09/02/2010 - 09:43h Produção industrial dá sinais de rápida expansão

Editorial do jornal VALOR

O setor de máquinas e equipamentos foi o mais afetado pela crise internacional na indústria brasileira. O pessimismo dos empresários e a queda da demanda interna e da exportação tiveram impacto fulminante sobre a atividade industrial. A boa notícia é que esse segmento está agora liderando a recuperação da indústria nacional, embalado pelo aumento dos investimentos e pela recuperação econômica do país.

A produção industrial física encolheu 7,4% em 2009, o pior desempenho desde a contração de 8,9% de 1990. Foram prejudicados 23 dos 27 ramos pesquisados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O setor mais afetado pelo colapso do investimento doméstico e exportações de manufaturados foi o de bens de capital, que encolheu 17,4% no ano. A segunda maior queda ficou com os bens intermediários, 8,8%.

Já a produção de bens de consumo recuou 2,7%, puxada pelo recuo de 6,4% dos duráveis e de 1,6% dos semiduráveis e não duráveis – desempenho anêmico, apesar das medidas anticíclicas do governo, com a desoneração tributária para automóveis e linha branca.

Embora a produção industrial tenha fechado no vermelho, nem todo o ano foi terrível. A partir do segundo semestre, a indústria passou a mostrar recuperação, puxada exatamente pelo setor de bens de capital, estimulado pela reação dos investimentos. (Valor, edição de 5,6,7/02).

O otimismo com a reação do Brasil à crise internacional, o impacto positivo dos esforços anticíclicos, como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), mais a expectativa dos negócios e empreendimentos que serão gerados pelo fato de o país sediar a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016 incentivaram a retomada dos investimentos e, em consequência, a compra de máquinas e equipamentos.

O consumo interno de máquinas e equipamentos saltou 18% entre o terceiro e o quarto trimestre do ano passado, incluindo a produção local e a importação, mas isso foi insuficiente para evitar a queda de 11,5% registrada no ano fechado. A demanda extraordinária foi atendida pela produção local de máquinas e equipamentos, que cresceu 13,3% do terceiro para o quarto trimestre, embora tenha fechado o ano com retração de 17,4%. Os empresários buscaram também máquinas no exterior, que ficaram mais baratas com a apreciação do real, de modo que a importação de máquinas subiu 16,7% no mesmo período, embora tenha terminado o ano com recuo de 13,6%. Foi um fim de ano atípico, uma vez que a demanda por bens de capital normalmente perde força nesse período.

A produção de máquinas e equipamentos acabou melhorando o desempenho da indústria como um todo, neutralizando em parte a perda de gás dos bens de consumo, com a retirada dos estímulos fiscais. A produção de bens de capital cresceu 0,3% em dezembro; e a de produtos intermediários, 1%. Já a produção de bens de consumo diminuiu 0,6%, influenciada pela retração de 4,6% dos duráveis.

Como resultado dessa combinação de forças, a produção industrial fechou dezembro com queda de 0,3%, já descontados os efeitos sazonais. Em comparação com o nebuloso dezembro de 2008, a produção industrial cresceu 18,9%, resultado em boa parte influenciado por uma base de comparação deprimida, por conta da concessão de férias coletivas e paralisações não programadas ocorridas em vários setores, em dezembro de 2008. No quarto trimestre, a produção industrial teve alta de 3,6% sobre o terceiro trimestre e foi 5,8% superior à de igual período de 2008. Apesar da pequena queda, a produção da indústria segue em rápida expansão. Cresceu a uma taxa anualizada de 15% no quarto trimestre.

Os sinais de consistência na demanda de bens intermediários e bens de capital no fim de 2009 justificam as previsões otimistas de analistas de que a produção desses bens pode crescer ao redor de 10% neste ano.

Há nuvens não desprezíveis no horizonte, porém: o comportamento da taxa básica de juros, que deve subir em algum momento do ano; e a recuperação internacional, ameaçada pelos déficits fiscais elevados.

08/02/2010 - 08:56h Investimento federal ganha espaço no PIB

Conjuntura: Inversões da União e das estatais federais respondem por quase 20% do total investido em 2009

Ruy Baron/Valor
Foto Destaque
Nelson Barbosa: recuperação do investimento público começou em 2006 e ganhou força nos anos seguintes, com impacto macroeconômico relevante em 2009


Sergio Lamucci, de São Paulo – VALOR

Os investimentos da União e das estatais federais cresceram a um ritmo considerável no ano passado, respondendo por quase 20% do total investido no país na construção civil e em máquinas e equipamentos – em 2008, esse percentual ficou próximo a 14%, segundo levantamento da Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Fazenda. O aumento da fatia das inversões federais no total ocorreu porque, ao mesmo tempo em que União e estatais (Petrobras, principalmente) gastaram mais na ampliação da capacidade produtiva, o setor privado gastou menos, sob o impacto da crise global.

Em 2008, os investimentos federais totalizaram R$ 77 bilhões, ou 13,7% do total de R$ 561 bilhões (18,7% do PIB) destinados à construção e à compra de máquinas no país – a chamada formação bruta de capital fixo (FBCF). Já no ano passado, as inversões da União e das estatais pularam para R$ 100,5 bilhões, enquanto o investimento total caiu para R$ 517 bilhões (16,5% do PIB), estima a SPE. Com isso, a fatia das inversões federais no total ficou em 19,5%, considerando nessa conta que cerca de 95% das despesas de capital da Petrobras são feitas dentro do país.

A estatal do petróleo, aliás, respondeu pela maior parte do investimento, superando em quase duas vezes os gastos da União. As inversões da Petrobras subiram de R$ 46,9 bilhões em 2008 para R$ 62,9 bilhões no ano passado – o equivalente a 2,01% do PIB (incluindo os cerca de 5% feitos no exterior). Já as despesas da União com capital fixo cresceram de R$ 26,1 bilhões para R$ 32,2 bilhões, ou 1,03% do PIB. Somadas às despesas das outras estatais, como a Eletrobrás, os investimentos públicos federais chegaram a 3,31% do PIB em 2009, mais que os 2,64% do PIB de 2008 estima a SPE.

Para o secretário de Política Econômica da Fazenda, Nelson Barbosa, os números de 2009 deixam clara a recuperação do investimento do setor público nos últimos anos. “É uma tendência de aumento mais forte que persiste desde 2006 e que fez diferença perceptível do ponto de vista macroeconômico no ano passado.” A trajetória ganhou mais força em 2007, com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), segundo ele.

Barbosa diz que os investimentos da União tiveram mais impacto sobre a economia em 2009 porque o volume de recursos já é mais significativo – em 2003, um ano de forte ajuste fiscal, eles somaram apenas R$ 5,2 bilhões, número que pulou para os já mencionados R$ 32,2 bilhões em 2009. Nos dados levantados pela SPE, estão contabilizados apenas os investimentos em capital fixo. O resultado do Tesouro do ano passado mostra um total de R$ 34,136 bilhões investidos pela União, mas esse valor inclui algumas modalidades de inversões financeiras.

Barbosa destaca ainda que os investimentos da União e da Petrobras aumentaram em um momento de queda da demanda do setor privado. O movimento amorteceu a desaceleração da atividade econômica, produzindo um efeito claramente anticíclico.

O secretário de Política Econômica diz que os gastos da Petrobras com investimentos estão para o Brasil como os gastos militares estão para os EUA. Segundo ele, são despesas autônomas, que não seguem a dinâmica do ciclo econômico. As condições do mercado de petróleo e novas descobertas regem o comportamento da empresa, que elevou fortemente o investimento mesmo em um ano de crise. Com a perspectiva de exploração da camada do pré-sal, a Petrobras deve continuar a investir com força ao longo dos próximos anos, afirma Barbosa.

O economista Carlos Eduardo Gonçalves, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP), diz que a trajetória do investimento federal é um movimento na direção correta, mas ressalta que a participação das inversões ainda é pequena diante do tamanho do orçamento federal. As despesas correntes (pessoal, aposentadorias, custeio da máquina) da União, por exemplo, totalizaram R$$ 538,2 bilhões em 2009, um valor superior a 17% do PIB, enquanto os investimentos em ativos fixos ficaram em 1,03% do PIB.

Gonçalves observa que o investimento público é crucial para induzir o investimento privado. “Gastos públicos com infraestrutura levam o setor privado a investir mais”, afirma ele, para quem será fundamental elevar a participação das inversões no total de despesas da União nos próximos anos.

O economista Márcio Holland, professor da Escola de Economia de São Paulo (EESP) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), diz considerar bastante positiva a notícia do aumento do investimento público em 2009 Ele ressalta, contudo, a necessidade de o país elevar muito mais as despesas em infraestrutura, tanto por parte do setor público quanto do privado, e em setores mais dinâmicos, de maior intensidade tecnológica, para sustentar o crescimento no longo prazo. “O investimento da União e da Petrobras é bem vindo, mas é parcial.”

07/02/2010 - 17:30h “O crescimento da renda per capita dos pobres de 2001 a 2008 foi de 72%”

Entrevista de Marcelo Neri*, feita por Ivan Marsiglia - O Estado de S.Paulo

http://www.mds.gov.br/ascom/hot_seminariobf/marcelo_neri.jpg

“Em cinco anos, 19,3 milhões saíram da pobreza”



Na pesquisa “A Nova Classe Média”, o senhor afirma que a categoria representa hoje 52% da sociedade brasileira. Essa classe C tem uma base de renda achatada?

Claro que a classe média brasileira que ascendeu nos últimos anos não é igual à americana ou à europeia. Mas a renda média no Brasil é muito próxima da renda média mundial. São famílias que recebem mensalmente entre R$ 1.115 a R$ 4.808. Como definimos essa “nova classe média”? Na virada da década, ela se situava entre os 50% mais pobres, das classes D e E, e os 10% mais ricos, da classes A e B. Representava 40% da população. Hoje, ela é majoritária: 52%.

Que significado tem essa mudança?

A primeira importância é econômica. Ela passou a ser a maior concentradora de poder de compra. A classe C é responsável hoje por 46,5% do bolo de renda do País, enquanto a classe AB tem 43%. Então a classe C passa a ser estratégica para as empresas em suas decisões. Outra importância é política: se toda ela votasse em um só candidato, a classe C decidiria sozinha a eleição. Evidentemente que isso é improvável, pois seu perfil não é homogêneo. Mas se na maioria dos países a classe média costuma ser o fiel da balança de uma eleição, aqui ela passou a ser mais do que isso.

É um fenômeno sustentável, que veio para ficar?

O que cresceu significativamente no País foi renda do trabalho, não aquela proveniente dos programas sociais – o que já garante certa sustentabilidade. Outro fator é o aumento da formalização do trabalho. De 2003 a 2009, o número de empregos formais novos foi de 8,5 milhões, o que mostra que o empresário, que é o símbolo e a força dinâmica do capitalismo, está apostando. Parece que a sociedade brasileira como um todo, que sempre aceitou a desigualdade, agora aceita menos.

Por que o senhor diz que a atual década se caracteriza “menos pelo crescimento generalizado da renda para todos os estratos da população, do que pela redução da desigualdade observada”?

Nos números da Pnad de 2001 a 2008, se observa uma queda muito forte na desigualdade. Ela só tinha se alterado significativamente no Brasil uma vez: nos anos 60, e para cima. A desigualdade aumentou na época do milagre econômico. Por isso o (economista) Edmar Bacha cunhou o termo “Belíndia” (segundo o qual, em termos sócio-econômicos, o Brasil seria uma mistura de Bélgica e Índia). Apenas de 2004 para cá, 32 milhões de brasileiros subiram para a classe ABC. Em cinco anos, 19,3 milhões saíram da pobreza. Então, a boa notícia é que dá para transformar o País rapidamente, aos saltos. A má é que a desigualdade continua grande: ela ainda precisa cair três vezes para convergir ao nível norte-americano, que já é muito alto.

Economistas como Claudio Dedecca, da Unicamp, afirmam que não se pode falar em queda de desigualdade, uma vez que a diferença entre a renda do capital e do trabalho continua crescendo no País…

Discordo. Primeiro porque a gente não sabe bem o que houve com a desigualdade entre capital e trabalho: há problemas de medição, é muito difícil captá-la. E existe toda uma tradição de linha marxista com esse foco, que abomina o crescimento do capital no Brasil como se ele fosse o problema. Minha linha é outra: precisamos de um “choque de capitalismo” para os pobres. A pergunta da Pnad é simples: Quanto dinheiro você tem no bolso? É a soma da renda do trabalho, do que o aposentado da família ganha de pensão, do valor recebido dos programas sociais. Para o cidadão comum, é isso o que importa: o conforto que ele leva para a casa da família. E você nota que o bolso do pobre cresceu mais, proporcionalmente, que o do rico.

Outra vertente de críticas afirma que teria havido não propriamente melhoria na renda, mas maior capacidade de consumo pelo endividamento, por causa do crédito. E aí?

O crédito pode ter feito a roda da economia girar mais, gerando mais renda. Mas esse é um efeito extra. O que aconteceu de fato foi o que já chamei de “o segundo Real”. O grande marco da gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso foi o Plano Real. No Ipea, nós fomos os primeiros a mostrar que o Real tinha diminuído a pobreza. Um ganho veio da estabilidade, do fato de o cidadão poder prever o futuro, sair da inflação de 40% ao mês. Em certo sentido, isso se repetiu em 2003, quando Lula assumiu a Presidência e mostrou aos mercados que manteria as regras e contratos. Depois vieram os programas sociais em grande escala e a volta do crescimento econômico. A classe C no Brasil aumentou de 32% para 37% com o Plano Real. Com o “segundo Real”, agora, passou de 37% para 52%.

Por que o senhor diz que a renda dos mais pobres teve “crescimento chinês” no País?

O crescimento da renda per capita dos pobres de 2001 a 2008 foi de 72%. Fazendo uma conta simples, dá quase 10% ao ano – semelhante aos índices chineses. Com uma diferença. O (economista Carlos Geraldo) Langoni (diretor do Centro de Economia Mundial da FGV), que esteve na China recentemente, me disse que ela parece o Brasil dos anos 60: crescendo muito, mas com a desigualdade aumentando. O crescimento geral da economia brasileira é menor em quantidade, mas melhor em qualidade, em relação à China. Somos uma democracia – e vimos ao longo da década de 80 o quanto aprender a ser uma democracia gera custos econômicos -, nosso tratamento ambiental é melhor, ainda que com problemas, e o caráter desse crescimento é outro, distributivo.

A educação continua crítica?

O índice Gini mostra que a desigualdade de educação também caiu ao longo das duas últimas décadas e o nível dessa educação começa a melhorar – embora seja muito baixo ainda. No começo dos anos 90, 15% das crianças brasileiras estavam fora da escola. Hoje, são menos de 2,5%. Esses jovens começaram a chegar ao mercado de trabalho mais bem preparados e informados, obtendo salários maiores e com mais chances de obter empregos formais. É por isso que o aumento da escolaridade também influencia na formalização da economia. O esforço para se colocar as crianças na escola, na década passada, foi o segundo grande marco dos anos FHC, além do Plano Real – e explica em parte o que está havendo nesta década. FHC criou o Bolsa-Escola, Lula deu escala a ele. Primeiro, com um passo atrás, no Fome Zero. Depois, com dois à frente, no Bolsa-Família – que é um Bolsa-Escola 2.0, mais evoluído. Se eu fosse tucano, estaria pensando no Bolsa-Escola 3.0 para a eleição de 2010. E se fosse petista, no Bolsa-Família 2.0. O País não pode ficar sentado nos louros.

O que contribuiu mais para a queda da desigualdade: o Bolsa-Família ou os aumentos no salário mínimo?

