09/11/2009 - 09:57h “Há entusiasmo incontido no câmbio”

Regulador: Henrique Meirelles diz ver excesso de euforia também na bolsa, mas não necessariamente uma bolha


Peter MacDiarmid/Getty Images
Foto Destaque
O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, afirma que o crescimento de 8% do PIB é insustentável e deve se estabilizar em patamar mais baixo



Sergio Lamucci e Cristiano Romero, de Londres – VALOR

O ritmo de crescimento da economia brasileira exibido no segundo e no terceiro trimestres, na casa de 8% em termos anualizados, é “insustentável”, devendo arrefecer no próximo ano, avalia o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles. Segundo ele, as previsões do mercado apontam para uma expansão entre 4,5% e 5% em 2010, o que sugere estabilização da taxa anualizada num número menor que os 7,8% observados no segundo trimestre e os cerca de 8% esperados para o terceiro.

“É normal que esse processo se estabilize num ritmo menor e mais sustentável”, disse Meirelles em entrevista exclusiva ao Valor na sexta-feira. No fim de semana, ele participou da reunião do G-20 financeiro, em Edimburgo, na Escócia.

O presidente do BC ressaltou a importância da recuperação do investimento, que deve fechar 2009 com retração superior a dois dígitos. “Não há dúvida de que é muito importante a retomada dos investimentos, que os empresários se antecipem à demanda futura, não esperando que o uso da capacidade atinja o limite”, afirmou ele.

O presidente do BC acredita, no entanto, que os investimentos serão feitos. Ele observou, mencionando previsão do BNDES, que a formação bruta de capital fixo (medida do que se investe na construção civil e em máquinas e equipamentos) deve avançar com força em 2010, ajudando a impulsionar o PIB.

Meirelles foi cauteloso ao falar da formação de bolhas de ativos no Brasil e no exterior. Disse que existe, no mercado brasileiro, “excesso de euforia” na bolsa e no mercado de câmbio. Ele não crê, porém, que esteja se formando uma bolha especulativa no segmento de commodities e acha que uma perturbação dos mercados, lá fora, dependerá principalmente da ação do Federal Reserve (o BC dos Estados Unidos) nos próximos meses e da implementação, ou não, das medidas prudenciais que estão sendo recomendadas pelo G-20 após a recente crise mundial.

Valor: Robert Shiller (autor do livro “Exuberância Irracional”) diz que há uma nova bolha no mundo, o eco da bolha anterior. Como o sr. avalia esse fenômeno?

Henrique Meirelles: O Federal Reserve, numa escala maior, e alguns outros bancos centrais, em escala menor, estão em meio a uma política expansionista, visando combater a crise. Essa política tem um componente quantitativo – a compra de títulos, a compra de crédito etc – que aumenta o tamanho do balanço do Fed e dos outros BCs, e também uma taxa básica em algumas situações muito próxima de zero. Dentro de um processo de alta liquidez, é esperado que aconteça alguma distorção na formação de preços de ativos. Isso pode levar à supervalorização de alguns ativos. A questão é saber se o Fed e os outros BCs, mas principalmente o Fed, vão começar a fazer um processo de saída dessas medidas a tempo de não permitir o prosseguimento da sobrevalorização de ativos, o que, aí sim, poderia ter consequências para a economia.

Valor: Que tipo de bolha temos neste momento?

Meirelles: Há três tipos de bolhas, com componentes concomitantes e similares, mas com algumas características diferentes. A primeira, e que é a mais perigosa e que causa mais prejuízos, é a bolha de crédito. Um exemplo clássico disso foi a bolha no mercado imobiliário e do mercado de crédito nos Estados Unidos. Toda a sociedade americana estava superalavancada. O segundo tipo são as bolhas que surgem e são corrigidas a tempo. Isto é, se o processo que conduziu à bolha, como uma expansão monetária, é corrigido a tempo, há um processo de correção. Os prejuízos ficam para os investidores.

Valor: É uma bolha de ativos?

Meirelles: Ambas são bolhas de ativos, mas uma não é relacionada a uma bolha de crédito e não tem uma duração muito prolongada. O terceiro tipo de bolha é um intermediário. Não é uma bolha de crédito, mas é resultado de uma expansão monetária um pouco maior do que seria desejável. Esta causa um pouco mais de prejuízo, apesar de não ser tão grave como a bolha de crédito. No presente momento, há um risco, porque não se sabe até que ponto as novas regras prudenciais, em desenvolvimento pelo Conselho de Estabilidade Financeira por recomendação do G-20, para serem implementadas pelo Comitê da Basileia, serão aplicadas por todos os países relevantes a tempo, principalmente pelos EUA, e até que ponto isso poderia prevenir uma bolha de crédito, a mais grave. Existe esse risco, mas não quer dizer que vá acontecer.

Valor: Onde está o risco?

Meirelles: A situação dos EUA é um pouco mais complicada porque eles têm mais de um regulador e mais de um supervisor. Não é apenas dizer que o Fed tem que fazer isso ou aquilo. As bolhas que não são as de crédito vão depender do quão cedo o Fed vai retirar seus mecanismos de estímulo. Acredito que os alertas dos BCs são úteis. Não apenas as autoridades monetárias e prudenciais dos diversos países devem saber dos riscos, mas também e principalmente os investidores. São eles que conduzem à formação de bolhas.

Valor: Shiller diz que há uma bolha no mercado de commodities. Além disso, a bolsa brasileira teve valorização em dólar superior a 130% este ano. Que riscos o Brasil corre?

Meirelles: Bolhas de crédito no Brasil não existiram e não serão permitidas por este Banco Central; 95% da regulamentação que será proposta pela Basileia já está aplicada e implementada no Brasil. Essa primeira incerteza quanto à implementação de novas regras prudenciais não existe no Brasil. O que vier a faltar será implementado imediatamente. Em relação às commodities, uma das coisas mais difíceis da análise econômica é definir quando existe ou não uma bolha. Este foi o grande problema dos últimos anos. É por isso que a regra prudencial é importante no caso do crédito, porque você define claramente normas para prevenir a bolha, e no crédito você tem critérios mais quantitativos.

Valor: Por que no caso das commodities é mais difícil enxergar uma bolha?

Meirelles: Definir o preço adequado para commodities, num mundo em transformação como este, com a incorporação da massa de consumidores asiáticos no mercado e com a alta demanda, é difícil. Não dá para saber se os preços já estão acima de um nível mais sustentável ou não. Antes da crise, o petróleo chegou a atingir quase o dobro do preço atual. É difícil afirmar o quanto disso é resultado de movimento especulativo e o quanto é simplesmente um aumento da demanda. O Fed está afirmando que não vai permitir um surto inflacionário nos EUA. Mas, como existe incerteza, alguns investidores estão procurando diversificar suas aplicações. Isso significa euro, commodities, outras formas de ativos, moedas de economias sólidas. Uma parte disso de fato está ocorrendo, mas é difícil e um pouco prematuro dizer que existe uma bolha de commodities. A bolha você só conhece se e quando ela estoura.

Valor: Uma alta das bolsas muito forte, e não apenas no Brasil, num intervalo tão pequeno, não caracteriza de algum modo uma bolha?

Meirelles: Pode caracterizar ou não. É normal que tenhamos em momentos de saída de crise movimentos de valorização muito acentuados. Nós tivemos isso na década de 30 e em outras saídas de crise. Muitas vezes, isso é prematuro. O mercado, tentando antecipar uma recuperação, move-se um pouco antes da hora e às vezes há movimentos de correção. O mercado internacional está tentando se situar a esse respeito e isso explica a volatilidade. O que temos alertado, e diversos bancos centrais estão fazendo isso, bem como outras autoridades econômicas brasileiras, é sobre sinais de possíveis componentes de euforia.

Valor: Por exemplo?

Meirelles: Movimentos de investidores que caracterizam pouca análise, um certo comportamento de manada. O alerta contra a euforia é importante, contra aquilo que se chamou no passado de “exuberância irracional”, para que se evite que se chegue na bolha. Mas isso não quer dizer que já esteja num patamar de bolha.

Valor: O excesso de euforia no Brasil está restrito ao mercado acionário?

Meirelles: Está ocorrendo um pouco também no mercado de câmbio. Quando converso com investidores do mundo todo, começo a ver um clima de entusiasmo incontido.

Valor: O senhor viu isso no seminário Financial Times/Valor?

Meirelles: Não vi no seminário nenhum sinal de exuberância irracional. As manifestações me pareceram muito sólidas. Principalmente porque foram feitas por investidores de longo prazo no Brasil. São empresas que estão no país há décadas e estão dizendo que acreditam no seu futuro. Isto é extremamente saudável.

Valor: Mas o que preocupa, então?

Meirelles: Os movimentos que possam levar a distorções de preços, gerar correção. É um alerta que o BC fez há vários meses e que outros bancos centrais estão fazendo. Uma preocupação global.

Valor: Depois das crises, os BCs passaram a olhar não apenas os índices de preços, mas também a inflação de ativos. O BC brasileiro também está fazendo isso?

Meirelles: Estamos falando de diversos tipos de ativos. Uns são ativos cujo componente preço é diretamente relacionado a um crédito concedido para comprar esses ativos. Nesse caso, há muita confusão quando se fala, por exemplo, da crise japonesa dos anos 80 e 90.

Valor: Por quê?

Meirelles: Um dos grandes impulsos do mercado acionário japonês foi a compra de ações pelos bancos, financiada por depósitos, como aconteceu nos EUA na década de 20. Apesar de ter ocorrido no mercado de ações, aquela bolha foi muito impulsionada pelo crédito, o que é diferente de simplesmente o investidor, com dinheiro real, apostar o seu capital. Isso é diferente de o banco comprar ação ou financiar diretamente o especulador.

Valor: Essa dinâmica se repetiu nos EUA na recente crise?

Meirelles: Sim. O sistema financeiro americano financiou a bolha imobiliária, como uma bolha de crédito. Adotaram-se critérios de concessão de crédito excessivamente liberais. Isto, o BC brasileiro monitora com rigor.

Valor: Como?

Meirelles: O componente preço se torna importante na medida em que ele passa a ser relevante como garantia do crédito. Ou seja, o BC olha prudencialmente o mercado de crédito. Não pode estar tentando controlar os preços da economia. O BC olha o crédito e o componente preço na garantia do crédito. Nos EUA, os bancos financiaram fortemente os ativos, os preços ficaram inflacionados, os valores dos empréstimos também inflaram, as garantias caíram de preço radicalmente e os bancos quebraram.

Valor: O senhor disse que a apreciação do câmbio tem um componente de euforia. Deve-se tentar conter esse movimento?

Meirelles: O sobrepreço ou o movimento especulativo, qualquer que seja ele, leva a uma correção. Cedo ou tarde. No caso do câmbio no Brasil, isso vai ficar claro ao longo do tempo através dos números de conta corrente, investimento estrangeiro direto. Quando a economia estiver em pleno processo de consolidação de uma recuperação já ocorrida, caso tenha havido sobrepreço, como muitos analistas dizem que há, então, teremos um processo de correção.

Valor: O que o BC pretende fazer?

Meirelles: O que o BC faz são intervenções, visando evitar distorções na formação de preços.

Valor: Por exemplo?

Meirelles: Excesso ou falta momentânea de liquidez pode gerar distorções de preços importantes. Um exemplo ocorreu no fim do ano passado. Por razões diversas, principalmente nos mercados futuros, por causa do problema dos derivativos, faltou liquidez e isso levou a uma sobredesvalorização do real. Claramente, houve uma distorção grande na formação de preço, então, o BC entrou vendendo reservas e dólares no mercado futuro. Neste ano, configurou-se em alguns momentos um problema de liquidez por excesso de entrada de recursos. Houve um dia em que o BC comprou bilhões de dólares, o que significa que o BC também interveio naquele momento para evitar uma distorção na formação de preço. Isto se conjuga com a política do BC de tirar partido dessa mudança de liquidez em dólares, que tem prevalecido na economia brasileira nos últimos anos, para acumular reservas e reforçar a capacidade de resistência do país a crises.

Valor: É justificável continuar acumulando reservas?

Meirelles: Sim. A crise mostrou que mais reservas é melhor do que menos. Num quadro de excesso de liquidez em dólar, no momento em que o Fed fizer a saída do processo (de estímulo monetário), teremos talvez uma certa reversão, e aí será muito importante termos reservas para evitar crises de liquidez. Então, é altamente conveniente acumular reservas.

Valor: O Brasil cresceu 7,8% no segundo trimestre e, agora, há analistas prevendo alta anualizada de mais de 8% no terceiro. Esse crescimento é sustentável?

Meirelles: Estamos falando de duas previsões. Da previsão de crescimento, a taxas anualizadas, do terceiro trimestre, e das previsões de crescimento para 2010. Se olharmos as duas, com o mercado prevendo algo entre 4,5% e 5% para o ano que vem e essa previsão de 8% para o terceiro trimestre, então, não é sustentável. As previsões estão dizendo que não. Essa taxa anualizada deve se estabilizar num número menor; 4,5% a 5% é diferente de 8%, o que é normal na medida em que o Brasil saiu da crise rapidamente e entrou em processo de recuperação. É normal que esse processo se estabilize num ritmo menor e mais sustentável.

Valor: Apesar desse crescimento, os investimentos não estão voltando aos níveis pré-crise. Não estão atrasados?

Meirelles: Não há dúvida de que é muito importante a retomada dos investimentos, que os empresários se antecipem à demanda futura, não esperando que o uso da capacidade atinja o limite. Os investimentos estão sendo retirados das gavetas. A previsão do BNDES é que a Formação Bruta de Capital Fixo do ano que vem deve crescer muito e ser, inclusive, um dos impulsos ao crescimento. É um alerta válido aos empresários: “corram e não fiquem atrasados”.

Valor: Os empresários não estariam ressabiados, preocupados com a possibilidade de uma nova recessão mundial?

Meirelles: Não acredito. Os índices de confiança empresarial da FGV mostram recordes históricos, inclusive, com algo muito importante que é o fato de o índice de confiança estar acima da média histórica em todos os setores. Isso é que determina investimento. Apesar de existir uma preocupação com o cenário externo, a dúvida está muito mais relacionada a quem é dependente de exportação. As indústrias que podem direcionar a produção para o mercado doméstico estão mais otimistas.

