16/11/2009 - 11:42h “Brasil o que melhor conseguiu combater a fome” ajudará savana africana em projetos agrícolas

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De Roma – VALOR

A indústria brasileira de equipamentos agrícolas poderá se beneficiar de uma iniciativa de Brasília de ajudar países africanos a cultivarem as Savanas, que são parecidas com o Cerrado brasileiro, acredita a Embrapa.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva discutiu ontem a iniciativa com líderes africanos, na FAO, em Roma. Lula quer reunir ministros de Agricultura do continente em Brasília, em abril, para examinar mecanismos de financiamento a serem levados à reunião de cúpula do G-20 em junho, no Canadá.

Atualmente, só 10% das Savanas estão cultivadas. A Embrapa já identificou 35 projetos de cooperação em 16 países e entraria com US$ 12,8 milhões.

Um projeto que começou a tomar corpo neste mês é para ajudar na exploração de 3 milhões de hectares em Moçambique, em cooperação com o Japão, que já ajudou por sua vez na exploração do Cerrado brasileiro.

Os japoneses entrarão com o dinheiro, cerca de US$ 300 milhões em dez anos; o Brasil, com a tecnologia; e os africanos, com a terra. A ideia é produzir soja, milho, arroz e outras commodities.

O presidente da Embrapa, Pedro Arraes, afastou a ideia de que se estaria estimulando a criação de concorrentes para o agronegócio brasileiro. “Tenho certeza de que a demanda vai aumentar globalmente muito. E, se não houver soja suficiente, os usuários partem para outro produto.”

A fome atinge 1,2 bilhão de pessoas. Nesse cenário, o Brasil é visto como um sucesso. A ONG ActionAid diz ter avaliado vários países e concluido que foi o Brasil o que melhor conseguiu combater a fome. (AM)

16/11/2009 - 09:34h Novas ameaças às exportações brasileiras nos maiores mercados do mundo

Americanos e europeus estudam regulação mais dura com base em problemas climáticos, trabalhistas e de segurança

Raquel Landim – O Estado SP

Estão surgindo novas ameaças às exportações brasileiras nos maiores mercados do mundo, Estados Unidos e União Europeia. Três grupos de barreiras preocupam: ambientais, trabalhistas e de segurança. Deputados americanos e europeus debatem novas legislações sobre esses temas, que são foco da agenda comercial.

Estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) aponta que por ano 15,4% das exportações brasileiras para os EUA – o equivalente a US$ 5 bilhões – estão na mira da nova legislação americana de mudanças climáticas. A lei pode atingir as vendas brasileiras de aço, celulose, papel e alumínio.

O aquecimento global tornou o tema ambiental urgente. O presidente Barack Obama deu sinais de que está disposto a assumir compromissos na reunião de Copenhague. Preocupadas em ficar em desvantagem com outros países, as empresas americanas exigem compensações.

Existem dois projetos sobre o tema no Congresso americano. O mais provável é que sejam aprovadas medidas que obriguem os importadores a comprar licenças para emissão de carbono. “Isso joga o ônus da adaptação nos países em desenvolvimento”, disse o diretor de relações internacionais da Fiesp, Mário Marconini.

A União Europeia também estuda a adoção de uma “taxa de carbono” contra produtos importados, caso os países emergentes não se disponham a assumir compromissos equiparáveis aos ricos de redução de emissões em Copenhague.

Segundo a consultora da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Sandra Rios, essas tarifas distorcem a negociação climática, que reconhece que os países ricos e em desenvolvimento têm responsabilidades diferentes pelo aquecimento global. “O problema é que essas tarifas vão equiparar os esforços. As nações emergentes têm de manter seu crescimento.”

Nas discussões trabalhistas, os sindicatos ganharam força para defender regras rígidas em acordos comerciais, depois do desemprego causado pela crise e do apoio decisivo a Obama. A maior preocupação é com o trabalho escravo e infantil.

Tramita no Congresso dos EUA um projeto para reformar a lei de aduanas. Segundo o diretor executivo da Coalização das Indústrias Brasileiras, com sede em Washington, Diego Bonomo, pode entrar em vigor uma nova lista de produtos feitos com trabalho escravo e infantil, que ficariam impedidos de entrar no país. A lista inclui 13 itens brasileiros, como algodão, calçados e tabaco.

A segurança também ganhou relevância desde os ataques de 11 de setembro de 2001. O Congresso concedeu um mandato para o Executivo americano escanear 100% dos contêineres que chegam ao país. Existe um projeto-piloto, mas a administração federal argumenta que não há condições de colocar a lei em prática.

Barreira ambiental vai afetar mais os setores intensivos de energia

Estudo da Fiesp mostra que maiores prejuízos recairão na venda de ferro e aço, celulose, argila, papel e alumínio

Raquel Landim – O Estado SP


As exportações brasileiras dos setores intensivos em energia serão as mais afetadas pelas novas barreiras ambientais dos Estados Unidos. Os prejuízos podem ser maiores nas vendas de ferro e aço, celulose, argila, papel e alumínio, conforme estudo elaborado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

A Câmara dos Deputados dos Estados Unidos aprovou no mês de junho a Lei Waxman-Markey, que estabelece metas de redução de emissões para os Estados Unidos pela primeira vez. Segundo cálculos do Departamento Governamental de Contabilidade americano, os setores que terão mais gastos para se adaptar às novas regras serão metais primários, metais não-metálicos e químicos.

Ainda não foi definido pelo Congresso, mas crescem as chances de que, para compensar os fabricantes locais e evitar a fuga de empresas para países com padrões ambientais menos rígidos, os americanos estabeleçam medidas de fronteira, como exigir que os importadores comprem licenças de emissões de carbono.

No caso do Brasil, o setor siderúrgico deve ser o mais prejudicado, já que quase 27% das exportações de ferro e aço são destinadas ao mercado americano, o que significou US$ 3,4 bilhões em 2008.

“A Conferência de Copenhague é essencialmente econômica. Não podemos ter a ingenuidade de chegar a essa discussão como se fosse apenas ambiental”, argumenta o presidente executivo do Instituto Aço Brasil, Marco Polo de Mello Lopes.

“Se a indústria siderúrgica americana vai fazer investimentos, é legítimo que queiram compensações. O problema é que, depois da crise, o mercado está sobre ofertado. As questões ambientais podem ser um pretexto para o protecionismo”, observa. Ele afirma que existe um excedente de aço de 600 milhões de toneladas no mundo.

A indústria siderúrgica brasileira defende que as metas de redução de emissões sejam diferentes para países com consumo per capita inferior e superior a 300 quilos de aço por habitante por ano. Na avaliação do setor, o consumo de aço é um indicador de crescimento econômico e as metas ambientais não podem brecar o desenvolvimento. O Brasil consome 100 quilos por habitante/ano, enquanto a China chega a 340.

Para o presidente da Associação Brasileira do Alumínio (Abal), Adjarma Azevedo, “as barreiras ambientais são inevitáveis”. O executivo afirma que o Brasil tem de se empenhar para influenciar na implementação dessas leis. Ele diz que, dependendo dos critérios, pode ser um benefício para o Brasil, cuja matriz energética é 47% de energia renovável.

Azevedo acredita que as medidas de fronteira dos Estados Unidos vão acabar levando em consideração o conteúdo de emissão de carbono de cada país. Segundo ele, a indústria brasileira de alumínio contribui com 0,2% das emissões do País, que, por sua vez, representa apenas 4% das emissões globais.

Já a fabricação mundial de alumínio equivale a 1% das emissões do planeta.

QUÍMICO

A maior preocupação do setor químico hoje não está nos Estados Unidos, mas na Europa. A União Europeia implementou no ano passado um novo registro para as substâncias químicas que entram no bloco, conhecido pela sigla Reach. O objetivo é garantir a qualidade dos produtos químicos para não afetar a saúde da população e o meio ambiente.

Por enquanto, a regulamentação ainda não está sendo rigidamente implementada. “Mas pode ser utilizado como uma barreira se os europeus quiserem, porque impõe uma série de dificuldades para as empresas”, explica o diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria Química (Abiquim), Nelson Pereira dos Reis.

OUTRO LADO DA MOEDA

Para alguns setores, novas barreiras comerciais podem se transformar em oportunidades. O presidente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit), Aguinaldo Diniz Filho, disse que é “absolutamente favorável” a cláusulas sociais no comércio internacional. “É uma evolução natural da globalização.”

Para o setor têxtil brasileiro, que já opera com uma legislação trabalhista forte, novas regras são vantajosas, porque prejudicariam seu principal concorrente, a China.

Os novos temas do comércio internacional, como meio ambiente e trabalho, são causas defensáveis e não chegam a ir diretamente contra a Organização Mundial de Comércio (OMC), que prevê que os países abram exceções para proteger os recursos naturais ou para fins sociais.

A questão, alertam os especialistas, é que esses temas podem ser utilizados como barreiras protecionistas.

