29/08/2008 - 10:03h Desde 2003 houve redução de 40% na taxa da pobreza e ate 2011 investimentos iguais a cinco vezes o PAC

Musculatura para 2010

De olho na sucessão presidencial, Lula prega otimismo para uma platéia de políticos, sindicalistas e empresários: “Estamos caminhando em terra fértil, semeando um novo tempo de investimento”

 

Daniel Pereira Correio Braziliense

 

cardo Stuckert/PR
Lula: esforço para manter o “círculo virtuoso de crescimento com inclusão social e redução das desigualdades”

Um dia depois de enviar ao Congresso uma proposta de Orçamento da União que prevê crescimento menor em 2009, de 4,5%, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva reforçou a aposta no desempenho da economia como trunfo eleitoral neste ano e em 2010. Foi durante uma cerimônia no Palácio do Planalto, idealizada a fim de cavar espaço na mídia para a divulgação do “momento histórico vivido pelo país”. Na platéia estavam ministros, parlamentares, empresários e sindicalistas. Ouviram que, entre 2008 e 2011, serão investidos, com dinheiro público e privado, R$ 2,36 trilhões no Brasil.

O valor eqüivale a cerca de cinco vezes os recursos prometidos no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Além disso, segundo o presidente, seria mais do que suficiente para manter o “círculo virtuoso de crescimento com inclusão social e redução das desigualdades”, espécie de mantra ou slogan da gestão atual. “O crescimento que está acontecendo no Brasil não é, como diria um bom economista, um vôo de galinha. É, na verdade, o de uma águia que descobriu que pode voar muito mais alto do que estava acostumada a voar”, disse Lula.

“Hoje, podemos dizer que o Brasil logrou atravessar o deserto da estagnação econômica que, durante 25 anos, exauriu nossas melhores energias e frustrou os sonhos de toda uma geração. Agora, estamos caminhando em terra fértil. Semeando um novo tempo de investimento e trabalho e colhendo uma nova era de esperanças e de oportunidade”, acrescentou. O discurso otimista foi precedido da apresentação de uma centena de dados sobre o país. Primeiro a falar, o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, discorreu sobre os investimentos.

Ressaltou, por exemplo, que os recursos para construção residencial eram de R$ 80,6 bilhões em 2004. Para 2008 e 2010, estão previstos, respectivamente, R$ 119,2 bilhões e R$ 146,7 bilhões. “Em um ano de crise internacional, as decisões de investimento no Brasil nem tremeram”, disse Coutinho, arrancando um dos raros aplausos em quase três horas de solenidade. Depois dele, também falaram o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, que repetiu números sobre a empresa, e o economista Marcelo Néri, da Fundação Getúlio Vargas.

Combinação
Coube a Néri colocar pitadas sociais no bolo econômico. Ele disse que houve redução de 40% na taxa da pobreza desde 2003. E acrescentou que a queda na desigualdade, registrada nos últimos sete anos, seria resultado de uma combinação de fatores, como recordes na concessão de crédito e na formalização do emprego, além da recuperação da renda do trabalhador. “O recorde de carteira de trabalho assinada é uma aposta muito clara no futuro”, afirmou Néri.

O presidente decidiu realizar uma grande reunião para vender otimismo depois de chegar à conclusão de que o governo divulga mal suas realizações. Para a cerimônia de ontem, convidou empresários como Jorge Gerdau, Eike Batista e Roger Agnelli (da Vale), a “nata do PIB”, como se disse no Planalto. Para dar ares institucionais à empreitada, também convidou os presidentes da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), e do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), o ex-presidente e senador Fernando Collor de Mello (PTB-AL), além de líderes de partidos governistas e da oposição. Caciques do DEM e do PSDB não foram ao Planalto.

“Os números apresentados não são do governo, mas do país. Quem assumir o Brasil encontrará essa realidade”, declarou o ministro de Relações Institucionais, José Múcio Monteiro. A ausência dos oposicionistas não foi o único motivo de lamentação. Nos bastidores, auxiliares de Lula mostravam desapontamento com o discurso do presidente. Lido no teleprompter, o texto teria ficado sem a cara e o jeito da estrela da cerimônia. “Faltou um pouquinho mais de Lula”, declarou um assessor.


O número

Entre 2008 e 2011, serão investidos, com dinheiro público e privado, R$ 2,36 trilhões no país

25/08/2008 - 10:13h Brasil lidera investimento entre países emergentes

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Brasil é o ”queridinho” entre as principais economias emergentes

 

 

País está a frente de China, Índia e Rússia

 

 

País registra a maior taxa de crescimento de investimento direto estrangeiro de 2006 para 2007, revela Unctad

 

 

 

Patrícia Cançado - O Estado de São Paulo

A mineradora sul-africana Anglo American viveu dois milagres econômicos no Brasil. Mas foram necessários 24 anos para apostar de fato suas fichas no País, onde fincou sua base em 1973. Até o ano passado, a operação brasileira da Anglo era a lanterninha entre as dez subsidiárias. A entrada em minério de ferro, com a compra da MMX do empresário Eike Batista, colocou a filial em outro patamar.

Hoje aparece entre os três maiores destinos de investimentos do grupo, ao lado do Chile e da África do Sul. Só essa área vai receber US$ 10 bilhões até 2010, sendo 55% apenas neste ano, um recorde na história da multinacional e talvez o maior desembolso feito por estrangeiros neste ano de uma só vez. “O Brasil entrou no radar da Anglo. A companhia decidiu apostar alto porque quer participar desse crescimento”, diz o presidente da Anglo Ferrous Brazil, Alexandre Gomes.

O “radar” da Anglo dá a medida da importância que o Brasil ganhou no cenário internacional. Entre 2006 e 2007, o País teve o maior crescimento de investimentos diretos estrangeiros entre as economias emergentes, à frente de China, Índia e Rússia, segundo a Unctad, a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. O volume dobrou - saiu de US$ 18,8 bilhões para US$ 37,4 bilhões. Até julho deste ano, encostou em US$ 20 bilhões, o que leva a acreditar que o País deve atingir neste ano o mesmo patamar de 2007, contrariando a tendência mundial, que aponta queda de 37% no fluxo de investimentos.

Quando a expressão Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) foi cunhada pelo banco Goldman Sachs, há sete anos, economistas do mundo inteiro questionaram a presença do Brasil. Até 2006, ainda não havia consenso se o País poderia ou não fazer parte do bloco que dominaria a economia em 40 anos. O banco revisou suas análises e o manteve na lista.

Ainda assim, para muitas multinacionais e fundos de participação estrangeiros, o Brasil só foi redescoberto mais recentemente. “O País está passando por novas fases de crescimento, diferente dos vôos de galinha de antes. Os investidores agora conseguem enxergar a longo prazo”, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luis Afonso Lima.

O avanço em alguns aspectos macroeconômicos é indiscutível. Com a inflação sob controle, os juros em queda, a melhora na renda e a maior oferta de crédito, o consumo disparou, fazendo a festa das montadoras, das construtoras, das empresas de alimentos, dos bancos, das fabricantes de eletroeletrônicos e do varejo de forma geral.

O Brasil ainda perde em termos de tamanho e custo de mão-de-obra, mas os estrangeiros estão sendo atraídos principalmente pelo crescimento do mercado local. Nesse quesito, o País já ganha da China, iguala-se à Índia e só perde para a Rússia, segundo levantamento da Unctad e elaborado pela Sobeet.

O acesso a recursos naturais e a mão-de-obra eficiente faz o Brasil ter preferência dentro dos Brics. Daí o espantoso interesse da Anglo American, da ArcelorMittal, que na semana passada pagou US$ 830 milhões por uma única mina de ferro em Minas Gerais, e das petrolíferas. Isso, sem falar no etanol, que fez uma legião de gringos construírem ou apenas visitarem usinas por aqui.

O Wal-Mart, no País desde 1995, não teria reservado um investimento de R$ 1,8 bilhão para o próximo ano se não confiasse num bom cenário. Neste ano, a classe média tornou-se maioria (51%). Desde 2004, a rede americana já aplicou R$ 3 bilhões na operação brasileira, sendo R$ 1,2 bilhão neste ano. Hoje a filial é referência para outros emergentes.

O último presidente, Vicente Trius, assumiu no ano passado a operação da cadeia de supermercados na Ásia. A expectativa em Bettonville, sede do Wal-Mart, é que ele repita do outro lado do mundo a experiência tida aqui. O Carrefour chegou a cogitar sair do Brasil por dificuldades em competir com o alto grau de informalidade no setor. Em 2007, deu o recado contrário ao pagar R$ 2,2 bilhões (à vista) pelo Atacadão.

DESTAQUES

US$ 37,4 bilhões
foi quanto o Brasil recebeu de investimento direto estrangeiro em 2007

US$ 18,8 bilhões
foi quanto o Brasil captou de investimento direto estrangeiro em 2006

99,3% foi a taxa
de crescimento no período

23/08/2008 - 09:51h USA: a cratera da crise das hipotecas


O ônus das hipotecas

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Jenny Anderson* - O Estado de São Paulo

Quando as ações da Fannie Mae e da Freddie Mac despencaram, as ações de companhias financeiras padeceram. Mas poucas sofreram tanto quanto as do Lehman Brothers, o encrencado banco de investimento cuja ação perdeu mais de 10% em 11 dias do último trimestre.

Nos últimos 12 meses, o preço das ações da Freddie recuou 95%. Nesse período, o Lehman caiu 76%. O índice financeiro Standard & Poor’s diminuiu 42%. A título de comparação, o Merrill Lynch caiu 68% e o Citigroup, 64%.

