17/11/2009 - 16:40h Neri: classe média é maioria, desigualdade diminui e o Brasil já decolou

Blog de Paulo Henrique Amorim

Marcelo Neri: o brasileiro é mais formiga que cigarra

Marcelo Neri: o brasileiro é mais formiga que cigarra


Entrevistei o professor Marcelo Neri, economista e chefe do Centro de Pesquisas Sociais da FGV-RJ, para o Entrevista Record, que vai ao ar hoje à noite, pela Record News.

Leia abaixo os principais pontos da entrevista:

. Em 1992, a classe média era um terço do total da renda brasileira.

. Hoje, é mais de 50%.

. Entre 2003 e 2008, 32 milhões de brasileiros, ou seja, metade da população da Franca, ingressou no conjunto das classes A, B e C. O principal fator dessa ascensão não foram os programas assistenciais, mas a renda do trabalho.

. Entre 2003 e 2009 foram criados 8 milhões de empregos com carteira assinada.

. Pode-se dizer também que essa é uma década da redução da desigualdade.

. Entre 2000 e 2008 a renda dos 10% mais pobres da população cresceu 72%. Ou seja, o crescimento da renda dos pobres no Brasil é um crescimento de tamanho chinês.

. A renda dos 10% mais ricos cresceu 11%.

. Todo mundo cresceu.

. É uma bolha?

. Não, frisou Neri. Esse processo já dura cinco anos: de 2003 a 2008 a renda do brasileiro cresce 7% ao ano. Ou seja, não é bolha porque a renda sobe por causa do trabalho e porque os brasileiros passaram a estudar mais.

. Trabalhar e estudar são coisas que ficam, não vão embora como uma bolha.

. A queda na desigualdade é inédita.

. No anos 60 o Brasil viveu o período mais desigual da sua história. O Brasil tinha a terceira pior distribuição de renda do mundo.

. Hoje é o décimo. Quer dizer, é um país ainda muito desigual, mas se a desigualdade continuar a cair, será um país de desigualdade tolerável.

. O importante é que o Brasil cresce em baixo. O crescimento econômico do Nordeste é igual ao da China.

. É o que mostra uma pesquisa feita por ele sob o título “Produtores e Consumidores da Nova Classe Média”. O nordestino botou o filho na escola, conseguiu emprego com carteira assinada e a renda dos produtores cresce mais que a renda dos consumidores.

.Ou seja, o brasileiro é mais formiga do que cigarra.

. As mulheres são o maior sucesso dessa história.

. Elas fizeram uma revolução há 30 anos. Foram para a escola e conseguiram salários que começaram a se aproximar do salário dos homens.

. A história da ascensão das mulheres nordestinas é a mais significativa. Um exemplo disso é que as mulheres são as principais clientes do Crediamigo, o programa de microcrédito do Banco do Nordeste, que detém dois terços do mercado nacional de microcrédito.

. O Crediamigo promove sobretudo no Nordeste uma revolução nos pequenos negócios. Os empréstimos começam com R$ 400 e o avalista é um grupo de três a cinco pessoas em que um se responsabiliza pela dívida do outro.

. Entre o primeiro empréstimo e dezembro de 2008, aumentou em 42% o lucro dos que tomam dinheiro no Crediamigo. Sessenta por cento deles deixaram de ser pobres.

. O Marcelo Neri tem um estudo para a Fundação Getúlio Vargas só sobre o Crediamigo. Ele contou que a Prefeitura do Rio vai copiar o Crediamigo, além da Prefeitura de São Gonçalo, na região do Grande Rio.

Concluiu o professor Marcelo Neri: o Brasil muda rapidamente para melhor e muita gente não percebe.

Paulo Henrique Amorim

06/11/2009 - 10:14h Em três anos, 18,5 milhões de brasileiros passaram para faixa de renda maior

De São Paulo e Brasília – VALOR

Entre 2005 e 2008, 18,5 milhões de brasileiros subiram de classe social, segundo levantamento realizado pelo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). O número representa quase 10% da população do país, hoje com cerca de 193,7 milhões de habitantes. O estudo mostra que, no período, 11,5 milhões de pessoas passaram para o nível de maior renda, enquanto 7 milhões passaram para a classe média.

O Ipea, que utilizou dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, dividiu a população do país em três partes iguais. No primeiro terço, ficaram pessoas com rendimento de até R$ 188 mensais no ano de 2008. No segundo terço, que compreende o segmento intermediário, aqueles dentro do intervalo de rendimento individual de R$ 188 a R$ 465 mensais. Na terceira parte, que representa o estrato superior da renda, ficaram os rendimentos individuais acima de R$ 465 mensais.

A partir dessa divisão, se tornou possível aos pesquisadores retroagir e avançar no tempo em relação ao ano de 2001. Com a atualização do valor do rendimento individual, em termos reais, constitui-se a evolução da população brasileira em relação às três faixas de renda entre 1995 e 2008.

Os dados mostram também que, nos últimos anos, a população de menor renda perdeu importância dentro do conjunto – representava 34% da população até 2004, e passou a 26% em 2008, o menor índice desde 1995. Apesar disso, aponta o Ipea, o Brasil ainda possui um quarto da população vivendo com rendimentos extremamente baixos.

As classes média e alta, por outro lado, ganharam maior representatividade. O segundo estrato de renda passou de 21,8% de participação em 1995 para 37,4% em 2008. No caso do estrato de maior renda, de 31,5% em 2004, subiu para para 36,6% no ano passado.

O Sudeste e o Nordeste se destacam como as as regiões que mais registraram casos de ascensão entre as faixas baixa e média de renda. Juntas, elas responderam por quase 71% do movimento nacional da mudança na estrutura social na base da pirâmide brasileira. Em seguida, vêm Sul (11,1%), Norte (10,4%) e Centro-Oeste (8,1%). No movimento de ascensão para a classe mais alta, a região Sudeste respondeu pela incorporação de 51,2% dos indivíduos. Na sequência, ganhou importância o Sul, com 18,1%, o Nordeste com a inclusão de 16,4%, o Centro-Oeste com 7,6%, e o Norte com 6,7%.

Na avaliação de Rogério César de Souza, economista do Instituto de Estudos para Desenvolvimento Industrial (Iedi), foram esses fatores de ascensão social que colocaram o Brasil em condição favorável neste ano, quando comparado a outros países. “E isso é bom para a indústria em particular”, diz, citando o consumo de alimentos e da construção civil.

O economista do Iedi lembra que a indústria sofreu muito com a diminuição de exportações, durante o auge da crise internacional, mas “cresce de forma contínua se valendo do mercado interno”.

Além do setor industrial, os bancos comemoram a expansão das atividades financeiras ocorridas a partir do aumento das pessoas com renda na faixa intermediária. Segundo dados da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), entre 2005 e 2008 o número de contas correntes passou de 95 milhões para 125,7 milhões. As contas de caderneta de poupança saltaram de 71,8 milhões para mais de 92 milhões. O total de cartões de crédito no período teve o maior crescimento: passou do patamar de 68 milhões para 124 milhões.

O diretor de Estudos e Políticas Sociais do Ipea, Jorge Abrahão de Castro, diz que a “elevação desse conjunto grande de pessoas no mercado” se dá também com a diminuição das desigualdades sociais. Para ele, a sustentabilidade do movimento depende da manutenção da política de ganhos salariais efetivos e pode ser incrementada com a diminuição dos juros. (Agências noticiosas)

17/09/2009 - 10:11h Um ano de crise: empate social com muitos gols

Colunista

Marcelo Neri – VALOR

Na passagem do Ano I D.C. (ano um depois da crise) no dia 15 de setembro, quando a crise irrompeu as bolsas de valores lá fora, o que podemos dizer dos seus efeitos no bolso do brasileiro? O Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPS/IBRE/FGV) revelou em sucessivos estudos a emergência de uma nova classe média no Brasil: no período de 2003 a 2008 quando 27 milhões de pessoas ascenderam às classes ABC ( www.fgv.br/cps/classemedia e www.fgv.br/cps/desigualdade ).

Com a chegada da crise externa ao país a partir de setembro de 2008, nossos estudos voltaram-se à crônica da manutenção, ou queda, dos padrões de vida recém-conquistados naquele período crítico (www.fgv.br/cps/crise e www.fgv.br/cps/crise2009). A nova classe média brasileira tornou-se um ativo macroeconômico crucial para compensar a queda na exportação de nossos produtos como fruto da retração global. Damos sequência aqui, com dados até julho de 2009, ao monitoramento da evolução da composição da população em seus diversos estratos econômicos (isto é, as classes E, D, C e AB), bem como de seus determinantes próximos, como a desigualdade e mobilidade de renda e seus respectivos componentes trabalhistas.

Julho de 2009, nove meses após a chegada da crise, já há uma visão clara dos seus efeitos na renda dos trabalhadores brasileiros nas seis maiores metrópoles do país. A desigualdade de renda, que passou por forte deterioração em janeiro, quando perdeu-se parte das melhoras dos últimos anos, já voltou em julho último aos níveis mais próximos do pré-crise, uma virtual estabilidade em níveis de julho de 2009 e 2008 (aumento do Gini de 0,3%).

A boa notícia é que estamos voltando aos níveis mais baixos da nossa série histórica, que datam de 1960. Mesmo a classe AB, que ganha mais de R$ 4.800,00 por mês e que tinha perdido mais com a crise (-2,7% só em janeiro), está hoje apenas 0,5% abaixo dos níveis de um ano atrás (14,97% da população estão na classe AB, com quase 55% da renda). A classe C já está no saldo positivo, com ganho de 2,5% em 12 meses (com 53,2%, a classe dominante no sentido populacional). Se esse empate com muitos gols pode ser considerado um bom resultado em época de crise, por outro lado ele esconde uma parada súbita da melhora prévia dos indicadores: de julho de 2003 a julho de 2008, a Classe AB cresceu 35,7%, a classe C subiu 23,1% e a desigualdade de renda caiu como nunca tinha caído antes nas séries estatísticas brasileiras.

Uma síntese pode ser encontrada na soma das classes ABC, que subiu 1,81% no período de crise e 25,7% na auspiciosa fase anterior à chegada da crise no Brasil. Um aspecto inovador da pesquisa foi abrir as periferias das metrópoles, onde observamos aumentos das classes ABC de 2,8% nos últimos 12 meses e de 31,15% no período anterior, em níveis portanto bastante superiores aos das metrópoles. Ou seja, da mesma forma que esta é uma crise no centro do capitalismo mundial, leia-se países desenvolvidos, e não da chamada periferia, nas metrópoles vale o mesmo: as capitais mais conectadas com o exterior pelas vias das exportações industriais e do crédito sofreram mais que as periferias.

Antes de começar a comemorar, devemos ressaltar que temos ainda muitas incertezas e desafios no futuro próximo. Ao compararmos esta última semana da série com o total do mês percebemos que a classe ABC assumiria um viés de baixa (67,44%, ou seja 1,06% abaixo da média do mês de julho de 2009 como um todo, mas ainda 1,1% maior que julho de 2008). Como se isto não bastasse, vai ser difícil nos próximos dois meses manter o ritmo de crescimento do período julho-setembro do ano passado, quando as classes ABC estavam bombando, como se diz na gíria, crescendo 2,4% no período. Ou seja, um empate de fato em setembro, um ano D.C. deve ser visto como um resultado ainda mais auspicioso que o observado até agora.

O brasileiro se acostumou com facilidade às vitórias e não aceita empates. Mal comparando, é como na louvável classificação antecipada que acabamos de conquistar para a Copa do Mundo, ou o fato de sermos, até 2018, o único país a ter participado de todas as edições da Copa. Mas, os trunfos recentes ou passados não vão atenuar um fiasco no ano que vem. Isto é tão certo quanto o fato dos argentinos não comemorarem por nós, ou que nós não choremos por eles.

Nossa estratégia é, a cada atualização das nossas séries tradicionais, incorporar uma nova dimensão à análise da nova classe média como o acesso a bens de consumo, empreendedorismo e microcrédito, educação de boa qualidade, entre outros, explorando a cada pesquisa uma nova ótica. Na nossa última pesquisa, impactados pelos riscos emanados do estouro de bolhas financeiras, exploramos a demanda por mecanismos de seguro pela população de baixa renda e pelos segmentos recém-promovidos a novos estratos econômicos.

