30/08/2012 - 10:26h Medidas somam estímulos ao consumo e ao investimento

O BNDES passará a cobrar juros reais negativos no Programa de Sustentação do Investimento (PSI)

Por Edna Simão e Thiago Resende | VALOR

De Brasília

No âmbito de uma nova rodada de medidas de estímulo ao investimento e ao consumo, anunciada ontem pelo governo, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) passará a cobrar juros reais negativos no Programa de Sustentação do Investimento (PSI), voltado para aquisição de bens de capital. A taxa de juros fixa para compra de máquinas e equipamentos caiu de 5,5% para 2,5% ao ano, anunciou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Essa taxa especial, contudo, vale apenas até dezembro.

“Levando em consideração uma inflação de 4,5%, temos um juro real negativo. Estamos estimulando a compra de máquinas e equipamentos”, disse ele, salientando a singularidade da decisão. A indústria de bens de capital foi beneficiada também pela prorrogação da redução a zero do IPI até dezembro de 2013.

Mesmo com o diagnóstico de que a economia brasileira dá sinais de recuperação – que foi reforçado pelo comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) após cortar a Selic em mais 0,5 ponto percentual, para 7,5% ao ano – Mantega decidiu atender à demanda da indústria e prorrogar a redução de IPI para vários setores, o que significará uma renúncia fiscal de R$ 5,5 bilhões entre setembro deste ano e dezembro de 2013. “A economia brasileira está numa gradual recuperação, porém, é preciso continuar dando estímulo para o investimento e o consumo”, disse o ministro, ao anunciar as medidas.

No caso dos financiamentos do PSI, a vigência das condições especiais terminariam amanhã e foram prorrogadas até dezembro. Isso foi necessário porque de uma autorização de crédito de R$ 230 bilhões, o BNDES ainda tem R$ 78 bilhões para emprestar, sinal de que a demanda dos empresários por máquinas estava baixa.

Além dos juros para máquinas e equipamentos, ainda no PSI, o governo baixou a taxa de juros de financiamento de caminhões e do programa Procaminhoneiro, todas agora fixadas em 2,5% ao ano. “Acho que é a menor taxa que já existiu para um financiamento desta natureza”, ressaltou o ministro. O prazo de pagamento é de 120 meses, com um ano de carência. Para as demais linhas do PSI, não houve mudanças nas taxas. Foi criada, também, uma linha especial para financiamento de bens de capital usados para indústrias variadas como aeronaves comerciais, tratores, carretas, ferramentas usadas. Essa modalidade de crédito é corrigida pela Taxa de Juro de Longo Prazo (TJLP), que atualmente é de 5,5% ao ano, mais 1% e o risco da empresa.

As empresas com dificuldades de pagamento também foram contempladas. O governo anunciou a criação de uma linha de refinanciamento de bens de capital. Para a compra de caminhões e vagões, decidiu baixar de 48 para 12 meses a depreciação acelerada. Ou seja, desta forma, as empresas vão conseguir abater mais investimento no lucro, o que vai implicar menor pagamento de Imposto de Renda e Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) no próximo ano. Com essa medida, o governo estima abdicar de R$ 586 milhões em receitas no próximo ano.

Para estimular o consumo dos brasileiros, o governo prorrogou a queda do IPI para o setor automotivo por mais dois meses, além de manter o incentivo para a linha branca (fogões e geladeiras), móveis, materiais de construção e bens de capital. Assim, a compra de carros novos continua com benefício fiscal até outubro.

Para a linha branca a redução do IPI, que terminaria amanhã, foi estendida até o fim do ano, aumentando a renúncia fiscal em R$ 361 milhões. O ministro da Fazenda também anunciou a prorrogação do IPI reduzido para móveis, painéis, laminados e luminárias até o fim do ano, embora o prazo para este setor fosse final de setembro. Nesse caso, o impacto na arrecadação será de R$ 393 milhões.

No conjunto, o pacote representa um custo adicional aos cofres públicos de R$ 1,6 bilhão este ano e de R$ 3,9 bilhões em 2013.

As medidas anunciadas ontem dão a dimensão da preocupação do governo de Dilma Rousseff com a baixa performance dos investimentos em ampliação da oferta de bens e serviços no país e procuram, por outro lado, dar sustentação ao consumo como instrumento de estímulo ao investimento.

A avaliação do governo é de que, em um cenário de crise internacional que ainda deve perdurar, os investimentos são os que mais demoram a reagir e por isso precisariam de novos estímulos. Em setembro, as empresas começam a seus planejamentos para o ano seguinte e esse elenco de benefícios pode influir favoravelmente nessas decisões. O ministro explicou que a prorrogação da redução do IPI para os automóveis por um prazo de apenas dois meses decorreu do fato de que a reação do consumidor e da indústria foi mais rápida do que em outros segmentos. De fato, desde que foi concedida a redução das alíquotas do tributo, as montadoras reduziram seus estoques para níveis normais.

Taxa de juros cobrada para máquinas e caminhões passa a ser inferior à inflação

Por Chico Santos | VALOR

Do Rio

Os compradores de máquinas, equipamentos e caminhões serão os primeiros a tomar financiamento com juros negativos, fixados ontem em 2,5%, para as linhas do Finame do BNDES (empréstimos indiretos, via agentes financeiros) dentro do Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Hoje, apenas os projetos de inovação já recebem juros de 4% ao ano, abaixo da inflação medida e da projetada para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 12 meses. Em maio deste ano, quando as taxas do PSI foram reduzidas da casa dos 7% para 5,5%, a inflação acumulada em 12 meses, medida pelo IPCA, estava em 4,99%.

No programa, o Tesouro Nacional cobre a diferença entre os juros subsidiados e a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP, hoje em 5,5%), a remuneração mínima do BNDES, além de cobrir os demais custos adicionais da operação, como as taxas de risco e a remuneração dos agentes repassadores dos recursos do banco. O programa foi criado pelo governo em 2009, com o objetivo de evitar a queda dos investimentos com a crise econômica desencadeada pelo estouro da bolha do mercado imobiliário americano em setembro de 2008.

O PSI deveria vigorar até o dia 31 de dezembro deste ano, mas em abril o governo anunciou a prorrogação até dezembro de 2013 e reduziu as taxas de juros. Para máquinas e equipamentos, elas passaram de 8,7% para 7,3%, sendo 5,5% para as micro, pequenas e médias empresas. Para caminhões e ônibus, a taxa caiu de 10% para 7,7%, com o prazo de amortização sendo ampliado de 96 para 120 meses.

Nos caminhões, a taxa do BNDES Procaminhoneiro, que financia a compra para autônomos, já era de 5,5% e permaneceu no mesmo patamar. Foi também criada uma taxa de 5% para o PSI destinado a projetos transformadores que possam criar capacidade tecnológica em setores com alto conhecimento em engenharia.

As menores taxas hoje cobradas nos empréstimos do BNDES são para inovação. Todas as linhas com esse objetivo já eram negativas, com juros de 4%, também subsidiadas, ou equalizadas, na linguagem oficial, pelo Tesouro Nacional. A diferença é que os montantes envolvidos tendem a ser bem menores do que aqueles destinados à compra de máquinas, equipamentos e caminhões. Os ônibus ficaram fora da redução de taxas anunciadas ontem pelo governo.

Até agora as linhas do PSI aprovaram financiamentos de R$ 149 bilhões. Se o governo mantiver o limite de R$ 227 milhões previsto em 2009, restam R$ 78 bilhões para serem emprestados nas condições previstas pelo programa.

Setores elogiam extensão dos benefícios e pedem mais

VALOR

De São Paulo

Desde a semana passada, os setores beneficiados pelas medidas de redução de impostos – fabricantes de automóveis, linha branca, móveis e materiais de construção – passaram pelo Ministério da Fazenda levando dados que mostravam ao governo o aumento das vendas e do emprego em seus setores. Ontem, os setores festejaram a extensão do prazo dos benefícios.

Na reunião de ontem com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, a direção da Anfavea – a entidade que abriga as montadoras instaladas no país – mostrou que a média de emplacamentos de carros no país, que vinha em maio a um ritmo de 13,2 mil unidades, subiu para 16,6 mil automóveis e comerciais leves no período de junho a agosto. Também foi citada no encontro a geração de 2,7 mil empregos nos últimos dois meses – ou 3,1 mil vagas ao longo do ano -, apesar de ajustes feitos por montadoras como a General Motors e a Mercedes -Benz com a suspensão temporária dos contratos de trabalho de mais de 2,4 mil operários – dado que não entrou na conta.

Além disso, as montadoras tentaram atenuar as preocupações com o impacto do pacote de incentivos nas contas públicas, mostrando que a redução de R$ 20,7 milhões na receita diária do governo com o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) foi compensada por ganhos com outros impostos em virtude do aumento nas vendas. Somando a alta na arrecadação com PIS/Cofins, ICMS e IPVA, os estímulos acabaram gerando uma arrecadação diária adicional da ordem de R$ 1,7 milhão, segundo os dados da Anfavea.

Após o encontro, Mantega anunciou a prorrogação até 31 de outubro do IPI reduzido nas vendas de carros. A manutenção do estímulo foi acompanhada por um expressivo corte (de 5,5% para 2,5% ao ano) nos juros dos financiamentos de caminhões no Programa de Sustentação do Investimento (PSI). No ano, a queda na venda de caminhões é de 17%.

A prorrogação do IPI reduzido para a linha branca até 31 de dezembro deste ano garantiu a manutenção do emprego no setor e perspectivas otimistas quanto às vendas no varejo, segundo Lourival Kiçula, presidente da Eletros, entidade que reúne os fabricantes de produtos eletroeletrônicos. Segundo ele, o crescimento de 19,3% nas vendas para o varejo de refrigeradores, lavadoras automáticas e fogões registrada no primeiro semestre deste ano, ante igual período de 2011, seria praticamente zero, sem o IPI reduzido.

“Não fosse essa prorrogação, teríamos um impacto imediato com o aumento de 4% no preço dos fogões e de 10% entre lavadoras e refrigeradores, além da diminuição da força de trabalho que seria necessária. O varejo compraria menos e a freada seria brusca, com o crescimento das vendas para o varejo ficando próximo de zero em 2012″, estima Kiçula.

Segundo apurou o Valor, a Eletros, encaminhou para o Ministério da Fazenda o pedido de redução permanente do IPI para 4%, alíquota que seria estendida a todas as categorias de linha branca. Como contrapartida, a indústria ofereceu aumento da eficiência energética dos produtos.

O presidente da Abimaq (entidade que representa o setor de bens de capital), Luiz Aubert Neto, elogiou a medida do governo de reduzir a taxa de juros de financiamento para máquinas de 5,5% para 2,5%. Contatado logo após o anúncio feito pela Ministro da Fazenda, Aubert admitiu que ainda não sabia da medida: “Fui pego de surpresa, de imediato a gente não esperava [uma redução tão forte].” A queda, de três pontos percentuais, representa na prática juros reais negativos.

(Eduardo Laguna, Daniele Madureira, Ana Fernandes e Carlos Giffoni)

29/08/2012 - 09:06h Brasil deve chegar ao fim do ano com a menor taxa de juros da história


Mercado aposta que, com corte de meio ponto hoje, Selic pode chegar a 7% em dezembro

João Sorima Neto – O GLOBO

29/08/12

SÃO PAULO – O Brasil vai terminar o ano de 2012 com a menor taxa básica de juro de sua história, a Selic, mas ainda assim estará entre os países com os maiores juros reais do mundo. Atualmente, o país ocupa a terceira colocação, com juro real de 2,3%, atrás de China (que tem juro real de 3,7%) e Rússia (juro real de 3,5%), segundo um ranking elaborado pela corretora Cruzeiro do Sul/Apregoa. Para que o Brasil deixasse a terceira colocação no ranking atual, seria necessário um corte de 0,75 ponto percentual nos juros. Assim, o país chegaria a uma taxa real de 2,1%, ficando atrás da China (3,7%), Rússia (3,5%) e também do Chile (2,2%). Neste cenário, a taxa brasileira seria de 2,1%.

- Como a expectativa é de um corte de 0,5 ponto percentual na reunião desta quarta-feira e de mais um corte de 0,25 na reunião de outubro, encerrando o ciclo de quedas, o país terminaria o ano no quarto lugar do ranking do juro real, mesmo com a Selic chegando ao menor patamar da série histórica desde 1986 – avalia Jason Vieira, economista da corretora Cruzeiro do Sul. A aposta da maioria dos economistas é de que na reunião de novembro, a útlima do ano, o Copom não mexerá nos juros.

De janeiro de 2010 até março deste ano, o Brasil se manteve no topo dos países com maior juro real do mundo. O país só deixou a primeira colocação, explica Jason, em consequência do desaquecimento da demanda internacional. Isso reduziu as projeções para a inflação na China e Rússia, que encabeçam o ranking. No Brasil, a projeção de inflação ainda é crescente.

Além disso, o processo de queda da Selic, que em 12 meses caiu de 12,5% ao ano para os 8% atuais, também ajudou a tirar do Brasil o título de campeão de juros mais altos do mundo.

- O ranking é feito levando em consideração a inflação projetada para os próximos 12 meses – explica o economista Jason Vieira.

Com juro em patamares baixos na Europa, Estados Unidos, como forma de estimular o consumo e aquecer as economias, a taxa média geral dos 40 países analisados pela Cruzeiro do Sul ficou em -0,4%. Segundo o ranking, 22 países tem juro real negativo.

Economistas ouvidos pelo GLOBO avaliam que o atual ciclo de queda de da Selic se encerra em outubro. A dúvida entre eles é saber se a taxa chega a dezembro em 7% ou 7,25% ao ano. Para Jason Veira, a Selic sofre um corte de 0,50 ponto percentual nesta quarta e mais um de 0,25 na reunião de outubro.

- Acredito que o Banco Central vai passar a agir com parcimônia, ainda avaliando os efeitos sobre a economia das quedas anteriores – diz o economista.

Para o economista Clodoir Vieira, da corretora Souza Barros, a Selic também termina o ano em 7,25%, com um corte nesta quarta de 0,50 e em outubro de 0,25.

- A alta do preço das commodities no exterior pressiona os índices de inflação. Acredito em mais cautela do BC a partir de agora – diz o economista da Souza Barros.

O banco WestLB avalia que o BC corta o juro em 0,50 nesta quarta e encerra o ciclo de quedas.

- O choque de oferta de grãos nos EUA faz o preço das commodities agrícolas subir no exterior. Além disso, a economia brasileira já dá sinais de que volta a crescer. Por isso, esperamos cautela – avalia o economista Luciano Rostagno.

Ele diz que será preciso observar com atenção o comunicado do BC após a decisão desta quarta.

- Se o BC suprimir a a expressão ‘dando continuidade ao processo de ajuste das condições monetárias’ da ata do Copom, é certo que não vai mais cortar a Selic – diz Rostagno.

Segundo o boletim Focus, uma compilação do Banco Central com economistas do mercado financeiro, haverá um corte de 0,50 ponto percentual na Selic nesta quarta, e mais um em outubro de 0,25 ponto percentual. Assim a Selic chegaria a dezembro em 7,25%.

29/08/2012 - 08:46h As razões do otimismo do governo

Por Cristiano Romero – VALOR

Um ano depois de iniciado o atual ciclo de alívio monetário, o Banco Central (BC) mostrou que estava certo ao mudar radicalmente o rumo da política de juros. A principal alegação feita na época – o desaquecimento das principais economias do mundo e, em consequência, o surgimento de um ambiente desinflacionário – se materializou.

Hoje, o Comitê de Política Monetária (Copom) promoverá mais um corte de meio ponto percentual na taxa Selic, reduzindo-a para 7,50% ao ano, e é possível que faça pelo menos mais outro de 0,5 ponto antes de encerrar o ciclo. O BC acha que essa política, somada a outras que o governo vem adotando, já começou a produzir resultados. O clima em Brasília é de otimismo quanto às chances de a economia acelerar o crescimento nos próximos meses.

Quando o Copom surpreendeu o mercado em agosto do ano passado, cortando o juro em vez de aumentá-lo, a expectativa de crescimento anual da Europa girava em torno de 1% a 2%. Hoje, o que se espera é uma recessão em 2013. No caso dos Estados Unidos, em meados de 2011, esperava-se crescimento em torno de 3%. Agora, a realidade mostra que a expansão neste ano deve beirar os 2% ou ficar abaixo disso.

Desaquecimento mundial previsto pelo BC se materializou

Há um ano, a expectativa era que a economia mundial crescesse até 3,4% em 2012. Com o agravamento da crise mundial no segundo semestre de 2011, as perspectivas foram piorando sucessivamente e, neste momento, o que se espera é um longo período de crescimento lento, em torno de 2,2%.

O cenário desinflacionário se concretizou. A melhor indicação disso está nos indicadores de commodities. O CRB Foodstuff (que mede a variação dos preços de alimentos) estava, em julho, 8,9% abaixo do patamar de um ano atrás. O CRB Metais caiu 23,4% no mesmo período e o CRB total, 13,2%. Não é para menos. O desaquecimento da economia chinesa explica em grande medida essas quedas. A China, segundo o FMI, respondeu em 2009 por 53% das importações líquidas mundiais de soja, por 65% das compras de minério de ferro e por quase 30% de metais.