A conexão entre Lehman, Fannie e Freddie é clara, diz Richard X. Bove, analista da Ladenburg Thalman. “Os negócios do Lehman são mais amplos que os da Fannie e da Freddie, mas o vínculo é que eles estavam fazendo a mesma coisa - montando pacotes hipotecários e os vendendo”, diz ele.

Ademais, o banco de investimento e as agências patrocinadas pelo governo retinham as hipotecas, que agora estão gerando prejuízos e obrigando as empresas a levantar capital num mercado que não se mostra muito disposto a fornecê-lo.

Os infortúnios do setor imobiliário se espalharam por Wall Street. O Merril Lynch deu baixa de US$ 45 bilhões e o Citigroup de US$ 49 bilhões nos ativos. Eles também embarcaram na farra das hipotecas, e seus acionistas e empregados agora estão pagando o preço.

Mas o Lehman ficou no centro do furacão por causa de seu tamanho menor, sua exposição significativa em hipotecas - cerca de US$ 61 bilhões em hipotecas e ações lastreadas em ativos - e sua aparente relutância em adotar medidas drásticas.

O Citigroup vendeu sua grande franquia alemã de banco de consumo, enquanto o Merrill Lynch se conformou e vendeu um portfólio de US$ 31 bilhões de obrigações de dívida colateralizada relacionada a hipotecas por 22 centavos por dólar, além de sua participação na Bloomberg LP. O Lehman não quis comentar seus planos.

Depois de um trimestre desastroso, analistas rebaixaram suas estimativas para o terceiro trimestre do Lehman. Onde haviam previsto um pequeno lucro, eles agora esperam uma baixa contábil de até US$ 4 bilhões e um prejuízo de US$ 3,30 por ação no trimestre.

Na quinta-feira, Bove elevou a classificação do Lehman para compra, mas isso não confortará os funcionários do Lehman. Ele diz que a companhia está madura para um take over (compra de controle acionário) hostil por causa do desencontro entre o que os investidores pensam que a companhia vale e o que a administração pensa que ela vale - bem mais.

“Os investidores não estão dispostos a aceitar nenhuma visão positiva da companhia; a administração não está disposta a vender por um valor profundamente deprimido”, escreveu Bove. “O palco está pronto para uma oferta hostil pelo controle da companhia inteira.” Com a incerteza reinante nos mercados, não está claro que compradores poderiam se apresentar.

O Lehman vem tentando sair da encrenca. Depois de perder US$ 2,8 bilhões no segundo trimestre, sobretudo por conta de baixas em investimentos em imóveis residenciais, ele levantou US$ 6 bilhões.

Depois de explorar os mercados e diluir a participação de acionistas, está ficando sem opções. Ele colocou à venda seus negócios lastreados em hipotecas comerciais e aproximadamente US$ 40 bilhões de investimentos em imóveis comerciais, segundo pessoas envolvidas nas negociações.

Ele também está buscando ofertas para sua divisão de administração de investimentos, incluindo o muito valorizado complexo de fundos Neuberger Berman, segundo fontes envolvidas nas discussões. Também está tentando vender uma participação a fundos de riqueza coreanos, segundo uma pessoa informada das discussões.

O banco de investimento está tentando agressivamente reduzir o risco em seu balanço com a venda de alguns ativos (no segundo trimestre, o Lehman vendeu US$ 22 bilhões em ativos ilíquidos de um total de US$ 147 bilhões em ativos).

Patrick Pinschmidt, um analistas do setor financeiro para o Morgan Stanley, disse num relatório de pesquisa no fim de julho que não esperava que as vendas de ativos e baixas contábeis seriam tão grandes como no segundo trimestre. Mas “vemos o Lehman continuando a reduzir exposições em imóveis comerciais de olho na redução de seus ativos ilíquidos totais em outros US$ 20 bilhões até o fim do ano”, ele escreveu.

Os investidores estão ficando cada vez mais nervosos com a falta de um plano declarado da administração, enquanto outras condições econômicas enfraquecem. O crescimento global está se desacelerando e o panorama para a Fannie e a Freddie continua nebuloso. Some-se a isso a contínua deterioração do mercado de hipotecas comerciais e residenciais, e o Lehman tem encontrado pouca margem de manobra.

Segundos dados que a Standard & Poor?s divulgou na quinta-feira, mais de 41% das hipotecas subprime contraídas em 2006 estão inadimplentes - uma proporção menor que as do Merrill Lynch e do Morgan Stanley, mas maior que as do Credit Suisse e do JP Morgan (O Lehman não precisa necessariamente reter os papéis hipotecários em pacotes para vender, embora seja mais provável que ele retenha mais pedaços desses que de outros.) Hipotecas para pessoas com o crédito um grau acima do subprime (alto risco), chamado Alt-A, estão sendo leiloadas. A Standard & Poor’s estima que mais de 21% dessas hipotecas feitas em 2006 estejam inadimplentes.

Para agravar ainda mais o panorama já tétrico do setor hipotecário, o desempenho geral dos mercados de capitais está ruim no terceiro trimestre - uma questão para todas as empresas, mas de novo, que parece atingir mais duramente o Lehman.

Os spreads de crédito aumentaram em algumas classes de ativos e grandes empresas continuaram mostrando fraqueza.

Segundo pesquisa do Goldman Sachs, a subscrição de dívida - um grande negócio do Lehman - despencou. Para o setor, a subscrição de dívida garantida por ativos caiu 47% em relação ao trimestre anterior, e a emissão garantida por hipotecas caiu 28%. No total, as emissões garantidas por ativos caíram 80% em relação ao terceiro trimestre de um ano atrás, e as ofertas garantidas por hipotecas caíram 87%.

Para o Lehman, a subscrição de dívidas garantidas por ativos caiu 89% desde o segundo trimestre, e 94% de um ano atrás; a subscrição de dívidas hipotecárias recuou 44% ante o trimestre anterior e 94% ante um ano atrás.

Bove vê todo esse clima ruim como uma oportunidade para um investidor hostil abocanhar o Lehman Brothers, cuja capitalização de mercado recuou para US$ 9,5 bilhões.

“Se vai acontecer, eu não sei”, disse ele. “Poderia acontecer? Seguramente. Oportunidades como essa raramente aparecem nos mercados.”

*O autor escreve para o “The New York Times”

15/08/2008 - 10:04h Lucro líquido da CEF cresce 53% no primeiro semestre

Banco faturou R$ 2,5 bi, favorecido por receita maior

 

 

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Patrícia Duarte - O Globo

BRASÍLIA. As maiores receitas com empréstimos e créditos tributários extraordinários levaram a Caixa Econômica Federal (CEF) a encerrar o primeiro semestre do ano com lucro líquido de R$ 2,543 bilhões, 53,4% maior do que em igual período de 2007.

No segundo trimestre, o resultado foi de R$ 1,670 bilhão, 90% maior que o ganho auferido entre abril e junho de 2007.

A receita tributária excepcional foi decorrente do aumento da alíquota, de 9% para 15%, da Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL), que ampliou o uso de créditos que estavam represados. Só no segundo trimestre, a rubrica garantiu ganho de R$ 704 milhões à Caixa.

Para a presidente da instituição, Maria Fernanda Coelho, o resultado do semestre passado foi bastante satisfatório.

A concessão de crédito, por exemplo, cresceu praticamente 30% no período, muito próximo à meta da própria CEF e um pouco abaixo da média de mercado (aproximadamente 33%). Com isso, a receita com intermediação financeira cresceu 6,3% no semestre passado, para R$ 6,023 bilhões.

Um dos destaques ficou para as operações de financiamento da casa própria, cujo saldo cresceu 27% no semestre, para R$ 36,732 bilhões. O vice-presidente de Controladoria da Caixa, Marcos Vasconcelos, destacou ainda que as concessões às empresas também têm ganhado corpo, fruto do melhor desempenho da economia. O crédito voltado à pessoa jurídica encerrou o período com saldo de R$ 9,514 bilhões, 32,8% de crescimento.

A cobrança de tarifas e outros serviços bancários rendeu R$ 3,630 bilhões entre janeiro e junho (alta de 8,3%).

14/08/2008 - 13:52h Trabalhadores informais: bem mais simples e com menos impostos

Nova lei promete formalizar 10 milhões

Profissionais como feirantes poderão se tornar microempresários

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Marianna Aragão e Fabrício de Castro - O Estado de São Paulo

A partir do ano que vem, cerca de 10 milhões de brasileiros que trabalham informalmente como feirantes, ambulantes, costureiras, artesãos, entre outras atividades, poderão se tornar microempresários.

A inclusão de trabalhadores autônomos ou de pequenos negócios com dois funcionários na formalidade faz parte do Projeto de Lei Complementar 02/07, aprovado ontem na Câmara dos Deputados. A proposta que regulamenta a figura do microempreendedor individual (MEI) agora segue para votação no Senado.

Pelo projeto, esses empreendedores, com faturamento anual de até R$ 36 mil, ficam isentos de diversos impostos, como IRPJ, PIS, Cofins, CSLL e IPI. Terão apenas de recolher um valor fixo e mensal de aproximadamente R$ 50,00 por meio de um carnê único ou via desconto na conta de luz. A quantia inclui o pagamento do ISS e ICSM e uma contribuição de 11% sobre o salário mínimo para o INSS.

Além disso, os empreendimentos não precisarão de contabilidade nem emitir nota fiscal - a exceção fica por conta das vendas para pessoa jurídica, que terão de ser registradas. Todas as mudanças valem também para microempreendedores individuais com, no máximo, um empregado.

