29/08/2012 - 08:46h As razões do otimismo do governo

Por Cristiano Romero – VALOR

Um ano depois de iniciado o atual ciclo de alívio monetário, o Banco Central (BC) mostrou que estava certo ao mudar radicalmente o rumo da política de juros. A principal alegação feita na época – o desaquecimento das principais economias do mundo e, em consequência, o surgimento de um ambiente desinflacionário – se materializou.

Hoje, o Comitê de Política Monetária (Copom) promoverá mais um corte de meio ponto percentual na taxa Selic, reduzindo-a para 7,50% ao ano, e é possível que faça pelo menos mais outro de 0,5 ponto antes de encerrar o ciclo. O BC acha que essa política, somada a outras que o governo vem adotando, já começou a produzir resultados. O clima em Brasília é de otimismo quanto às chances de a economia acelerar o crescimento nos próximos meses.

Quando o Copom surpreendeu o mercado em agosto do ano passado, cortando o juro em vez de aumentá-lo, a expectativa de crescimento anual da Europa girava em torno de 1% a 2%. Hoje, o que se espera é uma recessão em 2013. No caso dos Estados Unidos, em meados de 2011, esperava-se crescimento em torno de 3%. Agora, a realidade mostra que a expansão neste ano deve beirar os 2% ou ficar abaixo disso.

Desaquecimento mundial previsto pelo BC se materializou

Há um ano, a expectativa era que a economia mundial crescesse até 3,4% em 2012. Com o agravamento da crise mundial no segundo semestre de 2011, as perspectivas foram piorando sucessivamente e, neste momento, o que se espera é um longo período de crescimento lento, em torno de 2,2%.

O cenário desinflacionário se concretizou. A melhor indicação disso está nos indicadores de commodities. O CRB Foodstuff (que mede a variação dos preços de alimentos) estava, em julho, 8,9% abaixo do patamar de um ano atrás. O CRB Metais caiu 23,4% no mesmo período e o CRB total, 13,2%. Não é para menos. O desaquecimento da economia chinesa explica em grande medida essas quedas. A China, segundo o FMI, respondeu em 2009 por 53% das importações líquidas mundiais de soja, por 65% das compras de minério de ferro e por quase 30% de metais.

A economia brasileira, evidentemente, não escapou da maré ruim. No último ano, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 2,7% e, em 2012, deve avançar menos de 2%, muito abaixo da média anual de 4,2% verificada entre 2007 e 2011. A boa notícia é que há sinais positivos indicando uma retomada, mais lenta do que as ocorridas no passado recente, mas consistente.

É o próprio mercado quem diz, via boletim Focus, que o Brasil vai se levantar nos próximos trimestres. A esperança é que, depois de registrar baixíssimo crescimento nos primeiros seis meses do ano – 0,1% entre janeiro e março e, possivelmente, 0,3% entre abril e junho -, a indústria avance 1,5% no atual trimestre, quando comparada ao mesmo período do ano anterior, e 2,1% entre outubro e dezembro. O crescimento deve se acelerar no primeiro (3%) e segundo trimestres (4%) de 2013.

Com base no Focus, o BC espera expansão do setor de serviços de 3% em cada trimestre da segunda metade deste ano, quase o dobro da registrada no primeiro trimestre (1,6%). O ritmo seria mantido na primeira metade do ano que vem. Na agricultura, a expectativa é de forte recuperação nos próximos trimestres, depois da queda do primeiro trimestre (-8,5%) e do provável baixo desempenho no segundo (1,4%). Entre outubro e dezembro, a agricultura deve crescer 4% e acelerar nos seis meses seguintes, sempre na comparação com igual período do ano anterior.

A confiança do governo se baseia no que já vem ocorrendo em algumas áreas. A produção mensal de automóveis, por exemplo, depois de cair abaixo de 260 mil em janeiro, começou a se recuperar e, após o corte de IPI, tomou impulso. O mesmo ocorreu com caminhões. Os estoques de carros, que atingiram o pico em agosto de 2011, voltaram a crescer nos primeiros meses do ano, mas, depois da desoneração, estão declinando novamente.

O governo acredita que o ambiente é favorável à aceleração do PIB graças aos seguintes fatores: a taxa de desemprego está na mínima histórica (5,4% em maio, segundo a última medida nacional feita pelo IBGE); a criação de empregos formais diminuiu em quase 1 milhão desde fevereiro de 2011, mas segue forte (1,2 milhão nos 12 meses até junho deste ano); a massa salarial real voltou a crescer, avançando 5,1% nos 12 meses concluídos em maio (7,5%, quando comparada ao mesmo mês de 2011); a renda real também tornou a expandir-se (3,2% nos 12 meses até maio e 4,9% na comparação com maio do ano passado).

Ao contrário dos analistas que apontam a exaustão do modelo de crescimento baseado em consumo e crédito, o BC vê espaço para o país continuar crescendo por esse esquema, ajudado pelas medidas adotadas pelo governo para expandir a infraestrutura e aumentar a competitividade. O BC aposta no efeito “juros menores” – entre setembro de 2011 e junho deste ano, o juro médio cobrado de pessoas físicas caiu de 45,7% para 37,1% ao ano; e o das empresas recuou de 39% para 31,3% ao ano.

Embora a queda da Selic tenha sido expressiva – 4,5 pontos no período -, a redução dos juros bancários foi modesta. Ainda assim, as autoridades acreditam que o crédito, mesmo crescendo a uma velocidade menor, cumprirá um papel importante na retomada. Entre 2005 e 2008, cresceu ao ritmo de 25,2% ao ano; entre 2009 e 2011, subiu 18,3% e, nos 12 meses até maio, manteve essa velocidade (18,1%).

Técnicos do governo lembram que o grau de endividamento dos brasileiros, como proporção do PIB, é baixo quando comparado ao de outros países – 20,9% do PIB, face a 27,9% no Chile, 83,5% nos Estados Unidos e 207,4% do PIB no Reino Unido. O problema é que o peso dos juros na renda disponível dos brasileiros é bem maior – 22,1%, diante de 10,8% nos EUA, 9,9% no Chile e 2,2% no México. Em compensação, a inadimplência no Brasil não está entre as maiores do mundo.

Nem tudo é alegria no primeiro aniversário do “novo BC”. A inflação, embora tenha recuado de forma significativa, ainda é alta (5,2% nos 12 meses até julho); o BC segue sem conseguir coordenar satisfatoriamente as expectativas inflacionárias, que apontam para aumento do IPCA em 2013 (para 5,5%); e o regime de câmbio flutuante, um dos pilares da política econômica adotada com sucesso pelo país desde 1999, foi (temporariamente?) abandonado.

Cristiano Romero é editor-executivo e escreve às quartas-feiras

E-mail: cristiano.romero@valor.com.br

13/08/2012 - 08:48h Baixo crescimento no Brasil é um ciclo, não tendência

Simon Dawson/Bloomberg / Simon Dawson/Bloomberg
O’Neill: “Eu gosto de Rússia, Turquia, Brasil, China e Coreia. E, razoavelmente atrativa, Índia e depois Indonésia”


Por Silvia Rosa | VALOR

De São Paulo

Uma década depois de ter criado o termo Bric para o grupo de países que inclui Brasil, Rússia, Índia e China, o economista e presidente da Goldman Sachs Asset Management, Jim O’Neill continua otimista com essas economias, apesar do fluxo para os fundos dedicados a tais mercados estar negativo em US$ 689,25 milhões no ano até 1º de agosto, de acordo com dados da consultoria EPFR Global. O’Neill acredita que ao longo da década esses países vão contribuir mais para o PIB global do que os Estados Unidos e Europa juntos.

Na avaliação do gestor, o México chamado recentemente pelo “Financial Times” de “novo Brasil”, já não está mais interessante em termos de preço e vê mais oportunidades em emergentes como Rússia, Brasil, Turquia, China e Coreia.

A seguir, a entrevista concedida por O’Neill ao Valor por e-mail.

Valor: Como está a alocação nos mercados emergentes comparado com o ano passado?

Jim O’Neill : A Goldman Sachs Asset Management planeja lançar um fundo global que permitiria aplicar em diferentes classes de ativos. Nos fundos de ações dedicados a mercados emergentes nós temos visto contínua entrada de recursos, e algumas saídas na carteira com foco nos países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China).

Valor: Em seu último livro, “O mapa do crescimento”, além dos países do Bric, o senhor menciona mais quatro economias – Coreia do Sul, Indonésia, México e Turquia – que compõem o grupo chamado de mercados de crescimento. Em quais países o senhor vê mais oportunidades para investir em ações?

O’Neill : Isso depende das perspectivas econômicas e dos preços prevalecentes. Em oposição a esses dois critérios, em termos de atratividade eu gosto de Rússia, Turquia, Brasil, China e Coreia. E, razoavelmente atrativa, eu diria a Índia e depois a Indonésia. Nos preços atuais, o mercado do México já não está mais tão atrativo.

Valor: Com quais países do Bric o senhor está mais otimista?

O’Neill : Eu permaneço fundamentalmente animado com os quatro. Depois, e coletivamente, a história dos Bric é a maior história econômica da década. Ao longo da década, eles vão contribuir mais para o PIB global do que os Estados Unidos e Europa juntos e até 2015 o PIB desses países deve superar o dos Estados Unidos.

Valor: A bolsa da Turquia lidera a valorização entre os mercados de ações de emergentes, com alta de 25,96% em moeda local. Por que esse país tem atraído os investidores?

O’Neill : A Turquia é um país excepcionalmente interessante, por três razões até o momento. Primeiro porque é um tipo de modelo para o qual muitos aspirantes e países do Oriente Médio que estão passando por mudança devem visar. Segundo, ele está muito bem posicionado em termos de potenciais laços comerciais decorrentes de futuras mudanças em toda região do Oriente Médio. Terceiro, ele tem uma excelente demografia. Tudo isto atribuído contra um pano de fundo de baixa taxa de juros nos países do G-7, faz da Turquia muito atraente.

Valor: Quais são as principais preocupações em relação à economia brasileira?

O’Neill : Eu acho que as pessoas estão muito negativas sobre a tendência para o Brasil no médio prazo. Isso é muito interessante, e por alguma extensão, engraçado, o quão rapidamente o consenso do mercado presume que a evolução do crescimento recente vai persistir. Então, por exemplo, depois do milagre do crescimento de 7,5% em 2010, as pessoas pensam que isso persistiria. Agora, dado os desapontamentos em 2011 e 2012, as pessoas estão preocupadas que o crescimento será ao redor de 2% a 3% no futuro. Isso não é novo. Por anos, de 2001 a 2003, o Brasil cresceu menos de 2%, e depois isso de repente saltou para acima de 5% por dois anos. Os investidores e analistas precisam distinguir entre tendência de crescimento e ciclo. Eu acho que o Brasil provavelmente crescerá ao redor de 4% a 5% na média na década, e no próximo ano certamente será melhor que isso. O Brasil tem sofrido com a valorização do real nos anos recentes bem como o excesso de liderança do governo na economia como outros desafios competitivos, mas algumas dessas evoluções adversas estão mudando.

10/08/2012 - 09:21h Desigualdade é raiz da crise, diz Stiglitz

Por Matthew Craft | Associated Press | VALOR

Richard Drew/AP / Richard Drew/AP
Para Joseph Stiglitz, os EUA poderiam ter uma economia mais eficiente e estável se sua sociedade fosse mais igual


O que há de errado com a economia americana? O crescimento segue aos trancos e barrancos. O desemprego está acima de 8% há três anos e meio. Cortes nos impostos e nas taxas de juro não têm funcionado, pelo menos não o suficiente. Para Joseph Stiglitz, vencedor de um prêmio Nobel de Economia, o estranho comportamento da economia pode ser atribuído ao crescente fosso entre americanos ricos e todos os demais.

Em seu novo livro, “O Preço da Desigualdade”, ele estabelece um nexo entre o crescente endividamento dos que tomam empréstimos educacionais, a bolha imobiliária e muitos outros problemas do país e maior desigualdade.

Quando os ricos continuam ficando mais ricos, diz ele, os custos se acumulam. Por exemplo, é mais fácil escapar da pobreza no Reino Unido e no Canadá do que nos EUA. “As pessoas na base da pirâmide têm menor probabilidade de realizar seu potencial”, afirma.

Leia trechos da entrevista:

Valor: Os protestos do movimento “Ocupar Wall Street” já não são mais notícia, mas o senhor argumenta que a desigualdade de renda é mais importante do que nunca. Como assim?

Joseph Stiglitz: Porque ela está piorando. Veja os mais recentes números do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA). A riqueza mediana caiu 40% entre 2007 e 2010, levando-a de volta a onde estava no início dos anos 90. Durante duas décadas, todo o crescimento da riqueza no país, que foi enorme, foi para as pessoas bem no topo (da pirâmide). Podem ter sido duas décadas prósperas. Mas não compartilhamos, todos nós, dessa prosperidade. A crise financeira tornou isso realmente bem fácil de entender. A desigualdade sempre foi justificada com o argumento de que aqueles no topo – “os criadores de emprego” – contribuíram mais para a economia.

Depois vieram 2008 e 2009, e vimos esses sujeitos que colocaram a economia à beira da ruína levar centenas de milhões de dólares para casa. E não era possível justificar isso em termos de contribuição para a sociedade. O mito tinha sido vendido para as pessoas, e, de repente, ficou evidente para todos que não passava de uma mentira.

Mitt Romney qualificou as preocupações com a desigualdade de “política de invejosos”. Bem, isso está errado. Inveja seria dizer: “Ele está ganhando bem mais do que eu. Eu tenho inveja disso’. O que dizemos é: “Por que ele está ganhando tanto dinheiro, se ele nos trouxe para a beira da ruína?” E os que trabalharam duro são aqueles que foram arruinados. É uma questão de igualitarismo.

Valor: O objetivo dos mercados não é ser justo. Enquanto houver mercados, haverá vencedores e perdedores. O que há de errado nisso?

Stiglitz: Não estou defendendo a eliminação da desigualdade. Mas o extremo a que chegamos é muito ruim. Em particular, a forma como ela é produzida. Poderíamos ter uma sociedade mais igual e uma economia mais eficiente, mais estável, com maior crescimento. É essa, realmente, a questão. Mesmo se você não tiver quaisquer valores morais e quiser apenas maximizar o crescimento do PIB, esse nível de desigualdade será danoso. Não se trata apenas de injustiça. A questão é que estamos pagando um preço alto. A história que nos contaram é que a desigualdade era boa para nossa economia. Eu estou contando uma história diferente, que esse nível de desigualdade é ruim para nossa economia.

Valor: O senhor argumenta que isso está fazendo nossa economia crescer mais lentamente e vincula isso aos que querem viver de renda. Esse é um conceito de economista. Poderia explicar em termos leigos?

Stiglitz: Algumas pessoas obtêm renda de seu trabalho e algumas pessoas têm renda apenas porque são donas de um recurso. A renda delas não é resultado de esforço. Elas estão recebendo uma fatia maior do bolo, em vez de fazer o bolo crescer. Na verdade, eles estão fazendo o bolo ficar menor.

Valor: É como, por exemplo, eu instalar uma cobrança de pedágio num cruzamento movimentado e recolher todo o dinheiro para mim.

