04/11/2009 - 16:59h Ovos e galinhas

MARCELO COELHO – FOLHA SP

“O Naturalista da Economia” é um tesouro de surpresas, mas há algumas decepções


NUNCA REPAREI muito nos preços dos ovos de granja, mas fiquei sabendo por um livro recente (”O Naturalista da Economia”, de Robert Frank), que os de cor avermelhada custam mais caro do que os brancos, embora tenham o mesmo gosto e idêntico valor nutricional.
Pelo menos é assim nos Estados Unidos, onde há consumidores intrigados com o fenômeno. Qual seria a razão dessa diferença de preços?
A pergunta pareceu expressiva aos editores do livro, que se inspiraram nela para a ilustração da capa. Mas é só uma entre as dezenas de dúvidas para as quais o pensamento econômico, pelo menos na interpretação do autor, está pronto a dar resposta.
Alguns exemplos. Por que as baleias estão ameaçadas de extinção e isso não acontece com as galinhas?
Por que as roupas masculinas têm botões do lado direito, e as femininas, do esquerdo? Por que os bares cobram a água, mas oferecem amendoins de graça?
Esta última me pareceu bem fácil.
Afinal, amendoins aumentam a sede dos frequentadores. Mas Robert Frank acrescenta outro fator ao raciocínio. Quanto mais água o infeliz tomar, menor será o seu consumo de bebida alcoólica. Logo, é necessário cobrar pela água também.
A pergunta sobre os botões femininos não traz uma resposta tão economicista. A razão de ficarem do lado esquerdo é histórica. Antigamente, as grandes damas não se vestiam sozinhas. Ficavam de pé diante das mucamas, que, sendo na maioria destras, tiveram assim facilitado o seu trabalho, podendo abotoar as roupas com a mão direita.
Sobre os destinos diversos de baleias e galinhas, não sei se o que mais surpreende é a resposta ou a pergunta. Por que se imaginaria que as galinhas pudessem ser extintas?
Mas um bom economista tem a obrigação de nos surpreender sempre, argumentando a partir de poucas e invariáveis premissas. As baleias estão ameaçadas de extinção, diz Robert Frank, pelo simples motivo de que não têm proprietários… Fosse possível, sei lá, organizar uma fazenda de cetáceos ou pelo menos marcá-las a ferro como os bois das pradarias americanas, estaríamos logo tão fartos de baleias quanto de hamsters e chinchilas.
Não se pense que o autor seja um neoliberal de quatro costados. A alarmante elevação nos preços do caviar beluga se deve primordialmente, diz o livro, ao colapso da União Soviética.
É que o mar Cáspio passou a ser explorado por repúblicas rivais, mais propensas a burlar os concorrentes na obtenção de caviar do que a conformar-se com uma regulamentação comum.
A exemplo de seus predecessores no gênero, como “Freakonomics”, este livro é um tesouro de surpresas, entre as quais se escondem algumas decepções.
Uma pergunta que fica sem resposta, de todo modo, é a de por que, afinal, tantos livros desse tipo surgiram agora no mercado. Acho que fazem parte do mesmo veio da literatura neodarwinista. Por que os seres humanos riem?
Por que há pessoas que sacrificam a própria vida numa guerra, enquanto outras colecionam tampinhas de garrafa?
Uma resposta seria dizer apenas: porque são humanos, porque são pessoas. De alguma maneira, entretanto, isso não parece satisfatório hoje em dia.
Logo alguém invoca a existência de um gene qualquer, o do colecionismo, o do autossacrifício, o do riso. Ou, para não cair em tamanha vulgaridade científica, tenta-se apontar a vantagem evolutiva do comportamento A, que não exclui, por certo, a vantagem evolutiva do comportamento Z, seu oposto absoluto.
Rudyard Kipling escreveu um livro para crianças intitulado “Just So Stories” (algo como histórias que aconteceram assim mesmo ou histórias bem verdadeiras), em que dava explicações imaginosas e míticas para o pescoço das girafas ou a tromba dos elefantes.
Não discuto, é claro, a base científica das explicações econômicas ou biológicas. Mas, atrás de toda pergunta a respeito dos “porquês”, sempre existe, acho, uma psicologia próxima do pensamento mítico. A ciência, provavelmente, está mais interessada nas perguntas que começam com a expressão “em que medida…” do que nas perguntas que começam com “por que…?” Estas, aliás, começam, mas nunca acabam. Quer a prova?
Volto ao ovo, ao ovo vermelho, que custa mais que o branco. Robert Frank dá algumas explicações, mas no final registra, candidamente, um simples fato: as pessoas preferem que ele seja vermelho. Vai ver que é genético.

coelhofsp@uol.com.br

28/10/2009 - 15:54h O incêndio é no vizinho

Marcelo_CoelhoMARCELO COELHO – FOLHA SP

Elias Canetti gosta de descobrir nos outros os impulsos brutais que ele próprio controla mal

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Elias Canetti

CONTINUO SEM vontade de escrever sobre a euforia olímpica e a guerra dos traficantes no Rio de Janeiro. Os fatos, por vezes, comentam-se a si mesmos.
Mas, a começar pelo título (”Festa Sob as Bombas”), um livro recém-lançado pela editora Estação Liberdade merece comentário aqui.
Foi escrito por Elias Canetti (1905-1994), já bem no fim da vida. O Prêmio Nobel, que Canetti ganhou em 1981, não diminuiu o azedume dessas páginas.
“Festa Sob as Bombas” não é um livro acabado: compõe-se das anotações, às vezes repetitivas, para o que seria o quarto volume das memórias do escritor. Canetti passou, na Inglaterra, os anos da Segunda Guerra Mundial e viu o início dos bombardeios alemães sobre Londres.
É durante um desses bombardeios que se dá a festa do título, realizada na casa de um colecionador de arte. A casa tinha três andares.
“Ninguém se importava com o fato de ouvir detonações de bombas, era uma reunião festiva destemida e muito viva. Eu tinha começado no último andar e mal dera crédito a meus olhos, desci até o segundo e acreditei ainda menos no que vi. Cada ambiente parecia mais fogoso do que aquele em que estivera antes.”
Já no subsolo da casa, “aconteceu o mais assombroso”.
“A porta que dava para fora foi aberta bruscamente, homens com capacetes de bombeiros agarraram baldes com areia e, banhados em suor, levaram-nos com velocidade máxima à rua. Não prestaram atenção em nada do que viam no cômodo, em sua pressa de proteger as casas que ardiam em chamas na vizinhança.”
Enquanto isso, os pares que estavam agarrados continuaram do mesmo jeito; “ninguém se levantou bruscamente, ninguém largou o parceiro, era como se a atividade ofegante e suada não lhes dissesse respeito, duas espécies distintas de animais que se evitavam…”.
“Very british”, poderia alguém dizer. Está sempre em curso uma verdadeira ciência da discrição, da privacidade, da indiferença. Mais do que tudo, a percepção milimétrica das diferenças de classe, das hierarquias intelectuais, das gradações aristocráticas.
Nas festas que Canetti frequenta, ocorre uma coisa curiosa, uma espécie de ultraesnobismo.
As pessoas mais célebres não se dão a conhecer; as pessoas que conhecem pessoas famosas fazem questão de não se vangloriar do fato diretamente. Assim, você podia ficar 20 minutos ouvindo alguém contar banalidades a respeito de “Bertie” sem saber que se estava falando de Bertrand Russell.
Canetti acabou conhecendo o famoso filósofo. Admira sua velocidade intelectual e a perfeição de suas frases, mas não resiste a fazer uma observação desagradável.
Para ele, Russell “terminava sua fala com a risada de um bode, tão selvagem e perigosa que chegava a ser assustadora (…) todo o animalesco de sua natureza estava contido nessa risada, um sátiro, embora pequenino, extremamente impetuoso e incansável”.
Isso não é nada perto do que Canetti diz de T.S. Eliot, um sujeito “abissalmente mau”.
Sobre a escritora Iris Murdoch, que foi sua namorada, Canetti escreve: “Creio que não há nada que me deixe mais indiferente do que a mente dessa pessoa”.
Uma galeria de nobres malucos, avarentos, ornitólogos, caçadores de fantasmas, vai criando uma Inglaterra tão estranha quanto a mente do próprio Canetti, que gosta de descobrir, sob as convenções educadíssimas dos seus anfitriões, os impulsos brutais que ele próprio controla mal. O pior, lamenta Canetti, é que esse país foi destruído por Margaret Thatcher: “A Inglaterra decidiu saquear-se a si mesma”.
Voltando à festa durante o bombardeio. Qualquer pessoa poderia se espantar com a indiferença daqueles intelectuais e aristocratas, enquanto bombeiros tentavam apagar o fogo nas casas vizinhas. Mas essa impressão estaria errada, continua Canetti, “porque o corpo de bombeiros daquela noite era composto por voluntários da própria rua, entre eles um ou outro jovem poeta que eu jamais teria reconhecido em tais esforços físicos”.
De modo que indiferença e solidariedade, diversão e dever, não eram tão incompatíveis assim. Na velha discrição britânica, o bom e o ruim se ocultavam do mesmo jeito, o que não deixa de revelar uma espécie de espírito esportivo. É bem o contrário do Brasil, onde nada se oculta por muito tempo. E dizer que a Olimpíada vai ser só em 2016.

coelhofsp@uol.com.br

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08/12/2008 - 15:47h Inspirados en la fuente

 
La más influyente. El efecto de Fuente, de 1917, llega hasta el diseño actual: Brook (izq.) y Chambers (der.) privilegian el concepto sobre la forma Foto: Fernanda Corbani

 

Dos creativos británicos, el director de la revista Wallpaper y el número uno del estudio de diseño Spin, coincidieron en Buenos Aires para la apertura de la nueva Proa, en La Boca, y dialogaron con adnCULTURA acerca del efecto Duchamp

Por Alicia de Arteaga
Para LA NACION

El sol pega fuerte sobre el puente Nicolás Avellaneda y descubre sus entrañas de mecano gigante que inspiró el alfabeto de Proa creado por Tony Brook, director creativo de Spin, el mejor estudio de diseño del mundo, según los catadores más refinados. Brook, un muchachón grandote nacido en Halifax, está sentado a la mesa con otro Tony, de apellido Chambers, nacido en Liverpool, menudo y sonriente como el protagonista de The Full Monty , cuyo último logro es haber tomado las riendas de Wallpaper , la biblia del diseño contemporáneo.

Urge decir que Wallpaper nació en 1996 de la mano de Tyler Brûlé, que ha ganado todos los premios, que agotó su edición aniversario y esgrime la categoría propia de las grandes publicaciones: ser un “coleccionable”. Los dos Tony trabajan en el mismo campo. Ambos se nutren del universo duchampiano al privilegiar el concepto sobre la forma; la idea activa una operación mental que produce nuevos contenidos y asociaciones. Nadie explicó mejor los alcances del desplante duchampiano que significó Fuente , en 1917, que Waldemar Januszczak, crítico del Sunday Times . En 2004, un panel de quinientos notables del arte mundial dictaminó que el mingitorio resignificado era la obra más influyente del arte contemporáneo. Sin él, no existirían ni la Tate Modern ni Charles Saatchi, Damien Hirst, el polémico Turner Prize, la estanterías escandinavas, los lofts. Incluso, dice Waldemar, “no existiría Ikea”, el megamercado del hogar inventado por un sueco en el garaje de su casa.

El cambio de actitud, que implica quitar en lugar de añadir, está presente en el inconfudible diseño de Wallpaper . Su estilo modernista escandinavo la convirtió en espejo de su tiempo, hasta el punto que la gente dice de algo “es muy Wallpaper “. También el efecto Duchamp incide sobre la creación de imágenes visuales para instituciones, especialidad de la agencia de Tony Brook. Por ejemplo, antes de definir el alfabeto de Proa, por encargo de Adriana Rosenberg, Brook estudió La Boca, analizó en detalle más de mil fotos hasta hacer propia la historia del barrio y la carga cultural de sus habitantes descendidos de los barcos.

La relación de Proa con el puente Avellaneda, inmortalizado por Esteban Pastorino en una imagen memorable, guió el diseño tipográfico: “Una letra reconocible, de aplicación flexible y por momentos loca”, en la definición del director de Spin. Su letra preferida es la B, con una panza asimétrica. En cambio, Tony Chambers prefiere la S, por la forma perfecta como se cierra sobre sí misma en una secuencia sin fracturas. La conversación avanza por el carril lógico: las revistas, los diarios, el rediseño genial de The Guardian , el cambio de hábitos de lectura y el futuro del papel en la era de Internet.

Para estar a tono con los temas del mundo del diseño, estamos sentados en las sillas Silver, con los brazos cruzados sobre la mesa Quadrato, todas creadas por el italiano Vico Magistretti, autor de muebles de alta gama. El ámbito es el bello espacio que en su proyecto el arquitecto milanés Beppe Caruso destinó al restaurante: un prisma vidriado que se prolonga en un deck-mirador con vista al Riachuelo y al puente que fue altri tempi transbordador, inaugurado en 1914 y uno de los pocos que quedan en el mundo.

Brook y Chambers coinciden en su obsesión por el buen diseño. Integraron la nutrida troupe de personalidades que se dieron cita en Buenos Aires para la apertura de Proa, junto con el curador del Moderna Museet de Estocolmo -que acompañó el traslado de El gran vidrio desde Suecia-, el director de la influyente revista de arquitectura Domus , y Gloria Moura, la crítica y curadora española que montó una recordada muestra de Duchamp en Barcelona. Los ecos de esta visita explican por qué Proa ya está en el mapa global de las instituciones del arte como un atractivo más de Buenos Aires.