Valor: O aquecimento do mercado de trabalho tem sido um impulso mais forte do que a ocupação de capacidade ociosa na indústria?

Meirelles: Vamos aguardar porque são vários fenômenos. Um deles é que a empregabilidade aumentou numa parte do setor industrial, mas não atingiu ainda o mesmo nível em que estava no ano passado. Uma boa parte dessa redução do desemprego se deu na construção civil, que tem nível salarial médio menor. E o crescimento desse setor tende a se estabilizar conforme o índice de construção entre no ritmo do estímulo. Estamos num momento de avaliação.

08/10/2009 - 11:13h Produtividade de cana cresce até 50%

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“CANA DE AÇÚCAR”, de Bete Brito. Tela painel 60×60cm, óleo s/tela e textura acrílica.


TENDÊNCIA

A introdução das primeiras variedades transgênicas de cana, o melhoramento genético clássico com a seleção de novas variedades e o desenvolvimento de tecnologias sofisticadas para orientar o plantio podem aumentar a produtividade da cana-de-açúcar entre 40% e 50% nos próximos 20 anos no Brasil. A avaliação – que reforça a posição do País como imbatível na produção de açúcar, álcool e energia renovável – é do diretor-superintendente do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), Nilson Boeta, feita durante o lançamento das novas variedades de cana da instituição de pesquisa, em Ribeirão Preto (SP). Fonte O Estado SP

19/09/2009 - 10:07h ”Comércio externo é a saída da crise”

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Nelson Barbosa: secretário de Política Econômica; secretário afirma que a palavra que entra na agenda do País agora, após a freada global, é competitividade

 

Adriana Fernandes e Fabio Graner, BRASÍLIA – O Estado SP

 

 

O governo pretende atuar com medidas pontuais e objetivas para aumentar a competitividade da economia brasileira no mercado internacional e enfrentar o problema cambial. A informação é do secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, que avaliou que, no futuro próximo, não há risco de uma nova crise cambial no País. Competitividade, disse ele, é o nome da nova agenda na fase atual de saída da crise e retomada econômica.

A volatilidade da taxa de câmbio, afirmou, está associada ao fato de o real ser bastante sensível aos preços das commodities. O dólar, admitiu, pode cair ainda mais. Leia os principais trechos da entrevista, concedida esta semana ao Estado:

Qual é agenda econômica a partir de agora, com a saída da crise?

A competitividade externa do Brasil, que já era uma questão antes da crise. O desafio é direcionar os ganhos das atividades de commodities para toda a economia, para que isto aumente a competitividade das empresas e da mão de obra e para que se tenha crescimento para todo o País.

Há o risco de uma crise cambial logo mais a frente?

Não há risco no futuro próximo. Temos alto volume de reservas e entrada de investimentos diretos que cobre o déficit em conta corrente. O câmbio é um problema mais de desenvolvimento produtivo do que de instabilidade cambial. O desafio agora é aumentar a competitividade dos outros setores.

Os exportadores reclamam da volatilidade cambial. É um problema para o curto prazo?

Essa volatilidade está associada ao fato de o real ter a sua cotação muito sensível aos preços de commodities. Como o Brasil exporta muito commodities, quando os preços delas flutuam, o real também flutua. O governo tem tomado medidas para atenuar essa volatilidade, operando no mercado cambial de compra e venda. O governo vende dólares quando a taxa sobe muito, como foi no final do ano passado. Não neutraliza completamente, mas atenua. Quando o real se aprecia demais, como está acontecendo agora, o governo compra dólares. Essa é a maneira.

Então, não há medidas mágicas?

É um problema da estrutura da economia. As nossas receitas de exportações de commodities flutuam bastante. Há ainda o fato de que, por ser um dos países que melhor atravessou a crise, o Brasil é um candidato natural para receber investimentos. Temos dois fatores que estão fora do controle: a maior demanda mundial por nossos produtos e maior confiança no mundo na nossa economia. Isso faz com que haja o movimento de maior apreciação do real.

A queda do dólar pode se acentuar se houver um rali de aplicações de estrangeiros?

Pode. A política do governo para lidar com isso são operações no mercado de câmbio. O volume dessas operações vai depender do fluxo do mercado cambial. Em 2007, o Brasil fazendo isso acumulou US$ 80 bilhões. E teve anos em que as reservas ficaram estáveis. A mesma política às vezes dá resultados diferentes. No ano em que entrou muito dinheiro, essa política de atenuar a valorização resultou numa acumulação bem forte de reservas. Em 2008, num ano de crise, resultou numa estabilização ou ligeira queda das reservas.

Qual é o tamanho do problema cambial?

Essa é uma questão central para a evolução da economia brasileira nos próximos anos. E agora, nos próximos anos, principalmente com a descoberta do pré-sal, a questão é como vamos lidar com os efeitos dos fluxos externos sobre a estrutura produtiva. O novo Fundo Social, que está sendo criado com o marco regulatório do pré-sal, está mais capacitado para fazer essa parte externa a partir das receitas do petróleo. Na sua implementação, pode atuar como um instrumento de estabilização financeira e cambial, evitando a volatilidade excessiva, porque permite internalizar só as receitas que o Brasil precisar no momento. Não mais do que isso.

Será preciso um choque de competitividade?

Este governo não gosta de choques. Choque é outro governo. Adotamos medidas graduais. No grupo de acompanhamento da crise (GAC), temos visto nitidamente agora que a grande preocupação é a competitividade. Primeiro porque está entrando muita importação, por que a competição no mundo está mais acirrada. Segundo porque podemos perder mercado externo. O governo tem vários fóruns de competitividade, a estratégia é articulá-los. Não falo de agenda perdida ou achada. Nem falo de reformas. Isso é importante. Mas não é só isso.

É justa a reclamação dos exportadores de que o governo não deu atenção a eles na crise?

Não vejo isso. O governo teve uma atuação no mercado de dólares, o que teve benefícios para todos. A atividade de exportação é uma das preocupações estratégicas do governo.

Não está faltando maior abertura às importações para diminuir a volatilidade do câmbio?

Com essa taxa de câmbio já temos uma grande abertura para as importações, já barateia os produtos importados. Não vejo serem necessárias medidas de curto. prazo nessa direção.

Por que o Brasil saiu relativamente bem da crise?

Porque o governo brasileiro teve uma atuação decisiva para evitar o agravamento da crise no Brasil. Também teve papel crucial em garantir a rápida retomada do crescimento através de medidas expansionistas de política econômica.

O senhor apontaria alguma outra razão para a resistência do Brasil?

O Brasil vinha com um bom ciclo de crescimento antes da crise, puxado pelo investimento. Temos uma grande capacidade produtiva, o que possibilita que, após o efeito de desaceleração do crescimento, se tenha bastante capacidade produtiva ociosa para atender a retomada sem pressão inflacionária. O. Brasil hoje está bem posicionado como produtor de bens que têm alta demanda nos próximos anos. Falo principalmente da demanda da Ásia por alimentos, minérios e combustível. Isso dá ao Brasil uma janela de oportunidade em que ele vai ter altas receitas de exportação.

Mas esse modelo de exportação de baixo valor não é uma vulnerabilidade?

Temos possibilidade de receitas pela exportação desses produtos. Não aproveitá-las não seria economicamente defensável. O Brasil já teve fases com alta exportação de bens primários, que viabilizaram a industrialização do País, nos anos 40, 50 e 60. Temos recursos naturais abundantes. Isso nos dá capacidade de exportar o que o mundo hoje demanda e usar essa receita para promover o desenvolvimento tecnológico, a diversificação maior da base produtiva brasileira e investir, principalmente, em capital humano.

05/09/2009 - 14:18h ”O Brasil terá papel importante na recuperação mundial”

Axel Heltmann: Presidente mundial da Lanxess; para executivo, papel da subsidiária brasileira dentro do grupo alemão será cada vez mais relevante

 

Paulo Justus – O Estado SP

 


A multinacional alemã Lanxess, maior produtora de borracha sintética do mundo, já era dona de pelo menos um produto muito conhecido no Brasil – o Pó Xadrez -, mas ganhou um porte muito maior no mercado brasileiro no final de 2007, quando anunciou a compra da Petroflex, a maior produtora de borracha sintética da América Latina, que pertencia à Petrobrás, Unipar e Braskem. O negócio foi concluído no ano passado e envolveu cifras de 500 milhões. Hoje, o Brasil é responsável por 50% da capacidade de produção do carro-chefe da companhia, a borracha de polibutadieno, matéria-prima para a fabricação de pneus. E, não só por isso, o País tem garantido cada vez mais atenção da matriz da empresa. Segundo o presidente mundial da companhia, Axel Heltmann, que visitou o País recentemente, o Brasil é o principal alvo da atenção da empresa hoje – pelo menos entre os países em desenvolvimento. Entre os principais fatores que levam a essa postura estão o fato de o País estar resistindo bem à crise global, a força de seu mercado interno e a abundância de recursos naturais. “O Brasil vai ter um papel importante no crescimento mundial. Nós estamos apostando nisso”, disse o executivo. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como a crise global afetou a Lanxess e como a empresa se preparou para sair dessa turbulência ?

Nós introduzimos um programa compreensivo da crise, que chamamos de desafios de 2009. Posteriormente, prolongamos esse programa até o final de 2012. Agora o programa se chama Desafio 12. O programa vai proporcionar uma redução de custos de 350 milhões. Consiste em reduzir a contratação, redução temporária de horas trabalhadas, em linha com o pagamento. Essa é a resposta certa para demandas menores. Com isso, posso manter uma força de trabalho qualificada e habilidosa, porque vamos precisar deles quando a demanda retomar novamente. Isso ocorreu no mundo todo e em cada país foi adaptado para as necessidades locais, porque o corte na produção foi diferente.

Atualmente, os preços das matérias-primas estão em alta. O sr. acha que essa recuperação pode ser mais uma bolha?

As matérias-primas e os petroquímicos necessários para se produzir a borracha sintética estão atualmente numa alta rápida. Isso está criando um desafio para a nossa indústria e os clientes, e traz uma enorme volatilidade. A alta não é justificada, na minha opinião, e não reflete situações de oferta e demanda. Acho que não é sustentável no médio prazo. No curto prazo, temos de encarar esse desafio. Vamos fazer um grande esforço para repassar isso para o mercado. Estou confiante de que podemos fazer isso porque temos produtos inovadores, que permitem aos nossos clientes produzirem eles mesmos produtos inovadores e competitivos no mercado. Mas isso vai levar algum tempo, mais que em anos anteriores, porque o aumento das matérias-primas foi rápido e inesperado.

O mundo, aparentemente, começa a sair da situação difícil em que se encontrava no início do ano. No Brasil, por exemplo, já se prevê uma forte recuperação do PIB no ano que vem. Como o sr. vê esse quadro?

Acho que são notícias muito positivas. Os especialistas estão prevendo um crescimento de 4% a 5% para o Brasil em 2010. Essa é uma boa notícia para todos que estão no mercado brasileiro, e como temos uma grande base de produção aqui, acho que é uma notícia a ser comemorada. Nós queremos capturar essas oportunidades. Também queremos usar nossa capacidade no País para exportação, como fizemos no passado. Em exportação, você precisa ter uma posição competitiva nos mercados globais. E, graças ao investimento em curso, programa de atualização das instalações, nós estamos confiantes que podemos manter nosso alto nível de exportação das unidades brasileiras.

Atualmente, qual é a relação entre exportações e mercado interno?

No momento temos 50% de nossa produção destinada ao mercado local e 50% para exportações.

E qual é o plano para os próximos anos, vocês esperam crescer a participação das exportações?

É prematuro dizer isso, tudo depende do momento no Brasil. Eu prevejo que, se o País tiver esse crescimento (de 5%) no próximo ano, nós vamos acabar tendo uma maior porcentagem do mercado brasileiro nas nossas vendas.

Qual é o potencial de ajuda do Brasil para a recuperação do crescimento da Lanxess?

O Brasil tem uma enorme população, de quase 200 milhões de pessoas, com muitos jovens e uma classe média crescente. O País tem um cenário de poder de compra crescente dessa enorme população, em linha com o enorme pacote de estímulos do governo e somado a matérias-primas competitivas. O Brasil vai ter um papel importante no crescimento mundial. Nós estamos apostando nisso.

27/08/2009 - 11:58h Negócios com pré-sal atraem empresas

De Cingapura – VALOR

http://tijolaco.com/wp-content/uploads/2009/07/plataforma.bmpAs autoridades de Cingapura dizem que não veem um acordo de livre comércio com o Brasil no horizonte principalmente por causa de obstáculos do lado brasileiro.

Segundo diplomatas brasileiros ouvidos pelo Valor, há realmente uma série de dificuldades políticas. Primeiro, o Brasil teria de negociar um TLC junto com os parceiros do Mercosul, o que não é fácil. Além disso, o Brasil resiste em assinar acordos mais abrangentes com Cingapura por considerar o país asiático um paraíso fiscal.

Todo país com impostos corporativos abaixo de 20% é automaticamente considerado pelo Brasil como paraíso fiscal, o que inclui Cingapura. Por isso, um acordo para evitar bitributação entre os dois países continua engavetado, o que desestimula os investimentos de empresas cingapurianas no Brasil.

Estranhamente, Suíça, Irlanda e Uruguai também têm impostos corporativos abaixo desse patamar, porém não são considerados por Brasília como paraísos fiscais.

Uma autoridade cingapuriana, que pediu para não se citada, afirma que as empresas do país têm passado por dificuldades extras para conseguir contratos por conta própria no Brasil e, por isso, têm adotado a política de criar parcerias com empresas brasileiras. “Temos relações excepcionais com empresas brasileiras. Acho que essa será a melhor maneira de atuarmos no território brasileiro, já que as tentativas de conseguirmos contratos expressivos por conta própria acabaram sendo infrutíferas”, disse o cingapuriano.

O interesse no Brasil vem aumentando nos últimos tempos por causa de três fatores principais: petróleo; obras do PAC; e Copa do Mundo de 2014.

