06/11/2009 - 18:29h “entre aspas”

Arte Photographica


Man Ray, Rayography Film strip & sphere, 1922
© Man Ray Trust

O ajudante de farmácia pediu para falar com o senhor doutor, gostaria que o senhor doutor lhe dissesse se tinha, sobre a doença, uma opinião formada, Não creio que se lhe possa chamar, em sentido próprio, uma doença, começou por precisar o médico, e depois, simplificando muito, resumiu o que investigara nos livros antes de ter cegado. Algumas camas adiante, o motorista escutava com atenção, e quando o médico terminou o seu relato, disse de lá, Aposto que o que sucedeu foi terem-se entupido os canais que vão dos olhos até aos miolos, Forte besta, resmungou indignado o ajudante de farmácia, Quem sabe, o médico sorriu sem querer, na verdade os olhos não são mais do que umas lentes, umas objectivas, o cérebro é que realmente vê, tal como na película a imagem aparece (…)

Ensaio sobre a cegueira, José Saramago

17/09/2009 - 15:41h De baixo para cima

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Luis Fernando Verissimo – O Estado SP

Especulei aqui se o certo não seria chamar de pós-sal, em vez de pré-sal, o lugar de onde sairá o bendito óleo, já que as brocas virão de cima para baixo, e recebi correções de todos os lados. Quem adivinharia que entre 17 leitores houvesse tantos entendidos em geologia, em contraste com a minha completa ignorância? A explicação mais autorizada e simpática veio de um geólogo profissional, Guilherme Estrella, diretor de Exploração e Produção da Petróleo Brasileiro S.A. Segundo ele, os geólogos têm uma lógica peculiar. Estudam a história do planeta de baixo para cima, pela sedimentação das suas rochas empilhadas ininterruptamente através do que chamam de tempo geológico. As brocas retrocedem no tempo geológico. O que está por baixo é mais velho do que o que está por cima, por isso é pré. Pós-sal é tudo que está acima da camada de sal, inclusive você, eu e os peixinhos. Entendi.

DEMÔNIO
Há dias a CNN mostrou uma mãe americana chorando, preocupada com o que iria acontecer com seus filhos. E o que iria acontecer com seus filhos era terem que ouvir pela TV um discurso do presidente Barack Obama dirigido a estudantes do ensino básico de todo o país, no primeiro dia do ano escolar. Barack recomendaria a todos que fossem bons alunos e tomassem o seu leite, mas a direita histérica criou a expectativa de que ele aproveitaria a oportunidade para doutrinar as crianças sobre os seus programas nazicomunistas, talvez até recorrendo à hipnose. Muitas escolas se recusaram a mostrar a preleção presidencial. A mãe entrevistada pela CNN estava apavorada com o que o demônio negro de fala mansa poderia fazer com a mente dos seus filhos.

A demonização do Obama se deve em grande parte à sua intenção de criar um sistema universal de saúde pública como os que já existem em todos os países civilizados do mundo (e mesmo semicivilizados, não vamos citar nomes), para garantir assistência médica aos mais de 50 milhões de americanos que hoje não têm proteção alguma. As seguradoras, indústrias farmacêuticas e empresas hospitalares que já tinham liquidado com um plano similar do Clinton mobilizaram-se de novo, com a colaboração da imprensa conservadora, de políticos reacionários e de almas simples como a mãe apavorada, e transformaram a ameaça aos seus lucros numa guerra ideológica. Ainda é incerto se o Baraca conseguirá ver seu plano, ou uma versão chocha do mesmo, aprovado. Ou se chegará ao fim do seu mandato, nesse clima.

Dias depois da mãe chorosa a mesma CNN mostrou um pastor do Sul dos Estados Unidos declarando que rezava para Obama morrer de câncer e ir para o Inferno. E a congregação dizendo “Amém!”

23/08/2009 - 12:21h Truque conhecido

por Luis Fernando Veríssimo 

crônica

Blog de Noblat

Baraca em apuros. A direita lunática americana o bombardeia. Já o chamaram de um nazista pior do que Hitler, pois está levando o país para o comunismo. Há um movimento, os “birthers” – de “birth”, nascimento – alegando que Obama nasceu no Quênia, que o registro do seu nascimento no Havaí é falso, que portanto ele não nasceu em território americano e não pode ser presidente. E, inevitável: surgem histórias sobre a sua suposta bissexualidade.