A economia brasileira, evidentemente, não escapou da maré ruim. No último ano, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 2,7% e, em 2012, deve avançar menos de 2%, muito abaixo da média anual de 4,2% verificada entre 2007 e 2011. A boa notícia é que há sinais positivos indicando uma retomada, mais lenta do que as ocorridas no passado recente, mas consistente.

É o próprio mercado quem diz, via boletim Focus, que o Brasil vai se levantar nos próximos trimestres. A esperança é que, depois de registrar baixíssimo crescimento nos primeiros seis meses do ano – 0,1% entre janeiro e março e, possivelmente, 0,3% entre abril e junho -, a indústria avance 1,5% no atual trimestre, quando comparada ao mesmo período do ano anterior, e 2,1% entre outubro e dezembro. O crescimento deve se acelerar no primeiro (3%) e segundo trimestres (4%) de 2013.

Com base no Focus, o BC espera expansão do setor de serviços de 3% em cada trimestre da segunda metade deste ano, quase o dobro da registrada no primeiro trimestre (1,6%). O ritmo seria mantido na primeira metade do ano que vem. Na agricultura, a expectativa é de forte recuperação nos próximos trimestres, depois da queda do primeiro trimestre (-8,5%) e do provável baixo desempenho no segundo (1,4%). Entre outubro e dezembro, a agricultura deve crescer 4% e acelerar nos seis meses seguintes, sempre na comparação com igual período do ano anterior.

A confiança do governo se baseia no que já vem ocorrendo em algumas áreas. A produção mensal de automóveis, por exemplo, depois de cair abaixo de 260 mil em janeiro, começou a se recuperar e, após o corte de IPI, tomou impulso. O mesmo ocorreu com caminhões. Os estoques de carros, que atingiram o pico em agosto de 2011, voltaram a crescer nos primeiros meses do ano, mas, depois da desoneração, estão declinando novamente.

O governo acredita que o ambiente é favorável à aceleração do PIB graças aos seguintes fatores: a taxa de desemprego está na mínima histórica (5,4% em maio, segundo a última medida nacional feita pelo IBGE); a criação de empregos formais diminuiu em quase 1 milhão desde fevereiro de 2011, mas segue forte (1,2 milhão nos 12 meses até junho deste ano); a massa salarial real voltou a crescer, avançando 5,1% nos 12 meses concluídos em maio (7,5%, quando comparada ao mesmo mês de 2011); a renda real também tornou a expandir-se (3,2% nos 12 meses até maio e 4,9% na comparação com maio do ano passado).

Ao contrário dos analistas que apontam a exaustão do modelo de crescimento baseado em consumo e crédito, o BC vê espaço para o país continuar crescendo por esse esquema, ajudado pelas medidas adotadas pelo governo para expandir a infraestrutura e aumentar a competitividade. O BC aposta no efeito “juros menores” – entre setembro de 2011 e junho deste ano, o juro médio cobrado de pessoas físicas caiu de 45,7% para 37,1% ao ano; e o das empresas recuou de 39% para 31,3% ao ano.

Embora a queda da Selic tenha sido expressiva – 4,5 pontos no período -, a redução dos juros bancários foi modesta. Ainda assim, as autoridades acreditam que o crédito, mesmo crescendo a uma velocidade menor, cumprirá um papel importante na retomada. Entre 2005 e 2008, cresceu ao ritmo de 25,2% ao ano; entre 2009 e 2011, subiu 18,3% e, nos 12 meses até maio, manteve essa velocidade (18,1%).

Técnicos do governo lembram que o grau de endividamento dos brasileiros, como proporção do PIB, é baixo quando comparado ao de outros países – 20,9% do PIB, face a 27,9% no Chile, 83,5% nos Estados Unidos e 207,4% do PIB no Reino Unido. O problema é que o peso dos juros na renda disponível dos brasileiros é bem maior – 22,1%, diante de 10,8% nos EUA, 9,9% no Chile e 2,2% no México. Em compensação, a inadimplência no Brasil não está entre as maiores do mundo.

Nem tudo é alegria no primeiro aniversário do “novo BC”. A inflação, embora tenha recuado de forma significativa, ainda é alta (5,2% nos 12 meses até julho); o BC segue sem conseguir coordenar satisfatoriamente as expectativas inflacionárias, que apontam para aumento do IPCA em 2013 (para 5,5%); e o regime de câmbio flutuante, um dos pilares da política econômica adotada com sucesso pelo país desde 1999, foi (temporariamente?) abandonado.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

24/08/2012 - 08:55h Selic cai há um ano, sem reação

Efeitos da redução da Selic ainda são tímidos

Por Lucinda Pinto, Conrado Mazzoni, Fernando Travaglini e Flavia Lima | VALOR

De São Paulo

Na próxima semana completa-se um ano da já famosa reunião de 31 agosto de 2011, quando o Banco Central iniciou o atual ciclo de corte de juros com uma redução de 0,5 da Selic, surpreendendo quase todo o mercado. O primeiro efeito esperado, de evitar uma depressão da economia brasileira em meio ao agravamento da crise na Europa foi atingido e o BC ganhou pontos de credibilidade por ter acertado em cheio no diagnóstico.

Até agora, no entanto, a aceleração da atividade não veio. O que se vê é uma resposta ainda tímida, restrita ao consumo. Para a indústria, a resposta é pouco efetiva e, quando existe, está mais relacionada a desonerações tributárias. No primeiro trimestre do ano, a economia brasileira cresceu 0,2% em relação aos últimos três meses de 2011. Nessa base de comparação, enquanto o consumo das famílias e do governo cresceu 2,5% e 3,4%, respectivamente, o investimento em máquinas e equipamentos caiu 2,1%. E a expectativa é que tenha apresentado expansão entre 0,4% e 0,5% no segundo trimestre, mesmo com o governo alardeando que o PIB reagiria.

Maurício Molan, economista-chefe do Santander, pondera que o atual ciclo de queda de juros só se tornou de fato um afrouxamento no começo deste ano. Entre agosto e dezembro, o BC reduziu 1,5 ponto percentual, mas o juro real ainda se mantinha acima de 5%, próximo, portanto, da média dos últimos três anos. Somente em abril, o juro real veio para a casa dos 3%. “Houve uma defasagem maior para a resposta da política monetária, que só passou a ser expansionistas no começo deste ano”, diz Molan.

Para o ex-diretor do BC e estrategista da Tandem Global Partners, Paulo Vieira da Cunha, o presidente do BC, Alexandre Tombini, tem razão ao prever um crescimento anualizado de 4% no quarto trimestre, mas teme uma desaceleração do PIB à frente. “Meu medo é que, quando isso acontecer, o governo resolver dar ainda mais estímulos.”

Essa é uma das críticas mais fortes que decorreram da decisão de agosto de 2011, a de que o BC passou a priorizar o crescimento em detrimento de um controle estrito da inflação. A avaliação é de que o BC passou a trabalhar com um objetivo de inflação mais ousado, perto de 6%. “É uma mudança não assumida, mas percebida, de que o limite para a inflação passou a ser 6%”, diz Vieira da Cunha.

“Estamos diante de um Banco Central que não está disposto a sacrificar crescimento desde que você tenha inflação dentro das bandas. Foi isso o que aprendemos ao longo de todos esses meses”, afirma Marcelo Salomon, economista-chefe para o Brasil do Barclays.

Salomon projeta inflação de 5% em 2012 e de 5,9% em 2013. “Então, não é um cenário de convergência de volta para as metas, mas é um cenário em que o BC não está disposto a sacrificar crescimento – mantendo a possibilidade de promover uma retomada mais incisiva o mais rápido possível – desde que você não comprometa o teto da meta porque o mundo ainda está muito incerto”, afirma.

Alexandre Schwartsman, ex-diretor de assuntos internacionais do BC acredita que o objetivo de inflação de até 6,5%. E isso explica o fato de as projeções estarem tão distantes do centro da meta, de 4,5% – as projeções para o IPCA se situam em 5,12% para este ano e em 5,5% para 2013.

Mesmo com a maior leniência com os preços, os benefícios da queda dos juros não foram percebidos claramente na atividade por causa de um diagnóstico errado, acredita Schwartsman. “A economia não está indo bem porque o BC tenta adotar a mesma receita de 2008 agora, sendo que as condições são completamente diferentes”, afirma.

Schwartsman diz que, há quatro anos, a economia tinha um grau de ociosidade importante, tanto no emprego quanto na produção e no crédito, que explica a resposta rápida obtida com as medidas de estímulo adotadas naquele momento. “Agora, com o país em pleno emprego, o conjunto de política econômica parece não funcionar.”

O economista Winston Fritsch, um dos integrantes do time que criou o Plano Real (1993-1994), não vê o BC mirando o ritmo de atividade da economia em detrimento do nível geral de preços. Para ele, o Copom “ganhou” do mercado ao notar antes dos agentes econômicos uma oportunidade única de reduzir a taxa básica de juro da economia brasileira, e estabelecer um novo padrão. “Eu acho que o BC não abandonou a meta de inflação. O impacto de contração da atividade foi muito rápido. Um choque de esfriamento que criou espaço para reduzir os juros sem contrapor a meta.”

Fritsch pondera, no entanto, que a condição propícia à flexibilização do juro não é eterna e o ritmo de corte da taxa Selic, que foi reduzida até agora em 4,5 pontos percentuais, 8% ao ano, tende a ficar mais contido nos próximos meses. “Chegamos a um ponto para testar e ver o que acontece. Ninguém pode dizer que o BC está fora da meta.”

A expectativa para a próxima reunião do Copom, que ocorre na semana que vem, é de novo corte de 0,5 ponto, seguida por nova redução em outubro, talvez de menor magnitude, especula o mercado. A partir daí, os especialistas se dividem entre uma estabilidade ao longo de 2013 ou uma leve alta dos juros. Todos estão de olho no atual repique inflacionário, fruto da alta dos preços das commodities (especialmente alimentos) no exterior e no aquecimento da economia doméstica.

De toda forma, há um novo equilíbrio macroeconômico defendido pelo BC: juro real baixo com câmbio depreciado. Para que isso se torne uma mudança estrutural, é necessário que se mantenha o atual rigor fiscal, além de depender ainda do desempenho da economia internacional, avalia David Beker, chefe de economia e estratégia do Bank of America Merrill Lynch para o Brasil.

“O mix da política monetária de fato mudou e a depreciação da moeda brasileira é permanente. Mas a âncora desse novo modelo é a manutenção de um rigor fiscal razoável”, diz Beker.

Mesmo com o alívio provocado pela queda do juro básico no perfil da dívida pública brasileira, as estimativas para o superávit primário estão menores do que o resultado consolidado no ano passado. As projeções indicam 2,8% para este ano e para 2013. Em 2011, o superávit primário foi de 3,11%.

No ambiente externo, Beker acredita que o cenário de baixo crescimento e juros próximos de zero se manterá por dois ou três anos, o que deve permitir que se mantenha a taxa de juro real brasileira em patamares historicamente baixos. “Ainda é cedo para dizer se a mudança no patamar da Selic é estrutural, mas mesmo que seja apenas conjuntural não necessariamente será de curto prazo”.

Passado um ano das turbulências entre o mercado e o BC, os especialistas hoje já se acostumaram com a nova função de reação da autoridade monetária e sabem ler melhor os sinais dessa nova autoridade monetária. Antes, o BC não reduziria os juros quando a projeção de inflação se mostrava acima da meta. Hoje, a expectativa está acima de 5% e o BC continua cortando a Selic, lembra Molan, do Santander.

Outra mudança está no câmbio. Analistas que antes olhavam os fundamentos econômico como o preço das commodities e o movimento do dólar no mercado externo para estimar o valor da moeda americana no Brasil, estão mais atentos agora aos discursos do governo, seja via Ministério da Fazenda, seja via BC.

Mas condições para o processo de ajuste das taxas de juros para padrões internacionais não estão dadas, na opinião de Vieira da Cunha, uma vez que o peso do governo no sistema financeiro só faz crescer e o ajuste fiscal está focado na arrecadação, e não no gasto. E isso ajuda a explicar o resultado prático ainda limitado dessa medida. “Por enquanto, estamos pagando para ver.”


BC não mudará sua estratégia

Por Cristiano Romero | VALOR

De Brasília

A intervenção do Banco Central (BC) no mercado de câmbio, depois de 35 pregões de ausência, consagra a percepção de que o regime de câmbio flutuante, pelo menos por ora, deixou de existir. Com a atuação de terça-feira, o BC avisou que não pretende deixar a cotação do dólar americano cair abaixo de R$ 2, assim como já deu a entender que não aceitará que vá acima de R$ 2,10.

A preocupação do BC é sustentar um novo equilíbrio para a economia brasileira, em que as taxas de juros são menores e o câmbio, menos apreciado. Trata-se de um equilíbrio diferente do dos últimos anos, que combinava juros altos com real valorizado. O objetivo do novo equilíbrio é estimular a indústria nacional, estagnada há dois anos.

A determinação do BC em defender uma determinada taxa de câmbio se mostra de forma ainda mais clara quando se observa que o país assiste ao repique da inflação, provocado por um choque de oferta no setor de alimentos. Câmbio desvalorizado, como se sabe, pode alimentar a inflação.

Em março, quando o ambiente internacional se deteriorou e por consequência houve um aumento da aversão dos investidores a risco, o fluxo de dólares se tornou negativo, pressionando para cima as cotações do dólar. Ato contínuo, o BC deixou o real perder valor para a moeda americana.

O objetivo foi tirar o dólar da cotação de R$ 1,70 e levá-la a outro patamar – na ocasião, para algo em torno de R$ 1,90. O processo continuou em abril e, apenas no fim daquele mês, a autoridade monetária procurou estabelecer alguma “âncora” para a moeda, que em meados de maio já estava em novo patamar – R$ 2.

A desvalorização do real foi, até então, a mais acentuada entre as moedas de países exportadores de commodities e de economias emergentes. A partir de maio, o BC procurou atrelar o câmbio comercial ao dólar index, indicador que mede a variação da moeda americana em relação a uma cesta de moedas. Segundo o Valor Data, em meados de junho houve um descolamento entre os dois indicadores e, apenas no início do mês seguinte, o real voltou a variar em linha com o dólar index.

Lá pelo dia 20 de julho, dólar comercial e dólar index acumulavam a mesma variação em relação a 30 de abril, quando houve o “casamento”. Depois disso, o dólar comercial andou acima do dólar index, mas sempre com uma forte correlação. Em tempo: ao seguir o dólar index, a taxa de câmbio deixa de refletir os fundamentos da economia brasileira.

Analistas acreditam que, com o aumento da inflação nos próximos meses, a tendência do BC será abandonar essa política e permitir a apreciação do real. Faria isso para conter os preços via dólar mais barato, preservando o espaço para continuar reduzindo a taxa básica (Selic), uma vez que a inflação estaria sob controle. O BC vem desmentindo essa possibilidade com suas ações e comunicados.

É mais provável ver o BC exercitando sua já habitual tolerância com uma inflação mais alta. Argumentos para isso não faltarão e o primeiro deles já está dado: o mundo, por causa de um grave problema climático nos Estados Unidos, está ficando novamente inflacionário. Ademais, BC e governo não consideram alta uma inflação em torno de 5,5%. Um IPCA de 5,5% em 2013 é justamente o que espera a maioria dos agentes de mercado, segundo o boletim Focus. Para 2102, por causa do choque de oferta, o mercado tem revisado para cima as projeções e já prevê 5,15% – nos 12 meses acumulados até julho, estava em 4,9%.

Ainda há no mercado a ideia de que a atual diretoria do BC age de acordo com a tradição firmada entre 1999 e 2010, durante a implantação do regime de metas para inflação. Por essa crença, o BC não reduz juros quando as expectativas de inflação superam a meta oficial; deixa o câmbio apreciar ou depreciar como consequência dos termos de troca da economia; atua no mercado para evitar repentinas e acentuadas desvalorizações da moeda; não coordena seus objetivos com o Ministério da Fazenda.

O BC mudou. Começando pelo fim, a atual diretoria não só coordena suas políticas como compartilha com a Fazenda diagnósticos e visões sobre a economia; tolera desvalorizações da moeda a partir da crença de que o real valorizado prejudica a competitividade da indústria; não tem apego à ideia de que é natural o real andar de mãos dadas com moedas de países exportadores de commodities, como Canadá e Austrália; dá um peso menor às expectativas dos agentes ao definir a política de combate à inflação.

O que há em comum entre os BCs dos dois momentos é a crença de que o governo precisa entregar uma meta cheia de superávit primário, como elemento auxiliar ao controle da demanda. Isso não mudou. Um exemplo de como o atual BC difere dos anteriores foi a participação do presidente da instituição, Alexandre Tombini, na reunião com a Anfavea que decidiu pela diminuição do IPI para estimular a venda de automóveis. É cedo para dizer se o “novo BC” está certo ou errado. O que já dá para afirmar é que ele é diferente.

Um funcionário graduado do BC justificou desta forma a adoção de uma política fiscal, monetária e cambial menos restritiva para ajudar o setor: “A gente sabe que investimento funciona se tiver perto da capacidade. Com os pátios das indústrias cheios, não tem investimento. Então, temos que cuidar um pouco desse curto prazo para a bola continuar em movimento. Então, é essa a lógica de preservar os investimentos em setores que puxam a economia”.

15/08/2012 - 08:55h A aparente contradição entre PIB e emprego

Por Cristiano Romero – VALOR

A economia brasileira parece viver uma aparente contradição. Mesmo com o PIB crescendo no atual biênio bem abaixo do potencial – 2,7% em 2011 e menos de 2% neste ano -, o desemprego continua baixo (5,8%), situação que muitos especialistas classificam como pleno emprego.