Os empreendimentos na área de petróleo já são mais visíveis. Em janeiro, a P-51, plataforma semisubmerssível construída pelo estaleiro BrasFELS, controlado pela cingapuriana Keppel, começou a operar na Bacia de Campos, no campo de Marlim Sul. No sábado, por exemplo, a Keppel e a brasileira Queiroz Galvão promoverão em Cingapura a cerimônia de entrega de uma nova plataforma de petróleo para a Petrobras. As autoridades cingapurianas falam do pré-sal como se fosse uma oportunidade de ouro para “fincar o pé com mais força” no mercado brasileiro.

Quanto às obras do PAC, os cingapurianos se dizem já “carta dentro do baralho”, por causa das parcerias com as grandes empreiteiras brasileiras.

Já a Copa do Mundo de 2014 desperta interesse por causa das obras de infraestrutura que serão necessárias para a competição, diz a autoridade cingapuriana. (RU)

26/08/2009 - 12:22h Bacia do Paraná pode ter óleo

ANP viu indícios de petróleo e gás entre São Paulo e Goiás

Gustavo Porto, RIBEIRÃO PRETO – O Estado SP

Avaliação feita pela Agência Natural do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) na Bacia do Paraná apontou indícios de petróleo e gás entre as cidades de Ribeirão Preto (SP) e Rio Verde (GO). Nessa faixa foi encontrado “um derramamento de basalto”, cuja estrutura rochosa está ligada à prospecção dos combustíveis.

“Encontramos indícios que são muito positivos para a região, vinculados ao petróleo e gás”, disse o diretor da ANP Allan Kardec Duailibe.

O basalto foi constatado em um levantamento aerogravimétrico – avaliação da estrutura interna do solo por meio de aviões com auxílio de um instrumento que avalia a diferença de gravidade interna abaixo da terra.

“Há indícios de basalto, que está vinculado à possibilidade de ter petróleo e gás na Bacia do Paraná e aqui na região (de Ribeirão Preto) há fortes indícios”, ratificou Duailibe, que esteve na cidade para participar do projeto ANP Itinerante.

A partir de agora, a ANP fará levantamentos em campo e, em seguida, dependendo dos estudos, fará uma perfuração experimental. Paralelamente, deve preparar, possivelmente para o próximo ano, segundo Duailibe, um leilão de blocos que forem destacados na região. “Esperamos que até o ano que vem o leilão aconteça, após os estudos técnicos”, disse o diretor.

Com 1,1 milhão de quilômetros quadrados, a Bacia do Paraná fica localizada no continente entre o Sul e o Centro-Oeste do Brasil e, pelo fato de o Brasil ter privilegiado a exploração de petróleo e gás no mar, seu potencial ainda é praticamente desconhecido. Os estudos da ANP para a avaliação da região estão orçados em R$ 100 milhões.

Entre os blocos já destacados na região, já foi encontrado gás no Campo de Barra Bonita, no Paraná, mas todas as dez rodadas da ANP feitas para a exploração em outros blocos na região fracassaram. No ano passado, a empresa argentina STR arrematou o bloco PAR-T-323, mas desistiu de pagar o R$ 1,2 bilhão pela área por causa da crise mundial.

26/08/2009 - 11:57h Petróleo ficará mais caro em 2010, dizem analistas

http://www.ibtimes.com.br/data/articleimgs/769-pre-sal.jpg

Chris Baldwin, Reuters, de Londres – VALOR

O aumento da demanda com a melhora da economia mundial vai levar o preço médio do petróleo bruto nos EUA para mais de US$ 73 o barril em 2010. É o que mostra uma pesquisa realizada pela Reuters entre analistas, que aumentaram as previsões de consenso pelo quinto mês consecutivo.

A pesquisa com mais de 30 analistas, divulgada ontem, prevê um preço médio do petróleo de US$ 59,28 para 2009, contra os US$ 58,23 da pesquisa anterior. Onze analistas aumentaram as previsões para 2010, enquanto um reduziu suas expectativas.

Ontem, o contrato de WTI negociado para o mês de outubro em Nova York caiu US$ 2,32, para US$ 72,05. Em Londres, o barril do Brent para outubro declinou US$ 2,44, para US$ 71,82.

Os analistas esperam preço médio nos EUA de US$ 68,22 no quarto trimestre deste ano, contra US$ 67,08 na pesquisa anterior. Isso porque há esperanças de uma melhoria da situação econômica e na demanda por combustíveis, o que deverá estimular uma recuperação mais sustentada dos preços do petróleo.

“Os preços do petróleo continuam com uma boa sustentação na ponta mais baixa dos US$ 70″, afirma Costanza Jacazio, do Barclays Capital. “Os preços do petróleo estão em patamares bem altos, mas a melhoria da demanda entre o contínuo aperto da oferta deverá acelerar o ritmo de esvaziamento da oferta excessiva, dando suporte aos preços”, acrescenta.

As cotações do petróleo vêm seguindo este ano um rumo paralelo ao da recuperação dos mercados mundiais de ações e das valorizações cambiais, uma vez que o apetite pelo risco voltou ao mercado depois do aperto de crédito, da crise financeira e da disseminação da recessão.

Mas o movimento de alta poderá não ser direto. “No curto prazo, não acredito que as importações chinesas irão manter o ritmo dos últimos meses, depois das importações recordes de julho. Assim, acho que a demanda vai enfraquecer um pouco”, disse Frank Schallenberger, diretor de análises de commodities do Landesbank. Pelas previsões do Landesbank, o preço médio nos EUA em 2009 deverá ser de US$ 58 o barril. A previsão para 2010 é de US$ 80 e, para 2011, de US$ 85.

Em julho, a demanda implícita por petróleo da China aumentou 3,5% em relação ao mesmo período do ano passado, o quarto mês seguido de alta, e as vendas de automóveis de passageiros cresceram 70,54% sobre as vendas de julho de 2008, segundo dados oficiais do governo chinês.

Alguns analistas também preveem um abrandamento dos saltos recentes nos preços do petróleo bruto, uma vez que uma regulamentação mais rígida imposta pelos EUA aos mercados de energia deverá forçar a saída dos especuladores do mercado.

“Alta significativa do preço no primeiro semestre deveu-se, em parte, ao investimento feito pelos investidores financeiros”, escreveu Eugen Weinberg, analista do Commerzbank, na newsletter “Commodities Spotlight Energy”.

A contenção da oferta pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) deve continuar, ajudando a apertar os mercados e elevar os preços acima da marca de US$ 147 o barril registrada em julho de 2008.

22/08/2009 - 13:23h China vai crescer mais que 8%, dizem analistas

Previsão oficial é descartada por especialistas, que sustentam que expansão chinesa, puxada por estímulo oficial e crédito bancário, deve ser de até 9%

Cláudia Trevisan, PEQUIM – O Estado SP

O ritmo de expansão da economia chinesa vai acelerar para 8,5% no terceiro trimestre, segundo previsão divulgada ontem pelo Centro de Informação do Estado, organismo de pesquisas da Comissão Nacional de Reforma e Desenvolvimento, o equivalente local do Ministério do Planejamento.

Depois de atingir 6,1% nos primeiros três meses do ano, o índice subiu para 7,9% no trimestre seguinte, em relação a igual período do ano passado. A expansão se deu sob impulso do pacote de estímulo de US$ 584 bilhões anunciado pelo governo em novembro e da espetacular expansão no crédito bancário – mais de US$ 1 trilhão nos primeiros sete meses do ano.

Antes mesmo de a previsão oficial para o terceiro trimestre ser divulgada, alguns analistas já haviam revisto para cima suas projeções de crescimento O Citibank espera agora expansão de 8,7%, enquanto o Goldman Sachs aposta em 9,4%.

A meta de 8% fixada pelo governo para 2009 parece cada vez mais conservadora. São raros os analistas que esperam índices inferiores e as previsões para 2010 são ainda mais positivas. O Morgan Stanley prevê 9% de expansão em 2009 e 10% no próximo ano.

Sob o impacto da crise global, o crescimento chinês desacelerou de 13% em 2007 para 9% no ano passado. A economia atingiu o fundo do poço no fim de 2008, mas reagiu a partir do segundo trimestre de 2009, graças ao pesado estímulo oficial.

As evidências de que a política expansionista do primeiro semestre chegou ao fim provocaram quedas na Bolsa de Xangai no início da semana passada, mas os investidores recuperaram o entusiasmo nos dois últimos dias de pregão, quando as ações se valorizaram 6,21%.

Os financiamentos bancários caíram de US$ 220,6 bilhões em junho para US$ 52,4 bilhões no mês seguinte. A previsão dos analistas é que o volume de novos créditos gire em torno US$ 65 bilhões ao mês até o fim do ano, patamar mais próximo do registrado em 2008.

A agência de notícias Bloomberg afirmou ontem que as autoridades chinesas vão impor aos bancos mudanças contábeis que, na prática, reduzirão a quantidade de recursos disponíveis para empréstimos.

Mas ninguém espera um aperto drástico da política monetária e a maioria dos analistas prefere falar em “acomodação” e “ajuste”. Nas previsões divulgadas ontem, o Centro de Informação do Estado ressaltou que a política monetária deverá continuar frouxa no segundo semestre, já que os preços estão em queda e não há risco de inflação.

Mesmo com a expectativa de menor liquidez, os analistas do Morgan Stanley esperam que a Bolsa de Xangai mantenha trajetória de alta e chegue ao patamar de 4.000 pontos dentro de 12 meses, o que significaria valorização de pouco mais de 30% em relação aos níveis atuais.

A Standard & Poors também espera recuperação do mercado, ainda que não descarte queda adicional de 5% para realização de lucros, depois da forte alta registrada até julho. A agência acredita que o índice da Bolsa de Xangai poderá estar em 3.300 pontos no fim do ano.

O Morgan Stanley afirma que a oferta de recursos para especulação com ações vai diminuir, mas ressalta que haverá liquidez suficiente para financiar o crescimento da economia e a operação das empresas.

Além disso, os analistas do banco sustentam que o lucro das companhias está em trajetória de recuperação. O lucro operacional de 706 empresas que divulgaram resultados aumentou 50% no segundo trimestre deste ano ante o primeiro, diz relatório do Morgan Stanley.

17/08/2009 - 11:08h ”Brasil é o mais irresistível dos Brics”

James Quigley: presidente do Bank of America Merrill Lynch na América Latina; em visita ao País, ele diz que oportunidades estão espalhadas em vários setores, não apenas na área de commodities

 Leandro Modé – O Estado SP

 


Quando o Lehman Brothers quebrou, provocando o maior terremoto do sistema financeiro mundial desde os anos 30, muitos analistas decretaram o fim dos bancos de investimento. Essas instituições, em vez de atenderem ao cidadão comum, são especialistas em intermediar grandes operações, como fusões e aquisições, ou cuidar da fortuna de investidores endinheirados. Para os críticos, havia duas saídas para esses bancos: ou iriam à falência, como o próprio Lehman Brothers, ou seriam absorvidos pelos gigantes do varejo.

Foi o que aconteceu com o Merrill Lynch, vendido para o Bank of America (maior banco dos EUA hoje) no mesmo dia em que o Lehman sucumbiu.

Na América Latina, a empresa comprada assumiu o comando da instituição resultante da fusão. “O Bank of America não tinha uma estratégia bem definida para a América Latina. Em compensação, o Merrill Lynch tinha um negócio amplo, diversificado”, explica o presidente do Bank of America Merrill Lynch na região, James Quigley. Com 27 anos de experiência, ele não tem dúvidas: “O Brasil é hoje o mais irresistível entre todos os mercados emergentes do mundo”, disse ao Estado.

Quigley tem feito uma série de visitas rápidas ao País, com objetivo de entrevistar candidatos para vagas que o banco está abrindo aqui. “Temos de ser disciplinados. Contratar muita gente rapidamente pode fazer com que não consigamos trazer os melhores.”

Por que o mundo tem essa visão hoje sobre o Brasil?

Sempre é conveniente para homens de negócio como eu virem ao Brasil, encontrarmos jornalistas brasileiros e dizer apenas boas coisas sobre o País. Mas o fato é que o Brasil não é apenas o principal responsável pelo nosso crescimento na América Latina e nossa maior oportunidade na região. Eu diria que o Brasil é hoje o mais irresistível entre todos os mercados emergentes do mundo, considerando os outros Brics (Índia, Rússia e China) e países como Turquia e África do Sul. As razões são várias. O Brasil tem uma grande população jovem e diversificada, sistema bancário que funciona bem, instituições críveis (que gerenciaram a crise de forma hábil) e é um exportador diversificado – não é visto só como vendedor de commodities. Os negócios em que temos trabalhado não são só na área de commodities. O segmento de consumo é mais atrativo do que o de commodities. Há vários eventos que trouxeram excitação sobre o País. Em qualquer lugar que vou, uma conversa sobre a América Latina se volta para o Brasil. O Brasil está se transformando em destino preferencial do capital.

Em que áreas de negócio vocês veem as maiores oportunidades?

Em todas. Um dos pontos altos é o fato de ser um país diversificado. Nossas áreas ligadas a commodities, câmbio e ações são muito fortes, bem como o banco de investimentos, o corporate banking e o segmento de empréstimos comerciais. Para se tornar um competidor ainda mais forte, precisamos ser capazes de oferecer um portfólio de produtos mais amplo: financiamento de comércio exterior, gestão de caixa, financiamento da cadeia de suprimentos, etc. Em todas essas áreas, o Bank of America tem conhecimento global. Então, na América Latina, as sinergias possíveis entre as duas companhias pode provar que um mais um é igual a três. Quando se olha o Brasil, é impossível não pensar no crescimento do mercado imobiliário e na consequente necessidade de hipotecas. As perspectivas de consumo são grandes, portanto, o negócio de cartão de crédito é promissor não só no Brasil, mas na América Latina. Todas essas são oportunidades de longo prazo. Devemos ser disciplinados. Se quisermos fazer tudo muito rapidamente, pode dar errado. Contratar muita gente rapidamente pode fazer com que não consigamos trazer os melhores profissionais.

As eleições do ano que vem preocupam o investidor?

Eleições sempre preocupam. Neste caso, tudo o que se deve fazer é voltar duas eleições atrás, quando Lula foi eleito pela primeira vez. O dólar disparou, os títulos da dívida despencaram, mas, no fim, o que prevaleceu foi a democracia, foi o fato de que as instituições funcionam muito bem no Brasil. Lula acabou demonstrando ser capaz de fazer o País mover-se para frente. O medo se converteu em aplauso. Não acho que haja grandes temores sobre a eleição de 2010.

