21/08/2008 - 10:04h Modelo de pré-sal terá debate amplo, diz Lula

Jarbas Oliveira / Folha Imagem
Presidente Lula, no porto de Pecém:
“Eu tenho dois anos e quatro meses de mandato e a Petrobras e o petróleo, se Deus quiser, terão muitos anos de existência”

 

 

Paulo de Tarso Lyra e Arnaldo Galvão, de Brasília - VALOR

O governo ainda não bateu o martelo sobre a criação de uma nova estatal para administrar as reservas de petróleo da camada pré-sal. Ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que a comissão interministerial criada para tratar do assunto ainda está discutindo o tema e que as propostas chegarão às suas mãos no dia 19 de setembro, quando se encerra o prazo de funcionamento da comissão. “A partir daí, pretendemos fazer um debate com a Petrobras, com os trabalhadores, com o Congresso Nacional, com os empresários, para saber que destino a gente vai dar a essa extraordinária performance do petróleo no Brasil”, disse o presidente após a inauguração do terminal de regaseificação do Porto de Pecém, no Ceará.

Segundo Lula, é importante que a sociedade participe desse debate. “Afinal de contas, eu tenho dois anos e quatro meses de mandato e a Petrobras e o petróleo, se Deus quiser, terão muitos e muitos anos de existência”, disse ele. Lula reiterou que, enquanto o petróleo estiver embaixo da terra, ele é da União. Defendeu que “esse potencial extraordinário do petróleo” deve ser usado para resolver os problemas crônicos do país, como, citou ele, a pobreza e a “falta de investimentos em educação”.

Em conversas reservadas, o presidente diz que o país vive “um novo ciclo do ouro”, numa referência à proliferação das jazidas de extração na década de 80. Por isso, defende que as decisões sobre o assunto sejam tomadas com cautela. O teor do relatório da comissão interministerial deverá definir o ritmo de decisões do presidente. “Se a conclusão for concreta, as coisas ficam mais fáceis. Mas se ela tiver algumas ambigüidades, o presidente poderá demorar um pouco mais para se decidir”, disse ontem um assessor direto de Lula.

A tendência é que o prazo de funcionamento da comissão seja estendido e uma decisão só venha a ser tomada no fim do ano, depois das eleições municipais. Além da criação de uma estatal para cuidar do pré-sal, idéia que começou a tomar força nos últimos dias, o governo estuda, segundo esse assessor presidencial, aumentar sua participação na Petrobras, capitalizando a empresa e diminuindo a participação de sócios minoritários. Dessa maneira, a União reforçaria seu poder sobre a estatal.

O governo, segundo o assessor, teme o surgimento de disputas judiciais, pois alguns lotes da camada pré-sal já foram licitados pela Petrobras, em parceria com outras empresas, e isso poderia gerar dificuldades nos futuros leilões de áreas vizinhas - ainda há dúvidas se a camada pré-sal descoberta é um campo único de petróleo ou se são vários poços dispersos. No primeiro caso, as autoridades terão de estabelecer acordos de “unitização” para evitar que uma empresa explore petróleo da área vizinha.

“Nada disso está claro na cabeça do presidente”, assegurou um aliado governista. Como também não há certezas sobre a criação de um Fundo Soberano para aplicar os recursos obtidos pela extração do petróleo do pré-sal.

Na terça-feira, o ministro das Minas e Energia, Edison Lobão, cogitou a possibilidade de criação de dois fundos - um no exterior e outro para investir em educação e saúde. “É mais uma criatividade do Lobão”, brincou um assessor do governo. A proposta de fundo soberano que tramita no Congresso, lembrou um governista, se diferencia de outros modelos estrangeiros por funcionar como um mecanismo anticíclico. “Foi pensado dessa maneira justamente para não nos tornarmos escravos do petróleo”, completou um petista.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, revelou ontem que, por determinação do presidente Lula, o que for arrecadado com as exportações de petróleo da camada pré-sal será investido em benefício de toda a população brasileira, principalmente nos objetivos de desenvolvimento de longo prazo.

“Uma coisa é certa: essa riqueza do pré-sal não será utilizada em benefício de empresa A, B ou C, mesmo que seja estatal. Será em benefício da população brasileira e isso o presidente Lula garante. De toda essa riqueza imensa, centenas de bilhões de dólares, parte será destinada para a educação, saúde, diminuição da dívida, aumento das reservas, tudo em prol do desenvolvimento do país no longo prazo”, comentou Mantega, depois de reunir-se com o presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP).

Na avaliação de Mantega, o Brasil vai aproveitar experiências de outros países exportadores de petróleo e evitar o que se chama de “doença holandesa”. Isso ocorre quando um país é grande produtor e exportador de uma commodity, como o petróleo, e por causa disso atrai fluxos de capitais que acabam valorizando a moeda local e tirando a competitividade das outras indústrias. Com o tempo, esses países deixam de ter indústria e se tornam inteiramente dependentes das receitas daquela commodity.

Se o Brasil tiver acesso a toda essa riqueza, o ministro afirmou que deixará de ser auto-suficiente para ser grande produtor mundial de petróleo, aumentando suas exportações. “Não vamos trazer todos os dólares que obteremos com esse petróleo para não criar uma inflação muito forte ou uma valorização excessiva da moeda brasileira, o que não é desejável. A doença holandesa ocorre quando um país vive só de petróleo e esses recursos desestimulam outras atividades. Não permitiremos isso”, disse.

Mantega pediu ontem a Chinaglia empenho nas votações da proposta de criação do fundo soberano, que, na prática, aumenta o superávit primário de 3,8% para 4,3% do PIB. Se o projeto de lei, com pedido de urgência urgentíssima, não for apreciado pelos deputados até 2 de setembro, trancará a pauta. O ministro da Fazenda ressaltou que, sem a aprovação, os recursos economizados terão de ser usados para o pagamento de juros da dívida pública. (Com agências noticiosas).

20/08/2008 - 09:45h Modelo da Noruega para exploração do petróleo ganha força no Planalto

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Estatal norueguesa não-operacional é sócia das empresas que exploram poços; dinheiro vai para fundo previdenciário

Lu Aiko Otta e Leonardo Goy - O Estado de São Paulo

O modelo norueguês vem ganhando cada vez mais força nas discussões do governo sobre o novo marco regulatório para o setor petrolífero brasileiro. Ontem, o grupo de ministros encarregado de elaborar as novas regras para a exploração do petróleo no chamado pré-sal (uma reserva que se encontra a 7 mil metros de profundidade, numa faixa litorânea que se estende de Santa Catarina até o Espírito Santo) examinou modelos adotados por 12 países produtores de petróleo. “A pedido da comissão, foi detalhado mais o modelo da Noruega”, disse ao Estado um participante da reunião.

Os noruegueses criaram uma empresa 100% estatal chamada Petoro, que tem 60 funcionários. Ela não explora diretamente o petróleo, como faz a Petrobrás, mas entra como sócia de empresas que operam os poços. Os ganhos da Petoro serão gastos majoritariamente para garantir benefícios previdenciários das futuras gerações.

A Petoro envia tudo o que ganha para um fundo de pensão, que atua como se fosse um fundo soberano. O dinheiro é investido no exterior, na compra de ações e bônus. Apenas os dividendos são gastos. Somente 4% do dinheiro do fundo pode ser usado na economia interna a cada ano. No ano passado, os ativos do fundo somavam US$ 396,5 bilhões.

Apesar da simpatia pelo modelo norueguês, não está certo que o Brasil vá copiá-lo. “Estamos apenas estudando, não estamos dizendo que vamos aplicar o modelo”, disse o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, após a reunião do grupo interministerial. Ele acrescentou que serão necessárias mais seis ou oito reuniões para que os ministros cheguem a uma proposta. Um novo encontro será feito ainda esta semana.

“A reunião foi meramente informativa, não houve decisão”, disse o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge. Ele contou que foi apresentada uma comparação entre os fundos soberanos criados por vários países produtores de commodities, como o petróleo.

O estudo foi apresentado pelo secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. “Todos eles são jabuticabas”, comentou Miguel Jorge, citando Barbosa. “Um é diferente do outro, porque houve razões diferentes para a criação desses fundos.” É provável, portanto, que o Brasil produza sua jabuticaba a partir dos modelos estudados. Lobão observou que todos os países estudados aplicam os recursos do petróleo no exterior.

Questionado se isso tornaria inviável a idéia do presidente Lula de utilizar os recursos do pré-sal para investir em educação, ele comentou: “Se a decisão for essa, pode-se perfeitamente conciliar uma coisa com a outra, reservando-se uma parte dos recursos para investimentos em educação e saúde e a outra parte para a formação do fundo soberano no exterior”.

Para Lobão, o fundo soberano garante “absoluta segurança econômica” dos países, pois esses poderão sacar recursos do exterior sempre que houver necessidade. As receitas do petróleo também permitem aos produtores eliminar o déficit nas contas externas. Além da exposição sobre os modelos internacionais de gestão, os ministros tiveram uma explicação sobre a extensão do pré-sal.

COLABOROU RENATA VERÍSSIMO

19/08/2008 - 12:41h Inflação para baixo com queda do preço dos alimentos

Inflação desacelera em seis capitais e sobe apenas em BH

 

Apresentaram desaceleração de preços: São Paulo; Brasília; Porto Alegre; Recife; Rio de Janeiro e Salvador

 

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Alessandra Saraiva, da Agência Estado

RIO - A inflação no varejo, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor - Semanal (IPC-S), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), apresentou elevação menos intensa de preços em seis das sete cidades pesquisadas para cálculo do índice. A única cidade a apresentar aceleração de preços, na passagem da primeira para a segunda leitura do indicador no mês, foi Belo Horizonte (de 0,43% para 0,60%).