Como fazem mensalmente, economistas do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV se debruçaram sobre o principal tema da conjuntura para tentar entender o que parece ser um paradoxo. Chegaram à conclusão de que não há explicação fácil nem única. A primeira dúvida sobre o complexo momento que vivemos diz respeito à própria desaceleração do PIB.

Muitos analistas atribuem esse fato ao desaquecimento da demanda, provocado pelo recuo da demanda externa e dos investimentos. O ciclo de estoques da indústria, que chegou ao pico na virada do ano e foi gradativamente sendo eliminado no primeiro semestre de 2012, também seria um indício de demanda fraca.

Não há explicação única para a conjuntura brasileira

Quando se observa a inflação medida em 12 meses, houve recuo de um ponto percentual nos preços dos serviços. Uma parte disso se deve à nova ponderação feita pelo IBGE dos hábitos de consumo dos brasileiros, mas, no geral, a pressão desses preços diminuiu, um sinal de moderação da demanda. Ademais, o aumento da inadimplência, mesmo com o baixo desemprego e a renda elevada, é indicação de que o ciclo do crédito estaria se esgotando. Não se deve subestimar o fato de que as vendas do varejo estão caindo.

É preciso lembrar, ainda, que nos últimos 12 meses o Banco Central cortou a taxa básica de juros (Selic) de 12,5% para 8% ao ano. O processo não acelerou a inflação, mas também não reanimou a economia. O que chama atenção na tese da queda da demanda é o mercado de trabalho, que segue aquecido.

Alguns analistas acreditam que a razão é de natureza demográfica. O mercado de trabalho continua apertado porque o número de entrantes potenciais está diminuindo e não porque a demanda esteja aquecida. Outra visão possível, que confronta a tese do recuo da demanda, é a de que a economia está em pleno emprego e a desaceleração do PIB representa um processo de ajuste estrutural.

Por esse raciocínio, a economia estaria transferindo postos de trabalho do setor industrial para o de serviços. “Na transição, há uma fase em que necessariamente parcelas de capital ficam ociosas na indústria, o que reduz o crescimento pelo lado da oferta. Adicionalmente, como o setor de serviços emprega mais para uma mesma quantidade de capital do que a indústria, a mudança estrutural contribuiu para dar fôlego ao mercado de trabalho. A recomposição setorial explicaria tanto a desaceleração quanto a manutenção de um mercado de trabalho pressionado”, diz o diretor do Ibre, Luiz Guilherme Schymura.

A dificuldade dessa tese, aponta Schymura, são os indicadores de desaquecimento da demanda. “Isso torna pouco crível a visão de que os últimos desdobramentos da economia brasileira possam se resumir a um fenômeno apenas do lado da oferta.”

Há outras explicações para o suposto descasamento entre PIB e mercado de trabalho. Uma delas, “reiteradamente negligenciada” pelo debate na opinião de Schymura, é a longa defasagem dos efeitos do corte de juros e também do próprio esfriamento da economia.

Do lado do desaquecimento, a indústria, afetada pelo câmbio apreciado, a concorrência dos importados e a alta salarial provocada pelo setor de serviços, foi a primeira a sentir o golpe e está praticamente estagnada há dois anos. Os investimentos não se recuperam por causa da crise de confiança provocada pela turbulência internacional.

Por essa tese, o emprego industrial já estaria sendo afetado e o desaquecimento chegará ao setor de serviços, se espalhando para o mercado de trabalho de forma generalizada. “É precisamente esse passo, que tanto tarda, felizmente, no atual ciclo de negócios, que gera perplexidade entre os analistas”, comenta Schymura.

A ideia da defasagem prolongada, acentuada pela mudança estrutural da economia pró-serviços, ganha força. O diretor do Ibre observa que os números do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) revelam que 2012 tem sido o pior ano, desde 2006, em criação líquida de empregos formais. Se isso for uma tendência, haverá problemas mais amplos de emprego nos próximos meses.

Uma outra tese sobre a manutenção do emprego, em meio ao PIB fraco, é a de que, dada a forte absorção de novos trabalhadores nos anos recentes, restaram desocupados com baixa qualificação, desestimulando contratações formais adicionais. Uma outra hipótese seria a de que as empresas estariam retendo empregados, esperançosas de que a “recessão” seja temporária, um sentimento estimulado pelo governo.

As razões da retenção seriam variadas – elevados custos de contratação, treinamento e demissão; custos de manutenção de estoques superiores aos de manutenção de trabalhadores; baixa disponibilidade de mão de obra qualificada. A retenção, em meio ao desaquecimento da economia, tem um efeito colateral, embora temporário: a queda da produtividade, como vem ocorrendo.

O risco, no caso da retenção de mão de obra, é o de uma reversão rápida e brusca, motivada pela desistência das empresas em esperar pela recuperação da economia. Nessa hipótese, a taxa de desemprego subiria rapidamente, podendo jogar o mercado de trabalho num ciclo vicioso.

“Se a razão para o alto nível de emprego for demográfica, e, portanto, fundamentalmente de oferta, nada há a fazer”, diz Schymura. “Por outro lado, se consiste num ajuste estrutural da composição dos setores da economia, aceitá-lo ou tentar neutralizá-lo parcial ou totalmente depende da estratégia econômica do ponto de vista mais amplo. Num foco mais imediato, uma mudança desse tipo pode até ajudar a preservar o consumo no ponto mais fraco do ciclo econômico – já que o aumento relativo do setor de serviços é gerador de emprego e, portanto, de renda. Uma vez concluída a transição, no entanto, essa benesse cíclica cessará, e, se esse momento coincidir com um período de economia ainda combalida, pode precipitar uma piora ou até mesmo recessão”, adverte ele.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

13/08/2012 - 08:48h Baixo crescimento no Brasil é um ciclo, não tendência

Simon Dawson/Bloomberg / Simon Dawson/Bloomberg
O’Neill: “Eu gosto de Rússia, Turquia, Brasil, China e Coreia. E, razoavelmente atrativa, Índia e depois Indonésia”


Por Silvia Rosa | VALOR

De São Paulo

Uma década depois de ter criado o termo Bric para o grupo de países que inclui Brasil, Rússia, Índia e China, o economista e presidente da Goldman Sachs Asset Management, Jim O’Neill continua otimista com essas economias, apesar do fluxo para os fundos dedicados a tais mercados estar negativo em US$ 689,25 milhões no ano até 1º de agosto, de acordo com dados da consultoria EPFR Global. O’Neill acredita que ao longo da década esses países vão contribuir mais para o PIB global do que os Estados Unidos e Europa juntos.

Na avaliação do gestor, o México chamado recentemente pelo “Financial Times” de “novo Brasil”, já não está mais interessante em termos de preço e vê mais oportunidades em emergentes como Rússia, Brasil, Turquia, China e Coreia.

A seguir, a entrevista concedida por O’Neill ao Valor por e-mail.

Valor: Como está a alocação nos mercados emergentes comparado com o ano passado?

Jim O’Neill : A Goldman Sachs Asset Management planeja lançar um fundo global que permitiria aplicar em diferentes classes de ativos. Nos fundos de ações dedicados a mercados emergentes nós temos visto contínua entrada de recursos, e algumas saídas na carteira com foco nos países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China).

Valor: Em seu último livro, “O mapa do crescimento”, além dos países do Bric, o senhor menciona mais quatro economias – Coreia do Sul, Indonésia, México e Turquia – que compõem o grupo chamado de mercados de crescimento. Em quais países o senhor vê mais oportunidades para investir em ações?

O’Neill : Isso depende das perspectivas econômicas e dos preços prevalecentes. Em oposição a esses dois critérios, em termos de atratividade eu gosto de Rússia, Turquia, Brasil, China e Coreia. E, razoavelmente atrativa, eu diria a Índia e depois a Indonésia. Nos preços atuais, o mercado do México já não está mais tão atrativo.

Valor: Com quais países do Bric o senhor está mais otimista?

O’Neill : Eu permaneço fundamentalmente animado com os quatro. Depois, e coletivamente, a história dos Bric é a maior história econômica da década. Ao longo da década, eles vão contribuir mais para o PIB global do que os Estados Unidos e Europa juntos e até 2015 o PIB desses países deve superar o dos Estados Unidos.

Valor: A bolsa da Turquia lidera a valorização entre os mercados de ações de emergentes, com alta de 25,96% em moeda local. Por que esse país tem atraído os investidores?

O’Neill : A Turquia é um país excepcionalmente interessante, por três razões até o momento. Primeiro porque é um tipo de modelo para o qual muitos aspirantes e países do Oriente Médio que estão passando por mudança devem visar. Segundo, ele está muito bem posicionado em termos de potenciais laços comerciais decorrentes de futuras mudanças em toda região do Oriente Médio. Terceiro, ele tem uma excelente demografia. Tudo isto atribuído contra um pano de fundo de baixa taxa de juros nos países do G-7, faz da Turquia muito atraente.

Valor: Quais são as principais preocupações em relação à economia brasileira?

O’Neill : Eu acho que as pessoas estão muito negativas sobre a tendência para o Brasil no médio prazo. Isso é muito interessante, e por alguma extensão, engraçado, o quão rapidamente o consenso do mercado presume que a evolução do crescimento recente vai persistir. Então, por exemplo, depois do milagre do crescimento de 7,5% em 2010, as pessoas pensam que isso persistiria. Agora, dado os desapontamentos em 2011 e 2012, as pessoas estão preocupadas que o crescimento será ao redor de 2% a 3% no futuro. Isso não é novo. Por anos, de 2001 a 2003, o Brasil cresceu menos de 2%, e depois isso de repente saltou para acima de 5% por dois anos. Os investidores e analistas precisam distinguir entre tendência de crescimento e ciclo. Eu acho que o Brasil provavelmente crescerá ao redor de 4% a 5% na média na década, e no próximo ano certamente será melhor que isso. O Brasil tem sofrido com a valorização do real nos anos recentes bem como o excesso de liderança do governo na economia como outros desafios competitivos, mas algumas dessas evoluções adversas estão mudando.

10/08/2012 - 08:59h OCDE prevê países parados; Brasil é exceção

10 de agosto de 2012

NOVA YORK – O Estado de S.Paulo

A maior parte das grandes economias deverá perder força nos próximos meses, e somente o Brasil e, possivelmente, o Reino Unido, vão registrar um aumento moderado, de acordo com os indicadores antecedentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)

A OCDE disse que o indicador antecedente dos 34 membros da organização caiu para 100,3 em junho, de 100,4 em maio, sugerindo “uma desaceleração da atividade econômica”.

O indicador antecedente para as economias em desenvolvimento também recuou, sinalizando “desacelerações” – ou crescimento abaixo da tendência da taxa de longo prazo, para a China, Índia e Rússia.

Entre o grupo da sete maiores economias desenvolvidas, o Reino Unido foi o único país a registrar uma alta em seu indicador antecedente, uma performace que, segundo a OCDE, “mostra sinais iniciais de uma recuperação da atividade econômica”. Junto com a Itália, o Reino Unido foi a economia mais lenta entre os países do G-7 (grupo que reúne as sete maiores economias do planeta) nos últimos três trimestres.

Outra exceção para a tendência geral de queda foi o Brasil, que obteve indicador antecedente de 99 em junho, mesma leitura de maio, após registrar um aumento constante desde o início do ano. A OCDE disse que isso era um sinal de que o crescimento da economia vai aumentar, mas com menos intensidade do que tinha sido previsto.

Entre as economias desenvolvidas, a zona do euro continua a ser o principal foco de enfraquecimento. Mas os indicadores antecedentes para os EUA e o Japão também diminuíram. / DOW JONES NEWSWIRES

30/07/2012 - 09:54h Lucros de empresas nos EUA podem parar de crescer

Por Kate Linebaugh | The Wall Street Journal | VALOR

Diga adeus ao crescimento dos lucros.

A desaceleração das economias dos Estados Unidos e da China, consumidores cada vez mais preocupados, recessão na maior parte da Europa e um dólar valorizado estão encerrando um período de 10 trimestres consecutivos de crescimento dos lucros em relação a um ano antes nas maiores empresas americanas.

Até sexta-feira, o cenário apontava para mais uma subida nos lucros. Mas as previsões estão agora se tornando negativas em meio a uma série de alertas de lucro de empresas como a Starbucks Corp. e a Illinois Tool Works Inc. No terceiro trimestre, os lucros das empresas que compõem o índice S&P 500 devem encolher pela primeira vez desde logo após o fim da recessão, caindo 0,4% na comparação ano a ano, segundo a Thomson Reuters, que consulta os analistas de Wall Street.

E, com isso, um dos poucos pontos altos na cambaleante recuperação econômica dos EUA perde o seu brilho. Lucros gordos vêm alimentando os investimentos empresariais em tecnologia e maquinário, ainda que não estejam aumentando muito as contratações. Agora, contudo, a pressão sobre os lucros está levando empresas como a United Technologies Corp. e a Dow Chemical a cortar custos.

A rede de cafeterias Starbucks alertou na semana passada que o movimento nas suas lojas dos EUA começou a declinar em junho. Como a tendência continuou em julho, a companhia decidiu diminuir sua previsão de lucro para o terceiro trimestre.

“Isso não é um problema da Starbucks”, disse Howard Schultz, o diretor-presidente. “Isso é um problema macro de confiança do consumidor.”

Os preços das commodities – petróleo, cobre, alumínio e outros motores da economia mundial – têm apresentado quedas acentuadas, que sugerem que a atividade manufatureira está perdendo fôlego porque os consumidores estão comprando menos.

Ao mesmo tempo, o dólar está se fortalecendo, tendo subido 5% em relação ao euro no segundo trimestre. Um dólar valorizado prejudica as exportações dos EUA ao tornar os produtos americanos mais caros para quem os compra em outras moedas. Ele também corrói o valor das receitas das empresas americanas no exterior, quando essas receitas são convertidas para dólar.

Para o terceiro trimestre, os analistas projetam que o lucro e a receita das empresas do S&P 500 deslizarão em cerca de 0,5%, informou a Thomson Reuters. Isso se segue ao que provavelmente foram três trimestres seguidos de queda no crescimento dos lucros. Os lucros podem a voltar a crescer no quarto trimestre, dizem os analistas, dado que o desempenho no quarto trimestre do ano passado não foi tão forte quanto no terceiro.

A fornecedora de gás Airga s Inc. viu seu lucro no segundo trimestre saltar 21%, mas baixou sua previsão para o ano todo, citando a fraqueza da economia. A fabricante de jatos executivos Rockwell Collins Inc., que divulgou um aumento de 5% no lucro do terceiro trimestre, também cortou sua projeção de receita e lucro para o ano.

“O ritmo atual das vendas está aumentando, só não na taxa que nós esperávamos no começo do ano”, disse ao The Wall Street Journal Clay Jones, diretor-presidente da Rockwell Collins.

Cerca de 40 companhias já alertaram que seu desempenho no terceiro trimestre será mais fraco do que se pensou no início, comparado com 8 que foram otimistas, segundo Gregory Harrison, um analista de resultados da Thomson Reuters. A razão entre previsões negativas e positivas é a menor desde o segundo trimestre de 2001, disse ele.

No começo do ano, as empresas estavam esperando tempos difíceis na Europa e uma economia chinesa em desaceleração, mas manifestavam otimismo quanto aos EUA. A economia americana, porém, começou a se arrastar no segundo trimestre, sendo que o produto interno bruto cresceu a uma taxa anualizada de 1,5%, menor que os 2% do primeiro trimestre e os 4,1% do quarto trimestre de 2011.

A temporada de divulgação dos lucros do segundo trimestre para as empresas do S&P 500 já passou da metade. Os analistas esperam um crescimento de 6,2% do lucro no período, segundo a Thomson Reuters. Excluindo o Bank of America – que registrou um lucro de US$ 2,5 bilhões depois de ter um prejuízo de US$ 8,8 bilhões no ano passado devido a baixas contábeis ligadas a hipotecas – os lucros devem crescer somente 0,9%.

Uma queda nos preços das commodities está reduzindo as expectativas para os trimestres futuros, pois isso é um presságio de lucros menores para as petrolíferas e mineradoras. Na sexta-feira, a mineradora Anglo American PLC, que tem presença mundial, divulgou uma queda abaixo do esperado, de 38%, no lucro operacional no primeiro semestre, devido à queda nos preços das commodities. A empresa afirmou que cortaria seus gastos de capital este ano e no próximo.

Jim Russell, diretor de estratégia de ações do U.S. Bank Wealth Management, dos EUA, prevê que os lucros do terceiro trimestre cairão de 3% a 5%. “O crescimento da receita está também diminuindo o ritmo e as margens parecem que estão chegando ao máximo”, disse Russell. (Colaborou Jon Ostrower)

30/07/2012 - 09:51h Dólar alto é novo obstáculo aos EUA

Por Assis Moreira | VALOR

de Genebra

A recente alta do dólar representa outro obstáculo para os exportadores dos Estados Unidos e para os lucros das companhias, em meio a inquietações com a perda de fôlego da maior economia do mundo, que cresceu apenas 1,5% em taxa anualizada no segundo trimestre.

O valor da moeda americana continua baixo em termos efetivos (”trade-weighted basis”) pelos padrões históricos. Mas está próximo de seu nível mais alto ante o euro em dois anos – tendo subido 4% nos últimos cinco meses e cerca de 8% no ano passado em relação aos principais parceiros.

