30/08/2009 - 20:41h Os seios caíram
Carla Bruni
Ponto de Fuga
Caderno + mais – Folha SP
No Ocidente, o século 20 viu um progressivo desvestir-se feminino, agora há o retrocesso -sabe-se lá o que nos aguarda
JORGE COLI COLUNISTA DA FOLHA
Triste notícia. A revista francesa “Le Nouvel Observateur” relata: “Os tendenciólogos são formais: nada mais brega do que passear na praia sem a parte de cima do maiô”.
É que, dos anos de 1970 até agora, as francesas puseram-se a expor os seios não só à beira-mar, mas nas piscinas públicas, de clubes ou condomínios.
Livres, eles não chocavam mais ninguém. Aquelas que os tinham bonitos chamavam a atenção ao oferecer a beleza descoberta. As menos favorecidas não se importavam muito com deixá-los de fora, e, olhando bem, sempre havia neles alguma coisa que despertava interesse.
Agora, caíram de moda. Pelo menos os nus. Os tempos tornaram-se pudicos, regressivos, conservadores. As muçulmanas sequestram o próprio aspecto com seus hijab (lenço que oculta cabelos e pescoço), jilbab, nicab, sitar, até chegar à burca, que as recobre como se fosse uma tenda ambulante.
As francesas escondem os seios: é muito menos que as muçulmanas, mas é sempre uma dissimulação do corpo, portador de pecados.
No Ocidente, o século 20 testemunhou um progressivo desvestir-se feminino: basta ver as fotografias de praias há cem anos. Agora, há o retrocesso. Sabe-se lá o que nos aguarda: pode ser que o século 21 assista a um paulatino e coletivo striptease ao contrário.
Helenos
Os antigos gregos demoraram em esculpir mulheres nuas. No 6º século a.C., os curos, rapazes, eram representados nus, mas as corês, moças, eram sempre vestidinhas.

No final do século 5º a.C., Calímaco esculpiu sua “Vênus Genitrix” (foto acima) revelando apenas um seio, magnífico.
Seria preciso esperar o 4º século a.C. para que, enfim, Praxíteles desse um novo sopro hedonístico à cultura helênica despindo sua “Afrodite de Cnido” (foto esquerda). A viril democracia ateniense entrara em decadência e a sedução feminina se infiltrava nos costumes.
Eleição
Os seios da Vênus de Calímaco, um visível, o outro recoberto por finíssimo tecido, são estupendos.
Na história da pintura, Courbet [1819-77] deixou um par, insuperável, na tela “A Mulher e a Vaga” (Metropolitan Museum, Nova York). A textura translúcida permite perceber o tom pálido, verde-azulado, das veias sob a pele.
Daniel Arasse, historiador da arte, viu uma metáfora do esperma na espuma do mar que avança sobre o torso da banhista. Análise sem dúvida excessiva, ela confirma, no entanto, a força erótica da tela.

São sempre escolhas pessoais, questão de gosto, que variam. Qual seria o mais belo par de seios em toda a história das artes? Mensagens para esta coluna.
Sutiã
Se Calímaco e Praxíteles esculpiram sublimes seios, Brecheret [1894-1955] é o autor dos mais curiosos. São os da “Musa Impassível”, que ornava o túmulo da poetisa Francisca Júlia [no cemitério do Araçá, em São Paulo] e que a Pinacoteca do Estado trouxe para o seu acervo.
Essa estátua tem o mesmo título de um poema admirável e outrora célebre da grande escritora. Traz as marcas estilísticas de um simbolismo “art nouveau” e tardio naqueles anos de 1920: alongamentos, linhas que fluem. Apoiada numa muretinha, a musa, muito alta, recua os ombros, avança o ventre, empina os peitos pontudos e dobra a cabeça num movimento contrário ao arco do corpo.

O rosto demonstra compunção, buscando traduzir em pedra “o sobrecenho austero”, que figura num dos versos: o modelado dos olhos lembra as deformações de “O Grito”, de Munch. Apenas, ao contrário do que diz o poema, fecha as pálpebras. O efeito engraçado vem do contraste entre a expressão de solenidade afetada, oposta aos seios espevitados e oferecidos. jorgecoli@uol.com.br




Sa posture n’est pas – comme chez d’autres artistes de sa génération – le simple reflet d’une époque en pleine mutation, mais un élément moteur, constitutif de son projet pictural. Il opère depuis sa première grande composition à sujet allégorique, Derniers Moments (1896), jusqu’aux dernières toiles d’après Vélasquez, Titien et Rembrandt, où règnent sous les masques de mousquetaires, musiciens et matadors, le motif d’un autoportrait obsessionnel. La période des « variations » d’après Delacroix, Vélasquez ou Manet (1950-1962), forme l’épisode le plus connu et explicite de cette démarche de relecture critique qui traverse l’ensemble de son œuvre.L’exposition Picasso et les maîtres présentée aux Galeries nationales du Grand Palais se veut un premier bilan. Quelque 210 œuvres se trouvent rassemblées pour l’occasion, issues des collections les plus prestigieuses, publiques et privées, nationales et internationales.Confrontant passé et présent, au-delà des ruptures stylistiques et des innovations formelles, l’exposition présente dans un parcours croisant approches thématique et chronologique, au gré de la peinture de Picasso et en la prenant pour seul guide : Greco, Vélasquez, Goya, Zurbarán, Ribera, Melendez, Poussin, Le Nain, Dubois, Chardin, David, Ingres, Delacroix, Manet, Courbet, Lautrec, Degas, Puvis de Chavannes, Cézanne, Renoir, Gauguin, Douanier Rousseau, Titien, Cranach, Rembrandt, Van Gogh. Espagnols, Français, Italiens, Allemands, ces peintres forment la trame plurielle d’un motif serré où la peinture apprend de la peinture.Un cannibalisme pictural sans précédent est à l’œuvre dans la démarche de Picasso qui érige en système, la peinture de la peinture.En rupture avec les procédés académiques de transmission et de reproduction de la tradition – copie, paraphrase, citation – cette méthodologie nouvelle place la peinture au cœur de la connaissance du monde. Transposition, mimétisme, détournement, dénaturation forment quelques unes des figures de la stratégie déployée par Picasso à l’égard de ses peintres deprédilection. Il aura ainsi fécondé le modus operandi de la création moderne et contemporaine, la tirant aussi parfois du côté de la duplication perverse, de l’ironie et du pastiche.Anne Baldassari, Extrait de l’introduction au catalogue de l’exposition Pablo Picasso et les maitres