Veja também:

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Segundo a entidade, os preços na cidade de São Paulo perderam força, no âmbito do IPC-S. A inflação na capital paulista subiu 0,36% no índice apurado até a sexta-feira da semana passada (dia 15), em comparação com a alta de 0,51% apurada na leitura anterior do IPC-S, de até 7 de agosto.Além de São Paulo, outras cinco cidades apresentaram elevação de preços menos intensa, no mesmo período. É o caso de Brasília (de 0,47% para 0,4%); Porto Alegre (de 0,65% para 0,23%); Recife (de 0,38% para 0,32%); Rio de Janeiro (de 0,2% para 0,15%); e Salvador (de 0,65% para 0,52%).Embora todas as cidades contribuíam para a formação do IPC-S, a inflação na cidade de São Paulo é a de maior peso no cálculo do índice. Ontem, a FGV informou que a segunda prévia de agosto do indicador também mostrou desaceleração, de 0,44% para 0,34%, na passagem da primeira para a segunda leitura deste mês.

Alimentos em queda

Um dos principais motivos para a desaceleração da inflação é a queda do preço dos alimentos. Estes preços estão caindo há algumas semanas e este movimento é explicado pela forte queda do preço das commodities no exterior. O fato é que o preço de alguns produtos subiram muito com a expectativa de demanda maior e como ativos para especulação financeira. Esta tendência de alta foi revertida nos últimos dias e o preço dos alimentos despencaram no exterior. Além disso, a queda do preço do petróleo contribui para a queda das cotações agrícolas, pois reduz o custo com transportes.

 

Para se ter uma idéia, os preços dos alimentos na capital paulista chegaram a atingir deflação de 0,02% no IPC-S de até 15 de agosto, após ter registrado alta de 0,50% no índice de até 7 de agosto. Segundo o economista, da FGV, André Braz, entre os destaques de quedas e desacelerações de preços no setor de alimentos estão as movimentações de preços em carnes bovinas (de 0,83% para -0,77%); hortaliças e legumes (de -3,05% para -4,55%) e arroz e feijão (de 0,54% para -0,36%).

Mas Braz comentou que, no caso de São Paulo, não é possível classificar como “generalizada” as taxas de inflação menos intensas no setor de alimentos. “Foram registradas várias quedas e desacelerações sim, em itens importantes. Mas ainda há alimentos subindo de preço”, disse. Segundo ele, na capital paulista, entre os exemplos de alimentos com preços em alta, estão as variações de preços em frutas (de 1,52% para 2,89%); e adoçantes (de -0,57% para 0,03%).

No Rio de Janeiro, segunda capital de maior peso no cálculo do IPC-S, perdendo apenas para São Paulo, também houve elevação de preços menos intensa (de 0,20% para 0,15%). “O Rio de Janeiro registrou a menor taxa de inflação entre as sete cidades pesquisadas”, disse. Ele explicou que a deflação nos preços dos alimentos na capital fluminense se intensificou (de -0,24% para -0,64%) principalmente porque houve uma grande queda de nos preços dos itens in natura, como hortaliças e legumes (de -4,5% para -8,22%).

Perspectivas

Em agosto, os preços dos alimentos devem continuar caindo ou subindo menos, contribuindo para taxas reduzidas do IPC-S nas capitais. “Mas não há como saber o que vai acontecer em setembro”, disse, explicando que ainda é muito cedo para antecipar o comportamento nos preços dos alimentos no próximo mês.

08/08/2008 - 18:36h “A pobreza e a desigualdade também diminuíram no Brasil, resultado das sólidas políticas sociais”, declara o FMI

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Brasil está em posição mais sólida para enfrentar choques externos, diz FMI

 

da Folha Online

A posição do Brasil para enfrentar choques na conjuntura externa está mais sólida que no passado, informou nesta sexta-feira o FMI (Fundo Monetário Internacional).

Segundo o Fundo, o Brasil registrou nos últimos anos “crescimento vigoroso com baixa inflação”, devido às políticas macroeconômicas adotadas no período e um cenário favorável na economia internacional. A solidez a posição brasileira também foi “reconhecida recentemente com a reclassificação do risco soberano do país como grau de investimento”, diz o comunicado do Fundo.

“[O FMI] exaltou o retrospecto altamente positivo do governo brasileiro na condução da política econômica, um fator que, aliado às condições externas extremamente favoráveis nos últimos anos, deu grande impulso ao desempenho econômico do Brasil e aumentou a resistência do país a choques externos adversos”, diz o comunicado do Fundo. “O Brasil encontra-se hoje numa posição muito mais sólida do que no passado para enfrentar a deterioração da conjuntura externa.”

O Brasil recebeu no fim de abril deste ano da agência de classificação de risco Standard & Poor’s a nota “BBB-”, que já garante ao país o grau de investimento. Antes, a nota do Brasil era “BB+”. Já no fim de maio, a agência Fitch Ratings elevou a nota do Brasil de “BB+” para “BBB-”, também colocando o país no grau de investimento. O rating é uma avaliação, feita por empresas especializadas, sobre a capacidade de um país ou uma empresa saldar seus compromissos financeiros.

O FMI destacou o crescimento “próximo dos 6%” nos últimos trimestres, impulsionado pela “intensa” demanda interna. “A pobreza e a desigualdade também diminuíram, resultado das sólidas políticas sociais”, avaliou o Fundo. “Além disso, um dos pilares da política macroeconômica do governo tem sido a ênfase das autoridades no crescimento mais elevado e sustentável, com o respaldo do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento].”

Inflação

Apesar da avaliação positiva, o Fundo citou a situação da inflação no país: nos 12 meses até junho de 2008 os preços no país subiram 6,1% –reflexo da alta dos preços dos alimentos e também à expansão da demanda interna. “O impacto inicial da alta dos alimentos já começa a se espalhar para outros bens e serviços; o núcleo da inflação subiu de 3,4% há um ano para 5,4% em junho”, destacou o fundo.

Hoje o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) informou que o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) desacelerou para 0,53% em julho, com a pressão menor dos alimentos. Em junho, o índice teve alta de 0,74%. O índice divulgado hoje foi o menor desde novembro de 2007 (0,38%).

Nos últimos 12 meses, o IPCA acumula alta de 6,37%, acima dos 6,06% identificados nos 12 meses imediatamente anteriores, aproximando-se ainda mais do teto superior à meta, de 6,50% estipulado pelo Banco Central. O IPCA é o índice de preços utilizado pelo governo para o regime de metas de inflação. A meta para este ano e o próximo é 4,5%, com tolerância de dois pontos percentuais.

No mês passado, o Copom (Comitê de Política Monetária) do BC elevou em 0,75 ponto percentual sua taxa básica de juros –a Selic, que passou de 12,25% para 13% ao ano.

O Fundo também apontou a deterioração na situação das contas externas, que apresentaram “saldo negativo pela primeira vez desde 2002″. “O volume de importações continuou a crescer acima de 10% enquanto as exportações cresceram de forma mais lenta e as remessas para o exterior subiram, em parte como conseqüência do aumento do investimento estrangeiro direto nos últimos anos”, informou o FMI.

“A entrada líquida de capital totalizou quase 7% do PIB em 2007, com um nível recorde US$ 35 bilhões (cerca de 3% do PIB) em investimento estrangeiro direto. A valorização do real em termos efetivos reais foi de 16,5% em 2007, sobretudo como reflexo do desempenho macroeconômico vigoroso do país no contexto das relações de troca favoráveis. As reservas internacionais cresceram US$ 95 bilhões em 2007, totalizando US$ 201 bilhões no fim do primeiro semestre.”

Contenção

O Fundo avaliou que o Brasil deve conter o crescimento da demanda interna, “pois as pressões inflacionárias vão além do que seria apenas efeito dos choques mundiais nos preços das commodities, e o saldo das contas externas apresentou uma rápida reversão de superávit para déficit”.

Para o FMI, “um aperto das finanças públicas contribuiria para o ajuste e ajudaria a aliviar a pressão sobre a política monetária”. “Por este motivo, consideraram acertada a decisão das autoridades de adotar uma meta de superávit primário mais elevada em 2008, considerando que a contenção do crescimento dos gastos públicos –desde que se proteja o gasto em áreas prioritárias– seria essencial para reequilibrar as políticas macroeconômicas.”

Superávit primário do setor público consolidado é o quanto de receita o governo federal, os Estados, os municípios e as empresas estatais conseguem economizar, após o pagamento de suas despesas, sem considerar os gastos com os juros da dívida. Hoje, a meta de superávit primário para o ano é de 3,8% do PIB, mais uma economia de R$ 14,2 bilhões (0,5% do PIB) para fazer uma poupança para momentos de crise. Nos últimos 12 meses, o governo fez um superávit de R$ 116 bilhões (4,27% do PIB).

Fundo soberano

O FMI avaliou que é preciso estudar com cuidado o formato e a finalidade do fundo soberano do Brasil e não utilizar os recursos desse fundo de tal forma a não aumentar direta ou indiretamente as pressões sobre a demanda interna.

“Também considerou-se que a transparência das operações do fundo é essencial para manter a confiança na política macroeconômica, inclusive na área de operações cambiais, que deveria ser coordenada cuidadosamente com o Banco Central”, diz o comunicado. “Os recursos disponíveis seriam melhor empregados na redução do ainda elevado nível de endividamento público do país.”

25/07/2008 - 16:45h Krugman defende ação do BC no Brasil

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O economista
Paul Krugman,
que vê Brasil
líder dos emergentes

FOLHA SP - DA REPORTAGEM LOCAL

FOTO Moacyr Lopes Jr -

23.jul.08/Folha Imagem


DENYSE GODOY - FOLHA SP

Não, não vai ser a China. O papel de grande líder das nações emergentes caberá ao Brasil, na avaliação do economista americano Paul Krugman, 55, embora a economia brasileira esteja crescendo menos do que poderia, segundo ele. As deficiências do Brasil, porém, impedem um crescimento maior sem inflação agora. “Não se pode ter uma política que leve o crescimento a um ritmo superior ao seu potencial”, disse. Por isso o economista apóia a elevação dos juros pelo BC.

A seguir, trechos da entrevista que concedeu ontem à Folha, por telefone, do Rio. Ele esteve no Brasil por dois dias participando de seminários.

