18/08/2009 - 18:16h Nômade com raízes forjadas
Meu Restaurante: Com perseverança, a chef Paola Carosella finca no Brasil seu caldeirão cultural.
Stefan Schmeling / Valor Foto Destaque

A argentina Paola Carosella, chef-proprietária do restaurante Arturito: aprendizado com a exigente clientela paulistana que quer “dirigir” a casa
Por Maria da Paz Trefaut, de São Paulo – VALOR
O preconceito que grande parte dos brasileiros nutre contra os argentinos não impediu que Paola Carosella fizesse um nome em São Paulo. O restaurante do qual é chef-proprietária, o Arturito, completa um ano na semana que vem com lugares disputados todas as noites. “No começo sofri horrores, agora dou risada. Acho muito pequeno o preconceito da fronteira, alguém achar que por um limite físico e geográfico uma pessoa é melhor ou pior do que a outra.” Por conta de sua nacionalidade, recorda que, certa vez, ao recomendar peixe para os clientes de uma determinada mesa, recebeu como resposta: “Pelo amor de Deus, você é argentina e não entende nada de peixe! Só de carne”. Esse foi um dos comentários mais leves que ouviu.
Em compensação, se deixasse o Brasil hoje e alguém lhe perguntasse o que mais aprendeu, ela responderia sem hesitar que aqui aprendeu a ouvir e a entender o cliente, usando as críticas para crescer. “Para mim foi uma enorme transformação ver o poder que ele tem, muito diferente dos lugares onde eu tinha trabalhado, onde o chef de cozinha propõe uma coisa e o cliente come”. Segundo ela, aqui o cliente transforma tudo, tem um enorme poder na direção do restaurante. “Ele te obriga, entre aspas, de uma forma que considero boa, a que você o satisfaça. Não tinha trabalhado em culturas onde o cliente reclama tanto, como o paulistano. Eu curto, sinto que grande parte de meu crescimento profissional deve-se à tentativa de entender suas exigências”.
A especialidade de Paola é o fogo, a comida preparada no forno à lenha, na chapa, na grelha, no grill, onde o grande personagem é o produto. Em sua auto-avaliação, acredita que cada vez menos faz receitas e o que busca é uma forma de valorizar produtos. Isso vale para uma anchova fresca ou para um ojo de bife premium assados no forno à lenha. “A única coisa que preciso é de um bom peixe fresco, de uma carne de qualidade, de uma caixa de ferro pesada e de um bom forno. Depois, vejo o que cada prato pede como acompanhamento para que fique interessante na boca.”
Produtos frescos são o que mais valoriza. Procura produzir para o consumo do dia de forma a que, no fim da noite, já não seja possível encontrar duas ou três sugestões do cardápio. “Acabou, acabou. Não gosto de jogar fora nem de guardar de um dia para outro”. Um de seus desejos é encurtar o caminho entre o produtor e a mesa para fechar o círculo entre a terra, o cozinheiro, o cliente.
Sua paixão mais recente é a salumeria – presuntos, linguiças, chorizo e defumados de porco, pato e coelho – que ela mesma prepara e serve no início da refeição com pães, como se fossem uma espécie de “bruschettas desconstruídas”. Aliás, o pão é algo que merece destaque no cardápio. Chega à mesa sempre quente, crocante por fora e macio por dentro, do couvert à sobremesa. “Eu adoro pão”, confessa. “Tem a ver com minhas origens: é uma coisa muito italiana e muito argentina. Uso pão em todas as suas variantes: quente, frio, amassado na chapa com manteiga, moído, em migalhas fritas”.
Neta de italianos que emigraram para a Argentina no pós-guerra, Paola chegou a São Paulo em 2001 com o chef argentino Francis Mallmann para abrir o Figueira Rubayat. Tinha trabalhado em restaurantes pequenos, não falava português, e vinha para dirigir uma brigada de quase setenta pessoas, num restaurante que fazia até 1500 couverts por dia.
Como para muitos argentinos, o Brasil para ela resumia-se às férias passadas em Florianópolis e no Rio de Janeiro. “Eu tinha trabalhado em outros países: me formei na França, trabalhei lá (Le Bristol e Le Grand Vefour), em Londres e São Francisco. Mas sempre como cozinheira. Foi meu primeiro cargo de chef”, diz Paola, que no primeiro ano não saiu da cozinha, não conseguiu falar português nem conhecer a idiossincrasia do paulistano.
O contrato da chef com Francis Mallmann, com quem trabalhou durante sete anos e considera seu grande mestre, chegou ao fim quando A Figueira completou um ano. Era hora de voltar para Buenos Aires e abrir seu restaurante. Mas o país estava em pleno panelaço e ela, muito apaixonada pelo Brasil. Então, pensou: já que ia abrir um restaurante, por que não São Paulo? Voltou para Buenos Aires, vendeu tudo e veio para cá montar o Julia Cocina, restaurante no qual começou a se tornar conhecida e que deixou por desentendimentos societários.
Depois de dois anos sabáticos veio o Arturito, que ela considera uma etapa da maturidade. “Que venham outras”, diz, inquieta, apesar de gostar como nunca do que faz e de sentir que encontrou um lugar na cidade. “São Paulo é complexa, demora até você descobrir qual é tua tribo.” Apesar isso, segundo Paola, é um lugar fantástico para se ter um restaurante. Tem bons produtos, um público crítico, exigente e apreciador, que premia e castiga. “Tem, também, uma mão de obra excelente e não é difícil treinar uma boa equipe”.
Aos 36 anos, seu plano a curto prazo é permanecer mais cinco anos no Brasil. Buenos Aires é algo que “já foi”. Gostaria de ter um restaurante em outro lugar do mundo ou de viver na ponte aérea, já que não quer abandonar o Arturito. “Sou nômade, muito solitária, não tenho raízes. Ou melhor: minhas raízes são, com certeza, muito diferentes daquilo que habitualmente se considera uma raiz”.
Porções: 3
Tempo de preparo: 180 min


Comemorando os dois anos do restaurante espanhol Eñe, o grupo, Gran Gang, que há dois anos vem fazendo um show só com as músicas das trilhas sonoras dos filmes de Almodóvar, fará uma apresentação no restaurante. O show chama-se “Un Año de Amor – Nas Trilhas de Almodóvar” e reúne boleros, tangos, rancheras e outros gêneros latinos que falam de paixão e desejo, apresentados em clima de cabaré. Será no Restaurante Eñe – Nueva Cocina Española, nos dias 23 e 30 de março, às 22h30. Por tratar-se de uma comemoração pelo transcurso do segundo aniversário do restaurante, o show foi especialmente rebatizado de “Dos Años de Amor – Nas Trilhas de Almodóvar”. O endereço é Rua Dr. Mário Ferraz, 213 – Jardim Paulista (tel: 3816-4333).