09/11/2009 - 09:02h Pobres já gastam 5% mais que ricos

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Estudo mostra avanço do consumo das classes D e E do Norte e Nordeste em relação às classes A e B do Sudeste

Márcia de Chiara – O Estado SP

Os pobres do Norte e Nordeste estão consumindo mais que os ricos do Sudeste. Nos últimos 12 meses até setembro deste ano, as classes D e E das regiões Norte e Nordeste do País gastaram R$ 8,8 bilhões com uma cesta de alimentos, produtos de higiene pessoal e limpeza. Essa cifra é 5% maior que a desembolsada pelas camadas A e B (R$ 8,4 bilhões) que vivem no Sudeste do País no mesmo período com esses itens, revela estudo exclusivo da LatinPanel, maior empresa de pesquisa domiciliar da América Latina.

Em igual período do ano passado, a situação era exatamente inversa: o gasto das camadas que compõem a base da pirâmide social no Norte e Nordeste com bens não duráveis havia sido 5% inferior ao das classes A e B do Sudeste. “Houve uma reversão”, afirma Christine Pereira, diretora da empresa e responsável pela pesquisa.

Ela atribui a mudança a fatores conjunturais. Inflação em baixa, que dá mais poder de compra ao consumidor, ganhos de renda dos trabalhadores que recebem salário mínimo e o fato de a crise não ter afetado as camadas de menor renda explicam, segundo Christine, o avanço do consumo dos bens não duráveis pelos mais pobres. Os dados da pesquisa foram obtidos a partir de visitas semanais a 8,2 mil domicílios para auditar o consumo de 65 categorias de produtos.

Embora em maior número, as famílias das classes D e E do Norte e do Nordeste têm renda agregada bem menor que a das famílias das classes A e B do Sudeste. No Norte e no Nordeste, há 6,9 milhões de lares que recebem até quatro salários mínimos (R$ 1.860) por mês, o que corresponde a 40% do total de famílias das classes D e E do País. Já as classes A e B somam 4,9 milhões de domicílios no Sudeste ou 45% dos lares desse estrato social do Brasil. Essas famílias têm renda mensal superior a dez salários mínimos (R$ 4.650).

Para o economista chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, boa parte do avanço do consumo dos mais pobres se deve ao aumento real do salário mínimo de 5,7% concedido neste ano. “O salário mínimo pesa muito nas regiões Norte e Nordeste”, diz.

Nas contas dele, a massa real de renda dos ocupados, pensionistas da Previdência e também beneficiários do Bolsa Família cresceu 7,7% no Norte e Nordeste no primeiro semestre deste ano em relação a igual período de 2008. O acréscimo é mais que o dobro do registrado para essa população que vive no Sudeste do País, que foi de 3,1% nas mesmas bases de comparação.

Além disso, Borges ressalta que a inflação dos mais pobres, que ganham até cinco salários mínimos (R$ 2.325), medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), perdeu fôlego este ano. Após fechar 2008 com alta de 6,5%, a maior taxa desde 2003, o INPC deve encerrar 2009 com aumento de 4,5%, prevê.

01/11/2009 - 12:21h País deve receber reforço de até R$ 500 bilhões para crédito em 2010

Crédito pode fazer o PIB surpreender, diz economista


Leandro Modé – O Estado SP

De 2004 para cá, a relação entre crédito e Produto Interno Bruto (PIB) no Brasil quase dobrou, de 24% para 45,7%. Com isso, o crescimento do País passou a depender mais da concessão de empréstimos, como ficou claro na crise global – o crédito secou, a economia despencou. Como a expectativa para 2010 é positiva, a surpresa pode se dar no sentido contrário, disse o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges.

“O PIB pode surpreender para cima”, afirmou ele, que hoje projeta uma expansão da economia de 5,6% no ano que vem. Borges fez um estudo, obtido com exclusividade pelo Estado, para medir o impacto do crédito no avanço da economia.

A partir do trabalho, ele criou o que batizou de “Índice de Potência do Crédito”. O indicador relaciona o crescimento real das concessões de crédito no País com a penetração dos empréstimos na economia. A conclusão é que há forte correlação entre crédito e a demanda doméstica, principal responsável pela expansão do PIB.

Borges calcula para 2010 uma alta de 6,4% das novas concessões em termos reais, ou seja, descontada a inflação – ante uma queda de 5% em 2009. “Assim, tem-se a sinalização de que a demanda interna poderá crescer quase 10% em 2010″, disse.

O economista Demian Fiocca, presidente do Banco Nossa Caixa, também destaca a relevância cada vez maior do crédito para o crescimento brasileiro. “Uma expansão de 20% do crédito em 2010, como a que projetamos para o sistema, é muito mais potente do que um crescimento de 25% em 2004, quando o atual ciclo econômico começou”, observou.

Para ele, se esse ciclo se prolongar pelos próximos 10 anos, a economia brasileira estará, ao seu final, muito mais próxima do nível dos países mais desenvolvidos do que dos países menos desenvolvidos. “Continuando nessa trilha, é razoável supor que a relação crédito/PIB no Brasil vai se estabilizar ao redor de 80%”, disse.

País deve receber reforço de até R$ 500 bilhões para crédito em 2010

Previsão dos bancos, de que vão emprestar mais 20%, e ofertas de ações do setor financeiro animam analistas

Leandro Modé – O Estado SP


Depois de um ano difícil, em decorrência da crise internacional, o crédito na economia brasileira tem tudo para “bombar” em 2010. A expectativa é tamanha que há quem diga que o desempenho nessa área pode fazer o País crescer mais do que os analistas esperam hoje.

Além do apetite dos bancos, que projetam, em média, expansão de 20% de suas carteiras, o potencial de empréstimos será engordado por operações realizadas recentemente no setor, sendo a principal delas a oferta pública de ações do Santander na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Juntando esses dois fatores, o crédito total pode ter reforço de até R$ 500 bilhões no ano que vem – para se ter uma ideia, em 2009, o estoque de empréstimos no País deve avançar R$ 180 bilhões.

Aproximadamente 60% dos R$ 500 bilhões decorrem do crescimento esperado para as carteiras. Como o crédito total do País deve encerrar 2009 na casa de R$ 1,4 trilhão, 20% de expansão significa cerca de R$ 280 bilhões adicionados ao sistema. As operações que elevaram o capital (e, portanto, a capacidade de crédito) de Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal resultarão em mais R$ 210 bilhões potenciais.

O pano de fundo para as expectativas positivas é formado, em primeiro lugar, pelas estimativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), hoje na faixa de 5%. Esse nível garante taxa de desemprego em queda e renda em alta – vale lembrar que emprego e renda são os pilares de uma concessão de crédito segura. “Já percebemos, nos últimos meses, que a retomada do emprego leva as pessoas a querer comprar mais, o que, por sua vez, aumenta a demanda por crédito”, diz o presidente da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Adalberto Savioli.

“O Brasil está diante de uma grande oportunidade de crescer com fundamentos sólidos. Realmente acreditamos nisso”, acrescenta o diretor de Controladoria do Itaú Unibanco, Silvio de Carvalho. Segundo ele, as operações de crédito na instituição avançarão de 20% a 25% no ano que vem. Além disso, o sistema financeiro brasileiro está capitalizado. Diferentemente dos seus pares nos EUA e na Europa, os bancos brasileiros passaram incólumes pela crise.

Nos cálculos do analista de instituições financeiras da Austin Rating, Luís Miguel Santacreu, se emprestassem tudo o que podem dentro das regras do Banco Central (BC), as instituições financeiras poderiam colocar na economia mais de R$ 1 trilhão de crédito – o que elevaria a relação crédito/PIB dos atuais 45,7% para cerca de 80%. Ele ressalta que é uma conta hipotética, pois nenhum banco teria interesse em conceder empréstimos até o limite de suas possibilidades.

O analista de bancos da Lopes Filho, João Augusto Frota Salles, lembra, ainda, que a queda da taxa básica de juros (Selic) para o menor nível da história “obriga” os bancos a emprestar mais, para manter os altos índices de rentabilidade.

Outro elemento que colabora para uma oferta de crédito expressiva em 2010 é o provável aumento dos investimentos, por sua vez explicado pela retomada da economia e pelo início da preparação do País para hospedar a Copa do Mundo de 2014. “A Copa vai aquecer os projetos de infraestrutura no Brasil”, diz o vice-presidente de crédito do Banco do Brasil, Ricardo Flores.

O aquecimento dos setores imobiliário e automotivo é mais um fator para o otimismo dos bancos. “Os propulsores do crédito serão o financiamento imobiliário, para o qual projetamos mais 30%, significativamente maior do que a média para pessoas físicas, e o financiamento de veículos, pois o Brasil é um dos grandes produtores mundiais”, diz o presidente do HSBC no Brasil, Conrado Engel.

Por fim, os bancos privados vão tentar recuperar o terreno perdido para os públicos. “A concorrência ficará mais acirrada, o que nos obrigará a ser mais ativos, incluindo a criação de produtos”, diz o vice-presidente de Finanças da Caixa Econômica Federal, Márcio Percival.

“Estamos atentos. Não queremos ficar fora do mercado”, diz o diretor do Departamento de Empréstimos e Financiamentos do Bradesco, Nilton Pelegrino, negando que durante a crise o banco tenha puxado o freio do crédito. “Não queríamos ter perdido participação. O que houve é que o tomador perdeu o apetite.”

Apesar do discurso politicamente correto, a disputa entre bancos públicos e privados em 2009 parece ter deixado sequelas. “Eu não tenho o Tesouro atrás de mim. Tenho de ser prudente, proteger o capital do acionista”, diz um banqueiro. Nessa briga, quem pode ganhar é o consumidor. “As taxas de juros já estão de volta aos níveis pré-crise. A tendência é continuarem caindo por causa da concorrência”, diz Engel.

Como em qualquer cenário econômico, o de crédito para 2010 também tem seus riscos. O principal é a possibilidade de o BC elevar a taxa Selic no primeiro semestre. Se isso realmente ocorrer, diz Frota Salles, “os bancos vão defender seus níveis de rentabilidade, repassando o custo maior ao consumidor”. “Isso pode inibir o crescimento acelerado do crédito.”

19/10/2009 - 14:32h Crescimento do NE precisa ir além da alta do consumo

Conjuntura: Evento do Centro Celso Furtado debate modelo para região

Leo Pinheiro/Valor
Foto Destaque
Jair do Amaral Filho, da Universidade Federal do Ceará: “Estamos crescendo, e isso é ótimo. Mas ninguém discute como esse crescimento está acontecendo”


João Villaverde, do Recife – VALOR

A retomada do crescimento econômico brasileiro, que já aponta elevação de 5% do PIB em 2010, tem sido sustentada pelo mercado interno. Para isso, programas de transferência de renda e elevação do emprego nos segmentos ligados ao setor de serviços foram decisivos para contrabalançar a retração da indústria, que sofreu com o corte do crédito e o fechamento do mercado externo. O modelo de crescimento do Brasil pós-crise pode ser simbolizado pelo Nordeste, o maior beneficiado pelas transferências sociais de renda e o principal impulsionador do comércio varejista.

Nos primeiros sete meses do ano, as vendas do varejo na região aumentaram 5,6% sobre o mesmo período do ano passado, e um ponto percentual acima do crescimento verificado pelo setor no país. O setor industrial, mais concentrado na produção de alimentos e bebidas, sofreu menos no Nordeste que no resto do país. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), alimentos e bebidas representam cerca de 25% da produção industrial na região. Assim, o crescimento do consumo contribui para que a queda no setor seja menor. Dados de setembro do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), divulgados pelo Ministério do Trabalho, dão conta que quase 40% dos empregos formais gerados no último mês do terceiro trimestre ocorreram no Nordeste – ao todo, 100,4 mil postos. No entanto, este modelo de crescimento não é o ideal, avaliam economistas e cientistas sociais que participaram do seminário Desenvolvimento Regional do Nordeste, realizado em Recife pelo Centro Celso Furtado, na semana passada.

“Estamos crescendo, e isso é ótimo. Mas ninguém discute como esse crescimento está acontecendo”, afirma Jair Amaral Filho, economista da Universidade Federal do Ceará (UFCE). Os setores que mais empregam na região, segundo Amaral, são comércio varejista e administração pública, além da indústria produtora de alimentos e bebidas. Segundo dados do Caged, metade dos postos criados no setor industrial em setembro no país atendeu o setor de produtos alimentícios e bebidas (62,7 mil), tendo os Estados nordestinos à frente.

Boa parte da renda que tem sustentado o crescimento constante do setor de serviços na economia é oriunda de transferências promovidas pela União. Os Estados e municípios do Nordeste receberam no ano passado quase US$ 40 bilhões por meio de transferências orçamentárias como Cide, Fundeb, Fundo de Participação dos Estados (FPE) e Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Neste ano, com a desaceleração econômica, que achatou as receitas, e políticas de isenções fiscais, como a redução do IPI para montadoras e para eletrodomésticos da linha branca, as transferências orçamentárias serão menores. Mas este efeito, dizem os analistas, será compensado pela elevação do salário mínimo – que também corrige dois terços dos benefícios previdenciários – e programas sociais como Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BCP).

Segundo Amaral, fatores antes criticados na região, hoje são apontados como contribuidores do crescimento mais acelerado. “O Nordeste estava se beneficiando pouco das altas nas commodities antes da crise, além da menor importância da indústria exportadora em comparação a outras regiões”, afirma. Além disso, o corte nas alíquotas do IPI beneficiou o comércio atacadista e varejista.

O maior receio entre os acadêmicos da região é que se consolide entre as empresas e o governo federal o modelo de crescimento atual, que vê os Estados do Sul e Sudeste com uma política de desenvolvimento industrial e o Nordeste com uma política de consumo de massas. Para Amaral, a política promovida pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de fortalecer empresas nacionais por meio de empréstimos para fusões e aquisições – política de “campeãs nacionais” segundo o banco – poderia incluir empresas da região, e não apenas as sediadas em Estados do Sudeste.

Segundo o chefe do departamento regional do BNDES para o Nordeste, Paulo Ferraz Guimarães, não se trata de uma questão de “exclusão regional”, mas de distribuição estrutural da indústria, historicamente concentrada no Sudeste. “Estamos interessados no desenvolvimento, não há regionalização do financiamento”, afirma.