No estudo sobre o Real em 1996, notamos que boa parte da redução da pobreza se deu em maio de 1995, quando houve forte reajuste do salário mínimo. Já os aumentos ocorridos sob Lula, de 2005 para 2006, tiveram efeitos menores no combate à desigualdade. Foi o aumento da renda do trabalho o responsável por quase 1/3 da melhora observada. Em seguida, 17% se devem ao Bolsa-Família e 15% à previdência, aí incluído o salário mínimo. Os resultados são até equilibrados, só que o Bolsa-Família custa bem menos: 0,4% do PIB, enquanto as aposentadorias representam 12% do PIB. A cada real gasto com o Bolsa-Família, a pobreza cai três vezes e meia mais do que o equivalente investido no salário mínimo. Além disso, o programa beneficia mais a classe E, enquanto é a classe B que ganha nos reajustes de salário mínimo e a classe AB nas aposentadorias acima dele. Para fins de redução da desigualdade, o Bolsa-Família dá de goleada.

Como ele pode ser aperfeiçoado?

Muita gente exalta muito as tais condicionalidades – a obrigação de levar os filhos à escola, fazer exames médicos, etc. – mas na prática elas não têm grande efeito no Bolsa-Família. As crianças pobres já estão na escola desde FHC. A agenda do próximo Bolsa-Família deveria se concentrar não na chamada “porta de saída da pobreza”, uma expressão que não acho boa, mas em uma “porta de entrada” nos mercados. O pobre não quer sair de nada: ele quer é entrar. Falta criar dispositivos para distribuir serviços sociais e produtivos aos beneficiários.

O governo anunciou esta semana que vai enviar ao Congresso até março o projeto de consolidação das leis sociais. Pela sua experiência com o tema, que aspectos dos atuais programas sociais mereceriam status de lei no País?

Ainda não conheço o projeto em detalhes. Sou francamente favorável ao estabelecimento de metas sociais para aumentar o desempenho e dar transparência a esses programas. O que a Constituição de 1988 fez? Estabeleceu direitos e definiu em que áreas o município, o Estado e a União deveriam investir – mas não exigiu que eles mostrassem que gastam bem. Fixar metas significa não apenas dar um choque de gestão nos projetos sociais, mas também uma oportunidade de cobrança para a população.

Como isso pode ser feito?

Por exemplo, vinculando parte da distribuição de verbas a ganhos de eficiência. Ou como São Paulo e Pernambuco estão fazendo com os professores estaduais. Se o aluno progride, quem ensinou tem direito a bônus. Premiar, com critérios de mercado, as boas ações. Já que exigir frequência à escola no Bolsa-Família é uma condicionalidade fraca, por que não criar metas de proficiência, que envolvam tanto o estudante como sua família? Vários upgrades podem ser dados ao Bolsa-Família, que é uma plataforma que veio para ficar. Nos últimos anos a gente deu os pobres ao mercado. Falta agora dar o mercado aos pobres.

A entrevista foi publicada no jornal O Estado SP sob o título “Cresceu e veio para ficar”, em 7 de fevereiro 2010

* Marcelo Neri, 47 anos, é Chefe do Centro de Pesquisas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro. Ph.D pela Universidade Princeton, foi pesquisador do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) na década de 90,

01/02/2010 - 09:22h Em Davos, Brasil é ‘exemplo de sucesso’

Fórum Econômico: Asiáticos foram estrelas mais assediadas, mas caso brasileiro tornou-se tema de debate

Sergio Leo, de Davos – VALOR

As estrelas emergentes mais assediadas foram os asiáticos no Fórum Econômico Mundial, que terminou ontem, na Suíça; mas o Brasil ganhou um prêmio de consolação: o país transformou-se em exemplo de sucesso, não só no desempenho econômico, como na regulação bancária, no uso de combustíveis renováveis, na conciliação de crescimento com distribuição e renda e até na aplicação de regras de proteção à saúde e ao ambiente dentro da Organização Mundial de Comércio (OMC).

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cancelou a viagem que faria para receber o inédito prêmio de Estadista Global e foi representado, na sexta-feira, pelo chanceler Celso Amorim. O ministro era esperado, também, para participar da mesa que discutiria, no sábado, as relações entre comércio e ambiente; não foi, mas mesmo assim o Brasil e o próprio ministro foram tema do debate. Logo no início do painel, o mediador, o professor de Harvard Robert Lawrence, lamentou a ausência de Amorim, ao ouvir críticas a barreiras comerciais contra produtos “verdes”.

“Se o ministro Amorim estivesse aqui, nos lembraria da taxa nos Estados Unidos sobre o etanol brasileiro”, comentou, sorrindo. Mais adiante, no debate, foi o próprio secretário-geral da OMC, Pascal Lamy, quem usou o Brasil como modelo, ao argumentar que a organização já abriga regras de proteção ambiental e solução de conflitos nesse tema. “Sugiro que consultem na página da OMC a seção de solução de controvérsias e vejam o caso de Brasil e União Europeia sobre pneus remodelados”, disse Lamy.

Ele se referia à recente vitória do Brasil no caso em que a UE contestou as barreiras brasileiras à importação de pneus usados e remodelados, um dos primeiros casos bem-sucedidos na OMC a reconhecer a legalidade de barreiras comerciais em caso de risco à saúde pública. O ministro do Comércio da Índia, Anand Sharma, habitualmente um crítico do uso de alimentos como combustível, teve cuidado de classificar o álcool brasileiro como exceção – seguindo um apelo constantemente feito pelas autoridades brasileiras.

Amorim, que ao chegar a Davos disse que a discussão de comércio “está ficando chata”, participou com Lamy de uma reunião, às margens do Fórum Econômico, para discutir as chances de retomada da rodada de liberalização comercial da OMC conhecida como Rodada Doha. Não teve muito sucesso, porém, em convencer outros governos a elevar a discussão para os presidentes.

Tema obrigatório no passado, o livre comércio mundial, como notaram os participantes do Fórum, ficou praticamente excluído dessa versão do encontro, a não ser pelas discussões relacionadas a clima e comércio de carbono. Um dos motivos desse lapso é o desinteresse americano, que motivou outra ausência mais lamentada em Davos que a falta forçada de Lula: na delegação dos EUA, não havia autoridades de alto nível, além do principal conselheiro econômico da Presidência, Lawrence Summers.

Foi em outro assunto multilateral, a polêmica reforma do sistema financeiro, um dos principais temas do Fórum neste ano, que se sentiu mais fortemente o isolamento dos EUA. Desde antes do início do encontro, banqueiros indicaram que queriam aproveitar o evento para criticar o pacote de punição e controle dos bancos lançado pelo presidente dos EUA, Barack Obama. No que se tornou um dos principais debates do Fórum, as referências ao pacote foram frequentes, às vezes diretamente, às vezes sob expressões como “resposta emocional” ou “populismo”.

Enquanto os bancos e economistas discutiam se dariam certo medidas como a fragmentação de bancos para evitar riscos sistêmicos (pouca gente acredita nisso, lembrando que o Lehman, falido em 2008 e catalisador da crise, não era banco comercial), autoridades e aliados de Obama, como o financista George Soros, reconheciam que o pacote americano era ou precipitado ou insuficiente ou ambas as coisas, ainda que esteja na direção correta. Em um debate sobre o futuro da regulação financeira, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, deu lição de moral a grandes banqueiros presentes, que reclamavam do risco de uma “super-regulação” capaz de afetar a vitalidade do sistema bancário mundial.

“Todos os produtos financeiros que oferecem risco têm de ser contabilizados e gerar reservas de capital”, defendeu Meirelles. A pedido de um dos integrantes da mesa, ele informou que, no Brasil, tanto operações com chamados derivativos têm controle mais estrito que nos países desenvolvidos como os acionistas respondem com o próprio patrimônio, diferentemente da situação dos países ricos, comparada, durante o debate, à de um cassino sem freios.

A situação descrita por Meireles não é, na verdade, exclusiva do Brasil. É regra nos países da Ásia e da América Latina, que reforçaram as regras de segurança bancárias após as crises das dívidas das décadas de 80 e 90. “Os problemas do passado fizeram os países abraçarem regras financeiras mais estritas, o que é muito melhor”, comentou, em um dos debates de Davos, o ex-presidente do Banco Central mexicano Guillermo Ortiz. Por sua relativa impermeabilidade à crise, China e Índia – e não o Brasil – foram parte do painel nobre de encerramento do Fórum, quando o representante chinês se deu ao lixo de apontar o risco de calote na dívida pública na Europa como um dos principais riscos atuais.

Nas discussões entre as empresas privadas, que lamentavam a situação atual de restrição e alta seletividade de crédito, que coloca empresas pequenas e médias nos EUA sem financiamento, o presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, também pôde fazer pose. “O que há é mais seletividade. Em pleno janeiro de 2009, captamos US$ 6,5 bilhões no mercado privado”, informou o executivo.

29/01/2010 - 13:52h Indústria fecha 2009 com estoques abaixo do normal e planeja contratações

Denise Neumann, de São Paulo – VALOR

A indústria virou o ano com estoques abaixo do normal e com planos para contratar mais funcionários e comprar mais matéria-prima, preparando-se para atender uma demanda aquecida. No último trimestre do ano passado, apenas 9 de 27 setores registraram um nível de estoques alto, enquanto os 18 restantes reportaram um volume de produção estocada abaixo do desejável, segundo pesquisa Sondagem Industrial, da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada ontem com base nas informações de 1.418 empresas de todo o país.

Esse quadro de estoques baixos é bastante diferente daquele registrado no último trimestre de 2008 – naquele período, a indústria havia se preparado para uma demanda forte, mas ela foi fortemente impactada pela crise mundial e 70% dos setores encerraram o ano com estoques acima do planejado.

Com estoques ajustados ou necessitando de recomposição, todos os 27 setores esperam aumento de demanda interna – na pesquisa da CNI, números acima de 50 são considerados positivos, e em 20 segmentos o indicador de demanda superou 60 pontos, um percentual bastante elevado. No início de 2009, pro exemplo, metade dos setores não alcançou 40 pontos, um sinalizador bastante negativo de expectativa. Na exportação, ocorre o contrário do esperado para o consumo doméstico: a maioria dos setores espera perdas nas vendas ao exterior.

Para atender ao aumento esperado de demanda, a indústria planeja contratar mais e comprar mais matéria-prima. Na média, a expectativa dá indústria de trans formação com o aumento do pessoal empregado passou de 40,7 pontos (sinal de demissão) em janeiro de 2009 para 54,8 pontos neste início de 2010. O índice de expectativa de número de empregados cresceu pelo quarto trimestre consecutivo.

O novo aumento e o percentual elevado indicam que as intenções de ampliação do número de empregados estão mais difundidas pela indústria. Entre os 27 setores, apenas dois não sinalizam aumento do quadro de pessoal. Os segmentos com as expectativas mais positivas para o emprego são os de material elétrico e de comunicação, borracha, limpeza e perfumaria e farmacêutico.

A sondagem da CNI mostrou que , no último trimestre de 2009, o nível de utilização da capacidade instalada da indústria atingiu 77%, quatro pontos percentuais acima do resultado registrado no trimestre exatamente anterior. Houve também um crescimento de três pontos sobre o último trimestre de 2008 (74%). Apesar da expansão, o índice permanece abaixo do patamar do quarto trimestre de 2007, quando a indústria operava com 80% de sua capacidade. Naquele ano, o setor ainda não havia sido afetado pela crise financeira mundial.

Em nota, durante a divulgação dos resultados da sondagem, a CNI destacou que o ritmo de crescimento da indústria já está próximo aos níveis pré-crise. O indicador de produção mostra um aumento de 56,6 pontos no terceiro trimestre para 58,1 pontos no quarto trimestre. A dificuldade de acesso aos empréstimos para capital de giro e ao financiamento de longo prazo também foi apontada pelo empresário industrial como um obstáculo ao melhor desempenho da empresa. (Com Fernando Taquari, de São Paulo)

29/01/2010 - 13:30h Apesar da crise, emprego formal cresce, e informal cai

Conjuntura: Vagas com carteira assinada puxam ocupação nas capitais

Samantha Maia, de São Paulo – VALOR

A crise econômica não foi capaz de segurar a tendência de formalização do emprego no país. O modesto crescimento de 0,7% do emprego em 2009 foi puxado pelas vagas com carteira assinada, segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o levantamento, enquanto o mercado de trabalho contratou 2,3% mais pessoas com registro em carteira em 2009, o emprego informal sofreu uma queda de 3%. Dessa forma, a média da participação da população com carteira assinada no total de ocupados aumentou de 76,7%, em 2008, para 77,9%, em 2009.

“A tendência de melhora do mercado formal no país se firmou em 2009, apesar de ser um ano de crise e do emprego ter crescido com menos vigor”, diz o gerente da pesquisa mensal de emprego (PME) do IBGE, Cimar Azeredo. A pesquisa do IBGE mostra que, em dezembro de 2009, a taxa de desemprego ficou em 6,8% da População Economicamente Ativa (PEA), repetindo o resultado do mesmo período de 2008, o menor da série. A taxa média de desemprego, por sua vez, ficou em 8,1% em 2009, pouco acima da taxa de 2008 (7,9%).

A Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) divulgada ontem pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra evolução semelhante na ocupação. Ela cresceu 0,7% no ano – os empregos com carteira assinada no setor privado tiveram alta de 3,6% e os informais caíram 8,9%. Na Região Metropolitana da São Paulo, a queda dos sem carteira chegou a 12%.

O desempenho do emprego formal em 2009 contrariou as expectativas dos analistas em um ano marcado pela crise econômica mundial. “A formalização foi o que mais surpreendeu, pois em ano de economia ruim, o esperado é que os empregos precários cresçam”, diz Sérgio Mendonça, coordenador da PED. A força das contratações na construção civil, a demissão de trabalhadores informais em pequenas empresas e uma menor disposição dos desempregados em aceitar ocupações precárias estão entre as explicações possíveis para o fenômeno.

Para Fábio Romão, economista da LCA Consultores, o aquecimento das contratações no setor da construção civil teve impacto na formalização. “Há um processo de formalização dos empregos na construção após a abertura de capital de diversas empresas acompanhado por um crescimento importante do setor”, diz ele. Em 2009, foram criados 177 mil empregos na construção, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), resultado menor apenas que o de 2008 na série, quando o saldo de vagas ficou em 198 mil.

Segundo a PME, em dezembro de 2009, o emprego na construção civil cresceu 5,3% em relação ao ano de 2008. Sob a mesma comparação, na indústria o crescimento foi de 0,4%, e no comércio houve queda de 0,3%.

O emprego informal também é mais sensível a crises, segundo Thaís Marzola Zara, analista da Rosenberg Consultores Associados, o que pode explicar parte da redução desse tipo de ocupação em 2009. “A demissão de trabalhadores sem carteira assinada num momento de crise ocorre primeiro, pois não tem o impacto dos custos que há no mercado formal”, diz.

Já para Mendonça, do Dieese, o resultado positivo da formalização pode ter sido garantido em 2009 pelo ciclo anterior de crescimento da economia no país. Ele explica que de alguma forma o brasileiro não aceitou “qualquer coisa” para retornar ao mercado de trabalho. “O avanço do emprego formal garantiu que mais pessoas pudessem contar com o seguro desemprego, e uma situação mais confortável na família também pode ter ajudado o desempregado a esperar por oportunidades de ocupações melhores em vez de ir para empregos informais”, diz ele.

Isso pode ser notado nos dados de desemprego da PED. Segundo a pesquisa do Dieese, o número de desempregados cresceu 1,6% no país no ano passado, puxada pela alta de 5,4% do desemprego aberto, ou seja, as pessoas que estão procurando trabalho e não estão exercendo outras atividades. O desemprego oculto por trabalho precário, por sua vez, caiu 6,2%.

