15/07/2012 - 10:02h Crise ainda ‘poupa’ mercado de trabalho

Desaceleração econômica não afeta empregos substancialmente. Cenário pode mudar se incertezas permanecerem no ano que vem
15 de julho de 2012

MÁRCIA RODRIGUES – O Estado de S.Paulo

A economia em marcha lenta e a crise financeira internacional não devem afetar o mercado de trabalho de forma significativa neste ano, embora setores da indústria registrem desemprego.

“Se o cenário de desaceleração econômica persistir, podemos começar a sentir um encolhimento, ainda que pequeno, apenas a partir do primeiro quadrimestre do ano que vem. Antes, o cenário continua positivo para a maioria dos setores”, prevê o professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), Luiz G. Brom, doutor em sociologia e especialista em mercado de trabalho.

Segundo Brom, apesar da desaceleração, não há ainda um reflexo no mercado de trabalho. “Se vai apresentar em médio prazo, vai depender da própria performance econômica nos próximos meses. Porém, nós não podemos esquecer de que o Brasil teve altas taxas de crescimento muito recentemente.”

Para o economista, mesmo que o País cresça pouco em 2012, ele vai crescer pouco, mas depois de ter crescido muito nos últimos anos. “Estamos em um patamar de atividade muito mais elevado do que há alguns anos. Por outro lado, se o esfriamento continuar, o mercado de trabalho deverá sofrer consequências. Mas no momento nenhuma pesquisa ou indicador demonstra este quadro”, diz.

Brom cita como exemplo os indicadores de maio da pesquisa mensal de emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Eles são positivos. Alguns setores, inclusive, demonstram acréscimo.” Entre os setores que continuaram com a criação de vagas em alta estão: construção, que passou de 7,7% em maio do ano passado para 7,9% para o mesmo mês neste ano; atividades financeiras, que foi de 15,9% para 16,3% no mesmo período; e serviços, que foi de 17,4% para 17,6% (veja tabela completa acima).

“O único setor que vem registrando queda no número dos postos de trabalho é a indústria”, afirma o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), Hélio Zylberstajn.

Segundo o professor, a indústria tem mostrado incapacidade de criar vaga já há algum tempo. “O setor não está conseguindo ser competitivo. Não consegue exportar e vem perdendo mercado interno por conta do aumento das importações.”

De acordo com o indicador do IBGE, a criação de postos de trabalho foi de 16,7%, em maio de 2011, para 16,1% no mesmo mês deste ano. Outra pesquisa, divulgada na última quinta-feira pela Federação e o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp), apontou que a indústria paulista fechou sete mil postos de trabalho em junho, registrando uma queda no mês de 0,39% (veja matéria abaixo).

“Apesar do encolhimento na criação de vagas registrado na indústria, o mercado de trabalho não vem sentindo a retração, porque o setor representa apenas 20% dos postos abertos no País”, afirma Zylberstajn.

Outro economista que acredita que o único impacto da crise vem sendo sentido apenas pela indústria é o professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Rodrigo Leandro Moura. “Enquanto a indústria sinaliza uma pequena retração, já que a taxa de desemprego continua baixa, percebemos um acréscimo na população ocupada (pessoas economicamente ativas) no trabalho informal.”.

De acordo com o professor, é possível medir este crescimento, porque a pesquisa do IBGE contabiliza, além dos trabalhadores que atuam com ou sem carteira assinada, os profissionais que exercem suas atividades por “conta própria” e os empregadores, ou seja, todas as pessoas que possuem algum tipo de rendimento. O porcentual de ocupados passou de 53,6%, em maio de 2011, para 54,2%, em maio deste ano. Enquanto o de desocupados caiu de 3,6% para 3,3% no mesmo período. “Um fator que pode ter contribuído para este acréscimo é o aumento da adesão ao microempreendedor individual (MEI)”, comenta Moura.

Economista da LCA Consultores, Caio Machado acredita que o cenário deve melhorar no segundo semestre, por conta das medidas econômicas anunciadas pelo governo. “Além dos fatores sazonais, como a abertura de vagas temporárias que ocorrem neste período, a expectativa é de as medidas monetárias e fiscal do governo comecem a se refletir no desempenho das empresas nos próximos meses.”

Opinião semelhante tem a vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Elaine Saad. Segundo ela, alguns setores continuam sofrendo com a escassez de mão de obra qualificada. E, mesmo com a economia desacelerada, ainda devem continuar com as contratações em alta. “O déficit em alguns casos é tão grande, que não será possível sentir a falta de postos de trabalho.”

Entre os setores que manterão as contratações estão engenharia, principalmente a civil e de petróleo e gás, e tecnologia da informação. “Esta crise não está tão perceptível para o mercado de trabalho como a de 2009. Não estamos percebendo fechamento de vagas”, diz.

12/07/2012 - 12:10h A desigualdade inibe o crescimento

Por Raghuram Rajan – VALOR

Para compreender como conseguir uma recuperação sustentada da Grande Recessão, precisamos entender suas causas. E identificar as causas significa partir das evidências.

Dois fatos se destacam. Primeiro, a demanda mundial de bens e serviços está muito mais fraca, tanto na Europa como nos EUA, do que nos anos de economia aquecida anteriores à recessão. Em segundo lugar, a maior parte dos ganhos econômicos nos EUA em anos recentes beneficiou os ricos, ao passo que a classe média, em termos relativos, ficou para trás. Na Europa, as preocupações em relação à desigualdade de renda doméstica, embora mais atenuadas, são agravadas pela angústia diante da desigualdade entre países: a Alemanha progride vigorosamente, enquanto os países periféricos sulinos perdem sustentação.

Explicações persuasivas sobre a crise apontam para os vínculos entre a morna demanda atual e a crescente desigualdade de renda. Economistas progressistas argumentam que nos EUA o enfraquecimento dos sindicatos, juntamente com políticas fiscais que favorecem os ricos, retardaram crescimento da renda da classe média, ao mesmo tempo em que os programas tradicionais de transferência de renda foram cortados. Com suas rendas estagnadas, as famílias foram incentivadas a se endividar, especialmente oferecendo suas moradias como garantia, para manter o consumo.

Quando uma Europa reformada começar a crescer, regiões do continente poderão experimentar desigualdades no estilo americano. Mas o crescimento poderá proporcionar recursos para enfrentar isso. Muito pior seria evitar reformas sérias.

A chave para a recuperação, portanto, é tributar os ricos, aumentar as transferências de renda e restaurar a renda dos trabalhadores ampliando o poder de negociações sindicais e elevando os salários mínimos.

Países como a Alemanha, que reformaram suas leis trabalhistas para criar maior flexibilidade para os empregadores e não elevaram os salários rapidamente parecem estar em melhor forma econômica do que países como a França e a Espanha, onde os trabalhadores foram mais protegidos.

Por isso, considere o leitor uma explicação alternativa: a partir do início dos anos 1970, as economias avançadas encontraram cada vez mais dificuldades para crescer. Países como os EUA e o Reino Unido acabaram reagindo positivamente à desregulamentação de suas economias.

Maior competição e a adoção de novas tecnologias fizeram crescer a demanda e a renda de trabalhadores altamente qualificados, talentosos e com ótima escolaridade engajados em tarefas não rotineiras, como de consultoria. Funções mais rotineiras, antes bem remuneradas, desempenhadas por trabalhadores não qualificados ou moderadamente escolarizados foram automatizadas ou terceirizada. Assim, a desigualdade de renda surgiu não predominantemente devido a políticas que favorecem os ricos, mas porque a economia liberalizada favoreceu as pessoas instrumentadas para tirar proveito dela. A resposta política míope às preocupações das pessoas deixadas para trás foi facilitar seu acesso ao crédito.

A Europa Continental não desregulamentou tanto e preferiu buscar o crescimento em maior integração econômica. Mas o preço por proteger os trabalhadores e empresas foi crescimento mais lento e maior desemprego. E, embora a desigualdade não tenha crescido tanto quanto nos EUA, as perspectivas de emprego foram terríveis para os jovens e desempregados, que foram deixados fora do sistema protegido.

O advento do euro foi, aparentemente, uma bênção, porque reduziu os custos de financiamento dos países e permitiu que criassem empregos mediante gastos financiados por endividamento. A crise acabou com esses gastos, seja por parte de governos nacionais (Grécia), de governos locais (Espanha), pelo setor de construção civil (Irlanda e Espanha) ou pelo setor financeiro (Irlanda). Infelizmente, os gastos passados pressionaram uma alta dos salários sem um aumento proporcional da produtividade, deixando os grandes gastadores endividados e não competitivos.

A importante exceção a esse padrão é a Alemanha, acostumada a baixos custos para tomar empréstimos mesmo antes da sua entrada na zona euro. Alemanha teve de enfrentar um desemprego historicamente elevado, decorrente da reunificação com uma “doente” Alemanha Oriental. Nos anos iniciais do euro, a Alemanha não teve outra opção senão reduzir as proteções aos trabalhadores, limitar os aumentos salariais e reduzir as pensões, ao tentar fazer subir o nível do emprego.

A visão alternativa sugere soluções diferentes. Os EUA deveriam se concentrar em ajudar a adaptar a educação e as competências das pessoas que estão sendo deixadas para trás nos empregos disponíveis. Isso não será fácil ou rápido, mas é melhor do que conviver com corrosivos níveis elevados de desigualdade de oportunidades, bem como com um grande segmento da população dependente de transferências de renda.

Para as regiões não competitivas da zona do euro, as reformas estruturais não podem mais ser adiadas. Mas, dadas as grandes necessidades de ajustes, não é politicamente viável fazer tudo, inclusive um doloroso aperto fiscal, imediatamente. Menos austeridade, embora não seja uma estratégia sustentável para o crescimento, poderá aliviar o sofrimento do ajuste. Esse, em suma, é o dilema fundamental com que se defronta a zona do euro: a periferia precisa de financiamento enquanto se ajusta, ao passo que a Alemanha diz que não pode confiar que os países farão reformas depois que receberem dinheiro.

Os alemães vêm insistindo em mudanças institucionais – um controle mais centralizado da zona do euro sobre os bancos e orçamentos de governo da periferia, em troca de maior acesso ao financiamento à periferia.

A Europa poderá ficar em melhor situação com medidas paliativas. Se a confiança na Itália ou na Espanha voltar a se deteriorar, a zona do euro poderá ter que recorrer à tradicional ponte entre credibilidade fraca e baixo custo de financiamento: um programa monitorado de reformas no estilo defendido pelo Fundo Monetário Internacional.

Tais programas não podem dispensar a necessidade de determinação governamental, como demonstram as dificuldades da Grécia. E os governos odeiam a perda implícita de soberania e a humilhação. Mas governos determinados, como os do Brasil e da Índia, negociaram programas, no passado, que os colocaram no caminho de um crescimento sustentado.

Quando uma Europa reformada começar a crescer, regiões do continente poderão experimentar desigualdades no estilo americano. Mas o crescimento poderá proporcionar os recursos para enfrentar isso. Muito pior, para a Europa, seria evitar reformas sérias e entrar em declínio igualitário e bem comportado. O Japão, e não os EUA, é o exemplo a evitar.

(Tradução de Sergio Blum)

Raghuram Rajan foi economista chefe do FMI, é professor de Finanças na Booth School of Business, da University of Chicago e autor de Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy (linhas de fraturas: como falhas ocultas ainda ameaçam a economia mundial.

12/06/2012 - 09:24h A esfinge brasileira

Por Monica Baumgarten de Bolle e Fernanda Guardado – VALOR

“Decifra-me ou devoro-te”. Como impulsionar o consumo? Como destravar o investimento? Eis os grandes enigmas atuais da economia brasileira. Desatar o nó górdio do investimento privado em meio à crise financeira internacional e à imprevisibilidade europeia é um desafio quase insuplantável no momento. Resta, portanto, ele, o consumo. Fonte de acalorados debates, teses incompletas e frases de efeito. “O modelo de consumo se esgotou”. Alguém ainda aguenta ouvir isso?

O debate atual em torno desse suposto esgotamento do “modelo de consumo” para o crescimento brasileiro tem misturado alhos com bugalhos no afã de desqualificar a atual estratégia adotada pelo governo para incrementar o ritmo de crescimento econômico. Embaralham os estímulos cíclicos de demanda – o que qualquer governo faz quando vê a atividade ameaçada por choques externos – com políticas de médio prazo de expansão da capacidade produtiva, para chegar à apressada conclusão de que “não há mais espaço” para a expansão do consumo e do endividamento das famílias. É claro que só uma estratégia de crescimento focada nas reformas estruturais e nas condições para o avanço do investimento privado garante a sustentabilidade da expansão da atividade e do desenvolvimento do país. Não há como discordar disso. A recomendação é tão sensata quanto qualquer conselho de avó.

Cerca de 45% da dívida das famílias tem prazo inferior a um ano, sendo que 30% do total é de menos de 6 meses

Mas isso nada tem a ver com a tentativa legítima de incentivar o consumo quando a economia ameaça escorregar por causa da crise internacional. Ou melhor, incentivar o consumo nestas condições é o mesmo que seguir o conselho avoengo de incontestável sensatez, “proteja-se das correntes de ar”.

“Decifra-me ou devoro-te”. Cadê o esgotamento? Vamos aos fatos. O crescimento brasileiro foi beneficiado, nos últimos anos, tanto pelo consumo, quanto pelo investimento. Basta olhar as Contas Nacionais. Entre 2003 e 2011, a razão investimento/Produto Interno Bruto (PIB) saiu de 15% para 20%, enquanto o consumo perdeu participação no PIB.

A expansão do consumo neste período foi acompanhada de um aumento da alavancagem do consumidor, cujo comprometimento mensal da renda disponível atingiu 22% em março de 2012, após permanecer em torno de 19% entre maio de 2009 e maio de 2011; um avanço de três pontos percentuais que foi acompanhado de muito estardalhaço. Sobretudo quando os próprios bancos costumam trabalhar com um nível máximo de comprometimento de cerca de 30%. Houve, sim, uma alta de inadimplência. Mas os dados coletados pelo Banco Central (BC) e os indicadores do Serasa já apontam uma queda destas taxas à frente.

O prazo médio das dívidas para pessoas físicas é curto. Cerca de 45% do estoque tem prazo inferior a um ano, sendo que 30% do total é de menos de seis meses. Assim, as dívidas “acabam rápido” – e em um ambiente de estímulo ao refinanciamento, isso tende a ser acelerado, como agora. As taxas estão em queda, o que reforça o estímulo ao refinanciamento e abre espaço para maior contratação de dívida e consumo, uma vez que o percentual da renda comprometida com o pagamento de juros diminui proporcionalmente; dados preliminares do BC já apontam queda entre janeiro e maio na taxa média para pessoas físicas.

Os consumidores vêm se desalavancando mais recentemente, e mostram maior conforto com seu nível de endividamento, possivelmente um reflexo da curta duração das dívidas. A Sondagem do Consumidor da FGV mostra que, ao longo de 2011, o percentual de famílias que estava se endividando recuou, e, desde então, subiu apenas ligeiramente, atingindo 17,6% da amostra – abaixo da média histórica da pesquisa, de 20,5%. No mesmo período, o percentual de famílias que estão poupando subiu sistematicamente, e tem mostrado alguma estabilidade em torno do pico da série.

A Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio aponta uma diminuição do percentual de famílias endividadas entre maio de 2011 e maio de 2012. As famílias que se consideram pouco ou não endividadas atingem 64,5% da amostra, um avanço ante o mesmo mês do ano passado. Os próprios consumidores se mostram mais dispostos a aumentar suas compras. Segundo a FGV, cerca de 19% das famílias da amostra pretendem aumentar suas compras de bens duráveis. O percentual de famílias que pretendem diminuir suas compras, por outro lado, segue em patamar historicamente baixo (28%).

O consumidor quer aumentar seus gastos, tem confiança na perspectiva de emprego, passa por um momento em que uma boa parte das dívidas contraídas até o fim de 2011 estão vencendo, e se depara com custos declinantes para a contratação de novas dívidas. O que parece faltar é uma maior oferta de crédito por parte dos bancos, o que é compreensível no momento. Entretanto, espaço para consumir mais e crescer mais há, sim, ainda que não no ritmo observado ao longo de 2010. Desde que haja crédito. A estratégia pode não ser a melhor nem a mais segura, afinal estimula a alavancagem do consumidor. Mas decerto deve ser potente no curto prazo para estimular o crescimento.

Enigma decifrado.

Monica Baumgarten de Bolle é economista, professora da PUC-RJ e diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças (IEPE/CdG).

Fernanda Guardado é economista da Galanto Consultoria.

12/06/2012 - 08:51h Ministra critica ‘miopia ambiental’ no País e defende incentivo ao consumo

12 de junho de 2012

LUCIANA NUNES LEAL / RIO – O Estado de S.Paulo

A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, criticou ontem as discussões sobre indicadores socioambientais que não levam em conta questões de governança e gestão, ao defender as medidas do governo para estimular o consumo, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de carros. “Tem limite para a miopia ambiental”, disse Izabella a uma plateia formada principalmente por ambientalistas.

