30/08/2012 - 10:26h Medidas somam estímulos ao consumo e ao investimento
O BNDES passará a cobrar juros reais negativos no Programa de Sustentação do Investimento (PSI)
Por Edna Simão e Thiago Resende | VALOR
De Brasília
No âmbito de uma nova rodada de medidas de estímulo ao investimento e ao consumo, anunciada ontem pelo governo, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) passará a cobrar juros reais negativos no Programa de Sustentação do Investimento (PSI), voltado para aquisição de bens de capital. A taxa de juros fixa para compra de máquinas e equipamentos caiu de 5,5% para 2,5% ao ano, anunciou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Essa taxa especial, contudo, vale apenas até dezembro.

“Levando em consideração uma inflação de 4,5%, temos um juro real negativo. Estamos estimulando a compra de máquinas e equipamentos”, disse ele, salientando a singularidade da decisão. A indústria de bens de capital foi beneficiada também pela prorrogação da redução a zero do IPI até dezembro de 2013.
Mesmo com o diagnóstico de que a economia brasileira dá sinais de recuperação – que foi reforçado pelo comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) após cortar a Selic em mais 0,5 ponto percentual, para 7,5% ao ano – Mantega decidiu atender à demanda da indústria e prorrogar a redução de IPI para vários setores, o que significará uma renúncia fiscal de R$ 5,5 bilhões entre setembro deste ano e dezembro de 2013. “A economia brasileira está numa gradual recuperação, porém, é preciso continuar dando estímulo para o investimento e o consumo”, disse o ministro, ao anunciar as medidas.
No caso dos financiamentos do PSI, a vigência das condições especiais terminariam amanhã e foram prorrogadas até dezembro. Isso foi necessário porque de uma autorização de crédito de R$ 230 bilhões, o BNDES ainda tem R$ 78 bilhões para emprestar, sinal de que a demanda dos empresários por máquinas estava baixa.
Além dos juros para máquinas e equipamentos, ainda no PSI, o governo baixou a taxa de juros de financiamento de caminhões e do programa Procaminhoneiro, todas agora fixadas em 2,5% ao ano. “Acho que é a menor taxa que já existiu para um financiamento desta natureza”, ressaltou o ministro. O prazo de pagamento é de 120 meses, com um ano de carência. Para as demais linhas do PSI, não houve mudanças nas taxas. Foi criada, também, uma linha especial para financiamento de bens de capital usados para indústrias variadas como aeronaves comerciais, tratores, carretas, ferramentas usadas. Essa modalidade de crédito é corrigida pela Taxa de Juro de Longo Prazo (TJLP), que atualmente é de 5,5% ao ano, mais 1% e o risco da empresa.
As empresas com dificuldades de pagamento também foram contempladas. O governo anunciou a criação de uma linha de refinanciamento de bens de capital. Para a compra de caminhões e vagões, decidiu baixar de 48 para 12 meses a depreciação acelerada. Ou seja, desta forma, as empresas vão conseguir abater mais investimento no lucro, o que vai implicar menor pagamento de Imposto de Renda e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) no próximo ano. Com essa medida, o governo estima abdicar de R$ 586 milhões em receitas no próximo ano.
Para estimular o consumo dos brasileiros, o governo prorrogou a queda do IPI para o setor automotivo por mais dois meses, além de manter o incentivo para a linha branca (fogões e geladeiras), móveis, materiais de construção e bens de capital. Assim, a compra de carros novos continua com benefício fiscal até outubro.
Para a linha branca a redução do IPI, que terminaria amanhã, foi estendida até o fim do ano, aumentando a renúncia fiscal em R$ 361 milhões. O ministro da Fazenda também anunciou a prorrogação do IPI reduzido para móveis, painéis, laminados e luminárias até o fim do ano, embora o prazo para este setor fosse final de setembro. Nesse caso, o impacto na arrecadação será de R$ 393 milhões.
No conjunto, o pacote representa um custo adicional aos cofres públicos de R$ 1,6 bilhão este ano e de R$ 3,9 bilhões em 2013.
As medidas anunciadas ontem dão a dimensão da preocupação do governo de Dilma Rousseff com a baixa performance dos investimentos em ampliação da oferta de bens e serviços no país e procuram, por outro lado, dar sustentação ao consumo como instrumento de estímulo ao investimento.
A avaliação do governo é de que, em um cenário de crise internacional que ainda deve perdurar, os investimentos são os que mais demoram a reagir e por isso precisariam de novos estímulos. Em setembro, as empresas começam a seus planejamentos para o ano seguinte e esse elenco de benefícios pode influir favoravelmente nessas decisões. O ministro explicou que a prorrogação da redução do IPI para os automóveis por um prazo de apenas dois meses decorreu do fato de que a reação do consumidor e da indústria foi mais rápida do que em outros segmentos. De fato, desde que foi concedida a redução das alíquotas do tributo, as montadoras reduziram seus estoques para níveis normais.
Taxa de juros cobrada para máquinas e caminhões passa a ser inferior à inflação
Por Chico Santos | VALOR
Do Rio
Os compradores de máquinas, equipamentos e caminhões serão os primeiros a tomar financiamento com juros negativos, fixados ontem em 2,5%, para as linhas do Finame do BNDES (empréstimos indiretos, via agentes financeiros) dentro do Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Hoje, apenas os projetos de inovação já recebem juros de 4% ao ano, abaixo da inflação medida e da projetada para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses. Em maio deste ano, quando as taxas do PSI foram reduzidas da casa dos 7% para 5,5%, a inflação acumulada em 12 meses, medida pelo IPCA, estava em 4,99%.
