27/08/2008 - 09:59h Contra argumentos não há fatos

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Luiz Weis - O Estado de São Paulo

Entra eleição, sai eleição - e duas lendas continuam inabaláveis. Uma é a de que o horário gratuito é uma enganação. Outra é a de que o eleitor não dá a mínima para os partidos. A persistência desses clichês, apesar do acúmulo de evidências em contrário, parece dar razão aos que acham que, sendo as mentalidades o que são, o ditado certo é o que põe de ponta-cabeça a forma original: contra argumentos não há fatos.

No caso da propaganda no rádio e na TV, os fatos conhecidos não batem com a visão preconcebida - ou preconceituosa - de que ela afeta perversamente o voto popular, ao mistificar um público tosco o bastante, em geral, para aceitar pelo valor de face as patranhas que os marqueteiros lhe infligem. Isso, segue o raciocínio, quando o eleitor lhes dá trela, em vez de fazer qualquer outra coisa naquele período, o que seria, afinal, a atitude da grande maioria.

Na realidade, parcela do eleitorado suficientemente ampla para fazer diferença, porque repassa as suas impressões aos desligados, conta com o horário político para balizar as suas decisões e não se deixa levar por pirotecnias de imagem - acostumada que está a identificá-las na programação normal. Além disso, as pesquisas para uso interno das campanhas indicam que a audiência quer menos blablablá e mais propostas terra-a-terra, um sinal eloqüente de amadurecimento.

Quando atendido, o espectador considera que o candidato se dirige a ele diretamente, presta atenção no que ouve e faz comparações - o que o induz a manter ou mudar a sua intenção de voto, se é que já tinha. O horário gratuito, pois, é uma fonte decisiva de informações. A sua influência, para ficar no aqui e agora, ficou nítida no primeiro levantamento do Datafolha depois do início da atual temporada, na última terça-feira. O maior exemplo foi a reviravolta dos números em Belo Horizonte.

Até então, para surpresa de muita gente, as prévias ali eram lideradas pela obscura candidata do PCdoB, Jô Moraes, com 20% dos apoios. Márcio Lacerda, do PSB, candidato do governador tucano Aécio Neves e do prefeito petista Fernando Pimentel, era pouco mais do que um zé-ninguém, com 6% das preferências. Na pesquisa feita na quinta e na sexta-feira passadas, Jô perdeu a dianteira para Lacerda, que avançou olímpicos 15 pontos, depois de ser exibido ao lado de seus populares patronos e de dizer a que vem.

O horário eleitoral também propeliu a candidatura do petista João da Costa, no Recife. Em São Paulo, mudou a relação de forças entre o ex-governador Geraldo Alckmin e o prefeito Gilberto Kassab, do DEM. A diferença entre eles caiu de 21 para 10 pontos (Marta passou para 41%, ou 17 pontos acima do tucano). O peso do horário gratuito - com os acertos da mensagem de Marta, a nova visibilidade de Kassab e a desorientação da propaganda de Alckmin - parece inegável.

As pesquisas também confirmam o outro fato que, para o senso comum, simplesmente não existe: a influência partidária nas escolhas eleitorais. Não é por acaso que a região paulistana onde o predomínio da ex-prefeita alcança seu maior nível - o extremo sul - seja um forte reduto petista. Já se tornou uma referência, a propósito, o estudo Partidos e distribuição espacial dos votos na cidade de São Paulo, dos cientistas políticos Argelina Figueiredo, Fernando Limongi, Maria Paula Ferreira e Paulo Henrique da Silva, do Cebrap.

Debulhando as eleições entre 1994 e 2000, os pesquisadores verificaram que as bases geográficas dos partidos mais votados na capital - PSDB, PT e PPB - são claramente delimitadas. O primeiro tem o seu forte nas áreas centrais e de maior renda; o segundo, nas zonas mais pobres, em especial no leste; e o terceiro, nos bairros tradicionais de classe média baixa. Além disso, o desempenho das três legendas tende a se repetir nas eleições municipais, estaduais e federais, para o Legislativo e o Executivo.

A distribuição do voto por regiões, exprimindo preferências políticas que se relacionam com o perfil social da maioria dos seus moradores, “significa que cada partido conta com um capital de votos nessas regiões que, embora longe de garantir seu êxito eleitoral, constitui uma base de apoio sólida que lhe dá viabilidade em qualquer disputa eleitoral”, apontam os cientistas. A associação entre votações em diferentes eleições “é mais alta no partido mais fortemente organizado, o PT, e mais baixa no mais dependente de liderança individual (Paulo Maluf), o PPB”.

Outro estudo na mesma linha, As eleições municipais em São Paulo: 1985-2004, de Fernando Limongi e Lara Mesquita, trata dos nexos entre as estratégias dos partidos e as mudanças nas preferências dos eleitores. O trabalho comprova que a distribuição dessas preferências pode ser conhecida ou estimada com algum grau de certeza - e que “o eleitorado paulistano tem apresentado considerável estabilidade em suas opções” -, o que dificilmente aconteceria se as vinculações partidárias dos candidatos não contassem na hora do voto.

Claro que o estilo que cada político projeta pode fazer diferença. “Maluf construiu a reputação de um candidato obstinado, aguerrido e radical”, observam os autores. “A estratégia surtiu efeito, garantindo para o seu partido o controle sobre o eleitorado de direita.” O mesmo se aplica à imagem que os principais partidos querem passar ao público. “Não foi outra a estratégia perseguida pelo PT para conquistar o voto até então controlado pelo PMDB”, escrevem.

É sugestiva a constatação de que, analisando em conjunto as seis eleições no período pesquisado, “a direita e a esquerda foram as grandes vencedoras. O centro, representado inicialmente pelo PMDB e depois pelo PSDB, é o mais fraco dos competidores”. Em suma, o voto do paulistano é político-partidário, por menos que aceitem admiti-lo os defensores da ficção de que as pessoas votam em pessoas e os partidos pouco ou nada significam.

Luiz Weis é jornalista

LF -Sobre este tema ver também meu post Ondas e fundamentos

25/08/2008 - 17:48h Ondas e fundamentos

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Desde a re-democratização e as suas primeiras eleições em 1982, foi se configurando na cidade de São Paulo três grandes eleitorados. A cada pleito eleitoral esses três setores disputam a hegemonia entre si, com uma constância que surpreende o analista superficial.

Esses três segmentos eleitorais começaram a sofrer uma mudança com a introdução do sistema eleitoral majoritário a dois turnos, o que reforça a tendência já presente nas democracias à bi-polarização da vida política. Mesmo assim, na cidade de São Paulo esses três segmentos eleitorais permeam a vida eleitoral desde 1982 até agora.

Inicialmente os setores hegemônicos foram constituídos pelo centro-esquerda peemdebista e a direita populista (janista e malufista). O terceiro segmento, muito pequeno, foi ocupado pela esquerda na criação do PT.

Como o sistema eleitoral proporcional não exigia maiorias absolutas para vencer, a divisão nestes três segmentos do eleitorado permitiu a vitória de Jânio e depois, uma primeira vitória do PT com Erundina.

Desde aquele momento, foi a evolução interna entre os diversos segmentos do eleitorado e a relação de forças entre eles a que levou a um ou outro desfecho nas eleições na cidade (municipais, estaduais ou federais).

Globalmente o campo da direita populista majoritário em 1982 com Jânio, e ainda majoritário com Maluf até levar a vitória de Pitta em 1996, começou a desfiar depois. A evolução do centro-esquerda peemdebista-tucano para um pragmatismo de centro-direita o transformou no principal receptáculo do debilitamento da direita populista, ao mesmo tempo que permitiu ao PT ocupar plenamente sua vocação social-democrata, de força de centro-esquerda. Como isto não foi produto de um processo linear, as relações de força eleitorais expressavam isto de maneira muito fluida, porém persistente.

Mesmo vencendo as eleições em 2000, por exemplo, a maioria em favor de Marta e do PT só foi possível no segundo turno pelo apoio de Mário Covas à Marta. O grosso do eleitorado de Alckmin no primeiro turno, na época candidato do PSDB, foi para Maluf no segundo turno, mas uma importante fração votou na Marta, que ganhou com 58% dos votos válidos contra 42% de Maluf (que no primeiro turno tinha obtido pouco mais de 15%).

Depois o processo só reforçou o campo do centro-direita tucano e parcialmente também o campo petista, em detrimento do malufismo. Isto permitiu em 2002 a vitória de Lula, mesmo que por pequena margem na cidade, na medida em que se fechava o ciclo do PSDB no governo federal e se consolidava a implantação do PT em São Paulo. Mas o PSDB emergia, com a vitória ao governo de Estado e com um bom resultado na cidade, como a força hegemônica no centro e na direita do espectro político.

As eleições de 2004 e de 2006 confirmaram está situação reforçando eleitoralmente o PSDB em São Paulo, sem porém eliminar completamente a direita populista que preserva um pequeno e importante eleitorado.

A está altura da analise é bom insistir que não existem categorias estancas entre os três segmentos eleitorais, nem sociológicas, mesmo que os setores mais pobres sejam o destaque do eleitorado do PT e que a burguesia e as altas camadas médias se identifique claramente com o PSDB. Uma parte do eleitorado de classe média oscila entre o PSDB e o PT, outra parte oscila entre os tucanos e a direita populista, é têm eleitores pobres em todas as candidaturas, evidentemente.

Os contornos mudam a cada eleição determinados pela conjuntura concreta e a intervenção das forças políticas e sociais nessa conjuntura.

