22/10/2009 - 13:54h Financial Times defende taxação da entrada de capitais no Brasil

Toda Mídia

NELSON DE SÁ -  FOLHA SP

nelsonsa@uol.com.br

“Good choice”

Em editorial, o “Financial Times” faz longa defesa da taxação em 2% da entrada de capital no Brasil. Começa dizendo que, “diferentemente da garota de Ipanema, o rebolado do real tem sido tudo menos gentil”, resultado de uma “paixão cega dos investidores estrangeiros -até que o governo disse basta”.
“Apesar dos investidores ofendidos”, escreve o “FT”, “foi uma boa escolha”.

Afirma que ela se justifica, não para conter a valorização do real, e sim diante da “causa profunda” que é a entrada de capital em crescente intensidade. Falando em “atração fatal”, diz que “este amor pelo samba pode ser coisa boa demais: tem os ingredientes de uma bolha emergente clássica”.
Avalia que “o governo é sábio em se preocupar antes que seja tarde”. Que “implantou sua política com sensibilidade, a taxa é modesta e trata os investidores com honestidade, cobrando na entrada e não quando eles quiserem o dinheiro de volta”.


Em suma, “o Brasil bem-sucedido terá de viver com um real forte”, o que a taxação não muda, “mas ajuda a manter a tarefa administrável”.

JUROS ALTOS ATRAEM

bloomberg.com
Taxas de Brasil, Europa e EUA

No Brasil Econômico, 18h40, “Copom mantém juros inalterados em 8,75%”. Pouco antes, na Bloomberg, “Real sobe com aposta de que juros altos vão atrair investidores”, apesar da taxação de 2%.
Na TV Bloomberg original, “os investidores olham a alta taxa de juros e você realmente pode ver a diferença, 8,75%, Europa 1%, EUA 0%. É outra razão por que os investidores são atraídos ao real”.

FRUSTRANTE, MAS

cnbc.com
Na tela, “Brasil: a festa acabou”

A CNBC debateu a taxação e se “outros países vão seguir o Brasil”. De Tim Seymour, da Seygem Asset Management: “Para “hedge funds” como o nosso, foi frustrante”. Mas com Jogos, Copa “e sobretudo sua economia” o país é “fantástico”. Sugeriu comprar, “mas não pule na Petrobras amanhã”, espere “alguns dias”.

A BOLHA
O “Wall Street Journal” destacou as “palavras de medo de uma nova bolha” ouvidas num evento do Fed de San Francisco, sobre os emergentes. “Graças aos baixos juros nas economias desenvolvidas”, basta “emprestar dólares, usá-los para comprar, digamos, no Brasil, e você faz dinheiro (bem, você podia, até o Brasil pôr controles limitando a entrada de capitais)”.
Em outro texto, noticiou a “reação global ao declínio do dólar”, com o alerta de que “o Brasil não está sozinho”. Canadá e França ameaçam intervenção.

Leia a integra da coluna de Nelson de Sá na Folha SP

01/09/2009 - 13:38h ”Há uma aceleração do crescimento”

http://www.folhapress.com.br/web/galeria/imagens/Foto217.jpg

Entrevista – Alexandre Schwartsman: economista-chefe do Banco Santander; economista destaca que a expansão da produção industrial está muito difundida, e não associada a poucos setores

 

Fernando Dantas, RIO – O Estado SP

 


O crescimento da produção industrial está se acelerando e se tornando mais difuso entre os diversos setores, na análise de Alexandre Schwartsman, economista-chefe do Banco Santander. Para ele, não há indícios de redução do atual ritmo que, se mantido, levará a produção industrial de volta ao nível pré-crise em fevereiro ou março de 2010.

Schwartsman acha que o crescimento da produção industrial em julho, de 2,2% na comparação dessazonalizada com junho, reforça o acerto da atitude sinalizada pelo Banco Central (BC) de interromper o movimento de queda da Selic, a taxa básica de juros, que hoje está em 8,75%.

O que o sr. achou do resultado da produção industrial?

Veio bastante forte, perto do nossa previsão otimista (em relação à média de mercado) de 1,9%. O que me chamou a atenção especificamente é que foi muito difundido, e não associado ao comportamento de um punhado de setores. Nas nossas contas, em termos dessazonalizados, praticamente 85% dos setores cresceram no mês. E essa difusão está aumentando mês a mês.

E o ritmo da recuperação?

Parece estar havendo uma aceleração do crescimento. O ritmo de expansão na média móvel trimestral estava em 1,2% em maio, 1% em junho e veio em 1,3% em julho. Isso está ocorrendo de forma particularmente clara na indústria de transformação, em que a sequência foi de 0,8%, 0,7% e 1,1%. Tomando-se o crescimento nos sete primeiros meses do ano, para evitar uma extrapolação feita apenas com o final da trajetória, a produção industrial cresceu 12%, o que significa que está crescendo, em média, a uma velocidade de 21% ao ano, que é bastante alta.

E quando a produção industrial deve voltar ao nível de antes da crise?

Se for mantida aquela velocidade, o que é apenas uma hipótese, nós recuperaríamos os níveis de produto industrial de setembro do ano passado em fevereiro ou março do próximo ano.

E há chances de a velocidade ser mantida?

Eu estou com dificuldade em encontrar fatores que desacelerariam o crescimento da produção industrial. As fontes da forte contração pela qual passamos no último trimestre do ano passado foram uma queda brutal das exportações, porque o comércio internacional sofreu um colapso; paralisia do crédito; uma queda muito forte dos investimentos; e um ciclo de estoques (quando as empresas reduzem os estoques vistos como excessivos) bastante vigoroso. São os quatro fatores que criaram a tempestade perfeita. Agora, o comércio internacional não está pujante, mas há sinais de que parou de cair e pode estar melhorando um pouquinho. No investimento, houve uma queda muito grande, mas, na leitura dos últimos meses do nosso índice que busca uma aproximação do investimento, parece que a queda foi interrompida e já se começou a subir. Nos estoques, o ciclo está mais perto de acabar agora. O crédito mais ou menos se normalizou e o consumo, se há uma tendência, é de acelerar. Esse conjunto indica que não teremos desaceleração. Assim, de fato há boas chances de, no primeiro trimestre de 2010, recuperar-se o nível do terceiro trimestre de 2008. É uma recuperação mais parecida com um “V” do que um “U”.

Quais são as implicações para a economia e para a política monetária da produção industrial de julho?

Para este ano não tem muito o que fazer – ele foi comprometido com a queda do ano passado. A produção industrial deve cair 7%, 6,5%, na comparação com 2008, mesmo mantendo uma trajetória vigorosa de recuperação. A questão mais difícil é saber o que vai acontecer com o fechamento do hiato do produto (a sobra de capacidade produtiva que permite crescer sem pressão inflacionária). Se esse ritmo for mantido, podemos vê-lo fechar entre o segundo e o terceiro trimestre do ano que vem. É um pouco mais cedo do que a estimativa com a qual eu vinha trabalhando. Mas esse tipo de projeção é bem incerto, na verdade. De qualquer forma, em termos de política monetária, o resultado da produção industrial de julho, se tiver qualquer influência, reforça a visão do Banco Central de parar de reduzir a Selic e esperar para ver como as coisas evoluem.

19/08/2009 - 09:57h Saindo mais cedo da crise

Colunista

Cristiano Romero – VALOR

O Banco Central (BC) sinalizou que, depois de reduzir a taxa básica de juros (Selic) em cinco pontos percentuais, não há mais espaço para novos cortes no curtíssimo prazo. O BC está de olho no movimento de retomada da economia, que parece estar escapando da crise mundial mais cedo do que a maioria dos países. A boa notícia é que as expectativas de inflação seguem melhorando, o que poderá criar adiante espaço para mais uma rodada de alívio monetário.

O mercado, segundo o último boletim Focus, diminuiu as projeções de inflação para 2009 e 2010 – 4,37% 4,3%, respectivamente. Ambas estão, dessa forma, abaixo da meta oficial perseguida pelo BC – 4,5%. Um possível corte de juros não é automático. Cabe à autoridade monetária avaliar uma série de variáveis para se certificar de que não há, no horizonte previsível, pressão inflacionária se formando.

A Selic vem diminuindo desde 2003. Em alguns momentos, subiu, mas o importante é que a média histórica vem caindo de forma consistente. No governo, avalia-se que a queda ocorrida ao longo do ano, que derrubou a taxa nominal abaixo de dois dígitos, é estrutural, ou seja, veio para ficar.

A história recente mostrou que, antes da crise mundial, a economia brasileira podia crescer em torno de 5%, sem descontrole inflacionário. O que possibilitou elevar o crescimento potencial, que, antes de 2003, estava em torno de 2,5%, 3% ao ano, foi a adoção de uma política econômica amparada no tripé superávit primário-metas para inflação-câmbio flutuante e administrada com austeridade e persistência. Essa política deu previsibilidade aos agentes econômicos, estimulando os empresários a investir.

Nunca é demais lembrar que, no terceiro trimestre de 2008, antes da fase aguda da crise mundial, o Brasil crescia a quase 7% na margem, com a taxa de investimento avançando cerca de 18% ao ano. A crise abortou aquele momento, mas não aleijou o país. Economistas do governo acreditam que o Brasil chegará ao fim do ano crescendo, em termos anualizados, cerca de 4%. E aumentará o ritmo ao longo de 2010. As empresas estão voltando a investir.

Se o momento é alvissareiro, por que tanta preocupação com a valorização do real frente ao dólar? Os críticos alegam que a apreciação do real está matando os exportadores e anunciando desindustrialização – processo que, no mundo real, até agora não aconteceu.

Há uma correlação grande, na economia brasileira, entre câmbio e preços de commodities exportadas. Outras correlações verificadas são entre câmbio e aversão a risco e, a longo prazo, entre câmbio e balanço de pagamentos – se o déficit em conta corrente cresce, o ajuste das contas externas é feito mediante a desvalorização do real. Há relação também entre câmbio e juros, mas tudo indica que ela é baixa no caso brasileiro – ao longo dos últimos anos, como se viu, os juros caíram ao menor patamar da história. No mesmo período, o real apreciou.

Na semana passada, durante reunião do Grupo de Acompanhamento da Crise, no Ministério da Fazenda, empresários de vários setores se queixaram do câmbio, mas, na hora de propor soluções, em vez de falar dos juros, apontaram a necessidade de redução de tributos incidentes sobre as exportações. Jorge Gerdau deu a senha ao defender a adoção de medidas para aumentar a competitividade que não passam nem por juros nem por câmbio. Ele lembrou que o governo aprendeu, na crise, que desonerar funciona.

Meirelles rejeita rótulo contra diretores do BC

Quando assumiu o comando do BC, em janeiro de 2003, Henrique Meirelles encontrou um ambiente carregado, em que os diretores oriundos do mercado – ou da academia – eram acusados de defender interesses da banca privada. Esta é uma acusação recorrente, cujo objetivo é avilanar esses profissionais e, assim, desqualificar o trabalho do BC.

Meirelles fez com que toda a diretoria do BC enviasse carta a um jornal contestando ilações feitas contra os diretores que não eram funcionários de carreira. O ambiente melhorou nos anos seguintes, mas a crítica, fácil e desonesta, reaparece aqui e ali quando o objetivo é atacar a política monetária.

Nos momentos mais tensos de 2003, disseminou-se a ideia de que os diretores da casa têm uma visão profissional e técnica. Mais recentemente, surgiu, dentro do próprio governo, no entanto, a visão de que esses diretores são mais flexíveis do ponto de vista político. Meirelles rejeita com veemência essa caracterização.

Em conversa com amigos, lembrou que, dos oito integrantes da diretoria colegiada do BC, apenas três vieram do mercado. É essa diretoria, com maioria da casa, que é acusada de ser conservadora na condução da política de juros. Se esses funcionários seguissem orientação política, os resultados do Copom seriam outros.

Há quase sete anos no posto, Meirelles pode deixar o BC em março para disputar cargo eletivo. Corre em Brasília que o mais cotado para substituí-lo é um funcionário de carreira (Alexandre Tombini, diretor de Normas). Não há nenhum problema nisso. Em 2003, assim como combateu o preconceito aos diretores do mercado, Meirelles impediu o aparelhamento político BC.

Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.

17/08/2009 - 10:27h Candidatura Meirelles redobra pressão sobre rumos da política monetária

Ruy Baron/Valor Foto Destaque
Foto Destaque
Meirelles, Nilcea Freire e Lula em visita a Goiás: segundo assessores, presidente espera que candidatura deixe BC mais flexível

 

Cristiano Romero, de Brasília – VALOR

Tão logo se filie a um partido para disputar as eleições em 2010, o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, terá pela frente três obstáculos a serem superados. O primeiro são as pressões do governo para flexibilizar a política monetária às vésperas do ano eleitoral. O segundo é manter a diretoria com a qual vem trabalhando há quatro anos. O terceiro é convencer o mercado de que, mesmo filiado a um partido e a caminho de se tornar candidato, manterá o rumo austero que imprime a essa política há quase sete anos.

A tarefa de Meirelles não será fácil. Há fissuras na diretoria do BC e é crescente no governo, segundo apurou o Valor junto a integrantes da equipe econômica e a assessores diretos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a pressão para que o Comitê de Política Monetária (Copom) siga cortando a taxa básica de juros (Selic) nas próximas reuniões e para que evite que o real continue se valorizando em relação ao dólar.

Na última reunião do Copom, o BC reduziu a Selic para 8,75% ao ano e sinalizou, ao divulgar a ata da reunião, que não fará novos cortes daqui em diante. Neste momento, a inflação corrente está na meta oficial – 4,5% – e as expectativas do mercado para o próximo ano são de queda no ano fechado de 2009 e em 2010. Diante disso, os defensores da continuação do alívio monetário alegam que o BC deve continuar reduzindo os juros.

O problema desse raciocínio, na avaliação de assessores graduados é não levar em conta a defasagem no mecanismo de transmissão da política monetária – de nove meses a um ano, no caso da inflação e de seis a nove meses, no da atividade econômica. A economia está começando a acelerar, o que adiante provocará alguma pressão inflacionária, como em 2008. Expectativas do governo e do mercado apontam para um crescimento superior a 4% em 2010.

“Nos próximos dois, três meses, diante das expectativas de inflação caindo, aumentará a pressão para novos cortes de juros, especialmente, se o câmbio estiver caindo (ou o real apreciando)”, diz um economista do governo.

No passado, Meirelles foi bem-sucedido na tarefa de convencer o presidente Lula de que a apreciação do câmbio ajuda a preservar o salário real dos trabalhadores, o que, por sua vez, permite aquecer a atividade econômica. Antes da quebra do banco Lehman Brothers, em setembro de 2008, o Brasil vinha crescendo a quase 7% ao ano, com a taxa de investimento liderando a expansão do PIB, mesmo com o câmbio apreciado (o dólar chegou a cair para R$ 1,50 em julho daquele ano).

