21/11/2009 - 17:21h Pouso

*

adoro sentir calor

no inverno

fome na ceia

água na toalha

gelo no café

adoro sentir

que tudo é possível

na medida

do improvável.

onde

quero uma casa em Belo Horizonte,

c/ vista para Sabará,

1 corredor que dê em São Paulo

e porta dos fundos

para o mar.

caldo de mandioca

beba, coma, morda

a sopa no seu prato.

vou abrir pra você

a sardinha na lata.

”quero caldo de bar”

eu disse

”quero você”.

me beija que não amolo

nem a faca, nem a palavra.

branco no branco,

língua lambendo língua.

a narina no seu rosto,

superfície suave e áspera.

seus pêlos calados…

um, dois, 3, quatro,

cinco.
sua pele faz sentido(s)

quando me toca.

me cala a boba

e fabrique uma casa amarela

debaixo de nossas solas.

pro seu baile à fantasia

subo escadas pra cuspir do alto

do mais alto que puder

e não sou homem,

e não masco tabaco

escavo a descida escarrando alturas

até doer

até ser delícia

amarro meu pé em minhas meias

passo boca no meu batom

pra cair na sua piscina

de terra seca e azul

Detrás do traço

Quando começam, estou perdida. Quando acabam, já se perderam. Talvez seja o tempo ou as idéias. Ou a respeito dos dois, numa dimensão qualquer. Talvez seja sobre nada e eu não saiba o que digo. Corro o risco e assumo o fardo — ainda que fadado. O novo já envelheceu. Eu também. E é incrível quanta coisa cabe em um parágrafo. E como aspas podem ser tão mal fechadas. E como poesia pode virar prosa. E quanta coisa se perde entre o ponto e o traço. Inclusive o tempo. Até a graça. Voam aviões, traçam em vão. Que me diz dos riscos no céu? Digo que as coisas e eu somos um. E os riscos também. Nunca e a todo tempo. Agora já não sei onde foram parar. No fim? Ou no tempo. Quem sabe no ponto — frágil, único e mal traçado.

Paulo e o lago

À esquerda de Hilda, havia a água. Seus pés já tinham se libertado das sandálias e arriscavam mergulhos. O vento batia em seu vestido largo e a empurrava pra frente e pra trás, como se ela fosse um barco. Já à sua direita, havia gente, muita gente – rostos que tentava guardar, mas que escapavam tão rápidos quanto vinham. Dentre eles, apenas um era fixo: o de Paulo. Fixo até demais. Não sorria, não falava e, principalmente, não tirava os olhos de H.. Tanto que, diante dum pequeno tremor de queixo:

— Vamos sair daqui, essa água gelada…

— Quero ficar mais — respondeu, sublinhando o ponto final:

P. compreendeu que não deveria insistir, que não devia fazer nada além de olhar. Porém, se quando se equilibrava numa perna só, segurava o corpo inteiro fixando a vista num ponto, sabia que mirar H. era muito mais que um gesto à distância.

Sentindo a nuca arrepiada, H. se voltou para P. e se espantou com o despudor com que era observada. Conferiu, aliviada, que ao redor ninguém mais dava atenção à cena. Pouco depois, se achou uma boba. Não fazia nada de errado e não devia se importar com o que pensavam os rostos voláteis. Abaixando a cabeça, se viu refletida e envergonhada naquela poça enorme. Afinal, o lago não passava disso, como ela não passava de uma menina grande. Tinha a impressão de que, se o vento viesse mais forte, todo o seu disfarce de moça voaria. Pelos ares iria a postura, o vestido, as sandálias. Restaria, então, apenas ela e aquilo de que mais gostava.

neste lago, H.

hoje em dia não existe mais isso de lugar longe, H. e não sei porque sinto sua falta. você deveria estar sempre perto de mim, sua mão sempre ao meu alcance. mas é possível a distância, desde que se queira — e eu quis, jurando que a vontade não era minha. logo eu, que há poucos dias fui tão alegre e genuinamente feliz; logo eu, que aprendi que te olhar (como eu te olho) não é um gesto sem efeito. verdade que nosso afastamento é produto do meu desejo teimoso e da sua sonsice, des’seu jeito de barco de sem leme, e nada mais. e essa é toda a verdade que tenho debaixo das mangas, faltando apenas o que nenhum de nós pode esquecer: quero estar sempre ao seu lado.

A aranha

, de 78 patas, arranha 1900 vezes a minha jarra. Com suas agulhas, risca também o disco de vinil. Sombras tristes dançam sob o lustre de duas décadas. Tudo é esquecimento. Vestidos azuis tornaram-se peça de luto; peles douradas, grafite; olhos de ciúme, negros. O batom vermelho-vivo que borrava a boca de Roberta também não escapou — não passa agora de tinta escura.

Só das teias eu me lembro, sem perder detalhe, pois são as mesmas e sempre vão ser. Então perguntei à aranha: era isso que pretendia me mostrar? que vocês resistem? Não tive resposta. Claro, era uma aranha. Que podia fazer? Transformar-se em moça e me beijar pra dizer que sim? Bebi o último gole e brindei de taça vazia. Quis esmagar o bicho, mas correu às minhas mãos e me olhou com cara dócil: me diz o que faço, por onde começo. Devia ser digitadora. Tem muitas mãos e é capaz de ouvir indefinidamente sem entender. Estou brincando, sei que me compreende, só é tímida. Já é hora de ir. Grato pela companhia.

Não há de quê — respondeu-me, para meu espanto; mas a voz era de Roberta, que ouvia a conversa como se fosse com ela. De sobressalto, pediu que esperasse um segundo — o que já estava fazendo só de susto. Correu, pegou minha mão e disse: começa assim. E, antes que me desse conta, Roberta me dizia, 1987 vezes, que sim.

Arranha-céu

Quando estou brava, pinto minhas unhas de vermelho. Hoje não é o caso: estou à francesa, indisposta para despedidas. Infelizmente, lá vem a caçamba e tenho de dizer adeus à cidade miúda onde moro: mil ruas se desdobram nos cômodos de meu apartamento e cada porta é uma esquina. Toda manhã, no trânsito voraz da copa, minhas cadeiras colidem com a mesa. Em protesto, os sapatos organizam-se em passeata. Desesperado, o chuveiro chora sem cessar. Já a cama faz o que sempre fez: dorme com qualquer um, a qualquer hora. E eu, pelo espelho de meu esmalte, observo-os todos.

Quando escutei os pés do senhorio, no corredor do 20º andar, a chave já estava com os dentes cravados em minha mão. Sem nada a dizer, a entreguei. O homem também não mexeu os lábios. Em silêncio, desci as muitas escadas, fui até a porta giratória e a empurrei. Finalmente, dei de cara com a grande cidade, que há muito eu evitava encontrar. Pelas unhas, vi carros e meretrizes se juntarem a mim. Depois, homens de barba, velhos descalços, crianças de mochila, uma pessoa e mais outra e mais outra e mais outra. E o mundo, a partir de então imenso, não coube mais na ponta dos meus dedos.

Meu prato cheio

O que me atormenta é o não dito. Torturo o meu eu para depois escrever em primeira pessoa. A fuga é o mergulho. A água é azul, mas só enxergo o cinza. Não adianta praguejar contra as memórias em preto e branco. Não vejo cores agora. Maldito Almodóvar. Maldita atenção que presto, imprestável. Uma formiga cinza parece feliz com o suco cinza derramado. Uma formiga aparece morta. Ainda cinza. Inveja abastada. Persistência da daltonia psicológica, contudo. Com tudo pronto. Nem todos os feitos. Fiz o dito, mas não disse o ditado. Mas que importa tudo, todos, eu? Que importa a formiga, o cinza, o Almodóvar? Benditos sejam. Mas que sejam ditos.

(imagem ©tomooka)

Valquíria Rabelo (Belo Horizonte/MG). Editora do Jornal A Parada, ao lado de Daniel Bilac. Tem poemas publicados no jornal Dezfaces, na Revista Ato e no folheto Barkaça. Estuda Comunicação na UFMG e Design Gráfico na UEMG. Edita o blogue Formalguma. Fonte germina

20/11/2009 - 17:54h Sarah Forte

Possibilidade

Maria Luisa sai do banho de sais aromáticos às doze horas e trinta minutos. De roupão de seda bege, dirige-se à penteadeira de mogno. Abre o roupão. Está nua. Delicadamente, passa creme francês de tartarugas centenárias pelo corpo. Desliza as mãos pelos seios. Acaricia o ventre. Massageia os braços e o pescoço. Adora passar creme no pescoço. Dá uma vontade de rir! Senta-se na cama e massageia as pernas com óleo de amêndoas. Tão perfumada! Sente-se uma rosa do jardim.

A lingerie: branca, simples. Rendada. De marca italiana. O vestido é de pequeninas flores vermelhas, com um suave laço de seda atrás. As sandálias são de couro entrançado, com uma fivela dourada. Está quase na hora do encontro! Ah, que felicidade, todos os dias, de segunda à sexta, das quatorze às dezoito horas, ele a visitava. Tão interessado!!! Era muito silencioso aquele rapaz, mas com o tempo… Ora, com tempo, tudo se resolve. Além do mais que todo mundo sabe: os calados são os mais perigosos! Os melhores! “Melhores para quê?”. Perguntava-se Maria Luisa. E enrubesceu com a resposta que pensou e despensou em segundos. Enrubescer… “Hoje em dia ninguém mais enrubesce…”. Olha-se ao espelho. São treze horas e trinta minutos. Está linda! Uma belezinha! Olhando-a assim, ninguém lhe diz a idade: oitenta e dois anos.

Som da campainha. Três toques. Maria Luisa demora-se. Não quer que o rapaz suponha que ela está atrás da porta, a esperá-lo. “Boa tarde, D. Ma…”. “Dona não, você já está vindo aqui tomar lições há um mês, já pode me chamar de você”. [....] O rapaz nada responde. Maria Luisa solta um risinho. Marcel. O nome do rapaz é Marcel. Viajará para Roma. Precisa melhorar o italiano. A sua avô, hospitalizada, dissera-lhe: “procure a Maria Luisa, a Lú Lú, minha amiga”. E ele fora em busca da Maria Luisa. Surpreendera-se: oitenta e dois anos! E facilmente passava por sessenta. A Lú Lú não era de se jogar fora. Cada pensamento imundo que o sujeito às vezes tem. Uma senhora… com idade para ser sua avó. Acontece que Maria Luisa não era sua avó. Era amiga da sua avó. Casara-se três vezes, romances infelizes, desordenados. Os homens sempre reclamavam que ela não compreendia os sentimentos. Chamavam-na de fria, insensível. Marcel gostava de Maria Luisa. Achava-a bela, mas, mas, ora mais! Pelo amor de Deus, era amiga da sua AVÓ… Maria Luisa era uma bela senhora. Um retrato antigo. Um retábulo. Marcel, sorrateiramente, pensava: se eu der um abraço, ela se quebra. Ou não.

As “lições” eram animadíssimas. Maria Luisa era muito bem informada. Marcel, em silêncio, escutava: “Se vorrei imparare, devi parlare, ragazzo!”. “Ma io già so parlare signorina, mi piace ascoltare”. Dizia, entre risos, o Marcel. Quando sorria, umas covinhas apareciam nas bochechas do Marcel. Maria Luisa adorava. E o perfume dele, então… Que marca seria aquela? Era francês. “Tuo proffumo, di dov’è?”. “Francese, signorina”. Signorina… hum, sentia-se ensolarada quando lhe chamavam de signorina.

Dezessete horas e quarenta e cinco minutos da sexta-feira. Última aula. A viagem de Marcel, agendada para a segunda-feira. Maria Luísa, contidamente emocionada, derramando-se por dentro, uma antiga energia atiçava-lhe as rugas, movimentava-lhe a alma. Marcel estava ansioso. Era sua última aula. Estava fluente. Escolhera uma camisa cor vinho, pois Maria Luisa dissera que essa cor lhe caía bem. “Com essa cor, meu filho, você fica mais forte, suas costas parecem mais largas”. Marcel fazia-se de distraído, balbuciava algum “você acha?”. Ela sorria repartida, meneava a cabeça, alongava o olhar, corava: “Acho… mais largo…”. E as lições prosseguiam. Maria Luisa encomendava delícias da culinária italiana e dava na boca de Marcel. Falava sobre filmes, artistas, música, perfumes, curiosidades. Gostaria de ter Maria Luisa sempre à disposição, na sua estante. Um dia, mandara rosas vermelhas, em outro, uma caixa de bombons. Gravara um CD com músicas antigas, somente para ter o que conversar com ela. Tudo em vão. Ela fingia não compreender? Ele sofria. Em casa, ficava longas horas calado, melancólico. Seus olhos em constante inverno.

Na sexta-feira, Marcel levantou-se bruscamente da poltrona, interrompendo a lição: “Pois é, D. Maria Luísa, já vou”.”Mas tão cedo?”. “É… tenho que organizar as malas…”. Marcel, desconcertado, silenciara. Maria Luisa dissera claramente que ele ficava bem com aquela camisa, mas agora não comentava nada. Parecia desprezá-lo. Sentia-se esquecido. Indignava-se mudamente. Quem ela achava que era? Ríspido, afirmou: “A senhora foi uma boa professora”. Aquele “senhora” deveria mortificá-la. Mas o rosto de Maria Luisa estava indiferente, imparcial. Marcel baixou o olhar. Velhinha mais inusitada aquela. Ela sorriu, agradeceu o elogio, que não era tão boa assim, que já fora bem melhor em outras épocas. Tudo em tom informacional. A velhinha cumpria um ofício… o de envelhecer. “Mas então a senhora não entende?”. Maria Luisa assustou-se com a pergunta, jogada em seu rosto, quase um tapa. “Entender o que, meu filho?”. Filho? Seu filho? Marcel baixou a cabeça, mordeu os lábios, extremamente envergonhado. Resolveu ir embora dali. Estava platônica e irremediavelmente apaixonado.

Depois que Marcel saiu, Maria Luisa olhou-se ao espelho, procurou o batom, para retocar o desenho dos lábios. Gostava de deixá-los carnudos, suculentos. Sorriu, deitou-se: “Mas o que foi que eu não entendi, meu Deus?”. Entender era tão custoso. Pensou fixamente em seus três falecidos maridos. Eles afirmavam que ela não entendia. Rosas vermelhas, bombons, músicas, elogios. Mas, súbito, a mão tremeu, a vista turvou-se, o coração, aos galopes, apertou-se contorcionista num muscular abraço. Maria Luisa entendera! E se arrependera de ter pensado tanto. Homens… Irritada, com o ar que respirava a pesar-lhe no peito, dormiu em estado de perdição. Porém, de tão cansada, esquecera de acordar, para sempre.

Açúcar

Chocolate. Barras de chocolate ao leite, com flocos de arroz. Brigadeiro. Leite condensado escorrendo. Bananas caramelizadas. Bombons. Trufas. Cerejas ao licor. Chocolate derretido. Churrasco. Carne gorda, mal passada, o sangue pingando. Mesmo que comer um boi todo. O grosso do sal. A coca-cola estupidamente gelada com rum. Cerveja. Vinho. Tantas comidas para tão curta vida. O mundo oprime de tanta vontade de comer. Escorre pela boca o sangue do porco. Tão imponente o porco dourado com a derradeira maçã a distingui-lo dos suínos comuns. A maçã era o que menos interessava. Tenro, o porco oferecia-se, pleno. Enigmático, sussurrava casualmente: “decifra-me ou te devoro”. Restava devorá-lo. Sem remorsos. Comê-lo como se fosse o último porco da terra. Depois, abandoná-lo. E comer arroz, feijão, grossas lingüiças vermelhas. A gema do ovo sobre o queijo derretido incitava loucuras. O macarrão encarnado e rico em cebolas atraia irresistivelmente. E os bolos. Os brigadeiros. Os infinitos salgadinhos sobre brancas bandejas. E o desmanchar-se das comidas por entre os dentes. A sutileza do peixe frito e suas espinhas. Lutaria com todas as forças para destrinchá-lo. Guerrearia com aquele robalo, até que um dos dois vencesse!