Stiglitz: Isso mesmo. Você apenas recolhe o dinheiro. Você não está agregando nada.

Valor: Onde o senhor vê isso nos EUA? Poderia apontar para alguns exemplos?

Stiglitz: Nós vemos isso no caso das companhias nos setores de petróleo e de recursos naturais e suas licenças para exploração mineral e madeireira. Os bancos se envolveram na concessão de empréstimos predatórios. Recentemente, as empresas Visa e MasterCard firmaram acordos aceitando pagar US$ 7 bilhões por comportamento anticoncorrencial. Elas cobravam dos comerciantes mais dinheiro, porque detêm poder monopolista.

Valor: O crescimento econômico está esfriando novamente. O desemprego parece emperrado acima de 8%. Isso é consequência de dívidas elevadas ou de gastos mais lentos?

Stiglitz: O problema fundamental não é a dívida pública. Ao longo dos últimos anos, o déficit orçamentário foi resultado de crescimento baixo. Se nos concentrarmos em crescer, teremos crescimento, e nosso déficit cairá. Se nos concentrarmos apenas no déficit, não iremos a lugar nenhum.

Essa fetichização do déficit está matando nossa economia. E isso está ligado à desigualdade. Se assumirmos medidas de austeridade, isso produzirá maior desemprego e alargará a desigualdade. Os salários caem, a demanda agregada cai, a riqueza diminui.

Todos os donos de imóveis endividados em nível superior ao próprio valor de suas casas não conseguem consumir. Nós demos dinheiro para socorrer o sistema bancário, mas não demos dinheiro para essas pessoas superendividadas. Elas não têm como gastar. É isso que nos está fazendo afundar. São os gastos domésticos.

Valor: E as pessoas que têm dinheiro para gastar, diz o senhor, gastam menos de cada dólar de sua renda. As pessoas no topo da escala de renda poupam quase um quarto de sua renda. As pessoas nos estratos mais baixos gastam cada centavo. É por isso que as reduções tributárias parecem ter pouco efeito sobre os gastos?

Stiglitz: Exatamente. Quando você redistribui dinheiro de baixo para cima, isso enfraquece a economia. E toda essa conversa sobre os investimentos dos mais ricos no país é besteira. Não, eles não investem aqui. Eles estão em busca de onde podem obter retornos mais elevados, e estão procurando no mundo inteiro. Por isso, estão investindo na China e no Brasil e na América Latina, nos mercados emergentes; não nos EUA. (Tradução de Sergio Blum)

10/08/2012 - 08:59h OCDE prevê países parados; Brasil é exceção

10 de agosto de 2012

NOVA YORK – O Estado de S.Paulo

A maior parte das grandes economias deverá perder força nos próximos meses, e somente o Brasil e, possivelmente, o Reino Unido, vão registrar um aumento moderado, de acordo com os indicadores antecedentes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE)

A OCDE disse que o indicador antecedente dos 34 membros da organização caiu para 100,3 em junho, de 100,4 em maio, sugerindo “uma desaceleração da atividade econômica”.

O indicador antecedente para as economias em desenvolvimento também recuou, sinalizando “desacelerações” – ou crescimento abaixo da tendência da taxa de longo prazo, para a China, Índia e Rússia.

Entre o grupo da sete maiores economias desenvolvidas, o Reino Unido foi o único país a registrar uma alta em seu indicador antecedente, uma performace que, segundo a OCDE, “mostra sinais iniciais de uma recuperação da atividade econômica”. Junto com a Itália, o Reino Unido foi a economia mais lenta entre os países do G-7 (grupo que reúne as sete maiores economias do planeta) nos últimos três trimestres.

Outra exceção para a tendência geral de queda foi o Brasil, que obteve indicador antecedente de 99 em junho, mesma leitura de maio, após registrar um aumento constante desde o início do ano. A OCDE disse que isso era um sinal de que o crescimento da economia vai aumentar, mas com menos intensidade do que tinha sido previsto.

Entre as economias desenvolvidas, a zona do euro continua a ser o principal foco de enfraquecimento. Mas os indicadores antecedentes para os EUA e o Japão também diminuíram. / DOW JONES NEWSWIRES

08/08/2012 - 10:00h Obama perde apoio de grandes empresas

Por Stephanie Kirchgaessner | Financial Times | VALOR

Nove meses após assumir a Presidência, Barack Obama organizou um almoço fechado para os executivos-chefes de algumas das maiores empresas dos Estados Unidos, Amazon e Kraft entre elas. O verão de 2009 havia sido duro. As batalhas envolvendo a remuneração corporativa e os planos da Casa Branca de reorganizar o sistema de saúde e o setor de energia haviam formado uma impressão entre os líderes empresariais de que ele era “antibusiness”.

O esforço do presidente para reparar relações desgastadas falhou. Menos de um ano depois, enquanto tentava fazer a América corporativa ajudar a resgatar a economia de sua pior recessão desde a Grande Depressão, a Casa Branca revelou sua frustração. “Os riscos são grandes demais para que trabalhemos uns contra os outros”, escreveu Valerie Jarrett, conselheira de Obama, à Câmara do Comércio, um grande lobby empresarial. “[A retórica empresarial] não reconhece as medidas que esta administração vem tomando para atender os objetivos compartilhados.”

De lá para cá – após uma onda reguladora que incluiu a lei Dodd-Frank, para o mercado financeiro, e a promoção pelo presidente do plano Buffett, que estabeleceria um imposto mínimo de 30% para quem ganha mais de US$ 1 milhão por ano -, as diferenças só aumentaram.

Enquanto isso, o candidato republicano à Presidência, Mitt Romney – cofundador da Bain Capital de Boston -, está fazendo campanha para as eleições de novembro com base em sua experiência corporativa e promete tornar a vida mais fácil para as companhias, grandes e pequenas.

Essas visões conflitantes para a América corporativa coincidem com uma nova campanha de desregulamentação do sistema financeiro que permitiria a empresas e sindicatos, doar, em certas circunstâncias quantias ilimitadas de dinheiro para apoiar políticos – um ato que até agora favoreceu os republicanos.

No longo prazo, a agenda do vencedor vai moldar a política fiscal, com possíveis repercussões para uma economia mundial que tenta evitar mergulhar de volta na recessão, assim como para o ambiente regulador.

Instituições de Wall Street e executivos votaram em massa em Obama nas eleições de 2008, mas eles o trocaram por Romney em 2012. No começo de maio, executivos do setor financeiro haviam doado para Romney três vezes mais recursos de campanha do que para Obama, segundo o Center for Responsive Politics, um grupo de pesquisas de Washington.

John Engler, presidente da Business Roundtable, um grupo lobista que defende os interesses de executivos-chefes de empresas, diz: “Há uma crença entre muitos na comunidade empresarial de que a administração Obama não tem uma grande afeição pelos empresários e pelas empresas… de que uma administração Romney seria mais neutra e respeitaria mais o papel do livre mercado na determinação de investimentos bem-sucedidos”.

No mês passado, o candidato republicano atacou Obama por afirmar: “Se você tem um negócio, você não o construiu, alguma outra pessoa fez isso acontecer”. O presidente observou que a declaração enfatizou a importância da educação e da infraestrutura bancadas pelo governo para o crescimento, mas seu rival disse que se tratava de um “insulto a todos os empresários e inovadores da América”.

Na verdade, o apoio de Obama a investimentos de infraestrutura tem o apoio de muitos na América corporativa. Se Romney vencer, provavelmente haverá uma certa objeção aos grandes cortes nos gastos reservados para a melhoria de rodovias e aeroportos propostos pelos republicanos no Congresso.

A redução do déficit é a questão “mais importante” que o próximo presidente vai enfrenta, afirma Roger Altman, presidente do conselho de administração do banco de investimentos Evercore, que foi vice-secretário do Tesouro na administração Clinton. O plano de Obama – uma mistura de aumento de impostos e corte nos gastos – “é muito mais realista do que aquele colocado na mesa por Romney”, afirma ele. Mas a maioria dos setores favorece a plataforma republicana de impostos menores e menos regulamentação.

Os apoiadores de Romney veem a eleição como uma chance de introduzir uma era de cooperação com o governo, especialmente em termos regulatórios. “Há uma sensação entre os diretores com quem tenho conversado, de que existe uma demanda reprimida, um desejo das empresas por muitos gastos e investimentos, se todos acharem que os sinais estiverem claros – e de que se você arriscar capital, o jogo não mudará para você no período de um ano”, diz Engler.

“A agenda de desregulamentação gradativa de Romney poderá ter alguns benefícios de curto prazo”, afirma Jared Bernstein, ex-economista-chefe do vice-presidente Joe Biden, “mas historicamente isso tem sido uma receita de formação e estouro de bolhas, além de enfraquecer significativamente a classe média”. De sua parte, Obama afirma que as políticas de impostos baixos e regulamentação leve propostas por Romney são aquelas que “em primeiro lugar causaram a bagunça financeira”.

O presidente tem aliados no Vale do Silício e alguns em Wall Street. Ele também é visto no geral como defensor do setor industrial. Jeff Immelt, presidente-executivo da General Electric (GE), vem trabalhando com ele em políticas para melhorar o nível de emprego através do Conselho de Empregos – embora o órgão tenha se tornado alvo de um joguete político quando surgiu a informação de que ele não se reúne há seis meses. Ele tem apoiadores em Detroit, onde é creditado por ter revitalizado a indústria automobilística com um socorro financeiro à General Motors (GM). Romney tem dito que não teria feito tal resgate.

Nenhum setor tem mais a perder que o da saúde, que representa um sexto da atividade econômica dos Estados Unidos, conforme medido pelo PIB. Se for reeleito, Obama continuará implementando a lei da saúde de 2010, ampliando o seguro para que ele cubra mais de 25 milhões de americanos, enquanto que Romney, na Presidência, tentaria desmantelar a lei. Ela vem recebendo um grande apoio dos setores hospitalar e farmacêutico, mas enfrenta a oposição do setor de seguros, embora as posições ainda possam mudar até as eleições em novembro.

Mas é na questão dos impostos que as empresas sentirão o resultado de maneira mais direta. Os dois candidatos concordam que os altos impostos pagos pelas empresas e muitas brechas colocam as empresas americanas em desvantagem – e, seja quem for o vencedor, uma reorganização está praticamente garantida. Os detalhes, porém, serão em grande parte determinados pelo próximo presidente.

“Há um consenso geral sobre a direção que se deve tomar”, afirma Chris Krueger, analista da Guggenheim Partners, uma companhia de serviços financeiros de Washington, “mas ninguém tem certeza do caminho que será tomado”.

07/08/2012 - 08:59h É o desemprego, tontos!

Por Antonio Delfim Netto – VALOR

Na preparação e na expansão dos fatos que levaram à crise que estamos vivendo não existem inocentes: os governos falharam miseravelmente, o setor financeiro sem regulação – como o velho escorpião da fábula – cumpriu o seu objetivo matando o setor real da economia e alguns economistas, gloriosamente, “teorizaram matematicamente” a alta qualidade dos malfeitos…

Seria ridículo e pretensioso dizer que os economistas foram causa eficiente da crise. Eles foram apenas coadjuvantes (e algumas vezes beneficiários) do processo. Ajudaram a criar uma “ideologia” que pretendia dar base “científica” ao papel do mercado financeiro desregulado na aceleração do desenvolvimento econômico e do bem-estar do mundo. A mensagem construída a partir da fantástica hipótese dos “mercados perfeitos” tinha com consequência subliminar a ideia do velho presidente Reagan: “Os governos não são a solução, são o problema!” Mas é ridículo, também, isentá-los de qualquer responsabilidade. Produziriam trabalhos científicos na Academia, onde se faria “ciência pela ciência”, na qual não é proibido inventar universos que não existem, como uma sociedade com um único produto, com uma função agregada de produção domesticada, com um agente representativo que incorpora todos os consumidores e os produtores, mas onde não há nem o crédito, nem as bolsas de valores. Agora esforçam-se em incorporá-los no famoso modelo designado de DSGE (Dynamic Stochastic General Equilibrium, Equilíbrio Geral Dinâmico Estocástico). Não teriam, entretanto, responsabilidade pelo mau uso dos seus modelos, mesmo porque esses não se referem, necessariamente, a este mundo…

Paradoxalmente, nesse processo no qual parece não haver ator que tenha sido sua causa eficiente, há quem esteja recebendo a conta do malfeito. São os mais de 30 milhões de desempregados que estão nas ruas recusando-se a pagar as “falhas” dos governos – que provavelmente corrigirão nas urnas – e as “falhas” do mercado financeiro, cujos responsáveis esperam ver julgados e condenados pela Justiça. Acreditaram que os governos e os mercados sabiam o que faziam. Continuam sendo ignorados pelos estudos mais recentes de economistas ainda presos ao paradigma que a crise destruiu.

Economistas foram coadjuvantes no processo da crise

Não se estuda o verdadeiro “custo social do imenso desemprego”. Insiste-se em continuar a estimar os efeitos sobre o bem-estar (o consumo) produzidos pelas flutuações do PIB, na velha e abusada tradição de Robert Lucas (o brilhante Prêmio Nobel de 1995) para quem as flutuações do emprego são pouco mais do que ataques de vagabundagem que, ciclicamente, atingem a mão de obra. Chega-se à conclusão que sobre esse ser inefável e metafísico – o consumidor representativo – ele é pequeno. Aliás, as estimativas variam fortemente porque todos conhecem – mas ninguém leva a sério – a afirmação do economista C. Otrok (”On measuring the welfare cost of business cycles”, “Journal of Monetary Economics”, 47, 2001, 61:92) que é “trivial fazer o custo do bem-estar produzido pela variação do PIB do tamanho que cada um quiser, simplesmente escolhendo uma forma conveniente da preferência” [do consumidor]. Repete apenas o grande Vilfredo Pareto, que já no século XIX afirmou: “Me deem as hipóteses adequadas e provarei qualquer coisa”…

A demonstração mais evidente dessa “disfunção teórica” é um recente trabalho de E. B. Yehoue também inspirado em Robert Lucas (”On Price Stability and Welfare”, IMF Working Paper 12/189, julho de 2012). Suas conclusões são interessantes: “Usando um agente-representativo conservador num modelo de equilíbrio geral e baseado em parâmetros consistentes com os dados dos EUA, estimamos o custo social associado com diferentes níveis de metas inflacionárias, em particular 2%, 4% e 10%. O trabalho sugere que o custo social adicional de elevar a meta de inflação de 2% para 4% é igual a 0,3% do PIB real. Se a elevação for de 2% para 10%, esse custo se eleva a 1%. Com outros valores para os parâmetros na curva de demanda de moeda chega-se a 7% quando se eleva a inflação de 2% para 4%, e a 30% quando se passa de 2% para 10%” (página 4).

Em poucas palavras, vale “a fortiori”, o que disse – repetindo Pareto – o economista C. Otrok citado acima. Quando as hipóteses são arbitrárias, “Deus está morto e tudo é permitido!”

