29/08/2012 - 18:00h Tamanho não é documento

Ou de como os curtas conseguem refletir o País em toda a sua complexidade

29 de agosto de 2012

LUIZ CARLOS MERTEN – O Estado de S.Paulo

É um título que pode induzir o leitor a pensamentos libidinosos, ainda mais que o filme se chama Porn Karaokê. Mas é bom não se equivocar. A ideia é só chamar a atenção para um fato incontestável. Formato e suporte são meros detalhes. Alguns dos melhores e mais intrigantes filmes brasileiros da atualidade você pode ver, ou talvez já tenha visto, no Festival de Curtas. Como o citado Porn Karaokê, de Daniel Augusto. Karaokê pornográfico. É um espaço. Uma adolescente que viu estranhas tatuagens surgirem em seu corpo – e depois elas desaparecem – busca explicações no Porn Karaokê. Existem referências a David Lynch. Los Angeles é um ponto no mapa, no centro do mundo da protagonista.

Outra grande cidade, São Paulo, é a protagonista de Cidade Improvisada, de Alice Riff, que investiga o universo do rap. Quando improvisam seus versos e cospem palavras iradas sobre a injustiça social e o caos urbano, os MCs que dropam freestyles diante da câmera da diretora colocam a voz da periferia na tela. O filme começa com (e ao longo dele voltam) as imagens de um equilibrista que caminha sobre os estreitos parapeitos de viadutos. Esse movimento precário assume uma dimensão metafórica. Os MCs são 15 e talvez seja até injusto destacar só um punhado deles – Max V.O., Slim Rimografia, Bebel Du Ghetto, DD. Na sessão de sábado à tarde no Cine Olido, no centro de São Paulo, o público aplaudiu em cena aberta as improvisações. A maior ovação foi para DD. A todos os problemas de quem vive na periferia ela acrescenta o da sua particular identidade. Ser mulher não é fácil em qualquer lugar.

O local, como em Porn Karaokê, era muito importante. Nos amplos corredores que dão acesso ao conjunto de salas da Galeria Olido, nos sábados à tarde, os street dancers fazem daquele lugar o palco de suas exibições. A cidade pulsa, em toda a sua complexidade, naquelas coreografias e nas improvisações. A cidade é, pelo contrário, estagnada no curta de Liliane Sulzbach que tem esse título – A Cidade. Ela é habitada por velhos, e o espectador é introduzido à rotina de um lugar que parece parado no tempo. Aos poucos, revela-se uma história. A superação de um drama doloroso.

A cidade é o que sobrou do antigo leprosário de Itapuã, junto ao rio, na Grande Porto Alegre. A lepra, ou Mal de Hansen, sempre foi motivo de estigmatismo social, e isso desde tempos imemoráveis. Basta lembrar os leprosos de Ben-Hur, de William Wyler, tratados como tragédia, e os de O Incrível Exército de Brancaleone, de Mario Monicelli, como humor. O projeto do leprosário surgiu para segregar os enfermos. Eles eram separados da família, estimulados a viver entre eles. Sobraram poucos, 35, que ainda vivem ali. As modernas formas de tratamento e cura tentam acabar com o preconceito. Aquelas pessoas, os sobreviventes, são todas sexagenárias, ou mais. Amargam dores. Uma lembra que era muito jovem ao ser arrancada de casa e levada para um lugar que seria ‘lindo’, foi o que lhe disseram. Outra observa que aquele grupo é a sua verdadeira família. A outra, a biológica, desertou de sua vida há muito tempo.

Liliane Sulzback é autora de outro belo curta sobre a infância. Aqui, busca outro segmento na linha de tempo. A cidade parece morta e, quando ela acrescenta à montagem as cenas do passado, para mostrar como era o leprosário, quando cheio, as pessoas parecem sem vida naquelas imagens em preto e branco. São sempre vistas em grupo, caminhando para o mesmo lugar, como zumbis. “Sair para onde, se vivi sempre aqui?”, uma delas se pergunta. E, malgrado todo sofrimento, homens e mulheres cantam, como num filme do inglês Terence Davies, o sublime Vozes Distantes, de 1988.

Daniel Augusto tem feito curtas que dialogam com a história e a cultura norte-americanas. Fordlândia, em parceria com Martinho Andrade, é sobre a cidade construída numa gleba da Amazônia (e depois abandonada) por Henry Ford. She Is Lost Control, com base na música do Joy Division, é sobre uma garota que sofre um acidente e se indaga sobre a própria identidade. A garota e a busca da identidade estão de volta em Porn Karaokê. As marcas que surgem e desaparecem são metáforas do próprio cinema. Não se iluda. A duração pode ser curta, mas o efeito desses filmes no imaginário do público – no seu imaginário – persiste.

15/08/2012 - 18:02h Meirelles filma histórias de culpa e desejo

Divulgação / Divulgação
Fernando Meirelles com Anthony Hopkins, uma das estrelas de “360″, que também traz Jude Law e Rachel Weisz; segundo o diretor, experiência o deixou mais seguro para dirigir qualquer tipo de ator


Por Marília de Camargo Cesar | VALOR

De São Paulo

As lentes sempre grandiloquentes de Fernando Meirelles escolheram desta vez focar na imensidão do coração humano. Com produção multinacional e elenco estelar (Anthony Hopkins, Jude Law, Rachel Weisz, Ben Foster e os brasileiros Maria Flor e Juliano Cazarré), “360″, que entra em cartaz na sexta, trata com delicadeza uma aflição comum: a eterna necessidade de conter o desejo, por questões de consciência.

São nove histórias de amor e relacionamentos que se intercalam, gravadas em várias cidades da Europa e dos Estados Unidos. A última delas retorna ao começo, completando um ciclo (360°) e, provavelmente, iniciando outro, o que remete a uma espiral.

Trabalhar com atores de tão diversas nacionalidades foi uma experiência singular, conta Meirelles. “Acho que hoje me sinto mais seguro para dirigir qualquer tipo de ator. Esse filme me ajudou a perceber isso.” Mas ele também revela, de um jeito divertido, aquela que considera sua fragilidade no set: “Sou meio banana, tendo a ficar com pena dos atores ou da equipe e às vezes não vou até onde poderia ir para não aborrecer todo mundo”.

Sua meta em “360″, afirma, era fazer um filme “pequeno e despretensioso”. Meirelles acredita, porém, que retratar as angústias da alma humana é trabalhar em algo tão nobre quanto escancarar a miséria de uma nação, como fez no premiado “Cidade de Deus” (2002), ou nos grandes temas de suas outras obras.

Valor: “Cidade de Deus”, “Jardineiro Fiel”, “Ensaio sobre a Cegueira” e agora “360″, adaptado da obra de Arthur Schnitzler. Essa diversidade não pode colocar em risco a definição de uma filmografia mais autoral?

Fernando Meirelles: Não me importo muito em ser visto como um autor ou em estar construindo uma carreira. Não tenho mais idade para isso. Conto as histórias que, por razões diferentes, me interessaram e acho que justamente o fato de elas serem diferentes é o que me instiga. Elas me obrigam a aprender coisas novas e a inventar soluções. Quando eu me sinto mais seguro, andando em um terreno já percorrido, fico meio no piloto automático e não dá certo. Ao menos não para mim.

Valor: O que esse novo trabalho trouxe tanto em termos pessoais como profissionais?

Meirelles: Queria muito fazer um filme pequeno, fácil de ser assistido, despretensioso. “360″ me pareceu um bom roteiro nesse sentido. Achei interessante poder trabalhar com o roteirista Peter Morgan e sabia que poderia contar com um ótimo elenco internacional, como aconteceu. Isso também me motivou. O processo foi tão tranquilo que, às vezes, eu me perguntava se não estaria fazendo algo errado, me cobrando pouco. Hoje eu me sinto mais seguro para dirigir qualquer tipo de ator. Esse filme me ajudou a perceber isso.

Valor: As histórias de “360″ mostram pessoas movidas pela culpa e por uma preocupação com a própria reputação. O que mais nos impede de ceder a nossas pulsões – o medo de sermos pegos ou a culpa por eventualmente fazer algo moralmente errado?

Meirelles: Parece que nós já nascemos culpados. A ideia do pecado original é isso, já saímos da barriga da mãe com uma dívida. Freud falava do complexo de Édipo como parte do processo de nosso desenvolvimento. A culpa tem papel fundamental ali por querermos matar o pai e ficar com a mãe. A culpa é uma espécie de freio que nos impede de ir aonde nos levariam nossas pulsões. Ela nos faz reprimir nossos impulsos e sublimar nossos desejos, criando assim a cultura. Não há saída para nossa culpa a não ser administrá-la. Estamos condenados a não ser plenamente felizes e a viver com essa angústia instalada no peito. E ainda bem que é assim. Uma pessoa sem culpa é uma ameaça ambulante.

Valor: Transportando esse raciocínio para o universo político brasileiro, como responderia a essa mesma pergunta?

Meirelles: Na esfera individual, quem não consegue enxergar o outro ou não sabe o que é culpa são os psicopatas. Na política, o distúrbio análogo é a sociopatia. Os sociopatas são indivíduos egocêntricos, desprovidos de valores morais, que desconhecem as regras do convívio social, as leis e obrigações. Um sociopata, tipo muito comum entre homens públicos, não sente remorso nem culpa pelo que faz, portanto nunca será modificado, mesmo se punido. Não há STF [Supremo Tribunal Federal] que o breque.

Valor: Seu filme também fala sobre o medo da punição como fator inibidor da plena realização de nossos desejos.

Meirelles: O filme fala sobre medo de punição por tabela, mas me parece que, em todas as histórias, os personagens estão lidando mesmo é com suas consciências. Não há antagonistas, a luta é sempre interna. Mesmo no caso do estuprador, seu medo maior é ter de enfrentar o julgamento dos que estão a seu redor, e não a lei. Em “360″, há um momento em que o Ben Foster se sente observado quando está ao telefone e, como reação, toca de leve o pé de uma menina. Esse toque é muito mais por uma necessidade absurda de contato humano para aliviar a solidão do que a busca por sexo.

Valor: Você já disse que os convites para dirigir filmes costumam ir aparecendo e você acaba, muitas vezes, sendo levado por eles. O fato de ser assediado por produtores internacionais não o impede de ter mais tranquilidade para escolher o próximo filme?

Meirelles: Quando começo a achar que já está na hora de filmar de novo, fico mais vulnerável a propostas que possam aparecer na minha frente. No fim do ano, começo a rodar um novo longa, “Nemesis”. Comecei a trabalhar no roteiro com o Bráulio Mantovani desde o início e me lembrei de como é bom desenvolver um filme do zero, coisa que eu não fazia desde “Cidade de Deus”. Depois dessa constatação, pretendo resistir mais a convites e tentar desenvolver minhas próprias histórias.

Valor: Em que estágio se encontra a produção de “Nemesis”? Você já fechou o elenco?

Meirelles: O roteiro está muito bom, eu estou animado. É uma biografia do [armador grego Aristóteles] Onassis, mas na verdade é uma história sobre o ódio. Aliás, já que toquei no assunto, o Onassis era um sociopata típico, charmoso e sedutor como todos os sociopatas são. O elenco está sendo contatado e será anunciado durante o festival de Toronto, em setembro.

Valor: Se pudesse escolher um tema universal para um futuro filme, qual você escolheria e por quê?

Meirelles: Adoraria fazer um filme sobre a questão ambiental. Penso nisso, mas ainda não achei um jeito ou uma história para falar sobre esse assunto sem parecer um “ecochato” ou um “biodesagradável”.

Valor: Essa migração de grandes talentos brasileiros para as produções globais não nos priva de ver temas locais e socialmente relevantes abordados por cineastas como o senhor? Ou o cinema não deve ter essa preocupação?

Meirelles: O cinema pode ter essa preocupação, mas não precisa tê-la necessariamente. Falar da psique humana, de questões afetivas e da ciência ou fazer rir são igualmente temas nobres. Tenho feito filmes fora do Brasil por uma questão de conveniência: eles são mais fáceis em relação a financiamento e já nascem com distribuição mundial garantida. Mas ando com muita vontade de voltar a filmar em português e isso deve acontecer depois de “Nemesis”.

15/08/2012 - 17:00h Mostra de cinema francês traz diversidade da produção do país


Festival Varilux 2012 exibe 17 filmes e leva convidadas como Nadine Labaki e Astrid Frisbey

14 de agosto de 2012

Luiz Carlos Merten – O Estado de S. Paulo

Sem a participação da Reserva Cultural nem da Unifrance – a Ancine da França -, começa nesta quarta-feira, 14, mais uma edição do Festival Varilux do Cinema Francês, que nos últimos anos tem trazido ao País filmes e convidados para incrementar a presença francesa nas telas do Brasil. O festival deste ano traz filmes de sucesso como Os Intocáveis, de Éric Toledano e Oliver Nakache, que não tem nada a ver com a adaptação da série de TV (por Brian De Palma). Os Intocáveis arrebentou nas bilheterias da França, é considerado um dos maiores êxitos de público da história do cinema no país e tem estreia prevista no Brasil no dia 31.

Cena de 'Os Intocáveis' - Divulgação

Cena de ‘Os Intocáveis’

Vai ser um teste para a obra de Toledano e Nakache. Os filmes franceses que costumam agradar ao público brasileiro são mais autorais. Em matéria de ‘blockbusters’, o espectador nacional prefere Hollywood, mas Os Intocáveis, Les Intouchables, chega precedido de ótima reputação. O filme baseia-se na história real de Philippe Pozzo di Borgo.

Nesta quarta-feira, 15, em São Paulo, nesta quinta-feira, 16, no Rio e depois em mais 31 cidades brasileiras – o Festival Varilux 2012 traz 17 filmes e convidadas como Nadine Labaki e Astrid Bergès Frisbey. Além de ser uma belíssima mulher, a franco-libanesa Nadine é atriz e diretora de talento, tendo feito grande sucesso, em todo o mundo, com Caramelo. Seu novo longa, que ela vem apresentar no Brasil, chama-se E Agora, Onde Vamos?, e foi premiado pelo júri ecumênico em Cannes, no ano passado.

Astrid não é menos bela – ela foi a sereia de Piratas do Caribe, a série cult com Johnny Depp, mas chega ao País para apresentar A Filha do Pai. O filme adaptado de Marcel Pagnol é dirigido pelo ator Daniel Auteuil, que também faz o pai (le ‘puisatier’). Pagnol, na literatura e no cinema, foi o que Jean Tulard, no Dicionário de Cinema, chama de autor completo. Teve tudo – a glória, o dinheiro, o público e os críticos a seus pés. Além das próprias adaptações, seus textos deram origem a filmes como o díptico de Yves Robert – A Glória de Meu Pai e O Castelo de Minha Mãe. A Filha do Pai pertence à mesma vertente, contando, por meio de imagens d’Épinal, uma história de amor tumultuada por convenções sociais.

Outros convidados são a atriz Agathe Bonitzer e o diretor Thierry Binistri de Uma Garrafa no Mar de Gaza, sobre garota francesa que se envolve nos conflitos do Oriente Médio, e Khaled Mouzamar, autor da trilha multicultural de Et Maintenant, on Va Ou? Os filmes incluem Polisse, da atriz e diretora Maïwenn, premiado em Cannes no ano passado, sobre os integrantes de uma unidade da delegacia de Costumes de Paris; O Monge, de Dominik Moll, com Vincent Cassel; A Vida Vai Melhorar, de Cédric Khan, autor de O Tédio, com Charles Berling; e My Way, o Mito Além da Música, de Florent Emilio Siri.

Nos últimos anos, o cinema francês tem encarado o desafio de decifrar, no cinema, seus ídolos musicais – Edith Piaf, Serge Gainsbourg. Claude François, que morreu aos 39 anos, ficou conhecido por sua visceral recriação do hit My Way. O filme usa a canção para fazer a metáfora do caminho percorrido pelo artista, que é interpretado por Jérémie Rénier. O diretor Siri fez Refém, em Hollywood, com Bruce Willis.

FESTIVAL VARILUX DE CINEMA FRANCÊS
Cine Livraria Cultura, Kinoplex Itaim e Espaço Itaú de Cinema.
De 15 a 23/8. http://www.variluxcinefrances.com/

10/08/2012 - 17:00h Uma visão adulta sobre os bastidores do mundo da política

10 de agosto de 2012

Crítica: Luiz Zanin Oricchio – O Estado de S.Paulo

ÓTIMO

O Exercício do Poder, de Pierre Schöller, começa com uma tragédia. Um acidente rodoviário, no qual morrem muitas pessoas. O ministro dos transportes, Bertrand Saint-Jean (Olivier Gourmet) é chamado a assumir a crise. Acidentes são dramas humanos. Podem ser também instrumentalizados e transformados em fatos políticos.

A partir desse acidente, abre-se a visão do filme sobre a política francesa contemporânea, tendo por pano de fundo a tentativa de privatização das estações ferroviárias do país e seu jogo de interesses. Ao contrário do que possa parecer, isso não torna a trama árida. Pelo contrário. Revela o que pode haver de sórdido, mas também de fascinante, nos bastidores da ação política.

Muito do encanto do filme se deve a Olivier Gourmet, ator predileto dos irmãos Dardenne, produtores do filme. Ele contracena com outro gigante, Michel Blanc, este no papel do seu fiel secretário Gilles. Os dois são amigos. Íntimos, aliás, mas a política obedece a outra ordem de razões, como mostrou, faz muitos anos, um escritor florentino chamado Nicolau Maquiavel. Não é que a política seja “maquiavélica”, no sentido bisonho do termo. Apenas obedece a uma lógica própria, que nem sempre é aquela dos atos humanos.