Em cada esquina, um pastel de frango, de queijo, de carne. Em cada rua, um pouco de caldo com pão de ontem. Na geladeira, muito doce, que é o que salva. Torta de leite condensado, coco ralado e chocolate. Durante o trabalho, bombons variados. Não importava a marca, deveria ser doce, extremamente doce. Então descobrira o incurável problema. Deveria usar expressa e eternamente aspartame.

Mas como é que pode… logo ele? Ele que vivia para os doces, e também para os salgados? Que passara dois quartos de século mais todos os dedos de uma mão a comer? A viver os alimentos intensamente, como que procurando o melhor sabor? Não… isso era um pesadelo. Ainda não achara o sabor dos sabores. A vida tem um cerne crocante, ele ainda não conquistara o que havia de mais delicioso.

E continuou a comer. Agora, escondido. Um marginal das comidas. As pessoas vigiavam-no. E os tempos áureos dos churrascos haviam acabado. Somente alimentos pálidos e sem gosto. Alimentos tristes. Chuchus antipáticos. Pepinos depressivos. Ele reclamava. Dizia que preferia a morte. Que sonhava com uma existência entre doces. As pessoas lembravam que no mundo há quem passe fome e que ele deveria dar graças a Deus. Deus? Que Deus é esse que nega ao seu filho o açúcar? Oh, como sofria aquele homem.

Então, numa chuvosa noite, ele saiu. Todos dormiam. Metodicamente, abriu a porta. Tomou as ruas. Livre, enfim livre. Num mercado 24 horas, comprou doces, o que de mais doce havia. Doces crocantes. Salgados de toda a espécie. Bebidas adocicadas. Sentou-se na calçada. E devorou tudo. Depois, saiu correndo no meio do temporal. Estava no ápice da felicidade. Tão feliz. E tonto. Terrivelmente tonto. Desmaiou no meio-fio.

Pastosamente, acordou. Sentia-se como argila despedaçada, massa de pão sem fermento. Cometera um grande crime. O terrível pecado. Comera. Mas não estava arrependido. Faria tudo outra vez. E que não o vigiassem mais. A vida não pode ser insossa. A vida é doce. É caramelizada. É crocante. Por favor, parassem de chateá-lo! Arranjassem logo uma bandejinha de brigadeiros ou ao menos um saco de pipocas. Não tinha tempo a perder. Não tinha doces a perder. As pessoas, sempre as pessoas, olhavam-no incrédulas. Aquele homem queria morrer. Oh, sim, ele morreria por uma causa justa, por um ideal honrado. Se morresse, morreria sem fome. Satisfeito.

Certo dia, para a surpresa de poucos, não mais acordara. Para o velório, a esposa encomendou dois centos de docinhos e salgados sortidos. Quentinhos, fumegantes, no ponto em que gritam: “devore-nos, porém, antes, mergulhe-nos no molho”.

Secretamente, todos sorriram, íntimos, irmãos, numa volúpia de sabores. O morto, reflexivo, concentrado, encontrara o cerne crocante da vida.

O Homem

Na fila do exame médico, ele esperava. Era moreno. Aquele sim que era homem para se ter numa guerra. Homem que de cara podia se dizer: “Esse sim! Esse eu quero!”. Moreno bronzeado, alto, costas largas, uns braços e pernas fortes. Abdômen definido por quatro séries de trezentos abdominais três vezes por semana. E aquele peitoral. Meu Deus, aquele peitoral de pêlos negros, bem divididos e a tatuagem de serpente. Aquele peitoral forte, maciço, orgulhoso. Aquele rapaz inteiro era maciço, duro, forte. Cavanhaque escuro, olhos castanhos, dentes brancos e lábios grossos. Lindo. Corpo de homem, rosto de homem. Mãos fortes e quentes. E beijava de um jeito impossível, uns beijos que arrancavam a alma de tão intensos. Seus beijos pareciam ondas quebrando na areia. Todas as mulheres ficavam tontas. E ele adorava aquela excitação, a loucura que provocava. Sorria. Nunca falhara. No momento certo, lá estava ele: inteiro, uma lança. Ah, as mulheres enlouqueciam! Ele é que não enlouquecia muito.

Verdade seja dita, gostava, sentia prazer, mas definitivamente… definitivamente, ele talvez desconfiasse que as mulheres não sabiam agradá-lo. Mas isso era segredo que ele mesmo não aceitava.

Na fila, muitos rapazes, de cueca. Trajes sumários. Estilo box. O moreno surpreendia por sua altura. Um metro e noventa. Fora de cueca branca. Ele mesmo lavava as cuecas. Não tinha mãe, nem irmã, nem avó. Fora criado por homens: pai, avô, tio. Todos que nem ele: morenos, altos e fortes. Meio envergonhado, o moreno mordia o lábio inferior e olhava para os lados, com um jeito muito sério. Quando parava de morder os lábios, surgia uma marquinha branca, que durava uns três segundos. Era a pressão dos dentes no lábio. Ele cruzara os braços e, mudo, esperava sua vez. Olhou para sua cueca, suas pernas fortes e pensou: “Mas tu é bonito”. À sua frente, uma fila de gatos secos, uns pretos, outros brancos, alguns amarelos. As nádegas dos outros nem se comparavam com a dele. Aquilo sim que era bunda! A dos rapazes da fila eram murchas, pequenas, umas tinham até pêlos. “Que porcaria, o cara deixar pêlo na bunda!”. Outra coisa que ele achava nojenta: pêlo nas costas. Graças a Deus que ele nascera lisinho, lisinho. Somente os pêlos necessários. As mulheres adoravam. Sentiu uma pontada no ombro direito. Olhou. Havia uma marquinha roxa. “Porra, aquela cachorra me mordeu…”. A cachorra era uma menina que ele havia conhecido no bar. “Sei lá, parece que tem mulher doida…”. Pensava. A cachorra era desse tipo. Era uma coisa de morder a orelha, o lábio, morder o ombro, arranhar as costas e sussurrar: “Me come, me come”. Imundície, aquilo. O moreno gostava das mais tímidas. Então quem mordia, apertava e sussurrava era ele. Mas nada que fosse real. Ele fazia essas coisas mais para fazer mesmo… “Mulher é cheia de frescura, não gosta de nada”. Sinceramente… Ele, às vezes, achava as mulheres um saco. Bom mesmo era jogar bola com os caras da rua!

A fila andava muito devagar. Atrás dele tinha um loirinho: baixo, magro, uns cabelos finos, fininhos, desmaiados sobre a cabeça. E uns olhinhos azuis, de um azulzinho fraco. O moreno então lembrou da ex-namorada. A ex era uma santinha: toda delgada e loirinha e educadinha. Mas um dia, há uns dois meses, beliscou a bunda dele. O moreno se enraiveceu!!! “Na minha bunda ninguém pega!”. A ex fez cara de choro, tomou coragem e disse: “Eu acho que você é bicha”. Ele deu uma tapão na cara da ex. E foi embora. “Bicha, eu…”. Aquele ali não era bicha não! Aquele era homem. E homem MACHO!

A maioria dos rapazes conversava, mas nada de se olharem fixamente. Todos pareciam bem desconfiados uns dos outros. “Cara, eu quero que me dispensem… negócio de exército…”. “Mas é dinheiro, rapaz… dinheiro é bom”. Diziam. O moreno queria muito ser selecionado. Ele e o exército combinavam. Começaria cabo, mas com paciência conseguiria postos mais elevados. Era bom corredor, excelente nadador e, não se pode esquecer, lindo. Mas estava meio perturbado. Por ser o mais bonito da fila, o único, de fato, inteiramente homem, começou a pensar: “Esses cara tão me olhando. Tão me olhando mesmo”. Inicialmente, ficou tímido, mas depois… depois sentiu um prazer estranho em pensar que estava sendo observado. Olhado por outros rapazes. “Já pensou, se eu pegasse esse loirinho aqui de trás, eu matava ele numa noite…”. MEU DEUS! O que ele estava pensando??? Que tipo de pensamento era aquele? Ele, homem macho, atleta, bonitão, que enlouquecia as mulheres… Não, ele devia estar era com fome. Saíra muito cedo de casa. O sol estava quente. Estava mesmo com fome e sede. Queria ir embora correndo, sumir dali. Queria comer e beber até desmaiar. “Comer e beber outro macho!!!”. Sentiu-se nauseado, vulgar, obscuro. Um calor subia-lhe pelo corpo. Latejava. Endurecia. Procurou acalmar-se.

A paz não durou muito. Do nada, nem ele sabe porque motivo, virou-se impetuosamente para o loirinho que estava atrás. O rapaz assustou-se. O moreno olhou-o profundamente nos olhos, um olhar de devorador, e puxando-o para si deu-lhe um beijo na boca. A fila, em suspenso, olhava os dois. O beijo durou cinco minutos e trinta e dois segundos. O moreno saiu correndo. Alguns dizem que ele ria, outros afirmaram que ele chorava, mas todos confirmam: ele estava excitado, muito excitado. E saíra louco, a correr, e o seu volume denunciava o quanto ele era homem. Excessivamente homem. Um verdadeiro macho.

(imagem ©giselle salas)


Sarah Forte (Fortaleza/CE). Estudante de Literatura Brasileira. Gosta de escrever contos. Uma iniciante. Fonte Germina

17/11/2009 - 20:04h NO BALANÇO DO METRÔ

Lílian Maial

Roberto acordou bem cedo, como de costume. Tomou seu banho, barbeou-se, tudo de sempre – a rotina de um homem comum, beirando os 40 anos, já com algumas “entradas”, alguma barriguinha, na verdade, já gostou bem mais de sua imagem no espelho. Mas até que ainda estava conservado, para um funcionário burocrata de uma empresa de informática. Bem casado, com uma mulher adorável, bonita, culta, um casal de filhos adolescentes, uma vida estável e invejada pela maioria dos amigos.
Naquela manhã abafada, saiu de casa apenas com o suco de laranja – não quis comer – o calor o incomodava.
Foi à pé até o metrô, meio desligado, pensando na vida e no alívio do vagão refrigerado. A plataforma já estava cheia e o trem logo chegou, lotado, ocupado por ternos, bolsas, celulares… Não havia muita escolha, segurou no suporte de teto, num canto do vagão, espremido entre um jovem mascando chicletes (logo pela manhã?) e uma mulher de média altura, de costas pra ele, cabelos em seu rosto, cheirosa.
O trem saiu da estação e o ar condicionado mal dava a perceber que estava ligado.
Em seu terno impecável, Roberto era um belo homem, notado por algumas secretárias aqui e acolá.
Na parada da estação seguinte, devido a uma freada brusca, Roberto segurou a mulher à sua frente, que desequilibrou-se e soltou a pasta de executiva que carregava sob o braço. Ao abaixarem-se, entreolharam-se, e ele pôde observar o olhar alegremente surpreso, de aprovação, da mulher ao fitá-lo. Ela corou suavemente, agradeceu e voltou à posição inicial, para a partida do comboio.
Ele ficou embevecido com a delicadeza dos olhos amendoados, que o fitaram de relance, bem maquiados, adornados por longos cílios e uma cabeleira negra, que lhe caía aos ombros. Mulher de uma morenice discreta e elegante, com olhos de feiticeira.
Mais uma estação, o vagão não comportava mais ninguém, mas as pessoas continuavam a entrar. Aquele cheiro de flores que emanava dos cabelos morenos tornou-se mais intenso, e ele percebeu que a moça estava mais perto. Sentiu-se subitamente excitado com a proximidade e passou a observar seus contornos.
De súbito, a mulher deu um passo para trás e seu corpo roliço tocou o de Roberto e, silenciosamente, assim permaneceram no balanço do metrô.
Na estação seguinte, ninguém desceu e, ao contrário, vários entraram, diminuindo ainda mais o espaço entre ele e a mulher.
Ao partir o vagão, a mulher, inesperadamente, encosta-se completamente em Roberto, e acomoda a cabeça em seu peito, afastando os cabelos, deixando a nuca e o pescoço livres. Sem pudores, ela começa a roçar seu traseiro arredondado em Roberto que, entre surpreso e maravilhado, sente crescer o volume nas calças. O balanço do trem aumenta o atrito, e ninguém consegue perceber nada, de tão imóveis que estão todos.
Roberto atreve-se e beija aquele pescoço perfumado, sussurra naquela orelhinha delicada, perfurada por uma singela pérola. Introduz a língua naquele pequeno lóbulo e sente a respiração alterada da mulher, que aceita as carícias sem nada dizer.
Naquele balanço, com o sexo resvalando no traseiro provocante da executiva, sente a mão pequena, porém firme, tocar-lhe as partes mais íntimas, apertando e soltando.
Ele estava deliciado, sua estação ainda demoraria, e ela não fazia menção de saltar.
Num ímpeto de valentia e desejo, com sua mão livre acaricia as coxas da morena e foi subindo o quanto pudesse. Ela consente, afastando ligeiramente as pernas, e ele alcança, protegido pelo anonimato da multidão, a umidade abundante daquela desconhecida. Sente seu calor, sente seu pulsar, sente seu cheiro inebriante. Aproxima-se mais e, apoiando-se nela, solta a outra mão, para acarinhar discretamente aqueles seios de pêras suculentas.
E vão assim, nessa sofreguidão disfarçada e gostosa por toda a viagem.
Aquele corpo quente, junto ao seu, aquela mãozinha buscando seu sexo, aqueles seios… Ele podia ouvir seus suspiros calados, seus gemidos mudos, seu arfar contido, e isso o excitava ainda mais.
Chegava sua estação, teria que saltar, queria poder falar com ela, trocar telefones, marcar no outro dia, mas não teve coragem. Ajeitou-se como pôde, ela também e, curiosamente, saltaram na mesma estação, mas pegaram direções opostas. Ele pensou em segui-la, mas tinha horário rigoroso no trabalho… Assim, apenas ficou a observá-la afastar-se, saia justa, sapatos altos, bolsa, pastinha…
E ela nem olhou pra trás…

Fonte Blog de Lílian Maial

13/11/2009 - 20:52h Senhas

Você escancara a janela, deixando entrar os primeiros raios solares no quarto modesto. Sob um teto de telhas antigas e ripas quase podres, uma mesa, três tamboretes, um cabideiro pendurado na parede. Água fresca numa moringa e dois copos de vidro que já foram potes de extrato de tomate. No chão, uma esteira fazendo as vezes de tapete, sobre o qual dormem dois pares de chinelos. No teto da casa, você vê os pernilongos que jazem presos nos fios quase invisíveis de uma teia. Entra um cheiro de verde e estrume, risos de passarinhos e cores de manga e tamarindo. Uma fímbria de sol lambe os pêlos finos de Isaura, ainda dormindo, nua, sobre o lençol quarado e engomado, cheio de amassos, contrastado pela colcha de retalhos.

Você sente falta do vício. Um cigarro cairia bem. Os dedos indicador e médio se aproximam, ato reflexo, falho, inconsciente. O canto dos lábios ainda guarda o hábito de manter um hiato. Mas você já abandonou os vícios. Todos eles. Um médico, ainda que de bichos, tem o dever de cuidar da própria saúde.

