinâmica, que cresce com rapidez e, por isso, estamos contratando uma atualização”, disse o chefe-de-gabinete da Secretaria Municipal de Coordenação das Subprefeituras, Lacir Baldusco.
O atraso no planejamento é justificado por um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) assinado com o Ministério Público Estadual, em 2005. “O estudo estava previsto, mas foi estabelecido que a prefeitura fizesse outros serviços, como limpeza de boca de lobo e drenagem, por exemplo. Só no ano passado, investimos R$ 100 milhões em obras de intervenção.”
O prefeito Gilberto Kassab (DEM) assegurou que está tomando as providências para atender a população no período de chuvas. Disse que a prefeitura tem planos específicos para regiões prioritárias.
“Já fizemos bastante coisa nos primeiros quatro anos e continuaremos fazendo. Choveu muito na região [referindo-se a Americanópolis, onde uma mulher morreu afogada dentro de casa no último sábado], que já é complicada. Já melhorou, mas precisa melhorar ainda mais”, disse.
O programa de ações refere-se às mesmas obras citadas por Baldusco. Kassab não comentou a defasagem no mapeamento das áreas de risco de deslizamento.
A secretaria promete que, além de investir no estudo novo de encostas, pesquisará também as áreas de inundação.
Bairro de morta na enchente vive dia de revolta
Bruno Ribeiro e Gabriela Gasparin do AGORA
Depois do temporal de sábado, ontem foi dia de contabilizar os prejuízos causados pela chuva e de limpar casas e ruas inundadas. No total, na Grande São Paulo, três pessoas morreram, casas foram inundadas, parte do teto do shopping Interlagos (zona sul) desabou e ruas da Pompeia ficaram inundadas, arrastando cerca de 30 carros.
Em Americanópolis (zona sul), onde houve uma morte, moradores protestaram queimando móveis e colchões avariados. Segundo eles, as enchentes pioraram após obra municipal em uma praça. A prefeitura nega.
Moradora do bairro, a servidora pública Jeovanice Marques de Carvalho, 52 anos, morreu afogada dentro da própria casa durante o temporal. Ela ficou prensada entre a parede e um armário que flutuou com a correnteza.
Jeovanice não foi a única vítima. Em Santo André (ABC), dois homens receberam descarga elétrica de um poste e morreram na tempestade.
Revoltados com o saldo da chuva, cerca de 50 moradores de Americanópolis fizeram uma grande fogueira com móveis, colchões e eletrodomésticos. Também impediram que agentes da Subprefeitura de Cidade Ademar retirassem o entulho ontem. A cada novo móvel lançado na fogueira, os manifestantes gritavam.
O fogo só foi dissipado uma hora depois, após negociação dos manifestantes com a PM. Só então o que foi destruído foi levado pela subprefeitura. Não houve prisões.
“Antes não alagava tanto assim aqui. Agora, com uma obra que a prefeitura fez na praça Lígia Salgado, a água sobe um metro em qualquer chuva. É a segunda vez que perdemos tudo em dois meses. A outra foi no Natal”, disse a vendedora Cláudia Aparecida Barcelos, 36 anos.
Uma moradora vizinha ao córrego do Cordeiro disse ter passado a noite ao relento. “Dormi sentada, com minha filha de um ano e meio no colo”, afirmou Kátia Alves da Silva, 24 anos. “Minha vizinha subiu no beliche e quebrou as telhas do teto de casa para escapar”, disse a estudante Roberta Matos.
Na zona oeste também houve estragos. Na Pompeia, lojas perderam mercadorias e ficaram fechadas para limpeza. A enxurrada também arrastou cerca de 30 carros anteontem na região.

Jornal da Tarde – JT
Marinheiro de primeira viagem como prefeito eleito diretamente pela população, Gilberto Kassab (DEM) inicia seu segundo mandato no comando da capital tendo de vencer algumas ‘ondas’ já nos primeiros meses de governo. São novos e antigos obstáculos que surgiram das promessas feitas durante as eleições e daquelas não cumpridas na gestão passada.
Já nos próximos 90 dias, Kassab terá de enviar à Câmara Municipal o Plano de Metas para este mandato (2009-2012), contemplando todas as obras anunciadas nas eleições, mas num cenário de crise e corte no orçamento da cidade, estimado em R$ 27,5 bilhões para este ano.