De janeiro a agosto deste ano, o BNDES liberou R$ 15,3 bilhões para companhias nordestinas. Segundo Guimarães, esse valor deve alcançar R$ 18 bilhões até o fim do ano. Há maior número de operações também – 20.300 mil, o equivalente a 91% mais que no mesmo período de 2008. “Talvez a participação do BNDES na região nunca tenha sido tão boa”, diz. Estaleiros portuários em Suape (PE) e Pecém (CE) e projetos federais como a rodovia Transnordestina – que deve integrar sete Estados do Nordeste – apontam a direção do que o banco pretende fazer na região.

“O setor de serviços, o maior empregador, é o que necessita de trabalhadores menos instruídos e o que paga os salários mais baixos”, afirma Lena Lavinas, economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mesmo diante dos avanços na diminuição da pobreza e da miséria nos últimos anos, o Nordeste continua com os piores indicadores sociais. Segundo Lavinas, o Nordeste apresenta os índices mais elevados de indigentes – 16 milhões de pessoas – e de pobres que vivem apenas com renda do trabalho – 48,8%. “Não é possível sustentar uma família de quatro pessoas com um salário mínimo, por mais que ele tenha se recuperado nos últimos anos”, afirma a economista.

Para Lavinas, as transferências de renda devem ser ampliadas a fim de garantir eficiência total, uma vez que mesmo sendo o maior receptor dos programas sociais, 42,7% dos moradores pobres do Nordeste ainda não recebem o Bolsa Família. Segundo Tania Bacelar, economista da UFPE, mais de um terço dos que vivem em regiões rurais da região são analfabetos. “O problema é sério também nas capitais. Metade dos moradores do Recife estão vivendo em favelas”, afirma. Para a economista, após a dissipação das turbulências financeiras mundiais, a retomada econômica brasileira permite uma “rediscussão” quanto ao modelo de crescimento. “A questão a partir deste último trimestre não é mais sobre o crescimento, já recuperado, mas a maneira como ocorrerá o desenvolvimento, que deve diminuir as desigualdades regionais”.


Efeitos do Bolsa Família dividem acadêmicos

Numa região em que os níveis de mortalidade infantil ainda são os mais elevados do Brasil – 34,4% do total – e com produção industrial pouco diversificada, programas de transferência de renda como o Bolsa Família são uma forma de monetizar comunidades carentes, gerando demanda por bens de consumo. Segundo o Ministério de Desenvolvimento Social, 50,07% dos beneficiários do Bolsa Família vivem no Nordeste. “O programa é importantíssimo para garantir que um mínimo de dinheiro alcance municípios pobres do interior, onde, historicamente, a circulação de moeda é rara”, afirma Marcos Costa Lima, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Para ele, o Bolsa Família é crucial para entender a melhora econômica da região, uma vez que, ao proporcionar meio de troca a comunidades carentes, promove o incremento da produção de itens básicos, como alimentos e vestuário, que sentem o fortalecimento do mercado interno na região.

Francisco de Oliveira, sociólogo da Universidade de São Paulo (USP), critica o modelo de desenvolvimento baseado no varejo, mas, diferentemente dos outros analistas, não acredita que programas sociais possam elevar o comércio. “O Bolsa Família aumenta a compra do quê? De arroz, feijão e farinha? Ele é importante, mas não garante comércio de massas”, avalia. Para Oliveira, o programa é importante por aliviar a miséria, mas não transcende o assistencialismo, ficando restrito à transferência de dinheiro.

Segundo Amélia Cohn, socióloga da USP que pertenceu à equipe do Ministério de Desenvolvimento Social no começo do Bolsa Família, é preciso avaliar o impacto do programa na renda familiar. “Em várias regiões do Nordeste o valor mensal do programa é maior do que o que uma família pobre ganha em 12 meses. Isso impulsiona o comércio na região, que estava natimorto”, diz.

08/10/2009 - 09:33h Brasil corre riscos se crescer mais de 5%

Alberto Tamer* – O Estado SP

O mundo precisa crescer mais em 2010 e o Brasil, menos. O FMI está prevendo apenas 1,3% nos países desenvolvidos e 3,5% aqui. Mas suas estimativas quanto ao PIB brasileiro estão desatualizadas, não levam em consideração os resultados dos últimos trimestres. Tanto governo como institutos de pesquisa e bancos projetam 4,5% a 5% no próximo ano. Alguns admitem até perto de 7%. Não é impossível. Muito contrario, é provável, tendo em vista a forte recuperação dos últimos meses, que só está se acentuando neste trimestre.

Se a previsão do FMI está desatualizada, muito atual o seu alerta para o excesso de investimentos externos que continua entrando no País e a necessidade de rever a política de estímulo tributário e fiscal do governo.

“O Brasil vai instigar o apetite dos mercados de capitais por causa da solidez de sua economia. O seu problema é como administrar a abundância”, disse o diretor do FMI Nicolas Eyzaguirre, em Istambul. Segundo ele, se a demanda do setor privado global aumentar, “o Brasil deve começar a pensar em diminuir o estímulo fiscal para evitar valorização da moeda”.

São duas vertentes que se cruzam: aumento no afluxo de recursos externos, provocando valorização do real, e incentivos oficiais, criando inflação. Ela não está sendo atendida por causa da defasagem entre consumo e produção e o menor nível de investimento privado na indústria. O alerta não é só do FMI, mas de quase todos os economistas brasileiros: o governo deve administrar o crescimento em 2010, rejeitando a tentação de seguir a China, para a qual o FMI prevê mais de 9%.

AS TENTAÇÕES DE LULA

Mas não é só essa, é outra mais atual, atualíssima: atuar para que a economia cresça menos do que o previsto e se anuncia, num ano em que o presidente pretende fazer sua sucessora.

Aqui, a tentação se transforma em dilema: crescer mais com inflação maior, o que levaria o Banco Central a aumentar os juros? O que seria mais bem recebido pelos eleitores dentro de um ano, nas urnas?

E não digam que esse é um dilema que surgirá apenas no futuro, que vamos deixar como está. Não. Ele existe exatamente agora, sim. E não estou falando só de juros, mas de expansão da demanda também.

Como a economia não está sendo puxada pelas exportações e sim pelo consumo interno, acho que não temos um dilema, mas um “trilema”, em que se digladiam crescimento, juros e inflação. Dá para resolvê-lo, já que se errou ao não se dar ao setor privado o mesmo estímulo generosamente oferecido ao consumidor?

O QUE LULA VAI FAZER?

O ex-presidente do BC, Affonso Celso Pastore, sem dúvida um dos melhores economistas do País, afirma que o presidente já mostrou não ser complacente com a inflação. Opôs-se a todos, mesmo no governo, e deu mão forte a Meirelles na alta dos juros. Pastore acredita que o governo manterá a mesma linha, aceitando um crescimento menor para evitar pressões sobre os preços, hoje ajudados pela produção agrícola.

O raciocínio é simples: a inflação tem efeito imediato sobre o assalariado; ele a sente a cada dia, na caixa do supermercado, enquanto crescimento menor só se reflete sobre o emprego e a demanda em médio prazo. Afinal, o desemprego em 8,1% recuou a níveis de antes da crise e com a redução dos estoques as empresas voltarão a empregar.

SEI, SEI, MAS…

Tudo isso faz sentido, mas será uma decisão, num ano eleitoral, cancelar a redução de impostos e suspender incentivos fiscais. São benefícios que são logo repassados aos preços e aos consumidores.

A questão mais delicada, no momento, é saber se, quando e em que ritmo o governo vai reduzi-los, diluindo seu efeito sobre as eleições de 2010. É verdade que já existem sinais, como no caso do IPI dos veículos, mas os benefícios fiscais são mais amplos, passam de US$ 1 trilhão.

São questões econômicas sobre as quais as decisões políticas devem ter mais peso. Pastore acredita que a solução é ter crescimento mais moderado para evitar alta de juros excessiva, voltando-se a passar 10%.

SEM ESPAÇO MONETÁRIO

Por enquanto, só foi possível crescer mais com juros menores porque a taxa básica real, descontada a inflação, era muito alta. Essa margem de manobra não existe mais. Não se pode contar tanto com a política monetária dos últimos meses, para conter pressões inflacionárias.

É o dilema do presidente. Se levarmos em conta como agiu antes, pode-se prever que vai aceitar crescimento menor para ter a inflação sob controle. O erro maior do governo foi não ter dado ao investimentos privados industriais o estímulo semelhante oferecido à demanda interna. Passamos a consumir mais sem aumentar proporcionalmente a produção, que leva mais tempo para maturar e sempre chega depois.

Um erro que ainda persiste. E será mais difícil corrigir num ano de eleição.

*E mail: at@attglobal.net

06/10/2009 - 14:55h Agora, é a classe D que vai ao paraíso digital

Cenário: Fatias mais pobres da população compram PCs e serviços de internet no rastro aberto pela classe C


Gustavo Lourenção / Valor
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Na Associação Santa Cruz, na favela do Jaguaré, em São Paulo, adolescente aprende a usar o computador com a professora Neide Martins; acesso às redes sociais é um do principais atrativos



Talita Moreira e André Borges, de São Paulo – VALOR

Vá até a favela do Jaguaré, na zona Oeste de São Paulo, suba pelas vielas que se abrem em meio aos barracos e entre em qualquer uma das salas de aula do centro cultural Santa Cruz. Pergunte aos alunos que frequentam os cursos de moda, informática ou gastronomia quantos têm computador em casa ou acesso à internet. O número de braços erguidos fica bem abaixo do percentual típico de uma escola de classe média, por exemplo, mas é surpreendentemente alto para o perfil socioeconômico dos moradores.

É uma situação comum a outros bolsões de pobreza das grandes cidades brasileiras. A despeito dos recursos financeiros limitados, essa fatia da população está encontrando maneiras de ganhar acesso a facilidades como o correio eletrônico, as redes sociais e as buscas na internet. Para muitos, o computador parcelado no crediário e a assinatura de um serviço de acesso à internet já não são mero sonho de consumo. Converteram-se em uma ferramenta de estudos e pesquisas para crianças, entretenimento para adolescentes e símbolo de orgulho para os adultos.

Depois da classe C, que nos últimos anos tornou-se um dos principais alvos de empresas dos mais diversos setores, o acesso aos bens de tecnologia da informação (TI) também começa a ser realidade para a classe D – famílias com renda mensal entre R$ 768 e R$ 1.114, segundo os critérios da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

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Os fatores que estão proporcionando esse acesso são basicamente os mesmos que deram impulso ao consumo da classe C: barateamento dos computadores, acesso mais fácil ao crédito e, acima de tudo, a percepção sobre a importância crescente dos PCs e da internet como ferramentas de estudo, trabalho e lazer.

Um ano atrás, o vigilante noturno João José Dias e a esposa, Vera Dias, compraram seu primeiro computador – um modelo da Positivo que custou R$ 1 mil e foi dividido em 15 prestações. O casal também apertou o orçamento para pagar R$ 90 mensais para ter acesso a uma conexão de internet com velocidade de 1 megabit por segundo (Mbps). “Cortamos gastos com roupas e coisas supérfluas”, afirma a dona de casa, que ajuda a bancar as contas da família fazendo artesanato.

O casal decidiu investir num computado de tanto que insistiu o filho mais velho, de dez anos. “É muito importante para fazer as pesquisas de escola”, afirma Vera. Mas ela e o marido também acabaram se interessando pela coisa: ambos se matricularam nas aulas de informática oferecidas no centro cultural. Foi ali, numa tarde de quarta-feira, que o Valor encontrou os dois – ambos carregando suas apostilas.

Histórias como a da família Dias têm são cada vez mais comuns e começam a chamar a atenção das empresas do setor.

“A entrada da classe D no setor de PCs é um movimento muito claro para nós”, afirma César Aymoré, diretor de marketing da Positivo Informática. Essa camada da população já representa entre 6% e 8% das vendas de micros de mesa da companhia, que é o maior fabricante de computadores do país. Grandes varejistas, como a Casas Bahia, também já notam que a movimentação desses consumidores começa a ter impacto nos negócios.

Na Telefônica, 10% das vendas de novas conexões do serviço de acesso Speedy são para a classe D – mais que o dobro do percentual apresentado no ano passado. “A internet está ganhando um papel central na vida das pessoas, na vida em comunidade. Não é uma questão de status”, afirma o diretor de clientes residenciais da operadora, Fabio Bruggioni.

Segundo o executivo, metade dos consumidores da classe D que têm uma conexão de banda larga da Telefônica assina planos com velocidade igual ou superior a 1 Mbps. É uma distribuição parecida com a que se encontra nas classes B e C.

A operadora também lançou, recentemente, um pacote que inclui telefone fixo residencial de uso ilimitado e acesso à internet por meio de uma linha discada dedicada por R$ 54,90 mensais. O produto foi desenhado para atrair clientes que estão começando a usar a web, mas ainda não têm dinheiro ou interesse em pagar por um acesso de banda larga. A Telefônica ainda tem um milhão de internautas adeptos da linha discada e, de acordo com Bruggioni, esse número tem se mantido constante nos últimos anos. Enquanto mais pessoas adquirem um computador e começam a navegar na internet, outras migram para as conexões de alta velocidade.

“O computador é o grande sonho da classe D”, afirma Renato Meirelles, sócio-diretor e analista do instituto de pesquisas Data Popular, especializado em estudos sobre o comportamento das classes C, D e E.

Segundo o pesquisador, os PCs têm uma importância prática, além de ser um objeto de desejo. “Em 73% das famílias da classe D, os filhos têm mais escolaridade que os pais. Com isso, o pai acaba não conseguindo ajudar o filho nas tarefas de escola. O computador é que acaba cumprindo esse papel.”

Por outro lado, os computadores e a internet permitem que jovens de todas as faixas de renda tenham acesso aos mesmos recursos de comunicação, como redes sociais, sites de buscas e programas de mensagens instantâneas.

O acesso à web, na verdade, é o grande propulsor das vendas de computadores. “Sabemos que a compra um PC é motivada pelo acesso à internet. Hoje, 70% das pessoas que compram nosso equipamento são usuários de algum tipo de serviço de banda larga, contra 45% de um ano atrás”, observa Aymoré, da Positivo.

Para incentivar esse processo – e indiretamente estimular suas vendas – a Positivo mantém um acordo com a Vivo. A promoção inclui a oferta gratuita de um modem para o acesso à internet por meio da rede de terceira geração (3G) da operadora de telefonia móvel. Se o consumidor fosse diretamente até a loja da Vivo, por exemplo, pagaria R$ 199 pelo equipamento no plano de 250 megabytes. O custo do serviço, diz Aymoré, é 30% inferior ao valor normal e, nos três primeiros meses, o usuário só paga metade do preço da assinatura.