Ela saíra da capital em um ônibus, às dez horas da manhã. Chegara à sede do município às cinco da tarde. Depois, mais uma hora e meia em um jipe, cortando acessos de terra batida, até chegar ao vilarejo. Após vinte minutos caminhando, chegara exausta à casa, sem mandar aviso. No fogão de lenha, carne de porco assada, farofa, arroz e café: um banquete para quem está morrendo de fome. Depois, você faz amor com ela a noite inteira. O seu último contato fora apenas uma carta, em que você informava que iria viajar, passar algumas semanas fora, trabalhando. Você queria ficar sozinho. Mais que isso, você precisava ficar sozinho, para saber o quanto de você restara. Você se pergunta incessantemente o quanto vale a pena insistir na vida que tem levado. Ela entrou em sua vida com a sutileza de um rinoceronte e a leveza de um colibri.

É para sua esposa? Quer que embale para presente? Ela vai gostar. O senhor tem muito bom gosto. Sim, estou trabalhando aqui somente há três semanas. Estou gostando muito. Sabe como é, desde que me casei, parei de trabalhar. Sou, sou casada já há onze anos, estava precisando sair um pouco de casa. Não, não tenho filhos. Ah, ele é muito possessivo, você não sabe o quanto eu tive que brigar para voltar a trabalhar e estudar. Cansei daquela vidinha de dona-de-casa privilegiada. A empregada fazendo tudo. Geralmente eu saio às seis e meia. Acho que sim. Não, não tenho problemas em chegar mais tarde, o Magno está viajando. Combinado, então, às sete na praça de alimentação.

Você hoje se pergunta o porquê daquela abordagem. Claro que ela é linda. Mas isso não é tudo. Talvez apenas a necessidade de conversar com alguém desconhecido, conhecer uma nova pessoa. Não, você sabe que havia algo além disso. Alguma coisa naquela mulher lhe fazia promessas de fortes sentimentos. Um olhar sensual, como o da professora Dalva, que tanto lhe dera aulas particulares de sexo, no colegial.

Olá! Cheguei na hora! Não, nem sempre eu sou assim tão pontual. A vida sedentária deixa a gente mal-acostumada. Sim, aceito um chope. O que você quiser. Como qualquer coisa. É verdade, sou casada há onze anos. Obrigada, são seus olhos. É que eu casei muito jovem. Não tenho vergonha de dizer minha idade, isso é uma tremenda besteira, o que importa é a nossa saúde física e mental: tenho vinte e nove anos. Acho que é porque sempre me cuidei. Nunca fui de fazer farras, ir para a balada, como dizem hoje. Magno foi meu primeiro namorado pra valer, meu primeiro homem. Sério. Perdi a virgindade com dezoito anos. Dei o cabaço pro Magno e nunca conheci outro homem. Não, não tenho vergonha de falar pornografia. Isso é falso pudor. Além disso, acho cabaço uma palavra sonora, bonita. Soa forte. E é tão simbólica! É sério. Pede mais um chope.

Você sabe, tudo é uma questão de referenciais. E evitar comparações é o caminho mais fácil para ser feliz. Isaura é, possivelmente, a quadragésima mulher que você penetrou: no corpo e na alma. E a melhor de todas. Você sempre acha que a melhor é a última. Não por elas, mas porque você, a cada vez, consegue aumentar a intensidade do seu prazer. Amor?

Hoje eu não sei se amava o Magno. Foi tudo muito rápido. Eu estava louca para ter minha primeira experiência sexual e ele louco para trepar com uma menina de dezoito anos. Ele gostou, eu também, e continuamos transando ao longo destes anos todos. Mas hoje eu não me casaria com um homem como ele. Não, não é que ele seja ruim de cama. Eu não sei o que é um homem bom ou ruim de cama: só tive ele. É que, a cada dia, tenho menos tesão. Claro que variamos! Em onze anos dá para fazer de tudo. Eu não tenho restrições. Já transamos em todos os lugares, em todas as posições, de todos os jeitos. A novidade acabou, está tudo muito igual. Você é casado há quanto tempo? Tem filhos? Um casal? Do primeiro ou do segundo casamento? Eu sempre quis ter um filho, mas o Magno… Pede outro chope.

Você não tem certeza sobre esse tal de Amor. Isaura se vira na cama, coloca preguiçosamente o travesseiro sobre a cabeça. Está exausta, depois de seis orgasmos. Vai acordar com uma fome felina e morder a sua orelha como se fosse um petisco. Você já conhece cada curva daquele corpo, a profundidade da sua vagina até sentir o DIU, o sabor do seu ânus. Tudo que ela gosta, o que lhe dá mais prazer.

Eu sabia que ia ser delicioso. Estou acostumada com uma um pouco menor. Você me fez sentir uma mulher outra vez. Você me toca com tanta delicadeza! Há tempos eu não tenho um gozo tão maravilhoso! Que bom que você gostou. Eu entendo. Ainda vamos nos ver de novo?

Durante duas semanas vocês se encontram todos os dias. E cada dia foi melhor que o anterior. E a cada vez você se perguntava porquê outra vez e se lembrava de Maura. Se ela descobrisse, como voltar a olhar em seus olhos? Seria o fim. Mas tudo não tem um fim? É possível amar duas pessoas, ao mesmo tempo, com a mesma intensidade?, você se pergunta, ou tudo não passa de sexo e amizade? Completamos nossas carências, afetivas e fisiológicas. Incompletude, esta é a palavra. Você sabe que a provocou, foi você quem a convidou a sentir novas experiências, novas emoções. Você queria comê-la. E continuar comendo-a. Você não lhe deu a menor chance de defesa, enredou-a completamente. O sol já se faz mais presente, o dia espreguiça-se, você vê um cavalo velho que passeia, pisando o capim que devora. Ela viajara algumas centenas de quilômetros para fazer amor com você e gritar amor da minha vida no terceiro gozo.

Magno, eu vou viajar. Viajar, viajar, ora, preciso descontrair um pouco. Pedi uns dias de folga. A Luísa é minha amiga, lógico que ela não iria se importar com minha falta. Não sei. Vou sair por aí, sem destino. Não pirei, não, Magno. Outro? Que outro? Ficou maluco, é? Só preciso ficar sozinha, pensar um pouco sobre minha vida, nossa relação. Não tô a fim de discutir nada agora, Magno, quando eu voltar a gente conversa. Não sei, o tempo que for necessário. Eu te ligo quando estiver voltando. Não, não vou levar a porcaria do celular, Magno. Que saco! Você pode me permitir um pouco de liberdade? Ah! obrigada, meu senhor! Sobre o que eu quero pensar? Ah! agora você quer saber até o que eu penso? Tá bom, não preciso pensar mais. Quero dar um tempo. Agora, pensa você sobre isso. Tchau!

Mas você sabe que a Maura lhe ama. Há algum tempo ela não verbaliza isso, mas você sabe. E isso você não consegue desprezar. Você se lembra que cada uma daquelas mulheres tinha algo em especial: uma cor de pele, um gosto na bunda, um cheiro nas axilas, um jeito diferente de revirar os olhos quando goza. Cada uma, ao seu modo, inesquecível. Maura era todas e nenhuma, não a melhor, mas ela mesma. Plena. Não precisava de você, nem de ninguém. Esperava sua volta, após dias e dias de ausência, e o saudava como se você tivesse saído há meia hora, para comprar remédio. E depois lhe fodia, ou melhor, continuava a foda de onde ela havia parado. Com Maura, a foda nunca acabava, deixando seu corpo eternamente insatisfeito. Você se diz que não a ama. Não as ama. Não ama ninguém

Surpresa! Posso entrar? Será que estou atrapalhando? Não agüentei saber que ia ficar mais tantas semanas sem lhe ver, sem sentir você dentro de mim. Eu preciso de você. Não, ele não sabe pra onde eu fui. Dei uma de louca, chutei o pau-da-barraca. Foi fácil chegar, você deu todas as dicas na carta, quase um mapa. Eu percebi que você queria que eu o seguisse, mas não se sentiu à vontade pra pedir. A viagem foi longa, mas sei que vai valer a pena. E aí, posso ficar com você? Que bom. Agora, me dá um beijo que eu tô morrendo de saudade. Eu te amo! Não dá mais para viver com o Magno. Eu só quero você.

Isaura faz amor como uma louca, como se cada uma fosse a última trepada da sua vida. Isso a fazia diferente. Isso fazia com que você sempre atendesse aos seus desejos. Você a vê abrir os olhos. Sua primeira expressão é de desejo. Ela contempla o seu corpo nu, de alto a baixo. Espreguiça-se, rola no colchão, fazendo as molas chiarem. Exibe suas formas generosas. Ela percebe a alteração no seu corpo. Apóia-se nas mãos e nos joelhos e lhe chama, quase implorando, vem meu amor, me come de novo, bota aqui na minha bundinha, vai! Você se aproxima lentamente, provocando-a. Lambe suas costas, acaricia-lhe a buceta, puxa-lhe os cabelos.

Depois do café você sabe que vai precisar mandá-la embora. Para sempre. Você sabe que vai ser difícil, você sempre teve dificuldades em terminar relacionamentos. Além disso, Isaura não lhe exige nada, ela sabe dos seus compromissos, só quer fazer amor. E ela é tão doce e apaixonada! Por que não viver, simplesmente, enquanto for bom? Você quer se convencer que esta é a última, como um fumante que sempre pensa que aquele é o ultimo trago. Mas sabe que está mentindo.

— Eu sei que você pensa em terminar comigo, amor. Não precisa. A cada vez que nos despedimos, para mim, é como se fosse a última. Relaxe. Feche a janela e finja que eu nunca estive aqui.

[Conto premiado com o quarto lugar no VII Concurso de Contos da Petros, RJ, 2007)]

Goulart Gomes (Salvador, Bahia, 1º/5/1965) é graduado em Administração de Empresas, Especialista em Literatura Brasileira (UCSAL) e pós-graduando em Comunicação Integrada (ESPM-RJ). Criador da linguagem poética Poetrix e um dos fundadores do Grupo Cultural PÓRTICO. Publicou os livrosde poesia Anda luz (1987), Todo desejo (1990), Sob a pele (1994), Trix, poemetos tropi-kais (1999), LinguaJá, o território inimigo (2000), Esfinge lunar e outros enigmas; a peça teatral A greve geral (1997); o cordel A divina comédia (1989); Todo tipo de gente, contos (2003) e Matrix revelations — tudo o que você queria saber sobre o filme, ensaio (2005). Obteve 63 prêmios em concursos de poesia, prosa e festivais de música, destacando-se duas Menções pela Academia Carioca de Letras e União Brasileira de Escritores (RJ, 2000 e 2001) e o Primeiro Lugar no Prêmio Escribas de Poesia (SP, 2002). Integrou 27 antologias no Brasil, Cuba, Espanha, USA, Itália e Coréia do Sul e, ainda, trabalhos divulgados no México, Portugal e França. Sites: www.goulartgomes.com e www.movimentopoetrix.com.

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06/11/2009 - 18:29h “entre aspas”

Arte Photographica


Man Ray, Rayography Film strip & sphere, 1922
© Man Ray Trust

O ajudante de farmácia pediu para falar com o senhor doutor, gostaria que o senhor doutor lhe dissesse se tinha, sobre a doença, uma opinião formada, Não creio que se lhe possa chamar, em sentido próprio, uma doença, começou por precisar o médico, e depois, simplificando muito, resumiu o que investigara nos livros antes de ter cegado. Algumas camas adiante, o motorista escutava com atenção, e quando o médico terminou o seu relato, disse de lá, Aposto que o que sucedeu foi terem-se entupido os canais que vão dos olhos até aos miolos, Forte besta, resmungou indignado o ajudante de farmácia, Quem sabe, o médico sorriu sem querer, na verdade os olhos não são mais do que umas lentes, umas objectivas, o cérebro é que realmente vê, tal como na película a imagem aparece (…)

Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

06/11/2009 - 17:52h Antonio, de novo

Diz

http://3.bp.blogspot.com/_RCojEL9WAfQ/SteIyufzy4I/AAAAAAAAC8U/YotrfpVyJnE/s1600-R/elianne_foto_sylvie_rosto_normal.JPGBlog Caminhar

O relicário*

Ela deitou na tábua curtida onde o sol se esgueirava naquela manhã, ia deslizando no assoalho ainda frio.
Resta uma nesga de sol, quase uma linha que desenha um eixo,
corta ao meio seu corpo magro. Imagina que ele está sobre ela, inteiro.Tira a camisola. Fica nua.
Lembra da primeira vez que se deitaram.
Ela acabara de virar mulher, ele quase menino. Caminhavam na trilha até o açude. Tropeçou. Ele veio ajudá-la. E ali mesmo fizeram amor. Meses depois não era possível esconder mais a barriga. Casaram.
Antonio trouxe o relicário. A mãe, devota, escolheu o nome durante o difícil
parto.
Quando a jogava na cama, viril, cheio de desejo, antes cobria o Santo:
“Não quero que ele veja nossa sem- vergonhice”.
Cansado da fome, vai em busca de trabalho:”Homem que é homem, traz o
sustento pra dentro de casa, Maria”.
Parece que foi ontem que se despediu do marido encostada na porta, a barriga
grande, o olhar perdido no horizonte.
- “Pede pra nosso filho vingar, Maria”, é cantilena no ouvido dela. O filho
não vingou, mas Antonio não sabe.
Certo dia um homem bate na porta:
-Você é Maria?
-Sou.
-Mulher de Antonio?
-É…
-Ele me falava de você. Pediu que viesse até aqui.
Ela adivinha o que ele tem para dizer. Lágrimas brotam dos seus olhos.
-Pediu para te dizer que arranjou o trabalho e que lá de cima vai cuidar de você e de seu filho.
-Como foi?
-Numa desavença, levou uma facada certeira, só teve tempo de dizer estas últimas palavras.
Ela fica em silêncio, engole o choro e diz:
-Se quiser, entre, lhe dou um copo d’água.
-Obrigado. Meu nome também é Antonio, Antonio da Silva, ao seu dispor.

*Este conto está neste livro.

05/11/2009 - 20:36h Maneiras de ser feliz

A DEUSA

Comeu-o com muito gosto, estalando a língua e gemendo de prazer. Mas não o fez de maneira selvagem. Ao contrário, foi bastante cortês.

Comeu-o aos poucos, com requinte e sabedoria. Dispôs igualmente de todas as partes, sem rejeitar nenhum ossinho, por miúdo que fosse. Aproveitou tudo tudo, inclusive os dedos dos pés.

Sugou primeiro os lábios carnudos, suspirando delicado.

Quando mordiscava o lombo, gemeu alto. Ao chupar a coxa, quase perdeu a compostura.

Perdeu a compostura ao lamber as partes tenras. Sacrificou-o em grande estilo, arrancando-lhe as vísceras sem sombra de culpa ou tardio remorso. Mas o momento de gozo ela viveu ao devorar-lhe a cabeça.

Ele perdeu a pele, as carnes, ficou nu por fora e por dentro. Mas ela não teve dó. Arrebatara seu coração. Enfim.

DUAS MANEIRAS DE SER FELIZ

Esquizofrenizou-se às seis horas da tarde ao som da Ave-Maria, quando uns anjos lhe disseram que largasse tudo e fosse pro convento seduzir a pequena Flor-de-Liz, enquanto outros aconselharam que ela se dirigisse imediatamente ao shopping mais próximo e comprasse lingerie de cor vermelha — aquela com abertura coincidente com as aberturas de nascimento — e subisse lá pros altos da Avenida Afonso Pena que aí sim, ela estaria perto do céu.

Então Marilene deu dois passos pra frente, dois pra trás e ficou paralisada, ouvindo as vozes cada vez mais perto.

Belo Horizonte, 15/08/02

O SALVADOR

Então ele me tocou e eu fiquei curada.

O véu da cegueira se rasgou e eu vi: o tisnado da pele, o veludo dos olhos. A saturação do melado: rapadura batida e rebatida, em calor absoluto. Os lábios exatos — café claro e duas pitadas de chocolate.

Lembro antílopes e tigres e esquilos.

Meu sorriso rompe o gelo, já não dói.