Para os exportadores, o desempenho do dólar não é boa noticia quando eles já enfrentam a baixa de demanda na Europa e em partes da Ásia. Apple e Ford estão entre as empresas que anunciaram resultados decepcionantes no segundo trimestre por causa de consumo menor pelos europeus.

“A alta do dólar não é um desastre para os EUA e por si só não vai enfraquecer mais a economia, mas vai exacerbar as desacelerações tanto do crescimento das exportações como do lucro das empresas”, avalia o analista Paul Dales, em Londres.

Ele nota que os EUA não estão expostos a flutuações no câmbio como muitas economias “simplesmente porque o país tem uma economia relativamente fechada”. As exportações representam apenas 14% no PIB americano, comparadas a 27% na França e 50% na Alemanha. Mas o dólar no seu nível atual pode baixar de 5% para cerca de 3% o ritmo de crescimento das exportações.

O outro lado é que o dólar mais alto se traduz em preço mais baixo de importações. Mas o impacto da flutuação da moeda nos preços de importações demora cerca de quatro meses.

A economia americana cresceu 1,5% em taxa anualizada no segundo trimestre, alimentando dúvidas sobre a recuperação da economia global e sobre as perspectivas de reeleição do presidente Barack Obama.

Mas analistas notam que a dura seca em alguns Estados americanos terá impacto apenas marginal no declínio da produção agrícola e no crescimento do PIB americano. Embora os EUA produzam mais milho do que qualquer outro país e sejam os supridores de metade da soja globalmente, o setor agrícola representa apenas 1%, ou US$ 130 bilhões, do PIB americano.

No primeiro semestre, a média de temperatura em seis de nova regiões americanas bateu recorde de alta. Preços futuros de milho subiram 60%; de soja, 50%; e de trigo, 25%.

No entanto, a expectativa é de que, mesmo se os preços das commodities continuarem nos níveis atuais, o impacto sobre a inflação também será pequeno.

Na zona do euro, a queda da moeda comum dá um impulso nas exportações, mas o superávit comercial vem sendo obtido também graças a menos importações.

No Japão, o déficit na balança comercial prossegue. Por sua vez, o ministro das Finanças Jun Azumi alertou que uma intervenção continua a ser uma possibilidade para baixar o valor do iene.

A moeda japonesa está no seu nível mais alto em relação ao euro e também se valorizou um pouco ante o dólar recentemente.

26/07/2012 - 14:03h Peru e Colômbia atraem mais bancos estrangeiros

Por Polya Lesova | Especial para o The Wall Street Journal, de Lima, Peru – VALOR

Em San Isidro, o distrito financeiro da capital peruana, os bancos ocupam alguns dos edifícios mais elegantes, um reflexo da boa fase do setor que tem sido alimentada pelo crescimento econômico do Peru.

A Colômbia e o Peru têm visto suas economias crescerem fortemente nos últimos anos, e o setor bancário tem tirado proveito.

Os bancos dos dois países têm se beneficiado de uma crescente base de clientes potenciais, à medida que a classe média se expande e mais pessoas são retiradas da pobreza, estimulando a demanda por empréstimos ao consumidor, cartões de crédito e hipotecas.

Bancos brasileiros também buscam se beneficiar de nova base de clientes

Num momento em que gigantes do setor bancário no mundo desenvolvido cambaleiam depois de uma série de escândalos e batalham para entregar retornos aceitáveis para os acionistas, muitas instituições financeiras no Peru e na Colômbia apresentam um invejável crescimento no lucro e retornos de dois dígitos sobre o próprio capital.

Instituições financeiras de países vizinhos também tentam tirar proveito do bom momento do Peru e Colômbia. Os bancos brasileiros têm sido especialmente ativos. O banco de investimento BTG Pactual, por exemplo, comprou a corretora chilena Celfin Capital em fevereiro, ganhando exposição aos mercados de capital de rápido desenvolvimento não só do Peru e Colômbia, mas também do Chile. E em junho, o BTG fechou acordo para comprar a Bolsa y Renta, de MedellÍn, a maior corretora de valores da Colômbia. O Itaú BBA, que é a a subsidiária de banco de investimentos do Itaú Unibanco Holdings, instalou recentemente um banco de atacado na Colômbia. Além disso, o Corpbanca, do Chile, já informou que está à procura de aquisições no Peru, depois de ter comprado os ativos do Santander na Colômbia.

Guillermo Arbe Carbonel, economista do Scotiabank, em Lima, diz que, no caso do Peru, o setor bancário acompanhou o crescimento orgânico da economia e se beneficiou do nível historicamente baixo de penetração bancária.

Muitas famílias e empresas que não estavam no radar dos bancos antes agora estão, diz Carbonel. “Também estamos vendo isso na construção. Eles estão construindo shopping-centers em todo o país e os bancos vão colocar agências nesses shoppings. Agora é útil ter um cartão de crédito.”

O interesse por hipotecas está aumentando a taxas de dois dígitos, nota o analista, que acrescenta: “Há uma mobilidade social muito forte.”

O Banco de Crédito, que faz parte da Credicorp Ltd., é o maior banco do Peru, com mais de 30% de participação de mercado tanto em empréstimos como em depósitos. Em seguida, estão o BBVA Continental (de propriedade de banco espanhol BBVA SA), o Scotiabank Peru (uma unidade do canadense Bank of Nova Scotia) e o limenho Interbank (uma unidade do Intergroup Financial Services Corp.)

Num reflexo do novo ímpeto da indústria, o Banco de Crédito teve um aumento de 30% no lucro do primeiro trimestre e uma média de retorno sobre o patrimônio, um indicador de rentabilidade dos bancos, de 29,2%. O total de empréstimos subiu 21% em comparação com um ano antes, para US$ 17,6 bilhões, impulsionado pelo setor de banco de varejo, em particular as hipotecas e empréstimos ao consumidor.

Embora os bancos locais devem continuar vendo crescimento sólido na carteira de empréstimos este ano, o Peru certamente enfrenta alguns desafios. Um deles é a dolarização, ou o uso generalizado de moeda estrangeira, que decorre parcialmente da dolorosa experiência do país com a hiperinflação na década de 1980.

“Nossa dolarização ainda é alta”, diz Juan Carlos Odar, economista do Banco de Crédito em Lima. “O banco central está muito presente no mercado de câmbio. Eles tentam evitar a volatilidade da taxa de câmbio.”

Do outro lado da fronteira, na Colômbia, o setor bancário também vem prosperando e atraindo o interesse de investidores estrangeiros. Os empréstimos comerciais e para consumidores, que representam 90% da carteira de crédito total, estão crescendo a taxas de dois dígitos. Apesar de responder só por cerca de 8% do total de empréstimos, a atividade de hipotecas também tem ganhado força. O nível de inadimplência subiu um pouco, mas continua em volumes historicamente baixos, segundo a InterBolsa.

A Colômbia sofreu uma grave crise de hipotecas na década de 1990, quando a inadimplência disparou. Muitos bancos com grande exposição aos empréstimos hipotecários tiveram de fechar as portas e o governo acabou intervindo para recapitalizar as instituições financeiras. Essa crise imperrou o desenvolvimento do setor bancário e reduziu o crescimento do crédito durante a década seguinte.

O Grupo Aval, o enorme conglomerado construído pelo bilionário Luis Carlos Sarmiento, é o maior grupo financeiro da Colômbia e controla cerca de 30% do setor bancário local. O Aval possui vários bancos, incluindo o Banco de Bogotá, o segundo maior banco do país, e o Porvenir SA, o maior fundo de pensão.

O Bancolombia SA, que tem ADRs na Bolsa de Valores de Nova York, é o maior banco do país com 20% do total de ativos, segundo dados da InterBolsa. O Banco de Bogotá é o segundo, com 15%, seguido do Banco Davivienda SA com 12%. O BBVA, com uma participação de mercado de 9%, é o maior entre os participantes estrangeiros.

“Há uma série de oportunidades e os investidores internacionais estão vendo isso. Muitos estão pagando alto para acessar o sistema colombiano”, diz Philip Thomas, analista do setor financeiro da Interbolsa, em Medellín, Colômbia, dando o exemplo de dois negócios. Em outubro passado, o Scotiabank anunciou que iria comprar 51% do Banco Colpatria em um negócio avaliado em US$ 1 bilhão. E em maio, o Santander anunciou a venda de seus ativos colombianos ao chileno Corpbanca SA.

Ao mesmo tempo que os bancos estrangeiros buscam uma fatia do mercado colombiano, os bancos colombianos também estão expandindo sua presença na América Central.

Em 2010, o Grupo Aval comprou o BAC-Credomatic da GE Capital, recebendo no acordo um banco com operações na Costa Rica, México, El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Honduras e Panamá. E este ano, o Banco Davivienda comprou unidades do HSBC Holdings na Costa Rica, El Salvador e Honduras.

Polya Lesova é vice-diretora da sucursal de Nova York do site “MarketWatch”

25/07/2012 - 09:57h Economistas preveem baixo crescimento por anos

Por Sergio Lamucci | VALOR

Do Rio

A economia global caminha para um longo período de baixo crescimento, mesmo se não se ocorrer uma ruptura da zona do euro, um risco visto hoje como cada vez mais provável, dada a inação dos líderes políticos europeus. Nesse cenário delicado, ter um mercado interno forte e finanças públicas saudáveis serão trunfos importantes, assim como contar cada vez mais com a poupança doméstica deverá ser uma necessidade. Em linha gerais, esse foi o quadro traçado por economistas como Dani Rodrik, da Universidade de Harvard (EUA), e José Antonio Ocampo, da Universidade de Columbia (EUA), que participaram ontem e anteontem do seminário “O Brasil e o Mundo em 2022″, promovido pelo BNDES em comemoração aos 60 anos do banco.

Rodrik acredita num ambiente muito negativo para a economia global nos próximos anos, o que terá como consequência derrubar o potencial de crescimento de todos os países. Na zona do euro, a possibilidade de que vários países deixem a união monetária cresceu com força; na China, existe o risco de um tombo significativo do ritmo de crescimento, talvez para a casa de 5% ao ano; e nos EUA, o quadro de impasse político nos EUA tende a prosseguir, afetando a expansão da economia.

Nesse quadro hostil, países com grandes mercados internos, como Brasil e Índia, tendem a se sair relativamente melhor que os outros, apontou ele. O colombiano José Antonio Ocampo, professor da Universidade de Columbia (EUA), destacou o mercado doméstico como um fator de dinamismo importante para a América Latina nesse cenário global, em que os preços de commodities têm perspectivas bem menos róseas.

O quadro internacional adverso reforça a importância de se mobilizar a poupança doméstica, destacou o russo Vladimir Popov, professor da Nova Escola Econômica de Moscou, para quem também é preciso tomar cuidado com fluxos de capitais voláteis.

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, também destacou a necessidade de se aumentar a poupança doméstica nesse mundo mais complicado, apostando na elevação do investimento no Brasil. Para ele, há grandes oportunidades nos setores de petróleo e gás, energia e infraestrutura, que levarão a uma alta da taxa de investimento como proporção do PIB.

Coutinho salientou ainda a importância hoje de fundamentos macroeconômicos sólidos, como baixos níveis de déficits externos, inflação sob controle – sem o que não se faz inclusão social, segundo ele – e de finanças públicas em ordem. Ocampo lembrou que a América Latina conseguiu enfim superar o problema do endividamento público, abrindo espaço para políticas fiscais contracíclicas.

O grande risco para o mundo, segundo consenso dos participantes do seminário, é de que a zona do euro viva uma ruptura. Rodrik e Wolfang Munchau, presidente da consultoria Eurointelligence, acham que essa possibilidade cresceu muito, o que teria consequências catastróficas para a economia global, especialmente se um país grande como a Espanha ou a Itália deixarem a zona monetária. Para Munchau, os países precisam pensar suas estratégias levando em conta que o baixo crescimento mundial deverá durar muitos anos, mesmo se a zona do euro evitar o pior.

Outro risco no radar dos analistas é a China. O país terá mais dificuldades num quadro de baixo crescimento global, em que os países desenvolvidos serão menos tolerantes com grandes exportadores que usam medidas “heterodoxas” para sustentar o crescimento, como políticas industriais amplas e agressivas e a manutenção do câmbio em nível desvalorizado, segundo Rodrik. Ele acha possível que a China caminhe para um período de crescimento significativamente mais baixo, na casa de 5% ao ano, o que poderia ter consequências graves no front político. Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), é menos pessimista. Acha que a China evita um tombo forte da economia, mas insistindo nos incentivos às exportações e ao investimento, o que tende a aumentar os desequilíbrios da economia.

24/07/2012 - 08:54h Emprego cresce menos, mas absorve toda nova mão de obra

Ruy Baron/Valor / Ruy Baron/Valor
Jorge Arbache, da UnB: ” Demografia tem ajudado a controlar o desemprego”


Por Carlos Giffoni | VALOR

De São Paulo

No primeiro semestre deste ano, o país criou 1,047 milhão de novas vagas, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) relativo a junho, divulgado ontem pelo Ministério do Trabalho. O volume de novas vagas foi 35% inferior ao mesmo período de 2011. Apesar dessa desaceleração, a abertura de vagas formais no mercado de trabalho é suficiente para absorver a oferta de mão de obra, que tem crescido menos. Números do Censo 2010 mostram que a população economicamente ativa (PEA) cresceu, em média, 1,38 milhão de pessoas por ano na última década.

Caso não haja alteração na taxa de fecundidade da população brasileira, nos fluxos migratórios e na produtividade do trabalhador, o país precisa criar cerca de 1,4 milhão de empregos formais por ano para atender a toda a oferta de mão de obra, segundo André Portela, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV). “Quando o trabalhador se especializa, ele se torna mais produtivo e é preciso menos gente para fazer a mesma quantidade de trabalho”, explica. O professor reforça que a oferta de mão de obra estrangeira e uma mudança no perfil demográfico no país podem alterar esse cenário.

Segundo o Censo, entre 2000 e 2010, a população brasileira entre 15 e 60 anos – intervalo considerado idade ativa – passou de 105 milhões para 124,2 milhões, o que é equivalente a um crescimento médio anual de 1,92 milhão de pessoas. A taxa de atividade – fatia do total que está ocupada ou à procura de um emprego e para quem é necessário criar vagas – se manteve em 72% nesse período.

Jorge Arbache, professor da Universidade de Brasília (UnB), lembra que essa desaceleração no crescimento da população em idade ativa (PIA) e da população economicamente ativa favorece o recuo do desemprego no país, que já registra mínimas históricas – em maio, a taxa de desocupação calculada pelo IBGE ficou em 5,8%. “Se a criação de vagas estivesse caindo e a PEA crescendo mais fortemente, teríamos um problema de desemprego no país, o que não ocorre. A demografia tem ajudado a controlar o desemprego”, afirma.

Segundo Arbache, a PEA no Brasil já é muito alta quando comparada aos padrões internacionais. O índice médio de 72% deixa pouco espaço para que o número de pessoas à procura de emprego cresça sem que haja respaldo do mercado de trabalho. “A PEA cresce a taxas cada vez menores. O número de pessoas que estão chegando no mercado de trabalho ainda é grande, mas as taxas são decrescentes, o que também cria espaço para que o desemprego recue”, diz. Arbache calcula que a PIA se estabilizará por volta do ano de 2020.

A partir de dados do Censo e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) de 2009, Portela, da FGV, calcula que a PEA no Brasil cresceu a um ritmo médio anual de 1,8% na última década. A Pesquisa Mensal de Emprego (PME) de maio, realizada pelo IBGE nas seis maiores regiões metropolitanas do país, já indica um crescimento mais modesto desse indicador. Na comparação com maio de 2011, a PEA cresceu 1,4% (cerca de 300 mil pessoas) e a PIA, 1,2% (cerca de 500 mil pessoas).

O professor da FGV destaca que há uma mudança corrente no perfil da mão de obra brasileira. A fatia de jovens entre 15 e 19 anos inserida na PEA tem diminuído, enquanto que a população entre 20 e 39 anos ganha espaço. Ele atribui esse movimento à maior dedicação dos jovens aos estudos, o que tem adiado a sua entrada no mercado de trabalho.

Arbache, da UnB, ressalta que a baixa produtividade da economia brasileira ainda pode tornar um problema esse crescimento em ritmo mais modesto da oferta de trabalhadores. “A desaceleração da economia já chegou ao mercado de trabalho. Os dados de criação de emprego hoje refletem isso. Notamos um nítido adiamento das contratações”, diz.

23/07/2012 - 11:00h Brasil pode crescer 5% ao ano, diz Rodrik

Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/Valor
Dani Rodrik, da Universidade de Harvard: com câmbio e conjunto de políticas industriais corretos, Brasil pode ter setor manufatureiro saudável


Por Sergio Lamucci | VALOR

De São Paulo

O economista Dani Rodrik não embarcou na recente onda de pessimismo em relação à economia brasileira. Para o professor de economia política internacional da Universidade de Harvard (EUA), o Brasil tem condições de crescer a taxas de 5% ao ano mesmo no ambiente adverso que ele antevê para a economia global, de baixo crescimento por muitos anos, especialmente nos países desenvolvidos.