Isso para dizer que, estruturado como se fosse um filme policial, ou de suspense, A Experiência do Poder é um corte vertical – e adulto – no mundo da Realpolitik. Sem mais nem menos. Na lógica de Saint-Jean, como na de todo homem político, importa manter-se no poder. Mesmo que para isso seja obrigado a atos que o envergonhariam ou alianças que jamais faria. Amizade, amor, lealdade são palavras vazias, ou protocolares, nesse mundo que obedece a leis próprias.

Têm vindo da França os melhores filmes recentes sobre a política. Carlos é a obra-prima de Olivier Assayas sobre a ação terrorista, tendo a Guerra Fria como pano de fundo. Claude Chabrol, em uma de suas últimas obras, A Comédia do Poder, ironiza esse mundo de maneira devastadora. Agora, com A Experiência do Poder, Pierre Schöller mostra como é possível lançar um olhar crítico, e nada ingênuo, sobre esse mundo opaco, cujo mecanismo escapa à compreensão dos comuns mortais. Não por acaso, inexistem, no cinema brasileiro recente, bons filmes sobre o tema. Após duas décadas de ditadura, nossa relação com a política tornou-se completamente infantilizada. Vemo-la com a profundidade de um blockbuster americano.

07/08/2012 - 22:00h Boa noite


Sevillanas de Carlos Saura – Lola Flores e Rocio Jurado (1992)

15/07/2012 - 17:27h La Ciudad y los Perros, o filme

Luiz Zanin – O Estado SP

O romance de formação de Mario Vargas Llosa, La Ciudad y los Perros, que completa 50 anos, ganhou uma bela adaptação para cinema, em 1985, dirigida pelo cineasta peruano Francisco Lombardi.

Francisco “Paco” Lombardi é o principal diretor de cinema do Peru, e já verteu para a tela grande outra obra de seu conterrâneo Vargas Llosa, o satírico Pantaleão e as Visitadoras (1999), que chegou a concorrer no Festival de Gramado, aqui no Brasil.

Em La Ciudad y los Perros (conservamos o nome original porque o filme não teve lançamento comercial no País), Lombardi consegue captar o clima opressivo descrito no romance.

Temos lá, em 144 minutos de ação tensa e realista, a descrição fiel do ambiente da Academia Militar de Lima, na qual os cadetes são tratados sob rígida disciplina pelos superiores, em especial por um tenente durão, Gamboa (Gustavo Bueno, artista frequente em filmes de Lombardi, como Boca do Lobo, sobre o Sendero Luminoso).

Mas o que fica também clara é a hierarquia que se estabelece entre os próprios alunos, com a dominância do mais forte (o “Jaguar”) sobre os mais fracos. Um deles é apelidado de “o escravo” pelos outros e vive espezinhado porque não consegue se defender e só sobrevive pela submissão total. Ele será o pivô de uma tragédia que envolve todos os outros e arrasta a Academia a uma crise. O próprio Llosa se retrata através de um alter ego, “o Poeta” (Pablo Serra), cadete com veleidades literárias, que escreve histórias eróticas a troco de cigarro e bebidas. Mas, além disso, o Poeta será também uma espécie de consciência crítica, antecipando o papel do intelectual que Llosa se reserva diante da sociedade peruana. Será ele não o causador da crise, mas o catalisador de uma situação difícil de ser controlada pela hierarquia. Por essa ação, verá seu poder, mas também as limitações próprias de todo intelectual. O livro e o filme são premonitórios, de certa forma.

Por meio de uma mise-en-scène vigorosa, Lombardi retrata essa rigidez de superfície que esconde uma dupla moral vigente na Academia. Por trás do ambiente de extrema legalidade, instaura-se um tráfico de produtos proibidos comandada pelos alunos e que só pode sobreviver pela conivência de alguns militares de patentes superiores. É uma rede hipocrisias que só pode ser desvendada por que algo fora do controle, como a morte de um aluno, acabou acontecendo sob as barbas dos superiores. Mesmo assim, quem ocupa os postos mais altos da hierarquia tentará acobertar o crime e os possíveis criminosos sob o pretexto de que uma investigação seria prejudicial para a Academia. O desfecho é brilhante. E desalentador para quem acredita na pureza das instituições. Militares ou não porque salta à vista que a crítica de Llosa é mais geral e se estende à sociedade opressiva em seu todo.

De certa forma, a mesma crítica à rigidez e à dupla moral será feita, em outro registro, em Pantaleão e as Visitadoras, o outro romance de Llosa adaptado por Lombardi. Em La Ciudad y los Perros era a violência sob o verniz da ordem; em Pantaleão, é a questão da sexualidade. A história é hilária. Num posto avançado nas selvas peruanas, os soldados sofrem com a falta de sexo. Há notícias de estupros praticados contra mulheres das localidades remotas. Para resolver o problema é instituído um serviço de prostitutas para aplacar a libido da soldadesca. Pantaleão é o oficial destacado para organizar – com minúcia militar – esse serviço de importância estratégica.

Pelo riso, Llosa chega a resultado semelhante ao que consegue pelo drama em La Ciudad y los Perros.

13/07/2012 - 18:33h Ser ou não ser, ainda a questão

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Elizabeth I (Vanessa) e o conde de Oxford (Ifans), que seria o verdadeiro dramaturgo: para dialogar com as peças shakespearianas, diretor inseriu sexo, violência e intriga na trama


Por Elaine Guerini | Para o Valor, de São Paulo e Toronto

Talvez clássicos como “Romeu e Julieta”, “Rei Lear” e “Hamlet” não tenham saído da imaginação de William Shakespeare (1564-1616). Pelo menos é nisso que o filme “Anônimo” aposta, ao lançar uma dúvida sobre a identidade do dramaturgo mais reverenciado do planeta. A hipótese de que Shakespeare não seja o autor das obras que lhe foram atribuídas foi levantada, por estudiosos, historiadores e pesquisadores, no século XVIII – e até hoje há quem questione a autenticidade do crédito dado ao inglês nascido em Stratford-upon-Avon, conhecido como Bardo do Avon.

Há mais de 50 candidatos ao posto de autor das peças, consideradas as melhores já escritas em língua inglesa. Os anti-stratfordianos, como são chamados os pesquisadores convencidos de que Shakespeare não passou de uma farsa, reivindicam a autoria para escritores como Francis Bacon, Christopher Marlowe, Walter Raleigh, William Stanley (o conde de Derby) e Eduardo de Vero (o 17º conde de Oxford), entre outros. Toda a especulação apresentada em “Anônimo” aponta este último, que desde os anos 1920 é o nome mais cotado como o verdadeiro Shakespeare.

“Desde que li a teoria que atribui a autoria ao conde de Oxford, há mais de 15 anos, essa história nunca mais saiu da minha cabeça”, disse John Orloff, o roteirista de “Anônimo”, lançamento exclusivo em DVD no Brasil. “Fiquei perplexo ao descobrir que a biografia de Shakespeare é praticamente uma obra de ficção. Sobre sua vida muito dos fatos apresentados são, na verdade, suposições. Como ele era culto, alguns pesquisadores admitem que ele tenha frequentado uma universidade, embora não exista registro disso. Como ele conhecia bem a Itália, alguns acreditam que ele tenha visitado país, ainda que ninguém possa provar. E por aí vai.”

Com direção do alemão Roland Emmerich, “Anônimo” não só endossa a teoria oxfordiana como retrata Shakespeare como um oportunista, um homem sem nenhum talento. Ele simplesmente teria se aproveitado de uma situação criada pelo conde de Oxford (interpretado por Rhys Ifans), um nobre que se vê obrigado a pagar para que outro assuma a autoria de suas obras. Não bastasse o fato de o teatro não ser visto com bons olhos na época (a ação se passa nos séculos XVI e XVII), principalmente se o autor ousasse criticar a realeza, o conde teria sido um ex-amante da Rainha Elizabeth I. Por essas razões, ele teria escolhido o dramaturgo Ben Jonson (Sebastian Armesto) para representá-lo. Como este espera ser um autor renomado um dia, incumbe um de seus atores, William Shakespeare (Rafe Spall), de difundir as obras como se fossem suas.

Para especialista, imagem do bardo “é aviltada no filme, que o representa como ‘palhaço analfabeto e bêbado’”, entre outras infâmias

As peças alcançam o sucesso imediatamente, enquanto maquinações políticas passam a ameaçar a Inglaterra e a rainha – interpretada por Joely Richardson, na juventude, e Vanessa Redgrave, mais velha. As atrizes são mãe e filha, na vida real.

“Para dialogar com as tragédias que tão bem caracterizam a obra de Shakespeare, nós ainda inserimos sexo, violência, intriga, ganância e traição para tornar a trama ainda mais interessante”, contou Emmerich, até então mais conhecido por “blockbusters” como “Independence Day” (1996), “O Dia Depois de Amanhã” (2004) e “2012″ (2009). “Nossa versão da história é, obviamente, mais uma invenção. Até os filmes que se vendem como históricos, procurando recapitular os fatos, também precisam fazer suposições. Mesmo a biografia de uma personalidade que viveu há 20 anos terá sempre de preencher as lacunas e apelar à imaginação”, acrescentou.

Para vender o conde de Oxford como o “anônimo” por trás das obras, teoria na qual vários intelectuais do século XX acreditavam (entre eles, Sigmund Freud, Orson Welles e Charlie Chaplin), Shakespeare é retratado como um tolo no filme. “A imagem de Shakespeare é aviltada no filme, ao representar o bardo com as características difundidas pelos anti-stratfordianos. Ou seja, como o ‘palhaço analfabeto e bêbado de Stratford-upon-Avon’, o ‘tratante sórdido e mentiroso’ ou o ‘mascate desprezível’, entre outras infâmias”, disse Anna Stegh Camati, professora do curso de mestrado em letras – teoria literária no Centro Universitário Campos de Andrade (Uniandrade), no Paraná.

Doutora em língua inglesa e literaturas inglesa e norte-americana (com pós-doutoramento em estudos sobre Shakespeare), Anna não acredita na versão oxfordiana apresentada no filme. “Há evidências de sobra de que Shakespeare escreveu Shakespeare. Apesar dos poucos registros sobre a sua pessoa, temos muitas referências documentais a respeito de seus poemas e peças de teatro.” Uma dessas provas, segundo a professora, é a publicação conhecida como “Primeiro Fólio”, datada de 1623, sete anos após a morte de Shakespeare. “Aqui 36 peças foram coligidas e publicadas por seus colegas de profissão. Ben Jonson escreveu um poema laudatório, em que atesta a genialidade e universalidade do bardo.”

De acordo com a professora, a rejeição de candidatos alternativos para a autoria das obras de Shakespeare é hoje um consenso no meio acadêmico – apesar de todas as suspeitas já levantadas. Uma delas diz respeito ao alto nível de instrução, além de conhecimentos gerais e de línguas estrangeiras, que teria sido necessário para escrever as peças. Mas Shakespeare não teria concluído o ensino superior. “Há ainda aqueles que acreditam que as obras foram escritas por um grupo de jesuítas ou por vários estudiosos da maçonaria. Outros sustentam que Francis Bacon não é autor apenas de Shakespeare, mas também de trabalhos de outros, como Marlowe, Spenser, Milton, Montaigne etc. Mas tudo isso não passa de um jogo detetivesco”, completou.

Para o ator Rhys Ifans, que encarna o conde de Oxford, o mérito de “Anônimo” está no debate que provoca. “É importante passar a informação para as pessoas que nunca ouviram a teoria de que Shakespeare talvez não tenha escrito as peças. Ou pelo menos não todas elas.” Rafe Spall, encarregado de viver a versão infame de Shakespeare, entende o desconforto que o filme traz. “Inconscientemente acho que as pessoas se sentem atacadas, como se isso desvalorizasse toda a educação que elas receberam ao longo da vida. Então tudo o que me ensinaram na escola está errado?” O que mais intriga Spall não é exatamente quem seria o autor das obras, mas como alguém conseguiu deixar um legado tão magistral. “Não é assombroso o fato de suas peças serem encenadas até hoje, mais do que as de qualquer outro dramaturgo?”

13/07/2012 - 17:00h ‘Bem-Amadas’ une Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni

Publicado em 12 de julho de 2012

Alysson Oliveira – Reuters – Agência Estado

“Bem-Amadas”, novo musical de Christophe Honoré (”Em Paris”, “Canções de amor”), começa de forma até empolgante. Ao som de uma versão em francês de “These boots are made for walkin’”, que ficou famosa na voz de Nancy Sinatra, mulheres experimentam os mais variados pares de sapatos.

A cena se passa em Paris, em meados dos anos de 1960, e sob a perspectiva atual ganha ares retrô. O filme, então, faz uma ponte entre as duas épocas, sendo que a música e os amores de duas personagens pavimentam o caminho. O longa estreia no Rio de Janeiro na sexta-feira (hoje).

No passado, Madeleine (Ludivine Sagnier), vendedora da loja de sapatos da cena inicial, se torna prostituta, até ser resgatada por um médico tcheco, Jaromil (Radivoje Bukvic), com quem tem uma filha e se muda para a cidade de Praga. Não aguenta ficar muito por lá, nem tanto pela infidelidade do marido, mas pelas turbulências políticas do país no final dos anos de 1960.

Caprichando na direção de arte, figurino e cores, Honoré cria um passado remoto, ao mesmo tempo palpável, mas também um tanto onírico — às vezes, um pesadelo. As músicas acontecem não como números. A ação não se interrompe para que os personagens cantem e figurantes dancem com eles. As canções simplesmente acontecem e agregam algo à trama.

O passado e o presente fazem um diálogo na figura de Madeleine (na maturidade interpretada por Catherine Deneuve) e sua filha, Vera (Chiara Mastroianni, filha da atriz com Marcello Mastroianni). A moça, de certa forma, sofre com as escolhas equivocadas da mãe ao longo da vida. Ela mais parece fadada a amar e não ser amada, a sempre se apaixonar pelo homem errado. O mais recente é Henderson (Paul Schneider), músico norte-americano gay radicado na Europa.

Mas Vera também tem um affair com um colega de trabalho, o professor Clément (Louis Garrel, presença constante nos filmes de Honoré).

E o que Vera faz enquanto ama, não é amada e sofre? Ela canta, é claro. Canta porque está apaixonada, porque não é correspondida, porque quer conquistar seu amado gay. Assim, Honoré coloca seus personagens numa ciranda de amores e (auto)enganações quase sem fim.

O pai de Vera volta para França, agora interpretado pelo cineasta tcheco Milos Forman, e novamente quer ser amante de sua ex-mulher que, mesmo casada com François (Michel Delpech), não resiste e se entrega, mas não abre mão de seu casamento. É um círculo vicioso a que estes personagens se submetem.

As canções de Alex Beaupain (também responsável pela trilha de “Canções de Amor”, entre outros de Honoré) tentam traduzir em versos e acordes os sentimentos, com algumas músicas interessantes. Mas não há uma luz no fim do túnel para quem ama em “Bem-amadas” (é preciso tomar o título com uma pitada de ironia, porque ninguém, muito menos mãe o filha, é realmente amado aqui). Tudo isso seria até compreensível não fosse o caminho punitivo e moralista da narrativa.

Amar é sofrer, diz a sabedoria popular. Amar num filme de Honoré é sofrer e ser punido por isso. Nenhum personagem sai incólume, nem o infiel, nem o apaixonado, nem o marido devotado. Tomara que aquele outro ditado popular seja verdadeiro e que, com sua cantoria, os personagens espantem seus males – afinal, é só isso que lhes resta.

(Por Alysson Oliveira, do Cineweb)

12/07/2012 - 18:35h O que ficou ou se perdeu da era beat

Por Amarílis Lage | VALOR

De São Paulo

Em 1978, um jovem gaúcho de 20 e poucos anos embarcou para os Estados Unidos disposto a refazer a viagem que Jack Kerouac (1922-1969) havia feito cerca de 30 anos antes, da Costa Leste à Oeste do país. Eduardo Bueno havia descoberto “On the Road” numa versão em espanhol (”En el Camino”), em Buenos Aires. Correu atrás do texto original, em inglês. Por fim, pegou a estrada também. E sentiu que estava no lugar certo, mas, aparentemente, no tempo errado.

“Havia um abismo entre o que eu vivia internamente, embebido daquele espírito beat, e o ambiente circundante”, lembra Bueno. “Vi que eu estava fora de tempo. Era o começo da América yuppie, o que me perturbou muito. Encontrei [o poeta beatnik] Lawrence Ferlinghetti e disse: ‘Vim em busca da rebelião’. E ele: ‘Que rebelião, cara?’ ‘Mas onde eu posso encontrar aquele espírito?’. E Ferlinghetti, com ironia e generosidade, respondeu: ‘Try the mountains’ [tente as montanhas].”

Bueno, que foi responsável pela primeira tradução brasileira de “On the Road”, publicada em 1984, conta que ficou chocado. “Era impressionante como Kerouac havia ‘morrido’ nos Estados Unidos naquela época.”

Estará vivo e influente hoje? Para o cineasta Walter Salles, a resposta é sim. E ele se apoia em outro autor beat, o poeta Mike McClure, que o diretor entrevistou para um documentário sobre “On the Road”, ainda inédito.

Certa vez, conta Salles, um jovem perguntou a McClure por que a geração beat havia morrido. “Só que esse cara estava vestido como queria, tinha o cabelo comprido, era budista e se preocupava com a ecologia. Onde está a geração beat? Está nele”, diz o diretor. “Os movimentos não duram para sempre. Em cinema, por exemplo, há o neorrealismo italiano, que aparentemente se extinguiu. No entanto, há diretores, como o turco Nuri Bilge Ceylan, que carregam muito daquilo com eles. Algo do movimento beat está vivo, mas dentro de nós, nem sabemos onde.”