Meus membros vencem a crosta de gesso, já não sou uma estátua.

Abro as vidraças.

Ensaio passos de uma nova dança, ouvindo uma música que nem mesmo sei se existe.

Porque ele me assiste.

Fevereiro, 2003

GOLPE DE NAJA

Eu nem perguntaria o nome dele.

Iria para um canto qualquer, um vão de escada e, na pressa, talvez fizesse em pedaços a camisa azul.

Minhas mãos aflitas procurariam o caminho e abririam o zíper enquanto eu esfregaria minhas tetas no corpo trêmulo e meteria a perna atrevida entre as pernas do homem, revolucionando os quadris.

Era o que eu pensava naquele carnaval, sentada com os outros em torno da imensa távola redonda, enquanto o macho ao lado, um perfeito estranho, corria a mão pela minha coxa e me lambia a cara com sua língua fogosa.

Não quis ver-lhe o rosto, não me virei, nada fiz. Apenas imaginava a cena e seus desdobramentos. O golpe de naja, o salto primitivo.

Então, num sobressalto, acordei.

Fevereiro ou março, 2003

LABORES

Ele, um touro de forte. Ela, mignonne, franzina, uma pluma. Criatura mínima, mas disposta, cheia de calores, um vulcão prestes a expelir salsa-ardente.

E assim foi: ele abre caminho na terra revolta e tenra.

Cavouca fundo, com precisão.

Cavouca calmo, mantendo o ritmo certo.

Vai quebrando resistências em meio aos ais, explora a mina, conquista reentrâncias.

Vai umedecendo o túnel estreito, enquanto o fogaréu pouco a pouco se alastra, do centro para outras glebas.

Eventualmente, ele desbloqueia a saída e respira a paisagem. Com volúpia, saboreia os arredores.

Até plantar a semente em jatos tensos, na justa hora.

O gozo germina e ela nunca mais esquece.

Belo Horizonte, 2003

[Do original "Visões do Paraíso"]

(imagens ©pedro paulo domingues)

Branca Maria de Paula (Aimorés-MG). Escritora, fotógrafa e roteirista. Premiada no 3º Concurso Nacional de Contos Eróticos da Revista Status, em 1978, teve o texto censurado na íntegra. Publicou seu primeiro livro — A Mulher Proibida — em 1980. Depois de várias obras direcionadas ao público infanto-juvenil, em 2005, lança Fundo Infinito — contos eróticos. Participa de diversas antologias. Entre elas, Intimidades (Dez contos eróticos de escritoras portuguesas e brasileiras). Vive em Belo Horizonte, Minas Gerais.

30/10/2009 - 19:00h Vida Xpress 1.0: Pasó una noche

Cristina Civale

Como les prometí cuando terminé la serie de Cuentos alcohólicos -a mediados de noviembre ya en librerías y recibirán la invitación a la presentación-, en noviembre me proponía arrancar con la serie de relatos Vida Xpress, un conjunto de cuentos breves acerca de encuentros efímeros.

Aquí va la primera entrega:



vangogh.jpg

Noche estrellada, Van Gogh

Pasó una noche

Espiar. Pretender ser como alguna de ellas. Meterse en los baños de los clubes, discos y bares y permanecer más de lo que el retoque del rimel o del gloss demanden. No uno, dos, tres segundos… Largos quince minutos y estirarlos a como dé lugar a media hora. El lapso perfecto. Y tomar nota con los ojos, envidiar y copiar. Quizá excitarse. Sentir el latido entre las piernas que produce la indescifrable belleza ajena. ¿Qué es? ¿El gesto ardiente de un lápiz recorriendo el contorno de los labios? ¿La mano grácil que con una esponja diminuta transmite purpurina en las mejillas? ¿La manos seguras que levantan los pechos y los acomodan como la raya de una cola en el medio de un escote? ¿La insinuación del pubis bajo una minifalda? ¿Los ojos estrellados que se miran con lascivia frente al espejo, deleitándose de sí? ¿La mirada de satisfacción de la armonía conseguida? ¿La cabeza que en un gesto lento y salvaje sacude la cabellera? ¿El cuello que chorrea esa gota casi invisible de sudor? Todo. Cada parte. Cada pequeño momento. La sensualidad ahora intangible de la belleza que espío y no rozo. No todavía. ¿Qué más?

¿El encuentro atrevido de dos cuerpos iguales que unen sus lenguas en un beso fugaz, travieso y apasionado? ¿La palma de la amiga o de la desconocida tocando en una caricia disimulada ese bretel que asoma en una parte inoportuna del hombro y esas miradas que se cruzan, cómplices, quién sabe para qué complicidad? ¿El aliento que no huelo y que destila gin, cigarrillos, tictacs de menta y lujuria en forma de burbuja? También.

Seguir espiando desde el cubículo privado, con la puerta ligeramente entornada o con los pies cargados sobre los bordes del inodoro. Achicando el cuerpo para que apenas asome, con la mayor discreción, la menor parte de la cabeza que permita al ojo entender la construcción de la belleza.

El interior-noche disco no tiene estaciones. No hay primavera ni otoño. Ni invierno ni verano. La estación es la temperatura de la noche misma, el calor exacerbado –frío, caliente, tibio- de los cuerpos que marchan a exhibirse con sus mejores atributos, naturales o impostados, para luego rozarse con otros cuerpos y otros atributos para cualquier fin. No importa cuál.

Ahora mismo estoy espiando. Todavía no llego al baño. Aguardo a mi presa en el salón principal del bar icónico de la noche under, en la esquina mítica y caliente de Godoy Cruz y Güemes. Al fin, ella llega, una ella elegida al azar. La sigo. Desciendo al subsuelo por la escalera estrecha. Me arrastra el perfume que emana de su cuello, allí mismo distingo un tatuaje que reproduce una flor imprecisa. No se qué me inquieta más, si el olor agrio o la flor que no reconozco. Pero me dejo llevar. Apenas bajo la escalera, a la izquierda, dos puertas sin distintivos conducen a los baños. Sigo el cuello, sigo el olor que atraviesa sin titubear la puerta que no dice nada. Me escabullo en el espacio. Es diminuto. Otros cuerpos se baten contra una mesada pequeña y dos lavabos. Las cabezas se mezclan buscando el espejo inmenso. Decido seguir a mi presa, no la miro más que a ella. El cabello largo y negro, de un negro-azul, se alza sobre la nuca en un peinado sin nombre, envuelto por un palito de comida japonesa. Bajo el cuello del tatuaje, más piel. Piel desnuda. Luego de acomodarse el pelo con la inutilidad de un gesto que es excusa para volver a mirarse –estoy segura que ya lo hizo en otros espejos de otros bares- y aprobarse, abre su bolso pequeño y espío ahora del cuello para abajo siguiendo la línea marcada de su espinazo brutalmente marcado por una delgadez que apremia. Hambre, el mío.

Me topo con su cola dura y redonda y bajo hacia las piernas largas y distingo un vello que se insinúa, ese desequilibro: un error, un defecto en la construcción. Ese pequeño desliz acelera mis latidos. Quiero agacharme y arrancarlo con mis dientes para que todo sea perfecto pero me contengo. El cuello se va con su pierna con vello. Y yo me quedo, turbada, perdida en el perfume que todavía huelo o creo o imagino. Quedan otras pero no puedo concentrarme. Me aturden sus susurros.

Estoy embrujada por la imagen de cabello negro-azul, tatuaje y pierna defectuosa. Me obligo y miro, escruto escondida en el cubículo, el único. Hay una cerradura rota. Aprovecho y pego el ojo. Tengo un plano medio de tres cuerpos que se miran. Llega el beso imaginado. Más breve de lo debido, más juguetón, mas amistoso. Un beso consuelo de bocas que buscan otros placeres que allí no encuentran. Ya no late nada en mí. No hay belleza en el gesto falso. Añoro con una exageración que reconozco la presa uno, la primera, la del azar y salgo del baño.

La encuentro en la barra rodeada de dos hombres que le hablan, rifándosela. Ella sonríe con su boca de labios delgados, excesivamente blancos, como de diseño, salidos de la imaginación de las sonrisas hiperbleeching de Hollywood.

Por fin apura su trago transparente –¿gin, vodka, agua?- se despega de los hombres y regresa, como en un rito inevitable, al baño desde cuya puerta me agazapo y espero.

Entra. Entro. Me reconoce y me sonríe con los labios apretados. Estamos solas. En un gesto mecánico trabo la puerta. Ella está entretenida, ahora, con el cinturón que le sostiene la falda breve. Me aproximo y rozo su entrepierna con mi pubis. Allí no hay nada especular. Hay otra cosa. Estaba segura, sólo tenía que comprobarlo, que mi cuerpo tocara el de ella y me lo confirmase. Ella no me dice nada. Me vuelve a mirar y me regala uno sonrisa de labios abiertos.
Las más bella de las bellas de esa noche.

Este relato salió publicado en la revista Ñ, el 24 de octubre de 2009

Publicado por Cristina Civale en Civilización & Barbarie

29/09/2009 - 14:18h Veja quem são os vencedores do Prêmio Jabuti 2009

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da Folha Online

A Câmara Brasileira do Livro divulgou hoje a lista com os três primeiros colocados de cada uma das 21 categorias do 51º Prêmio Jabuti. Os vencedores das categorias Livro do Ano Ficção e Livro do Ano Não-Ficção serão revelados durante a cerimônia de premiação, no dia 4 de novembro, na Sala São Paulo.

Tradução

1º lugar -”A Morte de Empédocles / Friedrich Hölderlin”, Marise Moassaba Curioni (Iluminuras).
2º lugar -”Satíricon”, Cláudio Aquati (Cosac Naify).
3º lugar -”Os Irmãos Karamázov – 2 Volumes”, Paulo Bezerra (Editora 34).

Arquitetura e Urbanismo, Fotografia, Comunicação e Artes

1º lugar – “Coleção Princesa Isabel – Fotografia do Século XIX”, Bia e Pedro Corrêa Lago (Capivara Editora)
2º lugar – “Árvores Notáveis – 200 Anos do Jardim Botânico do Rio de Janeiro” (livro e guia de bolsa), Andréa Jakobsson Estúdio Editorial (Andréa Jakobsson Estúdio Editorial)
3º lugar – “Tarsila do Amaral”, Lygia Eluf (Imprensa Oficial do Estado)

Teoria/Crítica Literária

1º lugar -”Monteiro Lobato: Livro a Livro”, Marisa Lajolo e João Luís Ceccantini (Editora Unesp / Imprensa Oficial)
2º lugar -”Pensamento e ‘Lirismo Puro’ na Poesia de Cecília Meireles”, Leila V. B. Gouvêa (Editora Universidade de São Paulo)
3º lugar -”Literatura da Urgência Lima Barreto no Domínio da Loucura”, Luciana Hidalgo (Annablume Editora)

Projeto Gráfico

1º lugar -”Fazendas Mineiras”, Marcelo Drummond & Marconi Drummond (Cemig)
2º lugar -”A História do Brazil de Frei Vicente de Salvador”, Maria Lêda Oliveira (Versal Editores)
3º lugar -”Isay Weinfeld”, Roberto Cipolla (Bei Editora)

Ilustração de Livro Infantil ou Juvenil

1º lugar -”O Matador”, Odilon Moraes (Editora Leitura) – BH
2º lugar -”De Passagem”, Marcelo Cipis (Schwarcz)
3º lugar – “Alfabeto de Histórias”, Gilles Eduar (Editora Ática)

Ciências Exatas, Tecnologia e Informática

1º lugar – “Introdução à Quimica da Atmosfera – Ciência, Vida e Sobrevivência”, Ervim Lenzi e Luzia Otilia Bortotti Favero (LTC – Livros Técnicos e Científicos Editora)
2º lugar – “Fundamentos de Metrologia Científica e Industrial”, Armando Albertazzi G. Jr. e André R. de Souza (Editora Manole)

3º lugar – “Mapa do Jogo”, Lucia Santaella e Mirna Feitoza (Cengage Learning Edições)

Educação, Psicologia e Psicanálise

1º lugar -”A Voz e o Tempo”, Roberto Gambini (Ateliê Editorial)
2º lugar -”Religiosidade e Psicoterapia”, Claudia Bruscagin, Adriana Sávio, Fátima Fontes e Denise Mendes Gomes (Editora Roca)
3º lugar – “Educação à distância: o Estado da Arte”, Fredric Michael Litto (Pearson Education do Brasil)

Reportagem

1º lugar -”O Livro Amarelo do Terminal”, Vanessa Bárbara (Cosac Naify)
2º lugar -”O Sequestro dos Uruguaios – uma Reportagem dos Tempos da Ditadura”, Luiz Cláudio Cunha (L&P Editores)
3º lugar -”1968 – o que Fizemos de Nós”, Zuenir Ventura (Editora Planeta do Brasil)

Didático e Paradidático

1º lugar – “História e Cultura Africana e Afro-Brasileira”, Nei Lopes (Barsa Planeta Internacional)
2º lugar – “Meu primeiro álbum de piano solo”, Dulce Auriemo (D.A. Produções Artísticas)
2º lugar – “Coleção cidade educadora – Diário de bordo do aluno 1 – Volume Amarelo”, Áureo Gomes Monteiro Júnior, Célia Cris Silva e Júlia Scandiuci Figueiredo (Aymará Edições e Tecnologia)
3º lugar – “Literatura Infantil Brasileira: um Guia para Professores e Promotores de Leitura”, Vera Maria Tietzmann Silva (Cânone Editorial)

Economia, Administração e Negócios

1º lugar – “Valores Humanos & Gestão. Novas Perspectivas”, Maria Luisa Mendes Teixeira (organizadora) (Editora Senac São Paulo)
2º lugar -”Estratégia e Competitividade Empresarial – Inovação e Criação de Valor”, Luiz Carlos Di Serio e Marcos Augusto de Vasconcelos (Saraiva)
3º lugar – “Meio Ambiente e Crescimento Econômico: Tensões Estruturais”, Gilberto Dupas (Editora Unesp)

Direito

1º lugar – “Introdução ao Pensamento Jurídico e à Teoria Geral do Direito Privado”, Rosa Maria de Andrade Nery (Editora Revista dos Tribunais)
2º lugar -”Execução”, José Miguel Garcia Medina (Editora Revista dos Tribunais)
3º lugar -”Código de Processo Civil – Comentado Artigo por Artigo”, Daniel Mitidiero e Luiz Guilherme Marinoni (Editora Revista dos Tribunais)
3ºlugar – “Atual Panorama da Constituição Federal”, Carlos Marcelo Gouveia (Saraiva)

Biografia

1º lugar – “O Sol do Brasil”, Lilia Moritz Schwarcz (Schwarcz)
2º lugar -”José Olympio, o Editor e sua Casa”, José Mario Pereira (GMT Editores)
3º lugar -”O Santo Sujo: a Vida de Jayme Ovalle”, Humberto Werneck (Cosac Naify)

Capa

1º lugar – Moby Dick”, Luciana Facchini (Cosac Naify)
2º lugar -”Jovem Stálin”, João Baptista da Costa Aguiar (Schwarcz)
3º lugar -”Introdução à filosofia”, Rex Design (Editora WMF Martins Fontes)

Poesia

1º lugar -”Dois em um”, Alice Ruiz S. (Editora Iluminuras)
2º lugar -”Antigos e soltos: poemas e prosas da pasta rosa”, Instituto Moreira Salles (Instituto Moreira Salles)
3º lugar -”Cinemateca”, Eucanaã Ferraz (Schwarcz)
3ºlugar – “Outros barulhos”, Reynaldo Bessa (edição do autor)

Ciências Humanas

1º lugar – “História do Brasil – Uma Interpretação”, Adriana Lopez e Carlos Guilherme Mota (Editora Senac São Paulo)
2º lugar – “Veneno Remédio”, José Miguel Wisnik (Schwarcz)
3º lugar – “A Aparição do Demônio na Fábrica”, José de Souza Martins (Editora 34)