Hoje a percepção dos investidores é positiva sobre a América Latina. Mas, no auge da crise, moedas da região, como o real, estiveram entre as que mais se desvalorizaram. O que houve?

Se voltarmos 20, 30, 40 anos no tempo, em todas as crises os mercados emergentes tiveram má performance. Desta vez, a crise atingiu todos os países. Foi aos poucos que as pessoas se deram conta de que muitos tinham feito sua lição de casa e, portanto, o Brasil não estava sujeito aos problemas do passado. Isso não significa que não seria atingido. Mas, se pensássemos em sete anos atrás, o efeito seria muito pior. As pessoas reconhecem que, se o País tiver uma crise, será por fatores exógenos.

Essa retomada dos mercados é sustentável?

Eu preferiria, nos próximos anos, ter na carteira ações de grandes companhias do que bônus governamentais de longo prazo. A política dos governos – de despejar trilhões de dólares na economia e a atuação dos bancos centrais para evitar uma crise pior – é inflacionária no longo prazo. Provavelmente, esses riscos não vão se concretizar em 2010, mas em 2011. Inflação é bom para ativos reais, como ações e commodities. Nesse aspecto, o Brasil está numa ótima posição.

Qual a visão de vocês sobre a crise? O pior ficou mesmo para trás?

Não falo sobre o Bank of America Merrill Lynch, mas por mim mesmo. Acho que o pior está atrás de nós. O Bank of America alterou há algumas semanas a projeção de crescimento em 2010 dos Estados Unidos de 1,8% para 2,6%. Os estoques nos EUA já estão em nível relativamente baixo, a taxa de poupança subiu. Uma coisa que as pessoas sempre subestimaram é a flexibilidade e a agilidade de a economia americana se ajustar mais rapidamente do que a maioria das economias do mundo. Não é uma economia rígida. Não sou preparado o suficiente para dizer que o mercado acionário continuará na tendência de alta. Pode ser até que vejamos alguma correção. Mas, olhando a longo prazo, não acho que os EUA sejam um problema.

Alguns críticos dizem que há excesso de liquidez nos mercados e isso pode provocar novas bolhas.

No início de 2007, não encontrávamos um único cliente que não achasse que o mundo continuaria a ser bem sucedido. A maioria dizia: “Jim, há um excesso de liquidez no mundo. É preciso continuar investindo.” Em um curtíssimo prazo, fomos de uma enorme liquidez para zero. Hoje, há liquidez. Mas sempre há. Eu acho que a questão a se perguntar não é quanta liquidez há, mas como mobilizá-la de forma eficiente. Durante a crise, a liquidez não foi alocada. Todos colocaram o dinheiro em títulos americanos, praticamente sem remuneração. A mobilização eficiente da liquidez é função da confiança. A confiança está voltando e, à medida que aumente, a alocação da liquidez será cada vez mais bem feita.

Há muito capital entrando no Brasil, o que valoriza o real. Como lidar com o risco desse movimento?

Ter uma moeda forte será bom para o Brasil, porque forçará as empresas a ter disciplina, a gerir seus negócios de forma consistente com o aumento da produtividade. Se um país tem moeda fraca, dá à indústria uma desculpa conveniente para não ter foco no aumento da produtividade. Ter uma moeda forte no longo prazo vai ajudar o País. É claro que, no curto prazo, há toda a questão política, os editoriais que tratarão do enfraquecimento da indústria, etc. Mas será só no curto prazo. O real forte deixará a indústria brasileira muito mais produtiva. Isso ajudou os EUA nos anos 90.

Alguns governantes de países latino-americanos são considerados populistas. Como isso influencia a visão geral sobre a região?

Eu acho que a América Latina vai seguir o exemplo bem sucedido do Brasil. A Merrill Lynch liderou a entrada da Petrobrás no mercado de capitais. Naquela época, gastamos o mesmo tempo para preparar a operação e para reuniões com os sindicatos, para deixar claro que era algo de interesse do País. No México, não houve isso com a Pemex. São Paulo emergiu como a capital financeira da América Latina. Na Argentina, nós encontramos um caminho para sermos bem sucedidos. Hoje, não temos gente na Bolívia nem na Venezuela. Temos parceria com uma empresa de Caracas que tem sido muito boa. Há um potencial tremendo na Venezuela, mas não nas circunstâncias atuais. O Chile tem um sistema financeiro sofisticado, com margens muito difíceis. Então, não é fácil fazer dinheiro lá. É preciso ser inovador. Ainda que não estejamos fisicamente lá, o Peru é um lugar onde vemos muitas oportunidades.

O juro está no menor nível da história do Brasil. Que tipo de oportunidade esse cenário abre? O sr. espera, por exemplo, muitas aberturas de capital (IPOs)?

Eu não acho que os investidores institucionais estão convencidos da melhora do mercado. Há ainda dúvidas sobre a sustentabilidade da recuperação e medo de que haja uma recuperação em W, que incluiria outra recessão no ano que vem. Não vejo muitas oportunidades para IPOs, apesar do interesse dos investidores pela América Latina. Vejo, sim, oportunidades para empresas que abriram recentemente o capital fazerem ofertas secundárias e aumentarem o free float (quantidade de ações em circulação no mercado).

No início da crise, muitos diziam que o modelo de banco de investimentos ia acabar. Como o sr. analisa essa previsão hoje?

Bancos de investimento nunca morrem, eles só voltam de maneiras diferentes. Há um foco crescente em transparência e controle de risco. Todos reduziram seus níveis de alavancagem. Os ciclos mudam. Uma das coisas notáveis que percebi nos meus 27 anos de carreira é o ?curto prazismo? das pessoas. Depois da crise Tequila, do México, em 1994, e da crise russa, em 1998, muitos investidores me disseram: ?Nunca mais tente me vender produto relacionado a países emergentes.” Nos próximos 18 meses, as pessoas vão se lembrar da dor provocada pela crise. Mas os ciclos mudam. Não me preocupo por hoje, mas pelos próximos três ou quatro anos. É preciso ser disciplinado em todos os negócios, não só nos bancos de investimento.

19/07/2009 - 12:09h Gasto público e consumo interno. Dá bom resultado na China… e no Brasil também

PIB da China avança 8%. Graças ao consumo

http://jornale.com.br/mirian/wp-content/uploads/2009/03/dinheiro-chines.jpg

Alberto Tamer – O estado SP

E a China surpreende novamente. Quando todos, inclusive o governo, esperavam um crescimento de apenas 5%, ela anunciou nesta semana uma expansão do PIB de 7,9%. E isso, graças ao pacote fiscal de US$ 586 bilhões, que incluía recursos orçados para o ano passado não utilizados; mas, por isso mesmo, encontrou projetos prontos que estão sendo imediatamente executados, com excelentes resultados sobre o crescimento.

A ausência desses projetos certamente é uma das causas da baixa eficiência do pacote fiscal americano. Mesmo com mais recursos, US$ 786 bilhões, o governo Obama ainda não sabe onde aplicá-los de forma a gerar mais empregos.

POR QUE O MILAGRE?

Diante desses resultados, surgem perguntas como qual seria o desempenho da economia mundial com ou sem o crescimento da China. Afinal, qual a origem desse milagre?

Para obter respostas a essas dúvidas, a coluna conversou com Rodrigo Tavares Maciel, secretário executivo do Conselho Empresarial Brasil-China, uma entidade privada que trabalha em parceria com o governo brasileiro e dispõe do melhor banco de dados sobre o comércio entre os dois países.

“Eu continuo acreditando que a China não está descolada do mundo, como confirma o impacto provocado pela queda das exportações, principalmente para os EUA e a Europa. A China cresceu acima de 10% ao ano entre 2002 e 2007, e agora 7,9%. O lucro das empresas privadas também caiu”, lembra Maciel.

O MUNDO COM E SEM A CHINA

Qual seria o crescimento da economia mundial sem esse resultado do PIB chinês? Maciel informa que, tomando como base os indicadores divulgados em junho pelo FMI, Banco Mundial e o Consensus Economics, sem o efeito do comércio da China, a economia mundial teria caído 2,1% em março e 3% em junho. Com a China, em março esse declínio foi menor, 1,9% em março e 2,4% em junho. Para 2010, os indicadores de crescimento passam a ser positivos, desde que a economia chinesa mantenha o desempenho atual.

EXPORTAÇÃO NÃO É TUDO

E aqui a surpresa: as exportações não pesam tanto no crescimento chinês. “Poucos atentam para isso, mas a China é menos dependente do exterior do que se imagina. As exportações chinesas não desempenham papel de principal motor da economia.O que verdadeiramente impulsiona hoje são os investimentos em ativos fixos e o consumo interno, incluindo gastos residenciais e públicos”, diz Maciel.

“O grande mito de que exportações líquidas são o principal motor do crescimento tem sido cada vez mais refutada diante do agravamento da crise mundial e consequente retração do mercado mundial.”

“Em 2008, elas contribuíram com apenas 0,5 ponto porcentual para o aumento do PIB e, no primeiro semestre de 2009, essa contribuição foi negativa em 2,9 pontos. Impulsionados pelo pacote de estímulo, aumentou consideravelmente a contribuição do investimento fixo para o crescimento do PIB no primeiro trimestre de 2009, com 6,2 pontos ante 4,3 pontos em 2008. Já o peso do consumo interno foi de 3,8%.

HÁ ESPAÇO PARA MAIS

Até onde a China consegue manter esse ritmo impressionante de investimento? Para Rodrigo Maciel, o grande superávit fiscal em 2008 vai permitir que ela mantenha a política de incentivo à economia com aumento dos gastos públicos. Os investimentos em ativos fixos cresceram 33,5% no primeiro semestre motivados por grandes obras (rodovias, fábricas, redes de energia, ferrovias) e províncias do interior da China carentes de infraestrutura foram extremamente beneficiadas.

Um número impressionante informado pela correspondente Claudia Trevisan: “Só em junho, os bancos concederam empréstimos no valor de US$ 225 bilhões, o que elevou o crédito no primeiro trimestre a nada menos que US$ 1,5 trilhão, ou seja, 25% do PIB.

Com o grande e crescente superávit fiscal, a China poderá sustentar a atual política de investimento por muito tempo e manter sua enorme demanda por recursos naturais. Continuará, assim, a contribuir cada vez mais para reduzir os efeitos da crise mundial, sobretudo em países fornecedores de matérias primas, como o Brasil.

BRASIL SE APROVEITA BEM

E aqui estamos sendo beneficiados, principalmente pela nova estratégia do governo chinês de aproveitar preços relativamente baixos das commodities para aumentar as compras e os estoques. A China tornou-se o principal parceiro comercial brasileiro, ultrapassando os EUA pela primeira vez, atesta Rodrigo Maciel. E tudo indica que poderemos continuar assim nos próximos trimestres. É uma oportunidade única, num mercado mundial deprimido.

*E mail – at@attglobal.net

09/06/2009 - 09:20h Cenário global: Para analista, país vai crescer mais que média do mundo


Tamanho do governo tira PIB do Brasil, diz Rogoff

Ana Paula Paiva/Valor

Kenneth Rogoff: “Se você olha o que ocorreu com o Brasil na crise, vê que houve apenas uma recessão normal”

 

Sergio Lamucci, de São Paulo – VALOR

Pessimista em relação ao desempenho dos EUA nos próximos anos e cético quanto à capacidade da China de crescer a taxas tão robustas quanto no passado recente, o economista Kenneth Rogofff mostra otimismo ao falar sobre a economia brasileira. Para o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil, ao lado de emergentes como a Índia, deve ter um crescimento superior ao da economia global na próxima década. Rogoff acredita que o Brasil pode voltar a crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos, quando o mundo tiver saído do período “doloroso” em que se encontra.

Professor da Universidade de Harvard, Rogoff destaca o fato de o Brasil ter resistido bem a uma crise violentíssima. “Se você olha o que ocorreu com o Brasil, vê que houve apenas uma recessão normal, e está saindo dela normalmente. Isso é fantástico.” Ao destacar os pontos positivos do país, Rogoff aponta o fortalecimento das instituições e a melhora gradual do ambiente de negócios.

A vasta extensão de terras aráveis e os recursos naturais abundantes também são trunfos importantes num cenário em que os países da Ásia – grandes consumidores de commodities – continuarão a crescer. “Há muitas oportunidades. Não me parece exagero dizer que o Brasil pode crescer acima da média global nos próximos anos”, afirma ele. “Se vocês estivessem fazendo tudo certo, poderiam crescer até 10%.”

O maior problema do país, segundo Rogoff, é o aumento do tamanho do governo, que ocorre há muitos anos sem ter como contrapartida uma melhora dos serviços oferecidos pelo Estado. No entanto, é algo que não representa o risco de uma crise imediata, diz ele. Trata-se de um problema com implicações mais significativas no longo prazo. A infraestrutura continua bastante deficiente, a despeito do forte aumento dos gastos públicos ao longo dos últimos anos.

Rogoff diz ainda que o Brasil pode receber um volume crescente de capitais externos. “À medida que a confiança aumentar, é mais provável que o fluxo de recursos externos volte a crescer” , afirma ele, acrescentando que os investidores tendem a buscar retornos maiores, como os oferecidos pelo Brasil, um país que enfrentou a crise e não entrou em colapso.

E há como prever o que deve ocorrer com o câmbio, depois da recente onda de valorização de moedas em relação ao dólar? “O câmbio é algo muito difícil de projetar, mas o real não parece estar num valor maluco no momento”, responde Rogoff, embora reconheça que a taxa atual pode prejudicar alguns setores exportadores. Cauteloso, Rogoff também aponta fatores que podem levar a uma depreciação da taxa num cenário global extremamente volátil, como uma queda abruta dos preços de commodities ou uma forte desaceleração da China.

Rogoff considera possível que os juros no Brasil continuem em trajetória de queda nos próximos cinco anos. “Eu já li muitos ‘papers’ e estudos sobre as causas dos juros altos no Brasil, mas nunca vi uma resposta clara a essa questão. Provavelmente isso está ligado ao legado de tremenda instabilidade financeira desconfiança do público no governo, ao histórico de calotes, à hiperinflação”, diz o economista, que elogia a condução da política monetária pelo Banco Central (BC) brasileiro.