FOLHA - Qual é a sua análise da atuação dos bancos centrais dos emergentes, como o brasileiro, que acaba de elevar os juros?

PAUL KRUGMAN - Eu diria que faz sentido, mas não posso julgar se o tamanho e o ritmo do aumento de juros estão certos.
Nos países avançados, o problema é a deflação e uma ameaça de colapso no mercado financeiro. Na maior parte do mundo emergente, as pressões são inflacionárias.

FOLHA - Aumentar os juros é a melhor alternativa no caso de uma inflação causada primeiramente pela alta dos preços das commodities?

KRUGMAN - A minha avaliação é de que, nos EUA, não é desejável usar a política monetária para lutar contra a inflação de commodities. No Brasil, muito do que está acontecendo é explicado pelos alimentos, mas não tudo. Olhando para os EUA, temos um mercado de trabalho muito fraco. No Brasil, é o contrário.

FOLHA - É possível combater a inflação sem desistir totalmente de crescer?

KRUGMAN - Sim. Entretanto, se os indicadores dizem que o país está crescendo acima do potencial, é preciso fazer alguma coisa para segurar a inflação. Não tenho provas convincentes de que o Brasil possui uma taxa de crescimento potencial de mais de 5% [ao ano]. Não se pode ter uma política que leve o crescimento a um ritmo superior ao seu potencial.

FOLHA - Como vê o novo cenário mundial, em que EUA e Europa continuam sendo as economias mais importantes, porém surgem novos grandes atores, como China e Índia?

KRUGMAN - Ninguém sabe realmente como esse novo mundo vai se desenvolver, se será preciso um poder hegemônico ou não. Esperamos que não, porque não temos um.

FOLHA - E qual é o papel do Brasil nesse mundo?

KRUGMAN - O Brasil está em uma posição bastante interessante porque é o maior país em desenvolvimento que não é a China nem a Índia. A China e a Índia têm as suas especificidades, e é difícil colocar qualquer uma delas no papel de líder para os outros emergentes, porque, de certa forma, elas são grandes demais para fazer parte de alianças. Então, é o Brasil que está rumando para a função de líder dos emergentes.

FOLHA - Nas comparações com o crescimento da Índia e da China, o Brasil fica em desvantagem. O senhor está dizendo, então, que essa comparação não é justa?

KRUGMAN - Apesar de tudo, o Brasil é um país muito mais rico. Não é razoável esperar que o Brasil cresça tão rápido como a China. A China partiu de uma pobreza tão grande que um mínimo de modernidade é um avanço notável. Comparar com o crescimento da China é injusto, mas o Brasil está crescendo menos do que poderia.

FOLHA - A que se deve isso?

KRUGMAN - As explicações usuais dizem respeito à educação, que não é boa como deveria ser. Nos países asiáticos de elevado crescimento, a educação é surpreendentemente melhor do que se esperaria, mesmo o país tendo muita pobreza. Se esse é o motivo? Não sei.

FOLHA - Os EUA já se encontram mergulhados em uma recessão?

KRUGMAN - A definição oficial de recessão nos EUA é dada por um comitê. Não temos uma definição formal, então fica difícil. Independentemente da palavra, a situação que temos claramente nos últimos seis meses é a economia crescendo, mas devagar demais. A questão é se o comitê vai decidir chamar isso de recessão, porque a maior parte de nós sente como uma recessão, com certeza.

FOLHA - O presidente George W. Bush e o presidente do Fed (banco central americano), Ben Bernanke, poderiam ter feito alguma coisa diferente para evitar que a situação chegasse ao ponto em que está?

KRUGMAN - O melhor teria sido tomar uma posição [quanto às operações com hipotecas de alto risco] entre o final de 2004 e o começo de 2005. Se o Fed tivesse começado a cortar os juros no começo de 2007, talvez pudesse ter evitado isso tudo. A redução da taxa só veio em agosto de 2007, pois antes não estava óbvio para todo mundo que havia um problema. No entanto, acho que Bernanke tem o crédito de estar agindo com a agressividade que um banco central nunca teve.

FOLHA - Quais são os principais desafios para o próximo presidente?

KRUGMAN - Ele vai ter que mostrar trabalho imediatamente. Em um ano os resultados precisam aparecer, senão terá que assumir a recessão como sua.
Ademais, será necessário fazer a reforma do sistema de saúde.

FOLHA - Em termos de projetos, dá para saber para qual direção Barack Obama e John McCain (candidatos à Presidência dos EUA) estão caminhando?

KRUGMAN - McCain quer fazer o que Bush fez, só que melhor, e isso é o máximo que é possível dizer. Sobre Obama, não sabemos ainda. Ele claramente é um democrata liberal, mas não sabemos se é um reformador modesto ou se é alguém que vai realizar grandes mudanças.

FOLHA - Alguma esperança em relação a ele?

KRUGMAN - Eu tenho esperança. Se bem que, falando de Obama, não se pode usar a palavra “esperança” [risos]. Sempre que uso o termo “esperança” na minha coluna. recebo dezenas de cartas perguntando se estou tirando sarro de Obama [o candidato utiliza a palavra nos seus slogans]. Estou preocupado, acho que ele tem uma tendência de ser cauteloso demais, de correr para o que as pessoas chamam de centro. Espero que se mostre mais determinado.

FOLHA - Para os que reclamam do protecionismo dos EUA, quem, entre Obama e Mccain, seria mais liberal em termos de comércio?

KRUGMAN - Nenhum dos dois.
Não vamos ter novamente um grande apoio dos EUA à globalização. Mas provavelmente também não teremos um período de grande protecionismo.
É provável que McCain seja mais protecionista. Para Obama, se existem acordos [multilaterais], os EUA devem obedecer a eles, enquanto McCain pode dizer que os tratados existem mas o país mudou de idéia.

FOLHA - Algum dos dois poderia ser mais simpático ao álcool de cana-de-açúcar, considerando que o biocombustível de milho não parece ser uma boa idéia e o preço do petróleo está nas alturas?

KRUGMAN - Os 5% da população dos EUA a quem interessa que o país mantenha essas medidas malucas [de incentivo ao álcool de milho] são os que têm poder de decisão política. A resposta é não, nada vai acontecer.

24/07/2008 - 09:19h Contribuição ao debate sobre inflação e juros

Dez razões para não aumentar a taxa de juros no Brasil

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* João Saboia - VALOR

A partir do recrudescimento da inflação no mundo (e no Brasil), o Banco Central (BC) iniciou há alguns meses um processo de aumento das taxas de juros no país, cujo objetivo final é o combate à inflação. A taxa básica de juros da economia - a famosa Selic (sigla do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia) - deverá continuar aumentando nos próximos meses até que o BC se convença que a inflação voltou para níveis compatíveis com as metas oficiais de inflação.

Diversos economistas têm se manifestado na mídia sobre os rumos da atual política monetária BC. Não são poucos aqueles que têm alertado que, na atual situação mundial, há um grande risco deste tipo de atuação demorar para produzir os efeitos desejados, levando o BC a aprofundar o processo de elevação dos juros por um longo período, representando um grande custo para a sociedade e para a economia.

O principal argumento utilizado pelos críticos é a especificidade do processo inflacionário atual, que está longe de ser uma inflação de demanda, onde as taxas de juros podem atuar diretamente sobre sua causa principal. No caso de choques de oferta, como o atual, a situação é distinta e o efeito de um aumento das taxas de juros é bastante questionável, podendo levar a economia para a chamada estagflação - manutenção de alta inflação com baixo crescimento econômico.

Apresentamos a seguir 10 razões para não aumentar ainda mais a taxa básica de juros da economia:

1) A taxa básica de juros no país já está entre as mais elevadas do mundo em termos reais. Seu aumento nominal nos próximos meses deverá elevar ainda mais a taxa real, levando o Brasil ao primeiro lugar com folga;

2) O Brasil tem apresentado crescimento econômico bem menor que os demais países emergentes nos últimos anos. O aumento da taxa de juros provavelmente aumentará a distância em relação a tais países no futuro. A comparação com o grupo de países do BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) é inevitável e francamente desfavorável ao Brasil;

3) O crescimento da taxa de juros atrai capitais especulativos e pressiona a taxa de câmbio para cima, favorecendo as importações e prejudicando as exportações, com reflexos negativos sobre a conta corrente do país. Depois de alguns anos superavitária, a conta corrente vem se deteriorando desde o ano passado e poderá piorar ainda mais com uma nova valorização do real;

O aumento dos juros significa uma redistribuição de renda da sociedade como um todo para os que podem aplicar seus recursos em títulos da dívida

4) Como já apontado no início do artigo, o aumento recente da inflação no Brasil não se deve a uma forte pressão de demanda interna, mas principalmente ao crescimento dos preços internacionais das commodities (petróleo, trigo, soja etc), sobre os quais a taxa de juros brasileiras não tem qualquer influência. Trata-se, portanto, de uma inflação provocada basicamente por um choque de oferta importado. O mais provável é que, em algum momento no futuro próximo, o choque de oferta diminua, ou mesmo seja eliminado, trazendo conseqüências favoráveis para a inflação brasileira e mundial. Tal tipo de experiência já ocorreu no passado, como nos choques de preço do petróleo dos anos 70 e 80. Caso o choque de oferta diminua de intensidade nos próximos meses, já em 2009 a taxa de inflação brasileira poderia convergir para a meta sem necessidade de aumento dos juros;

5) A inflação brasileira está ligeiramente acima do limite superior da meta oficial de 6,5%. Tendo em vista a atual conjuntura internacional, o BC poderia ter maior tolerância e aceitar que o limite superior seja temporariamente superado, como já ocorrido no triênio 2001/03. Em 2003, por exemplo, a meta foi inclusive ajustada para cima para dar conta da situação específica daquele ano. A situação atual também é especial e deve ser tratada como tal;

6) A inflação brasileira está bem mais baixa que em outros países emergentes como África do Sul, Chile, China e Rússia, entre outros. Vários países já estão bem acima de suas metas de inflação, enquanto o Brasil continua caminhando para superá-la relativamente pouco. Em outras palavras, a situação brasileira em termos de inflação é favorável em comparação com o que ocorre no resto do mundo;