Para o ano que vem, os analistas alertam que o crescimento da PEA, que indica um maior número de pessoas procurando emprego, poderá pressionar o índice de desemprego no país. Segundo a analista Thaís Zara, da Rosenberg, a alta de 1,4% da PEA em dezembro sobre novembro do ano passado é um primeiro sinal de que a recuperação da economia já anima as pessoas a voltarem a buscar trabalho. Em novembro, a alta da PEA foi de 0,4% sobre outubro.

Na mesma linha, Romão, da LCA, projeta uma taxa média de desemprego de 7,8% em 2010, resultado que só não deve ser melhor por conta do crescimento da PEA. “A percepção de aumento da empregabilidade já atrai pessoas que tinham desistido de procurar emprego”, diz ele.

29/01/2010 - 11:05h Dívida recuará para 40% do PIB, diz BC

Perspectiva de cumprimento da meta fiscal contribuirá para queda

Renato Andrade – O Estado SP

A desvalorização do dólar ante o real no ano passado fez com que a dívida líquida do setor público como proporção do Produto Interno Bruto (PIB) se elevasse para 43%, zerando a melhora registrada em 2008. Mas o cenário traçado pelo Banco Central (BC) para o comportamento do endividamento público em 2010 ainda é benigno.

Para Altamir Lopes, chefe do Departamento Econômico do BC, a perspectiva de cumprimento da meta fiscal em 2010, correspondente a 3,3% do PIB, vai contribuir para que a dívida em relação ao PIB recue para 40% no fim do ano.

“Isso demonstra que, do ponto de vista de solvência, não há por que se preocupar”, disse Altamir. “A dinâmica de dívida se mostra benigna, evidentemente, com o cumprimento da meta de primário estabelecida”, acrescentou.

O comportamento do câmbio é decisivo para a relação entre o tamanho da dívida líquida como proporção do PIB. Isso porque, quando o dólar se desvaloriza frente ao real, os ativos em moeda estrangeira – como as reservas internacionais – perdem valor, elevando a relação entre endividamento e produção de riquezas, que são calculados em reais.

Em 2008, quando o dólar teve uma valorização de 32% frente ao real, reflexo do agravamento da crise no último trimestre daquele ano, a dívida líquida do setor público atingiu o patamar de 37,3% do PIB. “Em 2009, o câmbio atuou em sentido contrário”, disse Altamir. “Tivemos uma apreciação cambial expressiva, que chegou a 26%, portanto, o efeito foi contrário”, explicou.

Mas o crescimento de 5,7 pontos porcentuais entre 2008 e 2009 também foi influenciado por outros elementos. Segundo Altamir, o déficit nominal mais acentuado e a queda nas receitas contribuíram para essa piora.

A retomada da trajetória cadente da relação dívida/PIB já foi verificada no início de 2010. Segundo Altamir, dados preliminares indicam que o endividamento líquido do setor público deve ter atingido o equivalente a 42% do PIB no fechamento de janeiro.

Ver também no blog

Dívida de países ricos infla com a crise

Dívida pública média dos países da OCDE vai atingir 100% do PIB



28/01/2010 - 12:29h ‘País conseguirá chegar à meta fiscal deste ano’

http://www.jornalalef.com.br/Alexandre_Schwartzman.jpgAlexandre Schwartsman: ex-diretor do BC e economista-chefe do banco Santander. Especialista critica gestão fiscal do governo e diz que efeito negativo se dá principalmente sobre o potencial de crescimento

Marcelo Rehder – O Estado SP

Para o ex-diretor do Banco Central (BC) e economista-chefe do Santander, Alexandre Schwartsman, a contínua expansão do gasto corrente do setor público será o principal responsável por eventual alta dos juros neste ano. “O crescimento da economia poderia ser mais rápido, se houvesse corte de gastos”, diz o economista na seguinte entrevista.

O resultado do Tesouro em 2009 é motivo de preocupação?

Em alguma medida, não muito. A parte negativa da história obviamente foi a expansão do gasto corrente e recorrente. O gasto corrente veio de 16,3% para 17,1% do PIB, e a maior parte dele é resultado de expansão de coisas que não têm contração possível, como administração da folha de pagamentos, benefícios previdenciários. Tem uma série de coisas que aumentou e não tem como cair, por causa da rigidez do orçamento. No conjunto da obra, é um nível de gasto que não vai ser reduzido facilmente lá na frente, um aumento persistente do gasto.

E a parte boa?

O que sai de bom é que a gente já está vivendo a retomada do crescimento, com uma recuperação da arrecadação. Só o retorno às condições normais de crescimento da economia já sugere que o País vai conseguir, sem grandes dificuldades, chegar à meta fiscal deste ano. Então, o aumento do gasto, embora seja persistente, não parece ser suficiente para impedir que em 2010 o País consiga atingir suas metas, desde que não faça nenhum grande exagero.

Só o aumento da arrecadação já seria suficiente?

Em condições normais, sim. A arrecadação teve uma queda bastante expressiva de um ano para outro. Em algum momento no terceiro trimestre de 2008, a arrecadação bruta estava na casa de 24% do PIB. Aí, ela caiu significativamente, mas começou a se recuperar no fim de 2009. Provavelmente, a arrecadação não vai nos levar para os mesmos níveis que nos acostumamos a ver nos últimos anos. A gente não vai ver o governo federal entregar um superávit primário da ordem de 2% a 2,5% do PIB. Deve ficar num intervalo um pouco mais baixo, de 1,8% a 2% do PIB, mas o suficiente para atingirmos as metas fiscais.

Há descompasso entre a política monetária e a fiscal?

Há sim, e significa que o juro subirá mais do que subiria se a gente tivesse de fato uma política fiscal anticíclica. Não é só olhar o resultado, porque muito provavelmente o superávit primário vai aumentar em 2010 relativamente a 2009. Isso significa que nós estamos fazendo políticas anticíclicas? Não, de forma alguma. O superávit vai aumentar porque a economia recupera e a arrecadação recupera com ela. A forma correta de medir a política fiscal é isolando-a do ciclo econômico. Isso mostra que não vamos voltar a ter superávits como os que prevaleceram até 2008. O que sugere que a política fiscal é expansionista, que vai persistir sendo expansionista em 2010 e, com isso, terá um impulso fiscal que em alguma medida vai ter de ser contrabalançado pelo impulso monetário. Se a gente estivesse fazendo um esforço para voltar para os superávits do período de 2004, 2008, com corte de gasto, ou o Banco Central não subiria os juros ou subiria mais tarde ou subiria menos.

As medidas de incentivo ao consumo adotadas pelo governo não foram anticíclicas?

O que teve de anticíclico mesmo foi a questão do IPI, porque de fato tem data marcada para acabar, e entra na recuperação da receita. Mas o tamanho disso, relativamente ao PIB, foi pequenininho.

O País não cumpriu a meta de superávit fiscal no ano passado…

Francamente, eu não me preocupo. Que a gente não ia chegar lá, era muito claro. Mas nós fizemos a meta para nós, e não para nenhum terceiro.

Não tem impacto negativo na expectativa do capital estrangeiro?

Acho que hoje em dia é muito pequeno. Teria, se a gente estivesse numa trajetória na qual o País não conseguisse manter sua dívida sob controle. Eu acho que a gente não está numa situação como essa. A dívida cresceu em 2009 relativamente a 2008, mas, primeiro não foi nada desesperador e, segundo, e mais importante, as perspectivas são de que a dívida volte a retomar uma trajetória de queda relativamente ao PIB nos próximos anos. Isso significa que não vamos entrar num problema de solvência. Se houvesse problema de solvência, a gente veria um grau de preocupação muito maior. Eu vejo a nossa questão fiscal como um problema de crescimento. Acho que é uma política que reduz o crescimento relativamente ao que ele poderia ser, pela concentração muito grande em gasto corrente. O crescimento do investimento foi muito baixo, de 1% para 1,1% do PIB. Não dá para dizer que esse negócio está andando bem.

Se não anda bem, o que se pode esperar para a economia real?

Não vamos ter crescimento super-rápido com expansão forte de infraestrutura a cargo governamental. Os impostos vão continuar altos e as distorções que resultam dos impostos altos e do gasto público elevado também vão continuar lá.

25/01/2010 - 12:05h Brasil sobe no ranking global de agências de propaganda

Países emergentes destronam antigos líderes nas redes globais

Marili Ribeiro – O Estado SP

Os escritórios de agências de propaganda em países emergentes ganham espaço nos rankings internos das grandes redes globais do setor. A brasileira NeogamaBBH, por exemplo, assumiu a segunda posição na listagem por faturamento da holding inglesa BBH, ficando abaixo apenas da sede londrina, mas à frente da operação em Nova York e Tóquio. A BBH Londres teve o pior ano desde sua fundação em 1982. Para manter a rentabilidade do negócio teve que fazer pesados cortes de pessoal e rever diversos processos internos.

“No mercado interno nós crescemos mais de 45%. Como Londres caiu 10%, nossa posição melhorou”, resume Alexandre Gama, presidente e diretor criativo da agência.

Clientes como banco Bradesco, a montadora Renault, a empresa de telefonia TIM e a multinacional Unilever estiveram ativos no mercado interno, apesar da crise externa.

A Leo Burnett do Brasil deve manter a sexta posição no ranking interno da rede americana com sede em Chicago, ocupado em 2008, mesmo em situação inversa – porque perdeu dois clientes, a operadora de cartões Visa e a empresa de telefonia Br Telecom (comprada pela Oi).

“Os resultados do grupo serão conhecidos em março, mas acho difícil o Brasil cair porque ganhou a conta da Fiat”, pondera Renato Loes, presidente do escritório brasileiro da Leo Burnett e responsável pelo grupo na America Latina. A rede tem 96 agências em 84 países.

Países como China e Índia também conquistam espaço nesses conglomerados de propaganda.

A situação se acentuou no ano passado depois que a crise penalizou os mercados europeus e americano, que sofreram quedas de receita de mais de 10%. A questão que se impõe é o que acontecerá quando a economia retomar fôlego.

Para alguns executivos do meio a atual mudança de patamar não deve se manter. “Acho que a ascensão dos emergentes é um fenômeno que já vinha se desenhando nos últimos quatro ou cinco anos e a crise apenas acelerou”, pondera Stefano Zunino, presidente da JWT no Brasil e membro do board mundial da rede JWT , rede de 200 escritórios em 90 países.

“Os emergentes são hoje um excelente negócio para as empresas de publicidade, porque as multinacionais que atendemos globalmente com prestação de serviços estão investindo cada vez mais nesses mercados. Há espaço para expandirmos, ao contrário de EUA e Europa onde a receita vem caindo como espelho do que acontece na economia”, diz Zunino.

No caso da JWT, as agências do Brasil, China e Índia já ocupam posição entre os dez melhores desempenhos da rede.

Loes concorda com Zunino. “Os escritórios melhor posicionados nesses países vão ter possibilidade de crescer mais rápido”, considera.

Na Ogilvy, uma das maiores redes de comunicação e marketing global, com mais de 450 escritórios em 120 países, o Brasil ocupa a quarta posição no ranking interno, atrás de EUA, Reino Unido e China. Há dez anos o País estava em 28º lugar.

“O ranking de 2009 ainda não está fechado, mas poderemos subir uma posição”, diz Sérgio Amado, que preside a operação no Brasil e faz parte do board mundial há anos. “Não existe mais emergentes”, pontifica ele. “Existem países em crescimento forte e outros em crescimento moderado”.

Relatório sobre o futuro da economia global, elaborado pela consultoria PricewaterhouseCoopers, divulgado na semana passada em Londres, projeta que, até 2020, o Produto Interno Bruto (PIB) do grupo de sete maiores emergentes – China, Índia, Brasil, Rússia, México, Indonésia e Turquia – será maior do que os atuais integrantes do poderoso G-7 (EUA, Canadá, Japão, Alemanha, França, Reino Unido e Itália).

Cinco das dez maiores economias do planeta, até 2030, serão países hoje tidos como emergentes. Nesse cenário o Brasil será a quinta maior economia do mundo em 2030, ultrapassando gigantes como Alemanha, Reino Unido e França. O negócio da publicidade não é insensível a isso.

Alexandre Gama explica que as perspectivas são boas no caso brasileiro graças aos futuros eventos esportivos que mobilizam multidões e muitas obras, como a Copa do Mundo em 2014 e os Jogos Olímpicos em 2016.

Mas, mesmo assim, Gama considera que, se houver uma efetiva retomada econômica lá fora, a disputa por posições nas redes globais de comunicação ficará mais acirrada. “É uma questão de escala”, relativiza ele. “As verbas de marketing nos EUA são sempre imensas, às vezes o triplo do que se aplica hoje no Brasil”.

25/01/2010 - 11:31h País já enfrenta falta de mão de obra

Raquel Landim – O Estado SP

O mercado de trabalho foi um dos últimos a se recuperar da crise, mas o medo de perder o emprego já é passado para os brasileiros. Empresas, comércio e serviços não só voltaram a contratar, como falta trabalhadores com qualificação suficiente para preencher vagas. Empresários e analistas temem a repetição do “apagão de mão de obra” de 2008, o que comprometeria o avanço sustentável da economia.

“Toda vez que o Brasil cresce 4,5% ou mais, falta mão de obra qualificada”, disse o professor da Universidade de São Paulo José Pastore, especialista em trabalho. No mercado, prevê-se que o Produto Interno Bruto (PIB) suba de 5% a 6% este ano. O déficit de trabalhadores qualificados é preocupante na construção civil, mas ocorre também no agronegócio, na saúde, em hotéis e até em alguns ramos da indústria.

Uma estimativa da consultoria LCA, com base no Cadastro Geral de Trabalhadores (Caged) e na Relação Anual de Informações Sociais (Rais), aponta que o número de brasileiros empregados atingiu 32,28 milhões em novembro de 2009, 1,1 milhão a mais que em outubro de 2008, antes da crise, quando o problema de falta de mão de obra qualificada era grave. Em dezembro, com a demissão dos temporários contratados para o Natal, caiu para 31,87 milhões, 685 mil a mais que antes da crise.

Há uma diferença entre os setores. Na construção, no comércio e nos serviços, o número de empregados supera o nível anterior à crise. Na indústria, há 289 mil pessoas sem emprego em relação a outubro de 2008. “Tem um estoque de trabalhadores qualificados à disposição no setor”, disse o economista da LCA Fábio Romão. Ele prevê que a indústria retomará o nível de antes da crise em meados do ano.

“Em alguns meses, teremos falta de mão qualificada geral”, prevê o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva. A situação promete disputas acirradas nas negociações salariais.

O sócio-diretor da MB Associados José Roberto Mendonça de Barros afirma que a falta de qualificação da mão de obra aumenta o custo das empresas porque eleva os salários e os gastos com formação. Ele acredita que esse será um fator de pressão para a inflação em 2010.

No Brasil, existem 8,6 milhões de desempregados, mas falta mão de obra. O problema está na educação. O brasileiro estuda, em média, cinco anos, ante 12 do americano e 11 do japonês. Mas as empresas exigem ensino médio na hora de contratar. “Só contratamos “japoneses”, mas os nossos “japoneses” são poucos”, disse o diretor de relações institucionais da Confederação Nacional da Indústria, Rafael Lucchesi.

Para o chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, Marcelo Neri, o problema se “retro-alimenta”. “O mercado é o canto da sereia para os jovens, que vão trabalhar sem qualificação suficiente.”

25/01/2010 - 11:17h Na lavoura mecanizada, desafio é encontrar gente qualificada

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O Estado SP

Em Goiás, parceria dá origem a escola profissionalizante

Desde os 14 anos, quando chegou ao interior de São Paulo, o cearense José Alcides do Nascimento corta cana de açúcar. Mas os dias de bóia-fria ficaram para trás. Hoje ele dirige orgulhoso uma colheitadeira, que faz todo o trabalho pesado.