“O Brasil obviamente será afetado de modo negativo pelos acontecimentos na Europa e nos EUA e também pela provável desaceleração da China. Mas o Brasil tem alguns pontos fortes”, disse Rodrik, citando as finanças públicas em ordem e o regime democrático estável, mencionando também a grande classe média como um trunfo importante do país. O economista turco será um dos principais convidados do seminário “O Brasil e o Mundo em 2022″, promovido pelo BNDES em comemoração aos 60 anos do banco. O evento ocorre hoje e amanhã no Rio, no Espaço Tom Jobim.

Rodrik vê o Brasil, ao lado de Índia e Coreia do Sul, como um dos países “relativamente mais bem posicionados” para enfrentar esse cenário externo adverso dos próximos anos – o crescimento depende mais da demanda interna do que das exportações, a dívida pública está controlada e a democracia é robusta. São vantagens importantes num mundo que, segundo ele, tem 50% de possibilidade de testemunhar a dissolução parcial da zona do euro nos próximos anos, além do risco de manutenção do impasse entre democratas e republicanos sobre a trajetória fiscal americana. Rodrik tampouco é otimista quanto às perspectivas para a China, um país que não é democrático e ainda é muito dependente das exportações.

Para o Brasil crescer a um ritmo de 5%, ele aponta como fundamental “sinalizar um ambiente em que serão mantidos os incentivos relativos para o investimento na indústria manufatureira e em outros setores tradables [comercializáveis internacionalmente]“, o que requer juros baixos e um câmbio relativamente competitivo. “Se as políticas em curso conduzirem a essa combinação, já será uma grande ajuda”, afirmou Rodrik, que vê ainda com bons olhos as iniciativas do governo de reduzir impostos para setores específicos e tentar impulsionar o investimento por meio do BNDES.

“O que o Brasil está tentando fazer é um esforço que vale a pena, desde que seja pragmático e revisado à luz da evidência de seu impacto”, diz ele, para quem o verdadeiro teste desse tipo de política é saber desistir dos perdedores, não insistindo com setores, se ficar claro que as medidas não dão resultado. “A própria experiência do Brasil no passado oferece muitas lições nesse sentido. Algumas políticas industriais não foram muito bem-sucedidas, como no setor de informática, mas outras, como no setor de aço e aviões, foram muito bem-sucedidas”, disse Rodrik, um crítico da globalização exagerada. A seguir, os principais trechos da entrevista, feita por telefone, na sexta-feira.

Valor: Em artigo recente, o sr. diz que “a economia mundial está entrando numa nova fase difícil a longo prazo – fase que será substancialmente menos favorável para o crescimento do que possivelmente qualquer outro período desde o fim da Segunda Guerra Mundial”. O mundo está condenado a uma longa era de baixo crescimento?

As democracias em geral são muito melhores em lidar com a turbulência e a incerteza”

Dani Rodrik: É muito provável que as próximas décadas tenham crescimento substancialmente menor do que nas duas ou três décadas anteriores à crise financeira. Há várias razões para isso. A primeira é que os países avançados têm uma dívida pública muito elevada, o que reduz o crescimento. A outra é que a crise atual na zona do euro também deve ter implicações negativas para as perspectivas de crescimento de longo prazo.

Valor: Por que o sr. não acredita que os países emergentes, em especial a China, tenham um papel importante para impulsionar a economia global, como em 2008 e 2009?

Rodrik: Em primeiro lugar, porque eles não são, em conjunto, tão grandes como os países ricos. Além disso, porque o crescimento dos mercados emergentes nos últimos anos dependeu de um ambiente global permissivo, com mercados abertos nos países industrializados e a disposição dos países desenvolvidos de olhar para o outro lado, enquanto países como a China promoviam amplas políticas industriais para reestruturar as suas economias. A economia global será muito menos permissiva nesse sentido, o que também vai deprimir o potencial de crescimento dos países emergentes.

Valor: O sr. está preocupado com uma onda protecionista?

Rodrik: Em parte haverá maior protecionismo, mas de modos mais sutis – não estou falando de algo como a onda que ocorreu nos anos 30. Mas potências exportadoras como a China vão ter mais dificuldades para ter grandes superávits comerciais com os países avançados do que tiveram no passado. Haverá muito menos cooperação e coordenação global, porque os países ricos vão estar mais preocupados com questões internas.

Valor: A cúpula da União Europeia no fim de junho decidiu pela recapitalização direta dos bancos, mas o rendimentos dos títulos públicos espanhóis e italianos continuaram em níveis altos. Por que a decisão não acalmou os mercados?

Rodrik: Infelizmente, os líderes políticos europeus têm ficado consistentemente atrás dos mercados. Eles sempre fazem o mínimo possível, atuando apenas para adiar os problemas, sem lidar com as questões fundamentais.

Valor: Qual é o cenário mais provável para a zona do euro? Uma ruptura ou os líderes vão conseguir manter a união monetária intacta?

Rodrik: Acho que uma dissolução parcial da zona do euro tem uma possibilidade de 50% de ocorrer nos próximos anos. Há uma boa chance de que a união monetária seja dissolvida.

Valor: Na semana passada, Barry Eichengreen [professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley] disse ao Valor que um colapso do euro seria um desastre financeiro. O sr. concorda com ele?

Rodrik: Eu concordo com ele. As consequências de curto prazo seriam devastadoras do ponto de vista econômico, e acho que haveria consequências políticas ainda mais sérias no médio prazo. É uma tragédia de primeira ordem.

Valor: Como se daria a dissolução da zona do euro?

Rodrik: Há um número de países centrais – Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia – que devem ficar numa união monetária a despeito do que ocorrer com a zona do euro. Mas o futuro de todos os outros está muito em dúvida.

Valor: A saída de algum país pode ocorrer ainda neste ano?

Rodrik: É bastante possível que a Grécia tenha que deixar a zona do euro por volta do fim do ano. Se isso ocorrer, haverá um grande esforço para assegurar que o contágio para países como Espanha e Itália seja limitado, o que pode comprar algum tempo para os outros países.

Valor: Como o sr. vê a estratégia europeia para enfrentar a crise? Há foco demais na austeridade?

Muitas indústrias exportadoras não existiriam se o Brasil não tivesse adotado políticas seletivas”

Rodrik: Acho que a estratégia é falha, primeiro porque enfatiza demais a austeridade, deixando países como Grécia e Espanha num círculo vicioso em que a austeridade reduz o crescimento, exigindo mais austeridade fiscal, e assim por diante. Em termos mais estruturais, os líderes políticos têm que decidir se vão dar um salto maior na direção de maior integração fiscal e política, assumindo um compromisso político com essa trajetória. Ou, se forem incapazes de entrar num acordo em relação a essa opção mais ambiciosa, e a única solução real for menos união econômica, eles deveriam se preparar para isso, em vez de deixar o caos ocorrer. O caminho de maior união fiscal e política seria de longe o melhor, porque evitaria os custos econômicos e políticos de uma ruptura. Infelizmente, à medida que o tempo passa, um desfecho favorável parece cada vez menos possível.

Valor: A recuperação dos EUA não parece sólida. Uma nova rodada de afrouxamento quantitativo [política monetária ultraexpansionista, de compra de títulos] ajudaria a sustentar a recuperação?

Rodrik: A política monetária pode ter algum papel, mas é imitado. O problema é que a política fiscal, acima de tudo, exerce um peso sobre a economia. Nós precisamos de uma melhor estratégia fiscal, que enfatize menos consolidação fiscal agora, especialmente no nível dos Estados, e maior consolidação fiscal no futuro.

Valor: O sr. acredita que os democratas e republicanos vão conseguir evitar o abismo fiscal em 2013 [a combinação do fim de isenção de impostos e forte corte de gastos], que pode provocar uma violenta contração fiscal?

Rodrik: É muito difícil ser otimista em relação a isso, infelizmente. Esse risco continuará a afetar a recuperação e o crescimento.

Valor: Em artigo recente, o sr. diz que, no cenário global atual, Brasil, Índia e Coreia do Sul estão numa posição mais favorável do que o resto do mundo por serem democracias, terem um crescimento puxado pela demanda doméstica, e não pelas exportações, e por terem baixos ou moderados níveis de dívida pública. Esses países vão se sair bem mesmo nesse mundo adverso?

Rodrik: Eu tenho um prognóstico pessimista para a economia global como um todo, mas alguns países estão relativamente mais bem posicionados do que outros. O Brasil obviamente será afetado de modo negativo pelos acontecimentos na Europa e nos EUA e também pela provável desaceleração da China. Mas o Brasil tem de fato alguns pontos fortes, como as finanças macroeconômicas estáveis e o regime democrático estável.

Valor: Por que ser uma democracia é uma vantagem nesse cenário global adverso?

Rodrik: As democracias em geral são muito melhores em lidar com turbulência e incerteza, porque esses são os momentos que pedem conciliação e cooperação entre diferentes grupos sociais. O que a democracia faz é oferecer os mecanismos institucionalizados para que essas barganhas ocorram. Quando se excluem essas barganhas, é verdade que se pode ter alguns ganhos de curto prazo, mas não há nenhum modo para responder ao dissenso e a oposição, o que frequentemente leva ao conflito. Esse é um risco importante que a China pode enfrentar se a taxa de crescimento ficar mais fraca. Esse é um motivo importante pelo qual eu sou menos otimista em relação às perspectivas para a China.

Valor: Mas a China não tem um potencial mercado interno de grandes proporções?

Rodrik: Sem dúvida, mas eles têm que reorientar a estratégia de crescimento em direção ao mercado doméstico. Como o crescimento dependeu bastante de grandes superávits comerciais, essa mudança produziria um ajuste muito custoso, com fechamento de fábricas e trabalhadores perdendo os seus empregos. Seria muito difícil administrar esse processo.

Valor: Depois de vários anos de otimismo em relação à economia brasileira, muitos analistas e investidores se tornaram céticos em relação ao Brasil, em geral citando a falta de reformas estruturais e perspectivas piores para as commodities. Em que medida esses dois fatores podem prejudicar o Brasil?

Rodrik: O processo de reformas estruturais é de longo prazo. Ele sempre caminha com progressos e paradas. Nós não deveríamos ficar tremendamente preocupados com isso. Em relação aos preços de commodities, eles têm produzido efeitos positivos e negativos para o Brasil. Obviamente a alta de preços estimula o crescimento no curto prazo, mas ao custo de afetar a indústria e valorizar a moeda, como consequência da doença holandesa. Por esse motivo, uma redução dos preços de commodities não é necessariamente algo ruim.

Valor: O sr. escreveu num artigo que, para os países em desenvolvimento, “o imperativo manufatureiro é nada menos do que vital”. A indústria manufatureira brasileira enfrenta uma crise de falta de competitividade, respondendo por 14,6% do PIB. Como esse problema afeta as perspectivas para o Brasil?

Rodrik: É um grande ponto de interrogação. O processo de desindustrialização é algo que está ocorrendo por todo o mundo. É uma questão de administrá-lo. Eu não acho que o Brasil possa voltar a ter uma indústria respondendo por 20% a 25% do PIB, sem mencionar os 35% a 40% do PIB de alguns países asiáticos. É uma corrida entre formar capital humano, para que se possa criar empregos de altos salários no setor de serviços, e a perda de emprego na indústria de trabalhadores relativamente pouco qualificados.

Valor: Mas esse problema na indústria não pode ofuscar as três qualidades que o sr. menciona, quando diz que o Brasil está mais bem posicionado que a maior parte dos países?

Rodrik: Comparado com muitos outros países, o Brasil tem capacidades significativas no setor manufatureiro. Não é uma questão de construir algo que não está lá. A base é muito boa. Com a taxa de câmbio correta e um conjunto correto de políticas industriais, que o Brasil está tentando adotar, o país pode ter um setor manufatureiro saudável.

Valor: O Brasil tem hoje um câmbio mais desvalorizado em relação aos últimos anos e o Banco Central está cortando os juros de modo agressivo, pelo menos para os padrões brasileiros. Em que medida isso vai ajudar o crescimento?

Rodrik: Ela tem o potencial de ajudar um pouco a indústria e o crescimento geral, mas os investidores tomam decisões para períodos que não se limitam aos próximos seis meses ou um ano. Eles fazem investimentos de longo prazo, de cinco anos, dez anos. Eles olham para o futuro e precisam de algum tipo de garantia de como estarão os juros e o câmbio não apenas hoje ou no mês que vem, mas daqui a dois anos ou daqui a cinco anos. O que é necessário em termos de administração do câmbio e de política monetária é um ajuste de médio prazo, de sinalizar uma política que levará em conta a taxa de câmbio e a competitividade muito mais do que no passado.

Valor: O BC deve dizer diretamente que tem uma meta para a taxa de câmbio, ou pelo menos que se preocupa com o nível do câmbio?

Rodrik: Eu colocaria do seguinte modo. O nível do câmbio afeta o crescimento potencial da economia e, consequentemente, na medida em que a política monetária é influenciada pelo crescimento potencial, a taxa de câmbio naturalmente entra nas decisões de política monetária. Há modos de trazer o nível do câmbio para as discussões de política monetária sem que seja necessário mudar fundamentalmente o arcabouço do regime de metas de inflação ou desistir da independência do BC.

Valor: Em março de 2011, o sr. disse, numa entrevista ao Valor, que o Brasil deveria crescer 7%, mas que, devido à combinação de juros altos e baixo investimento, 4% a 5% pareciam um sucesso. Neste mundo de baixo crescimento que o sr. antevê, que taxa o Brasil deve aspirar?

Rodrik: Acho que 5%, neste cenário global em que eu acredito, seria um grande sucesso.

Valor: O Brasil deve crescer menos de 2% neste ano. É algo cíclico ou mostra que crescer a taxas mais altas, como de 5%, é difícil?

Rodrik: Quando mencionei 5%, me refiro a uma média de médio prazo. Flutuações de um ano para o outro são naturais.

Valor: Então mesmo neste ambiente global adverso, ainda é possível para o Brasil crescer a essa taxa de 5% ao ano.

Rodrik: Acredito que, com os pontos fortes que tem, o Brasil é capaz de crescer 5%. O Brasil tem uma grande classe média, e tem potencial para crescer ainda mais.

Valor: O que o Brasil deve fazer para crescer a essa taxa?

Rodrik: A questão principal é sinalizar um ambiente em que se manterão os incentivos relativos para o investimento na indústria manufatureira e em outros setores tradables. É um ambiente de juros baixos e um câmbio relativamente competitivo. Se as políticas em curso conduzirem a essa combinação, já será uma grande ajuda.

Valor: Muitos analistas criticam o governo brasileiro por cortar impostos para setores específicos e tentar usar o BNDES para impulsionar o investimento. Como o sr. avalia essas iniciativas?

Rodrik: Acho que, em geral, vale a pena experimentar políticas industriais desse tipo. O que o Brasil está tentando fazer é um esforço que vale a pena, desde que seja pragmático, revisado à luz da evidência do seu impacto.

Valor: Escolher setores específicos não é um problema?

Rodrik: Não estou tão preocupado com políticas econômicas seletivas, que favoreçam alguns setores em vez de outros. Tenho mais preocupação em continuar com essas políticas quando elas claramente não estão funcionando. O teste real é se há capacidade de desistir dos perdedores. É isso o que quero dizer quando falo em abordagem pragmática. A experiência do Brasil no passado oferece muitas lições nesse sentido. Algumas políticas industriais não foram muito bem-sucedidas, como no setor de informática, mas outras, como no setor de aço e aviões, foram muito bem-sucedidas. Muitas indústrias exportadoras brasileiras não existiriam hoje, se o país não tivesse adotado políticas seletivas no passado.

12/07/2012 - 12:10h A desigualdade inibe o crescimento

Por Raghuram Rajan – VALOR

Para compreender como conseguir uma recuperação sustentada da Grande Recessão, precisamos entender suas causas. E identificar as causas significa partir das evidências.

Dois fatos se destacam. Primeiro, a demanda mundial de bens e serviços está muito mais fraca, tanto na Europa como nos EUA, do que nos anos de economia aquecida anteriores à recessão. Em segundo lugar, a maior parte dos ganhos econômicos nos EUA em anos recentes beneficiou os ricos, ao passo que a classe média, em termos relativos, ficou para trás. Na Europa, as preocupações em relação à desigualdade de renda doméstica, embora mais atenuadas, são agravadas pela angústia diante da desigualdade entre países: a Alemanha progride vigorosamente, enquanto os países periféricos sulinos perdem sustentação.

Explicações persuasivas sobre a crise apontam para os vínculos entre a morna demanda atual e a crescente desigualdade de renda. Economistas progressistas argumentam que nos EUA o enfraquecimento dos sindicatos, juntamente com políticas fiscais que favorecem os ricos, retardaram crescimento da renda da classe média, ao mesmo tempo em que os programas tradicionais de transferência de renda foram cortados. Com suas rendas estagnadas, as famílias foram incentivadas a se endividar, especialmente oferecendo suas moradias como garantia, para manter o consumo.

Quando uma Europa reformada começar a crescer, regiões do continente poderão experimentar desigualdades no estilo americano. Mas o crescimento poderá proporcionar recursos para enfrentar isso. Muito pior seria evitar reformas sérias.

A chave para a recuperação, portanto, é tributar os ricos, aumentar as transferências de renda e restaurar a renda dos trabalhadores ampliando o poder de negociações sindicais e elevando os salários mínimos.

Países como a Alemanha, que reformaram suas leis trabalhistas para criar maior flexibilidade para os empregadores e não elevaram os salários rapidamente parecem estar em melhor forma econômica do que países como a França e a Espanha, onde os trabalhadores foram mais protegidos.