7) O custo da rolagem da dívida pública (pagamento de juros) tem flutuado em torno de 7 a 8% do PIB nos últimos anos, o que representa um desperdício enorme de recursos públicos que poderiam ser aplicados para outros destinos sociais ou econômicos mais nobres. O aumento da taxa básica de juros significa uma redistribuição de renda da sociedade como um todo para aqueles que podem aplicar seus recursos em títulos da dívida pública;

8) Com os gastos anuais com o pagamento dos juros da dívida pública, seria possível cobrir os gastos de mais de 10 programas Bolsa-Família. Cada ponto percentual a mais na taxa básica de juros representa aproximadamente o valor de um novo programa Bolsa-Família, o que dá a dimensão dos gastos com pagamento de juros da dívida pública. Em vez de aumentá-los ainda mais, seria desejável reduzi-los para níveis semelhantes aos praticados nos demais países;

9) Se o Banco Central está preocupado em combater a inflação via redução do consumo seria mais criativo se tomasse medidas voltadas para o crédito, como a redução do número máximo de parcelas no crediário, ou o contingenciamento do crédito, fixando volumes máximos que os bancos poderiam emprestar. É claro que haveria reação do sistema bancário, mas os resultados sobre o consumo seriam muito mais fortes do que a partir de mecanismos indiretos como o aumento da taxa básica. Além disso, seu custo para a sociedade seria muito menor;

10) Finalmente, é bem provável que o aumento da taxa básica de juros da economia que será implementado pelo BC nos próximos meses resulte num processo de expectativas desfavoráveis para os agentes (produtores e consumidores), provocando a desaceleração do crescimento e adiando, mais uma vez, a retomada definitiva da economia brasileira.

João Saboia é diretor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

24/07/2008 - 09:10h Crise será longa, mas sem colapso

Paul KrugmanA imagem “http://www.valoronline.com.br/images/edicoes/ed_0002056/imagens/foto_24pri-capa-a1.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

A atual crise financeira dos Estados Unidos e da Europa não deve levar a um colapso na economia global, mas o mundo pode se preparar para alguns anos de desaceleração no ritmo de crescimento. O professor Paul Krugman, da Universidade de Princeton, considera que a ação agressiva e pró-ativa dos bancos centrais foi providencial e deve evitar uma catástrofe econômica semelhante à registrada nos anos 30. Essa avaliação é compartilhada por analistas brasileiros como o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho. Os três economistas participaram ontem, em São Paulo, do Fórum CPFL Energia, evento que contou com o apoio do Valor e teve como tema “Crise Financeira Internacional e Crescimento da Economia Brasileira”.

Sobre o Brasil, a opinião dominante é de que o novo cenário internacional traz pressões inflacionárias e alguma desaceleração da atividade econômica, mas não a ponto de causar transtornos mais sérios. Krugman lembra que, no meio da crise, o país tem se beneficiado da alta dos preços das commodities, por ser um grande exportador de produtos primários. Com a perspectiva de alguma queda das commodities, ele acha possível que haja uma desvalorização do câmbio.


Luciano Coutinho, residente do BNDES e  Luiz Gonzaga Belluzzo, Pres. do conselho da TV Brasil

Horizonte de incertezas


Por Sergio Lamucci e Cristiane Perini Lucchesi - VALOR

A crise financeira dos Estados Unidos e da Europa que se seguiu ao estouro da bolha imobiliária americana não deve levar a um colapso na economia global, mas o mundo pode se preparar para alguns anos de desaceleração no ritmo de crescimento. Esse é o diagnóstico feito pelo professor Paul Krugman, da Universidade de Princeton, para quem a ação agressiva e pró-ativa dos bancos centrais - como o Federal Reserve, dos Estados Unidos, o Banco da Inglaterra e, em menor grau, o Banco Central Europeu - foi providencial e deve evitar uma catástrofe econômica semelhante à registrada nos anos 30. A avaliação de que os efeitos da crise não serão muito agudos, porém prolongados, é compartilhada por analistas brasileiros como o professor Luiz Gonzaga Belluzzo, da Unicamp, e o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho.

Quanto ao Brasil, a opinião dominante é de que o novo cenário internacional traz pressões inflacionárias e alguma desaceleração da atividade econômica, mas não a ponto de causar transtornos mais sérios. No meio da crise, o país tem se beneficiado da alta dos preços das commodities, por ser um grande exportador de produtos primários, como nota Krugman. O economista americano participou ontem do Fórum CPFL Energia, realizado em São Paulo. O evento, que contou com o apoio do Valor, teve como tema “Crise Financeira Internacional e Crescimento da Economia Brasileira”.

Ao comentar as origens da crise americana atual, Krugman destacou uma mudança na economia global que teve início depois da crise asiática de 1997. Após a turbulência que acometeu a região naquele ano, muitos países asiáticos adotaram uma estratégia baseada no atrelamento de suas moedas ao dólar, formal ou informalmente, e na acumulação agressiva de reservas internacionais.

O excedente dos superávits comerciais dos asiáticos passou a ser aplicado principalmente na compra de títulos públicos do Tesouro dos EUA. Esse arranjo, pelo qual os países da Ásia passaram a financiar os déficits americanos, ficou conhecido como Bretton Woods II, definição cunhada pelos economistas Michael Dooley, David Folkerts-Landau e Peter Garber. As conferências de Bretton Woods aconteceram em 1944 e determinaram um sistema de câmbio fixo global, usando como base a paridade entre o dólar e o ouro. Esse sistema acabou nos anos 70.

No Bretton Woods II, “países que eram importadores de capital se tornaram exportadores de capital”, disse Krugman. Esse mecanismo ajudou a financiar as bolhas especulativas na economia americana, diz ele, lembrando que os preços dos imóveis nos EUA cresceram 70%, em termos reais, entre 2000 e 2006.

A bolha então estourou, primeiramente com a crise do subprime (as hipotecas de alto risco), que atingiu os mercados internacionais a partir de meados do ano passado. “De agosto de 2007 para cá, nós já tivemos quatro ondas sucessivas da crise. A mais recente foi a da Fannie Mae e da Freddie Mac”, apontou Krugman, em referência às dificuldades enfrentadas pelas gigantes do financiamento imobiliário americano.

Dado o tamanho do problema, seria factível pensar num cenário parecido com o colapso financeiro dos anos 30, disse ele. A grande diferença é que os bancos centrais agiram agressivamente para evitar o pior. Com essa atuação, Krugman acredita que um colapso financeiro como o ocorrido nos anos 30 é muito pouco provável, embora não completamente implausível. “Mas, há seis meses eu tinha mais dúvidas sobre isso”, afirmou ele. Krugman não negou a existência do chamado “risco moral” - moral hazard -, de bancos não-regulamentados receberem garantias governamentais iguais aos regulamentados. “Há o risco de estarem jogando com o dinheiro público”, afirmou. Atuação das autoridades monetárias não deve impedir, também, que os EUA cresçam alguns anos abaixo do seu potencial, advertiu Krugman, que vê o seu país em recessão. “O crescimento só não tem sido mais baixo por causa do dólar fraco, que tem feito aumentar as exportações.”

Belluzzo concordou com a avaliação de Krugman, apostando que a crise não “será aguda, mas será prolongada”. Para Belluzzo, já está em curso um “credit crunch”, ou seja, uma violenta contração do crédito. “Isso gera problemas graves para a economia real”, afirmou ele, para quem também é provável que a economia americana cresça algum tempo abaixo do potencial. Coutinho, por sua vez, enfatizou que os problemas financeiros nos EUA deverão demorar bastante para ser digeridos. Quem previu em maio o fim da crise mostrou-se totalmente precipitado, observou ele.

Krugman considera crucial o papel do câmbio desvalorizado nos EUA para explicar os efeitos globais da atual crise, num mundo em que países importantes como a China tem suas moedas em alguma medida atrelada ao dólar. Além do aumento dos preços das commodities em dólar, Krugman disse que, dado o arranjo de Bretton Woods II, os “EUA estão de fato exportando inflação para o mundo”, com o dólar fraco e os juros baixos. Nos Estados Unidos, que enfrentam uma crise financeira e uma desaceleração da atividade econômica, essa combinação não é inflacionária nem expansionista. Nos países que de algum modo atrelam sua moeda à divisa americana, a situação é diferente, como por exemplo na China.

Ele lembrou que os cortes de juros do Fed têm afetado o crédito imobiliário americano, que continua com alta de taxas para o cliente final. No entanto, tem promovido uma aceleração forte de crescimento nas economias dos países emergentes. Para ele, a economia da China está superaquecida e será necessário desacelerar o ritmo de crescimento. Uma das estratégias para combater a inflação nesses países será por meio da valorização de suas moedas, acredita Krugman. Com isso, a China, um dos principais motores da economia global nos últimos anos, deverá crescer a um ritmo um pouco menor daqui para frente, o que, segundo ele, poderá levar a alguma queda dos preços de commodities, mas não a um tombo abrupto. Esse crescimento menor na China, na sua visão, não é positivo para o Brasil, que pode ter seu ritmo de expansão econômica reduzido.

Krugman foi cuidadoso ao falar do impacto da crise ao Brasil. Disse que a situação é mais complicada de se analisar, porque o país não faz parte do Bretton Woods II, tendo em seu lugar um câmbio flutuante que já se valorizou bastante em termos reais nos últimos anos. Com a perspectiva de alguma queda das commodities, ele acha possível que haja uma desvalorização do câmbio. Quanto à orientação das políticas no Brasil, disse que poderia afirmar que “elas não são obviamente estúpidas”.

Também presente no evento, o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros discordou da avaliação de Krugman sobre o papel da China. Para ele, o economista americano vê o país asiático como um personagem passivo, o que não seria condizente com a importância chinesa para a economia global. Para Mendonça de Barros, a China é, de fato, um dado novo no equilíbrio global, que mudou profundamente o panorama econômico do mundo. “O Brasil, por exemplo, foi um dos principais beneficiários do surgimento da China”, disse ele, referindo-se ao fato de o país asiático demandar fortemente os produtos exportados pelo país.

