24/07/2009 - 09:48h Empresários mudam o foco das pressões. Defesa do corte da Selic é substituída pela redução do spread bancário

Marcelo Rehder – O Estado SP

A avaliação de que o Banco Central (BC) chegou ao limite na redução da taxa básica de juros (Selic) levou representantes da indústria e do comércio a mudar o foco de pressão: em vez de insistir no corte da Selic, que tem tido efeito limitado nas taxas cobradas no mercado, as entidades empresariais cobram do governo uma atuação mais firme para redução do spread embutido nas operações de financiamento dos bancos.

Para entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio SP), o spread (a diferença entre a taxa que as instituições pagam para captar recursos e a taxa cobrada nos financiamentos a consumidores e empresas) é hoje o maior obstáculo para o crescimento da economia.

“Os altos spreads cobrados pelos bancos são absolutamente incompatíveis com a condição da economia brasileira”, afirma o presidente da CNI, Armando Monteiro Neto. “Não há país no mundo que atue em condições tão hostis do ponto de vista do financiamento.”

Na sua avaliação, não há razão para os spreads permanecerem em níveis tão elevados, a começar pelo custo de captação, que caiu bastante. “Ainda temos spreads tão altos porque temos um mercado deformado, aonde prevalece um baixo grau de competição e um alto nível de concentração bancária”.

“O spread bancário é um atentado ao crescimento do Brasil”, diz o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. Segundo ele, o País ainda não superou os efeitos da crise global e é decisivo diminuir o custo do dinheiro para os setores produtivos e o mercado consumidor.

O economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria (Iedi) Rogério César Souza observa que os bancos não repassaram para o spread os ganhos de escala obtidos nos últimos anos. Segundo ele, os empréstimos crescem a taxas superiores a 20% ao ano desde 2005. “Poderiam ter baixado os custos administrativos na formação do spread”, disse.

O economista Fábio Pina, da Fecomércio-SP, concluiu que a culpa é um pouco do próprio consumidor. “Enquanto o consumidor não entender o que está pagando e quanto está pagando, os bancos e as financeiras não vão diminuir de forma voluntária os seus spreads”, comentou.

O presidente da CNI diz que há muito por fazer. Primeiro, o ambiente precisa ser mais concorrencial. “Os bancos públicos agora estão cumprindo um papel importante, até induzindo um pouco a redução dos spreads.” Mas ressalta que apenas essa atuação estatal não resolverá o problema.

Para o Iedi, o governo deveria pensar em uma reforma ampla, que incluísse a implantação do cadastro positivo (lista de bons pagadores), corte de impostos, além da liberação do depósito compulsório.

24/07/2009 - 09:24h Selic cai mais rápido do que o spread

Taxa básica recua 4,5 pontos entre janeiro e maio, ante 2,4 pontos do spread; Febraban contesta comparação

Leandro Modé – O Estado SP

O spread bancário, diferença entre a taxa de juros que as instituições financeiras pagam na captação do dinheiro e a que cobram dos clientes, está caindo no Brasil em ritmo mais lento que o juro básico da economia (Selic). Segundo o Banco Central (BC), o spread médio do sistema caiu de 30,5 pontos porcentuais em janeiro para 28,1 pontos em maio, ou seja, 2,4 pontos. No mesmo período, a Selic saiu de 13,75% para 9,25% ao ano, diferença de 4,5 pontos.

“Isso se deve à inadimplência, que ainda está em ascensão”, disse o economista do Insper (ex-Ibmec São Paulo) Otto Nogami. Um colega que pede para não ser identificado tem explicação diferente. “Os bancos aproveitam que o produto que vendem (dinheiro) está escasso para cobrar mais caro.”

O economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Rubens Sardenberg, argumenta que a comparação entre spread e Selic não é correta do ponto de vista metodológico. “O certo é comparar o comportamento da Selic com o da taxa de aplicação (que mostra quanto os bancos cobram dos clientes)”, disse. Segundo o BC, a taxa de aplicação recuou de 42,4% em janeiro para 37,9% ao ano em maio, ou seja, 4,5 pontos – evolução idêntica à da Selic.

Sardenberg contesta, ainda, o peso que se dá no Brasil à questão do spread. “Ninguém compra um carro pensando no lucro da montadora, mas no preço que pagará pelo veículo”, compara. “O que importa (para o cliente bancário) é a taxa que paga.”

O debate sobre spread bancário não é novo no Brasil, mas tende a crescer por causa da queda da Selic para níveis historicamente baixos. Uma simulação feita pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) indica, por exemplo, que o juro médio cobrado no comércio fica em 106% ao ano com a Selic atual, de 8,75%. Ou seja, o financiamento equivale a mais de 12 vezes a taxa básica do País.