“A taxa de juros dos Estados Unidos vai subir daqui até o fim do ano que vem. A reação do mercado de câmbio no Brasil vai ser clássica – o real perderá valor diante do dólar. Esse pânico de o real cair para R$ 1,50 é exagerado”, sustenta uma fonte do governo. Se a apreciação continuar, alega esse assessor, aumentará o poder de compra da população e barateará a importação de bens de capital (máquinas e equipamentos). Como a economia está voltando a crescer, a tendência, sustenta ele, são os empresários aproveitarem a oportunidade para investir.

Mesmo se filiando a um partido, Meirelles não tem interesse em derrubar os pilares da política que seguiu no BC. Ele avalia que seu capital político decorre da inflação baixa e da retomada do crescimento. Nos últimos meses, no entanto, o presidente do BC imprimiu um ritmo acelerado ao processo de corte da taxa de juros, contra a opinião dos dois diretores mais importantes da instituição – Mário Mesquita (Política Econômica) e Mário Torós (Política Monetária), ambos oriundos do mercado.

Mesquita e Torós defenderam, nas reuniões do Copom, uma redução mais lenta da taxa Selic. O problema não foi o tamanho da queda (de 13,75% para 8,75% ao ano), mas o ritmo. A divergência não chegou a indispor os dois diretores com Meirelles, mas criou no restante da diretoria – toda ela integrada por funcionários de carreira do BC – um sentimento de hostilidade em relação a Mesquita e Torós. Eles acham que falta aos dois uma “leitura mais política” da realidade econômica do país. Acreditam que eles se fiam em análises puramente técnicas.

O diálogo do BC com o Ministério da Fazenda, por sua vez, continua inexistente, segundo um integrante da equipe do ministro Guido Mantega. Para completar, Bernard Appy, o único interlocutor que os diretores do BC tinham na Fazenda, deixou o cargo na semana passada.

Em conversas com amigos, Mesquita e Torós dizem que, por enquanto, apesar do clima hostil, estão conseguindo fazer seu trabalho sem interferência política. Acham que o caso do ritmo de queda dos juros não foi suficiente para abalar a consistência do seu trabalho, mas, agora, acham que, com Meirelles se preparando para voltar à política, vão precisar de garantias para continuar atuando com autonomia. Os dois não querem sair do BC brigados, mas, se sentirem que a situação vai caminhar para um conflito permanente dentro da instituição, eles vão se antecipar e deixar os cargos.

“O Meirelles sabe que, quanto mais político ele for, mais devedor ele será da política do Lula. Para o presidente, é bom ter um Meirelles mais dócil, mais flexível na condução da política monetária”, comenta um assessor do governo.

A arte de Meirelles será compatibilizar seu momento político com o comando do BC, do qual ele não abre mão justamente por acreditar que está ali a sua plataforma de candidato. “Quando se filiar, Meirelles vai se recolher bastante para evitar críticas à sua atuação como dirigente do BC”, assegura um amigo dele.

O presidente do BC não quer que Mesquita e Torós saiam, pelo contrário, quer os dois ao seu lado até o último momento. Ele teria dificuldade para substituí-los por nomes do mercado. Além disso, a saída dos dois aumentaria a desconfiança de que 2010 reinará sobre as decisões técnicas do Copom.

Meirelles, na verdade, já começou a trabalhar para tranquilizar os diretores. Numa conversa, disse a eles que sua filiação a um partido diminuirá o ímpeto daqueles que, dentro e fora do governo, sempre trabalharam para desestabilizá-lo. A filiação seria a garantia a seus opositores de que ele, além de Torós e Mesquita, deixará o BC em março, prazo de desincompatibilização dos candidatos de 2010.

Não bastará a Meirelles, no entanto, pacificar a diretoria do BC. No mercado, sua filiação em setembro, fato que confirmará o interesse numa candidatura, ainda será testada. As curvas de juros futuros, que indicam as expectativas para a economia, mostram que o mercado prevê a elevação da Selic em 2011 e 2012. Quatro fatores, segundo avaliações de experientes analistas e de integrantes do governo, concorrem para isso.

O primeiro é que as curvas de juros estão inclinadas no mundo inteiro, portanto, não poderia ser diferente no Brasil. A segunda explicação é que a taxa de juros aqui estaria no seu patamar mínimo histórico. O terceiro aspecto é o risco pós-eleitoral – os candidatos que lideram as pesquisas da corrida presidencial são todos críticos da política econômica inaugurada por Fernando Henrique Cardoso e aperfeiçoada por Lula. O quarto fator é o risco de mudança no BC antes das eleições.

“Isso não é culpa de ninguém; é um problema do regime que não dá autonomia formal à diretoria do BC”, diz um economista do governo. Meirelles, que quer manter sua credibilidade de banqueiro central e ao mesmo tempo alçar voos na política, não tem saída: terá que lidar com a desconfiança do mercado.

24/07/2009 - 09:48h Empresários mudam o foco das pressões. Defesa do corte da Selic é substituída pela redução do spread bancário

Marcelo Rehder – O Estado SP

A avaliação de que o Banco Central (BC) chegou ao limite na redução da taxa básica de juros (Selic) levou representantes da indústria e do comércio a mudar o foco de pressão: em vez de insistir no corte da Selic, que tem tido efeito limitado nas taxas cobradas no mercado, as entidades empresariais cobram do governo uma atuação mais firme para redução do spread embutido nas operações de financiamento dos bancos.

Para entidades como a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomércio SP), o spread (a diferença entre a taxa que as instituições pagam para captar recursos e a taxa cobrada nos financiamentos a consumidores e empresas) é hoje o maior obstáculo para o crescimento da economia.

“Os altos spreads cobrados pelos bancos são absolutamente incompatíveis com a condição da economia brasileira”, afirma o presidente da CNI, Armando Monteiro Neto. “Não há país no mundo que atue em condições tão hostis do ponto de vista do financiamento.”

Na sua avaliação, não há razão para os spreads permanecerem em níveis tão elevados, a começar pelo custo de captação, que caiu bastante. “Ainda temos spreads tão altos porque temos um mercado deformado, aonde prevalece um baixo grau de competição e um alto nível de concentração bancária”.

“O spread bancário é um atentado ao crescimento do Brasil”, diz o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf. Segundo ele, o País ainda não superou os efeitos da crise global e é decisivo diminuir o custo do dinheiro para os setores produtivos e o mercado consumidor.

O economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento da Indústria (Iedi) Rogério César Souza observa que os bancos não repassaram para o spread os ganhos de escala obtidos nos últimos anos. Segundo ele, os empréstimos crescem a taxas superiores a 20% ao ano desde 2005. “Poderiam ter baixado os custos administrativos na formação do spread”, disse.

O economista Fábio Pina, da Fecomércio-SP, concluiu que a culpa é um pouco do próprio consumidor. “Enquanto o consumidor não entender o que está pagando e quanto está pagando, os bancos e as financeiras não vão diminuir de forma voluntária os seus spreads”, comentou.

O presidente da CNI diz que há muito por fazer. Primeiro, o ambiente precisa ser mais concorrencial. “Os bancos públicos agora estão cumprindo um papel importante, até induzindo um pouco a redução dos spreads.” Mas ressalta que apenas essa atuação estatal não resolverá o problema.

Para o Iedi, o governo deveria pensar em uma reforma ampla, que incluísse a implantação do cadastro positivo (lista de bons pagadores), corte de impostos, além da liberação do depósito compulsório.

24/07/2009 - 09:24h Selic cai mais rápido do que o spread

Taxa básica recua 4,5 pontos entre janeiro e maio, ante 2,4 pontos do spread; Febraban contesta comparação

Leandro Modé – O Estado SP

O spread bancário, diferença entre a taxa de juros que as instituições financeiras pagam na captação do dinheiro e a que cobram dos clientes, está caindo no Brasil em ritmo mais lento que o juro básico da economia (Selic). Segundo o Banco Central (BC), o spread médio do sistema caiu de 30,5 pontos porcentuais em janeiro para 28,1 pontos em maio, ou seja, 2,4 pontos. No mesmo período, a Selic saiu de 13,75% para 9,25% ao ano, diferença de 4,5 pontos.

“Isso se deve à inadimplência, que ainda está em ascensão”, disse o economista do Insper (ex-Ibmec São Paulo) Otto Nogami. Um colega que pede para não ser identificado tem explicação diferente. “Os bancos aproveitam que o produto que vendem (dinheiro) está escasso para cobrar mais caro.”

O economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Rubens Sardenberg, argumenta que a comparação entre spread e Selic não é correta do ponto de vista metodológico. “O certo é comparar o comportamento da Selic com o da taxa de aplicação (que mostra quanto os bancos cobram dos clientes)”, disse. Segundo o BC, a taxa de aplicação recuou de 42,4% em janeiro para 37,9% ao ano em maio, ou seja, 4,5 pontos – evolução idêntica à da Selic.

Sardenberg contesta, ainda, o peso que se dá no Brasil à questão do spread. “Ninguém compra um carro pensando no lucro da montadora, mas no preço que pagará pelo veículo”, compara. “O que importa (para o cliente bancário) é a taxa que paga.”

O debate sobre spread bancário não é novo no Brasil, mas tende a crescer por causa da queda da Selic para níveis historicamente baixos. Uma simulação feita pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) indica, por exemplo, que o juro médio cobrado no comércio fica em 106% ao ano com a Selic atual, de 8,75%. Ou seja, o financiamento equivale a mais de 12 vezes a taxa básica do País.

Segundo estudos internacionais (um deles do Fundo Monetário Internacional), o spread no Brasil é o mais alto do mundo. Os bancos atribuem essa situação a uma série de fatores: inadimplência mais elevada do que em outros países, impostos na intermediação financeira, depósitos compulsórios e despesas administrativas. O governo, porém, avalia que falta concorrência no setor.

O presidente da Anefac, Miguel de Oliveira, acha que as duas partes têm sua parcela de razão. “Os bancos estão certos em reclamar da cunha fiscal”, afirmou. “Em compensação, o governo está certo ao apontar para a falta de competição.”

Para o presidente da seguradora de crédito Coface, Fernando Blanco, o papel do consumidor (empresa ou cidadão) é fundamental para forçar a queda de juros e spreads. “Ambos não vão cair por oração, discurso, etc”, disse. Crédito, explica, é fruto de uma negociação individual. Por isso, o cliente deve fazer sua parte – por exemplo, pesquisar em várias instituições antes de tomar um empréstimo.

24/07/2009 - 08:49h Melhorou

 

 

Celso Ming,O Estado SP

 

 

celso.ming@grupoestado.com.br


Esta crise não deixa de ser um tanto esquisita. É a maior paradeira global desde os anos 30 e, no entanto, a economia brasileira vai passando por ela com algumas avarias, sim, mas inteira.

Ontem, por exemplo, saíram os números da Pesquisa Mensal do Emprego levantada pelo IBGE e o que se viu não deixou de surpreender: crescimento do nível de ocupação de 0,8% em relação a maio. Nas contas do IBGE, em junho havia 40,8 milhões de pessoas em idade de trabalhar (população em idade ativa) nas seis regiões metropolitanas cobertas pela pesquisa (Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio, São Paulo e Porto Alegre). E, entre essas, 21,1 milhões estavam trabalhando num emprego ou numa ocupação remunerada. Donas de casa ou voluntários, embora ativos, não entram nessa conta porque seu trabalho não é remunerado. Outro dado, correspondente ao anterior, é o que aponta para o nível de desocupação. Caiu 0,7 ponto porcentual em junho (em relação a maio) e se mantém estável desde junho do ano passado – justamente o período de crise.

Esses números causaram alguma surpresa porque os analistas que lidam todos os dias com indicadores econômicos não esperavam por dados tão otimistas.

Mas existem boas explicações para isso. Em primeiro lugar, há as políticas anticíclicas tomadas pelo governo, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) na venda de veículos e de aparelhos domésticos. Elas devem ser criticadas por não promoverem riqueza permanente. Esses recursos não foram utilizados, por exemplo, na realização de projetos de infraestrutura, como estradas, hidrelétricas, pontes e terminais portuários; vão ficar na antecipação do consumo. Em todo o caso, contribuíram para o aumento do emprego.

O mesmo pode-se dizer do crédito, que continua em expansão. O que arriou foi o crédito externo, em consequência da interrupção das operações ativas dos bancos internacionais. Mas, aqui no Brasil, não há nada de especialmente errado com os bancos e em seis meses o crédito cresceu de 41,3% para 43% do PIB.

O terceiro fator de aumento de emprego é o bom desempenho da construção civil. Os números do IBGE não estão indicando aumento no setor, mas apenas manutenção da atividade, o que, em tempos de crise, já é motivo para comemoração.

Os novos números sobre o nível de ocupação (e desemprego) não podem ser tomados isoladamente. Devem ser comparados com o bom desempenho do comércio exterior (saldo, no ano, de US$ 16 bilhões até a terceira semana de julho); com a inflação em queda, que converge para meta; com a redução dos juros básicos ao patamar mais baixo em dez anos; e com a excelente situação das reservas externas, agora de US$ 210 bilhões, que contribui para a manutenção de um bom nível da confiança. É verdade que o crescimento da atividade econômica continua baixo, provavelmente alguma coisa acima de zero por cento, e que as despesas correntes do governo estão crescendo demais. Em todo o caso, vai-se firmando a percepção de que o Brasil vem tendo um excelente desempenho ao longo desta crise e que vai sair bem melhor do que entrou quando tudo tiver acabado.

Confira

Tem de estar lá – Se a Ata do Copom, a ser divulgada na próxima quinta-feira, não mencionar o risco eleitoral com que a política monetária terá de lidar, deve-se compreender que, no entendimento do Copom, o risco eleitoral não é relevante.

No entanto, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, vem afirmando que o chamado risco eleitoral já tem sido fator relevante na formação dos juros de longo prazo.

Por risco eleitoral entenda-se a insegurança nos juros (ou no câmbio) futuros provocada pela falta de conhecimento do que será a política do próximo governo para esses setores.