Antes de planejar os investimentos futuros, porém, Kassab terá de cumprir um passivo de R$ 5 bilhões em obras prometidas na gestão passada e inacabadas. Logo no fim deste mês, até o início das aulas, o prefeito tem a missão de entregar 11 Centros Educacionais Unificados (CEUs), cada um ao custo de R$ 20 milhões. A assessoria do democrata diz que só faltam cinco dos 25 prometidos na gestão passada.
Outra onda formada em 2008 que ainda precisa ser superada pelo prefeito é a promessa de repassar R$ 1 bilhão para obras do metrô, o que, segundo Kassab, ocorreria no ano passado. A cifra foi uma das mais utilizadas por ele durante a campanha eleitoral, mas ainda restam R$ 302 milhões. Além disso, outros R$ 1 bilhão deverão ser repassados até 2012.
O prefeito já admitiu que outra promessa sua para 2008 não será cumprida nem mesmo este ano: eliminar o “turno da fome” das escolas municipais, o que deve ocorrer só “ao longo de 2010”, segundo ele mesmo. Agora, o fim do período de aulas da hora do almoço, das 11h às 15h, desenha-se como um tipo de onda que pode estourar a qualquer momento.
O mar do segundo mandato kassabista pode ficar ainda mais revolto se a temporada de chuvas for forte também em São Paulo. Após as tragédias de Santa Catarina e os estragos em Minas Gerais, o prefeito chegou a dizer que a cidade estava preparada contra os temporais, mas três pessoas já morreram na capital por causa das chuvas neste verão. Até março, a onda pode ser grande.
Todos os obstáculos, naturais ou não, estão ainda sob a sombra da maior de todas as ondas turbulentas desta gestão: o corte de gastos. Durante a campanha, Kassab reiterava que a cidade estava preparada para enfrentar a crise, mas, no mês passado, o prefeito articulou com a base governista na Câmara corte de R$ 1,9 bilhão no orçamento deste ano.
É neste cenário de incertezas que Kassab terá de cumprir a extensa lista de promessas feitas, entre elas a construção de três hospitais e a de zerar o déficit de vagas nas creches municipais. “É preciso navegar com cautela nessas águas turvas”, afirmou Kassab em sua posse, na última quinta-feira, após admitir o congelamento de verba para este ano.
As enchentes da semana retrasada na cidade de São Paulo não provocaram nenhum artigo editorial da Folha ou dos seus articulistas. O Estadão fez um editorial entusiasta de apoio a Kassab com o argumento que não morreu ninguém (informação lamentavelmente inexata). Sobre este editorial ver aqui no blog Euforia natalina.
Uma rápida busca no portal da Folha permite ver que nem sempre as enchentes em São Paulo tiveram um tratamento tão “seco”. Leiam embaixo algumas das opiniões, no ano 2002. Todas as fotos e o vídeo aqui reproduzidos são de 2008. LF

CLÓVIS ROSSI
As cinzas de São Paulo
SÃO PAULO – Carlos Tramontina, o apresentador da segunda edição do “SP-TV”, da Rede Globo, tinha toda a razão ao alertar o espectador de que não estava mostrando cenas de guerra e, sim, das enchentes que rapidamente engolfaram São Paulo no fim da tarde de ontem.
O que se via, pelo menos na avenida Aricanduva, era, de fato, o retrato de uma cidade derrotada. Carros amontoados uns sobre os outros, passageiros subindo nas capotas para escapar, o lixo amontoado -enfim, cenas idênticas às do ano passado, do ano retrasado, de cinco anos atrás, dez anos antes.
Com certeza, vai começar de novo o joguinho de distribuir culpas. A prefeitura dirá que a enchente é estadual, o Estado dirá que a enchente é municipal, e sempre haverá algum chato para culpar o presidente Fernando Henrique Cardoso.
É um pouco como o caso da dengue no Rio, em que não se sabe direito se o mosquito é estadual, federal ou municipal. Seria tudo tão ridículo, não fosse tão trágico. Os políticos brasileiros parecem empenhados em imitar a Argentina, ou seja, em convidar ao repúdio a todo o sistema político-partidário.