No programa, o Tesouro Nacional cobre a diferença entre os juros subsidiados e a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP, hoje em 5,5%), a remuneração mínima do BNDES, além de cobrir os demais custos adicionais da operação, como as taxas de risco e a remuneração dos agentes repassadores dos recursos do banco. O programa foi criado pelo governo em 2009, com o objetivo de evitar a queda dos investimentos com a crise econômica desencadeada pelo estouro da bolha do mercado imobiliário americano em setembro de 2008.
O PSI deveria vigorar até o dia 31 de dezembro deste ano, mas em abril o governo anunciou a prorrogação até dezembro de 2013 e reduziu as taxas de juros. Para máquinas e equipamentos, elas passaram de 8,7% para 7,3%, sendo 5,5% para as micro, pequenas e médias empresas. Para caminhões e ônibus, a taxa caiu de 10% para 7,7%, com o prazo de amortização sendo ampliado de 96 para 120 meses.
Nos caminhões, a taxa do BNDES Procaminhoneiro, que financia a compra para autônomos, já era de 5,5% e permaneceu no mesmo patamar. Foi também criada uma taxa de 5% para o PSI destinado a projetos transformadores que possam criar capacidade tecnológica em setores com alto conhecimento em engenharia.
As menores taxas hoje cobradas nos empréstimos do BNDES são para inovação. Todas as linhas com esse objetivo já eram negativas, com juros de 4%, também subsidiadas, ou equalizadas, na linguagem oficial, pelo Tesouro Nacional. A diferença é que os montantes envolvidos tendem a ser bem menores do que aqueles destinados à compra de máquinas, equipamentos e caminhões. Os ônibus ficaram fora da redução de taxas anunciadas ontem pelo governo.
Até agora as linhas do PSI aprovaram financiamentos de R$ 149 bilhões. Se o governo mantiver o limite de R$ 227 milhões previsto em 2009, restam R$ 78 bilhões para serem emprestados nas condições previstas pelo programa.
Setores elogiam extensão dos benefícios e pedem mais
VALOR
De São Paulo
Desde a semana passada, os setores beneficiados pelas medidas de redução de impostos – fabricantes de automóveis, linha branca, móveis e materiais de construção – passaram pelo Ministério da Fazenda levando dados que mostravam ao governo o aumento das vendas e do emprego em seus setores. Ontem, os setores festejaram a extensão do prazo dos benefícios.
Na reunião de ontem com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a direção da Anfavea – a entidade que abriga as montadoras instaladas no país – mostrou que a média de emplacamentos de carros no país, que vinha em maio a um ritmo de 13,2 mil unidades, subiu para 16,6 mil automóveis e comerciais leves no período de junho a agosto. Também foi citada no encontro a geração de 2,7 mil empregos nos últimos dois meses – ou 3,1 mil vagas ao longo do ano -, apesar de ajustes feitos por montadoras como a General Motors e a Mercedes -Benz com a suspensão temporária dos contratos de trabalho de mais de 2,4 mil operários – dado que não entrou na conta.
Além disso, as montadoras tentaram atenuar as preocupações com o impacto do pacote de incentivos nas contas públicas, mostrando que a redução de R$ 20,7 milhões na receita diária do governo com o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) foi compensada por ganhos com outros impostos em virtude do aumento nas vendas. Somando a alta na arrecadação com PIS/Cofins, ICMS e IPVA, os estímulos acabaram gerando uma arrecadação diária adicional da ordem de R$ 1,7 milhão, segundo os dados da Anfavea.
Após o encontro, Mantega anunciou a prorrogação até 31 de outubro do IPI reduzido nas vendas de carros. A manutenção do estímulo foi acompanhada por um expressivo corte (de 5,5% para 2,5% ao ano) nos juros dos financiamentos de caminhões no Programa de Sustentação do Investimento (PSI). No ano, a queda na venda de caminhões é de 17%.
A prorrogação do IPI reduzido para a linha branca até 31 de dezembro deste ano garantiu a manutenção do emprego no setor e perspectivas otimistas quanto às vendas no varejo, segundo Lourival Kiçula, presidente da Eletros, entidade que reúne os fabricantes de produtos eletroeletrônicos. Segundo ele, o crescimento de 19,3% nas vendas para o varejo de refrigeradores, lavadoras automáticas e fogões registrada no primeiro semestre deste ano, ante igual período de 2011, seria praticamente zero, sem o IPI reduzido.
“Não fosse essa prorrogação, teríamos um impacto imediato com o aumento de 4% no preço dos fogões e de 10% entre lavadoras e refrigeradores, além da diminuição da força de trabalho que seria necessária. O varejo compraria menos e a freada seria brusca, com o crescimento das vendas para o varejo ficando próximo de zero em 2012″, estima Kiçula.
Segundo apurou o Valor, a Eletros, encaminhou para o Ministério da Fazenda o pedido de redução permanente do IPI para 4%, alíquota que seria estendida a todas as categorias de linha branca. Como contrapartida, a indústria ofereceu aumento da eficiência energética dos produtos.
O presidente da Abimaq (entidade que representa o setor de bens de capital), Luiz Aubert Neto, elogiou a medida do governo de reduzir a taxa de juros de financiamento para máquinas de 5,5% para 2,5%. Contatado logo após o anúncio feito pela Ministro da Fazenda, Aubert admitiu que ainda não sabia da medida: “Fui pego de surpresa, de imediato a gente não esperava [uma redução tão forte].” A queda, de três pontos percentuais, representa na prática juros reais negativos.
(Eduardo Laguna, Daniele Madureira, Ana Fernandes e Carlos Giffoni)