Segundo ela, as medidas de estímulo ao consumo não são incompatíveis com o debate da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), que começa amanhã, no Rio, e reunirá mais de cem chefes de Estado.

“Temos de debater como gente grande. Está na hora de debatermos as unidades de conservação, a regularização fundiária, o acesso à informação com conhecimento técnico e científico. Vamos acabar com o achismo ambiental”, disse a ministra durante o seminário Brasil Sustentável – O Caminho para Todos. Izabella repetiu a expressão que usa com frequência para designar as teses radicais de defesa do meio ambiente que não consideram aspectos de governo, administrativos, econômicos e políticos.

Sobre as medidas para estimular que a população consuma, a ministra afirmou, em entrevista, que “medidas de curto prazo não podem ser confundidas com a discussão de médio e longo prazo da Rio+20, em que será feito um debate para os próximos 20 anos sobre o futuro do planeta sem falar em crise, em guerra”.

Izabella justificou: “A questão do IPI é para solução de crise de curtíssimo prazo, temos empregos, a indústria que está em jogo”. Para a ministra, essas medidas emergenciais não impedirão um esforço dos países para “pactuar um novo padrão de consumo, já que é insustentável repetir os modelos atuais”.

Apesar de elogiar a disposição da ministra em “abrir diálogo com a sociedade”, Adriana Ramos, secretária executiva adjunta da ONG Instituto Socioambiental, criticou a redução do IPI dos veículos. “É uma medida de curto prazo, sim, mas que se repete com uma frequência assustadora”, disse. “A indústria automobilística nunca reduz custos. Em vez disso, pressiona o governo para obter a redução de impostos. Ao ceder, o governo demonstra um descompasso com as metas ambientais.”

Há dois meses, a presidente Dilma Rousseff também foi enfática ao advertir ambientalistas de que o governo não mudaria seu projeto de aumento da oferta de energia e de desenvolvimento, ao defender a construção de hidrelétricas na Amazônia. “Pessoas contrárias (às hidrelétricas) vivem num estado de fantasia”, disse ela em maio, durante reunião com os integrantes do Fórum do Clima,

A posição do governo vai na contramão do que o Brasil precisa fazer para atingir as metas de redução das emissões de gases de efeito estufa – é justamente o crescimento do consumo de gasolina que deverá fazer o governo rever esses números.

Outras discussões. Izabella defendeu que após a Rio+20 o País se volte para seus próprios problemas e discuta, por exemplo, o uso dos recursos de fundos de meio ambiente e o papel das instituições. Ela criticou o fato de o Serviço Florestal Brasileiro estar voltado só para florestas da Amazônia. “É um equívoco.”

A ministra atenuou a ausência na Rio+20 de importantes chefes de Estado, como o presidente americano Barack Obama, a chanceler alemã Angela Merkel e o primiê britânico David Cameron. “A presença dos líderes é importante, mas veja que os Estados Unidos (que foram representados na Rio 92 pelo então presidente George Bush) até hoje não ratificaram a conversão da biodiversidade. Os países mandarão pessoas de alto nível, com poder de decisão. Entendemos o momento que os países estão vivendo, a crise.” / COLABORARAM HELOISA ARUTH STURM E FABIO GRELLET

23/05/2012 - 09:53h Crédito começa a fluir

Por Cristiano Romero – VALOR

A maior preocupação do governo neste momento é que, mesmo com a queda das taxas de juros e as medidas de estímulo adotadas, consumidores e empresas não se animem a tomar crédito. Sem crédito, a economia não anda. Embora a demanda, impulsionada pelo forte aumento do salário mínimo em janeiro, siga aquecida, a produção industrial patina. A boa notícia é que há sinais de que o crédito, depois das seguidas rodadas de redução dos spreads, começa a fluir.

Aparentemente, tanto pessoas físicas quanto empresas estão reagindo positivamente à queda dos juros. O vice-presidente de Negócio de Varejo do Banco do Brasil (BB), Alexandre Abreu, revela que, nas linhas com maior impacto sobre a economia, as concessões têm crescido de forma acelerada no último mês e meio.

As operações com pessoas físicas mostram isso claramente. Na linha de crédito direto ao consumidor (CDC), a taxa média de juros cobrada pelo BB caiu de 2,41% para 2,19% ao mês entre março e maio. Nessa modalidade, o banco emprestou, em março, R$ 190,4 milhões por dia útil. Em abril, a média diária saltou para R$ 294,3 milhões e, em maio (até o dia 15), para R$ 322,4 milhões. O incremento por dia útil foi de 70%.

No BB, liberações têm crescido em áreas relevantes para o PIB

No caso de financiamento de veículos, segmento que, por causa do aumento inadimplência, tornou os bancos mais conservadores na concessão de novos empréstimos, também começa a haver um certo desafogo, algo que pode ser intensificado graças às últimas medidas adotadas pelo governo – ontem, em resposta à liberação de depósitos compulsórios para financiamento de carros novos e à diminuição do Imposto sobre Operações Financeiras incidente sobre crédito, o BB reduziu a taxa média de 1,29% para 1,09% ao mês.

Antes dos novos estímulos, a concessão de empréstimos já vinha melhorando, conforme atestam dados oficiais que o Banco do Brasil divulgará nos próximos dias. De qualquer forma, em março o BB liberou, em média, apenas R$ 11,1 milhões por dia útil para compra de automóveis. Em maio, a média diária mais do que triplicou – foi para R$ 34,1 milhões; agora, com a liberação de R$ 2 bilhões de seu compulsório, o banco acredita que a média diária crescerá para R$ 45 milhões até o fim de junho.

É possível que, nos próximos dias e semanas, haja um incremento nesses valores. Além da redução do custo financeiro, os carros ficaram mais baratos graças à decisão do governo de reduzir as alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Ademais, o BB conta com o fato de ter uma inadimplência média, nesse segmento, inferior à do mercado – 2,6%, face a 5,9%.

No crediário, o BB também tem registrado avanços. A média por dia útil cresceu de R$ 396,1 mil em março para R$ 2,3 milhões em maio (sempre até o dia 15), um pulo de 481,64%. O desembolso total ainda é acanhado se comparado ao de outras linhas – R$ 8,7 milhões em março e R$ 23 milhões nos primeiros 15 dias de maio -, mas a tendência, graças à forte queda dos juros nessa modalidade – de uma taxa média de 3,42% para 1,94% ao mês -, é positiva.

No crédito consignado para aposentados do INSS, os desembolsos diários cresceram quase 60% entre março e maio. A taxa média de juros recuou de 2,02% para 1,79% ao mês no período, e os desembolsos por dia útil avançaram de R$ 7,7 milhões para R$ 12,2 milhões.

Alexandre Abreu explica que, com o “BomPraTodos”, programa com que o banco pretende conquistar clientes dentro da realidade de spreads mais baixos, o BB quer mostrar que é mais vantajoso tomar um CDC (juro médio de 2,23% ao mês) do que usar o cheque especial (8,01%) ou o crédito rotativo do cartão de crédito (13% ao mês). De fato, o cheque especial é uma aberração dos tempos de inflação crônica no Brasil. Como o custo de vida corroía diariamente o poder de compra dos salários, o cheque especial funcionava como um crédito automático ao qual o assalariado recorria até o dia de recebimento do salário.

Com o “BomPraTodos, e os bancos privados estão adotando modelo parecido, o BB quer convencer os atuais e novos clientes a migrarem para produtos mais baratos. Três milhões, dos 33 milhões de correntistas do BB, usam cheque especial regularmente. Como a inadimplência nessa modalidade é altíssima – 15% na média do mercado, 11% no Banco do Brasil -, o juro é o mais alto, perdendo apenas para o do cartão de crédito.

Se o cliente adere ao “BomPraTodos”, toda vez que ele usa mais de 50% do limite do cheque especial, durante 60 dias, no 61º dia ele recebe uma mensagem pelo celular (SMS) informando que aquela dívida será parcelada automaticamente em 24 meses, ao custo de 3,94% ao mês (taxa máxima do CDC). É um preço salgado, mas bem inferior ao do cheque especial. A mesma regra vale para o crédito rotativo do cartão de crédito.

Abreu justifica o aumento da tarifa nesse programa, alegando o fato de o banco incorrer em novos custos – um deles, o envio de SMS. Além disso, argumenta, o cliente passa a ter uma espécie de assessoria financeira. Nada se compara, no entanto, diz ele, aos custos incorridos antes por causa de juros bem mais altos. O dirigente do BB conta que, com o tempo, a tendência é que o cheque especial desapareça ou se torne menos relevante – o banco estima que, em um ano, a carteira nessa modalidade diminuirá de R$ 3,2 bilhões para R$ 1,6 bilhão.

Embora o cheque especial e o cartão de crédito sejam mecanismos “populares” de acesso a crédito, eles têm relevância econômica menor que a de outras formas de crédito. Da carteira de crédito de R$ 120 bilhões de pessoa física do BB, cheque especial responde por apenas R$ 3,2 bilhões (2,6%) e crédito rotativo de cartão de crédito, por R$ 2,5 bilhões (2%). É muito menos que crédito consignado (37,5% do total), financiamento de automóvel (16,6%) e CDC (20,8%).

“Em apenas um mês, a migração de clientes para o ‘BomPraTodos’ chegou a 200 mil. É um número expressivo”, comemora Abreu, que não teme o impacto dos juros mais baixos sobre a saúde financeira do BB. Ele lembra que a iniciativa de reduzir juros é generalizada e assegura que o BB está fazendo isso de forma responsável. “O grande medo do banqueiro é baixar os juros e na ponta o cliente não pegar o recurso. Nossos clientes estão pegando empréstimos.”

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail – cristiano.romero@valor.com.br

23/05/2012 - 09:32h Capacidade de crescer por demanda é mesmo menor?

23 de maio de 2012

Análise: Mônica Baumgarten de Bolle – SÓCIA DA GALANTO CONSULTORIA – O Estado de S.Paulo

Nossa “ciência lúgubre” vive de profecias pessimistas e, infelizmente, muitas vezes de consensos pré-formatados. O bordão da vez é que a capacidade de o Brasil crescer pelo lado da demanda se esgotou, que o modelo de crescer pela via da expansão do crédito e do consumo já não consegue gerar os mesmos resultados de outrora. A razão, dizem, é que as famílias já estão muito endividadas e que sua renda está muito comprometida. Além do mais, prosseguem, não se compram automóveis, geladeiras, fogões a toda hora. Há dois problemas fundamentais com esse raciocínio. Primeiramente, o adjetivo “muito” para qualificar o endividamento das famílias brasileiras e o comprometimento da renda. Em segundo lugar, o fato de ser estático, enquanto a economia é um sistema dinâmico.

Não que a premissa em que se baseia, isto é, de que o modelo de crescimento movido apenas pelo consumo num país com o estágio de desenvolvimento do nosso é insustentável, seja irrealista. O destaque fica com o “estágio de desenvolvimento” – afinal, um modelo baseado no consumo é exatamente o que a China vêm tentando fazer. Ninguém discorda de que o Brasil precisa investir mais, caminhar na contramão da China, consumindo menos e aumentando a capacidade produtiva para sustentar taxas de crescimento mais elevadas no médio prazo. Mas isso é uma posição normativa, uma afirmação sobre como as coisas deveriam ser.

Já o argumento sobre o suposto esgotamento da demanda é de natureza positiva, isto é, pressupõe a capacidade de observar e mensurar o que se afirma. Obviamente, é possível medir tanto o endividamento das famílias quanto o comprometimento da renda. Em termos do PIB, a dívida do consumidor, hoje, equivale a pouco mais de 20%. Já o comprometimento da renda “saltou”, em 2011, de uns 20% para 22%. Esses são mesmo limites ao crescimento pelo lado do consumo?

Segundo um estudo recente do BIS, baseado numa amostra de 18 países da OCDE, a dívida das famílias só passa a ser um gargalo para o crescimento quando supera 85% do PIB. Quando atinge esse patamar, parte considerável da renda passa a ser destinada ao pagamento das dívidas, reduzindo o consumo. Por essa métrica, o Brasil está longe de engasgar com dívidas das famílias.

Quanto ao comprometimento da renda, é verdade que os níveis brasileiros são muito altos. No auge do endividamento das famílias americanas em 2007, o comprometimento da renda nos EUA alcançou 15%, nada comparável aos nossos 22%. Contudo, parte da razão para a fatia da renda que se destina às dívidas são os elevadíssimos juros brasileiros. Com a perspectiva de que caiam para patamares mais “normais”, é razoável esperar uma reversão desse indicador que tanto assusta. Adicionalmente, o prazo médio do endividamento das famílias brasileiras é muito menor do que nos países maduros. Isso significa que dívidas contraídas são amortizadas mais rápido, contribuindo para sustentar o consumo.

Nada disso significa que devamos ser complacentes com o consumo turbinado por crédito farto e barato. Mas daí a dizer que o modelo está esgotado, é preciso um salto quântico, ou um ato de fé, ou muita ingenuidade.

22/05/2012 - 08:58h Pacote pró-PIB quer ampliar consumo e investimento

Por João Villaverde, Ribamar Oliveira, Mônica Izaguirre e Lucas Marchesini | VALOR

De Brasília

Como reação ao fraco desempenho da economia no primeiro trimestre deste ano, o governo anunciou ontem um novo pacote de estímulo que pretende sustentar o crescimento do Brasil no momento de agravamento da crise europeia. As medidas preveem redução da alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 2,5% a 1,5% em todas as operações de crédito ao consumidor, diminuição das alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) incidente nos carros e demais veículos automotores, e uma liberação de R$ 18 bilhões em compulsórios.

O pacote, que implica renúncia fiscal de R$ 2,7 bilhões, prevê também menores taxas de juros para a aquisição de bens de capitais e caminhões e ônibus nos financiamentos concedidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Para tornar possível a ampliação de crédito para a compra de veículos, o Banco Central promoveu uma redução direcionada dos depósitos compulsórios que os bancos são obrigados a fazer na autoridade monetária. Os recursos só podem ser usados no financiamento de automóveis e de veículos comerciais leves, e o montante de R$ 18 bilhões representa cerca de 10% do total de crédito concedido ao segmento.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou ontem que o IPI de carros com até mil cilindradas passa de 7% para zero (ou de 37% para 30%, para o caso de veículos importados). Os demais veículos terão reduções menores no IPI. O governo também reduziu as taxas de juros cobrados no Programa de Sustentação do Investimento (PSI) do BNDES (ver tabela).

Além disso, o governo reduziu de 2,5% a 1,5% a alíquota do IOF que incide sobre todas as operações de crédito à pessoa física no país. A medida foi antecipada pelo Valor na sexta-feira. Com IOF de 1,5% sobre o crédito, o governo recuou ao nível verificado até abril do ano passado, quando o aperto monetário estava a pleno vapor. A queda do IOF implica redução da arrecadação do governo. Conforme o ministro, a estimativa é de que deixem de ser arrecadados R$ 900 milhões até 31 de agosto.

“Se faltar crédito a qualquer setor da economia, vamos procurar liberar”, enfatizou Mantega, para quem as medidas não vão ampliar o endividamento das famílias. “A renda continua aumentando, a massa salarial continua crescendo e isso significa maior capacidade de consumo”, afirmou o ministro. “O que se vai fazer é redução dos preços, o custo do financiamento e ampliar o prazo para pagamentos dos empréstimos. A gradação das medidas foi feita para que não haja excesso de endividamento”, disse.

Quando questionado se as medidas não iriam aquecer a economia e inflacionar os preços, Mantega reagiu dizendo que “isso [o pacote de estímulos] vai dar é deflação, e não inflação. E como a economia está em ritmo mais lento, ela pode aquecer sem pressão inflacionária”, afirmou.

O ministro da Fazenda disse que as medidas anunciadas ontem foram negociadas com os empresários e os banqueiros. “O governo, o setor privado e o setor financeiro assumiram o compromisso de reduzir o custo dos produtos e facilitar o seu financiamento”, informou. Segundo Mantega, “cada um vai fazer a sua parte”: o governo reduzirá os tributos, a indústria automobilística reduzirá os preços dos veículos e os bancos se comprometeram a reduzir os juros dos empréstimos, aumentar as prestações e reduzir o valor da entrada.

Os representantes dos bancos não foram à entrevista do ministro, embora as duas fileiras do auditório estivessem reservadas para os empresários e banqueiros. “Ninguém foi convidado. Veio quem quis”, avisou Mantega. Além dos empresários e de Mantega, participaram do anúncio o ministro Fernando Pimentel, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic), e o presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

Mantega informou também que estuda uma nova linha de financiamento para o setor de materiais de construção. Embora esse setor esteja crescendo 5%, os empresários reclamam do excesso de burocracia para acessar o crédito atualmente existente, do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para construção civil. “O setor disse que essa linha tem muitas condicionalidades e é muito complicado conseguir crédito nela”, disse Mantega. “A linha é boa, mas não tem como pegar”, afirmou o ministro.