Tony Chambers termina su ristretto servido por los exitosos Petersen y resume su imagen de la ciudad: “Hay muchas ciudades en una y me encanta la gente”. El director de Wallpaper y su colega de la agencia Spin forman parte de la generación de profesionales británicos globalizados avant la lettre . “Londres no es una ciudad, es el mundo”, define Brook. Árabes, chinos, indios, irlandeses, escoceses, polacos, latinos, ingleses y rusos conviven para crear el sustento de una cultura macerada por muchas etnias, olores y sabores. Nadie pone el grito en el cielo porque Harrods, la ultratradicional tienda de Knightbridge, fuera comprada por Al-Fayed, padre de Dodi, la última pareja de Diana de Gales. Ni porque el club de fútbol Chelsea sea propiedad del ruso Abramovich. La diversidad es una forma de libertad.

Desde 2007, Chambers, que fue diseñador de GQ y de la Sunday Times Magazine , es el editor en jefe de Wallpaper . Este cambio de posición explica una tendencia en alza, según la cual “el diseño es el mensaje”, parafraseando a McLuhan. “Para una revista eminentemente visual, resulta casi natural el paso de la dirección de arte a la edición. En la actualidad hay un deslizamiento de las categorías tradicionales y de la brecha entre creación de contenidos e imagen visual. Somos un equipo. Hay 50 personas obsesionadas por hacer las cosas muy bien. Eso es todo.”

Un éxito de Chambers fue colocar en el mercado las guías Phaidon. Tamaño bolsillo, se permiten el gesto duchampiano de vender la ciudad sin mostrarla en la tapa. Sólo color y tipografía. Los textos son cortos; pura información, la que el lector subraya cuando lee una guía tradicional. La fórmula es manejar datos de primera mano: “Mandamos un reportero para que descubra el alma de una ciudad, aunque necesite meses de estadía”. Ocurrió con la guía de Buenos Aires, que además de hoteles y comidas recomienda Proa como “el” lugar para no perderse.

adnBROOK. Cofundador y director creativo de Spin, un prestigioso estudio de diseño multidisciplinario de Londres, es además presidente por el Reino Unido de la Alianza Gráfica Internacional. Fue convocado por Proa para renovar la imagen de la Fundación y rediseñar la marca. En 2001, su estudio relanzó la identidad visual de la galería londinense Whitechapel, un caso paradigmático de branding cultural
adnCHAMBERS Editor en jefe de Wallpaper, una de las revistas de diseño más importantes del mundo, donde se desempeñó como director creativo hasta marzo de 2007. También trabajó como director de arte de la revista GQ y de la Sunday Times Magazine , luego de graduarse con honores de la Central St. Martin’s School of Art. Fue elegido Diseñador del Año por The Periodical Publishers Association (PPA) en dos oportunidades
FICHA. Marcel Duchamp: una obra que no es una obra “de arte”, en Fundación Proa (Av. Pedro de Mendoza 1929). Hasta el 1° de febrero de 2009. Martes a domingo, de 11 a 19. Entrada general: $ 10. Jubilados: $ 3. Estudiantes: $ 6.

22/11/2008 - 09:15h Lula critica posição do PT sobre Nossa Caixa

Presidente afirma que ‘não pode agir com mesquinharia quando se trata dos interesses do país e de São Paulo’

Ricardo Galhardo e Juliana Rangel – O Globo

SÃO PAULO e RIO. Em uma crítica à posição da bancada do PT na Assembléia Legislativa de São Paulo, que ameaça votar contra a venda da Nossa Caixa para o Banco do Brasil (BB), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que não pode agir com mesquinharia. Segundo Lula, o PT, ao usar o argumento de que o dinheiro reforçaria a candidatura do governador José Serra (PSDB) à Presidência em 2010, errou por politizar uma questão comercial.

— O Banco do Brasil não tomou uma posição política ou ideológica. O Banco do Brasil fez um negócio que interessava a ele, à Nossa Caixa, e quem ganha com isso é o Brasil. Vamos ter um banco público mais sólido, mais competitivo, com muito mais agências e dinheiro para podermos irrigar o crédito do Brasil. O que querem mais do que isso? — reclamou.
Lula revelou que o PT usou o argumento eleitoral para tentar barrar o negócio: — O argumento é que eu estaria dando R$ 6 bilhões para o governador Serra, que é um suposto candidato em 2010. Ora, um presidente da República não pode agir com mesquinharia quando se trata dos interesses do país e do povo de São Paulo.
Lula também refutou os temores do Sindicato dos Bancários de São Paulo (de onde saíram os ex-ministros Luiz Gushiken e Ricardo Berzoini, hoje presidente do PT) de que os trabalhadores serão prejudicados: — Não conheço nenhum bancário brasileiro que não quisesse trocar o banco em que trabalha pelo Banco do Brasil.
A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, também afirmou ontem que as críticas de petistas à operação não procedem: — Acho que isso é uma visão um pouco ultrapassada. Não acho que esse tipo de política, eu diria assim mesquinha, tem espaço em um Brasil moderno — afirmou. — O que é o atraso? O atraso é o seguinte: venha com um pires na mão me pedir e, se você for simpático a mim eu te dou o recurso; se você não for, não dou. O governo Lula se caracteriza pelo respeito aos entes federados e às populações.

Ações da Nossa Caixa podem subir mais ainda

De olho em uma fatia dos R$ 5,4 bilhões — ou R$ 70,63 por ação controladora — que o BB vai pagar pela Nossa Caixa, investidores correram ontem para comprar ações do banco paulista, que dispararam 22,8%, para R$ 63, a maior alta da Bolsa de São Paulo, que recuou 6,45%. Já os papéis do BB caíram 14,34%.
No início de 2009, o BB comprará os 25% dos papéis da Nossa Caixa ainda em circulação, pelo valor pago aos controladores.
Investidores viram aí uma boa oportunidade: na quarta-feira, antes do anúncio da operação, as ações fecharam a R$ 51,30. No ano, a valorização dos papéis chega a 177,36%, frente à queda de 51,08% da Bolsa. Considerando o fechamento de ontem, o potencial de ganho é de 12,1%.

— O BB vai fazer o pagamento em 18 parcelas, e ainda não se sabe como será feito o tag along (direito ao prêmio pago pelo controle) dos minoritários — diz Eduardo Roche, gerente de análises do Modal Asset, que acredita que o pagamento aos minoritários possa ser feito de uma só vez.

21/11/2008 - 17:52h “Os Irmãos Karamabloch”

CARLOS HEITOR CONY


Escreveu mais do que a história de sua família. Fez a primeira parte de sua autobiografia

FAMÍLIA DE 17 PESSOAS chegou ao Rio de Janeiro em 1922, na terceira classe do “Re d’Italia”. Eram ucranianos, genericamente russos, mas, sobretudo, judeus. O patriarca, Joseph Bloch, tivera uma gráfica em Kiev, chegara a imprimir o dinheiro do efêmero governo de Kerenski. Decidira tentar inicialmente os Estados Unidos, mas a cota de imigrantes para aquele país estava fechada, a alternativa foi vir para o Brasil.
Este não foi o início dos Blochs.
Antes da viagem, já se podia falar numa “saga”, com lances que um dos descendentes do clã acaba de lançar: “Os Irmãos Karamabloch” (Companhia das Letras, 344 págs., R$ 48).
Para levantar a sua história, Arnaldo pesquisou durante sete anos, foi a Jitomir e Kiev, entrevistou muita gente e foi testemunha da etapa final de um império da comunicação que teve ascensão e queda -como, de resto, todos os outros impérios tiveram e terão.
O assunto era bom e vasto. Muitos o tentaram, mas desanimaram por um motivo ou outro. Uma biografia tradicional, com princípio, meio e fim, na linguagem correta e oficial para este gênero de livro, com obediência da ordem cronológica e sem assumir deliberadamente a lenda e a história, não daria o resultado que Arnaldo Bloch conseguiu. Antes de mais nada, ele usou a linguagem e a técnica do romance -gênero no qual estreou, com “Amanhã a Loucura”, e continuou com “Talkshow”.
O charme do livro é que o narrador funciona como personagem da trama, recurso que Proust e outros memorialistas também usaram.
Evidente que o foco principal é dedicado aos três Blochs que Otto Lara Resende, frasista famoso, que também é personagem do livro, chamou de “Irmãos Karamabloch”.
Ou seja, os filhos do patriarca: Boris, Arnaldo e Adolpho. As filhas de Joseph funcionam, na narrativa, como o coro das tragédias gregas: comentam a ação, sugerem e sofrem, de certa forma, as conseqüências.
Uma noite dos anos 80, Leonardo e Iná, pais de Arnaldo, trouxeram o rebento para jantar em minha casa, trazendo também o Rodian, um setter que era parente da minha Mila.
Naquela época, Arnaldo estava numa encruzilhada vocacional: por gosto e influência de sua geração, queria se dedicar à música -e era bem dotado para isso. Sentia apelos pela literatura e pelo jornalismo, mas, se dependesse dele, naquela ocasião, seria um músico, intérprete ou compositor.
O pai não era contra, mas preferia que Arnaldo fosse escritor. Daí que me pediu para conversar com o filho. Conversa vai, conversa vem, Arnaldo saiu lá de casa levando alguns livros que lhe indiquei, inclusive um de Balzac, “Grandeza e decadência de César Biroteau”. Levou também Kafka, Goethe e outros.
Mais tarde, após ocupar diversos cargos na empresa da família, foi para “O Globo”, onde, hoje, assina uma crônica semanal e faz reportagens especiais. Um dia, me procurou com os originais de seu primeiro romance, que seria publicado pela Nova Fronteira e que hoje tem uma edição de bolso. Depois veio o segundo, já na Companhia das Letras, que apostou em Arnaldo e patrocinou sua ida a Kiev.
Foi longa a escritura do livro, mais romance do que biografia, embora seja as duas coisas. Basta citar o princípio e o fim da ação: o pai de Arnaldo no salão escuro do apartamento, olhando em silêncio a praia de Copacabana. Cena que se repete ao final, fazendo da ação principal um enorme flashback, em que misérias e grandezas compõem um movimentado gran guignol que lembra Dostoiévski em alguns momentos, em outros o Máximo Gorki de “Os Pequenos Burgueses”.
A figura de Abrascha, que se tornaria Adolpho e que na opinião do tio Jorge “nem era para ter nascido”, ocupa grande parte do primeiro plano da narrativa. Com suas contradições, a compulsão pelos grandes gestos e a submissão aos momentos de cólera, nem sempre justa, fazem dele um dos personagens mais polêmicos, que encantou e provocou ódios de duas gerações de jornalistas e banqueiros.
Por isso mesmo, o livro do seu sobrinho-neto só podia ser escrito como Arnaldo o fez. Sem elogio e sem censura. Não funcionou como o biógrafo preocupado com o rigor histórico e a opinião da crítica. Escreveu mais do que a história de sua família. Fez a primeira parte de sua possível autobiografia.

12/08/2008 - 20:25h “Hoy cualquier imbécil en la tele puede llegar a millones de personas ¿y un libro a cuántos?”, pregunta el escritor italiano Antonio Tabucchi

 

 

adncultura*com

SAN LORENZO DE EL ESCORIAL (Madrid) (EFE).– El escritor italiano Antonio Tabucchi considera que la voz crítica de los intelectuales queda apagada en la actualidad “por el inmenso poder de los medios de comunicación”.

La obra de Tabucchi es objeto esta semana de análisis en un curso de la Universidad Complutense en El Escorial y, en una entrevista concedida a EFE, se confesó “escéptico” respecto a la capacidad de intervención de la literatura o de los intelectuales en la sociedad contemporánea, frente a la influencia de los medios.

“Estadísticamente hablando es imposible luchar contra las cuatro o cinco horas que, por ejemplo, pasan los italianos frente al televisor. Hoy cualquier imbécil en la tele puede llegar a millones de personas ¿y un libro a cuántos?”, se pregunta el escritor.

Autor de una docena de títulos, entre ellos “Sostiene Pereira”, “Requiem” y “La cabeza perdida de Damasceno Monteiro”, Tabucchi (Pisa, 1943) se ha caracterizado siempre por su conciencia crítica al firmar todo aquello que reivindique derechos y libertades y por reflexionar acerca de la literatura.

El curso que le dedica la Complutense sirve para recordar a Tabucchi su condición de literato: “La verdad es que estos actos me obligan a pensar que soy escritor, y que tengo que decir cosas inteligentes porque se deben de pensar que lo soy – comenta entre risas-, pero quiero decir que aunque esto me es muy grato yo reivindico constantemente la vida”.

“Si hoy no escribes una hoja no pasa nada, la puedes escribir mañana; sin embargo, lo que hoy no vivas ya no lo podrás vivir mañana, eso seguro, y el mundo está lleno de vida, de complicaciones. Hay que experimentarlas y luego, eso sí, si puedes contarlas”.

Tabucchi habló hoy en este seminario de sus libros y su relación con la historia, y reivindicó la necesidad de la memoria.

“La memoria se mantiene contando las cosas”, y para ello es muy importante la voz. La voz es vida, el silencio nada, y la escritura es el mineral que después queda”.

Este amante de los relatos más que de las novelas, cree que una de las características que debe tener el escritor es la paciencia: “Primero se pone la semilla y luego va saliendo la flor pero hay que tener paciencia”, aconseja.

Amante de Portugal, Tabucchi dice que empezó a escribir por un poema de Fernando Pessoa, de quien es un gran experto y traducto; está además preparando una edición de sus obras completas.