A reação a um novo presidente, negro, eleito para mudar, com uma plataforma progressista e cuja vitória deixou o partido adversário destroçado, era previsível. Com os republicanos sem força e sem líderes, os lunáticos assumiram. Hoje se diz que o líder de fato da oposição é Rush Limbaugh, cujo programa de rádio em cadeia tem um público estimado de 15 milhões de pessoas, todos, supõe-se, reacionários furiosos como ele. Foi Limbaugh que lançou o epíteto de Hitler bolchevique.

Se a reação a Obama era esperada mesmo que ele não cumprisse metade do que prometia como candidato e seu programa progressista não fosse tão progressista assim – como não está sendo – a virulência inédita da oposição, e os apuros do Baraca, têm uma causa específica. Ele propôs uma reforma do sistema de seguro de saúde do país, no que seria sua primeira grande legislação social – e a coisa mais “progressista” do seu governo até agora. Pra quê.

Os Estados Unidos são o único dos países industrializados que não tem um sistema universal de assistência médica garantida. Bill Clinton tentou corrigir isso mas não aguentou a reação dos mesmos lóbis que agora alimentam a rejeição a Obama e atiçam os lunáticos, chamando a reforma de um primeiro passo para o socialismo. Obama empunhou a bandeira largada por Clinton mas parece não estar sabendo carregá-la. Seu plano é confuso, sua atuação em sua defesa é hesitante – e a feras não largam do seu pé.

Especula-se que os lóbis (grandes seguradoras, indústria farmacêutica, empresas hospitalares e de previdência privada) vencerão de novo, ou que Obama só conseguirá uma reforma aguada. Os debates públicos sobre a questão têm sido violentos. Lendo e ouvindo o que dizem por lá não se pode deixar de admirar a maneira como interesses particulares conseguem transformar ameaças ao seu poder – no caso americano, o direito elementar de todos a assistência assegurada – em ameaça ideológica e guerra pela alma de uma nação, passando pela demonização de um governo. Um truque que conhecemos bem.

05/07/2009 - 10:44h Entrevista

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Verissimo – O Estado SP

Meu caro: recebi a revista com minha entrevista, que você não quis fazer por e-mail, como eu tinha sugerido, nem com um gravador, como seria prudente. Confiou na sua memória e nas suas anotações e o resultado aí está. Começando já na primeira pergunta, sobre o meu método de trabalho.

Reconheço que não falo com muita clareza, mas definitivamente não, repito não, disse que antes de começar a escrever traçava uns miúdos, o que pode dar a entender que me preparo para o trabalho atacando sexualmente crianças portuguesas. O que eu disse foi que amiúde faço traços no papel, esperando que venha a inspiração. Também não sei de onde você tirou que só escrevo descalço e ouvindo Mozart.

Em outra pergunta, sobre o começo da minha carreira e as leituras que me influenciaram , onde está “corcundas libertários” deveria ser “concursos literários”, e onde se lê “Frei Beto” deveria ser “Flaubert”. Não me lembro exatamente o que disse sobre o Machado de Assis mas tenho certeza que não o chamei de “prótese motora”. Talvez fosse algo como “protomoderno”. Só saberíamos ao certo se você tivesse gravado!

Outra coisa. Sua pergunta sobre escritores brasileiros meus contemporâneos. Se eu for processado – e no caso do Paulo Coelho certamente serei, depois do que você botou na minha boca sobre ele – farei o possível para que você seja responsabilizado criminalmente. Não entendo como a expressão “fenômeno cultural”, a respeito dos novos autores da era da informática, possa ter saído como “fedor monumental”. Vou ter que telefonar para vários escritores amigos meus para desmentir o que está na entrevista, antes que mandem me bater.

Você também ouviu errado o nome da minha mulher. Ela ainda não leu a entrevista, mas fatalmente me perguntará sobre essa Lidia que, segundo você, é minha companheira e musa há tantos anos. Vai querer saber onde eu a mantenho escondida.

Meus dados biográficos também saíram errado. Eu não disse que fui adotado com um ano e pouco. Disse que nasci sem cabelo e por isso fui apelidado de “Coco”. Na infância não gostava de andar pelado na rua. Gostava de jogar peladas na rua. E não consigo imaginar o que eu falei que levou você a escrever que na adolescência fui sequestrado por um casal de ciganos e levado para a Romênia. Eu deveria ter adivinhado que você entendera errado quando antes de escrever me perguntou se o certo era “Romênia” ou “Rumênia”. Também não sei como o senador Heráclito Fortes entrou na minha lista de atores favoritos.