Indústria planeja desovar estoques e retomar produção

Por De Brasília

Os novos estímulos à indústria automobilística concedidos ontem pelo governo vão servir para reduzir os elevados estoques acumulados pelas montadoras e, com isso, reforçar a produção de veículos. Essa é a avaliação de Cledorvino Belini, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e da Fiat. “As montadoras vão aproveitar essa oportunidade dada pelo governo para vender esses veículos dos estoques”, disse.

As montadoras acumulam pouco mais de 360 mil veículos em estoque, nível equivalente a 45 dias, em média, de vendas. Em alguns casos, segundo a Anfavea, esses estoques representam 48 dias de vendas. “Esse patamar muito elevado será reduzido com essas medidas”, reforçou Belini, que citou como causas para a formação dos estoques nos pátios das montadoras a dificuldade encontrada pelos consumidores nos bancos.

Belini garantiu que, a partir de hoje, os veículos custarão menos ao consumidor. Os automóveis de até mil cilindradas (1.0) ficarão 10% mais baratos, após o corte de 2,5% na lista de preços das montadoras e a redução de sete pontos percentuais na alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Já os veículos entre mil e 2 mil cilindradas (2.0) ficarão cerca de 7% mais baratos. As picapes (veículos comerciais leves) custarão cerca de 4% menos.

Além disso, os fabricantes de caminhões e ônibus terão um estímulo “muito forte”, segundo Belini, com a redução nas taxas de juros cobradas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciou que o BNDES cortará essas taxas de 7,7% ao ano para 5,5% ao ano.

Questionado pelo Valor sobre a disposição dos consumidores em continuar adquirindo veículos, Belini destacou que “ainda há um grande espaço para ‘motorização’ no Brasil”. “Temos um veículo para cada sete brasileiros, enquanto na Argentina essa relação é menor, um veículo para cada cinco habitantes, e nos Estados Unidos é de um veículo a cada 1,5 americano.”

Para o consultor Francisco Trivelato, os cortes no IPI, as medidas para liberar o crédito e a redução de juros nos financiamentos podem salvar o ano da indústria automobilística, ao criar uma nova motivação para a compra de carros. “É o empurrão que faltava.”

O consultor Luiz Carlos Mello questiona a necessidade do novo pacote para um mercado que, por si só, já começava a se ajustar. Segundo ele, a redução do IPI vem para substituir um desconto que já estava sendo dado pelas montadoras. O resultado, portanto, é um alívio nas margens da indústria, mas um benefício praticamente nulo ao consumidor. (RO e JV, com Eduardo Laguna, de São Paulo)

27/04/2012 - 02:24h Mesmo com economia fraca, renda real tem forte avanço

Por Arícia Martins | VALOR

De São Paulo

Apesar da redução no ritmo de crescimento da economia, a renda real dos trabalhadores continua crescendo vigorosamente e será fator decisivo para uma recuperação robusta nos próximos meses. Em março, avançou 1,6% sobre fevereiro e 5,6% em relação ao mesmo mês de 2011. A demanda aquecida ainda empurra para o alto os preços dos serviços, que sobem há bastante tempo acima da inflação e podem exercer pressão de alta no futuro sobre os índices bem comportados do último trimestre. A inflação de serviços continua por volta dos 9%.

A renda média real nas seis principais regiões metropolitanas do país alcançou R$ 1.728,40 em março, a mais alta da série histórica iniciada pelo IBGE em 2002. Para economistas, o forte crescimento da renda real em março não reflete apenas o aumento de 14% do salário mínimo, mas também um cenário ainda favorável aos reajustes, que não estão sendo inibidos pela ameaça de perda do emprego.

Os setores com maior ganho de renda também são aqueles com menor desemprego. Na construção civil, a renda real subiu 9,2% e nos serviços domésticos, 8,4%. No segmento “outros serviços” – no qual têm peso relevante serviços pessoais – a renda saltou 9,7%, maior variação entre os sete ramos pesquisados.

Nesses três segmentos da economia, diz Fabio Romão, da LCA Consultores, o salário mínimo tem alto poder de indexação, mas, sobretudo na construção e nos serviços domésticos, a escassez de mão de obra é o que impulsiona a renda. “O poder de barganha do trabalhador está muito forte”, afirma Fernanda Consorte, economista do Santander. Mesmo que o primeiro trimestre não concentre grande número de negociações salariais, os reajustes concedidos no início do ano superaram a inflação. Em sua projeção, a renda real dos trabalhadores vai crescer 6,5% no ano, mais que o dobro de 2011.

Fabio Ramos, da Quest Investimentos, revisou de 2,5% para 4,5% sua estimativa para o aumento dos salários reais em 2012. Neste momento, diz o economista, o maior poder de compra está se transformando em consumo de bens semiduráveis e não duráveis – como alimentos e vestuário – devido ao endividamento do consumidor. Na segunda metade do ano, ele prevê maior expansão do crédito, que irá acelerar também as vendas de duráveis e o ritmo da atividade econômica. Em relatório, a equipe econômica do HSBC aponta que o “impressionante crescimento dos salários reais ainda evidencia os riscos de inflação”.

Salário em serviços sobe 10% acima da inflação

A renda real dos trabalhadores cresceu forte em março – 1,6% sobre fevereiro e 5,6% sobre igual mês de 2011. O resultado veio acima do esperado e reforçou preocupações quanto à inflação, mas deve ajudar o consumo. Para economistas consultados pelo Valor, o forte crescimento da renda real em março não reflete apenas o aumento de 14% do mínimo, mas principalmente uma conjuntura ainda favorável a reajustes salariais robustos, cenário que deve se manter ao longo do ano e ajudar na recuperação da atividade econômica. Por outro lado, ponderam eles, a demanda aquecida seguirá como fator de pressão sobre a inflação de serviços – setor que puxou a escalada dos rendimentos.

Na passagem de fevereiro para março, o rendimento médio real nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) subiu 1,6%, maior aumento mensal desde julho de 2011. Ele atingiu R$ 1.728,40, valor mais alto para todos os meses da série histórica da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), iniciada em 2002.

Na comparação com março do ano passado, o avanço foi ainda mais intenso, de 5,6%, influenciado por serviços e construção civil. No segmento outros serviços – no qual têm peso relevante serviços pessoais – a renda saltou 9,7%, maior variação entre os sete ramos de atividade pesquisados, seguido de perto pela construção (9,2%) e serviços domésticos (8,4).

Nesses três ramos da economia, explica Fabio Romão, da LCA Consultores, o mínimo tem um alto poder de indexação, mas, especialmente na construção e nos serviços domésticos, a escassez de mão de obra é o que está turbinando os ganhos dos profissionais. “O setor da construção civil é o pior dos mundos para quem está pagando. Falta mão de obra treinada em um setor muito dinâmico”, diz. Nos serviços pessoais, acrescenta o economista, a procura continua firme, sustentada pela renda crescente, o que também acaba por melhorar os rendimentos. ” Em alguns casos, esses serviços nem sentiram a desaceleração da atividade.”

Os setores com maior ganho de renda no último ano também são aqueles com menor taxa de desemprego. Na construção, a taxa de desemprego passou de 3,7% para 3,1% entre março do ano passado e março deste ano, enquanto para o emprego doméstico a taxa está hoje em 2,5%, e para trabalhadores em serviços ela é de 3,2%.

Na indústria, que atravessa um momento de estagnação, a alta anual da renda é um pouco maior, de 5,5%, mas na comparação com fevereiro, a alta é de apenas 0,2% (bem inferior à média de 1,6%). Romão não vê o ganho anual como tendência, já que a produção segue andando de lado. Em março, segundo o IBGE, o número de ocupados nas fábricas ans seis regiões metropolitanas cresceu 1,9% sobre igual mês de 2011, acima da média de 1,6%.

“O poder de barganha do trabalhador está muito alto”, afirma Fernanda Consorte, economista do Santander. Apesar deste primeiro trimestre não concentrar um grande número de negociações salariais, diz a analista, os reajustes já concedidos no começo do ano acompanhados por ela superaram a inflação. Em sua projeção, a renda real dos trabalhadores vai crescer 6,5% este ano, mais que o dobro do ano passado, com do mínimo.

A LCA estima que o ganho real dos trabalhadores vai crescer 3,8% em 2012, um ponto percentual acima do observado em 2011. O aumento do mínimo tem papel importante nesse cenário, avalia Romão, assim como a perda de fôlego da inflação, que, além de impulsionar o poder de compra, facilita as negociações salariais.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), usado como base para corrigir os salários, acumulou alta de 4,97% nos 12 meses encerrados em março e vem recuando desde setembro de 2011, quando atingiu seu pico de 7,3%. “Quanto menor a inflação acumulada em 12 meses, maiores são as possibilidades de se obter ganho real”, diz Romão, para quem a própria taxa de desemprego baixa joga a favor dos trabalhadores.

A desocupação subiu de 5,7% para 6,2% entre fevereiro e março, mas, para os economistas, ainda é muito baixa, o que abre espaço para reajustes salariais maiores. A taxa de desemprego ainda é a menor para os meses de março desde 2002. Parte do aumento do desemprego entre fevereiro e março decorreu do aumento do contingente que decidiu procurar emprego – no mês, 156 mil pessoas entraram na População Economicamente Ativa (PEA), dos quais 35 mil conseguiram uma ocupação e os demais aumentaram o número de desempregados.

Para Rafael Bacciotti, da Tendências, o aumento do mínimo, concedido em janeiro, pode ter surtido impacto maior na renda apenas em março. “O efeito do reajuste do mínimo pode ter alguma defasagem, entrando tanto no começo, como no fim do trimestre, dependendo da forma como são negociados os salários, formal ou informalmente”, explica.

Após conhecer os dados de março, Fabio Ramos, da Quest Investimentos, revisou de 2,5% para 4,5% sua estimativa para o aumento dos salários reais em 2012. Neste momento, observa Ramos, o poder de compra maior está se transformando em consumo de bens semi e não duráveis – como alimentos e vestuário, por exemplo – devido ao alto endividamento do consumidor. Na segunda metade do ano, porém, está no radar do analista um crescimento maior do crédito, que irá acelerar as vendas de duráveis e, consequentemente, o ritmo da atividade econômica.

Segundo Romão, da LCA, a trajetória de alta da renda deve ajudar a “tirar as pessoas de uma situação complicada” em uma conjuntura da inadimplência ainda elevada, e, em um segundo momento, incentivar o consumo. “Isso reforça nossa projeção de aceleração do PIB [Produto Interno Bruto] na segunda metade do ano”, diz.

Se, por um lado, o aumento real da renda estimula a atividade, não dá refresco à inflação de serviços, que continua rodando na casa dos 9% em 12 meses. Mesmo com um primeiro trimestre tranquilo para o IPCA, diz Ramos, da Quest, “não há tentação nenhuma” em revisar projeções de inflação para baixo devido à resiliência dos serviços.

Em relatório, a equipe econômica do HSBC aponta que o “impressionante crescimento dos salários reais ainda evidencia os riscos de inflação alimentada por salários no Brasil” e, ao mesmo tempo, deve seguir sustentando a expansão da demanda doméstica.


Priscila Cruz: “A família se dá conta que educação é importante para a manutenção na classe média e até para subir de classe”

Renda faz família trocar escola pública pela privada

As escolas públicas brasileiras, principalmente nos níveis fundamental e médio, estão perdendo espaço para os colégios particulares. Nos últimos dez anos, a educação básica municipal, estadual e federal, perdeu um total de 4,834 milhões de estudantes, enquanto o ensino privado ganhou 1,090 milhão de matrículas.

De acordo com levantamento feito pelo Valor, na média calculada de 2002 a 2011 o setor público perdeu 480 mil matrículas por ano e o mercado educacional privado arrebanhou cerca de 110 mil novos alunos anualmente. Especialistas em educação arriscam várias hipóteses para explicar o ocorrido.

Uma das análises mais plausíveis é o crescimento econômico do país associado ao aumento da renda, o que estimula famílias que ascenderam socialmente a tirar seus filhos da escola pública e colocá-los na particular.

Para Priscila Cruz, diretora-executiva do Movimento Todos pela Educação, a nova classe média brasileira cria um movimento de migração na educação. “É uma nova fronteira de classe. Há um consumo maior, a família compra um carro, passa a comer mais fora. Depois disso passa a aspirar mais coisas, como o ensino particular. Ela se dá conta que educação é importante para a manutenção na classe média e até para subir de classe”, avalia.

Em dez anos, os maiores movimentos de aumento de matrículas nas escolas particulares e de perda exponencial de alunos nas públicas coincidem com os anos em que a economia brasileira mais cresceu. O Produto Interno Bruto (PIB) avançou acima de 6% de 2007 para 2008, período em que os colégios privados matricularam 700 mil alunos e os públicos perderam cerca de 500 mil. Em 2010, quando o PIB cresceu 7,5%, a maior alta em 24 anos, o país registrou 400 mil novas matrículas no ensino privado e quase 1 milhão de baixas nas escolas públicas.

O economista Naercio Menezes Filho, coordenador da área de políticas públicas do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), afirma que os números refletem “uma lógica natural”: “O fato é que se a família tem ganho de renda prefere matricular o filho na escola privada. É a preferência revelada, escolhe porque acha melhor.”

Embora a mais recente Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE, referente a 2008 e 2009, aponte redução da participação dos gastos com educação nas despesas mensais médias das famílias brasileiras, Menezes Filho pondera que é preciso isolar algumas variáveis para verificar exatamente os aumentos por grupos de despesas. “A família que gasta zero com educação interefere na média final, sem falar que a média é composta por outras variáveis. Se uma família gasta mais com alimentação e transporte do que com educação, isso acaba concorrendo com as despesas de ensino na média.”

Além do fator econômico, a questão demográfica explica parte da perda de matrículas – em 2002, estavam matriculados 54,7 milhões de alunos até o ensino médio, número que caiu para 50,9 milhões em 2011, considerando escolas públicas e privadas. O IBGE projeta queda de 20% da população de 6 a 14 anos até 2022. Outro fator que explica a perda de matrículas no setor público é a correção do fluxo escolar, com menos crianças na escola com distorção de idade, informa o Ministério da Educação (MEC), no documento “Resumo Técnico do Censo Escolar da Educação Básica 2011″, divulgado nesta semana.

Por outro lado, a percepção de que a qualidade do ensino público não vai bem pode influenciar migrações. Mas essa percepção pode ser um mito, diz Priscila. “É importante sinalizar que boa parte dos colégios privados tem resultado de escola pública. O que vemos é um novo mercado crescendo e é importante o governo ficar de olho, afinar a regulação.”

O economista Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann, pondera que seria importante conhecer a realidade socioeconômica dos alunos antes de tirar qualquer conclusão. “As pessoas das classes C e D provavelmente estão indo para escolas privadas não tão boas. Mas, sem dúvida, esse aumento reflete uma maior importância da pauta educação no Brasil.”

26/04/2012 - 17:40h Classes A e B são nova aposta no Brasil, diz ‘Financial Times’

26 de abril de 2012

Sílvio Guedes Crespo – Blog do estado.com.br

Depois do forte crescimento da chamada “nova classe média” no Brasil, agora é a vez de os estratos A e B chamarem atenção de empresas nacionais e estrangeiras, segundo uma reportagem do Financial Times.

A classe C, definida nesse contexto como as famílias com renda mensal entre R$ 1,734 e R$ 7.475, cresceu 60% entre 2003 e 2010 e deve aumentar mais 12% até 2014, segundo o economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Bargas.

“Mas mais impressionante será o crescimento das classes A e B”, diz o FT. O perfil das pessoas desse grupo, no qual a renda familiar é maior que R$ 7.475, é mais parecido com o que os países ricos chamam de classe média e alta, observa o jornal.

No Brasil, o número de pessoas na camada A/B deve chegar a 29 milhões em 2013, o dobro do que havia em 2002, segundo Neri. A expectativa é de que esse estrato cresça mais rapidamente nos próximos anos, relata o jornal.

BMW, Mercedes, Volkswagen e outros fabricantes de veículos são exemplos de empresas que tentam ganhar mercado nesse segmento, ao lançar modelos de ponta no País.

Mas outros itens também buscam esse nicho. O presidente da Chivas Brothers, que produz o uísque Chivas, disse ao FT que o Brasil está entre os três países que mais oferecem possibilidade de crescimento para a marca (os outros dois não são citados).

O gráfico abaixo, com o título “Brasil: uma sociedade em mutação”, foi publicado no site do FT. As colunas da esquerda mostram como as classes média e alta aumentaram nos últimos anos. No lado direito, a queda da desigualdade medida pelo índice de Gini.