Na situação atual persiste o fenômeno aqui analisado. A novidade é por conta de dois fatores novos, coincidentes no tempo: um, a ampla base de apoio no eleitorado nacional à política e à figura do presidente Lula, do PT; e o segundo é a novidade da disputa interna no campo do centro e centro-direita (hegemonizado pelo PSDB) com repercussões diretas na cidade de São Paulo com duas candidaturas, Kassab e Alckmin. A conjunção de ambos processos, aliados ao carisma e popularidade de Marta é a que constitui o tripé que sustenta a possibilidade de uma vitória da candidatura de centro-esquerda. Utilizo essas etiquetas de propósito, porque contrariamente ao mito de que o voto no Brasil não é ideológico, o eleitorado acaba agrupado sim, nos espectros ideológicos, seja de esquerda ou de direita com suas variantes.

Mas, apesar da crise no campo do centro-direita, não existe nenhum automatismo nesse desfecho. A vitória de Marta é possível, ela não é automática.

Primeiro, porque esses setores, mesmo divididos, contam com uma ampla base de sustentação eleitoral. Segundo, porque contam com uma amplíssima base de sustentação social e política nos diferentes mecanismos de poder: Estado, prefeitura, associações, mídia, instituições, ideológicas e culturais etc. Terceiro, porque souberam preservar esse apoio em São Paulo, com sustentação eleitoral incluso em setores médios e populares, disputando o eleitorado com o PT. Por último, porque serão pressionados a se unirem para enfrentar Marta, mesmo se essa união será limitada no tempo e apenas formal.

Por isso me parece essencial insistir na campanha, no nosso perfil de oposição aos demo-tucanos em seu conjunto e utilizar o momento para ampliar a receptividade às propostas do PT para a cidade, conjugadas com a ação do governo federal. Isto permitiu captar uma pequena parcela de eleitores que no primeiro turno não votaram no PT, nem em 2004, nem em 2006 e que aparecem nas duas últimas pesquisas inclinados a votar na Marta.

Esses eleitores vão ainda flutuar bastante, como ondas, e provocarão oscilações nas intenções de voto de todos os principais candidatos, até o desfecho do segundo turno. Mas é com eles que pacientemente o diálogo deverá ser preservado e aprofundado para conquistar no final seu voto, decisivo para a vitória. LF

12/08/2008 - 17:56h A má qualidade do ensino paulista pode contaminar o País

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O estado de quase abandono a que foi relegado o sistema de ensino paulista nos últimos treze anos e meio de gestão tucana é conhecido para além das divisas do Estado — e os resultados de sua avaliação pelo MEC não deixam dúvidas, ao atestar que São Paulo é um dos Estados que se caracterizam por receber as piores notas.

Como se isso não bastasse, o governador tucano José Serra volta a investir contra a melhoria da qualidade do ensino paulista, numa iniciativa de âmbito nacional que ameaça contaminar as demais unidades da federação. Se vencer a postura dos tucanos — para quem a educação nunca foi prioridade —, a evolução do ensino nos demais estados poderá ser sustada e sofrer involução, dando marcha-à-ré para se ajustar ao descompasso da má qualidade paulista.

Refiro-me à pressão, liderada pelo governo de São Paulo, contra a lei que institui o piso salarial unificado para todos os professores da rede pública nacional. Depois de ter sido aprovada pelo Congresso no fim de junho, com o apoio do governo Lula, o governo de São Paulo, seguido de outros governos e de chefes da administração municipal insurgem-se contra a lei, sob amplo leque de pretextos, que por detrás escondem o desapreço alimentado por tais governos pela causa da educação, como instrumento de formação humana e de qualificação para a democracia. Diante da reação de desaprovação unânime por parte da opinião pública, segundo espelhada nos jornais, eles agora voltam atrás, ao admitir negociação com o Palácio do Planalto para a revogação de algumas disposições da lei.

O piso salarial unificado para o magistério público do ensino básico é uma antiga reivindicação da categoria. Em 1994, chegou-se a firmar um acordo com o governo Itamar Franco, que, no entanto, deixou de ser implementado na gestão seguinte, do governo FHC. A proposta corresponde também à uma histórica expectativa dos profissionais da pedagogia, que vêm na medida, mais que oportuna, um instrumento de aprimoramento da formação dos professores e de melhoria da qualidade do ensino.

Pela nova lei, um professor que permanecia 32 horas em sala de aula, de uma jornada de 40 horas, passa agora a permanecer 26 horas — e o restante do tempo, agora ampliado, será destinado ao estudo, planejamento de aulas e correção de provas, atividades que se caracterizam também por trabalho docente, ainda que não diretamente junto ao aluno. “Será um ganho para a educação, se esse tempo for bem aproveitado e se houver oportunidade para melhorar a formação”, afirma Maria Auxiliadora Rezende, presidente do Conselho Nacional de Secretários da Educação.

Como conseqüência da ampliação das atividades extraclasse e a redução correspondente das atividades na classe, novos professores deverão ser contratados, na proporção de um novo professor para cada quatro docentes atuais, medida que vai aumentar o gasto público com a folha de pagamentos. A isso se opõem em geral os governadores, não sendo essa a razão da oposição do governo de São Paulo, estado onde o piso supera o estabelecido na lei federal.

Desagradam os tucanos paulistas algumas disposições da lei que, ao estabelecer um critério de reajuste para o piso salarial, coíbe a prática do casuísmo e do oportunismo político, que têm caracterizado a política de educação estadual do PSDB. Para cálculo do reajuste, a lei exclui abonos, bonificações e gratificações com que a prática de improvisação e descompromisso dos governantes do PSDB têm administrado o problema nos períodos críticos, de manifestações de intranqüilidade aguda por parte do professorado, adicionais que não são incorporados ao salário, podendo ser concedidos, modificados ou retirados ao bel prazer dos interesses do momento, como razões político-partidárias, eleitoreiras e da má gestão dos investimentos em geral e da educação em particular.

Para mostrar as mazelas do ensino no estado de São Paulo, os tucanos dispensam oposição. Secretários e ex-secretários estaduais de educação do PSDB digladiam-se em acusações mútuas na imprensa, num torneio que visa a demonstrar quem é ou foi o pior. No mais recente “round”, o público paulista pôde assistir à secretária estadual da Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, do governo Serra, acusar o ex-secretário de educação, Gabriel Chalita, do governo Alckmin, de ter desperdiçado, literalmente, R$ 2 bilhões. Ou, em suas próprias palavras: “Os R$ 2 bilhões investidos em formação continuada de professores pelo governo de São Paulo nos últimos cinco anos não melhoraram o desempenho dos alunos”.
E, pasme, leitor, ao que ela afirma em seguida, como justificativa: “Não havia relação interativa entre esses programas e as necessidades da escola”.

Mas esse é apenas um dos escândalos na história do jeito tucano de gerir a educação em São Paulo. Tudo começou com o governo Covas que, premido pela necessidade de expandir a rede escolar, para atender ao aumento da demanda, optou por reduzir a jornada, com a conseqüente perda da qualidade do ensino, criando o chamado “turno da fome” (aulas no horário do almoço), improvisação que tornou possível elevar o número de turnos diários de dois para três.

Como, porém, a demografia paulista, ao registrar crescimento da população escolar, insistisse em contrariar o descaso governamental, os tucanos voltaram à improvisação, criando a “aprovação automática”, abrindo dessa forma novas vagas apenas mediante a aceleração do fluxo. Ou seja, aumentaram o tamanho da porta da escola, para que os alunos dela saíssem mais depressa. Em vez de se voltar para a melhoria da qualidade do ensino, mediante a construção de novas salas de aula e contratação de mais professores, a gestão tucana, com a aprovação automática, optou por fazer com que os alunos retardatários deixassem mais depressa a escola, independentemente da avaliação da qualidade de seu aprendizado.

Isso foi apenas o primeiro passo na degradação do ensino paulista sob gestão tucana. Houve muitos outros depois, sobre os quais não há aqui espaço para discorrer.

É preciso impedir que o governo de São Paulo crie obstáculos à melhoria da qualidade do ensino em âmbito nacional.

Rui Falcão, 64 anos, advogado e jornalista, é deputado federal pelo Partido dos Trabalhadores. Foi deputado federal, presidente do PT e secretário de governo na gestão Marta Suplicy.

12/08/2008 - 10:37h Tio Patinhas para presidente!

http://marimontenegro.files.wordpress.com/2007/09/tio-patinhas.jpgA questão “boba” de Merval Pereira, comentarista do jornal Globo, vale seu peso em ouro. Após a Revolução francesa prevaleceu durante alguns anos o voto censitário: só tinha direito a votar e a serem votados os cidadãos detentores de propriedade. Finalmente foi abolido e substituído pelo voto universal, porém do qual as mulheres eram excluídas, corrigido só em 1947.

A filosofia de Merval é que se o candidato não conseguiu acumular um certo patrimônio é que é… ruim!

Trata-se de uma variante de “como pode ser presidente, se não tem diploma?”. Só que após Lula, o metalúrgico sem diploma e sem patrimônio, estar dando aula de gestão econômica, a “filosofia” mervalística soa como burrada monumental.

Talvez Merval deveria sugerir a AMB uma nova lista suja, a dos candidatos pobres. Só rico poderia ser candidato o que pressupõe (segundo a filosofia Merval) que a acumulação de dinheiro ou patrimônio é prova de capacidade a gerir as finanças públicas. Dantas que o diga!

Aqui vai a pérola de Merval:

“Já que estamos falando de eleições para prefeitos, chamou minha atenção a declaração de patrimônio de Alessandro Molon, o candidato petista: ínfimos R$11.161. Por pouco não repete Garotinho, que declarou patrimônio zero. Chegar a essa altura da vida com um patrimônio desses, vindo de uma família de classe média, em vez de mostrar a “honestidade”, só depõe contra a capacidade de Molon de gerir as próprias finanças e, em conseqüência, as finanças públicas.