Tabucchi Vive a caballo entre Lisboa y París porque en Italia ya no tiene familia, pero aún así está muy atento a todo lo que pase en su país de origen.

“En Italia son más necesarias las leyes que los intelectuales, porque son las leyes las que tienen que decir al señor (primer ministro Silvio) Berlusconi que no se puede ser presidente de un país, ser el dueño de tres televisiones y también tener el control absoluto de la televisión nacional, pero el Parlamento es así. Él ganó democráticamente”, dice.

Cuando el viernes acabe este seminario, Tabuchhi volverá a la búsqueda de su soledad para seguir escribiendo un libro de relatos que tiene entre manos, con el concepto del tiempo como protagonista, y seguir tomando el pulso a la salud del mundo.

Carmen Sigüenza

06/07/2008 - 15:11h Um Escritor na Periferia: a Argentina em Borges

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Beatriz Sarlo e Jorge Luis Borges

Antonio Gonçalves Filho – O Estado de São Paulo


Os críticos, de forma geral, quase sempre ignoraram que a questão da literatura argentina é central na obra de Jorge Luis Borges, mas não a ensaísta Beatriz Sarlo, uma das vozes mais lúcidas de seu país. Segundo a professora de Literatura, que lança no Brasil seu livro Jorge Luis Borges: Um Escritor na Periferia (Editora Iluminuras, tradução de Samuel Titan Jr., 160 págs., R$ 35), não existe escritor mais argentino que Borges. Cosmopolita e universal, sua obra, segundo Beatriz Sarlo, é perturbada pela tensão entre a mistura e a nostalgia por uma literatura européia que ele não poderia viver integralmente. Como ler Borges sem remetê-lo a Martín Fierro, a Sarmiento ou a Lugones?, pergunta Beatriz Sarlo, que concedeu ao Estado a entrevista abaixo e faz amanhã, às 19h30, uma palestra no encontro Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem, em Porto Alegre.

Mais forte que a literatura argentina, Borges quase perdeu a nacionalidade. Não ocorreria a nenhum crítico dissociar Balzac e Baudelaire da literatura francesa. Borges, ao contrário, navegou, segundo Beatriz Sarlo, na corrente universalista da ”literatura ocidental”. Qualquer citação biográfica de Borges passa necessariamente pelo fascínio por Chesterton ou Kipling ou pela influência da literatura de Kafka, mas quase nunca por nomes como os de José Hernández, Evaristo Carriego, Macedonio Fernández ou Sarmiento, como se Borges tivesse ignorado sua dívida com a tradição literária argentina. O livro da professora argentina lembra que Borges não apenas escreveu ensaios sobre o Martín Fierro, obra maior da literatura argentina, como foi obcecado pelo poema de José Hernández. E, sobretudo, foi um autor que construiu sua originalidade por via da citação, da cópia.

Borges considerava infundada a opinião de que os escritores argentinos estavam desconectados do passado, ou seja, que houvesse uma ruptura entre eles e a Europa, porque, justamente por ser um país novo, haveria um grande sentido de tempo na Argentina. Por que a crítica insiste em tratar Borges como um escritor que nada deve à tradição literária argentina?

Não é essa a posição da crítica nas últimas décadas. Ricardo Piglia, anteriormente, sublinhou a conexão borgiana com a tradição nacional, num ensaio publicado na revista Punto de Vista. Por essa época também escrevi um artigo cujo título era Borges no Sul, um Episódio do Formalismo Criollo, acentuando a localização argentina de alguns temas de teoria literária suscitados por textos de Borges e publicados nos primeiros anos da revista que dirigia com Victoria Ocampo. Mas, mesmo antes, a professora María Teresa Gramuglio tratou da questão na leitura do livro de Borges sobre Evaristo Carriego, poeta menor que o primeiro usa quase como pretexto para expor uma teoria do bairro de Palermo. De modo que o Borges ocupado com labirintos e espelhos, ou seja, o Borges da primeira leitura crítica e das leituras européias, desde o fim dos anos 1970, adquire um novo rosto, como leitor e reescritor de alguns textos fundamentais da tradição argentina.

A senhora define Borges como escritor da periferia, um cosmopolita à margem, mas, nos capítulos finais de seu livro, apresenta o lado político-filosófico do escritor em termos universais. Há algum projeto de desenvolver esse aspecto particular num próximo livro sobre ele?

Creio, com efeito, que meu propósito de reinscrever criticamente Borges na literatura argentina, como matriz formal e ideológica dessa mesma literatura, como o escritor que inventa ou descobre a centralidade do marginal, só quase no final do livro que está sendo lançado no Brasil considera as figurações borgianas com respeito à ordem, em especial no capítulo sobre O Informe de Brodie. Nesse momento, já acertadas as contas com o Borges fundador das margens ”criollas” de Buenos Aires, parece-me que poderia voltar a contos como O Imortal para ver de que modo outras imagens da cidade, mais abstratas e universais, podem ser representadas na literatura. Precisamente é esse o conto que estou relendo neste momento, ao lado de Abenjacán, el Bojari Muerto en Su Laberinto.

Um dos temas mais interessantes de seu livro é a construção da originalidade de Borges, paradoxalmente por meio da cópia, da reescrita de textos alheios. Essa seria uma insinuação de que a veracidade literária representaria uma ficção para Borges, considerando seu pouco apreço pela literatura realista?

A idéia de veracidade é, em si mesma, uma idéia a que estamos acostumados a encontrar nas poéticas realistas, vale dizer, nos textos que se propõem uma representação cujas origens seriam exteriores à literatura: ou seja, uma representação heterônoma. Borges, ao contrário, está profundamente convencido da autonomia do literário, de sua independência a respeito dos referentes sociais diretos. O literário, em Borges, entra em relação com o social por meio da própria literatura, numa cadeia que vai de texto a texto. A dimensão social da literatura não provém de sua relação direta com uma exterioridade social, mas de uma trama social de discursos, geralmente literários, mas não apenas literários. Ou seja, para ele, a relação é sempre entre discursos, ficções. A verdade dessas ficções não responde nem a uma lógica da verossimilhança realista nem à lógica da acumulação de referências ”verdadeiras”, mas a uma lógica mais abstrata, por um lado de grandes categorias e, por outro lado, de argumentos cuja estrutura seja perfeita e fechada. Nesse sentido, a literatura fantástica de Borges é sempre racionalista, diferentemente, por exemplo, da literatura de Cortázar.

A representação de Buenos Aires por Borges, a partir de sua invenção da periferia, é um aspecto pouco analisado pela crítica internacional. Por que a descrição de Borges tende a retratar Buenos Aires com ares do passado, uma cidade impermeável à modernidade, ao contrário da Buenos Aires de Arlt?Borges pretendia fazer uma nova leitura da tradição ou simplesmente tinha nostalgia do século 19?

Borges lembra da cidade de sua infância e, quando volta a Buenos Aires no começo dos anos 1920, frente a uma cidade real em processo de modernização, coloca em seu lugar uma cidade lembrada e imaginária sem vestígios dessa modernidade. Sabe, contudo, que essa cidade está desaparecendo e que, portanto, há que buscá-la nas figuras do bairro e da periferia urbana. Como muitos modernos, Borges não tem vocação futurista, diferentemente de Roberto Arlt. A tecnologia, que para Arlt define a época, não desperta o menor interesse em Borges. Ele, ao contrário de Bioy Casares em A Invenção de Morel, jamais escreveu algo que pudesse evocar as tramas da ficção científica. São sensibilidades diferentes. É mais provável que um escritor da elite tivesse uma perspectiva nostálgica; e que um escritor filho de imigrantes como Arlt seguramente pudesse se ligar melhor ao radicalmente novo. É admissível essa hipótese sociológica, mas, de todas as maneiras, não explicaria o gosto de Borges por ficções cujo motor narrativo fossem as invenções técnicas.

22/06/2008 - 11:52h “Es peligroso confundir cultura con información”


La filósofa francesa Bárbara Cassin advierte sobre los peligros de confiar ingenuamente en el recorte de la realidad que realizan los buscadores de Internet, y señala que la educación y el ejercicio crítico de la filosofía son cada vez más importantes en la tarea de dar sentido a la existencia humana

Foto: Gustavo Cherro

Hay una frase sobre la verdad, en el libro Conversaciones , de Deleuze, que me gusta mucho: “Las nociones de importancia, de necesidad y de interés son mil veces más determinantes que la noción de verdad. No porque la reemplacen, para nada, sino porque miden la verdad de lo que digo”. Esto es lo que hay que tener en cuenta al pensar en un criterio para distinguir posturas. La idea de una verdad universal que domina el mundo, tanto si es vehiculizada por un filósofo como si es vehiculizada por un dios, es una idea insoportable para mí.

Por Gustavo Santiago
Para LA NACION

Barbara Cassin (París, 1947) es una de las principales filósofas francesas contemporáneas. Directora de investigación en el Centre National de la Recherche Scientifique, sus trabajos se caracterizan por un marcado esfuerzo por encontrar en los textos filosóficos algunas claves que permitan pensar el mundo actual. En su reciente paso por la Argentina, la filósofa participó de varios debates sobre filosofía, política y estética, y presentó dos de sus últimos libros: Googléame . La segunda misión de los Estados Unidos y El efecto sofístico , que acaban de ser editados en nuestro país por el Fondo de Cultura Económica. En diálogo con adn CULTURA recorrió los aspectos centrales de su producción reciente, evocó experiencias personales de Mayo del 68 y se refirió, entre otros temas, a la actualidad de la filosofía y a la relación entre cultura e información.

-¿Cómo vive su relación con la filosofía?

-Adoro leer libros filosóficos. Y me parece algo muy extraño que plantearse preguntas fundamentales, como hacemos los filósofos, sea un oficio. Que a alguien le paguen por preguntarse si Dios existe es genial.

-¿Cuáles son los autores que le interesa leer?

-Leo mucho y de filósofos diversos. Pero hay escansiones indispensables: los griegos, Spinoza, Descartes, Kant, Hegel, Nietzsche, Marx, Arendt. Lógica del sentido y Diferencia y repetición , de Gilles Deleuze, son para mí muy buenos libros. También La diferencia , de Lyotard, es un gran libro, un texto que me ha aportado mucho. Se trata de libros cuya lectura nos cambia, nos marca. En lo personal, los libros de los filósofos recién mencionados me han marcado, transformado. Pero, por otra parte, son libros que olvido una y otra vez. Y entonces, necesito releerlos continuamente. Haciendo un recorrido por mi historia personal, tendría que decir que yo vengo de una generación filosófica que fue educada por Heidegger. Incluso participé en el seminario de Le Thor dictado por Heidegger en 1969. A partir de entonces me interesé por los griegos, por los filósofos presocráticos. Lo que yo quería era ver cómo se podía ser presocrático de una manera distinta de la planteada por Heidegger; cómo poder ser presocrático sin ir en busca de lo “originario”, en ese sentido casi nazi del término. También me interesé en los griegos por su lengua. La lengua griega me resultó extraordinaria, como a Heidegger.

-Deleuze dice que es necesario preguntarse “¿Qué es la filosofía?” y responde: “La disciplina encargada de crear conceptos”. ¿Se hizo usted esa pregunta? ¿Comparte la respuesta de Deleuze?

-Creo que no hay que tomar esa respuesta como de Deleuze, sino como la de uno de sus personajes conceptuales. A mí me interesan, particularmente, los bordes de la filosofía, pero no pensados como fronteras. Algunas veces me sucede que escribo simultáneamente de muchas maneras. En realidad, yo creo que conforman una única manera, pero los editores piensan que se trata de tipos de textos diferentes. Entonces tengo que ponerme a pensar cuáles son las fronteras entre filosofía, ciencias humanas, poesía, literatura. No estoy nunca de acuerdo con esas fronteras, ni con las definiciones excluyentes.

-¿Cómo vivió Mayo del 68?

-En ese momento era una estudiante, tenía veinte años. El primer efecto que me produjo fue percibir que las relaciones de autoridad no existían como tales. Que hay relaciones de saber, de inteligencia, de creación, pero no relaciones de autoridad. Hubo otros efectos muy marcados, algunos de los cuales siguen vigentes. Cuando uno escucha a Sarkozy decir que es necesario enterrar Mayo del 68, se da cuenta de que algo de aquello se ha mantenido, puesto que todavía hay quienes intentan borrarlo. Uno de esos efectos fue, para mí, el descubrimiento de que se puede hacer cosas con palabras. En aquel momento se hablaba mucho, y todo el mundo podía hablar; había otra forma de instituir la palabra.

-¿La comunicación virtual mejora las posibilidades de diálogo o acentúa más las distancias?

-Las dos cosas. Por eso es importante cuidar lo que ocurrió en Mayo del 68, pero también es necesario adaptarse. No se puede volver al pasado. Hay que tratar de mantener aquello en lo que uno creyó y tratar, al mismo tiempo, de transformarlo.

-En una sociedad como la nuestra, ¿cómo encontrar un sentido en una maraña de información que parece infinita? ¿Puede un buscador como Google cumplir con la función de organizador del sentido?

-Mucha información mata la información. Es real que estamos sumergidos en ella y que es necesario orientarse. Google nos permite elegir, pero en función de palabras clave. La selección está bien hecha en general, pero no es más que eso: una selección de información a través de palabras clave. Y no se puede confundir eso con la estructuración de un sentido. Eso no tiene nada que ver con la cultura. La información y la cultura no están sobre el mismo plano. Creo que lo perjudicial para la cultura es la confusión. Y es también peligroso confundir lo que uno encuentra a través de un motor de búsqueda con información confiable. Esto no es así, y por supuesto es peligroso, especialmente para los jóvenes, confundir cultura con información. Para mí, sin dudas, la cultura está mejor caracterizada por Hannah Arendt que por Google. Arendt dice que la cultura tiene que ver con la obra de arte y que el gusto es una facultad política. Yo estoy de acuerdo con esas dos premisas.