“É um sonho realizado. No corte de cana, o desgaste físico é grande. Eu não conseguia estudar, não conseguia fazer nada”, diz Nascimento. Aos 31 anos, ele comprou uma casa e prepara o casamento com a namorada de oito anos.

Mas não foi fácil mudar de vida. Sempre que tinha uma oportunidade, Nascimento ficava de olho no trabalho dos operadores de colheitadeiras. Ele se esforçou para completar os estudos e tirar a carteira de habilitação. “É preciso ser esperto.” Na entressafra, está aprendendo uma nova profissão – trabalha de ajudante dos mecânicos de tratores.

Trabalhadores com a iniciativa do ex-bóia-fria ajudam a resolver um problema grave para o agronegócio: a falta de mão de obra qualificada, cada vez mais necessária à medida que avança a mecanização na lavoura.

O Grupo Usina São João, onde Nascimento trabalha, surgiu no interior de São Paulo, em Araras. Há alguns anos, adquiriu uma nova propriedade em Quirinópolis, no sudoeste de Goiás. Segundo o diretor de gestão de pessoas da empresa, Miguel Feres, a colheita é 100% mecanizada, o que torna complicada a tarefa de encontrar mão de obra.

Quinta-feira, o Senai, em parceria com a empresa e a prefeitura, inaugurou uma escola profissionalizante na região. O grupo USJ está construindo uma nova usina de cana de açúcar em Cachoeira Dourada (GO) e vai precisar de trabalhadores qualificados.

“Não é fácil encontrar pessoas para manejar tratores e colheitadeiras modernas. Ou você forma internamente ou tira de alguém”, disse Feres. Ele contou que a empresa acaba trazendo profissionais de Goiânia, o que aumenta o custo.

Em Araras, apesar da maior disponibilidade de mão de obra qualificada, também não é fácil contratar gente. “Os jovens não querem trabalhar na agricultura”, diz o executivo.

25/01/2010 - 11:03h Brasil terá de treinar 15 milhões de pessoas

Cálculo considera a necessidade de profissionais para os próximos 5 anos

Raquel Landim – O Estado SP

O Brasil vai precisar qualificar três milhões de trabalhadores por ano durante os próximos cinco anos. O cálculo é do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) e inclui formação inicial – para novas vagas – e continuada – para quem já está no mercado de trabalho. O Senai só vai ter condições de atender 70% do total. O restante terá de ser preparado por outras escolas públicas e privadas.

Segundo a instituição, os setores que demandarão um maior número de pessoas serão construção civil, alimentos e bebidas, vestuário, produtos de metal e máquinas e equipamentos. Em outros segmentos – extração e refino de petróleo, informática e equipamentos de transporte -, a demanda por trabalhadores crescerá acima da média, mas o volume de pessoal empregado é menor.

De acordo com a diretora de operações do departamento nacional do Senai, Regina Torres, as obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), as descobertas do pré-sal, as Olimpíadas e a Copa do Mundo colaboram para esse cenário. “O desafio é ainda maior, porque as empresas saem dos grandes centros rumo ao interior, o que eleva a demanda por profissionais onde os investimentos são realizados”, disse.

O governo já detectou que a falta de funcionários qualificados será um dos principais gargalos do pré-sal. Por meio do Programa Nacional de Mobilização da Indústria Nacional de Petróleo e Gás (Prominp), a Petrobrás está financiando a formação de mão de obra para seus fornecedores.

Na primeira fase, que termina em março, 78 mil pessoas foram qualificadas. Para a próxima fase, que vai até 2013, a empresa prevê mais 207 mil profissionais. “No início, não conseguíamos preencher as vagas dos cursos, porque as pessoas não atendiam os pré-requisitos de experiência ou conhecimentos básicos”, conta o coordenador executivo do Prominp, José Renato Ferreira de Almeida.

O programa optou por trocar a exigência de experiência por um módulo de estágio nas oficinas das empresas. Também fez uma parceria com os Estados, que ofereceram aulas de reforço escolar em português, matemática e lógica para as pessoas interessadas em prestar as provas do Prominp.

Na indústria, as dificuldades para preencher vagas já começaram nas indústrias intensivas em conhecimento. O setor de tecnologia da informação está investindo no País e contratando. O Google abriu 50 vagas no Brasil, o equivalente a um quarto do seu quadro atual de 200 funcionários.

“Estamos buscando engenheiros, mas também profissionais de venda e marketing. Para nós, significa um crescimento agressivo no País”, disse a gerente de recursos humanos do Google para a América Latina, Mônica Santos.

A empresa anunciou as vagas no site no início do ano e já recebeu 3,5 mil currículos. Segundo a gerente de recrutamento do Google, Aline de Lucca, todos os CVs são analisados, mas menos de 5% seguem para as próximas fases da seleção porque não preenchem os requisitos da empresa: bom desempenho acadêmico, fluência em inglês, experiência profissional e adequação à cultura.

Na Roche Diagnóstica, que produz aparelhos para laboratórios médicos, uma vaga de vendedor de aparelhos de coagulação do sangue está aberta há cinco anos. “No nosso negócio, precisamos de alguém formado em biologia ou farmácia, mas que também entenda de vendas”, explicou o diretor de recursos humanos, Maurício Rossi. Ele afirmou que, em média, a empresa leva dois meses e meio para preencher uma vaga.

Nas montadoras, ainda não existe um problema de falta de mão de obra no chão de fábrica. Com o mercado exportador ainda fraco, as empresas preferem investir no aumento de produtividade do que fazer contratações expressivas. Mesmo assim, o movimento já começou.

A Ford contratou 200 pessoas para a fábrica de Taubaté e procura 109 engenheiros. “Realmente existe uma demanda maior do que a oferta de engenheiros no mercado. Se o objetivo do Brasil é competir globalmente, as montadoras instaladas no País precisam investir muito em tecnologia”, disse o diretor de relações institucionais da Ford, Rogelio Golfarb.

NEGOCIAÇÕES TENSAS

Hoje já existe um déficit de mão de obra qualificada importante na construção civil, porque o setor não parou por causa da crise e quase não demitiu. Estima-se que as construtoras vão contratar entre 180 mil (nas contas da indústria) e 250 mil pessoas (conforme o sindicato) este ano. A situação é tensa entre o sindicato e a indústria e as negociações vão ser complicadas até a data-base em maio.

Segundo o presidente do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sintracon-SP), Antonio de Sousa Ramalho, falta quase todo tipo de profissional no canteiro de obras: pedreiro, carpinteiro, armador. “Isso nos dá força nas negociações”, disse.

O vice-presidente de Relações Capital e Trabalho do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscom-SP), Haruo Ishikawa, nega que exista um problema grave. “Toda a mão de obra sempre foi qualificada no canteiro”, disse. Ele acredita que boa parte das contratações será de trabalhadores que hoje estão na informalidade.

12/01/2010 - 13:47h Brasil pode zerar miséria e se igualar a países ricos em 2016, diz Ipea

MARIANA SALLOWICZ Colaboração para a Folha Online

O Brasil poderá praticamente zerar a pobreza extrema e alcançar indicadores sociais próximos aos dos países desenvolvidos em 2016, caso mantenha o ritmo de desempenho que teve entre 2003 e 2008. A conclusão é de estudo “Pobreza, desigualdade e políticas públicas”, divulgado nesta terça-feira pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

A pobreza extrema é considerada para famílias com renda de até um quarto de salário mínimo per capita –atuais R$ 127,50.

Também há expectativa de alcançar uma taxa nacional de pobreza absoluta (até meio salário mínimo per capita, R$ 255) de 4% naquele ano, o que, segundo o Ipea, significa quase a sua erradicação. Em 2008, o índice estava em 28,8%.

“A taxa de pobreza de 4% é de país rico. Nos coloca no patamar de países desenvolvidos”, afirmou Marcio Pochmann, presidente do Ipea. “O Brasil reduziu o número de pobres pela combinação de elementos como o crescimento econômico e políticas públicas de distribuição de renda. Temos hoje uma estrutura social comparável aos países desenvolvidos.”

Desigualdade social

A queda da média anual na taxa nacional de pobreza absoluta foi de 0,9% ao ano entre 1995 e 2008, enquanto a da pobreza extrema ficou em menos 0,8% ao ano. Considerando o período de 2003 a 2008, a redução na primeira foi de 3,1%, e na segunda ficou em 2,1% ao ano.

O índice Gini, que varia de zero a um e é usado para medir as desigualdades sociais, deverá passar para 0,488 –era de 0,544 em 2008. Ele encontra-se, em geral, abaixo de 0,4 nos países desenvolvidos. Em 2005, ficou em 0,33 na Itália, 0,32 na Espanha, 0,28 na França, 0,27 na Holanda, 0,26 na Alemanha e 0,24 na Dinamarca. Já nos Estados Unidos está acima dos demais, em 0,46.

Para o Ipea, parte significativa dos avanços alcançados pelo país no enfrentamento da pobreza e da desigualdade está relacionada a políticas públicas, a partir de 1988 — data de elaboração da Constituição Federal.

Na década atual, o instituto destaca razões como a combinação entre a continuidade da estabilidade monetária, a maior expansão econômica e o reforço de políticas públicas, como a elevação real do salário mínimo e a ampliação do crédito popular.

Brasil reduz pobreza, mas patina no combate à desigualdade

Ipea mostra que desigualdade declinou 0,7% enquanto pobreza absoluta recuou 3,1% ao ano de 2003 a 2008

Ana Conceição, da Agência Estado


SÃO PAULO  - O Brasil conseguiu diminuir de forma significativa o número de famílias que vivem em extrema pobreza, mas não consegue combater a desigualdade de renda com a mesma agilidade, de acordo com estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), divulgado hoje.

Entre 2003 e 2008, a queda nas taxas nacionais de pobreza absoluta (indivíduos que ganham até meio salário mínimo) e de pobreza extrema (até um quarto de salário mínimo) caíram, em média, 3,1% e 2,1% ao ano. Já a desigualdade de renda recuou apenas 0,7% no mesmo período. Desde o início do estudo, em 1995, a taxa de pobreza cai mais rapidamente que a de desigualdade. “O combate à pobreza parece ser menos complexo”, diz o relatório do Ipea.

Para a entidade, o Brasil tem condições de igualar os índices de pobreza e desigualdade similares aos de países desenvolvidos até 2016. Para isso, contudo, terá de superar ao menos três desafios: manter a taxa de crescimento econômico em níveis elevados com ampliação do nível educacional, reduzir a cobrança de impostos sobre as classes mais baixas (proporcionalmente são as que pagam mais tributos) e melhorar a qualidade do gasto público com programas sociais.

No primeiro caso, a entidade avalia ser necessária a manutenção da taxa de crescimento elevada, com baixa inflação. Além disso, o crescimento precisa estar atado à produção de bens e serviços de maior valor agregado e de elevado conteúdo tecnológico (educação). “Ambos constituem requisitos para o crescimento capaz de garantir avanços na produtividade do trabalho e qualidade do emprego (e da renda).”

Famílias – No segundo caso, famílias de menor renda pagam proporcionalmente mais impostos e, assim, contribuem mais para a arrecadação dos recursos que sustentam as políticas públicas brasileiras. De acordo com o Ipea, em 2003, 48,9% da rendas das famílias que ganhavam até dois salários mínimos iam para o pagamento de impostos. Na faixa dos que ganhavam mais de 30 salários no período, essa parcela era de 26,3%. Para mudar isso, é preciso reforma tributária, segundo o Ipea.

O terceiro obstáculo é a precária qualidade do gasto público. “Apesar dos avanços alcançados na integração e articulação de políticas públicas em torno de programas como o Bolsa Família, há fragmentação, dispersão e sobreposição de políticas públicas”, diz o relatório.

Queda da desigualdade de renda

Mônica Bergamo – Folha SP

bergamo@folhasp.com.br

Menos desiguais

O Brasil conseguiu reduzir a desigualdade de renda por dois quinquênios seguidos. É o que confirma o “Comunicado no 38 -Pobreza, Desigualdade e Políticas Públicas”, que o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) divulga hoje. A medida adotada foi o índice de Gini, que vai de 0 a 1, sendo 1 o maior grau de diferença. Entre 1995 e 2000, a redução foi de 1%. De 2000 a 2005, de 4,5%. Já nos EUA, o movimento foi inverso, com aumento da desigualdade de 6,5% no primeiro período e de 1,5% no segundo.

Leia a integra da coluna de Mônica Bergamo na Folha SP

10/01/2010 - 09:40h Investimento desata nó da indústria


Sinal verde para novas fábricas

Márcia De Chiara – O Estado SP

Animadas com as perspectivas favoráveis do mercado interno, as indústrias de bens de consumo duráveis começaram o ano dando sinal verde para os investimentos na produção.

A alemã ZF, por exemplo, fabricante de peças e componentes para a indústria automobilística e de tratores, vai investir R$ 100 milhões numa nova fábrica em Lages, em Santa Catarina.

Com três unidades no Estado de São Paulo (Sorocaba, Diadema e Araraquara), a companhia deve ampliar em 40% e 50% a capacidade de produção de embreagens, caixas de direção, suspensão, por exemplo, quando a nova fábrica entrar em funcionamento, em 2011.

Segundo a empresa, a nova unidade vai empregar 350 trabalhadores, entre diretos e indiretos, e terá faturamento inicial de R$ 150 milhões por ano, podendo chegar a R$ 400 milhões. Em 2008, a empresa faturou no País R$ 1,8 bilhão.

A holandesa Philips é outra que decidiu investir US$ 12 milhões em duas novas linhas de produção de TVs com tela de cristal líquido (LCD na sigla em inglês) na fábrica de Manaus (AM). A nova unidade, que começa a funcionar em abril, vai fabricar TVs de LCD quase 100% nacionais. Apenas um componente, o vidro polarizado, que só compensa economicamente se for fabricado em grande escala, será importado da China. Hoje, as TVs de LCD fabricada no País têm monitor importado. A Philips comprava os monitores de LCD de uma fábrica da empresa na Polônia. Com as duas novas linhas de produção serão gerados 500 empregos diretos.

Flávia Skrobot Grosso, superintendente da Zona Franca de Manaus (Suframa), acredita que o número de projetos de investimento no polo de Manaus volte a crescer neste ano. Em 2009, houve uma retração de quase 30% no número de projetos.

Novos aportes estão concentrados nos setores que operam no limite da capacidade e aliviam a pressão inflacionária

Márcia De Chiara – O Estado SP

Os investimentos no aumento da capacidade de produção da indústria previstos para este ano estão voltados aos setores certos. Isto é, para os bens de consumo duráveis, que reúnem a cadeia da indústria automobilística, os eletrodomésticos e eletrônicos, segmentos nos quais a oferta de itens está cada dia mais apertada para atender ao aumento do consumo, do crédito e da renda. O movimento para ampliar a capacidade de produção desses setores reduz, a médio prazo, o risco de gargalos na oferta e de pressões inflacionárias.

Isso é o que indica um cruzamento entre os dados do Nível de Uso da Capacidade da Indústria (Nuci) em dezembro de 2009 e a intenção de investimento da indústria para este ano feito a pedido do Estado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com base em sondagens industriais. Com o uso da capacidade instalada da indústria evoluindo rapidamente no pós-crise, a intenção de ampliar os investimentos na produção reagiu.

O Nuci encerrou 2009 em 83,8%, um índice apenas 2,9 pontos porcentuais abaixo do recorde do indicador atingido em junho de 2008 (86,7%). Em contrapartida, quase metade das indústrias (48%) planeja aumentar os investimentos neste ano, ante 41% em 2009. “Se realmente esses investimentos se confirmarem há condições de atender à demanda, que deve continuar aquecida” , afirma o coordenador técnico das sondagens industriais da FGV, Jorge Ferreira Braga.