Ciências Naturais e Ciências da Saúde

1º lugar – “Fundamentos de Dermatologia”, Marcia Ramos-e-Silva e Maria Cristina Ribeiro de Castro (Editora Atheneu)
2º lugar -”Oftalmogeriatria”, Marcela Cypel e Rubens Belfort Jr. (Editora Roca)
3º lugar – “Guia de Propágulos & Plântulas da Amazônia”, José Luís Campana Camargo et al (Inpa)

Contos e Crônicas

1º lugar -”Canalha! – crônicas”, Fabricio Carpinejar (Editora Bertrand Brasil)
2º lugar -”Ostra feliz não faz pérola”, Rubem Alves (Editora Planeta do Brasil)
3º lugar -”Os comes e bebes nos velórios das gerais e outras histórias”, Déa Rodrigues da Cunha Rocha (Auana Editora)

Infantil

1º lugar – “A Invenção do Mundo Pelo Deus-Curumim”, Braulio Tavares (Editora 34)
2º lugar -”No Risco do Caracol”, Maria Valéria Rezende e Marlette Menezes (Autêntica Editora)
3º lugar – “Era Outra Vez um Gato Xadrez”, Leticia Wierzchowski (Editora Record)

Juvenil

1º lugar -”O fazedor de velhos”, Rodrigo Lacerda (Cosac Naify)
2º lugar -”Cidade dos deitados”, Heloisa Prieto (Cosac Naify)
3º lugar -”A distância das coisas”, Flávio Carneiro (Edições SM)

Romance

1º lugar -”Manual da Paixão Solitária”, Moacyr Scliar (Schwarcz)
2º lugar -”Orfãos do Eldorado”, Milton Hatoum (Schwarcz)
3º lugar -”Cordilheira”, Daniel Galera (Schwarcz)

Tradução de obra literária Francês-Português

1º lugar -”O Conde de Monte Cristo”, André Telles e Rodrigo Lacerda (Jorge Zahar Editor)
2º lugar – “Topografia Ideal para uma Agressão Caracterizada”, Flávia Nascimento (Editora Estação Liberdade)
3º lugar – “A Elegância do Ouriço”, Rosa Freire D’aguiar (Schwarcz)

17/09/2009 - 18:14h ele e ela

Ana Claudia Calomeni


se conhecem num bloco de pierrôs em que ela é a única colombina. Ela bebe cerveja. Ele, caipirinha. Se vêem, sorriem, se beijam.

Quando nos conhecemos ele disse que gostou da minha ousadia. “Ousadia? Mas esse cara nem me conhece”, pensei, mas aceitei a cantada. Na verdade, achei aquele elogio o máximo! Ficamos juntos até o bloco se desfazer no Largo dos Guimarães.

Ele não consegue parar de pensar nela. Gosta de imaginar qual é a forma do seu corpo sem fantasia. Passa horas olhando vitrines, tentando adivinhar em que tipo de roupa ela se encaixa melhor, o tamanho, o comprimento…

Um dia o vi olhando uma vitrine de roupas femininas. Admirava os manequins como se visse mulheres no lugar dos bonecos. Parei na sua frente, ele me olhou como quem não acreditasse, sorriu leve, comentou algo sobre “…a ressaca daquele dia”, falou mais algumas coisas que eu não consegui decifrar, muito menos tentei entender. Meu pensamento estava preso na imagem dele refletida na vitrine. Escrevi num papel meu telefone. “Não…”, ele disse, e eu recuei, “…esse não é o seu tipo de roupa”, continuou, esticando o braço, e eu voltei à posição original, como se nada tivesse sido dito. Ele dobrou o papel sem reparar que o meu nome não estava lá. Me beijou no canto da boca.

Ele telefona para ela, sentindo um aperto desconjuntado no peito. Não haviam dito seus nomes, era como se se conhecessem há muito…

Acordei com a voz dele na secretária eletrônica cantando “colombina onde está você, eu vou dançar o iê ie iê. Me liga”. Eu corri pra atender, mas não deu tempo. Deixou um número. Nos encontramos no Largo. “Não consigo parar de pensar em você. Quero continuar o que ainda não começamos”, ele disse me olhando fundo. Eu sorri. Sempre gostei de paradoxos.

“Te amo”, ela diz, mas ele não acredita, mesmo sabendo que ela não mente. Ela faz declarações de amor com a mesma tranqüilidade que acende um cigarro depois do café ou come um prato de filé com fritas. Aos cinqüenta anos um homem já tem opinião formada sobre o que é o amor e ele sabe que uma pessoa capaz de dizer te amo de forma tão natural apenas pensa sentir o que diz. “Você acha que me ama”, ele responde. Ela rodopia o corpo leve, inescrupuloso, e sai, batendo a porta do apartamento. Na esquina da rua se vira e acena para ele, que recua um passo da janela, se protegendo atrás das cortinas. Ela espera alguns segundos, ele reaparece e acena de volta com um gesto duro e frio como um espasmo.

Ela levanta de leve os ombros, dá meia-volta e dobra a esquina.

Ele se senta na poltrona perto da janela, acende um cigarro e olha a fumaça.

Ele achava que me conhecia. Dizia que eu pensava que o amava. Acreditava me conhecer mais do que eu mesma. Sabe como é, coisa de homem que acha que já viveu tudo. Na época ele preparava uma tese de mestrado sobre o amor. Algo sobre manifestações amorosas à luz da sociedade pós-moderna. Acho que ele ia ter um bocado de trabalho. Na primeira vez que transamos, ele jurou que me amaria pra sempre se eu continuasse fazendo sexo oral nele daquele jeito. Ali eu percebi que ele ia ter que pesquisar muito pra desenvolver uma tese convincente. Eu não acho que um homem que jura amor eterno a uma mulher só pelo jeito que ela chupa ele entenda realmente do assunto. Talvez ele só entenda mesmo de sexo oral. O que, cá pra nós, não deixa de ser uma vantagem.

O cheiro dela. É um cheiro que ele não sabe explicar, um cheiro impossível, que ele só sente quando não sente direito, só percebe quando não presta atenção, misturado com cheiro de rosa, incenso, creme hidratante e chiclete de canela, que ela gruda nas costas da mão quando toma suco de beterraba com laranja. “Pra saúde”, ela diz, brindando o copo num outro imaginário, e bebe o conteúdo quase de um gole só, de olhos fechados para não sentir o gosto. Abre um sorriso satisfeito, desfaz a careta refletida no vidro do copo, leva a mão à boca e resgata o chiclete ainda úmido.

Um dia peguei na mesinha de cabeceira da cama dele uma matéria de jornal: “Machos e fêmeas: o poder do cheiro nas relações amorosas”. Ali explicava que homens mais velhos se interessam por mulheres mais novas por causa do cheiro delas. É que essas mulheres, como as fêmeas de qualquer espécie, exalam um cheiro mais forte, e isso compensa a perda progressiva do olfato dos homens mais velhos, o que também acontece aos machos de qualquer espécie. Achei aquilo tudo muito primata pro meu gosto, mas entendi porque ele ultimamente andava cheirando as minhas calcinhas.

Os dois primeiros anos deles juntos são ótimos. Ele gosta da juventude dela, do seu jeito apressado de encarar as coisas. Olha para ela e se lembra dele.

Sabe quando uma pessoa te olha tão através de você que alcança aquilo que está lá atrás e nem você enxerga mais? Pois é, não foram poucas as vezes em que ele me olhou assim. Uma vez eu virei pra trás e vi que não tinha ninguém. Achei divertido, mas foi aí que comecei a entender sem ainda saber: eu já estava só.

“Sinto uma certa pressa”, ela diz. “De quê?”, ele quer saber, mas ela não sabe responder. Ele gosta de palavras, explicações, e algumas ela não sabe dar.

Eu gostava da maturidade dele. Daquele jeito pouco apressado de olhar o mundo. Os cabelos grisalhos, os olhos por trás dos óculos, a calma, principalmente a calma. Uma calma típica dos que sabem e não têm medo disso, dos que sabem que nem sempre foi assim. Era aquela calma dele que eu procurava, mas eu tinha pressa, muita pressa de encontrá-la. E foi justamente aquela calma que um dia começou a ocupar espaços desconhecidos em mim e me revelou uma solidão imensa, só minha: a solidão de mim. Tive medo, muito medo, do silêncio. Era como se de repente não houvesse mais nada além das paredes daquele apartamento.

Ele a abraça. Eles transam. Ela vai embora, levando a imagem dele refletida na vitrine.

Enchi a casa de espelhos, na esperança de que muitos de nós ocupassem espaços nos quais não conseguíamos mais circular. Eu já não conhecia mais os caminhos, não era capaz de me distinguir daqueles reflexos, não sabia mais que direção tomar. Minha vida virou um labirinto povoado de fantasmas de nós dois. Quando os aços dos espelhos passaram a ser minha única realidade, fui embora.

Hoje é segunda-feira de carnaval. Pierrôs, colombinas, melindrosas, pandeiros e cuícas se misturam no Largo dos Guimarães e eu aqui, relatando um fato a fria distância, como se a história nunca tivesse sido minha. Faz tempo que ela foi embora e ainda sinto uma saudade alucinada de nós. Um fantasma vira aquela mesma esquina ali embaixo há meses e quanto mais me escondo atrás das cortinas, quanto mais cigarros acendo tentando moldar com a fumaça uma outra imagem que não a dela, mais me aflijo neste apartamento incompleto. O apartamento está em pedaços. Os espelhos aumentam um vazio que parece não ter fim, perpetuam este espaço no qual me perco e eu aqui, sentado nesta poltrona, desejando vê-la surgir de dentro deles e dizer que tudo não passou de um inocente pavor.

Outro dia, era uma segunda-feira de carnaval, cuícas, pierrôs, pandeiros, colombinas, melindrosas, se misturavam no Largo dos Guimarães. Senti saudades. Às vezes tenho vontade de voltar e explicar o pavor que senti.

 

 

 

Ana Claudia Calomeni (1964) é carioca formada em jornalismo pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Estreou na literatura no final do ano de 2000 com a publicação de um conto e dois mini contos no livro “TOTAL”, antologia de contos, crônicas e poesias organizada pelo poeta Cairo Trindade. No mesmo ano recebeu menção honrosa no 11º Concurso de Contos Paulo Leminski com “Por um fio de sangue”, publicado na antologia. Fonte Releituras


E-mail:
anacalomeni@gmail.com

12/09/2009 - 18:47h Conto

Lindsey Rocha

Boto auréolas nos bolsos para caso de emergência. Carimbo as escadas com coturnos gastos de tanto parar. Chego à mesa do bar. Alguém fala entre aspas enormes que atrapalham o caminho da mão ao cinzeiro. A cinza não batida. Gota de química ao chão. A cor da cerveja. Vestígio de sol. A lembrança da manhã tão dourada com centeio e granola e agora a cerveja. A nuvem da cerveja. A frase embolada rouca da cerveja. E a tontura. Ao longe, a menina na porta do banheiro. O desenho da menina. O desenho da menina-palito na porta do banheiro. A bexiga cheia. As auréolas nos bolsos. Proteção é fazer cara de tudo sob controle. Ir até lá. Carimbar o espaço com olhos gastos de tanto duplo. Madrugada. A bexiga. A hora preta sem poente sem irmão. Baixar as calças em desequilíbrio. Filosofia imunda na parede. Dedos imensos na garganta. O medo. A pasta de beijo, cevada e batata frita. Água na nuca. Fadiga de sangue na garganta. Trago o ar. Mãos tremidas na maçaneta. Ao longe, alguém fala entre aspas minúsculas que enfeitam a xícara de café. A cor do café. Vestígio de manhã. A paisagem de tanta lembrança erguida no espelho do banheiro. As palavras salvas moles do café. E a dor. Um trago lúcido de regresso.

Lindsey Rocha é autora do livro Nervuras do silêncio (Editora 7Letras); professora de Língua Portuguesa; artista plástica e estudante de Artes Cênicas. Fonte Escritoras suicidas

11/09/2009 - 18:00h Não havia noivos no meu quintal

Rita Santana

Em algumas madrugadas, acordava no seio da noite, e vagava insone pela casa. Abria a porta do fundo tateando os muros, arrastando o nariz para os cheiros arraigados no concreto — o muro de concreto que sempre me separou das gentes lá fora. Cega, surda, sandia e outra, oculta entre o tempo e a verdade. A pele lambia os cheiros e eu respirava a noite. O cheiro verde da erva doce invadindo os meus sentidos e desatando minhas armas, me tornando mais acariciável, menos pronta para o ataque, a defesa. O alumã amargo mascado, mascado entre pensamentos, entre palavras vindas da África, enquanto o corpo já se entregava aos ritmos que atravessavam o oceano, cruzavam corpos e almas ligados àquela mulher da noite, dada aos impulsos do sono, do transe solitário cercado de presenças. Da hortelã, cujo cheiro sempre voa, adquiria na alma a leveza para o encontro com a suave paz, entoada pela lira de Safo nua abraçando com o corpo, braços e pernas, o tronco jovem da aroeira, carregada de Pãs com flautas, enquanto ninfas apareciam e desapareciam para doces carícias na mulher que, já deitada, entregava-se aos deuses e às deusas, sem protestos. Os cheiros amarelos das romãs que apodreciam diante da minha sede de justiça, da minha garganta seca de homem, pois enquanto engolia os caroços da fruta, o corpo parecia ofertar-se ao parto, à amamentação, à concepção de um filho. E ela, Ayán, ela assistia ao cheiro da romã tomando os seus ovários, seu útero revigorado, rejuvenescido para o momento. Mas era levada pelo cheiro vermelho das pitangas maduras, o cheiro das folhas da pitangueira, o cheiro da invasão das pimentas entre os meus dedos no ardor das delícias, das lambidas largas pela pele longa da pimenta binga-de-macaco, a pele redonda das pimentas de cheiro, pelo encantamento vermelho das malaguetas. Em busca, não de um homem, mas de uma realização espiritual e física, de uma experiência mágica, que transcendesse o espaço e tornasse as horas voluptuosas, sagradas e eternas. Enfim, de um homem à espreita de mim e dos meus mistérios, meus silêncios, capaz de ouvir a minha solidão, observar a textura do meu silêncio, ouvir os atabaques que me regem a vida. Um homem que me quisesse nuinha como eu estava, que me quisesse auscultar a alma, e, agora sim, devastar o meu corpo virgem de quem nunca esteve com outros dedos, senão os meus próprios, a me mexerem, em rebuliço, as carnes. A minha carne. Os meus ossos envelheciam sem o embate com outro corpo. Mas agora era a festa e a reconciliação.

Eu, Ayán, libidinosamente transitava pela terra insone, pelos pântanos da fome da carne velha, pelas bromélias trazidas pelo vento para enfeitar a frieza dos meus muros de cimento. A chuva me freqüentava nessas madrugadas e me lambia o corpo inteiro, lambuzado na terra preta do quintal, açoitada pela ventania que dialogava com as vozes que saíam da minha boca sem que eu fizesse gesto para. E o preto do meu corpo de mulher negra, coberto pelo barro dos despenhadeiros da infância, pelos labirintos que desafiam a razão de uma mulher ajuizada, respeitada. Os labirintos, e os ditirambos, e os batuques, e os evoés que saíam da minha boca, enquanto o meu corpo deixava-se ir na dança que nascia nos pés e no coração. Eu dançava num transe doido, sorridente e de olhos semi-abertos, eu dançava. E Dioniso e Exu e Baco me acompanhavam na dança orgíaca, movendo os tempos. As batidas cardíacas, eram tambores ecoando pelo terreiro, num rum, rumpi e lê, dentro de mim e fora de mim, movendo o mundo, o meu país e a minha rua, enquanto eu dançava e batia nas minhas ancas, no meu couro para dele extrair a música, o rito, o canto.

