23/09/2008 - 16:10h Lula defende “regulação” na economia mundial, no seu discurso na ONU

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Agencia Estado

 

SÃO PAULO - Na abertura da 63ª Assembléia Geral das Organizações das Nações Unidas (ONU), em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta terça-feira, 23, citando o economista Celso Furtado, que a privatização dos lucros e a socialização das perdas é uma atitude “inadmissível”. Lula centrou seu discurso na crise financeira global. “A crise financeira é dura realidade. A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos, após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial”, acrescentou.Em clara referência ao pacote de socorro implementado pelo governo norte-americano, o presidente observou que as “indispensáveis intervenções” realizadas pelo Estado mostram que “é chegada hora da política”. “Somente ação determinada dos governantes, em especial de países que estão no centro da crise, será capaz de combater a desordem que se instalou nas finanças internacionais, com efeitos perversos na vida cotidiana de milhões de pessoas”.

Leia abaixo a íntegra do discurso:

Discurso do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura do debate geral da 63ª Assembléia Geral das Nações Unidas, Nova Iorque-EUA, 23 de setembro de 2008

Senhores e senhoras chefes de Estado e de Governo,

Senhor Miguel d’Escoto, presidente da Assembléia Geral das Nações Unidas,

Senhor Ban Ki-moon, secretário-geral das Nações Unidas,

Senhoras e senhores chefes de Delegação,

Saúdo, com alegria, o presidente da Assembléia Geral, meu ilustre amigo Miguel d’Escoto. Desejo-lhe pleno êxito em sua missão.

Esta Assembléia realiza-se em um momento particularmente grave. A crise financeira, cujos presságios vinham se avolumando, é hoje uma dura realidade. A euforia dos especuladores transformou-se em angústia dos povos após a sucessão de naufrágios financeiros que ameaçam a economia mundial.

As indispensáveis intervenções do Estado, contrariando os fundamentalistas do mercado, mostram que é chegada a hora da política. Somente a ação determinada dos governantes, em especial naqueles países que estão no centro da crise, será capaz de combater a desordem que se instalou nas finanças internacionais, com efeitos perversos na vida cotidiana de milhões de pessoas.

A ausência de regras favorece os aventureiros e oportunistas, em prejuízo das verdadeiras empresas e dos trabalhadores. É inadmissível, dizia o grande economista brasileiro Celso Furtado, que os lucros dos especuladores sejam sempre privatizados e suas perdas, invariavelmente socializadas.

O ônus da cobiça desenfreada de alguns não pode recair impunemente sobre os ombros de todos. A economia é séria demais para ficar nas mãos dos especuladores. A ética deve valer também na economia. Uma crise de tais proporções não será superada com medidas paliativas. São necessários mecanismos de prevenção e controle, e total transparência das atividades financeiras.

Os organismos econômicos supranacionais carecem de autoridade e de instrumentos práticos para coibir a anarquia especulativa. Devemos reconstruí-los em bases completamente novas. Dado o caráter global da crise, as soluções que venham a ser adotadas deverão ser também globais, tomadas em espaços multilaterais legítimos e confiáveis, sem imposições. Das Nações Unidas, máximo cenário multilateral, deve partir a convocação para uma resposta vigorosa às ameaças que pesam sobre nós.

Há outras questões igualmente graves no mundo de hoje. É o caso da crise alimentar, que ameaça mais de um bilhão de seres humanos; da crise energética, que se aprofunda a cada dia; dos riscos para o comércio mundial, se não chegarmos a um acordo na Rodada de Doha; e da avassaladora degradação ambiental, que está na origem de tantas calamidades naturais, golpeando sobretudo os mais pobres.

Senhor Presidente,

Senhoras e senhores,

O Muro de Berlim caiu. Sua queda foi entendida como a possibilidade de construir um mundo de paz, livre dos estigmas da Guerra Fria. Mas é triste constatar que outros muros foram se construindo, e com enorme velocidade. Muitos dos que pregam a livre circulação de mercadorias e capitais são os mesmos que impedem a livre circulação de homens e mulheres, com argumentos nacionalistas, e até fascistas, que nos fazem evocar, temerosos, tempos que pensávamos superados.

Um suposto “nacionalismo populista”, que alguns pretendem identificar e criticar no Sul do mundo, é praticado sem constrangimento em países ricos. As crises financeira, alimentar, energética, ambiental e migratória, para não falar das ameaças à paz em tantas regiões, demonstram que o sistema multilateral deve se adequar aos desafios do século XXI. Aos poucos vai sendo descartado o velho alinhamento conformista dos países do Sul aos centros tradicionais.

Essa nova atitude não conduz, no entanto, a uma postura de confrontação. Simplesmente pelo diálogo direto, sem intermediação das grandes potências, os países em desenvolvimento têm-se credenciado a cumprir um novo papel no desenho de um mundo multipolar. Basta citar iniciativas como o IBAS, o G-20, as cúpulas América do Sul-África ou América do Sul-Países Árabes e a articulação dos BRICs.

Está em curso a construção de uma nova geografia política, econômica e comercial no mundo. No passado, os navegantes miravam a estrela polar para “encontrar o Norte”, como se dizia. Hoje estamos procurando as soluções de nossos problemas contemplando as múltiplas dimensões de nosso Planeta. Nosso “norte” às vezes está no Sul.

Em meu continente, a Unasul, criada em maio deste ano, é o primeiro tratado - em 200 anos de vida independente - que congrega todos os países sul-americanos. Com essa nova união política vamos articular os países da região em termos de infra-estrutura, energia, políticas sociais, complementaridade produtiva, finanças e defesa.

Reunidos em Santiago do Chile há pouco mais de uma semana os presidentes da América do Sul, comprovamos a capacidade de resposta rápida e eficaz da Unasul frente a situações complexas, como a que vive a nação-irmã boliviana. Respaldamos seu governo legitimamente eleito, suas instituições democráticas e sua integridade territorial e fizemos um apelo ao diálogo como caminho para a paz e a prosperidade do povo boliviano.

Em dezembro, o Brasil irá sediar, na Bahia, uma inédita cúpula de toda a América Latina e do Caribe sobre integração e desenvolvimento. Será uma reunião de alto nível, sem qualquer tutela, assentada em uma perspectiva própria latino-americana e caribenha.

Todos esses esforços no plano multilateral são complementados por meio de ações de solidariedade de meu país para com nações mais pobres, especialmente na África. Quero também enfatizar nosso compromisso com o Haiti, país em que exercemos o comando das tropas da Minustah e ajudamos a restabelecer a paz. Renovo meu chamamento à solidariedade dos países desenvolvidos com o Haiti, muito prometida e pouco cumprida.

Senhor Presidente,

A força dos valores deve prevalecer sobre o valor da força. É preciso que haja instrumentos legítimos e eficazes de garantia da segurança coletiva.

As Nações Unidas discutem há quinze anos a reforma do Conselho de Segurança. A estrutura vigente, congelada há seis décadas, responde cada vez menos aos desafios do mundo contemporâneo. Sua representação distorcida é um obstáculo ao mundo multilateral que todos nós almejamos. Considero, nesse sentido, muito auspiciosa a decisão da Assembléia Geral de iniciar prontamente negociações relativas à reforma do Conselho de Segurança.

O multilateralismo deve guiar-nos também na solução dos complexos problemas ligados ao aquecimento global, com base no princípio de responsabilidades comuns, porém diferenciadas. O Brasil não tem fugido a suas responsabilidades. Nossa matriz energética é crescentemente limpa.

As crises alimentar e energética estão profundamente entrelaçadas. Na inflação dos alimentos estão presentes - ao lado de fatores climáticos e da especulação com as commodities agrícolas - os aumentos consideráveis do petróleo, que incidem pesadamente sobre o custo de fertilizantes e transporte.