Ao falar dos EUA e da China, Rogoff exibe uma visão bem menos rósea. Ele é pessimista quanto às perspectivas de crescimento nos próximos anos dos EUA e, em certa medida, também da China. As duas principais locomotivas da economia global nos cinco anos que antecederam a eclosão da crise deverão crescer a um ritmo bem mais fraco que nos próximos cinco. Para ele, os EUA terão tempos difíceis pela frente. “Os preços de imóveis deverão ficar baixos por uma década, o desemprego ainda está em alta e o sistema financeiro não será o mesmo de antes da crise”, diz ele, enumerando fatores que afetam as perspectivas para o consumo, por anos o grande motor do PIB americano. Além disso, com os crescentes déficits fiscais e agenda do presidente Barack Obama, com preocupações com o sistema de saúde, o ambiente e a desigualdade de renda, será necessário aumentar impostos em algum momento, para financiar um Estado maior. “São questões importantes para serem abordadas, mas isso vai resultar em mais impostos e mais regulação, o que deve levar a menos crescimento e a lucros menores das empresas.”

Rogoff diz que a China, por sua vez, teria de reduzir o ritmo de crescimento mesmo sem a crise. “Há problemas como a poluição e o país estava ficando grande demais. Não é possível exportar tanto. Além disso, o consumidor americano não vai vai comprar tanto quanto no passado, e isso será um grande ajuste para a China”, diz ele, que falou ontem a um grupo de jornalistas pela manhã. À tarde fez uma palestra a líderes políticos de oposição – o economista esteve em São Paulo a convite da Fundação Liberdade e Cidadania, ligada ao DEM.

22/05/2009 - 09:52h Crise global vai continuar mesmo depois da recessão

ENTREVISTA – NOURIEL ROUBINI

Para economista, movimento atual de recuperação das Bolsas não é sustentável

Luiz Carlos Murauskas/Folha Imagem
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O economista Nouriel Roubini concede entrevista em São Paulo; para ele, o crescimento do Brasil neste ano ficará entre 0 e -1%

DENYSE GODOY – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Nouriel Roubini à Folha ontem, após participar de seminário promovido pela Serasa Experian em São Paulo.

FOLHA – O senhor está sorrindo hoje! É difícil vê-lo assim nas fotos, nas imagens da televisão… Isso contribui para a sua fama de “Doutor Apocalispe”?
NOURIEL ROUBINI –
[Fica sério] A crise econômica é um assunto tão grave que, quando estou falando a respeito, simplesmente acho que sorrir não é apropriado. As pessoas me chamam de “Doutor Apocalipse” porque fui o primeiro a prever o atual desastre, mas prefiro ser chamado de “Doutor Realista”.
Não vejo, à nossa frente, uma depressão ou uma longa recessão, como muitos apontam. Creio que vamos sair desta crise no ano que vem. Ainda estou preocupado, no entanto, com determinados aspectos econômicos de curto prazo.

FOLHA – Alguns analistas afirmam já detectar aqui e ali sinais de recuperação da economia americana. Quais indicadores realmente apontam o começo de um restabelecimento e quais não devem ser interpretados assim?
ROUBINI –
Os índices mais importantes a acompanhar são os relativos a consumo, investimento das empresas, produção industrial e mercado imobiliário. Eles continuam caindo. Só que estão recuando menos do que o observado no ano passado -se apresentassem o mesmo ritmo de queda dos últimos meses de 2008, não estaríamos em uma recessão, mas em uma depressão profunda. Isso não significa uma luz verde, mas uma luz amarela, na minha opinião. Não se pode tomá-los como indicativos de retomada.

FOLHA – Então, em que ponto da crise nos encontramos agora?
ROUBINI –
Eu havia afirmado que a recessão dos EUA duraria 24 meses. Como começou em dezembro de 2007, deve terminar em dezembro de 2009. Transcorridos 17 meses, já passamos de dois terços do caminho, portanto, em termos de recessão. Entretanto, não chegamos nem perto do fim da crise bancária ou de crédito -esta deve levar mais dois ou três anos para passar.

FOLHA – O senhor quer dizer que não se deve comemorar o fato de já ser possível avistar o final do período de contração?
ROUBINI –
Sim. No caso de economias avançadas como os EUA, a Europa e o Japão, o cenário para os próximos dois anos é de crescimento abaixo do potencial. O potencial americano é de um avanço de 2,75% a 3% ao ano, mas ficará abaixo de 1% em 2010, o que é medíocre. Apesar de não estar mais em uma recessão, tecnicamente falando, o sentimento no país será o de estar porque o desemprego seguirá subindo por ao menos um ano e meio. Assim aconteceu nas últimas duas retrações, em 1991 e 2001, e tende a se repetir.

FOLHA – Quais são as perspectivas para o Brasil?
ROUBINI –
O Brasil deve no máximo apresentar crescimento zero neste ano; o mais provável é que tenha uma pequena retração do PIB [Produto Interno Bruto], entre 0 e 1% negativo. Após fortes quedas no último trimestre de 2008 e no primeiro deste, o desempenho fica positivo no segundo, pelas nossas previsões. A sorte do Brasil é possuir um mercado doméstico robusto a ser explorado. Já as exportações dependem mais da recuperação do preço das commodities, que dependem da retomada da China. Com uma agressiva política de governo, a China realmente tem reagido nos últimos meses.

FOLHA – Os seus críticos argumentam que o senhor previu essa crise diversas vezes nos últimos anos, por isso acertou.
ROUBINI –
Ouvi essa história de que até mesmo um relógio parado está certo duas vezes por dia. Mas essas críticas são tolas e injustas, pois não fiz previsões genéricas sobre a crise, basta ler com atenção tudo o que escrevi. Fui bastante específico, dei detalhes sobre os problemas financeiros, quando e como seriam os seus desenvolvimentos. Por exemplo, falei, um ano e meio atrás, que dois grandes bancos de investimento dos EUA iriam à lona em dois anos. Adivinhe. Levou sete meses apenas para o colapso do Lehman Brothers e do Bear Stearns. Pode-se dizer na verdade que eu fui até muito otimista quando falei de prazos.

FOLHA – Onde o senhor tem investido o seu próprio dinheiro?
ROUBINI –
Nos últimos três anos, deixei na poupança ou em títulos de depósito interbancário, bem longe do mercado financeiro. Aí me falam: “Você ganhou quase zero”. Bem, é melhor ganhar zero do que perder 50%, não é? Continuo fora do mercado financeiro porque ainda vejo riscos de recuos macroeconômicos e no lucro das empresas, além de turbulências no setor financeiro. É claro que vai chegar o tempo de recuperação do preço dos ativos financeiros em nível global. Porém, só vejo isso ocorrendo daqui a um ano ou até um ano e meio. Não acredito que a escalada recente das Bolsas seja sustentável, porque o movimento está indo além do que os dados sobre a economia permitem. Por esse motivo, pode haver uma correção.

FOLHA – Como tem sido a vida de economista-celebridade? O que mudou na sua rotina?
ROUBINI –
Não acho que eu seja uma celebridade porque não tenho vida de celebridade. Trabalho 12 horas por dia, sete dias por semana, e gasto 80% do meu tempo viajando pelo mundo. Se eu fosse celebridade, não estaria passando a vida a conversar com jornalistas e outros pesquisadores -eu estaria pegando uma praia no Rio de Janeiro [risos]. É muito trabalhoso fazer análise porque requer que visitemos o mundo inteiro para falar com pessoas, empresários, investidores, autoridades. Não tenho uma bola de cristal.

FOLHA – Circula uma piada segundo a qual os únicos que estão lucrando com a atual crise são os advogados, por causa das falências de empresas, e os economistas, que nunca deram tantas palestras. Entendo que o seu trabalho seja desgastante; no entanto, é uma oportunidade de ganhar dinheiro e fazer o seu nome no planeta todo.
ROUBINI –
O momento é bastante complexo e interessante para os economistas. Aconteceram mais coisas no último ano e meio do que nos 70 anteriores. Só acho que não se pode dizer que alguém está tirando vantagem da pior crise financeira desde a Grande Depressão. Há enormes custos humanos, sociais, fiscais. É muito sério. Eu e os outros economistas estamos engajados em ajudar o mundo a entender o que aconteceu e a buscar uma solução.

18/05/2009 - 14:25h Pauta exportadora do País – só ganhos

http://www.transaex.com.br/img_noticias/20090202122915_noticias.jpg

Nathan Blanche* – O Estado SP

O desempenho da balança comercial brasileira nos últimos anos, e mesmo durante a atual crise, deve ser atribuído principalmente aos superávits dos setores de agronegócio e mineração. Diante deste quadro, já há algum tempo surgem críticas e preocupações de alguns analistas, inclusive com destaque na imprensa, sobre a dependência do saldo comercial da exportação desses produtos. Afirma-se que há uma volta ao atraso da década de 1980, quando o Brasil era exportador exclusivo de produtos básicos. O que se pretende mostrar neste artigo é que não é porque o País é exportador de produtos básicos e semielaborados que está fadado a ter baixos crescimento e desenvolvimento.

A afirmação de “volta ao atraso da década de 1980″ é tendenciosa, superficial e carece de qualquer fundamento para o caso brasileiro. Procede a preocupação em relação ao risco para o desempenho das contas externas e para a trajetória de crescimento econômico de países cuja diversificação da pauta é mínima e a produção carece de desenvolvimento tecnológico.

Países com baixa diversificação de sua pauta de exportação ficam à mercê da tendência e da volatilidade dos preços das commodities específicas, o que de fato pode gerar problemas no balanço de pagamentos. Além disso, a carência de desenvolvimento tecnológico e humano que muito se observa em grandes países exportadores de commodities específicas é um claro limitador ao crescimento de longo prazo dessa economia.

Mas não é porque o país é exportador de produto básico que está fadado a ter baixos investimentos, reduzido crescimento econômico e desenvolvimento limitado. Pode-se tomar como exemplo o Chile, cujas contas externas têm forte dependência do preço do cobre, mas o nível de desenvolvimento humano, tecnológico e institucional é elevado, impulsionando o crescimento de longo prazo da economia.

O Brasil, diferentemente do Chile e de outros países produtores de petróleo, possui uma pauta de exportação bastante diversificada, mesmo quando comparado com países desenvolvidos como Canadá, Austrália e Nova Zelândia (ver quadro abaixo, ref. 2007). Essa diversificação protege a economia de enfrentar estrangulamentos no balanço de pagamentos, como ocorre com países que dependem da exportação de poucos produtos.

Nesse contexto é importante destacar que, apesar da forte retração da demanda mundial e do baixo crescimento doméstico decorrentes da crise financeira, o Brasil ainda deve apresentar um saldo comercial superavitário em US$ 21,8 bilhões e ainda ter uma sobra do balanço de pagamentos na casa de US$ 16 bilhões em 2009.

Além disso, a vantagem comparativa e a competitividade da agricultura brasileira resultam de esforços de décadas. O atual nível tecnológico se deve ao desenvolvimento de pesquisas realizadas por instituições como Embrapa, Esalq, Universidade de Viçosa e outros. E é justamente esse nível tecnológico que permite altos ganhos de produtividade, que fazem com que a agricultura seja lucrativa mesmo com os enormes custos advindos dos entraves de infraestrutura, principalmente no que se refere a armazenamento, estradas, ferrovias e portos.

E a variável-chave que tem permitido que essa vantagem comparativa apareça é o câmbio flutuante, um dos três pilares da política econômica – formado em conjunto com responsabilidade fiscal e monetária – que têm permitido a consolidação da estabilidade macroeconômica brasileira. Diferentemente do passado, quando o câmbio era fixo, os agentes podem ser beneficiados pela rentabilidade gerada por suas atividades.

Assim, o Brasil não se encaixa no grupo de países que poderia enfrentar problemas de balanços de pagamentos e menor taxa de crescimento da economia no longo prazo por depender da exportação do agronegócio e da mineração. Ao contrário, o País não voltou ao atraso da década de 1980, mas, sim, deu vários passos em direção a um futuro marcado por taxas mais expressivas de crescimento da economia.

É importante ressaltar que os setores de agronegócio e mineração devem aumentar sua participação no saldo comercial este ano, o que em parte se deve ao fato de sofrerem menos em momentos de crise, uma vez que apresentam uma demanda mais inelástica a alterações na renda. Por exemplo, a participação do saldo do agronegócio no saldo comercial, que atingiu 113,5%, em 2007; 206,7%, em 2008; e deve passar para 230,4% neste ano. Com isso, acaba beneficiando a indústria e os serviços domésticos, pois, mantendo o controle das contas correntes, evita uma depreciação acelerada do real, o que obviamente demandaria aperto de política monetária, inibindo o consumo interno. Além disso, esses dois setores devem apresentar rentabilidade bastante positiva, apesar da queda importante dos preços em dólares dessas commodities. E isso acontece, uma vez que a depreciação do real compensa boa parte da queda de preços em dólares. Esse benefício não existe só para o Brasil, mas para todos os exportadores de commodities, dada a característica de commodity-currency de suas moedas.

Enfim, as críticas não fazem sentido para o caso brasileiro. Além disso, é justamente a exportação de básicos e semielaborados que está garantindo o bom desempenho da balança comercial e, consequentemente, do balanço de pagamentos. O Brasil só tem ganho com essa estrutura de comércio externo. A vantagem comparativa brasileira nesses setores é clara e vai continuar sendo determinante para o desempenho do saldo comercial no futuro.

*Nathan Blanche é sócio diretor da Tendências Consultoria Integrada

13/05/2009 - 11:31h Os bons ventos vindos da China

Cristiano Romero – VALOR

Nos primeiros quatro meses do ano, a Ásia se tornou o principal mercado das exportações brasileiras, desbancando a União Europeia (UE), a América Latina (AL) e os Estados Unidos. Mais importante do que a diversificação do comércio do Brasil com o mundo, a mudança mostra que há sinais promissores de recuperação na China, principal responsável pelo aumento das vendas brasileiras para aquele continente. Se a boa suspeita se confirmar, o país, favorecido pela demanda asiática, poderá experimentar um relativo descolamento e sair mais cedo da crise atual.