Microsseguros é uma agenda que emerge só agora, tal como o microcrédito floresceu nas últimas duas décadas. São sequências naturais de um mesmo processo: o microcrédito possibilita às pessoas subirem na vida e o microsseguro impede que essas mesmas pessoas sucumbam a choques adversos relacionados a desemprego, doenças, acidentes, roubo, morte, entre outros. Isto é, microsseguro impede que uma situação crítica se torne crônica (vide WWW.fgv.br/cps/ms). Durante a melhora na distribuição de renda dos últimos anos, demos os pobres ao mercado consumidor. Há que se fechar o ciclo e dar o mercado aos pobres produtores.

Reconhecer os pobres como protagonistas de suas vidas, explorar as interações público-privadas no bojo das políticas sociais, desenvolver ações de empreendedorismo que atendam a principal dificuldade relatada pelos nanoempresários: falta de clientes, desenvolver microsseguros e o crédito produtivo popular, dar qualidade à educação básica compõem a nova geração de políticas públicas para a próxima década. O desafio é por meio dessas ações articular o meio de campo entre a nossa bem plantada defesa macroeconômica e o nosso ataque social.

Marcelo Côrtes Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais do IBRE/FGV e professor da EPGE/FGV, é autor de “Retratos da Deficiência”, “Cobertura Previdenciária: Diagnóstico e Propostas” e “Ensaios sociais”. E-mail: mcneri@fgv.br

10/09/2009 - 15:57h Mesmo na crise, pobres migram para classe média

Estudo da FGV aponta expansão da classe média

FolhaNews – VALOR

A crise econômica não interrompeu o processo de expansão da classe média brasileira, revela estudo feito pelo Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), com base em dados da Pesquisa Mensal do Emprego do IBGE . A população economicamente ativa incluída na classe C (pessoas com renda domiciliar de R$ 1.115 a R$ 4.807) representava, em julho, 53,20% do total, crescimento de 2,5% sobre a proporção verificada em julho de 2008.

Ao mesmo tempo, a classe AB (renda superior a R$ 4.807) teve retração de 0,5%. Em julho, representava 14,97% da população, de acordo com os dados da FGV. A classe D (entre R$ 804 e R$ 1.115) diminuiu 4,1% em relação a julho do ano passado, significando 13,51% dos brasileiros. A classe E (renda inferior a R$ 804) apresentou recuo de 3,3% em um ano, passando a representar 18,32% da população.

“No período pré-crise, em cinco anos, houve crescimento de 35% da classe AB e de 23% da classe C. No pós-crise, a boa notícia é que houve algumas perdas iniciais já recuperadas. Hoje, a classe AB está 0,5% abaixo de um ano atrás, e a classe C está 2,5% acima. Ou seja, a crise não afetou o bolso do brasileiro comum”, afirmou o coordenador do estudo, Marcelo Neri.

Neri explicou que está havendo uma recomposição da classe AB, sem perdas significativas. Ele frisou que o aumento da classe C é resultado, basicamente, de pessoas oriundas das classe mais baixas (D e E). O economista acrescentou que as chamadas periferias mantiveram um bom ritmo de atividade econômica durante a crise, sendo menos afetadas que os grandes centros urbanos.

“A peça-chave contra a crise brasileira é a classe média, é o poder de compra construído nos últimos anos. Então, as periferias conseguiram aumentar suas rendas nos últimos anos, isso segurou a atividade econômica dessas áreas na crise. Esse mercado interno gera atividade, e atividade gera emprego e mercado interno”, comentou Neri.

Estadão

De acordo com pesquisador da FGV, com a crise, ficou mais difícil se manter nas classes A e B

Adriana Chiarini, RIO – O Estado SP

A crise no Brasil atingiu principalmente a população de maior renda, inclusive na capital de São Paulo. A virada econômica dificultou o acesso e a permanência nas classes econômicas mais altas, A e B. Porém, os mais pobres, das classes D e E, mantiveram a mobilidade em direção à classe, classificada como “média baixa”. Essas são algumas das conclusões de estudo do Centro de Políticas Sociais (CPS), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) feito a partir da comparação de dados de julho deste ano com o mesmo mês de 2008.

O conjunto das classes A e B chegou a cair 0,5% entre julho do ano passado e julho deste ano, em contraste com o crescimento de 35,7% entre julho de 2003 e o mesmo mês do ano passado. Por outro lado, a classe C, cresceu 2,5% de julho do ano passado até julho de 2009, principalmente pela passagem de pessoas das classes mais baixas para a classe média. A classe C tinha crescido 23,1% entre os meses de julho de 2003 e 2008.

“É um empate e é um resultado muito bom para a época de crise, mas é uma parada súbita, já que a gente vinha melhorando a taxas altas. O copo está meio cheio e meio vazio”, disse o economista-chefe do CPS, Marcelo Neri. Ele observou que, entre 2003 e 2008, 27 milhões de pessoas – “meia França”, salientou – foram incorporadas ao conjunto de classes A, B e C e 24 milhões deixaram a pobreza.

Na capital de São Paulo, o conjunto das classes A, B e C caiu 0,68% entre julho de 2008 e julho de 2009. No entanto, na periferia paulista, houve um crescimento de 0,67% nesse grupo. Neri observou que, com exceção de Salvador, as periferias de maneira geral, reagiram melhor à crise do que as capitais nas seis principais regiões metropolitanas do País. Entre elas, São Paulo foi a única capital com queda no total das classes A, B e C.

Na avaliação de Neri, tanto a melhor performance das periferias quanto o pior desempenho de São Paulo podem estar relacionadas a que a indústria, principalmente a exportadora, e as instituições financeiras foram mais atingidas pela crise. Já as periferias teriam se beneficiado da renda da população mais pobre que continuou movimentando setores de comércio e serviços, segundo o especialista. “O mercado interno foi um verdadeiro Pelé contra a crise”, disse Neri.

A crise também parou a trajetória de queda do índice de Gini, que indica a desigualdade na economia quanto maior estiver, que subiu 0,30% em julho de 2009 em relação a igual mês de 2008. Foi a primeira alta na comparação de julho contra julho do ano anterior desde 2001, segundo Neri.

Ele comentou que a desigualdade esteve mais alta em janeiro deste ano e que o resultado de julho já representa melhora em relação àquele mês.

Também observou que a diferença entre o índice de julho de 2008 e o de julho deste ano é pequena.

De acordo com Néri, com a crise, ficou mais difícil se manter nas classes A e B. De cada 100 brasileiros que estavam em alguma dessas classes em julho de 2008, 25 tinham saído em julho de 2009, embora outros tenham ascendido. De julho de 2006 para 2007, os que saíram foram 18 em cada 100.

FOLHA

Desigualdade recua a patamar pré-crise

Estudo da Fundação Getulio Vargas aponta que principais regiões metropolitanas do país dão sinais de recuperação

Pobreza havia aumentado de forma preocupante no começo do ano; pesquisador questiona se indicador ficará parado no nível atual

ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO

As seis principais regiões metropolitanas brasileiras dão sinais de que estão se recuperando da crise, segundo estudo divulgado ontem pelo economista Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas.
Ao analisar a evolução da renda na Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE -a PME- especialmente de julho de 2008 a julho deste ano, Neri detectou que a desigualdade, que tinha dado sinais preocupantes de aumento nos primeiros meses deste ano, no pico da crise, praticamente voltou aos patamares de 12 meses atrás.
De 2003 a 2008, a série histórica mostra que a pobreza e a desigualdade caíram de forma praticamente constante. Esse movimento de melhoria foi interrompido em janeiro deste ano, quando os efeitos da crise começaram a ser percebidos com mais força nas regiões metropolitanas brasileiras.
A piora verificada nos quatro primeiros meses do ano, no entanto, foi compensada pela melhoria na PME em maio, junho e julho. Com isso, os indicadores de desigualdade e pobreza voltaram praticamente aos patamares de 12 meses antes.
“O que houve foi um empate, o que não é ruim em tempos de crise. Mas a questão agora é o que vai acontecer no futuro: voltaremos a melhorar com a pujança de antes ou ficaremos estagnados nessa situação atual?”, indaga o pesquisador.
Em julho de 2003, 47% dos brasileiros estavam nas classes D ou E, definidas no estudo como aquelas em que a renda domiciliar total é inferior a R$ 1.115. Em julho de 2008, essa proporção caiu para 33%. Neste ano, no mesmo mês, o percentual registrado foi de 32%.
No caso da desigualdade, que é medida pelo índice de Gini, de julho de 2003 para julho de 2008 a redução foi de 5,8%. No período de julho de 2008 a julho deste ano, houve ligeiro aumento de 0,3%.
A analise mensal, no entanto, mostra que apenas em janeiro houve um aumento de 2,5% em relação a dezembro do ano passado. Esse pico foi compensado em parte pela redução verificada a partir de abril. Isso fez com que o indicador de todo o período de 12 meses de julho a julho ficasse praticamente estável.

São Paulo
Na comparação das seis regiões metropolitanas da pesquisa (São Paulo, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio e Porto Alegre), São Paulo teve o pior desempenho entre julho de 2008 e julho de 2009, com aumento na renda per capita de apenas 0,5%. Nas demais, o crescimento variou de 3,7% (caso de Recife) a 6,4% (em Belo Horizonte).
Neri analisou também separadamente as capitais e as demais cidades que compõem as regiões metropolitanas. Na maioria delas, os municípios ao redor das capitais atravessaram melhor o período de crise.
Em São Paulo, por exemplo, a capital chegou a registrar de julho de 2008 a julho de 2009 queda de 3,2% na renda média per capita. Em compensação, as demais cidades da região metropolitana tiveram crescimento de 7,7% na renda média.
A hipótese do economista para explicar esse comportamento é que as capitais, por serem mais industrializadas, sentiram mais os efeitos da crise econômica internacional.
“Foram os mercados financeiros que transmitiram a crise. Talvez as periferias sejam menos conectadas aos mercados externos via exportação.”

07/06/2009 - 14:47h O fim da classe média

http://hvgvaz.files.wordpress.com/2009/01/classe-media.jpghttp://2.bp.blogspot.com/_nZMuvSdd-Vs/SOF55fjlkeI/AAAAAAAAEcU/0MAO8VGoS3U/s400/FSP_-_Classe_M%C3%A9dia.gif

Gilles Lapouge*

De tempos em tempos, anunciam a morte da classe média. Ramon Muñoz o fez recentemente num belo artigo do jornal espanhol El País. Muitos outros “avisos de falecimento” o haviam precedido. Alguns anos atrás, o francês Louis Chauvel falava das “classes médias à deriva”, e o sociólogo Jean Lopkine anunciava que as classes médias haviam desaparecido, que elas continuavam a funcionar como “mito”.

O ponto comum entre todos esses veredictos é o pessimismo, o medo e a inquietação. Eles parecem elogios fúnebres. Consideram que o declínio da classe média provocará grandes desordens sociais e políticas. E têm razão. Então, a classe média não constitui a coluna vertebral da economia de mercado, um penhor de estabilidade e o motor das mudanças? Se ela desaparecer, a sociedade entrará em parafuso. Aristóteles, este velho grego que viveu cinco séculos antes de nossa era, nos havia prevenido: “A classe média é a fonte da estabilidade democrática”.

No entanto, embora todo o mundo esteja de acordo sobre essa agonia silenciosa da classe média, um ponto continua obscuro: ninguém sabe exatamente o que é a classe média. Mesmo a sua data de nascimento é desconhecida. Alguns a situam após 1945, durante os 30 anos de grande enriquecimento dos países avançados. Outros a remontam ao século 19, o século da máquina a vapor da burguesia. E Aristóteles já a conhecia!

Há incerteza até no que concerne a seus contornos. Ela tem uma geometria variável. Ela não é a mesma, não tem nem a mesma periferia, nem o mesmo conteúdo na primeira revolução industrial, ou em 1960, no tempo dos colarinhos brancos, ou em 2000, após a revolução informática.

Essa classe média muda também segundo o olhar dos observadores. Para uns, ela é formada pelos que ganham 1 mil (R$ 2.755) por mês. Para outros, engloba também os que têm uma receita mensal de 3 mil. É por isso, aliás, que durante muito tempo se falou não “da” classe média, mas “das” classes médias, a superior e a inferior.

Trata-se, portanto, de um objeto delicado, tão escorregadio como um sabonete molhado.

Vamos ao mais simples, portanto: esse conceito designa simplesmente a classe intermediária que se estende entre a classe rica e a classe pobre. Essa classe, outrora abastada, honrada, respeitada, tornou-se quase indigente. Ela sobrevive com 1 mil mensais, talvez.