Segundo estudos internacionais (um deles do Fundo Monetário Internacional), o spread no Brasil é o mais alto do mundo. Os bancos atribuem essa situação a uma série de fatores: inadimplência mais elevada do que em outros países, impostos na intermediação financeira, depósitos compulsórios e despesas administrativas. O governo, porém, avalia que falta concorrência no setor.

O presidente da Anefac, Miguel de Oliveira, acha que as duas partes têm sua parcela de razão. “Os bancos estão certos em reclamar da cunha fiscal”, afirmou. “Em compensação, o governo está certo ao apontar para a falta de competição.”

Para o presidente da seguradora de crédito Coface, Fernando Blanco, o papel do consumidor (empresa ou cidadão) é fundamental para forçar a queda de juros e spreads. “Ambos não vão cair por oração, discurso, etc”, disse. Crédito, explica, é fruto de uma negociação individual. Por isso, o cliente deve fazer sua parte – por exemplo, pesquisar em várias instituições antes de tomar um empréstimo.

20/01/2009 - 12:31h Economistas e analistas da “Conferência Risco País da Coface” são unanimes: o Brasil está se saindo relativamente bem em meio ao furacão

Para analistas, o Brasil é o menos afetado dos Bric

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Cristiane Perini Lucchesi, de Paris – VALOR

O grupo dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), que reúne algumas das maiores economias dos países emergentes, foi atingido pela crise de crédito com força após a quebra da Lehman Brothers, em meados de setembro do ano passado. O Brasil, no entanto, está se saindo relativamente bem em meio ao furacão, segundo opinião unânime dos analistas e economistas presentes à Conferência de Risco País da Coface 2009.

A seguradora de risco de crédito corporativo colocou em observação para possível rebaixamento a classificação de risco de crédito da China, que é “A3″, informou Yves Zlotowski, economista-chefe da Coface. A Rússia, que tem nota “B”, também acaba de ser incluída na mesma categoria, de acordo com Zlotowski. Já o Brasil, de nota “A4″, um degrau abaixo da nota chinesa e um degrau acima da russa, não sofreu qualquer alteração. Desde o início da crise do “subprime” a Coface não alterou sua nota para o Brasil.

Segundo Zlotowski, de uma forma geral os Bric não têm déficit em conta corrente preocupante – diferentemente dos países bálticos e do Leste Europeu -, têm reservas internacionais de sobra e o déficit público está sob controle. O problema na China, no seu entender, é o baixo nível de transparência de suas empresas. Já na Rússia, o grande endividamento externo de suas empresas está “explodindo” com a desvalorização cambial dos últimos meses.

No Brasil, segundo ele, a dívida externa das empresas foi reduzida e alongada depois do susto de 2002, e representa menos em relação ao total. Além disso, o sistema bancário tem mostrado extrema “resiliência à crise”, afirma. A pauta de exportação brasileira é mais diversificada e as vendas são para um grande número de parceiros comerciais. Diferentemente do México, que tem quase 80% de suas exportações destinadas aos Estados Unidos e acaba de ter sua nota reduzida de “A3″ para “A4″ pela Coface.

Kenneth Rogoff, ex-economista-chefe do FMI, acredita no aumento da probabilidade de moratória de países mais vulneráveis, que vão precisar da ajuda do Fundo Monetário Internacional, como a Hungria, Turquia, Romênia e países bálticos. A queda na arrecadação fiscal com o crescimento menor vai tornar mais difícil o pagamento da dívida para esses países, diz.

Para Rogoff, o Brasil e a Índia são dois países que estão se saindo melhor em meio à crise, mesmo considerando-se os países desenvolvidos. Ele projeta crescimento de 1% a 2% para o Brasil neste ano. “O Brasil parece estar em melhor forma do que os outros Bric”, concorda Alicia Garcia Herrero, economista-chefe para os mercados emergentes do BBVA de Hong Kong. Ela lembra que as reservas internacionais são suficientes para cobrir toda a dívida externa pública do país e que a depreciação cambial ajuda neste momento a reduzir a dívida líquida do setor público. Além disso, as altas taxas de juros e os níveis ainda elevados de depósito compulsório permitem estímulos monetários importantes ao crescimento. Ela lembrou, no entanto, que ninguém mais fala em descolamento.

Olivier de Boysson, economista-chefe para pesquisa de mercados emergentes do Société Générale, também vê os países do Centro e Leste da Europa como os mais vulneráveis.

“Os mercados emergentes vinham muito bem até bem recentemente, mas hoje estão sofrendo com a queda nos preços do petróleo e das commodities”, disse Rogoff, que prevê um crescimento de 6% para a China neste ano, em comparação com os 8% de Alicia Herrero. Rogoff lembra que os emergentes sofrem também com a falta de crédito para as empresas pequenas e médias nos países ricos, que compram os produtos desses países e estão ficando sem crédito. “Isso afeta suas exportações”, diz.

Para o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, os países emergentes serão os primeiros a voltar a crescer com mais força em 2010, puxando o crescimento econômico mundial.