O que pode ser uma questão boba, talvez reflita a visão do brasileiro — de que ser pobre é ser honesto, e ser rico é negativo. Diferentemente, a cultura anglo-saxônica faz com que aqui, nos Estados Unidos, poder mostrar um bom patrimônio signifique que o político foi exitoso em seus negócios particulares, o que é uma boa indicação, não uma falha”. Merval Pereira - O Globo

07/08/2008 - 17:44h “Dona Cida”, a cozinheira da história de Habib’s

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“Dona Cida”, a cozinheira do presidente do Habib’s diz que vai votar na Marta porque o PT é o pai dos pobres.

Os argumentos de “Dona Cida” seguramente sensibilizaram Antônio Alberto Saraiva, presidente do Habib’s. Na elite poucos prestam atenção as opiniões da cozinheira.

“Dona Cida” poderia acrescentar que a diminuição da desigualdade, o crescimento da renda, do emprego e a ascensão social de milhões à classe média asseguram a rede habib’s um crescimento do seu lucro e a expansão dos seus negócios.

Ou seja, além de ser o “pai dos pobres”, o PT no governo Lula tem permitido um crescimento econômico com benefícios para todos. Talvez “Dona Cida” não consiga explicar isto a seu patrão, mas Antônio Alberto Saraiva sabe isto muito bem e pode explicar para sua cozinheira o quanto seu negócio prosperou com o governo Lula.

O PT é o “pai dos pobres”, dos trabalhadores e assalariados, mas é também a mãe dos empresários empreendedores, dos comerciantes e dos agricultores. Ou seja da imensa nação brasileira que produz a riqueza nacional e que encontra no governo Lula as condições para o progresso, com distribuição de renda.

Antônio Alberto Saraiba e “Dona Cida” têm, como se vê, um ponto de encontro e não é só na sala de jantar. LF

07/08/2008 - 16:45h Kassab entra em escola como prefeito e dentro faz campanha eleitoral como candidato

UOL - Ultimas Notícias - 14h11

Petistas comemoram inclusão de Kassab em lista da AMB

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), esqueceu da vistoria que deveria fazer em uma escola municipal nesta quinta-feira e acabou encarnando o candidato à reeleição no ato que deveria ser oficial. Acompanhado por sua equipe de campanha, ele entrou em salas de aulas para parabenizar o desempenho da escola e falar sobre suas “realizações” como prefeito a alunos e professores.

Quando o prefeito-candidato chegou à escola, sua equipe de campanha já o aguardava com máquinas fotográficas e câmeras de vídeo para utilizar as imagens em seu programa eleitoral gratuito. Ele não se ateve por muito tempo na vistoria do prédio, que ganhou telhado novo e teve as paredes pintadas. Depois de conversar com a diretora da escola por alguns minutos, ele decidiu fazer campanha.

Acompanhado pelo secretário Alexandre Schneider (Educação) e de toda parafernália de campanha, Kassab interrompeu as aulas de seis classes. Ele dedicou mais tempo na primeira sala, onde alunos da oitava série aprendiam geografia. Ele começou elogiando o desempenho da escola, mas logo mudou de assunto. “Vocês devem ter percebido que o uniforme de vocês é 40% mais barato”, disse aos alunos, que fizeram cara de interrogação. “Também melhoramos a remuneração dos professores.” Não satisfeito, decidiu interrogar o representante da turma, Felipe Pacheco, 14. Kassab pediu que ele enumerasse as “melhorias na qualidade do ensino” nos últimos tempos naquela unidade. Sem uma resposta satisfatória, perguntou sobre o fim do terceiro turno. “Muito bom”, respondeu o aluno. “E a merenda aqui, melhorou?”, perguntou o prefeito. Diante do silêncio do estudante, a diretora socorreu: “Nós não servimos merenda”.

Ao retomar a palavra, o candidato falou das 218 escolas e 25 CEUS (Centros Educacionais Unificados) que ele diz ter construído. Na verdade a prefeitura só entregou 13 CEUs –e promete entregar outros 12 até o fim do ano. Antes de deixar a sala, ele perguntou o que estavam achando da escola. Como a maioria disse que aprovava, ele afirmou, sorrindo: “É bom que seus pais também achem”.

Ao deixar outra sala, Kassab esbarrou no vereador e cantor Agnaldo Timóteo (PR), que tenta se reeleger. Depois de um breve cumprimento entre os dois, Agnaldo colocou metade do corpo para dentro da sala e disse para alunos da oitava série: “Kassab representa sinônimo de lealdade política”.

Sua última parada foi em um estúdio de áudio da escola, onde ele entrou para ser entrevistado pelo aluno da sétima série Yuri Cerpa Varella, 13, que leu uma pergunta formulada por sua professora. “O senhor poderia falar um pouco das suas prioridades para a área da educação no próximo mandato?”

Prefeito x candidato

Questionado sobre o constrangimento de fazer campanha para alunos, Kassab disse que não estava ali como candidato. “Eu não fiz campanha com alunos. Eu estou aqui como prefeito cumprimentando diretor e professores. Semanalmente eu visito algumas escolas”, disse. “Não tenho nenhum constrangimento. Essa foi a segunda vez este ano que eu venho à esta escola.”

Kassab seguiu de lá para a zona sul, onde foi vistoriar obras na avenida Ricardo Jafef. Sempre acompanhado por sua equipe de campanha, ele teve o cuidado de cumprimentar os operários que trabalham na obra e até perguntar onde cada um mora. Fonte UOL

05/08/2008 - 16:24h Pobreza diminui em quase um terço nas regiões metropolitanas em 5 anos

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EDUARDO CUCOLO da Folha Online, em Brasília

O percentual de famílias pobres caiu de 35% para 24,1% da população nas seis maiores regiões metropolitanas do país entre 2003 e 2008, segundo trabalho realizado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão ligado ao governo. Isso representa uma redução de quase um terço no percentual de pobres, ou cerca de 4 milhões de pessoas.

O levantamento, com base nos dados do IBGE, considera como pobres pessoas em famílias com renda mensal per capita de até meio salário mínimo (R$ 207,50).

Já o percentual de indigentes (renda de até R$ 103,75) caiu pela metade no mesmo período, de 13,7% para 6,6%, uma redução de quase 3 milhões de pessoas nessa condição. Hoje, 27,4% dos pobres são considerados indigentes, ante 38,6% –considerando, nesse caso, dados de 2002.

“As medidas para o combate da indigência estão tendo resultados mais efetivos que as medidas para combate da pobreza”, disse o presidente do Ipea, Marcio Pochmann.

Segundo ele, o crescimento econômico, a elevação do salário mínimo e os programas sociais focados nos pobres explicam essa melhora na renda e a redução da pobreza.

“Os dados estão mostrando que o crescimento econômico é muito favorável ao emprego e à redução da pobreza no país.”

Regiões

A maior queda na pobreza foi observada na região metropolitana de Belo Horizonte, onde o número de pessoas pobres caiu de 38,3% da população em 2002 para 23,1% da população em 2008.

As regiões metropolitanas que apresentaram as maiores taxas de pobreza no período analisado foram as regiões de Recife e Salvador, onde, a estimativa para 2008, indica respectivamente 43,1% e 37,4% de pessoas vivendo abaixo da linha de pobreza.

Em números absolutos, as duas regiões metropolitanas que registraram as maiores quedas na pobreza foram São Paulo e Rio, com redução de 1,15 milhão e 571 mil no número de pessoas pobre entre 2002 e 2008.

A região que menos reduziu foi Recife, cerca de 300 mil pobres a menos. Além dessas regiões, entrou na pesquisa Porto Alegre.

Mais ricos

O estudo do Ipea mostra que, entre 2003 e 2008, o crescimento da economia beneficiou também os mais ricos (indivíduo pertencente a famílias cuja renda mensal é igual ou superior a 40 salários mínimos, ou R$ 16,6 mil).

Em termos percentuais, os ricos passaram de 0,8% da população em 2003 para 1% em 2008. Em números absolutos, cresceu de 362 mil para 476,5 mil.

Segundo o Ipea, o crescimento da economia beneficiou menos os ricos e pessoas de classe média alta.

“O crescimento econômico vem acompanhado de mais empregos, que estão basicamente na base da pirâmide. A expansão do emprego de classe média alta depende da continuidade do crescimento”, disse Pochmann.

Retirando os mais ricos e os mais pobres da população nessas seis regiões metropolitanas, verificou-se também um aumento da classe média, desde os extratos mais baixos até o mais alto.

O percentual de pessoas com renda intermediária passaria de 64% para 75% da população entre 2003 e 2008.

“Houve um aumento no segmento de renda intermediária, sobretudo da classe média baixa”, afirmou.

27/07/2008 - 19:18h Entre Marta e Alckmin, a nova classe média

O texto de Ricardo Kotcho destaca a importância da nova classe média para as eleições municipais em São Paulo. Essa importância é indiscutível e por isso a temática “federal” terá peso na disputa municipal. Os resultados conquistados pelo governo Lula serão um apoio para a campanha de Marta.

Talvez ele seja apresado em considerar que a situação já está polarizada definitivamente entre Marta e Alckmin, bem que a orientação errada da campanha agressiva de Kassab esta levando sua candidatura a virar pó, como diz Kotcho.

