11/06/2009 - 20:10h Stella, Cortazar e eu
Os que me acompanham no twitter (twitter.com/blogdofavre) sabem que fui ao cinema ver Stella e também sabem que aproveitei para comprar o último livro de Cortazar, na livraria Cultura. O livro, -falarei do filme depois- “Papeles inesperados” (está em castelhano ainda) reune artigos, notas, cartas coisas diversas. Tem até poemas como:
Y también no estar triste,
no crecer con las fuentes, no dobrlarse en los sauces.
Ancha es la luz para dos ojos, y el dolor danza
en los pechos que aceptan sin flaqueza sus fríos escarpines.
Y no decirte ni lejana ni perdida
para no darle la razón al mar que te retiene.
Y elogiarte en la más perfecta soledad
a la hora en que tu nombre es la primera lumbre en mi ventana.
Benditos sean mis ojos
porque tan alto miraron.
Se chama Mi sufrimiento doblado…
Mas não é da poesia que queria falar e sim de um texto com o título “A Veja le interesa saber…“, onde Julio Cortazar responde em 1982 à pergunta da revista brasileira “por que adoptei a nacionalidade francesa?”
“Que ese alguien haya vivido treinta años en un país de otra lengua y que haya escrito allí diez o doce libros en español, destinados invariablemente a los lectores latinoamericanos, parecería poca cosa frente al hecho espantoso de que ahora tengo un pasaporte francés en vez de uno argentino, como si el pasaporte fuera el verdadero corazón de los rioplatenses. Que eso lo piense el general Viola, entra en la lógica más estricta de las dictaduras y sus servidores; pero yo no acepto esa lógica, y en cambio sé dónde tengo el corazón y por quiénes late.”
Depois de ler o poema e essa resposta à Veja, comprei o livro e fui ao cinema, ver Stella, um filme francês.
A apresentação feita por Luiz Zanin Oricchio (ver embaixo) e também o artigo de Luiz Carlos Merten, ambos no caderno Cultura do Estadão, me incitaram a escolher Stella e sai feliz da escolha.
O papel da escola, no que está última tem como fator de integração, e da leitura como instrumento de emancipação e ruptura; na história doce, dura e nostálgica de uma menina na entrada da sua adolescência. Humano, terrivelmente humano, lindamente humano, esperançosamente humano.
Como escreve, Luiz Zanin Orocchio, “o mérito da diretora é não dramatizar problemas e nem evitá-los. Tudo o que acontece com a menina é mostrado, ou sugerido, por mais duro que seja. Nem por isso vira uma tragédia. O estilo do filme está em consonância com essa disposição mental – exibe leveza e frescor. E, sim, Léora Barbara é um achado e tanto.”
Estranho, mas em algum lugar o filme e Cortazar se encontram.
Talvez em mim. LF
‘Stella’ trata da transição da infância para a adolescência
Filme discute a cultura multiétnica francesa ao tratar da amizade entre uma menina francesa e outra judia
Luiz Zanin Oricchio, de O Estado de S. Paulo
SÃO PAULO - Stella (Léora Barbara) é a garota que mora em cima do bar dos seus pais (Karole Rocher e Benjamin Biolay) no filme de Sylvie Verheyde. Verdade, não se trata exatamente do melhor lugar para viver o fim da infância, entre bêbados que cantam durante a madrugada e, ainda por cima, com pai e mãe instáveis, eles também chegados ao álcool e a uma certa promiscuidade. Sylvie, que com esse enredo (consta que semiautobiográfico) poderia comprazer-se no moralismo acusatório, trata tudo com muita suavidade. Prefere compreender os personagens a julgá-los e, com isso, seu trabalho ganha em qualidade.

‘Stella’: o mérito da diretora é não dramatizar problemas e nem evitá-los. Foto: Divulgação
Mesmo porque, a ideia do filme contempla a abertura de Stella a nova perspectiva quando conhece, na escola, uma garota chamada Gladys (Melissa Rodrigues), filha de imigrantes argentinos. A amizade com Gladys mostra a Stella um novo mundo, mais estável que o seu, no qual a leitura, por exemplo, ocupa uma posição muito importante. É o confronto, tratado de maneira nada artificial, entre o subproletariado da periferia parisiense e uma classe mais sofisticada do ponto de vista cultural.
Há também uma reflexão sobre a escola, já que boa parte do filme se passa em sala de aula, onde Stella, se não chega a ser uma criança-problema, mostra desempenho pouco satisfatório, muito em razão da vida que leva. O filme, em certa medida, entra na discussão da cultura multiétnica francesa, como outros trabalhos antes dele. É algo latente naquela sociedade e que pede discussão. No caso, é curioso que a família mais funcional seja a de estrangeiros e não a família francesa “pura”, que é a de Stella. É um comentário da diretora, sutil, sobre os preconceitos que colocam de modo automático a normalidade do lado dos nacionais e a exceção problemática nos que chegaram a essa sociedade e a ela não se adaptaram. Tudo no fundo é mais complexo.
Inclusive a vida da garota Stella, que precisa enfrentar o sempre problemático rito de passagem para a adolescência sob condições nada ideais. Mais uma vez: o mérito da diretora é não dramatizar problemas e nem evitá-los. Tudo o que acontece com a menina é mostrado, ou sugerido, por mais duro que seja. Nem por isso vira uma tragédia. O estilo do filme está em consonância com essa disposição mental – exibe leveza e frescor. E, sim, Léora Barbara é um achado e tanto.
Stella (França/2008, 103 minutos) – Drama. Direção de Sylvie Verheyde – 16 anos. Cotação: Bom

Cortázar, ao que se saiba, não deixou nenhuma instrução do gênero. Simplesmente ignorou esses escritos e deixou-os repousando em silêncio enquanto construía uma das obras mais sólidas da literatura hispano-americana do século passado. Esses inéditos não cobrem um período específico de sua vida, mas abrangem quase a totalidade de sua carreira literária. Segundo informações da editora, há entre eles textos dos anos 1930, quando Cortázar era ainda um simples professor de província e nunca havia publicado, o que só viria a acontecer em 1946 quando Jorge Luis Borges, que então dirigia a revista Los Anales de Buenos Aires, deu espaço para um estranho conto chamado A Casa Tomada. Mas há também textos mais recentes, que acompanham a trajetória do escritor praticamente até 1984, ano da sua morte. Pode-se dizer, então, que esses inéditos significam a descoberta de um Cortázar subterrâneo, ignorado até agora. De que maneira esses textos poderão conduzir a reavaliações da obra ou da biografia é assunto para ser pensado depois que forem lidos.