No ano passado, a prefeita Marta Suplicy ainda podia tirar o corpo fora e dizer que assumira recentemente e, portanto, a enchente não era dela, mas dos antecessores.
Agora, não dá mais. Quatorze meses de gestão é tempo suficiente para, pelo menos, começar um trabalho que evitasse as cenas dantescas que a televisão mostrava no começo da noite. Ainda mais que a chuva não parece ter sido tão formidável para que toda a culpa seja jogada para o velho e bom são Pedro.
Afinal, não é segredo para ninguém que a cidade é, digamos, “inundável”.
Todo mundo sabe quais são as áreas mais sujeitas a risco.
O fato é que São Paulo tornou-se um inferno, e ninguém mostra talento e competência para levá-la pelo menos para o purgatório.
FOLHA DE SÃO PAULO – 14 de fevereiro 2002
Natal 2008
(…)Mal completado um ano de sua administração, duas enchentes em São Paulo bastaram para encerrar o prazo de carência concedido a Marta Suplicy. Já saiu ela com apressadas explicações, provável ponto de partida da série que conduz, em tantas administrações, as boas intenções iniciais aos fins mais lamentáveis. (…)
Janio de Freitas – FOLHA SP 14 de fevereiro 2002
Editorial Folha SP 16 de fevereiro 2002
PLANO PÉSSIMO
Autocrítica sempre faz bem. Em política, trata-se de elemento escasso. Tão escasso que, quando usado, deixa inevitavelmente no ar a impressão de que o governante quer livrar-se de responsabilidades. Não parece ser esse o caso do “mea culpa” lançado pela prefeita de São Paulo, Marta Suplicy. Diante de mais uma inundação com consequências danosas na cidade, qualificou o plano de contingência de sua própria administração como um “paliativo péssimo” para as consequências das tempestades de verão.
Batizado de SP Protege, o programa aplica a “filosofia” da diminuição de danos com as enchentes. Uma vez que não se pode evitá-las no curto prazo, uma coordenação de esforços entre instâncias do poder público, organizações civis que atuam localmente e moradores ao menos tenta minimizar os estragos. Informações sobre risco iminente de inundação são fornecidas; ações de defesa civil são mobilizadas e mutirões de limpeza são enviados para os locais tão logo haja condições de trabalho.
Com o programa, na verdade, a prefeitura não faz nada mais que uma de suas obrigações. Se logrou constituir um serviço mais eficaz, centralizando operações de emergência, também não fez mais que cumprir uma atribuição que é sua. Mas é evidente que não se pode confundir esse tipo de ação com o que se faz necessário para diminuir os alagamentos em São Paulo.
Na região do córrego Aricanduva, que se transformou num lago urbano em menos de uma hora de chuva na quarta-feira, é consenso que vários piscinões precisam ser construídos e a calha do Tietê, aprofundada para contornar a causa do problema. Há três desses piscinões ao longo da calha do córrego. A prefeitura deve entregar mais um até o fim do ano.
São obras que custam caro e dependem de articulação orçamentária nas três instâncias de governo e de financiamento externo. Mas não há dúvidas de que são prioritárias.
São Paulo paga caro por um longo histórico de erros graves na ocupação do solo. O pior é que basta uma olhadela no que continua a ocorrer, por exemplo, nas áreas de proteção de mananciais para notar que nem sequer o problema da urbanização predatória e irracional foi sanado. Há muito a fazer. A começar do básico.


A Folha e o jornal Agora publicam entrevista com o prefeito Gilberto Kassab. Uma boa entrevista que permite medir a capacidade de Kassab de fugir de suas responsabilidades.
Por exemplo, porque o número de crianças sem creche aumentou nos quatro anos do mandato? A pergunta não foi assim formulada, mas esta realidade denunciada durante a campanha eleitoral pelo candidato tucano Geraldo Alckmin, encontra como resposta a cantilena do descaso anterior. Mas na gestão anterior o número de crianças fora das creches foi diminuindo ao longo dos quatro anos.