O ex-ministro avalia ainda que a China terá um papel crucial inclusive para “viabilizar a solução do problema econômico americano”. Mendonça de Barros destacou a importância cada vez maior do consumo na economia chinesa, compensando em parte a desaceleração na economia americana. Mendonça de Barros ressaltou a flexibilidade da economia dos EUA, que sempre mostra uma capacidade de adaptação a situações complicadas. “Eu aprendi que não se deve apostar contra o capitalismo americano, porque você acaba perdendo dinheiro.”

Para Luciano Coutinho, a economia brasileira tem condições favoráveis como nunca no pós-guerra para enfrentar a crise. “O colchão de reservas e a estabilidade e crescimento econômico vão permitir a digestão melhor dos problemas financeiros internacionais”, disse. Para ele, a alta de juros básicos é necessária neste momento e vai promover uma desaceleração “desejável” no crédito no Brasil. Na sua visão, “não há risco de o crédito desabar, ter uma parada abrupta”.

20/07/2008 - 11:47h “O Brasil está no lado “ganhador” e esta havendo uma boa administração no geral”

“Estou certo de que já estamos em recessão”

Para economista americano, crise nos EUA pode se agravar. Mas Brasil está no lado ganhador das ‘commodities’

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ENTREVISTA Paul Krugman

Às vésperas de vir ao Brasil — onde dará palestras, no Rio e em São Paulo, quarta e quinta-feira — Paul Krugman vê a economia brasileira como “uma das partes vigorosas do mundo”. Em entrevista por telefone, Krugman não se mostra otimista com os EUA que, na sua opinião, já estão em recessão. Tampouco mostra ânimo com as eleições americanas — aprova o democrata Barack Obama, mas o considera moderado demais. Autor de diversos livros (o mais recente, “The Conscience of a Liberal”, ainda não lançado em português), professor de Princeton e colunista do “New York Times”, Krugman acredita que o mundo vive o terceiro choque do petróleo e alerta que não há muito o que fazer para conter a inflação global

Luciana Rodrigues - O GLOBO

O GLOBO: A crise financeira americana pode se agravar?

PAUL KRUGMAN
: Sim, pode piorar. Mas, agora, estou menos assustado do que estava no início deste ano. Tivemos uma crise que levou a um colapso completo da confiança no sistema. Agora, apesar de algumas falências (de bancos) e da crise na Fannie Mae e na Freddie Mac (grandes companhias hipotecárias dos EUA), os problemas estão ocorrendo numa parte da economia em que há mecanismos muito bem estabelecidos para lidar com isso. Pode haver uma corrida a bancos, mas os depósitos estão assegurados. As duas grandes financiadoras imobiliárias, Fannie e Freddie, são parcialmente patrocinadas pelo governo. Então, é ruim que a crise continue atingindo as instituições. Mas, de certa maneira, o quadro agora é mais controlável. Porém, a economia real continuará sofrendo, e estou certo de que já estamos numa recessão.

Uma recessão nos EUA afetará o mundo da mesma forma do que no passado?

KRUGMAN
: O contágio será menos intenso. Os EUA não são mais o motor da economia mundial. Podemos ter uma recessão nos EUA sem termos uma recessão no resto do mundo. Mas é preciso levar em conta que a economia européia está tendo sérios problemas também. Há uma crise similar na Europa, com bolha imobiliária. Uma crise que afeta as duas principais economias do mundo é um grande choque. Apesar disso, eu ficaria surpreso se houvesse uma recessão global.

Os grandes emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China, chamados de Brics, assumiram novo papel na economia global?

KRUGMAN
: A categoria Brics é estúpida. São todos grandes, todos são economias em desenvolvimento. Além disso, não têm mais nada em comum. Índia e China podem em algum sentido serem agrupadas. Rússia é um grande exportador de petróleo. O Brasil é grande exportador de commodities e de manufaturados. A questão principal é que o centro de gravidade do mundo migrou dos EUA e da Europa. Ambos continuam sendo grandes economias, continuam sendo os principais jogadores em campo, mas grande parte da economia mundial não está mais nos centros industriais tradicionais. A maior parte do crescimento econômico está vindo dos países emergentes.

O senhor vem ao Brasil na próxima semana. Quais são suas impressões sobre a economia brasileira?

KRUGMAN
: No próximo fim de semana (ontem e hoje), farei meu dever de casa pesquisando mais sobre o Brasil. Mas, claramente, é uma das partes vigorosas do mundo, tem ido melhor do que o resto (do mundo). Não tem tido um desempenho espetacular, mas está com um crescimento razoável. O Brasil está no lado “ganhador” da alta das commodities . E também está havendo uma boa administração no geral (na política econômica brasileira).

O governo do presidente George W. Bush pode ser responsabilizado pela crise financeira nos EUA?

KRUGMAN
: Provavelmente, teríamos uma bolha imobiliária de qualquer maneira, com ou sem o governo Bush. Mas eles (o governo Bush) sistematicamente flexibilizaram as regulamentações e mecanismos de precaução que deveriam limitar os bancos a tomarem riscos excessivos, no exato momento em que mais precisávamos dessa regulamentação. Então, o governo Bush não causou a crise, mas a tornou consideravelmente pior.

E a postura de Alan Greenspan à frente do Federal Reserve (Fed, banco central americano)?

KRUGMAN
: Greenspan pode levar grande parte da responsabilidade. Recentemente, o Fed editou novas regras para a concessão de crédito pelos bancos, para restringir financiamentos irresponsáveis. Isso poderia ter sido feito há cinco anos. E Greenspan foi avisado sobre os riscos dos empréstimos subprime (para clientes com histórico ruim), mas não fez nada. Argumentou que o mercado saberia tomar conta de si mesmo. E ainda deu garantias de que as coisas iriam bem. Disse publicamente que os preços de imóveis nunca caem, que as pessoas deveriam pegar empréstimos e fazer hipotecas. Greenspan é mais vilão do que o governo Bush.

Outra grande preocupação é o avanço da inflação mundial. O que explica a alta de preços?

KRUGMAN
: Bom, em primeiro lugar, temos o preço do petróleo, que tem subido basicamente por uma combinação de crescimento dos países emergentes com piores condições geológicas. Está mais difícil prospectar petróleo. E a China e outras economias emergentes estão consumindo muito mais petróleo. Então, temos uma combinação de demanda em expansão e oferta estagnada. No que diz respeito à alta dos alimentos, há várias razões simultâneas. A primeira é que a alta do petróleo tem muito efeito nos alimentos. Principalmente nos países em desenvolvimento, a agroindústria usa muita energia e também há o efeito dos fertilizantes (cujos preços são influenciados pelo petróleo). E há o aumento da demanda de países emergentes, principalmente da China, onde as pessoas estão ganhando mais dinheiro e, por isso, comendo mais carne. E em terceiro lugar, há questões ambientais. Tivemos eventos climáticos sem precedentes, como a seca na Austrália, que muito provavelmente já é efeito da mudança climática.
Estamos começando a ver os primeiros efeitos econômicos do aquecimento global. E, por último, há os biocombustíveis, que, na Europa e nos EUA, definitivamente, estão desviando recursos antes destinados aos alimentos.

O senhor conhece o programa brasileiro de etanol?

KRUGMAN
: Para os preços de alimentos, o etanol brasileiro é inocente. Não há um desvio na produção de alimentos nem de longe parecido com o etanol americano. E a cana-de-açúcar é uma fonte muito mais eficiente para etanol do que o milho (usado nos EUA). Então, em termos econômicos, o programa brasileiro tem muito mais sentido.
Mas as informações que recebi de especialistas em meio ambiente é que o problema com o etanol brasileiro é que ele é mais danoso em termos de emissão de gases poluentes do que parece à primeira vista. Mas eu não endosso essa afirmação, porque não fiz pesquisas independentes a respeito desse assunto.

No que diz respeito à alta do petróleo, podemos dizer que estamos no meio de um terceiro choque do petróleo?

KRUGMAN
: De certa forma sim. Não temos o mesmo impacto (dos choques anteriores).
Mas as cotações do petróleo, em termos reais, atingiram novos patamares.

Nos países pobres, alimentos caros são sinônimo de fome. A fome se tornou um efeito colateral da globalização?

KRUGMAN
: Não se pode atribuir isso à globalização. Eu sou um crítico da globalização por muitos motivos. Mas, nesse caso, havia muito mais famintos entre os anos 50 e 70 (do século passado) do que há hoje. A situação hoje está melhor em termos de segurança alimentar. Mas havia uma crença de que sempre teríamos abundância na oferta mundial de alimentos, e agora vivemos uma escassez para a qual não estávamos preparados.

O que pode ser feito para conter a inflação mundial?

KRUGMAN
: Na verdade, não há muito a ser feito. Poderíamos pensar numa política de juros mais altos para conter a demanda. Mas não está claro porque deveríamos fazer isso, se tudo que temos até agora é um choque de alimentos e de energia. A longo prazo, mais energia alternativa e mais conservação poderiam reduzir a demanda mundial por petróleo. Mas, por agora, acho que teremos que absorver esse choque.

Os americanos elegem um novo presidente este ano. Barack Obama (candidato democrata) ou John McCain (republicano) podem se sair melhor na economia do que George W. Bush?

KRUGMAN
: Bom, é difícil ser pior (do que Bush). McCain não está oferecendo qualquer mudança. E Obama está oferecendo mudanças sustentáveis, numa direção que eu aprovo, mas minhas críticas são que suas propostas não vão longe o suficiente. E, historicamente, na economia, os governos democratas sempre têm melhor desempenho. Então, temos todas as razões para acreditar que Obama oferece uma perspectiva melhor.

Historicamente, os democratas são mais protecionistas em comércio que os republicanos. Há esse risco com Obama?