Para Bueno, que também foi responsável pela coleção Alma Beat, da L&PM, que publicou obras de William Burroughs, Gary Snyder e Neal Cassady no Brasil, entre os principais legados da geração beatnik estão a preocupação com a preservação ambiental, a relação com religiões orientais e a atitude libertária. “Eles colocaram esses temas na roda.”

Além de introduzir uma série de questões culturais, os beats também deram sequência a aspectos da tradição literária americana que permanecem atuais.

Como conta Bueno no prefácio de “On the Road”, a busca por uma escrita que capturasse uma voz genuinamente americana já estava presente em autores como Walt Whitman (1819-1892) e Mark Twain (1835-1910).

Tematicamente, a ideia do andarilho, desadaptado da sociedade, também já estava presente. “A base disso está nas obras de Thoreau [1817-1862], como ‘A Desobediência Civil’ e ‘Walden – ou a Vida nos Bosques’”, afirma Bueno.

Salles identifica, porém, um aspecto dos beats que talvez tenha se perdido: a importância de viver a experiência na pele. “Eles viajavam quilômetros por uma boa conversa. Hoje, a gente manda um SMS. Espero que as pessoas sintam que existe alguma coisa a ser aprendida nesse tipo de vivência direta.”

12/07/2012 - 18:20h Walter Salles pega carona com Jack Kerouac em ‘Na Estrada’

ESTREIA

12 de julho de 2012 | 11h 37

Neusa Barbosa – Reuters – Agência Estado

Levou oito anos para Walter Salles concluir o esperado “Na Estrada”, a adaptação de um dos maiores clássicos beat de todos os tempos, “On the Road” (”Pé na Estrada”). Assinado por Jack Kerouac e publicado em 1957, o livro se tornou uma das bíblias da contracultura, embalando gerações à procura de liberdade e experimentação na própria pele, numa era pré-Internet.

Concorrente à Palma de Ouro em Cannes 2012, esta coprodução entre a França e o Brasil –apesar da produção executiva assinada pelo velho leão do cinema independente norte-americano, Francis Ford Coppola– dividiu opiniões em sua passagem pelo festival francês, o que certamente acompanhará também sua trajetória nos cinemas.

Conduzido com a habitual perícia de Salles, que leva consigo o roteirista portorriquenho Jose Rivera e o diretor de fotografia francês Éric Gautier, seus parceiros em “Diários de Motocicleta” (2004), o filme encharca-se da melancolia que é o tom predominante do livro, narrando as memórias do escritor iniciante Sal Paradise –o alterego de Kerouac–, interpretado com intensidade na medida pelo ator britânico Sam Riley, o magnético intérprete do roqueiro Ian Curtis em “Control”.

É toda construída de nostalgia, portanto, esta memória das aventuras juvenis na estrada de Sal e seu amigo Dean Moriarty, este, por sua vez, o alterego do escritor Neal Cassady, interpretado por Garrett Hedlund com uma voracidade que homenageia o jovem Marlon Brando, ator que chegou a ser pensado pelo próprio Kerouac para o papel, numa das muitas tentativas frustradas de adaptação para o cinema.

A tensão entre as diferenças profundas entre os dois personagens, unidos por uma mesma fome de vida, embalam uma vertiginosa troca de paisagens, de Nova York ao México, riscando na pele dos dois, e de vários companheiros de caronas pela estrada, um mapa de acontecimentos fortuitos. Como bebedeiras, canções, trabalhos eventuais, comida ruim ou nenhuma, a exposição às intempéries do clima, a camaradagem encontrada e logo perdida. E as mulheres.

KRISTEN STEWART E ALICE BRAGA

Personagens marginais no livro, as mulheres ocupam um pouco mais de espaço na tela. A principal é Marylou (Kristen Stewart, deixando “Crepúsculo” para trás), a primeira mulher de Dean, que se torna uma espécie de galvanizador entre ele e Sam, já que Dean insiste em que ela vá para a cama com o amigo.

Esta espécie de amoralidade, que também se espalha ao consumo de drogas, além de bebidas, é um lembrete de um tempo bem mais libertário e libertino do que os dias atuais, cristalizando uma espécie de utopia em busca de uma vida sem limites que a chegada da maturidade baliza para Sal, mas não para Dean, que sonha em viver sem compromissos para sempre.

A segunda mulher de Dean, Camille (Kirsten Dunst, vivendo personagem inspirada em Carolyn Cassady), é justamente essa “voz da razão” na vida dele. Mãe de seus dois filhos, ela sinaliza seu desejo de parada e estabilidade. Mas não é essa a natureza de Dean.

Alguns personagens à beira do caminho introduzem um sabor especial, que desenha melhor essa época. O maior deles é Old Bull Lee (Viggo Mortensen), uma espécie de guru junkie diretamente calcado na figura do escritor William S. Burroughs, o autor de “Almoço Nu” que era o mais velho do grupo beat e, ironicamente, apesar das viagens de todos os tipos que fez, foi o que morreu mais velho: 83 anos. Kerouac e Cassady morreram antes dos 50 anos; o poeta Allen Ginsberg (no filme representado pelo personagem Carlo Marx, interpretado por Tom Sturridge), com 71.

Pequenas e marcantes são, igualmente, as passagens de três outras atrizes: Amy Adams, como Jane, mulher de Old Bull Lee, e alterego de Joan Vollmer, a primeira mulher de Burroughs que ele matou acidentalmente com um tiro; Elisabeth Moss, como Galatea Dunkel, a jovem esposa abandonada pelo marido, Ed Dunkel (o estreante Danny Morgan), representando os personagens reais Al e Helen Hinkle; e a única brasileira do elenco, Alice Braga, como Terry, jovem mexicana com quem Sal tem um rápido caso quando colhe algodão na Califórnia e que evoca Bea Franco, que escreveu várias cartas a Kerouac, em 1947.

Steve Buscemi interpreta um homem que dá carona aos protagonistas e Terrence Howard (indicado ao Oscar por “Ritmo de um Sonho”), o jazzista Walter, traduzindo uma pegada mais jazzística do que roqueira na trilha sonora assinada pelo argentino Gustavo Santaolalla (outro parceiro de Salles em “Diários de Motocicleta”).

Não se trata de um filme catártico, e sim de um grande mergulho na melancolia, na perda, na passagem do tempo e das paixões. A câmera se instala na pele dos personagens e não larga mais seu turbilhão, seu frenesi pela vida, sua pulsão pelo movimento, pela experiência direta.

“Na Estrada” realiza, assim, seu maior desafio: capta o aspecto fugaz do tempo presente, as relações humanas que se acendem e duram o instante de um fósforo, imperfeitas, passageiras, mas fundamentais.

(Por Neusa Barbosa, do Cineweb)

12/07/2012 - 17:00h Artigas, o nascimento de uma nação

Longa de César Charlone retrata o mito do herói da independência uruguaia

12 de julho de 2012

FLAVIA GUERRA – O Estado de S.Paulo

“Pobre do povo que precisa de um nome ou um homem”, diz José Artigas em certo ponto do filme Artigas – La Redota, que integra o 7.º Festival do Novo Cinema Latino-Americano e tem sessão no Memorial da América Latina no sábado, às 21 horas. Militar uruguaio considerado herói nacional por lutar pela independência de seu país, Artigas é praticamente um pai da pátria e é, no mínimo, irônico que o próprio questione a validade da necessidade que os povos têm de criar mitos em quem depositar a honra de uma nação.

É destas, e de outras, colocações livres do diretor César Charlone e do roteirista Pablo Vierci que se faz este longa que investiga quem foi afinal José Gervasio Artigas (1764-1850), líder crucial na batalha contra os colonizadores espanhóis pela emancipação do Uruguai. Projeto que integra a série Libertadores, da Televisão Espanhola (TVE), com as produtoras Wanda e Lusa Films, sobre os grande heróis latino-americanos em ocasião dos 200 anos das guerras de libertação, Artigas tinha tudo para ser mais um “filme histórico chato”, como diz Charlone.

Mas caiu nas mãos deste uruguaio que faz cinema brasileiro, Como bem diz Gunzán Larra (vivido por Rodolfo Sancho, outro personagem do filme (que faz o militar, e espião infiltrado pela coroa espanhola, que planejava assassinar Artigas), a verdadeira riqueza de um povo não é o ouro e a prata que os colonizadores vieram buscar. É seu povo e sua mistura. Qualquer semelhança com o caldeirão étnico brasileiro não é mera coincidência.

E é no caos formado por um povo composto de índios, gaúchos, paisanos, militares desertores, africanos, que está a beleza da população que precisa de Artigas para formar uma nova nação, que “será o que quiser, será americana”.

É também no olhar de um pintor incumbido de retratar a figura de Artigas a pedido do governo do Uruguai em 1884, 34 anos após a morte do herói, que se forma este país e esta história. “O pintor, Juan Manuel Blanes tinha sido contratado para pintar, e criar, uma figura do Artigas. Mas como saber como ele era de verdade? A única referência que tinha era um retrato feito 72 anos antes justamente por Gunzán Larra, que se disfarçou de jornalista para se infiltrar em La Redota, o acampamento, o refúgio e a república utópica criada por Artigas e seus companheiros”, explica Charlone, que, fazendo jus à afirmação inicial, em vez de depositar em um mito, ou um único herói, escolhe a arte (no caso, o pintor Blanes) como protagonista de seu filme. “É o único da série Libertadores, que também inclui Tiradentes, Simón Bolívar e San Martín, em que o protagonista é um artista”, diz o diretor.

Em tempos em que os Libertadores estão mais associados ao campeonato de futebol que às figuras históricas, a escolha de Charlone é, no mínimo, simbólica. “Se a gente observar as nações mais antigas, ou talvez mais maduras, como Japão, as escandinavas, a francesa, no que o povo deposita sua pátria? Não é em um salvador, mas na cultura em geral, na arte… O que restou da França? O que é mais forte? A imagem de Napoleão ou a herança da arte francesa? Da Alemanha? É a arte que fica”, defende ele, que foi buscar também na arte, a sétima arte, a inspiração para estruturar seu roteiro. “Pedi licença a Apocalipse Now para criar a figura de Larra, este inimigo que começa a história repetindo todos os clichês que se costumavam repetir quando o assunto eram os rebeldes que ousavam se levantar contra as coroas ou as colônias. Aos poucos, ao conviver com a profusão de tipos, culturas, línguas e ideias que integram o grupo de Artigas, vai formar a própria opinião.”

Assim faz também o espectador, que forma sua opinião a respeito de um herói, no mínimo, controverso. “A figura de Artigas, assim como o quadro que Blanes pinta, é criada na cabeça de cada um. É quase um personal Artigas. Sua figura e sua importância já foram evocadas tanto pela direita quando pela esquerda uruguaias”, diz o diretor, que chegou a pensar em não lançar o filme nos cinemas do Brasil. “Estamos numa fase ruim de público. E o preconceito com o filme histórico é grande. Pensei em lançar direto em DVD, mas a Panda Filmes, de Porto Alegre, vai distribuir. Passa em agosto em Gramado e em seguida deve estrear. Fiquei feliz.”

11/07/2012 - 18:01h Estrada para a latinidade

Road movie mexicano, Um Mundo Secreto cria metáfora perfeita do evento que viaja por culturas e línguas
11 de julho de 2012

LUIZ CARLOS MERTEN – O Estado de S.Paulo

É no mínimo curioso que o Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, cuja sétima edição começa amanhã para convidados no Memorial da América Latina, se inicie sob o signo da estrada, e isso apenas dois antes da estreia de On the Road, que Walter Salles adaptou do livro cult de Jack Kerouac. Salles fez um belo filme baseado na experiência real (e visceral) de jovens norte-americanos que caíram na estrada em busca de liberdade – e deles mesmos. Seu filme é a história de uma amizade, e da sua destruição (e também da imortalização pela arte). E Um Mundo Secreto?

O longa do mexicano Gabriel Mariño teve sua estreia mundial na Berlinale, em fevereiro, integrando a mostra Generation Special. Narra, de forma lírica, a viagem de iniciação de uma garota. No último dia de escola, antes da graduação, ela deixa seu mundo para trás e parte numa viagem de autodescoberta. Maria, de 18 anos, é promíscua e, no fundo, talvez seja essencialmente uma solitária. Ela abandona o caos urbano da Cidade do México e atravessa o deserto de Sinaloa rumo ao vasto oceano. O que busca Maria? Na apresentação de seu filme, em Berlim, Mariño disse que quis traçar um retrato da juventude mexicana. “Há muita violência e instabilidade social no México. Nosso futuro é incerto e, para os jovens, é quase impossível estudar ou trabalhar. Meu filme busca entender quem são os jovens mexicanos, o que sentem e pensam.”

Quem pensa em mulheres na estrada lembra-se de Thelma e Louise, as protagonistas de um road movie de Ridley Scott que fez sensação, especialmente entre plateias femininas (e feministas), em 1991. A jornada de iniciação de Maria leva a uma conclusão tão espetacular quanto espiritual. O diretor filma a paisagem mais preocupado em revelar o turbilhão interior que consome Maria. Com o da protagonista, Lucía Uribe, guarde os nomes de Mariño e do fotógrafo – Ivan Hernández. Começando de forma tão auspiciosa, o 7.º Festival Latino-Americano, que vai até dia 19, vai exibir 75 filmes. Você talvez não consiga ver todos, mas vale entender a estrada iniciática de Um Mundo Secreto como uma metáfora – e um convite. É como se o próprio evento convidasse o público a viajar nas imagens dessas dezenas de filmes para compreender o mundo em que vive, e decifrar o enigma da complexidade continental.

Pense em culturas, em línguas. A maioria dos filmes é falada no idioma espanhol, com suas variações. São filmes como o uruguaio 3, de Pablo Stoll; o argentino Um Mundo Misterioso, de Rodrigo Moreno; o chileno O Círculo de Román, de Sebastián Brahm; o equatoriano Pescador, de Sebastián Cordero; e o colombiano Porfírio, de Alejandro Landes. Mas o Festival Latino também fala o português, por meio dos filmes brasileiros que integram a seleção – Hoje, de Tata Amaral, que venceu o Festival de Brasília no ano passado; Rânia, de Roberta Marques, que venceu a mostra Novos Rumos, no Festival do Rio de 2011; e Augustas, que Francisco César Filho adaptou do livro As Estratégias de Lilith, de Alex Antunes.

Gêneros. Querem mais road-movies? A venezuelana Marité Ugas vem para apresentar pessoalmente seu longa O Garoto Que Mente, que também integrou a mostra Generation, em Berlim. O filme conta a jornada de iniciação de um garoto que procura pela mãe desaparecida nos deslizamentos de terras que atingiram o departamento de Vargas, após a grande chuva de 1999. Já exibido nos festivais de Tiradentes e do Recife, Estradeiros, belo trabalho de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro, filma a América Nuestra de forma a mostrar a estrada como metáfora de vida alternativa e negação do consumismo.

Quem disse que o cinema latino-americano não cultiva os gêneros? O cubano Juan dos Mortos, de Alejandro Brugués, mostra Havana decadente, o que não é exatamente uma novidade, mas agora assolada por zumbis, no que vai uma crítica às transformações na ilha, pós Fidel Castro. Maior êxito da história do cinema da Colômbia, O Ermo, de Jaume Osório Márquez, passa-se numa base a 4 mil metros de altura. Um comando militar é enviado para descobrir o que houve com a equipe que lá estava. Encontram um sobrevivente misterioso. Quem é esse cara? Oito curtas integram a série Fronteiras, produzida pelo canal TNT. Cada realizador teve liberdade para fazer seu filme como quisesse e o resultado contempla comédia e até western. Claudia Llosa, a diretora peruana que ganhou o Urso de Ouro com La Teta Asustada, foi de novo premiada em Berlim – ela ganhou neste ano o Teddy Bear, o chamado Urso gay, pelo curta Loxoró, sobre o universo das travestis.

Voltado ao apoio a novos filmes da América Latina, o programa Cine en Construcción ocorre duas vezes por ano, nos festivais de Toulouse e San Sebastián. O 7.º Festival Latino homenageia os dez anos de Cine em Construcción e o faz exibindo o que talvez seja o melhor filme brasileiro desde o início da Retomada – Cinema, Aspirinas e Urubus, de Marcelo Gomes. A sessão será apresentada pela francesa Eva Morsch, que integra o comitê de seleção do programa.

Eva também será jurada numa mostra inédita – Finaliza 2012. Fechada ao público, vai exibir sete longas em finalização e o vencedor vai ganhar R$ 99,4 mil em serviços, justamente para poder ficar pronto. O Prêmio Itamaraty, iniciativa do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, também vai dar R$ 90 mil ao filme vencedor, escolhido entre coproduções recentes, envolvendo pelo menos dois países da América do Sul. Todas as sessões do Festival Latino-Americano são gratuitas.

7º FESTIVAL DE CINEMA LATINO-AMERICANO DE SÃO PAULO

Programação completa: www.memorial.org.br

De 12 a 19/7. Grátis.

11/07/2012 - 17:25h Até a Eternidade

Luiz Zanin – O Estado SP

Um grupo de amigos, e de amigas, é um microcosmo. Sabemos que, no seu interior, existem, como na sociedade mais ampla, uma série de tensões acumuladas – amor, sim, mas também rivalidade, agressão e mesmo ódio, misturados a certa libido de grupo que não raro se traduz em violentos casos extraconjugais, culpa, ciúmes recíprocos e desconfianças. Sem que o diretor se preocupe em teorizar muito, é tudo isso que está em jogo neste Até a Eternidade, de Guillaume Canet.