Ao longe, as luzes da cidade me diziam que eu devia deixar a minha terra, o meu quintal e cruzar encruzilhadas, seguir novos rumos, ofertar-me aos deuses. Oráculos, templos e Irokos me acenavam feéricas sensações na alma que não passavam. Eram sonhos, certamente. Mas em algumas manhãs, acordei metida na terra segurando romãs, sementes ainda na boca. E as romãs traziam sensações de beijos, beijos em bocas de anjos, demônios, homens, entidades que desafiavam a minha sensatez.

Envelhecendo sem machos no meu corpo, sem despertar nos homens um desejo sequer. Despertava com o cheiro que saía de mim nas noites em que os óvulos todos resolviam deslocar as minhas trompas, anunciando as trombetas do inferno de que o desejo ainda havia e me habitava, e me queria viva em outras carnes. Ainda mulher, apesar do tempo, apesar de Ayán sem filhos, apesar da velhice que me tomava. Apesar de, apesar do, apesar das.

— Noivos não havia no meu quintal. Nem dentro das minhas carnes, nem no limo dos meus ossos.

Às vezes buscava-os escondidos entre os lençóis, dentro das minhas pernas, acendia lanternas à noite tentando localizar algum sinal de noivo entre as peças arrumadas no velho baú, herança única de tia Caquinha, a primeira noiva abandonada da família, de quem acabei herdando, não apenas as colchas brancas, as toalhas de mesa, as camisolas de renda inglesa, as colchas de retalhos tramadas em crochê, e os calçolões furados para o casório. Mas herdara também as velhas receitas deixadas em um manuscrito, para o ofício de prender maridos, através de bebidas retiradas de águas advindas das partes baixas, da sangria do mês, da orelha cortada para uma sopa infalível na arte de reacender maridos apagados; insetos em pó, objetos pessoais, delírios de simpatias de banhos com ervas sagradas e incensos seguros para tornar-se sedutora e irresistível. Tudo em vão! Ela precisava da parte que se perdeu da caderneta da velha tia abandonada: uma receita para pegar marido, pegar rapaz, pegar, antes de mais nada.

— Ia esquecendo de contar dos 33 alfinetes para espetar nos olhos do um sapo para evitar traição.

Mas não encontrava o que me conduzisse ao outro, ao encontro. Estava tudo bem, tudo certo. Eu era uma moça velha, virgem, que não casara, não tivera filhos e estava secando as carnes, secando os ossos, secando a esperança que nunca existiu dentro de mim.

O meu corpo já apresentava sinais da velhice, pentelhos brancos anunciavam a rendição completa ao tempo, e a queda dos seios era definitiva para o meu sério sorriso de aceitação. O rosto, diante do espelho, começava a ser um desconhecido com tantos vincos que apareceram de ontem pra hoje, de um dia para o outro, no meu rosto. Erupções tomavam a minha pele, expurgando o meu aprisionamento dentro do meu próprio corpo, encarcerada era eu, dentro do meu desejo. Dermatologista! Que nada! Um homem, apenas um homem. Não precisaria, nas atuais circunstâncias, nem ser muito bonito, nem muito delicado, nem muito interessante, nem muito sedutor, nem muito jovem, mas que fosse, pelo menos um pouquinho de tudo isso, eu não abriria mão! Nem que eu tivesse que morrer virgem!

Abriu a janela da sala, olhou a rua e olhando para o chumbo nos céus, pediu aos orixás e às deusas e deuses todos, coragem para sair de casa, para enfrentar o mundo, o turbilhão das buzinas, o assédio público dos homens às mulheres, inclusive a ela — mas aquilo não era desejo, nem sedução, era desacato, desrespeito, agressão — longe das manifestações eróticas com as quais sempre sonhara. Lembrou do sonho que tivera na noite passada, em muitas madrugadas, e respirou, respirou e sentiu a sensação que ficara na pele, nos ossos, agora mais duros, mais resistentes. A dança deixara uma dor de vida nos músculos, a carne estava mais viva e na alma, os cânticos ecoavam ainda fortemente. A sensação duraria meses.

— Protejam a mulher que eu pari para ser ofertada ao mundo das escritoras suicidas, protejam o seu caminho, a sua sina, as suas carnes e os seus ossos sagrados pelo desejo, pela força da palavra, pelo grito da existência. Permitam-me conseguir narrar a sua história que se faz, enquanto como chocolate para conseguir sobreviver aos meus próprios impropérios, aos meus sofreres inventados e aos reais desatinos de mulher que alimento em mim. Proteja a minha criação e as mulheres que se dão à feitura de vidas que se vão de dentro delas para sempre.

O cabelo penteado com um lenço colorido, e solto atrás, bem cheio. Leite de rosas nas axilas e um perfume da avon que ela adorava: aquele do vidro todo quadriculado e transparente. Passou um pouco de pó compacto no rosto e concentrou-se como uma atriz faz antes de entrar em cena. Deixou-se consigo mesma, abstraindo até mesmo as esperanças, abstraindo as dores. Deixou-se ficar quieta diante da penteadeira de madeira escura e espelho com um grau que deformava a imagem, e era assim que ela sempre se via, deformada pelo espelho. O grau intensificava e deformava a sua impressão de si mesma. A rua estava insuportavelmente igual, eram as mesmas pessoas. O velho Chico, fazendo a vigilância dos escândalos conjugais, dona Alzira benzendo contra mau-olhado, a filharada das mulheres, os botecos já com os seus primeiros bêbados do dia, e a Esquina.

Ao dobrar a Esquina, não dobrou. Ficou ali mesmo. Uma criatura do sexo oposto, um homem, estava já e somente diante dela, transitando em torno do seu corpo, levitando em torno da sua nuca, alma, acalmando as suas ilhargas. Era um desmaio. Era uma absorção do Tempo, uma pausa para os ponteiros, um êxtase de olhares. Ela sempre desmaiaria assim ao vê-lo e, isso, se ficasse só nisso, e assim poderia ser, afinal, nem sempre temos a sorte de morar, viver, casar com o único homem no mundo que nos faz desmaiar, a ponto de as pernas cederem, a ponto de o ar faltar e por um minuto você viver uma eternidade e perder os sentidos com muito medo de que os transeuntes, os circunstantes, percebam a sua leseira, a sua moleira das carnes e do juízo, o seu êxtase urbano, o seu paraíso repentino em meio à multidão. Sorte? Sortilégio? Feitiço? Poderia ser que outros surgissem e a tomassem como mulher e, paulatinamente, cada um, com o passar dos anos, retirasse os vestígios de seu hímen. Mas com aquele homem, ela teria sempre, ao simples toque das suas mãos, ao simples cruzar de olhares, aquela precipitação dos sentidos, a vertigem das horas, o amolecer repentino das carnes e o desaparecimento completo dos ossos. Talvez fosse um Exu/Hermes marcando com ela um encontro na encruzilhada. Isso é coisa de outros tempos, coisas que não podem ser ditas.

Rita Santana (Ilhéus-BA, 22/08/1969). Atriz, escritora, professora licenciada em Letras pela UESC. Ganhou o Braskem de Literatura para autores inéditos em 2004, com o livro de contos Tramela, pela Fundação Casa de Jorge Amado. Em 2005, participou da coletânea de prosa e poesia Mão Cheia com quatro escritoras baianas. Em 2006, publicou Tratado das Veias, livro de poesia do selo As Letras da Bahia. Vive em Lauro de Freitas, Bahia. Fonte Escritoras Suicidas

21/08/2009 - 18:42h Abricó

Rosa Pena

Chegará com uma hora de atraso de propósito ao encontro com Luiz Augusto Mendes Campos Carneiro de Sá. Nunca tinha saído com um cara com o sobrenome “de” e enorme. Será que o nome é proporcional, que nem número de sapato? Quer criar suspense e não quer que ele imagine que ela é do tipo que “dá” mole, do verbo transar e não o “de” do Sá. Resolve ir de forma classuda, vestido longuette sem decote, pouca maquiagem, cabelos presos num coque tradicional. Só vai falar, aliás, pronunciar como a nobreza faz, algo que cause impacto. Jules Renard, autor francês do século XIX, leu algo sobre este cara na revista de TV. Citará o Jules, a revistinha jamais. Célula-tronco também é sintoma de cultura. O cara é um industrial filósofo, um intelectual rico de esquerda, que adora pobre, mas não deve gostar de quindins, nem de guaraná. Vai pedir carpaccio com vinho. Instrumento? Violino. Tomates? Só secos, pois pega bem. Queijo? Ricota. Fruta? Figo. Profissão? Projetista de unhas, os sábios ricos vivem de projetos, manicure é de quem faz mobral. Sua casa terá varanda, quintal é coisa anticultural. Flor preferida será orquídea, rara e cara. Não falará gírias, nem palavrão. Finalmente, chegou seu momento de ascensão. Seu nome agora é Vânia Maria, Vaninha lembra cama. Ah! Bateu saudades do Ronaldo, bronco pra caramba, tronco sem célula, mas faz uma picanha como ninguém na churrasqueira e na cama também. Ela pode saborear tudo que adora, meter o dedo no rocambole, o bole-bole, o dedo, e até o ronca depois do bole! Ele nunca fica mole.

Só não abrirá mão do sapato vermelho cintilante com tirinhas. Naldinho goza só de olhar, e se o Luiz Carneiro de Sá Augusto Campo Mendes não gostar – será que o nome dele é esse mesmo?! – é boiola.

Longuette nunca lhe caiu bem, lycra que é o diabo. Lembrou novamente das compras do carrinho dele no supermercado no dia em que o conheceu. Licor de abricó é coisa de viado. Abricó!!! Vai que troca a vogal final?

Pegou o telefone e ligou pro Naldão.

- Traga a cerva e o violão. Tô só de combinação e com aquele sapato.

- E o conde D’Eu?

- Era gay, preferiu dar pro Jules Renard.

Rosa Pena (Rio de Janeiro-RJ). Professora e administradora de empresas. Especialista em recursos audiovisuais e artes cênicas. Trabalhou na Divisão de Multimeios da Educação na Secretaria de Educação e Cultura do Rio de Janeiro, com projetos ligados a cinema, teatro, música e literatura. Compulsiva para ler e escrever, considera a Internet a grande biblioteca contemporânea. Tem livros virtuais publicados e dois livros editados no papel: Com licença da palavra, antologia do grupo Pax Poesis Encantada (Editora Scortecci, 2003) e PreTextos, seu livro solo, onde reúne cem crônicas (Editora All Print, 2004). Mais em seu site

11/08/2009 - 20:26h Liberais, libertárias, libertinas

MULHERES SOB DESCONTROLE Liberais, libertárias, libertinas – Blog de Samantha Abreu

foto de Ellen von Unwerth

Ah, não. Ninguém mais vai ficar falando por aí que eu sou careta. Sou mulher que honra as lutas e conquistas das minhas companheiras do passado. Pois de pirraça, saímos, eu e a Ivonete, pra aprontar mesmo. A gente tava a fim de escancarar nossa fama de libertinas e libertárias. Quando chegamos num desses bares de troca-troca, ficamos logo empatadas na porta. A Ivonete me olha com aquela cara de tela expressionista e começa a esclarecer para os anais do nosso bacanal todo os seus impasses, condições e regras:
- Ô Silvia, eu não quero que ninguém meta a língua na minha orelha, porque eu morro de nojo.
- Ah, que chatice isso. Aqui, ninguém é de ninguém, Ivonete.
- Então tô fora. Na minha orelha, não.
- Tá, eu te ajudo escapar disso se você prometer que não vai me deixar sobrar. Cara, não tem nada pior do que sobrar em orgia. Tenho pavor de me imaginar lá, de canto, enquanto a cambada toda se diverte.
- Só que eu não vou te garantir a festa, não, minha filha. Nesse corpo aí eu não encosto. Quero orgia com homem.
- Pra quê a gente veio aqui, Ivonete, se você vai ficar cheia das condições? Pô, transar com homem não te faz liberal, libertina e libertária, né? Se liga!
- Mas eu não gosto de mulher, cacete!
- Mas mulheres liberais gostam de qualquer tipo de sexo, Ivonete. Pensa! A gente tá entrando aí atrás de luxúria e prazer sem compromisso. Foi para isso que nossas antepassadas queimaram os próprios sutiãs e sofreram preconceitos inimagináveis, minha filha! Você pode imaginar isso? PODE?
- É. Você tem razão. Se a gente já sofre tanto por ter fama de conservadoras. Isso é muita discriminação, né, Silvia?
- É, mas conservadora, aqui, é você, Ivonete!
- Eu não, sua donzela, quem nunca deu a bunda aqui? Eu ou você?
- Ah, bem a sua cara mesmo, usar esses argumentos morais. Eu vou entrar nessa droga de lugar e dar até o buraco do nariz, Ivonete. Você vem ou não vem?
- Silvia, mas, sabe, tô grilada com uma coisa. E se acontece uma emergência lá dentro? Você imagina uma ambulância te buscando aqui? O que você vai dizer na sua casa, hein?
- Ai, nem me fale uma coisa dessas! Já pensou? Se eu tô de bananeira e quebro a cabeça?
- Ssshhhhhiiiii.
- Pô, mas ser careta não dá mais, né, Ivonete?
- É… tá ficando feio pra gente, todo mundo comentando.
- …
- …
- Já Sei! Acompanha aqui.
- Ahm!
- Todo mundo comenta nossa caretice porque todo mundo fala que somos caretas, não é?!
- Éééémmm.
- E se falarem que somos duas porras-locas, muito doidas e depravadas?
- Mas…
- A gente mente, Ivonete!
- U-hu! E mentir é coisa muito doida, Silvia! Muuuuito doida! Não é qualquer um que consegue isso, não! Tem que ter muita coragem, muito pino solto, tá entendendo?!
- Yeah! Então tá combinado. A gente diz que nossa suruba foi antológica!
- Vamos espalhar! Nossa vida vai mudar, Silvia!
- Vamos sair da convenção! Vamos pra revolução, Ivonete!

Samantha Abreu

11/08/2009 - 18:42h A rotina do tempo

 márcia barbieri

A vida é uma máquina de triturar rancores e angústias, as alegrias são retiradas a fórceps. Você se diz cansado da repetição dos ponteiros do relógio, a verdade é que os meus dias também são longos e eu me arrasto. Carrego uma mochila de pedras nas costas, porque assim evito a tentação de apalpar a tristeza com as mãos.

Mas, diferentemente da maioria das pessoas, os dias sempre siameses não me incomodam. Nem me importa a previsibilidade dos matemáticos, porque apesar de toda lógica, eles não podem evitar a perfeição da medida áurea que esgana o tempo. Também diferente de alguns, jamais deixei de ler um livro porque conhecia o seu final, ninguém consegue retratar as minúcias e são exatamente elas que me atraem.

Quando me olhas e achas que tenho orgulho, não se engane. Minha cabeça erguida não é pretensão, é medo, é refúgio, é fuga dos vôos rasantes dos dragões que se desprendem de mim, dos trilhos e das máquinas que atravessam o meu corpo.

O amor são dedos vasculhando na ferida e dói. Às vezes, minha dor são pássaros negros, de olhos furados e canto triste. Eles são insanos e cavalgam sem piedade no meu corpo.

Sossegue querido, cada centímetro da minha pele conhece o seu desespero. Relaxe, hoje é terça, venha e povoe mundos dentro de mim, enquanto as crianças colhem pipas e ilusões na ventania.

Márcia Barbieri. Formada em Letras (Português/Francês) pela UNESP, participa do Curso de Mestrado em Literaturas Africanas na USP. É professora de Língua Portuguesa na Rede Estadual de Ensino. Ministra aulas particulares de Língua Francesa e faz revisão de textos. Edita o blogue Minha Vida Não Vale Um Conto. Fonte Escritoras Suicidas. 