Um ano atrás, a Positivo também lançou um micro para atender à demanda dos consumidores de menor renda. O “PC da Família” custa entre R$ 999 e R$ 1.299 e é configurado com serviços específicos. Há links para que os pais tenham acesso direto a notícias, oportunidades de emprego, elaboração de currículo e dicas sobre como educar o filho. Para as crianças, o PC traz conteúdo educacional, com dicionário e jogos. O negócio deu certo. “Hoje, é o modelo de desktop que mais vendemos”, afirma o executivo.

Com base nesse resultado, outro modelo voltado à classe D foi lançado há três meses. O “PC Fácil”, comenta Aymoré, é um micro didático. Ao ligar a máquina, o usuário tem informações sobre como navegar na internet, criar um e-mail etc.

A oferta de modelos com linguagem mais básica e a queda nos preços dos computadores têm sido fundamentais no processo de inclusão desses consumidores de baixíssima renda. Hoje, é possível encontrar micros de mesa por R$ 619, bem menos que o valor mínimo de R$ 750 disponível no fim de 2005. Nos notebooks, a redução nesse período foi ainda mais pronunciada, de 41%: o produto mais barato do mercado sai por R$ 815, segundo o site de comparação de preços Buscapé.

Mesmo com as reduções de preço, porém, o valor ainda é alto demais para pessoas como Fabiana Guandalim, moradora da favela do Jaguaré. Casada com um vigia que recebe pouco mais de um salário mínimo por mês e mãe de cinco filhos, não sobra dinheiro para a família adquirir um computador. Mas Fabiana sonha: “É o que eu mais quero, e eu vou conseguir”. Ela já se matriculou nas aulas de informática do centro cultural.

06/10/2009 - 11:20h Segundo Joseph Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, ”Brasil deve manter medidas de estímulo”

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Entrevista – Joseph Stiglitz: professor da Universidade Columbia e Prêmio Nobel de Economia; ao contrário do que pede o FMI, Brasil ainda não deveria acabar com seus pacotes de ajuda, diz analista

Patrícia Campos Mello, ISTAMBUL

O risco de a economia mundial ter uma recaída e voltar a mergulhar numa recessão é “muito grande”, e por isso o Brasil ainda não deveria acabar com seus pacotes de estímulo. Essa é a opinião de Joseph Stiglitz, professor da Universidade Columbia e vencedor do Prêmio Nobel de Economia.

Muitos analistas acham que a economia brasileira corre risco de superaquecer e projetam grande alta de juros em 2010. O Fundo Monetário Internacional (FMI) diz que o Brasil é um dos países que deveriam rever seus estímulos econômicos, porque sua economia já está se recuperando e há risco de atrair excesso de dólares.

Mas, para Stiglitz, crítico contumaz do Fundo, o conselho do FMI pode ser precipitado. Stiglitz diz também que ainda não há uma alternativa confiável para a acumulação de reservas nos emergentes como forma de proteção contra crises, divergindo de outra recomendação do Fundo. Abaixo, trechos da entrevista que Stiglitz concedeu ao Estado.

O FMI diz que o Brasil é um dos países que deveria rever seus estímulos econômicos, porque sua economia já está se recuperando e há risco de atrair um excesso de dólares. O senhor acha que está na hora de o Brasil acabar com estímulos fiscais ou monetários?

É difícil para qualquer país ter certeza sobre uma estratégia de saída porque é difícil ter qualquer certeza sobre a economia global. Portanto, é apropriado pensar em estratégias de saída para os pacotes de estímulo, mas não implementar nada ainda.

Há risco de recessão em dábliu (duplo mergulho – depois de breve recuperação, a economia voltaria a mergulhar na recessão)?

Sim, o risco de uma recessão “duplo mergulho” é muito grande. É mais arriscado tirar os estímulos agora, que pode ser prematuro, do que mantê-los até que se tenha mais certeza sobre a recuperação do mundo. O Brasil é menos dependente de exportação que outros países e muitos ficaram surpresos quando o País foi afetado pela crise. Agora o País está em recuperação. Mas não há argumento para se retirarem os estímulos o Brasil neste momento.

O FMI quer atuar como “banco central mundial” e recomenda a emergentes como o Brasil que aumentem seus déficits em conta-corrente e reduzam a acumulação de reservas. Seria a maneira de os emergentes colaborarem com o ajuste dos desequilíbrios globais, já que as reservas estão na origem desses desequilíbrios. O que o sr. acha disso?

É preciso reconhecer que os países que estão acumulando reservas não estão consumindo. E há um grande problema na economia mundial hoje, que é recuperar a demanda agregada, já que os EUA estão deixando de ser o consumidor de última instância. Mas a questão é: qual é a melhor forma de reativar a demanda mundial? Não está claro se a melhor maneira de fazer isso é aumentando o consumo, em vez de elevando o investimento. Essa foi a estratégia que deixou os EUA em apuros, então tenho dúvidas de que seja a estratégia certa.

Grande parte dos emergentes foram menos afetados que os países ricos pela recessão, e eles argumentam que um dos motivos foi precisamente o alto nível de reservas.

Exatamente. Se nós tivessemos mecanismos alternativos de proteção ou se criássemos uma economia global mais estável, poderíamos pensar em reduzir reservas. Mas o movimento de desregulamentação dos anos 80 criou um mundo mais instável, que tornou necessária uma maior acumulação de reservas. As reservas são o sintoma, não a causa.

04/10/2009 - 11:58h ”Lula vai deixar o BC segurar a inflação”

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Fernando Dantas – O Estado SP


Recuperando-se de uma cirurgia de coluna, mas já mergulhado nos números da economia brasileira, o economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central (BC), dá um voto de confiança ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Para Pastore, Lula é pragmático, sabe que a inflação prejudica a sua popularidade e não vai impedir o BC de fazer o seu trabalho, mesmo num ano eleitoral. “Estou assumindo que o governo tenha responsabilidade.” O economista se alinha ao mercado ao prever que o surpreendente ritmo de reaquecimento da economia brasileira deve levar o BC a aumentar a Selic, a taxa básica de juros, em 2010. Pastore observa também que, como o impulso fiscal do governo que ajudou a tirar o País da crise foi realizado em grande parte com despesas permanentes, como salários e aposentadorias, não há como ajudar o BC agora, reduzindo aqueles gastos. A seguir, a entrevista:

Por que o Brasil está saindo tão rápido da crise?

A crise pegou o Brasil pela indústria. Teve uma queda um pouco menor na agricultura, mas a queda grande foi na produção industrial. No setor dos serviços, não caiu praticamente nada. Esse quadro é corroborado pelo emprego, que caiu na indústria, na agricultura, mas praticamente não caiu no setor de serviços. O grande setor da economia brasileira é o de serviços, empregando quatro vezes mais do que a indústria. Isso explica por que a recessão fez subir o desemprego no mundo inteiro, mas praticamente não fez subir o desemprego no Brasil.

E por que foi desse jeito?

Pode ter várias explicações, mas uma que ficou clara é que nós fomos pegos pelo lado dos “tradables” (produtos comercializáveis internacionalmente). A indústria é um setor muito aberto em relação ao comércio internacional, a exportação de manufaturas é mais ou menos 50% do PIB da indústria. Quando a crise jogou para baixo as exportações, jogou para baixo a produção industrial. Mas não jogou para baixo, por exemplo, setores de serviços como o setor bancário, que estava sólido, o comércio varejista, que foi rapidamente ajudado com medidas de isenção fiscal, ou as telecomunicações.

Qual o papel da política econômica em preservar o Brasil dos piores efeitos da crise?

A primeira reação que tinha de ter e teve foi a baixa agressiva de taxa de juros. O Banco Central teve de trazê-la a um nível mínimo histórico, abaixo da taxa de juros neutra. A segunda reação foi a política fiscal, em parte deliberada em reação à crise, como a isenção de impostos para automóveis, geladeiras e material de construção. Outra parte teve efeitos contracíclicos, mas já havia sido tomada antes, como aumentar salário de funcionários, benefícios da Previdência, Bolsa-Família, etc. Essas transferências, no fundo, são renda real que o governo está distribuindo a camadas da sociedade. Não é o único fator, mas explica um bom pedaço do movimento da recuperação da produção industrial de bens de consumo.

Então acabaram sendo corretos esses aumentos?

Esses são aumentos permanentes dos gastos públicos, que tiveram o lado benéfico de criar consumo e estão ajudando a sair rapidamente da crise. Mas tem outro lado: como esses aumentos de salário, de benefícios, são permanentes, você não consegue fazer uma redução gradual disso. E, assim, gera-se um episódio de aceleração da recuperação da atividade, que se soma ao estímulo que vem da política monetária.

E quais as implicações disso?

Eu mencionei que o setor de serviços está mais próximo do pleno emprego. Se você olhar para a indústria, há um hiato do produto (diferença entre o produto potencial e a produção atual) ainda muito grande. Mas, quando se olha para o PIB como um todo, no qual o setor de serviços é maior que o industrial, o hiato fica um pouco menor. Se ele é um pouco menor, isso significa que ele vai fechar um pouco mais depressa. E o risco é de que se tenha de começar o ajuste de taxa de juros antes do que o mercado julgava há três ou quatro semanas. Antes de alguns dados que saíram e mostram a velocidade com a qual a economia vem se recuperando, como o PIB do segundo trimestre e a produção industrial.

Quando deve haver o fechamento do hiato?

Há muita controvérsia, com algumas instituições prevendo já para o fim do primeiro trimestre de 2010, e outra para mais adiante. Na minha visão, independentemente da posição de cada um hoje, todos estão reconhecendo que o fechamento está um pouco mais rápido do que achavam que seria há alguns meses. O mercado está hoje avaliando como uma possibilidade mais alta que a Selic tenha de subir no começo do ano que vem. Em algum ponto do primeiro trimestre.

De quanto precisará ser a alta da Selic?

Se olhar a curva de juros, o mercado está colocando um ciclo total de 400 pontos, 450 pontos de subida de taxa de juros. Aí tem uma segunda controvérsia. Precisa tudo isso? Vai para mais de 12% a taxa de juros de novo, saindo de 8,75%? Ou vai se resolver com menos? É aí entra uma questão simples: se pudesse tirar um pedaço do estímulo fiscal, esse ajuste seria feito com taxa de juros menor. Acontece que estímulos fiscais contracíclicos, para que se possa tirá-los, têm de ser transitórios. No momento em que você não precisa mais deles, você tira. Esse estímulo fiscal tem um pedaço transitório, pequeno, que é a desoneração tributária. Mas tem a faceta permanente, do aumento das transferências. É um aumento dos gastos que você só resolveria se a inflação fosse maior para erodir o salário real dos funcionários. Porque ninguém vai politicamente chegar e baixar salário, não é? Essa componente é grande e permanente, não tem como tirar. Se não sai, se tiver de fazer o ajuste, será feito inteiro em cima de taxa de juros.

O que não é a situação ideal…

Certamente, não. Ela pode ser positiva para quem olha política de distribuição de renda, ou para quem olha o benefício eleitoral que deriva de uma estratégia como essa. Mas não é positiva como política econômica ótima, porque implica uma taxa de juro maior.

E a expansão de crédito pelos bancos públicos, não é um estímulo que poderia ser controlado?

No meu modelo, coloco o crédito e a parte fiscal juntos, como explicativos de um pedaço da recuperação dos bens de consumo. Quando se olha o crédito, os bancos privados não estão aumentando, a não ser algo em crédito ao consumo. O grosso do aumento de crédito está nos bancos oficiais. Nisso, o governo poderia voltar atrás. Se ele quiser reduzir a taxa de expansão de crédito para o setor privado, ele abre espaço para a taxa de juros ficar mais baixa. Mas não me parece que é essa a determinação do governo. Me parece que a determinação é a de continuar a expansão de crédito dos bancos oficiais.

Quanto o Brasil pode crescer sem risco inflacionário?

Depende de crescimento de produto potencial. Com a taxa de investimento ainda baixa, acho que o produto potencial vai crescer, no máximo, 4,5%. Se estamos indo para 5% de crescimento, isso apressa o fechamento do hiato do produto.

E quanto o sr. acha que o Brasil vai, de fato, crescer em 2010?

Eu já estive no 4,5%, já passei para o 4,7%. Acho que é possivelmente entre 4,5% e 5%. Tem gente com mais do que isso no mercado. Tem gente com 6%. Depende do governo. Se o governo não fizer nada, vai dar 6%. É que eu sou um otimista inveterado, e acho que o governo vai tomar cuidado, não vai deixar ir para 6%. Enfim, cada previsão dessas depende do que pensamos sobre a reação do governo. O cara que acha que cresce 6% acha que o governo vai deixar o pau comer solto e não vai fazer nada. Não acho que o governo vai deixar o pau comer solto. Ele vai ser mais comedido, se precisar subir o juro vai subir o que tiver de subir. Se der para dar uma acertada, dentro do limite do possível, na política fiscal, vai dar. E aí vai ficar com o crescimento mais na faixa do 4,5% a 5%. Estou assumindo que o governo tenha responsabilidade. E que não está olhando só para a eleição.

O que o sr. pensa da possível saída do Henrique Meirelles do BC?

O Meirelles vai decidir a vida dele, e tem todo o direito de fazer o que ele quiser – isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que, se o Brasil estiver crescendo 5%, e se tiver de subir taxa de juros, acho que o dano é muito pequeno. Raciocine um pouco com a cabeça de um homem pragmático que se chama Luiz Inácio Lula da Silva, que viveu a vida inteira como sindicalista, antes de ser presidente e político, e sabe que o custo da inflação é tirar a popularidade de qualquer governo. E que sabe também que, se você tiver desemprego aberto, a sua popularidade vai embora. Um crescimento de 4,5% ou de 5% não vai gerar desemprego. Mas, se gerar inflação, tem o custo. Se o governo elevar os juros caso tenha de fazê-lo, a Fiesp pode gritar, alguns empresários podem ficar irritados, achando que estão destruindo o País, mas o Brasil estará melhor, com uma inflação contida e com o crescimento mais próximo do PIB potencial. Acho que, no plano do puro pragmatismo, o BC estaria tão livre para subir taxa de juros como jamais foi.

Preocupa a flexibilização da meta de superávit primário de 3,3% em 2010?