Outro aspecto, que o artigo aborda no final é considerar que o enfrentamento Marta X Alckmin será uma antecipação do enfrentamento Lula X Serra em 2010. Contrariamente a muitos comentaristas, eu não considero que a eleição municipal seja um ensaio da eleição presidencial. Qualquer que seja o desfecho, ele não terá implicações para o presidente Lula e uma vitória de Marta não será uma derrota do governador Serra. O apoio de Lula a Marta é natural e não tem outro significado. Esse apoio a Marta não é contra Serra e sim em favor da candidata do PT . Se for contra alguém, é fundamentalmente contra Alckmin, que encarna uma oposição de centro-direita udenista. O artigo da Veja desta semana, sobre as eleições, mostra isto muito claramente quando constata que Alckmin é o único candidato de oposição a Lula.

É bom ressaltar que mesmo que o governador Serra entre com peso na campanha em favor de Alckmin, este não é seu candidato e não será alavanca para sua candidatura a presidência.

Por isso me parece que até o final do primeiro turno Serra oscilará em gestos amigáveis para seu candidato Kassab e para Alckmin. Se confirmada a hipótese de Kotcho, ele ficará obrigado a salvar a face atuando em favor de Alckmin, porém as conseqüência de uma eventual vitória do seu adversário interno, poderão sim alienar seu futuro, caso Alckmin vença. Esse é um dos paradoxos das eleições municipais em São Paulo. LF

A seguir o artigo de Ricardo Kotcho

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iG - Ricardo Kotscho

Dois números chamam a atenção na nova rodada da pesquisa Datafolha divulgada na noite de quinta-feira, em que Marta Suplicy (36%) e Geraldo Alckmin (32%) aparecem tecnicamente empatados:

- Marta tem 46% dos votos entre eleitores com renda familiar de até dois salários mínimos;
- Alckmin tem 46% dos votos entre quem tem renda familiar superior a dez salários mínimos.

Com a campanha caminhando para uma polarização entre os dois, deixando o atual prefeito Gilberto Kassab (11%) comendo poeira, a mais de 20 pontos de distância, o quadro começa a ficar mais claro, a pouco mais de três meses do dia da eleição.

Em resumo, Marta domina o eleitorado de renda mais baixa das periferias; Alckmin, por sua vez, mantém sua votação majoritária entre as camadas mais ricas das áreas nobres da cidade.

Entre os dois extremos, quem vai decidir estas eleições é o eleitorado que ganha entre três e nove salários mínimos, quer dizer, a chamada nova classe média emergente, também rotulada pelos especialistas como classe C.

Rejeitada pela classe média tradicional paulistana, que não pode nem ouvir falar em Lula e PT, não bastará a Marta manter a fidelidade do grande eleitorado de menor renda das zonas sul e leste.

Nos últimos anos, cresceu um novo contingente de eleitores que saíram da pobreza para a classe média, tornaram-se consumidores e se espalham por todas as regiões da cidade.

Resta saber se esta classe média emergente repetirá em São Paulo o que aconteceu nas últimas eleições presidenciais, em 2006, quando foi determinante para a reeleição do presidente Lula, ou herdará os preconceitos arraigados da classe média tradicional.

Foi aqui, na maior cidade do País, afinal, que Lula historicamente sempre enfrentou as maiores dificuldades eleitorais e os maiores índices de rejeição.

Amarrar sua candidatura aos altos índices de popularidade do presidente no restante do País, como sinalizou neste início de campanha, pode ser um bônus ou um ônus para Marta, a depender dos rumos que tomar em São Paulo esta nova classe C, que votará pela primeira vez em eleições municipais.

Ainda com o PSDB dividido, mas cada vez mais distante da candidatura de Kassab, a princípio estimulada pelo governador José Serra, Alckmin também terá que concentrar seus esforços nesta faixa do eleitorado. A disputa vai ser dar aí no segundo turno, pois a esta altura do campeonato parece certo que a decisão ficará mesmo entre a ex-prefeita do partido do presidente da República e o ex-governador do partido do atual governador.

Mantido o quadro atual, será inevitável no segundo turno ver Lula subindo no palanque de Marta e, Serra, no de Alckmin, todos de olho em 2010, o que promete fortes emoções para a reta final das eleições paulistanas. Façam suas apostas.

23/07/2008 - 21:27h “A política está reduzida ao noticiário policial”

A imagem “http://www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ju/agosto2005/fotosju299online/ju299pg07.jpg” contém erros e não pode ser exibida.Entrevista- Prof. Luiz Werneck Vianna - Iuperj

Agência Carta Maior
22/07/2008

Em entrevista à revista eletrônica IHU On-Line, o professor Luiz Werneck Vianna fala sobre o caso Daniel Dantas e critica o recuo da política e sua redução a uma agenda policial. O pesquisador acredita que “os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso”. E que a solução virá “com mais política” e não com menos. Para Werneck Vianna, o caso Dantas virou um “affair” midiático, com cortinas de fumaça.

IHU On-Line

Ao analisar os recentes episódios de corrupção no Brasil, a partir da prisão (ou da tentativa de) do banqueiro Daniel Dantas, o professor Luiz Werneck Vianna, do Iuperj, em entrevista concedida por telefone à revista eletrônica IHU On-Line, identifica apenas “o capitalismo operando”. Para ele, o mal não está em figuras como a de Dantas ou de Eike Batista, “como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas”.

Ele garante: “Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais”, que são, na sua opinião, o crescimento econômico, a reforma agrária e a democratização da propriedade. O pesquisador acredita que “os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso”. E que a solução virá “com mais política”. “O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Não há política. Está faltando sociedade organizada, reflexiva. A política está reduzida ao noticiário policial”, explica.

Werneck Vianna é professor pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj). Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, é autor de, entre outros, A revolução passiva: iberismo e americanismo no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1997), A judicialização da política e das relações sociais no Brasil (Rio de Janeiro: Revan, 1999) e Democracia e os três poderes no Brasil (Belo Horizonte: UFMG, 2002).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Personagens como Daniel Dantas e Eike Batista avançaram sobre nacos importantes do patrimônio do Estado brasileiro. Quais foram as condições políticas e econômicas que permitiram o surgimento desses personagens?

Luiz Werneck Vianna - O Brasil é um país capitalista. E esses são empresários audaciosos, jovens, e têm encontrado um terreno favorável a tratativas com o executivo no sentido de fazer negócios de interesse comum. E nisso ambos parecem que têm se complicado muito. No entanto, há uma zona de sombra que ainda precisa ser esclarecida. Meu problema em relação a tudo é essa sucessão de intervenções espetaculosas da Polícia Federal, a mobilização da mídia, do Ministério Público, do Judiciário e da opinião pública para esses fatos. As questões centrais não são essas.

Com essa cortina espetacular, o mundo continua como dantes. Nada muda no que se refere à questão agrária, às políticas sociais. A população anda desanimada, desencantada. Além disso, o que aparece aqui, que é muito perigoso, é um espírito salvacionista. Há um “Batman institucional” atuando sobre a nossa realidade. Esse “Batman” é a Polícia Federal associada ao Ministério Público. Há elementos muito perigosos aí, de índole messiânica, salvacionista, apolítica, que podem indicar a emergência de uma cultura política fascista entre nós. Todos esses escândalos e espetáculos atraem a opinião pública como se dependesse da salvação de todos apurar os negócios do Eike Batista e do Daniel Dantas. Não depende, isso é mentira!

Com isso, se mobiliza a classe média para um moralismo que não pára de se manifestar. A política cai fora do espaço de discussão. Enquanto isso, aparecem dois personagens institucionais, ambos vinculados ao Estado: o Ministério Público e a Polícia Federal. Este caminho é perigoso, e a sociedade não reage a ele faz tempo. A cultura do fascismo pode se manifestar com traços mais bem definidos, a partir da idéia de que nosso inimigo é a corrupção, especialmente aquela praticada pelas elites. Então, a sociedade acha que se resolve esse problema colocando a elite branca na cadeia. Desse modo, o país viveria numa sociedade justa. Não vai, mentira!

IHU On-Line - O que o senhor considera como as questões centrais na sociedade brasileira, que devem ser discutidas com mais ênfase?

Luiz Werneck Vianna - O tema do crescimento econômico, da reforma agrária, da democratização da propriedade. Para isso ninguém mobiliza ninguém.

IHU On-Line - Pode-se afirmar que os anos dourados do neoliberalismo brasileiro produziram uma nova burguesia nacional da qual Daniel Dantas e Eike Batista são hoje personagens centrais? O que distingue essa nova burguesia da “velha burguesia nacional” do período desenvolvimentista?

Luiz Werneck Vianna - Eike Batista não é um homem das finanças, e sim um homem da produção. O Daniel Dantas, não. Ele é um homem do setor financeiro. Este setor apresentou enormes possibilidades. Esses executivos do setor financeiro não têm 40 anos. Se examinarmos os currículos deles, veremos que são formados por boas universidades, com doutorado no exterior. Apareceu um novo mundo para esses setores médios e educados da população, especialmente os economistas. Se passa da posição de economista para a posição de banqueiro hoje muito facilmente.


IHU On-Line - Como o senhor interpreta essas relações aparentemente ambíguas que o banqueiro Dantas tinha, ao mesmo tempo, com o mercado financeiro internacional e os fundos de pensão do Estado do qual fazem parte sindicalistas? Acabou-se a velha contradição capital - trabalho?