A tentativa de associar a alta dos alimentos à difusão dos biocombustíveis não resiste à análise objetiva da realidade. A experiência brasileira comprova - o que poderá valer também para outros países com características semelhantes - que o etanol de cana-de-açúcar e a produção de biodiesel diminuem a dependência de combustíveis fósseis, criam empregos, regeneram terras deterioradas e são plenamente compatíveis com a expansão da produção de alimentos. Queremos aprofundar esse debate, em todos os seus aspectos, na Conferência Mundial sobre biocombustíveis que convocamos para novembro, na cidade de São Paulo.

Minha obsessão com o problema da fome explica o empenho que tenho tido, junto a outros líderes mundiais, para chegar a uma conclusão positiva da Rodada de Doha. Continuamos insistindo em um acordo que reduza os escandalosos subsídios agrícolas dos países ricos. O êxito da Rodada de Doha terá impacto muito positivo na produção de alimentos, sobretudo nos países pobres e em desenvolvimento.

Senhor Presidente,

Há quatro anos, junto com vários líderes mundiais, lancei aqui em Nova Iorque a Ação contra a Fome e a Pobreza. Nossa proposta era, e continua sendo, a de adotar mecanismos inovadores de financiamento. A Unitaid, Central de Compra de Medicamentos, é um primeiro resultado dessa iniciativa, ajudando a combater Aids, tuberculose e malária em vários países da África. Mas não basta. Precisamos avançar, e muito, se queremos que a Humanidade cumpra efetivamente as Metas do Milênio.

Em dezembro serão comemorados os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que não pode ser objeto de uma homenagem meramente protocolar. Ela traduz compromissos inalienáveis, que nos interpelam a todos. Como governantes, mais do que a defesa retórica da Declaração, somos chamados a lutar para que os valores proclamados há seis décadas se transformem em realidade em cada país e em todo o mundo.

Senhor Presidente,

O Brasil de hoje é muito distinto daquele de 2003, ano em que assumi a Presidência do meu país e em que, pela primeira vez, compareci a esta Assembléia Geral. Governo e sociedade deram passos decisivos para transformar a vida dos brasileiros. Criamos quase 10 milhões de empregos formais. Distribuímos renda e riqueza. Melhoramos os serviços públicos. Tiramos 9 milhões de pessoas da miséria e outras 20 milhões ascenderam à classe média. Tudo isso em um ambiente de forte crescimento, estabilidade econômica, redução da vulnerabilidade externa e, o que é mais importante, fortalecimento da democracia, com intensa participação popular.

No ano em que celebramos o centenário do grande brasileiro Josué de Castro, o primeiro diretor-geral da FAO e um dos pioneiros da reflexão sobre o problema da fome no mundo, vale a pena recordar sua advertência: “Não é mais possível deixar-se impunemente uma região sofrendo de fome, sem que o mundo inteiro venha a sofrer as suas conseqüências.” Tenho orgulho de dizer que o Brasil está vencendo a fome e a pobreza.

Senhor Presidente,

Reitero o otimismo que expressei aqui há cinco anos. Somos muito maiores do que as crises que nos ameaçam. Dispomos de sentimento, razão e vontade para vencer qualquer adversidade. Esse, mais do que nunca, é o espírito dos brasileiros.

Muito obrigado.

12/08/2008 - 19:19h Sergio Leo descobriu petróleo no seu sitio

Esse Sergio Leo que já tive ocasião de elogiar aqui no blog, não presta. O cara é jornalista e trabalha em jornal de classe, o Valor. Mas quando seus colegas jornalistas, editorialistas, comentaristas estão de costas ele vai e lê o que eles escreveram no tempo de Matusalém. Isso não se faz, cadê a solidariedade?

Não teve um que pediu para esquecerem o que tinha escrito? Porque esse direito seria sonegado a editorialista de jornal? Só tucano pode?

A sacanagem de Sergio Leo tem a marca do lulez, como diria o macaco simão. Vejam a foto de Lula e depois leiam o texto do Sitio do Leo e vocês concordarão comigo.

En fim, como não quero ser acusado de não deixar o outro lado se expressar, aqui vai a nota de Sergio Leo. Desfrutem. LF

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Sal da terra

Sinto falta de editoriais e artigos dos colunistas de sempre sobre a Petrobras. Será que é por causa do lucro recorde da empresa, e da queda dos preços internacionais de petróleo, que transformam em bobagem as críticas desses editoriais e analistas pela demora da estatal em repasar a alta do petróleo ao preço dos combustíveis?

Diziam que a Petrobras estava agindo políticamente, absorvendo a alta internacional sem aumentar os preços internos. Um erro grave, diziam. A empresa argumentava que não fazia sentido repassar uma alta que poderia ser passageira.

Os preços internacionais agora caem, e os eventuais prejuízos da empresa com a manutenção dos preços internos foram mais que compensados com os lucros recordes. Se não tivesse corrigido os preços no segundo trimestre, pelo jeito, ainda assim a estatal estaria por cima da carne seca. Com essa atitude “política”, a Petrobras evitou uma brutal pressão inflacionária, que teria levado o Banco Central a aumentar ainda mais os juros colossais que pratica hoje.

É, não dá mesmo para escrever editoriais e colunas sobre o tema. Teriam de falar bem da ação política das estatais em favor da sociedade, contra a lógica do lucro máximo para os acionistas. Imagina escrever uma besteira dessas.

04/07/2008 - 17:06h Factóide eleitoral

Kassab encara caminhões para virar candidato

A imagem “http://blog.estadao.com.br/blog/media/Congestionamento_02.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

Cristiane Agostine - VALOR

Foi a necessidade de se associar a uma imagem forte, de governante que enfrenta obstáculos, que moveu a decisão do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), de editar medidas que restringem a circulação de caminhões.

À medida somam-se a proibição de outdoors, o fechamento de bares e casas de prostituição, a retirada de camelôs e o fechamento de estabelecimentos comerciais irregulares.

No governo e no DEM, a avaliação das medidas é que foi uma decisão “de risco”, mas “necessária” para Kassab. A equipe de campanha está preocupada com o fato de o prefeito não conseguir transformar a avaliação positiva de sua gestão em votos. Como o trânsito será o grande tema da campanha, o candidato à reeleição precisa mostrar que está empenhado em buscar soluções.

O consenso dos especialistas de que a restrição dos caminhões não será suficiente para melhorar o trânsito na cidade é reconhecido pelos conselheiros do prefeito. “Mas a população está irritada com o trânsito, que só tende a piorar, e ele precisava tomar uma medida enérgica”, conta um articulador do prefeito.

Nas pesquisas de opinião encomendadas pelo DEM, Kassab ainda não conseguiu elevar significativamente a intenção de votos. “Essa foi uma decisão arriscada, mas tomada pelo prefeito junto com seu conselho político. Não é uma decisão tomada só com marqueteiro”, diz um conselheiro. Segundo as últimas avaliações do Datafolha, 39% consideram a administração de Kassab ótima ou boa e 38%, regular. Já na intenção de voto, o prefeito está em terceiro lugar, com 15%, atrás de Marta Suplicy (PT), com 30%, e Geraldo Alckmin (PSDB), com 29%.

Preocupada em mensurar o impacto das medidas para o tráfego, a equipe de campanha de Kassab encomendou uma pesquisa quantitativa, com mil entrevistas, cujo resultado sairá no fim de semana.

O prefeito aposta que o resultado para sua imagem será semelhante ao que teve quando implementou o Cidade Limpa, que deu novas regras à publicidade e proibiu outdoors. Apesar de brigas com o setor publicitário, Kassab saiu fortalecido do episódio e ganhou projeção. Até então, era considerado apenas o vice de José Serra. O Cidade Limpa tornou-se a grande bandeira da gestão, a ponto de ter sua continuidade prometida tanto por Alckmin (PSDB) quanto por Marta (PT).

Certo de que as medidas projetarão seu governo, ontem Kassab anunciou a ampliação das restrições. Os caminhões terão de obedecer às mesmas regras do rodízio válido para os carros. A partir de 1 de agosto, os caminhões de pequeno porte acumularão duas restrições: farão parte do rodízio anunciado e não poderão circular de com outro rodízio, que leva em consideração se a placa é par ou ímpar (caminhão com placa par só circula em dia par). Segundo Kassab, a medida é “a mais branda entre todas as analisadas” e outras restrições poderão ser feitas.