-En su libro Googléame, si bien reconoce las virtudes de Google como buscador, expone su temor en relación con cierto imperialismo que podría esconderse allí. ¿Esto es así?

-Sí, es un temor al imperialismo de una suerte de “misión universal” que se esconde en dos de sus lemas: “Nuestra misión es organizar toda la información del mundo” y “No seas malo”. En realidad se trata de una “misión” que en los hechos simplemente consiste en la búsqueda de un beneficio económico, pero que se presenta disfrazada de moral y de democracia. Google nos hace creer que su información se organiza con el mecanismo “un clic igual un voto”, pero, en realidad, si una página importante envía a un link, éste automáticamente sube de lugar en el ranking . Al mismo tiempo, se muestra como ajeno a lo comercial, porque no acepta dinero a cambio de mejorar la posición de una página, pero esto le permite hacer enormes negocios con las publicidades que aparecen al costado de la información. Es esa pantalla moral, universal y humanística lo que me preocupa. Es imposible no relacionarla con la cruzada de Bush en defensa de la democracia y de la lucha “del bien contra el mal”. También es preocupante la reducción de la calidad a la cantidad. Google nos hace creer que algo es bueno porque es mencionado muchas veces.

-¿Una manera de enfrentar ese peligro es la mejora de la educación?

-La educación me parece un tema muy interesante. Lo he estudiado especialmente a partir de la paideia griega, que es una educación a la vez de la lengua y de las obras, y de la manera en que alguien se convierte en un hombre. Y la información no es paideia , por eso no debe confundirse con la cultura. Ahora bien, es complicado comparar la sociedad griega con la nuestra. La sociedad griega no puede tomarse como un modelo de la nuestra porque la democracia griega era una democracia “hasta donde llega la voz”, como decía Aristóteles. Era, además, una democracia en la que las mujeres y los esclavos no votaban. Sin embargo, creo que trabajando sobre los griegos se aprenden cosas sobre la educación o, por ejemplo, sobre la política.

-¿Qué enseñan los griegos sobre política?

-Que la política es fundamentalmente una creación de discurso y el hombre es un animal político porque habla. Y una segunda cosa: que la política no depende de nada más. Eso lo aprendí por Aristóteles, no por Platón. Para Platón la política, como para Heidegger, depende del ser. Mientras que para Aristóteles, la política es arquitectónica; en cierta manera traza el espacio. Y ese espacio es un espacio de discurso, un espacio donde hay una manera de procesar lo múltiple.

-¿Quién es el sujeto de la política hoy?

-Ésa es una pregunta enorme. Hay una respuesta muy bien articulada, la de Toni Negri, que dice que el sujeto de la política es la multitud. Se trata de una multitud diferenciada. Es una respuesta que no me parece nada tonta. No estoy muy segura de estar completamente de acuerdo con el libro Imperio de Negri, pero, en cambio, encuentro que la noción de multitud que él plantea, incluso en relación con Internet, es muy interesante.

-Si, para usted, todo lenguaje y especialmente el lenguaje político, es creador y no un reflejo del ser, ¿qué sucede con la noción de “verdad”?

-No creo en la verdad universal ni en el filósofo rey. Y pienso que es peligroso creer en eso. Creo que es peligroso desde Platón hasta Heidegger. Y ahí pienso con Arendt, que veía en Sócrates un discurso que representa un modelo de unidad que no es, sin embargo, unicidad, sino una unidad que se constituye por singularidades diferenciadas, con lo que la pluralidad es la condición de lo político. O con los sofistas, que le extraen la mayúscula a la verdad y la modulan comparativamente. Ellos sostienen que hay algo más verdadero y algo menos verdadero, pero no una verdad universal. Como dice Sócrates, en defensa de Protágoras, en el libro Teeteto de Platón: “No se puede hacer pasar a alguien de una opinión falsa a una verdadera, pero sí se puede hacer pasar a alguien de un estado no tan bueno a uno mejor”. Ese alguien puede ser una persona, una ciudad o un Estado.

-¿Y desde qué criterio podemos distinguir construcciones mejores que otras? ¿Comparando los efectos que una ficción produce, como en el perspectivismo nietzscheano?

-Absolutamente. Eso es lo que se propone desde la sofística. Hay una frase sobre la verdad, en el libro Conversaciones , de Deleuze, que me gusta mucho: “Las nociones de importancia, de necesidad y de interés son mil veces más determinantes que la noción de verdad. No porque la reemplacen, para nada, sino porque miden la verdad de lo que digo”. Esto es lo que hay que tener en cuenta al pensar en un criterio para distinguir posturas. La idea de una verdad universal que domina el mundo, tanto si es vehiculizada por un filósofo como si es vehiculizada por un dios, es una idea insoportable para mí.

-¿En qué está trabajando en este momento?

-Estoy haciendo un libro sobre Homero como filósofo. Es una lectura de un Homero vestido con el ropaje de un filósofo y, a la vez, de lo que Homero les aporta a los filósofos. Por ejemplo, no sé si usted sabe que las palabras que emplea Parménides para describir el ser son exactamente las mismas palabras que Homero utiliza para describir el paso de Ulises a través del mar de las sirenas. Sobre ese tipo de cosas quiero reflexionar. Otra cuestión que me interesa es cómo se hacen cosas con las palabras; la performance , lo performativo. Veo, en la escena de la Odisea en que Ulises se encuentra con Nausícaa, el nacimiento de lo performativo. Cuando Ulises, que está desnudo y sucio, ve a Nausícaa con las otras jóvenes y piensa en pedirle auxilio, él dice: “¿Voy a tocarle las rodillas como un suplicante o voy a hablarle?” Y Ulises se decide por el discurso. Es el discurso el que gana. Entonces dice: “Yo te tomo por las rodillas, mujer o diosa, porque temo tomarte por las rodillas”. Esto es magnífico, porque él no la toca sino que le dice que la toca. Dicho de otra forma, la toca con las palabras. …stas son las cosas sobre las que estoy reflexionando.

-¿Cuál cree que es hoy el lugar de la filosofía?

-La filosofía es muy importante. Su lugar es el de una toma de distancia crítica en relación con la sociedad, entendiendo “crítico” como la búsqueda de criterios. En cambio, me parece peligroso creer que su función es la de conducir la sociedad, al estilo del filósofo rey de Platón

31/05/2008 - 21:05h Erotic Stories by women

Edited by Richard Glyn Jones and A. Susan Williams
Penguin books

Erotic Stories by women é uma antologia publicada pela Penguin books, organizada por Richard Glyn Jones e A. Susan Williams. Richard G. é escritor e editor, já compilou mais de vinte antologias, incluindo Killer couples – um estudo da loucura a dois. Por dez anos ele dirigiu sua pequena editora onde publicou, por exemplo, Jorge Luis Borges. A. Susan é pesquisadora da Universidade de Londres, o seu foco é a literatura produzida por mulheres, é dela a introdução a esta antologia que abarca trabalhos escritos por mulheres de diferentes países: Japão, Rússia, França, Botswana, Estados Unidos, Canadá, China, etc. O Brasil, infelizmente, não está representado por nenhuma autora.

Os Contos foram organizados de forma cronológica e vão de 1882 aos nossos dias o que reflete, segundo Susan, grande diversidade histórica e cultural. Algumas poucas histórias foram extraídas de trabalhos mais longos, mas os organizadores tomaram o cuidado de publicar textos que fossem completos, mesmo nesse caso. Como afirma a autora da introdução, uma consideração sobre o significado da palavra Erótico não poderia faltar numa antologia que tem este título. Erótico, como é sabido, vem do grego, mas, se pergunta Susan, em que extensão a palavra era usada para descrever a paixão sexual sentida pelas mulheres já que a sociedade ateniense era comandada pelos homens? Sugere que seria, inclusive, mais apropriado chamar essa sociedade de ‘androcracia’ ao invés de democracia já que o poder não emanava realmente do ‘povo’ como sugere a palavra e sim do homem. “Relegar a mulher a um papel puramente biológico era perfeitamente natural”, explica Eva Canterella.

Susan prossegue explicando que, até muito recentemente, trabalhos escritos por mulheres estavam quase ausentes das coleções de ficção erótica. O bestseller Histoire d’O (1954) de Pauline Réage, é uma exceção, foi um dos raros livros de conteúdo erótico escrito por uma mulher, porém, observa Joan Smith, a autora replicou o discurso masculino no qual o homem domina a mulher. É a história de uma moça que se torna, por escolha própria, “escrava sexual de um grupo de homens que a torturam, estupram, batem e humilham até que ela desista de toda liberdade ou vontade.” As autoras representadas nesta antologia rejeitaram estas convenções e encontraram outra forma de escrever sobre desejo, explica Susan.

A primeira história, Violette, é um episódio da novela Le roman de Violette que foi publicado anonimamente em Bruxelas em 1882, hoje sabe-se que foi escrito pela Marquesa de Mannoury D’Ectot. Violette é uma criada de dezesseis anos que foge da casa – e das garras – de seu patrão, vai procurar ajuda na casa do narrador desta história. Este, com muita ternura e respeitando a vontade de Violette, vai lhe mostrando os caminhos do prazer.

Outras escritoras francesas presentes nesta antologia são Colette, com o conto Mitsou, (1919) e Simone de Beauvoir com Marcelle (1942). É preciso entender de forma muito ampla o conceito de erótico para que se inclua nele este conto de Beauvoir que tem, isso sim, muito de engajamento feminista. Marcelle, uma mulher inteligente, procura um ‘homem de gênio’, entrega-se a um poeta que, ela imagina, seria este homem. Sofre, se anula, aceita as condições e os caprichosos do homem criador, a tudo justifica e ao ser rejeitada, descobre que não precisa mais procurar este homem, pois, em meio às lágrimas, percebe que ela sim, era ‘uma mulher de gênio’.

Algumas das autoras desta antologia são mundialmente conhecidas: Kate Chopin, Katherine Mansfield, Gertrude Stein, Isabel Allende…, outras são conhecidas somente no seu país de origem ou regionalmente. Siv Holm, escritora dinamarquesa, tornou-se famosa após a publicação de sua novela autobiográfica (em partes) I, a Woman (1965) que mais tarde foi adaptada para o cinema. É um extrato da novela que encontramos nesta antologia. Trata-se da história de uma mulher que ‘se libera da sua família e da vida numa pequena cidade. O livro chocou a sociedade na época porque mostrava uma mulher que quer – e encontra – sexo fora do casamento e sem compromisso de qualquer relacionamento durável. ’ Nesse extrato escolhido para a antologia percebemos também a reflexão da personagem sobre a escrita, o momento em que toma a decisão de comprar uma máquina de escrever, em que se pergunta sobre o que vai escrever e decide que só pode começar escrevendo sobre si, seus desejos. “É, provavelmente, o caminho mais seguro e mais honesto.”(….) “Deve ser fácil se você escrever do mesmo jeito que pensa.” Conclui.

Alifa Rifaat é uma escritora egípcia que, diz a apresentação, trabalha unicamente dentro da cultura árabe. O título do trabalho apresentado neste livro é My World of the Unknown (1971), um conto fantástico em que a personagem apaixona-se por um djinn, um espírito presente na cultura islâmica, aqui ele aparece na forma de uma serpente. É um conto delicado e impregnado de sensualidade. Outra escritora que preferiu falar de sexo de forma indireta, ou seja, através da ficção científica, foi Joanna Russ. Ela afirma que ‘É impossível escrever sobre sexo de forma direta.’ No seu conto, An Old-fashioned girl, a narradora apresenta às amigas o seu homem-robô.

Bessie Head (1937-1986)é sul africana, filha de uma escocesa e um zulu, nasceu num hospital psiquiátrico (prisão, dizem outros) para onde a sua mãe foi enviada para o resto da vida por causa da união ilícita com um negro. Bessie é a autora do conto, The collector of treasures, onde, como em muitos dos outros trabalhos da autora, o tema é a injustiça de que tantas mulheres africanas são vítimas. Dikeledi, personagem principal do conto, aceita casar-se com um homem insensível e egoísta porque não tinha outra saída, órfã, vivia na casa do tio que queria livrar-se dela. O marido a abandona com três filhos, ela trabalha duro e consegue alimenta-los e educa-los sozinha. Um dia, talvez contrariado por ver a mulher se dando bem sem ele, o marido aparece para reclamar sexo e mordomias. Uma mulher negra não tinha condições de recusar sexo ao marido, reflete Dikeledi e, fingindo aceitá-lo, prepara o seu banho, o jantar, bebidas e uma faca bem afiada com a qual arranca fora o seu membro. Um excelente conto, o erótico, aqui, acho que fica na conversa entre Dikeledi e uma vizinha que narra a sua vida sexual. Ela tem a sorte de ter um marido atencioso e, com pena da amiga que desconhece o prazer na cama, propõe-lhe que sirva-se do seu marido enquanto ela estava grávida. Dikeledi agradece a atenção, mas, sabiamente, recusa a oferta.