Mas o ponto realmente importante no trabalho de Yehoue é que, salvo algum engano, ele menciona uma única vez nas 35 páginas do artigo, a palavra “desemprego” (página 21) referindo-se ao economista prático Arthur M. Okun (1928-80), que mostrou uma regularidade entre a taxa de crescimento do PIB e a taxa de crescimento do desemprego agora conhecida como “Lei de Okun”. Obviamente, Yehoue não a utilizou porque ela introduziria ainda mais “ruído” nas suas conclusões. Aliás, uma coisa me intriga: seria o “custo social” produzido por um eventual aumento da meta de inflação de 2% para 4% nos EUA menor do que o custo do desemprego causado pela sua persistência ao longo dos últimos cinco anos de pelo menos 3% (dos 8% atuais para os 5% “normais”)? É sugestivo que nas 58 referências do artigo, nenhuma tenha no título a palavra “desemprego”!

Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras

E-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br

30/07/2012 - 09:54h Lucros de empresas nos EUA podem parar de crescer

Por Kate Linebaugh | The Wall Street Journal | VALOR

Diga adeus ao crescimento dos lucros.

A desaceleração das economias dos Estados Unidos e da China, consumidores cada vez mais preocupados, recessão na maior parte da Europa e um dólar valorizado estão encerrando um período de 10 trimestres consecutivos de crescimento dos lucros em relação a um ano antes nas maiores empresas americanas.

Até sexta-feira, o cenário apontava para mais uma subida nos lucros. Mas as previsões estão agora se tornando negativas em meio a uma série de alertas de lucro de empresas como a Starbucks Corp. e a Illinois Tool Works Inc. No terceiro trimestre, os lucros das empresas que compõem o índice S&P 500 devem encolher pela primeira vez desde logo após o fim da recessão, caindo 0,4% na comparação ano a ano, segundo a Thomson Reuters, que consulta os analistas de Wall Street.

E, com isso, um dos poucos pontos altos na cambaleante recuperação econômica dos EUA perde o seu brilho. Lucros gordos vêm alimentando os investimentos empresariais em tecnologia e maquinário, ainda que não estejam aumentando muito as contratações. Agora, contudo, a pressão sobre os lucros está levando empresas como a United Technologies Corp. e a Dow Chemical a cortar custos.

A rede de cafeterias Starbucks alertou na semana passada que o movimento nas suas lojas dos EUA começou a declinar em junho. Como a tendência continuou em julho, a companhia decidiu diminuir sua previsão de lucro para o terceiro trimestre.

“Isso não é um problema da Starbucks”, disse Howard Schultz, o diretor-presidente. “Isso é um problema macro de confiança do consumidor.”

Os preços das commodities – petróleo, cobre, alumínio e outros motores da economia mundial – têm apresentado quedas acentuadas, que sugerem que a atividade manufatureira está perdendo fôlego porque os consumidores estão comprando menos.

Ao mesmo tempo, o dólar está se fortalecendo, tendo subido 5% em relação ao euro no segundo trimestre. Um dólar valorizado prejudica as exportações dos EUA ao tornar os produtos americanos mais caros para quem os compra em outras moedas. Ele também corrói o valor das receitas das empresas americanas no exterior, quando essas receitas são convertidas para dólar.

Para o terceiro trimestre, os analistas projetam que o lucro e a receita das empresas do S&P 500 deslizarão em cerca de 0,5%, informou a Thomson Reuters. Isso se segue ao que provavelmente foram três trimestres seguidos de queda no crescimento dos lucros. Os lucros podem a voltar a crescer no quarto trimestre, dizem os analistas, dado que o desempenho no quarto trimestre do ano passado não foi tão forte quanto no terceiro.

A fornecedora de gás Airga s Inc. viu seu lucro no segundo trimestre saltar 21%, mas baixou sua previsão para o ano todo, citando a fraqueza da economia. A fabricante de jatos executivos Rockwell Collins Inc., que divulgou um aumento de 5% no lucro do terceiro trimestre, também cortou sua projeção de receita e lucro para o ano.

“O ritmo atual das vendas está aumentando, só não na taxa que nós esperávamos no começo do ano”, disse ao The Wall Street Journal Clay Jones, diretor-presidente da Rockwell Collins.

Cerca de 40 companhias já alertaram que seu desempenho no terceiro trimestre será mais fraco do que se pensou no início, comparado com 8 que foram otimistas, segundo Gregory Harrison, um analista de resultados da Thomson Reuters. A razão entre previsões negativas e positivas é a menor desde o segundo trimestre de 2001, disse ele.

No começo do ano, as empresas estavam esperando tempos difíceis na Europa e uma economia chinesa em desaceleração, mas manifestavam otimismo quanto aos EUA. A economia americana, porém, começou a se arrastar no segundo trimestre, sendo que o produto interno bruto cresceu a uma taxa anualizada de 1,5%, menor que os 2% do primeiro trimestre e os 4,1% do quarto trimestre de 2011.

A temporada de divulgação dos lucros do segundo trimestre para as empresas do S&P 500 já passou da metade. Os analistas esperam um crescimento de 6,2% do lucro no período, segundo a Thomson Reuters. Excluindo o Bank of America – que registrou um lucro de US$ 2,5 bilhões depois de ter um prejuízo de US$ 8,8 bilhões no ano passado devido a baixas contábeis ligadas a hipotecas – os lucros devem crescer somente 0,9%.

Uma queda nos preços das commodities está reduzindo as expectativas para os trimestres futuros, pois isso é um presságio de lucros menores para as petrolíferas e mineradoras. Na sexta-feira, a mineradora Anglo American PLC, que tem presença mundial, divulgou uma queda abaixo do esperado, de 38%, no lucro operacional no primeiro semestre, devido à queda nos preços das commodities. A empresa afirmou que cortaria seus gastos de capital este ano e no próximo.

Jim Russell, diretor de estratégia de ações do U.S. Bank Wealth Management, dos EUA, prevê que os lucros do terceiro trimestre cairão de 3% a 5%. “O crescimento da receita está também diminuindo o ritmo e as margens parecem que estão chegando ao máximo”, disse Russell. (Colaborou Jon Ostrower)

30/07/2012 - 09:51h Dólar alto é novo obstáculo aos EUA

Por Assis Moreira | VALOR

de Genebra

A recente alta do dólar representa outro obstáculo para os exportadores dos Estados Unidos e para os lucros das companhias, em meio a inquietações com a perda de fôlego da maior economia do mundo, que cresceu apenas 1,5% em taxa anualizada no segundo trimestre.

O valor da moeda americana continua baixo em termos efetivos (”trade-weighted basis”) pelos padrões históricos. Mas está próximo de seu nível mais alto ante o euro em dois anos – tendo subido 4% nos últimos cinco meses e cerca de 8% no ano passado em relação aos principais parceiros.

Para os exportadores, o desempenho do dólar não é boa noticia quando eles já enfrentam a baixa de demanda na Europa e em partes da Ásia. Apple e Ford estão entre as empresas que anunciaram resultados decepcionantes no segundo trimestre por causa de consumo menor pelos europeus.

“A alta do dólar não é um desastre para os EUA e por si só não vai enfraquecer mais a economia, mas vai exacerbar as desacelerações tanto do crescimento das exportações como do lucro das empresas”, avalia o analista Paul Dales, em Londres.

Ele nota que os EUA não estão expostos a flutuações no câmbio como muitas economias “simplesmente porque o país tem uma economia relativamente fechada”. As exportações representam apenas 14% no PIB americano, comparadas a 27% na França e 50% na Alemanha. Mas o dólar no seu nível atual pode baixar de 5% para cerca de 3% o ritmo de crescimento das exportações.

O outro lado é que o dólar mais alto se traduz em preço mais baixo de importações. Mas o impacto da flutuação da moeda nos preços de importações demora cerca de quatro meses.

A economia americana cresceu 1,5% em taxa anualizada no segundo trimestre, alimentando dúvidas sobre a recuperação da economia global e sobre as perspectivas de reeleição do presidente Barack Obama.

Mas analistas notam que a dura seca em alguns Estados americanos terá impacto apenas marginal no declínio da produção agrícola e no crescimento do PIB americano. Embora os EUA produzam mais milho do que qualquer outro país e sejam os supridores de metade da soja globalmente, o setor agrícola representa apenas 1%, ou US$ 130 bilhões, do PIB americano.

No primeiro semestre, a média de temperatura em seis de nova regiões americanas bateu recorde de alta. Preços futuros de milho subiram 60%; de soja, 50%; e de trigo, 25%.

No entanto, a expectativa é de que, mesmo se os preços das commodities continuarem nos níveis atuais, o impacto sobre a inflação também será pequeno.

Na zona do euro, a queda da moeda comum dá um impulso nas exportações, mas o superávit comercial vem sendo obtido também graças a menos importações.

No Japão, o déficit na balança comercial prossegue. Por sua vez, o ministro das Finanças Jun Azumi alertou que uma intervenção continua a ser uma possibilidade para baixar o valor do iene.

A moeda japonesa está no seu nível mais alto em relação ao euro e também se valorizou um pouco ante o dólar recentemente.

26/07/2012 - 14:03h Peru e Colômbia atraem mais bancos estrangeiros

Por Polya Lesova | Especial para o The Wall Street Journal, de Lima, Peru – VALOR

Em San Isidro, o distrito financeiro da capital peruana, os bancos ocupam alguns dos edifícios mais elegantes, um reflexo da boa fase do setor que tem sido alimentada pelo crescimento econômico do Peru.

A Colômbia e o Peru têm visto suas economias crescerem fortemente nos últimos anos, e o setor bancário tem tirado proveito.

Os bancos dos dois países têm se beneficiado de uma crescente base de clientes potenciais, à medida que a classe média se expande e mais pessoas são retiradas da pobreza, estimulando a demanda por empréstimos ao consumidor, cartões de crédito e hipotecas.

Bancos brasileiros também buscam se beneficiar de nova base de clientes

Num momento em que gigantes do setor bancário no mundo desenvolvido cambaleiam depois de uma série de escândalos e batalham para entregar retornos aceitáveis para os acionistas, muitas instituições financeiras no Peru e na Colômbia apresentam um invejável crescimento no lucro e retornos de dois dígitos sobre o próprio capital.

Instituições financeiras de países vizinhos também tentam tirar proveito do bom momento do Peru e Colômbia. Os bancos brasileiros têm sido especialmente ativos. O banco de investimento BTG Pactual, por exemplo, comprou a corretora chilena Celfin Capital em fevereiro, ganhando exposição aos mercados de capital de rápido desenvolvimento não só do Peru e Colômbia, mas também do Chile. E em junho, o BTG fechou acordo para comprar a Bolsa y Renta, de MedellÍn, a maior corretora de valores da Colômbia. O Itaú BBA, que é a a subsidiária de banco de investimentos do Itaú Unibanco Holdings, instalou recentemente um banco de atacado na Colômbia. Além disso, o Corpbanca, do Chile, já informou que está à procura de aquisições no Peru, depois de ter comprado os ativos do Santander na Colômbia.

Guillermo Arbe Carbonel, economista do Scotiabank, em Lima, diz que, no caso do Peru, o setor bancário acompanhou o crescimento orgânico da economia e se beneficiou do nível historicamente baixo de penetração bancária.

Muitas famílias e empresas que não estavam no radar dos bancos antes agora estão, diz Carbonel. “Também estamos vendo isso na construção. Eles estão construindo shopping-centers em todo o país e os bancos vão colocar agências nesses shoppings. Agora é útil ter um cartão de crédito.”

O interesse por hipotecas está aumentando a taxas de dois dígitos, nota o analista, que acrescenta: “Há uma mobilidade social muito forte.”

O Banco de Crédito, que faz parte da Credicorp Ltd., é o maior banco do Peru, com mais de 30% de participação de mercado tanto em empréstimos como em depósitos. Em seguida, estão o BBVA Continental (de propriedade de banco espanhol BBVA SA), o Scotiabank Peru (uma unidade do canadense Bank of Nova Scotia) e o limenho Interbank (uma unidade do Intergroup Financial Services Corp.)

Num reflexo do novo ímpeto da indústria, o Banco de Crédito teve um aumento de 30% no lucro do primeiro trimestre e uma média de retorno sobre o patrimônio, um indicador de rentabilidade dos bancos, de 29,2%. O total de empréstimos subiu 21% em comparação com um ano antes, para US$ 17,6 bilhões, impulsionado pelo setor de banco de varejo, em particular as hipotecas e empréstimos ao consumidor.

Embora os bancos locais devem continuar vendo crescimento sólido na carteira de empréstimos este ano, o Peru certamente enfrenta alguns desafios. Um deles é a dolarização, ou o uso generalizado de moeda estrangeira, que decorre parcialmente da dolorosa experiência do país com a hiperinflação na década de 1980.

“Nossa dolarização ainda é alta”, diz Juan Carlos Odar, economista do Banco de Crédito em Lima. “O banco central está muito presente no mercado de câmbio. Eles tentam evitar a volatilidade da taxa de câmbio.”

Do outro lado da fronteira, na Colômbia, o setor bancário também vem prosperando e atraindo o interesse de investidores estrangeiros. Os empréstimos comerciais e para consumidores, que representam 90% da carteira de crédito total, estão crescendo a taxas de dois dígitos. Apesar de responder só por cerca de 8% do total de empréstimos, a atividade de hipotecas também tem ganhado força. O nível de inadimplência subiu um pouco, mas continua em volumes historicamente baixos, segundo a InterBolsa.

A Colômbia sofreu uma grave crise de hipotecas na década de 1990, quando a inadimplência disparou. Muitos bancos com grande exposição aos empréstimos hipotecários tiveram de fechar as portas e o governo acabou intervindo para recapitalizar as instituições financeiras. Essa crise imperrou o desenvolvimento do setor bancário e reduziu o crescimento do crédito durante a década seguinte.

O Grupo Aval, o enorme conglomerado construído pelo bilionário Luis Carlos Sarmiento, é o maior grupo financeiro da Colômbia e controla cerca de 30% do setor bancário local. O Aval possui vários bancos, incluindo o Banco de Bogotá, o segundo maior banco do país, e o Porvenir SA, o maior fundo de pensão.

O Bancolombia SA, que tem ADRs na Bolsa de Valores de Nova York, é o maior banco do país com 20% do total de ativos, segundo dados da InterBolsa. O Banco de Bogotá é o segundo, com 15%, seguido do Banco Davivienda SA com 12%. O BBVA, com uma participação de mercado de 9%, é o maior entre os participantes estrangeiros.

“Há uma série de oportunidades e os investidores internacionais estão vendo isso. Muitos estão pagando alto para acessar o sistema colombiano”, diz Philip Thomas, analista do setor financeiro da Interbolsa, em Medellín, Colômbia, dando o exemplo de dois negócios. Em outubro passado, o Scotiabank anunciou que iria comprar 51% do Banco Colpatria em um negócio avaliado em US$ 1 bilhão. E em maio, o Santander anunciou a venda de seus ativos colombianos ao chileno Corpbanca SA.

Ao mesmo tempo que os bancos estrangeiros buscam uma fatia do mercado colombiano, os bancos colombianos também estão expandindo sua presença na América Central.

Em 2010, o Grupo Aval comprou o BAC-Credomatic da GE Capital, recebendo no acordo um banco com operações na Costa Rica, México, El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Honduras e Panamá. E este ano, o Banco Davivienda comprou unidades do HSBC Holdings na Costa Rica, El Salvador e Honduras.