Nos quatro primeiros dias com as novas regras a prefeitura aplicou 3.445 multas. Segundo o secretário de Transportes, Alexandre de Moraes, houve redução média de 40% no s índices de congestionamento nos três primeiros dias de julho em comparação com a média do mesmo mês de 2007.

Apesar da confiança do prefeito nas medidas, sua equipe de governo e de campanha eleitoral está cautelosa com o impacto econômico que pode ter no setor produtivo. O coordenador do programa de governo de Kassab é o secretário estadual de Trabalho, Guilherme Afif Domingos, ex-presidente da Associação Comercial de São Paulo. Além do possível aumento do preço de serviços e mercadorias, empresários e comerciários ameaçam a prefeitura dizendo que a medida poderá causar desemprego. Se antes ele teve de enfrentar o setor de publicidade, agora terá de mediar conflitos com representantes de toda a cadeia produtiva.

A mesma cautela têm os adversários de Kassab. Tanto Alckmin quanto Marta dizem que é preciso regulamentar o transporte de carga em São Paulo, mas questionam se a diminuição do trânsito com a restrição à circulação dos caminhões valerá o impacto econômico. Eles esperarão até agosto para avaliar se defenderão as medidas nas campanhas. Até lá, dizem, não é possível mensurar o quanto da melhora no trânsito se deve às férias escolares ou à medida.

A equipe de Alckmin, cuja área de transporte será coordenada pelo ex-secretário estadual Jurandir Fernandes, aprova o decreto, mas defende que haja uma redução de taxas e impostos, dos governos municipal e estadual, para os empresários e comerciários prejudicados. “Se for bem sucedido, seremos os primeiros a aplaudir. Se não tiver sucesso, não usaremos na campanha”, disse Fernandes. “O que não pode deixar de ter é uma forma de compensação pelos prejuízos”, apontou.

As críticas de Alckmin a Kassab serão focadas na falta de investimentos em corredores de ônibus e na construção de garagens subterrâneas no centro da cidade, para elevar a área de circulação dos automóveis. “O problema do trânsito não se resolve só com a carga pesada. Se não olhar para o todo, a cidade poderá ter só carros circulando e mesmo assim continuar parada.”

Já os articuladores de Marta não sabem se manterão as medidas na plataforma de governo e questionam a forma como estas foram implementadas. O coordenador da campanha de Marta, deputado Carlos Zarattini (PT), reclama da falta de diálogo com a sociedade. “Estamos muito preocupados com o impacto no setor produtivo, porque pode haver aumento de preços. Não pode haver inflação por conta de uma medida de trânsito. A medida foi adotada sem ampla negociação”.

Ex-secretário de Transportes na gestão de Marta, Zarattini diz que o atual governo acabou com os principais avanços da gestão petista na regulamentação do transporte de carga. “Na gestão Marta nós fizemos escalonamento de entrega. Cada setor tinha um horário. Fizemos um grande pacto com o setor produtivo. Quando Serra entrou, acabou com isso, jogou fora”, critica Zarattini.

Apesar de seguir as principais linhas deixadas por José Serra (PSDB) antes dele sair da prefeitura para o governo do Estado, Kassab foi mais ousado na alteração das regras de circulação de transporte de carga na cidade. No primeiro ano de governo, Serra assinou um decreto limitando a circulação de caminhões, mas sob pressão de empresários e comerciantes, o tucano recuou pelo menos três vezes nas medidas propostas antes mesmo de o governo começar a aplicar multas. Na época, a prefeitura alegou que não era um “recuo”, mas sim uma “correção”.

O decreto publicado por Serra em abril de 2005 mirava nos caminhões que faziam entregas para grandes comércios, como shoppings, supermercados, lojas de material de construção, concessionárias e hospitais e postos de combustível. A carga e descarga poderia ser feita entre 22h e 6h; aos sábados, das 14h à meia-noite. Com isso, a previsão era que fossem retirados 3% dos caminhões em circulação. Os pequenos comerciantes não seriam afetados. Um mês depois, a prefeitura abrandou e autorizou a circulação de caminhões com até 5,5 metros. No mês seguinte, estendeu a permissão aos veículos com até 6,3 metros. Depois, isentou parte dos caminhões que abasteciam postos de combustíveis. A crítica feita à época por especialistas era que as transportadores trocariam um caminhão grande por três ou quatro menores, aumentado a frota em circulação.

O projeto de Kassab mira justamente nos caminhões com até 6,3 metros e afetará os pequenos comerciantes, que antes haviam sido poupados. Os caminhões estão proibidos de circular no centro expandido, que corresponde a 100 quilômetros quadrados, entre as 5h e 21h e sábado das 10h às 14h. Até o fim do mês, além da ampliação do trecho de restrição veículos de carga com até 6,3 metros passaram a ser atingidos por um rodízio de placas. De 01 de agosto até novembro, a proibição de circulação será para todos nas horas de pico, mas das 10h às 16h podem se revezar segundo a placa.

As medidas mais severas, que proíbem a circulação de caminhões no centro expandido, passam a valer em novembro, depois das eleições. Mas podem até serem suspensas, segundo o governo anunciou ontem. A primeira etapa das restrições servirá de teste nas negociações com as entidades do setor de transporte. As paralisações, como a que fechou a marginal do Tietê no primeiro dia de funcionamento das normas, não afetaram tanto o trânsito, que é mais tranqüilo no período. De agosto até outubro, mês da eleição, o prefeito terá um período para negociar com empresários e comerciários e remodelar o decreto, se o trânsito não melhorar. Se o resultado for positivo, será sentido pela população e entrará na campanha de Kassab.

Com o decreto, empresários e comerciários ameaçaram o governo com demissões nos setores e elevação do preço de mercadorias. “Se subir, é o preço que temos que pagar”, respondeu o prefeito. Mas às vésperas das eleições, o prefeito não descuidou do contato com os empresários. A negociação com entidades de classe começou há cerca de três meses. Na primeira reunião, o governo queria que a restrição total à circulação de caminhões no centro expandido passasse a valer imediatamente após a publicação do decreto. Diante das reclamações, postergou o prazo e acatou sugestões.

Para evitar novas paralisações, tanto o prefeito quanto o secretário de Transportes passaram os últimos dias em fiscalizações pela cidade e em encontros com empresários e sindicalistas. “Antes não queriam nos atender. Foi só fazer uma paralisação para isso mudar”, disse o secretário-geral do sindicato dos Condutores de Cargas Próprias, Luiz Nascimento.

O temor de caminhoneiros e comerciários é de que as demissões não sejam só uma ameaça ao prefeito. “Se as entregas forem feitas só à noite, isso pode elevar o custo das empresas, que terão de pagar um adicional aos funcionários. Isso levaria a demissões, para equilibrar a folha de pagamentos”, disse Nascimento. Na segunda-feira, o governo fará nova reunião com representantes do setor de transporte de cargas.

02/07/2008 - 09:26h Inflação ameaça reservas em 60 países. Para Brasil o impacto será relativamente pequeno, diz FMI

Para Strauss-Kahn, alta mundial dos preços de alimentos e do petróleo põe em risco os dez últimos anos de boas políticas macroeconômicas

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Patrícia Campos Mello, WASHINGTON - O Estado de São Paulo

A alta dos preços dos alimentos e do petróleo deixou alguns países numa “situação crítica”, disse ontem o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn. Segundo estudo do Fundo, há 60 países sob risco de acabar com as reservas internacionais se os preços desses itens se mantiverem no nível atual.

