19/07/2009 - 12:09h Gasto público e consumo interno. Dá bom resultado na China… e no Brasil também

PIB da China avança 8%. Graças ao consumo

http://jornale.com.br/mirian/wp-content/uploads/2009/03/dinheiro-chines.jpg

Alberto Tamer – O estado SP

E a China surpreende novamente. Quando todos, inclusive o governo, esperavam um crescimento de apenas 5%, ela anunciou nesta semana uma expansão do PIB de 7,9%. E isso, graças ao pacote fiscal de US$ 586 bilhões, que incluía recursos orçados para o ano passado não utilizados; mas, por isso mesmo, encontrou projetos prontos que estão sendo imediatamente executados, com excelentes resultados sobre o crescimento.

A ausência desses projetos certamente é uma das causas da baixa eficiência do pacote fiscal americano. Mesmo com mais recursos, US$ 786 bilhões, o governo Obama ainda não sabe onde aplicá-los de forma a gerar mais empregos.

POR QUE O MILAGRE?

Diante desses resultados, surgem perguntas como qual seria o desempenho da economia mundial com ou sem o crescimento da China. Afinal, qual a origem desse milagre?

Para obter respostas a essas dúvidas, a coluna conversou com Rodrigo Tavares Maciel, secretário executivo do Conselho Empresarial Brasil-China, uma entidade privada que trabalha em parceria com o governo brasileiro e dispõe do melhor banco de dados sobre o comércio entre os dois países.

“Eu continuo acreditando que a China não está descolada do mundo, como confirma o impacto provocado pela queda das exportações, principalmente para os EUA e a Europa. A China cresceu acima de 10% ao ano entre 2002 e 2007, e agora 7,9%. O lucro das empresas privadas também caiu”, lembra Maciel.

O MUNDO COM E SEM A CHINA

Qual seria o crescimento da economia mundial sem esse resultado do PIB chinês? Maciel informa que, tomando como base os indicadores divulgados em junho pelo FMI, Banco Mundial e o Consensus Economics, sem o efeito do comércio da China, a economia mundial teria caído 2,1% em março e 3% em junho. Com a China, em março esse declínio foi menor, 1,9% em março e 2,4% em junho. Para 2010, os indicadores de crescimento passam a ser positivos, desde que a economia chinesa mantenha o desempenho atual.

EXPORTAÇÃO NÃO É TUDO

E aqui a surpresa: as exportações não pesam tanto no crescimento chinês. “Poucos atentam para isso, mas a China é menos dependente do exterior do que se imagina. As exportações chinesas não desempenham papel de principal motor da economia.O que verdadeiramente impulsiona hoje são os investimentos em ativos fixos e o consumo interno, incluindo gastos residenciais e públicos”, diz Maciel.

“O grande mito de que exportações líquidas são o principal motor do crescimento tem sido cada vez mais refutada diante do agravamento da crise mundial e consequente retração do mercado mundial.”

“Em 2008, elas contribuíram com apenas 0,5 ponto porcentual para o aumento do PIB e, no primeiro semestre de 2009, essa contribuição foi negativa em 2,9 pontos. Impulsionados pelo pacote de estímulo, aumentou consideravelmente a contribuição do investimento fixo para o crescimento do PIB no primeiro trimestre de 2009, com 6,2 pontos ante 4,3 pontos em 2008. Já o peso do consumo interno foi de 3,8%.

HÁ ESPAÇO PARA MAIS

Até onde a China consegue manter esse ritmo impressionante de investimento? Para Rodrigo Maciel, o grande superávit fiscal em 2008 vai permitir que ela mantenha a política de incentivo à economia com aumento dos gastos públicos. Os investimentos em ativos fixos cresceram 33,5% no primeiro semestre motivados por grandes obras (rodovias, fábricas, redes de energia, ferrovias) e províncias do interior da China carentes de infraestrutura foram extremamente beneficiadas.

Um número impressionante informado pela correspondente Claudia Trevisan: “Só em junho, os bancos concederam empréstimos no valor de US$ 225 bilhões, o que elevou o crédito no primeiro trimestre a nada menos que US$ 1,5 trilhão, ou seja, 25% do PIB.

Com o grande e crescente superávit fiscal, a China poderá sustentar a atual política de investimento por muito tempo e manter sua enorme demanda por recursos naturais. Continuará, assim, a contribuir cada vez mais para reduzir os efeitos da crise mundial, sobretudo em países fornecedores de matérias primas, como o Brasil.