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“Diferentemente da China e da Índia, a história de crescimento do Brasil tem mais a ver com a redistribuição de renda do que com rápida expansão econômica”, opina o diário.

‘Tsunami político’

As mudanças no plano econômico estão provocando alterações na política, segundo um analista do Eurasia Group, maior empresa do mundo de análise de risco político.

“Há um tsunami político vindo para o Brasil”, disse Chris Garman, diretor da companhia. Ele se refere ao advento de um eleitorado mais exigente, que cobra eficiência do governo. Segundo o analista, isso ajuda a explicar por que a presidente demitiu sete ministros após denúncias de corrupção.

“O crescimento do grupo de pessoas mais bem educadas e com mais poder econômico está mudando o tecido político e social brasileiro”, afirma o FT, com base na avaliação de especialistas.

09/04/2012 - 10:11h Classe D agora tem plano de saúde e seguro de vida

A vez da classe D


A empregada doméstica Miriam Nascimento Prates, que recentemente subiu na pirâmide social brasileira: “Um dia quero comprar uma casa com piscina, mas antes de tudo tenho a preocupação de manter meu atual padrão de vida”


Por Karin Sato e Letícia Casado | De São Paulo

Sônia Gonçalves diz que não sabe “como vai ser o amanhã”. Na dúvida, guarda uma parte do dinheiro que recebe por seu trabalho regular como faxineira em escritórios e pelos “bicos” em residências depois do expediente e em seu dia de folga. A poupança vai engordando, mas vez ou outra, quando “a situação aperta”, ela tira R$ 100 da caderneta para fechar o mês sem dívidas, “já que é complicado fazer poupança e pagar contas recebendo salário mínimo”.

Para fazer seu pé de meia, ela não pede assessoria ao gerente do banco, pois tem muito tempo “para pensar na vida e fazer contas” durante a hora que passa dentro do ônibus para cruzar São Paulo e chegar ao seu trabalho. “Guardo R$ 100, R$ 50, depende de quanto dá no mês”, conta Sônia. “Às vezes não dá, mas sempre tento guardar um pouco porque sei que não gasto mais do que ganho”.

A paulistana Sônia, 53 anos, faz parte de um grupo de 4,2 milhões de brasileiros acima de 18 anos pertencentes à classe D que diz ter “algum dinheiro guardado para eventuais imprevistos”, segundo dados levantados pelo instituto Data Popular a pedido do Valor. Esse grupo de 4,2 milhões representa 21% dos adultos da classe D que vivem em áreas urbanas.

A segurança financeira é o principal foco de 43,1% dessas pessoas, seguida por realizar um sonho de consumo (29,5%), compras à vista (17%) e investir e obter rendimento (10,4%). A estimativa foi feita com base na análise de dados obtidos em um estudo realizado no último trimestre de 2011 com cerca de 18 mil entrevistados de todos os estados brasileiros.

Mauro Halfeld, professor de Finanças da Universidade Federal do Paraná e autor de livros sobre investimentos, relata que sempre escutou questionamentos sobre como pessoas que ganham um salário mínimo conseguem economizar. “Conheço gente com renda mensal de R$ 40 mil que está sempre endividada e pessoas muito simples que fazem hora extra, trabalham nos fins de semana e conseguem economizar. É uma questão de disciplina”, diz.

A pesquisa do Data Popular ajuda, portanto, a desfazer o mito de que para poupar é preciso ganhar bem. Para Halfeld, o resultado do levantamento pode ser explicado pelo fato de as pessoas terem hoje mais acesso a informações sobre finanças pessoais. “Quase ninguém falava disso dez anos atrás”, afirma.

Assim como Sônia, a empregada doméstica Maria Aparecida da Silva, 42 anos, começou a poupar e foi longe: há cerca de dez anos, comprou uma casa em sua cidade natal, Jurema, em Pernambuco. Hoje tem um salário bruto de R$ 900, dos quais de R$ 200 a R$ 300 são direcionados mensalmente à caderneta de poupança. Seu objetivo é comprar uma segunda casa, desta vez em São Paulo. “Estou morando com a minha irmã, mas quero morar na minha própria casa”.

A dedicação em sua vida financeira é reflexo de seu esforço pessoal. Maria Aparecida, que passou a infância colhendo grãos de café, não sabia ler quando se mudou para São Paulo, em 1999. Um dia, começou a relacionar as letras e sílabas aos nomes dos personagens das novelas, na tentativa de ler revistas de celebridades. Foi quando percebeu que entendia algumas palavras. A patroa notou seu interesse e decidiu ajuda-lá. Um ano depois, estava lendo até dois livros por semana. Hoje, cursa a 7ª série do ensino fundamental. “Não imaginava que um dia aprenderia a ler ou que compraria uma casa”, relata Maria. “Por mais que ganhe pouco, consigo comprar muito do que quero”, acrescenta.

Uma pesquisa divulgada recentemente pela Cetelem BGN, empresa do grupo BNP Paribas, realizada em conjunto com a Ipsos Public Affairs, mostra que há um grupo de pessoas da classe D que administra suas finanças de maneira cautelosa e tem mais acesso a bens e serviços que antes eram privilégio apenas das classes mais altas, como planos de previdência privada e de saúde.

Marcelo Neri, pesquisador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que os “sonhos de consumo” da classe D são, basicamente, serviços de empresas privadas que podem substituir os serviços públicos de baixa qualidade. “O que é subir na vida para a classe D? É ter uma vida melhor não só em termos materiais, como também ter mais segurança”, diz Neri.

A pesquisa da Cetelem BGN, chamada O Observador 2012, mostra que as classes D e E gastaram, em novembro de 2011, R$ 59 com previdência privada (média por família), mais que a classe C (R$ 51). A cifra indica um avanço em relação a 2010, quando a classe D não investiu em previdência complementar. Houve também um aumento nos gastos com seguros, em igual período, que passaram de R$ 5 para R$ 21. O estudo foi feito com base em 1.500 entrevistas domiciliares com 334 famílias das classes A e B, 810 da classe C e 356 das classes D e E.

Segundo Marcelo Neri, da FGV, essas classes vêm sendo beneficiadas nos últimos anos pelo reajuste do salário mínimo. Neste ano, o consumo das classes D e E deve ser estimulado pelo aumento de 14,13% do mínimo.

O coordenador do Comitê do Critério Brasil na Abep (Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa), Luis Pilli, ressalta que a classe D constitui hoje 15,2% dos domicílios do país, porém nas capitais do Nordeste esse percentual sobe para cerca de 25%. “A típica família da classe D tem uma renda familiar que ronda os R$ 710, ainda direciona cerca de 30% do orçamento para alimentação, possui aparelho de televisão, geladeira, mas dificilmente tem um carro. Em parte desses lares, já há máquina de lavar”, diz.

A expectativa dos pesquisadores é de que a classe D, que desde 2005 tem diminuído de forma consistente, continue a recuar nos próximos anos, com o crescimento da chamada nova classe média, formada pela classe C.

Miriam Nascimento Prates, que trabalha desde os 15 anos de idade como empregada doméstica, é uma das brasileiras que recentemente subiu na pirâmide social. “De três anos para cá, minha vida melhorou, embora não do jeito que gostaria”, relata a faxineira de 43 anos, mãe de três filhos. “Pretendo montar meu próprio negócio, um restaurante”, diz.

Hoje, Miriam conta com uma renda bruta mensal de R$ 1,6 mil. Em sua casa própria, em um bairro da zona sul de São Paulo afastado da região central, há dois aparelhos de televisão, TV a cabo, máquina de lavar e um computador “que não funciona direito”.

Depois de 22 anos sem viajar “nem mesmo para o litoral sul de São Paulo”, Miriam relata emocionada que, em meados do ano passado, foi à Bahia. “Tenho muitos sonhos. Um dia, quero comprar uma casa com piscina. Mas, antes de tudo, tenho a preocupação em manter meu atual padrão de vida”, afirma.

Classe D agora tem plano de saúde e seguro de vida

Por Letícia Casado e Karin Sato | VALOR

De São Paulo

Até pouco tempo atrás, era impensável ver famílias da classe D contratando um plano de saúde ou uma empregada doméstica. Mas hoje isso já acontece. Elis de Oliveira, 36 anos, por exemplo, paga R$ 150 por mês para uma vizinha ajudá-la a cuidar de sua filha de dois anos. Ela trabalha seis vezes por semana limpando escritórios, ganha um salário mínimo e arca sozinha com gastos com a babá, já que é mãe solteira. A sorte, diz ela, é que não paga aluguel, porque mora na casa de sua mãe.

A população de baixa renda está gastando mais com itens antes acessíveis apenas às classes mais altas, revelam os dados da pesquisa do Cetelem BGN, braço do banco francês BNP Paribas. Por exemplo, em novembro de 2011, as famílias das classes D e E destinaram em média R$ 49 à assinatura de TV a cabo ante R$ 68 da classe C, R$ 300 para empregada doméstica ante R$ 114 da classe C, R$ 152 para combustível ante R$ 102, R$ 157 para educação ante R$ 171 e R$ 101 para convênio médico ante R$ 76.

O incremento da procura por esses serviços por parte de brasileiros da base da pirâmide está ligado ao aumento da renda da população e ao nível de empregabilidade no país, diz Luciana Aguiar, antropóloga e sócia-diretora da Plano CDE, consultoria que estuda a população de baixa renda. “A classe D com emprego formal deve estar pagando o seguro-médico junto com o patrão. Além disso, é comum também as famílias contratarem um plano quando um parente enfrenta problemas de saúde”, diz a executiva.

Ela conta a experiência que teve ao visitar uma família da classe D em Recife (PE). Na casa, moram quatro pessoas: pai, mãe e dois filhos, um deles com asma. “Eles contrataram um plano para o filho asmático. O outro, quando ficava doente, ia ao sistema público de saúde ou a clínicas de periferia, que cobram R$ 40 pela consulta, por exemplo”, relata. “Se o crescimento [da contratação de planos de saúde por famílias da classe D] está acontecendo, merece certo destaque. Esse público tem dificuldades de pagar as contas com certa recorrência”.

De fato, essa expansão está acontecendo. Segundo uma pesquisa do instituto Data Popular feita à pedido do Valor, estima-se que 4,4 milhões de pessoas da classe D possuam plano de assistência médica. O número corresponde a 9,3% dos brasileiros dessa camada social que vivem em áreas urbanas. As mulheres são a maioria, com 57,2%.

“O acesso aos empregos formais possibilitou à Classe D, através de planos empresariais, a contratação de seu primeiro plano de saúde, que na maioria das vezes, é direcionado aos filhos. Conhecendo as vantagens desse benefício, esse brasileiro faz propaganda para o vizinho, que hoje em dia já busca por planos populares com preços que caibam no seu bolso. Para ele, fugir da fila do SUS é um grande alívio”, explica Renato Meirelles, sócio-diretor do Data Popular.

Jorge Pinheiro, presidente da Hapvida, afirma que o mercado de seguros-saúde para classes populares está crescendo a passos largos: só no ano passado, a empresa ampliou a carteira de clientes em 21%. A operadora cearense, focada nas classes C e D e que possui forte presença nas regiões Norte e Nordeste, registrou um aumento de 15 mil para 85 mil clientes individuais somente na Bahia, entre 2010 e 2011.

O Grupo Bradesco Seguros também está investindo em produtos para a classe D. Por exemplo, o Primeira Proteção Bradesco, um seguro de vida por morte acidental com parcela mensal de R$ 3,50 lançado em janeiro de 2010, atingiu cerca de 1,5 milhão de apólices vendidas em março, dentre as quais 65% correspondem a indivíduos da classe C e 35% da classe D, explica Eugenio Velasques, diretor-executivo do Grupo Bradesco Seguros e presidente da Comissão de Microsseguros e Seguros Populares da Confederação Nacional das Empresas de Seguros Gerais (CNSeg).

Para desenvolver os produtos para a baixa renda, pesquisadores do Grupo Bradesco moraram em casas de famílias das favelas de Heliópolis, em São Paulo, e da Rocinha, no Rio de Janeiro, durante seis meses. Eles concluíram que o principal temor dos moradores desses locais era não ter dinheiro para pagar as contas (56%). Em segundo lugar, com 30%, ficou o medo de acidente que levasse à morte.

Velasques acredita que as famílias da classe D têm potencial para serem grandes consumidoras de microsseguros. “Estudos mostram que há uma forte correlação entre o crescimento do crédito e o consumo de seguros”, avalia. “Para a classe D, é muito importante proteger qualquer patrimônio e melhora de vida conquistados. Quanto maior tiver sido o esforço para conquistar, maior será a vontade de preservar”, diz.

A classe D também apela cada vez mais ao crédito. Um indício disso é que do total de unidades já entregues pelo Programa Minha Casa Minha Vida, 49,9% foi destinada a famílias com renda de até R$ 1 mil, segundo a Caixa Econômica Federal.

Anibal Fernandes, diretor-executivo da Rede Banorte, banco com forte atuação no Nordeste, relata que os empréstimos consignados para essa camada têm dobrado ano a ano na rede. No ano passado, 80% do volume emprestado foi direcionado a famílias com renda mensal inferior a R$ 1 mil. “Na maioria dos casos, trata-se do primeiro empréstimo”, diz. “Além disso, 50% desses tomadores adquiriram no banco seu primeiro cartão de crédito.”

Maria José da Conceição, 48 anos, moradora de Recife (PE), está entre esses tomadores de primeira viagem. “Tomei um empréstimo consignado no valor de R$ 2,5 mil para reformar minha casa. Estou muito feliz. As parcelas são de cerca de R$ 150 e consigo pagar com o que recebo das faxinas que faço de segunda a sexta. Aos sábados e domingos, lavo carros”, conta.

07/03/2012 - 09:02h Consumo deve se manter como motor da economia em 2012

Por Tainara Machado e Arícia Martins | VALOR

De São Paulo

A retomada do consumo das famílias no último trimestre de 2011 foi importante para impedir nova estagnação do Produto Interno Bruto (PIB) no período e deve continuar a puxar a economia nos primeiros trimestres deste ano. Os economistas esperam alta entre 0,7% e 1% para o PIB do primeiro trimestre deste ano em relação ao último trimestre do ano passado.

Para uma parte dos economistas, o consumo será, de novo, o principal vetor de crescimento no início e ao longo de 2012, o que pode exigir mais atenção da política monetária. No entanto, outros analistas consultados pelo Valor avaliam que, se a intenção é ter atividade mais robusta neste ano, não é possível depender apenas da demanda das famílias e do dia a dia das empresas – é necessário que o investimento entre na conta.

No terceiro trimestre, o consumo das famílias caiu 0,1% em relação aos três meses imediatamente anteriores, feitos os ajustes sazonais, como resultado do aperto de crédito promovido pelo Banco Central (BC) com a implementação de medidas macroprudenciais no fim de 2010 e alta da taxa básica de juros no início de 2011.

Com a reversão de parte dessas medidas e estímulos adicionais como a desoneração tributária de itens da linha branca, no quarto trimestre este componente voltou a registrar forte alta de 1,1%. Para Fernanda Consorte, economista do Santander, no primeiro trimestre do ano continuará a ser visível a liderança do serviços e do consumo no crescimento da economia, período para o qual ela espera alta de 0,8% do PIB em relação aos últimos três meses de 2011.

José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, enxerga uma dinâmica diferente ao longo do ano. Para ele, o crescimento será sustentado pelo consumo nos primeiros meses do ano, mas não vai se acelerar para uma alta superior a 5% porque o incentivo à demanda por parte das famílias esbarra em alguns limites, como a expectativa de menor crescimento da massa salarial, já que a taxa de desemprego está em níveis muito baixos, e o aumento do endividamento, por exemplo.

Além disso, sustenta ele, o crescimento de 4,1% do consumo das famílias no ano passado deixa evidente que uma parte considerável da demanda não foi atendida pela produção doméstica. O PIB industrial subiu 1,6% em 2011 e a indústria de transformação quase não cresceu, com alta de apenas 0,1%.

Por isso, argumenta Lima Gonçalves, estímulos adicionais ao consumo não devem ser considerados uma saída alternativa para adicionar dinamismo à economia doméstica em 2012. “Não acho possível crescer 1% por trimestre com base em serviços e consumo. Diante do câmbio atual, com o real valorizado, as importações vão aumentar, mas não haverá acréscimo dos pedidos por bens produzidos internamente”, afirma.

O economista-chefe do Banco J. Safra, Carlos Kawall, considera que a retomada da economia será lenta ao longo de 2012 e também sugere que a capacidade de consumo adicional por parte das famílias está próxima de um esgotamento. “As medidas macroprudenciais foram importantes para conter a demanda no ano passado, mas estamos em um momento em que o endividamento encostou no teto e o comprometimento da renda está aumentando. É uma ressaca do crédito à pessoa física que se expandiu com vigor nos últimos anos”, afirmou.