Puxado pela indústria automobilística e os eletroeletrônicos, o Nuci dos bens duráveis de consumo atingiu 91% em dezembro, nível considerado preocupante. Mas 58% das indústrias do setor querem ampliar investimentos neste ano. É o maior resultado da série histórica de intenção de aumento de investimento para bens duráveis.

Quando se avalia os resultados por segmentos, observa Braga, o quadro é ainda mais favorável para um cenário sem restrições de oferta e aumentos de preços. Apenas três de nove segmentos industriais pesquisados estavam no fim de 2009 com o Nuci maior que no período pré-crise (julho de 2008). São eles produtos farmacêuticos (72,9%), matérias plásticas (86,3%) e calçados e vestuário (87,1%). Estes segmentos também estão entre os maiores índices de intenção de aumento dos investimentos.

De acordo com a sondagem, oito de nove segmentos pesquisados registraram porcentual maior de empresas interessadas em ampliar os investimentos para este ano. A maior fatia de indústrias interessadas em aumentar o investimento neste ano foi encontrada nos materiais de transporte, com 71% das empresas nessa condição, seguida pelo segmento de material elétrico e de comunicações (59%) e produtos de matérias plásticas (52%).

No caso da indústria mecânica, que produz basicamente máquinas, houve aumento 13,6 pontos porcentuais no Nuci em 2009, com 42% das companhias interessadas em ampliar investimento em 2010, aponta a FGV. A indústria mecânica foi uma das que tiveram uma das maiores taxas de crescimento entre os financiamentos aprovados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) em 2009, com 59,1% em valor e 53,4% no total de operações ante 2008.

“O avanço nos bens de capital é salutar e contribui para aumentar a capacidade de produção de outros setores com menos pressão inflacionária”, diz o chefe do departamento econômico do BNDES, Fernando Puga. Apesar do avanço nas intenções de investimento na indústria, o economista chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, pondera que o tempo médio para que ele mature e se transforme em aumento de capacidade é de 14 meses. “O tempo de maturação do investimento é uma preocupação e pode gerar gargalo na oferta no curto prazo.”

05/01/2010 - 09:48h Consumo não recua e garante reposição forte

Conjuntura: Vendas continuam fortes após o Natal e varejo já começou pedidos para recompor os estoques

Ivonaldo Alexandre/Valor
Foto Destaque
Marcio Pauliki, da rede MM: “Puxamos um pouco as vendas de janeiro e, em dois dias, faturamos o equivalente a oito”

Vanessa Jurgenfeld, Marli Lima, Murillo Camarotto e César Felício, de Florianópolis, Curitiba, Recife e Belo Horizonte – VALOR

O consumo continuou aquecido após o Natal e em todo o país as vendas de dezembro superaram, entre 5% e 20%, o movimento de igual mês de 2008. Para garantir as vendas de janeiro e fevereiro, e também as tradicionais liquidações, os lojistas já começaram os pedidos de reposição. Em algumas redes, como a Berlanda, de Santa Catarina, os pedidos para janeiro estão 30% superiores aos de igual período do ano passado. Para lojistas, o bom fim de ano e o Natal que não terminou no dia 25 de dezembro vão garantir um forte ritmo de atividade no início de 2010.

Segundo a Associação Comercial de São Paulo (ACSP), o comércio cresceu 5% no mês passado, sobre dezembro de 2008. Segundo o presidente da ACSP, Alencar Burti, há “uma aceleração nos últimos meses, quando os efeitos da crise começaram a ser revertidos”, apontando para um 2010 ainda mais aquecido.

O comércio varejista em Minas Gerais registrou crescimento de 7% em dezembro de 2009, na comparação com o mesmo período no ano passado, segundo avaliação da Associação Comercial de Minas (AC Minas), que congrega os empresários do setor na região metropolitana de Belo Horizonte. “Saímos de uma base de comparação baixa, já que dezembro de 2008 foi tempo de crise e tensão. Uma série de fatores, como a isenção de IPI na linha branca, a recuperação do nível de emprego e a redução dos juros, fazia prever um aumento médio de pelo menos 5% no comércio este mês. Mas o crescimento deve atingir 7%”, afirmou Claudia Volpini, presidente do Conselho de Comércio da entidade.

Em Minas, a demanda reprimida pela crise econômica global era tanta que não houve desaceleração significativa nos dias imediatamente seguintes ao feriado de Natal. “As vendas se mantiveram com o mesmo aumento proporcional na semana posterior ao Natal, geralmente destinada à troca de presentes. Isto nos faz prever um janeiro de estoques baixos, sem liquidações, sobretudo em equipamentos eletrônicos de sala, cozinha e lavanderia”, disse Claudia.

Na rede MM, uma das maiores varejistas do Paraná, não foram feitas compras de mercadorias de janeiro a março de 2009, porque as vendas do primeiro trimestre do ano passado “foram terríveis”, conforme define o superintendente da empresa, Marcio Pauliki. Mas o otimismo para o início de 2010 é grande. “Já estamos comprando produtos para reposição”, conta o empresário, que tem como meta crescer 35% no ano, número bem superior aos 2% do ano passado.

Pela segunda vez, a MM fez um feirão pós-Natal, nos dias 28 e 29 de dezembro. “Puxamos um pouco as vendas de janeiro e, em dois dias, faturamos o equivalente a oito dias”, diz Pauliki. Na comparação com o feirão realizado no fim de 2008, houve crescimento de 20% no movimento de clientes. Este mês haverá outra liquidação, com oferta do mostruário das lojas, com descontos de até 70%.

Pauliki tem diversos argumentos para explicar o entusiasmo atual. O desempenho de dezembro, quando vendeu 22% mais que em igual mês de 2008, é um deles. Mas ele cita que a demanda reprimida pela falta de crédito, a redução do IPI para alguns produtos e a expectativa de uma boa safra agrícola estão sendo considerados no planejamento da rede, que tem grande presença em municípios do interior. Além da previsão de crescimento na procura por novos aparelhos de TV para os jogos da Copa do Mundo.

A Associação Comercial do Paraná ainda não possui levantamento das vendas realizadas após o Natal. De 1º a 25 de dezembro, houve crescimento de 7,6% na comparação com igual período do ano anterior nas consultas para vendas no crediário ou com cheques. As compras feitas com dinheiro ou cartão de crédito não entram na estatística.

Gilson Bogo, diretor comercial da rede Berlanda, com lojas de linha branca e móveis em Santa Catarina e Rio Grande do Sul, diz que as encomendas para reposição de produtos a partir de 10 de janeiro deverão ser 30% maiores do que no mesmo período do ano anterior. A animação para as mercadorias que serão vendidas em fevereiro, segundo ele, tem relação com o desempenho durante o fim do ano.

A Berlanda teve vendas de Natal 15,7% superiores às do mesmo período do ano passado e tem pretensão de crescer cerca de 30% em 2010. Segundo Bogo, após o Natal, as vendas continuaram fortes, assim como ocorreu no ano anterior. Mesmo com vendas mais acentuadas, sobraram mercadorias e a Berlanda vai queimar estoques com a realização de um dia de liquidação total das lojas ainda em janeiro, como costuma fazer todos os anos.

As vendas de Natal em Santa Catarina foram um pouco mais fracas do que a Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas (FCDL-SC) esperava, mas mesmo assim o crescimento de 4% em relação aos 7% inicialmente previstos foi considerado bom por Sérgio Medeiros, presidente da entidade. “A expectativa era maior, mas dá para dizer que foi um ano bom, porque crescemos em relação ao ano anterior”, disse.

A FCDL estima que em todo o mês de dezembro (ainda não contabilizado) o aumento de vendas em relação ao anterior fique em 4%, porque o movimento maior de pessoas no comércio continuou mesmo após o Natal, não só pela troca de produtos, como pelo tradicional fluxo de turistas no verão no litoral catarinense.

Para janeiro, a expectativa da entidade é de um mês de reposições mais acentuadas no comércio de Santa Catarina do que em janeiro de 2009. “Algumas lojas já anteciparam liquidações neste início de mês, com queima de estoques, e o mercado como um todo está mais otimista para 2010 do que estava para 2009″, explica ele, estimando que as reposições de mercadorias deverão ser 7% maiores do que em janeiro do ano passado. “Algumas cidades, como Balneário Camboriú, estão com os hotéis com quase 100% de lotação e isso deve ajudar o comércio”, afirma.

Em Pernambuco, a Câmara de Dirigentes Lojistas do Recife informou que as vendas de fim de ano superaram a expectativa de um crescimento entre 13% e 15% sobre 2008. De acordo com o presidente da entidade, Silvio Vasconcelos, os negócios cresceram 17% em relação ao exercício anterior. O grupo varejista Jurandir Pires, de Pernambuco, experimentou uma expansão de 20% nas vendas, quando comparadas ao fim de 2008. De acordo com o diretor da empresa, Fábio Pires, o movimento continuou forte após a virada do ano. “Parece que ainda é Natal”, disse.

O forte crescimento, revelou o executivo, já era esperado, motivo pelo qual a empresa já está em processo de recomposição de estoques, acertado com a indústria durante dezembro. Ainda em Pernambuco, a rede varejista RM registrou vendas 30% superiores àquelas verificadas no fim de 2008. O diretor-comercial da empresa, Marco Ferreira Filho, garantiu que, apesar de uma ligeira queda, o movimento seguiu forte após o Natal.

No Ceará, o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Fortaleza, Freitas Cordeiro, informou que as vendas de fim de ano cresceram entre 11% e 12% em relação a 2008, desempenho que ficou dentro das projeções. Teve destaque no mercado cearense o segmento de eletroeletrônicos, cujas vendas avançaram mais de 25%. Cordeiro acredita que o movimento ainda continuará forte por mais dois meses, potencializado pela presença dos turistas no Estado. “A temporada do turismo favorece bastante o comércio dos setores têxtil e de calçados”, explicou o dirigente.

04/01/2010 - 11:09h Filiais brasileiras ganham espaço e até já vendem mais que as matrizes

Subsidiária da Mercedes passa a matriz alemã e Avon brasileira lidera o ranking de vendas pela primeira vez

Márcia De Chiara – O Estado SP

O Brasil ganhou importância nas vendas das multinacionais instaladas no País. De cosméticos a caminhões, passando por refrigerantes, chocolates e televisores, as subsidiárias brasileiras se transformaram no principal mercado mundial ou ascenderam no ranking dos países com mais vendas.

O crescimento mais acelerado do consumo nos mercados emergentes em relação ao dos países desenvolvidos era uma tendência que vinha se desenhando nos últimos anos. Mas esse movimento se fortaleceu com a crise a partir do último trimestre de 2008. Além disso, deve funcionar como um “ímã” na atração de novos investimentos dessas companhias, interessadas em explorar o potencial do mercado local.

Pela primeira vez em 56 anos, a filial brasileira da Mercedes Benz em 2009 ultrapassou a matriz alemã na venda de caminhões. Isso transformou o País no maior mercado da empresa no mundo. De janeiro a setembro de 2009 foram vendidos no mercado brasileiro 23 mil caminhões.

A história se repete na gigante de vendas de cosméticos, a Avon. Sem revelar os volumes vendidos por país no terceiro trimestre de 2009, a companhia informa que o Brasil foi o seu principal mercado entre julho e setembro de 2009. Desde 1958 no País, pela primeira vez o Brasil ultrapassou os EUA, que sempre lideraram o ranking de volume de vendas, tendência que deve ser mantida em 2010. (veja matéria na página ao lado).

Na suíça Nestlé, o Brasil ainda não chegou ao topo, mas está quase lá. Segundo a empresa, pelo desempenho parcial de 2009, a companhia se mantém na vice-liderança em volume de vendas, “mas está na iminência de passar da quarta para a terceira posição entre os maiores faturamentos do grupo, tomando o lugar da França.”

Na Coca-Cola, o Brasil é o quarto maior mercado em volume de vendas, atrás da China. Mas, no terceiro trimestre de 2009, a quantidade de refrigerantes, sucos e chás vendidos no Brasil cresceu 3% em relação a igual trimestre de 2008. A média mundial de crescimento foi de 2%.

“O Brasil é muito importante hoje para a corporação”, afirma o diretor de marketing da LG no Brasil, Eduardo Toni. O País é o segundo maior mercado do grupo no mundo em volume de vendas e faturamento, atrás dos EUA e excluindo a matriz coreana. Mesmo sem ter os números consolidados de 2009, o executivo acredita que a posição do País melhorou. “O Brasil deve estar um pouco melhor que os EUA porque a nossa crise foi menor que a americana.”

Marcelo Gil, líder global de Estratégia Corporativa da Accenture, consultoria que atende às grandes multinacionais, confirma que houve um avanço dos mercados emergentes nos rankings de volume de vendas físicas e de faturamento das multinacionais. Mas a crise internacional acelerou essa tendência. “Os países emergentes sofreram menos que os desenvolvidos porque há uma energia emergindo com essa nova classe média que tem muita disposição para gastar”, diz.

MASSA SALARIAL

Com a queda da inflação e o aumento do emprego, a renda disponível para os brasileiros aumentou e alimentou o consumo. Esse fenômeno explica o surgimento da nova classe média, segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luís Afonso Lima. Nos últimos seis anos, a massa real de salários cresceu 35%.

“A crise atrapalhou esse crescimento”, pondera. Só que, como o Brasil é uma economia relativamente fechada, o País ficou blindado. “O que era uma desvantagem virou vantagem.”

É essa vantagem que deverá funcionar como um “ímã” na atração de investimentos. “Como os mercados de origem não estão registrando crescimentos expressivos de consumo, as empresas têm de procurar outros lugares para investir.”

O Banco Central projeta investimentos estrangeiros na produção de US$ 45 bilhões em 2010, um salto de 80% em relação a 2009. Na visão do BC, está em curso uma mudança estrutural. As filiais brasileiras deixaram de ser vistas como negócios de segunda linha. “O Brasil virou mercado estratégico para as multinacionais”, diz uma fonte do BC.

01/01/2010 - 13:42h Hora de apostar

celso_mingCelso Ming – O Estado SP

Nada de olhar pelo retrovisor; a hora é de olhar pelo para-brisa dianteiro.

E, como tantas vezes na vida, nem tudo se enxerga bem, especialmente numa manhã de bruma.

Apesar disso, dá para dizer que 2010 tem tudo para ser um bom ano econômico, o que já é bem melhor do que aconteceu no final de 2008, ainda no auge da crise, quando se tentava vislumbrar o que aconteceria em 2009. Há um ano, sim, é que as perspectivas eram dramáticas, mas tudo acabou saindo melhor do que se previa.

Desta vez, o que se pode dizer é que, apesar dos riscos que se anteveem, há bem mais confiança em relação ao desempenho econômico em 2010.

Este é o último ano do mandato Lula e, mais que tudo, um ano eleitoral. Pela primeira vez na história recente do Brasil, as pesquisas de opinião mostram que o presidente Lula arrebata mais aprovação do que em qualquer ano de seu governo. Em compensação, não há parâmetros para antever o desempenho da candidata oficial à sucessão, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, porque até agora ela não participou de nenhuma eleição. Essa circunstância, por si só, vai exigir que o governo federal mostre ainda mais serviço do que normalmente deveria mostrar num ano eleitoral. É consideração que desemboca em duas vertentes, uma boa e outra ruim. A vertente boa é a de que a economia tende a ser ainda mais turbinada, com obras públicas e decisões que deverão puxar pelo consumo. A prorrogação da redução ou até mesmo a isenção de IPI para os setores de veículos, aparelhos domésticos, móveis e materiais de construção dá uma boa ideia do que é isso. A vertente ruim é a de que aumentam os riscos de que as excessivas despesas públicas aprofundem ainda mais a deterioração da administração fiscal e obriguem o Banco Central a puxar pelos freios monetários (alta dos juros).