A japonesa Amy Yamada é famosa no seu país e relativamente conhecida nos Estados Unidos, viveu em Nova York e muitos dos seus trabalhos são traduzidos para o inglês. O universo de Kneel Down and Lick My Feet, o conto apresentado nesta antologia, é o dos clubes de sadomasoquismo. A narradora trabalha em um destes clubes e vai contando sobre o trabalho, a importância de se amarrar bem as cordas, por exemplo, e, uma das partes mais interessantes, a linguagem usada nestes lugares. “A linguagem é uma das coisas mais críticas neste tipo de jogo.” Avisa. “Você tem que falar de um modo altivo, mas é preciso também mostrar respeito e ser educada.” A narradora é uma ‘rainha’. “Nós, rainhas, somos personagens extremamente importantes, no final das contas. Nós temos que usar palavras que elevam nossas ações. Pense nelas fora de contexto e você não pode se impedir de rir.” “Escravos que exaltam cada ação da rainha chamam meu xixi de água sagrada.” É um dos melhores contos do livro, em minha opinião.

Evelyn Lau deve ser a escritora mais jovem desta antologia, ela é canadense, de família chinesa e nasceu em 1971. Decidiu cedo que queria escrever, mas a família, sobretudo a mãe queria que ela fosse médica. A exigência e pressão eram tão grandes que, com 14 anos, Evelyn deixou a casa dos pais e foi viver na rua, casa de amigos eventualmente ou ainda albergues. Para viver prostituiu-se e, durante todo o tempo manteve um diário que foi publicado com o título de Runaway: Diary of a street kid, traduzido para o português como A fugitiva – diário de uma menina de rua. O livro tornou-se um bestseller no Canadá, depois disso Evelyn já publicou outros livros e recebeu vários prêmios. Nesta antologia podemos ler o conto Fetish Night, retirado de Fresh girls, seu livro de 1993.

A vantagem de uma antologia como esta é a possibilidade de se conhecer escritoras muito diferentes umas das outras. Se, numa livraria, eu desse de cara com um livro de Alifa Rifaat, Amy Yamada etc, o nome não me chamaria a atenção, hoje eu não sairia dali sem eles.
Leila Silva Terlinchamp – Cadernos da Bélgica
Na foto: Colette, Simone de Beauvoir.

Fonte Rosebud – Livros
Quinta-feira, Dezembro 14, 2006

20/04/2008 - 15:26h “A maioria dos jornais preferia que Lula não tivesse vencido”, constata o novo ombudsman da Folha

“acho que os jornais brasileiros perderam o poder de influenciar. O maior exemplo foi a eleição presidencial de 2006. Era claro que a maioria dos jornais preferia que Lula não tivesse vencido. No entanto, Lula teve dois terços dos votos.”

A constatação é do novo ombudsman da Folha de São Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva. Mas ele pondera que os jornais não perderam credibilidade.

Permito-me discordar, a credibilidade dos jornais brasileiro foi desgastada precisamente pela vontade de influenciar o eleitorado na contramão das aspirações populares. O noticiário foi enviesado para alavancar um desfecho eleitoral diferente, provocando uma perda indiscutível de credibilidade. Acontece que os leitores dos jornais não são uma representação do conjunto da população e sim uma minoria de elementos da classe média, onde a oposição guarda relativamente uma maior influência.

A postura anti Lula dos jornais reforçou uma identificação de uma parte desses leitores com os jornais e um afastamento crítico dos que não se consideravam contemplados no desequilíbrio imperante na mídia. A perda de credibilidade está nesses setores.

Também discordo das afirmações do ombudsman em relação aos blogs. Ou melhor dito, considero sua afirmação uma visão parcial. O radicalismo dos blogs, muitas vezes artificial, guarda relação com o radicalismo enviesado da grande mídia, seu gosto pelo sensacionalismo e sua orientação oposicionista, refletida na esmagadora quantidade de articulistas de opinião, claramente embarcados na disputa política com o PT e o governo. É a influência deste “noticiário” que sonega à nação o debate sobre seus rumos, em proveito do udenismo demagógico. É ele que se espalha em alguns blogs, em detrimento de um debate de conteúdo.

Concordo com Carlos Eduardo quando constata que a decisão de não publicar na internet a crítica diária do ombudsman, tomada pela direção da Folha, é inócua “porque o fato de ser restrita à Redação não vai impedir que a concorrência e grupos políticos tenham acesso a ela. É impossível impedir que algo que seja distribuído a mais de uma centena de jornalistas não vaze para fora do jornal.”

Porém, não é inócua a vontade expressa nesta decisão. Ela visa censurar opiniões suscetíveis de serem “instrumentalizadas por jornalistas ligados ao planalto”, ou seja toda opinião jornalística que questione a linha de oposição ao governo.

No mais, espero que o novo ombudsman se paute pela ética da independência em relação aos donos e a redação do jornal, como instrumento da exigência da maior isenção possivel. Pois se trata de um meio de comunicação com poder de influenciar a sociedade e portanto obrigado a agir com transparência em seus objetivos. LF

A seguir a entrevista do novo ombudsman publicada na Folha de São Paulo

ENTREVISTA/CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA

Eduardo Knapp/Folha Imagem
 

O ombudsman Carlos Eduardo Lins da SilvaJornalista que assume cargo na terça defende um produto com menos assuntos e mais análises; para ele, cobertura do caso Isabella mostra que a mídia estimula o que há de pior nos instintos humanos

Jornal precisa encontrar seu novo papel, diz ombudsman

DA REDAÇÃO

NOVO OMBUDSMAN DA FOLHA , Carlos Eduardo Lins da Silva, crê que os jornais brasileiros vivem um momento contraditório. Pelo lado bom, não sofrem da crise de credibilidade que acomete os diários norte-americanos. Pelo ruim, estão perdendo o poder de influenciar a opinião pública. Segundo ele, está na hora de os jornais decidirem que papel vão ter na concorrência com outros meios, como a internet, as rádios e a TV. Defende que o futuro está num produto mais focado, com menos assuntos e mais analítico.

Lins da Silva passa a atender os leitores e a redigir uma crítica interna na próxima terça-feira, dia 22. Sua primeira coluna dominical será publicada no dia 27 no caderno Brasil. Na entrevista abaixo, ele fala da proliferação de blogs, da cobertura do caso Isabella e do impasse que culminou com a não-renovação do mandato do ocupante anterior do cargo.

FOLHA -Jornais brasileiros e americanos vivem situações opostas. Lá eles perdem circulação e receita com publicidade. Aqui cresceram as vendas e o volume de anúncios. Qual a razão desse descolamento?
CARLOS EDUARDO LINS DA SILVA – O que acontece no Brasil é uma coisa ilusória e acho que os jornalistas brasileiros não deveriam se iludir com esse bom momento. Primeiro, porque a internet não está muito disseminada aqui como nos EUA. Segundo, nós estamos vivendo esse boom da economia que eu acho que é passageiro. Nos EUA, ao contrário, a internet é quase universal e a economia está começando a sofrer os primeiros tropeços. Na minha opinião, é irreversível a tendência de os jornais impressos perderem circulação.

FOLHA – É a internet que tirará esse público dos jornais?
LINS DA SILVA
- Eu acho que a internet já está tirando público e publicidade dos jornais. E será assim se o jornal impresso não revir a sua existência.

FOLHA – Você não acredita que possa crescer o número de leitores de jornais impressos com mais pessoas alfabetizadas e com mais dinheiro no bolso? Nos EUA, nos anos 60, 80% dos americanos com 18 anos ou mais liam jornais durante a semana. Hoje, ainda são cerca de 50%. O Brasil nunca chegou nem perto disso.
LINS DA SILVA
- O problema é que no Brasil o crescimento dos meios de comunicação foi atropelado. Nos EUA, o desenvolvimento do capitalismo foi mais ou menos ordeiro. Houve a afluência monetária, que atingiu grande parte da população. Houve a conquista de direitos trabalhistas, que garantiu mais tempo para o lazer. Houve a alfabetização universal. Tudo isso levou a que quase todo mundo lesse jornal. Depois disso surgiu a televisão, a internet. No Brasil, não houve distribuição homogênea de riqueza, ainda há muitos analfabetos e você teve, antes de a leitura de jornais se universalizar, a chegada da televisão e da internet. Então, acho que essa universalização nunca vai ocorrer.

FOLHA – Para enfrentar a perda de circulação, alguns jornais americanos apostam na hiperlocalidade. Focam cada vez mais na própria comunidade. Essa será uma tendência para o Brasil?
LINS DA SILVA
- Não sei se isso vai funcionar nem nos EUA. Há uma outra diferença entre os jornais americanos e brasileiros, que é a questão da credibilidade. Lá, eles passam por um momento de perda da credibilidade. Aqui, não. Mas, voltando à questão, não sei se essa é uma solução para os jornais impressos. Porque, também para o provimento da informação local, a internet é um meio mais adequado. Você pode comprar seu ingresso de cinema pela internet. Você pode saber o cardápio do restaurante pela internet. Você não tem como prestar esse tipo de serviço nas páginas do jornal.
Para mim, a saída para o jornal impresso é apostar na profundidade, na qualidade e ter mais foco, tratar de menos assuntos. Porque isso a internet não pode dar. O jornal impresso precisa procurar o tipo de conteúdo em que ele se sai melhor, em vez de insistir em competir com a internet naquilo que ela pode oferecer com mais comodidade para o leitor.

FOLHA – Alguns jornais ingleses tentam esse modelo mais focado e mais aprofundado, mas não obtêm mais leitores com isso.
LINS DA SILVA
- Eu acho natural que esse modelo que eu defendo tenha menos leitores que o modelo atual. Porque esse novo jornal não deverá atender a todo o universo de possíveis leitores. Ele deve ser dirigido para uma parcela mais específica da população. Pode ter menos circulação, mas gastará menos com papel e poderá ter mais publicidade, focada para aquele público. E o mais importante, ele pode ter mais influência social do que esse jornal dirigido ao público em geral, que é muito caro para ser produzido.

FOLHA – Do ponto de vista da qualidade da informação, deixando de lado circulação e publicidade, você acha que os jornais brasileiros vivem um bom ou mau momento?
LINS DA SILVA
- Acho que vive um bom momento, uma vez que não perderam credibilidade, como aconteceu nos EUA. Por outro lado, acho que os jornais brasileiros perderam o poder de influenciar. O maior exemplo foi a eleição presidencial de 2006. Era claro que a maioria dos jornais preferia que Lula não tivesse vencido. No entanto, Lula teve dois terços dos votos. Da mesma forma, no momento do mensalão, a maioria dos jornais de qualidade no Brasil preferia que o desfecho fosse outro.

FOLHA – Qual é o grande desafio dos jornais impressos hoje?
LINS DA SILVA
- É definir qual papel terão. Principalmente para manter a influência. O jornal terá que encontrar seu lugar, como o rádio encontrou. Muitos diziam que o rádio morreria com a chegada da televisão. Não foi o que aconteceu. Hoje o rádio está num ótimo momento. Ele descobriu que seu espaço não era mais ser como a Rádio Nacional foi em meados do século passado: o centro das atenções da família no horário nobre da noite. Perdeu audiência, sim. Na época, 80% escutavam a Rádio Nacional. Hoje, 1%. O mesmo vai acontecer com o jornal impresso.

FOLHA – A internet trouxe mais participação dos leitores. Você vê futuro nessas experiências que usam o leitor como provedor de conteúdo?
LINS DA SILVA
- Sou bastante cético com relação a isso. Essa suposta democratização da internet, que permitiria ao cidadão ser repórter, é muita demagogia. O público precisa de informação apurada com rigor, com método. Só algumas pessoas, que têm jeito e experiência, conseguem fazer isso.

FOLHA – Este será um ano eleitoral no Brasil. Com isso, o ombudsman deve ser muito procurado por assessores de políticos e também por leitores que acreditam que o jornal está protegendo esse ou aquele candidato. Como você pretende fazer essa fiscalização da neutralidade do jornal e, ao mesmo tempo, separar o que é paixão política, ou interesse de assessores, da opinião mais objetiva de leitores?
LINS DA SILVA
- Esse será um dos meus desafios. Eu acho que o jornal tem o direito de endossar um candidato. Não acho que deva, mas tem o direito. Por outro lado, no noticiário, o jornal não tem o direito de endossar um candidato. Ele tem que fazer uma cobertura o mais próximo possível do isento. Como você sabe, não existe objetividade absoluta. Mas existe algo próximo disso, que é equilibrar o espaço dado aos candidatos, não adjetivar, dar enfoque mais ou menos justo para os principais concorrentes.
Eu não gosto muito da palavra fiscalização, mas a observação que vou fazer será baseada nisso. Tem que haver equilíbrio e o máximo de isenção possível. É claro que nunca ninguém ficará satisfeito. Mas a medida do sucesso é sempre ser atacado de todos os lados. Quando mais ataques o jornal receber de todos os lados, mais próximo do equilíbrio ele estará.

FOLHA – A internet permitiu também a proliferação de blogs, muitos com enfoque político. Você acha que esses blogs já conseguem influenciar a opinião pública?
LINS DA SILVA
- No Brasil, com certeza não. Nos EUA, sim. Essa influência está sendo sentida na eleição presidencial. No entanto, eu acho que é uma influência ruim, perniciosa. Os blogs tendem a acirrar as divisões. Por exemplo, eu acho que essa disputa entre a Hillary Clinton e o Barack Obama está sendo prejudicada pela divisão que os blogs atiçam entre negros e brancos, entre mulheres e homens, entre trabalhadores industriais e profissionais liberais, que é a divisão que se estabeleceu na demografia eleitoral da Hillary e do Obama.
No Brasil, é parecido, mas é muito menor porque é pequeno o número de pessoas com acesso à internet e que lêem esses blogs. Mas cria-se um mal-estar por causa do radicalismo de alguns deles, que não argumentam, ofendem. Descem a um nível que nem se pode chamar de debate. E isso contamina o tal formador da opinião pública, que muitas vezes lê esses blogs e acaba sendo contagiado pelo radicalismo, o que cria situações artificiais.
A disputa entre petistas e tucanos é muito artificial porque não há tanta coisa que distancie um partido de outro. Mas ela é muito prejudicada pelas pessoas que lêem e até participam desses blogs e se dividem de uma forma muito odiosa.