Por fim: eu disse que minha cor preferida era o vermelho. Saiu “azul”. Foi o que mais doeu.

29/06/2009 - 18:03h Perdão

Izabel Santa Cruz Fontes

Hoje sonhei que te perdoava. Estamos sentados frente a frente, desconfortáveis, com olhares perdidos. Eu podia sentir o teu desespero mudo no ar, tocar nele, moldá-lo à minha maneira, fazer dele capricho meu. Você fingia tomar seu café e olhar pela janela. O café estava tão quente que era quase uma presença humana. Éramos, então, quatro: eu, você, o café e seu desespero, percebi nisso metáfora indizível. Mesmo no fim, mesmo em sonhos, nunca sozinhos.

Sádica, eu folheava o jornal displicentemente e jogava os cadernos pelo chão, bagunçando tudo de propósito, como que para te irritar pela última vez. Você, numa coragem súbita, quebra o silêncio. Apenas ergo os olhos, fitando-te friamente e volto a uma notícia tediosa, no caderno de política. Falava alguma coisa sobre um tratado político no Sul da África… você fala, fala, fala. Fala coisas que eu não entendo, ou não lembro. Diz que se arrepende, pede desculpas, promete o céu e felicidade eterna. Continuo a ler, termino mais uma página e a jogo no chão, quase com desprezo. Sentindo o corpo inteiro estremecer, numa raiva contida, você se limita a olhar com o canto do olho a mais uma provocação e ignora, permitindo-se um resto de orgulho.

Ao perceber que ainda somos nós — você, puro orgulho, eu, pura implicância — dou um meio sorriso, sabendo que não tenho o direito de me sentir feliz. Você, de repente, percebe tudo e dá um sorriso largo, criança em dia de natal. Surpresa, apenas arregalo os olhos, você ri do meu espanto. Mais alto. Gargalha. Contagiada, vou sentindo minha boca se abrir, tímida, até se escancarar. Sentimos o corpo tremer e rimos, em uma crise guardada, sem explicação, sem motivo.

Passamos tempo incontável assim, a rir sem motivos e, de repente, paramos. Pela primeira vez, nos olhamos de verdade, com olhos de quem ri, inocentes e carinhosos. Finalmente, nós dois entendemos e, calados, aceitamos nosso destino: orgulho e implicância. Nos perdoamos.

E-mail: beu.o@hotmail.com

Izabel Santa Cruz Fontes (1987) é estudante de jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Diz fazer da escrita uma forma de “existir um pouco mais no mundo.” Fonte Releituras

25/06/2009 - 20:27h Amores e mudanças

CONTARDO CALLIGARIS



Como esbarrar num amor que nos transforme? O filme “Tinha que Ser Você” dá uma dica preciosa