Em primeiro lugar, a meta não é 3,3%. É 3,3% menos o Fundo Soberano, menos o PAC, menos isso, menos aquilo. A dinâmica da dívida pública não responde a essa definição do 3,3% menos o Fundo Soberano, etc. Porque o Fundo Soberano do qual se deduz o superávit é gasto que aumenta a dívida. O dinheiro que está se transferindo para o BNDES, para comprar empresas no exterior, está aumentando a dívida. O que se está deduzindo com o PAC – e não quero dizer que o PAC não seja uma coisa boa – está aumentando a dívida. Se a política fiscal é mais expansionista, se vão trabalhar com uma taxa real de juros mais alta, vai haver a necessidade de um superávit primário um pouco maior. Quer dizer, é preciso prestar atenção e se adaptar, e acho que possivelmente o governo está prestando atenção.

Pode haver consequências negativas da redução do superávit?

O temor de não sustentabilidade da dívida pública, que existia no começo do governo Lula, caiu a um mínimo. Isso ocorre em parte porque o Brasil está crescendo. Se o País crescer pouco, cresce 4,5%. Com isso, dá para ter até um superávit de 1,6% do PIB que estabiliza a relação dívida/PIB. Não há risco de o mercado achar que o Brasil vai entrar em “default”, fazendo um superávit primário menor. Esse risco desapareceu, o Brasil virou grau de investimento. Não é essa a discussão que interessa, mas sim se estamos fazendo o uso adequado das políticas monetária e fiscal para determinar o melhor balanço de crescimento do ponto de vista do impulso que você gera para o setor privado poder investir, ou do impulso que gera para o setor governamental crescer.

Como o sr. vê as contas externas?

O déficit na conta corrente este ano é muito pequeno, mas vai crescer bem no próximo. O BC, depois de hesitar muito, nesse último relatório de inflação já projeta um déficit na conta corrente para o ano que vem de 1,8% do PIB. Não é enorme, é financiável, porque você pode ter e deve ter fluxos de capital para financiar um déficit desse tamanho. Em primeiro lugar, o Brasil vai crescer mais do que o resto do mundo. Se ficar no intervalo mais baixo das projeções, temos de 4,5% a 5% em 2010 – é mais que os Estados Unidos, é mais que a Europa, é mais do que qualquer país latino-americano. O Brasil mudou muito a sua corrente de comércio, estamos muito mais integrados na Ásia, e a Ásia está crescendo muito mais depressa do que os Estados Unidos e as Américas. Quando se tem isso e um mercado interno deste tamanho, com sistema bancário sólido, com condições macroeconômicas estáveis, você atrai investimento estrangeiro direto, atrai portfólio de bolsa, tem fluxos de capitais que financiam facilmente o déficit em conta corrente de 1,8%. Agora, para que esse dinheiro entre, o mercado tem de perceber que esse é um crescimento sustentável, que não há nada artificial aqui dentro.

O que o sr. quer dizer com isso?

Suponha que nós podemos crescer 4,5% a 5%, mas o governo resolve crescer 6% para tentar ganhar uma eleição. Para crescer 6%, começa a exagerar no gasto público e – isto é puramente hipotético – põe o BC numa camisa de força, na qual ele é impedido de subir a taxa de juros, e deixa a inflação crescer temporariamente. Numa situação dessas, o mercado certamente perceberá que o crescimento é artificial. E o fluxo de capital não entra, e nesse caso deprecia o câmbio e tem inflação. Agora, para evitar correr o risco de deixar o crescimento ir para 6%, pode-se subir um pouco a taxa de juros, cortar um pouco o gasto público, trazer o crescimento de volta para 4,5% a 5%, evitando o custo inflacionário da depreciação cambial e financiando o déficit na conta corrente sem nenhum problema, com o câmbio de equilíbrio que tiver de ter. Nessas circunstâncias, que considero mais prováveis – porque acho que o governo vai ter juízo – penso que a tendência do câmbio é a de ficar estável, ou com uma pequena valorização. Mais para estável do que para pequena valorização.

01/10/2009 - 15:37h Venda de carros bate recorde histórico em setembro

No último mês de isenção do IPI foram comercializadas 296,6 mil unidades.
Marca anterior era de junho, com 289,7 mil automóveis e comerciais leves.


IPI voltará a ser cobrado de forma gradativa (Foto:                 TV Globo/Reprodução)
IPI voltará a ser cobrado de forma gradativa (Foto: TV Globo/Reprodução)

Do G1, em São Paulo

As vendas de automóveis e comerciais leves em setembro alcançaram um recorde histórico na indústria automobilística. Foi o último mês do benefício da isenção do IPI para carros novos, impulsionando a venda de carros para 296.651 unidades de automóveis e comerciais leves, superando a marca anterior de junho, quando foram vendidos 289.792 unidades.

O desempenho das vendas de automóveis e comerciais leves no varejo foi  21,85% maior do que agosto (204,8 mil) e 19,8% superior em relação a setembro de 2008 (208,3 mil unidades). Os números foram divulgados nesta quinta-feira (1º) pela Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave).


No acumulado do ano, as vendas deste segmento aumentaram 5,49% em comparação ao período de janeiro a setembro de 2008, saltando de 2.096.396 unidades para 2.211.421 unidades.

Incluindo os emplacamentos de caminhões e ônibus, o total em setembro sobe para 308.713 unidades, número também inédito para o setor. Até então, o recorde mensal havia sido registrado em junho deste ano, com 300.174 unidades, conforme dados da Fenabrave.

Já o mercado geral de veículos, que engloba automóveis, comerciais leves, caminhões, ônibus, motocicletas, implementos rodoviários e outros produtos tracionáveis, teve alta de 13,59% em relação a agosto e caiu 1,27% comparando a setembro de 2008. Foram vendidos 456.477 veículos em setembro e 3.553.272 no ano.

Fim do IPI

“Apesar da crise, o desempenho das vendas de automóveis e comerciais leves foi positivo, uma conseqüência não apenas da redução da alíquota do IPI, mas também devido à oferta de crédito”, afirmou Sérgio Reze, presidente da Fenabrave.

“Com a volta do imposto, as vendas de veículos devem retrair um pouco devido, inclusive, à antecipação das compras. Mas, não causará grande impacto. O fim do benefício chega num momento em que a economia está praticamente restabelecida, há oferta de crédito e consumidores confiantes”, comentou o presidente da entidade.

A Fenabrave continua mantendo suas projeções de crescimento para até um dígito este ano, mas o percentual pode sofrer variações dependendo da resposta dos consumidores à volta gradativa das alíquotas de IPI. “Estimamos um crescimento em torno de 3%, mas se obtivermos os mesmo resultados do ano passado, já será um dado positivo para o setor”, conclui Reze.

01/10/2009 - 11:56h Antecessores não viram ‘riqueza social’ do petróleo, diz Dilma

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Paulo de Tarso Lyra, de Brasília – VALOR

A chefe da Casa Civil, ministra Dilma Rousseff aproveitou o pretexto da abertura do 3º Congresso Nacional de Aquicultura e Pesca para fazer um discurso, seguido de entrevista, em que tratou dos temas da economia, da política e até da política externa. Afirmou que o Brasil saiu mais forte da crise internacional porque apostou no poder de compra das camadas mais carentes da população. “O presidente [Luiz Inácio] Lula [da Silva] tinha razão ao afirmar que a população mais pobre deste país não seria amedrontada pela crise internacional”, declarou a pré-candidata do PT à Presidência da República. Dilma previu um futuro melhor. “Em breve, voltaremos a crescer nos mesmos patamares que crescíamos antes de setembro de 2008″.

Dilma incorporou ao seu discurso o apelo dos programas sociais do governo. Segundo ela, a manutenção dos programas sociais do governo federal deu um impulso extraordinário para ajudar o Brasil a vencer a crise. Diante de representantes da indústria pesqueira – incluindo cooperativas de pescadores de todo o país – a ministra acusou os antecessores de Lula de serem incapazes de olhar para o setor com o respeito que ele merece. “Além de ser uma fonte de alimentação para a população, é um ramo da economia que gera emprego e renda”, disse.

Num discurso de campanha, ela atacou os adversários e comparou este descaso à falta de atenção que os governos anteriores têm em relação ao petróleo. “São os mesmos que não souberam perceber que o petróleo é, além de uma riqueza natural, uma riqueza social e humana”, acrescentou.

Mesmo sem estar diante do público adequado para este tipo de discurso, Dilma fez questão de ressaltar que o governo rompeu com o receituário do Fundo Monetário Internacional (FMI). Segundo ela, a cartilha apresentada pelo fundo aos países que enfrentavam turbulências financeiras era sempre a mesma: corte de investimentos e custeio. “Nós mantivemos a política de reajuste do salário mínimo, aumentamos os investimentos em infraestrutura com o lançamento do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), capitalizamos o BNDES e abaixamos as nossas taxas de juros no auge da crise financeira”, enumerou.

Ela apresentou aos participantes do encontro um balanço social e econômico do governo, afirmando que foram criados, ao longo dos sete anos e meio de governo Lula, 11 milhões de empregos. Citando dados do PNAD, ela afirmou que 20 milhões de pessoas deixaram a pobreza extrema e 26 milhões de brasileiros ingressaram na classe média. “Podemos dizer, sim, que a economia do Brasil vive um novo momento”, exaltou.

Dilma citou a descoberta das reservas de pré-sal a 7 mil metros de profundidade – “para vocês terem ideia, isto representa dez vezes a altura do Corcovado”, como mais um marco deste novo momento do país. “O Brasil hoje é muito mais respeitado nos debates internacionais”. Para ela, o desenvolvimento do país beneficiará os pescadores, pois terá impacto direto na demanda de pescado. “Estaremos colhendo, nos mares, lagos e rios, tudo o que plantamos nestes últimos anos”.

Em entrevista, Dilma defendeu a atuação do governo brasileiro na crise política em Honduras. Em um primeiro momento, disse que não tinha opinião sobre o caso, mas endossou o discurso de Lula contra o governo interino de Roberto Michelletti. “Não apenas o Brasil, mas a Organização das Nações Unidas (ONU), a Organização dos Estados Americanos (OEA) e os Estados Unidos condenaram o governo golpista que está em Tegucigalpa (capital hondurenha)”, declarou.

Dilma não quis comentar um artigo da constituição hondurenha no qual se prevê que governos que propõem prorrogação de mandato podem ser destituídos. “Derrubar um presidente legitimamente eleito é golpe. Golpe não é relativo. Não vou discutir nem relativizar, pois não cabe ao governo brasileiro fazer isso”, completou a ministra.

24/09/2009 - 09:45h ”Brasil vai crescer 6% no ano que vem”

Leo Pinheiro / Valor
Foto Destaque
Luiz Carlos Mendonça de Barros: crescimento do PIB em 2010 pode chegar a 6% no ano que vem

Luiz Carlos Mendonça de Barros: sócio da Quest Investimentos e ex-ministro. Para Mendonça de Barros, economia deve retomar o dinamismo de antes da crise, mas é preciso cuidado com a inflação

Luciana Xavier, AGÊNCIA ESTADO

O Brasil deve ter forte recuperação e crescer 6% no ano que vem, acredita o sócio da Quest Investimentos, Luiz Carlos Mendonça de Barros, que foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações no governo de Fernando Henrique Cardoso. “Vejo a economia retomando rapidamente o dinamismo de antes da crise”, disse, em entrevista ao AE Broadcast Ao Vivo, da Agência Estado. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Esta semana o Brasil virou grau de investimento pela Moody”s. Qual a importância desse upgrade?

Houve uma convergência das agências, com uma novidade no caso da Moody”s, pois ela, além de melhorar nossa nota no nível de investment grade, colocou também em observação positiva. Isto é, deu um sinal de um movimento próximo de melhora ainda na nota. Mas é uma coisa engraçada porque o mercado já vinha antecipando esse movimento. Acho que essa questão do investment grade está superada. Vamos olhar para frente.

Ao olhar à frente, o que o sr. vê?

Vejo uma economia retomando rapidamente o dinamismo que tinha antes da crise, com impacto ainda negativo do comércio exterior – as exportações brasileiras não se recuperaram. Certamente, o investimento, afetado na crise, vai voltar naturalmente. Alguns analistas parecem não entender que uma dinâmica de economia de mercado tem um timing natural. Muita gente está criticando que o investimento não voltou ainda. Isso é absurdamente natural. Estamos saindo de uma crise. Então acho que a cadência da economia brasileira vai ser a manutenção do estímulo vindo do setor privado, do consumo – o emprego voltou a crescer, os salários voltaram a ter ganho positivo, em real. Os bancos também voltaram à normalidade. Com um estímulo adicional, pois perderam espaço para os bancos públicos nesses quatro a cinco meses em que se trancaram. Acho que vão querer recuperar o tempo perdido, o que dá um impulso maior à retomada do crédito.

O sr. enxerga uma enxurrada de recursos vindo para o Brasil?

Isso já está ocorrendo. Se olharmos a previsão de abertura de capital de empresas brasileiras nos próximos meses, estamos perto dos US$ 14 bilhões. E isso vai acontecer porque o mundo tem hoje um desequilíbrio entre oportunidade e liquidez para investimentos. Porque tem um pedaço grande do mundo, principalmente dos desenvolvidos, em que a retomada da atividade vai ser muito lenta. E esse pedaço tem ainda uma capacidade ociosa para ser ocupada, que vai fazer com que os investimentos nos próximos dois anos sejam muito pequenos. Por outro lado, há alguns países – o Brasil é um deles – onde se retomou mais rapidamente a dinâmica do consumo e as oportunidades se apresentam de forma mais clara. Além disso, é importante entender que nessa saída de crise há um problema com o dólar americano, que tem levado investidores a buscar ativos em regiões do mundo cuja moeda tenha dinâmica diferente do dólar. O real é uma dessas moedas.

O dólar chegou ontem (dia 23) a R$ 1,782. Pode cair mais?

Não sei. Há seis meses fiz uma projeção que naquele momento parecia absurda, de dólar a R$ 1,80. Até R$ 1,80 eu vou. A partir daí, prefiro observar (risos). Mas é importante entender que o real não tem movimento autônomo, isolado. Ele está se valorizando numa cesta de moedas – principalmente ligadas a economias exportadoras de commodities – e tem de acompanhar um pouco essa dinâmica. Ele não está sozinho.

O que impede o dólar de voltar ao patamar pré-crise?