De 1950 a 1975, essa classe intermediária cresceu bastante, pois era alimentada pelo fluxo dos antigos operários, empregados, camponeses que asce ndiam graças ao milagre econômico do pós-guerra.

Em compensação, de 1975 a 2000, assistiu-se ao movimento inverso: a classe média se esvaziou. O número de ricos e de muito ricos aumentou incrivelmente, enquanto uma grande parcela da classe média foi puxada para baixo e para a precariedade.

A classe média sofreu então duas mudanças: de uma parte, sua quantidade diminuiu, e de outra, sua renda baixou. Em 2008, 48% das pessoas pertencentes à classe média francesa não puderam tirar férias.

FENÔMENO ESTRUTURAL

E hoje? O declínio prossegue e se acentua. A pauperização também.

Hoje, os que ontem pertenciam à classe média estão, com frequência, pobres, pessoas que recebem por mês, na Europa, apenas o suficiente para sobreviver: 700 por mês na Grécia, 1 mil na Espanha e 1.400 na Alemanha ou na França (aqueles a quem chamam de “mileuristas”, palavra forjada na Espanha há alguns anos para designar os escombros dessa antiga classe média, em geral jovens ou estudantes que não dispõem de mais de 1 mil por mês).

Será o caso esperar que essa regressão seja um fenômeno temporário, uma síncope em vez de uma morte? Podemos supor que esse desastre esteja ligado à crise econômica e financeira que, partindo dos Estados Unidos, devasta o globo há um ano, essa espécie de morte cuja grande foice ceifa as fábricas, os bancos e as vidas? Infelizmente, não temos nenhuma razão para acreditar nisso.

Trata-se de um fenômeno profundo, lento e pesado. Ele opera no longo prazo, como um movimento de placa tectônica. Foi acelerado pela crise, mas não nasceu com ela. Já estava em ação antes dela. Ele começou bem antes da atual recessão. Isso significa que ele não é conjuntural, mas estrutural, não é aleatório, é fatal.

A prova? Ele é observado na totalidade dos países desenvolvidos, tanto na Polônia como na França, tanto na Alemanha como em Portugal, ou nos Estados Unidos. Acrescente-se a isso que ele progride mais ou menos com a mesma velocidade, seja qual for a ideologia, o talento ou a prática dos governos que estejam no comando. Direita, esquerda, centro, os governos podem mudar, mas o encolhimento da classe média persiste. O processo se desenvolve segundo seus ritmos e regras próprias. Ele prossegue seu curso imperturbável sejam quais forem as armas que os poderes utilizam para sustá-lo ou desacelerá-lo.

Eu me pergunto se esse declínio das classes médias, longe de ser uma consequência da crise financeira do ano passado, não seria, ao contrário, sua causa. O que se passou? A classe média americana, reduzida e necrosada há anos, havia conseguido maquiar sua própria agonia, mascará-la, apelando de maneira irrefletida e delirante ao crédito, que os bancos aliás forneciam de bom grado. A verdade é que “o rei estava nu”, mas os bancos lhe emprestavam roupas para camuflar sua nudez.

Um dia, porém, o sistema bancário, solicitado insensatamente por essa classe média ávida por luxo e distinção, mas em via de pauperização, explodiu. Desde então, a classe média se encontrou tal como ela era de fato havia já muitos anos: nua, pobre e tiritando.

Se essa análise está certa, isso significaria que o fim eventual da crise (em 2010, 2011?) não teria por efeito ressuscitar, como por um golpe de vara de condão, essa classe média naufragada? Não. Uma vez extinta a crise, as sociedades retornarão à situação que prevalecia pouco antes dela, com, de um lado, uma enorme classe indigente, de outro, uma classe de pessoas cada vez mais ricas, mais indecentes, e entre as duas, os resíduos da antiga classe média.

Essa extinção progressiva das classes médias terá efeitos devastadores sobre o equilíbrio das sociedades. Uma coisa é importante: os novos pobres, cujo número aumenta de maneira exponencial, são antigos homens e mulheres da classe média. E eles conservam dela a lembrança, a nostalgia e os hábitos.

Pior ainda: esses novos pobres, provenientes das antigas classes médias, são educados. Entre os “mileuristas”, encontram-se jovens formados em matemática, em ciências jurídicas, em letras, em belas artes. Espíritos brilhantes, formados e refinados. Ora, após concluir seus estudos, eles ganham, supondo que consigam emprego, 1 mil ou 2 mil. Portanto, amargura, desejo de revanche, desestabilização social, revolta ou revolução. Quem fez a Revolução Francesa de 1789? Os servos, os camponeses, os mendigos? Absolutamente. Esses estavam acostumados demais ao sofrimento para se revoltar. Os verdadeiros revolucionários foram os advogados sem causa, os intelectuais sem emprego, os curas desdenhados pelo alto clero.

Esse desequilíbrio entre os diplomas e os empregos (ou as rendas) longe de se reduzir só pode crescer. Hoje, em toda a Europa, os jovens aos quais não se oferece alguma ocupação não têm outra escolha senão continuar seus estudos. Temos, portanto, estudantes eternos, como nos romances de Dostoievski na véspera de uma outra revolução igualmente radical. Um estudante de 30 anos de idade é coisa corrente. E a cada ano chegam ao mercado novas multidões desvairadas, carregadas dos mais sólidos diplomas, aos quais a sociedade oferece situações grotescas, sombras de ofícios.

Ora, também aí, uma espécie de véu de ilusão é jogado sobre suas misérias. A sociedade técnica é de fato capaz de oferecer a esses jovens de alto nível intelectual, mas privados de todos os meios financeiros, ilusões, engodos. Por exemplo, todo o mundo dispõe de serviços gratuitos de internet, um verdadeiro luxo. E seria possível citar também outros engodos, outras ilusões, como as viagens a baixo custo que permitem ir até o fim do mundo quando as pessoas mal conseguem se alimentar. Não é raro um rapaz que vai e vem entre dois continentes ser constrangido, quando volta a seu país, a se alojar em pardieiros ou locais improvisados, com amigos, com outros decaídos da classe média.

Muitas vezes é a família que permite a esses jovens/velhos estudantes sobreviver e manter uma aparência de dignidade. É usual em cidades como Paris, Londres ou Praga, que um rapaz fique na casa de seus pais até os 30 anos de idade ou mais. Mas o sistema não é eterno. Aliás, os próprios pais estão sendo pouco a pouco vitimados pela pauperização. As aposentadorias diminuem, de sorte que os pais não podem mais ajudar seus filhos a sobreviver decentemente.

Contudo, embora os pais sejam também vítimas do declínio da classe média, eles continuam a desfrutar de uma vida mais digna e confortável que seus filhos. O desaparecimento, ou ao menos o esgotamento da classe média, produziu essa consequência perversa: hoje, os filhos sabem que não atingirão na sociedade um bem-estar igual ao de seus pais.

Até recentemente, o esquema era inverso: o filho vivia com a perspectiva, a promessa, de viver uma vida mais brilhante, mais bela, mais expansiva que seus pais. Essa perspectiva era um dos incentivos que impeliam os jovens a trabalhar para superar seus pais. Hoje, em lugar dessa esperança, ocorre um desestímulo, uma resignação, que estende sua sombra sobre qualquer um, como a asa da morte.

Uma regressão real e durável da classe média provocaria outros desequilíbrios na sociedade e, talvez, na civilização. Aristóteles falou corretamente quando viu nessa classe média uma ferramenta de estabilidade democrática. Se essa ferramenta se quebra, a sociedade corre o risco de ceder a todas as aventuras, a todos os perigos, a todos os suicídios. Isso já se evidencia num país como a França: a ampliação contínua do desemprego provoca reações epidérmicas muito perigosas. As greves viram enfrentamentos. Podem-se temer uma conflagração e revoltas selvagens.

Os sindicatos, essas “velhas raposas políticas”, conseguiram até aqui evitar a passagem à violência cega. Mas eles são a cada dia ultrapassados pelas tropas que atingem tamanho grau de cólera que são tentadas pelo pior, brutalidades, agressões, depredações, etc.

Será possível evitar convulsões? Nada o garante. No passado, os mineiros, os operários metalúrgicos, os trabalhadores braçais menosprezados por seus chefes, travaram lutas sangrentas. O perigo hoje é ainda mais grave, contudo. As futuras revoltas poderão efetivamente nascer não dos que nunca tiveram acesso à “mesa do banquete” (como foi o caso dos grandes movimentos populares do século 19), mas dos jovens cujos pais tinham uma vida confortável, jovens que trabalharam para atingir os altos escalões da sociedade e que vegetam no submundo.

Esses jovens, massacrados pelo fim da classe média, veem a pequena camada dos ricos, dos riquíssimos, engordar às suas custas, habitar mansões das “mil e uma noites”, levar uma vida de um luxo exagerado, exibicionista e vulgar em meio a uma profusão de ouro e caviar. Seu rancor aumenta em proporção à sua decadência. E algum dia, quem sabe, eles poderão optar pela revolta.

* Gilles Lapouge é correspondente em Paris

03/06/2009 - 09:08h Governo garante 62% da alta da renda este ano, diz economista

Reajustes do funcionalismo público, do salário mínimo e do Bolsa-Família movimentam R$ 26,5 bi

 

Jacqueline Farid, RIO – O Estado SP

 

http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/bolsa_familia/imagens/bolsa_familia.gif

Os aumentos do funcionalismo público, do salário mínimo e dos benefícios do programa Bolsa-Família deverão garantir 62% (R$ 26,5 bilhões) do acréscimo de R$ 42,9 bilhões no total da massa real de rendimentos no Brasil este ano, em relação ao ano passado. Esse reforço vai evitar um desempenho pior do Produto Interno Bruto (PIB) este ano, segundo estudo do economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.

A situação é bem diversa da verificada no ano passado. Segundo o levantamento da MB, do aumento de R$ 83,5 bilhões na massa real de renda em 2008 ante 2007, somente 17% foram consequência de decisões tomadas pelo governo.

Este ano, dos R$ 26,5 bilhões de aumento da massa real de renda a serem garantidos por decisões do governo, R$ 500 milhões virão do Bolsa-Família, R$ 8,6 bilhões do aumento do salário mínimo e R$ 17,47 bilhões do reajuste do funcionalismo.

Segundo Vale, o aumento de renda impulsionado pelo governo garantirá a expansão de pelo menos 1,2% no consumo das famílias em 2009. Esse item representa 60% do PIB pela demanda, que inclui a Formação Bruta de Capital Fixo e o consumo do governo.

Vale é um dos economistas que preveem variação perto de zero para o PIB este ano. Segundo o último relatório Focus, o PIB em 2009 terá queda de 0,73%. A estimativa do governo é de aumento de 1%.

Os efeitos do consumo das famílias no desempenho da economia este ano serão mais acentuados no segundo semestre, já que “o grosso do aumento” do funcionalismo está programado para junho e o Bolsa-Família vai incorporar 500 mil famílias em agosto e mais 500 mil em outubro. Além disso, o valor do benefício também aumentará.

“Por isso, a MB tem a expectativa de estagnação do PIB e não de quedas muito fortes, pois os estímulos de renda devem dar suporte razoável ao consumo das famílias”, disse Vale. Ele explicou que a estimativa de aumento de 1,2% no consumo familiar é “um piso”, já que foi projetada levando-se em consideração apenas os aumentos do salário mínimo do funcionalismo e do Bolsa-Família.

Ainda de acordo com Vale, o segundo semestre mostrará o início do processo de recuperação da economia, que ocorrerá pelo aumento da demanda doméstica. “A política monetária expansionista já deverá começar a surtir efeitos no começo do semestre que vem e, de outro lado, por pior que seja a qualidade da política fiscal, ela tem potencial de mitigar em parte a queda da demanda, basicamente via aumento das transferências de renda”, afirmou.

CLASSE MÉDIA

Para o economista, no curto prazo está claro o efeito positivo dos acréscimos de renda determinados pelo governo. Mas ele alerta que as consequências podem ser nefastas no médio e longo prazos, já que geram aumento de gastos. “O governo optou pelo caminho mais fácil para estimular o consumo, mas não significa que seja o melhor”, disse. Segundo ele, o melhor caminho seria elevar os investimentos.

Segundo o estudo, os ganhos das classes média e média alta vão cair mais de dez vezes em 2009. “A classe média havia sido o fator crucial de aumento de renda em 2008, mas este ano o aumento de consumo dependerá essencialmente do salário mínimo, do funcionalismo e do Bolsa-Família”, disse Vale.