Polya Lesova é vice-diretora da sucursal de Nova York do site “MarketWatch”

25/07/2012 - 09:57h Economistas preveem baixo crescimento por anos

Por Sergio Lamucci | VALOR

Do Rio

A economia global caminha para um longo período de baixo crescimento, mesmo se não se ocorrer uma ruptura da zona do euro, um risco visto hoje como cada vez mais provável, dada a inação dos líderes políticos europeus. Nesse cenário delicado, ter um mercado interno forte e finanças públicas saudáveis serão trunfos importantes, assim como contar cada vez mais com a poupança doméstica deverá ser uma necessidade. Em linha gerais, esse foi o quadro traçado por economistas como Dani Rodrik, da Universidade de Harvard (EUA), e José Antonio Ocampo, da Universidade de Columbia (EUA), que participaram ontem e anteontem do seminário “O Brasil e o Mundo em 2022″, promovido pelo BNDES em comemoração aos 60 anos do banco.

Rodrik acredita num ambiente muito negativo para a economia global nos próximos anos, o que terá como consequência derrubar o potencial de crescimento de todos os países. Na zona do euro, a possibilidade de que vários países deixem a união monetária cresceu com força; na China, existe o risco de um tombo significativo do ritmo de crescimento, talvez para a casa de 5% ao ano; e nos EUA, o quadro de impasse político nos EUA tende a prosseguir, afetando a expansão da economia.

Nesse quadro hostil, países com grandes mercados internos, como Brasil e Índia, tendem a se sair relativamente melhor que os outros, apontou ele. O colombiano José Antonio Ocampo, professor da Universidade de Columbia (EUA), destacou o mercado doméstico como um fator de dinamismo importante para a América Latina nesse cenário global, em que os preços de commodities têm perspectivas bem menos róseas.

O quadro internacional adverso reforça a importância de se mobilizar a poupança doméstica, destacou o russo Vladimir Popov, professor da Nova Escola Econômica de Moscou, para quem também é preciso tomar cuidado com fluxos de capitais voláteis.

O presidente do BNDES, Luciano Coutinho, também destacou a necessidade de se aumentar a poupança doméstica nesse mundo mais complicado, apostando na elevação do investimento no Brasil. Para ele, há grandes oportunidades nos setores de petróleo e gás, energia e infraestrutura, que levarão a uma alta da taxa de investimento como proporção do PIB.

Coutinho salientou ainda a importância hoje de fundamentos macroeconômicos sólidos, como baixos níveis de déficits externos, inflação sob controle – sem o que não se faz inclusão social, segundo ele – e de finanças públicas em ordem. Ocampo lembrou que a América Latina conseguiu enfim superar o problema do endividamento público, abrindo espaço para políticas fiscais contracíclicas.

O grande risco para o mundo, segundo consenso dos participantes do seminário, é de que a zona do euro viva uma ruptura. Rodrik e Wolfang Munchau, presidente da consultoria Eurointelligence, acham que essa possibilidade cresceu muito, o que teria consequências catastróficas para a economia global, especialmente se um país grande como a Espanha ou a Itália deixarem a zona monetária. Para Munchau, os países precisam pensar suas estratégias levando em conta que o baixo crescimento mundial deverá durar muitos anos, mesmo se a zona do euro evitar o pior.

Outro risco no radar dos analistas é a China. O país terá mais dificuldades num quadro de baixo crescimento global, em que os países desenvolvidos serão menos tolerantes com grandes exportadores que usam medidas “heterodoxas” para sustentar o crescimento, como políticas industriais amplas e agressivas e a manutenção do câmbio em nível desvalorizado, segundo Rodrik. Ele acha possível que a China caminhe para um período de crescimento significativamente mais baixo, na casa de 5% ao ano, o que poderia ter consequências graves no front político. Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), é menos pessimista. Acha que a China evita um tombo forte da economia, mas insistindo nos incentivos às exportações e ao investimento, o que tende a aumentar os desequilíbrios da economia.

24/07/2012 - 11:49h Risco de ruptura do euro se intensifica

Guenter Schiffmann/Bloomberg News / Guenter Schiffmann/Bloomberg News
Eichengreen, da Universidade da Califórnia: necessidade de recapitalização dos bancos e atuação forte do BCE


Por Sergio Lamucci e Alessandra Saraiva | VALOR

Do Rio

A situação europeia se deteriorou a tal ponto que o cenário que contempla alguma ruptura da zona do euro é mais provável do que a manutenção da união monetária intacta, acredita o alemão Wolfgang Munchau, presidente da consultoria Eurointelligence e colunista do “Financial Times”. Para ele, parece tarde para salvar o euro, dada a dificuldade política em se chegar a um acordo que permita uma ação firme do Banco Central Europeu (BCE) na compra de títulos públicos de países encrencados, uma união bancária imediata, com a recapitalização direta dos bancos, e a elevação do teto do Mecanismo de Estabilidade Europeia (ESM, na sigla em inglês) para €1,5 trilhão.

Munchau traçou um quadro extremamente pessimista para a zona do euro no primeiro dia do seminário “O Brasil e o Mundo em 2022″, promovido pelo BNDES em comemoração aos 60 anos do banco. Também presentes ao evento, o economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), e o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, disseram acreditar que, dada a perspectiva de um desfecho muito negativo, os líderes políticos agirão a tempo de evitar uma catástrofe.

Munchau, porém, acredita que a ideia de que o desastre iminente levará os políticos a agir está errada. As divergências sobre como enfrentar a crise entre os países do Norte da Europa, especialmente a Alemanha, e os países do Sul são muito grandes. A avaliação de que a alemã Angela Merkel havia capitulado aos anseios da Espanha e da Itália na cúpula da União Europeia (UE), realizada no fim de junho, mostrou-se incorreta, ressaltou Munchau. A capitalização direta dos bancos, que aliviaria a situação das instituições espanholas, não vai ocorrer imediatamente. A união bancária vai demorar e não parece haver tempo para a espera, como deixa claro a disparada do rendimento dos títulos espanhóis.

Para Munchau, o grande problema hoje é a interação complicada entre a política e a economia. Grande parte dos economistas concorda com o diagnóstico sobre o que fazer para deter a espiral de piora da situação europeia, como destacou também Eichengreen. Para ele, é necessária a recapitalização direta dos bancos, uma atuação forte do BCE no mercado secundário de títulos, com algum tipo de mutualização das dívidas (com a emissão de “eurobônus”) e a retomada do crescimento, com menos ênfase em medidas de austeridade fiscal.

A questão é que os líderes europeus não conseguem chegar a um entendimento político sobre isso, disse Eichengreen, fazendo coro com Munchau. Ele acredita, porém, que o fantasma de uma catástrofe ainda exerce um poder de pressão significativo sobre os políticos. Desse modo, o medo do abismo ainda impedirá uma ruptura da zona do euro.

Munchau não compartilha dessa avaliação. “A ruptura do euro é inconcebível até o momento em que ela for inevitável.” Para ele, a saída da Grécia é hoje praticamente certa. “Eu acreditava que a Grécia poderia dar um calote dentro da zona do euro, mas o endurecimento por parte dos países do Norte da Europa torna isso muito difícil.” Munchau também vê um risco grande de saída de Portugal e Espanha. A saída da Espanha, segundo ele, teria impacto pior que a da quebra do Lehman Brothers.

A insistência na austeridade tem sido desastrosa, avalia Munchau, para quem é necessário parar imediatamente com os aumentos de impostos e cortes de gastos, que só reforçam o círculo vicioso de baixo crescimento e aumento da dívida. Essa aposta na austeridade a todo custo tem provocado problemas políticos e sociais complicados, como os seguidos protestos contra os pacotes de aperto fiscal que se observam em países como Grécia e Espanha. Nesse cenário, a manutenção da união monetária fica cada vez mais improvável. Munchau lembra que a saída da do zona do euro deve significar o não pagamento das dívidas denominadas na moeda europeia. Isso teria um efeito extremamente negativo sobre a economia global, com impacto sobre os bancos que carregam papéis europeus.

Coutinho, por sua vez, disse acreditar que as lideranças políticas europeias, à medida que um desastre se aproxime, “terminarão acelerando determinadas soluções”. Segundo ele, “a solução a curto prazo viria com uma união bancária e um papel mais amplo e mais firme do BCE no mercado de títulos”. Uma eventual saída da Grécia da zona do euro seria palatável, por ter sido anunciada com muita antecedência, disse Coutinho. “O problema real são as grandes economias, como a Itália e a Espanha.” Para ele, seria muito difícil para o sistema bancário, até mesmo alemão, absorver um problema envolvendo economias tão grandes como essas.

23/07/2012 - 11:00h Brasil pode crescer 5% ao ano, diz Rodrik

Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/Valor
Dani Rodrik, da Universidade de Harvard: com câmbio e conjunto de políticas industriais corretos, Brasil pode ter setor manufatureiro saudável


Por Sergio Lamucci | VALOR

De São Paulo

O economista Dani Rodrik não embarcou na recente onda de pessimismo em relação à economia brasileira. Para o professor de economia política internacional da Universidade de Harvard (EUA), o Brasil tem condições de crescer a taxas de 5% ao ano mesmo no ambiente adverso que ele antevê para a economia global, de baixo crescimento por muitos anos, especialmente nos países desenvolvidos.

“O Brasil obviamente será afetado de modo negativo pelos acontecimentos na Europa e nos EUA e também pela provável desaceleração da China. Mas o Brasil tem alguns pontos fortes”, disse Rodrik, citando as finanças públicas em ordem e o regime democrático estável, mencionando também a grande classe média como um trunfo importante do país. O economista turco será um dos principais convidados do seminário “O Brasil e o Mundo em 2022″, promovido pelo BNDES em comemoração aos 60 anos do banco. O evento ocorre hoje e amanhã no Rio, no Espaço Tom Jobim.

Rodrik vê o Brasil, ao lado de Índia e Coreia do Sul, como um dos países “relativamente mais bem posicionados” para enfrentar esse cenário externo adverso dos próximos anos – o crescimento depende mais da demanda interna do que das exportações, a dívida pública está controlada e a democracia é robusta. São vantagens importantes num mundo que, segundo ele, tem 50% de possibilidade de testemunhar a dissolução parcial da zona do euro nos próximos anos, além do risco de manutenção do impasse entre democratas e republicanos sobre a trajetória fiscal americana. Rodrik tampouco é otimista quanto às perspectivas para a China, um país que não é democrático e ainda é muito dependente das exportações.

Para o Brasil crescer a um ritmo de 5%, ele aponta como fundamental “sinalizar um ambiente em que serão mantidos os incentivos relativos para o investimento na indústria manufatureira e em outros setores tradables [comercializáveis internacionalmente]“, o que requer juros baixos e um câmbio relativamente competitivo. “Se as políticas em curso conduzirem a essa combinação, já será uma grande ajuda”, afirmou Rodrik, que vê ainda com bons olhos as iniciativas do governo de reduzir impostos para setores específicos e tentar impulsionar o investimento por meio do BNDES.

“O que o Brasil está tentando fazer é um esforço que vale a pena, desde que seja pragmático e revisado à luz da evidência de seu impacto”, diz ele, para quem o verdadeiro teste desse tipo de política é saber desistir dos perdedores, não insistindo com setores, se ficar claro que as medidas não dão resultado. “A própria experiência do Brasil no passado oferece muitas lições nesse sentido. Algumas políticas industriais não foram muito bem-sucedidas, como no setor de informática, mas outras, como no setor de aço e aviões, foram muito bem-sucedidas”, disse Rodrik, um crítico da globalização exagerada. A seguir, os principais trechos da entrevista, feita por telefone, na sexta-feira.

Valor: Em artigo recente, o sr. diz que “a economia mundial está entrando numa nova fase difícil a longo prazo – fase que será substancialmente menos favorável para o crescimento do que possivelmente qualquer outro período desde o fim da Segunda Guerra Mundial”. O mundo está condenado a uma longa era de baixo crescimento?

As democracias em geral são muito melhores em lidar com a turbulência e a incerteza”

Dani Rodrik: É muito provável que as próximas décadas tenham crescimento substancialmente menor do que nas duas ou três décadas anteriores à crise financeira. Há várias razões para isso. A primeira é que os países avançados têm uma dívida pública muito elevada, o que reduz o crescimento. A outra é que a crise atual na zona do euro também deve ter implicações negativas para as perspectivas de crescimento de longo prazo.

Valor: Por que o sr. não acredita que os países emergentes, em especial a China, tenham um papel importante para impulsionar a economia global, como em 2008 e 2009?

Rodrik: Em primeiro lugar, porque eles não são, em conjunto, tão grandes como os países ricos. Além disso, porque o crescimento dos mercados emergentes nos últimos anos dependeu de um ambiente global permissivo, com mercados abertos nos países industrializados e a disposição dos países desenvolvidos de olhar para o outro lado, enquanto países como a China promoviam amplas políticas industriais para reestruturar as suas economias. A economia global será muito menos permissiva nesse sentido, o que também vai deprimir o potencial de crescimento dos países emergentes.

Valor: O sr. está preocupado com uma onda protecionista?

Rodrik: Em parte haverá maior protecionismo, mas de modos mais sutis – não estou falando de algo como a onda que ocorreu nos anos 30. Mas potências exportadoras como a China vão ter mais dificuldades para ter grandes superávits comerciais com os países avançados do que tiveram no passado. Haverá muito menos cooperação e coordenação global, porque os países ricos vão estar mais preocupados com questões internas.

Valor: A cúpula da União Europeia no fim de junho decidiu pela recapitalização direta dos bancos, mas o rendimentos dos títulos públicos espanhóis e italianos continuaram em níveis altos. Por que a decisão não acalmou os mercados?

Rodrik: Infelizmente, os líderes políticos europeus têm ficado consistentemente atrás dos mercados. Eles sempre fazem o mínimo possível, atuando apenas para adiar os problemas, sem lidar com as questões fundamentais.

Valor: Qual é o cenário mais provável para a zona do euro? Uma ruptura ou os líderes vão conseguir manter a união monetária intacta?

Rodrik: Acho que uma dissolução parcial da zona do euro tem uma possibilidade de 50% de ocorrer nos próximos anos. Há uma boa chance de que a união monetária seja dissolvida.

Valor: Na semana passada, Barry Eichengreen [professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley] disse ao Valor que um colapso do euro seria um desastre financeiro. O sr. concorda com ele?

Rodrik: Eu concordo com ele. As consequências de curto prazo seriam devastadoras do ponto de vista econômico, e acho que haveria consequências políticas ainda mais sérias no médio prazo. É uma tragédia de primeira ordem.

Valor: Como se daria a dissolução da zona do euro?

Rodrik: Há um número de países centrais – Alemanha, Áustria, Holanda e Finlândia – que devem ficar numa união monetária a despeito do que ocorrer com a zona do euro. Mas o futuro de todos os outros está muito em dúvida.

Valor: A saída de algum país pode ocorrer ainda neste ano?

Rodrik: É bastante possível que a Grécia tenha que deixar a zona do euro por volta do fim do ano. Se isso ocorrer, haverá um grande esforço para assegurar que o contágio para países como Espanha e Itália seja limitado, o que pode comprar algum tempo para os outros países.

Valor: Como o sr. vê a estratégia europeia para enfrentar a crise? Há foco demais na austeridade?