Segundo o ministro da Previdência, José Pimentel, um dos autores do projeto de lei, o objetivo da proposta é incluir os microempreendedores individuais no sistema da Previdência Social. “Hoje, quando esse trabalhador fica idoso, acaba dependendo da lei orgânica da Assistência Social ou de instituições de caridade”, diz Pimentel.

De acordo com a ele, a contribuição de 11% sobre o salário mínimo, por um período mínimo de 15 anos, vai permitir que os empreendedores que ingressam agora no sistema da Previdência possam pedir a aposentadoria, desde que tenham a idade mínima prevista em lei. A contribuição ao INSS também dará direto a outros benefícios, como licença-maternidade e auxílio reclusão.

“Podendo contratar um emprego e com acesso a benefícios da Previdência, esse indivíduo pode vender para mais gente, comprar mais como pessoa jurídica e ter acesso a crédito diferenciado”, avalia o presidente do Sebrae, Paulo Okamotto.

Os responsáveis pelo projeto estimam que a criação do MEI vai incentivar 8 milhões dos 10,3 milhões de negócios informais existentes no Brasil a se formalizar. Segundo o relator do projeto na Câmara, deputado Carlos Melles (DEM-MG), a nova legislação estimula a formalização porque elimina a maioria das obrigações acessórias de um pequeno negócio. “Ele não se regulariza hoje por causa da carga tributária e da burocracia, principalmente”, diz Melles.

O ambulante Adelmo Severino da Silva, de 32 anos, é um desses empreendedores individuais. Há mais de 13 anos trabalhando nas ruas do centro de São Paulo, ele não paga nenhum imposto nem contribui para o INSS. “Já tentei pagar durante um tempo, mas era muito caro e resolvi parar”, diz.

Silva acredita que a regularização como microempreendedor seria positiva. “Se a lei vier, aceito pagar os R$ 60,00 para deixar de ser informal. Mas o governo precisa pagar ao menos o salário mínimo de aposentadoria, ou não vai compensar”, diz ele, que atualmente vende chocolate nas ruas. “Sou informal porque preciso trabalhar para pagar as contas que não param de chegar.”

MAIS MUDANÇAS

O projeto de lei aprovado ontem na Câmara também traz alterações no Simples Nacional, regime tributário das micro e pequenas empresas (MPEs), em vigor desde o ano passado. Entre as principais mudanças, está a inclusão de novos setores econômicos no sistema tributário simplificado, como serviços na área de saúde - laboratórios e diagnósticos médicos por imagem, academias de ginástica e corretagem de seguros.

A mudança de enquadramento de alguns setores, que passam para tabelas mais vantajosas - por terem alíquotas menores - e a autonomia dos Estados para conceder benefícios fiscais também foram aprovadas na proposta de ontem.

Segundo o consultor de políticas públicas do Sebrae Nacional, André Spínola, uma das novidades mais positivas para as MPEs aprovadas no pacote de ontem é a que regulamenta o consórcio de empresas, criando a sociedade de propósito específico. A sociedade permite reunir MPEs (desde que optantes do Simples Nacional) sob um mesmo CPNJ para comprar e vender em grande escala. “Hoje elas fazem essas operações informalmente. Agora, poderão registrar marca própria, ter acesso a financiamento e exportar”, explica.

12/08/2008 - 09:09h Massa salarial sustenta vendas do varejo e ameniza desaceleração

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Sergio Lamucci, VALOR

O crescimento expressivo da massa salarial tem sido fundamental para impulsionar as vendas do comércio varejista. Aliada à melhora da qualidade do emprego, com o forte aumento dos postos com carteira assinada, a expansão da massa deverá ser importante para tornar mais brando o ciclo de desaceleração da economia que se espera para os próximos meses, ainda que o avanço da ocupação e do rendimento percam fôlego daqui para frente.

A pujança do mercado de trabalho fica clara quando se analisa a evolução da massa salarial nominal de dezembro de 2005 a maio deste ano: no período, ela cresceu 25,9%, uma expansão fundamental para explicar a alta de 27,2% registrado pela receita nominal do varejo no período. O rendimento nominal do trabalho, por sua vez, teve aumento de 18,9%, evidenciando que a ocupação teve papel importante na elevação da massa nominal.

O momento positivo do varejo também se deve à alta firme do crédito nos últimos anos, mas os analistas ressaltam que a própria expansão de empréstimos e financiamentos decorre em boa parte dos avanços no mercado de trabalho. A melhora do emprego e da renda dá mais confiança para o consumidor entrar em operações de crédito, nota a economista Thaís Marzola Zara, da Rosenberg & Associados.

A crescente formalização dos postos de trabalho joga aí um papel decisivo, acrescenta Thaís. A expansão do consumo é mais sólida do que se fosse baseada numa elevação do endividamento sem expansão consistente do emprego e da renda.

Como Thaís, o economista Fábio Romão, da LCA Consultores, chama a atenção para a forte geração de empregos com carteira assinada. De janeiro a junho, o saldo entre contratados e demitidos ficou em 1,361 milhão postos de trabalho de acordo com números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho. Romão acredita que, em 2008, a criação de empregos formais ficará em 1,786 milhão, mais do que os 1,617 milhão do ano passado. “Os trabalhadores com carteira assinada têm obviamente mais segurança para consumir, porque há uma percepção de que é mais difícil perder o emprego”, afirma ele.

Neste ano, o aumento da ocupação voltou a ser o principal responsável pela expansão da massa salarial acima da inflação, que acumula alta de 5,8% nos 12 meses até junho. O emprego cresceu 3,5% no período, ao passo que a renda teve alta de 2,2% superior à inflação. Em 2007, quando a massa salarial aumentou 6,3%, a contribuição do rendimento real foi de 3,2%, um pouco acima dos 3% da ocupação. A aceleração da alta dos índices de preços explica o crescimento mais fraco do rendimento real neste ano, pondera o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale.

Em 2006 e 2007, a massa real cresceu 6,4% e 6,3%, pela ordem. Para este ano, a expectativa é de uma desaceleração do ritmo de crescimento. Vale aposta em 4,6%, resultado que seria composto por um aumento de 3,1% do emprego e de 1,5% da renda real. Como se vê, a inflação mais alta deve avançar sobre uma parcela ainda maior dos ganhos de renda dos trabalhadores no resto do ano, caindo dos 2,2% nos 12 meses até junho para 1,5% no acumulado em 2008.

Thaís diz que no segundo semestre, com o dissídio de algumas categorias de trabalhadores importantes, pode haver alguma recuperação do rendimento real, mas não a ponto de superar a contribuição da ocupação para o crescimento da massa salarial. Para ela, é possível que a expansão da massa neste ano fique na casa de 5%.

O ciclo de alta de juros deve afetar a atividade econômica com mais força no fim deste ano e no primeiro semestre do próximo. Com isso, a geração de empregos na economia tende a perder mais fôlego a partir do quarto trimestre deste ano.

A boa notícia é que não se espera um tranco brusco no mercado de trabalho. Para Vale, por exemplo, é provável que o ajuste se faça principalmente por meio de reajustes salariais menores, o que deve implicar em crescimento menor da renda real, e não por demissões maciças. Demitir quem tem carteira assinada é uma decisão mais custosa, destaca ele. Como a expectativa é de que o ciclo de desaceleração não jogue a atividade econômica no chão, a ocupação deve manter um ritmo de crescimento razoável, diz Vale. Ele espera que o nível de emprego cresça 3% em 2009, sendo o principal responsável pela alta de 3,5% prevista para a massa salarial real. A MB estima que o PIB tenha uma desaceleração moderada, passando de um crescimento de 4,8% neste ano para 3,5% no ano que vem.

Com a expectativa de um mercado de trabalho ainda razoável em 2009, não deve haver uma desaceleração muito brusca do consumo das famílias, que, junto com o investimento, tem sido o principal motor da demanda. Vale acredita que haverá uma alta de 5,6% neste ano e de 4,5% no ano que vem. “É algo bem razoável, nada drástico”, acredita ele.

O ponto é que, no atual ciclo de aperto monetário, os juros reais devem superar um pouco a casa de 8%, um nível bem abaixo dos mais de 12% observados no ciclo de alta anterior, registrado em 2004 e 2005, nota Vale. Thaís aposta numa desaceleração mais forte do consumo das famílias, de 6,3% para 4%, mas também considera que não se trata de uma perda de fôlego das mais bruscas.

10/08/2008 - 10:51h Virar à esquerda para crescer

*JOSEPH E. STIGLITZ - O Globo

A imagem “http://www.themorningsidepost.com/images/2007/09/27/stiglitz.jpg” contém erros e não pode ser exibida.Tanto a esquerda como a direita dizem defender o crescimento econômico. Então, para os eleitores, trata-se apenas de escolher entre equipes gerenciais alternativas? Quem dera fosse tão fácil. Parte do problema se refere ao papel da sorte. A economia americana, nos anos 90, foi abençoada por baixos preços da energia, alta taxa de inovação e uma China a oferecer cada vez mais produtos de boa qualidade a preços decrescentes, tudo combinando para resultar em inflação baixa e rápido crescimento.

O presidente Clinton e o então presidente do Fed (banco central), Alan Greenspan, merecem pouco crédito por isso — embora, a bem da verdade, tenham evitado políticas que pusessem tudo a perder. Em contraste, os problemas que enfrentamos hoje — altos preços de energia e alimentos e um sistema financeiro a desmoronar — foram, em grande parte, causados por políticas erradas.