Outro exemplo, porque a avaliação do transporte público passou de uma aprovação de 61% em 2004 a uma desaprovação de 60% hoje? Para Kassab -sem rir-, é porque “herdou políticas equivocadas em matéria de transporte”. Ou seja, a população aprovava o “erro” da gestão anterior e desaprova o “acerto” da atual política. Mas qual sería esse “erro” e qual é o “acerto”? Não ter construído um único corredor em quatro anos pode ser um ” acerto”? Ter construído mais de 100 Km de corredor, renovar a frota e criar o Bilhete-Único foi o “erro” da Marta? Mas mesmo assim, porque caiu 11% a avaliação nos principais corredores da cidade entre o ano passado e hoje? O que piorou em um ano? porque? A questão não foi tocada, mas o silêncio de Kassab é eloqüente.
E as enchentes? Porque com R$10 bilhões de reais a mais foram construidos nos últimos quatro anos muito menos piscinões que na gestão anterior? A pergunta não foi feita, mas o entrevistador não deixou passar o assunto. Kassab não consegue dar nenhuma indicação do que foi feito na área. Diz que o fundamental é salvar vidas. Vários já morreram nos últimos 4 anos como conseqüência das enchentes. Ainda hoje três crianças estão desaparecidas. Os mapas estão desatualizados (o último é de 2003). As obras projetadas não foram realizadas. Sem rir, Kassab diz que a coisa melhora e melhorará se a cidade continuar elegendo administrações como a dele. Mas para continuar fazendo o que, no combate as enchentes?
Para concluir, o prefeito recusa a idéia que a criação de novas secretarias implique qualquer “inchaço” da máquina pública. A criação de mais de 170 cargos decorrente deste inchaço é só eficiência administrativa.
O verdadeiramente curioso desta entrevista é que Kassab não expõe qualquer objetivo, plano, programa ou proposta que possa ser objeto de um acompanhamento da população ou da mídia. O vazio das propostas é o eco da mediocridade dos resultados. Como se vê o congelamento não é só do orçamento.
O resultado eleitoral foi uma indiscutível vitória para Gilberto Kassab, ela não é um cheque em branco para premiar essa mediocridade.
A seguir a entrevista de Kassab publicada na Folha SP de hoje. LF
Orçamento será congelado em 2009, anuncia Kassab
Prefeito reeleito de São Paulo diz que corte será amplo, mas não atingirá áreas sociais
O DISCURSO DO PREFEITO de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), 48, está menos otimista dois meses após ter sido reeleito.
Às vésperas de tomar posse para seu segundo mandato, ele agora declara que a crise econômica “adquiriu uma dimensão grande” e que ela vai reduzir a arrecadação. Já anuncia para 2009 um congelamento do Orçamento da capital paulista.
Embora a extensão do congelamento ainda não seja revelada, Kassab já adianta que ele “será bastante amplo”. O prefeito paulistano se compromete a preservar somente as áreas sociais.
Eduardo Knapp/Folha Imagem

O prefeito Gilberto Kassab em sala de reuniões do edifício onde mora
ALENCAR IZIDORO – FOLHA SP
DA REPORTAGEM LOCAL
O anúncio do congelamento de verbas se dá depois do corte de R$ 1,9 bilhão feito pelos vereadores no Orçamento recém-aprovado pela Câmara Municipal -da previsão de R$ 29,4 bilhões para R$ 27,5 bilhões. O objetivo da medida, diz Kassab, é ter “tranqüilidade para enfrentar uma eventual redução de receitas que ainda não identificamos qual será”.
Na prática, significa que a contratação de novos projetos e de novas despesas deverá ficar bastante limitada. O congelamento poderá ser flexibilizado no decorrer do ano -para evitar que vire um corte definitivo- se a arrecadação não for muito afetada pela crise.
Em entrevista concedida à Folha ontem, Kassab disse que, mesmo a prefeitura sabendo dos pontos crônicos de alagamento de vias públicas na época de chuva, “seria uma leviandade” dizer que fará obras para resolvê-los dentro de quatro anos. Para ele, a prioridade deve ser as áreas de risco onde vivem “famílias que podem morrer se forem atingidas”.
Leia trechos da entrevista:
FOLHA – Qual será a principal mudança no segundo mandato?
GILBERTO KASSAB - O que a cidade pode esperar é a continuidade da melhora da eficiência do uso do recurso público.
FOLHA – O Cidade Limpa foi no primeiro mandato uma das marcas principais da administração…
KASSAB - Não. O principal foi saúde e educação. De longe, essa é a nossa marca.