O estudo da MB estima que o crescimento da massa real de renda será de R$ 10,6 bilhões para a faixa entre dois e três salários mínimos e de R$ 1,4 bilhão para a faixa acima de 20 salários mínimos. Em 2008, a faixa de dois a três mínimos teve acréscimo de R$ 7,2 bilhões e a de mais de 20 salários, de R$ 19,4 bilhões.

“As classes média e média alta, que foram as estrelas do crescimento da massa de renda nos últimos dois anos, passam a crescer menos em 2009.” Segundo Vale, a mudança decorre, basicamente, da crise, já que a população nessa faixa de renda sofreu mais com o aumento do desemprego em 2009.

FRASE

Sérgio Vale
Economista-chefe da MB Associados

“Por isso, a MB tem a expectativa de estagnação do PIB e não de quedas muito fortes, pois os estímulos de renda devem dar suporte razoável ao consumo das famílias.”

28/05/2009 - 12:06h EUA espirra, mas o mundo não pega pneumonia. America sneezes and the world is germ-free

http://thatwoman.files.wordpress.com/2008/12/sneezing.jpg

“No Brasil o governo também respondeu à crise financeira tentando manter o crescimento com programas de gastos públicos e desoneração de impostos. E o mercado financeiro, que no passado teria entrado en pánico frente a tais políticas keynessianas em países em desenvolvimento, agora apoiaram. No lugar da fuga de capitais, o estimulo atraiu os investidores globais para os seus papeis.”

In Brazil the Government has also responded to the financial crisis by trying to revive growth with big programmes of public spending and tax cuts. And financial markets, which might in the past have panicked in reaction to such Keynesian policies in developing countries, have been supportive. Instead of triggering a capital flight, stimulus policies have attracted global investors to their bonds.

http://img267.imageshack.us/img267/1572/usglobeht4.jpg

A situação econômica do Brasil e os efeitos da crise mundial foram tema de um artigo de opinião publicado nesta quinta-feira pelo diário britânico “The Times”.

O colunista econômico Anatole Kaletsky, após visitas à África do Sul e ao Brasil, diz que os dois países, apesar de atingidos fortemente pela crise, “parecem mais fortalecidos do que deprimidos pela experiência.”

“A notável resistência dessas economias e a confiança de suas comunidades empresariais, de sua mídia e de seus mercados financeiros, em contraste com a melancolia apocalíptica na Grã-Bretanha, Europa e Estados Unidos, destaca as três transformações que esta crise trouxeram à tona”, diz o colunista.

A primeira transformação, segundo ele, é a emergência da classe média nos países desenvolvidos como principal motor do crescimento econômico global nas próximas décadas.

Ele observa que os cálculos do FMI indicam que as economias emergentes contribuirão com 100% do crescimento global até 2010, e pelo menos 70% nos cinco anos seguintes.

A segunda transformação, de acordo com Kaletsky, é “a habilidade das economias emergentes de determinar seus próprios destinos, independentemente do sucesso ou do fracasso das políticas econômicas dos Estados Unidos ou da Europa.”

lula_caricatura.bmp

“Apesar de as economias emergentes não terem conseguido se isolar completamente da crise global, elas conseguiram finalmente refutar o clichê de que quando os Estados Unidos espirram, o mundo pega pneumonia”, diz o artigo.

A terceira mudança, segundo o colunista, é a transformação política e social provocada pelo crescimento da classe média, com o fortalecimento de democracias de livre-mercado plurais e liberais. (Fonte Folha Online).

Lula diz que Brasil é dono do próprio nariz (23/04/2009).

Artículo do Times diz que “a habilidade das economias emergentes de determinar seus próprios destinos” ajudou o país.

 

 

 

 

America sneezes and the world is germ-free

The financial crisis has emboldened countries such as Brazil and South Africa. The global balance of power is shifting

Anatole Kaletsky – The Times

As the dust settles after the Great Depression That Never Was, the worldwide financial crisis is starting to look less like the seismic historical transformation so widely expected. With every week that passes, President Sarkozy’s predictions about the death of Anglo-Saxon capitalism sound more premature, while ahistorical comparisons with the end of communism in 1989 seem ever sillier.

And yet it is clear that some permanent changes in the global balance of power really are occurring, as I saw this month while visiting Brazil and South Africa, two large economies hard hit by the crisis in statistical terms, but seemingly more emboldened by the experience than depressed.

Official data show both countries to have suffered serious recessions – in South Africa’s case, for the first time in the post-apartheid era. And in the depth point of the crisis before Christmas, their currencies, the rand and real, were both falling so steeply that there were genuine worries about a total financial collapse. By early May, however, both currencies had bounced back to their pre-Lehman levels, business confidence was returning and consumers were again thronging the vast malls that have sprouted like tropical weeds in the ever-expanding suburbs of São Paulo and Johannesburg.

The remarkable resilience of these economies and the confidence of their business communities, their media and their financial markets, in contrast to the apocalyptic gloom in Britain, Europe and America, highlight the three transformations that this crisis has brought to light.

The first and most obvious is the rise of the middle class in developing countries and its emergence as the main engine of global growth in the decades ahead. Even if the US and other rich economies recover more rapidly than expected from the recession, it is clear that almost all of the global growth in consumer spending and industrial investment is going to occur in what used to be called the Third World and is now described, more appropriately, as the emerging markets.

According to IMF calculations, emerging economies will account for 100 per cent of the growth in world output in the three-year period 2008-10. And even assuming that the US and European economies return to their long-term growth paths from 2011 onwards, the IMF expects emerging markets to account for 70 per cent of global growth for the following five years.

The second, closely related, transformation is the newfound ability of emerging economies to determine their own destinies, regardless of the success or failure of US or European economic policies. Two years ago, when the credit crunch had just started, there was much discussion in the economic commentariat about the possibility that emerging economies could decouple from the problems that seemed to be emanating from the US and British financial markets.

While the emerging economies have not been able to insulate themselves completely from the global crisis, they have finally disproved the cliché that when America sneezes, the world catches pneumonia. They have been able to do this for a variety of reasons, all ultimately related to the growth of consumer societies within the developing world.

Commodity-producing countries such as Brazil and South Africa have obviously benefited from China’s overtaking of the US and Europe as the world’s main consumer of raw materials. As long as the Chinese economy keeps growing, Brazil is assured of demand for its iron ore and soya, South Africa for its platinum and coal. Thus the success of the huge fiscal stimulus package announced by the Chinese Government in December has turned out to be much more important for these countries than similar measures in the US or EU.

Even more important than the growth of trade with China is that many of the emerging economies, including Brazil and South Africa, have had the financial resources to implement their own independent stimulus packages.

South Africa, for example, is one vast building site today in preparation for next year’s football World Cup. Despite the economic crisis, the Government has been able to continue financing the construction of new roads and public transport networks, as well as sports grounds – and now President Zuma plans to increase substantially the public investment in housing as well.

In Brazil the Government has also responded to the financial crisis by trying to revive growth with big programmes of public spending and tax cuts. And financial markets, which might in the past have panicked in reaction to such Keynesian policies in developing countries, have been supportive. Instead of triggering a capital flight, stimulus policies have attracted global investors to their bonds.

Why has this happened? Partly because the financial management of most emerging economies outside Eastern Europe has generally been competent and prudent. But mainly because these countries have begun to demonstrate the capacity for self-sustaining growth based not just on exporting raw materials or consumer goods to America and Europe, but also on domestic investment and consumer demand.

In the long term it is only such self-sustaining domestic growth that can generate the tax revenues needed to pay foreign creditors and maintain a stable financial system. And as global investors have come to understand this, they have rewarded countries whose economies are driven mainly by domestic consumption and investment, rather than export growth.

The first two trends also suggest a third change, which the financial crisis could encourage: political transformation. If emerging economies are going to turn themselves into consumer societies (organised around the needs and desires of their own citizens) rather than producer societies (dedicated to churning out the maximum physical output for the lowest possible price), they are likely to experience profound political and social change. Not only will they need to encourage the growth of a relatively prosperous middle class, but, in order to sustain consumer demand, wages will have to rise rapidly for manual and even agricultural workers, as they did in the 1940s in America and Europe.

Moreover, development of thriving service sectors will mean greater choice and individualism, challenging autocratic political structures in one-party states. This has been the story of South Africa and Brazil in the past decade and they seem to have made the transition successfully to pluralistic, liberal free-market democracies.

Whether China ever manages a similar transition is, of course, the great historical question of the 21st century. But if it forces China to direct economic development towards the needs of its own citizens, rather than the tastes of US consumers, the financial crisis is likely to accelerate China’s evolution into a pluralistic market economy, rather than slowing it down.

13/02/2009 - 15:24h As novas classes médias

Bilhões de burgueses

A nova “Economist” traz encartado um especial sobre “As novas classes médias nos mercados emergentes”, título geral dos mais de dez textos, com pesquisa especial Pew, um perfil de consumo, a aposta de que elas vão reagir à crise etc.

A longa introdução de John Parker traz a foto e descreve a cena de uma multidão diante da loja das Casas Bahias na favela de Paraisópolis, em São Paulo. “Esta é a nova classe média dos emergentes indo às compras.” O texto saúda num dos enunciados, à maneira de Lula, que “pela primeira vez na história mais de metade do mundo é classe média, graças ao crescimento nos emergentes”.

No editorial “Mais dois bilhões de burgueses”, em que cita Karl Marx, a “Economist” avalia que “a ascensão da nova classe média mudou o mundo”, mas: “E se eles mergulharem de volta na pobreza?”. Alerta para o efeito de um “crash” sobre “o progresso feito recentemente em direção à democracia e à estabilidade política”. Texto de Nélson de Sá, coluna Toda Mídia – Folha SP.

 

 

The new middle classes in emerging markets

Burgeoning bourgeoisie

Feb 12th 2009
From The Economist print edition

For the first time in history more than half the world is middle-class—thanks to rapid growth in emerging countries. John Parker (interviewed here) reports

foto Financial Times

THE crowd surges back and forth, hands above heads, mobile-phone cameras snapping one of Brazil’s best-known samba bands. It could be almost anywhere in Latin America’s largest city on a Saturday night. But this is Paraisopolis, one of São Paulo’s notorious crime-infested favelas (slums). Casas Bahia, the country’s largest retailer, is celebrating the opening there of its first ever store in a favela (pictured above). It is selling television sets and refrigerators in a place that, at first glance, has no running water or electricity.

Among the shacks, though, rise three-storey brick structures with satellite dishes on their tin roofs. In the new shop, Brazilians without bank accounts—plumbers, salesmen, maids—flock to buy on instalment credit. In a country with no credit histories, the system is cumbersome: the staff interview customers about their qualifications and get them to sign stacks of promissory notes, like post-dated cheques, before allowing them to take their purchases home. But it works, more or less. According to Maria, a cleaner, “Everything I have comes from Casas Bahia. Things are very expensive but the means of payment are better for people like us, without any money.” This is the emerging markets’ new middle class out shopping.

Eduardo Giannetti da Fonseca, one of Brazil’s most distinguished economists, describes members of the middle class as “people who are not resigned to a life of poverty, who are prepared to make sacrifices to create a better life for themselves but who have not started with life’s material problems solved because they have material assets to make their lives easy.” That covers a broad range of ambitions, as two other examples will show.

Back in 1992 Lu Jian was a dissatisfied mid-level bureaucrat at China’s department of transport and communications who became surplus to requirements. Taking advantage of government measures that encouraged such officials to go into business, he went off for a stint at China’s first commodity-futures trading company. Soon afterwards he found himself designing the country’s first ski resort, near the northern city of Harbin. Now, as chairman of the Nanshan Ski Village, in the desert hills near Beijing, he presides over the capital’s main winter-sports recreation ground.

This season 3m Chinese will take up a sport that was unavailable in the country only 15 years ago. China has around 300 ski runs, including some in the subtropical south where skiing is done indoors. Even in freezing Nanshan, snow is manufactured from wells deep underground. “When the Chinese first got rich,” says Mr Lu, “they wanted to go to Thailand and South Korea. Now they want to go skiing.” Every weekend the resort is packed with IT executives, bankers and media glitterati. This is the emerging markets’ new middle class at play.

In December 2008, a week after the terrorist attacks in Mumbai, thousands of young, English-speaking professionals gathered in Mumbai, New Delhi, Bangalore and Hyderabad. They were demanding a new security law and a ban on criminals holding parliamentary seats, as well as urging people to vote. India’s professional classes have long been considered indifferent to politics and less inclined to vote than the poor. Yet suddenly social-networking sites were full of memorials to the victims and proposals for further action: vote, don’t vote, withhold taxes, join a new party. “Those laid-back, lethargic, indolent middle classes—they’ve been galvanised,” says a former advertising executive.” This is the emerging markets’ middle class engaged in politics.

