06/03/2009 - 12:26h Descasamento, desligamento: abrindo a caixa preta da vida econômica

 

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*Ricardo Abramovay – VALOR

Não há desafio atual mais importante que o de transformar as bases materiais e energéticas em que se exprime o extraordinário aumento de renda do mundo contemporâneo. Para enfrentá-lo, são necessárias três rupturas fundamentais. A primeira é de natureza teórica: a ciência econômica faz abstração do conteúdo material e energético da reprodução social e se dedica apenas à maneira como a fartura e a escassez se traduzem nos preços. A segunda ruptura é contábil: não se trata mais de medir a riqueza social somente por aquilo que se compra e vende, e sim com base na ideia da ecologia industrial de que as economias modernas são organismos vivos, cujo metabolismo precisa ser permanentemente avaliado. A terceira ruptura é política e embute a ousadia de que o crescimento econômico talvez não seja o objetivo mais relevante para o bem-estar, ao menos naquelas sociedades que já atingiram alto grau de abundância material.

É notável o avanço de vários países da OCDE na formulação deste problema. Os termos decisivos são descasamento ou desligamento (decoupling, delinking): eles sinalizam para a quebra do vínculo entre crescimento econômico e uso dos recursos. Isso supõe o estabelecimento de uma contabilidade dos fluxos de insumos e detritos que se encontram não somente nos processos produtivos, mas também no consumo. Além da famosa (e muito criticada) pegada ecológica, existe hoje um conjunto amplo de indicadores e de institutos de pesquisa voltados a conhecer de perto as bases materiais e energéticas em que repousam o funcionamento da sociedade. Por incrível que possa parecer, este é um objetivo que não faz parte da ciência econômica, ao menos da maneira como é convencionalmente ensinada.

Há diversas técnicas para medir o avanço deste salutar descasamento entre a riqueza e seu fundamento biofísico. A “contabilidade nacional agregada de fluxos materiais” já é hoje amplamente utilizada na União Europeia. A Alemanha, o Japão e a Suíça elaboram relatórios governamentais públicos a este respeito, estimando o material necessário à produção de bens e serviços. O Japão tem como objetivo nacional chegar a uma “sound material-cycle society”, uma sociedade baseada num ciclo de vida saudável de sua base material. Seus relatórios ambientais partem da constatação de que “o crescimento econômico rápido associa a geração de vasto montante de lixo à crescente escassez de recursos”. O país gera 470 milhões de toneladas de lixo anualmente e seus aterros estão com os dias contados: 7,7 anos ao longo de todo o arquipélago e 3,4 anos na região metropolitana de Tóquio.

Uma das medidas básicas da contabilidade de fluxos materiais (Material Flow Account) é o peso físico daquilo que forma o processo produtivo. É claro que o impacto de um quilo de areia é bem diferente do estrago que um quilo de mercúrio pode provocar. Ainda assim, o livro, cujo título parodia a obra de Adam Smith (The Weight of Nations – Material Outflows From Industrial Economies, organizado por Emily Matthews e publicado pelo World Resources Institute), é uma referência incontornável.

Metade a três quartos dos insumos industriais da Alemanha, da Holanda, do Japão e dos Estados Unidos volta ao meio ambiente como lixo, após utilização. O requerimento material total (Total Material Requirement) necessário ao aparato produtivo (e que inclui tanto importações quanto “fluxos ocultos”, como erosão agrícola ou perda de solo na construção civil) varia de 45 toneladas per capita no Japão a mais de 80 toneladas per capita nos Estados Unidos.

É bem verdade que a eficiência aumenta ao longo do tempo nos países estudados. Cada unidade de PIB vai sendo produzida com quantidade menor de matéria e energia. Estes ganhos, no entanto, são largamente contrabalançados pelo crescimento econômico e pelos padrões de consumo destes países. O descasamento é apenas relativo à quantidade de materiais e energia por unidade de PIB. No entanto, em termos absolutos, a quantidade de lixo por habitante e a de materiais e energia utilizados no processo produtivo continua aumentando. A conclusão do livro organizado por Matthews é inequívoca: “a mudança econômica estrutural [em direção a uma economia de serviços] e os ganhos de eficiência tecnológica, sozinhos, têm poucas chances de trazer real redução no uso de recursos e na produção de rejeitos”.