FOLHA – O ombudsman anterior, Mário Magalhães, condicionou sua permanência no cargo a que o jornal voltasse atrás de decisão tomada no ano passado de não mais divulgar na internet a crítica interna, que, no entender da Direção de Redação, estava sendo usada pela concorrência e instrumentalizada por jornalistas ligados ao Planalto. Você acha que a crítica deveria ser pública?
LINS DA SILVA
- Do ponto de vista do ombudsman, acho que essa questão é irrelevante. Do ponto de vista do jornal, inócua. Irrelevante porque qualquer coisa importante da crítica interna poderá estar na coluna de domingo, que é pública. O leitor, então, não perderá nada.
Já para o jornal, acho que a medida é inócua porque o fato de ser restrita à Redação não vai impedir que a concorrência e grupos políticos tenham acesso a ela. É impossível impedir que algo que seja distribuído a mais de uma centena de jornalistas não vaze para fora do jornal. Acho que o impasse foi gerado por uma questão que não precisaria tê-lo provocado, nem de um lado nem de outro.
O que lamento muito, porque considero que o Mário estava fazendo um bom serviço como ombudsman e isso beneficiava o leitor e o jornal.

FOLHA – Os últimos ombudsmans focaram suas colunas dominicais na cobertura da Folha. Você fará o mesmo ou pretende fazer uma análise mais ampla de toda a mídia?
LINS DA SILVA
- Não tratarei na crítica dominical de nenhum outro veículo específico porque não tenho mandato para isso. Meu compromisso é com a Folha e não serei ombudsman dos concorrentes, da televisão ou da internet. Mas, ocasionalmente, posso tratar da mídia em geral porque acho que será interessante para o leitor.

FOLHA – Você assume o posto de ombudsman na terça, mas sempre foi um leitor atento. O que mais te irrita nos jornais?
LINS DA SILVA
- O que mais me irrita é superficialidade. Depois, erros de português. E isso é uma bobagem, um pedantismo meu, porque erro de português não é tão importante assim. Em terceiro lugar, me irritam muito invencionices de texto. A tentativa de chamar a atenção com o que o repórter considera engraçado. Por exemplo, começar um texto com uma brincadeira que só me fará perder alguns segundos com algo que não tenha nenhum sentido. Também me irritam algumas opiniões muito ralas, que não acrescentam nada para o leitor.

FOLHA – Como você avalia o trabalho dos meios de comunicação na cobertura do caso Isabella?
LINS DA SILVA
- Acho que os jornais estão preocupados em não repetir erros, como ocorreram na cobertura de outros casos policiais que mobilizaram a opinião pública. O que é muito positivo. Há preocupação com aspectos éticos. Mas acho absurdo o que o Clóvis Rossi chama de cenas de jornalismo explícito. Eu vi a saída da prisão do casal suspeito e não consigo encontrar sentido naquele batalhão de cinegrafistas em cima de motocicletas colocando a câmara no vidro do carro em que eles estavam. Não sei qual o valor informativo que pode ter uma imagem como aquela.
Só não sei se isso é evitável, porque o público parece querer esse tipo de cobertura. A mídia, nessas horas, acaba estimulando o que há de pior nos instintos humanos, de morbidez e curiosidade doentia.
Mas aqui há uma questão. Será que o jornalismo sério precisa mesmo entregar o que o público quer, ou diz querer? Na minha opinião, jornalismo sério tem que atender a demanda do público, mas tem também que liderar. É preciso haver uma troca entre o meio de comunicação e seu consumidor para que o jornal atenda os desejos dos leitores, mas também ajude a melhorar a qualidade desses desejos.

16/04/2008 - 12:35h Folha de SP: transparência demais é burrice

capa_ombudsman.jpgHoje a Folha de São Paulo anunciou o substituto do ombudsman Mário Magalhães. Na mesma apresentação do jornalista Carlos Eduardo Lins da Silva como novo detentor do cargo, a Folha comunica o fim da crítica diária publicada na internet. A informação tem o mérito da clareza:

“Jornal deixa de divulgar na internet a crítica interna, usada pela concorrência e instrumentalizada por jornalistas ligados ao Planalto.”

Curiosa confissão de censura e de orientação tendenciosa.

Todos os dias os artigos do jornal são instrumentalizados, seja pela oposição quando servem para atacar o governo, ou pelo planalto e seus defensores, quando o noticiário assim o permite. Cabe ao jornal manter sua independência e tratar de servir exclusivamente a informação e o interesse público.

Qual é a diferencia então com a crítica do ombudsman?

É que este dispõe de uma autoridade “insuspeita” e mostrou com objetividade a face “oculta” da orientação do jornal tirando “eficiência” à campanha de oposição na qual a Folha embarcou. Este é o fundo da questão.

Note-se que para a Folha a instrumentalização só vem de um lado: o planalto.

Mas no que a crítica formulada pelo ombudsman é responsável pela “interpretação” que possa fazer o planalto?

Essa crítica era injusta?

Os fatos eram distorcidos pelo ombudsman?

O contraditório não era respeitado?

Em verdade a Folha reconhece que exerce a censura do que puder ir ao encontro de sua linha e que não admite ser questionada nas suas próprias fileiras.

A decisão dos donos do jornal ilustra que eles compartilham do princípio que transparência demais é burrice. Eu sempre pensei que isso só fosse válido para os partidos políticos, confrontados com a ação dos seus adversários. Mas a Folha pretendia que este principio era típico dos que tinham coisas a ocultar.

A Folha quer ocultar o que?

Talvez o que o jornal queira ocultar é que o rabo preso da Folha não é com seu leitor, mas com sua linha política de oposição.

Uma pena para a democracia e a liberdade de imprensa. Um verdadeiro retrocesso.

Luis Favre

12/04/2008 - 05:38h POLÊMICA NO MOVIMENTO TEATRAL BRASILEIRO: Duas leis, divisão ou diversidade?

Mobilização se acirra e revela contradições internas e diferenças de visão sobre mecanismos de apoio

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Beth Néspoli – O Estado de São Paulo

Se o movimento da classe teatral ganhou os holofotes nas últimas semanas, ele não começou ontem. Representante da APTR, Andréa Alves enfatiza que a discussão teve início há cerca de cinco anos, nas câmaras setoriais. ‘Em outubro de 2005 conseguimos, numa audiência pública, incluir o teatro na Comissão de Educação e Cultura. Abrimos essa porta’, diz. O anteprojeto de lei do Redemoinho também é de 2005 e já rendeu reportagem no Estado ao ser apresentado no 2º encontro da rede, realizado em Belo Horizonte, no Grupo Galpão.

Por que a disputa parece mais acirrada agora? Em parte pelas diferenças de propostas nos anteprojetos (leia abaixo), em parte pela própria mobilização da classe teatral. No dia 27 de março, dia do teatro, manifestações foram feitas em 11 cidades de diferentes Estados, planejadas pelo movimento Redemoinho em parceria com a Cooperativa Paulista de Teatro. Na próxima quinta-feira, o conselho do Redemoinho, formado por diretores de São Paulo, Porto Alegre, Natal, Belo Horizonte e Salvador, tem encontro marcado com o secretário executivo do MinC, Juca Ferreira, para discutir o anteprojeto de Lei de Fomento. Em maio haverá outra reunião na comissão do Senado para debater a Lei do Teatro. ‘Com certeza o movimento está mais maduro, propõe projetos, coloca o teatro em pauta e isso é um avanço’, diz Andréa.

Mas não unificado. São contradições que se repetem ao longo da História. Se há debate, livre, democrático, as diferenças aparecem. Algumas radicais como se pode constatar pela leitura dos artigos da página ao lado. Por outro lado, se há maturidade, o debate resulta frutífero. ‘No Brasil, é erro comum a confusão entre distribuição de verba e política cultural. Sempre se discute o primeiro. Enquanto não houver esse entendimento, a discussão não avança’, já argumentava Eduardo Tolentino, do Grupo Tapa, em reportagem do Caderno 2 de 11 de março de 2005, sobre a concentração de renda na captação feita por meio da Lei Rouanet. As reportagens também se repetem agora.

É ponto importante – a lei de incentivo é apenas um mecanismo de financiamento. Que serve, bem ou mal, a uma parcela da produção artística. Para além dos grupos organizados e dos artistas cuja simples presença no Senado repercute na mídia, há uma maioria silenciosa lutando para produzir e aprimorar a arte teatral em todo o País. Para levar O Avental ao festival de Curitiba, o grupo baiano Teatro de Bastidores fez uma via-crúcis por órgãos públicos e, ao final, contou sobretudo com seu público. ‘Teve até um espectador que pagou uma das passagens’, diz a produtora Graça Regina Souto Silva. Viajaram sem cenário, que recompraram em Curitiba (R$ 270) e lá deixaram. ‘Nosso projeto foi aprovado na Rouanet, mas não captou.’ Um caso, entre muitos. E era um espetáculo de autor premiado, Marcos Barbosa.

‘Só vai mudar quando as escolas levarem seus alunos ao teatro e ao cinema’, diz Andréa. ‘Ainda há executivos da área de Marketing que não têm noção do que é teatro.’ Com qual freqüência empresários, médicos, engenheiros ou políticos vão ao teatro? Talvez uma pesquisa séria de público revelasse que sua ausência nas salas não é mera questão de poder aquisitivo. Uma cena teatral forte e diversa pede mapeamento, políticas públicas planejadas para desenvolver a atividade em toda a sua amplitude, inclusive na formação, no sentido mais profundo, de público.

Se há consenso nesse ponto, não há sobre quais mecanismos dariam conta dessa amplitude. Ney Piacentini, presidente da Cooperativa Paulista de Teatro, enfatiza: ‘É preciso conhecer para criticar. A lei federal que propomos, por exemplo, não é só para manutenção de grupos, mas para produção de espetáculos e circulação. O que considero importante pôr em discussão é que fundo público tem de ter destinação pública. Lei de incentivo, da forma como está, é loucura brasileira, não existe em país nenhum.’

‘O atual debate é bom porque pode servir para afiar o diagnóstico, única chance de se chegar a boas soluções. Reações acirradas costumam ser provocadas por diagnósticos precários’, diz o consultor cultural João Leiva Filho. ‘Um dos problemas é que o funcionamento da lei piorou’, diz o produtor Claudio Fontana. ‘Antes a análise de um projeto levava no máximo dois meses, agora leva seis. Teoricamente, a criação de uma secretaria não é uma boa idéia, mas se na prática melhorar o atendimento eu aprovo’, argumenta.

‘Um dos problemas da Lei Rouanet é ser única’, diz o presidente da Funarte Celso Frateschi. ‘Cerca de 90% do que é aprovado não capta, é trabalho perdido’, diz. Claudio Fontana sugere que a dedução possa ser feita também sobre o lucro presumido – e não só sobre lucro real – o que facilitaria a captação e o investimento, nas pequenas empresas. ‘O Ministério da Cultura tem consciência de que mudanças vêm sendo solicitadas há cinco anos. Mas não se constrói política cultural com uma cartada. É preciso maturação. Acho que chegamos a esse ponto’, diz Celso Frateschi.

Recentes críticas de Frateschi à Lei Rouanet, segundo ele responsável pelo encurtamento das temporadas, provocaram uma reação em cadeia. ‘Estou convencido de que ainda vou convencer os produtores teatrais de que estou a favor deles’, diz ele. ‘Do jeito que está a Lei Rouanet não lhes serve.’

Produtores apontam a meia-entrada obrigatória para estudantes e idosos como uma das causas dos altos custos de produção. Onera e não atinge quem deveria. ‘Não é por ser estudante ou idoso que há carência financeira’, diz Beatriz Segall. ‘Sem contar que qualquer curso e até pizzaria dá carteira de estudante.’ Fontana aponta ainda os altos aluguéis das salas de espetáculo.

Celso Frateschi considera forte entrave no funcionamento da Rouanet o perfil dos captadores e a concentração de renda (leia quadro nesta página). ‘Não vou falar pelos outros, mas pela própria Funarte. Os prêmios Miriam Muniz, de teatro, e Klauss Vianna, de dança, foram realizados com captação pela Lei Rouanet. Como um produtor independente vai concorrer com Estados e com prefeituras?’ Uma lei geral para as artes vem sendo gestada no Ministério da Cultura. ‘No máximo em dois meses será posta em discussão com a classe’, diz Frateschi. Ele acredita que embora não seja uma lei específica para o teatro, vá servir entre outras coisas para desonerar a Lei Rouanet. ‘E terá especificidades que respeitam as diferenças de necessidades entre as áreas.’

Mais uma etapa dessa discussão certamente se dará no dia 5, quando Frateschi participa de um debate, aberto ao público, no Centro Cultural São Paulo, para discutir Políticas Públicas para o Teatro.

06/04/2008 - 10:01h Senzala na imprensa

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Escrava Anastáciaartur_escrava-anastacia.jpg

Vamos chamar a coisa pelo seu nome: mordaça.