KRUGMAN
: É pouco provável. É preciso fazer uma distinção entre o que os partidos falam e o que eles fazem. Se pensarmos em quais foram os governos mais protecionistas nos últimos 40 anos, foram Reagan (Ronald Reagan, de 1981 a 1989) e Bush (filho). Eles falavam sobre livre comércio, mas não o praticavam.
Enquanto isso, os democratas constantemente falam em proteger os EUA da economia mundial, mas não agem de forma protecionista. E uma das razões para isso é que os democratas, e especialmente a equipe de Obama, levam muito a sério as regras internacionais, respeitam as organizações e os tratados internacionais. Então, se tivermos um governo Obama, não voltaremos atrás em acordos comerciais já fechados. Mas, provavelmente, não haverá avanços em novos acordos. E isso é verdade para qualquer governo. Então, é muito difícil pensarmos em acordos na Organização Mundial do Comércio (OMC) ou na Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Não acredito que um governo Obama gastaria capital político com isso

16/07/2008 - 14:41h Escopeta não é chocalho

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VALOR

“Pode-se perguntar por que um Estado mais forte desejaria atacar um mais fraco, mas certamente esse não é o ponto. O fato decisivo é que, no nível interestatal, a unidade maior pode atacar os grupos mais fracos. Como não há quem possa impedir esses ataques, os grupos humanos mais fracos vivem em contínuo e inevitável estado de insegurança.” - Norbert Elias, em “Envolvimento e Alienação, Editora Bertrand”, Rio de Janeiro, 1990, p: 214

A reativação da IV Frota Naval dos Estados Unidos, na zona do Atlântico Sul, provocará uma mudança radical e permanente nas relações militares dos EUA com a América Latina. Foi por isto que surpreenderam tanto as primeiras explicações americanas a respeito da reativação da sua Frota - criada em 1943 e desmantelada em 1950 -, que teria sido uma simples decisão “administrativa”, tomada com objetivos “pacíficos, humanitários e ecológicos”.

Já está em curso uma nova “corrida imperialista”, entre as grandes potências, que lutam por sua segurança energética e alimentar

A mentira não é um pecado grave no campo das relações internacionais. Pelo contrário, mentir ou dizer meias verdades com competência foi sempre uma arte e uma virtude essencial da diplomacia entre as nações. Portanto, não foi isto que chamou atenção na declaração das autoridades americanas, mas sim o seu desrespeito pela inteligência dos interlocutores e o seu deboche com relação à impotência dos governos afetados pela sua decisão. Mesmo quando se falasse também da necessidade de “combater a pirataria, o tráfico de drogas, de pessoas e de armas”, sem explicar, ao mesmo tempo, porque que a IV Frota não foi reativada durante a Guerra Fria, ou mesmo depois da Revolução Cubana e da Crise dos Foguetes, de 1962, quando o “fluxo ilegal de armas e pessoas” e o “tráfico de drogas” era igual ou maior do que hoje. Por isto, tiveram grande repercussão as declarações “corretivas”, das autoridades navais dos EUA, feitas na Base Naval Mayport, na Flórida, no dia 11 de julho de 2008. Em particular, o discurso inaugural do almirante Gary Roughead, chefe de Operações Navais da Marinha Americana, quem redefiniu o objetivo principal da nova frota, destinada a “proteger os mares da região daqueles que ameaçam o fluxo livre do comércio internacional”, ao mesmo tempo em que advertia, aos desavisados, que “ninguém deve se enganar: porque esta frota estará pronta para qualquer operação, a qualquer hora e em qualquer lugar, num máximo de 24 a 48 horas”.

Com respeito à proteção do comércio marítimo, todos os especialistas sabem que só tem capacidade de proteger o “livre fluxo do comércio mundial” quem também tem a capacidade de interrompê-lo. Ou seja, quem tem poder para proteger, também tem o poder de excluir concorrentes, se for o caso, quando se acirra a competição entre os Estados e os capitais privados, como está acontecendo neste início do Século XXI. Depois de quase uma década de crescimento contínuo e acelerado, a economia mundial enfrenta, neste momento, uma disparada dos preços, da especulação e da escassez de algumas commodities fundamentais, como é o caso do petróleo, dos alimentos e dos minerais estratégicos. E neste momento, já está em curso uma nova “corrida imperialista” entre as grandes potências, que lutam por sua segurança energética e alimentar, exatamente como aconteceu no final do Século XIX e início do Século XX. Uma competição que já chegou à África e deverá atingir a América Latina de forma ainda mais intensa, graças aos seus recursos energéticos, às suas grandes reservas minerais e hídricos e à sua imensa capacidade de produção alimentar, muito superior à da África. Em particular o Brasil, que deverá ser - em breve - o maior exportador mundial de alimentos e um dos grandes exportadores de petróleo, além de ser o principal “proprietário” das águas e da biodiversidade amazônica. Existindo um agravante, no caso brasileiro, do ponto de vista das autoridades norte-americanas: o fato de ser o país que está liderando os processos de criação da Unasul e do Conselho Sul-Americano de Defesa, organizações que excluem os Estados Unidos e esvaziam o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca e a Junta Interamericana de Defesa, que são controlados pelos norte-americanos.

Esta história, entretanto, traz uma lição importante para o futuro da América Latina, e do Brasil em particular. Faz um século, mais ou menos, o almirante e geopolítico Alfred Mahan se notabilizou pela sua defesa militante da idéia que os EUA jamais seriam uma “grande potência”, apoiando-se apenas no seu desenvolvimento econômico. Para ter estatuto internacional, precisariam de uma esquadra naval capaz de projetar o poder americano ao redor do mundo, como havia feito a Inglaterra no Século XIX . O almirante Mahan exerceu grande influência pessoal sobre o presidente Theodore Roosevelt logo no início do Século XX e depois se transformou no maior símbolo do poder naval americano de todos os tempos. Com razão, porque menos de meio século depois da sua morte os EUA já eram o maior poder naval da história da humanidade, controlando todos os mares e oceanos do mundo com suas sete frotas navais.

Neste momento, os EUA acabam de reativar a sua IV Frota, mas poderão criar muitas outras, se quiserem, sem ferir o Direito Internacional, sem precisar utilizar as águas soberanas de outros Estados e sem precisar dar explicações a ninguém. Obedecendo apenas aos seus cálculos estratégicos e ao seu poder de construir e distribuir navios militares ao redor do mundo, como havia proposto Alfred Mahan. Segundo o sociólogo alemão Norbert Elias, a dura verdade é que, “se algum Estado for mais forte ou se acreditar mais forte que seus vizinhos, sempre haverá a possibilidade de que tente obter vantagens, o que pode ocorrer de diversas formas, hostilizando-os, fazendo exigências ou invadindo-os e anexando-os [..] e só existe uma possibilidade de um Estado com maior potencial de violência ser impedido de explorar ao máximo sua porção de poder relativo: ele só pode ser reprimido por outro Estado equivalentemente forte ou por um grupo de Estados que consigam controlar as rivalidades entre si em grau suficiente para favorecer seu potencial combinado de poder”.

José Luís Fiori é professor titular do Instituto de Economia da UFRJ e autor do livro “O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações” (Editora Boitempo, 2007). Escreve mensalmente às quartas-feiras.

16/07/2008 - 14:29h Ano de viver perigosamente

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Por Martin Wolf - VALOR

Passou-se quase um ano desde que a crise do subprime nos EUA se tornou global. À época, muitos esperavam que a reavaliação do risco não seria mais do que uma breve interrupção no progresso da economia mundial e dos EUA. Essas esperanças foram frustradas. Os infortúnios do Fannie Mae e do Freddie Mac, o tombo dos mercados acionários e a escalada nos preços do petróleo deixam claro como esta confusão está longe do seu fim. Ela, muito provavelmente, nem passou o fim do seu começo.

Então, onde está a economia mundial agora? E para onde poderá rumar? Eis algumas respostas preliminares.

A resposta à primeira vem em duas partes principais: manutenção do aperto financeiro e aumentos nos preços das commodities. O desempenho das ações do setor bancário nos revela a maior parte do que precisamos saber sobre a crise financeira. Nos EUA, o epicentro do aperto, os bancos perderam metade do seu valor de mercado entre um ano atrás e o fim da semana passada, em relação ao índice composto S&P.

Investidores em ações não são as únicas pessoas preocupadas com a saúde dos bancos. Os próprios bancos também estão preocupados. Os prêmios de risco entre taxas de juros que incidem sobre empréstimos interbancários em dólares, euros e libras esterlinas, e as taxas oficiais esperadas para três e seis meses estão agora mais dilatados do que estiveram em março. Os prêmios de risco sobre empréstimos de seis meses agora se nivelaram aos dois picos anteriores, ocorridos em setembro e dezembro do ano passado. Esta não é uma mera crise de liquidez. Os bancos estão manifestando preocupação a respeito da solvência dos seus pares. Um bom motivo para estarem preocupados é que a qualidade das garantias básicas para grande parte do empréstimo dos anos passados - habitação - continua se deteriorando. O índice Case-Schiller de 20 cidades caiu 18% em termos nominais e 22% em termos reais entre seu pico, em meados de 2006, e abril deste ano. Essa taxa de queda também está se acelerando.

Não admira, portanto, que o mercado de ações esteja mostrando algo semelhante a pânico em torno das perspectivas para os dois empreendimentos patrocinados pelo governo, Fannie Mae e Freddie Mac, que têm financiado aproximadamente 75% de todos os financiamentos habitacionais dos EUA. Uma tomada do controle formal do governo sobre estas entidades, cujo passivo total está próximo de 40% do PIB dos EUA, não está descartada. Em termos de endividamento bruto do governo, isso faria os EUA se assemelharem à Itália.