A elevação do contingente populacional que, sobretudo na Ásia e na América Latina, passa a dispor de renda para partilhar ao menos de parte do padrão de consumo característico dos países centrais, só vem agravar este problema. Relatório recente da Goldman Sachs (The Expanding Middle: The Exploding World Middle Class and Falling Global Inequality) prevê a entrada de quase 1,5 bilhão de pessoas no que se pode chamar de “classe média mundial” até 2030, algo como 70 milhões de pessoas (com renda) por ano.

As conquistas recentes na luta contra a pobreza (e, até, embora em menor proporção, contra a desigualdade) são notáveis e marcam a vida de muitos países, além dos BRIC. No entanto, estes indicadores materiais sobre a relação entre sociedade e natureza mostram que poder corretivo espontâneo do crescimento e do progresso técnico não será capaz, por si só, de evitar o rochedo que se avizinha e as pressões sobre os recursos existentes que esta nova afluência vem reforçar.

A liderança mundial dos próximos anos não estará nas mãos dos países que vão crescer, vencer a pobreza e reduzir a desigualdade, e sim daqueles que conseguirem fazê-lo modificando o conteúdo material e energético da vida econômica. O que supõe não o mimetismo de acreditar que petróleo, biocombustíveis para motores a combustão interna e grandes obras para exportação formam o caminho do futuro, e sim a transição para sistemas produtivos que preservem o patrimônio natural, se apoiem no consumo cada vez menor de matéria e energia e valorizem a biodiversidade.

Ricardo Abramovay , professor titular do Departamento de Economia da FEA/USP, é coordenador de seu Núcleo de Economia Socioambiental (Nesa) e pesquisador do CNPq. www.econ.fea.usp.br/abramovay/

09/09/2008 - 09:23h A experiência do século

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Começa a funcionar o acelerador de partículas que recriará condições do Big Bang

Antônio Marinho* – O Globo

Será dada a partida amanhã à maior experiência científica do século e numa nova era na física. A Organização Européia de Pesquisa Nuclear (CERN, na sigla em inglês), em Genebra, acionará o mais potente acelerador de partículas já construído, o Large Hadron Collider (LHC). Ele está localizado cem metros sob a superfície, num túnel subterrâneo de 27 quilômetros de circunferência, na fronteira da Suíça com a França. O objetivo é encontrar a origem das massas das partículas e decifrar a origem do Universo.
O projeto é ambicioso. A construção do acelerador começou em 1996, custou 3,76 bilhões de euros e envolveu dez mil cientistas e engenheiros de 580 universidades, incluindo brasileiros (com apoio do CNPq/MCT). Segundo Robert Aymar, diretor da CERN, o LHC proporcionará “descobertas que mudarão nossa visão do mundo, em particular sobre a sua criação”: — Há partículas muito mais pesadas do que as que conhecemos.
É o que chamamos de matéria negra.
Com o LHC vamos identificar e compreender esta matéria, que compõe 23% do Universo.
Um dos principais objetivos é detectar o bóson de Higgs, cuja existência é inferida, mas nunca foi comprovada.
Os físicos acreditam que o bóson seria o responsável por dotar de massa tudo o que existe no Universo.

A comprovação de sua existência ajudaria a explicar por que as massas são tão diversas.

— O principal objetivo é encontrar o Higgs — diz o brasileiro Alberto Santoro, coordenador do grupo da Uerj que participa da experiência.

Milhões de colisões por segundo

Amanhã será a primeira vez que os prótons começam a circular no LHC. Este será um período de observação da máquina.