21/06/2009 - 12:22h Foi o suposto conservadorismo do Copom que abriu espaço para ações que contribuirão para a recuperação da economia

ARTIGO

Dez anos de metas para a inflação Foi o suposto conservadorismo do Copom que abriu espaço para ações que contribuirão para a recuperação da economia

MÁRIO MESQUITA
ESPECIAL PARA A FOLHA

O regime de metas para a inflação foi formalmente adotado pelo Brasil em junho de 1999. A despeito de enfrentar considerável ceticismo em Washington e em Wall Street, que, na época, pareciam ter mais simpatia pelo regime de conversibilidade argentino, e também no país, o regime tem sido bem–sucedido e está consolidado.
Sem oferecer uma panaceia econômica -nenhum regime monetário o faz-, o regime de metas para a inflação vem se mostrando inequivocamente superior às alternativas, sejam elas metas cambiais ou para agregados monetários.
Este décimo aniversário é a ocasião propícia para se avaliar o desempenho do regime, reexaminando, à luz dos fatos, algumas das controvérsias, ou mitos, propagadas ao longo da última década, sobre seu desenho e sua implementação.
O primeiro refere-se à ideia de que, ao perseguir metas para a inflação, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) tenderia a punir a atividade econômica. Tal mito parece ser calcado na crença, ultrapassada, de que seria possível elevar a taxa de crescimento sustentado da economia com maior tolerância à inflação. Na verdade, os benefícios da redução da inflação para o crescimento ficam nítidos se considerarmos o importante trabalho, recentemente publicado, do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos da Fundação Getulio Vargas.
Segundo esse trabalho, que cobre o período entre janeiro de 1980 e março de 2009, as recessões não se tornaram mais frequentes após a adoção do regime de metas para a inflação. Ao contrário, foi sob esse regime que se verificou a fase de expansão mais prolongada de toda a amostra -21 trimestres entre o terceiro trimestre de 2003 e o terceiro de 2008-, e que só foi abortada pela contração econômica mundial, a mais severa desde os anos 30 do século passado.
O segundo mito é o de que o Copom foi excessivamente conservador, ou seja, que praticou política monetária consistentemente mais restritiva do que o necessário para promover a convergência da inflação às metas. Se isso fosse verdade, a inflação deveria se situar consistentemente abaixo da trajetória de metas. Não foi, contudo, o que ocorreu.
Desde a adoção do regime de metas, a inflação tem estado mais tempo acima do que abaixo do valor central para a meta. De fato, desde 1999 a inflação permaneceu 72% do tempo em níveis superiores ao valor central da meta, e 26% acima do limite superior do intervalo de tolerância, mas nunca rompeu o limite inferior. A propósito, cabe ressaltar que foi o suposto conservadorismo do Copom, ao conter os danos, derivados da forte aceleração inflacionária ocorrida no ano passado, sobre as expectativas de inflação, que abriu espaço para ações de política monetária que terão efeitos contracíclicos, contribuindo para a recuperação da atividade econômica em 2009 e em 2010.
Poder-se-ia contra-argumentar que, se não o Copom, draconiano então foi o Conselho Monetário Nacional, ao fixar metas exageradamente ambiciosas para a inflação brasileira. Isso também não corresponde aos fatos. A média das metas centrais para os países emergentes era de 7,2% em 1999, mas se deslocou para 3,6% em 2009 (2,1% para países desenvolvidos), diante do valor de 4,5% vigente no país nos últimos anos. De uma amostra, compilada por pesquisadores do Banco Central, de 25 países que atualmente adotam o sistema de metas para a inflação, 17 dos quais emergentes, em 2009 somente 2 apresentam valores centrais da meta superiores ao do Brasil (Guatemala e Turquia) e 2 o mesmo valor (Indonésia e África do Sul). Além disso, o intervalo de tolerância de 4 pontos percentuais adotado pelo Brasil é o maior da amostra.
Outra crítica ao Copom é que ele não daria a devida importância ao equilíbrio externo na definição da política monetária. Novamente a crítica não encontra respaldo nos dados. Foi exatamente sob a égide do regime de metas para a inflação com flutuação cambial que a economia brasileira superou crônicos problemas de balanço de pagamentos, atingindo o grau de investimento.
E foi sob o regime de metas para a inflação com flutuação cambial que o Banco Central teve acesso, em momento de crise financeira global, a um acordo de “swap” recíproco de moedas com o Federal Reserve, em vez de ter de recorrer ao FMI.
O desempenho do setor externo na economia sob esse regime, que alternou conjunturas externas benignas (como em 2003-2008) e adversas (1999-2002 e mais recentemente), contrasta de forma nitidamente favorável com o que se observou em períodos de câmbio administrado, nos anos 80 e 90 do século passado. A divisão de trabalho, política monetária voltada para o equilíbrio interno, consubstanciado nas metas para a inflação, e câmbio flutuante para atingir o equilíbrio externo, vem se mostrando bastante eficiente, como evidencia o rápido ajuste da conta corrente ocorrido desde o final de 2008.
Os economistas do Banco Central não ignoram o papel da taxa de câmbio no mecanismo de transmissão da política monetária, apenas o colocam em perspectiva -mudanças da taxa de câmbio, assim como de diversas outras variáveis, são analisadas sob o ponto de vista do efeito que poderão ter sobre a trajetória futura da inflação.
Essa posição pode ocasionalmente desagradar a certos setores, mas é a mais adequada do ponto de vista macroeconômico, é a única posição possível sob um verdadeiro regime de metas para a inflação e, em última análise, é a mais apropriada para a sociedade como um todo. Um tema recorrente de controvérsia, que no caso brasileiro tornou-se mais evidente sob o regime de metas, é a questão das defasagens da política monetária. Essas defasagens fazem com que a política monetária deva ser ajustada antes que seus efeitos se tornem evidentes, daí a ênfase atribuída às projeções para a inflação e ao balanço dos riscos em torno do cenário prospectivo central, no processo decisório do Copom.
O regime de metas para a inflação é, em resumo, bastante flexível e, ao enfatizar a transparência, em nosso caso por meio da divulgação das notas das reuniões do Copom, dos Relatórios de Inflação, bem como das frequentes audiências da diretoria do Banco Central no Congresso Nacional, especialmente adaptado à governança democrática. Mas flexibilidade não implica ambiguidade de propósitos: cabe ao Copom calibrar a política monetária de forma a promover a convergência da inflação para a trajetória de metas estabelecida pelo CMN.
Essa calibragem leva em conta um amplo conjunto de informações, como o grau de ociosidade na utilização dos fatores de produção, as expectativas de inflação, a persistência inflacionária e a evolução dos custos das importações, bem como de itens administrados, mas sempre -e quanto a isso não deve haver dúvida na sociedade- com foco no objetivo precípuo da política monetária, que é alinhar a dinâmica dos preços às respectivas metas.
No dia 21 de junho de 1999, o decreto nº 3.088 estabeleceu o sistema de metas para a inflação como diretriz para o regime de política monetária brasileiro.

MÁRIO MESQUITA, 43, economista, é diretor de Política Econômica do Banco Central do Brasil.

21/06/2009 - 11:49h ”O bode na sala é o spread”

ENTREVISTA- Guido Mantega: ministro da Fazendahttp://www.portalms.com.br/adm/imagens/%7B3E784947-A355-4FD7-AA38-89459A43C971%7D_guido-mantega.jpg

 

David Friedlander e Leandro Modé – O Estado SP

 


A queda de braço entre o governo e os bancos privados por causa do spread (diferença entre o custo que o banco paga na captação do dinheiro e o juro que cobra do cliente) esquentou. Depois de muita pressão, as instituições financeiras passaram a dizer que desejam baixar o spread, mas não conseguem em razão do peso elevado dos impostos e do depósito compulsório em seus custos. Nesta entrevista, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, contesta esse argumento sem fazer rodeios. “Os bancos têm margem para baixar o spread sem precisar de redução da cunha fiscal ou do compulsório”, afirma.

Bem-humorado com o desempenho acima da média do Brasil na crise econômica global, Mantega só mostra desconforto quando fala do câmbio e das mudanças anunciadas para a caderneta de poupança. No primeiro caso, afirma que está preocupado mas, no momento, não há nada a fazer. Sobre a poupança, deu a entender que o anúncio de mudanças nas regras é complicado, assusta as pessoas e trouxe algum desconforto ao governo. A seguir, os principais trechos da entrevista.

A última ata do Copom (Conselho de Política Monetária) diz que o espaço para redução dos juros básicos da economia ficou menor…

Com uma taxa de 9,25%, é óbvio que ficou menor. Uma das funções do Banco Central é mostrar que está sempre atento à inflação. O BC não pode dizer que vai baixar os juros, mas o fato é que está baixando.

Essa redução poderia ser mais rápida?

O custo financeiro no Brasil continua muito alto. É uma distorção em relação ao que acontece em outros países. A grande anormalidade é que os spreads (diferença entre o custo que o banco paga na captação do dinheiro e o juro que cobra do cliente) são muito altos no País. O consumidor brasileiro paga juros absurdos. Mas estamos caminhando. A vantagem é que antes havia três bodes na sala: tiramos dois, mas sobrou um.

O senhor está falando do spread?

O bode na sala é o spread. As instituições financeiras dizem que querem se garantir contra a inadimplência, mas abusam. Fora os períodos de crise, quando ela aumenta mesmo, nossa inadimplência é normal. Mas ela é superestimada pelas instituições financeiras. Existe também um pouco de concentração no setor financeiro. Antes da crise, o spread era muito menor. Mas os bancos ficaram com medo e chutaram para cima. No Brasil, como já há um exagero, ficou um exagero e meio.

Os banqueiros dizem que o spread é alto por causa dos impostos que pagam e do compulsório que são obrigados a recolher. O governo pensa mexer nisso?

Os bancos têm margem para baixar o spread sem precisar de redução da cunha fiscal ou do compulsório. O compulsório já diminuiu bastante nesta crise, nós liberamos mais de R$ 100 bilhões. Aliás, diga-se de passagem, na composição do spread 36% é a possibilidade de inadimplência. Evidentemente, isso está superestimado. Eles costumam prever uma inadimplência maior e com isso cobrar uma taxa maior. Outra é a margem de lucro. Os bancos brasileiros estão bem acostumados a ter margem de rentabilidade elevada. Não tenho nada contra isso, mas acho que aí tem espaço para diminuir.

Na sua opinião, quanto seria possível diminuir?

Da composição do spread, a cunha fiscal dá 7% a 8%, o compulsório não dá 3%, 36% é inadimplência e, se não me engano, 24% é custo administrativo. No custo administrativo tem a margem do banco. Então, quase 60% é risco de inadimplemento e mais custo administrativo.

E por que os bancos não baixam o spread?

É preciso ter concorrência. Hoje, mais de 70% do crédito é atendido por sete ou oito grandes bancos. O governo precisa criar condições para que haja concorrência. A queda da Selic (a taxa básica de juros) ajuda. A ação dos bancos públicos também. Eles estão liderando o processo de aumento do crédito e de redução de juros. Acho que está surtindo efeito. Pela primeira vez, percebo que os concorrentes (os bancos privados) estão sentindo essa agressividade que não existia antes.

Além de mobilizar os bancos públicos, que mais o governo pode fazer para aumentar a concorrência no mercado financeiro?

Pode fortalecer os bancos pequenos e médios. Já fizemos isso. Não deixamos que os bancos pequenos saíssem do mercado. Agimos para permitir aos bancos públicos adquirir instituições financeiras sem maiores problemas e direcionamos o compulsório para a compra de carteiras de bancos menores. Nós sabemos que os bancos menores sofreram saques, a saída de fundos, alguns bancos tiveram a reputação afetada por problemas de derivativos… Tudo isso foi superado. E agora vamos fazer o fundo garantidor de crédito para a pequena e média empresa.

O governo desistiu de mexer na fórmula da poupança?

Nós buscamos fazer a menor mudança possível. É que as coisas são complicadas. Vocês já viram a fórmula da TR (Taxa Referencial de Juros)? É complicadíssima. Só um grande especialista consegue entender. Você não consegue comunicar, transmitir isso à população. Aí aparece o uso político com gente querendo desinformar (a oposição disse que o governo quer acabar com a caderneta de poupança). Então, escolhemos o caminho da menor mudança possível.

É por isso que o governo anunciou e depois não falou mais no assunto?

Foi anunciado e foi dito que a medida de aumento de tributação é para o ano que vem. Temos tempo para entrar no Congresso. O projeto está pronto, não tem nenhum segredo. Cria o Imposto de Renda, tem lá um desconto e tal. A tributação é pequena. E o contribuinte vai declarar em 2010 e pagar em 2011. A poupança vai continuar sendo uma das melhores opções de investimento. Cerca de 99% das cadernetas têm até 50 mil de aplicação e aí não muda nada.

Já está havendo alguma migração dos fundos de investimento para a poupança. Não é perigoso para o financiamento da dívida pública?

Não preocupa porque não está havendo fuga do Tesouro (refere-se aos títulos públicos).

O câmbio preocupa o senhor?

Sim, o câmbio preocupa. Do jeito que está, diminui a competitividade de nossas exportações e pode trazer um fluxo de importações indesejado. Essa parte é objeto de observação. Se for necessário, faremos medidas para atenuar. Agora, o câmbio flutuante é um regime positivo. Tem hora que ele flutua para um lado, tem hora que flutua para outro. O que não pode é flutuar só para um lado. Hoje, o excesso de valorização prejudica o País. E aí começa a preocupação. Mas estamos comprando mais reservas. O Brasil se deu muito bem comprando reservas. Foi uma estratégia que introduzimos no governo a partir de 2006 quando me tornei ministro da Fazenda, foi uma das primeiras questões que levei ao presidente Lula e ao Henrique Meirelles (presidente do BC).

Qual seria uma taxa ideal hoje?

Não tem taxa de equilíbrio. A taxa de equilíbrio é aquela que é resultado das transações do mercado. O governo não trabalha com taxa de equilíbrio e não tem meta de câmbio.

Os juros altos não contribuem para encher o mercado brasileiro de dólares?

Acho que potencialmente um diferencial de taxas de juros poderá no futuro fazer isso. No momento, não acho que cause esse impacto. Mas vamos separar as coisas. Existe uma valorização do real produzida diretamente pela desvalorização do dólar. Não há o que fazer. É o Barack Obama (presidente dos EUA) que precisa agir. Uma valorização um pouco maior do real em relação a outras moedas se deve também a virtudes da economia brasileira. Nosso mercado de capitais é mais sólido, tem regras mais claras e tem mais liquidez do que o mercado de capitais indiano, chinês e russo. Isso provoca entrada maior de capitais no Brasil. Isso também valoriza o câmbio.

A arrecadação caiu sete meses seguidos e os gastos correntes continuam subindo. Como fechar essa conta? O governo vai cortar gastos?

A queda da arrecadação era esperada porque está diretamente relacionada com o nível de atividade econômica. E nós tivemos uma retração. Além disso, fizemos desonerações (tributárias). Elas têm um impacto. Vamos fazer um superávit menor, mas calibramos isso de modo que a nossa dívida não cresça. A nossa dívida pública está estabilizada. Ela estava em 36% (do PIB) e foi para 39,8% porque tiramos a Petrobrás do cálculo. No ano que vem será menor. Quando a economia retomar, vamos voltar a ter arrecadação. Temos uma situação confortável que nos permite esse período em que estamos gastando mais. O gasto do governo é bom para a economia, ativa a economia.Estamos mantendo os investimentos, mantivemos todos os programas sociais e as despesas do governo. Então vai haver um certo desequilíbrio este ano que poderá até nos levar a cortar mais gastos correntes. Foi o que o Paulo Bernardo (ministro do Planejamento) falou. Se continuar havendo frustração de arrecadação, poderemos vir a cortar gastos correntes dos ministérios.

Que tipos de gastos podem ser cortados?

Gastos correntes dos ministérios. Não vamos mexer no Bolsa-Família, não mexeremos nos investimentos do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), mas os demais gastos podem ser adiados. Nós já fizemos um contingenciamento e talvez tenhamos de fazer alguma restrição a mais para equacionar essa situação.

O governo estuda desonerar a folha de pagamentos?