Para ele, a qualidade do crescimento preocupa. Apesar do aumento da demanda, bens comercializáveis têm sido substituídos por importados, o que provoca a estagnação da produção industrial. No caso do setor de serviços, em que não há essa possibilidade, o crescimento é menos volátil e contribui para sustentar o produto pela ótica da oferta.

Em 2011, o consumo das famílias cresceu 4,1% frente a 2010, acima da alta de 2,7% do PIB. Segundo o coordenador de contas nacionais do IBGE, Roberto Olinto, o que sustentou a alta na demanda das famílias foram as elevações na massa salarial real e no saldo de operações de crédito do sistema financeiro com recursos livres para pessoas físicas. (Com Juliana Ennes e Diogo Martins, do Rio)

07/03/2012 - 08:38h Seu Beto, pedreiro, dobra renda mensal e tem fila de fregueses

Por Rodrigo Pedroso | VALOR

De São Paulo

SÃO PAULO – O crescimento modesto de 2,7% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2011 embute variações mais positivas em alguns setores. Para quem esteve diretamente ligado ao consumo e à construção civil – setores em que a atividade teve alta superior a 3,5% no ano passado -, não houve motivo para reclamar.

Há 15 anos sem trabalhar com carteira assinada, o pedreiro José Miranda Campos não viu nenhum sinal de desaceleração em 2011 em relação ao ano anterior. Autônomo por opção, dobrou a renda mensal nos últimos 12 meses por dois fatores principais: a forte demanda por seus serviços e o crescimento da procura de reformas mais elaboradas por parte dos clientes.

“Foi um ano ótimo. Se antes eu tirava uma média de R$ 2 mil por mês, no ano passado ganhei por volta de R$ 4 mil, às vezes até mais”, diz. Segundo ele, é mais rentável trabalhar por conta própria. “Se quisesse, poderia trabalhar para alguma construtora, não falta emprego nessa área. Mas ganharia R$ 1,5 mil e ainda teria patrão.”

A situação de Seu Beto, como Campos é mais conhecido, foi registrada pelo Índice Nacional da Construção Civil (INCC), da Fundação Getulio Vargas (FGV), em 2011. Puxado pelo aumento no custo da mão de obra e forte demanda no setor, o indicador fechou o ano com alta de 7,48%. No resultado do PIB divulgado pelo IBGE, a indústria da construção civil cresceu 3,6%.

A dificuldade em encontrar mão de obra, uma das maiores reclamações dos empresários do setor, também foi sentida pelo pedreiro, que trabalha geralmente com mais três ajudantes. “Eu pagava R$ 40 por dia para cada um, mas no ano passado tive que aumentar para R$ 70, por causa da concorrência”, afirma.

O ritmo menor de crescimento da economia também passou longe, ao que parece, dos clientes, que tiveram que pagar o aumento no serviço contratado. De um ano para o outro, o preço cobrado por Seu Beto para fazer uma reforma dobrou. Ainda assim, ele tem uma fila de espera de quatro obras para tocar, depois que acabar aquela em que está trabalhando no momento, na zona norte de São Paulo.

Não bastasse isso, conta que foi obrigado a dispensar mais dois orçamentos nos últimos meses. “Até terminar os serviços que estão na fila e começar mais essas reformas iria demorar muito. Antigamente, eu fazia um serviço e ficava esperando o telefone tocar. Hoje, estou com dificuldade até em achar gente para me ajudar. A maioria quer trabalhar por conta própria.”

A prosperidade alcançada durante o ano foi revertida em consumo, o que também aparece no quadro geral. O componente teve o segundo maior crescimento dentro do PIB, com aumento de 4,1% em relação a 2010. Geladeira, televisão, máquina de lavar, computador e celular para o filho adolescente, além de uma reforma na casa, foram as principais compras do pedreiro, que traça planos para este ano.

“Dei entrada em tudo e pago em prestações, mas o principal foi a reforma. Minha casa ficou uma belezinha. Agora vou ver se compro uma televisão de LCD para a sala e um carro”, diz Seu Beto.

A previsão do Banco Central para este ano é de crescimento da atividade econômica em 3,5%, uma perspectiva que já foi incorporada pelo pedreiro. “A tendência é aumentar a procura pelos meus serviços, o quanto ganho e o quanto cobro. E do jeito que começou este ano, isso deve acontecer.”

Para economistas consultados pelo Valor, existe um problema nessa dinâmica: o aumento do consumo não tem como contrapartida a alta da produção de bens industriais.

(Rodrigo Pedroso | Valor)



Mantega promete mais medidas para incentivar a retomada do crescimento


Guido Mantega:. “Não há nenhum risco de o real se desvalorizar, prejudicando as exportações brasileiras”


Por Edna Simão e João Villaverde | VALOR

De Brasília

Depois do fraco crescimento econômico de 2,7% registrado no ano passado, o governo promete adotar novas medidas de incentivo fiscal e cambiais para alavancar a indústria de transformação, que cresceu apenas 0,1% entre 2010 e 2011. O objetivo do ministro da Fazenda, Guido Mantega, é cumprir a meta de 4,5% para o avanço do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, como deseja a presidente Dilma Rousseff.

Ele explicou ontem, em entrevista coletiva na sede do ministério, que mesmo fraco o desempenho do PIB em 2011 foi satisfatório, considerando a deterioração da economia internacional. Não fosse o agravamento da crise mundial, o avanço do PIB teria sido mais próximo a 4% do que dos 3%, avalia Mantega.

Segundo ele, a adoção de medidas de incentivos fiscais será necessária para estimular a indústria, que deu no ano passado a menor contribuição para o crescimento do PIB. Nos meses de novembro e dezembro, o ministro disse que já foi identificada uma ligeira retomada da economia, porém, uma aceleração maior se dará apenas no segundo semestre. Além dos estímulos, o governo aposta no fortalecimento dos investimentos públicos, represados em 2011, para reanimar a economia neste ano.

“Outras medidas não estão prontas para serem anunciadas, mas a tendência é que ao longo do ano nós vamos fazendo medidas que forem necessárias para estimular investimento e o setor industrial. O setor industrial como um todo precisa de alguns estímulos e eles serão dados”, destacou.

Além disso, o governo poderá ainda utilizar um “arsenal infinito” de medidas cambiais. “Não há nenhum risco de o real se desvalorizar, prejudicando as exportações brasileiras. Esse é um dos campos de sua atuação mais importante do governo. Vamos manter um real menos desvalorizado que é o que interessa para economia brasileira”, disse o ministro.

Sem mencionar as possíveis medidas, Mantega reforçou que não permitirá que haja um grande ingresso de capitais que vêm em busca de especulação e arbitragem – investidores que tomam crédito em um país de juro baixo para aplicar em outro que paga uma taxa mais elevada para ampliar a rentabilidade. “Nós vamos coibir essas operações. Vamos enfrentar esse excesso de liquidez e nós vamos manter o real desvalorizado com um arsenal de medidas que nós temos pela frente”, explicou.

O ministro contou, por exemplo, que pode ampliar a atuação do governo tanto no mercado futuro quanto no à vista. “Temos atuado nesses mercados e podemos ampliar nossa atuação em larga escala. Não há nenhum risco de o real se desvalorizar prejudicando as exportações brasileiras.”

A forte entrada de dólares no país, por conta das elevadas taxas de juros, e a solidez da economia, fazem com que o real se valorize com relação ao dólar prejudicando, principalmente, a indústria. Mantega afirmou que, no que diz respeito à política monetária, o país está na “direção correta”.

Desde agosto, o BC vem cortando a taxa básica de juros (Selic) para estimular a economia brasileira e a tendência é de que um novo corte – 0,5 ou 0,75 pontos percentuais – seja feito hoje na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Mas o ministro não quis especular sobre novos cortes. Disse, no entanto, que os preços no país estão comportados. “Se confirmada a desaceleração da economia internacional e da China, nós poderemos ter uma redução dos preços das commodities. O risco hoje não é tanto de inflação, mas de deflação dos preços de commodities. Do ponto de vista inflacionário não há maiores desafios. A inflação está sob controle e pode tender a cair mais no âmbito internacional”, ponderou o ministro, acrescentando que o aumento dos preços do petróleo afetam o país, porém em intensidade menor que em outras economias.

Sobre a possibilidade de mudança na rentabilidade da caderneta de poupança por conta da redução gradual da Selic no país, Mantega afirmou que, pelo menos por enquanto, não há motivos para isso. A queda dos juros faz com que as aplicações na caderneta se torne um investimento mais rentável que os fundos de renda fixa.

29/02/2012 - 08:26h Consumo de famílias deve crescer 13,5 % este ano

Estudo do Ibope revela que desembolso de famílias com cesta de 22 produtos e serviços pode chegar a R$ 1,3 trilhão, após ter crescido 10,5% em 2011
28 de fevereiro de 2012

Márcia De Chiara, de O Estado de S. Paulo

SÃO PAULO – O consumo deve continuar a ser o motor da economia em 2012. A expectativa é de que os brasileiros gastem neste ano R$ 1,3 trilhão com uma cesta de 21 famílias de produtos e serviços que representam 30% do Produto Interno Bruto (PIB). A cifra é 13,5% maior que a obtida em 2011, segundo as projeções feitas com base no banco de dados Pyxis Consumo, do Ibope Inteligência. Em 2011, o crescimento do consumo foi de 10,5%.

O pano de fundo para sustentar esse ritmo acelerado de crescimento, diz o diretor do Ibope Inteligência, Antônio Carlos Ruótolo, é a manutenção do pleno emprego, os ganhos de renda e a ascensão da população para a classe C, a nova classe média. Ele diz que este último fator já teve mais importância na ida dos brasileiros às compras e hoje a confiança na manutenção do emprego e a alta na renda pesam mais.

“A próxima revolução do consumo deve ocorrer dentro de dois a três anos, quando a classe C ascender para a classe B”, prevê o especialista. Ele explica que as projeções atuais foram feitas usando dados primários de pesquisas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), atualizados com informações de empresas e outras bases de dados, como análises setoriais.

Cigarros. A radiografia do consumo exibida pela pesquisa revela dados surpreendentes. A classe C, por exemplo, com renda média familiar de R$ 1.570, segundo critérios da Associação Brasileira das Empresas de Pesquisa (Abep), responde pela metade das vendas de cigarros de todo o território nacional.

Entre os dez grupos de produtos e serviços mais importantes para o consumo dessas famílias, nove são de itens básicos, carnes e derivados, produtos de mercearia, matinais e outros alimentos. Apenas a compra de telefones celulares está fora desse rol. “Isso mostra que a classe C não está consumindo produtos sofisticados”, ressalta Ruótulo.

Já a classe A, com renda média mensal familiar de R$ 10,4 mil, compra um de cada quatro automóveis vendidos no País e consome 25,7% dos produtos financeiros, que incluem financiamentos, previdência e seguros.

De acordo com a pesquisa, quase 60% das compras de combustíveis e de produtos ligados à educação são feitas pela classe B, que tem renda média de R$ 3,8 mil. Também o gasto com produtos financeiros desse estrato social é significativo. Essa classe responde pela metade do desembolso com serviços financeiros no País, que inclui juros de financiamentos, por exemplo.

Motor. Outro indicador de consumo, o Índice de Poder de Compra, calculado pela Tendências Consultoria Integrada, aponta para a mesma direção do estudo do Ibope Inteligência. Isto é, o indicador aponta um aumento de 5,2% neste ano.

Trata-se de uma taxa de crescimento ligeiramente acima da projeção feita para a massa de renda efetivamente recebida pelo trabalho, medida pelo IBGE, projetada para este ano em 4,8%. A projeção do Índice de Poder de Compra também supera a estimativa para o crescimento do PIB em 2012, que é de 3,2%. Em outros anos, o consumo já cresceu acima do PIB, lembra Ruótulo, do Ibope Inteligência.

17/02/2012 - 13:06h Inflação aponta para baixo e autoriza visão de Selic menor

Por Eduardo Campos | VALOR

De São Paulo

O mercado de juros futuros já trabalha com Selic pouco abaixo de 9,25%. São dois cortes de meio ponto percentual nas reuniões de março e abril do Comitê de Política Monetária (Copom) e um terceiro corte superior a 0,25 ponto no encontro de maio. Atualmente o juro básico está fixado em 10,5% ao ano.

Entre os vetores que dão suporte à formação dessas apostas de juros cadentes no mercado futuro está o comportamento da inflação corrente e a visão de que os preços não devem surpreender para cima no curto prazo.

Hoje, sai o Índice de Preços ao Consumidor Amplo -15 (IPCA-15) de fevereiro e a prévia da inflação oficial deve ficar entre 0,50% e 0,55%, contra 0,65% registrado em janeiro.

O sócio da Platina Investimentos, Marco Franklin, trabalha com variação menor, de 0,48%. E para o IPCA fechado do mês, a visão é de inflação em 0,35%. Se tal previsão for confirmada, a inflação oficial no acumulado em 12 meses sai dos atuais 6,22% para cerca de 5,7% a 5,8%.

De acordo com o especialista, o mercado pode ser surpreendido com uma inflação caindo mais forte e por mais tempo do que o estimado. “Devemos ver preços em baixa até agosto”, diz.

Pelas estimativas de Franklin, uma série de fatores deve levar o IPCA acumulado em 12 meses para algo entorno de 4,5% a 5%, no começo do segundo semestre. “O famoso 4,7% do modelo do Banco Central”, lembra.

No Relatório de Inflação do quarto trimestre, divulgado no fim de dezembro, o BC afirma que o cenário de referência (câmbio em R$ 1,80 e taxa Selic em 11,00%) projeta inflação de 6,5% em 2011 – como se confirmou -, e variação de 4,7% em 2012 e 2013.

Vejamos qual a dinâmica considerada por Franklin. Primeiro, se divide o ano em três quadrimestres. Os primeiros quatro meses de 2011 mostraram inflação média de 0,80%. No período, alimentação, energia elétrica e etanol subiram com força.

Agora, esses itens estão mais comportados e é possível estimar inflação média para os mesmos quatro meses ao redor de 0,50%.

Um ponto destacado por Franklin é a possibilidade de reajuste zero ou mesmo negativo nas tarifas de energia agora em 2012.

Umas das primeiras negociações, da Coelce, parte de queda de 10% no preço da energia. “Se isso for um bom indicador do que poderá acontecer em outras capitais, podemos ter surpresa positiva no lado da inflação”, diz.

Passando para o segundo quadrimestre (maio a agosto), sazonalmente a inflação já é menor. Não há concentração de reajustes de tarifas, nem pressão de entressafra de carne pesando sobre o grupo alimentação.

No ano passado, a inflação acumulada nesse período foi de 1,15%. E dada a dinâmica melhor desse ano é possível estimar variação entre 0,75% e 0,80%.

“Esses efeitos combinados devem levar a inflação em 12 meses para 4,5% a 5% em agosto”, diz Franklin, indicando que o cenário do BC pode se mostrar correto.

Avaliando, agora, o último quadrimestre do ano, Franklin não vê fatores com força suficiente para colocar o IPCA muito acima ou abaixo desses 4,5% a 5%.

Os condicionantes da análise são a continuidade de uma dinâmica favorável para o preço das commodities agrícolas (evento de elevada probabilidade) e a suposição de que a inflação de serviços não vai piorar ainda mais.

14/02/2012 - 08:22h Consumo voltou a puxar economia, dizem analistas

Aurélio Bicalho: recuo mais rápido dos juros de mercado teve efeito importante sobre os índices de confiança


Por Tainara Machado | VALOR

De São Paulo

A expectativa para a indústria é que 2012 seja melhor do que foi o ano passado, quando o setor amargou crescimento de apenas 0,3%. Ainda assim, é novamente o consumo que vai levar a atividade econômica a ganhar ritmo em 2012, segundo economistas consultados pelo Valor. Esse efeito, dizem, já poderá ser percebido no resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre de 2011 e mais ainda ao longo deste ano.

Para Aurélio Bicalho, economista do Itaú Unibanco, um impulso relevante ao consumo virá de três frentes. O mais importante é o aumento real de 7,5% do salário mínimo, mas a desoneração de produtos da linha branca, que deve vigorar até o fim de março, combinada à redução da Selic pelo Banco Central dá “condições positivas para o consumo no primeiro trimestre”, afirmou Bicalho. O economista ressalta ainda o recuo mais rápido dos juros de mercado, com efeito importante sobre os índices de confiança, que deram sinais de retomada neste início de ano.

Essa combinação deve trazer a inadimplência, que alcançou 7,3% em dezembro do ano passado, para baixo, abrindo caminho para que o consumidor continue a ser o motor da economia.

A expectativa dos analistas consultados pelo Valor é que o PIB pela ótica da demanda já seja mais positivo no quarto trimestre do que foi no terceiro trimestre do ano passado, quando a economia ficou estagnada. Naquele período, o setor externo deu a principal contribuição para que a atividade não fosse negativa. Na comparação com o segundo trimestre, na série com ajuste sazonal, o consumo das famílias, do governo e os investimentos recuaram 0,1%, 0,7% e 0,2%, respectivamente.