A história é a seguinte: um grupo de amigos decide manter a programação de férias na praia mesmo após um deles ter sofrido um acidente e permanecer em coma no hospital. Ludo (Jean Dujardin) é esse personagem que, embora ausente a maior parte do tempo, ocupará os pensamentos dos outros personagens. Estes se mandaram em férias de verão na estupenda casa de praia do mais bem sucedido entre eles, Max (François Cluzet).

O próprio Max, com sua paranoia e exibicionismo, é uma das figuras centrais. A outra é Marie (Marion Cotillard), carente e sexy, com uma história pontuada por namoros febris. Há também outras figuras, todas decupadas de modo a evitar a caricatura. Descrevemo-los assim apenas por conforto de narrativa, mas Canet trata de fazê-los complexos e contraditórios – isto é, humanos. Em todo caso, há sempre aquele tipo folgazão e extrovertido que logo mostrará seu lado frágil. As esposas um pouco apagadas, mas que depois se colocarão à frente da cena. E, claro, uma inevitável saída do armário, que terá importância central na trama, tanto quanto, ou mais, que o acidente de Ludo.

Até a Eternidade é uma celebração da amizade, como outros filmes bem maiores do que ele como Nós Que nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola. A amizade não deve ser idealizada, como aliás o filme não o faz. É, como já se disse, tão ambígua e sujeita e contradições como qualquer encontro entre humanos (dizem que é assim por causa da infinita complexidade do cérebro e sua incapacidade de formular relações simples como as de causa e efeito). Mas, feitas as contas, e pesando-se todos os seus contras, a amizade ainda sai com saldo muito positivo.

Essa valorização do grupo formado por pessoas com quem se tem afinidade, com quem rimos e pelas quais podemos chorar, é a linha dominante de Até a Eternidade. Um filme terno, divertido e emocionante. Talvez um pouco comprido demais (154 minutos), mas é essa longa duração que permite cenas mais complexas, cenas que exigem o tempo para que se expressem em sua completude. Bastante francês (quem lá viveu sabe que os níveis de rivalidade podem deixar os nossos no chinelo), é também universal. Em especial pela tonalidade afetiva e por essa valorização das coisas realmente importantes, de que tomamos consciência toda vez que perdemos alguém próximo, para nos esquecermos da lição no dia seguinte.

11/07/2012 - 17:00h Uma bonita reflexão acerca da amizade e suas contradições

11 de julho de 2012

O Estado de S.Paulo – Crítica: Luiz Zanin Oricchio

Um grupo de amigos, e de amigas, é um microcosmo. Sabemos que, no seu interior, existem, como na sociedade mais ampla, uma série de tensões acumuladas – amor, sim, mas também rivalidade, agressão e mesmo ódio, misturados a certa libido de grupo que não raro se traduz em violentos casos extraconjugais, culpa, ciúmes recíprocos e desconfianças. Sem que o diretor se preocupe em teorizar muito, é tudo isso que está em jogo neste Até a Eternidade, de Guillaume Canet.

A história é a seguinte: um grupo de amigos decide manter a programação de férias na praia mesmo após um deles ter sofrido um acidente e permanecer em coma no hospital. Ludo (Jean Dujardin) é esse personagem que, embora ausente a maior parte do tempo, ocupará os pensamentos dos outros personagens. Estes se mandaram em férias de verão na estupenda casa de praia do mais bem sucedido entre eles, Max (François Cluzet).

O próprio Max, com sua paranoia e exibicionismo, é uma das figuras centrais. A outra é Marie (Marion Cotillard), carente e sexy, com uma história pontuada por namoros febris. Há também outras figuras, todas decupadas de modo a evitar a caricatura. Descrevemo-los assim apenas por conforto de narrativa, mas Canet trata de fazê-los complexos e contraditórios – isto é, humanos. Em todo caso, há sempre aquele tipo folgazão e extrovertido que logo mostrará seu lado frágil. As esposas um pouco apagadas, mas que depois se colocarão à frente da cena. E, claro, uma inevitável saída do armário, que terá importância central na trama, tanto quanto, ou mais, que o acidente de Ludo.

Até a Eternidade é uma celebração da amizade, como outros filmes bem maiores do que ele como Nós Que nos Amávamos Tanto, de Ettore Scola. A amizade não deve ser idealizada, como aliás o filme não o faz. É, como já se disse, tão ambígua e sujeita e contradições como qualquer encontro entre humanos (dizem que é assim por causa da infinita complexidade do cérebro e sua incapacidade de formular relações simples como as de causa e efeito). Mas, feitas as contas, e pesando-se todos os seus contras, a amizade ainda sai com saldo muito positivo.

Essa valorização do grupo formado por pessoas com quem se tem afinidade, com quem rimos e pelas quais podemos chorar, é a linha dominante de Até a Eternidade. Um filme terno, divertido e emocionante. Talvez um pouco comprido demais (154 minutos), mas é essa longa duração que permite cenas mais complexas, cenas que exigem o tempo para que se expressem em sua completude. Bastante francês (quem lá viveu sabe que os níveis de rivalidade podem deixar os nossos no chinelo), é também universal. Em especial pela tonalidade afetiva e por essa valorização das coisas realmente importantes, de que tomamos consciência toda vez que perdemos alguém próximo, para nos esquecermos da lição no dia seguinte.


Apresentando o Sr. Cotillard

Marido de Marion e ator em Apenas Uma Noite, Guillaume Canet fala de filmes, amigos e de sua linda mulher
11 de julho de 2012

LUIZ CARLOS MERTEN – O Estado de S.Paulo

Na França, ele é ator e diretor de prestígio, ganhou o César, o Oscar francês, pela direção de Ne le Dis à Personne. No Brasil, uma boa forma de apresentar Guillaume Canet talvez seja dizendo que ele é o sr. Marion Cotillard, casado com a estrela que ganhou o Oscar (de Hollywood) por sua criação como Piaf. Antes, o cara foi casado com Diane Kruger, o que não é pouca coisa. Canet dirige Até a Eternidade, Les Petits Mouchoirs, em cartaz nos cinemas e que ele próprio, numa entrevista realizada em Paris – nos encontros promovidos pela Unifrance -, definiu como seu ‘film de potes’, ou seja, de amigos.

Na época, Canet estava prestes a interpretar, nos EUA, um filme que já entrou em cartaz – Apenas Uma Noite. Na entrevista com a diretora Massy Tadjedin, o repórter observou que havia achado Canet muito parecido com Patrick Dempsey e ela achou graça porque, inicialmente, o personagem do ex-amante de Keira Knightley havia sido escrito para o astro da série Grey’s Anatomy. Faltando pouco para o início da rodagem, Massy achou que seria melhor se o personagem fosse estrangeiro e se lembrou de Canet, a quem conheceu quando ele foi apresentar um de seus filmes em Los Angeles. “Ele foi muito sedutor”, comentou com o repórter do Estado.

A entrevista com Guillaume Canet, em Paris, era para falar de Le Dernier Vol, de Karin Dridi, em que contracena com a mulher. Marion faz uma aviadora francesa que voa sobre o Saara, ele integra o Exército colonial francês. No final, a entrevista foi muito mais sobre os filmes do próprio Canet e sobre sua linda mulher. Ele contou como o processo de Ne le Dis à Personne havia sido estressante. “Trabalhei muito na montagem, no lançamento e no final estava tão debilitado que peguei um vírus. Fui parar no hospital, com suspeita de septicemia. Isso me levou a repensar minha vida, minhas prioridades.”

Mas o verdadeiro início do que viria a ser o filme em cartaz ainda demorou mais um tempo. Ne le Dis é de 2005, Até a Eternidade, de 2010. Canet o havia concluído, estava cheio de expectativa face à acolhida do público e da crítica (que foi favorável, na França). Em 2007, partiu em viagem com uma amiga, que não identificou. Começou a lhe falar do filme de amigos que pretendia realizar. Foi quando percebeu que o projeto estava praticamente pronto no seu imaginário. Escreveu o roteiro nos intervalos de filmagem de L’Affaire Farewell, do qual foi ator, em 2008. Convocou os amigos – François Cluzet, que faz o líder do grupo, aquele que vai para o hospital na ficção e isso desencadeia a crise dos amigos; Jean Dujardin; e a mulher amada, Marion Cotillard.

“Jean, eu conheço desde o jardim de infância. Cobrava dele – tu te souviens de Mademoiselle…? Ele se lembrava de todas as professoras que tivemos, desde aquela época.” O modelo assumido de Canet foi O Reencontro, de Lawrence Kasdan. “Não conheço ninguém que não goste daquele filme nem que não seja tocado pela amizade daquele grupo. O que queria colocar na tela era justamente a união das pessoas e questionar as pequenas mentiras, sobre as quais construímos nossas vidas. Você está contente com seu trabalho? Com sua companheira?”

Ele admite que os diálogos, as cenas, vieram antes que a estrutura e que o clima de companheirismo foi essencial no set, mesmo que eventualmente, pela própria confusão entre realidade e ficção, surgissem atritos. “A equipe técnica participava desse clima. Todos conhecidos, muitos amigos. Não creio que o cinema deva ser sempre assim, mas, às vezes, dá certo. Veja os filmes de Claude Sautet (o diretor de ‘As Coisas da Vida’). Quando crescer, quero ser como ele”, brinca. E Le Dernier Vol? “Foi muito interessante de fazer. A aventura no deserto, a estrutura romanesca do relato. Pena que o público não tenha se deixado seduzir.” Marion? “É o amor da minha vida, e uma atriz formidável. O mundo todo já se deu conta de como ela é especial. E Marion, quando entra na personagem, é para valer.”

10/07/2012 - 19:01h Torna a Surriento e Non ti scordar di me

Torna a Surriento e Non ti scordar di me – Ferruccio Tagliavini
Do filme ‘Vento Di Primavera’ (1958)

Torna a Surriento

Vide ‘o mare quant’è bello!
spira tanta sentimento…
Comme tu, a chi tiene mente,
ca, scetato, ‘o faje sunná!

Guarda guá’ chisti ciardine,
siente sié’ sti sciure ‘arancio…
nu prufumo accussí fino,
dint”o core se ne va…

E tu dice: “Io parto, addio!”
T’alluntane da stu core…
Da la terra de ll’ammore,
tiene ‘o core ‘e nun turná?!

Ma nun mme lassá,
nun darme stu turmiento…
Torna a Surriento:
famme campá!…

Vide ‘o mare de Surriento
che tesore tene ‘nfunno:
Chi ha girato tutt”o munno,
nun ll’ha visto comm’a ccá!

Guarda, attuorno, sti Ssirene
ca te guardano ‘ncantate
e te vònno tantu bene:
Te vulessero vasá!…

E tu dice: “Io parto, addio!”
T’alluntane da stu core…
Da la terra de ll’ammore,
tiene ‘o core ‘e nun turná?!


Ma nun mme lassá,
nun darme stu turmiento…
Torna a Surriento:
famme campá!…

Non ti scordar di me

Música: Ernesto de Curtis (1875-1937)
Italiano

Partirono le rondini dal mio paese
freddo e senza sole,
cercando primavere di viole,
nidi d’amore e di felicita.
La mia piccola rondine parti
senza lasciarmi un bacio,
senza un addio parti.

Non ti scordar di me:
la vita mia legata e a te.
Io t’amo sempre piu,
nel sogno mio rimani tu.
Non ti scordar di me:
la vita mia legata e a te.
C’e sempre un nido
nel mio cor per te.
Non ti scordar di me!

Español

Las golondrinas ya se van
en busqueda de calor y primavera
llevando mis tristezas en sus alas
y para mí, ya nunca volverán.
Mi pequeña golondrina se ha ido
sin darme un beso,
sin un saludo de despedida.

No me olvides:
que mi vida esta únida a tí.
Te quiero más y mas,
y te quedas en mis sueños.
No me olvides:
que mi vida esta únida a tí.
siempre habrá un nido
en mi corazón para tí.
no me olvides!


Beniamino Gigli – Non ti scordar di me


Luciano Pavarotti – Non ti scordar di me (Concert at the Madison Square Garden. New York, 1987)

09/07/2012 - 17:00h A trilogia de Antonioni

Luiz Carlos Merten – O Estado SP

Na entrevista que fiz com Walter Salles, nas semana passada, houve um momento em que estávamos no L’Hotel e eu lembrei que, naquele hotel, havia entrevistado Michelangelo Antonioni, Wim Wenders e Claude Lanzmann. Walter observou que ‘Shoah’ é certamente um monumento de cinema, mas que Antonioni e Wenders, de uma maneira muito especial, foram decisivos para que despertasse nele o desejo de ser diretor de cinema. Lembro-me de uma homenagem que o Festival de Tessalônica, na Grécia, prestou ao cinema brasileiro. Fui convidado para fazer a cobertura para o jornal e participar de uma mesa. Foram encontros bem interessantes e houve um em que Wenders e Waltinho falaram de cinema de estrada. Como se roteiriza e realiza um filme que é feito ‘on the road’? Como se incorpora o imprevisto? Waltinho diz que Wenders foi referência para ele, mas Wenders, naquela mesa, se referia ao colega brasileiro como ‘igual’ – e um grande diretor. Por que estou lembrando isso? Por causa de Antonioni. Lembro-me de que fiquei na cola dele, quando veio a São Paulo. A entrevista foi feita por meio da mulher, que traduzia o que ele dizia com a língua toda enrolada, após o acidente vascular cerebral que o deixou paralítico e sem fala, reduzido ao silêncio, em 1985. Dez anos mais tarde, apesar das difíceis condições físicas, ele fez aquele filme, ‘Além das Nuvens’, do qual Wenders foi o diretor stand-by, por exigência das seguradoras. Antonioni quis ir ao cinema em São Paulo. Estava estreando ‘Lobo’, de Mike Nichols, com Jack Nicholson, a quem dirigira em ‘O Passageiro, Profissão: Repórter’. Nicholson seria chamado para lhe entregar, também em 1995, o Oscar honorário que recebeu da Academia de Hollywood. Fez aquele discurso de apresentação, dizendo que era irônico que o autor que havia incorporado o silêncio e feito dele um importante elemento dramático agora não pudesse falar. Acompanhei Antonioni quando foi ver ‘Lobo’ (no antigo Gazeta). Sentei-me a uma certa distância e fiquei com um olho na tela e outro nele. Era evidente seu prazer diante das reações de Nicholson, num papel sob medida, o cara pacato, em crise profissional e afetiva e para quem a transformação em lobisomem significava uma injeção de potência (e o herói se aproveitava disso, descontando na libido acesa da personagem de Michelle Pfeiffer). Antonioni, que foi um grande criador de personagens femininas, curtia o jogo de sedução do filme. Dada a sua paralisia, posso psicologizar que ele, que foi um sedutor, talvez estivesse curtindo o fantasioso excesso de potência de seu ator fetiche. Cheguei em casa na última sexta-feira e me esperava a nova caixa da Versátil. A empresa está lançando a trilogia da solidão e da incomunicabilidade. ‘A Aventura’, ‘A Noite’ e ‘O Eclipse’ já haviam sido lançados isoladamente, e agora estão juntos, num único (re)lançamento. Antonioni fez esses três filmes entre 1960 e 62, radicalizando a tendência à introspecção e o fazendo por meio de narrativas abertas, que pulverizam a história e exibem, o que não deixa de ser paradoxal, grande rigor técnico. Qual é a história de ‘A Aventura’? No começo do filme, a personagem de Lea Massari desaparece durante um cruzeiro e sua amiga Monica Vitti a procura com o amante da desaparecida, Gabriele Ferzetti, de quem se aproxima e com tem um affair. Antonioni disseca os sentimentos e não responde à pergunta – por que ela sumiu? A resposta só virá no desfecho de ‘O Eclipse’, na prodigiosa sequência que expressa o eclipse do gênero humano, quando as pessoas somem de cena e ele filma – vazios – os espaços em que se desenrolou a ligação de Monica Vitti com Alain Delon. Entre ambos os filmes, ‘A Noite’ se ocupa das deambulações de Lídia, Jeanne Moreau. Ela visita com o marido, Marcello Mastroianni. o amigo moribundo no hospital e depois caminhas sozinha por Milão. À noite vai à festa na mansão de Valentina, Monica Vitti, e de novo percorre os ambientes sem se fixar em nada nem ninguém. De manhã, exaustos, o marido e ela sentam-se no jardim e Lídia lê aquela carta de amor que ele nem se lembra de haver escrito, anos atrás. Os três filmes vão se completando e esclarecendo. A solidão, a incomunicabilidade, o vazio existencial da elite situada no topo da pirâmide social. A trilogia pertence a uma grande fase do cinema italiano. Entre 1960 e 62, Federico Fellini estava fazendo ‘A Doce Vida’ e ‘Oito e Meio’ e Luchino Visconti, depois de ‘Rocco e Seus Irmãos’ e do episódio de ‘Boccaccio 70′, O Trabalho, finalizava ‘O Leopardo’, que venceria a Palma em Cannes, 1963. Grandes mudanças – estéticas, éticas, comportamentais – estavam ocorrendo. Havia também a nouvelle vague, o Cinema Novo, que eclodia. A trilogia de Antonioni era e ainda é um marco. Os filmes eram modernos e continuam sendo. Não envelheceram. E Monica Vitti, que depois liberou sua veia de comediante, exprime a tensão com economia. Gestos precisos, poucas palavras. Aqueles três filmes formam uma Bíblia do cinema.