São medidas clássicas, que sempre estarão em estudo. Porque o Brasil tem um custo de folha mais elevado que outros países, então é algo que sempre está na nossa alça de mira. No projeto de reforma tributária, está prevista a redução de 1% da contribuição previdenciária por ano, até chegar a diminuir para 6%. Poderemos antecipar alguma coisa, em vista do cenário que temos, mas aí temos de olhar o custo. Cada 1% de redução custa R$ 3,8 bilhões por ano. É bastante, mas não estamos descartando nada.

E os outros setores? Todos estão pedindo…

Todos os setores empresariais sempre pediram. Mas o governo não se influencia pela pressão de setores. Quem teve a ideia de fazer a redução do IPI fomos nós, não foram eles. Ontem (quarta-feira) fizemos uma avaliação com o Jackson Schneider (presidente da Anfavea) e ele acha que, graças a esse programa de desoneração de IPI, eles venderam 250 mil carros a mais. Nós perdemos IPI, mas em compensação pagamos menos seguro desemprego, aqueles funcionários que continuaram ganhando salário consumiram, pagaram outro tipo de tributo, houve compensações. Se você deixa a economia cair, se deixa o nível de atividade desacelerar, a arrecadação vai cair mais ainda.

O aumento da alíquota sobre a importação do aço não vai contra o próprio discurso do presidente Lula, de que num momento como este não deveria haver medidas protecionistas?

Com a crise, a indústria do aço no mundo caiu 50% e agora tem gente de outros países querendo exportar aço até a preço de custo. Nós observamos isso criteriosamente, esperamos a indústria nacional baixar o preço, eu quis ver as faturas e aí nós subimos 12% (o imposto de importação). É uma medida que a OMC (Organização Mundial do Comércio) aceita e não dá para deixar nosso mercado ser invadido por exportações de baixo custo de outros países.

O senhor e o presidente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), Luciano Coutinho, sempre foram associados a uma política chamada de desenvolvimentista, voltada para a produção. E isso entrou na agenda até dos liberais mais convictos…

Nós não somos estatistas. Sou desenvolvimentista sim, mas dos anos 2000, e não dos anos 60, ou dos anos 70. Moderno, dinâmico. A gente só entra onde o setor privado precisa de um impulso. Depois, ótimo. O Estado não precisa ficar, a não ser em certos setores, que precisam ficar vigiados. O setor financeiro é um deles, porque é uma concessão. Foi no setor financeiro que os Estados Unidos comeram bola, cometeram erros que estão corrigindo hoje com essa regulamentação extremamente positiva, que já temos no Brasil. Por isso nosso sistema é mais sólido.

Qual o plano para todas essas participações em empresas em crise que o BNDES está comprando? É vender depois ou permanecer como acionista?

No passado o BNDES precisou ajudar na implementação de alguns setores, ele floresceu e aí vocês vende as ações (das empresas do setor). Aliás,o BNDES tem lucrado muito com aquilo que fez no passado, o que significa que fez só coisas positivas. Quando estava no BNDES, me lembro que o lucro em 2003 tinha sido R$ 1,4 bilhão. Em 2004, foi de R$ 3,3 bilhões e daí para a frente só tem crescido. Portanto, só faz coisas sólidas. Os bancos públicos vieram para ficar, são atores econômicos importantes hoje e trabalham com princípios de eficiência, responsabilidade e produtividade. São lucrativos, eu faço exigência de metas de produtividade. A Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil são instrumentos de política econômica e dessa participação do Estado estimulando a infraestrutura. Nós estávamos defasados em infraestrutura e os investimentos não vinham espontaneamente do setor privado. O governo precisou dar um impulso. Mas nós não somos estatistas.

Quem é:
Guido Mantega

É ministro da Fazenda desde março de 2006, quando substituiu Antonio Palocci

Também foi ministro do Planejamento e presidente do BNDES

É formado em Economia pela Universidade de São Paulo

PERFIL: “Sou desenvolvimentista sim, mas dos anos 2000, e não dos anos 60 ou 70. Moderno, dinâmico”

JUROS: “As instituições financeiras dizem que querem se garantir contra a inadimplência, mas abusam”

POUPANÇA: “Foi anunciado que a medida é para o ano que vem. Temos tempo para entrar no Congresso”

18/06/2009 - 14:07h Pastore pede discurso mais claro a Meirelles

Apesar disso, economista elogia trabalho do BC durante a crise

Ricardo Leopoldo – O Estado SP

O ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore disse que o atual presidente da autoridade monetária, Henrique Meirelles, precisa ser um pouco mais consistente na comunicação, a fim de coordenar de forma eficiente as expectativas de mercado, especialmente as relacionadas às decisões de política monetária.

“Ele (Meirelles) tem de vir a público e deixar muito claro que está defendendo certos pontos de vista que ajudam o mercado a entender a sinalização. Se há um erro que o presidente do Banco Central está cometendo, é esse. As outras ações são todas acertadas”, comentou Pastore, em entrevista concedida ontem à Agência Estado.

Segundo Pastore, as pressões políticas emanadas de setores do governo para que os juros baixem com maior vigor fazem com que Meirelles se comunique com dois públicos: um deles é o mercado e o outro é composto por integrantes do governo que desejam uma política monetária mais flexível.

Na avaliação de Pastore, foi correta e adotada por critérios técnicos a decisão da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar os juros em 1 ponto porcentual, para 9,25% ao ano. A ata do encontro do BC, que será divulgada hoje, na expectativa dele, não mostrará nenhum otimismo com a recuperação da economia.

Pastore defende que o BC explique que “o hiato do produto está grande, que essa é uma força desinflacionária e que o investimento está baixo, o que freia a demanda”. O ex-presidente do Banco Central acredita que, como a inflação está sob controle, há espaço para os juros caírem pelo menos mais 0,50 ponto na próxima reunião, prevista para julho.

Ele prevê que o PIB deve registrar uma retração de 0,5% a 1% neste ano, mas voltará a crescer no quarto trimestre de 2009 a uma taxa anualizada de 3,5%. Em função do baixo vigor da recuperação do nível de atividade, ele defende que o juro efetivo deve ficar abaixo do juro de equilíbrio por um bom período, talvez até um ano. Para 2010, ele espera uma expansão do PIB de 3,5%.

O ex-presidente do BC diz que respeita o excelente trabalho que a equipe de Meirelles tem feito durante a crise. “O Brasil tem de usar políticas contracíclicas, porque está enfrentando uma crise de demanda. O BC reagiu baixando a taxa de juros, reduziu os compulsórios e criou o Fundo Garantidor de Crédito.” Com isso, diz ele, o crédito está voltando gradativamente. “Se a recessão do primeiro e segundo trimestres está se encerrando, isso se deve muito, se não quase exclusivamente, às políticas contracíclicas adotadas pelo BC.”

07/06/2009 - 13:28h Ex-campeão dos juros

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Celso Ming – O Estado SP

Nesta quarta-feira, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central deverá derrubar os juros para um dígito (abaixo dos 10% ao ano) e os juros reais (descontada a inflação) deverão desabar para a casa dos 5% ao ano, fatos inéditos desde os anos 60, façanha obtida sem artificialidades.

Conquanto os juros ainda sejam muito altos no mercado interno, o Brasil vai abandonando o status incômodo de campeão mundial do preço do dinheiro.

Os analistas estão divididos em duas categorias. Uma delas, aparentemente mais numerosa, espera um corte de 0,75 ponto porcentual ao ano e a outra aposta em que será de 1 ponto porcentual. Mas uma não descarta a possibilidade de que ocorra a outra hipótese.

A partir de quarta-feira, as cadernetas de poupança ficarão mais rentáveis do que a maioria dos fundos de renda fixa, que pagam até 100% do DI. As cadernetas não cobram nem taxa de administração, que é quase sempre superior a 1% ao ano nos fundos de investimento, e nem Imposto de Renda, que varia de 15% a 22% nos fundos de investimento.

Essa diferença de tratamento pressiona o governo para adotar mudanças nas regras da caderneta ou no imposto cobrado sobre o rendimento dos fundos. Mas o governo parece bloqueado pelas pressões políticas. Algumas medidas chegaram a ser ostensivamente anunciadas no início de maio, com resultados desastrosos para a clareza e para a solução técnica do problema. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem afirmado que está à espera de condições políticas mais favoráveis. Se de fato esperar até que haja um cenário político melhor para derrubar o rendimento das cadernetas, então antes das eleições de 2010 muito dificilmente essas alterações acontecerão.

A continuidade do afrouxamento dos juros será justificada pelo Banco Central pela confluência de um punhado de fatores favoráveis. O primeiro deles é o de que, apesar da forte expansão dos salários e do Programa Bolsa-Família, não há exacerbação do consumo interno e, sem ataque da inflação, os juros podem continuar caindo. E a indústria ainda opera com enorme ociosidade, em parte porque enfrenta retração de 40% das exportações de produtos industrializados.

São fatores suficientemente fortes para descartar ameaças relevantes de inflação de demanda, aquela em que a procura se torna tão mais forte do que a oferta a ponto de puxar pela esticada dos preços internos.

Também a área externa contribui para que os juros possam ser derrubados. A recessão está intensa nos Estados Unidos (queda prevista do PIB de 3,0%) e mais forte ainda na área do euro (queda projetada do PIB de 4,6%). Isso significa que a demanda global continuará recuando, o que também tirará pressão sobre os preços.

Além disso, a trajetória do dólar no câmbio interno, em queda acentuada, tende a baratear as importações e, assim, concorrer para abrandamento da inflação na economia interna.

Ao contrário do que tantos apregoam, a queda expressiva dos juros no Brasil será o fator adicional de atração de dólares, na medida em que aumentará a percepção de que a economia brasileira está ajustada.

05/06/2009 - 11:00h ”Não vejo por que mudar a política”

Henrique Meirelles: presidente do Banco Central; Meirelles descarta a sugestão para a adoção de uma política que ora se voltaria para o controle da inflação, ora para o câmbio

 

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Beatriz Abreu, BRASÍLIA – O Estado SP

 


A uma semana da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, faz uma defesa enfática da política executada pela instituição, tanto em relação ao sistema de metas de inflação como a opção pelo câmbio flutuante. Essa política, segundo Meirelles, garante o equilíbrio da economia brasileira e está permitindo ao Brasil atravessar e sair da crise financeira mundial em condições mais favoráveis que outros países. “Não vejo, portanto, por que mudar uma política que está dando certo”, disse Meirelles em entrevista à Agência Estado.

Na entrevista – as respostas foram enviadas por e-mail -, Meirelles aborda a sugestão para a adoção de uma “política cambiante”, ou seja, ora mirando o controle da inflação, ora a taxa de câmbio. Ele descarta essa opção. Para o presidente do Banco Central, esse tipo de regime “envolveria maior incerteza” e “mais risco”, o que resultaria na tendência de taxas de juros de mercado mais elevadas. A seguir, principais trechos da entrevista.

O sr. tem afirmado que os capitais que ingressam no País não estão direcionados às operações de arbitragem. Quais são os instrumentos disponíveis para que o banco tenha garantia de que, de fato, esses capitais estão direcionados a investimentos estrangeiros diretos ou ações, por exemplo?

O Banco Central monitora diariamente o fluxo de capitais e tem total controle sobre as informações disponíveis. A sociedade também pode acompanhar esses dados, pois o BC os divulga periodicamente, com toda a transparência. O forte ingresso de capitais está motivando uma discussão na sociedade a propósito da relação entre a taxa de juros e a taxa de câmbio.

O sr. considera que a redução mais forte da taxa Selic pode inibir a desvalorização do dólar?

A política monetária tem apenas um instrumento, a taxa de juros de curto prazo, e, portanto, pode ter apenas um objetivo a cada momento. Pode, por exemplo, buscar o equilíbrio interno ou pode visar o equilíbrio externo. O sistema de metas de inflação visa a assegurar o equilíbrio macroeconômico doméstico através da política monetária, enquanto o equilíbrio externo é obtido por meio da flutuação da taxa de câmbio.

Não existem alternativas?

A alternativa seria usar a política monetária para atingir o equilíbrio externo, com uma taxa de câmbio arbitrariamente definida pelo governo.Vários países usaram esse sistema, concedendo soberania monetária ao país emissor da moeda âncora. Isso recorrentemente causou desequilíbrios no balanço de pagamentos. Uma segunda alternativa seria fixar uma taxa de câmbio móvel que assegurasse a rentabilidade de alguns setores exportadores, deixando em segundo plano o equilíbrio macroeconômico doméstico, em detrimento do bem-estar da maioria da população.

Em recente pronunciamento, o senhor disse que alguns parecem defender um sistema cambiante. O que significa isso?

Alguns parecem propor um tipo de sistema cambiante, onde a política monetária ora visaria o equilíbrio doméstico ora o externo, de forma discricionária e pouco transparente. Como tal regime envolveria maior incerteza, pois não se saberia exatamente qual é o mandato da autoridade monetária, e mais risco, as taxas de juros de mercado tenderiam a ser mais elevadas.Vale notar, também, que a busca do equilíbrio externo por vezes se choca frontalmente com as necessidades da economia doméstica; imaginemos, por exemplo, quanto teria subido a Selic em dezembro se tentássemos estabilizar o câmbio via taxa de juros e quais teriam sido as consequências para a economia brasileira. Não vejo, portanto, por que mudar uma política que está dando certo.

O sistema de metas tem atingido os seus objetivos? A valorização do câmbio não pode significar que está fracassando?

O sistema de metas para a inflação com câmbio flutuante assegurou, ao mesmo tempo, a estabilização da economia brasileira com uma taxa média de crescimento do PIB de quase 5% nos últimos 5 anos (o que deve ser comparado com um crescimento médio de cerca de 2% nas últimas duas décadas até 2003), inflação na trajetória de metas e juros reais cadentes. Ao mesmo tempo equilibrou o setor externo, pois gerou saldos no balanço de pagamentos que permitiram a acumulação de mais de US$ 200 bilhões de reservas. Um sucesso inquestionável de equilíbrio interno e externo.

Quais são os fatores que mais influenciam a taxa de câmbio?

O real tem mostrado uma alta correlação com o preço das commodities e com os índices de aversão ao risco. Quando o preço das commodities sobe, o real se valoriza e vice-versa. Essa correlação já chegou a ser muito alta, de 0,98. A correlação com os índices de aversão ao risco é um pouco mais baixa, mas ainda assim significativa. Além do mais, devemos levar em conta a própria flutuação do dólar frente às principais moedas, o que é uma questão norte americana.

Qual o efeito do fluxo positivo de entrada de capitais?

Ele permite ao Banco Central prosseguir sua política de acumulação de reservas que tantos benefícios tem prestado ao País. Uma análise cuidadosa dos dados divulgados pelo BC é esclarecedora a esse respeito. É importante observar também que uma parte significativa desse fluxo de capitais é constituída por investimentos estrangeiros diretos, vale dizer, são investimentos em máquinas e equipamentos que vão elevar a capacidade produtiva do Brasil. Outra parte dos recursos destina-se à Bolsa de Valores, que é uma fonte importante de capitalização para as empresas brasileiras.