Ele volta ao patamar pré-crise se as outras moedas também voltarem. E tem o Banco Central. Acho que o BC teria de acompanhar a cotação do real nessa cesta de moedas. Isto é, ele não deve interferir no processo de valorização dessa cesta. Mas se nessa cesta de moedas, o real, por alguma condição de movimento de capitais, tiver uma valorização maior, acho que é dever dele intervir.

O sr. não vê então nenhum grande problema na economia?

Por incrível que pareça, na metade do ano que vem vamos começar a nos preocupar com a inflação. E aí entra a questão fiscal. No período em que a economia privada deu esse vácuo, ele (governo) entrou, corretamente. Só que está na hora de sair. Porque, se acumularmos crescimento do consumo interno – que vai ocorrer -, volta dos investimentos e nível de gasto do governo tão elevado, vamos começar a criar tensão inflacionária, que vai desembocar na alta dos juros.

De qualquer modo, a partir do segundo semestre de 2010 pode haver um problema para o BC?

Acho que sim. Nós podemos começar a ver uma inflação mais próxima de 5% do que de 4,5% já no ano que vem.

Como o sr. vê o crescimento do Brasil em 2010?

Nós revisamos nossa projeção para crescimento do PIB em 2010 de 5% para 6%.

Qual sua expectativa para o relatório trimestral de inflação?

Acho que todas as projeções para este ano e para o ano que vem apontam ainda para um número por volta de 4,5% (IPCA). O que estou colocando como preocupação é uma projeção um pouco mais adiante, que não é bem o objetivo do relatório de inflação do BC.

24/09/2009 - 08:45h PIB pode crescer acima de 5% em 2010

Conjuntura: Demanda, com aumento do emprego e da renda, levou analistas a um forte aumento das projeções

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Sergio Lamucci e João Villaverde, de São Paulo – VALOR

O cenário positivo que se desenha para a demanda interna torna cada vez mais provável um crescimento na casa de 5% em 2010, e já há até quem aposte em alta de 6%, como o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros, da Quest Investimentos. O consumo das famílias e o investimento devem liderar a expansão, com as despesas do governo como coadjuvante, um resultado da combinação de juros baixos, mercado de trabalho em recuperação, gastos públicos elevados e redução das incertezas globais. Para este ano, boa parte dos bancos e consultorias já aponta para um Produto Interno Bruto (PIB) ligeiramente positivo.

O economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale, diz que uma alta expressiva do PIB em 2010 está praticamente contratada. “A política monetária e a política fiscal serão muito expansionistas. Elas estarão trabalhando como nunca para estimular o crescimento”, afirma Vale, que revisou na semana passada a sua projeção de 4% para 5%. Para ele, apenas uma piora muito acentuada do cenário global pode comprometer um PIB forte em 2010, algo como um “novo Lehman Brothers” – o banco de investimentos que quebrou em setembro de 2008, agravando a crise. Vale acredita em crescimento de 5% do consumo das famílias, estimulado pela alta de 5% da massa salarial acima da inflação, e de 11% dos investimentos na construção civil e em máquinas e equipamentos (a formação bruta de capital fixo, FBCF) – em 2009, ele projeta queda de 10,2% da FBCF.

Mendonça de Barros passou a apostar em crescimento de 6% em 2010 depois da divulgação dos números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de agosto, que revelou um saldo positivo de 242,1 mil postos de trabalhos formais. A renda segue firme e a geração de emprego está melhor do que se esperava, diz ele, observando que a Quest passou a trabalhar com uma alta do PIB neste ano de 0,2% – antes do Caged de agosto, estimava queda de 0,3%. O Morgan Stanley, que chegou a prever queda de 4,5%, hoje estima recuo de apenas 0,5%.

“O consumo das famílias deve continuar forte, e o investimento também deve voltar, estimulado pela demanda. Além disso, o governo está gastando que nem louco”, afirma Mendonça de Barros, ministro das Comunicações no governo Fernando Henrique Cardoso. Apenas as exportações não devem ter uma reação das mais expressivas, já que o mundo ainda crescerá pouco no ano que vem.

Para ele, o ritmo forte de expansão da economia, com um mercado de trabalho tão pujante, pode exigir aumentos de juros já no primeiro semestre do ano que vem. Nesse cenário, o governo deveria mudar a política fiscal, diz Mendonça de Barros. Com a demanda privada aquecida, manter os gastos públicos em alta expressiva é uma má ideia. “A inflação não vai dar saltos, pulando de 4,5% para 8%, mas pode ficar pressionada por conta do mercado de trabalho muito aquecido, elevando os preços dos serviços.” Vale diz que há de fato o risco de alta dos juros no ano que vem, mas vê um eventual aumento da taxa Selic, hoje em 8,75% ao ano, apenas no quarto trimestre. Se ocorrer, será mais por causa das perspectivas para a inflação em 2011 do que pela pressão no ano que vem, já que a capacidade ociosa na indústria é grande.

O diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Bradesco, Octavio de Barros, também mudou a sua projeção de crescimento do PIB para 2010, elevando-a de 4,9% para 5,4%. “A maior surpresa em nosso cenário certamente tem sido o comportamento muito favorável do mercado de trabalho e da renda”, diz Barros. Segundo ele, os efeitos da redução dos juros, dos estímulos fiscais e da rede de proteção social criada nos últimos anos “foram capazes de preservar o emprego de forma importante, levando à rápida recuperação da confiança dos consumidores e, consequentemente, à manutenção do otimismo empresarial e da produção voltada ao mercado doméstico”.

O economista chama a atenção para o desempenho das vendas no comércio, que podem crescer algo próximo a 5% neste ano, descontada a inflação. Num quadro de preservação da demanda interna, com perspectiva de continuidade da expansão dos estímulos fiscais e da ampliação de alguns benefícios já contratados – o salário mínimo deve subir quase 10% em 2010, por exemplo -, ele mudou as suas estimativas para o PIB deste ano e do próximo. Para 2009, o Bradesco, que projetava queda de 0,5% prevê agora uma alta de 0,1%. “Em nosso novo cenário, a demanda doméstica continua a ser o motor do crescimento, puxada pelo consumo das famílias e os gastos do governo. Os investimentos retornarão em breve, mas esperamos uma contribuição bem menor do que os demais ainda em 2010″, afirma Barros, ressalvando, contudo, que as inversões podem ser mais fortes do que ele projeta, “por conta das boas perspectivas para a economia e da farta disponibilidade de financiamento doméstico e externo. ”

Para Rodrigo Azevedo, ex-diretor do Banco Central (BC) e sócio-sênior da JGP Gestão de Recursos, o Brasil deverá alcançar crescimento de 5% no PIB do próximo ano, impulsionado pela melhora do setor exportador e do mercado interno, sustentado pelo crescente aumento da renda. “Há revisão para cima no crescimento mundial, tendo uma retomada do comércio em primeiro plano. Como já observamos uma puxada das exportações acima das previsões, é possível supor que o quadro para 2010 seja melhor”, analisa Azevedo, que trabalha com um quadro mais favorável para as exportações do que a média dos analistas. Para ele, a “profunda” retração pela qual passou a indústria entre o fim de 2008 e os primeiros meses de 2009 ampliou a capacidade ociosa, que foi e está sendo lentamente retomada. Azevedo destaca ainda que o governo federal não dá sinais de que vai segurar os gastos públicos.

O economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, diz que, do ponto de vista da oferta, a indústria é que vai brilhar em 2010. Ele prevê alta de 9% para a produção industrial, uma reação forte à queda de 7% esperada para 2009. Os setores ligados ao mercado interno e que produzem bens de capital devem ter bom desempenho, avalia ele. Do lado da demanda, ele aposta em forte expansão do consumo das famílias, de 5,2%, e do investimento, de 15,8%.

Outro fator que vai ajudar o crescimento é a herança estatística (o “carry over”) que 2009 deixará para 2010, como destaca Azevedo. Segundo ele, se o PIB deste ano ficar estável, como ele prevê, o “carry over” será de 2,5%. Com isso, se a economia não crescer nada em relação ao nível do fim deste ano, a expansão em 2010 será de 2,5%. Para comparar, o “carry over” que 2008 deixou para 2009 foi negativo em 1,5%.

Thaís Zara, economista-chefe da Rosenberg & Associados, tem previsões menos otimistas para o próximo ano, embora aposte em crescimento de 0,3% em 2009. “O fundo do poço já passou, mas o crescimento mundial não será tão forte quanto se imagina”, afirma ela, que aposta em crescimento de 3,5% para o ano que vem. O fim das desonerações tributárias deve tirar um pouco de força da economia nos próximos trimestres, acredita ela. Nem a perspectiva de aquecimento da demanda externa por produtos nacionais empolga a analista, que vê no câmbio valorizado um entrave para o impulso exportador, embora os bens primários devam melhorar o saldo comercial do Brasil.

22/09/2009 - 09:29h Emprego puxa crescimento nos próximos meses

Jefferson Dias / Valor
Foto Destaque
O ex-diretor do BC Ilan Goldfajn acredita que a crise global ficou para trás

Luciano Máximo, de São Paulo – VALOR

Depois de experimentar um crescimento essencialmente concentrado no avanço do consumo e de setores setores beneficiados pelas medidas anticíclicas do governo federal, a atividade econômica no país voltará a crescer de maneira disseminada. A avaliação é do economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, ex-diretor do Banco Central (BC). Ele disse ontem que a retomada do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro nos próximos trimestres será ancorada principalmente pelo forte aquecimento do mercado de trabalho, além da retomada da economia mundial.

“O mercado de trabalho terá retomada de fôlego com a volta do crescimento da população ocupada e da renda. Aumento da massa salarial e a retomada de crédito melhoram as perspectivas de vendas”, opina Goldfajn. Em agosto, o país comemorou a criação de 242.126 empregos formais e sonha em fechar 2009 com saldo de 1 milhão de vagas abertas.

Aurélio Bicalho, economista da equipe de Goldfajn, lembrou que o corte do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para veículos zero quilômetro país foi fundamental para a expansão da economia entre abril e junho. “A indústria cresceu 2,1% no segundo trimestre na comparação com os três primeiros meses do ano, e o setor automotivo sozinho respondeu pela metade desse crescimento.” Os economistas lembraram também que a forte demanda chinesa ajudou a impulsionar o PIB no segundo trimestre.

A dinâmica do mercado de trabalho também deverá estimular o restabelecimento do crédito. “A decisão das empresas de contratar significa mais confiança na economia, por isso esperamos que os empréstimos, principalmente para pessoa jurídica, voltem ao longo do ano”, aposta Goldfajn. Apesar das previsões positivas, o PIB de 2009 fechará 2009 com queda de 0,6%, segundo o economista. O crescimento projetado para 2010 é de 4,8%.

No lado da demanda externa, o economista-chefe do Itaú Unibanco acredita que o Brasil, ao lado de Índia e China, deverá substituir os Estados Unidos como um grande mercado consumidor mundial, atraindo recursos estrangeiros e reforçando o déficit das transações correntes do país – estimado pela equipe econômica do banco em 1% do PIB em 2009 e 2,6% em 2010. Já em relação à retomada dos investimentos internos, o economista é mais pessimista. “Vão crescer pouco nos próximos trimestres.”

22/09/2009 - 08:35h 31,9 milhões sobem de classe social

Estudo da FGV mostra mudanças nas classes sociais de 2005 a 2008 e crescimento de 14,98% no potencial de consumo

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Adriana Chiarini, RIO – O Estado SP


O Brasil foi palco de intensa mobilidade social entre 2003 e 2008, com 31,9 milhões de pessoas subindo das classes mais baixas para as mais altas. Os dados, compilados pelo Centro de Políticas Sociais (CPS) da Fundação Getúlio Vargas com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2008, divulgado na semana passada pelo IBGE, revelam que a população que ampliou as classes AB e C é de quase 5 milhões de pessoas a mais do que o CPS esperava há poucos dias.

Segundo o pesquisador Marcelo Neri, a ascensão da classe média decorreu basicamente do fator trabalho e renda. O potencial de geração de renda familiar cresceu neste período 28,32%, bem mais do que o crescimento de 14,98% do potencial de consumo. Por potencial de consumo entende-se o acesso a bens, especialmente duráveis, como eletrodomésticos.

A migração social estendeu-se também à base da pirâmide. Programas de geração de renda, como o Bolsa-Família, tiveram grande influência na redução da classe E, a mais baixa, de onde saíram 19,5 milhões de pessoas entre 2003 e 2008, correspondente a 43%. Outros 20,9 milhões saíram das classes D e E e foram para a classe média.

Neri considera que o fato de o resultado do aumento do potencial de geração de renda (do produtor) ter sido maior que o de consumo pode ter se dado em parte por incluir a posse ou uso de celulares e computadores como investimento e não de consumo pode. “Isso explica parte do aumento do potencial do produtor ter sido maior que o de consumo, mas acho que computador e celular aumentam a produtividade”, explicou.

Neri, que, por conta de dados anteriores, esperava crescimento do consumo superior ao da renda, declarou-se surpreendido com o resultado.

Também entram no cálculo estatístico do potencial de geração de renda fatores como a inserção no mercado de trabalho; o nível de educação dos membros das famílias; a matrícula dos filhos em escolas públicas ou privadas, e o investimento em Previdência.

Para Neri, “sementes plantadas na década de 90, como a estabilização, as reformas e o aumento do acesso à educação”, podem ter contribuído para o aumento do potencial de geração de renda das famílias nesta década.

Dois terços da queda da desigualdade no País num período um pouco mais longo – de 2001 a 2008 – podem ser explicados, na avaliação do economista, apenas pelo aumento da renda do trabalho. A desigualdade vem caindo paulatinamente nos últimos anos, como mostrou a Pnad por meio da medição do índice de Gini. Por esse sistema internacional de tabelamento, as sociedades são avaliadas por uma tabela de zero a um. Quanto mais próxima de zero, mais perfeita a distribuição de renda; quanto mais próxima de um, maior a desigualdade. Pela Pnad de 2008, o índice de Gini brasileiro foi de 0,515. Em 2001, ficara em 0,558.

“Tudo aponta mudanças na sociedade brasileira no sentido de que o valor do trabalho está aumentando”, afirmou o economista. “Esta é a década da redução da desigualdade de renda e do aumento do emprego formal”, concluiu a partir dos dados que mostram que, entre 2001 e 2008, a parcela formada pelos 10% mais pobres da população brasileira teve aumento de renda de 72,45%, enquanto os 10% mais ricos elevaram a renda em 11,37%.