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Discussão sobre o etanol ganha novas proporções

Raquel Landim – O Estado SP

Símbolo do sucesso brasileiro em energia renovável, o etanol também pode ser alvo de barreiras ambientais. O setor enfrenta um momento crítico nos próximos meses, que é a regulamentação dos combustíveis de baixo carbono.

“É a nossa maior preocupação”, disse o presidente da União da Indústria Canavieira de São Paulo (Unica), Marcos Jank. O assunto está sendo debatido nos Estados Unidos e na União Europeia. Nos Estados Unidos, a discussão não é apenas federal, mas também estadual.

Não existem dúvidas de que o etanol polui menos que a gasolina. Também está claro que o etanol brasileiro, produzido com cana-de-açúcar, é menos poluente que produto americano, feito a partir do milho. A questão é qual é o tamanho da vantagem.

Segundo Jank, as discussões nos Estados Unidos e na União Europeia consideram o uso indireto da terra. Ou seja, o efeito que a expansão da produção de cana tem no desmatamento da Amazônia. A área de cana cresce no Centro-Sul, mas, teoricamente, empurra outras culturas em direção à floresta.

“São cálculos muito difíceis de fazer. E estão sendo utilizadas premissas erradas, porque há desconhecimento do álcool de cana”, disse o presidente da Unica. Jank ressalta que apenas 1% da expansão da cana-de-açúcar ocorre por meio de desmatamento, enquanto 60% é feito em áreas de pastagens.

Para as usinas, a discussão sobre o padrão do combustível se tornou mais importante que a queda da tarifa cobrada pelos Estados Unidos para a importação de etanol, de US$ 0,54 por galão, que vence em 2010.

Segundo Jank, a indústria vai fazer um forte lobby para o Congresso Nacional não renovar a tarifa. “Mas se garantirmos uma boa qualificação para o etanol brasileiro como combustível avançado ganharemos aliados nessa briga.”

21/10/2009 - 10:54h O que aconteceria em caso de um colapso do dólar?

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Crise: China sofreria, e bancos expostos a risco cambial poderiam quebrar

Peter Coy, BusinessWeek – VALOR

A crise financeira nos ensinou que os mercados podem cair mais e mais rápido do que as pessoas esperam. O preço das moradias nos EUA, por exemplo, caiu por três anos seguidos a começar de 2006, embora a sabedoria convencional dissesse até então que os preços não iriam cair nem um pouco.

Vamos aplicar isso ao dólar, que também deveria resistir a uma crise. Após se enfraquecer gradualmente desde 2002, a moeda americana subiu com a crise financeira do ano passado. Mas acumula uma desvalorização de cerca de 15% desde março, quando os investidores passaram a mudar para moedas de maior rendimento. A sabedoria convencional diz que a esses níveis, o dólar está barato, prestes a iniciar uma recuperação. “As moedas não avançam muito mais que 20% em relação às suas médias de longo prazo em termos reais [ajustado à inflação]. Já estamos lá”, afirma Michael Dooley, economista, fundador e analista-chefe da Cabezon Capital Management, firma de investimentos de São Francisco.
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Assim, vale ao menos cogitar a possibilidade de um “colapso” do dólar. A razão de o estouro da bolha imobiliária ter tido efeitos tão devastadores foi a falta de imaginação: bancos, autoridades reguladoras, agências de avaliação de crédito e outros simplesmente não conseguiam acreditar que os preços das casas cairiam do jeito que caíram, de modo que todos foram pegos de surpresa.

Imaginemos que o dólar caia rapidamente mais 25% contra cada uma das grandes moedas mundiais, algo mais ou menos parecido com o declínio sem precedentes de 30% nos preços das casas. Isso significaria que seria preciso US$ 2 para comprar € 1. O lado bom é que as empresas americanas teriam mais facilidade para competir nos mercados internacionais, e o turismo teria uma explosão nos EUA. O lado ruim é que a inflação subiria nos EUA devido ao custo maior dos produtos importados. Os americanos teriam ainda mais problemas para obter empréstimos à medida que os compradores estrangeiros fossem saindo do mercado de dívida.

Fora, o dólar barato tornaria mais difícil exportar para os EUA, o que afetaria o crescimento do resto do mundo. A China poderia enfrentar distúrbios sociais. Guerras comerciais poderiam irromper. E haveria problemas em bancos expostos demais, aqueles que tinham certeza de que um estouro do dólar não ocorreria. Como diz o investidor Warren Buffett: “Você só descobre quem está nadando pelado quando a maré baixa”.

As autoridades reguladoras dos EUA estão monitorando os bancos em uma ampla variedade de riscos, incluindo a ameaça de uma quebra do dólar: “Não estamos acompanhando os riscos trimestre a trimestre, e sim minuto a minuto”, diz uma autoridade que pediu para não ser identificada.

Após o pico atingido no segundo trimestre, o dólar acumula queda de 11% contra o iene japonês, 16% contra o euro, 21% contra o dólar canadense e cerca de 30% contra o real e o dólar australiano, que estão se beneficiando do repique no preço das commodities. Em relação a uma cesta ampla de moedas de todos os parceiros comerciais dos EUA, ajustada à inflação, o dólar já caiu 15% desde o pico atingido no segundo trimestre.

Por trás da fraqueza do dólar está a taxa de juro de curto prazo dos EUA, perto de zero. Assim como fizeram antes com o iene, investidores estão tomando dólar barato emprestado para vendê-los e comprar moedas de países cujas ações e bônus prometem retornos melhores. O Federal Reserve (Fed) está mantendo o juro básico a 0,25% para estimular a economia americana e ajudar os bancos, mas um efeito colateral é que o dólar tornou-se o combustível preferido da aposta especulativa internacional, que o está sobrecarregando.

Uma outra força ajuda a derrubar o dólar: os contínuos déficits comerciais dos EUA, um custo que os EUA estão pagando por tomar emprestado do resto do mundo. Alguns economistas acreditam que, em algum momento, os EUA serão forçados a desvalorizar sua própria moeda para tornar seu endividamento mundial mais suportável. Embora o rombo comercial tenha caído para menos de 3% do PIB no segundo trimestre, contra o pico de 6% em 2006, ele ainda é alto pelos padrões históricos.

Alguns dos bancos centrais que sustentaram o dólar parecem estar com medo. Em vez de comprar só dólares para suas reservas internacionais, estão diversificando para outras moedas. Os países que revelam a composição de suas reservas colocaram 63% delas em euros e iene no segundo trimestre, segundo análise do Barclays Capital. Steven Englander, principal estrategista de câmbio do Barclays, diz: “O incentivo desses países é tentar uma diversificação discreta, e não ’sair fora a todo preço’”. A China não revela a composição de suas reservas, que superam US$ 2 trilhões.

Membros do governo Obama não parecem perturbados pela queda do dólar até agora. O dólar mais fraco ajuda a diminuir o déficit comercial ao tornar os produtos americanos mais competitivos.

Mas essa calmaria pode desaparecer da noite para o dia se os mercados financeiros sentirem que a queda do dólar vai se tornar uma bola de neve sem controle. Nesse ponto, o “campo de força” invisível que protege o dólar vai sumir, afirma Martin Weiss, presidente do Weiss Group, firma de análises de dados financeiros de Júpiter, Flórida. Weiss diz: “Nos tornaríamos mortais comuns, mais vulneráveis a ataques contra a nossa moeda”.

Nesse cenário pessimista, o declínio ganha vida própria. As vendas geram mais vendas. Bancos centrais mundiais interviriam para estimular o câmbio, mas os especuladores, tendo já experimentado o gosto da vitória, não recuariam. Paul Krugman, economista da Universidade Princeton, certa vez chamou isso de cenário coiote, numa referência ao personagem do desenho animado Papa-Léguas, que perde o chão no alto de um despenhadeiro, mas só começa a cair quando olha para baixo e vê que não há nada sob seus pés.

As especulações de que o dólar poderá sofrer um colapso podem se tornar autorrealizáveis se os operadores se apressarem a deixar a moeda. Ashraf Laidi, principal estrategista de câmbio da CMC Markets, uma corretora de Londres, diz que “agora há cerca de 30% a 40% de chances de vermos o dólar cair ao ponto de configurar uma crise”.

Os otimistas com o dólar apontam que a moeda recuperou-se ultimamente. Mas Laidi não vê nisso uma demonstração de apoio ao dólar ou à economia dos EUA. Ele diz que os investidores apenas recuaram de todos os tipos de risco e colocaram seu dinheiro no instrumento de curto prazo de maior liquidez – justamente os títulos do Tesouro americano. Englander, do Barclays, concorda: “Não se trata de uma aposta de longo prazo na economia dos EUA”.

Os operadores de câmbio não dão muito crédito às declarações de apoio ao dólar forte feitas por autoridades americanas. Observam que secretários do Tesouro desde o governo Clinton vêm dizendo que apoiam o dólar forte. Mas os EUA não vêm dando apoio à sua moeda através de compras no mercado desde 1995.