Muitas indústrias exportadoras não existiriam se o Brasil não tivesse adotado políticas seletivas”

Rodrik: Acho que a estratégia é falha, primeiro porque enfatiza demais a austeridade, deixando países como Grécia e Espanha num círculo vicioso em que a austeridade reduz o crescimento, exigindo mais austeridade fiscal, e assim por diante. Em termos mais estruturais, os líderes políticos têm que decidir se vão dar um salto maior na direção de maior integração fiscal e política, assumindo um compromisso político com essa trajetória. Ou, se forem incapazes de entrar num acordo em relação a essa opção mais ambiciosa, e a única solução real for menos união econômica, eles deveriam se preparar para isso, em vez de deixar o caos ocorrer. O caminho de maior união fiscal e política seria de longe o melhor, porque evitaria os custos econômicos e políticos de uma ruptura. Infelizmente, à medida que o tempo passa, um desfecho favorável parece cada vez menos possível.

Valor: A recuperação dos EUA não parece sólida. Uma nova rodada de afrouxamento quantitativo [política monetária ultraexpansionista, de compra de títulos] ajudaria a sustentar a recuperação?

Rodrik: A política monetária pode ter algum papel, mas é imitado. O problema é que a política fiscal, acima de tudo, exerce um peso sobre a economia. Nós precisamos de uma melhor estratégia fiscal, que enfatize menos consolidação fiscal agora, especialmente no nível dos Estados, e maior consolidação fiscal no futuro.

Valor: O sr. acredita que os democratas e republicanos vão conseguir evitar o abismo fiscal em 2013 [a combinação do fim de isenção de impostos e forte corte de gastos], que pode provocar uma violenta contração fiscal?

Rodrik: É muito difícil ser otimista em relação a isso, infelizmente. Esse risco continuará a afetar a recuperação e o crescimento.

Valor: Em artigo recente, o sr. diz que, no cenário global atual, Brasil, Índia e Coreia do Sul estão numa posição mais favorável do que o resto do mundo por serem democracias, terem um crescimento puxado pela demanda doméstica, e não pelas exportações, e por terem baixos ou moderados níveis de dívida pública. Esses países vão se sair bem mesmo nesse mundo adverso?

Rodrik: Eu tenho um prognóstico pessimista para a economia global como um todo, mas alguns países estão relativamente mais bem posicionados do que outros. O Brasil obviamente será afetado de modo negativo pelos acontecimentos na Europa e nos EUA e também pela provável desaceleração da China. Mas o Brasil tem de fato alguns pontos fortes, como as finanças macroeconômicas estáveis e o regime democrático estável.

Valor: Por que ser uma democracia é uma vantagem nesse cenário global adverso?

Rodrik: As democracias em geral são muito melhores em lidar com turbulência e incerteza, porque esses são os momentos que pedem conciliação e cooperação entre diferentes grupos sociais. O que a democracia faz é oferecer os mecanismos institucionalizados para que essas barganhas ocorram. Quando se excluem essas barganhas, é verdade que se pode ter alguns ganhos de curto prazo, mas não há nenhum modo para responder ao dissenso e a oposição, o que frequentemente leva ao conflito. Esse é um risco importante que a China pode enfrentar se a taxa de crescimento ficar mais fraca. Esse é um motivo importante pelo qual eu sou menos otimista em relação às perspectivas para a China.

Valor: Mas a China não tem um potencial mercado interno de grandes proporções?

Rodrik: Sem dúvida, mas eles têm que reorientar a estratégia de crescimento em direção ao mercado doméstico. Como o crescimento dependeu bastante de grandes superávits comerciais, essa mudança produziria um ajuste muito custoso, com fechamento de fábricas e trabalhadores perdendo os seus empregos. Seria muito difícil administrar esse processo.

Valor: Depois de vários anos de otimismo em relação à economia brasileira, muitos analistas e investidores se tornaram céticos em relação ao Brasil, em geral citando a falta de reformas estruturais e perspectivas piores para as commodities. Em que medida esses dois fatores podem prejudicar o Brasil?

Rodrik: O processo de reformas estruturais é de longo prazo. Ele sempre caminha com progressos e paradas. Nós não deveríamos ficar tremendamente preocupados com isso. Em relação aos preços de commodities, eles têm produzido efeitos positivos e negativos para o Brasil. Obviamente a alta de preços estimula o crescimento no curto prazo, mas ao custo de afetar a indústria e valorizar a moeda, como consequência da doença holandesa. Por esse motivo, uma redução dos preços de commodities não é necessariamente algo ruim.

Valor: O sr. escreveu num artigo que, para os países em desenvolvimento, “o imperativo manufatureiro é nada menos do que vital”. A indústria manufatureira brasileira enfrenta uma crise de falta de competitividade, respondendo por 14,6% do PIB. Como esse problema afeta as perspectivas para o Brasil?

Rodrik: É um grande ponto de interrogação. O processo de desindustrialização é algo que está ocorrendo por todo o mundo. É uma questão de administrá-lo. Eu não acho que o Brasil possa voltar a ter uma indústria respondendo por 20% a 25% do PIB, sem mencionar os 35% a 40% do PIB de alguns países asiáticos. É uma corrida entre formar capital humano, para que se possa criar empregos de altos salários no setor de serviços, e a perda de emprego na indústria de trabalhadores relativamente pouco qualificados.

Valor: Mas esse problema na indústria não pode ofuscar as três qualidades que o sr. menciona, quando diz que o Brasil está mais bem posicionado que a maior parte dos países?

Rodrik: Comparado com muitos outros países, o Brasil tem capacidades significativas no setor manufatureiro. Não é uma questão de construir algo que não está lá. A base é muito boa. Com a taxa de câmbio correta e um conjunto correto de políticas industriais, que o Brasil está tentando adotar, o país pode ter um setor manufatureiro saudável.

Valor: O Brasil tem hoje um câmbio mais desvalorizado em relação aos últimos anos e o Banco Central está cortando os juros de modo agressivo, pelo menos para os padrões brasileiros. Em que medida isso vai ajudar o crescimento?

Rodrik: Ela tem o potencial de ajudar um pouco a indústria e o crescimento geral, mas os investidores tomam decisões para períodos que não se limitam aos próximos seis meses ou um ano. Eles fazem investimentos de longo prazo, de cinco anos, dez anos. Eles olham para o futuro e precisam de algum tipo de garantia de como estarão os juros e o câmbio não apenas hoje ou no mês que vem, mas daqui a dois anos ou daqui a cinco anos. O que é necessário em termos de administração do câmbio e de política monetária é um ajuste de médio prazo, de sinalizar uma política que levará em conta a taxa de câmbio e a competitividade muito mais do que no passado.

Valor: O BC deve dizer diretamente que tem uma meta para a taxa de câmbio, ou pelo menos que se preocupa com o nível do câmbio?

Rodrik: Eu colocaria do seguinte modo. O nível do câmbio afeta o crescimento potencial da economia e, consequentemente, na medida em que a política monetária é influenciada pelo crescimento potencial, a taxa de câmbio naturalmente entra nas decisões de política monetária. Há modos de trazer o nível do câmbio para as discussões de política monetária sem que seja necessário mudar fundamentalmente o arcabouço do regime de metas de inflação ou desistir da independência do BC.

Valor: Em março de 2011, o sr. disse, numa entrevista ao Valor, que o Brasil deveria crescer 7%, mas que, devido à combinação de juros altos e baixo investimento, 4% a 5% pareciam um sucesso. Neste mundo de baixo crescimento que o sr. antevê, que taxa o Brasil deve aspirar?

Rodrik: Acho que 5%, neste cenário global em que eu acredito, seria um grande sucesso.

Valor: O Brasil deve crescer menos de 2% neste ano. É algo cíclico ou mostra que crescer a taxas mais altas, como de 5%, é difícil?

Rodrik: Quando mencionei 5%, me refiro a uma média de médio prazo. Flutuações de um ano para o outro são naturais.

Valor: Então mesmo neste ambiente global adverso, ainda é possível para o Brasil crescer a essa taxa de 5% ao ano.

Rodrik: Acredito que, com os pontos fortes que tem, o Brasil é capaz de crescer 5%. O Brasil tem uma grande classe média, e tem potencial para crescer ainda mais.

Valor: O que o Brasil deve fazer para crescer a essa taxa?

Rodrik: A questão principal é sinalizar um ambiente em que se manterão os incentivos relativos para o investimento na indústria manufatureira e em outros setores tradables. É um ambiente de juros baixos e um câmbio relativamente competitivo. Se as políticas em curso conduzirem a essa combinação, já será uma grande ajuda.

Valor: Muitos analistas criticam o governo brasileiro por cortar impostos para setores específicos e tentar usar o BNDES para impulsionar o investimento. Como o sr. avalia essas iniciativas?

Rodrik: Acho que, em geral, vale a pena experimentar políticas industriais desse tipo. O que o Brasil está tentando fazer é um esforço que vale a pena, desde que seja pragmático, revisado à luz da evidência do seu impacto.

Valor: Escolher setores específicos não é um problema?

Rodrik: Não estou tão preocupado com políticas econômicas seletivas, que favoreçam alguns setores em vez de outros. Tenho mais preocupação em continuar com essas políticas quando elas claramente não estão funcionando. O teste real é se há capacidade de desistir dos perdedores. É isso o que quero dizer quando falo em abordagem pragmática. A experiência do Brasil no passado oferece muitas lições nesse sentido. Algumas políticas industriais não foram muito bem-sucedidas, como no setor de informática, mas outras, como no setor de aço e aviões, foram muito bem-sucedidas. Muitas indústrias exportadoras brasileiras não existiriam hoje, se o país não tivesse adotado políticas seletivas no passado.

15/07/2012 - 10:11h Especulações e Fatos

por Marcos Coimbra – Blog do Noblat

De uns tempos para cá, começou a ganhar circulação a ideia de que estamos marchando em direção à confluência de duas crises. Ambas graves.

De um lado, uma crise na economia, cujos sinais seriam já evidentes: redução do ritmo do crescimento, diminuição do investimento externo, retração na industria, queda no comércio internacional.

De outro, uma crise política, ainda não explicitada por completo, mas latente. Indicando-a, os recentes problemas no relacionamento político dentro da coalizão governista e uma presumida desarmonia na administração federal.
Não se estabelece com clareza quando as duas se encontrariam. Mas fica subentendido que antes de outubro de 2014. Ou seja, em tempo de influenciar – ou mesmo revolucionar – o ambiente em que ocorrerá a próxima eleição presidencial.

Trocando em miúdos: a sucessão de Dilma, antes previsível, estaria se tornando incerta. O amplo favoritismo que tem hoje seria engolido pelas crises, uma reforçando e amplificando a outra.

É desnecessário dizer que a tese da “crise perfeita que se avizinha” foi elaborada e está sendo difundida pelas oposições, muito especialmente a oposição não-partidária, na sociedade civil e na imprensa.

É difícil, atualmente, ler algum comentário ou interpretação que não a mencione ao discutir o cenário político atual e suas perspectivas. Tudo passou a ser visto em função dela.

Até coisas que nada têm de real.

Só um otimista irracional acreditaria que a economia brasileira poderia atravessar incólume as intempéries que atingem os países avançados. Vamos pagar um preço por elas e já o estamos pagando em alguns setores.

A questão não é, portanto, se teremos ou não dificuldades econômicas no futuro imediato, mas qual sua intensidade e quais suas consequências na política, mais especificamente na eleição de 2014. É isso que alguns pintam com cores sombrias, pois não gostam da perspectiva que sejam menos agudas.

Para estimar o que aguarda Dilma, convém não esquecer que Lula viveu a manifestação anterior dessa crise na economia global sem solavancos na popularidade.

Entre o final de 2008 e os primeiros meses de 2009, as pesquisas mostraram um expressivo incremento das preocupações da população a respeito de inflação, desemprego e perda de capacidade de consumo. Elas atingiram seu pico em dezembro de 2008, quando, em pesquisa da Vox Populi, 58% dos entrevistados disseram esperar a subida da inflação e 63% o aumento do desemprego.

Enquanto isso, a avaliação positiva do governo Lula sempre se manteve elevada, indo, de acordo com dados do Datafolha, de 55% em março de 2008 a 65% um ano depois, em março de 2009. Em outras palavras, atravessando a turbulência em ascensão.

O que vemos é que não há incompatibilidade entre percepção de problemas econômicos e aprovação governamental. Ao contrário do que pensam alguns, as pessoas são perfeitamente capazes de separar as duas coisas.

Quanto à “crise política”, o que estamos presenciando agora nada tem de diferente do que sempre acontece às vésperas de eleições municipais. Nelas, as alianças e coligações raramente repetem, em cada lugar, os acordos nacionais. Quem anda junto na hora de escolher presidente pode caminhar separado quando se discutem prefeituras.

Assim, as desavenças pontuais entre os partidos da base governista nada sinalizam quanto ao comportamento que adotarão daqui a dois anos. Lá, avançarão unidos – ou não – em função do que estiver acontecendo no momento, sem nem se lembrar que se enfrentaram neste ou naquele município.

Quem lê a imprensa internacional fica com impressão bem diferente do horizonte à nossa frente. Ninguém aposta – ou deseja – a “crise perfeita”.

No fundo, a tese nada mais é que a admissão de que, se nada de catastrófico ocorrer, a política brasileira continuará fundamentalmente como está.

O que equivale a reconhecer a força e a capacidade do “lulopetismo” e a julgar com severidade as oposições e suas lideranças.


Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

15/07/2012 - 10:02h Crise ainda ‘poupa’ mercado de trabalho

Desaceleração econômica não afeta empregos substancialmente. Cenário pode mudar se incertezas permanecerem no ano que vem
15 de julho de 2012

MÁRCIA RODRIGUES – O Estado de S.Paulo

A economia em marcha lenta e a crise financeira internacional não devem afetar o mercado de trabalho de forma significativa neste ano, embora setores da indústria registrem desemprego.

“Se o cenário de desaceleração econômica persistir, podemos começar a sentir um encolhimento, ainda que pequeno, apenas a partir do primeiro quadrimestre do ano que vem. Antes, o cenário continua positivo para a maioria dos setores”, prevê o professor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), Luiz G. Brom, doutor em sociologia e especialista em mercado de trabalho.

Segundo Brom, apesar da desaceleração, não há ainda um reflexo no mercado de trabalho. “Se vai apresentar em médio prazo, vai depender da própria performance econômica nos próximos meses. Porém, nós não podemos esquecer de que o Brasil teve altas taxas de crescimento muito recentemente.”

Para o economista, mesmo que o País cresça pouco em 2012, ele vai crescer pouco, mas depois de ter crescido muito nos últimos anos. “Estamos em um patamar de atividade muito mais elevado do que há alguns anos. Por outro lado, se o esfriamento continuar, o mercado de trabalho deverá sofrer consequências. Mas no momento nenhuma pesquisa ou indicador demonstra este quadro”, diz.

Brom cita como exemplo os indicadores de maio da pesquisa mensal de emprego (PME) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Eles são positivos. Alguns setores, inclusive, demonstram acréscimo.” Entre os setores que continuaram com a criação de vagas em alta estão: construção, que passou de 7,7% em maio do ano passado para 7,9% para o mesmo mês neste ano; atividades financeiras, que foi de 15,9% para 16,3% no mesmo período; e serviços, que foi de 17,4% para 17,6% (veja tabela completa acima).