18/09/2009 - 13:50h Sorria Vinicius, o mal humor faz mal à saúde

VINICIUS TORRES FREIRE – FOLHA SP

Um PIB cinco estrelas na eleição?


Estimativas de mercado e governo convergem para PIB em alta de 5% em 2010; Lula prepara ainda pacote político

CHUTAR OU “estimar de modo informado” os números do crescimento econômico é um esporte quase tão desacreditado quanto o campeonato mundial de baratinhas, o de corridas de carros Fórmula 1, embora de modo um tanto injusto -ou ao menos pelos motivos errados (economistas batem muito seus carros no muro, mas raramente de propósito).
Mas conviria prestar atenção ao fato de que tanto os números da propaganda do governo como os das estimativas do mercado para o PIB de 2010 convergem para 5%. Há autoridades do governo mais otimistas até que o ministro da Fazenda, Guido Mantega.
Miguel Jorge, ministro do Desenvolvimento, falou ontem em 5%. O economista Luciano Coutinho, presidente do BNDES, vem repetindo tal número faz tempo. Das consultorias mais sérias, a MB Associados subiu ontem sua projeção para o crescimento de 2010 de 4% para 5%. Os economistas do Bradesco ficam por aí, com 4,9%; os do Itaú, com 4,8%.
E daí? Prestar atenção à sintonia das expectativas públicas e privadas parece uma atitude assemelhada a ressaltar a importância das conjunções planetárias, na idiótica astrologia. Porém, esse início de disseminação do otimismo não é de todo sem consequência para o ânimo dos agentes econômicos -e também é reflexo desse mesmo ânimo. Não se trata de animação sem fundamento.
Os números do PIB foram melhores do que se poderia esperar, e os do comércio mal sentiram o choque inicial da crise no mercado de trabalho, que, no entanto, se dissipou rapidamente. A resistência do emprego foi uma das maiores surpresas do ano.
O clima de concórdia público-privado vai muito além das estatísticas. Lula agregou politicamente a maior parte da grande empresa. Nos itens da “pax” empresarial luliana podem ser lembrados: subsídios, aumento do crédito subsidiado (via BNDES), criação de fundos paraestatais de investimento (como aqueles para habitação e infraestrutura), apoio legal, extralegal e “muito legal” a fusões e aquisições, salvação de megaempresas quebradas etc.
Mesmo a intervenção do governo no mercado bancário, via expansão da atividade dos bancos estatais, nas internas é bem-vista pela banca, que em parte se beneficiou dela. Baixou, de resto, o tom das críticas ao nível da taxa de juros. O “mercado” faz menos alarde até a respeito da expansão do gasto público. Nem mesmo a desprivatização do petróleo suscita crítica forte. É um espanto.
A fim de deixar ainda menos barato o efeito de uma alta do PIB de eventuais 5% em 2010, o governo prepara sua política expansionista de propaganda política para o ano da eleição.
Além do já conhecido bumbo do petróleo verde-amarelo e da expansão de gastos públicos ainda maior para o ano que vem, soube-se ontem que Lula prepara uma “consolidação das leis sociais”, segundo as palavras do próprio presidente em entrevista ao jornal “Valor Econômico”.
Sabe-se lá o que sairá dessa ideia e se tal projeto de lei tem alguma chance de prosperar. Mas é certo que haverá uma grande consolidação da imagem do governo Lula por meio dessa iniciativa: a da propaganda de uma marca renovada, ou talvez requentada, e registrada para “entrar na história”. No mínimo, para entrar na história da eleição.

vinit@uol.com.br

17/09/2009 - 11:39h Lula teve ‘visão correta’ ao falar que crise era ‘marolinha’, diz ‘Le Monde’

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Segundo jornal, governo foi ‘preciso em estratégia concentrada no apoio do mercado interno’.

- O presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve uma visão “bastante correta” ao dizer, no ano passado, que a crise no Brasil provocaria apenas uma “marolinha”, diz artigo publicado no jornal francês Le Monde nesta quinta-feira.

O diário argumenta que a recessão no Brasil durou apenas um semestre, citando o aumento de 1,9% do PIB no segundo trimestre de 2009, após queda nos dois trimestres imediatamente anteriores, além da recuperação da Bolsa de Valores de São Paulo e do real.

“A rápida recuperação do Brasil demonstra a precisão da estratégia adotada pelo governo e concentrada no apoio do mercado interno. As reduções de impostos a favor das indústrias de automóveis e de eletrodomésticos mantiveram as vendas nestes nestes dois setores cruciais”, afirma o jornal, lembrando ainda que a confiança do consumidor brasileiro jamais chegou a ser abalada.

No artigo, intitulado “A retomada do crescimento mundial se baseia nos Brics”, o Le Monde traça o panorama econômico dos países do grupo – Brasil, Rússia, Índia e China – um ano após a queda do banco Lehman Brothers, considerada o marco da atual crise financeira global.

Outros países

“É para os grandes países emergentes que se direciona hoje a esperança de que a fase de recuperação do nível de vida vai se acelerar. E que seus modelos de crescimento, até hoje essencialmente baseados nas exportações, vão progressivamente dar lugar a um novo modelo de desenvolvimento, garantindo mais importância à demanda interna”, diz o jornal.

Sobre a China, o Le Monde afirma que a previsão de crescimento de 8% para o PIB de 2009 deve ser atingida, mas ressalta que o modelo econômico do país favorece o investimento em detrimento do consumo.

O diário francês lembra que a Índia conseguiu manter um crescimento sustentado, principalmente nos setores de indústria e serviços.

Já a Rússia, tida como o país mais atingido dos Brics pela crise, também parece estar se recuperando, de acordo com o Le Monde, com um aumento do PIB nos últimos meses. BBC

 

 

 

Le rebond de la croissance mondiale repose sur les BRIC

16/09/2009 – LE MONDE

Le président de la Réserve fédérale américaine (Fed), Ben Bernanke, a célébré à sa manière le premier anniversaire de la faillite de la banque d’affaires Lehman Brothers en annonçant, mardi 15 septembre, que la récession économique était “très probablement terminée” aux Etats-Unis.

Le même jour, confirmant ses propos, le département du commerce américain a fait savoir que les ventes de détail avaient progressé de 2,7 % au mois d’août, leur plus forte hausse depuis janvier 2006. Si c’est le signe que le consommateur américain retrouve un peu d’appétit, les économistes sont aussi d’accord pour dire que la ménagère du Texas ne pourra plus jouer le rôle de moteur de croissance de l’économie mondiale, comme elle l’était depuis deux décennies. Le temps du désendettement et de l’épargne est venu pour les Américains. Ce n’est guère non plus sur la vieille Europe, engluée dans ses problèmes structurels de dettes publiques, de prélèvements obligatoires record et de retard technologique, que l’économie mondiale peut compter pour retrouver son dynamisme passé.

C’est vers les grands pays émergents, les fameux BRIC (Brésil, Russie, Inde, Chine) que l’espoir se porte aujourd’hui – l’espoir que la phase de rattrapage de leur niveau de vie vis-à-vis des pays occidentaux va se poursuivre, voire s’accélérer. Et que leurs modèles de croissance, jusqu’à présent essentiellement basés sur les exportations, qu’il s’agisse de T-shirts ou de matières premières, va progressivement céder la place à un nouveau mode de développement, faisant la part belle à la demande intérieure. Etat des lieux dans les économies des BRIC, un an après le séisme.

Chine. Avec des ventes de voitures en hausse de près de 30 % sur les huit premiers mois de l’année, une reprise soutenue des importations de matières premières et une Bourse en surchauffe, la Chine ne donne pas vraiment l’impression de souffrir de la crise mondiale. Le taux de croissance annuel de 8 % du PIB, l’objectif initial du gouvernement pour 2009, devrait être atteint, a récemment déclaré le Bureau national des statistiques.

La robustesse de la croissance chinoise s’explique par le méga-plan de relance de 4 trillions de yuans (400 milliards d’euros) sur deux ans annoncé fin 2008, source d’une frénésie d’investissement en infrastructures sans pareil dans l’histoire économique mondiale. Dans l’urgence, le gouvernement chinois a ordonné aux banques d’ouvrir toutes grandes les vannes du crédit. Et après un fort ralentissement en juillet, les crédits sont repartis en août.

Cette stratégie de relance aux stéroïdes, qui a permis d’amortir le choc sur l’emploi et d’éviter que n’explose le chaudron social, est aussi porteuse de déséquilibres : une partie de l’argent des banques s’est visiblement dirigée vers la spéculation (bourse, immobilier et matières premières), tandis que de futures mauvaises créances s’accumulent. Le modèle économique chinois, ont dénoncé plusieurs économistes chinois réunis vendredi 12 et samedi 13 septembre, au Davos chinois, à Dalian, penche un peu plus du mauvais côté, celui de l’investissement au détriment de la consommation.

Inde. Malgré la crise mondiale survenue il y a un an, la croissance indienne s’est poursuivie à un rythme soutenu. Elle a atteint 6,7 % sur l’année fiscale qui se termine au 31 mars 2009, et devrait descendre aux alentours de 6 % lors de l’exercice suivant. La mauvaise mousson de cet été, avec la moitié du pays touchée par la sécheresse, explique ce léger fléchissement. Hormis l’agriculture, tous les secteurs sont épargnés par la crise. La production industrielle a connu en juin sa meilleure performance en un an et demi. Et le secteur des services a maintenu son rythme de croissance de 6,3 % au premier trimestre 2009. L’Inde doit sa bonne performance à la robustesse de sa demande intérieure et à la résistance de son système financier, “peu connecté au reste du monde”, comme le note Rajiv Kumar, directeur du Conseil indien pour la recherche sur les relations économiques internationales (Icrier).

Dans un pays où seuls 15 % de l’économie dépendent des exportations, la demande intérieure a été peu affectée par la récession mondiale, surtout dans les zones rurales, qui constituent la moitié du revenu national. Grâce aux programmes sociaux et à la hausse des investissements publics dans les infrastructures, les campagnes ont, au contraire, vu leurs revenus augmenter. L’Etat en paie le prix fort, avec un déficit budgétaire représentant 6,8 % du PNB. Et l’agence de notation Standard & Poor’s a ramené de “stable” à “négatif” sa notation souveraine sur l’Inde. Le pays reste toutefois une destination attirante pour les investisseurs du monde entier, car il est perçu comme un relais de croissance idéal aux marchés saturés, et touchés par la crise, des pays développés.

Brésil. En prédisant avec ironie il y a un an que “le tsunami” de la crise provoquerait dans son pays une simple “vaguelette”, le président brésilien, Luiz Inacio Lula da Silva, avait vu assez juste : la récession n’aura duré qu’un semestre.

Le produit intérieur brut a augmenté de 1,9 % au deuxième trimestre 2009, après avoir régressé pendant deux trimestres consécutifs : – 3,4 % (octobre-décembre 2008) et – 1 % (janvier-mars 2009).

Selon le ministre de l’économie, Guido Mantega, le géant sud-américain devrait, sur sa lancée, retrouver en 2010 sa vitesse de croisière d’avant la crise, autour de + 4,5 %.

Happé par la récession plus tard que la plupart des pays du monde, le Brésil en sort plus tôt, comme l’attestent deux autres indices : la bourse de Sao Paulo a retrouvé son très haut niveau d’il y a un an et la monnaie, le real, a reconquis toute sa vigueur face au dollar et à l’euro.

La rapide récupération du Brésil témoigne de la justesse de la stratégie adoptée par le gouvernement et axée sur le soutien du marché intérieur. Des réductions d’impôts en faveur de l’automobile et de l’électroménager ont maintenu les ventes dans ces deux secteurs industriels cruciaux.

La banque centrale a aidé les banques en difficulté, puisant dans ses grosses réserves – 200 milliards de dollars – pour irriguer le marché asséché. De grosses entreprises, comme le géant minier Vale, ont pris peur, en gelant leurs investissements, ce que le président Lula leur reproche aujourd’hui. Mais la confiance des consommateurs, elle, n’a guère été ébranlée : “L’économie a survécu grâce aux plus pauvres”, souligne Lula.

Russie. Bien plus touchée par la crise que les autres pays du BRIC (Brésil, Inde, Chine), la Russie connaît un semblant de reprise. Son PIB a augmenté, en glissement mensuel, de 0,4 % en juin et de 0,5 % en juillet.

Le ministre russe des finances, Alexeï Koudrine, se veut optimiste : le pays émergera “complètement” au troisième trimestre 2009. “Sur le long terme et pour de multiples raisons, la Russie restera dotée d’une solide croissance” qui lui permettra de se hisser “au sixième rang de l’économie mondiale”.

Après un essor économique sans précédent ces dix dernières années, la Fédération russe a subi la crise de plein fouet. Son PIB a chuté de 9,8 % au premier trimestre sur un an, et de 10,9 % au deuxième trimestre.

Cet atterrissage brutal s’explique par le modèle russe de croissance, axé sur les exportations de matières premières et le recours massif aux crédits étrangers. La crise a révélé l’échec des autorités à mettre en place des réformes structurelles au moment où l’Etat engrangeait les recettes de la vente du pétrole. Conscientes de ces faiblesses, les autorités russes ont plaidé ces derniers mois en faveur d’une diversification et d’une modernisation des infrastructures.

Ces bonnes résolutions risquent d’être vite oubliées. Le frémissement actuel de l’économie a une seule cause, la remontée des prix du pétrole, passés de 33 dollars en décembre 2008 à 70 dollars ces derniers mois. Quant au recours aux emprunts à l’étranger, il s’est tari, ce qui signe la fin de la consommation effrénée et des projets de développement. “Vingt années de tumultueux changements dans notre pays n’ont pas changé son humiliante dépendance aux matières premières. (…) A de rares exceptions près, nos entreprises ne créent pas les biens et la technologie nécessaires à la population”, a récemment souligné le président, Dmitri Medvedev.

Jean-Pierre Langellier (à Rio), Marie Jégo (à Moscou), Julien Bouissou (à New Delhi), et Brice Pedroletti (à Shanghaï)

14/09/2009 - 09:40h “O Brasil está liderando o mundo para fora da recessão”

Toda Mídia

NELSON DE SÁ – nelson.sa@grupofolha.com.br

“Exit”

Nas reportagens publicadas por “Wall Street Journal” e “Financial Times” no sábado, o mesmo título, “Brasil sai da recessão”. O “FT” ouviu economista que creditou ao Bolsa Família e aos salários em alta. O site do “WSJ” acrescentou que a dívida dos emergentes fechou a semana em alta “pelos dados do Brasil e da China”, agora sempre juntos.