Se o dólar despencar, o preço das importações pode subir mais rápido que o esperado pelos economistas. Seria um desastre para a economia se o Fed tivesse que subir a taxa de juros para conter a inflação ou defender a moeda, enquanto o crescimento segue fraco.

O dólar mais fraco deixaria os americanos mais pobres, ao reduzir o poder de compra da moeda. E não há garantias de que isso vai estimular o setor industrial americano, diz David Mallpass, presidente da consultoria Encima Global. Para ele, a queda do dólar no fim dos anos 80 mais atrapalhou que ajudou Detroit, ao dar ao Japão poder de compra para fortalecer suas montadoras. “Podemos ficar pobres a ponto de não podermos importar muita coisa e equilibraremos a balança comercial. Mas isso seria bom para os EUA?”

No curto prazo, o maior risco seria a falência de quem fez apostas altamente alavancadas e que está vulnerável a uma queda do dólar. Isso afetaria não só os negócios de câmbio, mas também os de derivativos de juros e os swaps de defaults de crédito. Cinco grandes bancos responderam por 88% da exposição de risco de crédito a derivativos em todo o sistema bancário dos EUA no segundo trimestre.

Ninguém sabe se o dólar caminha para um desastre. Mas acreditar no melhor é arriscado.

(Copyright © 2009 The McGraw-Hill Companies Inc.)

25/08/2009 - 11:21h China supera a Alemanha como maior exportador

Comércio: Dados do 1º semestre mostram pequena vantagem chinesa

Ralph Atkins, Financial Times, de Frankfurt – VALOR

As exportações chinesas abriram uma ligeira dianteira em relação às da Alemanha no primeiro semestre deste ano, segundo novos dados divulgados ontem, em mais uma indicação de que a posição da Alemanha, de principal país exportador do mundo, está ameaçada.

A China exportou mercadorias em valor equivalente a US$ 521,7 bilhões no primeiro semestre do ano, enquanto o total da Alemanha foi US$ 521,6 bilhões, conforme anunciou a Organização Mundial do Comércio (OMC), com sede em Genebra.

Estes números de exportação são acompanhados de perto na Alemanha, a maior economia da Europa, que terá eleições nacionais no próximo mês. As vendas dos seus produtos industriais têm impulsionado em grande parte o crescimento econômico nos últimos anos e, durante toda a crise econômica, o governo da premiê conservadora Angela Merkel tem defendido firmemente o modelo econômico do país, voltado às exportações.

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A Alemanha há muito tempo vem se preparando para que a economia chinesa, de crescimento muito mais acelerado, assuma o seu título de “campeã mundial de exportações”.

O valor provável das exportações alemãs e chinesas para o ano cheio continua, porém, incerto e dependerá decisivamente das oscilações das taxas de câmbio nos próximos meses.

Um euro forte poderia ajudar a reduzir as vendas da Alemanha. Os setores exportadores do país mostraram sinais de recuperação nos meses recentes.

“Está apertado demais para podermos extrapolar para o ano todo e, quem dirá, para o próximo ano”, afirmou Patrick Low, economista-chefe da OMC.

As exportações alemãs foram duramente abaladas pela queda na confiança mundial que se seguiu à derrocada do banco de investimentos americano Lehman Brothers, no ano passado.

Mas surgiram sólidos sinais de uma sólida retomada no crescimento. Em junho, mês mais recente para o qual há dados disponíveis, as exportações alemãs deram um salto de 7% na comparação com o mês anterior. Apesar disso, elas ainda ficaram 22,3% abaixo do nível do ano anterior. As exportações chinesas seguiram um padrão semelhante.

O aumento repentino nas exportações ajudou a explicar porque a Alemanha conseguiu registrar um aumento no PIB no segundo trimestre, na comparação com o trimestre anterior – dando a entender que o país teria saído da recessão antes dos EUA, Reino Unido e da maioria das demais grandes economias da UE.

Por sua vez, a recuperação na Alemanha está ajudando a elevar o desempenho global da zona do euro. As encomendas à indústria na zona do euro dispararam, numa alta de 3,1% em junho, na comparação com o mês anterior (leia texto ao lado), segundo dados da Eurostat, a agência oficial de estatísticas da União Europeia.

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Para Pequim, estímulo ainda é necessário

Agências internacionais – VALOR

O primeiro-ministro da China, Wen Jiabao, disse que a economia de seu país “ainda enfrenta muitas novas dificuldades e problemas” e que o governo manterá suas políticas de estímulo uma vez que recuperação ainda carece de bases sólidas.

Wen disse que apesar de melhoras nas condições da economia chinesa, não se pode ser “cegamente otimista”. As declarações foram feitas ontem durante visita ao sul do país e veiculadas pelo site do gabinete do premiê.

“Ainda há muitos fatores de instabilidade e de incerteza pela frente e a situação econômica futura é ainda muito grave, embora tanto a economia mundial quanto a economia nacional estejam passando por mudanças positivas neste momento.”

O premiê advertiu também que os efeitos de algumas das medidas do governo podem começar a perder força enquanto outras levarão algum tempo até apresentarem resultados. No comunicado do gabinete com as declarações de Wen não há mais detalhes dos problemas mencionados por ele.

A cautela do líder chinês contrasta com um otimismo crescente entre muitos analistas que dizem que a China está fazendo progressos impressionantes para deixar para trás os efeitos da crise. Muitos têm repetido que a China será a primeira grande economia a sair da maior retração mundial desde os anos 30.

Wen prometeu que Pequim continuará aplicando suas políticas para incrementar a demanda doméstica, ampliar o crédito e melhorar eficiência. O país está pondo em prática a um plano de estímulo de US$ 586 bilhões previsto para durar dois anos. O objetivo é injetar recursos do Estado na economia para estimular o consumo doméstico por meio de maiores gastos públicos em obras e ampliação de crédito.

O Banco da Construção da China afirmou ontem, no entanto, que há o excesso de recursos no sistema bancário está criando uma bolhas do mercado, o que deu asas a temores de que autoridades chinesas estejam preparando – ao contrário da promessa de Wen – um aperto no crédito.

“Há incerteza na economia e bolhas no mercado de capitais”, disse Guo Shuqing, presidente do banco, o segundo maior do país. “O sistema bancário chinês ainda tem excesso de liquidez.”

No primeiro trimestre, bancos do país concederam um valor recorde de US$ 1,1 trilhão em novos empréstimos para ajudar a por em prática o pacote de estímulo do governo.

Foi o pacote que contribuiu para que a economia chinesa tivesse um crescimento de 7,9% no último trimestre – ante os 6,1% do trimestre anterior. O premiê e outras autoridades chinesas têm alertado, no entanto, que muitas empresas no país ainda registram resultados ruins e que outras áreas mostram que a fase de recuperação ainda não está bem fundada.

“A fundação da recuperação econômica não está estável, não está firme, não está equilibrada e certamente não podemos ser cegamente otimistas”, disse Wen.

A meta de crescimento do governo para este ano é de 8%. Estimativas de analistas privados variam de 7% a 9,4%.

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Demanda chinesa puxa o Japão

Bloomberg – VALOR

A demanda da China, a economia que mais cresce entre as principais do mundo, está contribuindo para tirar o Japão de sua mais grave recessão do pós-guerra, disse uma destacada economista do governo japonês.

“Não há dúvida de que a recuperação econômica da China está contribuindo para uma reação no Japão e em outras economias da região”, disse Tomoko Hayashi, diretora para economias externas da Secretaria de Governo em Tóquio.

Indústrias, da Honda à Komatsu, se beneficiaram no trimestre passado com o pacote de incentivo econômico da China, de 4 trilhões de iuan (US$ 585 bilhões), o que ajudou a economia do Japão a crescer pela primeira vez em mais de um ano. As exportações para a China superaram as vendas para os Estados Unidos e fizeram com que o país se tornasse o maior mercado externo do Japão este ano. O mercado chinês está compensando a fragilidade dos gastos do consumidor e das empresas no mercado japonês.

A “recuperação [do Japão] seguirá dependendo muito da demanda externa e do pacotes de estímulo no segundo semestre de 2009 e início de 2010″, disse Tetsufumi Yamakawa, economista-chefe para Japão do Goldman Sachs.

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Imóvel comercial dispara na China

Bloomberg – VALOR

A China superou os EUA e o Reino Unido juntos em vendas de imóveis comerciais no primeiro semestre do ano, disse a empresa de pesquisa Real Capital Analytics, sediada em Nova York.

As transações chinesas totalizaram US$ 31,2 bilhões, depois da disparada de vendas propiciada pelo boom de crédito patrocinado pelo governo chinês. As vendas nos EUA somaram US$ 16,2 bilhões no primeiro semestre, segundo o relatório, e as do Reino Unido, US$ 13,7 bilhões.

“Não há dúvida que de a China será um participante mais significativo no cenário mundial de transações de imóveis comerciais”, disse Dan Fasulo, diretor-executivo da Real Capital.