Enquanto isso, o preço do petróleo está próximo de US$ 150 o barril. Apesar de uma parte importante da economia estar preocupada com os riscos de colapso financeiro e posterior deflação, o preço da commodity mais importante do mundo dobrou ao longo do ano passado. Em termos reais, o preço do petróleo está 25% mais alto agora do que em 1979, no auge do segundo choque do petróleo. Os preços ascendentes do petróleo e demais commodities são uma espécie de quebra-cabeças, pois o crescimento econômico mundial está se desacelerando: a maioria das projeções para junho estima o crescimento mundial em 2,9% neste ano (a taxas de câmbio de mercado), numa queda ante os 3,8% em 2007, em grande parte devido à desaceleração econômica nos países ricos, com o crescimento dos EUA projetado em apenas 1,5% neste ano, numa queda ante os 2,2% de 2007, e crescimento de 1,8% na Europa Ocidental, numa queda na comparação com 2,8%, em 2007.

Os produtores deixarão o petróleo no solo se o aumento esperado nos preços do petróleo for mais rápido do que o retorno sobre os ativos alternativos

Por que os preços das commodities estão disparando quando a economia mundial está desacelerando? A explicação popular parece ser “especulação”. No entanto, considerando que a especulação já está presente, isso não consegue explicar porque o preço do arroz está em franca aceleração agora. Outra explicação popular é o agressivo afrouxamento da política monetária dos EUA. Mas isso dificilmente consegue explicar o veloz aumento de preço do petróleo, mesmo em euros. A especulação tampouco explica o aumento nos preços de commodities que não possuem mercados futuros ativos: o minério de ferro, por exemplo.

No caso do petróleo, como observou Daniel Gros, do Centro para Estudos de Política Européia, no “Financial Times” da semana passada, a especulação é inerente à decisão de produzir. Os produtores são especuladores em relação ao valor futuro dos seus recursos - e com justiça, já que são finitos.

Os produtores deixarão o petróleo no solo se o aumento esperado nos preços reais do petróleo for mais rápido do que o retorno sobre os ativos alternativos. O que determina o preço atual, portanto, é o preço futuro esperado. Os mais importantes propulsores têm sido o crescimento potencial na demanda de países emergentes, particularmente a China, e o pessimismo em torno de fontes alternativas de abastecimento. O crescimento veloz e altamente intensivo em recursos da China é o fator mais importante: estima-se que o crescimento no país será de 10% neste ano e de mais de 9% em 2009.

Então, o que acontecerá com a economia mundial doravante? Aqui talvez o ponto mais importante seja a incerteza. É possível fazer relatos de um retorno ao crescimento acelerado na economia mundial. É igualmente fácil contar histórias sobre algo semelhante a um desastre financeiro. O equilíbrio de forças econômicas, porém, é de contração: crises financeiras e colapso dos preços dos imóveis nos EUA e em vários outros países ricos, forte alta nos preços das commodities, além de pressões inflacionárias, especialmente nos países emergentes.

É difícil enxergar um desfecho diferente de uma desaceleração sustentada na economia mundial. É até bastante provável que o crescimento de longo prazo da economia mundial seja consideravelmente mais lento do que se esperava há poucos anos. Ademais, alguns riscos poderão se combinar de formas perigosas. Um ataque ao Irã poderá empurrar o preço do petróleo para acima de US$ 200, por exemplo. Além disso, a solvência do governo dos EUA não pode ser considerada um fato consumado. Se a desalavancagem em curso na economia americana enfraquecer o consumo, a economia poderá entrar em profunda recessão. Os déficits fiscais dos EUA poderão disparar e as taxas de juro de longo prazo poderão dar um salto. Esse cenário poderá tornar a visão da dinâmica da dívida do governo dos EUA altamente desagradável. Daí poderão sobrevir uma fuga do dólar e dos bônus denominados em dólar. Quem desejará comandar o Fed depois disso?

A boa notícia é que a economia mundial se manteve surpreendentemente bem. A má notícia é que os riscos continuam completamente no pólo negativo. Será preciso muita sorte e muita capacidade de discernimento para atravessar as tempestades incólumes. É hora de fazer uma pausa deste ambiente pessimista. É o que farei agora. Voltarei no fim de agosto.

10/07/2008 - 20:01h O espectro da caixa registradora

Latin America’s economies

The ghost at the till

Jul 10th 2008 | SANTIAGO AND SÃO PAULO
From The Economist print edition

Bitter experience has made Latin Americans intolerant of inflation. But have their policymakers banished this spectre?

Illustration by Peter Schrank

UNLIKE the developed world, Latin America has been barely touched so far by the credit crunch. Many of its economies are still growing fast, helped by demand for their commodity exports. But the commodity boom has started to have a less desirable effect: soaring food and fuel prices are pushing inflation up across the region. This has become a test of credibility for Latin America’s new-found economic stability, and for its central banks. Some of the more important ones have responded more robustly than many of their Asian peers—even if claims that Brazil’s hawkish Central Bank is “the new Bundesbank” require a pinch of salt.

The regional average inflation rate rose to 7.5% in April, from 5.2% a year before, according to the IMF. This is an underestimate, since Argentina’s official inflation figure of 9.1% is probably less than half the true rate. It also conceals a divide. Around the turn of the decade, several of the larger countries adopted floating exchange rates, and inflation targets administered by more-or-less independent central banks. Another group of countries—including Argentina and Venezuela—have given greater priority to growth than to price stability. But even among the first group, inflation has been rising. In response, central banks in Chile, Colombia, Mexico and Peru began to raise interest rates last year. Even so, they have missed their inflation targets, in most cases for the first time (see chart).

 To howls of protest, Brazil’s Central Bank halted three years of monetary easing last October. Since then it has raised rates by a percentage point. Even so, inflation is nearing the upper limit of the target of 4.5% plus-or-minus two percentage points. Two things that have helped to contain price rises in Brazil for the past few years—cheap goods from the rest of the world and a strengthening currency to buy them with—have now run their course, notes Marcelo Carvalho of Morgan Stanley, an investment bank.

After initially grumbling that higher rates were making the real too strong for Brazilian industries to compete, the finance ministry is now supporting the bank’s efforts. In June it tightened fiscal policy, raising its target for the primary surplus (ie, before debt payments) from 3.8% of GDP to 4.3%. The authorities are optimistic that inflation will be falling by the end of the year. But ordinary Brazilians are alarmed by the rise in the cost of a staple basket of food—up by as much as 50% in some parts of the country, according to DIEESE, a union-linked research body.

Brazil’s economy, along with those of Peru and Colombia, has been expanding at a faster rate than its underlying potential. But core inflation (stripping out food and fuel) has picked up in both Chile and Mexico despite sluggish growth, points out Alfredo Thorne, the chief Latin American economist at JPMorgan Chase, a bank. Mexico’s central bank is trying to steer a delicate path: it has raised rates but says that its aim is to get inflation back on target by the end of next year. With an important congressional election due next year, the government has stepped in to impose a price freeze on some staples. However, this month it raised the price of petrol.

Chile was once considered to have the best-managed Latin American economy. Its reputation has taken the biggest knock. The inflation rate has been rising for more than a year, reaching 9.5% in June. But the economy expanded by only about 3% in the first half of this year—the lowest rate since 2002. The authorities have some excuses. Chile imports nearly all of its oil. It subsidises fuel products a bit less than some of its neighbours: the fuel subsidy (ie, the difference between domestic and world prices) is likely to amount to around $500m this year, says a Chilean official. That contrasts with $1.2 billion in Peru and $19 billion in Mexico.

Nevertheless, some economists reckon that Chile’s Central Bank has made things worse by zigzagging between worries about growth and inflation. Earlier this year it tried to halt the appreciation of the peso because of concerns this was curbing exports. Then in June it raised its benchmark rate by half a percentage point; it is expected to tighten again this week.

Given how tricky it is proving to control inflation, central bankers should probably have raised rates earlier. But finance officials could also do more to help. Fiscal spending in Latin America is very pro-cyclical, points out Santiago Levy, the chief economist at the Inter-American Development Bank. Research by the bank found that in the seven largest economies, on average governments have spent rather than saved 80% of the extra revenues they have derived from the commodity boom since 2002. Even in Chile, which saves most of the windfall, fiscal policy is expansionary, with public spending growing at double the speed of the economy.

The test will be whether or not inflation is heading down by the end of this year. If it is not, more drastic action will be required, which might make a big dent in economic growth. The wiser among the region’s politicians know that, costly though it may be, the fight against inflation is one they cannot afford to lose. Already, price rises threaten to tip several million Latin Americans back into poverty. Brazil’s president, Luiz Inácio Lula da Silva, though a man of the left, has given strong backing to the Central Bank’s bitter medicine. Inflation is a “degrading disease”, he says. It is a malady that long debilitated Latin America. That is why the region is relatively intolerant of it now.

06/07/2008 - 09:53h ”Economia não vai levar uma cacetada”

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Ministro fala em fim de um ciclo do capitalismo e diz que os países emergentes, sem desequilíbrios fiscais, importam inflação

Ribamar Oliveira - O Estado de São Paulo

 

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, não tem dúvida da existência hoje de uma crise econômica mundial, que começou com a crise imobiliária dos EUA (o chamado subprime) e foi agravada pelo choque de preços das commodities. “Estamos no fim de um ciclo econômico capitalista. Neste momento, é preciso fazer ajustes e preparar um novo ciclo”, disse em entrevista ao Estado.

Nesse cenário, Mantega diz que o desafio dos países emergentes é “combater a inflação sem abortar o crescimento”. Para o ministro, o atual surto inflacionário resulta fundamentalmente do choque de preços das commodities agrícolas, metálicas e do petróleo.

O governo, alerta o ministro, já adotou medidas para desacelerar o crescimento, com o objetivo de evitar que a inflação contamine outros setores da economia, mas não vai derrubar o crescimento. “Não é para dar uma cacetada na economia, mas é para moderar a demanda, moderar o crescimento. Adequá-lo à nova realidade”, disse.

Segundo ele, se as medidas já adotadas não forem suficientes, o governo poderá anunciar outras. “Armamento não nos falta e o usaremos porque ninguém quer a volta da inflação”. Mantega admitiu que a inflação em 2009 também poderá ficar acima do centro da meta, como este ano, se o choque de preços continuar. “Se a gente conseguir não ultrapassar a margem de tolerância em nenhum momento eu me dou por muito satisfeito porque outros países já ultrapassaram”, afirmou.

O Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês) diz que o mundo vive a maior turbulência financeira desde a Segunda Guerra. Alertou para o risco de uma estagflação. Qual é o seu cenário para a economia internacional?

O cenário para os países avançados é de estagflação mesmo (redução do crescimento e aumento da inflação). Nos EUA, a atividade econômica cai e a inflação sobe. A União Européia está com quase 4% de inflação. Ou seja, a inflação é maior do que o crescimento. É um cenário negativo. Mas existe uma nova realidade no mundo, que não havia nos anos de 1970. Agora temos países emergentes, que também estão sofrendo um surto inflacionário, mas mantêm um nível de crescimento. O grande desafio dos países emergentes, que têm dinamismo econômico, é combater a inflação sem abortar o crescimento.

Nos anos de 1970, diante de idêntico choque de petróleo e de outras commodities, boa parte dos países não fez o ajuste necessário. Esse erro do passado pode se repetir?

Acredito que não. A situação fiscal e das contas externas dos países era outra. Nos anos 70 havia um desequilíbrio fiscal na maioria dos países. Todo mundo vivia também com endividamento externo elevado. O Brasil estava acumulando uma dívida externa grande. Hoje, o cenário é distinto. A maioria desses países tem uma situação fiscal equilibrada. Portanto, a inflação não é originária de desequilíbrio fiscal.

Já se pode falar em crise mundial?

É uma crise mundial, não tenho a menor dúvida. Ela começou com a crise financeira do subprime nos EUA e engatou num choque de commodities. Estamos no fim de um ciclo econômico capitalista. Neste momento, é preciso fazer ajustes e preparar um novo ciclo. Na semana passada, o Banco Central Europeu aumentou a taxa de juro e os bancos centrais de vários países também já aumentaram. É que muitos países estão com taxa de juro negativa e não dá para funcionar assim. Certamente eles terão que fazer ajustes monetários e baixar a bola.

A situação brasileira é melhor do que outros países, mas a inflação voltou. É suficiente o que foi feito até agora ou o governo terá que adotar medidas mais fortes?

É difícil responder neste momento. Já tomamos várias medidas fortes. Já estamos praticando um superávit primário maior (a meta passou de 3,8% do Produto Interno Bruto para 4,3%). Em matéria de contas públicas, estamos tendo um desempenho melhor do que no ano passado. Isso significa reduzir a demanda do Estado. Os ajustes que estamos fazendo não são para abortar o crescimento da economia. Não é para dar uma cacetada na economia, mas é para moderar a demanda, moderar o crescimento. Adequá-lo à nova realidade. Isso significa uma ligeira desaceleração da atividade econômica.

Qual é a magnitude dessa desaceleração?

Um crescimento de 4,5% a 5%. A economia brasileira virou o ano passado crescendo 5,4% passando para 6%. Altamente acelerada. Nós tivemos que dar uma desacelerada. Aumentamos o superávit primário, que em geral tem uma eficácia grande, elevamos a taxa de juros, instituímos o compulsório sobre leasing de R$ 40 bilhões e aumentamos o IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) para o crédito a pessoas físicas. O juro de longo prazo já subiu 3 a 5 pontos. O custo do capital já subiu.

Mas as expectativas inflacionárias continuam aumentando.

Existem coisas que não dependem de nós. Se o preço do petróleo sobe, se o preço da carne sobe, se o preço do trigo sobe, aí não tem jeito. Podemos subir a taxa de juros e fazer um superávit primário maior, que não acontece nada. O que nós temos que zelar é para que não haja um contágio. Se adotarmos medidas em excesso, é claro que derrubaremos a economia para além daquilo que é desejável.

O Conselho Monetário Nacional definiu a meta de 4,5% de inflação para 2010, mas a comunicação dessa decisão foi confusa.

O que ficou confuso foram as interpretações. O Bernard Appy (o então secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda) falou o menos possível. Ele disse apenas que a decisão do Conselho Monetário foi a de manter a meta de inflação de 4,5% em 2010.

Ele falou que o governo espera que a inflação convirja para 4,5% no máximo até 2010.

A gente tem que fazer sempre um esforço para fazer a inflação convergir para o centro da meta. Em 2008 não dá para convergir para o centro da meta…

E em 2009?

Então, nesse caso, o Banco Central tem que tomar medidas para impedir que haja um distanciamento do centro da meta. O fato é que nós temos razões para permitir esse distanciamento, que é o choque de commodities. Isso está na literatura da política de metas de inflação. O BC tem que buscar o centro da meta, porém, se houver um choque de oferta, e principalmente se ele for externo, o BC pode usar a margem de tolerância. Foi para isso que a margem foi feita.

O sr. não teme um processo de reindexação da economia? Esse processo não pode começar pelo salário mínimo, que vai passar a ser reajustado pela inflação passada e mais o crescimento do PIB?

Acho que o salário mínimo corre em raia própria e a sociedade está habituada com isso. Não se pode falar em indexação da economia a partir do salário mínimo. É um exagero. Agora, eu temo que haja um contágio da inflação em outros setores. Por isso que eu fiz um alerta de que não devemos ser alarmistas. Não é verdade que o dragão da inflação está de volta, que a indexação está de volta. Se nós todos falarmos dessa maneira, é capaz de voltar.

Mas o próprio governo não começou a indexação ao dar o reajuste para o programa Bolsa Família?

Não. O governo simplesmente corrigiu o benefício dado ao segmento mais pobre da população, aquele que está sendo mais atingido (pela inflação). O segmento mais pobre não está sofrendo uma inflação de 5,5%, que é o IPCA nos últimos doze meses. Ele está sofrendo 8,5%, 10% de inflação. Com uma inflação de alimentos, quem mais sofre é o assalariado de baixa renda porque ele utiliza uma parte expressiva de sua renda para adquirir alimentos.

O sr. não se preocupa de hoje não poder contar com o câmbio, com a valorização do real, para conter essa inflação?

A valorização cambial pode ser necessária em alguns momentos. Mas não é a melhor maneira de combater a inflação porque ela acaba desequilibrando as contas externas.

02/07/2008 - 08:53h De 18 países, só Brasil e Canadá estão dentro da meta de inflação

O jornal O Globo teve o mérito de destacar que o Brasil é quem melhor resiste a pressão inflacionária internacional. Mesmo assim, percebam o “por enquanto” na manchete e o “ainda” no lide. O alerta de Delfim mostra que pouco importa para alguns se a inflação atinge o bolso dos mais pobres (fizeram um barulho pelo aumento do Bolsa-família em 8%). Esses até torcem para que a inflação derrube a estabilidade e os objetivos da meta determinada pelo Banco central e pelo governo federal. Mas os fatos são os fatos. A seguir o artigo do jornal O Globo. LF

http://www.aguiareal.com.br/496/dragao_inflacao.jpg

Dentro da meta. Por enquanto

De 18 países, só Brasil e Canadá ainda estão dentro da margem de erro para inflação

Fabiana Ribeiro e Aguinaldo Novo - O GLOBO

RIO e SÃO PAULO A inflação mundial coloca em xeque os sistemas de metas fixados pelos governos.
Num levantamento com 18 países, pela consultoria Tendências, apenas Brasil e Canadá não ultrapassaram as metas de inflação estabelecidas para o ano. Mas isso, alertam alguns economistas, por enquanto. O Brasil acumula nos últimos 12 meses terminados em maio variação de 5,6%, para uma meta de 4,5% com tolerância de dois pontos percentuais.
Ou seja: pode, já em junho, exceder esses limites.
Especialistas, contudo, não são unânimes na hora de apontar soluções para a questão.

— A cada mês, algum país sai da zona do conforto. Ao longo do ano, Brasil e Canadá também. Ainda assim, a política de metas funciona e vai depender das ações dos bancos centrais de elevar as taxas de juros — disse Marcela Prada, economista da Tendências.

Conter a inflação é o maior desafio dos bancos centrais do mundo hoje. O Banco Central Europeu (BCE) deve subir juros amanhã para combater a alta dos preços. Em 15 dos 27 países da União Européia, o índice subiu 4%, nos últimos 12 meses até junho — contra meta de 2%.

— Soluções individuais não ajudam. Juntos, os países devem subir juros para frear o crescimento, o que faria os preços das commodities ceder, acomodando a inflação — disse Roberto Padovani, estrategista de investimentos para a América Latina do WestLB do Brasil.

Na avaliação de Jason Vieira, economista da UpTrend, elevar a taxa de juros não resolveria o problema do mundo. Para ele, a medida adia a valorização do dólar e alimenta ainda mais a inflação. Somente é eficaz em países em que a inflação é provocada pela demanda (pressão de consumo) — caso da Alemanha, citou ele.

— O aperto monetário detém o crescimento econômico. É preciso atuar na causa e não na doença. Então, incentivo de políticas mais sustentáveis na agricultura, medidas de desoneração para o setor seriam um dos caminhos. A inflação atual coloca em xeque todos os paradigmas clássicos de macro e microeconomia do sistema monetário.

Inflação gera pobreza mundial

O economista da FGV Paulo Picchetti afirma que, mesmo sem ter deixado de sofrer os efeitos das altas dos preços, o Brasil vem sendo citado como grande exemplo de boa condução de política monetária, porque se antecipou aos demais países no processo de elevação dos juros. Para ele, no entanto, ainda é pouco.

— Estamos vivendo uma crise de oferta (de produtos), e não se combate isso apenas com política monetária. É preciso haver também uma redução da demanda agregada, principalmente dos gastos correntes do governo. Sem uma combinação correta de política monetária e fiscal não enfrentaremos essa questão — disse ele, acrescentando que, sem juros altos e corte de gastos, a indexação pode voltar.

A inflação traz mais do que aumento do custo de vida. Especialistas dizem que o novo patamar dos preços pode ampliar a pobreza.

— Parte da demanda por commodities traduz o aumento da demanda por comida. O desenho atual não comporta aumento no consumo de alimentos. Infelizmente, para o mundo continuar crescendo, muita gente precisa passar fome — arremata Vieira.