Há grandes diferenças entre estratégias de crescimento, o que torna altamente prováveis resultados também diferentes. A primeira se refere à forma em que o crescimento é concebido.

Ele não é apenas a ampliação do Produto Interno Bruto. Precisa ser sustentável: crescimento com degradação ambiental, com consumo baseado em endividamento ou exploração de recursos naturais escassos, sem reinvestimento dos rendimentos, não é sustentável.

O crescimento deve ser inclusivo; pelo menos a maioria dos cidadãos deve ser beneficiada. Truques econômicos não funcionam: um aumento do PIB pode até piorar a situação da maioria dos cidadãos. O crescimento recente dos EUA não foi nem economicamente sustentável nem inclusivo. A maioria dos americanos está pior hoje do que há sete anos.

Mas não há um compromisso entre desigualdade e crescimento.

Os governos podem estimular o crescimento via aumento da inclusão.

O maior recurso de um país é seu povo.

É essencial assegurar que todos possam desenvolver seu potencial, o que requer oportunidades educacionais para todos.

Uma economia moderna requer também assumir riscos.

As pessoas ficam mais propensas a assumir riscos se houver uma boa rede de proteção. Se não houver, elas podem pedir proteção contra a competição estrangeira. Proteção social é mais eficiente que protecionismo.

Fracasso na promoção da solidariedade social pode ter outros custos, entre os quais os necessários para proteger a propriedade privada e manter encarcerados os criminosos.

Estima-se que, dentro de poucos anos, os EUA terão mais gente trabalhando em segurança do que em educação.

Um ano na prisão pode custar mais do que um ano em Harvard. O custo de manter encarcerados 2 milhões de americanos — uma das maiores taxas do mundo — deve ser subtraído do PIB, ao invés de adicionado.

Uma segunda grande diferença entre esquerda e direita diz respeito ao papel do Estado no desenvolvimento.

A esquerda entende ser vital que o Estado proveja infra-estrutura e educação, desenvolva tecnologia e até mesmo atue como empreendedor.

O governo assentou as bases da internet e da moderna revolução da biotecnologia. No século XIX, a pesquisa em universidades que recebiam apoio governamental possibilitou a revolução na agricultura.

O governo levou os avanços a milhões de fazendeiros americanos. Empréstimos para pequenos negócios foram cruciais na criação de novos negócios e também de novas indústrias.

A diferença final pode parecer estranha: a esquerda agora entende o mercado e o papel que ele pode e deve ter na economia. A direita, especialmente nos EUA, não. A nova direita, tipificada pela administração Bush-Cheney, é realmente o velho corporativismo em disfarce novo. Ela acredita num Estado forte, com poderes executivos robustos, usados em defesa de interesses estabelecidos e com pouca atenção aos princípios do mercado. A lista de exemplos é longa e inclui subsídios para grandes fazendeiros, tarifas para proteger a indústria siderúrgica e, mais recentemente, megaoperações de salvamento de Bear Sterns, Fannie Mae e Freddie Mac. Mas a inconsistência entre retórica e realidade vem de longe: o protecionismo cresceu nos anos Reagan, inclusive com a imposição da chamada restrição voluntária das exportações de carros japoneses.

Em contraste, a nova esquerda está tentando fazer o mercado funcionar.

Mercados livres não funcionam adequadamente por si mesmos — uma conclusão corroborada pela atual debacle financeira. Defensores do mercado algumas vezes admitem que eles falham, até desastrosamente, mas alegam que têm a propriedade de se autocorrigirem. Durante a Grande Depressão, argumentos similares foram ouvidos: o governo não tem de fazer coisa alguma porque o mercado restabeleceria o pleno emprego a longo prazo. Mas, como John Maynard Keynes disse, a longo prazo todos estaremos mortos.

O mercado não é autocorretivo num período de tempo relevante. Nenhum governo pode ficar sentado assistindo a um país cair na recessão ou na depressão, mesmo quando causadas por excesso de gula de banqueiros ou por avaliação equivocada do risco pelo mercado financeiro ou por agências de classificação. Mas, se são os governos que vão pagar a conta da economia no hospital, devem fazer de tudo para tornar menos provável a internação.

O mantra da direita sobre desregulamentação dos mercados estava errado, e agora pagamos o preço.

Que, em termos de perda de produção, será alto — talvez mais de US$ 1,5 trilhão apenas nos EUA.

A direita costuma alegar seu parentesco com Adam Smith, mas enquanto Smith reconhecia o poder do mercado, reconhecia também suas limitações.

Mesmo em sua época, empresários descobriram que podiam elevar mais facilmente os lucros conspirando para aumentar preços do que produzindo de forma mais eficiente mercadorias inovativas. Poderosas leis antitruste são necessárias.

É fácil dar uma festa. Por uns momentos, todo mundo pode sentir-se bem. Já promover o crescimento sustentável é muito mais difícil. Hoje, em contraste com a direita, a esquerda tem uma agenda coerente — que não oferece só mais crescimento, mas também justiça social. Para os eleitores, deveria ser uma fácil escolha.

*JOSEPH E. STIGLITZ é economista e foi Prêmio Nobel de Economia em 2001

09/08/2008 - 14:06h Mercedes-Benz investe cerca de US$ 500 milhões no ABC

Empresa vai ampliar produção de caminhões em 25% e abrirá centro de logística em Diadema

http://www.cnmcut.org.br/sgc_data/conteudo/1458497145.jpg

Cleide Silva - O Estado de São Paulo

A Mercedes-Benz, maior fabricante no País de caminhões e ônibus, vai ampliar a capacidade produtiva da fábrica de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, em 25%. Para abrir espaço para novas máquinas, a montadora deve transferir a área de logística e montagem de CKDs (kits de veículos para exportação) para uma área em Diadema. Os dois projetos devem consumir aproximadamente US$ 500 milhões em equipamentos e instalações.

O anúncio da ampliação da fábrica será feito na segunda-feira ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao governador de São Paulo, José Serra. A estimativa de fontes do governo é de criação, ao longo dos próximos anos, de cerca de 1,5 mil novos empregos na unidade de São Bernardo, que já emprega 12 mil pessoas, e de 350 na de Diadema. A direção da empresa não confirma os dados.

Para abrigar a nova unidade de logística a Mercedes vai alugar o prédio da Papaiz, tradicional fabricante de fechaduras e cadeados que está transferindo sua produção para a Bahia. Atualmente, a Papaiz só produz em Diadema peças de esquadrias, mas concluirá a transferência da linha nos próximos meses. Inaugurada há 52 anos, a fábrica de São Bernardo está tomada, sem espaço para ampliação, por isso a decisão pela transferência das áreas de logística e CKD para outra área.

Com a ampliação em São Bernardo, a montadora terá capacidade aproximada de 75 mil veículos por ano. A empresa exporta parte de sua produção, principalmente de motores para caminhões fabricados pela marca nos Estados Unidos.

CONCORRÊNCIA

O presidente da Mercedes-Benz do Brasil, Gero Hermann, vinha negociando a liberação do investimento há vários meses com a matriz alemã. O projeto foi aprovado num momento em que as vendas totais de caminhões crescem a um ritmo de 30,5% (de janeiro e julho) e há filas de espera que chegam a nove meses para determinados produtos. No ano, as vendas totais somam 69,3 mil unidades. A produção atingiu 94,9 mil caminhões, 27,5% a mais que em igual período de 2007.

A Mercedes-Benz vendeu este ano 22,7 mil caminhões, 31,5% a mais que em 2007. Sua principal concorrente, a Volkswagen, ficou muito próxima, com 21,6 mil unidades, um aumento de 40% na comparação com o ano passado. As duas travam acirrada disputa pela liderança do mercado e a vantagem da Mercedes é garantida pela Sprinter, com capacidade para até 5 toneladas de carga, segmento em que a rival ainda não atua.

Já em ônibus, a Mercedes mantém liderança absoluta, com 9,2 mil unidades vendidas este ano, 16,6% a mais que em 2007. A Volkswagen vendeu 5,3 mil unidades, desempenho 20,7% melhor que o do ano passado.

A Mercedes também tem uma fábrica em Juiz de Fora (MG), que deve produzir este ano cerca de 30 mil unidades de um sedã de luxo para exportação. A fábrica foi inaugurada em 1999 para produzir 70 mil unidades ao ano do compacto premium Classe A, mas nunca atingiu esse volume. A produção foi suspensa em 2005.

País pode ser 4º maior produtor

CÉLIA FROUFE - OESP

Apesar da robustez dos números da indústria automobilística brasileira, que levaram o setor ao posto de sexto maior fabricante mundial neste ano, ela ainda não chegou ao seu máximo, na avaliação do ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge. “Acho que tem mais investimento, mais salário, mais crescimento da população pobre indo para a classe média e, claro que não vai ser logo, mas podemos crescer mais”, afirmou ele na noite de sexta-feira, durante a Edição 2008 do prêmio “As melhores da Dinheiro”, em São Paulo. Ele embasou sua previsão no fato de que os mercados europeus estão saturados e sem crescimento populacional. “Podemos crescer mais e ir para o quarto lugar”, afirmou. Jorge descartou a possibilidade de o governo oferecer mais incentivos ao setor. “Os incentivos que demos já estão no plano de desenvolvimento produtivo e equivalem para outras indústrias”, disse, citando a depreciação acelerada de investimento e o drawback verde e amarelo (compra de insumos e peças sem impostos para produtos a serem exportados). Ele atribuiu o crescimento da produção e vendas de carros à expansão do crédito e à melhoria do poder aquisitivo de parte da população.