Cerca de US$ 62,8 bilhões em imóveis comerciais foram negociados mundialmente no segundo trimestre, 17% a mais que nos três meses anteriores, o que representa o primeiro aumento em 18 meses, disse a Real Capital.

Esse crescimento indica uma recuperação mundial. O total mundial de vendas no primeiro semestre foi de US$ 116,4 bilhões, 65% a menos que no mesmo período do ano passado e US$ 500 bilhões a menos que no pico no primeiro semestre de 2007. Espera-se que as vendas cresçam neste semestre.

24/08/2009 - 09:27h A crise financeira um ano depois

O problema agora é que o desemprego continua em alta tanto nos EUA como na Europa.

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Por Jeffrey D. Sachs – VALOR

Um ano depois do início da crise, ela parece estar sanada. Mas o desemprego continua em alta

Já transcorreu quase um ano desde que a economia mundial balançou à beira da calamidade. No espaço de três dias, de 15 a 18 de setembro de 2008, o Lehman Brothers apresentou seu pedido de falência, o controle da mega-seguradora AIG foi assumido pelo governo dos EUA e o Merrill Lynch, ícone falido de Wall Street, foi absorvido pelo Bank of America numa transação intermediada e financiada pelo governo dos EUA. Sobreveio o pânico e o crédito parou de circular. Companhias não conseguiam capital de giro, quanto mais recursos para investimentos de longo prazo. Uma depressão parecia possível.

Hoje, a tempestade foi domada. Meses de ações emergenciais promovidas pelos principais bancos centrais do mundo impediram o colapso dos mercados financeiros. Quando os bancos pararam de fornecer liquidez de curto prazo a outros bancos e companhias industriais, os bancos centrais preencheram a lacuna. Consequentemente, as principais economias evitaram um colapso do crédito e da produção. A sensação de pânico diminuiu. Os bancos estão mais uma vez emprestando uns aos outros.

Apesar de o pior ter sido evitado, muitas aflições persistem. A crise culminou no colapso dos preços dos ativos no fim de 2008. Famílias ricas e de classe média em todo o mundo se sentiram mais pobres e, portanto, reduziram suas despesas radicalmente. Os preços de alimentos e de petróleo nas alturas se somaram às aflições e, por conseguinte, à depressão econômica. Empresas não conseguiam vender a sua produção, o que acarretou cortes de produção e demissões. O desemprego crescente agravou a perda de riqueza familiar, arremessando famílias em profundo perigo econômico e levando a reduções adicionais nos gastos dos consumidores.

O grande problema agora é que o desemprego continua aumentando nos EUA e na Europa, já que o crescimento é lento demais para gerar suficientes postos de trabalho novos. Deslocamentos continuam sendo sentidos por todo o mundo.

Seguiu-se um enorme debate em torno do chamado “gasto de estímulo” nos EUA, Europa e China. Esse gasto tem como objetivo usar os maiores gastos ou incentivos fiscais do governo para compensar a queda no consumo das famílias e no investimento empresarial. Nos EUA, por exemplo, praticamente um terço do pacote de estímulo de US$ 800 bilhões consiste em redução de impostos (para estimular gastos de consumidores); um terço é composto por despesas públicas em estradas, escolas, energia elétrica e outros tipos de infraestrutura; e um terço assume a forma de transferências federais a governos locais e estaduais para serviços de saúde, seguro-desemprego, salários para escolas.

Os pacotes de estímulo são controversos, pois aumentam o déficit orçamentário e, consequentemente, implicam na necessidade de reduzir gastos ou elevar impostos no futuro próximo. A pergunta é se eles estimulam a produção e a geração de empregos com êxito no curto prazo, e, caso afirmativo, se fazem o suficiente para compensar os inevitáveis problemas orçamentários que virão.

A real eficácia desses pacotes não está clara. Suponhamos que o governo conceda uma redução de imposto para aumentar o salário líquido dos consumidores. Se os consumidores decidirem poupar essa redução em vez de estimular o consumo. Nesse caso, o estímulo terá pouco efeito positivo sobre o gasto da família, mas agravará o déficit orçamentário.

Uma avaliação inicial dos pacotes de estímulo sugere que o programa da China funcionou bem. A queda acentuada nas exportações da China para os EUA tem sido compensada por uma queda expressiva nos gastos do governo chinês com infraestrutura, digamos, na construção de metrôs nas maiores cidades da China.

Nos EUA, o veredicto é menos claro. O corte de impostos foi mais provavelmente economizado que gasto. O componente de infraestrutura ainda não foi gasto devido a longas demoras para transformar o pacote de estímulo dos EUA em projetos de construção reais. A terceira parte – a transferência para governos locais e estaduais- quase certamente tem sido bem sucedida, na manutenção das despesas com escolas, saúde e desempregados.

Em suma, os efeitos do estímulo sobre os gastos nos EUA provavelmente têm sido positivos, mas reduzidos, e sem um efeito decisivo sobre a economia. Além disso, temores em torno do enorme déficit orçamentário dos EUA, agora na casa dos US$ 1,8 trilhão (12% do PIB) por ano, tendem a aumentar, não só gerando enormes incertezas no meio político e nos mercados financeiros, mas também diminuindo a confiança dos consumidores.

Quando a crise se aprofundou há um ano, Barack Obama inseriu na campanha presidencial o tema de uma “recuperação verde”, baseada num surto de investimentos em energias renováveis, novos veículos elétricos, edifícios “verdes” ambientalmente eficientes e agricultura ecologicamente segura. No calor da batalha contra o pânico financeiro, a atenção das políticas públicas se afastou daquela recuperação verde. Agora, os EUA precisam retornar a essa ideia importante.

As políticas públicas do governo nos EUA e em outros países ricos deveriam estimular aqueles investimentos por meio de incentivos especiais. Esses incentivos incluem um sistema de teto e mercado para emissões de gás estufa, subsídios para pesquisa e desenvolvimento em tecnologias sustentáveis, tarifas do tipo “feed-in” (que visam estimular tecnologias de geração de energia limpa alternativa) e incentivos reguladores para energia renovável e outros atrativos para a absorção de tecnologias. “verdes”.

O mundo rico também deveria fornecer aos países mais pobres subsídios e empréstimos a juros baixos para comprar tecnologias energéticas sustentáveis, como energia solar e geotérmica. Fazê-lo se somaria à recuperação global, melhoraria a sustentabilidade ambiental de longo prazo e aceleraria o desenvolvimento econômico. A crise ainda pode ser uma oportunidade para sair de uma rota de bolhas financeiras e consumo excessivo rumo a uma rota de desenvolvimento sustentável. Na verdade, aproveitar essa oportunidade é a única receita para crescimento genuíno que nos resta.

Jeffrey D. Sachs é professor de Economia na Universidade Columbia e consultor especial do secretário-geral das Nações Unidas para as Metas de Desenvolvimento do Milênio. Copyright: Project Syndicate, 2009.

24/08/2009 - 09:07h Risco-Brasil fica entre os menores

Dívida externa: Spread brasileiro cai 19,6% e se consolida abaixo do mexicano e do russo

Cristiane Perini Lucchesi, de São Paulo – VALOR

O Brasil teve destaque entre os emergentes no mercado internacional de crédito no período pós-quebra da Lehman Brothers e se consolidou como o de menor prêmio de risco entre os países mais negociados. O risco-Brasil está 19,6% abaixo do que era um dia antes de estourar a fase mais aguda da crise, em 15 de setembro, na comparação com o aumento de 12,9% na média de 14 países do índice CDX.

“A despeito de todos os problemas e desafios, o Brasil é percebido como mais disciplinado e previsível”, diz Octavio de Barros, diretor do Departamento de Economia do Bradesco. “Mesmo o cenário eleitoral do ano que vem, ainda que possa suscitar alguma volatilidade mais adiante, não tira o sono de ninguém, pois o mercado não identifica incentivos a se andar para trás”, diz ele. No seu entender, o risco-Brasil tende a seguir uma trajetória de queda, fechando nos níveis de 100 pontos básicos no final deste ano, na comparação com os 124,915 pontos básicos na sexta-feira do prêmio do swap de crédito (CDS) de vencimento em cinco anos da dívida externa brasileira.

“A performance relativa do risco-Brasil foi excelente durante a crise, superando a dos demais emergentes, o que já esperávamos”, diz Daniel Tenengauzer, diretor-gerente e chefe de estratégia global para juros e moedas do Bank of America Merrill Lynch. “O que é surpreendente é que o risco-Brasil está agora mais baixo inclusive do que o spread do México”, afirma o estrategista.