Luiz Werneck Vianna - Essa questão dos fundos previdenciários existe em toda a parte, não apenas no Brasil. E o controle disso tem sido em boa parte corporativo. Quem mexeu com a questão e falou no surgimento de uma nova classe foi o Francisco de Oliveira. Não sei se devemos concordar inteiramente com o que ele diz, mas, pelo menos, é uma alusão importante. O capital hoje tem uma outra forma de circular, e isso não ajuda o mundo sindical a se reorganizar. O que vemos é um sindicalismo inteiramente cooptado pelo Estado. Dantas jogou com as oportunidades que viu. Até agora, as únicas coisas concretas pelas quais ele pode ser pego são o suborno ao policial e seu problema com o Imposto de Renda. Esse é o capitalismo operando. Daqui a pouco vão querer “prender” o capitalismo. E não creio que isso esteja na intenção da Polícia Federal. O mal não está nessas figuras, como se a sociedade fosse melhorar se nos livrássemos delas. Não vai melhorar. A sociedade vai melhorar se organizando em torno das suas questões centrais.

IHU On-Line - O banqueiro Dantas estabeleceu uma rede de conexões políticas tecida ao longo de três governos - Collor, FHC e Lula. Como entender o poder de Daniel Dantas, sua capacidade de manipulação e envolvimento de tantas pessoas, de diferentes governos, nessa malha de corrupção?

Luiz Werneck Vianna - Era necessário que nessa rede público-privada aparecessem personagens. Essa rede não podia se montar sem pessoas concretas. Dantas foi uma. O ponto da privatização estabeleceu um caminho para que esses homens encontrassem a sua oportunidade.

IHU On-Line - O senhor considera que o caso Dantas ameaça o conceito de República, ou se pode afirmar que efetivamente o Brasil nunca desfrutou do status de República?

Luiz Werneck Vianna - Não ameaça nada. Esse é um affair midiático, com cortinas de fumaça. Os piores instintos da sociedade estão sendo suscitados com tudo isso. Vejo as primeiras fumacinhas de uma síndrome fascista entre nós. E isso deve ser denunciado, combatido, e com política, com mais política. O que constatamos, ao longo desse episódio, é que a política recua. Está faltando sociedade organizada, reflexiva, e a política está reduzida ao noticiário policial.


IHU On-Line - Como o senhor analisa a postura do Supremo Tribunal Federal nesse caso? Como interpreta o comportamento do ministro Gilmar Mendes?

Luiz Werneck Vianna - Interpreto bem. O papel da Suprema Corte é defender a Constituição, as liberdades individuais, e também não deixa de incorporar essa preocupação com o testemunho do espetacular que essas operações policiais manifestam. Uma outra questão vinculada a isso é a escuta telefônica. Estamos indo para um estado policial? E a sociedade aprende a apontar como culpado o “malvado” lá da ponta, responsável por todos os males, que, caso preso e execrado, vai fazer com que a sociedade melhore.

Num ano eleitoral, tudo se discute, menos a política. Não podemos defender a idéia de que um grande inquérito, um grande processo pode resolver as máculas da nossa história, criar um novo tipo de um encaminhamento feliz para nós (e isso é feito pela polícia, pelos grampos telefônicos, pela repressão!). Isso não lembra a linguagem do regime militar, quando ele se impôs? De que o grande inimigo é a corrupção? Só que agora tudo está sendo feito numa escala nova, imensa, com um domínio total dos meios de comunicação. O próprio Congresso se tornou uma ampla comissão parlamentar de inquérito, apurando, investigando e não discutindo políticas e soluções para os problemas. Além do mais, temos um grupamento novo na sociedade: a Polícia Federal é nova. Ela foi extraída da classe média. Seu pessoal é concursado, bem formado, com curso superior. Seus integrantes estão autonomizados a ir para as ruas com esse sentimento messiânico, que aparece no relatório do delegado Protógenes, de que a Polícia pode salvar o mundo.

IHU On-Line - Qual é a sua opinião sobre o combate à corrupção no Brasil? Este episódio recente abre a possibilidade de mudanças?

Luiz Werneck Vianna - Nesse processo, a ordem racional legal avança, se aprimora, se aperfeiçoa. No entanto, o que tento combater é uma visão salvadora, justiceira, messiânica do papel policial para a erradicação dos nossos males, como se não devesse haver nenhum impedimento entre a ação da polícia e a sociedade, como se não devêssemos ter habeas corpus, como se as pessoas pudessem ser presas, retiradas das suas casas nas primeiras horas da manhã, algemadas, e tudo isso passando por câmeras de televisão… Não creio que isso seja um indicador de democracia.


IHU On-Line - Que tipo de sentimento esse episódio provoca na população brasileira? Revolta, descrédito nas instituições?

Luiz Werneck Vianna - Descrédito. E também aprofunda o fosso entre a sociedade e a política, mantém a sociedade fragmentada, isolada, esperando que a ação desses novos homens, dessas corporações novas, nos livre do mal. Talvez eu tenha dado muita ênfase à dimensão negativa de tudo isso, mas também vejo que esse processo pode ser corrigido se a ordem racional legal for defendida por recursos democráticos, sem violência, com respeito às leis, à dignidade da pessoa humana. É possível se avançar na ordem racional legal, investigando a corrupção, prendendo seus responsáveis, mas sem que isso assuma o caráter de escândalo, de espetáculo, no qual parece que temos um agente de salvação em defesa da sociedade. Isso sim é perigoso.

12/07/2008 - 09:28h Exemplar sr. Dantas

A imagem “http://www.cartacapital.com.br/uploads/destaques/1215808413524.jpg” contém erros e não pode ser exibida.11/07/2008

Luiz Gonzaga Belluzzo

“Preferi a tranqüilidade do silêncio ao ruído das propagandas falazes; não suportei afetações; as cortesias rasteiras, sinuosas e insinuantes, jamais encontraram agasalho em mim; em lugar algum pretendi subjugar, mas ninguém me viu acorrentado a submissões; – dentro de uma humildade que ganhei no berço, abominei a egomania e a idolatria; não me convenceram as aparências, e para as minhas convicções busquei sempre os escaninhos. No exercício das minhas funções de magistrado, diuturnamente, dei o máximo dos meus esforços para bem desempenhá-las,(…) em nenhum momento transigi com a nobreza do cargo; escapei de juízos temerários, tomando cautelas para desembaraçar-me das influências e preferências determinantes de uma decisão; – e, se alguma vez, inadvertidamente, pequei contra a lei, vai-me a certeza de que o fiz para distribuir bondade e benevolência.” 

Discurso pronunciado pelo juiz Luiz Gonzaga Belluzzo (1916-2000), por ocasião de sua aposentadoria

Heidegger disse em seu livro sobre Nietzsche: a idéia do eterno retorno do mesmo é o desdobramento íntimo da idéia da vontade de potência. Nietzsche, atento às trágicas idiossincrasias do homem produzido pela sociedade moderna, seria incapaz de antecipar a completa realização de seus conceitos num país tropical. Aqui a vontade de potência reescreve, em vários capítulos, o eterno retorno do mesmo.

Em obediência à sabedoria nietzschiana, cuido de reescrever o texto que tantas vezes escrevi diante de episódios semelhantes ao da prisão de Daniel Dantas. Este senhor, cuja prisão é anunciada com pompa, mas nenhuma circunspeção, foi um servidor fiel das forças que agora promovem a sua liquidação moral e política.

Os cínicos ou néscios ignoram que o peso dos interesses e os interesses de peso transformaram os Estados Nacionais, uns mais que outros, em instrumentos de acumulação dos grandes grupos privados. Assim é o capitalismo realmente existente e, por isso, assim é (e sempre foi) nos Estados Unidos da América, desde os barões ladrões até o escritório de corretagem organizado por George Bush & cia. Essa engrenagem controla o Estado por dentro e, para reproduzir a si mesma, esmera-se em produzir os funcionários corruptos e os escândalos empresariais, num movimento simultâneo e paradoxal. Mas a autoconsciência do Estado Plutocrático americano não permite que a situação escape ao controle: institucionalizou o lobby e limitou o ilícito. O secretário do Tesouro, Henry Paulson, advogou publicamente a “suavização” da Lei Sarbanes-Oxley, promulgada depois da sucessão de escândalos promovidos pelas “inovações” financeiras da Enron e inventividades assemelhadas.

Na caricatura à brasileira, a falsidade da consciência sai pelas bocas, num jorro de hipocrisias. O Tratado de Trapalhadas Morais, da lavra do establishment nativo, contém a lógica essencial que inspira o combate aos maus costumes na administração pública: ocultar as raízes do mal. Não é surpreendente que os escândalos se multipliquem. Os liberais querem resolver isso fazendo com que o Estado deixe de se intrometer nos assuntos econômicos. Essa sugestão esbarra na lei de ferro da economia contemporânea: a luta para sobreviver às asperezas da concorrência nos mercados exige mediação financeira do Estado e a cooperação, lícita ou ilícita, dos que se envolvem na concorrência política.

Os mercadores de favorecimentos estão por toda parte, surgem dos cantos, brotam das paredes dos edifícios públicos. Tentar caçá-los como quem organiza um safári da ética é candidatar-se a um monumental fracasso e iludir o distinto público. A despeito de quantos rostos possa simular, o fenômeno é fácil de decifrar: na economia da concorrência imperfeita vale tudo para eliminar o adversário e saciar a sanha pela grana do Erário.

Nos locais de música ambiente e comida requintada, nos intervalos em que a taça do melhor vinho se afasta dos lábios, os sussurros lamentam os abusos dos agentes da lei. É tal a obsessão com hierarquia das coisas ou das pessoas que nem mesmo os corruptos e a corrupção conseguem escapar à fúria classificatória. Veja o caro leitor que as aventuras financeiras do senhor Dantas e as peripécias fiscais e cambiais de outros graúdos foram e continuam sendo apreciadas pela turma da anedota e champanhota sob o prisma da categoria social dos que perpetraram as malfeitorias.