BRASIL SE APROVEITA BEM

E aqui estamos sendo beneficiados, principalmente pela nova estratégia do governo chinês de aproveitar preços relativamente baixos das commodities para aumentar as compras e os estoques. A China tornou-se o principal parceiro comercial brasileiro, ultrapassando os EUA pela primeira vez, atesta Rodrigo Maciel. E tudo indica que poderemos continuar assim nos próximos trimestres. É uma oportunidade única, num mercado mundial deprimido.

*E mail – at@attglobal.net

18/05/2009 - 09:45h Viagem de Lula ressalta posição da China como fonte de recursos

http://1.bp.blogspot.com/_hIGyuXc1duU/SGzfmzCPSII/AAAAAAAABVk/5nJfsFix6xA/s320/brasil%2Be%2Bchina.gifhttp://oglobo.globo.com/fotos/2008/09/02/02_MHG_Lula_barris.jpg

John Lyons, The Wall Street Journal, de São Paulo – VALOR

A indústria petrolífera brasileira tem na visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China o mais recente sinal de como a influência daquele país está crescendo em meio à crise econômica mundial.

Lula tem reunião marcada hoje, na China, com o presidente chinês Hu Jintao, que deve liberar bilhões de dólares em crédito para ajudar o Brasil a explorar suas enormes reservas de petróleo.

O Brasil vai retornar o favor garantindo a venda de petróleo para empresas chinesas.

Os países estão sendo jogados nos braços uns dos outros pela crise financeira. A estatal Petróleo Brasileiro SA quer gastar US$ 174 bilhões nos próximos cinco anos para elevar o Brasil ao alto escalão dos países produtores de petróleo. Como o mercado internacional de capitais está na UTI, a China é uma das poucas fontes de dinheiro.

A Petrobras está recorrendo à China numa época em que a presença chinesa na América Latina está em alta. O apetite do país por matérias-primas melhorou várias economias na região, que é rica em commodities. Isso aliviou o impacto da crise mundial nesses países. Em março, a China ultrapassou os Estados Unidos como maior parceiro comercial do Brasil.

Os termos do acordo ainda não tinham sido finalizados na semana passada, antes de o presidente partir, disse um alto executivo da Petrobras. O que está na mesa é um empréstimo de US$ 10 bilhões em troca de 200.000 barris de petróleo por dia, segundo um anúncio da Petrobras sobre as negociações este ano. O principal objetivo da China, porém, é usar os empréstimos para conquistar contratos para fornecer serviços e equipamentos numa época em que o Brasil está se tornando mais duro na negociação com firmas estrangeiras, disseram especialistas do setor.

Mesmo antes de um negócio ser fechado, os meses de negociações entre autoridades chinesas e brasileiras ilustraram a vantagem competitiva das empresas apoiadas pelo governo da China quando os mercados de crédito estão secos. Sublinhando a importância da China como banco de última instância, o Brasil recorreu ao país muito embora iniciativas de investimento com os chineses no passado tenham terminado em decepção.

“Os EUA têm um problema”, disse o presidente da Petrobras, Sergio Gabrielli, recentemente quando perguntado sobre as negociações do empréstimo. “Não existe ninguém no governo dos EUA com quem possamos sentar e ter o tipo de conversas que estamos tendo com os chineses.”

Gabrielli estava se referindo ao fato de que os bancos do governo chinês estão dispostos a dar empréstimos enormes para tomadores estrangeiros e, assim, aproximar a China de seus objetivos de segurança energética de longo prazo, que são: garantir diversas fontes mundiais de suprimento e obter acesso de suas petrolíferas a regiões competitivas.

Uma recente sequência de empréstimos petrolíferos para a Rússia, o Cazaquistão e outros levou o total de seus compromissos para mais de US$ 45 bilhões.

Esses empréstimos diretos do governo são uma ferramenta cada vez mais poderosa numa era em que três quartos das reservas mundiais de petróleo estão nas mãos de petrolíferas estatais.

Ao lidar diretamente com governos de países produtores, a China pode usar sua riqueza para reduzir o papel de grandes petrolíferas – os intermediários tradicionais entre produtores e consumidores de petróleo.

“O que se está vendo é uma nova geopolítica de petróleo, em que negócios começam com um entendimento político e deixam de lado as petrolíferas multinacionais”, diz Roger Diwan, sócio da PFC Energy, uma consultoria americana do setor.