— Haverá dados para analisar nesta rodada, mas ainda não veremos sinal do Higgs porque precisamos aumentar bastante o número de eventos. Um acelerador funciona com campos eletromagnéticos para acelerar as , e magnetos supercondutores para mantêlas em órbita. Na máquina estão os detectores que vão registrar os acontecimentos do choque dos prótons — explica Santoro.
Dados mais consistentes devem ser obtidos até o fim do ano. Além do Higgs, cientistas querem estudar outras partículas, como as chamadas supersimétricas ou glúons.
Santoro acredita que o LHC poderá recriar as condições que ocorreram logo após o Big Bang: — Logo após sim, mas ainda distante.
Porém estamos dando mais um passo importante no caminho de aproximação de algumas das condições naquele momento.
O anel de 27 quilômetros de circunferência foi resfriado durante dois anos até chegar à temperatura de 271,3oCelsius negativos, ou seja, mais que o zero absoluto. Ao seu redor foram instalados quatro grandes detectores, em cujo núcleo serão produzidas as grandes colisões de prótons.
s prótons viajarão a uma velocidade bem similar à da luz (de cerca de 300 mil quilômetros por segundo).
Em potência máxima, 600 milhões de colisões por segundo devem produzir partículas, algumas nunca antes observadas. Para selecionar os 15 milhões de gigaoctetos de dados que serão recolhidos anualmente, 11 centros distribuirão a informação bruta para 200 instituições no mundo.
Entre os detectores, o Atlas e o CMS serão usados no estudo do Higgs. O LHCb tentará mostrar o que aconteceu com a antimatéria (matéria que apresenta carga elétrica inversa), no momento do Big Bang. O Alice analisará as colisões de íons de chumbo com o objetivo de recriar num lapso relâmpago o “caldo” de quarks e glúons que formavam a matéria nos primeiros microssegundos do Universo.
Quanto a afirmação de cientistas de que o LHC poderia gerar “buracos negros com risco de engolir a Terra”, o físico Rolf-Dieter Heuer, futuro diretor do CERN, diz que não há o menor perigo.

— O próprio Universo realiza milhares de experiências iguais às que serão iniciadas no CERN. Por exemplo, raios cósmicos de uma energia muito mais potente que o do LHC chocam-se com os astros e a Terra sem criar vorazes buracos negros. E o Universo existe há milhões de anos.

* Com agências internacionais

11/11/2007 - 07:48h Etanol: Brasil corre o risco de perder liderança

Estados Unidos avançam nas pesquisas científicas para produzir álcool a partir de diferentes tipos de resíduos

Liana Melo*
Enviada especial – O GLOBO
WASHINGTON e DENVER
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O Brasil virou um aliado fundamental no esforço concentrado dos Estados Unidos para reduzir sua dependência do petróleo.

Do alto de uma produção de 18 bilhões de litros de etanol, o Brasil está nadando de braçadas, já que é o único país onde a produção não depende de subsídios governamentais para sobreviver e mais, ser competitiva. Só que essa liderança mundial está correndo sérios riscos.

O país pode perder a corrida tecnológica caso não acelere imediatamente as pesquisas em etanol de celulose ou de segunda geração, que inclui diferentes tipos de biomassa, como bagaço de cana-de-açúcar, palha de milho, resíduos de madeira, trigo, capim, sorgo.

O protagonismo brasileiro no etanol está sendo ameaçado justamente por aquele que, hoje, depende do Brasil: os Estados Unidos.

EUA vão investir US$ 1,5 bi em pesquisa
Em 2008, o governo americano está planejando investir US$ 1,5 bilhão em pesquisas energéticas, e o etanol de celulose vai receber US$ 200 milhões.

A parceria governamental com o setor privado e a academia começou em 2006 e já está bastante azeitada. Já no Brasil, a corrida tecnológica está mais lenta e menos organizada.

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) ainda está concluindo o primeiro edital para induzir pesquisas com etanol de celulose. O orçamento é de R$ 22 milhões e a previsão é que os projetos sejam julgados e selecionados até o dia 14 de dezembro, segundo José Oswaldo Siqueira, diretor de Programas Temáticos e Setoriais do órgão.