Mas classe é classe, diria o conhecido locutor esportivo. Não foi outro o crivo ideológico, digamos assim, que levou ao arquivo morto da memória nacional as denúncias de evasão de divisas e fraudes fiscais promovidas no escândalo do Banestado. Os bem-nascidos nem sequer dissimulam sua convicção profunda a respeito do tratamento que deve ser dispensado aos criminosos de primeira, segunda e terceira classes. Devemos, porém, nos precatar contra dois argumentos antitéticos, mas que têm a mesma origem. O primeiro é dos espertalhões: já que todos são corruptos, diante da geléia geral, é melhor deixar tudo como está; o segundo é dos Torquemadas: todos são culpados, até prova em contrário.

As “espetacularizações’ e fanfarronadas dos agentes da lei são o espelho da hipocrisia dos senhores. “Aos ricos daremos o mesmo tratamento que concedem aos pobres”: o desrespeito, a violação dos direitos elementares, a humilhação pública. Danosos para a reputação da República e desastrosos para os direitos dos cidadãos, os arreganhos e vazamentos midiáticos estimulam os piores instintos do rebanho. A massa de remediados que se expressam na internet clama por justiça, mesmo à custa de insuflar a soldadesca que atira a esmo e mata inocentes. Uns e outros revelam impulso incontrolável para difundir uma visão do mundo elaborada a quatro mãos por Gêngis Khan e Al Capone.

Então caberia pesar as conveniências da execração de um personagem tão emblemático, uma encarnação dos vícios e das virtudes do sistema dominante. Os vícios são muitos. Deixo à imaginação do leitor o trabalho de enunciar o elenco. Quanto às virtudes, dentre as poucas, sobressai a capacidade de reprodução das alianças de poder mesmo à custa do sacrifício de alguns poderosos.

Esta, aliás, é a aposta dos que praticam profissionalmente o conhecido esporte de chute ao cadáver. Alguns senhores e seus jagunços já preparam – quando ainda não desferiram – requintados pontapés na carcaça de quem, afinal, serviu tão bem a seus interesses e apetites. Talvez por isso tenham escapado do naufrágio do regime militar, entronizados na democracia como um corifeu das liberdades.

Nada pode ser mais trágico para uma sociedade do que a particularização da prestação da Justiça. No episódio Dantas, o vício da particularização deu o ar da graça no deplorável debate travado no Senado da República. O bate-boca revelou uma supina incompreensão dos parlamentares, dos que defenderam e dos que atacaram a decisão do presidente do STF. Adstrita ao cumprimento da lei, a decisão caminhou na contramão dos arreganhos autoritários da opinião massificada. A contaminação das decisões judiciais pelos movimentos mercuriais da opinião das massas é o descalabro. Há quem perceba o fenômeno e o abomine, mas prefere se recolher diante da contundência e da ousadia dos que buscam – enquanto escapam pela tangente – saciar os clamores de justiça nascidos no baixo-ventre.

A concentração e confusão de poderes reproduzem dois fenômenos gêmeos, funestos para a ordem democrática: a apatia popular e a busca de heróis vingadores, capazes de limpar a cidade (ou o País), ainda que isto custe a devastação das garantias individuais. Nesta cruzada antidemocrática, militam os agentes da lei que fazem gravações clandestinas ou inventam provas, e os jornalistas que, em nome de uma “boa causa”, tentam manipular e ludibriar a opinião pública.

03/07/2008 - 20:04h Debate em Carta Maior

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Gilson Caroni Filho - Carta Maior

Fossem outros os tempos e esse lembrete talvez fosse totalmente desnecessário. A distorção vista nas primeiras páginas dos jornais de hoje, 1º de julho de 2008, sobre os dados da pesquisa CNI/IBOPE, é a repetição de um exaustivo exercício da imprensa brasileira. A avaliação do governo por área de atuação cai como luva para manchetes como a do Jornal do Commercio, de Pernambuco: “Inflação assusta 65% dos brasileiros”. O padrão de ocultamento é acintoso.

Recriando a realidade do seu jeito e de acordo com seus interesses político-partidários, o jornalismo reafirma, de forma inequívoca, sua instrumentalidade na luta das classes dominantes. Mostra que, tal como os partidos conservadores, os jornais procuram conduzir a sociedade de acordo com seus interesses históricos. E, nesse marco, operam toda sorte de deslocamentos semânticos possíveis. Ficar atentos a critérios interpretativos da grande imprensa, ao invés de endossá-los prontamente, é o mínimo que se pede a quem se supõe dotado de consciência crítica.

Um dos exemplos mais emblemáticos de descontextualização instrumental foi uma polêmica declaração de Lula, em 2006. Em uma entrevista, concedida no primeiro dia de campanha eleitoral, o presidente afirmou: ”eu nunca fui esquerdista. Quando alguns companheiros meus americanos, europeus, me chamavam de esquerdista, aqui no Brasil eu era chamado de agente da CIA pelo Partido Comunista Brasileiro e de a muleta da ditadura pelos trotskistas”.

Foi o bastante para que, sem qualquer mediação analítica, os detratores tanto à esquerda como à direita decretassem que aquelas palavras confirmavam o que já se sabia. Lula e o Partido dos Trabalhadores converteram-se após as eleições de 2002, respectivamente, numa liderança demagógica e em um partido conservador. Ações e retórica não deixavam dúvida: o país foi vítima de um escandaloso estelionato eleitoral.

Deixando-se levar pelo senso comum midiático, notórios acadêmicos e militantes conhecidos viram nas palavras do presidente o sinal de que antigas bandeiras tinham sido, definitivamente, jogadas ao chão. Uma necessidade de “requalificar a base” na ânsia de se livrar do próprio passado para ingressar no campo conservador estava em andamento.

Aos refinados críticos de esquerda faltou o essencial, a busca do nexo dialético que embasa o discurso de lideranças políticas. Sem isso, por deficiência ou má-fé, embica-se na direção da crítica política miúda, do dia-a-dia, desprovida de qualquer alcance histórico efetivo. Um convite às páginas amarelas da revista Veja.

Seria de bom tom, antes de acionar as metralhadoras giratórias contra Lula, ver o que ele concebia como “esquerdismo”, ainda mais que havia menção explícita a duas correntes políticas: o antigo Partidão e organizações trotskistas.

Se aceitarmos que a justificativa histórica do socialismo está balizada pela democracia, cumpre indagar, como fez Hebert de Souza, em artigo publicado nos anos no JB, nos anos 1990 quando “a esquerda fez uma crítica global da realidade brasileira sob o prisma da democracia?” A capacidade de compreensão do desenvolvimento do capitalismo periférico foi acompanhada de uma história política que tivesse na ampliação do regime democrático sua questão central? Ou, por atuar em formação social adversa, a esquerda não assimilou um caldo de cultura tão autoritário quanto o da direita que combatia?

Antes de fazer coro com quadros conservadores que reverberam os interesses da elite em conhecidas colunas, seria o caso de investigar se tivemos uma tradição, no campo da esquerda, de contemplar a democracia como valor permanente ou se a enxergamos como “momento tático” que precede à tomada do Palácio de Inverno?

Talvez seja o caso de recorrermos ao pensamento de Togliatti que sempre chamou a atenção para o perigo de compreendermos democracia progressiva ” como mera tática manipuladora, a ser abandonada no momento em que fossem criadas as condições para o “grande dia” .

Quem viveu sob o tacão do centralismo burocrático ou teve contato com organizações que, até hoje, acreditam que é possível uma transformação política levada a cabo por uma minoria, sem o apoio das grandes massas, há de entender o sentido preciso do “esquerdismo” a que aludia o presidente. Pois, se a democracia é atacada por uma elite que odeia o povo concreto, sua situação não é menos frágil quando a ação é comandada por uma esquerda que ama um povo idealizado, que só existe em velhos manuais.. Em ambos os casos, as possibilidades de superação são nulas.

Ao contrário do que afirmam seus críticos, Lula mantém profunda coerência com seu discurso da época em que era liderança sindical. Em depoimento concedido, em 1984, à revista Retrato do Brasil (Editora Brasil), o então metalúrgico afirmava textualmente:

“Embora eu ache que o socialismo seja a saída para os problemas do país, e não só do país, mas de todo o mundo, há uma questão que impede que eu me aprofunde mais nessa discussão: hoje há problemas mais prementes para serem resolvidos, hoje seria necessária uma política de amplo emprego, uma política salarial, uma reforma agrária ou assentamento das pessoas na terra para ter acesso ao trabalho, uma política de habitação, uma política educacional e muitas outras coisas que são necessárias para o povo continuar brigando. Com fome é muito mais difícil(…) Mas fazer esse povo discutir o socialismo é muito difícil ainda, porque o que acontece normalmente é que quem tem as idéias prontas na cabeça tenta enfiá-las pelas goelas dos trabalhadores, quando o necessário seria fazer com que as pessoas descobrissem a necessidade de ter essa reflexão sobre o novo projeto de sociedade”.

Passados 24 anos, em que momento Lula contradisse o discurso? Onde está o estelionato? Quem capitulou de fato? Atualizar reflexões não significa renúncia a princípios. Longe disso, é fundamental para incrementar a ação dentro do tempo histórico em que se pretende intervir.