Por isso, considere o leitor uma explicação alternativa: a partir do início dos anos 1970, as economias avançadas encontraram cada vez mais dificuldades para crescer. Países como os EUA e o Reino Unido acabaram reagindo positivamente à desregulamentação de suas economias.

Maior competição e a adoção de novas tecnologias fizeram crescer a demanda e a renda de trabalhadores altamente qualificados, talentosos e com ótima escolaridade engajados em tarefas não rotineiras, como de consultoria. Funções mais rotineiras, antes bem remuneradas, desempenhadas por trabalhadores não qualificados ou moderadamente escolarizados foram automatizadas ou terceirizada. Assim, a desigualdade de renda surgiu não predominantemente devido a políticas que favorecem os ricos, mas porque a economia liberalizada favoreceu as pessoas instrumentadas para tirar proveito dela. A resposta política míope às preocupações das pessoas deixadas para trás foi facilitar seu acesso ao crédito.

A Europa Continental não desregulamentou tanto e preferiu buscar o crescimento em maior integração econômica. Mas o preço por proteger os trabalhadores e empresas foi crescimento mais lento e maior desemprego. E, embora a desigualdade não tenha crescido tanto quanto nos EUA, as perspectivas de emprego foram terríveis para os jovens e desempregados, que foram deixados fora do sistema protegido.

O advento do euro foi, aparentemente, uma bênção, porque reduziu os custos de financiamento dos países e permitiu que criassem empregos mediante gastos financiados por endividamento. A crise acabou com esses gastos, seja por parte de governos nacionais (Grécia), de governos locais (Espanha), pelo setor de construção civil (Irlanda e Espanha) ou pelo setor financeiro (Irlanda). Infelizmente, os gastos passados pressionaram uma alta dos salários sem um aumento proporcional da produtividade, deixando os grandes gastadores endividados e não competitivos.

A importante exceção a esse padrão é a Alemanha, acostumada a baixos custos para tomar empréstimos mesmo antes da sua entrada na zona euro. Alemanha teve de enfrentar um desemprego historicamente elevado, decorrente da reunificação com uma “doente” Alemanha Oriental. Nos anos iniciais do euro, a Alemanha não teve outra opção senão reduzir as proteções aos trabalhadores, limitar os aumentos salariais e reduzir as pensões, ao tentar fazer subir o nível do emprego.

A visão alternativa sugere soluções diferentes. Os EUA deveriam se concentrar em ajudar a adaptar a educação e as competências das pessoas que estão sendo deixadas para trás nos empregos disponíveis. Isso não será fácil ou rápido, mas é melhor do que conviver com corrosivos níveis elevados de desigualdade de oportunidades, bem como com um grande segmento da população dependente de transferências de renda.

Para as regiões não competitivas da zona do euro, as reformas estruturais não podem mais ser adiadas. Mas, dadas as grandes necessidades de ajustes, não é politicamente viável fazer tudo, inclusive um doloroso aperto fiscal, imediatamente. Menos austeridade, embora não seja uma estratégia sustentável para o crescimento, poderá aliviar o sofrimento do ajuste. Esse, em suma, é o dilema fundamental com que se defronta a zona do euro: a periferia precisa de financiamento enquanto se ajusta, ao passo que a Alemanha diz que não pode confiar que os países farão reformas depois que receberem dinheiro.

Os alemães vêm insistindo em mudanças institucionais – um controle mais centralizado da zona do euro sobre os bancos e orçamentos de governo da periferia, em troca de maior acesso ao financiamento à periferia.

A Europa poderá ficar em melhor situação com medidas paliativas. Se a confiança na Itália ou na Espanha voltar a se deteriorar, a zona do euro poderá ter que recorrer à tradicional ponte entre credibilidade fraca e baixo custo de financiamento: um programa monitorado de reformas no estilo defendido pelo Fundo Monetário Internacional.

Tais programas não podem dispensar a necessidade de determinação governamental, como demonstram as dificuldades da Grécia. E os governos odeiam a perda implícita de soberania e a humilhação. Mas governos determinados, como os do Brasil e da Índia, negociaram programas, no passado, que os colocaram no caminho de um crescimento sustentado.

Quando uma Europa reformada começar a crescer, regiões do continente poderão experimentar desigualdades no estilo americano. Mas o crescimento poderá proporcionar os recursos para enfrentar isso. Muito pior, para a Europa, seria evitar reformas sérias e entrar em declínio igualitário e bem comportado. O Japão, e não os EUA, é o exemplo a evitar.

(Tradução de Sergio Blum)

Raghuram Rajan foi economista chefe do FMI, é professor de Finanças na Booth School of Business, da University of Chicago e autor de Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy (linhas de fraturas: como falhas ocultas ainda ameaçam a economia mundial.

12/07/2012 - 08:48h Não é a Europa, é a China!

12 de julho de 2012

Alberto Tamer – O Estado de S.Paulo

O Brasil está preparado para enfrentar a crise na zona do euro, tem reservas, tem liquidez, pode reduzir os juros porque a inflação recua, tem um mercado financeiro saudável, conta ainda com o potencial do mercado interno, mas está preparado para a desaceleração da China. E aumentam os sinais de que o PIB chinês não deve passar de 7,5% este ano. Muitos analistas falam no comércio entre os dois países, com a China importando menos, mesmo assim, ainda comprando commodities, petróleo, minério de ferro, soja. Além disso, argumentam, o comércio entre os dois países – importação e exportação -, hoje de US$ 37,2 bilhões, continua vigoroso. Cresceu 7% no primeiro semestre do ano, sobre igual período de 2011. É verdade que as importações da China aumentaram 9% enquanto as exportações apenas 6%, mas o Brasil ainda acumula um superávit de US$ 5,1 bilhões no semestre.

Medo de quê? Sim, se a China continua sendo um dos maiores e mais vigorosos mercados do Brasil, onde está o problema? Aqui, um aspecto para o qual poucos atentam. A China não está importando menos do Brasil ou algo parecido, está crescendo menos e importando menos do mundo, Ou seja, dos nossos parceiros comerciais – Estados Unidos, Europa – e nem falamos do espaço que ela está roubando dos produtos brasileiros na Argentina e no mercado mundial. A China é, com os Estados Unidos, o maior importadora mundial, em torno de US$ 2 trilhões por ano; representa cerca de 16% do comércio mundial. Seus principais parceiros são Estados Unidos, União Europeia e Japão – em recessão, ou crescendo não mais que 1,5%.

E os números divulgados esta semana em Pequim mostram que a economia chinesa está crescendo menos; o FMI estima 7,5%, o governo fala em 8,0%. E um crescimento sustentado pelo setor imobiliário onde surgem nítidos sinais de superaquecimento e especulação. Uma pesquisa feita na China mostra que 1 entre 5 pessoas compraram dois imóveis. Já se viu isso nos Estados Unidos e, agora, na Espanha. Esses mesmos indicadores informam que os investimentos representam 49% do PIB, em obras do governo, sim, mas a maior parte no setor imobiliário. Desde 2010, o governo procurou desestimular as compras especulativas, aumentou em 60% a entrada para adquirir um segundo imóvel, mas dá sinais de estar recuando. O consumo interno, que representa 35% do PIB chinês, não está reagindo e a saída encontrada pelo governo é forçar o aumento das exportações, importar menos e intensificar a compra de produtos nacionais.

E é isso que os números do comércio exterior chinês confirmam. As exportações chinesas aumentaram 11,3% em junho e as importações apenas 6,3%. E isso ocorreu em todos os setores, não apenas de commodities. A China voltou a usar o câmbio. “O ritmo no crescimento do comércio na segunda economia do mundo recuou para o nível mais baixo desde a crise global de 2008. Como a demanda interna não reagiu aos estímulos ainda indefinidos do governo, pode-se esperar mais pressão sobre o mercado externo”, afirma Alister Cham, da Moody’s Analistic.

“A desaceleração das importações chinesas foi maior do que se esperava”, e se espera mais porque há nítidos sinais de que a economia chinesa não deve reagir este ano. Haverá mais protecionismo e mais pressão sobre o mercado externo. Só que será difícil encontrar mais espaço nos Estados Unidos ou Europa, que representam quase 50% das exportações chinesas. Restam os outros países. Nós.

Comércio encolhe. O que a OMC e a Unctad (Agência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento) estão prevendo é uma forte desaceleração do comércio mundial, que deve crescer menos de 3,7% depois de haver aumentado apenas 5% no ano passado e 13% em 2010.

Não é só isso. Mas os indicadores da China não mostram apenas uma retração do comércio mundial; afinal, isso poderia ser compensado pelos outros países com maior incentivo à demanda interna e aos investimentos. É muito mais. O que a China confirma é a desaceleração da economia mundial que, já se prevê, não deve crescer muito mais de 3% este ano. Não há mercado externo, não há incentivos internos nos países que representam quase 60% do PIB mundial. Um cenário inquietante e desanimador no qual o Brasil tenta, mas ainda não se ajustou. Não é a Europa, a zona do euro. É tudo. É a economia mundial que está parando.

12/07/2012 - 08:07h A política fiscal deste ano já é anticíclica

Por Ribamar Oliveira – Valor

Somente uma forte retomada da atividade econômica neste segundo semestre, junto com o uso de alguns truques fiscais, permitirá ao governo cumprir a meta de superávit primário deste ano. Os sinais disponíveis, no entanto, não permitem afirmar que a recuperação já está em curso. O temor do governo é que a desaceleração atinja, agora, o emprego e a renda das famílias, o que tornaria o cenário mais difícil.

Para enfrentar esse quadro adverso, o governo tem sacrificado a sua própria receita, com desonerações tributárias sucessivas. Apenas para citar as mais importantes, o Tesouro Nacional perderá cerca de R$ 4,7 bilhões com a redução para zero das alíquotas da Cide-combustíveis, R$ 1,2 bilhão com a diminuição do IPI sobre automóveis e comerciais leves e R$ 1,8 bilhão com a desoneração da folha de salários de alguns setores.

O governo anunciou também uma elevação de R$ 6,6 bilhões nas despesas com compras governamentais este ano, justamente para desafogar alguns setores industriais e, dessa forma, evitar que eles demitam trabalhadores. O movimento de dispensa de empregados já pode ser observado em alguns polos industriais, como mostrou o Valor na edição de ontem.

O governo reluta em admitir que o gasto é expansionista

Todas essas medidas estão sendo adotadas no momento em que despenca a receita tributária administrada pela Secretaria da Receita Federal, refletindo o desaquecimento a economia. Em relação ao que foi inicialmente projetado para este ano, a frustração da receita de janeiro a junho deste ano está próxima de R$ 20 bilhões, de acordo com fontes do governo.

O dado relevante é que a queda em relação ao previsto é disseminada, ou seja, atinge todos os tributos arrecadados pela Secretaria da Receita Federal (sem considerar a contribuição previdenciária). Não poderia ser diferente, pois a Receita Federal fez sua previsão com base em um crescimento da economia de 4,5% este ano.

O desaquecimento da economia, que ocorre desde o terceiro trimestre do ano passado, afetou fortemente a lucratividade das empresas, principalmente do setor industrial. Por isso, as frustrações mais significativas da arrecadação estão sendo registradas no Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e na Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL).

No início deste ano, a arrecadação tributária foi sustentada, principalmente, pelo crescimento da massa salarial, ou seja, do emprego e da renda das famílias, que se reflete no aumento do consumo. Mas esse crescimento da massa salarial poderá ser contido, caso as demissões de trabalhadores continuem. Menos expansão da massa salarial representará menor consumo e, por conseguinte, menor receita tributária. A maior vítima desse movimento será a arrecadação da Previdência Social, que cresceu até maio deste ano 8,6% acima da inflação, em virtude do aumento da formalização da mão de obra.

No dia 20 de julho, o governo vai divulgar o relatório de avaliação de receitas e despesas relativo ao terceiro bimestre e terá que mudar os parâmetros para suas estimativas da receita. A nova previsão para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) provavelmente ainda refletirá um desejo do governo de crescimento maior do que a realidade. Nos bastidores, a equipe econômica não acredita em expansão econômica superior a 2% em 2012.

O importante, no entanto, é saber como a atividade econômica se comportará neste segundo semestre, pois a frustração da receita no primeiro semestre já está dada. Se houver um crescimento significativo nos próximos meses, a arrecadação poderá se recuperar e, desta forma, salvar a meta fiscal. Com a ajuda de alguns truques fiscais, como a elevação das receitas de dividendos das estatais.

O mais provável é que a recuperação econômica, se ainda ocorrer este ano, será lenta. O governo alimenta a esperança de que a atividade estará em ritmo mais acelerado no último trimestre de 2012. O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, chegou a prever, em pronunciamento no mês passado, que a economia estaria ‘rodando’ a 4% no fim deste ano, em decorrência dos estímulos monetários e fiscais já dados.

Se a retomada da economia for lenta, haverá nova frustração das receitas em relação à estimativa oficial e a meta fiscal estará comprometida, pois o governo certamente não reduzirá suas despesas. O debate sobre o cumprimento da meta, no entanto, tornou-se irrelevante, pois todas as medidas fiscais adotadas mostram o desenho de uma política anticíclica. O curioso da situação é o incômodo sentido pelo governo em assumir o caráter anticíclico da política que executa.

O governo agarra-se à ideia de que o seu compromisso de obter a meta de superávit primário deste ano abre espaço para que o Banco Central reduza a Selic, a taxa básica de juros da economia. Mas está claro para a maioria dos analistas que o BC reduz a Selic porque a economia está crescendo abaixo de seu potencial e a inflação está sob controle, e não porque o superávit primário será obtido.

Quem se der ao trabalho de olhar o resultado do Tesouro Nacional nos primeiros cinco meses deste ano, poderá observar com clareza que as despesas estão crescendo 5% acima do PIB. Ou seja, a política fiscal deste ano é claramente expansionista. A única despesa que está sendo contida pelo governo é com o pagamento dos salários dos funcionários públicos.

Nesse ritmo de crescimento das despesas, o superávit primário só será alcançado se a arrecadação aumentar também em ritmo acelerado, o que, este ano, provavelmente não acontecerá. Para obter o superávit primário, o governo poderá até mesmo apelar para receitas extraordinárias e aumento dos dividendos, mas, como todos já aprenderam, esses truques não têm qualquer efeito sobre a demanda agregada e, por isso, são pouco relevantes para ajudar o Banco Central a reduzir os juros.

O importante é que o aumento das despesas públicas decorra dos investimentos em infraestrutura, o que, infelizmente, o governo não consegue fazer.

Ribamar Oliveira é repórter especial e escreve às quintas-feiras

E-mail: ribamar.oliveira@valor.com.br

10/07/2012 - 10:09h OCDE prevê mais freada, exceto para o Brasil

Por Paul Hannon | Dow Jones Newswires – VALOR

A maioria das principais economias deverá desacelerar nos próximos meses. Apenas o Brasil deverá registrar uma aceleração, segundo os indicadores antecedentes compostos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Os indicadores, que se mostraram confiáveis no passado, representam um golpe a qualquer esperança que ainda havia entre as autoridades do mundo inteiro de uma rápida saída de um período de atividade anêmica. Eles aumentam também a probabilidade de os bancos centrais adotarem novas medidas destinadas a respaldar o crescimento.

O instituto de análise e pesquisa sediado em Paris disse ontem que seu indicador antecedente do nível de atividade econômica dos 34 países desenvolvidos que o compõem caiu para 100,3 pontos em maio, em relação aos 100,4 pontos de abril. Os números, segundo a OCDE, apontam para um “crescimento declinante”.

Seus indicadores antecedentes das economias em desenvolvimento foram ainda mais pessimistas, ao sinalizar “desacelerações” – ou um crescimento inferior à taxa tendencial de longo prazo – para China, Índia e Rússia.

“Os indicadores antecedentes compostos apontam para uma diminuição da atividade econômica na maioria das principais economias da OCDE e para uma desaceleração mais marcante na maioria das principais economias não filiadas à OCDE”, afirmou a organização.

Entre os países desenvolvidos, o principal foco de fragilidade continua sendo a zona do euro, para a qual o indicador antecedente aponta para a persistência da desaceleração. No entanto, as perspectivas das principais economias em desenvolvimento também se enfraqueceram significativamente nos últimos meses.

O indicador antecedente para a China caiu por todos os meses deste ano e voltou a diminuir em maio, para 99,2 pontos, a partir dos 99,4 pontos de abril. Os indicadores antecedentes de Índia e Rússia também estão em persistente trajetória descendente.

Em mais um sinal de que a segunda maior economia mundial está desacelerando, os dados divulgados ontem mostraram que a taxa anual de inflação da China caiu em junho para seu nível mais baixo de quase dois anos e meio.

Os indicadores antecedentes da OCDE são concebidos para fornecer antecipadamente indícios de pontos de inflexão entre a expansão e a desaceleração do nível de atividade econômica. Eles têm como base uma ampla variedade de séries de dados que têm um histórico de indicar modificações do nível de atividade econômica.

A principal exceção à tendência declinante geral foi o Brasil, que teve seu indicador antecedente elevado de 99,0 pontos de abril para 99,2 pontos em maio, o que, segundo a OCDE, é sinal de que o crescimento do país vai se acelerar.