“Se os preços do petróleo se mantiverem no nível atual e os alimentos continuarem subindo, alguns governos não conseguirão alimentar a população e ao mesmo tempo manter a estabilidade da economia conquistada a altos custos”, disse Strauss-Kahn. Segundo ele, os dez últimos anos de boas políticas macroeconômicas estarão ameaçados pela inflação. O barril do petróleo subiu de US$ 30 em 2003 para mais de US$ 140 recentemente. A inflação dos alimentos dobrou desde 2006.

Para o Brasil, nos cálculos do Fundo, o impacto da alta dos preços do petróleo e dos alimentos será relativamente pequeno, o equivalente a 0,1% do Produto Interno Bruto (PIB) no déficit em conta corrente em 2009. Considerando apenas o choque do petróleo, o impacto seria equivalente a 0,4% do PIB, mas a alta dos alimentos será positiva para o País, que é predominantemente exportador (provocaria redução de 0,3% do PIB no déficit).

O FMI prevê que o déficit em conta corrente do Brasil será de 1% do PIB, em vez de 0,9% em 2009. A estimativa está desatualizada, já que a maioria dos bancos prevê que o déficit em conta corrente vai ultrapassar os 2,5% do PIB em 2009.

Na América Latina, os grandes perdedores serão Haiti, Nicarágua e Honduras, segundo o Fundo. Países como Chile (aumento de 0,6% do PIB no déficit) e Suriname (0,3%) também serão bastante afetados.

A Argentina terá grande impacto positivo, equivalente a 1,7% do PIB em redução no déficit em conta corrente (superávit de 1,2% do PIB em 2009, na previsão do FMI). No México, grande produtor de petróleo, o impacto também é positivo - 0,3% do PIB de redução no déficit em conta corrente. O Uruguai terá queda equivalente a 0,7% do PIB na conta corrente.

O estudo cita 18 países africanos em perigo por causa do choque do petróleo e da inflação dos alimentos: Eritréia, Etiópia, Guiné, Libéria, Madagáscar, Malawi, Congo, Zimbábue, Benin, Burkina Fasso, República Centro-Africana, Guiné-Bissau, Mali, Togo, Burundi, Comoros, Gâmbia e Serra Leoa.

Segundo Strauss-Kahn, os governos têm adotado medidas positivas e “nem tão positivas” contra o choque do petróleo e dos alimentos. “É positivo ampliar os programas de ajuda aos pobres, as redes de segurança para protegê-los da alta nos preços, e a redução de impostos sobre comida”, disse. “Mas há medidas muito ruins, como proibir exportações e aumentar subsídios a combustíveis.”

Ele informou que o Fundo está fazendo empréstimos a países com desequilíbrio no balanço de pagamentos por causa do aumento com importações de petróleo e alimentos. A situação é pior na África - na Libéria, por exemplo, a importação de petróleo chegou a 15% do PIB, equivalente à totalidade das reservas do país.

Strauss-Kahn, que participará da reunião do G-8 no Japão na semana que vem, espera que esse seja um dos principais temas debatidos no encontro.

11/05/2008 - 12:17h ‘Etanol do Brasil não compete com alimentos’

http://medias.lemonde.fr/mmpub/edt/ill/2005/05/13/h_9_ill_649704_lamy130505.jpg Diretor-geral da OMC afirma que solução para a alta de preços alimentícios passa pela abertura do comércio

O GLOBO ENTREVISTA
Pascal Lamy

GENEBRA. Se as atuais regras do comércio internacional forem aplicadas ao pé da letra, o Brasil pode taxar suas exportações de alimentos à vontade, como fez recentemente a Índia com sua produção de arroz. E pelo tempo que quiser, afirma o diretor-geral da Organização Mundial de Comércio (OMC), o francês Pascal Lamy. Porém, quando tira o chapéu de diretor da OMC e coloca o de economista, ele é categórico no sentido inverso. Limitar exportações, isto é, a oferta de produtos no mercado internacional, justamente num momento em que os preços das commodities estão em disparada, só vai ter um efeito: piorar a crise. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, Lamy analisa a atual crise e defende que abertura do comércio internacional é parte da solução do problema. Ele também defende abertamente o etanol brasileiro, dizendo que, pelos números que tem, “o etanol não está competindo com alimentos”.

Deborah Berlinck - O Globo

Correspondente


O GLOBO:
A crise dos alimentos fez voltar o debate sobre segurança alimentar, com críticos dizendo que é a prova de que países não podem depender de comércio internacional para alimentar sua população.

O que o senhor acha?

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PASCAL LAMY: Esta crise dos alimentos é multidimensional.

Há seca e um nível de estoque de alimentos historicamente baixo. Em alguns países, há competição de alimentos com combustíveis. Há preço da energia e mudança na dinâmica dos países em desenvolvimento que levaram a um aumento de consumo de cereais, já que as pessoas estão ficando menos pobres. Parte da crise está relacionada ao comércio, pois, pelas regras atuais, tem sido possível distorcer o comércio agrícola.Um dos objetivos da Rodada de Doha é dar um passo maior (para reduzir as distorções).
Para mim, o problema fundamental da crise é o desajuste entre oferta e demanda.

Qual é a solução?

LAMY: É preciso aumentar a produção. E a linha de transmissão entre oferta e demanda é o comércio.

O comércio resolveria esta crise completamente?

LAMY: Claro que não. Uma das razões é que a capacidade de produção nos países em desenvolvimento é insuficiente.
Não se investiu em agricultura. Não se exploraram as vantagens comparativas.

Poderiam ter explorado se o jogo das regras do comércio internacional fosse justo. É preciso atualizar os sistemas de armazenamento para produzir alimentos. Isso talvez deva ser feito com ajuda do Banco Mundial e da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentos e Agricultura). Comércio é apenas parte do problema e parte da solução. O problema não é muito comércio agrícola: é termos muito pouco comércio.

Voltando à segurança alimentar, essa noção de que cada país deve assegurar, mesmo com subsídios, alimento para sua população…

LAMY: Se países em desenvolvimento precisam de apoio e subsídios para aumentar a capacidade de sua produção agrícola, a OMC permite isso. Os países em desenvolvimento têm amplo espaço dentro das regras do comércio para subsidiar em agricultura.

O senhor está dizendo que é o que eles têm que fazer agora?

LAMY: As regras da OMC não impedem os países em desenvolvimento de aumentarem sua produção com subsídios à irrigação, por exemplo, ou pesquisa, treinamento, ou esquemas para melhorar capacidade.

Se eles começarem a subsidiar agora, isso pode atrapalhar as negociações para abertura do comércio agrícola?

LAMY: Desde que se respeitem as regras da OMC, está bom para mim! O problema das negociações são os subsídios às exportações agrícolas e os subsídios domésticos. E quem está sob foco dos holofotes? EUA, União Européia, Japão, Suíça, Noruega. Não é Índia, China, Brasil ou Senegal.

Vários países, como Brasil, Argentina, Vietnã e Índia, bloquearam ou limitaram suas exportações, para assegurar comida às suas populações. O que o senhor acha?


LAMY:
Meu cérebro tem três partes. A maior parte, do diretorgeral da OMC, vai olhar as regras. E elas dizem que cotas à exportação são proibidas, com exceção de emergência com crise alimentar. Não há menção de restrições à taxas de exportações.

Então o Brasil poderia aplicar taxas de exportação o tempo que quisesse?

LAMY:
No momento, não há regra alguma na OMC que proíbe taxar exportações. Mas paísesmembros estão extremamente divididos. Importadores de alimentos querem menos restrições às exportações, para assegurar que poderão contar com os mercados internacionais (de alimentos). Já os países exportadores de alimentos não concordam.

E as outras partes do seu cérebro?

LAMY: Uma pequena parte do meu cérebro é o economista, que tem como reação racional o seguinte: se tem um problema com preço dos alimentos, melhor aumentar a oferta que restringila. Caso contrário, você está fazendo o problema piorar.

Estão restringindo as exportações, mas estão garantindo ofertas para suas populações, não?


LAMY:
Mas estão restringindo oferta internacional. Isso explica por que o mercado internacional é tão volátil: porque o mercado de oferta é pequeno.