Mas, risco por risco, o risco mais alto é o comportamento da economia internacional. A recuperação a partir do segundo trimestre do ano passado não inspira confiança porque vem ocorrendo com aumento do desemprego, o que, por si só, levanta dúvidas sobre a sua sustentabilidade.

Não há clareza sobre os desdobramentos da crise financeira, a maior desde os anos 30. Por enquanto, a impressionante intervenção dos governos conseguiu evitar o colapso. Mas o volume de recursos que hoje circula pelos mercados é bem maior do que os recursos que havia lá por 2003 e 2004, os mesmos que foram responsabilizados por criar as bolhas que estouraram em 2008.

O risco de que apareçam novas bolhas nos mercados de commodities e de petróleo e nos ativos de risco parece elevado. Mais cedo ou mais tarde, os bancos centrais dos países ricos serão chamados a enxugar dos mercados esses recursos para desinflar as eventuais bolhas. Mas se arriscarão a tolher a recuperação econômica e a criação de empregos.

Os governos centrais dos países ricos estão atolados em dívidas. Boa pergunta consiste em saber se essa deterioração fiscal não vai solapar o já insatisfatório nível de confiança que paira sobre as até agora conhecidas como moedas fortes.

Em todo o caso, apesar dos riscos, a hora é de apostar. Quem ficar parado à espera da eliminação das incertezas estará sujeito a ficar para trás.

Confira

Blindagem ? As fortes reservas internacionais do Brasil contribuíram para aumentar a resistência da economia à crise externa. As compras de dólares pelo Banco Central em 2009 se transformaram em fator extra de atração de moeda estrangeira.

01/01/2010 - 12:55h Uma boa previsão

As expectativas para a indústria brasileira são superotimistas para este ano. A LCA Consultores prevê um crescimento de 10,5% da produção industrial em 2010 . Ainda pelas projeções da consultoria, o uso da capacidade instalada deve atingir 86,7% no segundo semestre. (Fonte Estadão)

31/12/2009 - 09:33h Capacidade de produção se aproxima do recorde

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Nível de utilização atinge 83,8% e já soa sinal de alerta no Banco Central

Márcia De Chiara – O Estado SP

Pelo nono mês seguido, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) da indústria cresceu em dezembro, deixando para trás o fundo do poço da produção, atingido em fevereiro deste ano por causa da freada no ritmo das fábricas em razão da crise financeira internacional.

Sondagem da Indústria de Transformação da Fundação Getúlio Vargas (FGV) revela que neste mês as 1.110 indústrias consultadas ocupavam 83,8% da capacidade de produção. O resultado é 1,1% maior que em novembro deste ano, descontadas as influências sazonais. E está apenas 2,9 pontos porcentuais abaixo do recorde histórico da série do Nuci, alcançado em junho de 2008, que foi de 86,7%, destaca o coordenador técnico da sondagem, Jorge Ferreira Braga.

Os resultados da pesquisa mostram que nos últimos cinco meses, entre julho e dezembro, houve uma expressiva aceleração do uso da capacidade das fábricas, com avanço de 3,9 pontos porcentuais no período.

O maior ritmo de produção já fez acender um sinal de alerta entre os formuladores de política monetária. No último relatório de inflação, o Banco Central (BC) prevê que, se for mantido o ritmo atual de produção, o uso da capacidade das fábricas poderá chegar a 86,5% em maio de 2010, nível muito próximo do recorde histórico (86,7%). O grande temor do BC é que o aumento repentino do uso da capacidade cause pressões inflacionárias.

“A recente recuperação do Nuci não chega preocupar”, afirma Braga. Exceto no caso dos bens duráveis, onde o Nuci atingiu 91% este mês, depois de ter alcançado 91,4% em novembro, há vários segmentos com ociosidade, diz Braga. A opinião é compartilhada pelo economista da LCA Consultores, Douglas Uemura. “Há grandes diferenças entre os setores.”

A pesquisa da FGV mostra que, de novembro para dezembro, praticamente todo o aumento do uso da capacidade instalada da indústria foi sustentada pelo avanço na produção de bens de capital, com crescimento de três pontos porcentuais. “Trata-se de uma recuperação com qualidade, pois indica a volta do investimento”, frisa Braga. Já no bens de consumo e nos materiais de construção, o Nuci recuou no período e, nos bens intermediários, ficou estável.

O maior ritmo de produção das fábricas foi desencadeado pelo aumento da demanda e a redução nos estoques das fábricas. De 12 setores consultados, em quatro deles o volume de produtos tende para insuficiência. São eles: a indústria mecânica, de material de transporte, matérias plásticas e têxteis.

CONFIANÇA

O Índice de Confiança da Indústria (ICI), que sintetiza os resultados da sondagem industrial da FGV, atingiu neste mês 113,4 pontos, o maior nível desde julho de 2008 (113,7), antes da crise ter afetado a produção. Em relação a novembro, o crescimento foi de 3,5%,descontados os efeitos sazonais. Na comparação com o mesmo mês de 2008, a alta foi de 54,2%

Entre os componentes de destaque do ICI estão as perspectivas para os próximos meses, reafirmando o cenário de crescimento expressivo da indústria para o ano que vem.

A produção prevista para três meses, de dezembro a fevereiro, atingiu este mês 144,1 pontos, o maior nível da série apurada desde 1980. Segundo a sondagem, 46,9% das empresas acreditam numa produção maior para o período e só 2,8%, menor. Também a situação de negócios para seis meses foi recorde:atingiu 159,2 pontos este mês, com 61,8% das empresas prevendo melhora e 2,6% piora.

29/12/2009 - 12:21h Cenários de crescimento, desigualdade e pobreza

ColunistaMarcelo Côrtes Neri – VALOR

Virada de ano, hora para se olhar para trás e para frente, fazer balanços e projeções. No caso de 2010 esse exercício ganha ares de final de década, além de ser o ano I depois da crise (D.C.). Nos 12 meses posteriores a 15 de setembro de 2008 praticamente todas as séries trabalhistas e de classes econômicas disponíveis ficaram no mesmo lugar, isto é: se não regredimos, também não avançamos. Se a comparação for feita em relação aos demais países, a estagnação brasileira de 2009 é de causar inveja aos olhares estrangeiros, à exceção de China, Índia e Coreia. Mas, na comparação com a meia década de ouro – 2003 a 2008 -, não. Vamos inicialmente focar no período 2003-08, quando a renda média do brasileiro volta a crescer a uma taxa média de 5,26% por ano em termos per capita. Usamos esse período de base para o cenário de crescimento pós-crise.

Antes de entrarmos nas incertezas futuras, vamos encarar as incertezas passadas. A magnitude da retomada do crescimento do período 2003-08 depende da base de dados utilizada, nas óticas das contas nacionais e do seu produto mais popular, o PIB. Mesmo após as sucessivas revisões para cima, enxergamos 3,78% em termos per capita ao ano, velocidade de expansão mais modesta que a da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad). A diferença acumulada em 5 anos entre renda Pnad e PIB foi de 8,8 pontos de porcentagem. Isso representa mais dois anos em cinco anos. Se usarmos essas taxas como parte de um exercício de futurologia mais elástico de 25 anos, a diferença acumulada de crescimento por brasileiro subiria para 108 pontos de porcentagem. No curso desses 25 anos a renda per capita teria crescido 153% pelo cenário PIB e 261% pelo cenário pnadiano.

É verdade que no longo prazo a discrepância tende a desaparecer. Por exemplo, no período 1995 a 2008 a diferença acumulada é de 2,13 pontos de porcentagem favorável ao PIB. Agora a questão é: havendo ajuste nos próximos anos, o que puxa o que: o PIB puxa a Pnad para baixo, ou a Pnad puxa o PIB para cima.

O relatório da comissão comandada por Amartaya Sen e Joseph Stiglitz divulgado em setembro de 2009 constata fortes discrepâncias entre as pesquisas domiciliares e os PIBs mundo afora, sendo as taxas de crescimento do PIB em geral superiores. O relatório argumenta pelo uso das pesquisas domiciliares como medida de performance de uma dada sociedade. Outra vantagem da Pnad é permitir olhar para a distribuição dos frutos do crescimento. O elemento fundamental para traçarmos o futuro é o comportamento da desigualdade, a verdadeira jabuticaba brasileira. Esta década nos trouxe, ano após ano, quedas de desigualdade.

Agora quão razoável seria esse cenário de repetir a mudanças ocorridas nos cinco anos de 2003 a 2008 nos próximos cinco de 2010 a 2014. A análise por fonte de renda mostra um crescimento da renda do trabalho no período 2003-08 tão forte quanto as demais, o que sugere alguma sustentabilidade do processo de crescimento com redistribuição pregresso, interrompido mas não revertido com a crise. A tendência das séries de anos de estudo, fundamental tanto para a literatura de crescimento como da de desigualdade dão suporte tanto em nível como dispersão a continuidade da trajetória de crescimento. Nesse aspecto há que se lembrar dos problemas de qualidade de educação – que aqui representam oportunidades de melhorar que é o que importa quando se fala em crescimento, uma vez que hoje há aferição de proficiência por escola pública e metas de desempenho traçadas.

Vou centrar inicialmente num cenário de prazo mais longo encerrado em 2014. Projetaremos para frente o crescimento e a redução de desigualdade do período 2003-08. Esse cenário é possível de ser quantificado usando a desigualdade observada no Espírito do Santo em 2008. Nesse caso é possível obter uma redução de pobreza à metade, 50,32% dos níveis de hoje, isto é caindo de 16,02% da população em 2008 para 7,96% em 2015. Ora, 2014 é a véspera da data final das metas do milênio. Nós já cumprimos a primeira meta do milênio de fazer a pobreza cair à metade em metade do tempo. Isso significa cumpri-la de novo em cinco anos ao invés de 25 anos. A consequência desse movimento em termos das demais classes é o seguinte: queda da classe D de 18,28% (de 24,35% para 19,9%), aumento da classe C de 14,75% (de 49,2% para 56,48%) e aumento proporcional da classe AB de 50,3% (de 10,48% para 15,66% da população). Ou seja, o cenário auspicioso mostra que se a pobreza cai à metade, a classe AB dobra.

Vamos ilustrar o impacto da desigualdade em cenários assumindo um crescimento balanceado – uma situação onde a desigualdade nem aumenta nem cai. A proporção de pobres cairia 33,32% em cinco anos nesse cenário de crescimento neutro contra 50,32% ajudado pela redução da desigualdade. Ou seja, a pobreza cai pouco mais de 50% a mais se a redistribuição dos últimos anos retornar.

Mas e a curtíssimo prazo? Se ancorarmos 2010 no cenário para 2014, no cenário de redução do Gini dos últimos anos a pobreza cairia cerca de 10% em 2010. Se olharmos todos os possíveis limitadores da nossa expansão de curto prazo, inflação, déficits público e externos não há restrições a vista. O desaquecimento da economia mundial tem sido compensado pelo crescimento do mercado interno impulsionado pela redução do hiato mais brasileiro de todos, a desigualdade. Se não há fatores restritivos para além da restrição dos mercados externos, no curtíssimo prazo há fatores expansionistas no radar. O efeito estatístico denominado “carry-over” que jogou contra em 2009, ano de desaceleração, irá jogar a favor no ano seguinte. A redução generalizada de estoques ocorrida em 2009 sugere que os empresários previram uma recessão pior que a ocorrida e essa queda de estoques atuará como fator expansionista no futuro. O mesmo efeito ocorreu com o emprego formal que já revela a partir de outubro de 2009 sua face expansionista. Finalmente, se 2010 seguir a tradição de todos os anos eleitorais da nova democracia brasileira (na verdade desde 1981), há que se esperar ganho em todas as fontes de renda, nas transferências públicas em particular.

Marcelo Côrtes Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais do IBRE/FGV e professor da EPGE/FGV, é autor de “Retratos da deficiência”, “Cobertura previdenciária: diagnóstico e propostas” e “Ensaios sociais”.

23/12/2009 - 11:24h Nível de emprego cresce mais do que o PIB

Conjuntura: Em 12 meses, geração de de postos de trabalho subiu 0,95%, enquanto a economia encolheu 1%

Bandeira_emprego

João Villaverde, de São Paulo – VALOR

A retomada brasileira no pós-crise trouxe para o emprego um ritmo de crescimento que é o dobro do observado pelo conjunto da economia. Até setembro, o emprego formal cresceu 2,9% em relação ao estoque de empregados no fim do ano passado. Em comparação semelhante, o Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre foi 1,5% superior ao do último trimestre de 2008. Também em 12 meses, o emprego segue na frente, na mesma proporção: a alta até setembro foi de 0,95%, enquanto o PIB ficou 1% menor.

Após setembro, as contratações continuaram em ritmo acelerado até alcançar, em novembro, alta de 4,4% no ano, percentual que pode cair um pouco em dezembro, mas que ficará muito acima do resultado próximo a zero esperado para o comportamento do PIB ao longo do ano. Esse ritmo muito superior do emprego em relação à atividade, dizem os analistas, é próprio de momentos de retomada, da mesma forma que, em períodos de crise, a queda no emprego antecede à da atividade. Já em 2010, o ritmo dos dois indicadores deve ficar mais próximo ao padrão do período 2006 a 2008. O crescimento do emprego agora, dizem, reflete perspectivas positivas dos empresários sobre o futuro dos negócios.

Analistas consultados pelo Valor não têm dúvida em afirmar que as informações disponibilizadas pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) na semana passada sinalizam um crescimento do PIB próximo, ou mesmo superior, a 6% no próximo ano – o maior, portanto, dos oito anos de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A forte abertura de vagas, em diferentes setores, ultrapassa a velocidade de recuperação da atividade, “contratando” o crescimento futuro. “Há uma clara relação entre emprego e PIB, afinal mão de obra é fator de produção, ou seja, sempre que há demanda para ser atendida, haverá, em maior ou menor escala, mais contratação de pessoal”, explica Aurélio Bicalho, economista do Itaú Unibanco.

O cálculo de elasticidade entre emprego e atividade demonstra que, na década, os indicadores de emprego foram amplamente superiores em anos de crescimento baixo. Entre 2001 e 2003, os dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) – que computa a geração líquida de vagas formais para um universo mais amplo que o do Caged – , mostram o dobro do crescimento do PIB . Ou seja, cada 1% de aumento do PIB gerava uma ampliação de dois pontos percentuais no emprego.

A partir de 2004, a melhora no crescimento da atividade – que sai de 1,1% no ano anterior para quase 6% – estimula o mercado de trabalho, mas este deixa de crescer no dobro da velocidade do PIB e apenas acompanha sua ampliação, em um movimento típico de economias mais maduras. O acirramento das turbulências mundiais, no fim do ano passado, fez decair ambos indicadores.

A relação entre PIB e emprego não foi sempre próxima. Segundo Antônio Marcos Ambrózio, gerente da área de pesquisa e acompanhamento econômico do BNDES, é possível perceber, na análise da Rais e do PIB dos últimos anos, três fases distintas. Ambrózio destacou o período entre 1996 e 2008. Em um primeiro momento, entre 1996 e 2000, a geração de empregos foi “muito ruim”, com resultados negativos sendo apurados pela Rais. Ao mesmo tempo, a variação média do PIB não foi alta (2%). Entre 2001 e 2004, a média de crescimento do PIB não foi muito maior (2,7%), mas “há clara recuperação do emprego, que não é percebida se olharmos apenas os indicadores de atividade”.