O setor exportador é o que mais tem sofrido com a turbulência mundial. De janeiro a abril, as exportações do Brasil, calculadas pela média diária, caíram 16,5% em relação ao mesmo período de 2008. A corrente de comércio – a soma de exportações e importações – recuou 19,5%. A boa notícia é que a China, no mesmo período, aumentou de 6,5% para 12,9% a sua participação nas exportações brasileiras – o salto de todo o continente asiático foi de 16,1% para 24,8%.

Na contramão desse movimento, a participação das outras regiões nas exportações nacionais encolheu no primeiro quadrimestre – na UE, de 25,1% para 23,1%; na AL, de 26,6% para 21,3%; e nos EUA, de 14,4% para 11,3%. Essa reviravolta poderia não significar muita coisa, apenas uma acomodação das participações relativas de cada mercado em função da crise, mas o fato é que as vendas do Brasil para a China estão crescendo, em plena crise, a uma taxa acelerada – 62,66% de janeiro a março.

“O que os números do comércio exterior brasileiro e os próprios indicadores chineses parecem sugerir é que, de fato, a Ásia está voltando a respirar”, diz o economista Luiz Guilherme Schymura, diretor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV. “Se isso é verdade, esse sopro de vida deve paulatinamente insuflar a atividade econômica também nos grandes fornecedores de matérias-primas e produtos básicos para os asiáticos, como o Brasil e outros países da AL.”

O PMI da China (sigla em inglês para Índice de Compra dos Gerentes, um indicador que mede o nível de atividade industrial baseado em cinco itens – novas encomendas, níveis de estoque, produção, entregas do fornecedor e mercado de trabalho) superou em março a marca dos 50 pontos, o que indica expansão. Na prática, voltou aos níveis de meados de 2008, ou seja, aos patamares anteriores ao início da fase mais aguda da crise .

A economista Mônica de Bolle, da Galanto Consultoria, calcula que o PMI global também está se recuperando – o fundo do poço foi registrado em dezembro de 2008, quando o índice caiu abaixo de 35 pontos -, mas continua longe dos 50 pontos. “A reação chinesa parece estar liderando a reação global. Mesmo que a autossustentação chinesa não seja capaz de gerar a resposta global que todos gostariam, alguns países poderão ser mais beneficiados do que outros”, diz ela.

Quando colocaram em prática um megapacote fiscal para atenuar os efeitos da crise, os chineses mudaram a composição de sua demanda, diminuindo a participação do investimento em bens manufaturados, que utiliza bens de capital importados de outras nações asiáticas, como a Coreia. Em compensação, eles aumentaram a importância do investimento público, que demanda insumos, como o aço, para obras de infraestrutura. Isso beneficia o Brasil. “É mais uma razão para o momento auspicioso brasileiro”, comenta a economista da Galanto.

Embora o governo tenha adotado inúmeras medidas também para apoiar as exportações, a China está tentando reduzir a dependência do mercado externo para crescer. As exportações estão sofrendo os efeitos da crise. Em abril, caíram 22,6% em relação ao mesmo mês de 2008, a sexta queda consecutiva – as importações recuaram 23%. Por outro lado, a taxa de investimento da economia cresceu 30,5% de janeiro a abril.

Na próxima Carta do Ibre, Schymura tratará da possibilidade de descolamento do Brasil na fase seguinte da crise mundial. Ele lembra que havia, antes da quebra do banco Lehman Brothers, em setembro, um certo descolamento das principais economias emergentes em relação aos países ricos. A razão para isso é que o recente boom global foi puxado em grande medida pelos emergentes.

Os emergentes foram responsáveis, de 2000 a 2007, por 85% do aumento do consumo mundial de petróleo. A área mais dinâmica dessa expansão foi a Ásia – a China respondeu, sozinha, por 37% do crescimento. Quando se observa o avanço do comércio mundial no mesmo período, constata-se que os países da OCDE – o clube das economias mais ricas – foram responsáveis por 56% do seu incremento. Parte desse número, no entanto, explica Schymura, é explicada pela intensificação das transações internas na UE. A China contribuiu, no período observado, com 13% da alta do comércio e os EUA, com 5%.

Houve também mudanças na forma como o mundo cresceu. Enquanto nas décadas anteriores, os países desenvolvidos, representados pela OCDE, respondiam por até 80% do produto mundial, entre 2000 e 2007 a participação foi bem menor – 47%. Na crise, a OCDE começou a desacelerar bem antes da quebra do Lehman, enquanto os países emergentes, embora já estivessem começando a tirar o pé do acelerador, por causa das pressões inflacionárias, só sentiram o fardo da turbulência depois de setembro de 2008, quando houve grande perturbação no mercado financeiro internacional.

“Não parece haver dúvida, portanto, que havia um descolamento relativo do mundo emergente em relação aos países ricos no período pré-Lehman”, observa Schymura. No momento seguinte, como se sabe, não houve mais descolamento. A grande questão agora, diz Schymura, é saber se, passado o momento mais agudo da crise, os emergentes retornarão ao padrão anterior ou seguirão amarrados ao desempenho da OCDE.

Talvez, seja cedo para apostar no cenário mais otimista, mas os sinais vindos do comércio exterior e de alguns indicadores da economia chinesa justificam uma esperança cautelosa.

Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.

E-mail cristiano.romero@valor.com.br

11/05/2009 - 11:08h O Oriente chega mais perto

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Ideograma chines: Crise = perigo e oportunidade

Sergio Leo – VALOR

O Brasil sofrerá menos com a crise mundial, em parte por ter diversificado seus mercados de exportação, procurando clientes em todos os recantos do mundo. Em resposta à crise, e em consequência de um poderoso movimento internacional de deslocamento do eixo econômico do globo, o comércio do Brasil volta, porém, a concentrar-se rapidamente. Desta vez, em torno de mercados povoados por consumidores inteligentes de tez amarela e olhos puxados. A rápida ascensão da China como o principal destino das vendas brasileiras ao exterior é só um aspecto da emergência da Ásia como polo dinâmico do comércio mundial.

Nesta semana, quando chegar em Pequim, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva será pressionado por integrantes do próprio governo a falar de comércio. É a Embraer, que teme perder encomendas de sua filial na China para empresas aeronáuticas, concorrentes chineses puro-sangue. São os exportadores de carne suína e frango, que consideram o empurrão presidencial fundamental para mover as forças do mercado chinês. Lula deve atender às demandas dos empresários, mas quer, também, falar de política.

Segundo um ministro com trânsito livre no gabinete presidencial, Lula quer fazer da visita uma oportunidade de articular com a China uma ação política coordenada em instâncias internacionais, como a reunião dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) em junho, as Nações Unidas e o G-20, reunião das economias mais influentes do mundo. É uma pretensão inteligente, se, com ela, vier uma negociação para atender aos interesses empresariais do Brasil em relação aos mercados asiáticos.

Mesmo os conselheiros de Lula comentam que é circunstancial o primeiro lugar da China entre os importadores brasileiros. Os Estados Unidos, que foram lançados ao segundo lugar entre os mercados para a exportação brasileira, encontram-se em crise, que devem superar no futuro próximo, para voltar ao posto de maior consumidor de produtos brasileiros. Mas a ascensão asiática é impressionante demais para ser mero fenômeno conjuntural.

Em abril, as exportações brasileiras para países asiáticos chegaram a 30% do total de vendas brasileiras ao exterior. A China absorveu 18% do total. Se computado o resultado do quadrimestre, a fatia das exportações brasileiras acolhida pela China chega a quase 13%, e as vendas aos asiáticos representam quase 25% do total. Vale lembrar que, no primeiro quadrimestre de 2008, os Estados Unidos, hoje compradores de apenas 11% das exportações brasileiras, eram 14% do mercado para os brasileiros no exterior. A velocidade com que os chineses e outros asiáticos se tornam destino preferencial das vendas brasileiras é sintomática, porém.

O vigor das vendas aos asiáticos é sintoma de um mal preocupante, a concentração das exportações brasileiras em bens de baixo valor agregado, as chamadas commodities, como minério de ferro, soja e celulose. Mas também indica que os mercados compradores mais dinâmicos estão em outros meridianos, diferentes dos tradicionais.

E é em mercados chamados emergentes que o Brasil encontra onde escoar sua produção. Só na Ásia o desempenho das exportações brasileiras alcança crescimento expressivo (a África é o outro continente para onde o Brasil aumentou exportações, mas em medíocres 5%). O crescimento das vendas aos asiáticos, de 28% de janeiro a abril, se deve prioritariamente à China, mas também a países como Taiwan, Coreia do Sul, Cingapura e Indonésia. Esses países compensaram o desempenho importador do Japão, que, pelo contrário, diminuiu as compras. Os chineses, em 2008, importavam mais de duas vezes e meia o que o Japão comprava do Brasil; agora absorvem quase quatro vezes mais em produtos brasileiros que os japoneses.

Interessado em fortalecer os laços políticos com os chineses, Lula cometerá um grave erro se descurar da agenda econômico-comercial. A Ásia, além de ser grande consumidor de commodities, é um potencial comprador de manufaturados brasileiros, e está cada vez mais perto, em termos de logística: em 2009, como relatou o Valor, deve ser concluída a ligação brasileira com o pacífico, via Peru. Em 2010, será a vez de projetos que passam por Bolívia e Chile, parte do antigo plano IIRSA, de integração da infraestrutura sul-americana. Haveria outra ligação, passando pelo Equador, que foi armazenada na geladeira pelas autoridades brasileiras amuadas com as bravatas nacionalistas do presidente equatoriano Rafael Correa.

A Ásia ganha importância para o mundo e para o Brasil, e, por tabela, tende a mostrar a importância de boas relações do governo brasileiro com os vizinhos andinos, caminho para os portos que levarão mercadorias brasileiras ao Pacífico. Na Agenda China, que o governo elaborou com apoio da CNI e do Conselho Empresarial Brasil-China, foram identificadas oportunidades no mercado chinês para produtos tão variados quanto autopeças, partes de ar condicionado e material elétrico. A aliança política ajuda, nesses casos, mas faz falta, ainda, uma estratégia empresarial consistente.

No Brasil, empresários do setor manufatureiro, ocupados com a sobrevivência, em tarefas comezinhas como a busca de fontes para seu capital de giro, desdenharam da missão empresarial que parte para a China nesta semana. Antenas mais eficientes, como as do governo dos EUA, já perceberam a forte atração gravitacional que o mercado asiático promete exercer no futuro próximo – não é por outro motivo que o Eximbank americano resolveu triplicar o crédito comercial para o Brasil, em plena crise, como relatou Patrícia Campos Mello em “O Estado de S. Paulo” neste fim de semana.

O discurso do setor privado em relação à China ainda é presa dos interesses defensivos, que veem nos chineses uma ameaça à indústria instalada no país. Esses interesses estão fortemente representados na missão empresarial que acompanha Lula à China, nesta semana. Falta, até hoje, porém, uma ação mais vigorosa do governo e do setor privado, capaz de aproveitar a crescente aproximação política com a China para explorar o potencial emergente dos mercados asiáticos.

Sergio Leo é repórter especial em Brasília

E-mail: sergio.leo@valor.com.br

10/05/2009 - 09:59h Agricultura se recupera e pode repetir 2008

Alta de preços agrícolas deve injetar até R$ 12 bi na renda de produtores

Governo e consultorias revertem estimativa de queda de 7% e dizem que a renda do campo pode ser igual à de 2008

Márcia De Chiara – O Estado SP

A alta recente dos preços dos produtos agrícolas deve injetar pelo menos R$ 6 bilhões de renda no campo neste ano, segundo os cálculos do Ministério da Agricultura. Consultorias privadas preveem um acréscimo de até R$ 12 bilhões na receita em relação às previsões iniciais, que apontavam queda de 7%. Nos últimos 30 dias, as cotações de soja, algodão e açúcar, por exemplo, subiram 13%, 22%, 18%, respectivamente, nas bolsas internacionais. A recuperação de preços trouxe de volta otimismo ao campo e abriu perspectivas mais favoráveis para o plantio da próxima safra.

Em setembro, com o agravamento da crise financeira, os preços das commodities desabaram e as projeções da receita agrícola para este ano também. O Ministério da Agricultura chegou a projetar no início do ano que a renda das lavouras poderia chegar a R$ 150 bilhões em 2009. Agora, prevê que a receita atinja R$ 156 bilhões, resultado apenas 3% menor do que o obtido em 2008, revela um estudo do Ministério da Agricultura a que o Estado teve acesso e será divulgado amanhã.

“A tendência é de que a renda agrícola de 2009 não sofra uma queda tão grande quanto se previa inicialmente e possa até se igualar à do ano passado, que foi recorde”, afirma o coordenador-geral de Planejamento do Ministério da Agricultura, José Garcia Gasques. Em 2008, a renda de 20 produtos agrícolas somou R$ 161,1 bilhões.

Segundo Gasques, o que está puxando para cima a receita são os preços. Ele observa que os dados da receita de abril refletem apenas parcialmente esse movimento porque as cotações consideradas são as de março e a escalada das commodities ganhou força em abril.

Consultorias privadas que consideram em seus cálculos os preços deste mês têm projeções mais otimistas. A RC Consultores, por exemplo, refez as contas e prevê que a renda obtida com a venda de grãos, cana, café e laranja atinja R$ 186,9 bilhões em 2009, ante estimativas iniciais que indicavam R$ 174,5 bilhões. A nova projeção é praticamente a mesma receita recorde obtida no ano passado. “A percepção de renda futura da agricultura mudou”, diz o diretor da consultoria, Fabio Silveira. Ele acredita que esse resultado possa até ser superado.

“Estamos contentes, mas preocupados”, afirma o presidente da Associação dos Produtores de Soja de Mato Grosso, Glauber Silveira. Ele explica que a receita com soja pode ser corroída pela valorização do real ante o dólar, apesar de o preço atual do grão, que passa de US$ 11 por bushel na Bolsa de Chicago, superar a média histórica e o esperado diante do cenário de recessão global. O dólar fechou a semana em R$ 2,068, a menor cotação desde outubro do ano passado.