O Brasil está sendo apontado como um dos países que se sairá melhor da crise financeira. Quais são os fatores que sustentam essa avaliação? Não se trata de um otimismo exagerado, sem lastro na realidade?

Esta avaliação é lastreada no fato de que o Brasil é um dos poucos países que estão fortalecendo seus fundamentos macroeconômicos durante a crise, enquanto a maioria dos países sairá da crise mais vulnerável, como resultado das medidas adotadas para superar os problemas. Os fatos são: o Brasil sairá da crise com reservas internacionais maiores do que quando entrou, uma relação dívida pública líquida em comparação com o PIB menor, uma situação monetária equilibrada, um sistema financeiro saudável e competitivo e com as empresas brasileiras com acesso ao mercado de capitais para financiar o seu crescimento. Apesar dos riscos do excesso de euforia, não há dúvida que estamos em posição mais confortável do que diversos outros países para o pós-crise.

05/06/2009 - 10:30h Brasil se distancia do posto de campeão em taxa

Fernando Travaglini, de São Paulo – VALOR

O Brasil não detém mais a liderança no ranking mundial de juros desde a última reunião do Copom, em abril, quando a autoridade monetária reduziu a Selic em um ponto, para 10,25%. O próximo encontro do Comitê, na semana que vem, deve confirmar essa tendência, levar a taxa básica para o patamar histórico de um dígito e afastar ainda mais o país do primeiro posto.

A lista, elaborada pela Uptrend Consultoria Econômica apontava que no início de maio a liderança estava com a China, com juro real de 6,6%, calculado por meio da taxa nominal descontada a inflação projetada para os próximos doze meses. Em segundo lugar aparecia a Hungria, seguida pelo Brasil.

Hoje, a taxa real do Brasil já está na casa dos 5%. Para Tomás Goulart, economista da Modal Asset, o atual ciclo de queda se deve a questões tanto estruturais, como conjunturais – a crise. Mas ele vê “chances razoáveis” de o juro permanecer nos patamares baixos de agora.

Um entrave para novas quedas poderia ser os juros da caderneta de poupança. Para Rogério Oliveira, diretor de pesquisa quantitativa para mercados emergentes do Barclays Capital, já neste ano a poupança passa a ser mais atrativa. “Devemos observar migração”.

Ivan Dumont, diretor de tesouraria do Banco Alfa de investimentos acredita que a redução de 0,75 pontos no próximo Copom já leve a poupança para um ponto perto do chamado “break-even”, mas não acredita em fuga dos investimentos em renda fixa.

Ainda assim, José Marcio Camargo, economista da Opus Gestão de Recursos acredita que o BC não deixará de diminuir os juros por conta de uma eventual competição entre os investimentos. “Cabe ao Banco Central fazer política monetária e ao governo solucionar esse problema”.

Para Jorge Simino, diretor da Fundação Cesp, essa discussão foi tomada de uma urgência que ele não vê necessária. “No meu cenário, que difere do consenso de mercado, a economia irá se recuperar mais fortemente no próximo ano e pode aparecer alguma inflação residual na margem. Não deve ser nada extremamente relevante, mas o BC pode voltar a subir a Selic no próximo ano”. Ele ainda pondera que se o objetivo é evitar que o público saia dos fundos, do ponto de vista lógico, antes de mexer na caderneta deveria estudar uma forma de manter os investidores na renda fixa.

12/05/2009 - 11:28h O “fator” Serra

O governador de São Paulo voltou a desancar a atuação do Banco Central. O tucano já tinha manifestado sua oposição à política do Copom meses atrás, questionando incluso a própria independência operacional da instituição. Como ainda falta muito para às eleições presidenciais, o discurso fica só como palavras ao vento e não provoca estragos.

A crítica de Serra ecoa a do vice-presidente José Alencar e a do próprio Lula, lamentando o patamar da taxa Selic. Nenhuma palavra, porem, para saudar o fato que essa taxa é hoje a menor da história.

Mas o que é mais significativo é o silêncio de Serra sobre a postura do seu partido em relação a remuneração da poupança, contraditória com a pretensão de forçar uma brusca queda dos juros (ver artigo de Bresser-Pereira em Bresser-Pereira denuncia a perversa aliança entre grandes rentistas e a classe média de pequenos poupadores). Silêncio que se estende ao fato do país ser saudado, junto com a China, como melhor posicionado perante a crise. Entre outras coisas, como disse o prêmio nobel de economia Joseph Stiglitz, por ainda ter margem para abaixar os juros, diferentemente da Europa e os EUA que esgotaram esta possibilidade para irrigar a economia.

Imaginem só o que teria acontecido se no momento da brusca contração do crédito que atingiu o mercado e nas semanas seguintes, o BC tivesse abaixado bruscamente a taxa Selic. O país teria combinado uma massiva fuga de capitais que ainda hoje estariam receosos para voltar, com um recrudescimento da inflação alimentada pelo vigor do mercado de consumo vitaminado pela política econômica do governo federal. Seguramente a medida teria alimentado o setor industrial voltado para o consumo interno, mas seu efeito teria sido de curta duração e os famosos “fundamentos” ficariam a meio-termo comprometidos.

Vale lembrar que os tucanos também questionaram na época a política de crescimento das Reservas cambiais praticadas pelo BC, Reservas que junto com os fundamentos sadios da economia, permitiu que a crise ficasse contida no país.

O que diferencia, porem, a voz de Serra, do coro generalizado em favor da taxas de juros ainda menores -eu sou a favor de juros bem mais baixos, a Fiesp e José Dirceu também, até Meirelles deve ser favorável- é o intervencionismo que ele apregoa. A piada com a que Vinicius Torres começa seu artigo hoje (ver mais embaixo) é significativa do risco pressentido pelo “ativismo” errático de Serra.

Na verdade, nenhuma visão coerente da economia está por trás das injunções de Serra. A crítica procura esconder com linguajar mais a esquerda, a política centralmente de centro-direita que o governador prática e defende. O mesmo acontece com o apoio verbal que ele prodiga à política social do governo Lula, duramente atacada pelos demo-tucanos durante todos estes anos. Trata-se de uma simples tentativa de se apossar do discurso alheio.

No que concerne a realidade, e não o discurso, a postura do governador está retratada na sua oposição ao programa habitacional do governo federal, na sua recusa em desonerar o setor da construção, no seu descaso com a remuneração da Polícia, dos professores ou do pessoal da saúde. Na sua persistente arrogância e autoritarismo no trato de qualquer reivindicação social no Estado. Ela está presente também, na sua política de privatizações, de desmonte do Estado e no seu desprezo pela política de recuperação salarial dos servidores públicos praticada pelo governo federal.

Luis Favre

12/05/2009 - 10:41h Serra: ”BC tem conhecimento insuficiente da economia”

Em nova crítica à autoridade monetária, governador diz que País perdeu momento perfeito para cortar juro

Leandro Modé – O Estado SP

Crítico de longa data da política de juros adotada no Brasil, o governador de São Paulo, José Serra, fez ontem mais um duro ataque ao Banco Central (BC) comandado por Henrique Meirelles. Para ele, a instituição tem “conhecimento insuficiente” da economia brasileira.

“No auge da crise, (o BC) desperdiçou um momento que era perfeito para resolver um impasse estrutural antigo”, afirmou, referindo-se à alta taxa brasileira (Selic), atualmente em 10,25% ao ano. “O ideal seria o BC ter reduzido excepcionalmente, de uma vez só, sem pré-aviso, a Selic em 3 ou 4 pontos porcentuais.”

Na avaliação de Serra, esse “equívoco” está na origem da atual enxurrada de dólares no País, que levou o BC a comprar a moeda americana no mercado à vista ontem e sexta-feira. Desde setembro, a autoridade monetária não fazia esse tipo de intervenção.

Ontem, o dólar caiu 0,44% e fechou cotado por R$ 2,059, menor valor desde 3 de outubro do ano passado. No acumulado de 2009, o real tem ganhos de 13,4% ante a moeda americana.

Analistas de mercado financeiro identificaram nas últimas semanas um forte fluxo de recursos de investidores estrangeiros para o Brasil. O governador paulista e outros economistas considerados “heterodoxos” atribuem a reversão da trajetória cambial à especulação.

São investidores que tomam dinheiro emprestado em países com juros baixos para aplicá-los em outros, com taxas significativamente mais altas.

Por exemplo: um aplicador levanta dinheiro nos Estados Unidos, onde o juro está perto de zero, e coloca no Brasil, que paga 10,25% ao ano (em termos brutos, sem considerar o pagamento de impostos). No jargão do mercado, esse movimento é chamado de carry-trade.

Quando o banco de investimentos americano Lehman Brothers quebrou, no dia 15 de setembro do ano passado, a taxa Selic estava em 13,75% ao ano. A concordata da instituição acelerou e aprofundou a crise econômica global, que já se formava. O nível do juro básico foi mantido pelo BC até janeiro, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) o cortou em um ponto, para 12,75%.

Para Serra, o BC cometeu “um erro de política econômica” ao não reduzir antes a Selic. “(O BC) tem um conhecimento insuficiente da economia e seus modelos partem de demasiadas suposições não muito realistas”, atacou. “Não tenho interpretação maligna a propósito desses equívocos. Mas nem por isso deixam de ser equívocos.”

O governador avalia que baixar o juro hoje é mais delicado do que no fim de 2008, porque a economia global começa a dar sinais de recuperação. “O momento para dar a virada, a meu ver, passou, mas isso não significa que devemos ficar passivos”, disse. Por isso, defendeu que o BC reduza a Selic em ao menos um ponto porcentual na próxima reunião do Copom, que ocorrerá nos dias 9 e 10 de junho.

04/05/2009 - 11:45h “Vírus do rentismo” resiste à queda do juro

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Redução da Selic expõe reação de investidores acostumados a obter do governo ganhos financeiros altos e seguros

Em um primeiro momento, os empresários e a classe média perdem mais do que ganham com a diminuição da taxa básica de juros

MARCIO AITH
DA REPORTAGEM LOCAL

A Selic, taxa básica de juros da economia brasileira, está em seu menor patamar desde a criação do Real, em 1994. Tal fato deveria restaurar um mercado de crédito barato, beneficiando empresas e pessoas. Isso, é claro, a julgar pela conclusão da maioria dos estudos feitos nos últimos 15 anos contra a política de juros do governo. Mas não é o que tem ocorrido.
A queda da Selic tem gerado pouco efeito no custo final de empréstimos, com o qual demonstrou ter pouca correlação. E tem provocado muita resistência da classe média e de setores da economia acostumados a extrair ganhos de juros.
“O vírus do rentismo está encruado de tal maneira na sociedade que não será fácil eliminá-lo”, diz o economista Roberto Giannetti da Fonseca.
“Na verdade, todos nós fomos sócios dos juros altos durante os anos de estabilização incompleta da economia”, diz o ex-ministro Delfim Netto. “Alguns, é claro, foram sócios majoritários. Mas não será fácil desfazer a sociedade.”

Poupança
Prova mais visível dessa resistência é o medo do governo em mudar as regras da caderneta de poupança. Com a queda da Selic, a poupança, que tem regras fixas de rentabilidade (0,5% ao mês mais Taxa Referencial, a TR), ficou mais atraente do que os fundos, que pagam juros e são lastreados em títulos públicos.
O governo quer reduzir a rentabilidade do investimento por dois motivos. Primeiro, para adaptá-lo ao cenário de juros menores. Nenhum outro país tem aplicações que rendem 6% por ano, livres de imposto e taxas, como a poupança.
A mudança também teria como objetivo impedir que os investidores comecem a transferir dinheiro dos fundos para a poupança. Se isso acontecer, o Estado terá dificuldades para rolar a dívida pública.
Na última sexta-feira, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, encontrou-se com um grupo de economistas para discutir o assunto.

Elite
Uma das ideias ventiladas é a de manter a taxa de remuneração atual para depósitos abaixo de R$ 100 mil. Esses depósitos, de pequenos poupadores, concentrariam apenas 10% do volume total da poupança.
Para os demais poupadores, que possuem mais de R$ 100 mil (a “elite do rentismo”), a taxa de remuneração ficaria abaixo de 50% da Selic.
A proposta tem vários problemas. Ao tratar investidores com regras desiguais, abriria uma guerra judicial complicada. Além disso, nada impede que um mesmo investidor disperse seu dinheiro em várias contas na poupança, para si ou para outros da mesma família.
“A transferência do dinheiro para a poupança mostra que parte expressiva da sociedade não é assim tão contrária aos juros altos”, diz Alberto Borges Matias, professor titular de finanças da FEA-RP (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP de Ribeirão Preto).
“O problema não está só na poupança. Grande parte dos ganhos do setor produtivo é hoje financeiro, não operacional. Algumas empresas vão perder. E, para compensarem a perda, podem até elevar seus preços.”
A rigor, as empresas brasileiras mais sofrem do que se beneficiam com o custo alto de capital. No Brasil, a despesa financeira representa 7% da receita líquida do setor não financeiro. No exterior, esse percentual é de apenas 1%.
O problema é que a diminuição da Selic não reduz imediatamente o custo dos empréstimos que as empresas são obrigadas a contrair para fazer investimentos e manter o capital de giro. Em um primeiro momento, portanto, juros menores do governo apenas reduzem parcela dos ganhos financeiros do setor produtivo.
O ex-ministro Delfim diz que o país vive as agruras de um momento difícil de transição. Segundo ele, se a queda da Selic for duradoura, é muito provável que todos se beneficiem. As pessoas terão mais acesso a financiamentos, a prazos mais longos; o custo de capital será mais baixo; as empresas brasileiras serão mais competitivas; e o custo que o governo paga para a rolagem de dívida vai ser menor, liberando investimentos públicos.
Um estudo feito pelos economistas Roberto Giannetti da Fonseca e Pedro Pedrossian Neto, com o apoio do ex-ministro Luiz Gonzaga Belluzzo, mostra o estrago que os juros altos provocaram nas finanças públicas nas últimas décadas.
Desde o advento do Plano Real, em 1994, até fevereiro de 2009, gastou-se cerca de R$ 1,447 trilhão com pagamento de juros da dívida interna líquida do setor público consolidado, o que representa metade do PIB atual de R$ 2,889 trilhões.
Somente desde o início do governo Lula, em janeiro de 2003, já se gastou R$ 885 bilhões em juros da dívida interna, sendo R$ 167 bilhões só em 2008. Apenas para referência, a soma de recursos do programa federal Bolsa Família em 2008 foi de aproximadamente R$ 16,5 bilhões, ou cerca de um mês de serviço da dívida que, em fevereiro, alcançou R$ 1,494 trilhão.
A redução da Selic, portanto, permitiria a liberação de mais recursos para investimentos. Desde, é claro, que o dinheiro liberado seja efetivamente usado para investimentos.
O governo federal gastou praticamente toda a economia que teve com a queda dos juros desde 2006 para reforçar sua própria estrutura e aumentar o salário do funcionalismo público. Entre abril de 2006 e fevereiro de 2009, os gastos anuais do governo central com juros caíram cerca de R$ 40 bilhões. No mesmo período, as despesas com pessoal subiram iguais R$ 40 bilhões, e as de custeio, R$ 26,7 bilhões. Já as despesas de capital -os investimentos propriamente ditos- aumentaram apenas R$ 14,7 bilhões.