O ombudsman da Folha foi calado por mostrar do dedo a parcialidade do jornal e faze-lo com a autoridade que confere ser ombudsman do próprio jornal.

Dia sim, outro também, Mário Magalhães mostrava o “lado” da Folha e isto servia para por a nu a vergonhosa campanha da grande mídia contra o governo e o PT, em coluio com a oposição.

Memorável foi a critica sobre a “tendência” pro-Serra do jornal.

Todos os dias, com transparência, a crítica do ombudsman na internet, reproduzida pela blogosfera, minava a parcialidade da cobertura que o jornal faz. Intolerável para os arautos do ‘escândalo permanente”, decidiram calar a voz discordante. Com dignidade Mário Magalhães recusou a auto-censura proposta pelos patrões irritados.

Ontem, em referencia ao livro lançado por Eugênio Bucci, alertei contra a pratica de limpeza ideológica que imperava em certas redações. Não sabia que a Folha iria corroborar tão rápido o que eu denunciará: a existência de um violento partidarismo da imprensa brasileira e o uso da censura, a mordaça e as demissões para impor na mídia uma linha autoritária de porta-estandartes da oposição partidária.

Luis Favre

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06/04/2008 - 08:50h Despedida

A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação das críticas diárias na internet; não concordei; diante do impasse, deixo o posto


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NO ANO QUE passou, quando as noites de domingo se insinuavam, e tantas famílias saíam para o último passeio do fim de semana, a minha sabia que ficaríamos em casa -ou pelo menos não iríamos todos. Era hora de eu começar a longa e solitária jornada madrugada adentro para terminar de esquadrinhar jornais e revistas.De manhã, com as olheiras a denunciar o sono roubado, leria as edições do dia e escreveria a mais encorpada crítica semanal, a da segunda-feira. Hoje à noite, se alguém me chamar, terá companhia.Esta é a 51ª e derradeira coluna dominical que escrevo como ombudsman da Folha. Assumi em 5 de abril de 2007, e o meu mandato se encerrou anteontem. Embora o estatuto autorize a renovação por mais dois períodos, não houve acordo com a direção do jornal para a continuidade.

A Folha condicionou minha permanência ao fim da circulação na internet das críticas diárias do ombudsman. A reivindicação me foi apresentada há meses. Não concordei. Diante do impasse, deixo o posto. Oitavo jornalista a ocupar a função, torno-me o segundo a não prosseguir por mais um ano. Todos foram convidados a ficar. Sou o primeiro a ter como exigência, para renovar, o retrocesso na transparência do seu trabalho.

A crítica da quinta foi a última que circulou na Folha Online, com acesso a não-assinantes da Folha e do UOL.

A partir de agora, os comentários produzidos pelo ombudsman durante a semana só poderão ser conhecidos por audiência restrita, de funcionários do jornal e da empresa, que os recebe por correio eletrônico. Os leitores perdem o direito. Era assim nos primórdios do cargo, criado em 1989. A internet engatinhava.

Como se constata no site www.folha.com.br/ombudsman, desde 2000 as críticas vão ao ar. Por oito anos, os leitores puderam monitorar a atividade cotidiana de quem tem a atribuição de representá-los.
Não poderão mais.

Regras
O comando da Folha esgrimiu um argumento para a decisão: no ambiente de concorrência exacerbada do mercado jornalístico, idéias e sugestões do ombudsman são implementadas por outros diários.
De fato, isso ocorre.

E continuará a ocorrer.

Quase 20 anos atrás, as críticas ainda denominadas internas eram distribuídas em papel à Redação.

Acabavam nas bancadas de outros jornais. Um deles veiculou publicidade alardeando elogio do ombudsman.

Com a difusão por e-mail, será ainda mais difícil conter a distribuição irregular das anotações do ouvidor. Eventuais interessados, se bem articulados, terão como lê-las. Que segredo sobrevive a centenas de destinatários?

Já os leitores ditos comuns, os que fazem a fortuna de toda empreitada jornalística de sucesso, serão barrados. A medida não resolve o problema a cuja solução se propõe, mas prejudica quem é alheio a ele.
A não-renovação do mandato é legítima, respeita a Constituição do jornal. Sua direção tem a prerrogativa de convidar ou não o ombudsman a permanecer. E de estabelecer as normas. Não há quebra de contrato, e sim respeito.

No meu caso, haveria mudança de regra no meio da gestão, composta de um a três mandatos. Regras, como a Folha recomenda, devem ser estabelecidas antes do jogo.

Autópsia
Não é praxe dos jornais impressos do mundo inteiro compartilhar na rede o que muitos deles chamam de memorando interno do ouvidor.

Assim como, na conferência da Organização dos Ombudsmans de Notícias, com participantes de 13 países, não encontrei quem digitasse todo santo dia, como fazemos aqui, uma crítica ou memorando.
A Folha deu um passo ousado na imprensa brasileira ao nomear um ombudsman. Radicalizou e tornou públicas as críticas antes limitadas à Redação. Mais do que as colunas dominicais, essa espécie de parecer se destina a uma autópsia das edições. Em minúcias, identifica suas fraquezas, sem desprezar as virtudes. Expõe as vísceras do jornal.

O desafio do ombudsman é ser a melhor síntese possível dos interesses dos leitores. A eles interessa que o jornal seja bom. Nas críticas, o ombudsman busca contribuir para que o jornal do dia seguinte seja melhor que o da véspera.

Essa confluência faz do ombudsman um benefício potencial ao leitor e ao jornal.

Mesmo com as críticas vetadas aos leitores, a Folha não perderá a primazia em transparência no jornalismo nacional. As colunas de domingo persistirão, e a publicação de um artigo como este expressa tolerância com o pensamento divergente. Quantos jornais o imprimiriam, se o objeto de análise fossem eles?

Regressão

A despeito desse cenário, a restrição imposta configura regressão na transparência. O projeto editorial da Folha diagnostica “um jornalismo cada vez mais crítico e mais criticado”. Reconhece que “o leitor fiscaliza a pauta de compromissos” do jornal.

O ombudsman deve ser um instrumento dos leitores. Se 80% dos pronunciamentos semanais ficam inacessíveis (as críticas de segunda a quinta; não escrevo às sextas), reduz-se a fiscalização dos leitores sobre aquele cuja atribuição é batalhar em nome deles.

Essa peleja não implica, em um exemplo, advogar o alinhamento do jornal com partidários ou opositores das pesquisas com células-tronco embrionárias, mas incentivar o equilíbrio no noticiário e nos espaços de controvérsia.

O ombudsman incapaz de zelar pela manutenção da transparência do seu ofício carece de autoridade para combater pela transparência do jornal. Como cobrar o que se topou diminuir?
A tendência mundial é de expansão da transparência das organizações jornalísticas. A novidade da Folha aparece na contramão.

Agradecimentos

A crítica diária é valiosa como instrumento de diálogo entre os leitores e o ombudsman. O que ele pensa disso e daquilo? Por vezes, a resposta se encontra nos apontamentos do dia. Na semana passada, foi possível conferir se eu perguntei à Folha quem lhe forneceu o dossiê do momento. A resposta significaria romper o compromisso de sigilo com a fonte. Um ministro disse que eu perguntei. Não é verdade.
Se fosse responder aos leitores sem a chance de lhes remeter à crítica on-line, não sei se daria conta do atendimento. Em 1991, primeiro ano do qual sobreviveu estatística, houve 3.748 contatos com o ombudsman. Em 2007, o recorde de 13.374.

Em janeiro, fevereiro e março de 2008, registraram-se marcas inéditas. O salto de 24% na comparação com idêntico trimestre do ano anterior projeta resultado anual superior a 16.500, sem considerar o impacto de eventos como eleição e Olimpíada.

O vigor do Departamento de Ombudsman é manifestação da mudança de comportamento de cidadãos e consumidores de notícias: a fé nos relatos jornalísticos dá lugar ao ceticismo; troca-se a submissão a versões pela leitura crítica; a passividade, por cobrança. Essa é a principal característica do jornalismo do século 21. Merece ser saudada pela sociedade e pelos jornalistas.

Na chegada, eu pensava ter muito a dizer. Ao partir, sei que tenho muito a ouvir.

Gostaria de ter falado de outros assuntos, dos anúncios de prostituição aos interesses cruzados do jornal. Fica para outra vez.

Pelo ano em que fui feliz, agradeço à confiança que a direção da Folha depositou em mim. Tive liberdade para escrever o que quis. Uma executiva me disse que o jornal precisava de um “ombudsman crítico”. Tentei desempenhar escrupulosamente a missão.

Sou muito grato à minha supersecretária, Rosângela Pimentel, e ao meu assistente, o futuro jornalista Carlos Murga. Na Secretaria de Redação, devo a Suzana Singer e Alba Bruna Campanerut.
Na editoria de Arte, a Fábio Marra e Julia Monteiro. Ao colocar a coluna no papel e me salvar de vexames maiores, Vanessa Alves coordenou um time talentoso e generoso.

Minha gratidão maior é para quem me deu lições inestimáveis -hoje à noite, em casa ou na rua, não esquecerei o brinde aos leitores da Folha.

Mário Magalhães é o ombudsman da Folha desde 5 de abril de 2007. O ombudsman tem mandato de um ano, renovável por mais dois. Não pode ser demitido durante o exercício da função e tem estabilidade por seis meses após deixá-la. Suas atribuições são criticar o jornal sob a perspectiva dos leitores, recebendo e verificando suas reclamações, e comentar, aos domingos, o noticiário dos meios de comunicação.

13/02/2008 - 15:42h “Tropa de Elite”, a crítica e a escória

 

“Tropa” gera mais ódios que amores em Berlim

“Variety” e “Le Monde” dizem que filme faz apologia à violência; “Screen” elogia o longa

Para o diretor José Padilha, críticos estrangeiros foram influenciados por colegas brasileiros que reprovam a obra desde a estréia no Brasil

FOLHA DE SÃO PAULO

SILVANA ARANTES
ENVIADA ESPECIAL A BERLIM

O concorrente brasileiro ao Urso de Ouro no Festival de Berlim, “Tropa de Elite”, de José Padilha, exibido anteontem, teve uma recepção da crítica dividida entre amores e ódios. Mais ódios do que amores.
A revista norte-americana “Variety”, que recentemente incluiu Padilha numa restrita lista de dez diretores em quem se deve prestar atenção, foi especialmente dura com o filme.
Em resenha assinada por Jay Weissberg, a “Variety” atribui a “Tropa de Elite” um “estilo Rambo” e sustenta que ele faz “uma monótona celebração da violência gratuita que funciona como um filme de recrutamento de seguidores fascistas”.
Weissberg afirma ainda que, segundo o filme, “só o Bope pode salvar a cidade [do Rio], mas isso requer, antes, a remoção cirúrgica de qualquer coisa que se pareça com um coração”.
Leitores brasileiros da versão online da revista escreveram no site mensagens de protesto e atacaram o autor da crítica.
A “Hollywood Reporter” publicou entrevista e reportagem sobre o filme, com destaque em sua capa da edição de ontem, mas chamou-o de “um filme constrangedor sobre policiais assassinos”.
A crítica afirma que “o pressuposto básico do roteiro escrito por Padilha, Rodrigo Pimentel e Bráulio Mantovani é que todo mundo no Rio é corrupto, especialmente as autoridades”.
A revista inglesa “Screen”, por sua vez, deu ao filme a nota máxima -quatro estrelas, correspondente a “excelente”- , numa crítica farta de elogios.
“A montagem corajosa, a incansável câmera na mão e essa espécie de tom quente e realista conhecido desde “Cidade de Deus” e “Amores Brutos” produzem uma mistura que é mais funcional do que inovadora, embora seja eficiente”.
A crítica do jornal francês “Le Monde”, publicada no blog de cinema do diário, acusa o filme de fazer apologia da tortura: “”Tropa de Elite” é feito segundo a receita do neoconservadorismo hollywoodiano -montagem frenética, câmera epiléptica, narrativa que não deixa nenhum espaço à ambivalência. Não é preciso ser hipersensível para ver no filme uma apologia da tortura e das execuções extrajudiciais”, afirma o crítico Thomas Sotinel.
A reação da imprensa alemã foi desigual. O jornal “Berliner Zeitung” avaliou o filme como “excitante e original”, disse que ele apresenta “os diversos lados da questão” e o faz com bom “equilíbrio entre os aspectos ficcional e documental”.
Já o “Der Tagesspiegel” disse que, no retrato do “mundo pavoroso e sem lei” que o filme faz, “não há zonas brancas e negras; tudo é escuro”. Os dois jornais, no entanto, ressaltaram que “Tropa de Elite” não é fascista. “E nisso [fascismo], como você sabe, somos especialistas”, comentou o jornalista alemão.
Padilha acredita que os críticos estrangeiros que atribuíram ao filme um caráter fascista foram influenciados por colegas brasileiros que reprovam “Tropa de Elite” desde a sua estréia no Brasil.
Sobre as resenhas publicadas ontem, o diretor afirmou: “Uns nos acharam inteligentes, outros fascistas. Na verdade, não me preocupo com isso”.

Ombudsman Folha

Escória

Trecho da reportagem “‘Tropa’ gera mais ódios que amores em Berlim” (pág. E3): “Leitores brasileiros da versão on line da revista [Variety] escreveram no site mensagens de protesto e atacaram o autor da crítica”.

Na verdade, houve mais: uma bateria de ataques de cunho anti-semita, fascistóide e criminoso contra o crítico da revista.

A Folha deveria informar o que houve (quase todos os comentários foram retirados da internet, mas talvez seja possível recuperá-los).

E a Polícia Federal, investigar.