09/07/2012 - 16:04h Guido Magnone e o Fitz Roy

1° Ascención del Fitz Roy expedición francesa, Provincia de Santa Cruz
Revista “Ski y Andinismo” de la Federación Argentina de Ski y Andinismo
Año 2 N° 4 Julio de 1952
Archivo de la Biblioteca del CCAM
- Por Louis Depasse y Francisco Ibañez -

“Es un placer leer en esta nota sobre uno de los anales de nuestra historia andinistica nacional, además quiero agregar la versión que me contó Gerardo Watzl sobre lo que le ocurrió a Jacques Poincenot, ya que el se encontraba en Patagonia en esa misma fecha como uno de los jefes de la expedicion a los Hielos Continentales.
La versión oficial cuenta que Poincenot se ahogo cruzando el río Fitz Roy y lo que me contó Gerardo Watzl fue que un estanciero de la zona lo encontró con su esposa y este lo mató de un escopetazo. La verdadera versión no se dio a conocer para evitar problemas diplomáticos.”

Guillermo Martin
Editorial del CCAM

Cuando el Ingeniero Louis Depasse llegó a la Argentina en abril de 1951, sabía que una expedición francesa vendría para los Andes Patagónicos en el verano siguiente y que, entre sus proyectos, figuraba el Fitz Roy, la hermosa montaña de que se ha ocupado extensamente Ski y Andinismo en su número anterior. Había conversado de este proyecto con Jacques Poincenot y Louis Lachenal en el Hospital Americano de París, mientras visitaba a este último, en tratamiento por las congelaciones sufridas en el Himalaya (Annapurna). Desgraciadamente sus tareas profesionales de ingeniero no lo permitirían participar en la expedición.

Las cosas cambiarían totalmente, merced al azar y al encadenamiento de las circunstancias y Depasse recibió de sus compañeros franceses, el encargue de realizar en la Argentina todos los trámites necesarios para que la expedición pudiese ser llevada a buen término.

Mapa de ubicación del Fitz Roy, Provincia de Santa Cruz, Argentina

Mapa de ubicación del Fitz Roy, Provincia de Santa Cruz, Argentina

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El prosecretario de la F.A.S.A., Prof. J. F. Finó, había contribuido a hacer conocer el Fitz Roy en Europa merced a un artículo publicado en Alpinisme y que ostentaba hermosas fotografías del Dr. Bruno Guth. Depasse se entrevistó con él y gracias a su amplia colaboración como así también del Presidente de la F.A.S.A., Ing. T. L. Hauthal, y del Director de Turismo Francés en Buenos Aires, Sr. Roland Sadoun – alpinista él también – que fuera encargado de este asunto por el Embajador en Francia, M. Georges Picot, pudieron resolverse, uno tras otro, todos los problemas que planteaba semejante empresa.

La posterior visita de Herzog y Oudot a la Argentina facilitó aún más las cosas. El Dr. Bruno Guth puso a nuestra disposición su gran conocimiento de la zona y su hermoso archivo fotográfico. Roberto Matzi que había realizado una tentativa en 1949 con H. Zechner, G. Lantschner y R. Dangl, nos transmitió valiosos informes. Un grupo de jóvenes andinistas, J. V. Pillet, A. Cazaux, Fr. Boucher y Alfredo Magnani, nos comunicaron toda la documentación que habían reunido en vista a una posible visita al gigante patagónico. Nada diremos sobre los múltiples preparativos previos: compra de víveres, estudio de transportes, etc., etc.

Cruzando el rio Fitz Roy en la carreta de bueyes de Madsen
Cruzando el rio Fitz Roy en la carreta de bueyes de Madsen

El 19 de diciembre todo el grupo se hallaba reunido en Buenos Aires. Se componía de RENE FERLET, Secretario de la Federación Francesa de la Montaña y jefe de la expedición. Socio del G.H.M., es un extraordinario trepador de rocas. Dr. MARC A. AZEMÁ, médico cirujano, socio del G.H.M. y que ha realizado grandes ascensiones en los Alpes. LOUIS LLIBOUTRY, muy buen alpinista, profesor de física en la Universidad de Santiago de Chile, debería encargarse de las observaciones científicas. GUIDO MAGNONE, uno de los mejores especialistas franceses en escalada artificial y que, poco tiempo atrás, en sus tentativas a la faz Oeste del Dru había demostrado una extraordinaria maestría. JACQUES POINCENOT, socio del G. H. M., que figura entre los más destacados trepadores franceses de rocas y que sabe evolucionar con toda soltura en pasos considerados, como marcando el límite de las posibilidades humanas. GEORGES STROUVÉ, trepador de primera línea y que se desempeñaría como cineasta y fotógrafo. LIONNEL TERRAY, antiguo instructor en la Escuela Militar de Alta Montaña y en la Escuela Nacional de Alpinismo; guía y esquiador francés de primera, integrante de la Expedición Francesa al Himalaya 1950. Por último, los informantes LOUIS DEPASSE, antiguo profesor en la Escuela Nacional de Montaña de Chamonix y guía de alta montaña, y el subteniente FRANCISCO IBÁÑEZ, andinista argentino designado por el Superior Gobierno como oficial de enlace.

Antes de nuestra salida para el Sur, S. E. el General Juan Perón nos recibió en audiencia especial. Con una simplicidad y una cordialidad que nos conmovió, nos dijo que deseaba recibirnos sin protocolo y conversar con nosotros “entre montañeses”. En el transcurso de esta audiencia, impartió instrucciones precisas a fin de que se nos prestara todo el apoyo y la ayuda que podríamos necesitar: aviones, radio, soldados y camiones del ejército para el transporte. “Nosotros – nos dijo – asumimos la responsabilidad de vuestro viaje horizontal, a Uds. la responsabilidad del viaje vertical”.
Al retirarnos, nuestra moral estaba muy alta ya que la valiosa ayuda del General Perón resolvía muchas dificultades que nos preocupaban.

Jacques Poincenot
Jacques Poincenot

El viaje

Un avión de las líneas argentinas nos lleva a Santa Cruz y de ahí los camiones del ejército nos transportaron hasta las cercanías de la balsa que permitirá cruzar el Río de las Vueltas.

Es el 25 de diciembre, día de Navidad. Depasse regresa a Santa Cruz en busca de la segunda parte de nuestra carga y, mientras tanto, sus camaradas tratan de atravesar el río, pese a sus aguas crecidas, a fin de instalar el campo base cerca de la estancia Madsen. En el transcurso de la tentativa, nuestro pobre compañero Poincenot, halla una muerte estúpida e ilógica: se ahoga al cruzar el Río Fitz Roy. Cuando Depasse regresa el 31 de diciembre al Río las Vueltas, las aguas comienzan por fin a descender.

3 de enero. Los hermanos Halvorsen de la estancia Túnel, realizan la proeza de pasar con sus camiones sobre la balsa del Río las Vueltas y nos transportan con todo nuestro material hasta la estancia Madsen vadeando el Río Fitz Roy. Establecemos ahí un 1er. campo base.

5 de enero. Con Andrés Madsen llevamos, a caballo, una parte de nuestro material hasta la margen derecha del Río Blanco, al pie de la morena frontal del “Glaciar de los Tres”. Ahí instalaremos un campo base avanzado, con una radio portátil que puede comunicarse permanentemente con el potente camión-radio del ejército argentino estacionado en el Río las Vueltas. El mismo día, Terray, Ferlet y Strouve realizan un reconocimiento.

6 de enero. Penoso acarreo de implementos, en medio del temporal, hasta la depresión que une los glaciares Fitz Roy y el Río Blanco.

7 de enero. Nuevo transporte de material hasta la depresión. Instalamos una carpa de nylon y el grupo Terray-Magnone se queda para pernoctar. En la noche, la tormenta desgarra la carpa y tienen que cavar una gruta en la nieve para protegerse. En adelante todos los campamentos se harán en grutas. En los días subsiguientes instalamos el Camp. II cuya entrada se abre en la rimaya misma del Fitz Roy, a pocos metros de las enormes lajas monolíticas. Mientras tanto Lliboutry y el Dr. Azema vuelven de un reconocimiento sobre la faz Oeste del Fitz Roy. La suerte está echada. Atacaremos aquí.

Lionnel Terray levanta un carguero con cajas, despues del río de las vueltas
Lionnel Terray levanta un carguero con cajas, despues del río de las vueltas

El plan de ataque

Nuestro plan es el siguiente: Ascender la Silla, es decir, la depresión nevada al pie del filo S. E. y que ya fuera alcanzada por la expedición italiana de 1936 -1937. Equipar esta parte de la montaña a fin de poder instalar en la Silla una gruta confortable, provista de víveres y elementos de escalada. Desde esta base se atacaría la pared situada a la derecha del filo S.E. y que está algo protegida del viento. Se trataría de trepar una inmensa “canal-chimenea” que atraviesa en diagonal ascendente (de derecha a izquierda) la muralla y va hacia la parte superior del filo al que alcanza en las cercanías de un pequeño nevé denominado, por nosotros, “la araña”. De este punto se trataría de trepar la parte superior del pilar Sur para llegar al filo terminal, que aparecía como fácil. Esta última parte del plan sería luego imposible de ejecutar y fue necesario volver a atravesar sobre la faz Sur.

11 de enero. A las 8, Terray y Depasse dejan el Camp. II para tratar de llegar a la Silla. Resulta imposible pasar un enorme muro en sobrependiente sobre la rimaya. A la derecha, ésta se halla interrumpida por una laja rocosa. Una cinta, ascendente, inclinada hacia afuera, y cubierta de hielo, atraviesa la laja. Lionnel, con los grampones puestos, se asegura con un clavo y se lanza al ataque. En la maniobra uno de los grampones se suelta pero, pese a ello, consigue pasar después de haber plantado un segundo clavo. El tramo es muy difícil. Más arriba ascendemos una pendiente de hielo que costea la base de la pared y cuya inclinación llega a 55 y 60 grados. Tomamos luego un canal de rocas sueltas con abundante nieve, donde hallamos dos pasos bastante difíciles. Este nos lleva a una depresión situada a la izquierda de la Silla. En el canal, Lionnel pierde definitivamente su grampón flojo. Poco antes del filo, atravesamos a la derecha hacia las pendientes de nieve de la Silla (rocas bastante difíciles) y luego una trepada directa nos lleva sobre la pendiente terminal que hallamos cubierta de hielo inclinado a 60 grados. Sobre esta pendiente, Terray que tiene un solo grampón, se entrega a asombrosas pruebas de acrobacia y, finalmente, alcanzamos la Silla.

Descongelando las botas antes de salir con un calentador a alcohol Marque Déposée, el cual tenemos en nuestro museo del CCAM.
Descongelando las botas antes de salir con un calentador a alcohol Marque Déposée,
el cual tenemos en nuestro museo del CCAM

El espectáculo es impresionante. Jamás hemos visto nada tan salvaje como el Fitz Roy y sus satélites. Un primer plano casi absolutamente vertical se pierde, allá arriba, entre las nubes. Frente nuestro, arriba de un hervor de nubes agitadas por la tormenta, el cerro Torre y el Cordón Adela dejan, por momentos, entrever inmensas paredes de roca y hielo de una inclinación inconcebible.

De inmediato pasamos sobre la faz Oeste que, durante un centenar de metros, baja en pendiente suave y comenzamos a cavar una gruta en la nieve. A los 20 centímetros aparece el hielo y es necesario trabajar con la piqueta. Entre tiempos, Depasse practica un pequeño reconocimiento y halla un acarreo que, de este lado, nos permite salvar los pasos difíciles justo bajo la Silla. Con dificultades, a causa del viento, vuelve hasta Terray y como la tormenta crece de momento en momento, depositamos las cargas en la pequeña gruta y procedemos a cerrarla.

A las 18 hs emprendemos el regreso. No se puede permanecer de pie a causa del viento y tenemos que engancharnos en las rocas. Las cejas se cubren de hielo y resulta imposible sacar las antiparras que llevamos en la mochila. Poco antes de la depresión, las rocas caen a pico sobre 20 mts. Hemos errado el camino de regreso.

Croquis de la ruta de la 1º Ascensión al Fitz Roy francesa
Croquis de la ruta de la 1º Ascensión al Fitz Roy francesa

Decidimos salvar el obstáculo merced a un “rappel” o maniobra de soga doble, pero la cuerda se alarga horizontalmente a causa del viento… Es entonces necesario cargar sus extremidades con dos gruesas piedras. Del otro lado hallamos relativa calma pero las rocas van siendo cubiertas por una capa de nieve. A las 20.30 estamos “en la gruta del Camp. II, en un ambiente de absoluta calma”.

Hasta ahora hemos progresado en condiciones invernales. La tormenta de hoy nos hace comprender que, para atacar la pared final, es necesario esperar el buen tiempo. Con ese viento, sería imposible regresar.
En los días subsiguientes continúa el penoso acarreo de material a la Silla. Cada uno de nosotros lleva, cava, arregla los pasos y prepara la difícil victoria.

Teniente Francisco Ibañez
Teniente Francisco Ibañez

21 de enero. La montaña está equipada. La gruta del Camp. I contiene dos carpas así como víveres y material en cantidad suficiente. La gruta del Camp. II, lo mismo. El paso de la rimaya está equipado con una soga fija y una escala de cuerdas. Más arriba, tres sogas fijas cruzan la pendiente de hielo hasta alcanzar la roca. La gruta del Camp. III resultó inhabitable, a causa de los bruscos cambios de presión provocados por el viento. Hemos entonces cavado otra gruta sobre la faz Este, justo sobre el vacío. Es una gruta amplia, que contiene dos carpas, víveres y material de escalada.

22 de enero. Terray y Magnone atacan la pared. El viento los obliga a regresar. Han superado 25 metros y la pared tiene 600…

28 y 29 de enero. El tiempo empeora. El barómetro bate sus propios record de salto en profundidad. Todos nos hallamos reunidos en el Campamento base, profundamente desanimados.
La victoria

30 de enero. Tiempo magnífico. Subimos todos con pesadas cargas al Camp. II. Lionnel, Magnone y Lliboutry continúan hasta el Camp. III.

31 de enero. Lionnel y Guido atacan la pared a las 10.15 hs. Cueste lo que cueste hay que alimentar el Camp. III que les sirve de base. Salimos pues del camp. II y transportamos todas las cargas al III. Luego, Lliboutry, Depasse e Ibáñez regresan a la base.

A partir de ahora, con nuestros binoculares, desde el campo base y desde el Camp. III seguiremos apasionadamente el desarrollo de la escalada. Lionnel y Guido regresan al Camp. III a las 22 hs. después de haber equipado 120 metros de pared. La tarea cumplida ha sido la siguiente. Salen a las 10.15 del Camp. III y siguen el filo nevado, que concluye contra la pared de la cima y luego, atacan dicha pared, partiendo de unos 10 metros más abajo y escalándola, a la derecha, por una fisura de unos 45 mts., de aspecto poco promisorio. Después de un comienzo difícil, la escala se torna muy ardua y requiere el empleo de medios artificiales. La salida, en sobrependiente, se halla al límite extremo de lo factible. Viene luego una cinta horizontal, un “rateau de chévres” y una laja escarchada, siempre extremadamente difícil, luego una chimenea en sobre-pendiente, cuyo fondo está atascado de hielo, requiere nuevamente el empleo de los medios artificiales y constituye un “paso límite”. Aquí termina la parte ascendida y equipada ese día.

1º de febrero. Terray y Magnone salen nuevamente del Camp. III a las 7.15 hs. En cuatro horas superan la parte equipada el día anterior y se lanzan sobre la pared virgen. Atacan una serie de cintas y gradas que constituyen una travesía ascendente hacia la derecha, de 80 a 100 metros, y que conducen a “la diagonal”. En adelante, los trepadores ascenderán por esta “diagonal”. Después de algunas dificultades, comienza un paso que pone a ruda prueba a los dos ascensionistas.

Lionnel Terray efectua largos rodeos para evitar hondas grietas
Lionnel Terray efectua largos rodeos para evitar hondas grietas

En esta pared inmensa, se necesitarán cinco horas para franquear 25 metros. El día transcurre sin que la altura ganada sea sensible y la inestabilidad del tiempo es un peligro constante. Un “techo”, un diedro y luego un
“Dulfer” de 8 metros que lleva a una plataforma minúscula sobre la que se desciende algo hacia la derecha. Son veinticinco metros de roca, muy mala y cubierta de escarcha, de una dificultad constantemente “límite”, tanto en las partes de escalada libre como en las de escalada artificial, que insumieron cinco horas a dos de los mejores trepadores europeos para vencerlas…

Siguiendo siempre la “diagonal”, la escalada continúa igualmente difícil. La esperanza de ver ceder las dificultades es constantemente burlada y se presiente que el Fitz Roy opondrá defensas hasta el último momento. Merced a unos diedros y a otro “rateau de chevres” llegan a proximidad del filo izquierdo. Se procede a lanzar una cuerda, se coloca un estribo sobre la cuerda sostenida por el segundo trepador y se llega al filo que se abandona muy luego en una travesía hacia la izquierda. Hace ya rato que los trepadores recuperan sus clavos pues éstos empiezan a escasear pese a la gran cantidad que llevaran consigo al salir del Camp. III. Con todo, después de un diedro de 6 mts., muy difícil, es necesario sacrificar un clavo para apoyo, y la escalada, a partir de este lugar, tomará características invernales.

Diedros, gruesos blocs, lajas en sobrependiente, todos estos pasos – ya difíciles de por sí – están revocados con hielo. Lionnel y Magnone entran en el fondo de un canal y entonces la muralla pierde su verticalidad, pese a continuar siendo muy inclinada. Después de un paso en sobre pendiente a unos 30 mts. más arriba y a la derecha de “la araña”, instalan el vivac.