FOLHA – Mas na campanha de 2004 uma das promessas era zerar o déficit de creches…
KASSAB - E vamos, nessa nossa gestão, que é de oito anos, zerar. Criamos 60 mil vagas em creche. É um número extraordinário. O compromisso assumido está sendo cumprido.
FOLHA – Por que não foi possível cumprir em quatro anos?
KASSAB - Não é que não foi possível. É lamentável o descaso das administrações anteriores.
FOLHA – Por que alguns secretários mais próximos do governador José Serra (PSDB), como Andrea Matarazzo (Subprefeituras) e Manuelito Pereira Magalhães (Planejamento), estão perdendo poder agora?
KASSAB - Eles são também muito próximos a mim. Por que estariam [perdendo poder]? Não houve alteração, todos continuam motivados.
FOLHA – O novo mandato vai ter mais a cara do sr.?
KASSAB - Vai continuar com a mesma cara. Se tinha a minha cara antes, vai continuar. Se não tinha, vai continuar. Não muda nada.
FOLHA – A cidade já começa a sofrer mais uma vez com as enchentes. A própria prefeitura sabe de 30 pontos crônicos de alagamento há mais de dois anos e, mesmo assim, eles voltam a alagar. A gestão se preparou?
KASSAB - Sim, principalmente em relação às áreas de risco. Quando se fala em enchentes, antes de mais nada tem que pensar em proteger as pessoas que correm risco de vida. Os paulistanos vão entender que essa é a prioridade.
Quanto aos pontos sujeitos a alagamento, estamos atuando em várias frentes, construindo com o Estado o piscinão do Pirajuçara, encerrando as obras do Aricanduva, canalização, limpeza de bueiros, como nunca teve na cidade de São Paulo. E também obras de dimensão pequena ou média que contribuem para que a gente não tenha outros pontos de alagamento. Administrar é estabelecer prioridades. Não há cidade do porte de São Paulo, com seus problemas e seu Orçamento, que consiga resolver todos os problemas em quatro anos.
FOLHA – O CGE (Centro de Gerenciamento de Emergência) listou há dois anos 30 pontos que eram considerados mais sérios, que costumavam alagar com mais freqüência…
KASSAB - Ele apresentou 30 que estavam em observação, mas havia outros. Senão fica parecendo que, quando assumimos, só havia os 30 pontos e que não fizemos nada nesses 30.
FOLHA – Os pontos de alagamento são de conhecimento do poder público. Daqui a quatro anos terão sido realizadas obras em todos?
KASSAB - Seria uma leviandade. Sempre digo que na vida pública se trabalha com metas, não com prazos. A meta é avançar o máximo possível.
FOLHA – Algum dia São Paulo vai se livrar dos terríveis alagamentos?
KASSAB - Tenho certeza. Basta continuar tendo administrações como a nossa. E sempre preocupado em primeiro lugar com as áreas de risco, que envolvem famílias que podem morrer se forem atingidas.
FOLHA – O mapeamento das áreas de risco está cinco anos desatualizado. Por quê?
KASSAB - Tem vários mapeamentos na cidade, da Secretaria da Habitação, Polícia Militar,Defesa Civil. Não tem nenhum sentido fazer um mapeamento todos os anos de todas as áreas.
FOLHA – Que impacto a crise econômica pode ter nas promessas de campanha do sr. e nas demais atividades da prefeitura?
KASSAB - A crise existe, adquiriu uma dimensão grande. Hoje é globalizada. Temos uma preocupação grande. Vamos procurar, através de criatividade, criar novas fontes de receita, como analisar a criação de novas operações urbanas, a concessão de serviços. Mas é evidente que a crise afeta. As receitas serão reduzidas. O próprio governo federal já informou que suas receitas estão diminuindo. O governo do Estado também já nos transmitiu que está reduzindo suas receitas. E a prefeitura tem seu Orçamento baseado também no repasse de receitas de verbas do governo federal e estadual. Nossas receitas [de impostos municipais] ainda não diminuíram. Serviços são sempre osúltimos da fila a terem queda. Mas vamos ter com certeza e estamos trabalhando com essa expectativa.