15/12/2007 - 17:46h Lions et Agneaux – Robert Redford

Vanessa Aubert

Septième film de Robert Redford le cinéaste, Lions et Agneaux surfe sur la vague de rébellion des réalisateurs américains qui inondent depuis peu nos écrans de leurs fictions engagées. Un regard précieux de la part d’un aîné, que l’on attendait lion et qui se fait agneau.

(mais…)

15/12/2007 - 17:34h Lions et Agneaux – Robert Redford

Les hommes du président

Etats-Unis, 2007 – 1h30

Lions for Lambs - Robert Redford Vanessa AubertSeptième film de Robert Redford le cinéaste, Lions et Agneaux surfe sur la vague de rébellion des réalisateurs américains qui inondent depuis peu nos écrans de leurs fictions engagées. Un regard précieux de la part d’un aîné, que l’on attendait lion et qui se fait agneau.

- Exprimez-vous sur le forum cinéma

Inventif, l’homme qui murmurait à l’oreille des chevaux prévoit de nous transmettre son opinion à travers une intrigue en trois tableaux. L’engagement d’abord et l’échange d’idées entre un prof et son jeune étudiant. Le terrain ensuite et la mise en applications des convictions de deux de ses élèves. L’information enfin et la confrontation d’un sénateur et d’une journaliste. Un tryptique prometteur qui offrait toutes les chances d’une émergence de points de vue différents pour un scénario riche.

Malgré ses six personnages principaux, Redford ne parvient pas à concrétiser son ambition. Il réalise un film vide mais pas de sens. En ne l’utilisant que comme un moyen d’expression purement parlée, il se détourne de la matière-même, oubliant de faire vivre ses protagonistes, d’entretenir une histoire et de travailler ses images. Preuve en est le décor des scènes de guerre aux allures de carton pâte dont l’amateurisme inexplicable anéantit toute empathie. Redford affirme sa vision de la guerre dans les situations en intérieur mais leur rythme bavard à l’extrême invalide leur impact. En choisissant Tom Cruise et Meryl Streep, il ne parvient pas davantage à faire passer ses idées avec force et en s’attribuant le rôle du professeur, il risque de peu le ton moralisateur. Regarder la caméra de front eut presque été plus efficace mais Redford tente une forme cinématographique étrange au mélange peu digeste malgré des intentions qui méritent d’être entendues. En hésitant entre deux tendances, le réalisateur de fiction semble se perdre. Espérons qu’à l’avenir, il se retrouvera avec le choix assumé du documentaire.

Lions for Lambs
De Robert Redford
Avec Robert Redford, Tom Cruise, Meryl Streep
Sortie en salles le 21 novembre 2007

Illus. © Twentieth Century Fox France

09/09/2007 - 13:16h Ludwig, Miles e Elizeth por Verissimo

A Sinfonia nº 3 de Ludwig van Beethoven era para se chamar Sinfonia Buonaparte, em homenagem a Napoleão, que então levava os ideais da Revolução Francesa a toda a Europa na ponta de suas baionetas republicanas. Como Goya, outro entusiasta inicial de Napoleão, Beethoven não tardou em se desiludir com o herói auto-ungido imperador e rasgou a página com sua dedicatória da 3ª Sinfonia, que reintitulou Eroica, e que passou a ser uma exaltação do espírito libertário e da grandeza humana. E ficou como exemplo máximo da sinfonia clássica e o parâmetro para
julgar tudo que foi composto antes ou depois no gênero, por ele e por outros – uma revolução não na política mas na sensibilidade européia, e na forma de fazer música.

Karajan – Beethoven Symphony No. 3 ‘Eroica’ – Part 1

Karajan – Beethoven Symphony No. 3 ‘Eroica’ – Part 2

Anos depois, Beethoven comporia sua Missa Solemnis e assim como sua sinfonia heróica dispensara um herói ideal, substituído pelo ideal do compositor, a Missa era uma obra de devoção em que Deus quase não aparecia – pelo menos não com as deferências que le dedicara Bach nas suas paixões e missa – e a deidade mais evidente era o próprio Beethoven, fazendo outra revolução dos sentidos.

Bernstein – Beethoven – Missa Solemnis (D-Dur, opus 123) Credo II

E ele não descansou aí. Seus últimos quartetos para cordas – angulosos, desconcertantes, dificílimos de tocar e, na época, de ouvir – são hoje considerados os precursores, os primeiros acordes, da música moderna. Sua complexidade só foi igualada, anos mais tarde, nos quartetos para cordas do Béla Bartók. O crítico Edward Said escolheu os últimos trabalhos de Beethoven como protótipos do “estilo tardio”, aquelas zonas de criatividade excêntrica e isolamento pessoal (no caso de Beethoven, agravado pela surdez) a que certos artistas ascendem, quase sempre deixando público perplexo e críticos incompreensivos para trás. E que só são redimidas quando o artista não está mais aí para ouvir as desculpas, já que todo estilo tardio é prelúdio de morte. Beethoven também foi o protótipo do artista que não se contenta em ser pioneiro uma vez só.

Como o Miles Davis. Que não chegou a ser um dos que revolucionaram o jazz no fim dos anos 40 e começo dos 50, com o “be-bop”, embora tenha participado de algumas gravações com Charlie Parker e outros pioneiros do novo estilo, mas liderou a revolução seguinte. Reuniu um grupo de músicos jovens como Lee Konitz, Gerry Mulligan e John Lewis num noneto com tuba e trompas para tocar os arranjos de Mulligan e, principalmente , de Gil Evans, baseados no trabalho inovador deste para a banda de Claude Thornhill. Nascia o jazz “cool”, em que as experiências com tonalidades e variações cromáticas coletivas valiam tanto quanto os solos, e era uma projeção da maneira de tocar do próprio Miles, com seu trompete sem vibrato e sua distribuição reflexiva de espaços numa frase. O “cool” foi a base do que se convencionou chamar de jazz da Costa Oeste, predominantemente branco, mas Miles ficou em Nova York e liderou a antítese do que ele mesmo tinha criado, o “hard bop”, ou um bop ainda mais quente do que o original. Depois de gravar alguns discos históricos (Miles Ahead, Sketches of Spain, Porgy n’Bess) com uma grande orquestra e arranjos luxuriantes de Evans, que lhe valeram tanta popularidade e dinheiro que ele poderia muito bem ter se acomodado por aí, Miles fez outra revolução. Entrou num estúdio com um grupo bem selecionado e apenas alguns esboços tonais sobre os quais improvisar e fez um dos discos definitivos da história do jazz, Kind of Blue – diferente de tudo que tinha feito antes.

Kind of Blue: Made in Heaven – Miles Davis

Kind of Blue: So What by Miles Davis

O estilo tardio de Miles foi a sua fusão do jazz com o rock. Confesso que fui um dos que ficaram para trás quando ele começou a usar tranças e sandálias e a tocar com a garotada. Mas acho que Beethoven o entenderia.

Onde entra a Elizeth Cardoso nesse trio? Ela também foi multipioneira, ou pelo menos pioneira duas vezes. Era uma cantora popular clássica, com grande prestígio, mas não se poderia descrevê-la como inovadora.

Elizeth Cardoso 1952 “Ingratidão”

A chamavam de “Divina”. Tinha um estilo mais antigo do que o de cantoras “cool” que começavam a surgir na época, como a Maysa. Mas foi dela a voz que, junto com o piano, a regência e os arranjos de Antonio Carlos Jobim, as composições de Tom e Vinicius de Moraes e a batida diferente do violão de João Gilberto no LP Canção do Amor Demais, de 1958, inaugurou a bossa nova.

E, como o Miles Davis, depois de participar de uma revolução, ela liderou a contra-revolução. Em 1965 o disco Elizeth Sobe o Morro trouxe um reconhecimento inédito a compositores do samba tradicional como Zé Kéti, Nelson Cavaquinho e Nelson Sargento, além de Paulinho da Viola, Elton Medeiros e Hermínio Bello de Carvalho. Elizeth só difere de Ludwig e de Miles porque não teve um estilo tardio. Foi a mesma, divina, até a última nota.

O Estado de São Paulo(para assinantes)

09/09/2007 - 11:39h UNA FURTIVA LACRIMA

Daniel Piza

Escrevi no blog que Luciano Pavarotti, morto na quinta aos 71 anos, foi uma espécie de Frank Sinatra do canto lírico – não necessariamente o melhor de todos, mas aquele que cativou mais pessoas, marcou um estilo e simbolizou uma era. Gigli, Di Stefano, Bjõrling e alguns outros podem ter sido maiores; Pavarotti, porém, seguramente foi um grande, em especial nas performances dos anos 60 e 70. Tinha belo timbre e amplitude, controle impressionante da emissão, potência, sensibilidade com doses de humor e drama. Tomou algumas vaias, mas uma vez foi chamado 17 vezes de volta ao palco pelos aplausos.

Certo, era um ‘divo’, com ataques de estrelismo; quando o vi no Parque Antártica em 1992, ficou irritado com quem pedia para cantar o que não estava programado. Mas foi também um ‘bon vivant’, que levava seu próprio queijo ralado aos restaurantes e adorava futebol. Concordo que se perdeu quando se tornou fenômeno pop – embora jamais um canastrão como Mario Lanza, que começou imitando. De qualquer modo, a voz já tinha deixado o apogeu, e o que fez nesse apogeu não pode ser apagado por preconceito. Servia Donizetti, Puccini e Verdi ao ponto e com molho suculento.

Leia a integra da coluna de Daniel Piza no caderno Cultura do jornal O Estado de São Paulo (para assinantes)

09/09/2007 - 11:35h Os indomesticáveis

Daniel Piza
daniel.piza@grupoestado.com.br

A certa altura de Homem Comum, de Philip Roth (Companhia das Letras), o narrador diz de Howie, o protagonista: ‘Iludir a morte parece ter se tornado seu principal negócio.’ Bem, esse não é o negócio de todos nós? – você poderia perguntar. Mas a palavra ‘negócio’ é usada antes de mais nada em seu sentido concreto, o de atividade comercial, e àquela altura já sabemos tanto sobre a existência e os valores de Howie que a frase adquire mais ironia ainda. Sempre me perguntam quais os critérios para saber o que é uma grande obra de arte, um livro excelente. Difícil; mais produtivo seria dizer o que uma grande obra de arte não tem. Outro jeito é mostrar o que um escritor excelente, como Roth, faz. E uma coisa que ele faz é amarrar idéias em suas histórias com eficiência que poucos atingem, de um modo tão orgânico que não se pode separá-las.

Essa novela, cujo título original é Everyman, precisa de apenas 131 páginas para causar uma sensação em você que é muito mais que uma impressão; é como se o livro – seu clima, algumas cenas, algumas frases, o mundo particular em que ele nos deixa interessados – ficasse com o leitor por muito tempo, uma voz latente que a qualquer momento pode emergir na memória consciente. Se em O Animal Agonizante, para citar outro livro curto recente, o escritor americano criou um personagem cujos bastidores mentais visitamos por meio de seus casos sexuais, em Homem Comum são as doenças que pontuam a história, como momentos sintéticos de sua índole e angústia. ‘A dor faz você ter medo de si próprio’, descreve, em outra dessas passagens esclarecedoras e nada consoladoras.

Para Howie, um publicitário que vive a trair as mulheres e a ser traído pelas doenças, só existe o corpo, no caso o seu, e tudo o mais é religião e fantasia. Somos informados sobre isso, mas Roth no parágrafo seguinte já retoma a trama, a sucessão de fatos, com um gancho nada irrelevante: ‘Mas, se ele acreditava ou não, isso não teve a menor importância no dia em que seu pai foi enterrado ao lado de sua mãe, no cemitério maltratado que ficava à margem da rodovia expressa de Nova Jersey.’ A ficção em Roth é o que ela deve ser: não se trata de apenas contar uma história, como ocorre na literatura ‘acronicada’ do Brasil – em que relatar uma experiência pessoal levemente disfarçada é o objetivo maior do autor -, mas recheá-la de inteligência, de percepção aguda e original sobre o comportamento humano, ao mesmo tempo sem intelectualizá-la demais em exercícios lingüísticos ou perorações artificiais.

Os temas de Roth, autor de tantas obras-primas como O Complexo de Portnoy, Patrimônio, Operação Shylock e O Teatro de Sabbath, estão todos lá, como a presença física da morte na vida, a relação difícil entre filho e pai, a crítica ao sionismo, a sexualidade como sintoma e cura – todos plasmados na matéria de uma vivência em que aceitamos acreditar por um período de tempo. As camadas se interpenetram, como numa folhagem que se embola e forma um organismo só, aberto às diversas interpretações. Há uma intensidade composta de mordacidade, lirismo e ceticismo como em nenhum escritor contemporâneo – nem em Ian McEwan, que no recente Na Praia entrou em território rothiano.

Roth é escritor de verdade, artista que não tem medo dos temas mais fortes e ao mesmo tempo não se limita à exposição sentimental deles – como faz Toni Morrison, para citar a escritora de quem a mesma editora acaba de publicar Amada, romance eleito como o melhor dos EUA nos últimos 25 anos. Morrison tem talento, mas se basta em criar situação dramática que mexe fácil com a compaixão – uma ex-escrava e sua filha numa casa assombrada por fantasmas dos socialmente injustiçados – e desenvolvê-la num crescendo previsível, tocado por lugares-comuns como ‘Eu devia sempre ouvir o meu corpo e amar o meu corpo’. Howie nada tem de heróico ou redutivo. E é isso que o faz tão sutilmente real, tão poderosamente frágil.

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