04/05/2009 - 10:52h Surgem sinais do processo de recuperação

Debate: Delfim Netto, Candido Bracher e Samuel Pessoa analisam os principais temas da agenda econômica

Cristiano Romero, de São Paulo – VALOR

Ana Paula Paiva/Valor
Candido Bracher: consenso em formação de que as coisas pararam de piorar

É impossível prever com precisão o que vai acontecer com a economia brasileira e mundial nos próximos meses, mas o pior da crise financeira internacional, pelo menos para o Brasil, já pode ter passado. A economia brasileira está entrando em processo de recuperação e, por causa da capacidade ociosa de vários setores, deve voltar a crescer em 2010. A crise, embora tenha atingido o país de forma severa, não desorganizou a economia.

Estas são algumas das conclusões de três observadores privilegiados da crise mundial e seus efeitos sobre o Brasil – o ex-ministro e ex-deputado Antônio Delfim Netto, o presidente do banco Itaú-BBA, Candido Bracher, e o professor Samuel Pessoa, da Escola de Pós-Graduação em Economia da Fundação Getúlio Vargas. A convite do Valor, eles debateram os principais temas econômicos da atualidade.

Em geral, os três estão otimistas quanto às perspectivas de recuperação do Brasil nesta crise, considerada a mais grave desde a Grande Depressão de 1929. Delfim e Pessoa acham que a projeção de queda de 1,3% do PIB em 2009, feita pelo FMI, é inconsistente. Já Bracher diz que ela pode estar correta.

“As projeções do FMI não valem nada”, criticou o ex-ministro. “Estou relativamente otimista com o desempenho da atividade. O choque externo não nos desorganizou”, opinou Pessoa, que, além de dar aulas na FGV-RJ, assessora o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). “Vamos sair bem da crise, mas isso não quer dizer que sairemos rapidamente. Já está se formando um consenso no mercado de que as coisas pararam de piorar”, comentou Bracher. As medidas adotadas pelo governo Lula para enfrentar a crise foram, com poucas exceções, bem avaliadas por Delfim, Bracher e Pessoa.

A única iniciativa criticada de forma consensual foi a adoção de estímulos para que os bancos públicos comprem bancos privados em dificuldades. Na avaliação do professor de FGV, a medida, “um estímulo à estatização”, foi tomada com o beneplácito do Banco Central (BC).

Ana Paula Paiva/Valor
Candido Bracher: consenso em formação de que as coisas pararam de piorar

O BC também foi criticado por Delfim e Bracher. Os dois afirmaram que a autoridade monetária poderia ter reagido de forma mais célere no início da crise, em setembro de 2008. “Poderíamos estar melhor se o BC tivesse utilizado a musculatura que tem para reagir com mais rapidez”, criticou Delfim.

Delfim e Pessoa polarizaram as opiniões quando o tema foi taxa de juros. Enquanto o ex-ministro defendeu a tese de que a taxa Selic é alta por causa de um equívoco da política monetária conduzida pelo BC, o professor da FGV disse que o problema é estrutural. “Quando o país fica bem, os empresários se entusiasmam e o investimento vem, a poupança doméstica não cresce. É por isso que os juros ficam altos”, avaliou Pessoa.

O economista ligado ao PSDB afirmou que o governo Lula não pode ser acusado de gastador na área de custeio. Lembrou, no entanto, que Lula elevou muito as despesas sociais e de pessoal, difíceis de serem revertidas. Na sua avaliação, isso criou um tema para a campanha eleitoral de 2010 e um desafio para o próximo governo. Pessoa não vê, no entanto, risco de insolvência fiscal em 2009 e 2010.

Participaram do debate Denise Neumann, José Roberto Campos e Vera Brandimarte

30/04/2009 - 09:23h O risco Serra

Serra ataca os juros

Celso Ming – O Estado SP

celso_ming.jpgO governador José Serra não gosta da atual política econômica. Desde os tempos de ministro do Planejamento do governo Fernando Henrique, Serra não para de atacar quase tudo o que está aí, quase como os antigos dirigentes do PT.

Esse quase é importante porque Serra se diferencia da chamada ala desenvolvimentista dos economistas brasileiros na medida em que defende rigoroso equilíbrio fiscal na administração pública. Mas, em relação aos demais pilares da atual política econômica, diverge frontalmente. Para ele, estão erradas as políticas monetária e cambial.

Serra nunca deixou claro o que gostaria de ver na política de metas de inflação, pela qual o Banco Central deve usar os juros (volume e preço do dinheiro na economia) unicamente para empurrar a inflação para dentro da meta. No mínimo, a considera mal executada. Ou, como avisou segunda-feira, entende que a atual política monetária (política de juros) não trabalha para dar cumprimento à meta de inflação, mas para valorizar o real (derrubar as cotações do dólar) e, dessa forma, tirar competitividade do sistema produtivo ante a concorrência externa.

Seria precipitado afirmar que o governador defende uma estratégia intervencionista no câmbio e a derrubada implacável dos juros a canetadas. Mas muitas vezes é o que sugerem suas declarações.

A única maneira de obter a derrubada de juros sem artificialismos seria abrir espaço para uma rígida política fiscal (austeridade nas despesas). Assim, os juros cairiam quase naturalmente, pela simples redução da dívida pública.

Essa também parece ser a proposta do ex-ministro Delfim Netto quando prega a definição de um déficit nominal zero das contas públicas, ou seja, o equilíbrio entre receitas e despesas do governo, incluída nestas também a conta dos juros da dívida pública. Num quadro desses, a política de juros não seria excessivamente pressionada porque não teria de fazer o serviço que a política fiscal hoje deixa de fazer.

Até agora, os ataques à política econômica feitos pelo ministro, depois prefeito de São Paulo e depois governador, José Serra, não foram fortemente questionados porque a probabilidade de ele vir a segurar as rédeas do governo foi relativamente pequena. Mas, conforme aumenta o apoio popular à sua candidatura e se aproximam as eleições de 2010, a opinião de Serra vai ser crescentemente levada em conta.

Até 2002, o então presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, manifestava-se drasticamente contra a política econômica do seu antecessor, Fernando Henrique. Mas, em junho daquele ano, assinou a Carta ao Povo Brasileiro em que se comprometeu a manter as vigas mestras dessa estrutura. Com isso, Lula afastou o voto de desconfiança que começava a ser armado contra sua candidatura e seu futuro governo.

Muita gente argumenta que o atual discurso de Serra não passa de dialética eleitoral e que, uma vez no governo, beijará a cruz, como Fernando Henrique e Lula beijaram.

Mas não dá para esquecer de que estas posições do governador Serra são rigorosamente as mesmas que sustentava quando não só era governo, como, também, quando era ministro da área econômica de Fernando Henrique.

A hora dos bancos – Confirmado o corte da Selic em 1 ponto, as atenções se voltam para os bancos: a ver se continuam baixando juros só burocraticamente nas operações de crédito.

30/04/2009 - 08:39h Juro cai ao menor nível da história


Brasil já não lidera em juros reais

O Brasil deixou a liderança do ranking dos maiores juros reais (descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses) do mundo, depois de seis anos na primeira colocação. Com o corte promovido ontem pelo BC, o País passa para a terceira posição, com uma taxa de 5,8% ao ano, segundo a consultoria UPTrend.

O título de maior juro real do mundo foi transferido para a China, cuja taxa é de 6,6%, seguida pela Hungria, com 6,4%. A Argentina está em quarto lugar, pouco abaixo do Brasil, com juro real de 4,3%. A 5.ª posição fica com a Turquia, com 1,7%.

Comitê de Política Monetária decide, por unanimidade, cortar a taxa Selic em 1 ponto porcentual, para 10,25%

Fernando Nakagawa – O Estado SP

Em decisão esperada pelo mercado, o Banco Central anunciou na noite de ontem o corte da taxa Selic em 1 ponto porcentual, para 10,25% ao ano, sem viés. Com a decisão, a autoridade monetária reduziu o ritmo do desaperto dos juros, que haviam caído 1,5 ponto na decisão anterior, em março. A medida do Comitê de Política Monetária (Copom), tomada por unanimidade, levou o juro básico da economia brasileira para o nível mais baixo da história.

Em comunicado divulgado após a reunião, a autoridade monetária disse que o objetivo do corte é “ampliar o processo de distensão monetária” que começou em janeiro. Na avaliação de economistas, o comunicado sugere que o BC deve fazer novo corte na próxima reunião do Copom, em junho.

Com o terceiro corte seguido, a Selic cai ao nível mais baixo desde a adoção do juro básico em base anual, no fim de 1997. Nesse período, o Brasil conviveu com juros que chegaram a 45%, em março de 1999, após a maxidesvalorização do real no início daquele ano.

A decisão de ontem também fez o Brasil perder o amargo posto de país com o maior juro real do planeta – taxa descontada a inflação projetada para os próximos 12 meses. Levantamento da UpTrend Consultoria mostra que a taxa brasileira caiu para 5,8%, abaixo da China que tem juro real de 6,6%.

Minutos após a decisão, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o BC está na direção correta. “Toda a vez que a Selic cai, eu fico feliz. Está na direção correta.”

O corte menos agressivo do juro era esperado pela maioria dos analistas. Nas últimas semanas, em meio a um cenário econômico menos turbulento, a piora dos indicadores perdeu força e o mercado começou a notar espaço menor para o desaperto monetário. Já há quem aposte que a recuperação do tombo provocado pela crise pode começar ainda este ano.

Essa avaliação é sustentada por números recentes. No comércio, a demanda tem se mantido aquecida principalmente pelo consumo ligado à massa salarial. Ao mesmo tempo, a desoneração tributária e a retomada gradual do crédito devem elevar a venda de artigos duráveis.

Para os analistas, esse quadro vai reduzir gradativamente os estoques e, em seguida, a produção deve reagir de forma mais evidente. Ao mesmo tempo, aumentaram as preocupações com a questão fiscal. Há 15 dias, o Palácio do Planalto decidiu aumentar os gastos do governo para ajudar a atenuar os efeitos da crise. Para isso, reduziu a meta de superávit primário – economia feita para o pagamento de juros da dívida – de 3,8% para 2,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2009. Isso, na prática, vai dar R$ 40 bilhões adicionais para o governo federal gastar este ano.

Juntos, demanda relativamente aquecida, expectativa de reação da produção e aumento dos gastos públicos diminuíram o espaço para o desaperto monetário. “Os sinais de melhora relativa da atividade em relação à reunião de março parecem ser consistentes e apontam para uma fase na qual o pior momento terá passado, sugerindo maior cautela por parte da autoridade monetária”, diz em relatório o diretor de pesquisas econômicas do Bradesco, Octavio de Barros.

05/04/2009 - 10:59h ”Queda do juro é para toda a economia”

http://www.revistafator.com.br/imagens/fotos/henrique_meirelles

 

 

Ricardo Grinbaum e Leandro Modé – O Estado SP

 


O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, tem um recado para a sociedade que, à primeira vista, pode soar estranho: a redução da taxa de juros pode incomodar. “Não podemos ter queda para empréstimos e, ao mesmo tempo, dizer que não pode haver queda em alguns investimentos”, diz. “A queda dos juros no Brasil, em ocorrendo, tem de premiar toda a economia.” Em outras palavras, o mundo de rentabilidades altas sem muito esforço ficará na lembrança se os juros continuarem a cair fortemente, como indicam hoje os mercados futuros e as projeções de analistas. Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o BC avisou que a remuneração da caderneta de poupança – TR mais 6% ao ano – é um empecilho à derrubada da taxa básica (Selic). Meirelles conversou com o Estado na sede do BC em São Paulo.

A última ata do Copom apontou que a poupança é um limitador para a queda dos juros. Como mexer em tema tão sagrado para o brasileiro comum?

Em primeiro lugar, temos de separar o que é o pequeno poupador, que não tem conhecimento do mercado financeiro, dos grandes investidores. A segunda questão é que a sociedade brasileira está aguardando por muitos anos uma queda dos juros. Temos de ser consistentes com a queda dos juros. Não podemos ter uma queda para empréstimos e, ao mesmo tempo, dizer que não pode haver queda em alguns investimentos. A queda dos juros no Brasil, em ocorrendo, tem de premiar toda a economia.

É possível preservar o pequeno poupador e mexer com o grande?

Não há, ainda, nenhuma decisão tomada.

Mexer na TR (taxa referencial, usada no cálculo da remuneração da caderneta de poupança) é uma possibilidade?

Pode ser uma solução, dependendo da evolução no longo prazo. A longo prazo, temos um limite que é o rendimento real de 6%. Essa é uma questão que, cedo ou tarde, terá de ser encaminhada.

O brasileiro está preparado para conviver com uma rentabilidade de suas aplicações bem mais baixa do que até agora?

Esse é o desafio. Espero que daqui a pouco o BC não comece a ser criticado por manter juro muito baixo. Uma das coisas que muitas vezes algumas pessoas não gostam que se diga, mas é realidade: é a primeira vez em décadas que o BC pode, numa crise, baixar os juros para estimular a economia. Não temos mais de estar preocupados com vulnerabilidades. É um ganho do processo de estabilização da economia.

Que fatores permitiram isso?

Em primeiro lugar, uma inflação consistente com a trajetória de metas nos últimos anos. Em segundo, a diminuição da relação dívida pública/PIB. Em terceiro, acumulação de reservas, que eliminou a vulnerabilidade cambial. Em consequência disso, o País se tornou credor líquido, o que permitiu ao Tesouro ter ganhos fiscais com a desvalorização do real.

Desses quatro fatores, três estão diretamente ligados à atuação do BC. Por que, então, o BC é tão criticado no Brasil?

Não sei. Talvez seja um fenômeno de comunicação. Não sinto essa crítica conversando com as pessoas nos restaurantes, nas ruas, nos aeroportos. Sinto hoje um reconhecimento muito grande da população. O que acho que existe são setores da liderança empresarial e políticos que elegem o combate aos juros como algo que seja um tema desejável e constante. A verdade é que assumimos com uma Selic a 25% e hoje está em 11,25%.

Preocupa a volta da inflação quando o País voltar a crescer?

A inflação, com política monetária mal conduzida, pode voltar em qualquer país a qualquer momento.

Por que demorou tanto para o juro cair no Brasil?

Se olharmos o que caiu nos últimos anos, não foi uma queda tão lenta. Foi uma velocidade razoável. Saímos de 14% (em termos reais) em 2003 para 5% hoje. É uma queda rápida. O fato de ter demorado tanto tempo até iniciar esse processo de queda está relacionado aos antigos fatores de vulnerabilidade da economia.

O BC tem manifestado preocupação com o spread bancário. Os bancos dizem que não dá para baixar o spread (diferença entre o que os bancos pagam para captar recursos e o juro cobrado do cliente) sem reduzir impostos. Têm razão ou é choradeira?