Há outra parte do meu cérebro, que é a política, que está preocupada com seu eleitorado. Se o meu povo está nas ruas protestando por causa do aumento dos preços dos alimentos, eu tenho que responder a ele e não à população do vizinho.

Tudo isso não alimenta quem diz que agricultura não pode ser tratada como comércio qualquer?

LAMY: Três quartos dos membros da OMC são países em desenvolvimento. Eles têm lutado muito nos últimos 20 anos para assegurar que as regras que são aplicadas para carros, sapatos, pneus podem ser de alguma forma aplicáveis à agricultura.

Francamente, dado o peso dos países em desenvolvimento, não vejo como mudar isso.

Especulação nos mercados agrícolas tem sido uma das razões para elevação dos preços.

Qual é a solução?

LAMY: Onde há mercado, há especulação. É engraçado: só se ouve sobre especulação quando o preço aumenta. Nos últimos 20 anos os preços baixaram também por conta de especulação. Sempre se busca um bode expiatório quando se tem problema.

O senhor então concorda com o presidente Lula, que diz que a razão da crise é que há mais pobre comendo?


LAMY:
Claro! Por definição, são os pobres que gastam a maior parte de seu dinheiro com comida. Quando os preços aumentam, são os mais atingidos.

Um economista americano argumenta que a maioria dos pobres não usa alimentos obtidos no mercado internacional. Então, o aumento do preço dos alimentos estaria afetando mais pessoas nos países ricos.


LAMY:
Não concordo com esta noção de que os países pobres estão desconectados dos mercados internacionais. Eles estão cada vez mais conectados.

Compare com a situação há 30 anos, quando grande parte das populações dos países em desenvolvimento estava em zonas rurais. Eles plantavam, produziam para seu próprio consumo e podiam mudar de um tipo de plantação para outra. Hoje a maioria da população está em zonas urbanas. É uma das razões pelas quais a volatilidade nos preços dos alimentos vai aumentar no futuro. Volatilidade é o que acontece quando o tamanho do mercado aumenta e o ajuste é mais difícil.

Como evitar alta volatilidade nos preços?

LAMY: Isso é muito difícil. Estoques e armazenamento são uma das soluções, desde que você não perca mais alimentos por causa de armazéns precários. A longo prazo, a única solução é ajustar oferta e demanda. Há um potencial para aumentar capacidade de produção nos países em desenvolvimento. Mas isso só vai acontecer se o aumento dos preços levar fazendeiros a produzirem mais.

Esta crise acontece num mal momento para o senhor, que está desesperado para fechar o acordo da Rodada de Doha?

LAMY: Pelo contrário. A produção insuficiente nos países em desenvolvimento é, em parte, resultado de políticas que distorcem o comércio internacional.

Isso mostra que subsídios e tarifas que distorcem o comércio precisam ser reduzidas.

O Brasil quer incluir o etanol na lista de produtos ambientais na OMC, sujeita à maior redução de tarifas. O que o senhor acha?

LAMY: É uma questão para negociação.

Como diretor-geral, preciso ser neutro. Na questão alimentos versus petróleo, estou impressionado como as pessoas são sistemáticas: ou é tudo bom, ou alguns meses depois, tudo ruim. Olhei os números do Brasil, que mostram claramente que etanol não está competindo com alimentos. Mas é preciso olhar toda a cadeia para ver se o etanol tem mesmo sentido sob o ponto de vista ambiental. E isso não é algo que se pode decidir assim.

O Brasil, então, está sendo injustamente criticado pelos que dizem que o etanol está provocando aumento de preços?


LAMY:
Os críticos que fazem uma condenação geral estão errados, como também os entusiastas, que antes diziam que tudo isso era formidável.

O Brasil tem ambição de ser grande exportador de etanol…

LAMY:
Se a questão é se o etanol brasileiro baseado em cana-de-açúcar é mais respeitoso ao meio ambiente que o etanol à base de milho dos EUA ou União Européia, eu digo: provavelmente sim. Mas meu negócio é comércio.

Negociadores na OMC fracassaram em cumprir vários prazos para chegar a um acordo da Rodada de Doha. Segundo o embaixador uruguaio, se um acordo não for fechado este ano, pode-se levar outros 20 anos. É um exagero?

LAMY:
Uma negociação como esta é um processo de acumulação: 152 membros com vários grupos de interesses têm que chegar a um acordo em 20 tópicos.

Então não há chance de se chegar a um acordo este ano?

LAMY: Acho que é possível. Há intenção, um processo com condições políticas e técnicas. É um processo muito complexo. Estamos chegando lá.

15/04/2008 - 03:52h Projetos bilionários mudam perfil da economia de PE

Suape vai gerar mais de 260 mil empregos até 2011

Cibelle Bouças - VALOR

Um conjunto de investimentos nas áreas petroquímica e logística superior a US$ 10 bilhões estimulará a interiorização e a diversificação do perfil industrial de Pernambuco nos próximos três anos. O Estado, que tem perfil industrial focado nas áreas têxtil, de alimento e metalurgia, recebe aportes na construção da refinaria Abreu e Lima, da Petroquímica Suape e no estaleiro Atlântico Sul - áreas com pouca ou nenhuma presença no Estado.

Juntos, esses projetos reforçarão a logística local e estimularão outros investimentos, disse o secretário de Desenvolvimento Econômico, Fernando Bezerra Coelho, durante o seminário “Pernambuco Novo: Cenários e Oportunidades para 2008″, promovido pelo Valor, em parceria com o governo do Estado.

“Pernambuco vive um momento importante, onde uma nova economia está se construindo”, afirmou o governador Eduardo Campos (PSB).

Parte das apostas concentra-se em Suape, que receberá R$ 1,2 bilhão em recursos públicos até 2010 para melhoria da infra-estrutura portuária. Segundo Bezerra, o governo do Estado aguarda autorização da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), neste ano, para a construção de um novo terminal, que terá capacidade para 10 milhões de toneladas por ano. Em 2007, o porto movimentou 7 milhões de toneladas de minério e a previsão é elevar esse volume para 9 milhões neste ano.

A meta é elevar a capacidade a 35 milhões de toneladas/ano, para escoar combustíveis da refinaria Abreu e Lima, fruto de parceria da Petrobras com a venezuelana PDVSA e que terá aporte de US$ 4 bilhões até 2010. De acordo com Paulo Roberto Costa, diretor de abastecimento da Petrobras, a refinaria processará 200 mil barris de petróleo por dia. O complexo também envolve investimento de US$ 657 milhões na Petroquímica Suape, com inauguração prevista para 2010. A empresa tem como sócios confirmados a Petrobras e a Companhia Integrada Têxtil do Nordeste. Segundo Costa, a entrada de novos sócios -e suas participações acionárias - será discutida hoje em Recife.

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Outro projeto anunciado é a construção do Estaleiro Atlântico Sul, investimento de US$ 5,8 bilhões para a construção de dez navios já encomendados pela Petrobras, disse Sérgio Machado, presidente da Transpetro.

Fora do complexo industrial de Suape, alguns setores ganham musculatura. É o caso da criação do pólo farmoquímico de Goiana, no litoral norte do Estado, que recebe investimentos de R$ 1,1 bilhão para a instalação de unidades dos grupos Hemobrás, Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (Lafepe) e Novartis. Em Barreiros, Sul do Estado, o grupo espanhol Qualta investe ? 500 milhões em um complexo turístico. “Até junho, o governo deve fechar acordos para instalação de 25 empreendimentos, totalizando US$ 8,6 bilhões”, disse Bezerra.

Na área de fruticultura, estão previstos R$ 2 bilhões em um projeto de irrigação de 110 mil hectares em Petrolina e está em fase de negociação o projeto Canal do Sertão, de outros 140 mil hectares de irrigação, que terá aporte de US$ 4 bilhões. O projeto tem à frente os grupos Itochu, Petrobras, Odebrecht e Queiroz Galvão. “Estamos discutindo a criação de uma empresa de propósito específico (EPE) para a inclusão desse projeto no PAC”, disse Bezerra.