QUANDO A VIDA da gente está emperrada (o que não é raro), será que faz sentido esperar que um encontro, um amor, uma paixão se encarreguem de nos dar um novo rumo? Provavelmente, sim -no mínimo, é o que esperamos: afinal, o poder transformador do encontro amoroso faz o charme de muitos filmes e romances.
Os especialistas validam nossa esperança. Jacques Lacan, o psicanalista francês, dizia, por exemplo, que o amor é o sinal de uma “mudança de discurso”, ou seja, na linguagem dele, de uma mudança substancial na nossa relação com o mundo, com os outros e com nós mesmos. Claro, resta a pergunta: o que significa “sinal” nesse caso?
Duas possibilidades: o amor surge quando está na hora de a gente se transformar ou, então, é por amor que a gente se transforma. Não é necessário tomar partido: talvez as duas sejam verdadeiras.
Seja como for, volta e meia, alguém me pede uma receita: como esbarrar num amor que nos transforme? A resposta trivial diz que os encontros acontecem a cada esquina: difícil é enxergá-los e deixar que eles nos transformem, ou seja, difícil é ter a coragem de vivê-los. Aqui vai um exemplo.
O filme “Tinha que Ser Você”, escrito e dirigido por Joel Hopkins, além de ser uma pequena dádiva, oferece uma “dica” preciosa sobre as condições que fazem que um amor “engate”. É a história de um encontro ao qual os protagonistas tentam dar uma chance -a chance de transformar suas vidas.
Parêntese. Harvey (Dustin Hoffman) está na casa dos sessenta, e Kate (Emma Thompson) na dos cinquenta. É possível ver no filme uma parábola em prol da ideia de que nunca é tarde demais para deixar que um amor nos dê um novo rumo.
O título original, “Last Chance Harvey” (última chance Harvey), iria nessa direção: é agora ou nunca. Pode ser, mas talvez toda chance que a vida nos dá seja mesmo a nossa última.
Fora isso, o filme começa nos mostrando que a vida de Harvey é tão emperrada quanto a de Kate. Em ambos, há uma certa decepção por não conseguir (ou não ter conseguido) aventurar-se a viver seus sonhos -ser pianista de jazz para Harvey, e romancista para Kate. Os dois estão sozinhos e conformados com uma certa mediocridade afetiva: Kate se encaminha para ser a filha que cuidará para sempre da velha mãe, e Harvey já desistiu de ser o pai da filha de quem ele se distanciou, muitos anos antes, no divórcio que o separou da mãe dela.
Em suma, Harvey e Kate estão precisando de uma mudança.
Por que o encontro de Harvey e Kate teria mais sucesso do que os encontros às escuras que Kate se permite, de vez em quando? Por que eles não balbuciariam apenas a estupidez inibida que é habitual nesses casos? Simples, mas crucial: a conversa deles começa com uma sinceridade quase cínica. A “cantada” inicial de Harvey é o oposto do fazer de conta que é a regra das relações sociais, pois Harvey se apresenta confessando o fracasso de sua vida.
Logo, Harvey e Kate passeiam por Londres discorrendo e se conhecendo. Os espectadores descobrirão se eles saberão dar uma chance ao encontro ou, então, voltarão cada um para seu “conforto”.
O passeio pela cidade evoca dois filmes de Richard Linklater, que estão entre meus preferidos, “Antes do Amanhecer”, de 1995, e “Antes do Pôr-do-sol”, de 2004.
No primeiro, Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) encontram-se, passam um dia nas ruas de Viena e, enfim, separam-se. No segundo, eles se encontram de novo, em Paris, nove anos depois, e, também passeando, imaginam, de alguma forma, a outra vida que poderia ter sido a deles se, no fim daquele dia em Viena, eles tivessem apostado no futuro de seu encontro.
Aqui, uma recomendação prosaica que emana dos três filmes: se você procura um grande encontro amoroso, sempre use calçados confortáveis, porque nunca se sabe por quantos quilômetros se estenderão suas deambulações amorosas.
Brincadeira à parte, os filmes de Linklater talvez sejam mais tocantes -entre outras coisas, porque eles conferem uma beleza melancólica a uma desistência que é muito parecida com as renúncias às quais nos resignamos a cada dia. Mas o filme de Hopkins, “Tinha que Ser Você”, é mais generoso, porque ele nos deixa com uma sugestão: o diálogo que leva ao amor, que dá a cada um a vontade de se arriscar, não surge da sedução e do charme, mas da coragem de nos apresentarmos por nossas falhas, feridas e perdas.

ccalligari@uol.com.br

Trailer “Tinha que Ser Você”

10/06/2009 - 18:27h Sociedades raras

http://doisdedosdeprosa.files.wordpress.com/2007/04/berlusconi.jpghttp://www.casamerica.es/var/casamerica.es/storage/images/otras-miradas/fama-y-sociedad/carlos-menem-y-cecilia-bolocco-llegan-a-un-acuerdo-para-iniciar-su-divorcio/carlos-menem-y-cecilia-bolocco/262565-1-esl-ES/carlos_menem_y_cecilia_bolocco_fullblock.jpg

Sociedades raritas

Es cierto, como estipuló Carlos Marx, que los impulsos y conflictos económicos son aquellos que hacen girar las ruedas de la historia. Pero tampoco la plata es todo. Los que así lo creen, intuyó Voltaire, “suelen estar sujetos a hacer cualquier cosa por dinero”. Las razones del corazón -y las de otros órganos, un poco más a mano- hacen también lo suyo. Hasta historia.