Guido Magnone y Lionnel Terray en la cueba de hielo del campamento Nº 3 a la regreso de la cima. Hace dos dias que casi no comen es el 2 de enero
Guido Magnone y Lionnel Terray en la cueba de hielo del campamento Nº 3 a la regreso de la cima.
Hace dos dias que casi no comen es el 2 de enero

Son las 22.30. Hay una pequeña laja inclinada para cada uno. Se aseguran merced a clavos y a la cuerda y comienza la espera del nuevo día. Cuando Terray abre los ojos y mira hacia abajo, su mirada cae directamente, sin obstáculo alguno, sobre el glaciar que brilla débilmente a unos 800 u 900 metros más abajo.

A la mañana siguiente, a las 8.30, prosiguen la escalada. Después de una travesía hacia la izquierda, en dirección a “la araña”, trepan por la roca cuyas dificultades son siempre grandes y se dirigen hacia el filo S.E. del Fitz Roy, al que, por fin, pueden alcanzar. Este filo se pierde en un conjunto de enormes lajas monolíticas sobre pendientes. Imposible pasar. Es necesario atravesar hacia la derecha, sobre rocas revocadas de hielo. Más arriba se eleva un pilar que parecería conducir hacia el filo superior aparentemente fácil. Los trepadores, casi desprovistos de clavos, se hallan ante dificultades cada vez más grandes. Además, el tiempo se está cerrando poco a poco. El desaliento invade a los dos hombres. Sin embargo, se han vencido las tres cuarta partes de la pared. El filo superior debe hallarse cerca. Pero piensan en el viento, en ese terrible viento patagónico que ya han podido conocer. Si se levanta sobre esta pared, no queda posibilidad de regreso.

Guido, erguido sobre una plataforma inclinada y cubierta de hielo, ataca un diedro que se eleva por el pilar. Tiene que posar clavos y entallar asideros en el hielo. Toma un clavo como punto de apoyo y deja pasar a Terray que lleva los grampones puestos. Gracias a éstos, Lionnel puede izarse sobre un filito de nieve que une un bloc a la pared. La escalada prosigue entonces durante 90 metros en un dédalo de canales-chimeneas, a la derecha del gran pilar. El trabajo de claveteo recomienza en las fisuras atascadas de hielo y que, a menudo, terminan en sobrependiente. Siguen 30 metros relativamente fáciles en un canal-chimenea y una terraza de 5 metros a la izquierda.

Terray y Magnone están ahora muy cerca del filo. Desde abajo vemos que les falta poco para llegar al término de las
dificultades pero el tiempo se cubre cada vez más y las nubes comienzan a rodear la cima.

Ellos, por su parte, “sienten” la cumbre y se apresuran. Sin embargo, el último paso, una laja escarchada de 4 metros y un paredón que concluye bajo un sobrependiente muy pronunciado y también escarchado, tiene realmente mal aspecto. Guido ataca con clavos, y deja pasar a Terray que, gracias a sus grampones, puede franquear la convexidad helada. El Fitz Roy está vencido pero hasta el último momento se ha defendido con ahínco. Son las 16 hs. Ahora los trepadores se apresuran sobre el filo terminal. Nieve y rocas no presenta dificultad alguna para ellos, pero el temporal se acerca.

Guido Magnone entrando a la cueba de hielo del campamento Nº 3 al regreso de la cima son las 22:30 del 2 de enero
Guido Magnone entrando a la cueba de hielo del campamento Nº 3,
al regreso de la cima. Son las 22:30 del 2 de enero

A las 16.40, en la cumbre, hacen flamear las banderas argentinas y francesas. Colocan un mosquetón Cassin en una olla eoliana y arrastran encima el bloc más grueso que les sea dado mover. Comienza entonces una desesperada carrera de descenso. Desde abajo es ya imposible verlos. Las nubes han cubierto la cumbre, pero el viento intenso aún no se ha levantado.

Después de catorce “rappels” de 25 a 30 metros y dos de 50 mts., logran la hazaña de alcanzar la parte ya equipada y, a las 22.30, están en el Camp. III.

El regreso

El 6 de febrero, Ferlet, Lliboutry y Depasse vuelven, por 6º vez ,a la Silla a fin de bajar todo el material allí acumulado y recuperar los equipos de los sucesivos campamentos. Luego, regresamos a Santa Cruz para tomar el avión que nos conducirá a Buenos Aires. Obedeciendo órdenes expresas del Exmo. Señor Presidente de la Nación, el piloto comandante del DC 3 de Aerolíneas nos hace sobrevolar la zona del Fitz Roy. Observamos afanosamente sus inmensas murallas y nada nos permite pensar que por algún otro lado, la ascensión hubiera sido más fácil.

El Fitz Roy, único entre las montañas conocidas, no ofrece ninguna vía cómoda de acceso. Defendido por doquier por
inmensas lajas y gigantescos gendarmes, el Fitz Roy se presenta como la montaña más hermosa y más difícil ascendida hasta hoy.

Ibáñez quería hacer conocer su feudo, el Aconcagua, a la expedición. Gracias al apoyo ilimitado del General Perón, de la Confederación Argentina de Deportes y de las autoridades militares, pudo visitárselo en un viaje relámpago. Pese al escaso tiempo disponible y a lo avanzado de la estación, Ibáñez y Terray llegan el 9 de marzo a la cumbre de América.

Antes de regresar, la expedición en pleno concurre a agradecer al General Perón el amplio apoyo prestado. En presencia del Embajador de Francia y de altas autoridades civiles y militares argentinas, Ferlet y Terray hacen un relato de la ascensión y entregan al Presidente de la República un trozo de roca arrancado de la cumbre del Fitz Roy. Para la señora Eva Perón, entregan una bandera argentina que nos fuera confiada a la ida y que ha flameado en las cumbres del Fitz Roy y del Aconcagua.

El Señor Presidente acepta conmovido nuestro sencillo recuerdo y procede a condecorar a Terray y Magnone con la Medalla del Deporte, imponiendo luego a Ibáñez el Cóndor de Oro de las tropas de montaña y entregando a cada uno de los expedicionarios una medalla recordatoria especialmente acuñada, a la vez que los felicitaba por una victoria a la que tanto había contribuido.

La expedición Francesa a los Andes Patagónicos 1951-1952 había terminado.

EN HONOR DE LOS EXPEDICIONARIOS AL HIELO CONTINENTAL Y AL FITZ ROY

El 25 de marzo, en los salones del Club Universitario de Buenos Aires, nuestra federación organizó una cena de camaradería en honor de los compañeros que escalaron el Fitz Roy y de aquellos que integraron la Expedición Argentina al Hielo Continental. La sala había sido especialmente decorada con les banderines de las instituciones que integran la FASA como así también las insignias pertenecientes al Club Alpin Français y a las Federaciones de los países hermanos de Bolivia y Chile. La numerosa concurrencia reunió a las más destacadas figuras del montañismo en la Argentina y junto a los andinistas de 1951-52 fue dado ver al Dr. Alfredo Koelliker, que realizara en 1916- 1917 la primera recorrida de la zona, como así también a Hans Zechner, que intentara la ascensión del Fitz Roy en 1947, 1948 y 1949.

El presidente Peron procede a condecorar a Guido Magnone con la medalla del deporte por su logro en la cumbre Fitz Roy
El presidente Peron procede a condecorar a Guido Magnone
con la medalla del deporte por su logro en la cumbre Fitz Roy

A los postres hizo uso de la palabra el Vicepresidente de la FASA Dr. Pedro Medina Olaechea, quien destacó en forma breve pero emotiva, las hazañas realizadas por ambas expediciones, entregándoles un banderín de nuestra Federación. Contestaron, agradeciendo, el señor René Ferlet – por la expedición francesa -y el Dr. Bruno Guth, por la expedición argentina. El Sr. Mario Segré, en nombre de la Sección Argentina del Club Alpino Italiano, felicitó a los esforzados expedicionarios y recordó que, en 1937, fue la expedición italiana a los Andes Patagónicos encabezada por el conde Aldo Bonacosa, quien abrió la vía que seguirían los vencedores del Fitz Roy, Lionnel Terray y Guido Magnone, siendo precisamente este último de ascendencia italiana.

El Director de Revista Andina, Dr. Humberto Barrera V., trajo entonces el saludo de los andinistas chilenos y expresó que, hallándose últimamente en Milán, pudo ver en la sede del Club Alpino Italiano una fotografía del Fitz Roy con las banderas argentina, francesa e italiana, unidas en la cumbre en prueba de hermandad entre las tres naciones latinas.

Por último, el Teniente Francisco Ibáñez que acompañara a la expedición francesa y que, al subir con Lionnel Terray al Aconcagua, realizó así su cuarta visita a la cumbre máxima de América, brindó para la muy próxima Expedición Argentina al Himalaya.

Por su parte, el Centro Andino Buenos Aires organizó un asado en honor de sus compañeros del Hielo Continental y del Fitz Roy.

Este tuvo lugar el 23 de marzo en el campo de entrenamiento del C A B A en la fabrica de Escobar, y los expertos escaladores franceses tuvieron sumo agrado de palpar de cerca las paredes, chimeneas y cornisas donde se adiestran los trepadores porteños.

Ferlet recordó que él también había trepado a la Torre Eiffel por la armazón externa y no tuvo a menos probar sus fuerzas contra las murallas… de ladrillos

La magnifica demostración de técnica que realizaron los trepadores franceses y el entusiasmo con que los imitaron los jóvenes del C A B A imprimió singular relieve a esta cordial recepción andinista.

Revista "La Montagne" Ascensión al Fitz Roy Julio 1952 Francia
Revista “La Montagne” Ascensión al Fitz Roy Julio 1952 Francia

Área Restauración Fotográfica del CCAM: Natalia Fernández Juárez

09/07/2012 - 16:00h Guido Magnone

Wikipedia

Guido Magnone, né le 22 février 19171,2 à Turin en Italie, est un alpiniste et sculpteur français.

Sommaire

Biographie

L’alpiniste

Guido Magnone arrive en France à l’âge de trois ans. Après des études artistiques à l’école des beaux-arts, il découvre la montagne et devient rapidement l’un des meilleurs grimpeurs de sa génération3, inscrivant à son palmarès des conquêtes prestigieuses comme la face ouest des Drus dans les Alpes, les premières escalades du Fitz Roy en Patagonie avec Lionel Terray ou le Makalu dans l’Himalaya. Il entreprend également de nombreuses expéditions dans le Caucase, les Rocheuses, … Magnone a également participé à la création de l’UCPA3,4,1 et a été président du Groupe de haute montagne de 1961 à 19654.

Le sculpteur

Depuis 1977 il retourne à sa première passion : la sculpture, pour s’y consacrer pleinement vers 1990. Il recommence à exposer dès 19964,5. En 2002 il expose ses sculptures à Paris, Bourg-la-Reine, Aoste4,6 puis à Étroubles en 20097.

Principales ascensions

Publications

  • 1952 : Expedition française aux Andes de Patagonie (1951 / 1952), Textes par Maurice Herzog, René Ferlet et Guido Magnone, Legrand et fils14
  • 1953 : La Face W des Drus, Amiot-Dumont, préface de Maurice Herzog15
  • 1990 : Les Besoins de loisirs en montagne, Ministère du temps libre, Les Besoins de loisirs en montagne par Guido Magnone, la Documentation française16,17
  • 2005 : Sculpteur des cimes, Arthaud18,3,19

Documentaires vidéos

  • 1997 – Guido Magnone, l’Artiste, documentaire de 26 minutes sur Guido de Jean Afanassieff, alpiniste et réalisateur20
  • 1997 – Guido participe au tournage de La Grande Cordée de Jean Afanassieff21
  • 2006 – Guido Magnone, la voie des sommets, documentaire de 26 minutes sur Guido de Jean-Michel Rodrigo, Mécanos productions et France 3 avec le CNC22

Annexes

Liens externes

Notes et références

  1. a et b (fr) Société explorateurs, membres [archive] sur www.societe-explorateurs.org
  2. (fr) (notice BNF no FRBNF11913910k)
  3. a, b et c (fr) Guido Magnone, au sommet de son art – Par Jean-Michel Barrault, publié le 01/05/2005 – L’alpiniste, un des meilleurs grimpeurs de sa génération, a participé à la création de l’UCPA. [archive] sur www.lexpress.fr
  4. a, b, c et d (fr) Guido Magnone [archive] sur www.arthaud.fr
  5. (fr) Martigny : Un sculpteur atypique ! [archive] sur www.alp-info.com
  6. (fr) Fiche de l’exposition “La permanence de la forme” sur le site de la Région Autonome Vallée d’Aoste, Italie [archive] sur www.regione.vda.it
  7. (fr) (it) [PDF] Collection Fondation Pierre Gianadda – Les gravures du Grand-Saint-Bernard et sa région – ETROUBLES – Vallée d’Aoste – 2009 – Centre d’exposition [archive] sur www.expoetroubles.eu
  8. (fr) Guido Magnone : de l’Himalaya à l’anonymat – Télé. Un documentaire, diffusé samedi sur France 5, rend hommage à un grand alpiniste des années 50 injustement tombé dans l’oubli – Par DIDIER ARNAUD [archive] sur www.liberation.fr
  9. PARIS MATCH no 174 du 12.07.1952 – “Alpinisme : bel exploit à l’Aiguille du dru avec Berardini, Magnone et Dagorie”
  10. (fr) En 1952 G. Magnone et L. Terray font la première ascension du Fitz Roy. Un petit ITV de Guido Magnone de passage à Chamonix en 2002 [archive] sur www.tvmountain.com
  11. (fr) Les bonus du doc > Note d’intention de l’auteur [archive] sur documentaires.france5.fr
  12. (fr) [PDF] Tout savoir sur la Tour Eiffel (p. 14) [archive] sur www.tour-eiffel.fr
  13. (fr) [PDF] Chamonix Nostalgie (p. 154) [archive] sur books.google.fr
  14. (fr) (notice BNF no FRBNF33899082c)
  15. (fr) (notice BNF no FRBNF32407729p)
  16. (fr) (notice BNF no FRBNF36610207d)
  17. (fr) (notice BNF no FRBNF367137081)
  18. (fr) Sculpteur des cimes [archive] sur recherche.fnac.com
  19. (fr) (notice BNF no FRBNF39925382s)
  20. (fr) extrait en ligne [archive] sur www.tvmountain.com
  21. (notice BNF no FRBNF38568051d)
  22. (fr) Guido Magnone, la voie des sommets [archive] sur www.mecanosprod.com

09/07/2012 - 15:58h Faleceu Guido Magnone

Guido Magnone acaba de falecer aos 94 anos de idade. Grande nome do alpinismo mundial, Guido fez questão de conversar comigo no mês passado. Festejamos juntos o dia dos pais. Sua saúde estava frágil, mas era lúcido e manifestou interesse pela situação no Peru e a política de Ollanta Humala. Guido é o pai de minha querida Sophie e o avó de meu filho Lucas.Sinto uma dor imensa pela perda. Guido foi grande Homem, com agá maiúsculo, interessado a tudo, forte de caráter e esportista de alto nível.
É uma grande perda para nossa família.
LF

Reproduzo a seguir duas matérias publicados no blog, en francês, sobre Guido Magnone


Le baladeur

Un documentaire de 52’
de Marina Paugam & Jean Michel Rodrigo

Champion national de natation et de water-polo, Guido Magnone est surtout le vainqueur, en 1952, de la face ouest des Drus, réputée pour être LA montagne impossible.

Il entre aussitôt dans la légende des “grands”, cette poignée d’explorateurs qui vont conquérir le toit du monde au cours des années cinquante.

http://mountainsoftravelphotos.com/ReferenceImagesF/Jannu%20First%20Ascent%20-%20On%20The%20Jannu%20Summit%20April%2027,%201962.jpg
Guido Magnone na ascenção do Jannu

http://www.patagoniamountain.com.ar/images/fotofitzroy21952.jpg
Guido Magnone recebe do General Perón a maior condecoração do esporte argentino por ter vencido o Fitz Roy

Fitzroy, Makalu, Tour de Mustagh, Chacraraju, Jannu, Guido ne se contente pas d’atteindre les sommets les plus insensés, il filme, avec force et talent, le corps à corps des alpinistes avec la paroi. Puis il écrit.

Guido est un conteur qui aime entraîner les autres dans l’aventure.

A l’heure de raccrocher les crampons, Maurice Herzog, son ami devenu ministre, lui demande de fonder et de diriger l’UCPA. Pendant dix ans, Guido consacrera toute son énergie à faire découvrir aux jeunes les plaisirs des sports de nature.

Aujourd’hui, à 92 ans, Guido est revenu à ses premières amours, les Beaux-Arts, la sculpture… et poursuit son ascension.