So much to do

“We expect a lot from the middle classes,” say Abhijit Banerjee and Esther Duflo, of the Poverty Action Laboratory at the Massachusetts Institute of Technology. Following the historical examples of Britain and America, they are expected to be the dominant force in establishing or consolidating democracy. As a group, they are meant to be the backbone of the market economy. And now the world looks to them to save it from depression. With the global economy facing the biggest slump since the 1930s, the World Bank says that “a new engine of private demand growth will be needed, and we see a likely candidate in the still largely untapped consumption potential of the rapidly expanding middle classes in the large emerging-market countries.”

This special report will assess these expectations. It will argue that many of them are broadly justified; that there is indeed something special about the contribution the middle classes make to economic development that goes beyond providing a market for Western consumer goods. The middle classes can, and sometimes do, play an important role in creating and sustaining democracy, though on their own they are not sufficient to create it, nor do they make it inevitable. On balance, the report is optimistic about the prospects of countries where the middle classes are growing. But they are not a homogeneous group, so their impact varies. A middle class that has grown largely to tend to the state will behave differently from one that is based on the private sector.

The one-third rule

But who, as a patrician British prime minister, Harold Macmillan, once loftily asked, are these middle classes? Their members are neither rich nor poor but somewhere in-between. In countries long divided between lord and peasant, that has large consequences. “Middle-class” describes an income category but also a set of attitudes. In the words of Shashi Tharoor, an Indian commentator, it is a category “more sociological than logical”.

An essential characteristic is the possession of a reasonable amount of discretionary income. Middle-class people do not live from hand to mouth, job to job, season to season, as the poor do. Diana Farrell, who is now a member of America’s National Economic Council but until recently worked for McKinsey, a consultancy that has spent a lot of time studying the middle classes, reckons they begin at roughly the point where people have a third of their income left for discretionary spending after providing for basic food and shelter. This allows them not just to buy things like fridges or cars but to improve their health care or plan for their children’s education.

Usually, an income of that size requires regular, formal employment, with a salary and some benefits, that is, a steady job—another key middle-class characteristic. The income needed to have a third of it left over after meeting basic needs also varies from place to place. In China, for example, $3,000 a year may be enough in Chongqing or Chengdu, big cities in the west, but not in Beijing or Shanghai. So defining the middle class in absolute terms is hard (see article).

In practice, emerging markets may be said to have two middle classes. One consists of those who are middle class by any standard—ie, with an income between the average Brazilian and Italian. This group has the makings of a global class whose members have as much in common with each other as with the poor in their own countries. It is growing fast, but still makes up only a tenth of the developing world. You could call it the global middle class.

The other, more numerous, group consists of those who are middle-class by the standards of the developing world but not the rich one. Some time in the past year or two, for the first time in history, they became a majority of the developing world’s population: their share of the total rose from one-third in 1990 to 49% in 2005. Call it the developing middle class.

Using a somewhat different definition—those earning $10-100 a day, including in rich countries—an Indian economist, Surjit Bhalla, also found that the middle class’s share of the whole world’s population rose from one-third to over half (57%) between 1990 and 2006. He argues that this is the third middle-class surge since 1800. The first occurred in the 19th century with the creation of the first mass middle class in western Europe (see chart 1). The second, mainly in Western countries, occurred during the baby boom (1950-1980). The current, third one is happening almost entirely in emerging countries. According to Mr Bhalla’s calculations, the number of middle-class people in Asia has overtaken the number in the West for the first time since 1700 (see chart 2).

 In many emerging markets the middle class does not grow incrementally, in line with, say, economic growth. It surges. Chart 3 below shows why. The vertical line represents an income of $10 a day, which is where Mr Bhalla considers the middle class to start. In 1980 there was hardly anyone beyond that line. The lop-sided bell shape represents the distribution of income in a country (in this case, China) with a tail of poor people on the left, a longer tail of rich ones on the right and a bulge of people on average incomes in the middle.

As the economy grows, the bell moves to the right and as it meets the threshold, a great whoosh of people cross into the middle class. In reality, growth may be even faster because the shape of the bell has been changing. According to new research by Martin Ravallion, the director of the World Bank’s development research group, income distribution in developing countries started to shift between 1990 and 2005. The bulge in the middle of the range got bigger, making the bell taller, so the middle class is growing even faster.

 At a certain stage it starts to boom. That stage was reached in China some time between 1990 and 2005, during which period the middle-class share of the population soared from 15% to 62%. It is just being reached in India now. In 2005, says the reputable National Council for Applied Economic Research, the middle-class share of the population was only about 5%. By 2015, it forecasts, it will have risen to 20%; by 2025, to over 40%.

Sweet spot

Homi Kharas, of the Brookings Institution, a think-tank in Washington, DC, argues that the point at which the poor start entering the middle class in their millions is the “sweet spot of growth”. It is the moment when poor countries can get the maximum benefit from their cheap labour through international trade, before they price themselves out of world markets for cheap goods or are able to compete with rich countries in making high-value ones. It is also almost always a period of fast urbanisation, when formerly underemployed farmers abandon what Marx called “the idiocy of rural life” for the cities to work in manufacturing, boosting their productivity many times over. Eventually this results in a lessening of income inequalities because the new middle class sits somewhere between the rich elite and the rural poor.

The surge across the poverty line is a period of accelerating growth both for the new middle class and for the country it inhabits. That should continue for a couple of decades. By most estimates, the global middle class will more than double in number between now and 2030. This will have profound social consequences, as happened in previous middle-class surges.

Close to the creation of the world’s first mass middle class in early 19th-century England, Thomas Malthus (the political economist who scared the world with his forecasts of overpopulation and food shortages) wrote that “it is probable that extreme poverty or too great riches may be alike unfavourable [to furthering the progress of mankind]. The middle regions of society seem to be best suited to intellectual improvement.”

Marx, who admired Malthus, was equally astonished by the emergence of the middle class. As he wrote in the “Communist Manifesto”:

Historically it has played a most revolutionary part. The bourgeoisie, wherever it has got the upper hand, has put an end to all feudal, patriarchal, idyllic relations…It has accomplished wonders far surpassing Egyptian pyramids, Roman aqueducts and Gothic cathedrals…The bourgeoisie has through its exploitation of the world market given a cosmopolitan character to production and consumption in every country…All old-established national industries have been destroyed or are daily being destroyed. They are dislodged by new industries, whose introduction becomes a life-and-death question for all civilised nations…In place of the old wants, satisfied by the production of the country, we find new wants, requiring for their satisfaction the products of distant lands and climes…National one-sidedness and narrow-mindedness become more and more impossible, and from the numerous national and local literatures there arises a world literature. The bourgeoisie, by the rapid improvement of all instruments of production, by the immensely facilitated means of communication, draws all, even the most barbarian, nations into civilisation.

25/08/2008 - 10:28h Aumento da classe média atrai companhias

Brasil aparece como 8.º destino das empresas, mostra estudo da KPMG

brasil_olho.jpg

Patrícia Cançado e Renato Cruz – O Estado de São Paulo

Até 2010, cem milhões de pessoas terão migrado para a classe média no mundo. A estatística faz parte de um estudo encomendado pela General Eletric com o objetivo de entender de onde veio e virá o crescimento no mundo a partir de 2002. “Até agora, 65 milhões já mudaram de patamar. Um terço deles no Brasil”, afirma o vice-presidente de marketing para a América Latina da GE, João Geraldo Ferreira.

Na sede da GE, nos Estados Unidos, poucos poderiam imaginar essa mudança rápida em pouco tempo. O País era relegado a segundo plano na gestão de Jack Welch. No primeiro trimestre, o faturamento da operação local aumentou 87% e, no segundo, 41%. “Para a GE, a América Latina é maior do que a China e Índia juntas”, diz Ferreira.

Entre este e o próximo ano, a companhia vai instalar três fábricas no Brasil. A de locomotivas foi inaugurada em maio. Uma de equipamentos para a área de saúde deve começar a funcionar em 2009. A terceira fábrica produz máquinas de purificação de água.

Os números nem sempre falam por si. Os brasileiros da GE começaram a estimular visitas de executivos estrangeiros ao País para fazer com que a matriz reconheça o potencial local. “O americano, quando conhece o Brasil, leva um choque cultural”, diz Ferreira. “Muitas vezes, levamos o executivo de helicóptero, do aeroporto de Guarulhos para o hotel, e ele fica admirado com a extensão de São Paulo, com a quantidade de prédios em construção.” E a GE já é uma empresa com alto grau de internacionalização. Hoje, metade do seu faturamento tem origem fora dos EUA. Em 2020, a expectativa é que a operação internacional responda por 80% das receitas.

O País nunca recebeu tantas visitas de presidentes mundiais e executivos de alto escalão de empresas estrangeiras. Com um discurso invariavelmente igual, eles vêm para reafirmar o interesse pelo mercado. Virou clichê dizer que o Brasil é estratégico para as mais diversas companhias, desde a fabricante de alimentos Pepsi até a grife de luxo de jeans Diesel.

A Pepsi veio ao País neste mês para anunciar aporte de US$ 450 milhões até 2013. A Diesel abriu aqui, há duas semanas, a sua maior loja no mundo. “O Brasil tem seu mérito nesse cenário, mas eu somaria a isso o fato de a economia lá fora não estar boa. Se todo o mundo estivesse bem, o País não brilharia tanto”, diz a sócia da consultoria KPMG, Marienne Munhoz.

O grau de investimento também serviu como uma chancela para empresas de menor porte e fundos de pensão e de investimento tentarem a sorte por aqui. “No passado, o perfil das empresas que procuravam o Brasil era muito diferente do das atuais. Empresas como as montadoras e a Nestlé tinham estrutura para suportar investimentos com retorno de longo prazo”, diz Marienne.

Segundo pesquisa anual da KPMG, de junho deste ano, o Brasil aparece como oitavo principal destino das empresas. Nos próximos cinco anos, sobe para a sexta posição, atrás de China, EUA, Rússia, Índia e Reino Unido.

BRICS

Por muitas décadas, o Brasil sequer era citado nos balanços das multinacionais. Hoje o País ganhou status de queridinho. Na Unilever, o Brasil já é o terceiro maior mercado. Estava em sétimo lugar há dois anos. Em alguns casos, o lucro gerado aqui está ajudando a pagar a conta das problemáticas operações nos seus países de origem.

A Volkswagen anunciou na quinta-feira que o Brasil passou a Alemanha pela primeira vez em número de carros vendidos. Agora, só perde para a China. Na Fiat, Ford e GM, a subsidiária também escalou posições numa velocidade espantosa.

Em termos absolutos, o Brasil tende a receber menos investimentos porque já é um país relativamente maduro em relação aos outros Brics (Índia, China e Rússia). Até 2007, o estoque de investimento representava 20,8% do PIB. Na China, ainda é de 11,1%. “A China e a Índia estão construindo a casa, enquanto o Brasil está reformando”, diz o presidente da consultoria Boston Consulting Group, Walter Piacsek.

08/08/2008 - 19:53h El sushi, el MP3 y los viajes, al alcance de la mayoría de los brasileños

Dos nuevos integrantes de la clase media presentan sus pequeñas conquistas, unos pasos gigantescos para Brasil, donde la distribución de renta es de las peores en el mundo

A imagem “http://www.elpais.com/recorte/20080808elpepuint_36/XLCO/Ies/20080808elpepuint_36.jpg” contém erros e não pode ser exibida.
Becker pudo comprar su primer MP3 el sábado pasado

RODRIGO CAVALHEIRO – Madrid – El País

Por primera vez en la historia, la mayoría de los brasileños pertenece a la clase media. El periodista Guilherme Becker ignora el número (51,9%), hecho público esta semana, pero sí que nota el fenómeno en su propia piel. Hace un año, dobló un sueldo mensual que solía ser de 600 reales (255 euros). Ingresó formalmente a la clase media brasileña, la franja de los que ganan entre 1.064 y 4.591 reales (452 a 1.954 euros). “El sábado pasado finalmente pude comprar un MP3. Era un sueño que solamente ahora he podido conseguir”, cuenta Becker, de 25 años, desde la sureña Novo Hamburgo, una de las ciudades de colonización alemana en el Estado de Rio Grande do Sul.