“O único setor que vem registrando queda no número dos postos de trabalho é a indústria”, afirma o professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da Universidade de São Paulo (USP), Hélio Zylberstajn.

Segundo o professor, a indústria tem mostrado incapacidade de criar vaga já há algum tempo. “O setor não está conseguindo ser competitivo. Não consegue exportar e vem perdendo mercado interno por conta do aumento das importações.”

De acordo com o indicador do IBGE, a criação de postos de trabalho foi de 16,7%, em maio de 2011, para 16,1% no mesmo mês deste ano. Outra pesquisa, divulgada na última quinta-feira pela Federação e o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp), apontou que a indústria paulista fechou sete mil postos de trabalho em junho, registrando uma queda no mês de 0,39% (veja matéria abaixo).

“Apesar do encolhimento na criação de vagas registrado na indústria, o mercado de trabalho não vem sentindo a retração, porque o setor representa apenas 20% dos postos abertos no País”, afirma Zylberstajn.

Outro economista que acredita que o único impacto da crise vem sendo sentido apenas pela indústria é o professor e pesquisador da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Rodrigo Leandro Moura. “Enquanto a indústria sinaliza uma pequena retração, já que a taxa de desemprego continua baixa, percebemos um acréscimo na população ocupada (pessoas economicamente ativas) no trabalho informal.”.

De acordo com o professor, é possível medir este crescimento, porque a pesquisa do IBGE contabiliza, além dos trabalhadores que atuam com ou sem carteira assinada, os profissionais que exercem suas atividades por “conta própria” e os empregadores, ou seja, todas as pessoas que possuem algum tipo de rendimento. O porcentual de ocupados passou de 53,6%, em maio de 2011, para 54,2%, em maio deste ano. Enquanto o de desocupados caiu de 3,6% para 3,3% no mesmo período. “Um fator que pode ter contribuído para este acréscimo é o aumento da adesão ao microempreendedor individual (MEI)”, comenta Moura.

Economista da LCA Consultores, Caio Machado acredita que o cenário deve melhorar no segundo semestre, por conta das medidas econômicas anunciadas pelo governo. “Além dos fatores sazonais, como a abertura de vagas temporárias que ocorrem neste período, a expectativa é de as medidas monetárias e fiscal do governo comecem a se refletir no desempenho das empresas nos próximos meses.”

Opinião semelhante tem a vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Elaine Saad. Segundo ela, alguns setores continuam sofrendo com a escassez de mão de obra qualificada. E, mesmo com a economia desacelerada, ainda devem continuar com as contratações em alta. “O déficit em alguns casos é tão grande, que não será possível sentir a falta de postos de trabalho.”

Entre os setores que manterão as contratações estão engenharia, principalmente a civil e de petróleo e gás, e tecnologia da informação. “Esta crise não está tão perceptível para o mercado de trabalho como a de 2009. Não estamos percebendo fechamento de vagas”, diz.

13/07/2012 - 09:00h Operários da GM ameaçam fazer greve

Por Eduardo Laguna, Stella Fontes e Virgínia Silveira* | De São Paulo e São José dos Campos – VALOR

O fim da produção da minivan Zafira na fábrica da General Motors (GM) em São José dos Campos (SP) agravou a já tensa relação entre a montadora e o sindicato local, que trava campanha contra a possibilidade de fechamento da linha de montagem de carros. Ontem, os operários atrasaram a produção em duas horas e aprovaram estado de greve na fábrica – ou seja, ameaçam cruzar os braços em 48 horas.

Durante a manhã, em reunião intermediada pelo Ministério do Trabalho no Centro de São Paulo, representantes da GM e do sindicato acertaram manter negociações permanentes sobre o futuro da unidade. As partes devem voltar a se reunir nos próximos dias 20 ou 25. Segundo Luiz Moan, diretor de Assuntos Institucionais da montadora, o sindicato se mostrou mais disposto a negociar.

No encontro, os sindicalistas manifestaram a preocupação sobre o que vai acontecer na fábrica. Por sua vez, a montadora apontou que as condições colocadas nas últimas negociações trabalhistas impediram investimentos adicionais em São José dos Campos.

A GM está produzindo em apenas um turno na linha de montagem de carros, de onde saem os modelos Corsa, Classic e Meriva. A produção da Zafira foi encerrada ontem, em uma decisão atribuída pela montadora ao grande acúmulo de estoque do modelo.

Moan reafirmou que a GM, por enquanto, não tem planos de investir na unidade. “Neste momento não tenho modelo novo para montar em São José.”

Por sua vez, o sindicato diz que a possibilidade de fechamento da linha de montagem de carros pode resultar em 1,5 mil demissões. A entidade quer uma intervenção do governo federal no caso e defende a exclusão da montadora da medida de redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Para conseguir esse incentivo, as montadoras se comprometeram a não demitir, além de praticar descontos nas vendas de automóveis.

Diante da queda na demanda, a empresa fez ajustes de mão de obra com o lançamento de um programa de demissões voluntárias, que teve a adesão de 356 metalúrgicos. “Não vamos aceitar que a GM demita trabalhadores e seja beneficiada por isenção fiscal”, afirmou o presidente do sindicato, Antonio Ferreira de Barros, mais conhecido como Macapá.

Segundo a agremiação sindical, 146 carros e 300 motores deixaram de ser produzidos em razão da paralisação de ontem. O sindicato prepara novas manifestações nos próximos dias, o que inclui caravana para Brasília na quarta-feira e protestos em frente a concessionárias da marca.

Macapá diz que, na reunião de ontem, a montadora em nenhum momento se comprometeu em garantir a manutenção dos postos de trabalho. “A GM insiste em dizer que o mercado é que irá definir o futuro da unidade de São José, mas no próximo dia 23 ficou de tomar uma decisão sobre o setor”, afirma.

Após a reunião com os sindicalistas, Moan participou de seminário sobre o novo regime automotivo em São Paulo e citou o aumento dos custos trabalhistas – que vem subindo, em termos reais, de 2% a 3% ao ano – entre os fatores que estão tirando a competitividade da indústria nacional.

Em São José, o secretário de governo da cidade, Alfredo de Freitas de Almeida, disse que a prefeitura aguarda com preocupação a decisão da GM sobre o futuro da linha de montagem, mas que qualquer ingerência da administração municipal está fora de questão. “Há cerca de dois anos a prefeitura tentou interceder junto à GM sobre dois importantes investimentos que poderiam vir para São José, mas este esforço não pôde ser finalizado pela interrupção das negociações com o sindicato dos metalúrgicos”.

Terceira marca mais vendida no país, a GM respondeu por 17,8% do volume de carros de passeio e veículos utilitários leves emplacados nos seis primeiros meses do ano. Dos R$ 5,5 bilhões investidos pela companhia no Brasil em cinco anos, apenas R$ 800 milhões foram destinados à fábrica de São José dos Campos, que não tem sido contemplada no programa de renovação de linhas do grupo. (*Para o Valor)

12/07/2012 - 12:10h A desigualdade inibe o crescimento

Por Raghuram Rajan – VALOR

Para compreender como conseguir uma recuperação sustentada da Grande Recessão, precisamos entender suas causas. E identificar as causas significa partir das evidências.

Dois fatos se destacam. Primeiro, a demanda mundial de bens e serviços está muito mais fraca, tanto na Europa como nos EUA, do que nos anos de economia aquecida anteriores à recessão. Em segundo lugar, a maior parte dos ganhos econômicos nos EUA em anos recentes beneficiou os ricos, ao passo que a classe média, em termos relativos, ficou para trás. Na Europa, as preocupações em relação à desigualdade de renda doméstica, embora mais atenuadas, são agravadas pela angústia diante da desigualdade entre países: a Alemanha progride vigorosamente, enquanto os países periféricos sulinos perdem sustentação.

Explicações persuasivas sobre a crise apontam para os vínculos entre a morna demanda atual e a crescente desigualdade de renda. Economistas progressistas argumentam que nos EUA o enfraquecimento dos sindicatos, juntamente com políticas fiscais que favorecem os ricos, retardaram crescimento da renda da classe média, ao mesmo tempo em que os programas tradicionais de transferência de renda foram cortados. Com suas rendas estagnadas, as famílias foram incentivadas a se endividar, especialmente oferecendo suas moradias como garantia, para manter o consumo.

Quando uma Europa reformada começar a crescer, regiões do continente poderão experimentar desigualdades no estilo americano. Mas o crescimento poderá proporcionar recursos para enfrentar isso. Muito pior seria evitar reformas sérias.

A chave para a recuperação, portanto, é tributar os ricos, aumentar as transferências de renda e restaurar a renda dos trabalhadores ampliando o poder de negociações sindicais e elevando os salários mínimos.

Países como a Alemanha, que reformaram suas leis trabalhistas para criar maior flexibilidade para os empregadores e não elevaram os salários rapidamente parecem estar em melhor forma econômica do que países como a França e a Espanha, onde os trabalhadores foram mais protegidos.

Por isso, considere o leitor uma explicação alternativa: a partir do início dos anos 1970, as economias avançadas encontraram cada vez mais dificuldades para crescer. Países como os EUA e o Reino Unido acabaram reagindo positivamente à desregulamentação de suas economias.

Maior competição e a adoção de novas tecnologias fizeram crescer a demanda e a renda de trabalhadores altamente qualificados, talentosos e com ótima escolaridade engajados em tarefas não rotineiras, como de consultoria. Funções mais rotineiras, antes bem remuneradas, desempenhadas por trabalhadores não qualificados ou moderadamente escolarizados foram automatizadas ou terceirizada. Assim, a desigualdade de renda surgiu não predominantemente devido a políticas que favorecem os ricos, mas porque a economia liberalizada favoreceu as pessoas instrumentadas para tirar proveito dela. A resposta política míope às preocupações das pessoas deixadas para trás foi facilitar seu acesso ao crédito.

A Europa Continental não desregulamentou tanto e preferiu buscar o crescimento em maior integração econômica. Mas o preço por proteger os trabalhadores e empresas foi crescimento mais lento e maior desemprego. E, embora a desigualdade não tenha crescido tanto quanto nos EUA, as perspectivas de emprego foram terríveis para os jovens e desempregados, que foram deixados fora do sistema protegido.

O advento do euro foi, aparentemente, uma bênção, porque reduziu os custos de financiamento dos países e permitiu que criassem empregos mediante gastos financiados por endividamento. A crise acabou com esses gastos, seja por parte de governos nacionais (Grécia), de governos locais (Espanha), pelo setor de construção civil (Irlanda e Espanha) ou pelo setor financeiro (Irlanda). Infelizmente, os gastos passados pressionaram uma alta dos salários sem um aumento proporcional da produtividade, deixando os grandes gastadores endividados e não competitivos.

A importante exceção a esse padrão é a Alemanha, acostumada a baixos custos para tomar empréstimos mesmo antes da sua entrada na zona euro. Alemanha teve de enfrentar um desemprego historicamente elevado, decorrente da reunificação com uma “doente” Alemanha Oriental. Nos anos iniciais do euro, a Alemanha não teve outra opção senão reduzir as proteções aos trabalhadores, limitar os aumentos salariais e reduzir as pensões, ao tentar fazer subir o nível do emprego.

A visão alternativa sugere soluções diferentes. Os EUA deveriam se concentrar em ajudar a adaptar a educação e as competências das pessoas que estão sendo deixadas para trás nos empregos disponíveis. Isso não será fácil ou rápido, mas é melhor do que conviver com corrosivos níveis elevados de desigualdade de oportunidades, bem como com um grande segmento da população dependente de transferências de renda.

Para as regiões não competitivas da zona do euro, as reformas estruturais não podem mais ser adiadas. Mas, dadas as grandes necessidades de ajustes, não é politicamente viável fazer tudo, inclusive um doloroso aperto fiscal, imediatamente. Menos austeridade, embora não seja uma estratégia sustentável para o crescimento, poderá aliviar o sofrimento do ajuste. Esse, em suma, é o dilema fundamental com que se defronta a zona do euro: a periferia precisa de financiamento enquanto se ajusta, ao passo que a Alemanha diz que não pode confiar que os países farão reformas depois que receberem dinheiro.

Os alemães vêm insistindo em mudanças institucionais – um controle mais centralizado da zona do euro sobre os bancos e orçamentos de governo da periferia, em troca de maior acesso ao financiamento à periferia.

A Europa poderá ficar em melhor situação com medidas paliativas. Se a confiança na Itália ou na Espanha voltar a se deteriorar, a zona do euro poderá ter que recorrer à tradicional ponte entre credibilidade fraca e baixo custo de financiamento: um programa monitorado de reformas no estilo defendido pelo Fundo Monetário Internacional.

Tais programas não podem dispensar a necessidade de determinação governamental, como demonstram as dificuldades da Grécia. E os governos odeiam a perda implícita de soberania e a humilhação. Mas governos determinados, como os do Brasil e da Índia, negociaram programas, no passado, que os colocaram no caminho de um crescimento sustentado.

Quando uma Europa reformada começar a crescer, regiões do continente poderão experimentar desigualdades no estilo americano. Mas o crescimento poderá proporcionar os recursos para enfrentar isso. Muito pior, para a Europa, seria evitar reformas sérias e entrar em declínio igualitário e bem comportado. O Japão, e não os EUA, é o exemplo a evitar.

(Tradução de Sergio Blum)

Raghuram Rajan foi economista chefe do FMI, é professor de Finanças na Booth School of Business, da University of Chicago e autor de Fault Lines: How Hidden Fractures Still Threaten the World Economy (linhas de fraturas: como falhas ocultas ainda ameaçam a economia mundial.

12/07/2012 - 08:48h Não é a Europa, é a China!

12 de julho de 2012

Alberto Tamer – O Estado de S.Paulo

O Brasil está preparado para enfrentar a crise na zona do euro, tem reservas, tem liquidez, pode reduzir os juros porque a inflação recua, tem um mercado financeiro saudável, conta ainda com o potencial do mercado interno, mas está preparado para a desaceleração da China. E aumentam os sinais de que o PIB chinês não deve passar de 7,5% este ano. Muitos analistas falam no comércio entre os dois países, com a China importando menos, mesmo assim, ainda comprando commodities, petróleo, minério de ferro, soja. Além disso, argumentam, o comércio entre os dois países – importação e exportação -, hoje de US$ 37,2 bilhões, continua vigoroso. Cresceu 7% no primeiro semestre do ano, sobre igual período de 2011. É verdade que as importações da China aumentaram 9% enquanto as exportações apenas 6%, mas o Brasil ainda acumula um superávit de US$ 5,1 bilhões no semestre.

Medo de quê? Sim, se a China continua sendo um dos maiores e mais vigorosos mercados do Brasil, onde está o problema? Aqui, um aspecto para o qual poucos atentam. A China não está importando menos do Brasil ou algo parecido, está crescendo menos e importando menos do mundo, Ou seja, dos nossos parceiros comerciais – Estados Unidos, Europa – e nem falamos do espaço que ela está roubando dos produtos brasileiros na Argentina e no mercado mundial. A China é, com os Estados Unidos, o maior importadora mundial, em torno de US$ 2 trilhões por ano; representa cerca de 16% do comércio mundial. Seus principais parceiros são Estados Unidos, União Europeia e Japão – em recessão, ou crescendo não mais que 1,5%.