O avanço desses projetos dependerá da expansão da rede de gás. Ricardo Lamassa, assessor comercial da Copergás, disse que a empresa tem planos de investir R$ 600 milhões na expansão da rede de gasodutos em 880 quilômetros, e outros R$ 450 milhões na construção de terminal de gás natural liquefeito (GNL) para elevar a produção de gás dos atuais 1,1 milhão de metros cúbicos/dia para 6,5 milhões até 2015.

02/04/2008 - 03:56h China já se prepara para crescimento de um dígito

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Andrew Batson, The Wall Street Journal, de Pequim - VALOR

A economia chinesa está finalmente perdendo furor.

O investimento em fábricas e infra-estrutura, há muito o principal motor de crescimento do país, começou a enfraquecer. Está mais difícil conseguir financiamento. As construtoras, em particular, sentem os efeitos dos limites ao crédito impostos pelo governo no final de 2007. Algumas empresas, apertadas pela alta de preço de matérias-primas, estão divulgando lucro menor, o que as deixa com menos caixa para financiar expansão.

Esse desaquecimento das bolhas especulativa e de investimento é algo que o governo da China buscava há algum tempo, sem muito sucesso. Agora, os efeitos já aparecem nos mercados. Os preços de imóveis se estabilizaram, após os fortes ganhos do ano passado, e a Bolsa de Xangai está 46% abaixo do recorde atingido em outubro.

A modesta desaceleração que as autoridades conseguiram na economia interna ocorre num momento em que há incertezas por todo o mundo. O crescimento das exportações chinesas tem diminuído há meses, à medida que se enfraquece a economia dos Estados Unidos, e é pouco provável que as vendas ao exterior ajudem muito a expansão econômica da China de uma maneira geral neste ano.

“No total, todos esses fatores já começam a ter impacto no crescimento. Já há evidências de que as empresas menores estão sentindo bastante”, diz Qu Hongbin, economista do HSBC em Hong Kong.

Os dados econômicos da China para os primeiros dois meses deste ano mostram desaceleração tanto no lado externo (o crescimento das exportações ficou abaixo de 20% pela primeira vez nos últimos anos) quanto no interno. Embora a economia continue em forte expansão, e alguns setores estejam resistindo bem, os números ainda apontam para crescimento bem mais lento no primeiro trimestre deste ano. A magnitude da redução só ficará mais clara quando a China divulgar seu Produto Interno Bruto (PIB) do período, dia 17.

“A questão crucial é como as pessoas vão reagir”, diz Qu. “Quantas pessoas estão pensando sobre uma redução significativa do crescimento na China?”

O Banco Mundial acaba de reduzir duas previsões para a China à luz da deterioração da economia dos EUA. Agora, prevê que o crescimento de 2008 cairá para 9,4%, dois pontos percentuais abaixo do de 2007. Ainda é muito para os padrões de qualquer outra economia, mas seria um ajuste para a China, após cinco anos seguidos com ganhos de 10% ou mais.

“Uma redução do crescimento para taxas de um dígito vai chocar os mercados e pode deflagrar um recuo dos preços de combustíveis e commodities industriais”, disse Carl Weinberg, economista-chefe da High Frequency Economics nos EUA, num relatório de análise distribuído esta semana.

Parte do enfraquecimento este ano foi devido ao mau tempo. Tempestades de neve em várias regiões do país interromperam o transporte e fecharam lojas e fábricas no fim de janeiro e início de fevereiro. Acredita-se que isso tenha reduzido temporariamente o crescimento no começo do ano. Indicadores preliminares mostram alguma recuperação em março.

Mas, segundo outros indicadores, a economia chinesa pode estar freando mais do que os números oficiais indicam. Por exemplo, a medida referencial de gastos de capital, chamada investimento urbano em ativos fixos, subiu 24,3% no primeiro bimestre, em relação ao início de 2007. É uma queda pequena em relação ao crescimento de 25,8% um ano atrás. Mas os números divulgados pelo Escritório Nacional de Estatísticas não são corrigidos pela inflação, que tem subido. Levando-se em consideração a alta de custos, o investimento cresceu 18% ou menos este ano, depois de ficar entre 23% e 25% na maior parte do ano passado. Analistas culpam o enfraquecido mercado imobiliário, assim como a redução da expansão industrial por parte de exportadores às voltas com menor demanda nos EUA.

A alta das matérias-primas também pode espremer as margens de lucro das empresas. A pesquisa anual com indústrias feita pela agência de estatísticas concluiu que os lucros no primeiro bimestre de 2008 subiram 16,5% em relação a um ano atrás; mas em 2007 esse porcentual chegou a 36,7%. Entre empresas de capital aberto, tanto na indústria pesada quanto na leve, mesmo as de bom desempenho agora estão sofrendo.

A Weiqiao Textile, produtora de tecidos e linhas negociada na bolsa de Hong Kong, divulgou esta semana queda de 20% no lucro líquido de 2007. O presidente do conselho, Zhang Hongxia, culpou a queda do dólar, as mudanças na lei tributária do país e a alta das matérias-primas. A Baoshan Iron & Steel também divulgou recentemente uma queda inesperada de 2,8% no lucro líquido do ano. A maior siderúrgica chinesa já elevou preços de vários produtos este ano para tentar compensar a alta do minério de ferro e dos combustíveis.

Esses primeiros sinais de esfriamento da economia não bastaram para os líderes chineses relaxarem o combate à inflação, que no acumulado de 12 meses até fevereiro chegou a 8,7%, maior nível em dez anos. Em resposta, o Banco do Povo da China, o banco central, fez a moeda local, o yuan, subir 4,1% ante o dólar no primeiro trimestre, a maior alta desde que o atrelamento informal ao dólar foi encerrado, em 2005. O BC divulgou nota na segunda, após sua reunião trimestral, dizendo que vai manter o “aperto” monetário e alertou que pressões inflacionárias ainda são fortes e que o investimento pode voltar a crescer mais tarde.

Contudo, o premiê Wen Jiabao também tem enfatizado que acompanha atentamente a economia mundial e que o governo está preparado para mudar a política com rapidez, se necessário. Depois de um inesperado superávit fiscal em 2007, o governo tem recursos de sobra para estimular o crescimento. Muitos analistas já prevêem uma expansão dos gastos em infra-estrutura ainda este ano.

“Precisamos achar um equilíbrio entre desenvolvimento econômico e controle da inflação”, disse em março Wen, que prometeu criar 10 milhões de empregos urbanos este ano. “Precisamos manter um certo ritmo de crescimento econômico para resolver a pressão do desemprego.”

27/03/2008 - 05:39h China é o Bric que se mostra mais preocupado com crise

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Marcos de Moura e Souza - VALOR

À primeira vista, a desaceleração da economia americana e a consequente redução da demanda poderia até parecer útil à China. Pequim tem lançado mão de uma série de medidas para conter o acelerado crescimento do país e afastar o fantasma do superaquecimento. A redução do crescimento dos EUA - o principal mercado para as exportações da China - ajudaria, portanto, a esfriar um pouco o ritmo da economia. Mas autoridades chinesas não escondem que estão temerosas.

Na semana passada, o premiê Wen Jiabao disse que os reflexos da crise americana e dos riscos de expansão das turbulências financeiras tornarão mais difícil para Pequim encontrar um equilíbrio entre o controle do crescimento interno e o combate da inflação, que em fevereiro chegou a 8,7%.

“Estou acompanhando de perto e me sinto profundamente preocupado com a situação econômica mundial, especialmente com a economia dos EUA”, disse Wen. “O que me preocupa é a contínua depreciação do dólar e quando o dólar chegará ao seu nível mais baixo.” A queda do dólar levou a China a ver suas reservas se desvalorizarem (em relação ao iuan) em quase US$ 200 bilhões.

Wen pontuou que a piora das condições externas, deflagrada pela crise americana, tem pressionado o dólar, afetado as bolsas pelo mundo e alimentando a alta nos preços dos combustíveis.