O aumento de spreads foi mundial, principalmente a partir do episódio Lehman Brothers. Há uma série de componentes, como o aumento do risco. Acredito que, com as medidas já tomadas, devemos voltar aos níveis em que estávamos antes de iniciar esse processo. A partir daí, podemos discutir questões estruturais.

O spread brasileiro é o mais alto do mundo porque o juro brasileiro é o mais alto do mundo?

Não. Tivemos no período recente quedas da Selic com aumento forte dos spreads. Os fatores são outros e muitos serão encaminhados.

O cadastro positivo (banco de dados de bons pagadores que poderia ser usado por todos os bancos e lojas) enfrenta resistência no Congresso. De quem?

Há diversas resistências, algumas explícitas, como das associações de defesa do consumidor. Isso foi negociado, explicado e está diminuindo. Há outras resistências. O relevante é a consciência de que o cadastro positivo hoje é importante, o que fará com que seja aprovado num futuro próximo.

Os bancos estão ajudando ou estão resistindo?

Não acompanho o dia a dia do Congresso para dar uma resposta precisa sobre isso. Os presidentes de bancos com quem converso me asseguram que são favoráveis.

Nos últimos anos, houve um enorme aumento da concentração bancária. É um problema?

Existem países que têm um número pequeno de instituições financeiras, que são muito competitivas. É isso que precisamos criar no Brasil. Portanto, bancos públicos, bancos pequenos e médios crescendo, cadastro positivo, mais transparência, tudo isso ajuda.

Falta competição ao sistema financeiro nacional?

Não gosto de frases definitivas. Acho que existe uma boa competitividade no sistema financeiro nacional, mas temos uma realidade de spreads elevados. Portanto, aumentar essa competitividade via bancos pequenos e médios, cadastro positivo e uma ação mais forte do mercado é algo saudável para o País.

No pior momento da crise, houve risco de quebra de banco aqui?

Não houve risco no sentido de que o BC, naquele momento, colocou disponível ao mercado bancário o mecanismo do redesconto. Além do que, tínhamos R$ 260 bilhões em compulsórios. Se o BC não tivesse sido autorizado pelo Congresso e pelo presidente a fazer o redesconto, se não tivéssemos os compulsórios, poderíamos ter tido uma crise sistêmica.

O sr. trabalhou muitos anos nos EUA. Como teria lidado se estivesse à frente de um banco quando os produtos que provocaram a crise eram oferecidos no mercado?

Não fiz e não teria feito. Sempre achei essas operações muito arriscadas. Nunca concordei e mais: até aquele momento, achava que era algo peculiar meu por ter vivido em um país que tinha tido tantas crises. Isso mostra que crises financeiras não são peculiaridade de emergentes. Excesso de risco leva a excesso de perda. Uma das conclusões, hoje, é que a regulação deve ser diferente.

O que está na origem dessa crise?

Na última década, a globalização, a tecnologia e a deflação chinesa de produtos exportados permitiu que a política monetária americana fosse acomodatícia e sinalizou que os juros continuariam baixos. Isso levou os tomadores de empréstimos a assumir riscos partindo do pressuposto de que não havia risco macroeconômico. Isso mostrou não ser real. Esse tipo de política monetária foi uma lição que não deverá continuar.

O ano começou ruim, como tem mostrado a produção industrial. Como imagina que terminará?

Nossa previsão de crescimento é de 1,2% para o ano. Em relação à produção industrial, é importante notar que o processo de desestocagem foi liderado pela indústria automobilística, que já está em forte recuperação. Em seguida, bens duráveis, que também já estão em recuperação forte. Mas foi seguido por outras partes da cadeia produtiva. A partir do segundo trimestre, teremos uma visão mais clara, que mostrará a recuperação.

O que esse 1,2% representa ao longo do ano?

Certamente um país em expansão no fim do ano. O crescimento começará a ficar claro no segundo trimestre. Infelizmente, o PIB do segundo trimestre só será conhecido em setembro. Mas alguns dados setoriais serão conhecidos antes disso.

O Brasil pode ter recessão técnica antes desse crescimento?

Não fazemos previsão de PIB trimestral. Dito isso, se ocorrer, será um dado significativo que não muda esse quadro, pois temos um carry-over (carregamento) negativo importante considerando-se a queda no quarto trimestre, muito concentrada em dezembro.

Os números vão piorar antes de melhorar?

Não acredito que piorem. O vale foi de fato no quarto trimestre do ano passado.

A que o sr. atribui a queda tão violenta da economia?

Foi uma conjugação de fatores. Em primeiro lugar, o que de fato não era previsível foi a quebra do (banco) Lehman Brothers. A partir daí, houve uma paralisação – temporária, mas aguda – do sistema financeiro internacional, que atingiu o mundo todo. O crédito global foi dramaticamente reduzido. Isso levou a uma reação em cadeia das corporações globais, que tomaram decisões de redução de estoques e de centralização de caixa. Isso gerou, juntamente com o efeito dos mercados, um processo global de desestocagem sincronizada. Houve efeitos em cadeia em todos os países.

Muitos criticam o BC por não ter reduzido o juro em dezembro.

As avaliações que temos são de que o movimento do BC foi bem-sucedido. O que influencia de fato a atividade econômica é a taxa de juros de mercado. A mensagem e a decisão do BC (em dezembro) fizeram as taxas do mercado a termo caírem a partir daquele momento. Evidentemente, também pesou o decréscimo da atividade, mas o que prevaleceu foi a confiança em que o BC estava no controle do processo e não tomaria nenhuma medida que pusesse em risco a estabilidade dos preços. O fato concreto é que temos hoje a menor taxa de juros reais da história.

Daria para evitar essa forte queda da economia brasileira?

Quem disser que previa a queda do Lehman Brothers não está dizendo a verdade. Portanto, ter tomado medidas partindo do pressuposto de que o Lehman ia quebrar seria muito arriscado. O movimento foi extraordinariamente sincronizado no mundo por causa da globalização financeira, do comércio e do processo de tomada de decisões. Portanto, em alguns momentos, querer se descolar do mundo, como fizemos no passado, pode ter consequências graves e negativas. Podemos substituir uma crise externa de curta duração por uma interna de longa duração. O Brasil está na direção certa.

O que o atrai na vida pública? A vida de executivo de banco não era mais confortável?

Não há dúvida de que a vida de um executivo do mercado internacional oferece vantagens importantes do ponto de vista de tranquilidade pessoal. De outro lado, administrando um banco que tinha presença em 32 países e acompanhando esses países muito tempo, tinha ansiedade grande de poder aplicar tudo isso que vi acontecer no Brasil. Nesse aspecto, me sinto gratificado.

Muitas reportagens ao longo dos anos diziam que o sr. ia cair…

Há uma falta de hábito de muitas pessoas de ter um BC comprometido com a estabilidade de preços. Depois de décadas de desequilíbrio financeiro, é um processo que causa estranheza muitas vezes. Mas os resultados estão aí.

Se depender da sua vontade, o sr. deixa o BC em 31 de dezembro de 2010?

Vamos aguardar. Agora, estou focado no BC.

28/03/2009 - 12:48h Dilma diz que novas medidas anticrise são preparadas

Elder Ogliari – O Estado SP

A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse que o governo federal prepara um novo conjunto de medidas econômicas para lançar nos próximos dias. O anúncio foi feito durante palestra para cerca de 150 deputados, prefeitos, sindicalistas e dirigentes empresariais que participaram de audiência pública “Diagnósticos e Alternativas para Enfrentar a Crise” realizada na Assembléia Legislativa gaúcha.

Questionada pelos repórteres ao final do evento, Dilma não deu detalhes dos planos. “São medidas anticíclicas”, resumiu. “Geralmente elas abrangem a área financeira e pode ser que tenha alguma na área tributária, mas não posso dar garantias antecipadas”, despistou.

Dilma lembrou que já houve redução de alíquotas do Imposto de Renda e do Imposto sobre Produtos Industrializados e admitiu que o governo “considera outras hipóteses”, com a ressalva de que “é muito cuidadoso ao fazer isso”. Para explicar a cautela, destacou que cortes na carga tributária podem afetar a viabilidade dos pequenos municípios porque implicam em redução dos repasses às prefeituras.

Repetindo o que havia dito às centrais de trabalhadores na audiência, a ministra confirmou para os repórteres que a manutenção de empregos é condição à qual setores e empresas que buscam benefícios devem se submeter. “Não é possível fazer financiamento e nem tampouco redução de carga tributária para quem vai desempregar”, ressaltou.

Dilma também identificou o atual momento como o primeiro em que o Brasil está em condições de reduzir a taxa de juros de forma significativa sem que isso resulte em pressão inflacionária. “Você tem um quadro de queda de demanda e um quadro de queda de preços que quase se pode chamar um quadro deflacionário e, portanto, hoje tem o espaço (para baixar juros)”, avaliou.

“Esse é o momento em que nós podemos conseguir taxas de juros compatíveis com o nível de robustez institucional que o País tem”, comentou a ministra. “O governo está empenhado nisso”. Dilma lembrou ainda que a taxa básica de juros já baixou 2,5 pontos porcentuais e que a tendência, conforme ata do Comitê de Política Monetária (Copom), é de cair ainda mais. “Eu acredito que será feito isso”, afirmou. “Agora, eu não sou do Banco Central, não posso dizer quanto vai reduzir, que hora vai reduzir”.

Dilma reconheceu que a crise financeira internacional é “grave” e que ainda não sabe qual é a profundidade e a duração que ela terá. Apesar de afirmar que o Brasil foi dos últimos a ser atingidos, admitiu que o País também ficou bastante ferido.

13/03/2009 - 11:42h Os limites do possível

“Concedei-nos, Senhor, Serenidade necessária, para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos e Sabedoria para distinguirmos umas das outras.” – Reihold Niebuhr

Marcio Garcia – VALOR

O Banco Central reduziu a taxa Selic em 1,5 ponto percentual, para 11,25% ao ano, a mais baixa até agora registrada. Apesar disso, houve, mais uma vez, as manifestações de praxe culpando o BC por todos os males da economia, agora agravados com a crise. Mas a decisão também surpreendeu positivamente muitos dos que atribuem ao Copom uma atávica vontade de manter juros anormalmente elevados. A decisão unânime do Copom mostrou que o mesmo soube reagir adequadamente com base nas informações novas sobre a queda do nível de atividade e o repasse limitado da depreciação cambial à inflação.

Fossem as informações hoje disponíveis já conhecidas na ocasião das últimas reuniões, é possível que o Copom tivesse deixado a taxa Selic cair mais rápido. Análise da conjuntura econômica competente é insumo fundamental para a política monetária, e o Copom debruça-se sobre todos os dados conhecidos pelo público, bem como sobre aqueles aos quais apenas a autoridade monetária tem acesso. Mas não é possível prever sempre com precisão e, frente aos riscos mutuamente exclusivos de ficar um pouco “atrás da curva” ou deixar as expectativas inflacionárias saírem de controle, o BC deve atribuir sempre maior peso ao segundo risco. O mandato legal do BC é cumprir as metas para a inflação definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

De qualquer forma, uma eventual aceleração na queda dos juros não teria impedido a economia brasileira de ser afetada pela crise mundial. É um erro atribuir à política monetária a desaceleração da economia brasileira a partir do 4º trimestre de 2008. É preciso entender o que a política monetária pode fazer para mitigar os efeitos recessivos da crise e não ter ilusões quanto ao seu potencial.

Alguns analistas acham que se o BC tivesse cortado os juros já no 4º trimestre, poderia ter contido a queda do investimento, revertendo as expectativas recessivas. Talvez até pudesse ter ajudado, mas o efeito seria mínimo. Afinal, frente ao agravamento da crise mundial e à brusca queda dos preços das commodities, com grande retração das nossas exportações, seria difícil que juros menores reavivassem os “ânimos vitais” (animal spirits) dos empresários. Seja como for, a Selic tem pouca relevância para o investimento no Brasil, e a TJLP já está, há muito tempo, bastante baixa (6,25% ao ano). Quanto ao consumo das famílias, a retração dos bancos – reduzindo prazos, cancelando rolagens e aumentando spreads – teria feito grande estrago de todo jeito. Juros mais baixos teriam ajudado marginalmente, mas não revertido o efeito da crise mundial.

Houve manifestações após a decisão do Copom defendendo que o BC deveria, agora, focar exclusivamente em evitar a recessão, deixando de lado a inflação, que não constituiria mais risco. O BC jamais poderia fazer isso. Tem, por dever de ofício, que analisar ambos os riscos, dando prioridade à inflação. Piores foram declarações de próceres do PSDB incitando o presidente da República a intervir na condução da política monetária. É estranho e deplorável que o partido que, no poder, derrotou a hiperinflação e construiu o sistema de metas para inflação, agora pareça empenhado em desmontá-lo.

A Alemanha, que viveu uma hiperinflação nos longínquos anos 20, é conhecida por sua ojeriza à inflação e consequente conservadorismo, até hoje, quanto à política monetária. Já, no Brasil, que só tardiamente venceu a hiperinflação com o Plano Real, é comum se ouvir, ou ler, que a ameaça inflacionária é um bicho papão inventado pelo BC para justificar seu fascínio por juros altos. Muitos economistas defenderam no passado a ideia que uma pequena inflação era boa, pois ajudava a financiar o crescimento da economia. Outros tiveram participação ativa em colocar o país no caminho da hiperinflação, ao adotarem combate inflacionário via pretenso aumento da oferta em vez de redução de demanda. Essas mesmas pessoas, hoje, ridicularizam a política monetária que conseguiu, a duras penas, corrigir o desastroso resultado hiperinflacionário de seus erros.

O gráfico mostra que o sistema de metas para a inflação vem funcionando bem, recorrendo a uma medida da credibilidade da política monetária. No gráfico, mostra-se a meta para a inflação nos 12 meses seguintes, obtida via interpolação das metas anuais fixadas pelo CMN (linha preta). É mostrada, também, a média das expectativas do mercado financeiro, coletadas pelo BC, para a inflação nos 12 meses seguintes (linha cinza). A diferença entre a expectativa e a meta é uma medida de credibilidade do controle inflacionário. A série “hiato de credibilidade” (em formato de área) mede exatamente isso. O gráfico contém, também, a série da taxa Selic (linha pontilhada). Vê-se que a expectativa inflacionária subiu muito além da meta ao final de 2002, forçando a modificação da mesma, além da alta dos juros. Após esse episódio, as expectativas têm oscilado em torno da meta, consolidando a credibilidade da política monetária. A taxa Selic tem sido elevada e reduzida em torno de uma tendência de queda em médio prazo, de forma a fazer as expectativas de inflação, e a própria inflação, convergirem para a meta.

 

Clique no gráfico para ampliar
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Em suma, a taxa Selic deve continuar a cair para ajudar a mitigar a recessão, mas não a evitará; o poder de arrasto da parada brusca de fluxos de capitais e da queda da demanda externa é muito grande. Em qualquer caso, a baixa dos juros não deveria colocar em risco o sucesso na obtenção da meta para inflação. A política monetária brasileira vem cumprindo satisfatoriamente seu papel e não precisa nem deve ser alterada.