Volks decide ampliar produção no País

Fábrica de caminhões receberá R$ 2 bi em 10 anos

Alberto Komatsu - OESP


A Volkswagen Caminhões planeja dobrar seus investimentos no País no longo prazo, ou R$ 2 bilhões nos próximos 10 anos. A montadora já havia anunciado um desembolso de R$ 1 bilhão entre 2008 e 2012, mas o presidente da empresa, Roberto Cortes, contou que a tendência é de mais R$ 1 bilhão entre 2012 e 2018, com o objetivo de atender a crescente demanda da China, Índia e Rússia.

A estratégia de expansão para até 2018 já está definida. Nesse período, a Volkswagen pretende exportar o equivalente a 25 mil veículos (caminhões e ônibus) de sua fábrica em Resende, no interior do Rio, para serem montados na China, Índia e Rússia. O aumento na demanda dos principais países emergentes do mundo irá puxar a ampliação da capacidade da montadora. A previsão é mais do que triplicar a produção no período, das atuais 47 mil unidades para 150 mil por ano.

“Nossa vocação é crescer 20% ao ano e a estratégia é estar em todos os países em desenvolvimento”, afirma. A idéia é abrir unidades nos três países para montar os veículos com peças exportadas de Resende. A companhia já conta com filiais com esse mesmo perfil de produção na África do Sul, Colômbia e México.

As exportações da Volkswagen de caminhões e ônibus já alcançam 30% da produção atual da fábrica de Resende. No início de julho, a empresa anunciou o terceiro turno de produção a partir de setembro, com a contratação de 1,3 mil funcionários. Essa medida deverá fazer com que a capacidade produtiva da unidade seja ampliada de 220 para 260 veículos por dia.

O objetivo da Volkswagen de abrir filiais de montagem nos demais países que pertencem ao grupo de países em desenvolvimento conhecido como BRIC deverá ser viabilizado com a mesma estratégia que originou a fábrica de Resende. Segundo o presidente da montadora, o objetivo é fazer o investimento nas novas unidades com o apoio de recursos de seus parceiros e fornecedores.

Cortes afirma que a nacionalização de peças em mercados fora do Brasil é viável quando a demanda em cada país alcança o patamar de 15 mil unidades. Por isso, a operação inicial na China, Índia e Rússia deverá ser atendida somente com as peças e componentes produzidas principalmente no Rio.

A fábrica de Resende fez parte de um pacote de investimentos de R$ 1 bilhão entre 1995 e 2001. Foi construída em 1997, após a dissolução da Autolatina, a união entre a Volks e a Ford, no Brasil. Naquela época, a montadora tinha 15% de participação no mercado de caminhões. Este ano a empresa está com 31,4%, segundo o diretor de vendas e marketing, Ricardo Alouche.

06/08/2008 - 10:22h Crédito da poupança para imóveis cresce 86% no primeiro semestre

Balanço do setor indica que foram aplicados R$ 12,932 bilhões, com o financiamento de 128.439 unidades

Renata Gama e Chiara Quintão - O Estado de São Paulo

http://www.tribunaindaia.com.br/Edicao_15_07_06/15_07_06/A8%20%20%20%20%20%20%20APARTAMENTO.jpgA Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) divulgou ontem um balanço que mostra um expressivo crescimento da aplicação dos recursos da poupança no financiamento habitacional em relação ao ano passado. No primeiro semestre de 2008, foram aplicados R$ 12,932 bilhões - 86,66% a mais que em 2007, ano em que o ritmo já foi acelerado e fechou com crescimento de 96%. Ao todo, 128.439 unidades foram financiadas na primeira metade deste ano, alta de 58,9%. A poupança é a principal fonte de recursos do crédito imobiliário, com 70% do total de aplicação, ante cerca de 30% do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Somente em junho, o valor contratado de R$ 3,197 bilhões foi 130,36% maior que o mesmo mês do ano passado. Na comparação com maio, o crescimento foi de 41,35%. Em número de unidades financiadas, junho alcançou a marca de 32.555 - 96,06% acima de junho de 2007 e 48% a mais do que as unidades de maio deste ano. “É um mês especial em que aplicamos mais do que o ano inteiro de 2004″, ressaltou o presidente da entidade, Luiz Antonio França.

O valor médio dos imóveis financiados com recursos da poupança foi de R$ 147,798 mil no primeiro semestre, com cota média de financiamento de 58,84%. “As pessoas estão comprando imóveis com valor maior e utilizando mais o financiamento”, disse França. No ano passado, o valor médio era de R$ 131,110 mil e a parcela média de financiamento, de 56,38%. Em 2006, o porcentual era de 53,20%, em 2005, de 47,76% e, em 2004, de 46,75%.

ESPAÇO

O ritmo segue tão forte que o executivo se sentiu seguro em afirmar que, se o cenário não mudar, o País verá superada a marca histórica registrada em 1981, em que 277 mil unidades foram financiadas com recursos da poupança. Naquele ano, a população brasileira era de 119 milhões de habitantes, número que cresceu 55%, para os 184 milhões de habitantes, conforme o censo de 2007. “Teríamos 415 mil unidades financiadas se o crédito tivesse crescido na mesma proporção. E 415 mil é pouco perto do que o País vai ver no futuro”, disse.

Para França, o espaço para o crescimento está no fato de que o crédito imobiliário no Brasil corresponde a apenas 1,7% do Produto Interno Bruto (PIB), fora do padrão de outros países. No Chile, por exemplo, a proporção é de 15% e nos países desenvolvidos, em média, supera 60%. Para o executivo, à medida que o País cresce, a tendência é a fatia crescer também.

O paradoxo, no entanto, é que se o mercado imobiliário seguir as projeções otimistas do setor, a fonte, um dia, deverá secar. “Vai chegar o momento em que os recursos da caderneta de poupança não serão suficientes para o crédito imobiliário. Vamos ter de encontrar outras alternativas.” O esgotamento, segundo ele, está próximo. “Esse bolsão deve ter uma duração de pouco mais de dois anos.”

Na opinião dos empreendedores do setor, este não é um problema alarmante e, sim, próprio do crescimento. A alternativa estaria no mercado secundário. Segundo João Crestana, presidente do Sindicato das Empresas de Compra e Venda de Imóveis (Secovi), a estrutura legal para que esse mercado funcione já existe, mas ainda falta aperfeiçoamento. “Ainda não há grande volume porque alguns instrumentos precisam ser aperfeiçoados, como permitir que investidor privado individual aplique nos CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários)”, afirma. Hoje, o valor mínimo de investimento é de R$ 300 mil.

04/08/2008 - 14:01h Emprego e renda em alta estimulam o avanço do crédito

Crédito imobiliário cresce 30%

Além do crédito ao consumo, o financiamento destinado à compra da casa própria também tem apresentado forte expansão nos últimos meses. Segundo dados do Banco Central (BC), até junho o volume de operações realizadas com pessoas físicas e cooperativas habitacionais havia somado R$ 52,5 bilhões - valor 30,4% superior ao verificado em igual período do ano passado.

Apesar da alta da Selic, a expectativa é que o mercado continue em expansão. Uma das explicações é a ainda baixa relação entre os financiamentos e o Produto Interno Bruto (PIB). Segundo dados do Banco Central (BC), o crédito imobiliário representa hoje apenas 1,7% do PIB. No Chile, esse número é de 15%; no México, de 11%; e, na Espanha, de 44%. A expectativa é que a modalidade termine o ano com 2,3% de participação no PIB.

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Cenário econômico mais previsível permite a concessão de empréstimos com menor risco de calote

Márcia De Chiara - O Estado de São Paulo

O forte aumento do crédito, apesar da alta da taxa de juros pelo Banco Central (BC) está relacionada ao bom momento da economia. Segundo o vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças Administração e Contabilidade (Anefac), Miguel Ribeiro de Oliveira, além dos prazos mais longos do crediário, hoje o nível de emprego está elevado e sem previsões de desaceleração, o que incentiva a concessão de crédito com menor risco de inadimplência.

O desemprego medido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) recuou de 8,5% em abril para 7,9% em maio. Com isso, a taxa média no ano foi 1,6 ponto porcentual abaixo da registrada no mesmo período de 2007. Descontadas as influências sazonais, o desemprego, que estava em 8% em abril recuou para 7,6% em maio, o menor nível da série histórica iniciada em 2002.

Também o rendimento médio real teve alta de 2,4% de janeiro a maio, enquanto o pessoal ocupado cresceu 3,9%. Resultado: a massa salarial real cresceu 6,4% em maio em comparação ao mesmo mês de 2007 e continua sendo o fator-chave para o crescimento da demanda doméstica, apontado na última ata do Comitê de Política Monetária (Copom), do BC.

O diretor da RC Consultores, Fábio Silveira, destaca que hoje a liquidez é muito maior que no passado. “Não podemos comparar o choque de juros atual com os da década de 90.” Naquele período, em razão dos sucessivos ciclos de inadimplência, os recursos eram escassos para as empresas, que imediatamente cortavam os prazos dos empréstimos que concediam quando as taxas subiam.

“Hoje a história é outra”, diz ele, ponderando que, mesmo com esse aperto, a economia vai crescer cerca de 4%. Na opinião de Silveira, o aparente descolamento entre a alta dos juros e o ritmo de atividade é transitório. “O impacto dos juros demora um pouco mais, mas vai ocorrer.”