As modificações moleculares da sociedade brasileira passam por mais gastos com saúde, educação e renda vitalícia. Como destaca Immanuel Wallerstein (O Declínio do Poder Americano, p.260), “isso não é apenas popular; tem utilidade na vida das pessoas. E aumenta a pressão sobre as possibilidades de acumulação contínua de capital. Estas exigências deveriam ser promovidas vigorosamente, conceitualmente em todos os lugares. Nunca são demais”

Será que não é perceptível que é contra isso que a grande imprensa luta? A afirmação de que a inflação decorre dos gastos públicos do governo não representa apenas um discurso de mercado. É um discurso anti-povo, contra a democracia. Uma sabotagem repetida diariamente em revistas, jornais e emissoras de televisão.

Precisamos, nós da esquerda, aprender de uma vez por todas que a história não está do lado de ninguém e muito menos há tribunal com leis objetivas. O resultado da luta política depende da capacidade que teremos para mobilizar, mas não é nem um pouco secundário analisar corretamente o que está ocorrendo. O que se busca é a hegemonia. Em jornais, televisões e revistas. Em cada manchete, em cada subtítulo.
Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Observatório da Imprensa.

02/05/2008 - 12:05h Sem medo

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GERSON ALMEIDA - O Globo

O envio pelo presidente Lula das Convenções 151 e 158 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) para a discussão no Congresso Nacional, atendendo a reivindicação histórica dos assalariados do setor público e do privado, suscitou imediata reação por meio de artigos, entrevistas e editoriais em jornais de circulação nacional.

As críticas têm se concentrado na Convenção 158 e procuram identificála como retrocesso nas relações de trabalho, ameaça à geração de empregos e, portanto, contrária ao desenvolvimento econômico e social. O equívoco dessas posições pode ser facilmente dirimido com uma leitura mais acurada dos textos dessas Convenções.

A Convenção 151, por exemplo, defende a proteção aos trabalhadores públicos e às suas entidades “contra todos os atos de discriminação que acarretem violação da liberdade sindical”, tal como impedir a filiação a uma organização de trabalhadores ou prejudicá-los devido a atividades sindicais.

Além disso, ela assegura o direito à negociação aos servidores públicos.

Para o governo, a institucionalização dessas garantias vai melhorar a qualidade das relações entre Estado e servidores ao superar a insegurança existente, fator gerador de muitas greves e de sua longevidade.
Já o objetivo da Convenção 158 é o de que os trabalhadores não sejam despedidos “sem que exista um motivo válido de demissão relacionado com a aptidão ou com o comportamento do trabalhador, ou baseado nas necessidades de funcionamento da empresa”. Ela assegura aos trabalhadores o direito de saber, com a maior antecedência possível, “as medidas a tomar para prevenir ou limitar as demissões”.

Nesses casos, devem ser buscadas medidas que visem a atenuar seus efeitos desfavoráveis. No caso de o trabalhador sentir-se vítima de demissão injustificada, terá o direito de “apelar contra essa medida para um organismo imparcial”. Entender, a partir disso, que a Convenção impõe a garantia de “emprego vitalício” como tem sido acusada, está mais próximo de pânico conservador do que de análise.

Ao enviar as Convenções para o debate no Congresso Nacional, o governo demonstra o seu compromisso com a melhor tradição do processo democrático, que é o de reconhecer legitimidade nas demandas por ampliação de direitos sociais. Tratar a luta por novas conquistas como impossíveis, é querer tirar da sociedade a sua capacidade de superação. Foi esse dinamismo social que permitiu ao longo da História que muitos setores excluídos conquistassem cidadania: dos plebeus às mulheres, que, por exemplo, há apenas algumas décadas conquistaram o direito ao voto.

As críticas contra as Convenções repetem aquelas que condenavam o acordo feito pelo governo com as centrais sindicais para a recuperação do poder de compra do salário mínimo.
Os críticos anunciavam a bancarrota da Previdência, dos estados e dos municípios.
Felizmente a realidade está demonstrando que a ampliação do mercado interno e do consumo das classes populares, além de diminuir as desigualdades, está deixando o país menos vulnerável. Afinal, democracia, como definiu Bobbio, é o “ideal da renovação gradual da sociedade e se dá através do livre debate de idéias e da mudança das mentalidades e do modo de viver”.

30/04/2008 - 19:14h Estadão reconhece: “nunca antes neste País…”

Como o presidente sempre diz, ‘nunca antes neste País…’

Emprego, renda, consumo, entre outros, vêm batendo recordes consecutivos e explicam popularidade de Lula

Da Redação do portal O Estado de São Paulo

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SÃO PAULO - O governo Lula atingiu nos três primeiros meses de 2008 a melhor avaliação positiva desde o início do primeiro mandato, em 2003. O motivo, segundo analistas, seria a seqüência de indicadores socioeconômicos positivos divulgados nos últimos meses. De fato, índices como emprego, renda, consumo, entre outros, vêm batendo recordes consecutivos, numa série de “nunca antes na história desse País” que não parece ter data para terminar. Confira alguns desses recordes:

EMPREGO

A economia brasileira abriu 204,9 mil novos empregos com carteira assinada em fevereiro, um resultado 38,5% superior ao saldo de fevereiro de 2007. Segundo os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho. O resultado do mês passado é o novo recorde da série histórica, iniciada em 1992, para os meses de fevereiro.

No primeiro bimestre do ano, estão acumuladas 347,9 mil novas vagas, um saldo 37% maior que o verificado no mesmo período do ano passado. As melhores marcas de geração de empregos formais, tanto em fevereiro quanto no bimestre, eram de 2006. Com as novas vagas abertas em fevereiro, o estoque de empregos formais da economia cresceu 0,7%, para 29,3 milhões de postos.

O Caged é um registro feito pelo Ministério do Trabalho com base nas informações mensais sobre contratações e demissões repassadas por todas as empresas que seguem as regras da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).

Todos os setores da economia tiveram resultados positivos em fevereiro, com destaque para os serviços, que criaram 74,4 mil vagas. A indústria, que abriu 46,8 mil, ficou em segundo lugar, seguida da construção civil, com 27,5 mil empregos. Entre os serviços, o segmento ligado ao ensino. O reinício do período letivo permitiu a criação de 31,5 mil empregos. São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul apresentaram os melhores desempenhos.

RENDA

Em 2007, 96% das 715 negociações salariais acompanhadas pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese) asseguraram, no mínimo, a incorporação das perdas desde a data-base anterior. É o quarto ano consecutivo em que em mais de 70% das negociações analisadas houve reposição segundo a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC). Entre 2006 e 2007, a inflação média acumulada foi inferior de 3,9%. Das 715 negociações, apenas em 29 não houve reposição da inflação.

COMÉRCIO

Janeiro de 2008 foi o melhor para o comércio varejista em sete anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). As vendas do varejo aumentaram 1,8% ante dezembro e 11,8% ante igual mês do ano passado, a maior variação para o primeiro mês do ano desde o início da série da pesquisa, em 2001. Todas as atividades pesquisadas mostraram crescimento nas vendas ante igual mês de 2007.

O maior impacto no resultado total foi dado por hiper e supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo. O grupo tem forte peso na pesquisa e teve expansão de 8,4% nessa base de comparação. A segunda principal influência veio de móveis e eletrodomésticos, que prosseguem mostrando fôlego surpreendente, com crescimento de 16%, uma forte aceleração sobre a alta de 12% de dezembro ante igual mês de 2007. Essas duas atividades responderam por 6,7 ponto porcentual, ou 57% do aumento total de 11,8% do varejo.

CONSUMIDOR

Impulsionado pelo bom momento da economia e aumento na intenção de compras para os próximos meses, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) disparou em março, com alta de 3,5% ante fevereiro. Em janeiro, havia caído 0,4%. Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV), responsável pelo estudo, a confiança do consumidor em março foi a maior da série histórica, iniciada em setembro de 2005.

ELEVADOR SOCIAL

Pesquisa O Observador Brasil 2008, feita pela financeira francesa Cetelem com o instituto de pesquisas Ipsos Public Affairs, revela que a classe C já é a maioria da população. No ano passado, 46% dos brasileiros pertenciam a essa camada social, ante 36% e 34% em 2006 e 2005, respectivamente. Ela também foi a única que aumentou de tamanho no último ano. De 2006 para 2007, quase 20 milhões de pessoas ingressaram nesse estrato social, um número cinco vezes maior que no período anterior. A classe C reúne hoje 86,2 milhões de brasileiros com renda média familiar de R$ 1.062.

A maior parte do contingente que engordou a classe C vem da base da pirâmide populacional, as classes D e E, perto de 12 milhões de pessoas. Outros 4,7 milhões vieram das camadas A/B, que perderam poder aquisitivo. O restante é proveniente do crescimento vegetativo da população.

Outro dado positivo da pesquisa foi o aumento da renda disponível das classes C e D/E nos dois últimos anos. Em 2005, faltavam R$ 17 para o consumidor da classe D/E pagar as contas no fim do mês. No ano passado, sobraram R$ 22.

Na classe C também houve ganho de renda. Em 2007, sobraram R$ 147, ante uma folga de R$ 122 em 2005. Já para a classe A/B a fôlego diminuiu de R$ 632 em 2005 para R$ 506 em 2007. A renda disponível é a que sobra após os gastos obrigatórios. A enquete mostra que o ritmo acelerado de consumo deve continuar este ano. Celular, computador, itens de decoração e a casa própria tiveram os maiores acréscimos na intenção de compra.

CRÉDITO

A despeito da preocupação do governo, o crédito continua em expansão. Em fevereiro, aumentou 1,1% ante janeiro e atingiu R$ 957,5 bilhões, equivalente a 34,9% do Produto Interno Bruto (PIB), maior marca desde maio de 1995. O Banco Central (BC) estima que chegue a 40% do PIB até o fim do ano.