Hay otras pequeñas conquistas, además del MP3 de 25 euros. Hartarse de sushi en un restaurante, por ejemplo, le resultaba imposible cuando dejó la facultad de Comunicación Social hace tres años. “Me encanta la comida japonesa, se me hacía imposible. Vivía para pagar el alquiler y comer. No tenía ni siquiera con qué comprar unas zapatillas”, añade. Pero lo que realmente celebra de esta repentina ascensión social es poder ver en el estadio al Inter de Porto Alegre, equipo de fútbol ubicado hoy en décimo lugar en la liga brasileña. “Soy adicto al fútbol. Antes, no podía ni pensar en ir a todos los partidos”.

“Después de años de aumento de la desigualdad y la miseria, florece una nueva clase media, que se está comprando coches y portátiles”, explica a ELPAÍS.com el coordinador de la investigación de la Fundación Getulio Vargas, Marcelo Neri. Según el experto, hoy es mucho más probable que Becker ascienda a las clases más ricas que baje a la miseria. Desde 2004, la renta media de la familia brasileña ha aumentado un 25%. Con eso, las ganancias antes dedicadas exclusivamente al pago del alquiler, de la alimentación y transporte, acaban invertidas en entretenimiento y ocio.

Licenciado en Ciencias Actuariales (un estudios similares a contabilidad) en el segundo semestre de 2006, otro joven brasileño, Lúcio Sartori, “vivía para pagar los estudios y la habitación”. Hasta julio de 2002, su sueldo era de 600 reales (255 euros). Ascendido en la oficina, con un sueldo de 2.500 reales (1.039 euros) pudo viajar a España, Francia, Holanda, Alemania, Suiza e Italia el año pasado. La próxima meta es un nuevo viaje en abril, esta vez a Dinamarca, República Checa y Austria. Sartori, como Becker, también se se ha hecho adicto a lo que es un símbolo para esta nueva clase media brasileña, la comida oriental: “Siempre me gustó la comida japonesa, pero no podía darme al lujo. Ahora voy con frecuencia a japoneses y tailandeses”. En Porto Alegre, la capital de Rio Grande do Sul, con 1,4 millón de habitantes, el restaurante especializado en comida japonesa de bufet libre (una institución en Brasil) más barato, cobra 35 reales por persona (unos 14 euros). Un menu básico, semejante al español, puede costar 2 euros.

08/08/2008 - 13:50h Na classe média, grande é a demanda

VALOR

A eleição de outubro é a primeira da história brasileira em que a classe média é maioria. A constatação da Fundação Getúlio Vargas traz mais motivos de preocupação do que de regozijo para os candidatos à prefeitura das grandes cidades.

Ascender à classe média, que, na definição da FGV, equivale a um padrão de consumo familiar entre R$ 1 e R$ 4,5 mil, também significa demandar por mais serviços públicos que, em grande parte, são prestados pelas prefeituras. O acesso a bens de consumo antes intangíveis, como celular e computador, pode ajudar a explicar a popularidade do presidente da República, mas não elege prefeito algum.

Um dos melhores profissionais de pesquisa de opinião do país, no ramo há 40 anos, tem aplicado dois tipos de questionários Brasil afora sobre intenção de voto. Num, lista os candidatos e pergunta em quem o eleitor vai votar. Noutro, além da lista, acrescenta que o candidato tem o apoio do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A explicitação do apoio não acrescenta mais do que dois pontos percentuais aos candidatos lulistas.

O termômetro para o humor do eleitor funciona melhor nos pontos de ônibus e nas plataformas de trens. A pesquisa é clara. Essa migração para a classe média decorre de emprego formalizado. As políticas de transferência de renda continuam com forte impacto sobre a redução da miséria mas os recordes sucessivos na geração de renda do trabalho já rivalizam há anos como fator de migração social.

Mais gente trabalhando também significa mais demanda por transporte público. Tome-se, por exemplo, Belo Horizonte, cidade em que a FGV traz como aquela que, proporcionalmente, teve maior redução de miséria e o maior ingresso de pessoas na classe média. Entre maio e junho deste ano, o metrô de BH registrou três recordes consecutivos de embarque de passageiros. Em toda parte, o nível de satisfação dos usuários de transporte público compreensivelmente cai quando aumenta a lotação.

Aumenta pressão sobre candidatos

No latifúndio de tempo de TV de que disporá (40% do total), o candidato do PSB, Márcio Lacerda, precisará convencer o eleitor de que tem planos exeqüíveis para adequar o transporte público da capital mineira a este afluxo de novos usuários, para não fazer a trinca mais poderosa de apoio que alguém possa desejar – Lula, o governador Aécio Neves (PSDB) e o prefeito Fernando Pimentel (PT) – passar vexame.

O emprego de carteira assinada também expande o ideário de ascensão social que, sem educação de melhor qualidade, não tem como se realizar. O aumento da classe média também tem sido acompanhado pela expansão das matrículas na rede oficial. E é um fenômeno anterior à adoção de cotas nas universidades para alunos egressos de escolas públicas.

No Rio de Janeiro, por exemplo, entre 1994 e 2005, as escolas públicas de ensino médio triplicaram o número de matrículas enquanto que as particulares perderam 7% de seus estudantes. Com a universalização da matrícula, o foco agora é a qualidade de ensino.

Uma das muitas tragédias do domínio das milícias na campanha eleitoral carioca é que temas como a evasão escolar, a progressão continuada (passar o aluno de ano automaticamente), o salário dos professores, ficam em segundo plano. O que não significa que quem quiser enrolar o leitor se dará bem.

Em São Paulo, o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) já demonstrou no primeiro debate de TV que está atento para a necessidade de sair da arapuca em que está metido por não ter conseguido atingir nenhuma das metas a que se propôs para a educação quando esteve no Palácio dos Bandeirantes.

Os governadores devem mesmo conspirar em silêncio contra o piso nacional dos professores (R$ 950) aprovado pelo Congresso Nacional se não quiserem jogar areia na campanha de seus candidatos.

O impacto menos claro dessa maioria eleitoral de classe média sobre a discussão das políticas públicas é na saúde. A clientela da nova classe média é a que tem garantido a proliferação de planos de saúde de baixo custo. As rarefeitas garantias que costumam estar associadas a esses planos mantêm sob pressão a rede pública de hospitais e inflacionam as insatisfações do eleitorado com os serviços que lhe são de direito.

Maria Cristina Fernandes é editora de Política. Escreve às sextas-feiras

mcristina.fernandes@valor.com.br

12/11/2007 - 07:24h Classe média tem ganho de renda

Depois de sucessivas quedas até 2005, rendimentos voltaram a crescer para todas as camadas sociais

Marcelo Rehder – O Estado de São Paulo

Depois de anos em queda, a renda da classe média dá sinais de recuperação. Praticamente todas as faixas de domicílios do País tiveram sua renda elevada em 2006, diferentemente do que aconteceu de 2002 a 2005, quando aumentos substanciais aconteceram só nas classes mais baixas, por conta de transferências promovidas por programas assistenciais, como o Bolsa Família, e dos fortes aumentos do salário mínimo.

A tendência é de que a renda continue a crescer de maneira generalizada nos domicílios de todas as classes sociais ao menos até 2008.

Nos domicílios 10% mais ricos (R$ 7.063,00, em média), por exemplo, o incremento de renda foi de apenas 1,3% entre 2002 e 2006 , enquanto nos 30% a 40% mais pobres (R$ 473,00) chegou a 18,9%, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE. Já em 2006, o crescimento nessas mesmas faixas ficou muito próximo: 7,1% e 10,7%, respectivamente, em relação a 2005.

‘Esse tipo de crescimento equilibrado é bastante saudável, pois indica que o aumento da renda não está se dando só por transferência do governo, mas também pelo próprio dinamismo da economia, o que tem impacto direto na classe média’, diz Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados, autor do estudo sobre renda no País. ‘A classe média deve continuar a crescer sustentada pela evolução positiva do emprego qualificado.’

Pelos cálculos do economista, cerca de R$ 99 bilhões engrossaram a massa real de renda em 2006, que aumentou 10%, para R$ 1,1 trilhão. Este ano, o acréscimo deve ser de R$ 90,9 bilhões, o que representaria aumento de 8,5%. Para 2008, a previsão é de incremento de R$ 70 bilhões , que daria 6% de alta.

‘O cenário é extremamente positivo e abre espaço para um consumo de maior valor agregado, por se dar agora também na classe média’, diz Vale. Ele observa que a renda das classes mais baixas ainda tende a crescer, porque o salário mínimo deverá ter aumentos relevantes. Além disso, o comércio e os serviços estão em franca expansão e são demandantes de mão-de-obra menos qualificada.

Um exemplo de recuperação da classe média é no setor da construção civil. Até o início de 2006, o crescimento maior do salário no setor se dava nos empregos não qualificados. Depois que as obras deslancharam nos últimos dois anos, começou a faltar mão-de-obra qualificada e os salários dos engenheiros passaram a crescer mais do que a média.

O engenheiro Luiz Nobre de Lima, de 52 anos, trocou recentemente o emprego de gerente de obras de uma grande construtora na cidade de São Paulo pelo de gerente de projetos da Método Engenharia e passou a ganhar 30% a mais. Lima é um dos 14 profissionais que a Método foi buscar este ano no mercado para ocupar cargos executivos, cujos salários estão na faixa de R$ 15 mil a R$ 20 mil.

‘Do pondo de vista familiar, a mudança possibilitou melhor qualidade de vida e aumento da capacidade de poupança, além do conforto de ganhar mais’.

Lima é casado e tem duas filhas, uma de 23 anos, formada em administração de empresas, e outra de 20 anos, estudante de propaganda e marketing. Sua mulher é dona de casa.

O aumento da demanda por profissionais qualificados como Lima já começa a aparecer nas estatísticas do emprego com carteira assinada do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho. De janeiro a setembro de 2006, 98% dos empregos formais criados no País não pagavam mais que 1,5 salário mínimo (R$ 525). Hoje, a proporção já caiu para 88%.

Este ano, o emprego cresceu 16,1%, mas o número de postos de mais de 1,5 a 3 salários mínimos (até R$ 1.050) aumentou 30,1%. Já a quantidade de vagas de até 1,5 salário mínimo aumentou só 8,4%.

O perfil das contratações mudou porque as empresas passaram a investir mais, diz o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Márcio Pochmann. ‘A demanda passou a ser por trabalhadores mais qualificados, pagando-se mais por isso’.

O metalúrgico José Aparecido Soares Fernandes, de 25 anos, trabalha há um ano na Caterpillar, fabricante de máquinas e equipamentos para construção pesada. Entrou como auxiliar de soldador, ganhando R$ 700. Passou por treinamentos internos e, em agosto, foi promovido a soldador, com salários de R$ 1,2 mil, quase o dobro do que ganhava quando foi contratado pela empresa.

30/10/2007 - 19:25h Governo Lula amplia financiamento com recurso do FGTS para classe média

ANA PAULA RIBEIRO
da Folha Online, em Brasília

O Conselho Curador do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) decidiu flexibilizar as regras e liberar o financiamento com recursos dos fundos para os trabalhadores que ganham mais de R$ 4.900 e possuam conta vinculada. Essa regra terá início em janeiro de 2008 e, além disso, o limite do valor do imóvel para os cotistas foi ampliado para R$ 350 mil, sendo que o empréstimo pode chegar a R$ 245 mil.

O objetivo da decisão, tomada hoje em reunião do conselho, é beneficiar parte dos titulares dessas contas vinculadas que antes não eram atendidos por outros financiamentos com recursos do FGTS, voltados para habitação popular. Os limites anteriores eram renda de até R$ 4.900 e valor máximo do imóvel de R$ 130 mil.

Nessa nova linha, o conselho disponibilizou R$ 1 bilhão para o ano que vem, com taxa de juros de 8,66% ao ano e prazo de pagamento em até 360 meses (30 anos), prazo máximo dos empréstimos feitos por meio da Caixa Econômica Federal.

Para ter acesso a esse financiamento, o trabalhador deve ter contribuído no mínimo três anos sob o regime do FGTS e saldo na conta vinculada de no mínimo 10% do valor de avaliação do imóvel. Como nos demais financiamentos, esse trabalhador não pode ser proprietário de imóvel residencial no município que reside e nem deter financiamento no SFH (Sistema Financeiro de Habitação) em qualquer cidade do país.

Neste ano, o conselho já havia decidido conceder um desconto de meio ponto percentual na taxa de juros para os cotistas que comprassem um imóvel com recursos do FGTS. A medida, que também terá início em janeiro, não será aplicada à nova faixa de empréstimo criada hoje.