Enquanto o risco-Brasil está em 124,915 pontos básicos, o spread de crédito do México está em 163,695 pontos básicos, apesar de a dívida externa do governo mexicano ter rating dois degraus acima da dívida do governo brasileiro pela Standard & Poor’s e pela Fitch Ratings e três degraus acima pela Moody’s. De acordo com a Fitch e a S&P, o Brasil tem a nota “BBB” para sua dívida externa, o primeiro degrau do grau de investimento. O México é “BBB+”. Já a Moody’s considera o Brasil ainda investimento especulativo e dá a nota “Ba1″ para o país, na comparação com a classificação “Baa1″ da dívida externa do México. Antes de a crise explodir, no dia 12 de setembro, o prêmio de risco do México era de 134,1 pontos básicos, na comparação com os 155,30 pontos do Brasil. Enquanto o risco-México subiu 22,1% desde então, o risco-Brasil teve queda de 19,6%.

“O Brasil foi um dos primeiros países a sair da recessão e as perspectivas de crescimento para o ano que vem são ainda mais animadoras, dado o ciclo de investimentos nas áreas de petróleo e gás”, diz Octavio de Barros, que prevê crescimento de 2,1% no Produto Interno Bruto no segundo trimestre de 2009 na comparação com o primeiro. No terceiro trimestre, haverá estabilidade e no quarto, novo crescimento de 2%, prevê.

Enquanto isso, o México, que tem uma economia mais dependente das importações dos Estados Unidos e menos diversificada, está em situação mais difícil, diz Ernesto Meyer, coordenador de financiamento para aquisições e operações sindicalizadas para a América Latina do BNP Paribas. O governo mexicano acaba de anunciar uma queda de 1,1% no PIB no segundo trimestre na comparação com o primeiro e um tombo de 10,3% na comparação com 2008, o maior em 25 anos.

A Rússia também tem rating melhor do que o Brasil – um degrau pela S&P e pela Fitch Ratings e três degraus pela Moody’s, mas está com risco-país de 272,72 pontos básicos, mais do que o dobro do brasileiro. O PIB da Rússia também continuou em contração no segundo trimestre -tombo de 10,9% na comparação com o trimestre em 2008, o maior da história – e seu risco-país subiu 62,5% desde a quebra da Lehman Brothers.

A queda maior no prêmio de risco-Brasil na comparação com outros emergentes tem ajudado a derrubar ainda mais os spreads pagos “por uma elite de empresas brasileiras”, pois grande parte da liquidez antes destinada a outros países da América Latina foi direcionada para o Brasil, diz Meyer. Hoje, entre os latino-americanos, o Chile é o único que tem risco de crédito menor do que o do Brasil pelo CDS, de 81,9 pontos percentuais. Mas, apesar disso, segundo Meyer, as grandes empresas brasileiras já pagam menos do que qualquer empresa da região em empréstimos, inclusive as chilenas. A China tem prêmio de risco de 82,25 pontos, mas tem US$ 2,13 trilhões em reservas, contra US$ 213,956 bilhões do Brasil.

23/08/2009 - 11:55h EUA, China e a ordem econômica emergente

 

Henry Kissinger*, TRIBUNE MEDIA SERVICES – O Estado SP

 


http://www.thewashingtonnote.com/archives/kissinger.jpgNum recente jantar de encerramento anual de seu diálogo estratégico e econômico em nível ministerial em Washington, dirigentes dos Estados Unidos e da China expressaram seu compromisso com uma atitude cooperativa com um entusiasmo maior que nos quase 40 anos desde que os dois países retomaram contato em 1971. É bom que seja assim, pois a próxima década testemunhará desafios radicais à sua adaptabilidade e visão.

O diálogo anual, tal como é, se concentra inevitavelmente nos problemas do momento. Por mais proveitoso que seja, o desafio mais profundo para uma relação descrita pelo presidente Barack Obama como tão importante quanto qualquer outra no mundo, é alcançar uma visão com respeito à ordem mundial emergente.

A suposição de que o fim da recessão vai restaurar o sistema econômico global familiar, ignora a subversão psicológica e política que ocorreu.

Uma vasta maré de liquidez combinada com o apetite americano por bens de consumo enviou quantidades imensas de dólares para a China que, por sua vez, a China nos emprestou de volta para um consumo ainda maior.

Antes da crise, a China enviou legiões de especialistas aos Estados Unidos e investiu em grandes instituições financeiras americanas para aprender os segredos do sistema que parecia produzir um crescimento global permanente com pouco risco.

A crise econômica abalou essa convicção. Os dirigentes econômicos chineses perceberam que o sistema financeiro americano submeteu uma década de suas poupanças a flutuações potencialmente catastróficas.

Para proteger o valor de seu investimento em títulos do Tesouro e para sustentar sua própria economia movida a exportações, a China se vê obrigada a continuar aumentando a posse desses títulos para perto de US$ 1 trilhão.

A ambiguidade é a consequência inevitável tanto na China como nos Estados Unidos.

Por outro lado, as duas economias se tornaram cada vez mais dependentes uma da outra. A China tem grande interesse numa economia americana estável – e de preferência em crescimento. Mas a China também tem um interesse crescente em reduzir sua dependência das decisões americanas.

Como tanto a inflação como a deflação americanas se tornaram pesadelos tão graves para a China quanto são para os Estados Unidos, os dois países se defrontam com o imperativo de coordenar suas políticas econômicas.

Como maior credora dos EUA, a China tem um grau de alavancagem econômica sem precedentes na experiência americana. Ao mesmo tempo, a busca pela ampliação do escopo de decisão independente existe numa combinação ambivalente em ambos os lados.

Algumas iniciativas chinesas refletem essa tendência. Autoridades chinesas se sentem mais livres para oferecer conselhos públicos e privados aos Estados Unidos do que antes. A China começou a fazer comércio com Índia, Rússia e Brasil em suas próprias moedas.

A proposta do presidente do banco central chinês de criar gradualmente uma moeda de reserva alternativa é outro ponto em questão. Muitos economistas americanos fazem pouco dessa ideia. Mas ela aflora em tantos fóruns, e a China tem um histórico tão consistente de perseguir seus projetos com grande paciência, que deveria ser levada a sério.

Para evitar uma deriva gradual para políticas antagônicas, a influência chinesa nos mecanismos globais de tomada de decisões econômicas precisa ser reforçada.

A sabedoria convencional de uma nova ordem econômica mundial cria outro imperativo de coordenação de políticas econômicas de longo alcance. Segundo ela, a economia mundial recuperará sua vitalidade assim que a China consumir mais e os EUA consumirem menos. Mas à medida que ambos os países aplicarem essa prescrição, isso inevitavelmente alterará a estrutura política.

Uma América que consome menos importará menos da China. À medida que as exportações chinesas para os EUA diminuírem e a China mudar a ênfase de sua economia para um maior consumo e um aumento nos gastos com infraestrutura, uma ordem econômica diferente surgirá. A China será menos dependente do mercado americano e seu padrão de mudanças comerciais, enquanto a crescente dependência de países vizinhos de mercados chineses aumentará a influência política da China. Até certo ponto, a cooperação política terá de compensar essa mudança.

Uma definição cooperativa para um futuro longo não será fácil.

Historicamente, China e Estados Unidos têm sido potências hegemônicas capazes de estabelecer suas próprias agendas de forma essencialmente unilateral.

Elas não estão acostumadas a alianças estreitas ou a processos consultivos que restrinjam sua liberdade de ação numa base de igualdade. Quando estiveram em alianças, elas tenderam a dar como certo que o manto de liderança lhes pertencia e exibiram um grau de dominação inconcebível numa emergente parceria sino-americana.

Para fazer esse esforço funcionar, os líderes americanos precisam resistir ao canto de sereia de uma política de contenção extraída do manual de estratégia da Guerra Fria. A China precisa evitar uma política voltada para reduzir alegados desígnios hegemônicos americanos e a tentação de criar um bloco asiático para esse fim. No fim das contas, um confronto esgotará as duas sociedades em detrimento do bem-estar global como a 2ª Guerra fez com a Europa. Questões que só podem ser tratadas numa base global, como energia, meio ambiente, proliferação nuclear e mudança climática, requererão uma visão comum do futuro.

No outro extremo, alguns argumentam que Estados Unidos e China deviam se constituir num G-2. Um órgão governante global sino-americano tácito não é, porém, do interesse de nenhum dos dois países ou do mundo. Os países que se sentirem excluídos poderiam derivar para um nacionalismo rígido no preciso momento em que se requer uma perspectiva universal.

A grande contribuição dos Estados Unidos nos anos 50 foi tomar a frente no desenvolvimento de um conjunto de instituições pelas quais a região atlântica pudesse lidar com sublevações sem precedente. Uma região até então dilacerada por rivalidades nacionais encontrou mecanismos para institucionalizar um destino comum, reduzindo, em grande medida, as perspectivas de guerra, e levando, com o tempo, a uma ordem mundial muito mais benigna.

O século 21 hoje requer uma estrutura institucional apropriada para este tempo. As nações que margeiam o Pacífico têm um senso de identidade nacional mais forte que o dos países europeus que saíram da 2ª Guerra. Elas não devem derivar para uma versão do século 21 da clássica política de equilíbrio de poder. Será particularmente pernicioso se blocos antagônicos se formarem em cada lado do Pacífico.