Para o sócio-diretor da MB Associados, José Roberto Mendonça de Barros, o crédito já está ficando mais escasso, mas ressalta que o patamar de consumo é elevado. As vendas do comércio devem fechar o ano com crescimento de 9% contra 9,7% em 2007. “Vamos crescer mais lentamente”, diz o economista. Ele observa que, quando há crescimento econômico “a fila anda” e novas camadas de renda ingressam no mercado de consumo, o que ocorre hoje.

ECONOMIA PREVISÍVEL

O que explica esse aparente descolamento entre a política monetária e o crédito é o fato de a economia estar mais previsível, observa o diretor Financeiro do Banrisul, Ricardo Hingel. É exatamente essa previsibilidade de crescimento econômico e do emprego, que não existia no passado, que está fazendo com que os consumidores continuem comprando e os bancos emprestando por prazos mais longos, observa.

“Os prazos não foram encurtados porque o mercado está competitivo”, afirma Hingel. Ele acrescenta que a maior disposição dos bancos para o crédito resulta do fato de a Selic ser hoje menos atrativa para as aplicações em títulos do governo. Cinco anos atrás, quando a Selic era superior a 20% ao ano, a rentabilidade das operações de tesouraria era maior. Hoje a taxa é de 13% ao ano. Isso explica porque sobram mais recursos para as operações de crédito ao consumo.

“A liquidez hoje é excessiva”, afirma o economista da Associação Comercial de São Paulo, Marcel Solimeo. Para ele, o BC atua sobre as expectativas do mercado subindo os juros, mas o lado real da economia é dado pela demanda e esta continua forte. Na opinião dele, a alta dos juros começará a fazer efeito na economia real no último trimestre deste ano ou no primeiro trimestre de 2009.

FINANCEIRAS

O relatório de Crédito do BC, divulgado semana passada, mostra que o spread, a margem do banco que é diferença entre o custo de captação e a taxa do empréstimo destinado às pessoas físicas, aumentou 1,2 ponto porcentual, de 33,5% em maio para 34,7% em junho. A inadimplência do consumidor, medida pelo atraso superior a 90 dias, ficou praticamente estável em 12 meses até junho e teve um acréscimo de 0,7 ponto porcentual de maio para junho.

“O resultado dos bancos neste semestre deverá ser melhor do que nos primeiros seis meses deste ano. O momento é favorável para instituições financeiras”, afirma o diretor Financeiro do Banrisul, Ricardo Hingel. Para Oliveira, da Anefac, o cenário atual terá impacto positivo para os bancos. Nos últimos tempos, os lucros dos bancos têm se superado a cada semestre. Nesta semana começa a ser divulgada a segunda safra de balanços de 2008, referente ao segundo trimestre do ano.

O superintendente de Economia da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Nicola Tingas, rebate com argumentos a perspectiva de que os lucros dos bancos irão aumentar por causa da conjuntura de juros elevados e prazos longos.

Tingas diz que, nos últimos tempos, o custo de captação aumentou e o risco de inadimplência também. Esses dois componentes reduzem, na avaliação dele, os ganhos das instituições financeiras, apesar de as taxas de juros terem subido.

FRASE

Fábio Silveira
Diretor da RC Consultores

“Não podemos comparar o choque de juros com o da década de 90. É outra história”

Ricardo Hingel
Diretor do Banrisul

“Os prazos não foram encurtados porque há competitividade”

04/08/2008 - 11:27h Kassab quer comparar. Editorial do Estadão comparou

O centro sempre velho

Editorial - O Estado de São Paulo

Tempo e dinheiro não faltaram para que o centro da cidade de São Paulo fosse parcialmente recuperado. Nos últimos cinco anos, a Prefeitura teve à disposição US$ 167,4 milhões para empregar em obras de revitalização da área, como recuperação do patrimônio arquitetônico, requalificação de ruas comerciais, reforma de praças e renovação de infra-estrutura. A maior parte dos recursos disponíveis foi fornecida pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e poderia ter sido utilizada com pagamento no prazo de 25 anos. Mas o excesso de burocracia fez o projeto emperrar.

A administração municipal, por exemplo, pulverizou entre 13 subprefeituras as 176 ações que compõem o programa. Em entrevista ao Jornal da Tarde*, o diretor de Desenvolvimento e Intervenções Urbanas da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), Rubens Chammas, admitiu que houve ocasiões em que teve de lembrar aos técnicos que eles tinham recursos disponíveis para a execução das obras.

Programas que propõem intervenções amplas como a recuperação do centro da cidade precisam ter um gerenciamento único, planos e metas definidos e cronograma rígido. Ao dividir atribuições e responsabilidades, o governo municipal permitiu que cada subprefeitura inserisse no projeto planos próprios e dividiu também a verba disponível. Esses recursos constituem um fundo rotativo de US$ 5 milhões que é reposto pelo BID na medida em que as obras são pagas e é feita a prestação de contas.Do total de US$ 167,4 milhões, o BID emprestou US$ 100,4 milhões e à Prefeitura de São Paulo coube a contrapartida de US$ 67 milhões. Desde meados de 2004, foram gastos apenas US$ 36,7 milhões, o que equivale a 22% do previsto. Se for levada em conta a verba comprometida, chega-se a um total de apenas US$ 51 milhões.

O contrato firmado com o banco prevê a cobrança de 0,25% sobre a verba não utilizada, a título de comissão de crédito. Isso já custou à Prefeitura R$ 460 mil, mas o diretor da Emurb não considera essa espécie de multa como algo totalmente negativo. Afinal, segundo ele, “o dinheiro do BID também rendeu R$ 400 mil nesse mesmo período, em aplicações”. Esse balanço, evidentemente, não considera os prejuízos que a cidade sofreu, com a região central subutilizada, nem as oportunidades perdidas por milhares de pessoas que poderiam estar morando, trabalhando ou estudando naquela área.

No tempo perdido com mudanças no projeto, para que ele tivesse a marca do atual governo, as flutuações cambiais corroeram o esquema de financiamento montado no final da administração Marta Suplicy. Quando o contrato com o BID foi assinado, a cotação do dólar estava em R$ 3,50. Hoje, gira em torno de R$ 1,60. Como observou o presidente do Conselho de Segurança Comunitária do Centro e da Ação Local Largo do Paiçandu, Antonio Souza Neto, houve incompetência na gestão dos recursos.

O diretor da Emurb não nega o atraso, mas acredita que, de outra forma, o programa não estaria muito mais adiantado do que está, uma vez que entre a elaboração de um projeto e o início efetivo da obra há um intervalo que pode chegar a quase dois anos. Mas o fato é que os projetos estavam prontos e encaminhados - e foram interrompidos.

Na administração anterior, a ex-prefeita Marta Suplicy desenvolveu o programa e conseguiu cumprir boa parte dele, mesmo antes de aprovado o empréstimo do BID. Nos primeiros três anos de seu governo, utilizou R$ 92 milhões da Prefeitura e realizou obras como a da recuperação da Praça do Patriarca, as reformas do Mercado Municipal e do chamado Corredor Cultural. No último ano, após a liberação dos recursos do BID, foram investidos US$ 11 milhões na reurbanização da Favela do Gato e ficaram em andamento projetos como a reforma do Parque D. Pedro II - abandonado pela atual administração - e programas habitacionais.

O que falta é boa gestão, determinação e desprendimento para realizar projetos que tenham sido idealizados por antecessores. O centro da cidade está sendo castigado pela descontinuidade na administração pública.

*LEIA O ARTIGO DO JORNAL DA TARDE (JT) AQUI NO BLOG

04/08/2008 - 11:11h Déficit habitacional chega a 1,5 mi em São Paulo

Um quarto dos paulistanos vive em favelas ou loteamentos irregulares; um dos desafio é urbanizar essas áreas



Parque do Gato que substituiu a favela do gato na marginal, frente ao Anhembi

Adriana Carranca - O Estado de São Paulo

Um em cada quatro paulistanos vive em uma das 1.565 favelas ou dos 1.128 loteamentos irregulares da cidade. São 3,2 milhões de pessoas - mais do que a população de Salvador (BA), terceira maior cidade do País. Juntos, ocupam 123 quilômetros quadrados - quase 10% do Município - com precária infra-estrutura urbana e à espera de regularização. Nessas áreas, faltam equipamentos e serviços públicos básicos como saneamento, iluminação, ruas asfaltadas, calçadas, locais para esportes, lazer e cultura, muitas vezes, transporte.

Nesse imenso emaranhado de casas e barracos, pelo menos 36,5 km² estão sobre partes de áreas de mananciais que, por lei, não podem ser urbanizadas. Ali vivem mais de 500 mil pessoas que teriam de ser removidas. A elas se juntam famílias em situação inadequada de coabitação. E o déficit habitacional na capital pode chegar a 1,5 milhão, segundo a Fundação Getulio Vargas.

Se, por um lado, falta infra-estrutura urbana e habitação, o centro tem grande oferta de unidades, serviços e equipamentos públicos, mas não moradores - já são 400 os prédios vazios na região. Há gente que vive em cortiços, mas não se sabe quantos - o único levantamento contou 38 mil pessoas nos bairros do Pari, Barra Funda, Bela Vista, Belém, Brás, Cambuci, Liberdade, Mooca e Santa Cecília. Eles dividem espaços apertados e insalubres, em prédios velhos, sem manutenção e com riscos de desabamento.

É com esse complicado diagnóstico que o prefeito terá de lidar. Seu maior desafio, para especialistas, é a diversidade de problemas. “Desconfie do candidato que tiver uma única solução para moradia em São Paulo”, diz Renato Cymbalista, do Instituto Polis e professor da Escola da Cidade. Ele defende um conjunto de programas para a habitação.