Nas reportagens publicadas por “Wall Street Journal” e “Financial Times” no sábado, o mesmo título, “Brasil sai da recessão”. O “FT” ouviu economista que creditou ao Bolsa Família e aos salários em alta. O site do “WSJ” acrescentou que a dívida dos emergentes fechou a semana em alta “pelos dados do Brasil e da China”, agora sempre juntos.

O “WSJ” postou ainda que o ministro da Fazenda falou em crescimento de 1% no ano e o presidente do Banco Central concordou que crescimento positivo é “provável”. E a “Veja” destaca que dias antes, na reunião preparatória do G20, o secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, declarou “em alto e bom som”, para todos ouvirem, que “o Brasil está liderando o mundo para fora da recessão”.
Ontem, no alto das buscas por Google News e Yahoo News, Mantega e Meirelles seguiam falando, já com os próximos passos, mas ainda festejando seu “success case”, modelo de sucesso.

CRISE? QUE CRISE?

veja.abril.com.br

Nas duas primeiras chamadas da revista, “Por que o Brasil foi o último a entrar e o primeiro a sair” e “Os emergentes superarão os ricos em cinco anos”. Abrindo a reportagem, “Dá para acreditar?”

TALVEZ
Em série de reportagens no domingo, a Reuters Brasil destacou que o “PIB mais forte faz mercado melhorar previsão de 2009″, a exemplo dos dois ministros. Mas ainda não passa de “talvez até positivo”. Por outro lado, avisa, “Trabalhadores já pensam em greve por salário maior”, caso dos metalúrgicos.

NÚMEROS MELHORAM
Da americana AP à chinesa Xinhua e à BBC original, “Brasil deixa recessão”. Já na BBC em português, “Brasil tem uma das maiores recuperações pós-recessão”. E no “Jornal Nacional”, fechando a semana, “Números da economia melhoram e mostram que país deixou para trás o período de recessão”.

AGORA, A REGULAÇÃO

news.bbc.co.uk

A uma semana da cúpula do G20 nos EUA, Lula deu nova entrevista à BBC, de Américo Martins, e declarou que “os países ricos são mais culpados” pela crise, “porque não tinham qualquer regulação para o sistema financeiro”

Leia a integra da coluna Toda Mídia, na Folha de São Paulo

12/09/2009 - 13:00h Brasil tem uma das maiores recuperações pós-recessão

Clicar na imagem para ampliar

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12/09/2009 - 12:05h ”Na minha opinião, o Brasil nem entrou em recessão”

Ex-ministro está muito otimista, mas se preocupa com impulso dado pela queda da importação, que não vai se sustentar

 

Fernando Dantas – O Estado SP

 


Para o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, sócio da Quest Investimentos e ex-ministro das Comunicações, “o Brasil nem entrou em recessão”. Otimista com o resultado do PIB no segundo trimestre, ele faz uma única ressalva: o resultado foi fortemente impulsionado pelo setor externo, com contribuição significativa da queda das importações (o que aumenta o espaço para a produção nacional). Ele acha que esse fator vai se enfraquecer daqui para a frente, com a recuperação das importações.

O que o sr. acho do resultado do PIB do segundo trimestre?

É um PIB esquisito. A parte boa é que o consumo das famílias surpreendeu para melhor. E o lado que não é tão bom é que a queda das importações, muito maior do que das exportações, acabou fazendo com que o setor externo adicionasse, segundo as minhas contas, 1,3 ponto porcentual do crescimento de 1,9% (no trimestre, comparado com igual período de 2008). O restante 0,6 ponto porcentual foi a contribuição do consumo das famílias.

Qual o problema disso?

Essa queda das importações, na dimensão que ocorreu, não vai se manter. Com o consumo das famílias crescendo mais de 2%, as importações vão começa a subir de novo. O nível de consumo agora está sendo sustentado muito mais com a produção interna do que com as importações, mas, se elas voltam a subir, isso come um pouco da produção doméstica. Isso é que faz com que alguns economistas, inclusive aqui da Quest, achem que o crescimento no terceiro trimestre pode ser até um pouco menor do que o do segundo.

O sr. se preocupa com o fraco nível dos investimentos?

É o último que vai se recuperar. A boa notícia é que, pelos cálculos da Marina Santos, economista da Quest que acompanha a questão, a capacidade ociosa vai se reduzir antes do que a gente pensava. É preciso que isso aconteça para que se tenha investimento. Agora achamos que, talvez entre o primeiro e o segundo trimestre de 2010, a capacidade de produção da economia já tenha sido ocupada, o que é condição necessária para voltar o investimento.

No atual trimestre, não volta?

Acho difícil ainda, porque está todo mundo ainda com fábrica ociosa. Não há dificuldade de entender o que está acontecendo com o investimento – a razão é que se gerou uma capacidade ociosa na economia, e a boa notícia é que vai se fechar mais cedo do que o esperado. Aí o investimento vem.

O Brasil saiu da recessão?

Acho que o Brasil nem entrou na recessão. OK, tecnicamente, saímos, mas, para mim, recessão é um negócio mais longo. O que tivemos foi uma queda no vazio, por causa da crise, mas já voltamos, Tem aquela discussão de mesa de bar de economista, que leva a noite toda, se recessão é ou não dois trimestres de queda, o que é recessão. Em economia, essa caracterização muito linear das coisas não existe. Temos de olhar o que está acontecendo. Se você olhar salário, o crédito – em que a ação dos bancos públicos foi muito importante, compensando o vazio dos privados -, nota-se que houve mecanismos de autocorreção que funcionaram mesmo. Tanto que a massa salarial continua crescendo. Nunca vi recessão em que a massa salarial continua crescendo.

E daqui para a frente?

Vamos retomando, progressivamente, o PIB do ano deve ser ligeiramente positivo, e acho que crescemos 5% no ano que vem. Estou muito otimista com o Brasil. Muito.

12/09/2009 - 11:23h Entre a marolinha e o tsunami


Bráulio Borges * – O Estado SP

O IBGE revelou que no 2º trimestre de 2009 o PIB brasileiro, embora ainda 1,2% inferior ao do mesmo período de 2008, avançou 1,9% sobre o 1º trimestre, já descontada a sazonalidade. Com efeito, pelo critério mais simples – que define a chamada recessão “técnica” como um período com pelo menos duas quedas consecutivas do PIB em termos dessazonalizados – o Brasil superou o fundo do poço. Vale lembrar que o produto brasileiro havia sofrido um tombo de 3,4% na passagem do 3º para o 4º trimestre de 2008 – a maior retração trimestral desde o 2º trimestre de 1990 – e encolheu mais 1% no 1º trimestre deste ano (sobre o 4º trimestre).

O crescimento robusto do PIB no 2º trimestre foi puxado principalmente pelo Consumo das Famílias (que abrange tanto a aquisição de bens quanto de serviços), componente responsável por 60,7% do PIB (sob a ótica da demanda) e, ao avançar 2,1% do 1º para o 2º trimestre, registrou a maior variação trimestral desde o 4º trimestre de 2007. A evolução do consumo não foi reflexo apenas das isenções fiscais anunciadas pelo governo (como a redução do IPI para automóveis e linha branca). Refletiu também a recuperação da confiança dos consumidores (calcada, por sua vez, na estabilização e mesmo na melhora mais recente do mercado de trabalho) e a normalização da oferta de crédito ao consumo (com redução das taxas de juros e ampliação dos prazos de financiamento). Essa última, vale lembrar, foi capitaneada pelos bancos públicos (pois apenas mais recentemente os bancos privados voltaram para o “jogo” do crédito).

Mas os dados do PIB recém-divulgados refletem uma situação que já se encontra no retrovisor. Com estaria andando a economia neste 3º trimestre? Com base na evolução de vários indicadores já conhecidos (como confiança de consumidores e empresários, vendas de veículos, consumo de energia elétrica, dentre outros), a LCA estima que o PIB brasileiro esteja se expandindo entre 2% e 3% neste trimestre corrente, na comparação com o 2º trimestre. Caso essa avaliação se confirme, o PIB brasileiro terá retornado, neste 3º trimestre de 2009, para o nível observado no 3º trimestre de 2008 (anterior ao aprofundamento da crise financeira internacional, em meados de setembro).

Assim, quatro trimestres depois, a economia brasileira como um todo estaria de volta ao “ponto de partida”. Trata-se de uma recuperação bastante rápida (embora ainda muito heterogênea), especialmente quando se constata que nas recessões vivenciadas pelo Brasil desde 1980 o tempo médio para retornar ao nível anterior à crise foi de cerca de sete trimestres (levando em conta a datação de ciclos econômicos do Codace/FGV).

Essa trajetória é ainda mais notável diante da severidade do quadro econômico nas principais economias desenvolvidas, para as quais a recessão atual é a pior desde a Grande Depressão iniciada em 1929 (e para as quais não se espera um retorno para níveis anteriores à crise antes de 2011). Portanto, a crise atual não chegou a ser uma marolinha para a economia brasileira, mas passou longe de ser um tsunami como alguns analistas chegaram a prever. Nesse quadro, depois de registrar crescimento ligeiramente positivo em 2009, o PIB brasileiro deverá avançar cerca de 5% já em 2010.

*Bráulio Borges é economista-chefe LCA Consultores

06/09/2009 - 11:34h Projeções para o PIB começam a entrar no azul


Se alta no segundo trimestre for de 2%, como disse ministro Mantega, revisões para cima vão se acelerar

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Marcelo Rehder – O Estado SP

A economia brasileira se recupera da crise e volta a crescer antes que o esperado, dizem os economistas e o governo. Turbinadas pelo desempenho favorável no segundo trimestre, as projeções para a evolução do Produto Interno Bruto (PIB) deste ano começam a transitar do negativo para o positivo.

O resultado do trimestre será divulgado sexta-feira pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, já antecipou que o PIB cresceu entre 1,8% e 2% na comparação com os primeiros três meses do ano.

O número bate com a estimativa da MB Associados, que projeta crescimento de 2% do PIB na margem no segundo trimestre. “Consideramos também que o terceiro trimestre poderá ter um número parecido com isso, talvez um pouco menor”, diz o economista-chefe da empresa de consultoria, Sérgio Vale.

O fato é que cada vez mais aumenta a chance de o PIB terminar o ano do lado positivo, observa Vale. “Por enquanto, mantemos uma projeção de 0,2%, lembrando que estávamos com previsão de crescimento zero desde o fim do ano passado.”

Na ponta mais otimista do mercado já há algum tempo, a LCA Consultores prevê crescimento de 0,3% para este ano, enquanto a projeção das mais de 100 instituições financeiras colhidas pelo Banco Central no Boletim Focus é de, em média, uma queda de 0,3%.

“Se o resultado do segundo trimestre confirmar o que o governo está sinalizando, o primeiro impacto vai ser as projeções do Focus começarem a passar do negativo para o positivo”, diz o economista-chefe da LCA, Bráulio Borges.

Além disso, a economia brasileira dá fortes sinais de aceleração da recuperação em razão da retomada da produção industrial.”Temos elementos fortes para afirmar que o PIB está acelerando e isso pode levar a LCA a revisar para cima o crescimento do ano”, diz Borges.

MOTOR DA RECUPERAÇÃO

O que está empurrando o PIB para cima é o consumo das famílias, que já tinha mostrado recuperação no primeiro semestre, depois de ter caído no fim do ano passado.

O consumo se acelerou no segundo trimestre, impulsionado pelas medidas de isenção fiscal promovidas pelo governo federal, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos automóveis e dos eletrodomésticos da chamada linha branca (geladeiras, fogões e lavadoras).

“Muita gente diz que, quando acabar esse estímulo, também vai acabar a muleta que estava segurando o consumo familiar”, observa o economista da LCA. “Não é bem assim porque ela tirou o consumo do buraco, estimulou todo o mercado via efeito multiplicador e a economia dá sinais de que já consegue andar com as próprias pernas.”

A Tendências Consultoria Integrada aguarda a divulgação dos números do segundo trimestre para revisar suas projeções para o PIB do ano. “Atualmente, nossa previsão ainda é de retração de 0,6% e achamos que o resultado do segundo trimestre deve de fato surpreender “, diz o economista Bernardo Wjuniski. “Por enquanto, colocamos um viés de alta para os próximos trimestres, mas ainda não dá para avaliar se o número do ano vai ficar positivo.”

“Ainda tem uma boa margem de capacidade ociosa para ser ocupada, só que a gente acha que isso vai acontecer ainda de forma gradual e a indústria só deverá voltar ao patamar do pré-crise no final de 2010″, afirma Wjuniski.

O diretor do Departamento de Estatísticas e Estudos Econômicos da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Francini, diz que existem sinais claros e evidentes de que o pior da crise realmente ficou para trás. “Estamos numa fase de recuperação com uma velocidade e vigor ainda não muito consolidados”, diz Francini.

Segundo ele, o importante é que, comparativamente com o mundo, “o preço que nós pagamos foi barato, no sentido que ofendeu muito mais a outros países do que nos ofendeu e já estamos numa rota de recuperação”.

Embora não exista uma projeção formal da Fiesp com relação ao PIB, Francini diz que a entidade previa queda de 1%, mas ultimamente se fixou em torno do número de 0,5% negativo.

“Ainda que o governo tenha voltado a ter opinião sobre um desempenho positivo do PIB este ano, indicando que ele pode chegar a 1%, achamos que vai ser difícil chegar no zero”.

Já o economista Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), fundação vinculada à Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, aposta que o crescimento do PIB este ano deverá ficar entre 0,2% e 1,2%. “Vemos uma recuperação consistente principalmente na ocupação da capacidade ociosa da indústria, que foi a mais afetada pela crise global.”

Previsão para 2010 chega a 4,8%

Para a Tendências, ritmo da recuperação surpreende

A recuperação acelerada da economia em 2009 abre espaço para um crescimento forte no ano que vem. “A princípio, 2010 já abriria com um carry-over (o que é repassado do crescimento de um ano para o outro) de 1,3%, o que não é garantia de crescimento para o ano, mas, dadas as condições positivas da economia esperadas para o período, 4% de expansão do PIB (Produto Interno Bruto) estariam praticamente garantidos”, diz o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale.