Inexorablement.

www.mecanosprod.com


Fitz Roy, na Patagonia Argentina

Guido Magnone, o artista do alpinismo

Clique na imagem para ler o artigo de Liberation, em francês

guido_libe.jpg
Nouvelle Observateur
guifo_nouvelobs.jpg

08/07/2012 - 19:19h Amor ti vieta


Mario Lanza no filme Serenade canta ária de Fedora, de Umberto Giordano (legendas em espanhol)

Amor ti vieta

Amor ti vieta di non amar.
La man tua lieve, che mi respinge,
cerca la stretta della mia man
La tua pupilla esprime: “t’amo”
se il labbro dice: “Non tamerò”

07/07/2012 - 19:19h Der Rosenkavalier


Richard Strauss

Der Rosenkavalier
(The Knight of the Rose)

Op. 59

Directed by Paul Czinner

Conducted by Herbert von Karajan with the Wiener Philharmoniker

Elisabeth Schwarzkopf … The Marschallin
Otto Edelmann … Baron Ochs auf Lerchenau
Sena Jurinac … Octavian
Erich Kunz … Herr von Faninal
Anneliese Rothenberger … Sophie
Judith Hellwig … The Duenna
Renato Ercolani … Valzacchi
Hilde Rossel Majdan … Annina
Alois Pernerstorfer … A Commissary of Police
Erisch Majkut … Major Domo of the Princess
Siegfried Frese … Major Domo of Faninal
Josef Knapp … A Notary
Fritz Sperlbauer … Landlord
Giuseppe Zampieri … A Singer
Hans Kres … A Hairdresser

06/07/2012 - 17:00h História de amor para adultos

Divulgação / Divulgação

Owen e Nicole são Hemingway e Martha no telefilme: “Gosto de sexo e de arte”, diz diretor, que quis contar a história do ponto de vista da mulher, para ele até melhor jornalista de guerra do que o escritor


Por Elaine Guerini | Para o Valor, de Cannes

Um dos poucos cineastas americanos com sensibilidade mais europeia, Philip Kaufman construiu sua filmografia com tramas sofisticadas, que acumulam significados e instigam o imaginário do espectador. Basta lembrar a personagem Sabina (Lena Olin), de “A Insustentável Leveza do Ser” (1988), que usava o chapéu-coco preto para conseguir o que queria do amante (Daniel Day-Lewis) – apesar de este amar profundamente a sua tímida mulher (Juliette Binoche). Ou o despertar sexual de Anaïs Nin (Maria de Medeiros), ao se deixar seduzir pela beleza de June (Uma Thurman) e pela mente de Henry Miller (Fred Ward) em “Henry & June – Delírios Eróticos” (1990). “Hollywood e eu sempre tivemos nossas diferenças criativas”, conta o diretor de 75 anos, dono de um ritmo “lento demais” para agradar à indústria do cinema. “Quase todos os meus filmes consumiram muito tempo. Para mim, o demorado desenvolvimento do projeto faz parte da dor e do prazer de filmar.”

Seu último filme, “Hemingway & Gellhorn” levou oito anos para sair do papel. Kaufman não filmava desde “A Marca” (2004) – sua ausência também se explica pelos anos em que o diretor passou cuidando da mulher (a roteirista Rose Kaufman), que morreu em 2009, por causa de um câncer no seio. “O meu ânimo para trabalhar voltou quando me encontrei com Nicole Kidman em San Francisco e ela disse que sabia do meu projeto e queria muito interpretar Gellhorn”, lembra-se o cineasta, referindo-se à jornalista e escritora americana Martha Gellhorn (1908-1998), celebrada como uma das maiores correspondentes de guerra do século passado. Ela também foi a terceira mulher do escritor Ernest Hemingway (1899-1961).

“Hemingway & Gellhorn” foi concebido como um telefilme, com o selo HBO – nos Estados Unidos a primeira exibição ocorreu no mês passado e, no Brasil, ainda não há data de estreia no canal (provavelmente no segundo semestre). “Rodar uma produção para TV me deu a liberdade de criação que eu buscava. Infelizmente, ninguém faz mais histórias de amor voltadas para o público adulto no cinema”, afirma Kaufman, comprometido em resgatar a “relação turbulenta e sexy” de Martha com Hemingway do ponto de vista da mulher. “Como ela mesma falava, o casal tinha um dom para os assuntos de guerra. ‘E quando não havia guerra, nós fazíamos a nossa’, dizia Gellhorn.” Kaufman nunca se conformou com o fato de Martha Gellhorn não passar muitas vezes de um mero capítulo na vida de Hemingway, vivido na produção por Clive Owen. “Ela foi muito mais do que isso. Foi uma mulher que revolucionou o jornalismo de guerra, superando os homens, inclusive Hemingway.”

Na visão de Owen, parte de atração estava no fato de Martha ser “tão inteligente e ser capaz de beber tanto quanto Hemingway”. “Ironicamente, foi Hemingway quem a colocou no caminho que faria dela uma correspondente de guerra. E foi aí que ela deixou de viver através dele.” Durante a preparação para o personagem (além de engordar cerca de dez quilos para o papel), o ator passou uma temporada em Paris, visitando todos os lugares que o escritor frequentava, e em Cuba, para conhecer onde Hemingway viveu. “Não bastaria simplesmente ler todos os seus livros. Tive de mergulhar no universo de um homem, que não era um escritor acadêmico. Ele vivia a vida plenamente, embarcando em muitas aventuras.”

O filme ambientado nos anos 1930 e 40 também traz Rodrigo Santoro no elenco. Seu personagem é Zarra, um professor e militante espanhol que era amigo do escritor John Dos Passos (David Strathairn), próximo de Hemingway. “Zarra leva Hemingway e Gellhorn à Espanha, em plena Guerra Civil”, conta Santoro, que contracenou com Owen e Nicole Kidman em várias cenas de ação, principalmente de batalha. “Fiz apenas uma participação especial. Mas jamais perderia a oportunidade de ser dirigido por um monstro do cinema, como Philip Kaufman.”

A volta de Kaufman aos sets coincidiu com uma recente retrospectiva de seus filmes no MoMA de Nova York e com o lançamento de um livro sobre o cineasta – também aclamado por “Os Eleitos – Onde o Futuro Começa” (1983), um épico sobre a corrida espacial americana. Publicado pela University of Illinois Press e vendido na sua webpage (www.press.uillinois.edu), “Philip Kaufman” é uma análise da obra do diretor realizada por Annette Insdorf, professora do programa de pós-graduação da Escola de Cinema da Universidade de Columbia. “Por acompanhar os seus filmes há mais de 20 anos, nunca entendi a falta de reconhecimento de sua obra. Talvez por Kaufman ser tão versátil e se sentir atraído por diferentes gêneros. Até mesmo os cinéfilos muitas vezes não percebem que a mesma pessoa dirigiu filmes tão díspares”, diz, citando produções como “The White Dawn” (1974), “A Gang da Pesada” (1979), “Henry & June” e “Sol Nascente” (1993).

No seu estudo sobre Kaufman, a escritora ressaltou a indisposição do diretor em celebrar os seus protagonistas – sejam eles Jesse James (interpretado por Robert Duvall) em “Sem Lei e Sem Esperança” (1972) ou Marquês de Sade (vivido por Geoffrey Rush) em “Contos Proibidos do Marquês de Sade” (2000). “Kaufman prefere expor as falhas de quem retrata, assim como as suas paixões, levando-nos a questionar o conceito de heroísmo na tela.” Sua abordagem privilegiou o estilo e a temática de Kaufman, sem se preocupar tanto com os aspectos cronológicos e biográficos. “Procurei amarrar os seus filmes valorizando o papel de cada um deles em sua obra. Isso me levou a discutir ‘A Insustentável Leveza do Ser’, ao lado de ‘Henry & June’ e de ‘Contos Proibidos do Marquês de Sade’, por eles também explorarem a liberdade tanto do ponto de vista da sexualidade quanto da arte.”

“Gosto de sexo e de arte”, resume Kaufman. “Minha mulher costumava brincar que meus filmes deveriam vir acompanhados do subtítulo: ‘Não recomendável para crianças de todas as idades’. Talvez isso tenha a ver com o fato de a palavra ‘adulto’ ter uma conotação ruim nos EUA, por alguma razão que nunca entendi.”

Formado em direito em Harvard, Kaufman descobriu que seu futuro estaria no cinema durante temporada na Europa, onde trabalhava como professor de matemática, no início dos anos 60. “Em Florença, na Itália, é que descobri a geração de diretores europeus que contentava as regras, incluindo Pasolini. Eles me inspiraram a voltar para os Estados Unidos e a começar a filmar.” Dessa decisão nasceu “Goldstein” (1964), comédia com toque nonsense vencedora do prêmio da crítica de Cannes e merecedora de um elogio do mestre Jean Renoir. Na época, o francês disse ser o melhor filme americano que havia visto “nos últimos 20 anos”. “Pena que algo constrangedor aconteceria logo depois, em nosso primeiro encontro, em Los Angeles, durante uma homenagem a Renoir. Retribuí tamanho elogio com um pisão no pé dele”, conta Kaufman, rindo.

03/07/2012 - 18:00h Roteiro de cinema

03 de julho de 2012

BRUNA TIUSSU – O Estado de S.Paulo

“Gostaria de fazer um filme aqui? Vamos pagar por isso.” O convite-patrocínio, sem papas na língua, foi suficiente para que, lá em 2005, Woody Allen transformasse a família originalmente nova-iorquina de sua história em uma típica inglesa, e assim rumasse a Londres para gravar Match Point, seu primeiro longa rodado na Europa. Os rechonchudos incentivos em libras levaram os belos cenários londrinos às telonas em outras três de suas produções. E a mágica receita se espalhou pelo continente. Com a mesma artimanha de ganhá-lo pelo bolso, também entraram no foco das câmeras do cineasta as belezas de Barcelona, Paris e, agora, Roma, onde se passa sua última comédia lançada sexta-feira nos cinemas brasileiros.

Para Roma com Amor começa com uma sequência de cartões-postais clichês, como Allen já mostrou que gosta de fazer: a Piazza del Popolo, o trânsito caótico característico da cidade, a Piazza di Spagna e a Fontana di Trevi. Composto por quatro histórias e um elenco com estrelas como Roberto Benigni, Penélope Cruz, Alec Baldwin e o próprio Woody Allen, segue explorando mais da sempre ensolarada Roma turística, presente em todo e qualquer guia de viagem.

A trama, porém, também abre espaço para a atmosfera descolada de bairros pouco conhecidos da capital, como San Angelo e Garbatella, que ganham cenas em suas ruelas pitorescas e cafés (leia na página ao lado). O suficiente para despertar a curiosidade do espectador e futuro viajante.

A comédia vem para afirmar mais uma vez que a incursão pelo Velho Mundo é uma maratona de inegável sucesso para ambos os lados. Em sete anos de viagens pela Europa, Allen abocanhou US$ 17 milhões em incentivos fiscais e produziu sete longas – voltou à sua Nova York apenas para filmar a comédia Tudo Pode Dar Certo, lançada em 2010, digamos que um período sabático em meio à temporada europeia. É um dos poucos capazes de manter tal ritmo de produção, com liberdade total para conceber suas ideias.

Em contrapartida, a capital italiana e os outros destinos que lhe serviram de set ganharam mais que o importuno movimento causado pelas gravações – durante as filmagens de Vicky Cristina Barcelona, não era raro ver a população enfurecida com as regalias concedidas ao diretor. Com ruas, monumentos, paisagens e sotaques exibidos nas telonas do mundo todo, saíram no lucro com uma incalculável visibilidade turística. Roteiros inteiros enquadrados e selados com a assinatura do gênio nova-iorquino. Que viajante não quer testá-los in loco?

Seguindo passos. Basta conferir na internet o número de referências de buscas pela ‘escadaria de Meia-noite em Paris’. Depois que Gil (Owen Wilson), protagonista da trama de Allen, pegou carona com Scott e Zelda Fitzgerald diante dos degraus da Igreja de Saint Etienne, no 5.º arrondissement, o lugar se tornou parada obrigatória de quem está de passagem pela Cidade Luz – sobretudo à meia-noite, quando os mais crentes vão tentar a sorte de encontrar o tal carro que os levará para a Paris dos anos 1920.

Um crescente interesse por Oviedo e Avilés, cidades das Astúrias, na Espanha, também pode ser percebido depois que Vicky Cristina Barcelona alcançou os cinemas. Viajantes não resistiram às panorâmicas exibidas pelo longa e trataram de incluir os vilarejos em seus roteiros pelo país.

Com Roma, não será diferente. O empurrãozinho de Allen, a favor de seus clichês ou de novas regiões da cidade, virá a calhar em época de crise europeia. E a corrida para próximo candidato à destino cenográfico do diretor já começou. Este ano, ele gravará em São Francisco e Nova York – e, ao que parece, Berlim, Rio de Janeiro e Buenos Aires estão no páreo para ser a sede do roteiro seguinte. Falta saber quem vai abrir a carteira e ganhar o coração do disputado cineasta.

‘Match Point’, o princípio de tudo

Match Point não só iniciou a experiência europeia de Woody Allen como usou bem a vertente aristocrática e sofisticada da cidade como personagem de um jogo de poder e sedução. A história da relação explosiva entre a aspirante a atriz Nola Rice (Scarlett Johansson) e o professor de tênis Chris Wilton (Jonathan Rhys Meyers) começa quando ele passa a dar aulas do esporte ao namorado dela, Tom Hewett (Matthew Goode).

O diretor não fugiu de seu estilo ao filmar em lugares que podem ser visitados na vida real. O elegante Queens Club (queensclub.co.uk) é o ponto de partida para que Chris conheça a irmã de Tom, Chloe (Emily Mortimer), com quem se casa de olho na fortuna da família. As quadras são só para sócios, mas você pode assistir a um dos torneios.

A relação de Chris e Nola se estreita durante uma ópera na Royal Opera House (www.roh.org.uk). Se você não pertence à aristocracia como os personagens, pode tentar comprar tíquetes quatro horas antes do espetáculo pela metade do preço.

Outra passagem curiosa é o jantar do quarteto amoroso na Brasserie Max, restaurante localizado no hobby do luxuoso Covent Garden Hotel (firmdalehotels.com). E repare bem na cena em que Chris joga provas que o incriminam no Rio Tâmisa, no final da Hopton Street, debaixo da Blackfriars Bridge: você verá um grafite do famoso Banksy. / F.M.

Elegantes cafés na capital do chá

ANA , GASSTON – O Estado de S.Paulo

No século 17, antes do chá virar mania nacional na Inglaterra, o café era a bebida mais popular. Nas coffee houses espalhadas pelo centro de Londres, comerciantes e banqueiros se reuniam para tratar de negócios. A primeira da cidade, Pasqua Rosee’s, surgiu em 1652, mas foi destruída no Grande Incêndio e substituída pela Jamaica Coffee House que, hoje, é um bar chamado Jamaica Wine House, em Cornhill, na London City.

Atualmente, café está de novo na moda, para a felicidade dos brasileiros que não passam um dia sem. Nos últimos anos, fantásticas lojas independentes surgiram vendendo o próprio café fabricado com grãos importados de vários países, inclusive do Brasil.

Uma de minhas lojas favoritas é a Monmouth Coffee (monmouthcoffee.co.uk), com três endereços: Covent Garden, Bermondsey e London Bridge. A última, ao lado do Borough Market, é a mais concorrida: quando o mercado está aberto, a fila dobra a esquina. Para comprar um pacote de café, basta pedir instruções para os atendentes no balcão. Ainda no mercado, encontra-se o carrinho do Flat Cap, cujo dono brasileiro fez tanto sucesso que abriu duas lojas, uma delas a elegante Notes Music & Coffee (notesmusiccoffee.com), perto da Trafalgar Square.

Já no Broadway Market, o café do vietnamita Ca Phe VN (caphevn.co.uk) é um dos mais populares. Além de café com leite condensado, quente ou gelado, em sua loja, em Clerkenwell Road, há o caríssimo Weasel coffee, feito com grãos digeridos por doninhas.

Na mesma rua, o moderno Workshop Coffee (workshopcoffee.com) tem um bar no centro e, no fundo, uma máquina onde o café é torrado. Além de café, servem outras bebidas e pratos durante o dia e a noite.

Na movimentada Berwick Street, em Soho, está o Flat White (flatwhitecafe.com), cujo nome foi derivado da bebida trazida para o país pelos donos australianos e que agora faz parte do menu de vários cafés da cidade. Trata-se de um latte mais cremoso com uma dose extra de café.

Perto dali, o pub The Old Coffee Shop, pequeno e escuro, já vendeu muito café e, hoje, serve cervejas independentes fabricadas em Londres, a bebida que nunca saiu da moda.

*É jornalista, paulistana e vive em Londres há 10 anos


Vicky Cristina Barcelona

Woody Allen tomou o cuidado de incluir o nome dos três personagens principais no título: Vicky Cristina Barcelona. Assim como no aclamado Meia-noite em Paris, no filme de 2008 – que rendeu um Oscar de melhor atriz coadjuvante a Penelope Cruz pelo papel da intempestiva Maria Elena – a cidade representa mais que uma mera locação.

É como se o espectador acompanhasse Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlet Johansson) em sua viagem de férias pela capital catalã. Ele desembarca com elas na primeira cena, no aeroporto, e as acompanha pelo city tour que é a película.

Primeira parada, Sagrada Família (sagradafamilia.cat), onde os guindastes fazem tão parte do cenário quanto as torres da catedral projetada por Gaudí (1852-1926)- em construção há mais de 130 anos. Gaudí, aliás, é a razão pela qual Vicky, que está de casamento marcado, escolhe Barcelona. Apaixonada pelo trabalho do artista, ela quer reunir material para seu mestrado em identidade catalã. Sem compromisso amoroso ou emprego fixo, Cristina acompanha a amiga.

O city tour segue por La Pedrera (lapedrera.com), outra maravilha de Gaudí erguida de 1906 a 1912. Depois, vão à galeria de arte onde veem pela primeira vez o sedutor pintor Juan Antonio (Javier Bardem). O local em questão é a Fundação Antoni Tàpies (fundaciotapies.org), cujo objetivo é promover a conexão das artes.

A essa altura, a fome já deve bater – que tal jantar no 4Gats (4gats.com), como fazia Picasso? Vicky e Cristina foram para lá e encontraram outro pintor: Juan Antonio, claro. Que propõe uma viagem a Oviedo, a cerca de 900 quilômetros dali. Mas que em um jatinho particular vira uma escapada de fim de semana.

Apesar de deixar claro suas intenções (comer, beber e fazer sexo), Juan Antonio diz querer ir a Oviedo para ver uma escultura que gosta muito – a imagem de Cristo crucificado da igreja San Julián de los Prados, patrimônio da Unesco erguido entre os anos 812 e 842. De lá, saem para comer doces na Camilo de Blas (camilodeblas.com), em funcionamento desde 1914.