Que lo diga si no Silvio Berlusconi -por no hablar del postrer juego sexual del actor David Carradine-, cuya última broma la estrenó el lunes, durante una recepción oficial, acercándose a algunos de los invitados y preguntándoles: “¿Eres menor? Si es así, podemos hablar”. Lo que se toma con tan buen humor el primer ministro italiano es una acusación gravísima por parte de su mujer, quien tramita el divorcio sosteniendo que “Il Cavaliere” se dedica a las muy chicas, especialmente a una que acaba de cumplir 18 años.

La prueba del escándalo ha sido la publicación de fotos tomadas en su villa de Cerdeña, donde el poderoso caballero solía hacer fiestas en las que numerosas lolitas ejercían el top less.

Increíblemente, estas inclinaciones hormonales -por así llamarlas- no hacen mella en la popularidad del gobernante que, furioso, niega todo y le echa la culpa a ¡un complot de izquierda! Lo cual habla quizá más del estado de la sociedad italiana que de Berlusconi mismo.

El que ya no quiere ni oir del tema es Bill Clinton, que anduvo por estos barrios la última semana. Al ex jefe del imperio americano una relación con una jovencita que de pura sólo tuvo el célebre episodio del puro en el Salón Oval, le hizo una espantosa mella en su popularidad y casi le cuesta la presidencia.

Pero la que sabe de amores bien asimétricos es Moria Casán, quien le explicó a una revista: “¿Cómo no voy a tener un novio de 25 años si me siento de 22?”. Abuela y todo, quiso razonar: “Para ellos represento una clase de historia. Me cuentan de pibes que se mueren por mí y yo no lo puedo creer. (…) Algunas que generaron deseo, se les termina la juventud y se vuelven patéticas y decadentes. La gente las ve y reflexiona: ‘Pensar que ésta era una bomba’. A mí no me ocurrió. Estoy en otra dimensión.” Quizá efectivamente no le haya pasado; lo que está fuera de duda es lo de la otra dimensión.

Y allende la Cordillera, Cecilia Bolocco -que no pudo ser primera dama argentina a pesar de haberse casado con alguien que casi podría haber sido su abuelo- se toma venganza de las inclemencias del calendario, noviando a los 44 años, con un joven de 28.

De la asimetría al delito hay bastante más que un paso. Y aunque en muchos distritos de la Argentina esté prohibido fumar en bares, manejar con dos copas de más o cultivar plantas de marihuana, está permitido, en cambio, cometer relaciones sexuales con los hijos, siempre y cuando sean consentidas y los perjudicados hayan cumplido la mayoría de edad.

El incesto no es delito en la Argentina y quizá eso pese en lo ocurrido con el llamado Chacal de Mendoza. Que semejantes monstruosidades no causen una conmoción similar a la que desató en el mundo el monstruo de Amstetten, resulta extraño. Y más raro, porque este caso pinta peor.

Ya han salido hijas de matrimonios anteriores de Lucero confesando que también abusó de ellas. Y su víctima principal -con quien tuvo siete hijos nietos- parece aún bajo el poder psicológico del victimario: sostiene que ya lo perdonó y no se presentará como querellante en su contra.

Todo lo cual habla más de la sociedad que del espanto mismo de los hechos. Sobre todo por estos días de frío medular y luz tímida en que nuestra linda Argentina sólo parece enfrascada en dilucidar si castigará o premiará en las urnas a un matrimonio nada asimétrico pero por demás singular.

(Marcelo A. Moreno, publicado en la columna Disparador de Clarín el domingo 7 de junio del 2009)

10/06/2009 - 16:44h Uma paixão que vem da infância

Coletânea de 28 textos comprova: é de menino que se aprende a amar futebol
 

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Antero Greco – O Estado SP

 


Quer ver um marmanjo abrir a guarda e voltar a ser moleque? Faça-o falar de futebol. Provoque o debate em torno da bola e verá como a sisudez cai por terra com mais velocidade do que atacante habilidoso atropelado por zagueiro botinudo. Quer ler tentativas de resgatar a infância? Convide jornalistas, poetas, médicos, historiadores, psicanalistas, advogados, sociólogos a discorrerem sobre esporte tão fascinante e desdenhado, contraditório e único. A maioria vai despir a casaca para mergulhar no passado.