FOLHA – Se não for possível conseguir novas receitas, que medida…
KASSAB - Já determinei ao secretário de Planejamento para que, no início do ano, congele recursos. Vamos ter um congelamento do Orçamento. Ainda não foi definida a extensão. Depois vamos definir as áreas que terão cortes. Mas com certeza não serão na área social.
FOLHA – A dimensão só será definida nos próximos dias?
KASSAB - Exatamente. Mas será bastante amplo. É mais do que correto que seja assim para nos dar tranqüilidade para enfrentar uma eventual redução de receitas que ainda não identificamos qual será.
FOLHA – Algumas obras terão um ritmo menor no começo de 2009?
KASSAB - Seria prematuro fazer uma afirmação antes de definir o contingenciamento.
FOLHA – O Serra, em 2004, criticava o inchaço da prefeitura. O sr. criou novos cargos e secretarias, como a da Segurança. Não é uma contradição numa situação de crise?
KASSAB - Não. Em relação à Secretaria da Segurança, ela adquiriu uma dimensão muito maior. São cargos que foram ou teriam sido criados independentemente de ser secretaria ou não. Ao longo dos quatro anos tivemos vários cortes e vamos continuar a ter, porque nossa meta é enxugar. Mas diminuir não significa não ter preocupação em dar mais eficiência. Não criamos novas secretarias, só transformamos o cargo do coordenador em cargode secretário. Não posso concordar com a afirmação de que foi criada uma nova estrutura.
FOLHA – A crise econômica não põe em xeque a promessa de campanha de manter a tarifa de ônibus de R$ 2,30 congelada no ano que vem?
KASSAB - Não. É nossa prioridade. Tarifa é social. Ainda mais num momento em que há expectativa de aumento do desemprego.
FOLHA – O reajuste em 2010 será inevitável?
KASSAB - Não é que é inevitável. É natural. Temos a felicidade de ficar três anos sem aumentar a tarifa. Vamos dar um aumento mínimo possível.
FOLHA – Que áreas prejudicariam menos a cidade se sofressem cortes?
KASSAB - Tem áreas que já foram apartadas de qualquer corte que são as sociais. Agora vamos aguardar se haverá queda nas receitas, se conseguiremos ou não novas fontes de receitas, para depois definir eventuais cortes. Até porque o Orçamento estará contingenciado desde o primeiro dia da gestão.
FOLHA – Pesquisa recente mostrou que a aprovação aos ônibus é a mais baixa da década. Qual é a razão?
KASSAB - É importante apartar da pesquisa o nosso corredor Expresso Tiradentes, onde 90% aprovam e estão felizes [pelos dados divulgados, foram 76% de excelente ou bom]. Mostra que a prioridade da minha administração de fazer transporte público de qualidade está correta. Herdamos políticas equivocadas em transporte. A população hoje paga o preço dessa falta de investimento.
FOLHA – A aprovação aos ônibus era maior. Por que piorou?
KASSAB - O importante é que melhorou a qualidade dos investimentos.
FOLHA – Mas então os usuários de ônibus não perceberam?
KASSAB - É natural que, numa cidade que cada vez cresce mais e que não tivemos investimento em transporte público nas administrações anteriores, enquanto não tivermos os resultados dos investimentos que agora acontecem você não tem essa expectativa.
FOLHA – A cidade ganha mil carros por dia. O trânsito vai estar pior do que hoje no final do seu mandato?
KASSAB - Daqui a quatro anos vamos ter os primeiros resultados da ação do poder público municipal e estadual, a ampliação da malha metroviária, dosnossos corredores de ônibus. Acredito que estará melhor.
FOLHA – O sr. pode sair candidato ao governo estadual em 2010?
KASSAB - Não. É o primeiro cargo majoritário que ocupo tendo sido eleito. Ficarei os quatro anos.
FOLHA – Quem são os bons nomes para o governo em 2010?
KASSAB - Em São Paulo nós temos uma aliança. Meu esforço é para manter essa aliança já no primeiro turno. Meu partido tem bons quadros. Destaco entre eles o Guilherme Afif Domingos. Mas essa aliança vai ser conduzida pelo Serra.
FOLHA – O sr. apoiaria o Alckmin?
KASSAB - Não gostaria de falar de nomes. É muito prematuro.