Certamente, multinacionais do petróleo como a Exxon Mobil Corp. e a Royal Dutch Shell PLC têm importantes vantagens tecnológicas e mais know-how de administração do que muitas estatais, o que as torna essenciais.

Além disso, as reservas mais tentadoras do Brasil são as do pré-sal, que ficam quilômetros no fundo do mar, embaixo de rochas e camadas instáveis de sal – e extrair esse petróleo provavelmente vai exigir a expertise e o poder das líderes do setor.

Por outro lado, a disposição da China de bancar projetos de petróleo deve acabar ajudando consumidores em outros países, segundo especialistas. A maioria do petróleo mundial é vendido no mercado internacional à vista para quem oferecer mais. A perspectiva do investimento chinês deve conter os preços por causa da consequente alta das reservas mundiais.

A Petrobras tem uma posição peculiar, por ser controlada pelo governo mas operar com um caráter de livre mercado e ter ações negociadas em bolsa, inclusive em Nova York. E ainda ganhou uma posição inusitada no setor por ter descoberto grandes reservas de petróleo e gás. A companhia tem muito mais reservas do que pessoal e dinheiro para extrair.

O Brasil está disposto a tornar realidade seus ambiciosos planos para o setor, mesmo em meio à recessão global.

“A Petrobras é uma companhia de ação”, diz Matthew Shaw, analista sênior de América Latina da consultoria petrolífera Wood Mackenzie, da Escócia. “Ela está disposta a fazer acordos onde for necessário.”

18/05/2009 - 08:59h China e petróleo no futuro do Brasil

http://www.terra.com.br/istoedinheiro/edicoes/525/imagens/lulaconvoca5.jpg

Sergio Leo – VALOR

Para felicidade dos que apreciam a inteligência, o professor Antônio Barros de Castro, recém-saído de uma delicada sucessão de cirurgias, volta hoje ao debate público, numa participação de última hora no Fórum Nacional promovido pelo ex-ministro Reis Velloso. Barros de Castro apresentará a última revisão do estudo mostrado pela primeira vez durante a comemoração dos 200 anos do ministério da Fazenda, no ano passado. Ele garante que, apesar da crise financeira, inaugurou-se um novo grande ciclo na economia mundial, puxado pela China e favorável a países ricos em recursos naturais. Como o Brasil.

Na semana em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visita a China e a Petrobras é ameaçada com uma CPI pela oposição, as teses do professor Barros de Castro ganham um valor especial. O economista, ex-presidente do BNDES, onde hoje é assessor, afirma que, mesmo antes da crise financeira mundial, o mundo vinha deslocando o eixo de sua atividade comercial para a China, onde o recente dinamismo industrial “veio para ficar”; o mercado interno chinês promete ser fonte inesgotável de estímulo e pressão duradoura sobre certos mercados de matérias primas e fontes de energia.

Esse novo ciclo cria desafios para o Brasil, grande produtor de bens primários, que ganharam mais importância com o achado das gigantescas reservas de petróleo na chamada camada pré-sal da costa brasileira. Estudos do BNDES com base nos “preços de referência” projetados pelo Departamento de Energia dos EUA (barril de petróleo a US$ 72 entre 2015 e 2020, e a US$ 78 em 2025) indicam que, deixadas ao sabor das forças de mercado, as exportações brasileiras de petróleo chegariam a 27% do total das vendas externas do país em 2025 e a 28% em 2030; e ultrapassariam 40% se os preços acompanhassem as hipóteses mais fortes, acima de US$ 130 o barril, nesses anos.

O Brasil está bem servido de instituições para lidar com a maior importância do petróleo na economia nacional e distribuição das riquezas e responsabilidades geradas pela exploração do pré-sal, acredita Barros de Castro. Mais complicado é definir políticas a serem aplicadas nesse novo cenário, diz ele. Deixar a exploração de petróleo aos interesses do mercado seria esgotar mais rapidamente esse “bilhete premiado”, e aprofundar a dependência da economia brasileira em relação a um recurso natural específico, trazendo efeitos negativos como dívidas e desestímulo à indústria.

Ele cobra uma visão de longo prazo, principalmente na maneira lidar com a forte entrada de recursos estrangeiros, de investimentos e exportações associados ao petróleo – fenômeno que estimula perigosamente o endividamento externo.

“Para que acelerar o avanço da oferta, gerando recursos que não devem e possivelmente não serão proximamente usados?”, pergunta Barros de Castro, ao sugerir que o governo controle a expansão da exploração do petróleo e concilie essa atividade com outras mudanças e outros objetivos na estrutura industrial brasileira. O economista prevê um “conflito de interesses” com “ressonâncias no plano interno”: de um lado, os interesses de longo prazo do país; do outro, os dos potenciais consumidores e produtores do óleo brasileiro.