Nas demais linhas de financiamento, que incluem também os trabalhadores que não possuem conta junto ao FGTS, as faixas de financiamento permanecem as mesmas. O limite aprovado para a habitação popular no orçamento de 2008 é de R$ 5,4 bilhões.

O orçamento total do FGTS em 2008 será de R$ 11,64 bilhões, contra os R$ 11,2 bilhões aprovados para este ano.

Juros mais baixos

A taxa de juros com recursos do FGTS são menores do que aquelas do SFH, que têm como fonte de recursos os depósitos em poupança. Nesses empréstimos, os juros podem chegar a 12% ao ano mais a TR (taxa referencial).

O conselho curador tomou a decisão de flexibilizar as regras em um momento em que o fundo tem um saldo elevado. Hoje, se todos os trabalhadores zerarem suas contas, o superávit será superior a R$ 20 bilhões.

O saldo elevado motivou o governo a criar neste ano o FI-FGTS (Fundo de Investimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço). Esse fundo terá ao menos R$ 5 bilhões do patrimônio líquido do FGTS que será aplicado em obras de infra-estrutura. Está previsto ainda que em cerca de dois anos os trabalhadores possam aplicar até 10% do saldo de sua conta vinculada nesse fundo.

23/09/2007 - 11:24h Dilma: PAC leva país além da época do milagre

O GLOBO ENTREVISTA
Dilma Rousseff

Há mais de 12 horas trabalhando, a chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, recebeu O GLOBO na noite de quinta-feira, dia no qual divulgou o segundo balanço do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Reclamou das olheiras, que a perseguem “há anos”, mas andam mais intensas. Não é à toa. Ela é a gerente do conjunto de 3.212 obras que formam o mais ambicioso plano de governo do segundo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Cabe a ela, em última instância, prestar contas do PAC. Mostra que está com as garras afiadas para cumprir sua missão e continua fazendo jus à fama de durona.

Aos empresários que reclamam de insegurança regulatória, diz que o PT respeitou todos os contratos e que, se insistirem nesse “discurso ultrapassado”, vão perder o barco para os estrangeiros, pois o Brasil é o investimento da hora. Irritada, chama de conversa fiada de quem quer somente aumentar preços o discurso de que há risco de apagão energético.

Mas são rompantes. Na maior parte do tempo, Dilma mostrou que está mesmo é feliz e disposta a defender o PAC — que monitora, “obra a obra”, numa sala de situação nas cercanias de seu gabinete, no quarto andar do Palácio do Planalto.

Nem precisou consultar seus famosos power points para discorrer sobre sua visão da realidade brasileira. Acredita que está em curso um novo modelo de desenvolvimento, pautado pela criação de um amplo mercado de massa, onde consome uma nova classe média. E encheu a boca para dizer que muita gente ainda não enxerga, mas “o PAC é irreversível” e, em 2008, será inquestionável: “Nunca passamos por um processo similar a este. Mesmo na época em que houve o milagre econômico”.

Flávia Barbosa e Tereza Cruvinel

O GLOBO: O balanço do PAC trouxe o conceito de uma nova classe média. Por que essa ênfase e quais seus reflexos?

DILMA ROUSSEFF: É uma coisa crescente. Há um processo de mobilidade social.Antes não havia. Hoje, você está saindo da pobreza, indo para uma situação remediada, e depois para essa nova classe média que se forma. Estamos consolidando um mercado amplo de massa. Já tivemos crescimento, mas extremamente segmentado. Isto se torna um valor econômico fantástico, porque é diferente você ter um país com consumo de 20 milhões e outro de 100 milhões, nos dá mais robustez. Não há capitalismo sem que o cidadão vire consumidor.

A senhora considera isso um legado do governo Lula?

DILMA: De nossa parte, isso decorre não só da política macroeconômica, do crescimento, mas da política de salário mínimo, do Luz para Todos, do fato de termos tido cuidado de fazer do Bolsa Família um programa focado. Da difusão violenta do crédito. E tudo isso num momento em que estamos num novo ciclo de desenvolvimento.

Quando há mobilidade social, há uma evolução que beneficia os empresários, os mais ricos. Pois cria-se poder de consumo e de gerar emprego, renda e lucro, uma dinâmica mais favorável. Acho que nunca passamos por um processo similar. Mesmo na época em que houve o milagre econômico.

DILMA: O crescimento vai se acelerar a partir de agora de forma muito consistente.
O ano que vem será muito surpreendente.Mais do que foi 2007. Este foi o ano da consciência de que algo mudou. O próximo será da prova inquestionável de que mudou. As coisas vão ficar cada vez mais claras. Hoje alguns percebem, outros não, dizem “O PAC não existe, é uma obra de marketing”. O PAC será um dos fatores que vão transformar este país num canteiro de obras.

Leia mais no jornal O Globo (para assinantes)

23/09/2007 - 11:03h Classe média

TEREZA CRUVINEL

A divulgação dos indicadores socioeconômicos favoráveis ao governo coincidiu com a revelação, pela pesquisa CNI-Ibope, de uma queda, ainda que ligeira e dentro da margem de erro, na popularidade do presidente Lula. Os 50% que em junho consideravam o governo bom e ótimo caíram para 48%, e os 66% que aprovavam a forma de Lula governar, para 63%. Mais uma vez, a oscilação negativa ocorreu dentro da classe média.

Não na “nova classe média” que o governo considera fruto de suas políticas, composta por pobres emergentes que estão entrando na sociedade de consumo, mas na velha e tradicional classe média, de gente com curso superior que ganha mais de dez salários mínimos e que, na campanha do ano passado, votou mais em Alckmin que em Lula.

Deve haver, na composição da variação negativa de agora, resquícios do apagão aéreo e respingos da crise do Senado, que envolveu um aliado importante como Renan Calheiros, ao lado de quem Lula nunca se recusou a aparecer.
O julgamento do STF também pode ter despertado a lembrança da decepção com os escândalos do PT.

A pesquisa mostrou elevada rejeição à CPMF. Mas se, na média, 54% defenderam o fim do imposto ainda este ano, na classe média o índice foi de 72%, contra 48% entre os que ganham de dois a três salários mínimos.

Se a aprovação média do governo foi de 48%, entre os pobres foi de 53% e na classe média, de 38%. Ainda é um bom índice, sinal de que a rejeição não é hegemônica, embora o contraste interclasses seja grande.

A rejeição da classe média a Lula era bem mais baixa no início do primeiro mandato, 11%, segundo o Datafolha de março de 2003. Em 2004, depois do caso Waldomiro, a aprovação ao governo Lula no segmento começou a cair. Com o escândalo do valerioduto, em 2005, a rejeição passou a dominar a classe média. Nessa época, o Datafolha registrou 46% de rejeição ao presidente nessa camada social, contra uma aprovação de 18%. Na campanha de 2006, Lula recuperou parte da classe média, sobretudo no segundo turno, neutralizando a preferência anterior de Alckmin, que perdeu 2,5 milhões de votos no segundo turno.

O governo continua querendo reconquistar a classe média, mas não encontra o discurso e a política certos.

Iniciado o segundo mandato, o grande estrago foi feito pelo apagão aéreo. Avalia que ela também vem se beneficiando do crescimento, embora os pobres é que estejam ganhando mais. E isso, de certa forma, indispõe os segmentos médios mais conservadores ou mesmo preconceituosos, que, receando perder alguma coisa, reagem a qualquer distribuição.

Detestam o Bolsa Família. A popularidade é alta entre os pobres, mas o governo sabe que, tendo a classe média contra, é sempre mais difícil governar. Continua querendo reconquistá-la. No pronunciamento do ministro Mantega, na sexta-feira, houve mensagens nesse sentido.

Por isso, entre as concessões tributárias que podem ser apresentadas para garantir a aprovação da CPMF no Senado, pode surgir uma nova mexida no Imposto de Renda. Uma correção do valor das deduções por dependente e gasto escolar cairia bem.

Leia a integra da coluna de Tereza Cruvinel no jornal O Globo (para assinantes)

13/08/2007 - 11:03h "A classe média alta é a classe mais baixa da população. Ela está tão desesperada que corre atrás de qualquer coisa que se diga."

por Ana Paula Sousa para Carta Capital

Edição 457

Uma cidade degenerada

O arquiteto Paulo Mendes da Rocha ergue e destrói a paisagem urbana

Fuga

Da janela do escritório de Paulo Mendes da Rocha vê-se o Edifício Copan, desenhado por Oscar Niemeyer. “É linda essa ponta do prédio, não?” É assim, meio ao acaso, que os mais destacados arquitetos brasileiros se encontram em São Paulo. Mendes da Rocha mantém, no centro da cidade, o estúdio amplo, com lâmpadas industriais, onde foram traçados o Museu de Arte Contemporânea da USP, o ginásio do Clube Paulistano (SP), o Estádio Serra Dourada (GO), a cobertura da Praça do Patriarca (SP) e mais incontáveis obras.

Ganhador do Prêmio Pritzker 2006, espécie de Nobel da arquitetura, Paulo Mendes da Rocha, de 79 anos, vive tempos de celebridade. Para tocar os projetos em andamento (um prédio de habitação “social” em Madri, o campus da Universidade de Vigo, também na Espanha, e a recomposição da antiga Santa Casa, no Rio, entre eles), tem sido obrigado a dizer não para convites vários, de entrevistas a júris internacionais. Mas, na segunda-feira 13, passará a noite a autografar os livros Projetos de 1999-2006 e Maquetes de Papel, editados pela CosacNaify. “Acho tão gentil terem feito os livros”, diz, como se pensasse em voz alta, enquanto gira um compasso no papel.

O arquiteto tem o hábito, entre um cigarro e outro, de desenhar círculos enquanto conversa. É também de grandes voltas que se constitui sua fala. Pensador das cidades, inventor dos espaços, ele anda serenamente aflito. Vê um desastre urbano. Mas não desacreditou das saídas.

CartaCapital: O senhor cansou de dar entrevistas?

Paulo Mendes da Rocha: Você fica num dilema. De um lado, acha que tem de falar porque é um prestígio para a arquitetura e uma forma de levá-la ao conhecimento do poder público. Por outro lado, há o pudor de ser abordado. Mas acho, no fundo, que eu devia me obrigar a dizer certas coisas, porque o que nos persegue, dia após dia, é a aflição com a cidade. Essa é uma questão técnica ligada à arquitetura e ao urbanismo. A rigor, devíamos ser mais ouvidos no plano político, nas questões de desenvolvimento das cidades. É uma pena que haja uma tendência de a arquitetura se tornar banal. Isso é decorrência da vertigem mercantilista do nosso tempo. Precisamos cuidar das cidades. Falamos em água, ar, mas o que pode acabar antes somos nós mesmos.

CC: O Pritzker teve algum efeito político ou o senhor se sente pregando no deserto?

PMR: Politicamente, o prêmio significa que o mundo se preocupa com as coisas das quais eu trato. A questão fundamental das cidades é política. São políticas públicas que direcionam as cidades para um destino ou outro. Quando olhamos da janela uma cidade como São Paulo, vemos uma coisa imensa construída. Acharmos que vemos um desastre é uma desmoralização da imagem que temos de nós mesmos. Trânsito, poluição, ostentação de riqueza e falta de esgoto, má distribuição da população pelas construções nos fazem ver que a arquitetura, sem querer, produziu a desmoralização da técnica. Somos um país onde todos são engenheiros, juristas, economistas e médicos. E o resultado é o desastre. A reflexão, portanto, deveria se dar no campo político. Também é perigoso adotar uma visão esnobe, evitando falar de trânsito por ser um lugar-comum. É importante repetir as reflexões sobre o desconforto nas cidades com outra visão, não superficial.

CC: Quais são os lugares-comuns sobre o trânsito, por exemplo?

PMR: É como se tivéssemos inventado uma máquina de produzir veneno e, todo dia, nos empenhássemos em aprimorá-la. A questão dos transportes é fundamental. Não se trata, puramente, de introduzir conforto. Trata-se de ver que, queimar petróleo para transportar uma pessoa de 60 quilos numa lataria de 700 quilos, que não anda, é um erro grave. É repugnante ver a cidade congestionada de carros que não andam. A questão não é fazê-los andar, é ver que isso não tem saída, o transporte individual é uma bobagem.

CC: Então é uma bobagem construir túneis e viadutos?

PMR: Vai se aprimorando a máquina do veneno. E já não importa que o carro não ande, porque você vê todo mundo lá dentro falando no celular, usando o laptop…

CC: Quando vê, já que os vidros estão pretos.