Ainda que o Brasil tenha acumulado três décadas de experiência e conte com vantagens — a produtividade do etanol brasileiro (74 toneladas por hectare) é superior à média mundial (69 toneladas por hectare) —ganha a corrida do etanol de segunda geração quem primeiro descobrir descobrir a melhor rota tecnológica para transformar resíduo em álcool. Nem o BNDES anunciou ainda linhas de crédito para pesquisa e desenvolvimento na área.

— Se continuarmos de braços cruzados vamos perder a corrida tecnológica. Com ações isoladas e pouca massa crítica, não vamos chegar a lugar nenhum — pontua Luiz Augusto Cortez, vice-coordenador do Grupo Energia Projeto Etanol, do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), do qual fazem parte cerca de 20 instituições brasileiras.

Nos Estados Unidos, seis plantas-piloto já saíram do papel.

O orçamento é de US$ 385 milhões, e a previsão é produzir 863,7 milhões de litros de etanol de celulose. Os projetos estão espalhados pelos estados de Kansas, Flórida, Califórnia, Iowa, Idaho e Georgia.

No Brasil, o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (Cenpes) é o primeiro projeto oficial. A Petrobras investiu R$ 3 milhões para produzir 280 litros de etanol diários, feitos a partir de bagaço de cana. A produção industrial deve começar em 2010.

Os Estados Unidos já identificaram 1,17 bilhão de toneladas de biomassa para etanol de celulose. Até agora nenhum processo é economicamente competitivo. Todo esse esforço científico está sendo liderado pelo Laboratório Nacional de Energia Renovável (NREL, sigla em inglês), no Colorado.

— Temos metas arrojadas a cumprir, e o principal objetivo é reduzir o custo do etanol de milho, que hoje é de US$ 0,52 por litro para US$ 0,34 por litro até 2012 — disse Helena Chum, do NREL, vinculado ao Departamento de Energia dos EUA.

Nascida em São Paulo e morando nos Estados Unidos há 30 anos, Helena Chum foi peçachave nas articulações bilaterais entre o Brasil e os Estados Unidos, que culminaram com o acordo assinado entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e George W. Bush, no começo do ano.

O NREL vem desenvolvendo várias pesquisas aplicadas e a mais adiantada delas, por enquanto, é com a DuPont, que consumiu investimentos de US$ 38 milhões. Outra parceira vem sendo desenvolvida com a espanhola Abengoa, para usar microorganismos no processo de produção do etanol celulósico.

— As petroleiras não gostam muito de etanol, mas estão preocupadas em incorporar conhecimentos na área de biocombustível — admitiu Alan Weimer, que coordenada o Centro de Biorrefinaria e Biocombustíveis (C2B2), da Universidade do Colorado.

Grupo de empresas já tem 40 projetos em análise
Chevron, Dow Chemical, Shell, General Motors, ADM e Novozyme são algumas das 27 empresas que fazem parte do conselho diretor do C2B2, criado há 18 meses. Cada uma delas desembolsou US$ 300 mil anuais e aplicou 10% num fundo de pesquisa compartilhada, que dá direito a ficarem isentas de pagamento de r oyalties em caso de patente reconhecida.

Dos 65 projetos apresentados, 40 deles estão sendo analisados.

Mas não são apenas as grandes companhias que estão se associando às universidades americanas. Na Georgia, a Range Flues é um exemplo típico dessa parceria com empresas recém-criadas. Usando restos de madeira, ela tem a meta de produzir 76 milhões de litros de etanol. Seu dono é o conhecido investidor em fontes de energia renovável, Vinod Khosla, um dos fundadores da Sun Microsystems.

Outros centros de pesquisa dos Estados Unidos também estão se mobilizando, e a concorrência para saber quem vai chegar primeiro nessa corrida tecnológica está acirrada. Os principais adversários da Universidade do Colorado são as universidades de Berkeley, Iowa e Georgetown.