O consumo das famílias deve ser ponto importante dessa inversão. O economista-chefe do HSBC, André Loes, estima que a redução da inadimplência aliada às medidas de estímulo do governo, como o desmanche de parte das medidas macroprudenciais pelo BC, terá efeito considerável sobre o consumo, com expectativa de alta de 0,5% no último trimestre do ano passado, na comparação com o período imediatamente anterior, sempre com ajuste sazonal. Em 2012, diz Loes, esse efeito será potencializado, o que explica em parte sua projeção mais otimista do que a média do mercado para o crescimento deste ano, de 3,7%.

Para o Santander, o consumo das famílias deve ter crescido 0,8% no quarto trimestre de 2011. Fernanda Consorte, economista do banco, projeta que a alta do rendimento médio real nos últimos dois meses do ano passado deve ter turbinado esse resultado. Fernanda ainda projeta que o consumo do governo e o setor externo devem ter dado contribuições positivas, com expectativa de que o PIB no período tenha avançado 0,4%. A exceção, pelo lado da demanda, será o investimento, que deve continuar negativo, segundo a economista do Santander. Para ela, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF, a medida das contas nacionais do que se investe em máquinas e na construção civil) deve até piorar na passagem trimestral, passando de queda de 0,2% para menos 0,4%.

Bicalho, do Itaú, também ressalta que o investimento não deve ter reagido no quarto trimestre do ano passado e um dos indícios é a atividade industrial, que teve queda mais forte em outubro, na comparação com setembro. O segmento de bens de capital, por exemplo, registrou baixa de 1,8% na produção naquele mês. Assim, apesar do resultado positivo nos dois meses subsequentes, o PIB industrial no trimestre deve ter sido negativo, segundo o Itaú, e a estimativa é que o país tenha crescido apenas 0,2% no último trimestre de 2011, mesma taxa esperada pelo HSBC.

Luis Otávio Leal, economista-chefe do banco ABC Brasil, tem expectativa um pouco menos otimista para o comportamento da demanda. Apesar de também esperar um crescimento do PIB próximo a 0,4% no quarto trimestre, sempre na comparação com o terceiro trimestre, na série com ajuste sazonal, o economista avalia que o consumo será “levemente positivo”, mas pouco surpreendente. O endividamento das famílias, afirma, deve ter impedido atividade mais robusta, apesar da injeção de renda com o pagamento do 13º salário e a redução da inflação acumulada em 12 meses.

A partir do primeiro trimestre deste ano, no entanto, as medidas de estímulo devem ganhar potência e a atividade começará a reacelerar, estimam os economistas. O crescimento entre janeiro e março deve ser de 0,8%, na comparação com o último trimestre de 2011 para o Itaú Unibanco e para o Santander. Para Aurélio Bicalho, mais uma vez o consumo deve crescer acima da variação do PIB, enquanto a indústria seguirá com avanço inferior à taxa de expansão da economia brasileira.

Para Bicalho, a indústria entrou em 2012 em primeira marcha por causa dos estoques ainda em patamares elevados. “Vamos ver o mesmo padrão observado nos últimos dois anos, em que um pedaço importante da demanda é atendida pelas importações”, segundo Luis Otávio Leal, do ABC Brasil.

Investimento vai superar 20% do PIB, prevê Fazenda

Por João Villaverde e Thiago Resende | VALOR
De Brasília

Os investimentos vão saltar quase 11% neste ano, levando a formação bruta de capital fixo (FBCF, que contabiliza os investimentos em máquinas e equipamentos e em construção civil) a atingir 20,8% do Produto Interno Bruto (PIB), prevê o Ministério da Fazenda.

Apesar disso, o ministério reduziu ontem a estimativa para o avanço do PIB no ano – de 5% para 4,5%, de acordo com o documento “Economia Brasileira em Perspectiva”, estudo realizado pela Secretaria de Política Econômica (SPE) que divulga as previsões mais recentes para o ano.

A taxa de investimento vai superar, segundo a equipe econômica, pela primeira vez em dez anos, o patamar de 20% do PIB. De acordo com a SPE, a formação bruta de capital fixo será equivalente a 20,8% do PIB ao fim deste ano – em 2011, segundo a Fazenda, foi de 19,6% do PIB. A taxa de investimento passará por um avanço de 10,8% neste ano, mais que o dobro da alta de 5,3% verificada entre os três primeiros trimestres de 2011 com igual período do ano anterior. Se a projeção se confirmar, a taxa de investimento terá saltado 4,4 pontos percentuais, como proporção do PIB, de 2002 (16,4%) para cá.

A estimativa da Fazenda também serviu para comprovar o ritmo lento que os investimentos tiveram no ano passado. A FBCF cresceu apenas 0,1 ponto percentual entre 2010 e 2011, mesmo em cenário de avanço mais fraco da atividade, que, segundo o ministério, cresceu apenas 3,2% em 2011 – em 2010, o PIB saltou 7,5%.

O avanço dos investimentos será impulsionado, dentre outros canais, pela redução do custo de crédito para as empresas. Os cortes contínuos na taxa básica de juros, a Selic, produzidos pelo Banco Central (BC) desde agosto do ano passado, terão efeito concentrado, estimam os economistas do governo, a partir do segundo semestre deste ano.

Parte deste recuo, avaliam os economistas, deve também forçar novas reduções nos juros cobrados pelos bancos das companhias que tomam dinheiro emprestado para investimentos e capital de giro. A diferença entre o custo de captação de recursos dos bancos (taxa Selic) e os juros cobrados das empresas – o spread bancário – deve cair.

Atualmente, o spread embutido nas taxas de juros cobradas das empresas pelos bancos é de 18 pontos percentuais sobre o custo de captação. Segundo dados do Banco Central, compilados no documento do Ministério da Fazenda, a taxa de operação passiva é de 10,28% ao ano, mas a taxa média cobrada pelos bancos (taxa de operação ativa) é de 28,23% ao ano.

“Houve em 2010 uma redução [no spread] de 0,2 ponto percentual e em 2011 uma redução de 0,4 ponto percentual. O spread incentiva a realização de captações externas por empresas brasileiras que possuem acesso ao mercado internacional”, diz o documento divulgado pelo ministério.

A Fazenda também aproveitou para fazer um “exercício estatístico” com a inflação, ao estimar o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2011 com a nova estrutura de ponderação do índice, válida a partir de janeiro. O IPCA seria de 6,1% e não de 6,5%, caso fosse aplicada a nova Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF 2008/2009).

23/11/2011 - 09:56h Novo mínimo eleva renda em 3% com reflexo no PIB

Por Arícia Martins, Carlos Giffoni e Marcos de Moura e Souza | VALOR

De São Paulo e Belo Horizonte

O já contratado reajuste de 14% do salário mínimo em janeiro de 2012 terá um impacto adicional de cerca de três pontos percentuais na massa de rendimentos do trabalho, que exclui os ganhos com a Previdência. A estimativa do Banco Central, publicada ontem no Boletim Regional, foi feita com base em dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, cuja amostragem é maior que a da Pesquisa Mensal de Emprego (PME), do mesmo instituto.

Em um box dentro do boletim, o BC calcula diferentes impactos do aumento do mínimo, dependendo da indexação do reajuste sobre faixas salariais que vão até dois mínimos. Caso ele alcançasse todos os trabalhadores com rendimentos até dois salários mínimos, a massa de rendimentos poderia crescer até 4,5% em 2012, somente como efeito do reajuste. Mas o estudo do BC, com base no que aconteceu em outros anos, conclui que o impacto deve ser de 3%.

O diretor de política econômica do BC, Carlos Hamilton Araújo, avalia que o reajuste deve provocar um aquecimento da demanda no ano que vem. “Certamente o aumento do salário mínimo, na medida que aumenta a massa de rendimentos, terá um impacto sobre a demanda agregada. Mas em termos de inflação, esse impacto já está contemplado no nosso cenário [de evolução dos preços]“, disse durante apresentação do Boletim Regional em Belo Horizonte.

Economistas ouvidos pelo Valor consideram forte o efeito do mínimo na massa de rendimentos projetado pelo BC e, consequentemente, na atividade econômica em 2012. A estimativa da autoridade monetária, no entanto, não provocou alteração das projeções feitas para o ano que vem, já que o fôlego extra dado pelo mínimo à economia já estava quantificado.

Em um momento de recrudescimento do cenário global, o aumento do mínimo ajudará a mitigar uma desaceleração forte da renda dos trabalhadores e também dos aposentados cujos rendimentos são reajustados pelo mínimo, jogando a favor da economia junto com o ciclo de afrouxamento monetário e com a reversão das medidas macroprudenciais. E o impacto não é apenas para os empregos privados. Há categorias no setor público cujos salários são calculados em múltiplos do mínimo.

“A impressão que se tinha é que o impacto do salário mínimo era apenas fiscal, mas esse aumento de 3% na massa projetado pelo BC mostra sua relevância no mercado de trabalho”, avalia o economista-chefe da corretora Convenção Tullett Prebon, Fernando Montero. “Se considerarmos um ano com crescimento da economia em torno de 3,5%, esse impacto é muito grande”, diz.

Segundo os cálculos de Fernanda Consorte, economista do Santander, esse impacto na massa de rendimentos do trabalho deve representar 0,5 ponto percentual do crescimento de 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) projetado pelo Santander para 2012. “Cerca de 40% do PIB é referente aos salários. Considerando os reajustes para o próximo ano e os dissídios, chegamos a 0,5 ponto, o que é bem alto”, afirma.

O economista Fabio Romão, da LCA Consultores, também considera o impacto no PIB, mas calcula que ele será um pouco menor. A consultoria estima que a economia crescerá 3,1% em 2012, apresentando ligeira aceleração em relação a 2011, quando a expansão deve ser de 2,8%. “Sem o mínimo, o PIB também iria crescer 2,8% no ano que vem”, calcula.

Romão afirma que não projetaria um aumento da renda real dos trabalhadores parecido com o deste ano para 2012 sem o impulso extra do mínimo. Com base em dados da PNAD, o economista espera que, descontada a inflação, o crescimento médio real da renda será de 3% em 2012, diante de 2,6% em 2011. Ele lembra que o cálculo do BC não leva em conta a renda dos aposentados, que representam nada menos do que 21,4% da massa total de rendimentos do país. “Dois terços dos aposentados ganham um salário mínimo e terão seu benefício reajustado em 14%. É mais um impulso de renda e consumo”, diz.

Segundo Rafael Bacciotti, da Tendências Consultoria, o reajuste do mínimo terá importante influência no consumo das famílias, que crescerá mais em 2012 do que em 2011. Para um PIB de 3,7% no ano que vem, Bacciotti projeta que a demanda das famílias crescerá 4,4%, frente a um avanço de 4,2% neste ano, com PIB de 3,3%. “Ainda que o investimento sofra com o cenário global, a renda e o consumo domésticos parecem estar contratados”, diz Montero.

Fernanda, do Santander, também considera uma pressão inflacionária. “Considerando esse impulso adicional sobre a renda para o ano que vem, acredito que a inflação fique em torno de 6,0%, acima do centro da meta.” Na contramão, o economista da LCA diz que seus cálculos já previam o impacto do mínimo. “Já era sabido que o aumento real do mínimo no ano que vem seria de 7,5%. Essa nova conta do BC só vem confirmar nossas estimativas. Minha projeção de inflação está em 5,2% para 2012, já quantificando o efeito do aumento de 14% do salário mínimo”, diz Romão.

03/10/2011 - 16:58h Renda, dívidas controladas e emprego farto ajudam consumo no fim do ano

Gustavo Lourenção/Valor/Gustavo Lourenção/ValorSergio Vale, da MB Associados: redução da taxa Selic também deve ajudar


Por Arícia Martins | VALOR

Três elementos devem manter o consumo das famílias brasileiras em alta neste fim de ano – renda, baixo desemprego e endividamento bastante moderado.

O comprometimento do orçamento das famílias brasileiras com dívidas é crescente, mas não assusta. Ainda que a um ritmo fraco, a parcela da renda destinada ao pagamento de débitos vem aumentando desde abril e atingiu em julho deste ano 21,1%, último dado disponível e maior nível da série histórica calculada pelo Banco Central desde janeiro de 2005, cuja metodologia foi revisada na última leitura, mas sem alteração em sua trajetória.

A massa salarial, importante indicador do poder de fogo dos consumidores e de sua capacidade de pagamento, atingiu em agosto passado R$ 37,2 bilhões, avanço de 5,6% frente igual mês de 2010 em termos reais. A baixa taxa de desemprego, que cria uma sensação de conforto na população, aliada a sucessivos ganhos reais na renda, permitirá que o consumo continue forte nos próximos meses, dizem analistas. O principal perigo imposto pelo endividamento elevado, acrescentam, é seu impacto de alta na inadimplência, o que a médio prazo está descartado justamente pela força do mercado de trabalho.

Nos 12 meses encerrados em julho, o varejo ampliado, que inclui automóveis e materiais de construção, registrou um volume de vendas 10,5% maior, indicando uma pequena retração no ritmo de consumo na comparação com os 12,2% do fim de 2010, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No varejo restrito, a alta de 10,9% do fim de 2010 cedeu espaço para um crescimento de 8,5% nos 12 meses encerrados em julho na comparação com os 12 meses anteriores. Para a LCA Consultores, o varejo vai encerrar 2011 com alta de 7% no segmento restrito. Para a MB Associados, a alta será de 7,3%

Ao contrário do que aconteceu no início do ano na esteira das medidas macroprudenciais tomadas pelo BC para conter a demanda, que encareceram o crédito, o ligeiro avanço do nível de endividamento não se deveu às despesas com juros. Esse dispêndio está relativamente estável desde abril entre 7,4% e 7,6% da renda, enquanto os gastos com o principal da dívida avançaram um ponto percentual entre maio e junho e, em julho, estacionaram em 13,5% da renda.

Segundo o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, o crescimento dos gastos com o principal da dívida entre maio e junho pode ser explicado pela trégua da inflação verificada de maio a julho, que inspirou maior confiança nos consumidores e os motivou a contratar novos empréstimos. Com a volta da alta nos índices de preços neste fim de ano, a tendência é que a despesa com o principal se estabilize no nível atual, com pequenos avanços na margem. “O indivíduo olha o que está acontecendo no mês, se assusta e toma a decisão em cima disso”, diz.

As medidas macroprudenciais tiveram papel decisivo no aumento do dispêndio das famílias com juros que ocorreu desde o fim de 2010, avalia Wermeson França, economista da LCA Consultores. Como os financiamentos já contratados ficaram mais caros, os consumidores não conseguiram fechar as suas contas e tiveram de recorrer a linhas pré-aprovadas com juros mais salgados, como o cheque especial e cartão de crédito. Agora, é possível que esse efeito tenha se dissipado – já que essas são modalidades de curto prazo – e o consumidor tenha tomado novo fôlego para se endividar mais, acredita o analista.

No entanto, com a desaceleração econômica em curso no país e as incertezas do cenário externo, lembram Vale e França, não só os tomadores, mas também os bancos estão mais cautelosos na concessão de crédito, o que impede uma alta muito explosiva no endividamento. “As restrições aumentam, a necessidade de comprovação de renda fica maior e tudo isso indica que os gastos com o principal da dívida não crescerão muito mais além do nível atual”, diz Vale.

Fernanda Della Rosa, economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio), não acredita que as turbulências das economias desenvolvidas afetarão seriamente o apetite do consumidor por mais crédito, ao menos por enquanto. “O consumo deve continuar forte. Se o consumidor tem condições de pagar e continua empregado, vai acabar comprando. A economia ainda está imune ao que acontece lá fora”, argumenta.

Ela observa que na região metropolitana de São Paulo as famílias mais endividadas são as que ganham menos de dez salários mínimos, segmento que depende de crediários para fazer novas compras e, por isso, precisa ter seu nome limpo. Segundo pesquisa da entidade, no mês de agosto 48% das famílias nessa faixa de renda declararam ter dívidas, contra 31% no grupo acima de dez mínimos.

Junto à baixa inadimplência, o ciclo de redução da Selic, que deve continuar, também pode estimular um endividamento pouco maior, sustenta Vale, da MB. O perfil da dívida mais alta, no entanto, não será predatório. O setor que deve sustentar esse crescimento será o imobiliário, modalidade de menor risco para as instituições porque o imóvel fica como garantia, explica França, da LCA.