E os números divulgados esta semana em Pequim mostram que a economia chinesa está crescendo menos; o FMI estima 7,5%, o governo fala em 8,0%. E um crescimento sustentado pelo setor imobiliário onde surgem nítidos sinais de superaquecimento e especulação. Uma pesquisa feita na China mostra que 1 entre 5 pessoas compraram dois imóveis. Já se viu isso nos Estados Unidos e, agora, na Espanha. Esses mesmos indicadores informam que os investimentos representam 49% do PIB, em obras do governo, sim, mas a maior parte no setor imobiliário. Desde 2010, o governo procurou desestimular as compras especulativas, aumentou em 60% a entrada para adquirir um segundo imóvel, mas dá sinais de estar recuando. O consumo interno, que representa 35% do PIB chinês, não está reagindo e a saída encontrada pelo governo é forçar o aumento das exportações, importar menos e intensificar a compra de produtos nacionais.

E é isso que os números do comércio exterior chinês confirmam. As exportações chinesas aumentaram 11,3% em junho e as importações apenas 6,3%. E isso ocorreu em todos os setores, não apenas de commodities. A China voltou a usar o câmbio. “O ritmo no crescimento do comércio na segunda economia do mundo recuou para o nível mais baixo desde a crise global de 2008. Como a demanda interna não reagiu aos estímulos ainda indefinidos do governo, pode-se esperar mais pressão sobre o mercado externo”, afirma Alister Cham, da Moody’s Analistic.

“A desaceleração das importações chinesas foi maior do que se esperava”, e se espera mais porque há nítidos sinais de que a economia chinesa não deve reagir este ano. Haverá mais protecionismo e mais pressão sobre o mercado externo. Só que será difícil encontrar mais espaço nos Estados Unidos ou Europa, que representam quase 50% das exportações chinesas. Restam os outros países. Nós.

Comércio encolhe. O que a OMC e a Unctad (Agência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento) estão prevendo é uma forte desaceleração do comércio mundial, que deve crescer menos de 3,7% depois de haver aumentado apenas 5% no ano passado e 13% em 2010.

Não é só isso. Mas os indicadores da China não mostram apenas uma retração do comércio mundial; afinal, isso poderia ser compensado pelos outros países com maior incentivo à demanda interna e aos investimentos. É muito mais. O que a China confirma é a desaceleração da economia mundial que, já se prevê, não deve crescer muito mais de 3% este ano. Não há mercado externo, não há incentivos internos nos países que representam quase 60% do PIB mundial. Um cenário inquietante e desanimador no qual o Brasil tenta, mas ainda não se ajustou. Não é a Europa, a zona do euro. É tudo. É a economia mundial que está parando.

12/07/2012 - 08:07h A política fiscal deste ano já é anticíclica

Por Ribamar Oliveira – Valor

Somente uma forte retomada da atividade econômica neste segundo semestre, junto com o uso de alguns truques fiscais, permitirá ao governo cumprir a meta de superávit primário deste ano. Os sinais disponíveis, no entanto, não permitem afirmar que a recuperação já está em curso. O temor do governo é que a desaceleração atinja, agora, o emprego e a renda das famílias, o que tornaria o cenário mais difícil.

Para enfrentar esse quadro adverso, o governo tem sacrificado a sua própria receita, com desonerações tributárias sucessivas. Apenas para citar as mais importantes, o Tesouro Nacional perderá cerca de R$ 4,7 bilhões com a redução para zero das alíquotas da Cide-combustíveis, R$ 1,2 bilhão com a diminuição do IPI sobre automóveis e comerciais leves e R$ 1,8 bilhão com a desoneração da folha de salários de alguns setores.

O governo anunciou também uma elevação de R$ 6,6 bilhões nas despesas com compras governamentais este ano, justamente para desafogar alguns setores industriais e, dessa forma, evitar que eles demitam trabalhadores. O movimento de dispensa de empregados já pode ser observado em alguns polos industriais, como mostrou o Valor na edição de ontem.

O governo reluta em admitir que o gasto é expansionista

Todas essas medidas estão sendo adotadas no momento em que despenca a receita tributária administrada pela Secretaria da Receita Federal, refletindo o desaquecimento a economia. Em relação ao que foi inicialmente projetado para este ano, a frustração da receita de janeiro a junho deste ano está próxima de R$ 20 bilhões, de acordo com fontes do governo.

O dado relevante é que a queda em relação ao previsto é disseminada, ou seja, atinge todos os tributos arrecadados pela Secretaria da Receita Federal (sem considerar a contribuição previdenciária). Não poderia ser diferente, pois a Receita Federal fez sua previsão com base em um crescimento da economia de 4,5% este ano.

O desaquecimento da economia, que ocorre desde o terceiro trimestre do ano passado, afetou fortemente a lucratividade das empresas, principalmente do setor industrial. Por isso, as frustrações mais significativas da arrecadação estão sendo registradas no Imposto de Renda da Pessoa Jurídica (IRPJ) e na Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL).

No início deste ano, a arrecadação tributária foi sustentada, principalmente, pelo crescimento da massa salarial, ou seja, do emprego e da renda das famílias, que se reflete no aumento do consumo. Mas esse crescimento da massa salarial poderá ser contido, caso as demissões de trabalhadores continuem. Menos expansão da massa salarial representará menor consumo e, por conseguinte, menor receita tributária. A maior vítima desse movimento será a arrecadação da Previdência Social, que cresceu até maio deste ano 8,6% acima da inflação, em virtude do aumento da formalização da mão de obra.

No dia 20 de julho, o governo vai divulgar o relatório de avaliação de receitas e despesas relativo ao terceiro bimestre e terá que mudar os parâmetros para suas estimativas da receita. A nova previsão para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) provavelmente ainda refletirá um desejo do governo de crescimento maior do que a realidade. Nos bastidores, a equipe econômica não acredita em expansão econômica superior a 2% em 2012.

O importante, no entanto, é saber como a atividade econômica se comportará neste segundo semestre, pois a frustração da receita no primeiro semestre já está dada. Se houver um crescimento significativo nos próximos meses, a arrecadação poderá se recuperar e, desta forma, salvar a meta fiscal. Com a ajuda de alguns truques fiscais, como a elevação das receitas de dividendos das estatais.

O mais provável é que a recuperação econômica, se ainda ocorrer este ano, será lenta. O governo alimenta a esperança de que a atividade estará em ritmo mais acelerado no último trimestre de 2012. O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, chegou a prever, em pronunciamento no mês passado, que a economia estaria ‘rodando’ a 4% no fim deste ano, em decorrência dos estímulos monetários e fiscais já dados.

Se a retomada da economia for lenta, haverá nova frustração das receitas em relação à estimativa oficial e a meta fiscal estará comprometida, pois o governo certamente não reduzirá suas despesas. O debate sobre o cumprimento da meta, no entanto, tornou-se irrelevante, pois todas as medidas fiscais adotadas mostram o desenho de uma política anticíclica. O curioso da situação é o incômodo sentido pelo governo em assumir o caráter anticíclico da política que executa.

O governo agarra-se à ideia de que o seu compromisso de obter a meta de superávit primário deste ano abre espaço para que o Banco Central reduza a Selic, a taxa básica de juros da economia. Mas está claro para a maioria dos analistas que o BC reduz a Selic porque a economia está crescendo abaixo de seu potencial e a inflação está sob controle, e não porque o superávit primário será obtido.

Quem se der ao trabalho de olhar o resultado do Tesouro Nacional nos primeiros cinco meses deste ano, poderá observar com clareza que as despesas estão crescendo 5% acima do PIB. Ou seja, a política fiscal deste ano é claramente expansionista. A única despesa que está sendo contida pelo governo é com o pagamento dos salários dos funcionários públicos.

Nesse ritmo de crescimento das despesas, o superávit primário só será alcançado se a arrecadação aumentar também em ritmo acelerado, o que, este ano, provavelmente não acontecerá. Para obter o superávit primário, o governo poderá até mesmo apelar para receitas extraordinárias e aumento dos dividendos, mas, como todos já aprenderam, esses truques não têm qualquer efeito sobre a demanda agregada e, por isso, são pouco relevantes para ajudar o Banco Central a reduzir os juros.

O importante é que o aumento das despesas públicas decorra dos investimentos em infraestrutura, o que, infelizmente, o governo não consegue fazer.

Ribamar Oliveira é repórter especial e escreve às quintas-feiras

E-mail: ribamar.oliveira@valor.com.br

10/07/2012 - 10:29h Solução da crise nem em 20 anos

Por Wolfgang Münchau – VALOR

Eu fiquei imaginando: quem compra ativos de risco depois de uma dessas “históricas” declarações do Conselho Europeu. Às vezes a alta dura algumas horas, outras vezes, apenas dias. A mais recente terminou em menos de uma semana; os spreads italianos e espanhóis já estão acima dos níveis pré-cúpula.

O consenso entre os observadores era de que a União Europeia (UE) tinha dado um importante passo na direção certa, adotando um caminho para a união bancária, mas que não havia feito o suficiente quanto à resolução de crises. Discordo dessa afirmação. Acredito ter sido um passo muito grande – na direção errada. A cúpula fez com que a solução concreta para a crise dependesse de uma decisão futura, que será ainda mais difícil de tomar e, portanto, ainda mais improvável.

Foi acordado que não haverá uma recapitalização bancária coletiva até que seja estabelecida uma união bancária completa, e o Bundesbank nos lembrou que isso não é possível sem uma união política. A conclusão lógica é que não vamos resolver a crise em menos de 20 anos.

Um grupo de 160 economistas, liderado por Hans-Werner Sinn, presidente do instituto econômico Ifo, publicou um manifesto contra uma união bancária. O documento veio recheado de som e fúria, mas o mais importante é que reflete uma visão consensual

O que sabemos agora é que a Alemanha não concordará com um seguro coletivo sobre depósitos. Os alemães sequer concordam em dar ao Mecanismo de Estabilidade Europeu uma “licença bancária” para que possa alavancar-se. Se a Alemanha não pode fazer o mínimo necessário agora, por que alguém imaginaria que poderá aceitar uma união política? Mais fácil é acreditar na promessa de um alcoólatra de que deixará de beber daqui a cinco anos.

A política de socorro ao euro cruzou um importante limiar na Alemanha. Uma pequena maioria ainda é favorável ao euro, mas a maioria é contrária a novos socorros. Um grupo de 160 economistas, liderado por Hans-Werner Sinn, presidente do instituto econômico Ifo, publicou na semana passada um manifesto contra uma união bancária. O documento veio recheado de som e fúria, mas o mais importante é que reflete uma visão consensual.

A resposta de Angela Merkel foi reveladora. Ela disse não haver nenhum motivo para preocupações. A união bancária diz respeito a supervisão coletiva, disse ela. Não haverá seguro conjunto de depósitos. Ela tem um entendimento muito distinto do Banco Central Europeu (BCE) sobre o que significa uma união bancária. Acredito que essa nova união bancária cubra os 25 maiores bancos e deixará as “cajas” e os “Landesbanken” sob controles nacionais. É como um alcoólatra prometendo doravante beber apenas os melhores conhaques.

A união bancária necessária é aquela que a Alemanha não aceitará: regulamentação e supervisão centralizadas, um fundo comum para reestruturação e seguro de depósitos. Isso levaria anos para ser criado. Se conduzido apropriadamente, isso exigiria uma mudança das constituições nacionais e de tratados europeus, ao menos para redefinir o papel do BCE. É loucura total sujeitar a solução da crise ao êxito do que seria o maior exercício de integração europeia na história.

Com as taxas de juro dos títulos de 10 anos acima de 6%, tanto a Itália como a Espanha poderão sustentar sua participação na zona do euro. Isso é o que Mario Monti e Mariano Rajoy deveriam ter deixado claro a Merkel durante a cúpula. Eles deveriam ter dito a ela que seus governos irão se preparar para saírem da zona do euro caso não haja mudança na política. Uma solução exige eurotítulos – ou alguma outra forma de mutualização da dívida – tanto do setor público como do setor privado, e compras de títulos pelo BCE. A Alemanha não aceita a primeira condição. O BCE não aceita a segunda.

Se algo não é sustentável nem autocorretivo, sobram apenas dois cursos de ação. A primeira é esperar pacientemente até que ocorra uma ruptura na situação. Essa é a estratégia seguida pelo Conselho Europeu e por alcoólatras. A alternativa é começar a fazer os preparativos – e tomar cuidado para não provocar uma ruptura nesse processo. É difícil imaginar uma saída sem desrespeitar centenas de leis nacionais e europeias. É por essa razão que ninguém está fazendo isso. (O país que o fizesse) precisaria alegar “força maior” em sua defesa. Levou uma década para que o euro fosse criado. Será preciso mais do que um fim de semana prolongado para destruí-lo. Um colapso se constituiria no maior choque econômico de nossa época. Mas, entre uma lista de opções de ruptura, algumas são melhores que outras. Escreverei sobre isso em uma coluna futura.

Em novembro, escrevi que o Conselho Europeu tinha dez dias para salvar o euro. Se naquele momento tivessem lançado as bases para uma união bancária e fiscal, poderiam estar agora em condições de obter um consenso em torno de uma estratégia eficaz para solução da crise baseada em recapitalização dos bancos e compras de títulos. Não o fizeram naquele momento. E não estão em condição de solucionar a crise agora.

Para mim, a mensagem da cúpula é de que a zona euro não solucionará a crise. Nesse sentido, foi, de fato, uma reunião “histórica”. (Tradução de Sergio Blum).

Wolfgang Münchau é editor do FT, especialista em União Europeia.

10/07/2012 - 10:09h OCDE prevê mais freada, exceto para o Brasil

Por Paul Hannon | Dow Jones Newswires – VALOR

A maioria das principais economias deverá desacelerar nos próximos meses. Apenas o Brasil deverá registrar uma aceleração, segundo os indicadores antecedentes compostos da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Os indicadores, que se mostraram confiáveis no passado, representam um golpe a qualquer esperança que ainda havia entre as autoridades do mundo inteiro de uma rápida saída de um período de atividade anêmica. Eles aumentam também a probabilidade de os bancos centrais adotarem novas medidas destinadas a respaldar o crescimento.

O instituto de análise e pesquisa sediado em Paris disse ontem que seu indicador antecedente do nível de atividade econômica dos 34 países desenvolvidos que o compõem caiu para 100,3 pontos em maio, em relação aos 100,4 pontos de abril. Os números, segundo a OCDE, apontam para um “crescimento declinante”.

Seus indicadores antecedentes das economias em desenvolvimento foram ainda mais pessimistas, ao sinalizar “desacelerações” – ou um crescimento inferior à taxa tendencial de longo prazo – para China, Índia e Rússia.

“Os indicadores antecedentes compostos apontam para uma diminuição da atividade econômica na maioria das principais economias da OCDE e para uma desaceleração mais marcante na maioria das principais economias não filiadas à OCDE”, afirmou a organização.

Entre os países desenvolvidos, o principal foco de fragilidade continua sendo a zona do euro, para a qual o indicador antecedente aponta para a persistência da desaceleração. No entanto, as perspectivas das principais economias em desenvolvimento também se enfraqueceram significativamente nos últimos meses.