Alguns, prioritários, são urbanização de favelas, intervenção em cortiços, aproveitamento de imóveis vazios, reforma e construção de moradia no centro, aluguel social, reserva de terras para habitação popular. Esse caleidoscópio de iniciativas tem de considerar a diversa capacidade de pagamento dos atendidos. “Uns não têm um centavo, outros precisam de subsídio, e outros, ainda, poderiam ter acesso a crédito, mas não têm como comprovar renda”, diz Cymbalista. “E, para cada um, uma solução.”

A boa notícia é que não há, na história da cidade, momento melhor. “As construtoras abriram capital e estão com fôlego para investir. E houve ampliação do crédito. A oferta de imóveis aumentou e chegou às famílias de 4 a 6 salários mínimos, antes atendidas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), que agora podem financiar imóveis de R$ 50 mil a R$ 70 mil”, explica a relatora especial das Nações Unidas para Direito à Moradia, Raquel Rolnik.

Ela aponta, no entanto, para uma reação perversa do mercado: a maior oferta de habitação e crédito fez disparar o preço dos terrenos. “Empreendedores foram buscar terras na periferia, que vive alta verticalização e expulsa os mais pobres. Sem alternativa, as classes D e E adensam favelas e levam a cidade para além das fronteiras”, diz Raquel.

A supervalorização da terra inviabiliza a compra de lotes para empreendimentos destinados à baixa renda. Os especialistas sugerem um programa de reserva de terras para habitação social. Essas áreas já existem por lei - são as Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis), previstas no Plano Diretor. Mas precisam sair do papel. “O desafio da sociedade será garantir que as Zeis sejam mantidas e não entregues ao mercado”, diz Cymbalista.

O orçamento para habitação nunca foi tão farto, mas ainda é insuficiente. Até 2010, foram contratados R$ 1,7 bilhão para urbanizar favelas - 48% do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Fundo Nacional de Habitação, 28,2% da Prefeitura, 22,4% do Estado e 1,24% do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Os projetos em andamento beneficiarão 139.774 domicílios ou 37% da demanda das favelas, entre reforma e novas unidades. O Programa de Mananciais prevê R$ 1 bilhão - 59,2% da Prefeitura, 23,1% do Estado e 17,6% do Ministério das Cidades. Irão atingir 72 mil domicílios ou 15% do necessário. Outros R$ 100 milhões estão previstos para regularização fundiária.

Nesse ritmo , a questão habitacional seria resolvida em três gestões. E há o crescimento da população, embora em menor escala do que em décadas anteriores. “O desafio é dar continuidade aos programas e aumentar sua escala para romper com o modelo de segregação atual”, diz a socióloga Maria Ruth de Amaral Sampaio, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. “Temos de levar gente para onde existe cidade e a cidade para onde há gente.”

HABITAÇÃO EM NÚMEROS

1,5 milhões
vivem em favelas

1,7 milhões
estão em loteamentos irregulares

123 quilômetros quadrados
é a área que eles ocupam 10% do território urbano de São Paulo

R$ 2,9 bilhões
em recursos da Prefeitura, Estado e governo federal, estão previstos para a área até 2010

37% das casas em favelas e 15% em loteamentos
Serão atendidos com esses recursos

25/07/2008 - 18:02h Caixa lançará cartão para substituir fiador no aluguel

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Mariana Sallowicz - Do Diário de São Paulo

SÃO PAULO - Os cerca de 6,5 milhões de brasileiros que moram de aluguel no país vão ganhar mais uma opção na hora de locar um imóvel. A Caixa Econômica Federal finalizou o projeto do Cartão Aluguel, que virá para substituir o fiador, cheque-caução ou seguro-fiança.

O locatário que optar por ele, receberá um cartão de crédito para pagar o aluguel todos os meses. Se atrasar, o banco acerta, mas depois cobra, com juros. O proprietário nem fica sabendo do problema.

- O produto está montado. Agora, esperamos a área de tecnologia de informação fazer algumas alterações no sistema para começar - afirma o vice-presidente de Governo da Caixa, Jorge Hereda.

Por conta desses ajustes, a data de lançamento não está totalmente fechada. A Caixa está substituindo a tecnologia dos cartões de crédito, que passarão a funcionar com chip eletrônico. Assim que finalizar a mudança, lançará o Cartão Aluguel.

Muitos inquilinos encontram dificuldade na hora de assinar o contrato por não terem um fiador. Uma outra opção, o seguro-fiança, também é inviável financeiramente para alguns, já que chega a custar uma vez e meia o valor do aluguel.

O locatário terá que desembolsar uma taxa de anuidade. Ele fará o acerto direto com o banco, que enviará uma fatura mensalmente, assim como ocorre com o cartão de crédito.

As taxas de juros, no caso de atraso, devem ser semelhantes às cobradas pelos cartões de crédito, de cerca de 10% ao mês. A instituição financeira vai analisar a capacidade de pagamento do locatário, antes de conceder o crédito.

COMO VAI FUNCIONAR

CARTÃO ALUGUEL

O inquilino terá que procurar agência da Caixa Econômica Federal para solicitar o dinheiro de plástico exclusivo para o aluguel.

AVALIAÇÃO

A Caixa vai analisar a ficha cadastral dos interessados para conceder a nova garantia de locação. Inquilinos vão pagar o aluguel mensalmente por meio do extrato enviado à residência.

DESPESA

O inquilino será o responsável pelo pagamento da taxa de anuidade do cartão. A cobrança já é conhecida para quem usa o modelo.

IMOBILIÁRIA

De posse do cartão aluguel, os inquilinos devem procurar a administradora de imóveis e escolher o apartamento. Em seguida, é só passar o cartão exclusivo da Caixa Econômica para fazer a operação a fim de garantir o fechamento do negócio, sem fiador ou outra garantia.

INADIMPLÊNCIA

Secovi lembra que a inadimplência na locação ainda é muita alta. Atualmente, representa de 9% a 10%. Isso porque o Judiciário é muito lento para julgar uma ação de despejo. À vezes, o proprietário ou administradora leva mais de uma ano para retomar o imóvel.

Fonte: Jornal O Dia

25/07/2008 - 16:45h Krugman defende ação do BC no Brasil

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O economista
Paul Krugman,
que vê Brasil
líder dos emergentes

FOLHA SP - DA REPORTAGEM LOCAL

FOTO Moacyr Lopes Jr -

23.jul.08/Folha Imagem


DENYSE GODOY - FOLHA SP

Não, não vai ser a China. O papel de grande líder das nações emergentes caberá ao Brasil, na avaliação do economista americano Paul Krugman, 55, embora a economia brasileira esteja crescendo menos do que poderia, segundo ele. As deficiências do Brasil, porém, impedem um crescimento maior sem inflação agora. “Não se pode ter uma política que leve o crescimento a um ritmo superior ao seu potencial”, disse. Por isso o economista apóia a elevação dos juros pelo BC.

A seguir, trechos da entrevista que concedeu ontem à Folha, por telefone, do Rio. Ele esteve no Brasil por dois dias participando de seminários.

FOLHA - Qual é a sua análise da atuação dos bancos centrais dos emergentes, como o brasileiro, que acaba de elevar os juros?

PAUL KRUGMAN - Eu diria que faz sentido, mas não posso julgar se o tamanho e o ritmo do aumento de juros estão certos.
Nos países avançados, o problema é a deflação e uma ameaça de colapso no mercado financeiro. Na maior parte do mundo emergente, as pressões são inflacionárias.

FOLHA - Aumentar os juros é a melhor alternativa no caso de uma inflação causada primeiramente pela alta dos preços das commodities?

KRUGMAN - A minha avaliação é de que, nos EUA, não é desejável usar a política monetária para lutar contra a inflação de commodities. No Brasil, muito do que está acontecendo é explicado pelos alimentos, mas não tudo. Olhando para os EUA, temos um mercado de trabalho muito fraco. No Brasil, é o contrário.

FOLHA - É possível combater a inflação sem desistir totalmente de crescer?

KRUGMAN - Sim. Entretanto, se os indicadores dizem que o país está crescendo acima do potencial, é preciso fazer alguma coisa para segurar a inflação. Não tenho provas convincentes de que o Brasil possui uma taxa de crescimento potencial de mais de 5% [ao ano]. Não se pode ter uma política que leve o crescimento a um ritmo superior ao seu potencial.

FOLHA - Como vê o novo cenário mundial, em que EUA e Europa continuam sendo as economias mais importantes, porém surgem novos grandes atores, como China e Índia?

KRUGMAN - Ninguém sabe realmente como esse novo mundo vai se desenvolver, se será preciso um poder hegemônico ou não. Esperamos que não, porque não temos um.

FOLHA - E qual é o papel do Brasil nesse mundo?

KRUGMAN - O Brasil está em uma posição bastante interessante porque é o maior país em desenvolvimento que não é a China nem a Índia. A China e a Índia têm as suas especificidades, e é difícil colocar qualquer uma delas no papel de líder para os outros emergentes, porque, de certa forma, elas são grandes demais para fazer parte de alianças. Então, é o Brasil que está rumando para a função de líder dos emergentes.

FOLHA - Nas comparações com o crescimento da Índia e da China, o Brasil fica em desvantagem. O senhor está dizendo, então, que essa comparação não é justa?