07/05/2009 - 09:25h ”Futuro do Brasil parece brilhante”

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Processo de recuperação não deverá levar o mundo de volta aos tempos de abundância de antes da crise, diz professor

Luciana Xavier e Nathália Ferreira – O Estado SP

Há sinais de que o mundo pode estar no início de um processo de recuperação, mas essa recuperação não levará o mundo de volta aos tempos de abundância de antes da crise, acredita o Prêmio Nobel de Economia Edmund Phelps, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo.

Phelps esteve ontem em São Paulo para participar do 2º Fórum Internacional de Comunicação e Sustentabilidade. Ele é professor de política econômica da Universidade Columbia, de Nova York, e ganhou o Nobel em 2006 por seus trabalhos sobre a relação entre desemprego e inflação.

Para Edmund Phelps, a China deve liderar essa retomada global, mas ele se mostrou bastante confiante em relação ao Brasil, que, segundo ele, deve estar também entre os primeiros a sair da crise e para o qual prevê um “futuro brilhante”. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Indicadores econômicos em alguns países têm mostrado melhores em comparação a números anteriores. É um sinal de que a recuperação global pode ter começado?

Sim. Alguns observadores acreditam que há sinais de início de um processo de recuperação. Ela se dará em alguns setores da economia, não em todos ao mesmo tempo. Será pouco a pouco.

De que forma será a recuperação?

É errado pensar nesta recessão como sendo em forma de ?L? (recessão seguida de estagnação). Logo, não acho que a recuperação ocorrerá dessa forma. Tampouco será em forma de ?V? (recessão seguida de recuperação completa), porque não acredito que voltaremos para onde estávamos. Acho que teremos uma recuperação até metade do caminho, pensando nos Estados Unidos em particular. Imagino que será algo entre isso, uma recuperação em forma de ?J? ao contrário ou de um gancho. Minha preocupação é de que, daqui a três anos, alguns países se deem conta de que não conseguiram se recuperar completamente. Eles verão que não voltaram ao nível normal de atividade que vimos em meados dos anos 90 ou por volta de 2003. Há uma longa distância entre onde estamos agora e uma taxa de desemprego de 5,5% (nos EUA). Tenho dúvidas de que chegaremos lá.

Quem deverá liderar esse movimento?

Como o potencial de crescimento da China é tão alto, é quase certo que a China vai sair desse processo de desaceleração primeiro. Talvez a Índia também. E acho que o Brasil está entre os primeiros a dar a virada mais cedo. Creio que os Estados Unidos não ficarão muito longe, também. A Europa será o pior caso. Eles, sim, estão bem distantes de uma virada.

Como o Brasil deve ficar quando a crise terminar?

Bem, hesito em dizer por que não tenho seguido dados do Brasil em bases semanais. Mas sei que os preços das commodities têm se recuperado e tenho certeza de que subirão mais. Sei que as exportações estão começando a ir bem de novo. O futuro parece brilhante para o Brasil.

O Brasil está de algum modo em posição de vantagem em relação a outros países?

Os países latino-americanos, em geral, estão se saindo muito bem. As taxas de juros estão caindo satisfatoriamente na América Latina. A situação parece boa no Chile, Colômbia e Brasil. Devemos ter um desempenho excelente na região nos próximos anos. Vocês têm sorte de terem vizinhos que estão indo bem. Vocês não iam querer estar próximos agora de países do Leste Europeu ou perto da África. Acho que o Brasil está bem localizado (risos).

Com o desemprego em alta nos EUA e em outros países e inflação em níveis baixos, qual será o desafio dos bancos centrais daqui para frente?

Os bancos centrais logo enfrentarão um desafio enorme de ter de subir os juros. Uma vez que o consumidor estiver convencido de que chegamos ao fundo do poço, creio que os juros deverão saltar para níveis mais elevados. Os bancos centrais estarão diante de um dilema: elevar os juros para prevenir a inflação ou manter juros baixos para encorajar a recuperação? Temo que alguns bancos centrais não terão coragem de aumentar os juros. E esses países terão de conviver com inflação bem alta.

06/05/2009 - 10:00h “Nós não somos mais uma república de bananas”

Análise: Vigor na recuperação do mercado local comprova situação melhor do país ante outros emergentes.

Com fundamentos sólidos, Brasil resiste bem à crise externa

Gustavo Lourenção / Valor

Stuhlberger, da CSHG: “Estabilidade de preços tornou-se bem público no país”

 

Por Alessandra Bellotto, de São Paulo – VALOR

“Nós não somos mais uma república de bananas.” Foi assim que Luis Stuhlberger, um dos principais gestores de fundos hedge do país e sócio da Credit Suisse Hedging-Griffo (CSHG), começou sua apresentação sobre o Brasil a uma plateia de investidores locais e estrangeiros, em evento sobre investimentos alternativos ontem, em São Paulo. E isso para dizer que a economia brasileira é muito menos dependente de commodities do que possa parecer, o que caracteriza uma enorme vantagem competitiva do país em relação a outros mercados emergentes, especialmente na América Latina.

“O Brasil é muito mais do que um player de commodities”, destacou. Não é à toa que, no processo de recuperação dos mercados, o país mostra vigor maior, disse Stuhlberger. Do dia 27 de outubro de 2008, quando a bolsa marcou sua pior pontuação desde o estouro da crise, até 30 de abril, o índice Bovespa subiu 71,24% em moeda local. Na China, a alta foi de 43,76%, na Rússia, a bolsa avançou 51,59% (em dólar), na Índia, 34,01%, no México, 29,82%.

No contexto de crise global, a participação relativamente baixa das exportações brasileiras no Produto Interno Bruto (PIB) é favorável para o país. Ainda que o Ibovespa seja concentrado em empresas de commodities (com 50% a 60% de participação no índice), a proporção das exportações brasileiras no PIB é de cerca de 12%. No Chile, ela chega a 34,8%, na Venezuela, a 26,5%, e no Peru, a 18,6%. Já o consumo doméstico, acrescentou o gestor, representa 65% do PIB brasileiro.

Outro ponto a favor da economia local é a diversificação dos destinos das exportações. No Brasil, as vendas para os Estados Unidos, o epicentro da crise, representam cerca de 14%, ante média dos países da América Latina de 45%. China e Argentina também são importantes parceiros comerciais do país, assim como outros mercados na União Europeia. “Essa diversificação é uma das razões que explicam a resiliência da nossa balança comercial”, disse.

O recente boom de commodities, no entanto, favoreceu o Brasil, que conseguiu emplacar reformas econômicas até o ano de 2006, na visão de Stuhlberger. Segundo ele, a adoção do câmbio flexível, regime de metas de inflação e superávit primário, mais algumas reformas microeconômicas, como a aprovação do crédito consignado e a nova Lei de Falências, foram fundamentais no ciclo virtuoso vivido pelo país nos últimos anos.

O Brasil, destacou o gestor, também foi destaque na acumulação e administração de reservas internacionais. Segundo Stuhlberger, entre dezembro de 2006 e agosto do ano passado, as reservas do país mais do que dobraram, chegando a superar os US$ 200 bilhões. E desde então, disse, só caíram 8%. Na Rússia, comparou, as reservas internacionais foram reduzidas em cerca de 35%. “O Banco Central resistiu, acertadamente, à pressão de queimar as reservas no início da crise.”

A política monetária conservadora, para evitar inflação e expansão do crédito, também é uma vitória do país, na opinião de Stuhlberger. “A estabilidade de preços tornou-se um bem público no país.” Contudo, o Brasil, pela primeira vez na história, não foi tão afetado por essa crise. “Esta desaceleração econômica é cíclica, não estrutural.” Ele destacou ainda a solidez do sistema financeiro do país como uma das vantagens competitivas do mercado local. Do lado negativo, o gestor citou como o maior desafio do país a melhora na administração dos gastos públicos, que hoje são “altos e crescentes”.

Fundamentos econômicos sólidos, aliados a uma ambiente de juros ainda relativamente altos ante o resto do mundo, fazem do Brasil um dos destinos mais atraentes para o investidor externo que busca diversificação, segundo o diretor de asset management do Credit Suisse no Brasil, Mauro Bergstein. “Tenho uma visão construtiva para o Brasil, que vem respondendo bem aos desafios colocados pela crise”, disse. Para ele, há muitas oportunidades de investimento nos mercados de ações e de crédito privado. Ele destacou ainda a liquidez, profundidade e transparência do mercado financeiro local.

05/05/2009 - 09:42h Emergentes puxam recuperação, diz Mobius

Segundo megainvestidor, potencial de crescimento e bons fundamentos beneficiam países

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Cynthia Decloedt – O Estado SP

A perspectiva para os mercados emergentes continua positiva e esses países devem desempenhar papel fundamental este ano e nos anos seguintes na atividade econômica global, disse ontem o diretor executivo da Templeton Asset Management, Mark Mobius, um investidor que administra US$ 20 bilhões em ativos de emergentes.

“Brasil e Rússia são países ricos em recursos naturais e, embora os preços das commodities tenham recuado, a tendência de longo prazo é de alta e esses países vão se beneficiar da demanda global por petróleo, aço, alumínio, celulose e outras commodities”, destaca Mobius em seu site na internet. Ele prevê expansão de 7% a 8% na economia chinesa.

Segundo Mobius, os países emergentes se beneficiam das características relativamente sólidas de seus fundamentos e do potencial de crescimento mais acelerado do que dos países desenvolvidos. Ele disse ainda que o crescimento dos emergentes deve também ser “rejuvenescido” pelas medidas fiscais e de flexibilização monetária que os governos e bancos centrais estão tomando.

As declarações do investidor deu novo ânimo ao mercado acionários brasileiro, levando a BMF&Bovespa a atingir o maior nível em sete meses, acima dos 50 mil pontos.

MAIORES GANHOS

Mobius destaca que os mercados acionários dos emergentes terminaram o primeiro trimestre com retorno positivo, citando o índice MSCI de Mercados Emergentes, que encerrou o período com retorno médio de 1% em dólar.

Os mercados latino-americanos ofereceram os melhores ganhos, com o índice MSCI para América Latina apresentando retorno de 4,9% em dólar; dentro dele, Brasil e Chile registraram ganho de dois dígitos, de 12,5% e 13,6%, respectivamente.

Os dez índices de ações com o melhor desempenho este ano são de emergentes, com liderança do Peru e da China. Desde 23 de março, quando Mobius disse que a base da tendência de alta estava sendo formada, o índice de mercados emergentes MSCI subiu 23%, comparados a 14% do índice global.

Mobius acredita que as bolsas dos mercados emergentes estão com tendência de alta, o que deve renovar o apetite comprador dos investidores estrangeiros.

Segundo ele, os mercados emergentes estão construindo a base para o próximo rali. Entre os mercados destacados por Mobius estão África do Sul, Turquia, Brasil e empresas chinesas listadas na Bolsa de Hong Kong.

As ações de mercados emergentes podem se transformar em um mercado ascendente no fim deste ano, pois a queda nas taxas de juros e a redução da inflação tornam os papéis mais atrativos, disse Mobius.

A concordata da Chrysler e outros “riscos de curto prazo” podem atrasar um pouco essa recuperação porque os especuladores podem apostar que as ações vão cair.

“Estamos num momento de criação do próximo período de ascensão do mercado”, disse o investidor. “O que está acontecendo agora vai continuar talvez até o fim do ano, quando, então, haverá um ponto de ruptura.”

05/05/2009 - 08:33h Indicadores mostram que agronegócio se recupera

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Relação de troca para comprar adubo tem melhora

EDUARDO SCOLESE – FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

Diferentes dados revelam sinais de recuperação do agronegócio, apesar das reclamações dos ruralistas, que pedem nova renegociação de dívidas, garantia de preço mínimo e um pacote volumoso de recursos para o plano agrícola 2009/10.
Um desses indicativos aparece numa espécie de índice de custeio criado pela Anda (Associação Nacional para Difusão de Adubos). Ele mede a quantidade do produto agrícola necessária para adquirir uma tonelada de fertilizante.
De dez produtos analisados, houve queda de custo em oito deles, numa comparação do primeiro trimestre deste ano com a média do ano passado. Por exemplo: em 2008, um produtor tinha de oferecer 26,3 sacas de soja para receber uma tonelada de fertilizante. Neste ano, até agora, precisa de 23,7 sacas -queda de 10%.
“Caiu o preço do adubo, aumentou o preço em reais do produto exportado, a relação de troca começa a ficar mais favorável”, afirma Eduardo Daher, da direção da Anda. Sobre o clima entre os representantes ruralistas, ele diz: “Neste momento não deveríamos estar nem otimistas nem pessimistas”.
Nos últimos meses, tanto a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) como integrantes da bancada ruralista do Congresso têm feito reclamações públicas sobre as dificuldades dos produtores.
A CNA tem orientado seus associados a atuar com cautela para a próxima safra, enquanto, por conta dessa pressão, o governo se movimenta para buscar R$ 100 bilhões em créditos para o plano agrícola e pecuário 2009/10. O plano passado teve R$ 65 bilhões para a agropecuária empresarial.

Menos nuvens
Sobre as exportações, os números do agronegócio também aparecem menos nebulosos.
Um trabalho da assessoria do deputado federal Beto Faro (PT-PA) revela que, dos 10 produtos que mais arrecadam com vendas ao exterior, 4 têm apresentado forte alta em 2009.
Numa comparação entre o primeiro trimestre deste ano e os três primeiros meses de 2008, o produto que mais avançou em volume de recursos foi o açúcar (59%), seguido de milho, (41%), soja (30%) e fumo (13%). Se somados os dez principais produtos, 2009 apresenta leve queda (1%) ante 2008.
Em relação ao valor dos produtos, após uma aparente bolha de valorização pré-crise, o índice criado pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (USP) para medir o preço das exportações tem caído desde o fim do ano passado. Ainda hoje (136,73), porém, mantém-se em patamar acima da média dos últimos quatro anos (133,01).
Para Karlin Saori Ishii, pesquisadora do Cepea, o atual cenário pode ser visto de dois ângulos: o do pessimismo, se comparado com o crescimento entre 2002 e setembro de 2008; e de otimismo, se os atuais valores forem comparados com as médias dos últimos anos. “Com a crise, a gente tem o problema de demanda e de crédito. Talvez, quando estabilizarem, os preços terão de novo uma tendência de alta”, diz Ishii.