A prova de que a criança está sempre à espreita para ressurgir no adulto se espalha pelas 164 páginas de A Cabeça do Futebol (Editora Casa das Musas). Carlos Magno Araújo, Samarone Lima e Gustavo de Castro, organizadores (e coautores), convocaram colaboradores de formação variada para escreverem sobre futebol. Tema popular, que aos poucos rompe preconceitos e que nos últimos anos passou a frequentar com destaque estantes de livrarias.

Muitos dos 28 textos são intimistas, embora fujam à ficção, e dão tom nostálgico ao livro. Menos do que lugar-comum, a referência à infância confirma o óbvio: é de menino que se aprende a amar o futebol, uma das raras paixões duradouras na vida. Nada mais natural, portanto, que seja tema recorrente – e associado a um jogo especial, àquele momento determinante que fixa a opção clubística.

A partida inesquecível em geral não é final de Copa do Mundo, mas vale tanto quanto. Ou mais. Pode ser um Ceub X América-RN disputado em 1975, em Brasília (No Tempo de Jacaré e Pablito Calvo, de Carlos Magno Araújo), ou Santos X Ponte, na despedida de Pelé (O Dia em Que Virei Santista, de José Roberto Torero). Quem sabe um tradicionalíssimo Fla-Flu (O Jogo, de Moacy Cirne), ou um duelo com a carga dramática de Fla X Vasco (Ele Sempre Será, de Rubens Lemos Filho).

O cenário pouco importa, porque o encantamento aos olhos do menino sempre é intenso. Forte, também, é a figura paterna. Afinal, reza a lenda que a primeira experiência em um estádio de futebol costuma ser conduzida pelas mãos do pai. Pai que pode também ir ao campo só para proteger o filho da mira de esbirros do autoritarismo (”A ditadura não é mais forte do que o amor de um pai”, de Juca Kfouri).

A paixão que vem da época das calças curtas é ponto de partida de análises minuciosas de Luiz Zanin Oricchio e Daniel Piza, polivalentes que flutuam pelo Caderno 2, o Cultura e, de quebra, são Boleiros no caderno de Esportes do Estado. Em Bola de Meia, Piza mergulha, dentre outros aspectos, em mudanças táticas, de preparação física e financeiras pelas quais passou o futebol, que no fundo se exprime mesmo com força “naquela bolinha de meia que um menino gosta de ficar rolando e chutando sem parar, marcando golaços imaginários”. Zanin constata, em Futebol, que deve ao Santos dos anos 60 “uma certa noção de elegância e beleza” que norteia sua vida. Nesse jogo, ganha quem os lê.

Serviço
A Cabeça do Futebol. Vários autores. 166 págs. R$ 25. Livraria Cultura Shopping Villa-Lobos. Av. Nações Unidas, 4.777, 3024-3599. Lançamento hoje, às 19h30

História do Lance! joga luz inteligente sobre a prática do jornalismo esportivo

 

Antero Greco – O Estado SP

 

A imprensa esportiva leva bordoada a torto e a direito. Há ocasiões em que até faz por merecer, mas muitas vezes o olhar enviesado que recebe carrega preconceito e paixão clubística. O alvo preferido costuma ser a televisão, por sua influência, alcance e estilo. A mídia impressa fica em segundo plano, no que existe de bom e ruim nessa relação acalorada. Merece menos atenção, mesmo como objeto de estudos acadêmicos.

Maurício Stycer rompe esse círculo com História do Lance!, Projeto e Prática do Jornalismo Esportivo (Editora Alameda, 2009, R$ 46,00). Ele se vale da prática profissional (participou do elenco fundador do diário na segunda metade dos anos 90) e do olhar do sociólogo para esmiuçar, entender e explicar o que representa a “crônica esportiva” no País. Consegue entender o papel de área considerada menos nobre no jornalismo, porém envolvente, nervosa, cativante.

A gestação do Lance!, o nascimento de edições “gêmeas” no Rio e em São Paulo, os primeiros passos do jornal que viria a desbancar A Gazeta Esportiva e o Jornal dos Sports são componentes importantes do livro. No entanto, funcionam como pano de fundo para um panorama amplo das transformações por que passaram esporte (entenda-se futebol) e imprensa no Brasil no fim do século 20.

Conhecer bastidores de uma publicação que se firmou, apesar de prognósticos céticos, é interessante – e não apenas para quem é do ramo. História do Lance! se mostra leitura agradável porque não enxerga o tabloide como reinventor da roda no esporte. Além disso, porque viaja pela história da imprensa nacional, resgata a memória de personagens fundamentais, como Cásper Líbero, Thomas Mazzoni, Mário Filho, e lança luz inteligente sobre a prática do jornalismo esportivo.