Vai ter gente defendendo explorar com intensidade o pré-sal, até com o argumento de que petróleo deixará de ser importante fonte de energia em breve. Essa previsão é, porém, um motivo a mais para evitar que a economia brasileira se subordine à exploração desse recurso esgotável, contra-argumenta ele. Barros de Castro afirma que a descoberta do pré-sal só dramatizou a guinada econômica para a qual o Brasil vem sendo empurrado com a emergência consumidora da China. Uma mudança expressa na crescente importância de commodities na pauta de exportações brasileira.

É preciso entender essa mudança ao promover o apoio governamental ou tomar decisões empresariais no setor produtivo. Há atividades no Brasil fadadas à extinção e outras que merecem apoio e podem ser atropeladas pela pressão sobre os recursos naturais de exportação, alerta Barros de Castro. Forte estímulo à tecnologia e à indústria pode acompanhar o investimento nas commodities, com iniciativas como projetos de automação para equipamentos de águas profundas ou o desenvolvimento de máquinas agrícolas mais apropriadas para as características do campo brasileiro (e africano ou sul-americano).

Barros de Castro dá uma lição importante: as políticas para regiões ou empresas em dificuldades devem basear-se no “potencial por eles apresentado no novo contexto, não por suas qualidades ou problemas no passado recente”. Como sempre, o professor vai muito além da velha quizília sobre se o governo deve ou não intervir na economia. Deveriam ouvi-lo mais.

Enquanto isso, na Arábia…

A Arábia Saudita, visitada neste fim de semana pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tem o que se pode chamar de governo baseado numa interpretação radical e anacrônica do Alcorão. O homossexualismo é punido até com decapitação; a única religião permitida é o islamismo, judeus são discriminados e um blogueiro de lá foi preso por revelar que havia se tornado cristão; mulheres não podem votar nem andar desacompanhadas nas ruas (no Irã, podem). Trabalhar ou tirar documentos de identidade, só autorizadas por um homem. Além disso, não há imprensa ou sindicatos livres.

Ao receber o ministro Celso Amorim, na Câmara, na semana passada, deputados como Fernando Gabeira nem notaram a visita de Lula a esse país de regime medieval. Também se calaram os defensores dos direitos humanos que condenam, veementes, a política do Itamaraty para Irã e África. A Arábia, ao contrário do Irã, é aliada dos EUA e não ameaça o monopólio de Israel no domínio da tecnologia nuclear no Oriente Médio.

Amorim ganhou mais um argumento para sua tese de que certos críticos da política externa brasileira parecem guiados pelas agendas internacionais de outros países.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília. Escreve às segundas-feiras

E-mail sergio.leo@valor.com.br

03/05/2009 - 09:44h China vira principal comprador do Brasil

Com alta de 61% nas compras, China passa os EUA na lista de importadores

Márcia De Chiara – O Estado SP

A China está salvando as exportações brasileiras em meio à recessão global. Em março, pela primeira vez o país foi o principal destino dos produtos nacionais, desbancando a liderança histórica dos Estados Unidos. As exportações para China no primeiro trimestre cresceram 62,67% em valor e 41,47% em quantidade na comparação com o mesmo período de 2008.

Os principais beneficiados foram os produtores de soja, celulose, minério de ferro e petróleo. Essas quatro commodities respondem por 76,6% da receita de exportações brasileiras para o país, aponta a Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex).

“No pior dos mundos, o Brasil está melhor”, afirma Miguel Daoud, economista-chefe da consultoria Global Financial Advisor e especialista em China. Com a crise global, o governo chinês decidiu injetar quase US$ 600 bilhões na economia. O objetivo é estimular os negócios e mudar o modelo de economia exportadora para outro, voltado para o mercado interno. Esse pacote já começou a fazer efeito, com repercussões diretas no Brasil.

Daoud observa que o pacote está concentrado na construção civil. Isso significa maior consumo de aço e, consequentemente, de minério de ferro, a matéria-prima básica da siderurgia. Além disso, o governo chinês traçou um plano para tornar o país autossuficiente em cerca de uma dúzia de produtos agrícolas. Como apenas 10% do território são próprios para a agricultura, a China está aumentando as importações dos produtos que não são prioridade no plano de autossuficiência. É o caso da soja, o principal produto de exportação das lavouras brasileiras.