10/08/2009 - 19:59h Erínias

Adriana Zapparoli

escrevendo pela pulsão da carne. apasionatta: o ato resulta da impotência duma mulher desgrenhada. seu pescoço para o almoço. aterrorizado pelas erínias… um trágico delírio. deuses-homens todos soterrados pela vingança. ela o persegue na fúria de seus cabelos ofídicos em caracóis de medusa e megera. gritando aos seus ouvidos… gritos vindos das profundezas ctônicas. empunhando os chicotes. suas mãos são tochas acesas.

 Adriana Zapparoli participou de antologias poéticas no período de 2002 a 2005. Colabora com o JP de Soares Feitosa. Escreveu o e-book de poesia: Erótica. Mais em seu blogue Zênite e no Jornal de Poesia. Fonte Escritoras Suicidas

07/08/2009 - 19:03h Dois

Daniela Dias

Dossiê

Eu sou uma mocinha. Mo-ci-nha. Adoro perfumes, cores, bebês e flores.

Mas me interessa igualmente o que me é diferente. O lado obscuro de tudo. Eu sou uma mocinha. Menina. Mas me atrai conhecer o avesso. Entendê-lo.

Por isso coleciono almas. Olho nos olhos, observo o entorno, busco desgasto derreto de cansaço. Vou até o fim.

Eu sou menina. Eu sou menino. Eu sou um espectro. Uma abelha. Uma agulha. Uma fagulha.

Uma história de dois lados.

No corpo de um

Maria olhou para Reinaldo. Ele estava morto. E ela estava pura.

Reinaldo olhou para Maria. Ela estava morta e ele estava puro.

Riobaldo olhou a ambos. E ele estava vivo.

Daniela Dias (São Paulo-SP, 1982). Jornalista, mantém o blogue Quimerópolis, onde coloca seus avessos e reversos. Fonte Escritoras Suicidas

31/07/2009 - 18:25h Diz

Blog Caminhar

Mini conto

RenéMagritte
No espelho

Olha o rosto no espelho, diferente, mais claro.
Levanta devagar o vestido observando o corpo.
A calcinha apertada marca a gordura, encolhe a barriga. Alonga-se, abaixa o tecido de algodão florido, observa a púbis, alisa os poucos pelos. O rosto se crispa. Levanta a calcinha nas ancas buscando um angulo melhor. A cabeça cai para o lado, volta para o centro, retesa-se.
É com os olhos dele que se vê agora.
Ainda sente o elástico a apertando, mas se reconhece naquele outro olhar e sorri.

Micro conto

Sentiu a mão subindo pelas pernas, mãos suadas, ásperas. Fechou os olhos.
Perdeu a parada. Quando ele levantou, ofegante, viu a boca desdentada sorrindo sarcástica.
Permaneceu ali até o cobrador dizer:
- Ponto final, dona.

http://1.bp.blogspot.com/_RCojEL9WAfQ/SLoQ1cr7OcI/AAAAAAAABk0/ze-YvsUVv4g/S220/sorrindo%2Bvertical-4%2Bmenor.JPGDiz

25/07/2009 - 15:35h Olhos Secos

LIVROS

Crítica/”Olhos Secos”

Memória move livro de Ajzenberg Ao falar de sua geração, livro do escritor, que foi ombudsman da Folha, auxilia na construção de identidade brasileira

MOACYR SCLIAR
COLUNISTA DA FOLHA

Escritor e jornalista, o paulista Bernardo Ajzenberg tem feito uma bela carreira em ambas as áreas, ficção e jornalismo. Trabalhou na revista “Veja” e nos jornais “Última Hora”, “Gazeta Mercantil” e Folha, onde foi secretário de Redação e ombudsman. Paralelamente, publicou contos em revistas e coletâneas, os romances “Carreiras Cortadas” (1989), “Efeito Suspensório” (1993), “Goldstein & Camargo” (1994), “Variações Goldman” (1998), “A Gaiola de Faraday” (2002, prêmio de ficção da Academia Brasileira de Letras) e o livro de contos “Homens com Mulheres” (2005, finalista do Prêmio Jabuti) -os três últimos saíram pela Rocco. Ao completar 50 anos, Bernardo Ajzenberg dá-nos o seu sexto romance, “Olhos Secos”. Uma obra que se lê, antes de mais nada, com interesse. Ajzenberg sabe usar a experiência jornalística na ficção: o resultado é uma prosa fluente, objetiva. São duas narrativas paralelas, uma na primeira pessoa, outra na terceira. A primeira é um diário de viagem: acompanhamos o jovem Leon Zaguer, primeiro em Israel, onde, como muitos jovens de sua geração, ele foi fazer um estágio num kibutz, colônia socialista, e, depois, no clássico périplo mochila-às-costas pela Europa. Na segunda narrativa, Zaguer, adulto, casado e pai de uma filha, trabalhando num cartório, está às voltas com um sério problema: alguém quer que ele oficialize, mediante documentação, uma falcatrua.

Figura do pai
Ao longo da história, Zaguer evoca seu passado, sobretudo a figura do pai, Adolpho Zaguer, o protótipo do judeu comunista, homem autoritário que acusa o filho de fraqueza (o discurso que faz para Leon no hospital parece a “Carta ao Pai”, de Kafka, ao contrário) e o amigo Moti, que também funciona como uma figura paterna e que classifica Leon como “quarentão trabalhador, honesto e grande cagão”. A narrativa é pontilhada de diálogos com várias pessoas, diálogos esses que contribuem para situar o personagem numa realidade que, até certo ponto, é paradigmática quanto ao judaísmo brasileiro e quanto à geração que agora chega à maturidade. Mas a questão da memória desempenha aí um papel fundamental: “A memória nunca nos abandona, eis o problema”, suspira o personagem. “Olhos Secos” é o romance da memória. Pode ser também classificado como um romance de trajetória. O título define o problema do personagem: olhos secos são olhos que não se umedecem pelas lágrimas da emoção. O Leon adulto não é capaz de assumir suas emoções e não é capaz de virar a mesa, pelo menos até o -até certo ponto inesperado- final. Nesse sentido, as duas linhas narrativas evidenciam as contradições do personagem: o jovem aventureiro, que fez de uma viagem pelo exterior um momento de descobertas, é substituído por um adulto convencional, paralisado por suas indecisões. O livro aparece num momento importante. O Brasil está em busca de sua identidade, em busca de respostas para perguntas do tipo: quem somos nós? Ao narrar uma história que certamente fala muito de sua geração e de seu background cultural, Ajzenberg dá uma bela contribuição para esse debate e confirma a sua posição de destaque entre os novos ficcionistas brasileiros.


OLHOS SECOS

Autor: Bernardo Ajzenberg
Editora: Rocco
Quanto: R$ 28 (184 págs.)
Avaliação: bom

03/07/2009 - 19:31h A luz é como a água

Por Gabriel García Márquez

“(…) mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das
camas e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos
tinham-se perdido na escuridão.”

 

No Natal os meninos tornaram a pedir um barco a remos.

— De acordo — disse o pai —, vamos comprá-lo quando voltarmos a Cartagena.

Totó, de nove anos, e Joel, de sete, estavam mais decididos do que seus pais achavam.

— Não — disseram em coro. — Precisamos dele agora e aqui.

— Para começar — disse a mãe —, aqui não há outras águas navegáveis além da que sai do chuveiro.

Tanto ela como o marido tinham razão. Na casa de Cartagena de Índias havia um pátio com um atracadouro sobre a baía e um refúgio para dois iates grandes. Em Madri, porém, viviam apertados no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Mas no final nem ele nem ela puderam dizer não, porque haviam prometido aos dois um barco a remos com sextante e bússola se ganhassem os louros do terceiro ano primário, e tinham ganhado. Assim sendo, o pai comprou tudo sem dizer nada à esposa, que era a mais renitente em pagar dívidas de jogo. Era um belo barco de alumínio com um fio dourado na linha de flutuação,

— O barco está na garagem — revelou o pai na hora do almoço.— O problema é que não tem jeito de trazê-lo pelo elevador ou pela escada, e na garagem não tem mais lugar.

No entanto, na tarde do sábado seguinte, os meninos convidaram seus colegas para carregar o barco pelas escadas, e conseguiram levá-lo até o quarto de empregada.

— Parabéns — disse o pai. — E agora?

— Agora, nada – disseram os meninos. — A única coisa que a gente queria era ter o barco no quarto, e pronto.

Na noite de quarta-feira, como em todas as quartas-feiras, os pais foram ao cinema. Os meninos, donos e senhores da casa, fecharam portas e janelas, e quebraram a lâmpada acesa de um lustre da sala. Um jorro de luz dourada e fresca feito água começou a sair da lâmpada quebrada, e deixaram correr até que o nível chegou a quatro palmos. Então desligaram a corrente, tiraram o barco, e navegaram com prazer entre as ilhas da casa.

Esta aventura fabulosa foi o resultado de uma leviandade minha quando participava de um seminário sobre a poesia dos utensílios domésticos. Totó me perguntou como era que a luz acendia só com a gente apertando um botão, e não tive coragem para pensar no assunto duas vezes.

— A luz é como a água — respondi. — A gente abre a torneira e sai.

E assim continuaram navegando nas noites de quarta-feira, aprendendo a mexer com o sextante e a bússola, até que os pais voltavam do cinema e os encontravam dormindo como anjos em terra firme. Meses depois, ansiosos por ir mais longe, pediram um equipamento de pesca submarina. Com tudo: máscaras, pés-de-pato, tanques e carabinas de ar comprimido.

— Já é ruim ter no quarto de empregada um barco a remos que não serve para nada.
— disse o pai — Mas pior ainda é querer ter além disso equipamento de mergulho.

— E se ganharmos a gardênia de ouro do primeiro semestre? — perguntou Joel.

— Não – disse a mãe, assustada. — Chega. O pai reprovou sua intransigência.

— É que estes meninos não ganham nem um prego por cumprir seu dever — disse ela —, mas por um capricho são capazes de ganhar até a cadeira do professor.

No fim, os pais não disseram que sim ou que não. Mas Totó e Joel, que tinham sido os últimos nos dois anos anteriores, ganharam em julho as duas gardênias de ouro e o reconhecimento público do diretor. Naquela mesma tarde, sem que tivessem tornado a pedir, encontraram no quarto os equipamentos em seu invólucro original. De maneira que, na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam O Último Tango em Paris, encheram o apartamento até a altura de duas braças, mergulharam como tubarões mansos por baixo dos móveis e das camas, e resgataram do fundo da luz as coisas que durante anos tinham-se perdido na escuridão.


Na premiação final os irmãos foram aclamados como exemplo para a escola e ganharam diplomas de excelência. Desta vez não tiveram que pedir nada, porque os pais perguntaram o que queriam. E eles foram tão razoáveis que só quiseram uma festa em casa para os companheiros de classe.

O pai, a sós com a mulher, estava radiante. — É uma prova de maturidade — disse.

— Deus te ouça — respondeu a mãe.

Na quarta-feira seguinte, enquanto os pais viam A Batalha de Argel, as pessoas que passaram pela Castellana viram uma cascata de luz que caía de um velho edifício escondido entre as árvores. Saía pelas varandas, derramava-se em torrentes pela fachada, e formou um leito pela grande avenida numa correnteza dourada que iluminou a cidade até o Guadarrama.

Chamados com urgência, os bombeiros forçaram a porta do quinto andar, e encontraram a casa coberta de luz até o teto. O sofá e as poltronas forradas de pele de leopardo flutuavam na sala a diferentes alturas, entre as garrafas do bar e o piano de cauda com seu xale de Manilha que agitava-se com movimentos de asa a meia água como uma arraia de ouro. Os utensílios domésticos, na plenitude de sua poesia, voavam com suas próprias asas pelo céu da cozinha. Os instrumentos da banda de guerra, que os meninos usavam para dançar, flutuavam a esmo entre os peixes coloridos liberados do aquário da mãe, que eram os únicos que flutuavam vivos e felizes no vasto lago iluminado. No banheiro flutuavam as escovas de dentes de todos, os preservativos do pai, os potes de cremes e a dentadura de reserva da mãe, e o televisor da alcova principal flutuava de lado, ainda ligado no último episódio do filme da meia-noite proibido para menores.

No final do corredor, flutuando entre duas águas, Totó estava sentado na popa do bote, agarrado aos remos e com a máscara no rosto, buscando o farol do porto até o momento em que houve ar nos tanques de oxigênio, e Joel flutuava na proa buscando ainda a estrela polar com o sextante, e flutuavam pela casa inteira seus 37 companheiros de classe, eternizados no instante de fazer xixi no vaso de gerânios, de cantar o hino da escola com a letra mudada por versos de deboche contra o diretor, de beber às escondidas um copo de brandy da garrafa do pai. Pois haviam aberto tantas luzes ao mesmo tempo que a casa tinha transbordado, e o quarto ano elementar inteiro da escola de São João Hospitalário tinha se afogado no quinto andar do número 47 do Paseo de la Castellana. Em Madri de Espanha, uma cidade remota de verões ardentes e ventos gelados, sem mar nem rio, e cujos aborígines de terra firme nunca foram mestres na ciência de navegar na luz.


Dezembro de 1978.


Gabriel García Márquez
nasceu em 1928 na pequena cidade de Aracataca, na Colômbia. Cresceu ao lado de seu avô materno, um coronel da guerra civil no princípio do século. Estudou num colégio jesuíta e posteriormente iniciou o curso de Direito, logo abandonado em virtude de seu trabalho como jornalista. Em 1954 foi para Roma, como correspondente do jornal onde escrevia, e desde então tem vivido em cidades como Paris, New York, Barcelona e México, em um exílio mais ou menos compulsório. Apesar de seu talento como ficcionista e premiado escritor, continua exercendo a profissão de jornalista.

No dia 21 de outubro de 1982 foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura, quinze anos depois de ter escrito “Cem Anos de Solidão”, seu maior sucesso, traduzido em 35 idiomas e com venda calculada em mais de 30 milhões de exemplares.

Em nossos dias circula pela Internet um texto cuja autoria foi atribuída a García Márquez, um tipo de “carta de despedida”, pois estaria o autor prestes a falecer em virtude de um câncer linfático. Segundo a “Crônica do falso adeus” de Orlando Maretti, “Gabriel García Márquez, ou Gabo, para os amigos, … não apenas negou, pela imprensa, que estivesse em estado terminal como também espinafrou a pieguice do texto e seu autor, identificando-o como um subliterato latino-americano. Em recente entrevista ao jornal espanhol El País, o escritor colombiano lamenta a repercussão do texto.”

Orlando Maretti acrescenta: “…a primeira pista para duvidar da autoria é a insistência na citação vocativa de Deus. Pelo que se sabe, García Márquez é um escritor de esquerda, simpatizante do marxismo, amigo de Fidel Castro, militante de causas sociais. Enfim, um humanista engajado, mas nem de longe seu perfil lembra um religioso.”

BIBLIOGRAFIA:

· Folhas mortas
· Ninguém escreve ao coronel
· Cem anos de solidão
· Doze contos peregrinos
· O general em seu labirinto
· O amor nos tempos do cólera
· A aventura de Miguel Littin clandestino no Chile
· Cheiro de Goiaba: Conversas com Plinio Apuleyo Mendoza
· Como Contar um Conto
· Crônica de uma Morte Anunciada
· Do Amor e Outros Demônios
· O Enterro do Diabo: A Revoada
· Entre Amigos
· Os Funerais da Mamãe Grande
· A Má Hora (o Veneno da Madrugada)
· A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada
· Olhos de Cão Azul
· O Outono do Patriarca
· Relato de um Náufrago
· Textos do Caribe – Volume 1 e 2
· Oficina de Roteiro de Gabriel García Márquez: Me Alugo Para Sonhar
· Notícias de um seqüestro
. Viver para contá-las (memórias)


Texto extraído do livro “Doze contos peregrinos”, Editora Record – Rio de Janeiro, 1999, pág. 215, tradução de Eric Nepomuceno.