09/07/2012 - 09:46h ‘Reação do governo evitou a recessão’


Ele diz que é preciso olhar o lado positivo: ‘economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer’

09 de julho de 2012

IURI DANTAS / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Principal formulador do Plano Brasil Maior, a política industrial do governo, o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Mauro Borges Lemos, avalia que o País “provavelmente estaria à beira da recessão”, não fossem os pacotes de estímulo ao consumo. Ele aposta em crescimento “pequeno” da indústria neste ano, apesar da queda da produção industrial nos primeiros seis meses de 2012.

Amigo de longa data de Dilma e do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, a quem é subordinado, o economista afirma que “o governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo”. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu ao Estado:

Por que a indústria está patinando?

Porque estamos no meio de uma crise internacional de grandes proporções. A forma mais visível de mensurar isso é a grande agressividade das importações. Há excedente de bens manufaturados no mundo e a estratégia, em geral, é desová-los em mercados que ainda estão em crescimento.

O dólar a R$ 2 demorou?

O dólar a R$ 2 é insuficiente para impedir a desova.

O endividamento das famílias e a cautela dos bancos em emprestar limitam o impacto das medidas de estímulo ao consumo anunciadas pelo governo?

O maior economista do século 20, o John Maynard Keynes, denominou a economia capitalista de uma economia monetária, regida por relações mediadas pelo dinheiro, pela moeda. Hoje, no Brasil, como somos uma economia monetária em pleno funcionamento, é absolutamente normal que, frente a um quadro totalmente adverso, você aumente o que Keynes chamava de preferência pela liquidez. Nestes momentos, você tem contração do consumo das famílias e dos empresários, que é o investimento. Eles tendem a reagir com uma contração relativa perante grande incerteza.

Medo de a crise piorar?

Claro que há uma aversão à incerteza. Não é aversão ao risco, é mais do que isso. É uma aversão a um cenário econômico futuro que não conhecemos. Obviamente o governo está tentando, com todos os instrumentos à sua disposição, mitigar isso e eventualmente retomar o crescimento no segundo semestre. O governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo, que é a questão fundamental.

A presidente Dilma apelou ao espírito animal dos empresários, mas o investimento não deslanchou. Por que não deu certo?

Primeiro, eu diria que está dando certo. Vamos ter um crescimento positivo neste ano. Se pegar o analista mais pessimista, ele não projeta recessão. A economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer. Que seja 2%, 2,5% ou 3%, não interessa.

O governo deixou de arrecadar R$ 100 bilhões da indústria, mas a tributação continua alta. O que falta para a indústria reagir?

O problema central não é, em si, da desoneração tributária, mas fatores estruturais e heranças regulatórias e tributárias, que fazem com que capital e trabalho e os insumos básicos da economia estejam relativamente caros. A questão é como caminhar na agenda de redução destes fatores e insumos. Quando você inicia uma trajetória de política econômica com redução da taxa real de juros, está reduzindo o custo do crédito, do dinheiro. Quando desonera a folha de pagamentos de setores intensivos de trabalho está reduzindo custos que, por razões históricas, têm uma tributação muito grande. A grande estratégia do governo é um programa de redução desses custos no longo prazo. Há um conjunto de medidas que vão além de pura desoneração para aumentar o consumo, como vem sendo propalado.

Por exemplo?

Os regimes especiais de tributação. O esforço pela redução do custo da energia. Essa é uma agenda que tem impacto nos custos da indústria muito grande. Se desonerar o custo da energia, ou reduzi-lo através de mecanismos regulatórios, está aumentando a competitividade da indústria. Ao contrário da chamada agenda do puxadinho, é uma agenda de longo prazo.

A produção industrial cai há nove meses, cadê os resultados? Vamos fazer um raciocínio contra-factual: se o governo não estivesse tomando nenhuma medida, como estaria a economia brasileira hoje? Possivelmente, já estaria à beira da recessão. A reação do governo está contribuindo decisivamente para não entrarmos em recessão

Economistas defendem reformas estruturais. O País consegue superar a crise sem isso?

O Brasil vai continuar fazendo reformas e já fez muitas. Não vamos parar o País, fazer reformas durante um determinado número de anos e depois voltar a funcionar. Nessas reformas, você troca o pneu furado com a bicicleta andando. Estamos num processo permanente. Por exemplo: criar um sistema privado de financiamento do longo prazo, do investimento, é um grande desafio hoje. Temos condições de implementar essa reforma e isso está no radar do Banco Central e da Fazenda. Outro exemplo é a mudança do sistema previdenciário público, que está em plena implantação e é um dos projetos mais importantes da Presidência da República.

A indústria encerra o ano com crescimento? De quanto?

Estamos torcendo fortemente para um crescimento. Vai ser um número positivo, mas pequeno.

04/07/2012 - 08:51h BC pode intervir no câmbio para ajudar a indústria

Diretor de política monetária diz que dólar abaixo de R$ 2 pode não ser bom para o setor
04 de julho de 2012

FERNANDO NAKAGAWA / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

O dólar abaixo de R$ 2 não agrada a equipe econômica e o Banco Central pode voltar a agir. O recado foi dado ontem pelo diretor de política monetária da instituição, Aldo Luiz Mendes. “Minha percepção é que o dólar abaixo desse nível de R$ 2 pode não ser bom para a indústria”, disse no fim da manhã.

O aviso mudou os ventos do mercado e a moeda, que recuava, passou a subir, voltou ao nível considerado adequado e terminou a R$ 2,0150, maior valor do dia, em alta de 1,31%.

Em entrevista ao Estado, Mendes deixou clara a insatisfação e a preocupação do governo com o tema. Mais que isso: mostrou que o BC está alinhado com o restante da equipe econômica no esforço de manter o dólar em um patamar favorável às empresas brasileiras.

“O desempenho industrial mais fraco até aumenta a possibilidade de o governo querer um dólar mais alto que a cotação de hoje (ontem)”, disse o diretor do Banco Central.

Minutos antes da entrevista, o dólar chegou a ser trocado de mãos por R$ 1,9770. O governo entende que o dólar mais alto é importante para os exportadores, já que torna produtos e serviços brasileiros mais competitivos.

Liquidez. Oficialmente, o BC não tem um objetivo para o preço da moeda e a instituição só intervém para resolver problemas de liquidez. “Não temos uma meta de câmbio, atuamos no ajuste da liquidez”, argumentou o diretor. Apesar do discurso, Aldo avisou que o banco pode voltar a comprar dólares, o que evidentemente aumentaria o preço da moeda. “O BC tem atuado numa ponta (a vendedora) e pode atuar na outra (como comprador). Sempre estamos de olho”, afirmou o diretor.

A chance de voltar às compras tem até endereço: o mercado futuro. “A dinâmica atual tem sido concentrada no segmento futuro. Se a gente tivesse de voltar a intervir, seria no futuro”, disse. Essa simples ameaça foi suficiente para a moeda, em poucos minutos, retornar ao patamar indicado.

O mesmo BC que agora ameaça comprar dólares teve, na semana passada, forte atuação como vendedor da moeda americana. Em três dias seguidos – entre quarta-feira e sexta-feira -, realizou leilões no mercado futuro que corresponderam à venda de cerca de US$ 9 bilhões.

Crise externa. Mesmo com tais intervenções, o diretor do Banco Central afirma que a recente queda do dólar para abaixo de R$ 2 não é responsabilidade do banco. Para ele, a queda é resultado de uma percepção positiva dos investidores sobre a crise externa. “Os anúncios após o encontro da cúpula europeia na semana passada têm consistência um pouco maior do que havia sido divulgado antes. Por isso, houve o recuo do dólar”, argumenta Mendes. “Houve alívio para a tomada de risco.”

Em Bruxelas, líderes europeus acertaram diretrizes para uma ação conjunta em favor do crescimento e para enfrentar a crise da dívida de vários países da região.

A sinalização dada pelo diretor do Banco Central mostra como a autoridade monetária compartilha ideias com o Ministério da Fazenda e o Palácio do Planalto. No esforço de tentar manter a indústria e o restante da economia aquecida, inúmeras medidas têm sido tomadas nas áreas tributária, fiscal e de crédito.

Sob a responsabilidade do Banco Central, o juro cai desde agosto do ano passado e houve liberação de recursos dos bancos – o compulsório – para crédito de veículos e rural.

02/07/2012 - 11:55h Que país é hoje do Primeiro Mundo?


Organismos econômicos já questionam a fronteira entre nações ricas e emergentes

02 de julho de 2012

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA – O Estado de S.Paulo

Numa recente edição dedicada à alimentação, a revista The Economist foi clara: “Quando o mundo era simples, rico era gordo e pobre era magro”. Hoje, a complexidade da cadeia alimentar transformou essa fronteira, com milhares de países ditos pobres vivendo o problema da obesidade, enquanto é justamente nos países ricos que a alimentação saudável ganha força.

Mas não é apenas no mundo da alimentação que as fronteiras entre países ricos e países em desenvolvimento começam a ser questionadas. Um levantamento feito pela reportagem do Estado nos principais organismos econômicos revela uma verdadeira transformação na posição de países emergentes no mapa econômico nos últimos 20 anos, obrigando multinacionais, bancos e governos a redefinirem suas prioridades, além do equilíbrio de poder.

Nem a ONU, nem entidades assistenciais deixam de alertar: o crescimento das economias emergentes ainda não significa o fim da miséria. Ao contrário. Em muitos desses países, a diferença entre a camada mais rica e a mais pobre nunca foi tão pronunciada. Em resumo: ser a sétima economia do mundo ajuda. Mas nem em uma miragem resolve décadas de profundos problemas sociais, desigualdades e ineficiências estruturais.

A Espanha pode ter 24% de desemprego e ser hoje um país que pede resgate. Mas conta com educação e saúde públicas para todos, mesmo que muitos já se perguntem quanto tempo isso vai durar. Pelo Índice de Desenvolvimento Humano- indicador apontado como sendo a real medida de bem-estar das sociedades -, as economias ditas “emergentes” nem sequer aparecem perto dos líderes, lugares reservados há anos para países nórdicos e demais europeus.

Um estudo exclusivo da consultoria Roland Berger, obtido com exclusividade pelo Estado, aponta que economias desenvolvidas gastam um terço do Produto Interno Bruto (PIB) em sistemas sociais. Na China, esse segmento recebe apenas 6% do PIB, enquanto na Rússia, 12%.

Ainda assim, os sinais de uma transição para um novo mapa-múndi da economia não podem ser ignorados. Por vários indicadores, os emergentes desbancaram nos últimos anos tradicionais potências, causando mal-estar em poderes consolidados e obrigando um repensar de certas fronteiras.

Hoje, Europa, Japão e Estados Unidos representam o menor peso na economia mundial nos últimos 50 anos, segundo dados da OCDE. O pico, no caso americano, foi em 1960. O mundo ainda não havia totalmente superado as sequelas da Segunda Guerra Mundial e a economia dos Estados Unidos representava 38,6% do PIB do planeta. Em 2011, essa taxa cairia para 21%, seu ponto mais baixo desde então.

No caso europeu, a queda foi de um pico de 34% em 1980 para atuais 25%. A Alemanha, que em 1969 representava 8,9% da economia mundial, hoje tem uma parcela de apenas 5,8%. A economia japonesa representava 17% do PIB mundial em 1994. Em 2011, era apenas 8%. Em 2010 e 2011, França, Reino Unido e Itália registraram a menor fatia no PIB mundial em sua história contemporânea.

Alguns países emergentes seguiram uma tendência contrária. Em 1987, a China representava apenas 1,6% da economia mundial. Hoje, tem quase 10% e o segundo PIB do planeta. Já a Coreia do Sul, que tinha apenas 0,1% do PIB mundial em 1965, hoje representa 2%. Em 1969, a economia brasileira tinha 1,5% do PIB mundial. Hoje, se aproxima de 3%, ameaçando desbancar a França na sexta posição.

“75% do crescimento mundial nos últimos cinco anos ocorreu graças aos países emergentes”, confirmou Jaime Caruana, diretor-gerente do Banco de Compensações Internacionais, o BC dos BCs.

Indicadores. O peso na economia mundial não seria o único indicador da necessidade de redesenhar o mapa-múndi. Segundo dados da Organização Mundial do Comércio, metade do fluxo de exportações hoje é realizado por países emergentes. A China, que em 1990 não estava nem entre os dez maiores exportadores, é hoje o maior vendedor do planeta e dona da maior produção industrial.

Na lista dos dez primeiros produtores industriais, quatro são emergentes. Em termos de reservas externas, países hoje como o Brasil acumulam mais reservas que toda a zona do euro. Já a China tem um terço das reservas mundiais -US$ 3,1 trilhões.

17/06/2012 - 10:07h François Hollande propose à l’UE de relancer la croissance moyennant 120 milliards d’euros

Le Monde.fr avec AFP

17.06.2012 à 10h55 • Mis à jour le 17.06.2012 à 10h55

François Hollande, le 12 juin à Paris.

François Hollande a proposé cette semaine aux chefs d’Etat européens, en amont du sommet des 28 et 29 juin à Bruxelles, une série de mesures de croissance “à effet immédiat” nécessitant 120 milliards d’euros, affirme le Journal du dimanche dans son édition du 17 juin.

L’hebdomadaire assure s’être procuré une copie d’un document de 11 pages transmis selon lui jeudi par le président français à plusieurs dirigeants européens, dont la chancelière allemande Angela Merkel. Dans ce document, intitulé “Pacte pour la croissance en Europe, il livrerait ses propositions pour relancer l’économie de l’UE via notamment de grands chantiers (réseaux intelligents, énergies renouvelables, numérique etc.).

Lire aussi : Discussions “fructueuses” entre Hollande et Merkel sur la Grèce

“Des mesures de croissance à effet rapide, à hauteur de 120 milliards d’euros, devraient être décidées par le Conseil européen dès juin”, écrit M. Hollande, selon le JDD.

“Elles devraient être développées avant la fin de l’année avec en particulier la création d’une taxe sur les transactions financières. Enfin, elles devraient être accompagnées de mesures pour l’emploi, en premier lieu en faveur des jeunes”, ajoute-t-il.

TROIS SOURCES DE FINANCEMENT

Les 120 milliards proviendraient de trois sources. D’abord des fonds européens structurels de l’UE, pour 55 milliards, dont une part “significative” serait débloquée d’ici la fin de l’année. Ensuite de la Banque européenne d’investissement, qui dès lors qu’elle serait plus richement dotée par les pays membres, pourrait emprunter sur les marchés jusqu’à 60 milliards, “somme qu’elle prêterait à son tour pour des projets d’infrastructures”, poursuit le journal.

Enfin 4,5 milliards d’euros seraient dégagés via des “project bonds”, des emprunts lancés en commun par plusieurs pays européens pour financer de grands projets d’infrastructures continentaux. Un outil de croissance défendu par M. Hollande durant la campagne présidentielle.

Selon le JDD, le chef de l’Etat, en ce qui concerne ce type d’emprunts, “propose d’aller, à échéance plus lointaine, jusqu’à 10 milliards d’euros”.

Toujours selon le journal, ce document ne fixe pas d’objectifs en termes d’impact des mesures en faveur de la croissance européenne et de l’emploi.

Outre les nouvelles technologies, le Président de la République veut aussi “à long terme (…) accélérer et harmoniser les investissements dans les nanotechnologies, les biotechnologies, les nouveaux matériaux, etc.”.

MOINS DE 1 % DU PIB DE L’UNION EUROPÉENNE

Les transports et les réseaux d’eau sont également évoqués de même que l’amélioration de l’efficacité énergétique des bâtiments (isolation, panneaux solaires, constructions plus écologiques, etc.) Si ces 120 milliards d’euros ne représentent que moins de 1 % du PIB de l’Union européenne, le chef de l’Etat “compte sur un effet d’entraînement à tous les secteurs de l’économie”, écrit le JDD.

Début juin, Berlin, en désaccord avec Paris sur les moyens de relance de l’économie européenne, avait proposé ses propres recettes de croissance pour l’Europe, dans un document de huit pages misant surtout sur les potentiels du marché commun et sur des réformes structurelles, comme l’accélération des privatisations et une flexibilité accrue du marché du travail, mais refusant une relance à crédit.

12/06/2012 - 09:24h A esfinge brasileira

Por Monica Baumgarten de Bolle e Fernanda Guardado – VALOR

“Decifra-me ou devoro-te”. Como impulsionar o consumo? Como destravar o investimento? Eis os grandes enigmas atuais da economia brasileira. Desatar o nó górdio do investimento privado em meio à crise financeira internacional e à imprevisibilidade europeia é um desafio quase insuplantável no momento. Resta, portanto, ele, o consumo. Fonte de acalorados debates, teses incompletas e frases de efeito. “O modelo de consumo se esgotou”. Alguém ainda aguenta ouvir isso?

O debate atual em torno desse suposto esgotamento do “modelo de consumo” para o crescimento brasileiro tem misturado alhos com bugalhos no afã de desqualificar a atual estratégia adotada pelo governo para incrementar o ritmo de crescimento econômico. Embaralham os estímulos cíclicos de demanda – o que qualquer governo faz quando vê a atividade ameaçada por choques externos – com políticas de médio prazo de expansão da capacidade produtiva, para chegar à apressada conclusão de que “não há mais espaço” para a expansão do consumo e do endividamento das famílias. É claro que só uma estratégia de crescimento focada nas reformas estruturais e nas condições para o avanço do investimento privado garante a sustentabilidade da expansão da atividade e do desenvolvimento do país. Não há como discordar disso. A recomendação é tão sensata quanto qualquer conselho de avó.