Enquanto o centro de gravidade dos assuntos internacionais pende para a Ásia, e os Estados Unidos descobrem um novo papel diferente da hegemonia, mas compatível com a liderança, precisamos de uma visão de estrutura do Pacífico baseada numa cooperação estreita entre os Estados Unidos e a China, mas também suficientemente ampla para permitir que outros países que margeiam o Pacífico concretizem suas aspirações.

*Henry Kissinger é ex-secretário de Estado dos Estados Unidos

03/06/2009 - 10:46h Para economistas, Brasil vai sair da crise global em posição vantajosa

Leo Pinheiro/Valor

Eduardo Loyo, do banco UBS Pactual: “Um pouquinho de um amanhecer”

 

Chico Santos, do Rio – VALOR

O seminário “Comércio e Finanças: os Desafios da Crise Mundial”, promovido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) e Banco Mundial, com o apoio do Valor e da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), mostrou economistas ainda divididos quanto aos rumos da crise mundial, embora a maioria concorde que o Brasil está em posição vantajosa. Na abertura, o economista Carlos Geraldo Langoni, coordenador do evento, deixou no ar a pergunta se aquele era o último seminário da crise e o primeiro do pós-crise.

Não houve concordância entre brasileiros e estrangeiros que participaram do encontro, mas o lado brasileiro, começando pelo próprio Langoni, revelou-se mais otimista. “Nos últimos 60 dias a percepção mudou muito”, disse o ex-presidente do Banco Central (1980-1983), citando a evolução favorável dos indicadores de confiança nos Estados Unidos, Europa e até no mais combalido Japão.

“A verdade é que a economia mundial dá sinais de uma lenta recuperação”, disse Langoni, para quem os últimos sinais desmentem a chamada teoria do “L”, segundo a qual após a queda provocada pela crise a economia marcharia em linha horizontal, sem retomar o crescimento por muito tempo. Ele agora enxerga um movimento mais próximo do clássico “U”, ainda que possa ser um “U” assimétrico, com a perna da retomada não alcançando a mesma altura do lado da queda.

O economista da FGV foi ainda mais otimista quanto ao Brasil. “O Brasil passou muito bem pelo teste de estresse da economia mundial”, disse, ressaltando as diferenças em relação a crises passadas: “Não houve crise cambial, não houve fuga de capitais. Foi o teste definitivo para o regime de câmbio flutuante e foi o primeiro choque externo que não empurrou o Brasil para uma espiral inflacionária”, relacionou. Langoni disse que o Brasil operou bem até na parte fiscal, agindo para compensar os desinvestimentos privados, mesmo considerando que este é um aspecto que preocupa para o futuro.

O economista Sebastian Edwards, da Universidade da Califórnia (Ucla) mostrou expectativa oposta, ao menos no tocante à situação mundial. “É o primeiro seminário pós-crise? Eu gostaria que fosse verdade, mas não acho, acho que a crise ainda está conosco e que ainda estaremos no fundo do poço por algum tempo”, disse. Para Edwards, o máximo que pode estar ocorrendo é “o crescimento de algumas plantinhas em meio a ervas daninhas”.

O máximo que o economista da Ucla aceita é que a economia mundial parou de cair. Mas ele avalia que ainda há muita coisa ruim, gerando risco de contaminação. Ele citou o caso da Espanha, país que, segundo ele, pode vir a precisar de uma deflação de até 30% para se reestruturar. Falou também da possibilidade de os Estados Unidos enfrentarem uma inflação, fruto da explosão monetária para cobrir o socorro do Estado à economia.

Há ainda, no cenário de Edwards, a hipótese de os Estados Unidos terem uma segunda recessão, como ocorreu em 1937 após a primeira fase de recuperação pós-depressão de 1929. O risco de nova recessão agora seria representado pela possibilidade de o governo do presidente Barack Obama ter que aumentar impostos em busca de equilíbrio fiscal para realizar seus programas na área social.

O economista admite que a América Latina, especialmente o Brasil, reagiu melhor à crise do que no passado, mas adverte que no após-crise, a recuperação do atraso segue por fazer, desde o combate à pobreza até o esforço educacional, “uma vergonha na América Latina”. Defendeu mais foco em inovação, produtividade e competitividade na região. A ênfase na educação e na competitividade foram também as receitas para a região e para o Brasil dadas por Makhtar Diop, diretor do Bird para o Brasil, que encerrou o evento.

O economista-chefe do banco UBS Pactual, Eduardo Loyo, ex-diretor do Banco Central, preferiu concentrar sua análise no caso brasileiro. Para ele, o Brasil está, ao mesmo tempo, experimentando uma situação de crise e de pós-crise. “Estamos, de fato, experimentando um pouquinho de um amanhecer, seja ele verdadeiro ou não”, disse Loyo.

Ele contou que em recente viagem à Ásia viu expostas em várias lojas de varejo de produtos financeiros de Tóquio ofertas de opções para investir no Brasil, ao mesmo tempo que o governo americano ia à China tranquilizar quanto ao seu compromisso com a manutenção do dólar forte. “Eu me senti em uma situação inversa (ao representante americano)”, contou.

Segundo Loyo, embora boa parte da recente apreciação do real possa ser explicada como contrapartida ao aumento dos preços das commodities, mas, como a apreciação da moeda brasileira é maior do que a alta dos produtos, resta uma diferença que, para Loyo, só pode ser explicada pela melhora de humor em relação aos ativos brasileiros.

Na parte do seminário que discutiu o comércio mundial, a tônica dos palestrantes foi de advertências quanto aos riscos de um recrudescimento protecionista e quanto à necessidade de retomada das negociações comerciais, especialmente da conclusão da Rodada de Doha de negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC). Gary Hufbauer, do Peterson Institute for International Economics, disse que a conclusão de Doha poderia render ao Brasil mais US$ 2 bilhões em exportações.

(Colaborou Rafael Rosas, do Valor Online)

31/05/2009 - 11:19h Trimestre até que está bom

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Alberto Tamer* – O Estado SP

Falta apenas um mês para terminar o segundo trimestre e já podemos fazer um balanço preliminar do que passou e o do que pode ocorrer nos próximos 30 dias.

Já sabemos que a recessão mundial tem sido contida, não foi tão grave como se esperava, embora tenha atingido duramente a economia e jogado na rua milhões de desempregados. Só não foi pior porque, mesmo com atraso agora perdoável, os bancos centrais e governos socorreram o sistema financeiro em sua coreografia de ganhos insustentáveis, estimularam a demanda, o emprego e atenuaram o impacto da crise no mercado de trabalho.

O que podemos constatar neste quase fim de trimestre é que os EUA, pelo menos até agora, evitaram um aprofundamento da recessão. Ela pode até mesmo ser superada no próximo trimestre. Não deve haver crescimento mas, pelo menos, tudo indica que a economia deixou de piorar. E se eles se recuperarem, o mundo pode ir atrás.

O BRASIL NO BIMESTRE

Já dissemos: estamos nos saindo bem nestes dois meses. Agimos com ousadia e em tempo. Não vou repetir aqui o que o governo fez de certo, pois os leitores da coluna já estão informados. O desemprego é grande, mas parou de aumentar. A indústria continua declinante, mas a agricultura segue vigorosa. As exportações recuam, mas os investimentos externos não param de aumentar.

É tanto dinheiro que até incomoda e preocupa o governo. O crédito era escasso no bimestre, mas está voltando. E o povo confia mais, com os supermercados e as lojas vendendo mais.

O caso brasileiro é singular. Nós entramos na recessão com atraso, depois dos EUA e da Europa que já afundavam nela. Estávamos fortes e tínhamos espaço para recuar com perda e sofrimento menores.

Com as medidas financeiras, fiscais, tributárias e monetárias do governo, e o impulso do passado, a economia pode sair da recessão mais cedo e menos enfraquecida.

O ministro da Fazenda reconheceu, afinal, que estamos em recessão. Não teve acanhamento em contradizer tudo o que ele e o presidente afirmavam antes. Eram os otimistas de plantão… Mas acertou ao dizer: “passou e vamos continuar lutando para que isso não se repita”.

No fim deste bimestre, podemos dizer que recebemos bem o impacto da crise e estamos prontos para sacudir a poeira, não voltar por cima, mas sair andando. Aos tropeços, sim, mas andando. Há ainda o fantasma do desemprego, a retração da indústria, o consumo interno que ainda pouco se anima, os salários reduzidos e em risco, as exportações que sofrem o triplo impacto do câmbio, do financiamento e da retração da demanda externa. Mas são desafios para os quais as soluções já estão encaminhadas.

O EXIMBANK OPORTUNO

Veio bem na hora a proposta de criar um banco especial para financiar o comércio exterior – não só as exportações, mas também as operações externas ligadas a elas. A experiência mostra que desempenho do comércio é um dos sinalizadores da economia mundial. Geralmente, é um dos primeiros a reagir após um período de forte retração. E já existem indicações de alguma reação, principalmente no mercado de commodities agrícolas que são o sustentáculo das nossas exportações.