Segundo o pesquisador, a segunda metade da década de 1990 foi marcada pela “reorganização estrutural” das empresas nacionais, que passaram a lidar com a abertura comercial – promovida pelo presidente Fernando Collor, em 1990 – e o câmbio fixo valorizado – sustentado durante o primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso. “O modelo de negócios passou pelo fenômeno da racionalização do emprego, onde a corda estourou na hora de cortar custos”, diz Ambrózio, para quem o efeito das medidas “foi benéfico para a economia, ao modernizar as relações empresariais e introduzir competição internacional”, mas o processo “foi péssimo para o emprego”.

A partir da virada da década, as empresas, reestruturadas, passam a contar com um regime de câmbio flexível e uma situação externa menos volátil que a anterior, quando uma sucessão de crises no mundo criou instabilidade no modelo firmado em altas taxas de juros para atrair capitais que sustentavam o câmbio fixo.

É a partir do biênio 2004-2005 que, segundo Ambrózio, a criação de vagas se acelera, acompanhando o incremento do PIB. Este, no período recente, acumulou crescimento médio de 4,6% – mais que o dobro do verificado na segunda metade da década passada.

O acirramento das turbulências no fim do ano passado, no entanto, reverteu parte do movimento ascendente do emprego e da atividade. Considerando dados da Rais, em 2008 foi a primeira vez na década que a variação líquida de empregos foi menor que o PIB – 4,9% e 5,1% respectivamente.

“Diante da incerteza quanto ao futuro, desencadeada pela crise, os empresários pararam de admitir e, em seguida, começaram a demitir”, diz Bicalho, do Itaú Unibanco. “Este processo foi rápido e atingiu em cheio o setor industrial, que produziu mais demissões que serviços ou comércio”, diz. Para o economista, o processo foi estancado entre o primeiro e o segundo trimestre deste ano, quando o fortalecimento do mercado doméstico consolidou nos empresários a expectativa de melhores condições de negócio. “Vimos, no período, que há clara relação entre atividade e emprego, uma vez que ambos tombaram no momento de crise, e voltaram a subir no mesmo momento”, afirma Bicalho.

Para Fabio Romão, economista da LCA Consultores, a partir da recuperação da confiança, houve “dupla recomposição de estoques” para acompanhar o aumento da demanda doméstica. “A indústria passou a recontratar a mão de obra dispensada entre o fim de 2008 e o começo deste ano para ampliar a produção. Os estoques, produtivo e laboral, estão sendo reconstruídos”, afirma Romão.

O economista da LCA observa que os resultados do Caged dos dois últimos meses, quando os números divulgados surpreenderam mesmo as estimativas mais otimistas do mercado, não podem ser equiparados às informações mais recentes sobre o PIB, que vão até setembro. “Apenas em março do ano que vem, quando o IBGE divulgar os dados consolidados quanto ao crescimento do PIB neste fim de ano, poderemos ter uma noção exata de quanto essa explosão do emprego representa”, afirma Romão, para quem o PIB, na margem, crescerá 2,3% entre outubro e dezembro, legando um “carry-over” de 3% no PIB de 2010.

19/12/2009 - 11:08h Desemprego cai a 7,4%, menor do ano

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Taxa é a menor para novembros da série histórica iniciada em 2002; renda média cai na comparação com outubro

Jacqueline Farid – O Estado SP

A taxa de desemprego apurada pelo IBGE nas seis principais regiões metropolitanas do País recuou para 7,4% em novembro, a menor taxa para o mês da série histórica iniciada em 2002 e a menor do ano. Para o instituto, o resultado mostra uma “estabilidade” em relação ao índice de outubro, de 7,5%. O gerente da pesquisa mensal de emprego, Cimar Azeredo, avalia que ainda há reflexos da crise no mercado de trabalho, mas com tendência de aumento da ocupação e queda na desocupação.

Faltando apenas os dados de dezembro para o fechamento da pesquisa de emprego de 2009, Azeredo considera que o principal efeito da crise sobre o mercado de trabalho foi “uma desaceleração do forte crescimento do emprego e da qualidade do emprego que ocorreu em 2008″. Segundo ele, para dissipar os efeitos da crise “leva um tempo, desfazer postos é mais rápido do que recompor”. Ainda de acordo com Azeredo, o bom desempenho de 2008 acabou tornando mais brandos os efeitos da crise. “Como vínhamos de uma situação muito confortável, não houve efeito muito forte da crise no mercado de trabalho, mas houve desaceleração no crescimento do emprego”, explica.

Azeredo lembra que, antes do início dos efeitos da crise na economia brasileira, no fim do ano passado, a expectativa era de continuidade, em 2009, do ritmo de avanços ocorridos em 2008 no emprego e na formalidade.

Ainda segundo ele, a principal ilustração das perdas que ocorreram com a crise está no nível de ocupação (porcentual de ocupados na população com de 10 anos ou mais de idade), que passou, no que diz respeito à média do período de janeiro a novembro, de 52,4% em 2008 para 52,0% em 2009. “Essa queda não é favorável, é um dos efeitos da crise, essa diferença de 0,4 (ponto porcentual) é expressiva”, disse.

De qualquer modo, gerente da pesquisa mensal de emprego do IBGE considera positivos os resultados do levantamento em novembro. “Apesar da estabilidade, a geração de 98 mil postos de um mês para o outro e a redução de 40 mil desocupados mostra números muito interessantes”, avalia.

O analista da Tendências Consultoria, Bernardo Wjuniski acredita que a taxa de desemprego terá uma “queda expressiva” em dezembro, para 6,6%.

Se a projeção for confirmada, será a menor taxa da série histórica iniciada em 2002, superando o recorde de dezembro do ano passado, quando foi de 6,8%.

“No último mês do ano, é sazonal ocorrer saída de pessoas da força de trabalho por conta das poucas oportunidades de contratação no mês. Dessa forma, com a base mais baixa, a taxa de desemprego em dezembro deve cair, fazendo com que a taxa média de 2009 fique em 8,1%, acima da taxa média de 2008 que foi de 7,9%”, estima Wjuniski.

Os dados divulgados pelo IBGE revelam também que em novembro a população desocupada somou 1,7 milhão, contra 21,6 milhões de ocupados. O número de pessoas com carteira assinada chegou a 9,6 milhões no período.

No que diz respeito ao rendimento dos trabalhadores, Cimar Azeredo destacou que a renda média real de R$ 1.353,60 apurada em novembro de 2009 é a maior, para um mês de novembro, desde o início da série.

Apesar do melhor resultado para meses de novembro, a renda caiu 0,1% na comparação com outubro, mas manteve aumento (2,2%) em relação a novembro do ano passado.

Ainda segundo Azeredo, na média de janeiro a novembro, a renda média chega a R$ 1.347,83 em 2009, com crescimento de 3,4% em relação a igual período do ano passado. “Há um forte efeito do salário mínimo nesse crescimento. Não é possível dizer que a crise não afetou a renda, porque não dá para saber de quanto seria o aumento se não houvesse a crise”, afirmou.

15/12/2009 - 08:58h País fez ‘proeza’ em ano de crise, diz Mantega

Conjuntura: Ministro defende política fiscal e diz que o Brasil terá as melhores contas públicas do G-20 em 2009

Ruy Baron/Valor
Foto Destaque
Guido Mantega, ministro da Fazenda: “Concordo que precisamos desonerar a folha de pagamento das empresas e já falei isso. O problema é que custa caro”


Claudia Safatle e Arnaldo Galvão, de Brasília – VALOR

Perguntado sobre a política fiscal, considerada por muitos economistas como um dos aspectos vulneráveis da política econômica do governo Lula, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, traz pronta a resposta: “É um atentado à racionalidade dizer que as nossas contas não são sólidas”.

Munido de tabelas, gráficos e autoconfiança, o ministro mostrou o que considera seu maior trunfo: em um ano atípico como 2009, de forte crise, o Brasil terá as melhores contas públicas entre os países do G-20 (China, Índia, Rússia, EUA e União Europeia, entre outros). “Foi uma proeza”, disse. A rigor, os dados que a assessoria do ministro preparou indicam que o melhor resultado é o da Arábia Saudita, que terá superávit nominal de 4,2% do PIB. Mas, por razões óbvias, a Arábia Saudita é um ponto fora da curva e, portanto, não conta.

O déficit nominal consolidado do setor público brasileiro, segundo projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), encerrará o exercício em 3,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Para 2010, o fundo projeta que ele cairá 1,3% do PIB, mostrou o ministro. O governo cumprirá superávit primário, este ano, de 2,5% do PIB e, para o ano que vem, a meta voltará a ser de 3,3% do PIB, garantiu.

“E só teremos este déficit nominal porque nossa taxa de juros é muito maior que a dos outros países. O custo dos juros no México, por exemplo, é de 2% do PIB. Nós gastamos 5% do PIB. Se gastássemos o que o México gasta com o pagamento de juros, estaríamos com superávit nominal em pleno ano de crise!”, lamentou.

Em entrevista ao Valor, Mantega reconheceu que as despesas com salários do funcionalismo público tiveram aumento substancial. “De fato, o gasto com pessoal subiu, mas ele tem um ciclo político como em qualquer outro governo. Se o próximo governo quiser dar uma segurada no início, faz o ciclo normal, porque os salários estão muito bons”, sugeriu.

A seguir, a íntegra da entrevista:

Valor: O que sustenta a retomada do crescimento?

Guido Mantega: Tivemos um ciclo econômico de 2003 a 2008, cuja média de crescimento do PIB foi de 4,2%. Isso é bem superior à média anterior, de 1,7%, de 1998 a 2002. Agora estamos em outro patamar. Nós vamos começar um novo ciclo consolidando um avanço. Há uma mudança qualitativa.

Valor: Mas, é um crescimento sustentado principalmente pelo consumo?

Mantega: Em primeiro lugar, sim, vem o consumo. Neste momento, ele é fundamental, porque não temos mercado no mundo. Só podemos iniciar um novo ciclo de crescimento, porque temos um mercado interno forte, que se deve ao crescimento da massa salarial que, neste ano, cresceu bastante. A previsão é de um aumento de 4% em 2009 e de 6% em 2010. Isso engrossa o consumo, além da classe média que está se expandindo. Também temos mais crédito, transferências de renda e o aumento do salário mínimo. O mercado consumidor no país está crescendo a 5% ou 5,5%, o que é muito forte. Portanto, o primeiro vetor desse ciclo é o mercado interno em expansão, com um crescimento que gera emprego.

Valor: E os investimentos?

Mantega: O aumento do investimento é o segundo vetor. A formação bruta de capital fixo vai subir muito. Antes da crise de 2008, o investimento estava crescendo mais que o consumo das famílias, o que é muito bom. Depois, ele se retraiu por causa da crise, o que é normal. Agora, já se recuperou. No terceiro trimestre, o crescimento foi de 6,5% sobre o período anterior. No meu cálculo, o investimento vai crescer 15% em 2010, chegando a 18% do PIB. Até 2014, deve chegar a 23% do PIB. Há uma mudança na composição da poupança.

Valor: Como?

Mantega: Vamos ter esse período de vacas magras no mercado internacional. Vamos aumentar as importações e usar poupança externa. Teremos um déficit em transações correntes, que será coberto por poupança externa. Quando o mercado internacional voltar a crescer, voltaremos a produzir um superávit comercial maior.

Valor: A balança comercial em 2010 já será deficitária?

Mantega: Devemos ter saldo positivo no ano que vem, mas menor que o de 2009.

Valor: Fala-se em 3% do PIB de déficit em conta corrente em 2010. Há risco de a trajetória do déficit ser explosiva?

Mantega: Não, 3% é muito. E não há risco, porque vai haver uma retomada do comércio internacional lá para 2012, com a recuperação da economia mundial. Aí, teremos condições de fazer um saldo comercial melhor.

Valor: Além do consumo e dos investimentos, o sr. citaria outros fatores?

Mantega: Temos um grande programa de investimentos, expansão do mercado de capitais e oferta crescente de crédito. Quando digo que estamos em outro patamar, é porque o volume de negócios é muito maior e há grandes projetos de investimento. Há quantos anos não temos algo como o projeto do trem de alta velocidade? Hoje são vários projetos dessa magnitude em curso.

Valor: Somando os investimentos para o pré-sal, Copa do Mundo, Jogos Olímpicos, quanto o sr. imagina?

Mantega: A Copa do Mundo de 2014 pode demandar uns R$ 20 bilhões de investimentos. O trem de alta velocidade, ligando Rio e São Paulo, terá R$ 40 bilhões. Nos Jogos Olímpicos, o governo vai gastar R$ 16 bilhões, mas o total, contando o setor privado, pode chegar a R$ 30 bilhões. O Minha Casa, Minha Vida terá R$ 60 bilhões no total. No pré-sal, somente a Petrobras tem investimentos de US$ 200 bilhões (cerca de R$ 350 bilhões) entre 2009 e 2013. É um grande programa de investimentos. Tirando a China, temos o maior programa de investimentos do mundo. Ele está puxando a economia, e o PIB do terceiro trimestre teve aumento de 6,5% na formação bruta de capital fixo.

Valor: A expansão do crédito ainda será sustentada por bancos públicos?

Mantega: Não. Agora será também pelo setor privado, que vai entrar com tudo. Está sobrando caixa nos grandes bancos privados. A competição é uma realidade, e ocorreu pela pressão dos bancos públicos. Acabamos de criar uma espécie de debêntures para os bancos privados captarem e emprestarem no longo prazo. No próximo ano, a expansão do crédito será de uns 25%.

Valor: E o mercado de capitais?

Mantega: Nosso mercado de capitais é um dos mais exuberantes do mundo, mas com racionalidade. É exuberância racional. Temos empresas sólidas, porque elas têm mercado, rentabilidade e vêm investindo. A nossa bolsa tem se valorizado, mas as nossas “blue chips” são invejáveis. A Petrobras é a petrolífera com maior rentabilidade sobre o patrimônio do mundo. A Vale tem uma das maiores rentabilidades entre as mineradoras. E temos grandes e sólidos bancos. Temos consistência. Essa é a diferença.

Valor: Este mercado não ainda é muito pequeno para o tamanho do financiamento que o setor privado precisa? E o IOF não prejudica seu desenvolvimento?

Mantega: É pequeno, mas cresce de forma assustadora. Nossa regulação é uma das melhores do mundo. Quase não temos operação de balcão. Aqui, o Banco Central mandou que as operações de derivativos sejam registradas. Vamos retomar os IPOs (emissões primárias de ações). O mercado de capitais é um dos pilares do desenvolvimento. Se não tivéssemos criado o IOF sobre a entrada de capital especulativo, a bolsa poderia ter sofrido uma bolha. O fluxo de capital estava muito forte e não era só investimento direto. Queremos que continue entrando dinheiro, mas sem exageros e bolhas.

Valor: O sr. avalia que o IOF foi bem-sucedido nos seus objetivos ou o governo está olhando para outras medidas?

Mantega: O IOF combinado com a tendência de valorização do dólar no mercado internacional, e com o déficit em conta corrente que vamos ter, vai levar a taxa de câmbio para um patamar satisfatório. Outras medidas serão tomadas. Não tenho patamar de câmbio ideal. Quando citei a cotação de R$ 2,60 para o dólar, comentava que, se isso fosse assim, seríamos imbatíveis. Não acho que vá a R$ 2,60, nem precisamos disso. Estancamos a sobrevalorização do real e a tendência é o câmbio melhorar.

Valor: Então a preocupação com valorização do real está resolvida?

Mantega: Estou relativamente tranquilo com a questão cambial, porque estancamos a sobrevalorização. Estabilizamos o câmbio há 50 dias, quando a cotação do dólar estava a R$ 1,70. Hoje, está em R$ 1,77. Com o IOF evitamos uma bolha no mercado de ações e no câmbio. Sem ele, o dólar fatalmente chegaria a R$ 1,50. Temos alguma volatilidade recente, por causa de problemas em Dubai e na Grécia, mas é algo que pode acontecer. O mundo ainda não sarou. Além disso, os Estados Unidos farão, inevitavelmente, alguma valorização da moeda, subindo aquela taxa de juros de 0,25% ao ano.