O desafio para as autoridades chinesas é acertar a dose das medidas antiinflacionárias e de controle do crescimento econômico num momento marcado pelas incertezas das turbulências globais.

A China tem adotado uma sucessão ações para conter o aquecimento de sua economia - entre as quais aumento dos juros e do compulsório bancário. Nos últimos cinco anos, o país cresceu em média 10,6% - mais de cinco pontos acima da média mundial mundial. Este ano, graças às medidas e à desaceleração mundial, a previsão é de um crescimento de 9,6%.

As vendas para os EUA representam 11% das exportações chinesas - ou 8% do Produto Interno Bruto do país. No início do ano, essas vendas já tiveram uma forte queda, em parte pela redução da demanda, em parte pelas nevascas que atingiram a China e afetando o sistema de transportes. Outros países da Ásia dependem muito mais do mercado americano: as exportações de Cingapura, Hong Kong e Malásia, por exemplo, equivalem a 20% ou mais de seus PIBs.

Mas, como apontou Jiang Yong, do Instituto Chinês de Relações Internacionais Contemporâneas, num artigo publicado há uma semana no “China Daily”, “a economia dos EUA pode não afetar a economia da China toda vez que ‘espirrar’, mas a China não pode ficar totalmente imune quando Japão e Europa também estão sofrendo da mesma ‘gripe’”.

A opinião coincide com a avaliação do presidente da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-China, Charles Tang, que também prevê uma redução das exportações chinesas à medida que a desaceleração americana contagiar outras economias. Ele lembra, no entanto, que diferentemente do período inicial da abertura chinesa, a economia do país não tem mais uma dependência tão intensa das receitas das exportações. “Os investimentos e a fortíssima demanda interna assumiram uma papel muito importante. Há dez anos, a indústria têxtil chinesa exportava 50% de sua produção; hoje são 25%”.

A turbulência financeira global, no entanto, traz à tona também preocupações em relação a outra possível vulnerabilidade chinesa: seu sistema bancário.

“A história mostra que os piores sistemas bancários podem parecer razoáveis durante períodos de crescimento forte do PIB”, diz Charlene Chu, diretora sênior da Fitch Ratings. O foco das atenções é que os bancos chineses acumularam grandes quantidades de créditos podres. Os bancos dizem que os créditos estão em níveis administráveis. Mas alguns analistas já acenderam luz amarela para o risco de uma crise financeira no país, que num momento de choques externos. O que poderia detonar essa crise? Uma repentina desaceleração da economia chinesa, causada por uma redução da demanda global. “A Fitch continua preocupada com o fato de que os bancos chineses podem estar subestimando potenciais futuras perdas.”

14/03/2008 - 16:24h Rice discute turismo afro na Bahia

Secretária de Estado dos EUA, que visita hoje o Pelourinho, também deve falar sobre produção de combustíveis renováveis

Tiago Décimo, SALVADOR - O Estado de São Paulo

L'image “http://www.atarde.com.br/arquivos/2008/03/26362.jpg” ne peut être affichée car elle contient des erreurs. A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, desembarcou ontem à tarde na Base Aérea de Salvador (BA)para uma visita de 18 horas à capital baiana.

Condoleezza foi recebida pelo chefe de gabinete do governo baiano, Fernando Schmidt, e pela baiana Marly Trindade, que a presenteou com uma fitinha de Nosso Senhor do Bonfim. Ela escolheu uma de cor vermelha - no candomblé, a cor faz referência a Iansã, a rainha dos ventos - que foi amarrada em seu pulso esquerdo. Em seguida, Condoleezza seguiu para o Hotel Pestana, no bairro boêmio do Rio Vermelho. A secretária americana já havia manifestado desejo de conhecer a capital baiana.

Condoleezza veio a Salvador para discutir, principalmente, o programa de incentivo ao turismo étnico-afro, que vem sendo elaborado desde o ano passado pelo Ministério do Turismo e o governo baiano. O projeto, que já recebeu investimentos de R$ 1,3 milhão, é inspirado pelo crescente interesse dos afrodescendentes americanos em conhecer lugares no mundo com fortes raízes africanas.

Com 82% de seus 2,9 milhões de habitantes compostos por negros, Salvador é tida como a maior cidade negra fora da África. Outros temas, como a produção de combustíveis renováveis, também estão na pauta.

Fonte próxima da secretária americana revelou ao Estado que Condoleezza manifestou preocupação com a situação econômica da Argentina, país que ela considera de grande peso regional.

Segundo a fonte, ela reclamou que, no auge da crise entre o governo do então presidente Fernando De La Rua e o Fundo Monetário Internacional, em 2001, os EUA foram acusados de ter ficado ao lado do Fundo. “É uma injustiça, pois fiquei dois dias pendurada no telefone tentando ajudar o governo argentino”, disse Condoleezza, de acordo com a fonte.

A secretária jantou ontem com o governador da Bahia, Jacques Wagner, o prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, e a ministra do Turismo, Marta Suplicy, e outros políticos, artistas, diplomatas e empresários. Hoje de manhã, ela visitará o histórico bairro do Pelourinho. Às 10 horas, deve embarcar para Santiago, Chile.

09/11/2007 - 06:50h Reservas do Brasil podem superar 70 bilhões


Francisco Góes, Rafael Rosas e Ana Paula Grabois
Valor

A Petrobras anunciou ontem a descoberta de uma nova província petrolífera, situada em mar a grandes profundidades, abaixo de uma camada de sal, capaz de colocar o Brasil, no futuro, entre os maiores países do mundo em termos de reservas de óleo e gás. O anúncio foi acompanhado pela aprovação de uma resolução no Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) determinando a exclusão de 41 blocos que seriam leiloados na 9 Rodada de licitações da Agência Nacional do Petróleo (ANP), nos dias 27 e 28 deste mês. Estes blocos estão na área de influência da nova fronteira exploratória e têm grande potencial de descobertas.

No campo de Tupi, na Bacia de Santos, que fica dentro da nova província petrolífera, a Petrobras estimou volume recuperável de óleo leve de alto valor comercial (28 graus API) entre 5 bilhões e 8 bilhões de barris de petróleo e gás natural. Só esta descoberta poderá aumentar em mais de 50% as atuais reservas de petróleo e gás natural do país, que somam 14,4 bilhões de barris de óleo equivalente (Boe).

O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, disse que quando toda a nova província petrolífera estiver sendo explorada, o Brasil deve ficar entre as oito ou nove maiores reservas do mundo. Hoje, a 8 posição no ranking de reservas mundiais de óleo e gás é da Venezuela, com 107 bilhões de barris de óleo equivalente. A Nigéria, 9 colocada, aparece com 69 bilhões de Boe. O Brasil ocupa a 24 posição, com 14,4 bilhões de Boe.

O diretor de exploração e produção da Petrobras, Guilherme Estrella, adiantou que a intenção da estatal é implantar um projeto-piloto de produção na área de Tupi, associado à produção de gás, de cerca de 100 mil barris/dia, a partir de 2010-2011. A Petrobras é a operadora do campo de Tupi, no qual tem participação de 65%. O restante está nas mãos da britânica BG, com 25%, e da Petrogal - Galp Energia, com 10%.

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse que a decisão do CNPE de retirar os 41 blocos da rodada da ANP se baseou no interesse nacional: “É a preservação dos interesses do país diante da descoberta de uma riqueza de proporções significativas”, afirmou a ministra, após participar, na sede da Petrobras, no Rio, de reunião extraordinária do CNPE, que contou com a presença do presidente Lula. Dos 312 blocos previstos na rodada, sobram agora 271.

Dilma negou que a medida tenha viés estatizante e comparou a situação ao cancelamento das concessões rodoviárias que, depois de terem as condições modificadas, foram leiloadas. “O mesmo nos propomos a fazer para os blocos retirados da rodada”, disse a ministra. A ação representa, segundo ela, a preservação da soberania do país, do desenvolvimento da indústria. O objetivo será analisar como irá se explorar a nova riqueza petrolífera. Dilma avaliou que a nova província petrolífera fará o país mudar de patamar, saindo de uma posição intermediária para o primeiro escalão na produção de petróleo, passando a exportador.