Marcio G. P. Garcia, PhD. por Stanford, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, escreve neste espaço uma sexta-feira a cada mês.

12/03/2009 - 09:23h Aumento de dose

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Celso Ming – O Estado SP

O ex-ministro Delfim Netto vai ter agora de encomendar uma missa ecumênica. Foi o que ele prometeu publicamente caso o Banco Central (BC) tesourasse os juros básicos em 1,5 ponto porcentual, o que ontem aconteceu.

É verdade que, nas últimas semanas, cresceu o cordão dos analistas que apostavam em cortes de até 2 pontos porcentuais. Mas o BC não é de tacadas assim.

Essa dose do corte, de 1,5 ponto, já reflete uma inusitada agressividade da autoridade monetária, o que não deixa de ser surpreendente para quem acompanha a posição, sempre tão conservadora, da atual direção. Surpreendeu até mesmo Delfim, experiente operador e observador da política econômica brasileira.

O BC foi surpreendente porque também a violência da crise atropelou as previsões dos seus diretores, que vinham fazendo dueto com o presidente Lula no samba da marolinha. Se não tivesse sido surpreendido, o BC teria se dado ao trabalho de administrar as expectativas dos agentes econômicos de maneira a que contassem previamente com o corte mais drástico.

O conteúdo do comunicado divulgado logo após a reunião parece passar a mensagem de que o tratamento de choque monetário (ou quase isso) ontem adotado se justifica porque a crise desembarcou no País mais braba do que o esperado, fator que deverá segurar o consumo interno e, assim, atrofiar no ovo a inflação que poderia tomar corpo.

Mas o que mais importa agora é olhar para a frente. Esta é uma questão que ficou especialmente importante por duas razões. Primeira, porque esta diretoria do BC não é de trabalhar aos solavancos. Sempre preferiu seguir mais devagar para poder ir mais longe. Significaria isso que está disposta a manter cortes de 1,5 ponto porcentual por vez, em mais uma ou duas reuniões do Copom? Aparentemente, não.

Em segundo lugar, não está tão claro que a inflação esteja sendo empurrada para dentro da meta, como parece indicar a atual curva de juros do mercado.

Tal como aferido pelo levantamento semanal do BC (Pesquisa Focus), o mercado espera para este ano uma inflação de 4,57%, ainda acima da meta. Além disso, os números do IPCA de fevereiro ontem divulgados pelo IBGE mostram que o avanço do custo de vida continua desproporcionalmente elevado: de 0,55% no mês e de 5,90% em 12 meses. Essas considerações sugerem que o contra-ataque à alta de preços teria de ser retomado.

O comunicado do Copom deixa claro que o impacto da crise global sobre a economia brasileira está sendo muito maior do que o anteriormente calculado pelo próprio BC.

Pode-se deduzir que o estancamento do crédito externo a partir da quebra do Lehman Brothers, em setembro (e isso não ficou explícito no comunicado), prejudicou o crédito interno, um dos conduítes da política de juros do BC. Assim, deve ter ficado mais importante reforçar a oferta de moeda na economia de modo a compensar a perda de eficácia da política de juros.

O próprio BC deixou claro que não se deve esperar por novos cortes automáticos dos juros básicos nas proporções ontem determinadas. O que vier depende do comportamento futuro da economia e do efeito da expansão monetária iniciada em janeiro.

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11/03/2009 - 11:08h A crise e a política econômica

Cristiano Romero – VALOR

Se alguém ainda acredita que o Brasil foi atingido apenas por uma marolinha da crise mundial, é bom dar uma olhada nos números do Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre de 2008. Uma boa imagem para retratar o que aconteceu é a do atleta que, correndo uma maratona, acelerou o passo nas últimas voltas, aproximou-se dos primeiros colocados, mas, repentinamente, escorregou e levou um tombo. O acidente não foi capaz de debilitá-lo de forma definitiva, mas ele ainda não sabe quando voltará a correr como antes.

No trimestre anterior ao do desastre, o PIB brasileiro cresceu, quando comparado ao mesmo período de 2007, 6,8% em termos anualizados. Entre outubro e dezembro, expandiu-se apenas 1,3% em relação ao último trimestre do ano anterior. Foi uma desaceleração brutal. Ainda assim, o resultado não foi capaz de tirar o brilho do desempenho de 2008, quando a economia cresceu, pelo segundo ano consecutivo, acima de 5%.

Está claro, portanto, que o que derrubou o PIB brasileiro nos últimos meses foi exclusivamente a crise financeira internacional, apontada por muitos analistas como a mais grave desde a Grande Depressão, de 1929. Não fosse a crise, o Brasil poderia ter fechado 2008 com a maior taxa de crescimento em duas décadas. E o melhor: com a inflação sob controle (dentro do intervalo de variação previsto no regime de metas).

O que levou o país ao seu melhor momento em quase 30 anos foi uma política persistente de estabilização iniciada em 1994, com o lançamento do Plano Real, aperfeiçoada em 1999, com a adoção do tripé superávit primário-câmbio flutuante-metas para inflação, e fortalecida em 2003, com a decisão do governo Lula de incrementar o esforço primário. A severa crise internacional, que reduziu fortemente a demanda externa e secou as fontes de financiamento, interrompeu o ciclo de crescimento da economia brasileira, mas não a desorganizou nem colocou em xeque o modelo adotado há dez anos.

Apesar da gravidade da crise, e ao contrário das turbulências anteriores, o Brasil não quebrou. Além disso, diferentemente de algumas nações emergentes, o país dispõe hoje de vários instrumentos, e os está utilizando, para enfrentar as dificuldades. Abandonar, a essa altura, o modelo escolhido e testado ao longo de uma década seria colocar em risco a construção institucional que, antes da crise, acelerou o crescimento. Por incrível que pareça, há, no governo, quem defenda mudança de rumo, mas, justiça seja feita, fora também – ontem, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, instou o presidente Lula a intervir no BC.

O diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea, João Sicsú, propôs que o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) promova um corte significativo da taxa básica de juros (Selic) – ele não deixa sua proposição muito clara, porque, na verdade, recomenda que a taxa caia 5,75 pontos percentuais gradativamente até outubro, mas também sugere que se faça isso de uma só tacada, na reunião de hoje do Copom. Sicsú sustenta que a redução da Selic geraria economia fiscal em 2009 de algo entre R$ 30 bilhões (se a queda da Selic for gradual) e R$ 43 bilhões (se for imediata). Com isso, o governo manteria um dos componentes da demanda funcionando – o gasto público.

O cálculo foi feito sobre a parcela da dívida pública indexada à Selic. Não se levou em conta o que aconteceria com o restante da dívida e também com a inflação (em 11 páginas da nota técnica, a palavra não aparece uma só vez), na hipótese de uma redução imediata dos juros na magnitude sugerida por Sicsú. O corte da taxa Selic provocaria a deterioração imediata das expectativas de inflação. No momento em que isso acontecesse, a inflação implícita nos papéis indexados a índices de preços subiria. No momento em que o Tesouro fosse renovar essa parcela da dívida, o custo de rolagem aumentaria. Nos papéis prefixados, a curva de juros empinaria, porque haveria expectativa de inflação mais alta.

Hoje, registre-se, a curva de juros está flat para negativa, porque o mercado está projetando juros cadentes. As incertezas, que surgiriam em função do movimento sugerido por Sicsú, elevariam os prêmios de risco embutidos na dívida, contribuindo também para aumentar seu custo.

Sicsú trata a despesa oficial com juros como um gasto discricionário, algo que se decide fazer ou não. No texto, o diretor do Ipea diz que a despesa com juros “tem uma capacidade aproximadamente nula de gerar empregos e renda”, ao contrário dos investimentos em infraestrutura e dos gastos sociais. O sujeito que ganha dinheiro comprando títulos públicos, alega Sicsú, já tem “suas necessidades de consumo satisfeitas”. O que ele apura é transformado em poupança ou é gasto em “produtos importados que não geram empregos no país” – ora, se o sujeito que lucra emprestando ao governo tem sua “necessidade de consumo já satisfeita”, por que ele, quando torra os caraminguás, opta por comprar produtos estrangeiros?

Sicsú alega que a redução da Selic, neste momento de crise, estimularia de forma modesta o aumento dos gastos privados, mas teria efeitos fiscais importantes. “Cortar gastos sociais, correntes ou de investimento significa reduzir a demanda da economia e reduzir ainda mais as possibilidades de crescimento”, afirma.

Por trás da argumentação do diretor da Ipea está o conceito de dominância fiscal, segundo o qual, a definição dos juros pelo BC deve ser guiada por questões de natureza fiscal. Desde 1999, só houve um momento em que o Copom agiu desse maneira – em 2002, mas naquele momento a crise era genuinamente brasileira e o Estado caminhava para a insolvência. Nos anos seguintes, o país se livrou dessa armadilha e a taxa de juros voltou a ser calibrada apenas para controlar a inflação.

Neste momento, em todo o mundo, os bancos centrais estão derrubando os juros para tentar livrar suas economias da depressão. O BC brasileiro está no mesmo caminho. Há grande chance de promover uma forte queda da Selic nesta e nas próximas reuniões, sem descuidar, porém, da inflação. O modelo segue funcionando.

Cristiano Romeroé repórter especial e escreve às quartas-feiras.

11/03/2009 - 11:00h No ano, foi o 3º melhor resultado da era Lula

Alta do PIB em 2008 ficou atrás apenas de 2005 e 2007, com 5,7%

Fernando Dantas, RIO – O Estado SP

Apesar da forte queda no último trimestre, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 5,1% em 2008, o terceiro melhor resultado do governo Lula, abaixo apenas de 2005 e 2007 (ambos com 5,7%). Com o desempenho do ano passado, o PIB per capita cresceu 4%, depois de ter se expandido 4,5% em 2007. Esse é um ótimo resultado, já que a média anual de crescimento do PIB per capita nos últimos dez anos é de 2% e, nos últimos cinco anos, de 3,5%.

O PIB de 2008 teve como destaques, pelo lado da produção, a agropecuária, que cresceu 5,8%, e a construção civil, que teve expansão de 8%. Pelo lado da demanda, as estrelas foram os investimentos, que cresceram 13,8%, apesar do tombo no último trimestre.

Mesmo com o aumento médio da Selic (taxa básica de juros) de 11,9% para 12,5% de 2007 para 2008, a expansão nominal do crédito bancário para empresas (42,2%) e das operações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) (23,4%) contribuiu para o salto dos investimentos.

Os consumos das famílias e do governo cresceram, respectivamente, 5,4% e 5,6%. No caso das famílias, foi o quinto aumento anual seguido, puxado pelo crescimento de 7,9% na massa salarial e pelo crescimento nominal de 30,3% nas operações de crédito com recursos livres para pessoas físicas.

As importações de bens e serviços se expandiram em 18,5% e as exportações recuaram 0,6%. Na agropecuária, os desempenhos principais foram do café, com alta de 25%, cana (19,2%) e milho (13,3%). A construção civil foi impulsionada pelo crédito à habitação, que cresceu 30,4% em termos nominais.

INDÚSTRIA

A indústria de transformação cresceu apenas 3,2% em 2008, o pior desempenho na indústria como um todo. Alguns dos melhores desempenhos na indústria de transformação foram segmentos como “outros equipamentos de transporte” (exclui automóveis) e produtos farmacêuticos. E algumas das piores quedas foram em produtos de madeira e produtos químicos, materiais elétricos e equipamentos de comunicação.

A indústria extrativa mineral cresceu 4,3% em 2008 e a de produção e distribuição de eletricidade, gás e água se expandiu 4,5%.

Os melhores desempenhos entre todos setores industriais e de serviços ficaram com a intermediação financeira e previdência complementar (9,1%, puxada pelo crédito e seguros) e os serviços de informação, impulsionados pela telefonia celular. O comércio cresceu 6,1%.

TRIBUTOS

Os impostos sobre produtos cresceram 7,4% em 2008, mais que o valor agregado a preços básicos, que cresceu 4,7% (juntos, valor agregado e impostos compõem o PIB, que cresceu 5,1%). Os maiores aumentos de tributos foram os das importações – 23,4%, acompanhando o salto das compras externas -, Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), com 7,9%) e Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), com 6,9%.


REAÇÕES

Antonio Delfim Netto
Ex-ministro da Fazenda

“Como a atividade está fraca, o que demonstrou o PIB no quarto trimestre do ano passado, eu acredito que o BC deveria cortar os juros em 2 pontos porcentuais amanhã. Mas isso não deve ocorrer. Se o Copom diminuir a Selic em 1,5 ponto porcentual, mando rezar uma missa ecumênica”

Alexandre Schwartzman
Economista-chefe do banco Santander

“A queda de 3,6% do PIB no quarto trimestre de 2008 vai provocar um efeito carregamento (carry over) negativo da ordem de 1,5% a 1,7% para o PIB em 2009. Essa é uma conta grosseira, já que ainda não refizemos os cálculos com base nos novos números do IBGE”

José Serra

Governador de São Paulo “Infelizmente, não me surpreendeu (a queda do PIB).Isso sugere uma ação rápida dos governos nas três esferas e, principalmente, do governo federal, que tem nas mãos a política monetária. Depois de seis meses, ainda pratica a política monetária mais equivocada de todos os países do mundo”

Pedro Malan
Economista e ex-ministro da Fazenda

Existe um amplo espaço para se reduzir os juros nominais e reais e podemos chegar até o fim do ano a um dígito. O resultado do PIB (queda de 3,6% no quarto trimestre de 2008) é uma das razões que me levam a pensar que há mais espaço para reduzir os juros”

Gustavo Franco
Ex-presidente do Banco Central

“Nunca faltou coragem aos definidores da política monetária de subir os juros, resistindo a pressões políticas para que não o fizessem. Existe uma oportunidade inédita de se baixar os juros de maneira agressiva. O movimento tem que ser abrupto daqui para frente”

Rodrigo Maia
Deputado federal pelo RJ e presidente do DEM

“A queda do PIB mostra incompetência e irresponsabilidade do governo. O presidente Lula continuou tratando a crise como marola e não se antecipou tomando medidas no momento adequado, quando a economia estava bem”

Sem crise, a economia teria crescido 6,1%

 

Sérgio Gobetti – O Estado SP

 


A economia teria fechado 2008 com crescimento de pelo menos 6,1%, a maior taxa desde o Plano Cruzado, em 1986, se não fosse a guinada provocada pela crise mundial. Nos três primeiros trimestres do ano passado, o Produto Interno Bruto (PIB) vinha crescendo acima de 6% em relação ao mesmo período de 2007 e, de um trimestre para outro, vinha se expandindo cerca de 1,7% a cada três meses. Se, em vez de cair 3,6% no último trimestre, o PIB tivesse ficado simplesmente parado, o crescimento no final do ano teria sido 1% maior do que o registrado pelo IBGE.