Valor: Há quem diga que o aumento dos juros nos EUA só deverá ocorrer no fim de 2010…

Mantega: Não acredito. O governo americano deu excesso de liquidez ao mercado, mas ela não foi para a produção. Está empoçada. Talvez eles possam operar com uma taxa de juros de 1%. Trabalhar com 0,25% desmoraliza o mercado. Essa taxa supernegativa é ruim. Com 1% eles darão estímulo monetário à economia, e isso valoriza o dólar, ajudando todo o mundo a se equilibrar. Um terceiro fator é que temos um aumento no déficit em transações correntes. A economia mundial não se recuperou e nós estamos crescendo mais rapidamente que o resto do mundo. Nesse quadro, as importações crescerão mais que as exportações, o que levará a esse aumento do déficit em transações correntes. Teremos um movimento de desvalorização do real, o que vai ajudar a melhorar a situação dos exportadores.

Valor: Fala-se que o Brasil está na moda. Moda é algo passageiro, que muda conforme a estação. O Brasil é apenas moda?

Mantega: Não. Somos um modelo clássico de grande atratividade. O Brasil é uma das poucas economias que terá crescimento acelerado, com as contas fiscais mais equilibradas que as dos outros países. Temos o governo estimulando os investimentos. O BNDES terá mais R$ 80 bilhões para 2010. Quero ver a estátua que vão fazer lá. O Brasil não é moda passageira, porque tem economia sólida, tem mercado interno em expansão, tem grande programa de investimentos, tem legislação transparente, estabilidade jurídica muito maior que China e Índia e não temos grandes barreiras ao capital.

Valor: Há economistas preocupados com a situação fiscal, com o forte aumento do gasto permanente e com o déficit em conta corrente do balanço de pagamentos. O sr. vê motivos para preocupação?

Mantega: Até os mais empedernidos ortodoxos dizem que não há problema em ter déficit em conta corrente. Ele é bom se for canalizado para o investimento.

Valor: E o grande o temor com a questão fiscal?

Mantega: É muito estranho as pessoas pegarem um ano atípico, de crise, e projetarem este ano como se fosse para sempre. É claro que algumas despesas subiram. Como estamos num ciclo virtuoso, a arrecadação também será sempre maior. Há algum país fazendo 2,5% do PIB de superávit primário em 2009? Nós vamos realizar isso. Se não fizermos, o presidente sofre processos. Somos obrigados a cumprir essa meta. A arrecadação já voltou ao padrão normal que tinha sido projetado. Em novembro, tirando todos os extras, a arrecadação será bem maior que a de novembro de 2008.

Valor: Em 2010 volta a meta de superávit primário de 3,3% do PIB?

Mantega: Volta. O FMI prevê que o Brasil terá déficit nominal de 3,2% do PIB em 2009. Em 2010, ele vai cair para 1,3% do PIB. É, portanto, o menor déficit primário entre os países do G-20, excluindo a Arábia Saudita (cujo superávit corresponde a 4,2% do PIB).

Valor: Superávit de 4% do PIB é coisa do passado?

Mantega: Não é coisa do passado, porque os 3,3% de superávit para 2010 significam quase a mesma coisa que os 4% do PIB do passado. Quando começamos com a meta de 4,25%, o IBGE introduziu um novo método de cálculo do PIB e fez com que aquele superávit virasse 3,8%. Além disso, temos o fundo soberano, que não gastamos e que deve corresponder a 0,7% do PIB.

Valor: O sr., então, não vê fundamento nas críticas à política fiscal, à maneira como o governo Lula aumentou o gasto corrente?

Mantega: As despesas da administração pública subiram 0,5% no terceiro trimestre, enquanto o PIB aumentou 1,3%. Os gastos, portanto, cresceram muito menos que o produto. No segundo trimestre, os gastos caíram em relação ao primeiro trimestre. Nossa arrecadação caiu, porque fizemos várias desonerações e todos os liberais são favoráveis a isso.

Valor: Reduzir os tributos sobre a folha de pagamento não teria sido mais benéfico para todos?

Mantega: Não seria uma boa política. Concordo que precisamos desonerar a folha de pagamento das empresas e já falei isso. O problema é que custa caro. Num ano de crise como este, a desoneração precisa ter foco. A redução dos tributos sobre a folha teria de ser gradual. Baixar três ou quatro pontos percentuais, em 2009, não faria diferença para muitos setores e não elevaria o consumo, que era a prioridade. Esse foi o erro que o governo americano cometeu.

Valor: Por que?

Mantega: Eles deram dinheiro para o setor financeiro e não estimularam o consumo. Nos EUA, os incentivos à compra de carros só duraram dois meses e foram de apenas US$ 2 bilhões. Eles erraram.

Valor: O projeto de desoneração da folha, portanto, está engavetado?

Mantega: Eu diria que temos de desonerar a folha e teria feito isso se não tivesse perdido a CPMF. No fim de 2008, estava me preparando para desonerar a folha no âmbito da reforma tributária, mas veio a crise e tivemos de mudar a estratégia. Tivemos de olhar mais para os setores que dão mais estímulos ao mercado e ao consumo.

Valor: Como o sr. vai entregar a economia para o próximo governo?

Mantega: Entrego com os melhores fundamentos macroeconômicos do G-20. É pouca coisa? Teremos o menor déficit nominal. E so temos ele, porque nossa taxa de juros é muito maior que a dos outros países. O custo financeiro do México nem se compara. Eles gastam 2% do PIB com juros. Nós gastamos 5%. Se gastássemos o que o México gasta, estaríamos com superávit nominal em pleno ano de crise. No ano que vem, a economia cresce 5% e a arrecadação volta ao normal. O Brasil é um dos países que menos perdeu arrecadação.

Valor: E o desafio de aumentar a proporção dos investimentos em relação ao PIB?

Mantega: Isso ocorreu nos três anos antes da crise. De janeiro a setembro, o investimento total está em 16,6% do PIB. O investimento público não vai crescer muito. O do governo federal vai chegar a 1,2% do PIB. Com a Petrobras, isso fica perto dos 3%. Não vai aumentar muito e não precisa. Temos o mercado de capitais que, no passado, era medíocre. O setor privado está mais robusto e as empresas chegaram à maioridade. Algumas são multinacionais. Nossos bancos são fortes. Há liquidez dos ativos brasileiros. Por isso estamos em outro patamar. A população está cada vez mais incluída no mercado. Com tudo isso, ainda temos contas públicas sólidas. Os dois maiores gastos são os da Previdência e os de pessoal. Na Previdência, a despesa baixou de 1,8% do PIB para 1,3%. O emprego formal está crescendo.

Valor: O sr. avalia que no futuro terá que haver mudança na Previdência, como a elevação da idade mínima para requerer aposentadoria?

Mantega: Vai ter de fazer, mas não teremos problemas nos próximos dez anos. O déficit da Previdência diminuiu.

Valor: O sr. não acha que os aumentos salariais no setor público foram muito grandes?

Mantega: De fato, o gasto com pessoal subiu, mas ele tem um ciclo político como em qualquer outro governo. Em 2002, a folha de pessoal representava 5% do PIB. Agora, com todos os aumentos que foram dados, está em 5% do PIB. Se o próximo governo quiser dar uma segurada no início, faz o ciclo normal, porque os salários estão muito bons. Não houve descontrole no gasto e passamos por um ano de crise fazendo superávit primário. É uma proeza. Já imaginou, em plena crise, o Brasil ter contas em estado melhor que a de todos os países do G-20, como China, Índia, Rússia, Estados Unidos e União Europeia? Ainda tem gente que fala que o desempenho fiscal não está bom. É um atentado à racionalidade dizer que as nossas contas não são sólidas.

Valor: O sr. considera a política fiscal bem-sucedida?

Mantega: Quando cheguei ao Ministério da Fazenda, em 2006, diziam que seria gastador. Fiz a melhor série de superávits primários. Em 2008, fizemos o melhor resultado fiscal da história e não gastamos o fundo soberano na crise. Temos todas as credenciais. É uma boa política fiscal, porque conseguimos combinar as coisas. Fazemos o que temos de fazer e diminuímos a dívida pública. E tudo isso com juros desfavoráveis.

11/12/2009 - 10:04h PIB: Estimativas para 2010 ficam ainda maiores

João Villaverde, de São Paulo – VALOR

Enquanto o crescimento de 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre diminui a elevação do PIB de 2009 – que pode ser negativo -, aumenta a possibilidade de 2010 registrar um PIB crescendo acima de 5%. Ao diminuir o otimismo do mercado, que apostava em um ritmo de 2%, a marca do terceiro trimestre aumenta a capacidade de crescer sem gerar inflação, empurrando para o fim de 2010 – ou mesmo para 2011 – a tarefa de controlar o estreitamento do hiato.

Ao consolidar um crescimento superior a 5%, o próximo ano pode acompanhar (ou mesmo superar) as taxas mais altas do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Em oito anos de governo, os melhores resultados foram alcançados em 2004 (5,7%), 2007 (6,1%) e 2008 (5,1%). Analistas já apostam em crescimento de 6,5%, o que registraria o melhor ano desde 1986, quando o Plano Cruzado impulsionou a economia – antes de explodir, em novembro, com a retomada da hiperinflação. Segundo os analistas consultados pelo Valor, não há grandes possibilidades de, em 2010, a inflação ultrapassar o centro da meta de 4,5% perseguida pelo Banco Central.

“Com PIB mais fraco neste ano e aceleração dos investimentos, o BC ganha mais margem de manobra. Quem apostava em alta de juros no começo do ano já deve estar refazendo as contas”, analisa José Júlio Senna, ex-diretor do Banco Central e sócio da MCM Consultores Associados. O resultado de 1,3%, embora abaixo das expectativas de bancos e consultorias, não constitui “notícia negativa”, aponta José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Fator. “Não há porque ficar decepcionado com esse resultado, especialmente devido à melhora da composição, antes muito concentrado no consumo”, afirma.

A diminuição de ritmo de expansão – que caiu dos cerca de 8% anualizados para pouco acima de 5% – combinada com um melhor equilíbrio da oferta, uma vez que os investimentos se expandiram em 6,5%, ante 2% do consumo, permitem ao Banco Central calibrar uma política monetária menos apertada. Para Gonçalves, é importante lembrar a revisão realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) no cálculo do PIB, que ampliou a base de comparação. “Ao elevar o crescimento de 2007″, afirma o economista, “consequentemente se altera a base de 2008 sobre este ano”, ou seja, a atividade em 2009 cresce sobre base elevada, o que diminui o resultado. Com a recuperação econômica, no ano que vem ocorrerá o inverso: sobre base rebaixada, a atividade vai “deslanchar”, diz Gonçalves.

Para Luiza Betina, economista do Santander, uma elevação neste quarto trimestre próxima a verificada no período entre julho e setembro já constituiria “carry-over” de 1,5% para o PIB do ano que vem. “O mercado, de uma forma geral, trabalhava com um ‘carry-over’ maior para 2010, mas ainda assim é um resultado robusto”, afirma ela, em referência ao crescimento que passa de um ano para o outro na economia se a atividade só repetir, no ano seguinte, o ritmo dos últimos meses. “A economia cresce de maneira mais segura agora, calcada em investimentos, que devem repetir a dose de expansão neste quarto trimestre, sinalizando uma retomada do quadro que tínhamos no pré-crise”, raciocina.

Para Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, um crescimento mais expressivo neste último trimestre não está descartado. “Se tivermos os 2,4% projetados para o PIB na margem, o ‘carry-over’ para o próximo ano será de 3%”, calcula. “Começaremos o ano bem, o que, junto com as políticas fiscal e monetária, já praticamente garante o crescimento de 5% que esperamos para 2010.”

11/12/2009 - 09:48h Alta do PIB em 2010 será a maior da AL

Relações externas: Cepal prevê crescimento de 5,5% para a economia brasileira ano que vem

Sergio Leo, de Brasília – VALOR

O Brasil lidera a recuperação econômica na América Latina, será o país de maior crescimento em 2010, mas tem de tomar cuidado para não subir os juros prematuramente e abortar essa tendência, avalia o diretor da Divisão de Desenvolvimento Econômico da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), Osvaldo Kacef. A Cepal divulgou ontem seu “Balanço Preliminar sobre as Economias da América Latina e Caribe”, com previsões mais otimistas sobre o crescimento na região no próximo ano. A economia dos países da América Latina deve ter, em média, queda de 1,8% neste ano e crescerá 4,1% em 2010.

O Brasil crescerá 0,3% neste ano e 5,5% no ano que vem, segundo prevê a Cepal. Para divulgar o relatório, a Cepal esperou receber do Brasil os valores revistos do IBGE para recalcular os números para toda a região, contou Kacef ao Valor, por telefone, . A entidade estava ainda mais otimista em relação ao Brasil: previa 6% de crescimento em 2010 e 0,6% neste ano.

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“Dependíamos dos números do IBGE, porque o Brasil pesa muito na região”, comentou Kacef, que previa, antes, aumento de 4,3% no Produto Interno Bruto (PIB) dos países da América Latina. O crescimento do Brasil tem impacto fundamental nas perspectivas para os países do Cone Sul, como a Argentina, disse. “O Brasil começou uma recuperação no segundo trimestre, que continua no terceiro e deve seguir no quarto”, prevê Kacef. “O país chegará ao fim do ano crescendo 6% a 7% em termos anualizados, não terá dificuldade em atingir 5,5% em 2010.” Será a maior taxa da região, seguida por Uruguai e Peru, com 5%.

Para Kacef, um dos trunfos do Brasil, além do mercado interno e da diversificação do mercado externo, foi a capacidade de usar instrumentos não disponíveis na vizinhança, como o grande volume de crédito dos bancos públicos, para ativar o consumo . “O Brasil é o único em que os bancos públicos respondem por 35% do crédito, o que permite uma política agressiva nesse campo”.

A possibilidade de usar instrumentos creditícios permitiu ao governo brasileiro aumentar os gastos em níveis bem inferiores aos dos outros países. Apesar das críticas internas ao aumento dos gastos públicos, o Brasil está entre os que menos aumentaram as despesas correntes e de capital, cerca de 1,2% nos primeiros nove meses do ano, segundo cálculo da Cepal. O Chile aumentou em 3,2%, a Argentina, 2,7% e o México, 1,6%.

O Brasil optou por diminuir mais impostos que outros países, o que permitiu efeito fiscal equivalente sem tanto aumento de gastos, diz Kacef. “O Brasil fez algo inteligente e bem feito, como a bem-sucedida redução temporária de impostos para a indústria automotiva”, exemplifica o economista, que aponta reflexos positivos da medida também para a Argentina.

O Brasil se destaca negativamente, porém, na formação bruta de capital fixo, indicador que mede o volume de investimentos na produção. Em 2009, o indicador deve ficar em 16% do PIB, bem abaixo dos 26% a 27% necessários para garantir crescimento com folga, segundo Kacef. “Por enquanto, a capacidade ociosa em toda a região permite o crescimento, sem pressões inflacionárias ou na balança comercial, até o fim de 2010″. Mas será necessário criar estímulos ao investimento e, por isso, o país deve evitar açodamento na elevação dos juros e olhar com cuidado a excessiva valorização do real frente ao dólar, alerta.

Segundo a Cepal, o cenário futuro para os países latino-americanos ainda traz incertezas, porque incluirá retração no consumo dos países ricos, risco de maior seletividade nos créditos, maior disputa por mercados e maior presença dos países emergentes.