O Eximbank brasileiro é bem-vindo. Se for mesmo instalado neste ano, certamente vai ajudar muito o País a sair da recessão e voltar a crescer. Nota 9 para a equipe econômica.

MAIS UM PARA A EXPORTAÇÃO

“Por que 9 e não 10?”, deve estar se perguntando o leitor. Pois falta outra medida fundamental para reanimar as exportações: um organismo que concentre a política de comércio exterior, hoje distribuída por vários ministérios que não se entendem. Em tese, o Ministério do Desenvolvimento é oficialmente responsável, mas vá dizer isso ao ministro Miguel Jorge…

Quando se trata, então, de acordos ou negociações internacionais, parece um samba do crioulo doido. O Itamaraty não ouve ninguém, se mete em tudo, e até agora ou não fez nada ou, quando fez, foi só tolice.

O ministro Celso Amorim sonha ainda o sonho de Doha. Mas Doha é a “virgem terminal” da diplomacia comercial. Só o nosso ministro ainda espera por ela nos altares vazios de Genebra.

Falta isso, sim. Um organismo único, com poderes de decisão. Não me venham falar de conselhos, que existem muitos em Brasília, em parte para aumentar os vencimentos dos funcionários ou a renda dos que os frequentam. Um conselho é o que a palavra diz, um “conselho”, aquele que “aconselha”, recomenda mas não decide. De que adianta dizer que é preciso fazer acordos bilaterais se o multilateralismo da OMC não funciona e o Itamaraty só promete e não faz nada? De que adianta dizer que não se deve desprezar o mercado americano como desprezamos estupidamente?

O mercado americano é o maior do mundo. Importava US$ 2 trilhões antes da crise, e importam ainda hoje US$ 1,7 trilhão. E a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras caíram de quase 13%, em abril do ano passado, para 10,7%, em abril deste ano.

“Mas aumentamos as vendas para a China, senhor colunista!” Sim, sim, só que 70% do que a China importa são commodities e, dos EUA, manufaturados. Sem dúvida, uma troca “muy inteligente…”

Presidente, por que, juntamente com o Eximbank, não criar logo um organismo só para comandar (não coordenar) as exportações?

*Email: at@attglobal.net

04/04/2009 - 15:02h A China, presa numa armadilha de dólares

Paul Krugman * – O Estado SP

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Ainda no início da crise financeira, os mais espirituosos brincavam dizendo que nosso comércio com a China tinha finalmente se tornado justo e equilibrado: eles nos vendiam brinquedos tóxicos e frutos do mar contaminados; nós vendíamos a eles valores mobiliários fraudulentos.

Mas, hoje em dia, os dois extremos deste negócio parecem estar entrando em colapso. De um lado, o apetite mundial por produtos chineses diminuiu muito. As exportações chinesas caíram bastante nos últimos meses e estão 26% abaixo do nível registrado há um ano. Do outro lado, os chineses estão obviamente ficando inseguros em relação àqueles valores mobiliários.

Mas a China ainda parece manter as suas expectativas irreais. E isso representa um problema para todos nós.

Na semana passada a grande notícia foi um discurso feito pelo presidente do banco central chinês, Zhou Xiaochuan, pedindo por uma nova “moeda supranacional para as reservas internacionais”.

A ala paranoica do Partido Republicano prontamente alertou para um complô traiçoeiro que teria o objetivo de obrigar a América a desistir do dólar. Mas o discurso de Zhou foi na verdade uma admissão de fraqueza. Ele estava de fato dizendo que a China se meteu numa armadilha de dólares, da qual ela não é capaz de escapar, e nem é capaz de mudar as medidas que conduziram o país originalmente a esta situação.

Um pouco de contextualização: no início da década, a China começou a registrar grandes lucros no comércio exterior, e também começou a atrair significativas quantidades de capital estrangeiro. Se a China tivesse uma taxa de câmbio flutuante – como o Canadá, por exemplo – isto teria levado a uma valorização da sua moeda, o que por sua vez teria reduzido a velocidade do crescimento das exportações chinesas.

Mas a China decidiu em vez disso manter o valor do yuan mais ou menos constante em relação ao dólar. Para tanto, o governo foi obrigado a comprar dólares conforme eles inundavam o seu mercado. Com o passar dos anos, estes superávits comerciais continuaram a crescer – e o mesmo ocorreu com o açambarcamento chinês de ativos estrangeiros.

A piada sobre os valores mobiliários fraudulentos é, na verdade, injusta. Exceto por um mergulho tardio e pouco estudado nas empresas de capital livre (escolhendo as melhores do mercado), os chineses acumularam principalmente ativos seguros, como os letras do Tesouro americano – os chamados T-bonds – compondo grande parte do montante total dos mesmos. Mas, apesar de serem os títulos mais seguros do planeta, os T-bonds pagam uma taxa de juros muito baixa.

Será que houve uma estratégia profunda por trás deste acúmulo de T-bonds? Provavelmente não. A China adquiriu US$ 2 trilhões em reservas de moeda estrangeira – transformando a República Popular da China na República das Letras do Tesouro Americano – da mesma maneira que a Grã-Bretanha conquistou seu império: distraidamente.

E parece que um belo dia os líderes chineses acordaram e perceberam que tinham diante de si um problema.

A baixa taxa de juros não parece incomodá-los tanto, mesmo agora. Eles aparentemente se preocupam com o fato de cerca de 70% destes ativos serem denominados em dólar, o que significa que qualquer queda futura no valor do dólar representaria uma grande perda de capital para a China. Daí a proposta de Zhou sugerindo a adoção de uma nova moeda padrão para as reservas internacionais nos moldes dos Direitos Especiais de Saque (SDR, em inglês) do FMI, unidade na qual o fundo mantém suas contas.

Mas esta situação é ao mesmo tempo mais e menos do que aparenta ser.

Os SDRs não são dinheiro de verdade. São unidades contábeis cujo valor é definido por um fundo composto por dólares, euros, ienes japoneses e libras britânicas. E nada impede que a China diversifique suas reservas fugindo do dólar, fazendo com que o país mantenha uma reserva de moeda estrangeira de composição semelhante à dos SDRs – nada, exceto o fato de que a China possui agora tantos dólares que não seria capaz de vendê-los sem incorrer na sua desvalorização, desencadeando justamente a perda de capital que os seus líderes tanto temem.

Assim, a proposta de Zhou corresponde na verdade a um pedido de socorro, apelando para que alguém resgate a China das consequências do seu próprio investimento equivocado. Mas isto não vai acontecer.

E a busca por alguma solução mágica para o problema chinês do excesso de dólares sugere outra coisa: os líderes da China ainda não entenderam que as regras do jogo mudaram de uma maneira fundamental.

Dois anos atrás, vivíamos em um mundo no qual a China podia poupar muito mais do que investia, e se livrar na América do excesso das suas poupanças. Este mundo não existe mais.

Mas no dia seguinte, ao debater novas moedas para as reservas de moeda estrangeira, Zhou fez outro discurso no qual pareceu afirmar que a grande proporção de poupanças na China é imutável, um resultado do confucionismo, que valoriza a “antiextravagância”. Na mesma ocasião, ele disse que “não é o momento certo” de os EUA começarem a poupar mais. Em outras palavras, vamos continuar como estávamos.

Isso também não vai acontecer.A verdade é que a China ainda não encarou as incríveis mudanças que serão necessárias para lidar com esta crise global. É claro que o mesmo poderia ser dito dos japoneses, dos europeus – e de nós.

Esta relutância em enfrentar as novas realidades é o principal motivo pelo qual, apesar de algumas boas notícias – a reunião do G-20 realizou mais do que eu imaginava -, esta crise provavelmente ainda vai durar alguns anos.

*Paul Krugman é articulista

02/04/2009 - 09:19h Brasil entra tranquilo e sem pressa na reunião

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Alberto Tamer – O Estado SP

 


O Brasil entra sem medo na reunião do G-20 que se inicia hoje com muita expectativa e pouca esperança. Teme-se que seja mais uma “conferência das promessas não cumpridas”, como todas as anteriores desse grupo que detém 80% do PIB mundial. Um alto funcionário americano alertou ontem para esse risco.

Seria triste, mas não uma tragédia. A economia mundial demorará mais para sair da recessão, os EUA continuarão fazendo sozinho o seu programa de incentivo fiscal e socorro aos bancos, a Europa continuará afundando e um dia, afinal, vai se decidir fazer o inevitável: investir maciçamente no estimulo à demanda interna, uma vez que já se está socorrendo o sistema financeiro.

PODEMOS FICAR SÓ OLHANDO

Nós entramos bem nessa reunião. Já estamos seguindo a estratégia certa. Desde os primeiros sinais da crise, tivemos o cuidado de fiscalizar e oferecer liquidez ao sistema bancário, que está enxuto e sólido.