INADIMPLÊNCIA

Outro motivo para a avaliação positiva é que a inadimplência continua baixa. Em fevereiro, 4,3% dos empréstimos apresentavam atraso superior a 90 dias. O porcentual é ligeiramente menor que o de janeiro, de 4,4%. No caso das pessoas físicas, a taxa de fevereiro manteve-se nos mesmos 7,1% de janeiro e ficou abaixo dos 7,3% de fevereiro de 2007.

DÓLAR BAIXO, BRASILEIROS VIAJAM MAIS

Os brasileiros gastaram como nunca em viagens internacionais nos últimos 12 meses. As despesas com viagens internacionais somaram US$ 8,925 bilhões, enquanto os gastos de estrangeiros no País foram de US$ 5,245 bilhões. Os dados se referem ao período entre março de 2007 e fevereiro de 2008 e são os maiores registrados para um período de 12 meses desde o início da série do Banco Central (BC), em 1947. Nem na época do “populismo cambial”, quando o dólar custava menos de R$ 1, a gastança internacional foi tão elevada. Dois fatores impulsionam as viagens ao exterior: o dólar barato e o aumento da renda do brasileiro.

PAÍS AGORA É CREDOR INTERNACIONAL

O Brasil fortaleceu sua condição de credor internacional, mesmo com a piora no quadro econômico internacional. Segundo dados divulgados pelo Banco Central (BC), o volume de reservas cambiais e outros ativos superava o da dívida externa em US$ 18,807 bilhões em fevereiro. Na prática, é como se o Brasil fosse credor do mundo nesse valor. Em janeiro, a posição credora era de US$ 6,983 bilhões. Os números de janeiro e fevereiro são preliminares. Em dezembro de 2007, o último dado fechado, a posição credora líquida estava em US$ 10,846 bilhões.

INDÚSTRIA

O faturamento da indústria de transformação - que reflete as vendas reais - cresceu 10,5% em janeiro ante o mesmo mês de 2007. É a maior taxa de expansão na comparação com o mesmo período mensal do ano anterior desde agosto de 2004. O conjunto dos indicadores industriais de janeiro, divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), também é o melhor para meses de janeiro nos últimos três anos.

As montadoras vão investir US$ 4,9 bilhões no Brasil este ano, o maior montante já gasto pelo setor em um único ano. A maior parte será aplicada no aumento da capacidade produtiva, que passará dos atuais 3,5 milhões de veículos para 3,85 milhões. Em 2009, a capacidade anual chegará a 4 milhões de unidades, um acréscimo de 500 mil veículos em dois anos.

Juntando empresas de autopeças, o investimento chegará a US$ 20 bilhões até 2010. O triênio anterior que teve maior aporte dos dois segmentos foi de 1996 a 1998, quando foram inauguradas 13 novas fábricas, entre marcas que passaram a produzir localmente e filiais das empresas já instaladas no País. Naquele período, foram investidos US$ 11,7 bilhões.

O anúncio da soma dos investimentos e da nova capacidade produtiva ocorre num momento em que o setor registra sucessivos recordes de vendas e há filas de espera de até três meses para alguns automóveis e de nove meses para caminhões.

28/04/2008 - 09:26h Para médico, ricos têm visão equivocada de que não precisam do sistema público

Folha de São Paulo

DA REPORTAGEM LOCAL

L'image “http://www.steril-aire.com.br/images/health.jpg” ne peut être affichée car elle contient des erreurs.Para o médico Gilson Carvalho, especialista em saúde pública, falta dinheiro ao SUS (Sistema Único de Saúde) porque as classes mais ricas pensam que não precisam dele.
São tarefas do SUS o controle de doenças e a vigilância sanitária (fiscalização de medicamentos, alimentos, hospitais e restaurantes). Os procedimentos de hemodiálise, os transplantes de órgãos e a distribuição das drogas de Aids também são pagos pelo sistema público.
“O SUS, ainda que não seja, fica quase classificado como um sistema de saúde de pobres. Falta pressão da classe média e da classe rica em defesa do sistema”, diz Carvalho.
Antonio Ivo de Carvalho, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública, concorda: “O Brasil tem êxitos sanitários laureados internacionalmente”.
As falhas, porém, são grandes. O Rio enfrenta hoje a pior epidemia de dengue dos últimos anos. Os salários dos profissionais de saúde são baixos. O governo paga mal pelos serviços. Faltam remédios e leitos nos hospitais. A espera por uma cirurgia pode durar meses.
O médico Gastão Wagner, que foi secretário-executivo do Ministério da Saúde no início do governo Lula, aponta problemas na organização do sistema. Ele diz que a população nem sempre encontra todos os procedimentos médicos porque os hospitais não conversam entre si para dividir o trabalho. Todos, mesmo os vizinhos, acabam oferecendo apenas aqueles procedimentos que são mais bem remunerados pelo SUS. “Trabalham com a lógica do mercado.”
Para Renilson Rehem, secretário de Assistência à Saúde no governo Fernando Henrique, apesar dos problemas, a saúde pública tem melhorado. “Você tem problema de saúde em qualquer lugar.” (RW)

27/04/2008 - 12:52h A turba do “pega e lincha”

CONTARDO CALLIGARIS

Querem linchar para esquecer que ontem voltaram bêbados e não sabem em quem bateram

NA ÚLTIMA sexta-feira, passei duas horas em frente à televisão. Não adiantava zapear: quase todos os canais estavam, ao vivo, diante da delegacia do Carandiru, enquanto o pai da pequena Isabella estava sendo interrogado.
O pano de fundo era uma turba de 200 ou 300 pessoas. Permaneceriam lá, noite adentro, na esperança de jogar uma pedra nos indiciados ou de gritar “assassinos” quando eles aparecessem, pedindo “justiça” e linchamento.
Mais cedo, outros sitiaram a moradia do avô de Isabella, onde estavam o pai e a madrasta da menina. Manifestavam sua raiva a gritos e chutes, a ponto de ser necessário garantir a segurança da casa. Vindos do bairro ou de longe (horas de estrada, para alguns), interrompendo o trabalho ou o descanso, deixando a família, os amigos ou, talvez, a solidão -quem eram? Por que estavam ali? A qual necessidade interna obedeciam sua presença e a truculência de suas vozes?
Os repórteres de televisão sabem que os membros dessas estranhas turbas respondem à câmera de televisão como se fossem atores. Quando nenhum canal está transmitindo, ficam tranqüilos, descansam a voz, o corpo e a alma. Na hora em que, numa câmera, acende-se a luz da gravação, eles pegam fogo.
Há os que querem ser vistos por parentes e amigos do bar, e fazem sinais ou erguem cartazes. Mas, em sua maioria, os membros da turba se animam na hora do “ao vivo” como se fossem “extras”, pagos por uma produção de cinema. Qual é o script?
Eles realizam uma cena da qual eles supõem que seja o que nós, em casa, estamos querendo ver. Parecem se sentir investidos na função de carpideiras oficiais: quando a gente olha, eles devem dar evasão às emoções (raiva, desespero, ódio) que nós, mais comedidos, nas salas e nos botecos do país, reprimiríamos comportadamente.
Pelo que sinto e pelo que ouço ao redor de mim, eles estão errados. O espetáculo que eles nos oferecem inspira um horror que rivaliza com o que é produzido pela morte de Isabella.
Resta que eles supõem nossa cumplicidade, contam com ela. Gritam seu ódio na nossa frente para que, todos juntos, constituamos um grande sujeito coletivo que eles representariam: “nós”, que não matamos Isabella; “nós”, que amamos e respeitamos as crianças -em suma: “nós”, que somos diferentes dos assassinos; “nós”, que, portanto, vamos linchar os “culpados”.
Em parte, a irritação que sinto ao contemplar a turma do “pega e lincha” tem a ver com isto: eles se agitam para me levar na dança com eles, e eu não quero ir.
As turbas servem sempre para a mesma coisa. Os americanos de pequena classe média que, no Sul dos Estados Unidos, no século 19 e no começo do século 20, saíam para linchar negros procuravam só uma certeza: a de eles mesmos não serem negros, ou seja, a certeza de sua diferença social.
O mesmo vale para os alemães que saíram para saquear os comércios dos judeus na Noite de Cristal, ou para os russos ou poloneses que faziam isso pela Europa Oriental afora, cada vez que desse: queriam sobretudo afirmar sua diferença.
Regra sem exceções conhecidas: a vontade exasperada de afirmar sua diferença é própria de quem se sente ameaçado pela similaridade do outro. No caso, os membros da turba gritam sua indignação porque precisam muito proclamar que aquilo não é com eles. Querem linchar porque é o melhor jeito de esquecer que ontem sacudiram seu bebê para que parasse de chorar, até que ele ficou branco. Ou que, na outra noite, voltaram bêbados para casa e não se lembram em quem bateram e quanto.
Nos primeiros cinco dias depois do assassinato de Isabella, um adolescente morreu pela quebra de um toboágua, uma criança de quatro anos foi esmagada por um poste derrubado por um ônibus, uma menina pulou do quarto andar apavorada pelo pai bêbado, um menino de nove anos foi queimado com um ferro de marcar boi. Sem contar as crianças que morreram de dengue. Se não bastar, leia a coluna de Gilberto Dimenstein na Folha de domingo passado.
A turba do “pega e lincha” representa, sim, alguma coisa que está em todos nós, mas que não é um anseio de justiça. A própria necessidade enlouquecida de se diferenciar dos assassinos presumidos aponta essa turma como representante legítima da brutalidade com a qual, apesar de estatutos e leis, as crianças podem ser e continuam sendo vítimas dos adultos.

FOLHA DE SÃO PAULO


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