O indicador antecedente para a China caiu por todos os meses deste ano e voltou a diminuir em maio, para 99,2 pontos, a partir dos 99,4 pontos de abril. Os indicadores antecedentes de Índia e Rússia também estão em persistente trajetória descendente.

Em mais um sinal de que a segunda maior economia mundial está desacelerando, os dados divulgados ontem mostraram que a taxa anual de inflação da China caiu em junho para seu nível mais baixo de quase dois anos e meio.

Os indicadores antecedentes da OCDE são concebidos para fornecer antecipadamente indícios de pontos de inflexão entre a expansão e a desaceleração do nível de atividade econômica. Eles têm como base uma ampla variedade de séries de dados que têm um histórico de indicar modificações do nível de atividade econômica.

A principal exceção à tendência declinante geral foi o Brasil, que teve seu indicador antecedente elevado de 99,0 pontos de abril para 99,2 pontos em maio, o que, segundo a OCDE, é sinal de que o crescimento do país vai se acelerar.

10/07/2012 - 10:04h Investidor ‘paga’ para emprestar à Alemanha


Disparidade entre a 1ª economia do euro e a 4ª, a Espanha que teve de pagar juro insustentável, fica ainda mais evidente

10 de julho de 2012

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL/ FRANKFURT – O Estado de S.Paulo

A moeda do euro tem de fato dois lados. Ontem, o governo da Espanha é obrigado a pagar uma taxa de juro recorde para se financiar e esteve mais uma vez à beira de declarar a incapacidade de se financiar apenas no mercado. Já a Alemanha vive um fenômeno totalmente oposto: eram os investidores que estavam pagando ontem para financiar o Estado alemão, em troca de um lugar seguro para seu dinheiro.

A disparidade não é entre a maior economia da região e a mais insignificante delas. Mas si entre a número 1 e a número 4.

Nos últimos meses, a economia alemã se transformou em um destino seguro para capital de toda a Europa, em busca de estabilidade e risco zero em meio à crise 200 bilhões saíram dos bancos espanhóis e um volume importante também deixou Grécia e Portugal.

Ontem, quando o Tesouro alemão colocou em leilão papéis de sua dívida, a procura foi tão intensa que a taxa de juros que paga como prêmio ao investidor por apostar na capacidade do país de o compensar atingiu uma taxa negativa. Ela bateu um índice de -0,3%, um recorde. Segundo o Bundesbank, o BC alemão, a procura pelos 5,5 bilhões em papéis colocados no mercado bateu todas as previsões.

A crise, segundo analistas em Frankfurt consultados pelo Estado, garantiu à Alemanha dois anos de um financiamento quase sem custos ao Estado, algo inédito nos últimos 70 anos. Só em 2011, a estimativa é de que Berlim economizou 20 bilhões em juros que poderia ter de pagar para financiar suas dividas.

O fenômeno de ontem foi além e revelou que investidores, diante das incertezas na Europa, estão dispostos a pagar para deixar seu dinheiro em um local seguro. Os alemães comemoraram. Afinal, essa é a segunda vez que isso acontece este ano.

Lado oposto. Em um dia em que ficou evidente todas as contradições na Europa, a Espanha viu a taxa de risco bater um novo recorde, mesmo diante de todas as promessas de reformas e do resgate que receberá da UE para seus bancos. Ontem, títulos do Tesouro espanhol com maturidade de dez anos atingiram uma taxa de juros de 7%, considerada como insustentável.

10/07/2012 - 10:00h Hollande sob pressão

Valor

O PIB da França teve uma contração de 0,1% no segundo trimestre do ano contra o período anterior, segundo uma projeção mensal realizada pelo Banco Central do país, confirmando a delicada situação econômica em que se encontra a segunda maior economia da zona do euro. No primeiro trimestre, a França teve crescimento zero. O número coloca mais pressão sobre o presidente socialista François Hollande (foto), que participou ontem de uma “cúpula social”, com sindicalistas e empresários em Paris. Durante o encontro, executivos pediram ao presidente que promova um “choque de competitividade” para tirar o país do “pântano”.

Thibault Camus/AP

10/07/2012 - 09:52h Europa ergue nova Cortina de Ferro, mas entre o sul e o norte

10 de julho de 2012

O Estado de S.Paulo – Análise. Paul Taylor, da Reuters

Aumentam os sinais de que a união monetária e econômica da Europa pode estar se fragmentando tão rápido a ponto de os governantes mal conseguirem repará-la.

No dia 29 de junho, os líderes da zona do euro concordaram com os princípios do estabelecimento de uma autoridade supervisora conjunta do setor bancário para a área da moeda única composta por 17 nações, com base no Banco Central Europeu, embora a maior parte dos detalhes ainda precise de elaboração.

A proposta foi um primeiro passo provisório rumo à união europeia de bancos que poderá se caracterizar por uma garantia de depósitos conjunta e um fundo de resolução de crises para o setor bancário. O objetivo é impedir a corrida aos bancos e o colapso das instituições, problemas que poderiam enviar ondas de choque por todo o continente.

Mas é possível que a tentativa de estabelecer às pressas os primeiros elementos desse sistema até o próximo ano ocorra tarde demais.

A fuga dos depósitos dos bancos espanhóis está acelerando e não se sabe ao certo se um acordo da zona do euro para um empréstimo de até 100 bilhões a Madri em fundos de ajuda será capaz de reverter o fluxo, caso os investidores temam que a Espanha possa enfrentar um resgate total da dívida soberana.

Muitos bancos estão se reorganizando – ou sendo forçados a se reorganizar – de acordo com linhas nacionais, acentuando uma divisão entre norte e sul cada vez mais profunda.

Uma barreira financeira invisível, possivelmente mais perigosa do que a Cortina de Ferro que outrora dividia o Leste europeu da Europa Ocidental, está se erguendo lentamente no interior da zona do euro.

A discrepância dos juros entre os países credores do norte da Europa – como Alemanha, nos quais os custos dos empréstimos são os mais baixos de todos os tempos -, e os países devedores do sul – como Espanha e Itália, onde os rendimentos dos títulos subiram muito -, já ameaça consolidar uma divergência permanente.

10/07/2012 - 09:24h Europa teme criar geração perdida de desempregados

Por Paul Wiseman e David McHugh | Associated Press, de Bruxelas – VALOR

Irene Fernández perdeu seu emprego nos correios da Espanha há cinco meses, vítima dos cortes de gastos do governo. Desde então, ela vem sobrevivendo com dinheiro emprestado da mãe e dos € 530 que consegue por mês cuidando dos cachorros dos vizinhos. Fernández, 24, fez até agora apenas uma entrevista de emprego.

“Nunca tive um ano tão difícil”, diz ela. “Começo a perceber que as coisas serão muito mais difíceis para mim do que foram para a geração de minha mãe.”

A crise econômica na Europa está atingindo mais duramente jovens como Irene Fernández. A taxa de desemprego entre os jovens está perto de 53% na Grécia, 51,5% na Espanha e 35% na Itália. Nos 17 países que usam o euro, o desemprego entre os jovens está no patamar recorde de 22%, duas vezes a taxa geral de desemprego da zona do euro, de 11%, que por sua vez já é a maior desde a criação da moeda comum em 1999.

A admirável exceção é a Alemanha, onde a taxa de desemprego entre os jovens está em apenas 7,9%, graças a um sistema de ensino vocacional. Nos EUA, a taxa de desemprego entre os jovens – aqueles com idades entre 16 e 24 anos – ficou em 16,5% no mês passado. As estatísticas econômicas europeias contam aqueles entre os 15 e os 24 anos como jovens.

Os economistas temem que anos de desemprego poderão produzir uma versão europeia da “Geração Perdida” do Japão – os adultos jovens que procuraram emprego em vão na década de 1990 e hoje estão permanentemente incapacitados de seguir boas carreiras. Quanto mais tempo os adultos jovens ficam desempregados, por mais tempo eles não contribuem para o crescimento econômico, consomem ajuda do governo e aumentam o risco de instabilidade social.

Os trabalhadores jovens frequentemente são os últimos a serem contratados, de modo que são os primeiros a serem demitidos. E eles têm dificuldades para conseguir ocupações – tabeliões na Itália e motoristas de táxi na Grécia, por exemplo – onde trabalhadores mais velhos e estabelecidos são protegidos da competição por leis e regulamentações.

Mas os problemas econômicos da Europa – que começaram com a crise financeira em 2008 e continuam, com os governos lutando contra endividamentos excessivos – pioraram muito as coisas. Os países estão adotando programas de austeridade e reduzindo os números de servidores públicos. Companhias vêm anunciando demissões ou congelando contratações para enfrentar a queda da demanda.

O colapso dos mercados imobiliários também eliminou empregos no setor da construção, muitos dos quais eram mantidos por trabalhadores jovens. E os trabalhadores mais velhos, cujas finanças foram arruinadas pela recessão e a crise financeira, estão se aposentando mais tarde.

Como resultado, ondas sucessivas de jovens vêm se formando no ensino médio e superior com poucas chances de conseguir emprego, elevando ainda mais a taxa de desemprego entre os jovens a cada ano.

As perspectivas são de pouca melhoria. Mais de metade dos países da zona do euro estão em recessão e a economia do bloco como um todo deverá encolher 0,3% este ano, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI).

Os líderes dos 27 países da União Europeia concordaram no mês passado com um plano audacioso para injetar dinheiro nos problemáticos bancos europeus e ajudar governos a resolver os problemas com suas dívidas e com os altos custos dos empréstimos. Mas o plano deverá proporcionar pouco alívio imediato para os jovens da Europa. O que eles precisam é de crescimento econômico que produza empregos. “Essa é a verdadeira urgência”, afirma John Springford, pesquisador do Centro para a Reforma da Europa.

A falta de esperança é especialmente alta nos países da Europa que estão mais encrencados – Espanha, Itália e Grécia, entre outros – e está afetando até mesmo os mais instruídos.

Os jovens europeus, incapazes de conseguir empregos, também vêm buscando asilo nos campi universitários. Esse é um dos motivos de o percentual de jovens europeus que fazem parte da força de trabalho – que têm um cargo ou estão em busca de uma vaga – ter caído de 52,9% em 2000 para 48,7% no ano passado.

Os pesquisadores britânicos Paul Gregg e Emma Tominey constataram em um estudo de 2005 que os homens britânicos que ficaram desempregados por pelo menos um ano entre os 16 e os 23 anos ainda sofriam com uma “perda salarial” aos 42 anos: eles ganhavam na época de 13% a 2

09/07/2012 - 09:46h ‘Reação do governo evitou a recessão’


Ele diz que é preciso olhar o lado positivo: ‘economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer’

09 de julho de 2012

IURI DANTAS / BRASÍLIA – O Estado de S.Paulo

Principal formulador do Plano Brasil Maior, a política industrial do governo, o presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), Mauro Borges Lemos, avalia que o País “provavelmente estaria à beira da recessão”, não fossem os pacotes de estímulo ao consumo. Ele aposta em crescimento “pequeno” da indústria neste ano, apesar da queda da produção industrial nos primeiros seis meses de 2012.

Amigo de longa data de Dilma e do ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, a quem é subordinado, o economista afirma que “o governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo”. A seguir, os principais trechos da entrevista que concedeu ao Estado:

Por que a indústria está patinando?

Porque estamos no meio de uma crise internacional de grandes proporções. A forma mais visível de mensurar isso é a grande agressividade das importações. Há excedente de bens manufaturados no mundo e a estratégia, em geral, é desová-los em mercados que ainda estão em crescimento.

O dólar a R$ 2 demorou?

O dólar a R$ 2 é insuficiente para impedir a desova.

O endividamento das famílias e a cautela dos bancos em emprestar limitam o impacto das medidas de estímulo ao consumo anunciadas pelo governo?

O maior economista do século 20, o John Maynard Keynes, denominou a economia capitalista de uma economia monetária, regida por relações mediadas pelo dinheiro, pela moeda. Hoje, no Brasil, como somos uma economia monetária em pleno funcionamento, é absolutamente normal que, frente a um quadro totalmente adverso, você aumente o que Keynes chamava de preferência pela liquidez. Nestes momentos, você tem contração do consumo das famílias e dos empresários, que é o investimento. Eles tendem a reagir com uma contração relativa perante grande incerteza.

Medo de a crise piorar?

Claro que há uma aversão à incerteza. Não é aversão ao risco, é mais do que isso. É uma aversão a um cenário econômico futuro que não conhecemos. Obviamente o governo está tentando, com todos os instrumentos à sua disposição, mitigar isso e eventualmente retomar o crescimento no segundo semestre. O governo está fazendo tudo o que pode para manter a economia crescendo, que é a questão fundamental.

A presidente Dilma apelou ao espírito animal dos empresários, mas o investimento não deslanchou. Por que não deu certo?

Primeiro, eu diria que está dando certo. Vamos ter um crescimento positivo neste ano. Se pegar o analista mais pessimista, ele não projeta recessão. A economia brasileira, mesmo num cenário extremamente adverso, vai crescer. Que seja 2%, 2,5% ou 3%, não interessa.

O governo deixou de arrecadar R$ 100 bilhões da indústria, mas a tributação continua alta. O que falta para a indústria reagir?

O problema central não é, em si, da desoneração tributária, mas fatores estruturais e heranças regulatórias e tributárias, que fazem com que capital e trabalho e os insumos básicos da economia estejam relativamente caros. A questão é como caminhar na agenda de redução destes fatores e insumos. Quando você inicia uma trajetória de política econômica com redução da taxa real de juros, está reduzindo o custo do crédito, do dinheiro. Quando desonera a folha de pagamentos de setores intensivos de trabalho está reduzindo custos que, por razões históricas, têm uma tributação muito grande. A grande estratégia do governo é um programa de redução desses custos no longo prazo. Há um conjunto de medidas que vão além de pura desoneração para aumentar o consumo, como vem sendo propalado.

Por exemplo?

Os regimes especiais de tributação. O esforço pela redução do custo da energia. Essa é uma agenda que tem impacto nos custos da indústria muito grande. Se desonerar o custo da energia, ou reduzi-lo através de mecanismos regulatórios, está aumentando a competitividade da indústria. Ao contrário da chamada agenda do puxadinho, é uma agenda de longo prazo.

A produção industrial cai há nove meses, cadê os resultados? Vamos fazer um raciocínio contra-factual: se o governo não estivesse tomando nenhuma medida, como estaria a economia brasileira hoje? Possivelmente, já estaria à beira da recessão. A reação do governo está contribuindo decisivamente para não entrarmos em recessão

Economistas defendem reformas estruturais. O País consegue superar a crise sem isso?

O Brasil vai continuar fazendo reformas e já fez muitas. Não vamos parar o País, fazer reformas durante um determinado número de anos e depois voltar a funcionar. Nessas reformas, você troca o pneu furado com a bicicleta andando. Estamos num processo permanente. Por exemplo: criar um sistema privado de financiamento do longo prazo, do investimento, é um grande desafio hoje. Temos condições de implementar essa reforma e isso está no radar do Banco Central e da Fazenda. Outro exemplo é a mudança do sistema previdenciário público, que está em plena implantação e é um dos projetos mais importantes da Presidência da República.

A indústria encerra o ano com crescimento? De quanto?

Estamos torcendo fortemente para um crescimento. Vai ser um número positivo, mas pequeno.