KRUGMAN - Apesar de tudo, o Brasil é um país muito mais rico. Não é razoável esperar que o Brasil cresça tão rápido como a China. A China partiu de uma pobreza tão grande que um mínimo de modernidade é um avanço notável. Comparar com o crescimento da China é injusto, mas o Brasil está crescendo menos do que poderia.

FOLHA - A que se deve isso?

KRUGMAN - As explicações usuais dizem respeito à educação, que não é boa como deveria ser. Nos países asiáticos de elevado crescimento, a educação é surpreendentemente melhor do que se esperaria, mesmo o país tendo muita pobreza. Se esse é o motivo? Não sei.

FOLHA - Os EUA já se encontram mergulhados em uma recessão?

KRUGMAN - A definição oficial de recessão nos EUA é dada por um comitê. Não temos uma definição formal, então fica difícil. Independentemente da palavra, a situação que temos claramente nos últimos seis meses é a economia crescendo, mas devagar demais. A questão é se o comitê vai decidir chamar isso de recessão, porque a maior parte de nós sente como uma recessão, com certeza.

FOLHA - O presidente George W. Bush e o presidente do Fed (banco central americano), Ben Bernanke, poderiam ter feito alguma coisa diferente para evitar que a situação chegasse ao ponto em que está?

KRUGMAN - O melhor teria sido tomar uma posição [quanto às operações com hipotecas de alto risco] entre o final de 2004 e o começo de 2005. Se o Fed tivesse começado a cortar os juros no começo de 2007, talvez pudesse ter evitado isso tudo. A redução da taxa só veio em agosto de 2007, pois antes não estava óbvio para todo mundo que havia um problema. No entanto, acho que Bernanke tem o crédito de estar agindo com a agressividade que um banco central nunca teve.

FOLHA - Quais são os principais desafios para o próximo presidente?

KRUGMAN - Ele vai ter que mostrar trabalho imediatamente. Em um ano os resultados precisam aparecer, senão terá que assumir a recessão como sua.
Ademais, será necessário fazer a reforma do sistema de saúde.

FOLHA - Em termos de projetos, dá para saber para qual direção Barack Obama e John McCain (candidatos à Presidência dos EUA) estão caminhando?

KRUGMAN - McCain quer fazer o que Bush fez, só que melhor, e isso é o máximo que é possível dizer. Sobre Obama, não sabemos ainda. Ele claramente é um democrata liberal, mas não sabemos se é um reformador modesto ou se é alguém que vai realizar grandes mudanças.

FOLHA - Alguma esperança em relação a ele?

KRUGMAN - Eu tenho esperança. Se bem que, falando de Obama, não se pode usar a palavra “esperança” [risos]. Sempre que uso o termo “esperança” na minha coluna. recebo dezenas de cartas perguntando se estou tirando sarro de Obama [o candidato utiliza a palavra nos seus slogans]. Estou preocupado, acho que ele tem uma tendência de ser cauteloso demais, de correr para o que as pessoas chamam de centro. Espero que se mostre mais determinado.

FOLHA - Para os que reclamam do protecionismo dos EUA, quem, entre Obama e Mccain, seria mais liberal em termos de comércio?

KRUGMAN - Nenhum dos dois.
Não vamos ter novamente um grande apoio dos EUA à globalização. Mas provavelmente também não teremos um período de grande protecionismo.
É provável que McCain seja mais protecionista. Para Obama, se existem acordos [multilaterais], os EUA devem obedecer a eles, enquanto McCain pode dizer que os tratados existem mas o país mudou de idéia.

FOLHA - Algum dos dois poderia ser mais simpático ao álcool de cana-de-açúcar, considerando que o biocombustível de milho não parece ser uma boa idéia e o preço do petróleo está nas alturas?

KRUGMAN - Os 5% da população dos EUA a quem interessa que o país mantenha essas medidas malucas [de incentivo ao álcool de milho] são os que têm poder de decisão política. A resposta é não, nada vai acontecer.

24/07/2008 - 09:19h Contribuição ao debate sobre inflação e juros

Dez razões para não aumentar a taxa de juros no Brasil

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* João Saboia - VALOR

A partir do recrudescimento da inflação no mundo (e no Brasil), o Banco Central (BC) iniciou há alguns meses um processo de aumento das taxas de juros no país, cujo objetivo final é o combate à inflação. A taxa básica de juros da economia - a famosa Selic (sigla do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia) - deverá continuar aumentando nos próximos meses até que o BC se convença que a inflação voltou para níveis compatíveis com as metas oficiais de inflação.

Diversos economistas têm se manifestado na mídia sobre os rumos da atual política monetária BC. Não são poucos aqueles que têm alertado que, na atual situação mundial, há um grande risco deste tipo de atuação demorar para produzir os efeitos desejados, levando o BC a aprofundar o processo de elevação dos juros por um longo período, representando um grande custo para a sociedade e para a economia.

O principal argumento utilizado pelos críticos é a especificidade do processo inflacionário atual, que está longe de ser uma inflação de demanda, onde as taxas de juros podem atuar diretamente sobre sua causa principal. No caso de choques de oferta, como o atual, a situação é distinta e o efeito de um aumento das taxas de juros é bastante questionável, podendo levar a economia para a chamada estagflação - manutenção de alta inflação com baixo crescimento econômico.

Apresentamos a seguir 10 razões para não aumentar ainda mais a taxa básica de juros da economia:

1) A taxa básica de juros no país já está entre as mais elevadas do mundo em termos reais. Seu aumento nominal nos próximos meses deverá elevar ainda mais a taxa real, levando o Brasil ao primeiro lugar com folga;

2) O Brasil tem apresentado crescimento econômico bem menor que os demais países emergentes nos últimos anos. O aumento da taxa de juros provavelmente aumentará a distância em relação a tais países no futuro. A comparação com o grupo de países do BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) é inevitável e francamente desfavorável ao Brasil;

3) O crescimento da taxa de juros atrai capitais especulativos e pressiona a taxa de câmbio para cima, favorecendo as importações e prejudicando as exportações, com reflexos negativos sobre a conta corrente do país. Depois de alguns anos superavitária, a conta corrente vem se deteriorando desde o ano passado e poderá piorar ainda mais com uma nova valorização do real;

O aumento dos juros significa uma redistribuição de renda da sociedade como um todo para os que podem aplicar seus recursos em títulos da dívida

4) Como já apontado no início do artigo, o aumento recente da inflação no Brasil não se deve a uma forte pressão de demanda interna, mas principalmente ao crescimento dos preços internacionais das commodities (petróleo, trigo, soja etc), sobre os quais a taxa de juros brasileiras não tem qualquer influência. Trata-se, portanto, de uma inflação provocada basicamente por um choque de oferta importado. O mais provável é que, em algum momento no futuro próximo, o choque de oferta diminua, ou mesmo seja eliminado, trazendo conseqüências favoráveis para a inflação brasileira e mundial. Tal tipo de experiência já ocorreu no passado, como nos choques de preço do petróleo dos anos 70 e 80. Caso o choque de oferta diminua de intensidade nos próximos meses, já em 2009 a taxa de inflação brasileira poderia convergir para a meta sem necessidade de aumento dos juros;

5) A inflação brasileira está ligeiramente acima do limite superior da meta oficial de 6,5%. Tendo em vista a atual conjuntura internacional, o BC poderia ter maior tolerância e aceitar que o limite superior seja temporariamente superado, como já ocorrido no triênio 2001/03. Em 2003, por exemplo, a meta foi inclusive ajustada para cima para dar conta da situação específica daquele ano. A situação atual também é especial e deve ser tratada como tal;

6) A inflação brasileira está bem mais baixa que em outros países emergentes como África do Sul, Chile, China e Rússia, entre outros. Vários países já estão bem acima de suas metas de inflação, enquanto o Brasil continua caminhando para superá-la relativamente pouco. Em outras palavras, a situação brasileira em termos de inflação é favorável em comparação com o que ocorre no resto do mundo;

7) O custo da rolagem da dívida pública (pagamento de juros) tem flutuado em torno de 7 a 8% do PIB nos últimos anos, o que representa um desperdício enorme de recursos públicos que poderiam ser aplicados para outros destinos sociais ou econômicos mais nobres. O aumento da taxa básica de juros significa uma redistribuição de renda da sociedade como um todo para aqueles que podem aplicar seus recursos em títulos da dívida pública;

8) Com os gastos anuais com o pagamento dos juros da dívida pública, seria possível cobrir os gastos de mais de 10 programas Bolsa-Família. Cada ponto percentual a mais na taxa básica de juros representa aproximadamente o valor de um novo programa Bolsa-Família, o que dá a dimensão dos gastos com pagamento de juros da dívida pública. Em vez de aumentá-los ainda mais, seria desejável reduzi-los para níveis semelhantes aos praticados nos demais países;

9) Se o Banco Central está preocupado em combater a inflação via redução do consumo seria mais criativo se tomasse medidas voltadas para o crédito, como a redução do número máximo de parcelas no crediário, ou o contingenciamento do crédito, fixando volumes máximos que os bancos poderiam emprestar. É claro que haveria reação do sistema bancário, mas os resultados sobre o consumo seriam muito mais fortes do que a partir de mecanismos indiretos como o aumento da taxa básica. Além disso, seu custo para a sociedade seria muito menor;

10) Finalmente, é bem provável que o aumento da taxa básica de juros da economia que será implementado pelo BC nos próximos meses resulte num processo de expectativas desfavoráveis para os agentes (produtores e consumidores), provocando a desaceleração do crescimento e adiando, mais uma vez, a retomada definitiva da economia brasileira.

João Saboia é diretor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.