24/07/2011 - 08:42h ”Mercado interno dá segurança ao Brasil”


Para secretário de Política Econômica, consumo e investimentos deixam País preparado para risco de piora internacional

24 de julho de 2011

Fernando Dantas – O Estado de S.Paulo

Entrevista – Márcio Holland, secretário de Política Econômica

O Brasil está pronto para lidar com um eventual agravamento da situação econômica internacional, garante Márcio Holland, secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Ele diz que o Brasil está bem preparado para crescer a partir do mercado doméstico, não só de consumo, mas também de investimento, com diversos empreendimentos, em diferentes setores “esparramados” pelo País. Confiante de que a taxa de investimentos sairá dos atuais 19% do PIB para 23% em 2015, Holland nota que o governo tem políticas para expandir o investimento público, estimular o privado e alongar o mercado de financiamento privado. A seguir, a entrevista:

Como o sr. vê o agravamento do quadro internacional?

O quadro pós grande crise financeira é o previsto nos chamados modelos de crises financeiras centrais. Não me surpreende a fragilidade de recuperação das economias centrais, dada a gravidade da crise.

Mas o risco de não elevação do teto do endividamento americano não é uma grande ameaça?

A nossa visão sobre esse problema é a que não dá para visualizar um cenário em que o Congresso não aprove o deslocamento do teto. A probabilidade de uma suspensão de pagamentos pelos Estados Unidos tende a zero, e alguém até disse que nem deveria existir essa probabilidade, considerando que o dólar é a moeda central e reserva de valor, e os EUA são a principal economia do mundo.

E qual a sua opinião sobre a crise na Europa?

Estou mais preocupado com a Europa do que com os Estados Unidos. Na Europa, há uma combinação de fatores complicados: estado de bem-estar que está sendo removido, sistema previdenciário extremamente generoso sendo colocado em dúvida, população envelhecida. Com países como a Grécia, que deve estar a caminho de um default (suspensão de pagamentos), é mais complexo, pois se trata de uma área monetária. Os países têm limites para fazer política fiscal, perderam a política monetária local e não têm política cambial, o que os Estados Unidos têm. A margem para sair da situação é menor.

O Brasil está preparado para lidar com uma conjuntura internacional pior?

O Brasil sobreviveu muito bem ao olho do furacão da crise financeira internacional em 2008. De lá para cá, o País descobriu uma capacidade de crescer pelo mercado doméstico e, eu vou enfatizar, não é só mercado de consumo de massa, é mercado de investimento produtivo. Isso sustenta muito a capacidade de o Brasil continuar crescendo e gerar emprego no futuro próximo até essa equação internacional se resolver. Hoje nós temos um mercado doméstico para investimento e para consumo muito amplo, muito diversificado e muito esparramado pelo País. Tem projetos de energia, desde os hidrelétricos até os de petróleo, projetos de investimento em construção civil, de bens de capital, entre outros, esparramados por todo o Brasil, e isso deve dar um fôlego muito grande para a economia brasileira se sair muito bem nessa travessia.

Os investimentos no Brasil ainda não são muito baixos?

Hoje a taxa de investimento está em 19% do PIB e nossa projeção é chegar a 23,2% em 2015. Não só acreditamos nisso, como o governo está fazendo um conjunto de esforços para que isso aconteça, com foco na expansão das taxas de investimento público, no estímulo ao investimento privado e ao mercado de crédito privado de longo prazo, e políticas de competitividade. Em 2005, o governo colocou em pauta, com o PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), uma agenda de crescimento e começamos a deslocar a taxa de crescimento do Brasil de 2,5%, de 1990 a 2002, para 3,5%, no primeiro ano do governo Lula, e 4,5% no segundo. O Brasil aumentou a formalização do mercado de trabalho, criou 15 milhões de novos empregos. Gosto de usar a expressão do Delfim Neto, de que isso é um movimento civilizatório.

O sr. poderia detalhar as medidas de estímulo ao investimento?

Não vou fazer comentários sobre o que não foi divulgado. Do que já saiu, há, por exemplo, a medida provisória 517, que dá incentivo à expansão do mercado de debêntures no Brasil. Tem as Letras Financeiras, que estão se desenvolvendo muito bem. E há um conjunto de medidas para incentivar o mercado privado de longo prazo. O Brasil se saiu muito bem, gerando excepcional mercado de crédito para consumo. E tem a capacidade de fazer o mesmo para o investimento.

E a inflação, preocupa?

Há o preço de commodities, uma pressão mundial, mas, na verdade, a inflação global tem várias causas. Uma delas, inclusive, é o que chamo de efeito China reverso. Nos anos 90, a inflação caiu muito no mundo, em parte por conta do efeito positivo vindo da China. A China se tornava a principal fábrica do mundo com mão de obra muito barata. Em 2011, a China é a fábrica do mundo com uma mão de obra bem mais cara do que nos anos 90. O mercado de trabalho e de consumo já pressionam e fazem a China ter inflação relativamente alta, rodando a 5,5%, ou algo nessa faixa. Os países emergentes e em desenvolvimento estão rodando 2011 com a taxa de inflação média de 6,87%, comparado a 5,86% em 2005. Se você tirasse essa inflação mundial, provavelmente a inflação brasileira estaria correndo dentro do centro da meta. Então é preciso ter tranquilidade.

E a previsão de que a taxa de juro real cairia para 2% ao fim do mandato de Dilma Rousseff?

Um dos desafios que nós temos certamente ainda é a persistente e elevada taxa real de juros. E que certamente tem efeitos sobre a economia, um custo fiscal alto, e atrai fluxos de capitais. Mas a taxa real de juros no Brasil estava em clara tendência de convergência. Mesmo antes de vir para o governo, em artigos acadêmicos, eu já afirmava isso. Essa alta da taxa de juros agora, para mim, é meramente transitória. O Brasil vai caminhar novamente rumo à tendência de convergência, provavelmente a partir de 2012. Agora, não vou falar num número, porque não existe meta de taxa de juros.

O câmbio valorizado é outro problema apontado frequentemente.

A taxa de câmbio é uma variável que engana todos nós economistas. Todo mundo acha que o câmbio está fora do lugar, mas ninguém sabe onde deve estar. É extremamente complexo. Mas estamos vivendo um contexto internacional de curto ou médio prazo. Tão logo se normalizem os juros americanos, tão logo se ajustem as economias europeias, essa pressão de fluxos de capital para o Brasil vai cair um pouco, e com ela a pressão sobre o câmbio. E a taxa de juros no Brasil vai recomeçar a convergir.

20/07/2011 - 09:22h Desemprego recua para 6,2% e é o menor desde o início da série

Com massa salarial no nível recorde em junho, resultado reforça previsão de alta de 0,25 ponto na taxa Selic
20 de julho de 2011

Daniela Amorim / RIO – O Estado de S.Paulo

A taxa de desemprego no País teve leve recuo de maio para junho, de 6,4% para 6,2%, o menor nível para o mês desde 2002, quando teve início a Pesquisa Mensal de Emprego, apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O resultado ficou no teto das expectativas do mercado, mas analistas ainda veem o emprego aquecido, o que reforça a previsão de alta de 0,25 ponto porcentual na taxa básica de juros, a Selic, na reunião de hoje do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.

A massa salarial paga aos trabalhadores brasileiros se manteve em nível recorde em junho, em R$ 35,6 bilhões, e o rendimento médio real subiu 0,5% ante maio, para R$ 1.578,50. Para o economista Rafael Bacciotti, da Tendências Consultoria Integrada, as variações expressivas tanto na renda quanto na massa salarial mantêm a incerteza sobre o cenário prospectivo de inflação.

“Apesar dos sinais de moderação, os dados referentes à ocupação formal, tanto da PME quanto do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) de junho, ainda reforçam a necessidade de cautela na condução da política monetária”, analisou Bacciotti, que prevê um aumento de 0,25 ponto porcentual na Selic em julho, agosto e outubro, para uma taxa de 13% ao ano.

Na avaliação do economista-chefe da Concórdia Corretora, Flávio Combat, a taxa de desemprego na mínima histórica e o aumento do poder de compra dos trabalhadores pesam sobre a decisão do Copom. “O Banco Central já demonstrou preocupação com o comportamento do mercado de trabalho e deve recorrer novamente a esse argumento para justificar a continuidade do aperto monetário”, disse Combat, que espera alta de 0,25 ponto porcentual na taxa de juros hoje e outro de 0,25 ponto na reunião de agosto.

A renda forte não evitou a queda de vagas nos grupos comércio e outros serviços – categoria que engloba alimentação, hospedagem, recreação e turismo, entre outros. O comércio perdeu 73 mil vagas no conjunto das seis regiões metropolitanas que compõem a pesquisa, enquanto o setor “outros serviços” teve redução de 46 mil vagas. “O resultado do comércio está ligado diretamente ao aumento do poder de compra, que eleva a ocupação. Mas não é isso que estamos vendo aqui. Temos de esperar mais um ou dois meses para entender o que aconteceu”, disse Cimar Azeredo, gerente da coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE, reconhecendo que fatores externos podem estar restringindo o consumo.

Enquanto o emprego no comércio teve retração, a indústria criou 29 mil vagas em junho. O resultado foi puxado pela região metropolitana de São Paulo, onde o emprego industrial subiu 2,1% em relação a maio, com 41 mil novas vagas. A região também foi responsável pelo recuo nas vagas do comércio. O comércio paulista demitiu 67 mil empregados em junho e o setor “outros serviços” dispensou 11 mil pessoas.

País cria 1,4 milhão de vagas em 6 meses

Com isso, meta do governo de criar 3 milhões de vagas no ano fica mais difícil, já que o segundo semestre costuma ter resultado inferior

20 de julho de 2011

Célia Froufe / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

A meta do governo Dilma Rousseff de criar 3 milhões de empregos formais em 2011 está cada vez mais distante de ser cumprida. Na primeira metade do ano, tradicionalmente mais vigorosa para o mercado de trabalho, foram gerados 1,415 milhão de empregos com carteira assinada, segundo informou ontem o Ministério do Trabalho e Emprego.

O volume não chega à metade do objetivo pretendido e é inferior ao resultado de janeiro a junho de 2010, quando o saldo de vagas com carteira assinada foi de 1,634 milhão. Além disso, o segundo semestre tem o impacto negativo de dezembro, quando as demissões superam as contratações. Mesmo assim, o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, se mantém irredutível. “Sou uma voz isolada, mas o segundo semestre será melhor”, prevê.

Lupi justifica seu otimismo com a expectativa de que o setor público contribuirá para o saldo na segunda metade do ano. Ele também espera a maturação de investimentos e disse acreditar que o Nordeste vai deslanchar na criação de vagas com carteira.

Conforme os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério atualizados ontem, o mercado segue absorvendo mão de obra, mas já não mostra o mesmo vigor de meses atrás. Em junho, as contratações superaram as demissões em 215,4 mil.

Além de ser um volume inferior ao de junho do ano passado (257 mil postos líquidos), é o segundo mês consecutivo em que é vista uma desaceleração do mercado – em abril, foram abertas 299 mil vagas e, em maio, 266 mil.

Para o economista do Banco Santander Cristiano Souza, o mercado segue aquecido, mas dificilmente o governo atingirá a meta de 3 milhões de empregos com carteira assinada. Principalmente se forem levados em conta a escassez de mão de obra e o papel do Banco Central (BC) de tentar equilibrar a economia, com ferramentas como a elevação dos juros.

“Sou cético de que chegará a 3 milhões de vagas, mas, mesmo que seja um pouco menos do que os 2,5 milhões de empregos criados no ano passado, são dois anos de crescimento”, analisa Souza. Para ele, o trabalho do BC dará respostas no terceiro trimestre e se consolidará de outubro a dezembro. “No fim do ano haverá desaceleração da atividade. Não dá para imaginar que não vai acontecer.”

Serviços. No acumulado até junho, o setor de serviços foi o que mais contratou com carteira, abrindo 564 mil vagas líquidas, um recorde para o setor. A indústria (262 mil postos) e o setor agrícola (235 mil) vieram atrás, seguidos da construção civil (186 mil) e comércio (121 mil).

A Região Sudeste ainda é o melhor lugar para se conseguir um emprego formal. De janeiro a junho, foram contratados 864 mil profissionais, já descontadas as demissões, com destaque para São Paulo, que teve um saldo líquido de 522 mil novas vagas.

O governo detectou ainda que o salário médio de admissão subiu 3,04% além da inflação do primeiro semestre de 2010 para a primeira metade deste ano, passando a R$ 900,70.

02/06/2011 - 09:22h Venda de carros tem melhor maio da história

Cleide Silva – O Estado de S.Paulo

Crédito mais caro e prazos menores para o financiamento atrapalharam, mas não conseguiram conter as vendas de carros novos. O mês que terminou foi o melhor do ano para o setor e recorde para meses de maio, com 318,6 mil veículos vendidos, incluindo caminhões e ônibus. No ano, os negócios somam 1,43 milhão de unidades, 8,8% mais do que em igual período de 2010.

O resultado, segundo dados do mercado, é 10,2% maior que o de abril e 26,9% superior ao de um ano atrás. Só em automóveis e comerciais leves foi vendido 1,35 milhão de unidades, sendo 300,6 mil em maio. Sem o pacote de contenção ao crédito, adotado a partir de dezembro, “o crescimento teria sido maior”, diz Fernando Trujillo, consultor da CSM WordWide.

Ele calcula que as ações do governo impeçam a venda, até o fim do ano, de 100 mil a 120 mil carros. Ainda assim, prevê ano recorde, com vendas de 3,6 milhões de veículos, estimativa similar à da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Trujillo ressalta que a competição entre as marcas, acirrada pela chegada dos importados, principalmente chineses e coreanos, tem ajudado a aumentar as vendas, pois os preços dos carros não estão sendo reajustados.

Pelo menos 20% das vendas são de modelos importados. Outro destaque é que o mês de maio teve 22 dias úteis e abril, 19. Por esse cálculo, as vendas diárias caíram 5%, de 15,2 mil unidades para 14,4 mil.

O resultado de maio pode ajudar o Brasil a recuperar o quarto posto no ranking mundial de vendas. Após conquistar a posição no ano passado, o mercado brasileiro caiu para a quinta e depois a sexta posição neste ano. Agora, deve superar Índia e Alemanha.

Dados preliminares desses países indicam que a Índia vendeu até maio 1,34 milhão de veículos e a Alemanha, 1,33 milhão. O Japão, prejudicado pelo terremoto de março, mantém-se no terceiro posto, com 1,56 milhão de unidades. Os Estados Unidos venderam 5,27 milhões de veículos e a líder China ainda não divulgou números.

20/04/2011 - 10:28h PIB nordestino deve crescer 5% este ano e ficar acima da média nacional

Murillo Camarotto | VALOR

Do Recife

Puxada por uma onda de investimentos, a economia da região Nordeste deve continuar crescendo acima da média nacional nos próximos anos. Estimativas divulgadas ontem pela consultoria pernambucana Datamétrica, especializada em economia nordestina, apontam para expansão de 5,06% no Produto Interno Bruto (PIB) da região em 2011, contra 4% esperados para o Brasil como um todo. Para 2012, a projeção é de alta de 5,03% no Nordeste, ante uma média nacional de 4,3%.

O crescimento da renda e do consumo das famílias, ao lado de pesados investimentos, sobretudo na construção civil, continuam sendo os principais combustíveis para a expansão maior da região neste ano. Porém, a contínua valorização do real ante o dólar surge como novo personagem. Sócio da Datamétrica, o economista Alexandre Rands explica que o câmbio valorizado tem incentivado, e muito, as importações de máquinas e equipamentos, indústria que está quase toda concentrada no Sudeste.

“Em tempos de investimento elevado, o Sudeste sempre teve o diferencial de abrigar a indústria de máquinas e equipamentos. Quando se começa a importar no volume em que está sendo feito, esse diferencial já não é tão sentido”, afirmou Rands. Segundo ele, o Nordeste também sofre menos com a queda no valor das exportações, já que a região vende majoritariamente commodities para o exterior.

Segundo a Datamétrica, o crescimento do Nordeste neste ano continuará sendo puxado por Pernambuco (6,14%), Ceará (5,26%)e Bahia (5,22%), Estados mais populosos e com a economia mais desenvolvida da região. “É normal que essa onda de investimentos que chega ao Nordeste traga empresas interessadas em se instalarem nos maiores mercados consumidores”, avalia.

No caso de Pernambuco, a expansão será puxada pelos investimentos no Complexo Portuário de Suape, que recebe simultaneamente obras para a construção de refinaria, petroquímica, estaleiros e, em breve, siderúrgica e montadora de automóveis.

O Estado da Bahia tem novos projetos na área de energia e a promessa de uma boa safra agrícola, assim como o Ceará, que também deve continuar crescendo nos setores de vestuário e alimentos. “Além disso, os três Estados tiveram os governadores reeleitos. Essa continuidade costuma ser positiva para a economia”, lembrou Rands.

Para 2012, no entanto, a expectativa é de queda na diferença entre o crescimento do Nordeste e a média nacional. De acordo com a Datamétrica, é esperado para o ano que vem um afrouxamento da política monetária, que deve resultar em expansão do consumo de bens duráveis. Quando isso ocorre, avaliou Rands, o Sudeste tende a demonstrar sua força.