09/06/2009 - 18:12h Sem título

 anike laurita  

vaguei pela madrugada catando papéis. biscoito da sorte e horóscopo eu desisti. perdi meus passos na encruzilhada dos teus. meu pai me ensinou o caminho mais difícil. por Dédalo, por que fostes tão longe na ânsia de me fortalecer? enxáguo as roupas tentando decifrar os códigos. escorregadios. movimentos aleatórios e solitários. cheguei perto demais do Sol ofuscada pela minha dor. fluí pequena sem perceber. casa de madeira. coração de lava. minha prisão é clara. panóptico. milhões de chaves e nada para abrir. fecha aqui, fecha acolá. olhares estranhos me deixam acuada. faca de dois gumes. peão e rei. desacredito no medo. viajei por mundos oníricos e perdi muita bagagem. rios. continuo corrente. barro. sou muito mulher. descobri minha deusa lutando contra Titãs. não esperavam isso de mim. eu era uma criança terrivelmente obediente e isto me magoa. morro aos poucos tentando me engolir. antropofagia. apetite de cão sem dono. flutuo tentando te apontar a entrada. fraquejo. retorno. círculo sagrado. tempero tua carne. desvendar você pode ser a imagem que me falta. estou entrelaçada na tua bússola. vou começar pelo fim e dar minha cara a tapa. quando pensei que era um anjo podaram minhas asas. eu tô quase chegando em mim de novo.

Anike Laurita (Ilha do Desterro/SC, 1980) Mulher nascida fora do seu tempo, alimenta-se de reminiscências e estranhamentos. Seu passatempo preferido é desconstruir as veladas relações amorosas dos tempos hipermodernos, o que tem lhe rendido muito material criativo e dezenas de desilusões. Edita o blogue Pedro e Cachorrita. Fonte Escritoras Suicidas

26/03/2009 - 17:41h Faíscas

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Verissimo

 


Num livro chamado Maomé e Carlomagno, publicado em 1939, o historiador belga Henri Pirenne dizia que as primeiras conquistas do mundo árabe/islâmico, a partir do 7º século, tinham acabado com a unidade da civilização mediterrânea dominada pela Roma Cristã e propiciado a ascensão dos nórdicos, dos germanos e da França carolíngia – ou seja, dos ex-bárbaros. As cruzadas para a liberação da Terra Santa do domínio árabe não foram mais do que manobras na guerra pela hegemonia num pretendido estado imperial europeu entre papas, príncipes e reis, e tiveram mais efeito na história da Europa do que sobre os árabes. E a expulsão dos árabes da Península Ibérica foi por uma Igreja mobilizada e mobilizadora que depois não parou mais: a reconquista da Espanha foi o preâmbulo da conquista da América. Portanto, a atual intervenção explosiva dos islâmicos na nossa história faz parte de uma constante, a dos árabes como catalisadores dos destinos do Ocidente. O “choque de civilizações” do Samuel Huntington não seria uma metáfora apropriada para a atual relação entre o Islã e o que o Immanuel Wallerstein chama de “pan-Europa”, ou o Ocidente. Mais certo seria falar num continuado atrito de civilizações do qual vez por outra salta uma faísca detonadora. Deveríamos o nosso mundo e seus sobressaltos a estas faíscas.

METAFÍSICA DIFUSA

Quem primeiro usou a palavra “ideologia” no seu sentido moderno foi Napoleão Bonaparte. Referia-se aos críticos do seu despotismo e defensores da democracia e chamou a ideologia de “metafísica difusa” que procurava fundamentar o governo em causas abstratas em vez de adaptá-las “a um conhecimento do coração humano e das lições da História”. A ela, segundo Napoleão, se devia “todos os infortúnios da França”. Desde então os liberais acusam os ideólogos da esquerda de desconhecerem a realidade dos desejos humanos e defenderem causas abstratas. Mas hoje, com a Crise, a esquerda tem todo o direito de adotar o julgamento de Napoleão e chamar os liberais de metafísicos difusos, ao desprezarem os fatos que desmentem sua ideologia. Com o liberalismo neoclássico sendo desmoralizado a cada nova má notícia da economia mundial, a persistência da sua ideologia só pode ser atribuída a uma impermeabilidade dogmática maior do que jamais foi atribuída à esquerda.