O salto chinês nas compras do Brasil chama ainda mais atenção pelo fato de as exportações brasileiras terem registrado no primeiro trimestre do ano um recuo de mais de 19% em relação ao mesmo período de 2008. As importações também caíram, mas um pouco mais: 21,6%. Apesar das quedas, a balança comercial brasileira registrou superávit de 9% no trimestre.

Estrela do comércio exterior, a China importou US$ 3,395 bilhões do Brasil no primeiro trimestre e foi praticamente o único país que ampliou significativamente as compras de produtos brasileiros, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). A China respondeu por 47% das exportações para a Ásia, que ultrapassou a América Latina como bloco comercial no primeiro trimestre, segundo o secretário de Comércio Exterior do MDIC, Welber Barral.

“As exportações para a Ásia vêm aumentando, apesar da crise. Tirando o Japão, o bloco tem um potencial comercial muito grande a ser explorado”, diz Barral.

Sem o robusto crescimento das vendas para a China, o superávit da balança comercial brasileira de US$ 3 bilhões no trimestre encolheria US$ 1,8 bilhão, calcula o vice-presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

A liderança da China nas compras brasileiras não é transitória e deve se repetir nos próximos meses, prevê Daoud. Ele diz, no entanto, que com uma taxa de crescimento do PIB de 6% para este ano, o país não vai puxar o crescimento mundial, mas será “importantíssimo” para o Brasil.

“A China tem um papel muito importante em relação ao Brasil como um grande demandante de commodities”, diz o economista-chefe da Funcex, Fernando Ribeiro. Mas ele discorda de Daoud sobre o impacto da economia chinesa como motor do crescimento global e sobre a manutenção da liderança das compras de produtos brasileiros.

Ribeiro diz que não tem dúvida de que a China exerce um papel crucial na recuperação mundial, mesmo crescendo 6% em 2009. Ele prevê que o país continue ganhando importância nas exportações brasileiras nos próximos meses. Mas, para o ano como um todo, deve encostar nos EUA, que, na sua opinião, vai continuar liderando as compras do Brasil.

Castro, da AEB, lembra que o governo brasileiro temia o déficit na balança comercial no primeiro trimestre. Tanto que chegou a baixar medidas de licença não automática para importações, depois revogadas. “Mas o cenário mudou completamente e a balança comercial registrou déficit apenas em janeiro.”

O vice-presidente executivo da AEB se diz surpreso com as taxas de crescimento dos volumes exportados para a China. A quantidade vendida de celulose, por exemplo, aumentou 650% no primeiro trimestre ante o mesmo período de 2008. No caso do ferro fundido, da soja e do minério de ferro, houve crescimento de 700%, 120% e 40%, respectivamente, nas quantidades exportadas entre janeiro e março.

“Essas taxas de crescimento são desproporcionais”, diz o economista. Na análise de Castro, esse ritmo de crescimento de compras não deve se manter, mesmo com a China crescendo 6% ao ano.

27/04/2009 - 11:49h Reforçar a estabilidade regional é essencial para integração sul-americana e para o Brasil

Lula marca data para o real sul-americano

Sergio Leo – VALOR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já marcou data para anunciar seus planos ambiciosos para o uso do real nas transações da América do Sul. Esses planos avançam além da campanha feita por ele para estender aos sócios sul-americanos o mecanismo de comércio em moeda local, já lançado com a Argentina – embora sem muito sucesso até agora, como noticiaram Raquel Landim e Janes Rocha, em reportagem do Valor, na semana passada. Na próxima reunião da Unasul, que agrega os países da região, ainda neste semestre, Lula quer apresentar aos parceiros uma proposta que pode ampliar o uso do real nas relações entre os vizinhos.

O mecanismo ainda não está pronto, e passa por discussões na equipe econômica, onde, jura-se no Palácio do Planalto, já existe concordância do reticente Banco Central. Sem dar detalhes da proposta, os assessores de Lula descrevem uma proposta que se assemelha à linha de swap em dólares aberta pelos EUA ao Brasil e outros países, no ano passado, pela qual os beneficiados por trocar no Federal Reserve suas moedas por dólares, até um limite e por um tempo limitado, que se esgota nesta semana. Mas terá diferenças, ao incorporar mecanismos de compensação de moedas.