03/05/2009 - 10:18h Volume de encomendas surpreende exportadores

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O Estado SP

O crescimento das importações da China de produtos brasileiros no primeiro trimestre deste ano surpreendeu os produtores nacionais de commodities. Os volumes de soja exportados para o país mais que dobraram no período e o açúcar brasileiro passou a figurar na pauta de importações chinesas.

“O resultado nos surpreendeu porque o aumento nos volumes foi muito grande”, afirma César Borges de Sousa, vice-presidente da Caramuru Alimentos, uma das grandes exportadoras de grãos. No primeiro trimestre, as vendas a empresa para a China somaram 117 mil toneladas, um volume quase 150% maior ante o mesmo período de 2008. Em abril, diz Sousa, o ritmo de crescimento continuou acelerado.”Ocorre hoje uma antecipação de vendas porque o preço atual do grão é maior que o do futuro.”

O secretário-geral da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais, Fábio Trigueirinho, explica que a quebra na safra da Argentina provocou um aperto no suprimento e jogou os preços para cima. A tonelada do produto é vendida a US$ 360, ante a média histórica de US$ 220. Em 2008, a China comprou 48% da soja exportada pelo Brasil.

No caso do açúcar, as compras da China do produto brasileiro, que foram insignificantes e somaram 100 toneladas no primeiro trimestre de 2008, atingiram 157 mil toneladas em igual período deste ano. “A China não era importadora de açúcar brasileiro e passou a comprá-lo porque teve problemas climáticos que afetaram a sua safra”, observa Antonio de Padua Rodrigues, diretor da União da Indústria de Cana-de-Açúcar. Ele projeta que o Brasil exporte para a China 500 mil toneladas.

O quadro se repete com o minério e a celulose. As quantidades exportadas de celulose cresceram 128% no primeiro trimestre em razão da recomposição de estoques e substituição da produção local pela importada a custos menores. “O mundo está em recessão, mas a China não. Essa é a grande diferença”, diz Marcelo Tunes, diretor do Instituto Brasileiro de Mineração, animado com as exportações de minério de ferro.

03/05/2009 - 09:44h China vira principal comprador do Brasil

Com alta de 61% nas compras, China passa os EUA na lista de importadores

Márcia De Chiara – O Estado SP

A China está salvando as exportações brasileiras em meio à recessão global. Em março, pela primeira vez o país foi o principal destino dos produtos nacionais, desbancando a liderança histórica dos Estados Unidos. As exportações para China no primeiro trimestre cresceram 62,67% em valor e 41,47% em quantidade na comparação com o mesmo período de 2008.

Os principais beneficiados foram os produtores de soja, celulose, minério de ferro e petróleo. Essas quatro commodities respondem por 76,6% da receita de exportações brasileiras para o país, aponta a Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex).

“No pior dos mundos, o Brasil está melhor”, afirma Miguel Daoud, economista-chefe da consultoria Global Financial Advisor e especialista em China. Com a crise global, o governo chinês decidiu injetar quase US$ 600 bilhões na economia. O objetivo é estimular os negócios e mudar o modelo de economia exportadora para outro, voltado para o mercado interno. Esse pacote já começou a fazer efeito, com repercussões diretas no Brasil.

Daoud observa que o pacote está concentrado na construção civil. Isso significa maior consumo de aço e, consequentemente, de minério de ferro, a matéria-prima básica da siderurgia. Além disso, o governo chinês traçou um plano para tornar o país autossuficiente em cerca de uma dúzia de produtos agrícolas. Como apenas 10% do território são próprios para a agricultura, a China está aumentando as importações dos produtos que não são prioridade no plano de autossuficiência. É o caso da soja, o principal produto de exportação das lavouras brasileiras.

O salto chinês nas compras do Brasil chama ainda mais atenção pelo fato de as exportações brasileiras terem registrado no primeiro trimestre do ano um recuo de mais de 19% em relação ao mesmo período de 2008. As importações também caíram, mas um pouco mais: 21,6%. Apesar das quedas, a balança comercial brasileira registrou superávit de 9% no trimestre.

Estrela do comércio exterior, a China importou US$ 3,395 bilhões do Brasil no primeiro trimestre e foi praticamente o único país que ampliou significativamente as compras de produtos brasileiros, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). A China respondeu por 47% das exportações para a Ásia, que ultrapassou a América Latina como bloco comercial no primeiro trimestre, segundo o secretário de Comércio Exterior do MDIC, Welber Barral.

“As exportações para a Ásia vêm aumentando, apesar da crise. Tirando o Japão, o bloco tem um potencial comercial muito grande a ser explorado”, diz Barral.

Sem o robusto crescimento das vendas para a China, o superávit da balança comercial brasileira de US$ 3 bilhões no trimestre encolheria US$ 1,8 bilhão, calcula o vice-presidente executivo da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

A liderança da China nas compras brasileiras não é transitória e deve se repetir nos próximos meses, prevê Daoud. Ele diz, no entanto, que com uma taxa de crescimento do PIB de 6% para este ano, o país não vai puxar o crescimento mundial, mas será “importantíssimo” para o Brasil.

“A China tem um papel muito importante em relação ao Brasil como um grande demandante de commodities”, diz o economista-chefe da Funcex, Fernando Ribeiro. Mas ele discorda de Daoud sobre o impacto da economia chinesa como motor do crescimento global e sobre a manutenção da liderança das compras de produtos brasileiros.

Ribeiro diz que não tem dúvida de que a China exerce um papel crucial na recuperação mundial, mesmo crescendo 6% em 2009. Ele prevê que o país continue ganhando importância nas exportações brasileiras nos próximos meses. Mas, para o ano como um todo, deve encostar nos EUA, que, na sua opinião, vai continuar liderando as compras do Brasil.

Castro, da AEB, lembra que o governo brasileiro temia o déficit na balança comercial no primeiro trimestre. Tanto que chegou a baixar medidas de licença não automática para importações, depois revogadas. “Mas o cenário mudou completamente e a balança comercial registrou déficit apenas em janeiro.”

O vice-presidente executivo da AEB se diz surpreso com as taxas de crescimento dos volumes exportados para a China. A quantidade vendida de celulose, por exemplo, aumentou 650% no primeiro trimestre ante o mesmo período de 2008. No caso do ferro fundido, da soja e do minério de ferro, houve crescimento de 700%, 120% e 40%, respectivamente, nas quantidades exportadas entre janeiro e março.

“Essas taxas de crescimento são desproporcionais”, diz o economista. Na análise de Castro, esse ritmo de crescimento de compras não deve se manter, mesmo com a China crescendo 6% ao ano.

11/04/2009 - 09:36h Melhora no interior

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Celso Ming, O Estado SP

 

celso.ming@grupoestado.com.br


A depender das estimativas oficiais e dos analistas independentes, o tombo da safra 2008/2009 não será tão grande quanto se esperava há apenas um mês. É mais um elemento que parece mostrar que as condições da economia brasileira não estão tão ruins como pareciam há dois meses.

Terça-feira, tanto o IBGE como a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) reviram suas expectativas de produção para cima. Passaram de uma queda de 7,3%, estimada em março, para 6,5%, no caso do IBGE, e de 6,1% para 4,5%, nos números da Conab.

Isso parece indicar que a economia do interior deve se recuperar mais rapidamente do que se esperava, o que também deverá reanimar tantas administrações municipais afundadas na redução da arrecadação.

Para o analista de mercado da Agroconsult, Marcos Rubin, o pico das projeções mais pessimistas se deu nos primeiros dois meses do ano porque havia muita incerteza sobre os efeitos da forte estiagem que atingiu as plantações em novembro e dezembro passados, principalmente na Região Sul do País. Calculadas as perdas das safras de verão, o produtor pode ter visto nas culturas de inverno (milho e trigo) uma oportunidade de recuperação.

No caso do milho, que possui importante ciclo de inverno, a soma de preços melhores e de uma redução nos custos incentivou os produtores a aumentar a área de plantio, mas que, ainda assim, é inferior à registrada na safra passada. “O cenário geral, em comparação ao que se viu no início deste ano, está melhor”, diz Rubin.

E há outro fator positivo: os custos médios de produção, que, no caso da soja cultivada na região de Mato Grosso, tiveram um aumento de 82% na safra 2008/2009 em relação à anterior, já começam a cair.

O analista da Agroconsult calcula que, para a próxima safra, a redução do custo médio dos fertilizantes para a soja será de 13% e a do custo total de produção, de 8%. O milho, cujo aumento médio nos custos de produção nesta safra foi de 25%, terá queda de 11% na próxima.

Os dados da Associação Nacional para a Difusão de Adubos (Anda) mostram que a relação de troca do milho (quantidade de sacas de 60 quilos do produto necessária para a compra de uma tonelada de fertilizante) caiu de 51,0 em 2008 para 47,7 no primeiro bimestre deste ano, e a da soja, de 26,3 para 24,6.

O analista Pedro Collussi, da AgraFNP, aponta outros motivos para o otimismo: “Em março, os produtores, influenciados por um relatório mais otimista de estimativa de produção de milho nos Estados Unidos, resolveram plantar de última hora.” A estimativa da redução de área cultivada, que era de 18%, passou a 9,5%.

Em relação ao trigo, cujo plantio se inicia agora, poucas mudanças devem ocorrer. Rubin explica que, por se tratar de uma cultura de rotação, sua decisão de plantio é técnica, também por causa da antecipação dos contratos de venda. “Mesmo com a quebra de produção na Argentina, os preços não mudaram aqui. Pode ser que, no período de colheita, que deve ocorrer no terceiro trimestre, eles estejam mais altos.”

Apesar da queda desta safra, ela ainda deverá ser a segunda maior da história, perdendo apenas para a 2007/2008, que somou 144,1 milhões de toneladas.

COLABOROU NÍVEA TERUMI

Confira

Melhora – Ainda é cedo para afirmar que a crise já passou. Mas esta já é uma boa aposta, com base em alguns indícios. Aqui vão três:

As vendas de produtos que não dependem de crédito parecem bem melhores. Os supermercados, por exemplo, faturaram 1,7% a mais nos dois últimos meses. E o consumo físico de energia elétrica cresceu 3,3% no mesmo período.

E, anteontem, a Associação Brasileira de Papelão Ondulado comunicou que as vendas do produto, muito usado em embalagens, cresceram 16,4% em março, quando comparadas com os números de fevereiro.

08/04/2009 - 09:40h Safra 2009 será a segunda maior da história, prevê IBGE

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IBGE eleva previsão para a safra 2009

SEGUNDA REVISÃO

O IBGE elevou de novo a estimativa para a safra 2009. Segundo o levantamento de março, a produção agrícola do País vai somar 136,4 milhões de toneladas. A projeção é 0,8% superior à de fevereiro, na segunda revisão consecutiva para cima. Apesar da queda prevista de 6,5% ante o ano passado, a produção esperada será a segunda maior da história do País, e só perde para 2008, de 145,9 milhões toneladas.

07/04/2009 - 09:31h Valor da terra surpreende e volta a subir

agrofolha

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Com alta da soja e maior interesse de investidor estrangeiro, preço médio do hectare no país bate novo recorde nominal

Cotação chega a R$ 4.373; desvalorização do real dá competitividade a produtos de exportação e contribui para recuperar mercados

GITÂNIO FORTES – FOLHA SP

DA REDAÇÃO

Nada de crise no preço das terras. A valorização das commodities neste começo de ano e a retomada do interesse de investidores internacionais, que voltaram a prospectar negócios, repercutiram favoravelmente no mercado. A média nacional do preço do hectare, que ensaiou retração na virada de 2008 para 2009, surpreendeu com registro de alta.
De acordo com o mais recente Relatório de Terras, divulgado bimestralmente pela consultoria AgraFNP há mais de três anos, o preço médio do hectare no país alcançou o recorde nominal de R$ 4.373.
No último bimestre do ano passado, a cotação era de R$ 4.330, menor que os R$ 4.341 de setembro/outubro.
Jacqueline Bierhals, gerente da AgraFNP, aponta a volta do investidor estrangeiro, que se retraiu no fim de 2008, como um dos principais fatores para a valorização. Segundo ela, no começo deste ano, comitivas de empresários chineses, americanos, alemães e holandeses visitaram as principais regiões produtoras de grãos do país.
Não há registro de que negócios tenham sido fechados -até pela época, de proximidade da colheita da safra de verão. Os agricultores se concentram na produção e deixam para depois o investimento em novas áreas ou a análise de propostas pelas suas propriedades.
Ainda de acordo com a AgraFNP, a recuperação dos preços agrícolas devolveu vigor ao mercado de terras.
A valorização da soja na Bolsa de Chicago no primeiro bimestre, em relação aos dois meses anteriores foi de 1,95%. No mercado interno, chegou a 7,45%, afirma Bierhals.

Novo patamar
A diferença se explica pela mudança de patamar do real ante o dólar desde setembro do ano passado, com o agravamento da crise financeira.
Para quem conseguiu escapar dos problemas climáticos -também eles um dos motivos para que os preços agrícolas se recuperem- e manter a produtividade, cada saca de produto exportado agora propicia obter mais reais que antes.
O dólar atualmente na casa de R$ 2,20 nem se compara às mínimas de 2008, quando ficou abaixo de R$ 1,60.
O presidente da Sociedade Rural Brasileira, Cesário Ramalho, afirma que era de esperar outro comportamento do mercado. A expectativa era a de quedas abruptas no valor do hectare, principalmente pelas restrições de crédito, capazes de inibir o financiamento para a aquisição de novas áreas.
“Mas, com a soja na faixa de R$ 40 a R$ 42, a saca e produtividade de 50 sacas por hectare, é possível obter renda acima do custo de produção”, diz o presidente da Rural. Com isso, tornou-se natural que o preço da terra se sustente.
Ramalho ressalva que a valorização, no entanto, não se dá em todos os lugares.
Perto de Bauru e Marília, no interior paulista, região em que o espaço agrícola se divide entre grãos, cana-de-açúcar, pastagens e reflorestamento, os preços não se mostram tão firmes, afirma ele.
Frederico Fonseca Lopes, sócio da Markestrat, centro de pesquisas de Ribeirão Preto (SP), afirma que no interior paulista há poucos negócios, principalmente em áreas destinadas para a citricultura e a cana-de-açúcar, lavouras que já passaram por períodos de preços mais favoráveis.