De volta a Barcelona, Vicky se concentra em seu mestrado para esquecer a tórrida noite com Juan Antonio. Cristina, que havia ficado doente em Oviedo, sai para fotografar o Bairro Gótico. Afinal, não faltam pontos atraentes por ali.

Quando ela e o pintor engatam um romance, Vicky encontra Juan Antonio no Parque Guell (parkguell.es), outra obra de Gaudí. E é aí que ocorre o improvável: os dois conversam demoradamente em frente à icônica salamandra. Normalmente, a fila para tirar foto ali desafia a paciência.

Depois que o noivo de Vicky chega a Barcelona, eles combinam um passeio com Cristina e Juan Antonio no Parque de Tibidabo (www.tibidabo.cat), de onde se vê toda a capital catalã. O verão favorece as cenas externas – e Woody Allen não economiza nas panorâmicas. Como quando Judy e Vicky conversam na saída do Museu Nacional d’Art da Catalunha (mnac.cat). No verão, das 21 às 23 horas, a fonte abaixo do museu ganha música e iluminação especial.

O filme está quase acabando. Ainda há tempo para ver as Ramblas, cafés com mesa na calçada… A atmosfera de Barcelona está toda ali. E, quando sobem os créditos, é como se você também desse adeus à cidade. /ADRIANA MOREIRA


Meia-noite em Paris

O Rio Sena e seus indefectíveis bateaux mouches. Champs-Elysées e Arco do Triunfo. Moulin Rouge, Notre Dame, cafés e bistrôs, e, claro, a Torre Eiffel. Meia-noite em Paris (2011) começa com um passeio pelos cartões-postais da cidade, com chuva e sol, de noite e de dia, sem apresentar nenhum personagem. Ou melhor, apresentando, sim, seu principal personagem: Paris.

A capital francesa, afinal, é o objeto de desejo de Gil (Owen Wilson), escritor americano que sonha em conhecer a Paris nos anos 20. Para ele, andar pela metrópole é inspirador – especialmente na chuva, quando, afirma, a cidade fica ainda mais linda. “Eu me vejo caminhando pela margem esquerda do Sena com uma baguete debaixo do braço, indo para o Café de Flore (cafedeflore.fr) para escrever meu livro”, diz.

E é numa dessas caminhadas que, sem querer, vai parar em frente aos degraus da Igreja de Saint Etienne. Quando os sinos tocam meia-noite, um carro antigo o leva até a Paris dos anos 20, onde conhece Ernest Hemingway, Scott e Zelda Fitzgerald, Picasso e outros gênios da efervescente cultura da época.

A trama se desenrola enquanto são apresentados pontos turísticos. Gil e a noiva, Inez (Rachel McAdams) são convidados por um amigo (o pedante Paul, interpretado por Michael Sheen) a conhecer Versalhes. Paul discorre sobre a história do palácio, encantando Inez e entediando Gil. Em outra ocasião, o grupo se reúne em frente à estátua O Pensador, no Musée Rodin (musee-rodin.fr). Alguns pontos são facilmente reconhecíveis, mesmo por quem nunca pisou em Paris. Outros não são nada óbvios, como o restaurante Relais&Châteaux Le Grand Véfour (legrand-vefour.com), onde Gil e Inez jantam com os pais dela – e encontram Paul.

Quando o grupo vai a uma degustação de vinhos, está no alto do refinado Hotel Le Meurice (lemeurice.com), em frente aos Jardins das Tulherias – um dos lugares favoritos de Woody Allen na cidade, segundo ele contou ao Estado no lançamento do filme. O diretor, assim como Gil, adora caminhar pelas ruas da capital francesa. “A Champs-Elysées é ótima, mas está sempre cheia de turistas. Gosto dos parques.”

Gil e Inez estão hospedados no Le Bristol (lebristolparis.com), um cinco-estrelas aclamado. Allen, contudo, tem como hotel favorito em suas visitas à cidade o Ritz (hoje, fechado para restauração até 2014). E é bem ali, pela Place Vendôme, que Inez e sua mãe caminham, admirando na vitrine um anel de diamantes. A região, afinal, concentra as lojas mais sofisticadas, como Tiffany’s e Dior.

Gil, contudo, prefere o mercado de pulgas de Saint-Ouen, onde compra um disco de Cole Porter (1891-1964) e, mais tarde, brincos para Adriana, uma das musas de Picasso por quem o escritor americano se encanta.

Mesmo pontos retratados no passado durante o filme podem ser visitados no presente. Como o Polidor (polidor.com), onde Gil encontra Hemingway (Corey Stoll) pela primeira vez . De fato, o restaurante, aberto em 1845, era frequentado pelo escritor, assim como por Victor Hugo e outras personalidades. No filme, Gil tenta retornar ao local, que deu lugar a uma lavanderia. Mas não se preocupe: é só licença poética. O Polidor segue no mesmo lugar.

Quando Gil e Adriana voltam a 1890, jantam no Maxim’s (maxims-de-paris.com). Depois, assistem a um espetáculo de cancã no Moulin Rouge (moulinrouge.fr). Tudo funcionando até hoje.

O filme, enfim, é um passeio interminável por Paris. E você nem precisa voltar no tempo para conhecer os lugares onde Gil esteve. Pena mesmo é não poder encontrar os gênios do passado… /ADRIANA MOREIRA


Para Roma com amor

Ao som dos versos de Volare, de Domenico Modugno, cobrindo cenas da Piazza del Popolo, Woody Allen dá início ao filme Para Roma com Amor, sua homenagem à cidade e à tradição cinematográfica da Itália. Para retratar o modo de vida romano, se utilizou de quatro histórias desconexas. “É um lugar muito vasto para caber em um único enredo. Uma cidade artística, que acontece a céu aberto”, explicou no lançamento do filme.

Marcando o retorno do diretor à frente das câmeras – sua última atuação foi em Scoop, há seis anos – Woody vive Jerry, um aposentado produtor musical americano que foi a Roma conhecer seu genro. Turistando pela cidade, sua filha Hayley (Alison Pill) cai de amores pelo mais provável galã italiano, que lhe acompanha em ícones clássicos como Piazza di Spagna e Fontana di Trevi, deslumbrante em cena, sem o aglomerado que a cerca diariamente. Coisa de cinema.

Recém-chegada do interior, a italianinha Milly (Alessandra Mastronardi) é peça-chave da segunda trama. Ela se perde pela capital e acaba percorrendo, em uma ensolarada e sempre alegre Roma, outros pontos que compõem os tradicionais passeios turísticos (turismoroma.it). Caminha pela praça Campo dei Fiori, famosa pelo mercado gastronômico, com barracas de ingredientes típicos (funciona todos os dias, exceto aos domingos). Passa pelo Largo di Argentina, onde estão as ruínas do Teatro Pompeu. E ainda se depara com a pequena Piazza Mattei, decorada com uma fonte construída em 1584.

Áreas menos conhecidas entram em cena com o personagem mais colorido do filme, o italiano Leopoldo (Roberto Benigni), protagonista da terceira história. Tendo de lidar com uma fama repentina, foge dos paparazzi e apresenta ao espectador ruelas, casas baixas e a atmosfera popular de Garbatella e Rione Monte. Bairros que, na vida real, exalam história e convidam a circular sem roteiro, reparando em suas fachadas medievais. O primeiro vale ser visitado ao entardecer para conferir o jogo de luzes e sombras no arco do Palazzo Borgia, coberto por trepadeiras.

Os americanos Monica (Ellen Page) e Jack (Jesse Eisenberg) compõem o quarto núcleo ao lado de John (Alec Baldwin). Do jovem casal, vale ressaltar uma cena de dar inveja aos convictos viajantes: eles exploram as nostálgicas ruínas del Palatino, sob chuva e à noite, quando o local já está fechado para visitas.

Já o arquiteto John está apenas visitando a cidade e relembrando a época em que viveu no simpático bairro de Trastevere. Apesar de Woody Allen ter deixado de fora importantes monumentos dali – como a Basílica Santa Maria, com seus impressionantes mosaicos dourados, e a Colina de Gianicolo, que oferece uma panorâmica espetacular da cidade -, as estreitas ruas de paralelepípedos, com casas medievais caracterizadas pelo amarelo descascado das paredes são fundamentais para compor o retrato de Roma.

De antigo reduto de trabalhadores e artesãos, onde o turismo não tinha vez, se converteu na atual região da moda, destino de quem busca diversão à noite, em descolados bares e casas noturnas que circundam a praça.

Com este mosaico de personagens que vivem cenas de romance, aventura e humor em cenários ora familiar, ora surpreendente, Woody Allen mostra toda sua maestria. E entrega uma tentativa bem-sucedida de representar no cinema as variadas situações que compõem, cotidianamente, a sempre atraente Cidade Eterna. / BRUNA TIUSSU

Entre uma cena e outra, a hora de ‘mangiare’

Woody Allen fez sua parte escolhendo cenários que fogem do centro tradicional para compor o seu Para Roma com Amor. Cabe a nós ajudá-lo, portanto, com sugestões gastronômicas localizadas em tais bairros, essenciais para que seu roteiro de férias fique redondinho.

Endereços saborosos ocupam as ruelas históricas de Trastevere. Aberto em 1860, o Piperno (ristorantepiperno.com) oferece massas tipicamente italianas – invista nelas. Mas somente depois de provar as flores de abobrinha fritas, um dos destaques da casa. Se estiver por lá durante o verão, abuse da sorte e tente uma mesa no terraço.

Se quiser algo mais informal, tente o Caffe del Cinque, (Vicolo del Cinque 5), bar no cruzamento de cinco ruas. Vale em qualquer hora do dia: café da manhã, aperitivos à tarde e até um drinque à noite.

Para matar a sede em Garbatella, circule perto do histórico Teatro Palladium (romaeuropa.net/palladium), onde encontrará o Foschi, bar que é principal ponto de encontro na região. Se o caso for matar a fome, o italianíssimo Ristoro degli Angeli (ristorodegliangeli.it) está a poucos passos.

Ao visitar Rione Monte, vá com disposição para provar vinhos. Ali fica a concorrida adega Ai Tre Scalini (aitrescalini.org/bottiglieria), aberta desde 1895. Se não conseguir mesa, siga para o Charity Café (charitycafe.it) e prove um aperitivo ao som de uma banda de jazz. /B.T.

02/07/2012 - 18:10h Intocáveis


Intocáveis (Intouchables) Trailer Legendado [HD]

INTOCÁVEIS
Intouchables
Dir: Olivier Nakache, Eric Toledano

Considerado um fenômeno mundial, “Intocáveis” traz a história de um aristocrata que contrata um jovem para ser o seu cuidador após um acidente de parapente, o que o deixou tetraplégico. O que era para ser um período experimental, acaba virando uma grande aventura. Amizade, companheirismo e confiança são os elementos que transformam esse filme tocante e inesquecível.

02/07/2012 - 17:56h Cinema francês retoma popularidade

Divulgação / Divulgação
Marion Cotillard em “Até a Eternidade”, comédia dramática que estreia no Brasil nesta sexta e retrata grupo de amigos que se reúne para férias anuais


VALOR

“Intocáveis”, o mais rentável filme estrangeiro – leia-se não falado em inglês – destes anos 2000, não se baseia em super-heróis dos quadrinhos e não usa tecnologia 3D. Ainda assim, essa comédia francesa tem corrido o mundo com resultados surpreendentes. De acordo com o Box Office Mojo, o filme arrecadou, até agora, US$ 350 milhões, ultrapassando o desenho japonês “A Viagem de Chihiro” (2001), de Hayao Miyazaki, vencedor do Oscar de melhor animação e do Urso de Ouro em Berlim, que obtivera receita de US$ 276 milhões.

Esse acontecimento numérico do cinema internacional explodiu, primeiro, na própria terra: o filme, lançado no ano passado, vendeu nada menos que 20 milhões de ingressos em casa. “Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2″ (2011), para se ter uma ideia, fez 6,5 milhões de espectadores na França. O sucesso alastrou-se pela Europa, pela Ásia, pelo Oriente Médio e, neste segundo semestre, fará seu teste no Brasil.

A estreia de “Intocáveis”, marcada para 31 de agosto, será a ponta mais visível de um fenômeno que o cinema francês comemora neste momento: a exportação dos sucessos populares. A exemplo do que acontecera nos anos 1960 e 1970, os filmes falados na língua de Marcel Proust (1871-1922), mas que não necessariamente são do tipo “papo cabeça”, têm se mostrado capazes de viajar pelo mundo.

De acordo com o Centre National du Cinéma et de l’Image Animée (CNC), entidade responsável pelo audiovisual, os filmes franceses venderam, nos cinco primeiros meses de 2012, 47 milhões de ingressos no exterior; em 2011, o número, no mesmo período, havia sido de 27 milhões. No próprio país, os 207 títulos nacionais lançados no ano passado – aí incluídas coproduções com outros países – fizeram 89 milhões de ingressos. “Trata-se de um resultado surpreendente não apenas para a década. Não alcançávamos um resultado assim desde 1966″, declarou, no início do ano, Eric Garandeau, presidente do CNC. No Brasil, cabe pontuar, os 99 filmes nacionais que chegaram às salas em 2011 somaram 17 milhões de espectadores.

O que esses números todos nos permitem dizer, deste lado de lado de cá do Atlântico é: primeiro, prepare-se, porque você verá cada vez mais filmes franceses aterrissando no circuito; segundo, esqueça aquela ideia de que todo filme francês é “cult”.

Foi o próprio cinema francês que alimentou essa imagem. Alguns anos atrás, tinha mesmo muito filme francês que era chato, que trazia gente falando sem parar”, diz Jean-Thomas Bernardini, dono da Imovision, a principal distribuidora de títulos franceses no Brasil, que coloca em cartaz desde o intelectual “Filme Socialismo” (2010), de Jean-Luc Godard, até o inocente “O Pequeno Nicolau” (2009), que teve, aqui, um dos melhores desempenhos do mundo. “Aos poucos, essa imagem foi mudando e, hoje, o público sabe que há filmes franceses de todos os tipos.”

A questão é que, ainda assim, eram poucos os sucessos populares locais de fato lançados no Brasil. E os poucos que chegavam, como as séries “Asterix” e “Arthur e os Minimoys” ou a comédia “A Riviera Não É Aqui” (2008), se revelavam tiros no pé. “O cinema nacional [leia-se aquele não falado em língua inglesa], quando viaja, tende a entrar no circuito de arte”, diz Bernardini. “Para dar certo, o filme tem de ser, ao mesmo tempo, comercial e autoral.” Ainda assim, um título como “Homens e Deuses” (2010), que ganhou o prêmio do júri no Festival de Cannes e fez mais de 3 milhões de espectadores na França, foi visto, no Brasil, por 60 mil pessoas.

A pergunta que, neste momento, paira sobre o mercado é: será que esse patamar vai mudar? Será que produções como “O Artista” (2011), que foi vedete no Oscar, e “Intocáveis”, com seus números hiperbólicos, conseguirão cavar um espaço mais generoso nas salas de cinema e capturar a atenção de um universo maior de espectadores? “Vamos tratar ‘Intocáveis’ como um filme fino, mas não de arte. Queremos colocá-lo em salas comerciais, como o Cinemark dos shoppings Higienópolis e Iguatemi [em São Paulo], e estamos acreditando muito no boca a boca”, diz Claiton Fernandes, vice-presidente da Califórnia Filmes, distribuidora do título.


Em “Intocáveis”, Driss (Omar Sy) é o jovem recém-saído da prisão que cuida de um aristocrata tetraplégico

Antes de “Intocáveis”, serão lançados, no Brasil, em julho, “Até a Eternidade”, sucesso protagonizado por Marion Cotillard, a atriz de “Piaf – Um Hino ao Amor” (2007), uma nova versão de “A Guerra dos Botões”, o divertido “Bem Amadas”, com Catherine Deneuve e Chiara Mastroianni, e, ainda “Minha Irmã”, esse, sim, um filme mais restrito. O apetite brasileiro chama atenção, inclusive, quando olhamos para nossos vizinhos.

Se, no início dos anos 2000, o número de títulos aqui lançados era semelhante a México e Argentina, em 2011 a diferença foi gritante. O circuito brasileiro recebeu 81 produções franceses, enquanto o México lançou 40 títulos, a Colômbia 16 e a Argentina 28 [ver quadro].

Mas haverá mesmo espaço para tudo isso ou o excesso de filmes franceses pode acabar fazendo com que um atrapalhe o outro? “Olha, os lançamentos são tão grandes que, na verdade, não tem espaço para quase nada que não seja ‘A Era do Gelo’. Mas escolhemos a data com cuidado e… vamos rezar”, brinca Fernandes.

Tampouco é possível saber se “Intocáveis”, comédia afetiva sobre a relação entre o aristocrata tetraplégico Phillippe (François Clouzet) e o negro Driss (Omar Sy), que vive entre a transgressão e o desemprego, vai cair nas graças dos brasileiros como caiu na dos europeus. Como definiu a cronista Sandrine Blanchard, no jornal “Le Monde”, trata-se de “um filme de bons sentimentos” que conseguiu, por lá, o feito raro de unir público e crítica a seu favor. Mas trata-se, claramente, de um filme para tempos de crise, de um conto de fadas adulto, que mostra a conciliação entre os velhos europeus decadentes e os imigrantes indesejados. A Alemanha, que carrega a solução para o euro nas costas, foi em massa ver essa história. O mesmo aconteceu na Suíça, onde o filme vendeu 1,3 milhão de ingressos, não muito menos que o 1,9 milhão de “Titanic”. Os próximos meses dirão se as piadas que tocam os europeus são capazes de nos tocar também.