PMR: Sim, quando vê, porque as pessoas estão escondidas. É um pouco a rota do absurdo. Acho até que isso não é assunto pra mim, mas para Borges, Cortázar ou Rabelais. Quando ouço, no rádio, que são 157,8 quilômetros de congestionamento, penso na linguagem de descalabros do Rabelais. O absurdo pode ir a dimensões do desastre. As pessoas fingem que não são antropófagas, mas são. Está todo mundo caçando feras. Desenvolveu-se uma mentalidade extremamente agressiva nas pessoas, que, entretanto, acham que se comportam bem. Ricos ou pobres, parece que está um querendo matar o outro.

CC: O senhor sempre diz que não existe espaço privado, que todo espaço é público. Esse espírito agressivo está ligado à inversão dessa lógica, à tentativa de transformar a cidade em guetos privados?

PMR: Você já viu isso? Será que me repito muito? Por isso fico preocupado em dar entrevistas. Mas, sim, não há espaço privado. A arquitetura constrói espaços para amparar a imprevisibilidade da vida, não para determinar comportamentos. A cidade é o lugar da liberdade. Você não pode constranger as pessoas no espaço público com dificuldades. Caso contrário, elas desenvolvem a consciência de espaço no espaço imaginado dentro de si, num individualismo atroz.

CC: O que são os prédios que oferecem tudo, de piscina de 25 metros a churrasqueira, que vendem uma idéia de exclusividade?

PMR: É o desvio do conceito de urbanismo. Mas, como você vê, a própria piscina será pública, não de um morador só. Vou falar uma coisa indevida. Imagine uma mãe: quando o filho dela vai para a escola, ele é público. A saúde é uma dimensão pública. O conhecimento é uma dimensão essencial da nossa privacidade enquanto público. Mas estou falando de coisas para filósofo. Deixe exemplificar isso na arquitetura. A casa, enquanto coisa, é da cidade, não é de fulano ou beltrano. Ela se transforma conforme quem compra, vende, aluga. Imagine a crônica do Copan. Quanta gente morou numa casa projetada pelo Niemeyer? O resultado do nosso trabalho é eminentemente público. A água que sai da torneira é pública e está sob responsabilidade de gente que não conhecemos. O pilar do prédio é público: se o morador tira a viga, ele cai. Apesar disso, estamos alienando a consciência sobre nosso estado no universo. Por isso, insisto, as decisões sobre as construções, e nesse sentido a arquitetura, são ações políticas.

CC: Os arquitetos também perderam a dimensão do público?

PMR: Tenho a obrigação de dizer que não. Temos de ter confiança no futuro.

CC: Seu colega Jorge Wilheim perguntou, num texto, quantos arquitetos diriam não para um projeto de edifício neoclássico, tão em voga em São Paulo. Quantos diriam?

PMR: Todos diriam não. Mas, conformistas, vão e fazem. Pense no nazismo e no fascismo. Não aderiram todos? O mercado é um horizonte falso e, se ficar no comando do processo, só produzirá asneiras como a dos neoclássicos. Isso é um engodo de quem precisa continuar com o negócio.

CC: A classe média passou a gostar disso de fato ou, simplesmente, não tem mais gosto?

PMR: A classe média alta é a classe mais baixa da população. Ela está tão desesperada que corre atrás de qualquer coisa que se diga. Como ela é totalmente conformista desfrutante, a propaganda diz o que ela deve dizer e ela diz. O método de produzir a decadência para depois corrigir, a idéia do “quanto pior melhor”, é elaborado pela classe dominante. Aí você chega a um limite em que só a guilhotina resolve. Ninguém agüenta meia de seda, renda de florzinha, cabeleira postiça… Eles mesmos se matam. Mas vamos corrigir as palavras. A classe dominante, no Brasil, é a mais pobre. A exigência maior de uma cidade como São Paulo é habitação, transporte e saúde.

leia mais aqui

13/08/2007 - 10:46h Planalto admite desgaste e discute como reconquistar a classe média

Cristiano Romero

Jornal Valor (para assinantes)

Depois de recuperar, no ano eleitoral, parte do prestígio que havia perdido na classe média durante a crise do mensalão, o presidente Lula voltou a perder apoio nesse segmento da população por causa do apagão aéreo, agravado pela tragédia do vôo 3054 da TAM. A última pesquisa do Datafolha, realizada nos dias 1º e 2 de agosto, mostra que a classe média está dividida na avaliação do governo.

No grupo da população com renda mensal familiar superior a dez salários mínimos (R$ 3 mil), 32% consideram a gestão Lula ótima/boa e 32% a classificam como péssima/ruim, enquanto 36% julgam-na regular. Na pesquisa anterior, feita em março, o índice de rejeição estava em 26%, mesmo percentual do período pré-mensalão. Já o índice de aprovação caiu, no mesmo período, sete pontos – de 39% para 32%.

Esses números acenderam a luz amarela no Palácio do Planalto e mobilizaram o núcleo decisório do governo, que na semana passada começou a discutir o que fazer para mudar esse quadro. A avaliação inicial, segundo ministros e assessores ouvidos pelo Valor, é a de que a classe média tem sido “fortemente beneficiada” pela retomada do crescimento. Numa reunião, um ministro questionou, porém, se o crescimento não estaria demorando a chegar para esse segmento da população. Essa possibilidade foi imediatamente descartada. “Ao contrário. Está chegando. Não há mais engenheiros para contratar no Brasil, o que significa dizer que a mão-de-obra qualificada, típica da classe média, está se beneficiando da geração de empregos”, explica um assessor do presidente.

Na mesma reunião em que o tema foi discutido, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, mencionou iniciativas tomadas pelo governo para ajudar a classe média e os efeitos da política econômica que a teriam beneficiado – entre outras coisas, foram citados a correção da tabela do Imposto de Renda, a expansão do crédito e dos prazos de financiamento (hoje, assinala um ministro, é possível financiar a compra de um carro em sete anos), o recorde de saques de recursos do FGTS para aquisição da casa própria, o aumento da geração de emprego formal, a criação do ProUni.

Mantega ficou encarregado de reunir, num documento, todas as medidas pró-classe média adotadas pela gestão Lula. A idéia é usar esse material para balizar o discurso oficial. O governo, segundo um ministro próximo do presidente, não fará propaganda para melhorar sua imagem nem adotará medidas específicas para beneficiar esse segmento social. A disposição, revelou um auxiliar de Lula, é ir para o que ele chama de “disputa política”, o que envolve embates com a oposição, a adoção de medidas na área de segurança, o fortalecimento do Estado onde ele está fraco ou inoperante – o caso da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), que teria sido capturada por interesses privados, foi mencionado como exemplo.

“A disputa política se dá primeiro para a classe média perceber as conquistas econômicas. Em segundo lugar, é preciso ela perceber que o fato de outros setores da sociedade estarem tendo conquistas econômicas é bom e não ruim para ela. Isso é uma batalha política porque sempre haverá um sujeito incomodado com outro sujeito que está crescendo embaixo dele”, argumenta um ministro do núcleo. “No fundo, a discussão é de um projeto de país. Um país em que o crescimento econômico se dá com democracia e inclusão social é melhor para a classe média.”

Um exemplo dessa “disputa política”, diz um assessor do presidente, foi travado no segundo turno da eleição presidencial, quando Lula, ao perceber que precisava reconquistar setores da classe média insatisfeitos desde a crise do mensalão, adotou discurso antiprivatização. A estratégia funcionou, facilitada pelo fato de seu adversário na disputa – o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) – ter se recusado a assumir o legado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, principal responsável pelas privatizações ocorridas nos anos 90.

De fato, as pesquisas mostram que, entre o primeiro e o segundo turno da eleição de 2006, o índice de aprovação de Lula na classe média cresceu 14 pontos percentuais e o de rejeição, caiu três pontos. Nos meses seguintes, a aprovação ficou estável e a rejeição diminuiu seguidamente até chegar, em março, a níveis pré-mensalão.

Quando iniciou o primeiro mandato, Lula tinha baixa rejeição na classe média – 11%, segundo pesquisa feita em março de 2003 pelo Datafolha. Esses 11%, explica o sociólogo Antônio Lavareda, dono da consultoria MCI , representam o segmento social que, historicamente, por motivos político-ideológicos, rejeita Lula.

Ao fim do primeiro ano de mandato, o índice de desaprovação cresceu seis pontos percentuais. Em 2004, graças ao primeiro escândalo de corrupção conhecido da Era Lula – o Caso Waldomiro Diniz, que eclodiu em fevereiro -, a popularidade do governo petista na faixa mais rica da população começou a declinar, embora, no fim daquele ano, tenha retornado aos níveis anteriores àquele episódio.

Em 2005, com o surgimento de escândalos em série a partir do mensalão, a classe média tornou-se, pela primeira vez, majoritariamente contrária a Lula. Em dezembro daquele ano, o Datafolha registrou, nesse segmento da população, o maior índice de rejeição desde que o líder petista chegou ao poder – 46%. Já o índice de aprovação nunca tinha chegado a um patamar tão baixo – apenas 18%.

No ano eleitoral, tendo sobrevivido ao mensalão, Lula recuperou apoio popular e reconquistou parte da classe média que andava de mau humor com ele, mas, por causa da crise ética de seu governo e de seu partido, o PT, ele jamais conseguiu recuperar, nesse segmento social, a popularidade do início do mandato. O caos aéreo e o acidente da TAM pioraram novamente a avaliação, mas, segundo pesquisadores de opinião ouvidos pelo Valor, dificilmente essa tendência persistirá.

“O governo, embora tenha demorado, reagiu à crise e nomeou um ministro ativo. Nelson Jobim tem credibilidade, vestiu-se de ‘rambo’ e saiu pelo país apontando soluções. Ele demitiu o presidente da Infraero. Ou seja, não se pode dizer mais que o governo está parado como espectador da crise”, diz Lavareda. “O acidente da TAM, que provocou uma nota mais severa à crise aérea, do ponto de vista do governo está sendo agora razoavelmente administrado. Além disso, o governo está fazendo um esforço para repassar uma responsabilidade maior às empresas aéreas.”

Lavareda acha que o empate entre aprovação e rejeição de Lula na classe média é aparente. Na sua avaliação, esse segmento está mais pró-Lula do que se imagina. Ao ler a última pesquisa Datafolha, o sociólogo pernambucano observou que, na classe média, 32% dos entrevistados deram nota abaixo de cinco, numa escala de zero a 10. Do total, 17% deram nota cinco e 52%, entre seis e 10. “Isso mostra que a maior porção da classe média está fazendo uma leitura algo positiva do governo porque seus segmentos mais prejudicados economicamente são minoritários”, diz ele, referindo-se a médicos e professores da rede pública e a algumas categorias de assalariados, os mais insatisfeitos, na sua opinião, com a gestão petista.

Diante disso e da popularidade de Lula nas camadas populares, Lavareda, além do diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, e do dono do Instituto Sensus, Ricardo Guedes, acreditam que a classe média perdeu influência. “A classe média não consegue mais transferir suas opiniões ao restante da sociedade”, diz Paulino, ressalvando, no entanto, que a situação do presidente não é confortável – afinal, alega ele, o 1/3 da classe média que o rejeita é o que mais se mobiliza e “faz barulho”. “Existe uma parcela da população – 15% do total – que está descontente com o governo. Essa parcela está no topo da pirâmide.”

Essa situação explicaria o comportamento crítico da mídia. “Na campanha eleitoral, já havíamos visto a limitação desse discurso, sobretudo da mídia impressa, de conseguir empolgar a maioria da população. A mídia, com esse discurso mais crítico, fica algo descolada da opinião da maioria da população”, reconhece Lavareda, associando o sucesso de Lula ao desempenho da economia. “Há certos momentos que são assim. Na Argentina, a economia vai bem, pipocam escândalos e a candidata do presidente, sua mulher, deve ganhar no primeiro turno. Um outro exemplo: nos Estados Unidos, os republicanos, refletindo o clima da mídia, fizeram campanha com base no impeachment de Bill Clinton, nas eleições parlamentares de 1998, e deram com os burros n’água.”

“Os analistas estão distanciados da verdadeira percepção da classe média”, sustenta Guedes, argumentando que Lula não é um populista como Hugo Chávez, presidente da Venezuela. “Chávez faz um discurso de esquerda e um governo de direita. Com Lula, o Brasil está vivendo um clássico pacto social-democrata.”

30/07/2007 - 17:57h Sou classe média por Max Gonzaga e Banda Marginal