Estamos executando uma política fiscal fortalecida por reduções de impostos em setores importantes para a geração de empregos e aumento da demanda, como a construção civil e a indústria automobilística. Só a cadeia produtiva dessa indústria representa 23% do PIB do País! Podemos até nos dar ao luxo de apontar o dedo para os países desenvolvidos e dizer, como estamos dizendo, absorvam logo essas subprimes, esses papéis podres que vocês mesmos criaram e que estão intoxicando, envenenando o mercado e as linhas de crédito.

Sabemos que eles vão demorar muito para fazerem isso, mas está cada vez mais claro que não há saídas. Ou os governos dos países ricos assumem os prejuízos ou essa crise vai demorar muito a passar.

E SE NÃO DER CERTO?

É evidente que, se isso acontecer, será ruim para nós. Entraremos em recessão mas poderemos conviver com ela por algum tempo melhor do que os outros.Temos, como a China, um mercado interno potencial inexplorado e não será nenhuma tragédia shakespeariana se por alguns meses tivermos um déficit fiscal de 1% ou 2%. Para nós é importante que essa reunião dê certo, mas a economia não irá cair no fundo do poço se isso não ocorrer.

POR QUE ESPERAR POUCO?

Simplesmente porque, tendo em vista o que aconteceu ontem, em Londres, pode-se dizer que há nitidamente dois blocos bem distintos. Um é formado pelos EUA, Japão e China, do qual o Brasil também faz parte. Eles defendem a aplicação imediata de uma política fiscal agressiva para promover um grande aumento da demanda e retomar o crescimento ainda no fim deste ano. O Brasil já vem há algum tempo aplicando essa estratégia. O fato de o governo ter reduzido impostos para os setores automobilístico e de construção revela pioneirismo. Só a Grã-Bretanha fez algum movimento nesse sentido mas não avançou.

O outro bloco é o da França e Alemanha. Os dois chefes de Estado, Sarkozy e Merkel, se reuniram ontem em Paris e firmaram um ponto de vista comum. Eles vão se opor a qualquer aumento de gastos e defenderão uma reforma imediata do sistema financeiro internacional.

Ainda ontem a chanceler alemã afirmou que a sua economia depende muito das exportações. Mas “é algo que nem mesmo queremos mudar, afirmou ela.” Ou seja, ela quer que o mundo mude, cresça mais para importar mais da Alemanha e sustentá-la! Isso não nos leva um pouco de volta ao passado?

G2 COM PINTA DE G3

A perigosa divisão ficou ainda mais clara nesta quarta-feira. Obama reuniu-se com Hu Jintao, no que já se estava chamando, em Londres, de um “novo G-2″. Não foi uma conversa informal, não.

Ao fim do encontro, eles anunciaram que decidiram trabalhar para reativar a economia por meio de medidas fiscais, reforçar o sistema financeiro e “estabelecer um diálogo bilateral estratégico”. Os EUA já vêm investindo pesadamente na política fiscal e a China destinou mais de US$ 500 bilhões para reativar o consumo interno. Sua vantagem é que os projetos já estão prontos e podem começar a ser executados imediatamente.

Como a Alemanha, seu crescimento espantoso até agora vem dependendo essencialmente das exportações, mas, ao contrário da Alemanha, sabe que precisa reverter essa situação, investindo na demanda interna. Ou isso, ou não crescerá mais de 5% neste ano. Inaceitável para um país com 1,3 bilhão de habitantes, 800 milhões dos quais vivendo pobre ou miseravelmente.

*E- mail: at@attglobal.net

01/04/2009 - 08:56h Por que o G20 fracassará

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MARTIN WOLF “DO FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

A CONFERÊNCIA de cúpula do G20 parece destinada a realizar progressos. Mas suas realizações precisam ser medidas não apenas diante do desempenho do passado, mas com relação à “feroz urgência do agora”. E, infelizmente, não serão suficientes.

A OCDE prevê agora contração de 4,3% nas economias dos países avançados neste ano, seguida por estagnação em 2010. Nos países avançados que a integram, o desemprego pode subir em 25 milhões de pessoas até 2010. Enquanto isso, o FMI prevê que a economia mundial se contrairá neste ano entre 0,5% e 1%. Isso representaria uma elevação de cerca de 4% na “diferença de produção”, a diferença entre o potencial produtivo e a produção efetiva.

Será que o G20 se provará capaz de enfrentar esses excepcionais desafios? A resposta é não. O que é necessário é uma grande ampliação na demanda e uma virada em sua distribuição, dos países cronicamente deficitários para os superavitários. Em ambos os pontos, o progresso será muito limitado.

A OCDE argumenta que as medidas de estímulo adotadas pelos governos em resposta à crise elevarão o PIB desses países em média por só 0,5%, em 2009 e 2010. Além disso, a demanda adicional está surgindo pelo menos em igual medida nos países deficitários e superavitários. Isso não é receita para uma solução dos desequilíbrios mundiais, mas sim para seu prolongamento indefinido.

Infelizmente, não há consenso sobre as causas subjacentes da crise ou as melhores maneiras de escapar dela. EUA e Reino Unido concordam que os excessos financeiros tiveram origem não na desregulamentação e sim no imenso excedente de oferta dos países superavitários, principalmente China, Alemanha e Japão. Mas a China e europeus liderados pela Alemanha argumentam que a culpa cabe integralmente aos perdulários países deficitários. No entanto, a China também espera que o mundo em breve possa voltar a absorver seu excesso de oferta.

Na entrevista do “Financial Times” com Angela Merkel, a chanceler alemã disse que “a economia alemã depende muito de exportações, e isso não é algo que se possa mudar em dois anos”. Acrescentou ainda que “não é algo que desejemos mudar”. Parafraseando: “O resto do mundo precisa encontrar uma maneira de absorver a nossa oferta excedente, mas de maneira sustentável, por favor”. Mas o que acontece se isso não ocorrer? Em 2007, os China, Alemanha e Japão registraram um superávit agregado de US$ 835 bilhões em conta corrente. Logicamente, os países deficitários que lhes servem como contraparte precisam gastar mais do que ganham por igual montante. Mas os países deficitários já não podem captar recursos junto a credores voluntários com bom crédito.

Essa mudança é o aspecto central da crise. Os países superavitários, que dependiam do setor privado dos países deficitários para que realizasse por eles sua captação irresponsável, demonstram padrão muito diferente: o balanço em seu setor privado mudará pouco e, em todos os casos, continuará a exibir um grande superávit o tempo todo: grandes superávits em conta corrente quase sempre significam poupança excedente no setor privado. Mas, na medida em que seus superávits externos caiam, os déficits fiscais crescerão, em parte por decisão política deliberada mas também devido às consequências automáticas das recessões.

Assim, as posições fiscais estão se deteriorando, e os superávits e déficits em conta corrente estão minguando em toda parte, à medida que o setor privado dos países deficitários reduz dramaticamente os seus gastos. Mas a deterioração fiscal esperada é maior nos países deficitários do que nos superavitários. Com a exceção do Japão, os déficits fiscais também serão maiores nos países deficitários. O que essa análise nos revela é bastante simples: não está acontecendo quase nenhum ajuste nos desequilíbrios estruturais subjacentes. Não estamos no caminho para uma saída duradoura da crise.

Assim, o que resta a fazer? Esse deve ser o tema central do G20. A economia mundial não pode ser conduzida a um equilíbrio seguro por meio de medidas que encorajem número relativamente pequeno de países a gastar até falir. A resposta depende, em parte, de mudanças nas políticas dos países superavitários. Mas também em igual medida de repensar o sistema monetário internacional. Enquanto isso, a cúpula do G20 tratará em larga medida dos sintomas imediatos da doença. Encontrar uma cura de longo prazo para o excesso crônico de oferta mundial é tarefa que ficará para o futuro.

24/03/2009 - 12:03h Balança comercial tem superávit em março

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Renata Veríssimo – O Estado SP

A forte retração do comércio mundial tem provocado uma recuperação do superávit da balança comercial brasileira. O saldo comercial este mês, acumulado em três semanas, soma US$ 1,04 bilhão, e já supera o de março de 2008, de US$ 988 milhões.

Depois de começar o ano com um déficit de US$ 524 milhões em janeiro, o superávit acumulado em 2009 totaliza US$ 2,28 bilhões, 1,8% menor que no mesmo período do ano passado. Em 2008, a queda do saldo comercial foi vertiginosa por causa do aumento das importações, que cresciam mais que o dobro das exportações. Houve uma retração de 38,2% em relação ao superávit de 2007.

Neste ano, importações e exportações estão em queda. Mas segundo dados divulgados ontem pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, as exportações caíram menos que as importações e este mês somam US$ 7,99 bilhões, queda de 15,5% em relação à média diária de março de 2008. As importações totalizam US$ 6,95 bilhões, retração de 20,3%. Na terceira semana, o Brasil exportou US$ 2,79 bilhões e importou US$ 2,17 bilhões – um superávit de US$ 619 milhões.