Os países sul-americanos serão autorizados a sacar, do BC, uma quantia em reais, que poderão usar para o comércio com o Brasil ou até repassar a outros países no continente (que, por sua vez, poderiam usar a moeda para pagar compromissos no mercado brasileiro). Falta ainda, segundo um graduado assessor de Lula, definir o total que será posto à disposição dos vizinhos. Lula quer que seja uma quantia significativa.

O mecanismo em elaboração difere do sistema de pagamentos em moeda local já adotado com a Argentina porque ele permite o uso do real em outros pagamentos, além de operações comerciais. E permite também aos países beneficiados usar os reais adquiridos para transações com outros países. Além da óbvia vantagem para o Brasil, por permitir a maior circulação da moeda brasileira entre os países do continente, o novo sistema, segundo se argumenta no Planalto, ajudaria aos outros governos da América do Sul a reduzir sua dependência de dólares em transações internacionais na região – em um período de escassez de moeda americana no continente.

O Brasil tem superávits no comércio com todas as nações da América do Sul, à exceção da Bolívia. Os bolivianos tem déficits no comércio com os outros países, e um enorme superávit com o Brasil, graças à venda de gás ao mercado brasileiro. A cessão de dólares aos vizinhos permitira a esses países reduzir seus problemas de balanço de pagamentos em dólar, inclusive na Bolívia, que poderia usar os reais para comprar produtos de outros países andinos, ou da Argentina, por exemplo. Esses são os argumentos que Lula levará à reunião da Unasul, em junho.

Lula conversou sobre o assunto, na semana passada, em Buenos Aires com a presidente da Argentina, Cristina Kirchner. Foi um dos principais assuntos levados por ele para a conversa privada com a presidente. O tema também foi abordado ligeiramente durante a reunião dos ministros com os chefes de Estado.

A ampliação do uso do real é um desdobramento natural da série de iniciativas que vem sendo tomada na relação bilateral, na tentativa de, progressivamente, permitir à Argentina menor dependência do dólar, já que o país, desde a decretação da restruturação unilateral de sua dívida, em 2005, tem acesso muito limitado ao mercado de capitais internacional. O Brasil, na visita, ampliou, de US$ 120 milhões para US$ 1,5 bilhão o valor das operações que podem ser firmadas sob amparo do Convênio de Crédito Recíproco (o CCR, espécie de mecanismo de compensação em moedas locais acoplado a um seguro de exportação). Firmou acordo, ainda, para que compromissos como compra e venda de energia elétrica e pagamentos previdenciários possam ser realizados em moeda local, real ou peso.

Não é a única iniciativa no continente, de redução da dependência em relação ao dólar para transações com vizinhos. Atento aos movimentos brasileiros, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, reuniu seus associados na Alternativa Bolivariana das Américas (Alba), pequenos países centro-americanos e do Caribe, além da Bolívia, e com Equador e Paraguai firmou um acordo para um mecanismo de compensação regional a que denominaram “sucre”, embrião, segundo o venezuelano, de uma futura moeda regional.

Como muitos dos anúncios de Chávez, o “sucre” tem muito de intenção e pouco de realidade, por enquanto, já que iniciativas de livre trânsito cambial na Venezuela esbarram no rígido controle de pagamentos internacionais feitos pelo governo. Chávez, no fim de semana, recebeu o ministro de Relações Exteriores, Celso Amorim, e como outros governantes do continente, mostrou interesse no mecanismo de comércio em moeda local entre Brasil e Argentina. A conversa não foi além de perguntas interessadas do venezuelano. Não se sabe como compatibilizar o mecanismo com o controle cambial imposto no país.

A iniciativa brasileira de expandir a circulação do real no continente pode ser interpretada por dois ângulos. Um deles, se adotada a retórica com que o venezuelano Chávez cerca medidas do gênero, pode ser vista como uma medida antiamericana – o que não é – destinada a botar a colherzinha do Brasil na sopa da desconstrução dos Estados Unidos como emissor da moeda de troca mundial.

Outra interpretação, mais do agrado do governo brasileiro, é a de que a crise financeira e de confiança nos mercados mundiais ameaça fortemente as contas externas dos países da região, com quem o Brasil tem uma parcela substancial de seu comércio. Se quiser reduzir as fontes de pressão sobre as políticas comerciais dos parceiros sul-americanos e minimizar seus efeitos sobre as vendas de produtos brasileiros na região, o governo brasileiro tem de buscar mecanismos criativos e menos dependentes do fluxo de dólares para esses países. Lula mandou seus técnicos encontrarem esses mecanismos e conta tê-los em mãos, até junho.

Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras

E-mail: sergio.leo@valor.com.br