A resolução n 6 do CNPE, aprovada ontem, também determina ao Ministério de Minas e Energia e à ANP a adoção das providências necessárias para a conclusão da 8 Rodada de Licitações, que foi interrompida por decisões judiciais. Dos 284 blocos previstos, com foco em gás natural e óleo leve, só 38 foram arrematados devido a duas liminares judiciais. As liminares, derrubadas depois pelo Supremo Tribunal Federal (STF), foram motivadas pela limitação imposta pela ANP no edital ao número de blocos que uma empresa operadora poderia arrematar.

O ministro de Minas e Energia. Nélson Hubner, presidente do CNPE, disse que a resolução do conselho determina rigorosa observação dos direitos adquiridos e atos jurídicos perfeitos, relativos às áreas concedidas ou arrematadas em leilões da ANP. A resolução também levará o Ministério de Minas e Energia a avaliar, a curto prazo, as mudanças necessárias no marco legal que contemplem “um novo paradigma de exploração e produção de petróleo e gás natural” em decorrência da nova província petrolífera.

A nova fronteira exploratória se estende por mais de 800 quilômetros, de Santa Catarina ao Espírito Santo, e tem até 200 quilômetros de largura. Inclui as bacias do Espírito Santo, Campos e Santos, em rochas denominadas pré-sal, espécie de “segundo subsolo” das bacias petrolíferas. Segundo a Petrobras, o pré-sal são rochas reservatórios que se encontram abaixo de extensa camada de sal. Os reservatórios situam-se em lâmina d´água que varia de 1,5 mil a 3 mil metros de profundidade. Para chegar até eles, é preciso furar ainda 3 mil a 4 mil metros de rocha.

Para atingir as camadas de pré-sal, entre 5 mil e 7 mil metros de profundidade, a Petrobras desenvolveu novos projetos de perfuração. Nos últimos dois anos, foram perfurados 15 poços, com investimentos de US$ 1 bilhão, que atingiram as camadas pré-sal. Do total, oito poços responderam de forma positiva em produção. Os reservatórios perfurados na Bacia de Santos são semelhantes aos da Bacia do Espírito Santo, o que, para a Petrobras, reforça a hipótese de extensão dos reservatórios na área.

Gabrielli disse que o plano de investimentos da empresa, que prevê aplicação de US$ 112 bilhões até 2012, não contempla investimentos no pré-sal. “Provavelmente o valor vai subir.” O diretor de Abastecimento da estatal, Paulo Roberto Costa, disse que a entrada em operação do campo de Tupi, em camada de pré-sal na Bacia de Santos, prevista para acontecer em até seis anos, contribuirá para redução das importações de óleo leve e diesel feitas pela companhia.

Hoje, segundo o executivo, a Petrobras importa 300 mil barris diários de óleo leve. Gabrielli disse que das áreas com possibilidade de ocorrência de hidrocarbonetos na camada de pré-sal do litoral brasileiro, cerca de 25% estão atualmente sob concessão. Desses 25%, a Petrobras atua em 70% dos blocos, sozinha ou em parceria. Segundo Guilherme Estrella, a previsão é declarar a “comercialidade” de um primeiro campo na área do pré-sal, no Espírito Santo, em 2009. “Confirmando-se os testes na área de Parque das Baleias, vamos interligar o poço à plataforma já instalada no Espírito Santo.”.

O diretor disse que a tecnologia de produção para operar neste tipo de campo está disponível, mas o custo é alto. “A tecnologia vai ser aplicada na redução de custos”, disse Estrella. Ele salientou que os campos estão situados a 250 quilômetros da costa. Ele também informou que a Petrobras está em contato com empresas que detêm tecnologia para aproveitamento do gás dos campos no próprio local. Uma alternativa é instalar térmicas flutuantes que poderiam enviar energia para o continente por meio de cabos submarinos. (* Do Valor Online)

09/11/2007 - 06:00h Nova fronteira do petróleo


Celso Ming - O Estado de São Paulo

celso.ming@grupoestado.com.br

A descoberta de um campo gigante de petróleo e gás na Bacia de Santos é um acontecimento cuja importância transcende as dimensões econômica e energética. O impacto político e estratégico está por ser avaliado.

Este foi apenas o primeiro campo encontrado abaixo da camada de sal, formação geológica de 300 a 500 metros de espessura e cerca de 200 quilômetros de largura, que se estende por 3 mil quilômetros ao longo da costa, de Santa Catarina ao sul da Bahia. Está situada na plataforma continental, entre 6,5 mil e 7 mil metros abaixo do nível do mar.

Até agora, a maior parte do petróleo encontrado no Brasil é pesada (17 graus API). A principal teoria dos geólogos da Petrobrás é a de que esse óleo migrou de depósitos situados abaixo da camada de sal para acima dela, por fissuras causadas por pressões geológicas. No caminho, incorporou detritos, razão por que é de qualidade inferior. A hipótese dos geólogos é a de que as jazidas mais abundantes e de melhor qualidade estão abaixo do sal porque não conseguiram escapar de lá.

Há dois anos, a Petrobrás começou a perfurar essas estruturas. Na Bacia de Santos (Campo de Tupi) e na do Espírito Santo (Campo de Golfinho), as duas áreas em que iniciou os trabalhos, deu bingo: petróleo e gás de ótima qualidade. Mas só agora a Petrobrás pôde concluir a cubagem da jazida encontrada na Bacia de Santos, que aumenta em cerca de 40% as reservas brasileiras, ultrapassando as do México.

A descoberta anunciada parece ser apenas o começo. Ficou comprovado o potencial abaixo da camada de sal. E isso abre nova fronteira para exploração.

Em razão da enorme profundidade, altas temperaturas e fortes pressões, a exploração desses poços exige tecnologia de ponta. As condições da geometria de perfuração requerem diâmetro inicial maior do que a de um poço convencional; brocas especiais dotadas de turbina que giram só na extremidade e não ao longo do eixo de 6 mil a 7 mil metros; e lubrificantes de altíssimo desempenho.

Como o diretor de Produção da Petrobrás, Guilherme Estrella, já explicou, seu custo de perfuração é cerca de três vezes mais alto do que o de um poço comum. Mas, diante do petróleo a US$ 100 por barril e diante das proporções da descoberta, esse aumento de custo pode ser considerado insignificante.

A nota oficial da Petrobrás emitida ontem afirma que o Campo de Tupi, somado aos já conhecidos, “coloca o Brasil entre os países com grandes reservas de petróleo e gás no mundo” (veja tabela).

Para dizer o mínimo, do ponto de vista econômico, a novidade vai atrair ainda mais interesse por petróleo e gás no Brasil. Mas o impacto maior pode ocorrer no campo estratégico e político. À medida que o Brasil for reconhecido como potência energética num quadro de escassez de petróleo, seu peso geopolítico deve crescer. E mudam, também, as condições de negociação com Venezuela, Argentina e Bolívia, os grandes produtores vizinhos de petróleo e gás.

Será inevitável que o presidente Lula tente tirar o máximo proveito interno das novas perspectivas. A conferir.

Confira

Visão estreita - Ontem, o presidente do Fed, Ben Bernanke, criticou os analistas de Wall Street, incapazes de prever a crise das hipotecas podres: “É surpreendente e desapontador que investidores sofisticados (…) olharam para o rating do crédito e foi só o que fizeram.”

Outra estreiteza - Há outra crítica a fazer aos analistas financeiros, especialmente do Brasil. Há dois anos, atenta às recomendações dos geólogos, a Petrobrás perfura a camada de sal. Mas esses analistas não enxergam além dos fluxos de caixa, Ebitdas e outras rubricas contábeis. Não previram a nova aposta a fazer na Petrobrás.