Ilustração: Orlando Pedroso

Orlando Pedroso, paulistano, nasceu em 14 de fevereiro de 1959.

Em 1978, publica pela primeira vez, já na época da abertura política, no jornal esquerdista “Em Tempo”. Morou na Europa por três anos e meio. De volta, em 85, passa a colaborar com o jornal Folha de São Paulo e com as melhores e piores publicações da cidade, entre elas, Playboy, Capricho, Carícia, Istoé, Exame, Claudia, Marie Claire, Elle, Quatro Rodas, Atrevida, Veja, Você s/a, além de ilustrações e capas para editoras como Moderna, Ática, Senac, Scippione, Nova Cultural, Ediouro e Salamandra.

Em sua empresa, a CO2 Gráficos, desenvolve projetos gráficos para empresas e peças de teatro. É co-autor do “Livro dos Segundos Socorros” dos Doutores da Alegria, além de ser responsável pela criação de suas peças de comunicação.

Em 97 expôs nos espaços Unibanco de Cinema de São Paulo e Rio os desenhos de “Como o Diabo Gosta” e em 2001, no espaço Ophicina, em São Paulo, “Olha o Passarinho!”.

Em 2002, organizou o livro “Dez na área, um na banheira e ninguém no gol”, lançado pela Via Lettera.

Prêmio HQMix de melhor ilustrador de 2001.

E-MAIL: orla@uol.com.br

30/06/2009 - 19:37h Traindo e retraindo

Márcia Carrano

Chamou-o para o botequim de sempre, onde ele bebia chope e ela coca-cola. E comiam juntos uma picanha na pedra, quase ao ponto.

Viviam juntos há dezoito anos. Muito amor, sexo e… a empresa. Há algum tempo, no meio deles , rachando a cama em duas, revirando os lençóis, empurrando cada corpo para o máximo de lateral possível: a EMPRESA, porra! Ele na esquerda; ela na direita. E nenhuma partida.

Ela passava a vida no MOTI BANCO. Reunião pra cá, festinha pra lá; livro daqui, cd dali , depois me empresta aquele outro? ; saidinha após o expediente com a turma do uisquinho happy try — e ela não bebia. Mariposa era uma mulher séria, muito. Ele, Pacífico Ouriço, é que deitava e rolava nos vícios: cigarro, bebida . Mulheres não: há dezoito anos só dormia com a Mariposa. Aliás, Pacífico tinha vícios coisíssima nenhuma. Mariposa é que era certinha demais. A mulher não fumava, não bebia, não cheirava… nem fedia, quase não falava, mas comia muito, muitíssimo e — pasmem! — tinha o corpo impecável. Nem um pouquinho de gordura entornando no lugar errado.

Ele sempre confiara nela. Uma mulher daquelas jamais o trairia. Às vezes tinha ciúme, é verdade. Mas se sentia culpado, maldoso até. Ela casara virgem, cara! Sempre dele, só dele. Desconfiar de quê?

Mas voltemos ao botequim. Ela, exatamente agora, está dizendo para Pacífico:

— Sabe, amorzinho, preciso que você saiba: estou saindo com o Gregório.

— Estão fazendo algum trabalhinho extra?

Parênteses: Gregório era colega de trabalho de Mariposa e amigo do casal. Sua mulher, Hermenilda, era pouco vista.

— Não , Pacífico. Tô dormindo com ele.

— Realmente devem ficar cansados, né amor ? A EMPRESA suga tanto ! Têm mesmo de dar uma descansada para agüentar trabalhar assim das oito da manhã às dez da noite. E quase todo dia!

Pudica (ah!), Mariposa não rasgava o verbo, como se diz vulgarmente. Continuou, discreta como sempre :

— Benzinho, tô dormindo e fazendo tudo o mais.

— Tudo o mais o quê, amor? — perguntou Ouriço.

— Tudo o que homem e mulher costumam fazer na cama — respondeu ela.

Silêncio total. Ele dá uma bicadinha no décimo primeiro chope da noite. Não está bêbado, apenas mais leve, levíssimo. Ultralaite, eu diria. E ela ali, firme na coquinha. E lúcida.E gostosa como sempre. E honesta como sempre. E firme, quase fria, como sempre.

E como sempre — epa! me distraí — come sempre — epa! outra vez me distraí. Escrevendo de novo . Ela comendo sempre — agora sim! acertei no alvo — a picanha com parcimônia, a ponto de deixá-lo envergonhado com sua avidez de glutão incorrigível.

Professor de Filosofia, acostumado a fazer joguinhos intelectivos com seus alunos, Pacífico começa a dizer, sem mais nem pra quê :

— Mariposa, Maposinha, tudo é nada. As b… as pontas se encontram. Por isso o tudo vira nada, que é nada e também tudo. Entendeu?

E, sem esperar resposta, continuou , depois de coçar a testa com insistência:

— Maposinha, se o nada…

— Pacífico, meu amor, tô ficando cansada. Vamos embora.

Ele, que jamais contrariava a mulher, foi largando o décimo segundo chope sem beber, deixando dinheiro suficiente com gorjeta gorda. Pedir conta vai demorar! Maposinha precisa ir, precisamos ir.

E saíram. Ele passou o braço na cintura dela. Passaram por Gregório, que vinha andando pela rua. Pura coincidência. Respondeu ao boa-noite do colega da mulher. Aliás, responderam. Passaram pelo porteiro do prédio onde moravam. Passaram pela porta do apartamento. Passaram para a cama. Ele passou tudo de novo em sua mente: Mariposa e Gregório transando… uau! Mulher tem cada uma. Pior que criança!

Antes de dormir, ele coçou e coçou a testa. Depois disse, dobrado em posição fetal:

— Cê tem cada uma, mulher!

E dormiram o sono dos justos, justíssimos em seus pijamas de medo.


MÁRCIA CARRANO Castro
é mineira, natural de Cataguases (MG). Reside em Juiz de Fora, naquele Estado, desde 1984. Com Licenciatura Plena em Letras, é bacharel em Direito e escritora. Professora efetiva da rede de ensino estadual, atualmente ensina Português, Redação e Literatura no Criarte, curso fundado por ela em 1980. Em 1977, lançou seu primeiro livro de poemas, “Zero Versus”, Editora Esdeva – Juiz de Fora, que mereceu elogios da crítica. Tem trabalhos publicados em diversos jornais e suplementos literários do país e sítios da Internet. Em 2001, a Secretaria de Cultura de Cataguases (MG) deu o nome de Márcia Carrano a uma das bibliotecas naquela cidade. Seu livro de contos “Porção de tintas”, premiado pela FUNALFA em 2003, foi lançado no dia 24 de abril de 2003, em Juiz de Fora (MG). Fonte Releituras

29/06/2009 - 18:03h Perdão

Izabel Santa Cruz Fontes

Hoje sonhei que te perdoava. Estamos sentados frente a frente, desconfortáveis, com olhares perdidos. Eu podia sentir o teu desespero mudo no ar, tocar nele, moldá-lo à minha maneira, fazer dele capricho meu. Você fingia tomar seu café e olhar pela janela. O café estava tão quente que era quase uma presença humana. Éramos, então, quatro: eu, você, o café e seu desespero, percebi nisso metáfora indizível. Mesmo no fim, mesmo em sonhos, nunca sozinhos.

Sádica, eu folheava o jornal displicentemente e jogava os cadernos pelo chão, bagunçando tudo de propósito, como que para te irritar pela última vez. Você, numa coragem súbita, quebra o silêncio. Apenas ergo os olhos, fitando-te friamente e volto a uma notícia tediosa, no caderno de política. Falava alguma coisa sobre um tratado político no Sul da África… você fala, fala, fala. Fala coisas que eu não entendo, ou não lembro. Diz que se arrepende, pede desculpas, promete o céu e felicidade eterna. Continuo a ler, termino mais uma página e a jogo no chão, quase com desprezo. Sentindo o corpo inteiro estremecer, numa raiva contida, você se limita a olhar com o canto do olho a mais uma provocação e ignora, permitindo-se um resto de orgulho.

Ao perceber que ainda somos nós — você, puro orgulho, eu, pura implicância — dou um meio sorriso, sabendo que não tenho o direito de me sentir feliz. Você, de repente, percebe tudo e dá um sorriso largo, criança em dia de natal. Surpresa, apenas arregalo os olhos, você ri do meu espanto. Mais alto. Gargalha. Contagiada, vou sentindo minha boca se abrir, tímida, até se escancarar. Sentimos o corpo tremer e rimos, em uma crise guardada, sem explicação, sem motivo.

Passamos tempo incontável assim, a rir sem motivos e, de repente, paramos. Pela primeira vez, nos olhamos de verdade, com olhos de quem ri, inocentes e carinhosos. Finalmente, nós dois entendemos e, calados, aceitamos nosso destino: orgulho e implicância. Nos perdoamos.

E-mail: beu.o@hotmail.com

Izabel Santa Cruz Fontes (1987) é estudante de jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Diz fazer da escrita uma forma de “existir um pouco mais no mundo.” Fonte Releituras

25/06/2009 - 19:27h Os lugares da literatura

Dos lugares suecos puestos de moda por sendos escritores.

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La ciudad de Millenium en el centro de Estocolmo.

En Södermalm, Estocolmo, tienen lugar las historias de la trilogía Millenium de Stieg Larsson -editadas en Argentina las dos primeras, Los hombres que no amaban a las mujeres y La chica que soñaba con una cerilla y un bidón de gasolina-. El éxito mundial de la trilogía y el rodaje de la película basada en la primera novela, hicieron que la barrio de convirtiera en un fenómeno turístico a tal punto que el Museo de la Ciudad de Estocolmo organiza bajo el nombre de Millennium Phenomeno un tour de dos horas por la ciudad donde circularon los personajes de la trilogía de super ventas.

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Una vista de Ystad



Otra ciudad sueca, Ystad, donde tienen lugar la saga del detective Wallander escrita por Henning Mankell, es el destino de un concurso organizado por la editorial Tusquets para dos personas a dicha ciudad.

Un fenónemo literario que deviene en un evento turístico pero que más allá de ello da cuenta de como los espacios se convierten en protagonistas de las historias, en otros espacios estos relatos serían inconcebibles.

21/06/2009 - 18:32h Desalinho

 Siria Grei

Quer almoçar comigo amanhã? Preciso contar o que eu sinto quando saio sem você e no que estou pensando quando olho sem piedade para todas as mulheres que cruzam o meu caminho. Entenda, de você eu não espero mais do que estar ao meu lado até o fim. Acordarmos todos os dias juntos. Você ignorar insistentemente as minhas tentativas de arrancar da sua boca qualquer frase que revele a posição que ocupo numa hipotética escala de grandes amores da sua vida. Mas sei que você é incapaz de dedicar seu corpo só a mim.

Invejo seu cinismo. O modo prolixo como nega sua dependência e reafirma com a ladainha das seis horas seu credo inabalável no amor livre. Nesta altura da vida o que me faltava eram ideais libertários! Saiba, eu prefiro a caretice das declarações de amor, as mãos dadas, o presente no dia dos namorados.

E vou me desculpando pela ingenuidade descrita sem vergonha nesta folha branca, enquanto ouço aquela fita k7 que você gravou pra mim quando ainda não estavam domesticados os gravadores de cd e acabáramos de fazer a primeira comunhão.

Foi tão logo você me deixou. Saí procurando o que abraçar. Pensei há quanto tempo eu só sentia o gosto da sua pele e só sabia da textura engraçada do seu cabelo. Meus braços cruzados tinham a forma do seu corpo, nada mais se encaixava. Pensei em todos os xingamentos da língua e queria que estivesse ao meu lado para não precisar recitá-los em voz alta no meio da rua. Eu nunca falei palavrões pra você.

Também não conjuguei o verbo amar. Mas isso não demorou você percebeu. Tanto que foi embora. Sei que espera que eu esteja no mesmo lugar, com o mesmo vento sul levantando meu cabelo, quando você chegar. E eu vou estar. A vida foi suspensa quando seu ônibus partiu. Confesso que procurei um lenço para balançar, um chapéu de feltro cinza para acenar, mas você não olhou pela janela. Gosto de imaginar que o ônibus quebrou na estrada e você ainda não chegou ao seu destino. É por isso que demora tanto a voltar.

Depois andei a tarde toda pelas ruas asfaltadas do meu bairro juntando galhos secos de árvores escassas. Arranquei duas ou três folhas do mês de dezembro da minha agenda. Pedi emprestado ao porteiro do prédio seu isqueiro bic amarelo. Abri a porta do meu guarda-roupa e escolhi a blusa de malha branca com estampa do Belle and Sebastian. Aquela que você usava para dormir quando já era tarde demais para ir embora. Depois de jogar da varanda as cinzas do que me lembrava você, decidi que era hora de apagar minha memória.

Siria Grei (na vida real, Vitor Graize) passa seus dias em Vitória. É revisora de qualquer texto que cruze o caminho dos seus olhos e pode ser vista em mais detalhes no blogue Por Meio de Palavras. Fonte Escritoras Suicidas

20/06/2009 - 20:15h cruzadas

 mônica oliveira

Ele chegou e se foi com a luz da lua nos cabelos. Depois choveu, mas o cheiro ficou. Não tomei banho porque o cheiro dava tesão e então eu gozava de novo. Melhor ter partido, no entanto. Bom lembrá-lo uivando, um boi no abate, eu te suplico. A fantasia dá de dez a zero na realidade.

Dormi muito e acordei faminta. Nada comi para me sentir ainda mais esfomeada e só depois, ao matar a fome, poder ficar completamente feliz a ponto de explodir. Felicidade a gente provoca. Ela custa pouco. Quando é cara, não é de boa qualidade.

Decidi por uma gororoba na esquina. Gostei de acordar, sair por aí, minissaia e sem calcinha, rabo-de-cavalo loiro, tão livre! Tão bom ser mulher! Sair reparando na arquitetura brega e modernosa dos novos prédios, nos paralelepípedos, nos sapatos, no pichado do muro e nas coisas que ninguém repara.

Sentei-me ajeitando a toalha xadrez puída. Suco de melão, cruzo a direita, por favor, cara de vontade de comer. Cruzo a esquerda. Um beirute. Há uns cinco homens no boteco. Barrigudos, desolados. E capricha, que eu tô morrendo de fome.

Todos olhavam. Corei. Veio o suco, o prato, que vergonha, comi de cabeça baixa. Devagar, como se ritual, saboreando o tempero barato e picante. Pobres anoréxicas, quanta infelicidade. Todos olhavam. Aí lembrei daquele filme da Sharon Stone. Os homens são uns bobalhões. He he…

Tchau, obrigada, pode ficar com o troco. Antes de ir, porém, lembrei novamente do filme. Mais uma vez corei. E cruzei de novo as pernas, desta vez lentamente, levantando um pouco mais entre o vão. A Sharon Stone dos pobres.

Ouvi algumas obscenidades e saí, empinando os peitos, tão estranha é a vida sobre a Terra.

Mônica Oliveira. Paulistana, jornalista. Trabalhou para a rádio Patrulha FM, onde fazia entrevistas com políticos, e para jornais e revistas de todos os naipes, entre eles o Diário do Grande ABC e o Agora São Paulo, além de escrever para áreas técnicas e revistas femininas sobre moda, beleza, comportamento e papel da mulher na sociedade moderna. Morou também na Nova Zelândia, onde trabalhou para o Jornal The Ensign. Edita o blogue Eu Sou Maria. Fonte Escritoras Suicidas