18/03/2011 - 08:31h Indicadores fortes questionam desaceleração

Conjuntura: Economistas já veem crescimento do PIB no 1º trimestre maior que o 0,7% do encerramento de 2010

Sergio Lamucci | VALOR

De São Paulo

A divulgação de importantes indicadores econômicos nos últimos dias colocou em xeque a visão de desaceleração da atividade no começo de 2011. A forte criação de empregos formais no primeiro bimestre, o desempenho positivo em janeiro do comércio varejista e do Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) apontam para uma economia ainda forte, amparada no contínuo crescimento do mercado de trabalho. A taxa de desemprego está nas mínimas históricas e a renda segue firme, mantendo elevada a confiança do consumidor, mesmo com a alta dos juros e a adoção de medidas de restrição ao crédito.

Nesse cenário, ganha mais força entre os economistas a aposta num crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre em torno de 1% em relação ao quarto trimestre do ano passado, feito o ajuste sazonal – uma variação mais forte que o 0,7% do trimestre anterior, na mesma base de comparação. Para o economista Fábio Ramos, da Quest Investimentos, o resultado mais forte nos três primeiros meses do ano pode tornar o número de 4% o piso das projeções para a expansão em 2011, interrompendo o processo de redução das estimativas para o intervalo entre 3,5% e 4%.

Ramos destaca o comportamento extremamente forte do mercado de trabalho. Em janeiro, nota ele, a taxa de desemprego ficou em 6,2% no ajuste sazonal da Quest, o nível mais baixo da série, o mesmo de outubro e novembro de 2010. Ainda que a trajetória não siga em queda como ocorreu ao longo do ano passado, trata-se de um patamar extremamente baixo para padrões brasileiros, que continua a estimular a atividade econômica e a pressionar a inflação, na avaliação do o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.

Nesse quadro, o rendimento segue em trajetória firme, como nota o economista Júlio Callegari, do J.P. Morgan. Esse é um fator que o leva a prever mais um bom ano para o consumo das famílias.

Regis Bonelli, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), observa que a confiança dos consumidores segue bastante elevada, o que ajuda a explicar o bom momento das vendas no varejo em janeiro. Para Bonelli, a alta em curso da taxa Selic parece ter afetado pouco as decisões de consumo de curto prazo. As medidas de restrição ao crédito tiveram impacto sobre os prazos e juros de financiamento, diz ele, notando, porém, que houve ao mesmo tempo uma busca maior por linhas de crédito mais caras, como cheque especial e cartão de crédito.

As vendas de veículos em janeiro parecem ter sido atingidas pelas medidas para conter o crédito, dado o recuo expressivo sobre dezembro. Já em fevereiro elas tiveram um bom desempenho, atingindo o melhor resultado para o mês da história. Há muita divergência, porém, em relação ao que ocorre em relação a janeiro na série com ajuste sazonal. Para a Quest, houve queda de 3,5%; para o Itaú Unibanco, de 1%; para a LCA Consultores, aumento de 1%.

Um sinal de força da economia foi a criação de empregos formais em fevereiro, que atingiu 280,2 mil vagas, com destaque para o setor de serviços, diz Ramos. O grande volume de empregos formais indica que os empresários continuam com expectativas positivas sobre a economia, acredita o economista-chefe do Santander, Maurício Molan. Segundo ele, as medidas para conter a demanda não levaram as empresas a brecar as contratações, pelo menos até o momento.

Um ponto que surpreendeu os analistas foi a forte criação de empregos formais na indústria, cuja produção se mostra estagnada desde o segundo trimestre do ano passado. O mau desempenho da indústria em janeiro, quando subiu apenas 0,2% sobre dezembro, feito o ajuste sazonal, foi um dos motivos que levaram alguns analistas a ver um PIB mais fraco em 2011. Para fevereiro, há a expectativa de alguns analistas de que a produção industrial terá um desempenho melhor, com aumento de cerca de 1% sobre janeiro, com base em indicadores como a fabricação de automóveis, o consumo de energia e o fluxo de veículos pesados nas rodovias.

Com uma correlação significativa com o PIB, o IBC-Br, que subiu 0,7% em janeiro sobre dezembro, é um dos principais motivos que fazem ganhar força um crescimento na casa de 1% no primeiro trimestre. “Mesmo se ficar estável em fevereiro e março, o IBC-Br crescerá 1% sobre o quarto trimestre de 2010″, diz Molan, que estima uma alta de 1%. Como é provável que o indicador tenha alguma expansão nesses meses, um aumento superior a 1% se torna possível. Vale, por exemplo, acredita em crescimento do PIB de 1,2% no primeiro trimestre, número que já tinha antes da divulgação do IBC-Br de janeiro.

Há quem considere precipitado, porém, apostar num PIB mais forte, como o economista-chefe da LCA, Bráulio Borges. “Eu estimava para dezembro um IBC-Br em alta de 0,9% e ele veio em 0,1%. Em janeiro, eu esperava 0,1% e veio 0,7%. Na média do bimestre, as taxas foram muito parecidas. Os dados de atividade estão muito voláteis nos últimos meses”, diz Borges, que mantém a projeção de uma expansão de 0,7% do PIB no primeiro trimestre sobre o quarto de 2010.

O diretor de pesquisas e estudos econômicos do Bradesco, Octavio de Barros, reviu a sua projeção. Ele, que chegou a esperar um número próximo de zero há algumas semanas, aumentou sua estimativa de uma alta de 0,5% para 0,8%. “Eu não brigo com números. Os dados do emprego formal, de vendas no varejo e do IBC-Br realmente me chamaram a atenção”, explicou.

09/03/2011 - 09:27h Brasil lidera melhora na imagem positiva

Pesquisa: BBC mede popularidade de 16 países em enquete mundial e atesta avanço recorde do Brasil

Ana Paula Grabois | VALOR

De São Paulo

O Brasil obteve o maior crescimento de imagem positiva no exterior, segundo pesquisa divulgada pela BBC em uma lista de 16 países. Na média, a avaliação positiva do Brasil cresceu nove pontos percentuais em apenas um ano, o maior crescimento entre os países pesquisados. A avaliação positiva do Brasil aumentou para 49% ante os 40% verificados no levantamento feito um ano antes.

Apenas 20% dos entrevistados no mundo veem negativamente o Brasil, uma queda de três pontos sobre a pesquisa divulgada no ano passado.

A imagem positiva do Brasil ficou semelhante à dos Estados Unidos (50%), que ganhou quatro pontos percentuais sobre o levantamento anterior. O total de avaliações negativas sobre os Estados Unidos, de 30%, no entanto, foi superior à média brasileira.

Dentre os 27 países onde a pesquisa foi feita, 25 avaliaram o Brasil positivamente. Os outros dois – Alemanha e China – estão divididos. O país que mais destoou da média de avaliações positivas foi a China. As opiniões positivas dos chineses sobre o Brasil caíram dez pontos percentuais e ficaram em 45%. Já as opiniões negativas aumentaram 29 pontos percentuais, alcançando 41%.

Na Alemanha, as visões negativas sobre o Brasil corresponderam a 32%, um ponto acima das avaliações positivas.

À melhora de imagem também corresponde um maior grau de informação sobre o país. O número de entrevistados que deixou de responder caiu seis pontos em comparação à pesquisa anterior.

A Alemanha foi o país com a maior taxa de avaliação positiva no mundo, de 62%, três pontos acima da média do ano passado.

Dentre os 16 países avaliados, 13 tiveram crescimento em comparação ao ano anterior.

O levantamento da BBC foi feito pela empresa de pesquisas GlobeScan em parceria com a Universidade de Maryland.

O instituto de pesquisa ouviu 28.619 mil pessoas em 27 países entre os dias 2 dezembro de 2010 e 4 de fevereiro. Os países que receberam as piores avaliações foram Irã, com 59% de respostas negativas, seguido por Paquistão (56%) e Coreia do Norte (55%).

“A maior credibilidade das potências médias é a principal notícia desta rodada. O salto na avaliação positiva do Brasil revela a bem sucedida da transição democrática do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para Dilma Rousseff”, disse o presidente da GlobeScan, Doug Miller.

09/03/2011 - 08:45h Classe média se espalha para o Norte e Centro-Oeste

Consumo: Companhias investem para ganhar mercado nessas regiões

Massao Goto Filho/Valor
Alessandro Carlucci, presidente da Natura: novo centro de distribuição no Pará e meta de “avançar mais pelo Brasil”


Adriana Mattos | VALOR

Dois levantamentos finalizados nas últimas semanas pelas consultorias Data Popular e Kantar Worldpanel revelam dados inéditos sobre o fortalecimento da nova classe média brasileira. As informações vão além da mensuração do já evidente poder econômico desse grupo. Ao cruzar os estudos, é possível verificar o volume de gastos da classe C por região geográfica. Fica claro que parte do dinheiro que migrou nesta década para a região Nordeste, onde essa classe média foi às compras, já se espalha para o Norte e o Centro-Oeste, com base em informações das últimas Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE.

De acordo com relatório do Data Popular intitulado “Diferenças e semelhanças nas regiões brasileiras”, nas categorias de bebidas e alimentação fora do lar e em casa, os gastos somados no Nordeste, Centro-Oeste e Norte cresceram 525,6% em oito anos, entre 2002 e 2010, atingindo R$ 64,7 bilhões no ano passado. No Sudeste, a velocidade de expansão foi de 315,4%.

Numa análise mais detalhada da divisão das classes sociais nos mais de 5 mil municípios brasileiros, a pequena União do Sul (MT), localizada no meio do Brasil, registra hoje a maior fatia da classe C na população total – 56,3% dos 3,7 mil habitantes estão nesse grupo. É um percentual superior à média nacional – no Brasil, 50% da população pertence à classe C. “Aqui não tem desemprego”, diz Enio Alves, secretário de governo de União do Sul. “Temos nove indústrias moveleiras e desde 2001 entramos mais pesado no agronegócio, com maior produção de arroz e soja”.

Entre as capitais, Florianópolis (SC) e Palmas (TO) empatam entre aquelas com mais brasileiros pertencentes à classe média emergente — 48% do total. “Está acontecendo uma reorganização dessa nova classe pelo país”, conta Renato Meirelles, sócio-diretor do Data Popular. “Pequenas cidades em desenvolvimento se beneficiaram dessa nova fase, ancorada nos ganhos da agricultura e na chegada de novas fábricas nessas regiões”.

Esses novos investimentos ganharam corpo em 2010 e outros foram anunciados este ano. Natura, Hypermarcas, Unilever e Procter & Gamble apresentaram ou concluíram, nos últimos seis meses, projetos em que há desmebramento da produção ou do sistema de distribuição pelo Brasil. O medo de perder vendas por não estar no lugar certo na hora certa acelerou a movimentação. “Ainda há muito espaço para as marcas se estabelecerem”, diz Christine Pereira, diretora da Kantar Worldpanel. “Como o consumo de muitas categorias ainda não se consolidou nessa nova classe formada fora do eixo Sul-Sudeste, ainda há o que fazer “.

Na região Norte, os investimentos fabris crescem aceleradamente. Em 2010 foram aprovados 255 projetos industriais e de serviços, no valor de US$ 4,4 bilhões – mais que o dobro do ano anterior. E não se tratam só de empresas de eletroeletrônicos, o forte na região. Foram para Manaus fabricantes de brinquedos, óculos, relógios e acessórios para carros.

Entre os grandes grupos, a Hypermarcas está reorganizando a sua área de logística e fortaleceu a operação no Centro-Oeste. Ela acaba de concluir a construção de um centro de distribuição em Anápolis (GO), com desembolsos de R$ 52 milhões, para a área de medicamentos sem prescrição. Em paralelo, aplicou R$ 59 milhões na ampliação da fábrica da Neo Química Genéricos na cidade goiana.

Maior empresa brasileira de vendas diretas, a Natura anunciou semanas atrás a entrada em operação de dois novos Centros de Distribuição, em Uberlândia (MG) e em Castanhal (PA). Ainda foi dobrada a capacidade da unidade de Canoas (RS). A empresa entende que será preciso olhar mais os novos espaços para ampliar a sua participação de mercado.

“Nós temos um ’share’ de 23%, mas nossas pesquisas mostram que quase 50% [dos consumidores] querem comprar itens da Natura. Se não temos um ’share’ ainda maior é porque, em parte, não estamos em todos os lugares que poderíamos estar”, disse Alessandro Carlucci, presidente da Natura, em entrevista sobre resultados da empresa. “Por isso uma das metas é avançarmos mais pelo Brasil.”

A Unilever, que produz Seda e Omo, está prestes a inaugurar a ampliação da unidade fabril de Igarassu (PE) que produzirá sabão em pó e atenderá Norte e Nordeste. “Investimos R$ 85 milhões no projeto e estamos praticamente prontos para entrar em operação”, disse ao Valor Luiz Carlos Dutra, vice-presidente de Assuntos Corporativos da Unilever.

Além disso, lançamentos têm deixado de ser, cada vez mais, focados apenas em São Paulo e Rio. A Reckitt-Benckiser disse na semana passada que venderá o seu novo Vanish nacionalmente. “Decidimos fazer mídia nacional do produto e criar mercadorias que teriam mais aceitação por lá, como as embalagens do Vanish em sachês”, disse Fernanda Belfort, gerente de marketing de produtos de limpeza da Reckitt.

09/02/2011 - 08:47h O silêncio duvidoso de Dilma

VINICIUS TORRES FREIRE – FOLHA SP

Inflação a 6%, corte incerto de gastos e silêncio oficial na economia criam dúvidas demais na praça do mercado


O ENTORNO da presidente Dilma Rousseff ficou meio assim, digamos, amuado com a inflação de janeiro.
O IPCA, o índice de inflação “oficial”, foi o maior para o mês de janeiro desde os tempos ruins de inflação perigosamente alta no início do governo Lula, em 2003. Obviamente, a situação não é nem parecida com a de então. A inflação de janeiro daquele ano foi de 2,25%; a anual, acumulada em 12 meses, andava na casa de 14%. O governo estava meio quebrado, e a economia ainda vivia a ressaca da desvalorização cambial de 2002, quando o dólar foi a R$ 4. Mas a inflação de janeiro passado foi de 0,83% e chegou a 6% em 12 meses, por onde deve andar por dois ou três meses.
Não obstante o desconforto planaltino, esses números ruins não são novidade alguma. Desde o final do ano passado ficara claro que o cenário oficial de perspectivas tranquilas para a inflação desandara. O preço das commodities não parava de subir, os reajustes salariais foram fortes e os aumentos de preços, que até pouco antes se concentravam em bens menos sujeitos às pressões do comércio mundial, espraiavam-se por todo tipo de produto, serviço ou setor.
Ainda em meados do ano passado havia dúvidas sobre a tendência dos preços. Em julho, o Banco Central passara a avisar que a Selic, a taxa “básica” de juros, não passaria de 10,75%. Desde maio, a inflação anual, acumulada em 12 meses, passara a cair. A tese geral no governo e no BC era de “inflação passageira”. Mas consultorias e economistas de bancos pediam juros a 11,5% no final de 2010. Pelo jeito, tinham mais razão do que o BC. Essa discussão, no entanto, morreu no final do ano passado, ressalte-se.
Por que o governo então ficou tão incomodado com o índice de janeiro? Não se trata de preocupação nos ministérios econômicos. O clima ficou tenso foi no Planalto mesmo, diz-se nos corredores do palácio. Teria então caído a ficha de que, para ajudar a combater a inflação, o corte de gastos federais terá de ser ainda maior do que o previsto nos estudos prévios de Fazenda e de Planejamento? Ou porque, talvez, os juros venham a subir muito mais do que o previsto até agora, avariando ainda mais o balanço fiscal do governo (e por uns bons dois anos)?
Por enquanto, é para algo em torno de 11,5% que o Banco Central deve levar a Selic no final do ano, segundo os indícios que aparecem nos seus textos oficiais e nas entrevistas de autoridades. No mercado, porém, a julgar pelas taxas de juros futuros, acredita-se que a Selic deveria ir para uns 12,5% no final do ano. Mas, na ata do Copom de setembro do ano passado, o pessoal do BC escrevera que a taxa de juros necessária para colocar a inflação na meta de 4,5% ao ano seria agora menor.
Continuam a acreditar nisso? Continuam a acreditar em apenas repique temporário da inflação? Acreditam que ainda dispõem de mais “medidas administrativas” (”prudenciais” e similares) para conter o consumo e a inflação? Isto é, estariam em estudo mais medidas de controle do crédito por meio de redução de prazos de financiamento, exigência de mais depósitos compulsórios, de mais reservas para operações de financiamento etc.?
As incertezas sobre decisões macroeconômicas básicas (juros e gasto público) aumentaram muito em apenas um mês de governo Dilma.

vinit@uol.com.br