Cerca de 45% da dívida das famílias tem prazo inferior a um ano, sendo que 30% do total é de menos de 6 meses

Mas isso nada tem a ver com a tentativa legítima de incentivar o consumo quando a economia ameaça escorregar por causa da crise internacional. Ou melhor, incentivar o consumo nestas condições é o mesmo que seguir o conselho avoengo de incontestável sensatez, “proteja-se das correntes de ar”.

“Decifra-me ou devoro-te”. Cadê o esgotamento? Vamos aos fatos. O crescimento brasileiro foi beneficiado, nos últimos anos, tanto pelo consumo, quanto pelo investimento. Basta olhar as Contas Nacionais. Entre 2003 e 2011, a razão investimento/Produto Interno Bruto (PIB) saiu de 15% para 20%, enquanto o consumo perdeu participação no PIB.

A expansão do consumo neste período foi acompanhada de um aumento da alavancagem do consumidor, cujo comprometimento mensal da renda disponível atingiu 22% em março de 2012, após permanecer em torno de 19% entre maio de 2009 e maio de 2011; um avanço de três pontos percentuais que foi acompanhado de muito estardalhaço. Sobretudo quando os próprios bancos costumam trabalhar com um nível máximo de comprometimento de cerca de 30%. Houve, sim, uma alta de inadimplência. Mas os dados coletados pelo Banco Central (BC) e os indicadores do Serasa já apontam uma queda destas taxas à frente.

O prazo médio das dívidas para pessoas físicas é curto. Cerca de 45% do estoque tem prazo inferior a um ano, sendo que 30% do total é de menos de seis meses. Assim, as dívidas “acabam rápido” – e em um ambiente de estímulo ao refinanciamento, isso tende a ser acelerado, como agora. As taxas estão em queda, o que reforça o estímulo ao refinanciamento e abre espaço para maior contratação de dívida e consumo, uma vez que o percentual da renda comprometida com o pagamento de juros diminui proporcionalmente; dados preliminares do BC já apontam queda entre janeiro e maio na taxa média para pessoas físicas.

Os consumidores vêm se desalavancando mais recentemente, e mostram maior conforto com seu nível de endividamento, possivelmente um reflexo da curta duração das dívidas. A Sondagem do Consumidor da FGV mostra que, ao longo de 2011, o percentual de famílias que estava se endividando recuou, e, desde então, subiu apenas ligeiramente, atingindo 17,6% da amostra – abaixo da média histórica da pesquisa, de 20,5%. No mesmo período, o percentual de famílias que estão poupando subiu sistematicamente, e tem mostrado alguma estabilidade em torno do pico da série.

A Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio aponta uma diminuição do percentual de famílias endividadas entre maio de 2011 e maio de 2012. As famílias que se consideram pouco ou não endividadas atingem 64,5% da amostra, um avanço ante o mesmo mês do ano passado. Os próprios consumidores se mostram mais dispostos a aumentar suas compras. Segundo a FGV, cerca de 19% das famílias da amostra pretendem aumentar suas compras de bens duráveis. O percentual de famílias que pretendem diminuir suas compras, por outro lado, segue em patamar historicamente baixo (28%).

O consumidor quer aumentar seus gastos, tem confiança na perspectiva de emprego, passa por um momento em que uma boa parte das dívidas contraídas até o fim de 2011 estão vencendo, e se depara com custos declinantes para a contratação de novas dívidas. O que parece faltar é uma maior oferta de crédito por parte dos bancos, o que é compreensível no momento. Entretanto, espaço para consumir mais e crescer mais há, sim, ainda que não no ritmo observado ao longo de 2010. Desde que haja crédito. A estratégia pode não ser a melhor nem a mais segura, afinal estimula a alavancagem do consumidor. Mas decerto deve ser potente no curto prazo para estimular o crescimento.

Enigma decifrado.

Monica Baumgarten de Bolle é economista, professora da PUC-RJ e diretora do Instituto de Estudos de Política Econômica/Casa das Garças (IEPE/CdG).

Fernanda Guardado é economista da Galanto Consultoria.

06/06/2012 - 08:44h Investimento deve puxar economia, prevê Kupfer

David Kupfer:
“Essas novas condições macroeconômicas vão surtir efeito”

Claudio Belli/Valor / Claudio Belli/Valor

Por João Villaverde | VALOR

De Brasília

O Brasil está na iminência de uma virada na economia, que passará a ser guiada pelos investimentos privados e públicos, e não mais pelo consumo das famílias, avalia o economista David Kupfer, assessor econômico da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e um dos principais especialistas em indústria de transformação no país.

De acordo com Kupfer, as políticas de dinamização da demanda continuam dando certo, mas estão, cada vez mais, impulsionando o consumo de bens importados. Já é consistente no governo, entende Kupfer, a preocupação com o lado da oferta, que precisa ser mais dinâmica e inovadora, de forma a atender à demanda.

Lentos neste primeiro semestre de 2012, os investimentos tendem a ganhar fôlego com a “perenização” de um novo quadro macroeconômico no país, entende Kupfer. Para o economista, doutor pela UFRJ, o governo Dilma Rousseff desenvolveu um novo “mix” de política econômica neste ano, com a consistente e generalizada redução dos juros na economia, processo que é acompanhado de uma taxa de câmbio mais desvalorizada, com o dólar oscilando entre R$ 1,95 e R$ 2,10.

“Isso, por si só, vai desatar novos investimentos, mas é preciso um pouco de calma, porque o empresário precisa ter a garantia de que essas condições macroeconômicas vieram para ficar”, diz Kupfer. “Essas novas condições macroeconômicas vão surtir efeito, não há nenhuma dúvida”, afirma.

Kupfer esteve em Brasília, acompanhando o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, que participou de duas grandes reuniões de ministros da área econômica e de infraestrutura com Dilma, no Palácio do Planalto, na segunda-feira.

Diferentemente de 2011, ano em que o governo passou seis meses tentando esfriar a economia, e os últimos seis meses tentando aquecer, mas com esforços dirigidos à política monetária, o ano de 2012 registra uma condução mais homogênea e objetiva da política econômica.

A missão do governo, a partir de agora, passa a ser o “combate pelo destravamento do investimento, público e privado, de forma a reduzir o hiato tecnológico da indústria brasileira”, avalia Kupfer. Segundo ele, o investimento privado no Brasil está, de maneira geral, “postergado ou represado”, e ao governo cabe retirar as amarras para que o investimento represado ocorra logo.

Em segmentos ligados às commodities, em especial as metálicas, onde as exportações são centrais para o modelo de negócios, os investimentos têm sido adiados, uma vez que a demanda internacional mudou de mão entre 2011 e 2012. Já a indústria de transformação está, de modo geral, com investimentos represados – isto é, adiados, mas não cancelados.

“O governo já discute iniciativas que reduzam o custo de produção no país, como a diminuição de preço da energia elétrica”, diz Kupfer. A estrutura dos contratos de energia não permite que uma eventual redução de preços seja imediatamente repassada ao mercado neste ano, apenas a partir de 2013.

“Mas uma medida tomada agora daria um sinal poderoso ao empresário, que ganharia perspectivas excelentes de rentabilidade futura, e é isso o que motiva o investimento”, afirma.

Adicionalmente, os investimentos do próprio governo em infraestrutura, na área de transportes especialmente, precisam ser acelerados, diz Kupfer. “O investimento em infraestrutura cumpre papel duplo no Brasil: ao mesmo tempo que serve de demanda, já que exige insumos e contratações de pessoal das empresas responsáveis pelas obras, o investimento em infraestrutura também rende um impulso enorme à oferta na economia, já que amplia a produtividade da iniciativa privada”, afirma o economista.

23/05/2012 - 09:53h Crédito começa a fluir

Por Cristiano Romero – VALOR

A maior preocupação do governo neste momento é que, mesmo com a queda das taxas de juros e as medidas de estímulo adotadas, consumidores e empresas não se animem a tomar crédito. Sem crédito, a economia não anda. Embora a demanda, impulsionada pelo forte aumento do salário mínimo em janeiro, siga aquecida, a produção industrial patina. A boa notícia é que há sinais de que o crédito, depois das seguidas rodadas de redução dos spreads, começa a fluir.

Aparentemente, tanto pessoas físicas quanto empresas estão reagindo positivamente à queda dos juros. O vice-presidente de Negócio de Varejo do Banco do Brasil (BB), Alexandre Abreu, revela que, nas linhas com maior impacto sobre a economia, as concessões têm crescido de forma acelerada no último mês e meio.

As operações com pessoas físicas mostram isso claramente. Na linha de crédito direto ao consumidor (CDC), a taxa média de juros cobrada pelo BB caiu de 2,41% para 2,19% ao mês entre março e maio. Nessa modalidade, o banco emprestou, em março, R$ 190,4 milhões por dia útil. Em abril, a média diária saltou para R$ 294,3 milhões e, em maio (até o dia 15), para R$ 322,4 milhões. O incremento por dia útil foi de 70%.

No BB, liberações têm crescido em áreas relevantes para o PIB

No caso de financiamento de veículos, segmento que, por causa do aumento inadimplência, tornou os bancos mais conservadores na concessão de novos empréstimos, também começa a haver um certo desafogo, algo que pode ser intensificado graças às últimas medidas adotadas pelo governo – ontem, em resposta à liberação de depósitos compulsórios para financiamento de carros novos e à diminuição do Imposto sobre Operações Financeiras incidente sobre crédito, o BB reduziu a taxa média de 1,29% para 1,09% ao mês.

Antes dos novos estímulos, a concessão de empréstimos já vinha melhorando, conforme atestam dados oficiais que o Banco do Brasil divulgará nos próximos dias. De qualquer forma, em março o BB liberou, em média, apenas R$ 11,1 milhões por dia útil para compra de automóveis. Em maio, a média diária mais do que triplicou – foi para R$ 34,1 milhões; agora, com a liberação de R$ 2 bilhões de seu compulsório, o banco acredita que a média diária crescerá para R$ 45 milhões até o fim de junho.

É possível que, nos próximos dias e semanas, haja um incremento nesses valores. Além da redução do custo financeiro, os carros ficaram mais baratos graças à decisão do governo de reduzir as alíquotas do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Ademais, o BB conta com o fato de ter uma inadimplência média, nesse segmento, inferior à do mercado – 2,6%, face a 5,9%.

No crediário, o BB também tem registrado avanços. A média por dia útil cresceu de R$ 396,1 mil em março para R$ 2,3 milhões em maio (sempre até o dia 15), um pulo de 481,64%. O desembolso total ainda é acanhado se comparado ao de outras linhas – R$ 8,7 milhões em março e R$ 23 milhões nos primeiros 15 dias de maio -, mas a tendência, graças à forte queda dos juros nessa modalidade – de uma taxa média de 3,42% para 1,94% ao mês -, é positiva.

No crédito consignado para aposentados do INSS, os desembolsos diários cresceram quase 60% entre março e maio. A taxa média de juros recuou de 2,02% para 1,79% ao mês no período, e os desembolsos por dia útil avançaram de R$ 7,7 milhões para R$ 12,2 milhões.

Alexandre Abreu explica que, com o “BomPraTodos”, programa com que o banco pretende conquistar clientes dentro da realidade de spreads mais baixos, o BB quer mostrar que é mais vantajoso tomar um CDC (juro médio de 2,23% ao mês) do que usar o cheque especial (8,01%) ou o crédito rotativo do cartão de crédito (13% ao mês). De fato, o cheque especial é uma aberração dos tempos de inflação crônica no Brasil. Como o custo de vida corroía diariamente o poder de compra dos salários, o cheque especial funcionava como um crédito automático ao qual o assalariado recorria até o dia de recebimento do salário.

Com o “BomPraTodos, e os bancos privados estão adotando modelo parecido, o BB quer convencer os atuais e novos clientes a migrarem para produtos mais baratos. Três milhões, dos 33 milhões de correntistas do BB, usam cheque especial regularmente. Como a inadimplência nessa modalidade é altíssima – 15% na média do mercado, 11% no Banco do Brasil -, o juro é o mais alto, perdendo apenas para o do cartão de crédito.

Se o cliente adere ao “BomPraTodos”, toda vez que ele usa mais de 50% do limite do cheque especial, durante 60 dias, no 61º dia ele recebe uma mensagem pelo celular (SMS) informando que aquela dívida será parcelada automaticamente em 24 meses, ao custo de 3,94% ao mês (taxa máxima do CDC). É um preço salgado, mas bem inferior ao do cheque especial. A mesma regra vale para o crédito rotativo do cartão de crédito.

Abreu justifica o aumento da tarifa nesse programa, alegando o fato de o banco incorrer em novos custos – um deles, o envio de SMS. Além disso, argumenta, o cliente passa a ter uma espécie de assessoria financeira. Nada se compara, no entanto, diz ele, aos custos incorridos antes por causa de juros bem mais altos. O dirigente do BB conta que, com o tempo, a tendência é que o cheque especial desapareça ou se torne menos relevante – o banco estima que, em um ano, a carteira nessa modalidade diminuirá de R$ 3,2 bilhões para R$ 1,6 bilhão.

Embora o cheque especial e o cartão de crédito sejam mecanismos “populares” de acesso a crédito, eles têm relevância econômica menor que a de outras formas de crédito. Da carteira de crédito de R$ 120 bilhões de pessoa física do BB, cheque especial responde por apenas R$ 3,2 bilhões (2,6%) e crédito rotativo de cartão de crédito, por R$ 2,5 bilhões (2%). É muito menos que crédito consignado (37,5% do total), financiamento de automóvel (16,6%) e CDC (20,8%).

“Em apenas um mês, a migração de clientes para o ‘BomPraTodos’ chegou a 200 mil. É um número expressivo”, comemora Abreu, que não teme o impacto dos juros mais baixos sobre a saúde financeira do BB. Ele lembra que a iniciativa de reduzir juros é generalizada e assegura que o BB está fazendo isso de forma responsável. “O grande medo do banqueiro é baixar os juros e na ponta o cliente não pegar o recurso. Nossos clientes estão pegando empréstimos.”

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail – cristiano.romero@valor.com.br

23/05/2012 - 09:32h Capacidade de crescer por demanda é mesmo menor?

23 de maio de 2012

Análise: Mônica Baumgarten de Bolle – SÓCIA DA GALANTO CONSULTORIA – O Estado de S.Paulo

Nossa “ciência lúgubre” vive de profecias pessimistas e, infelizmente, muitas vezes de consensos pré-formatados. O bordão da vez é que a capacidade de o Brasil crescer pelo lado da demanda se esgotou, que o modelo de crescer pela via da expansão do crédito e do consumo já não consegue gerar os mesmos resultados de outrora. A razão, dizem, é que as famílias já estão muito endividadas e que sua renda está muito comprometida. Além do mais, prosseguem, não se compram automóveis, geladeiras, fogões a toda hora. Há dois problemas fundamentais com esse raciocínio. Primeiramente, o adjetivo “muito” para qualificar o endividamento das famílias brasileiras e o comprometimento da renda. Em segundo lugar, o fato de ser estático, enquanto a economia é um sistema dinâmico.

Não que a premissa em que se baseia, isto é, de que o modelo de crescimento movido apenas pelo consumo num país com o estágio de desenvolvimento do nosso é insustentável, seja irrealista. O destaque fica com o “estágio de desenvolvimento” – afinal, um modelo baseado no consumo é exatamente o que a China vêm tentando fazer. Ninguém discorda de que o Brasil precisa investir mais, caminhar na contramão da China, consumindo menos e aumentando a capacidade produtiva para sustentar taxas de crescimento mais elevadas no médio prazo. Mas isso é uma posição normativa, uma afirmação sobre como as coisas deveriam ser.

Já o argumento sobre o suposto esgotamento da demanda é de natureza positiva, isto é, pressupõe a capacidade de observar e mensurar o que se afirma. Obviamente, é possível medir tanto o endividamento das famílias quanto o comprometimento da renda. Em termos do PIB, a dívida do consumidor, hoje, equivale a pouco mais de 20%. Já o comprometimento da renda “saltou”, em 2011, de uns 20% para 22%. Esses são mesmo limites ao crescimento pelo lado do consumo?

Segundo um estudo recente do BIS, baseado numa amostra de 18 países da OCDE, a dívida das famílias só passa a ser um gargalo para o crescimento quando supera 85% do PIB. Quando atinge esse patamar, parte considerável da renda passa a ser destinada ao pagamento das dívidas, reduzindo o consumo. Por essa métrica, o Brasil está longe de engasgar com dívidas das famílias.

Quanto ao comprometimento da renda, é verdade que os níveis brasileiros são muito altos. No auge do endividamento das famílias americanas em 2007, o comprometimento da renda nos EUA alcançou 15%, nada comparável aos nossos 22%. Contudo, parte da razão para a fatia da renda que se destina às dívidas são os elevadíssimos juros brasileiros. Com a perspectiva de que caiam para patamares mais “normais”, é razoável esperar uma reversão desse indicador que tanto assusta. Adicionalmente, o prazo médio do endividamento das famílias brasileiras é muito menor do que nos países maduros. Isso significa que dívidas contraídas são amortizadas mais rápido, contribuindo para sustentar o consumo.

Nada disso significa que devamos ser complacentes com o consumo turbinado por crédito farto e barato. Mas daí a dizer que o modelo está esgotado, é preciso um salto quântico, ou um ato de fé, ou muita ingenuidade.