A Tendências elevou suas projeções para o ano que vem, com base nos últimos números da economia. Agora, a consultoria já projeta alta de 4,8%, sendo dois pontos porcentuais decorrentes de efeito estatístico.

Para Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, o PIB cresce neste terceiro trimestre a um ritmo de 3% em relação ao período anterior. “Isso mostra que economia vai entrar embalada em 2010.”

Borges avalia que o processo de recuperação já se espraia pela economia. “Se antes era nítido no consumo, agora vai ficar claro que a recuperação alcançou grande parte dos setores da economia”, afirma Borges. “Até o exportador, que já começa a observar melhorias na quantidade de produtos exportados, deve ficar mais feliz.”

O presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, prevê a retomada dos investimentos nos próximos meses. “O crescimento imaginado para este ano esta fortemente influenciado pela ocupação da capacidade ociosa que a crise provocou nas fábricas”, diz. ” Possivelmente a partir do fim do ano, além de crescer pelo lado da ocupação da capacidade ociosa, também haverá uma retomada dos investimentos.”

Ele nota que a crise reduziu a produção, interrompendo a expansão dos investimentos. “O que ocorreu no fim do ano passado não foi o abandono de projetos de investimento, mas postergação.”

20/08/2009 - 11:44h Bancos centrais temem deflação crônica

Na Alemanha, produtos têm hoje o mesmo valor de maio de 2007

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Gustavo Chacra – O Estado SP

Os bancos centrais de países desenvolvidos começam a enfrentar o risco de a deflação se intensificar nos próximos meses, com recordes sendo anunciados nos Estados Unidos e na Europa. Na sua maior queda em seis décadas, o índice de preços ao consumidor da Alemanha despencou 7,8% em julho em relação ao mesmo mês no ano passado. Na variação mensal, a diminuição foi de 1,5%.

Segundo o Escritório Federal de Estatísticas, os produtos alemães têm hoje o mesmo valor de maio de 2007. Os preços para o consumidor na Alemanha registraram a sua primeira baixa desde a reunificação do país, em 1990, ao caírem 0,5%. A redução é dois décimos menor do que a média da zona do euro.

Do outro lado do Atlântico, o índice de preços ao consumidor americano também atingiu o seu menor nível desde 1950, ao se reduzirem 2,1% em julho, quando comparado ao mesmo mês no ano passado – em relação a junho, a inflação se manteve estável -, de acordo com dados do Departamento do Trabalho divulgados na semana passada. Assim como na Alemanha, os piores números vieram do setor produtivo, com uma redução de 6,8% nos preços desde julho de 2008, e 0,9% em junho .

A deflação tem como principal causa a redução nos preços da área energética, especialmente do barril do petróleo – apesar da elevação de ontem, que não está embutida no índice -, ao longo do último ano. Na Alemanha, a deflação anual é de 3,6% quando não se leva em conta os preços deste setor.

O Fed (banco central dos EUA) indicou que não existe risco de inflação por enquanto, o que eliminaria a necessidade de elevar os juros, evitando uma possível estagflação (inflação e recessão simultaneamente). O problema, segundo dizem alguns economistas, é que, com a deflação, há pouca margem de manobra para o Fed. Os juros já estão próximos de zero e o risco seria de um círculo vicioso como no Japão dos anos 1990.

A saída seria o aumento da demanda para o fim da deflação. Por enquanto, os sinais não indicam que isso venha ocorrendo. Ao contrário, o índice de confiança dos consumidores está em queda nos Estados Unidos por três motivos – elevado desemprego (9,4%), endividamento e maior propensão a poupar em vez de consumir.

13/08/2009 - 10:51h Para a Riachuelo, junho foi um mês “fantástico”

Varejo

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Claudia Facchini, de São Paulo – VALOR

Na Riachuelo, uma das três maiores redes de vestuário do país, as vendas foram “fantásticas” em junho, afastando as nuvens negras que surgiram em abril e maio, segundo afirmou ontem o e gerente de relações com investidores da companhia, Tulio Queiroz, em teleconferência com analistas de investimento.

Como o consumo manteve-se forte em julho, a varejista enxerga um cenário mais otimista no segundo semestre e já planeja acelerar a expansão em 2010. Para este ano, estão previstas seis inaugurações. No ano que vem, a rede pretende abrir dez ou mais lojas.

Embora a queda das temperaturas nos dois últimos meses tenha favorecido a demanda, a Riachuelo atribui a retomada à uma mudança de atitude dos clientes. “Em junho e julho, houve uma grande recuperação do nível de confiança dos consumidores”, disse Queiroz, acrescentando que esses foram os melhores meses do ano para a varejista. Segundo ele, maio havia sido um mês “difícil”, sem nenhum dia com baixas temperaturas.

A varejista também passou a ser mais flexível na política de crédito, o que impulsionou as vendas. Os planos com juros (em oito parcelas sem entrada) responderam por 24,2% das vendas pagas com o cartão Riachuelo no segundo trimestre, percentual superior aos 18,8% registrados no primeiro trimestre. Em fevereiro, a varejista baixou os juros de 6,9% para 5,9%.

A concessão de crédito, contudo, ainda não voltou as patamares do primeiro semestre de 2008, quando o planos com juros responderam por 35,3% das vendas feitas com o cartão Riachuelo.

A receita líquida consolidada do grupo, que inclui a rede Riachuelo e a confecção Guararapes, totalizou R$ 527 milhões no segundo trimestre de 2009, cifra 10,2% maior que a registrada em igual período de 2008. As vendas da Riachuelo cresceram 3,4%, totalizando R$ 445,8 milhões. Pelo critério “mesmas lojas”, as vendas da varejistas foram 0,3% maiores que no segundo trimestre de 2008.

10/08/2009 - 12:36h Indústria brasileira interrompe demissões e já começa a contratar

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Um quarto das empresas do setor quer ampliar os quadros até setembro; montadoras abriram 300 vagas em julho

Márcia De Chiara e Cleide Silva – O Estado SP

A indústria parou de demitir e começa a contratar. Os resultados de junho de pesquisas, tanto de órgãos do governo como de entidades privadas, indicam que o emprego industrial ou tem uma pequena queda, ou dá sinais de recuperação em relação a meses anteriores.

Em julho, pela primeira vez em oito meses, o emprego na indústria automobilística cresceu: foram abertos 300 postos de trabalho, conforme será divulgado hoje pela Anfavea. Além disso, a partir do mês passado, foram anunciadas perto de 2 mil vagas nas montadoras.

Assim como na indústria automobilística, há contratações significativas nas siderúrgicas, nas fábricas de eletrodomésticos e até na indústria calçadista. Em razão da reversão no quadro, é consenso entre empresários, sindicalistas e economistas que a fase de demissões em massa ficou para trás. Com os estoques ajustados e o mercado doméstico aquecido, as indústrias se preparam para a temporada de contratações.

Quase um quarto (23,2%)das 1.115 indústrias consultadas pela Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação da FGV em julho pretende ampliar as contratações até setembro, enquanto 15,3% delas planejam demitir.

Pela primeira vez desde outubro de 2008, a fatia de empresas que quer contratar supera a que planeja demitir. Em dezembro, no auge da crise, a situação era inversa: 32,5% planejavam cortes e 15,5%, contratações.

Também pela primeira vez desde outubro de 2008, o indicador de emprego previsto para os próximos três meses em julho superou a média desde 1995, aponta a FGV. No mês passado, esse indicador ficou em 107,9 pontos, ante a média histórica de 101,4 pontos e do resultado de junho (97,2). O indicador de emprego previsto é calculado a partir do saldo entre o porcentual de empresas que pretendem contratar e as que planejam demitir, somado 100 e descontada a sazonalidade.

Dos 14 gêneros pesquisados, 13 registraram crescimento no indicador de emprego previsto em julho ante junho, apesar de continuar abaixo do mesmo período de 2008. Só no setor químico não houve crescimento no indicador de emprego previsto. “A recuperação do emprego previsto em julho ante junho é quase generalizada”, afirma o coordenador técnico da pesquisa, Jorge Ferreira Braga.

A indústria de material de transporte, que inclui as montadoras, é a que teve maior recuperação no emprego previsto para três meses. A Valeo Iluminação, por exemplo, que fornece para grandes montadoras, contratou 70 trabalhadores entre maio e julho. Neste mês, 40 foram efetivados.

“Entre agosto e outubro, há perspectiva de mais 30 contratações”, conta o diretor de Recursos Humanos, Francisco Cuesta. Para ele, o cenário é claro até setembro. “O que preocupa é como vai ficar o mercado com a volta do IPI .”

10/08/2009 - 12:03h Tendência de demissão se reverte

Tanto o indicador do IBGE quanto o da FGV mostram que a indústria pretende contratar mais empregados

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Márcia De Chiara – O Estado SP

Mais importante do que a intensidade da recuperação do emprego industrial que começa a se desenhar para os próximos meses é a reversão na tendência: de aumento nas demissões para ampliação nas contratações. Três indicadores de junho, dos quais dois apurados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), além do indicador de emprego previsto para três meses para o emprego industrial da Fundação Getúlio Vargas (FGV), confirmam a mudança de rota.

Pela primeira vez desde novembro do ano passado, a população ocupada na indústria nas seis regiões metropolitanas do País cresceu 1,7% em relação ao mês anterior, segundo a Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE. Foram criadas 58 mil vagas em junho. “Sem dúvida, é um primeiro sinal de recuperação”, afirma o gerente da PME do IBGE, Cimar Azeredo.

Apesar da reação em junho ante maio, ele pondera que a população ocupada na indústria caiu 4,2% no primeiro semestre, 5,2% de outubro de 2008 a junho deste ano e 5% em junho deste ano ante o mesmo mês de 2008. Para ele, o crescimento da ocupação no mês é importante porque a indústria, que responde por 16,4% da ocupação total, incluindo os demais setores, “dá o tom” do emprego.

Outra pesquisa, também do IBGE, que apura apenas o emprego industrial, porém em todas as regiões do País, revela que o emprego na indústria caiu 0,1% em junho ante maio. No mês anterior, o recuo havia sido maior, de 0,5% na comparação com abril. O resultado confirma, de certa forma, um arrefecimento no ritmo de queda.

Também revela que a mudança na trajetória do emprego industrial começou antes nas grandes cidades, já que o outro indicador do IBGE, que cresceu em junho ante maio, mede a ocupação industrial nas seis regiões metropolitanas.

O indicador de emprego dessazonalizado da Confederação Nacional da Indústria (CNI), em queda mês a mês desde novembro do ano passado, está diminuindo o ritmo de contração. Entre dezembro e abril, a queda média mensal havia sido de 0,9%; em maio, o recuo foi de 0,4% e, em junho, o último mês disponível, a retração foi de apenas 0,2%. “É o oitavo recuo seguido, mas, nos últimos dois meses, a queda perdeu força”, afirma o economista da CNI Marcelo de Ávila.

Segundo o economista, a expectativa da CNI é de que o emprego industrial volte a crescer em algum momento neste semestre porque o ajuste mais forte nos estoques está terminando. Na opinião de Ávila, essa retomada do emprego em pouco mais de um semestre não indica que as demissões feitas pelas empresas foram precipitadas, quando a crise se acirrou a partir de setembro do ano passado. “É caro demitir”, argumenta.

SINDICATOS

Para o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes, Miguel Torres, a fase mais aguda de cortes da mão de obra terminou. “Faz um mês que as indústrias pararam de demitir e só estão contratando.” Apesar de ainda não ter números consolidados, ele notou uma movimentação positiva, com contratações pulverizadas. “Há empresas contratando cinco, outras dez. É o reflexo da retomada.” O sindicato representa 260 mil metalúrgicos, distribuídos em 11 mil empresas.

10/08/2009 - 11:45h Mercado interno aquecido puxa o emprego

http://www.sdr.com.br/negocios1.gifFabricantes de eletrodomésticos, calçados e siderúrgicas contratam

Márcia De Chiara – O Estado SP

Nas fábricas de geladeiras, fogões e máquinas de lavar, que também foram beneficiadas pelo corte do IPI, o cenário é favorável ao emprego. A Whirlpool contratou 1.300 trabalhadores temporários desde maio em Rio Claro (SP) e Joinville (SC). Desse total, 400 foram efetivados em junho. “A tendência é efetivar os demais”, diz o diretor de Relações Institucionais , Armando Annes do Valle.

A Electrolux também contratou, desde maio, 600 trabalhadores como efetivos nas fábricas de Curitiba (PR), São Carlos (SP) e Manaus (AM). “Estamos avaliando novas contratações para este semestre. Pode chegar a mil vagas”, afirma o diretor de Marketing, Ricardo Cons. Ele diz que o crescimento das vendas de mais 20% no mercado doméstico no primeiro semestre m razão do corte do IPI a partir de abril provocou o aumento nas contratações. Hoje, com aproximadamente 7 mil funcionários, a companhia já repôs o total de trabalhadores dispensados na virada do ano.

A maior procura no mercado interno por carros, máquinas de lavar e geladeiras puxou a produção de aço e as contratações nas siderúrgicas. A CSN, por exemplo, abriu 700 vagas até julho em Volta Redonda (RJ) e tem previsão de ofertar mais 200 postos de trabalho no mês que vem. Desse total, 411 trabalhadores foram efetivamente contratados. A maioria é de ex-funcionários demitidos na virada do ano.

A recuperação no emprego industrial não ocorre apenas nos bens duráveis, que foram beneficiados pela maior oferta de crédito e o corte no IPI. A indústria de vestuário e calçados figura numa lista da FGV de oito segmentos com maior peso na produção industrial e com perspectivas favoráveis de recuperação do emprego previsto para três meses.

Nessa direção, a Bottero, maior fabricante de calçados femininos em couro, acaba de abrir 400 vagas nas três unidades no Rio Grande do Sul. “Já preenchemos metade delas. As demais devem ser ocupadas até o fim deste mês”, prevê o diretor Administrativo e Financeiro, Marco Antônio Coutinho.

Depois de demitir 150 funcionários no segundo semestre de 2008, a empresa repôs os quadros no primeiro semestre. Coutinho diz que a mudança de rota ocorreu em razão dos bons resultados deste ano. O faturamento e a produção cresceram 10% entre janeiro e junho deste ano ante igual período de 2008.

“O mercado interno, que responde por 85% das vendas, está bom para nós, que fabricamos calçados de couro”, diz Coutinho. Animado com o cenário, ele já prevê a abertura de mais 400 vagas para o primeiro semestre do ano que vem.