21/03/2009 - 18:28h sebos & traças

vássia silveira

Eu perdoaria tudo. Perdoaria se o tivesse encontrado nos braços da amiga. Se as mãos estivessem grudadas na ninfeta. Se as costas acariciadas fossem as da vizinha ou se os lábios roçassem a nuca, a face, a boca da estrangeira. Perdoaria se a língua estivesse entre as pernas da ex, se o sexo gritasse pela carne flácida da empregada ou se os dedos fossem enfiados na traseira da prima. Tudo menos isso… Cena infame, traição sem nome, como pôde? Como pôde fazer?

As lembranças passam embaralhadas na minha cabeça. Estamos os dois, entre as prateleiras das tragédias gregas. Publicações antigas, bolorentas e de páginas amareladas. Cheiro de mofo, umidade que gruda nos dedos e me faz espirrar. Puf! Foi o barulho abafado que o livro fez ao cair no chão. Risos nervosos. Minhas mãos suavam frio e os óculos dele estavam tortos. Quis lhe dizer, mas estava tomada de vergonha. Daí veio o beijo, tímido como as primeiras leituras. A parede no final do corredor, o gosto da língua geográfica nas lambidas dos Cânticos. A mesma fúria que mais tarde, num descuido da bibliotecária, nos fez limpar o chão da sala dos clássicos universais.

Agora subimos ladeiras à procura de um lugar. Paredes altas, que caibam a história que carregamos nas malas: capas duras, edições de bolso, enciclopédias, coleções. Casar amor é fácil. Idéias e livros, não. Entramos no sobrado, uma casinha de fachada amarela, duas janelas e porta na frente. Corredor estreito, pátio interno separando a cozinha, cheia de baratas. A torneira do banheiro que não saía água e as goteiras no quarto. Penduramos na entrada um provérbio chinês e escalamos escadas para empilhar nas prateleiras, os livros. Centenas deles. A empregada faltou, mas nos deixou com as últimas aquisições do sebo limpas. Ele abre a página de Otelo, eu me debruço sobre as de Beauvoir. Mulheres, homens, estradas, fazendas, montanhas, desertos, traições.

Veio a imagem da camisa de seda manchada de batom. Meu ódio, a lavanderia. E o maldito telefonema. Não virá para o sarau. Reunião de última hora na empresa. Meus dedos passeiam nas páginas, aflitos. Duas horas depois, novo telefonema. Acidente na estrada, pista interditada, carros em fila indiana, lentidão digna de Kundera, ele diz. Três horas da manhã. Os relógios da casa anunciam abismo, escuridão. Histórias de realismo fantástico atrapalham minha leitura, fecho a Odisséia, jogo o casaco por cima da camisola, apanho as chaves, bato a porta, subo no carro e pego a estrada. Asfalto fresco e pista vazia. Nenhum movimento. Refaço o trajeto percorrido por ele, do trabalho ao sobrado. Paro em bares, botecos e inferninhos que encontro no caminho. Recebo cantadas grosseiras, enfrento o mau cheiro dos banheiros, a fumaça suspensa em meio às luzes noturnas, o bafo quente das bebidas baratas. Vou desistir.

Mas justo na hora, adivinho a traseira do carro dele no estacionamento. Dou ré, paro ao lado e desço. Um homenzinho surge do nada e informa que não há vagas. Todos os quartos estão ocupados, moça. Abro a bolsa, tiro o pacote branco com o dinheiro do aluguel e condomínio, estendo a mão ao homem, minto. Minto bem, pego a chave e peço que me diga em qual deles está o dono carro.

Com o estômago embrulhado, tiro os sapatos, piso no chão, paro em frente ao lugar, deixo cair a bolsa de tiras longas, enfio o metal na fechadura e empurro a porta. No meio do quarto, a cama redonda. Lanternas vermelhas, teto envidraçado, piso xadrez, frigobar, taças. No espelho em frente, a imagem do homem nu, com as pernas estendidas e as mãos ocupadas.

Sem pensar duas vezes, tiro da bolsa o canivete que usava para separar folhas grudadas, caminho até ele, e antes que possa reagir ou dizer qualquer coisa, toro-lhe os dedos. Viro as costas e penso nas mil e uma noites que rolamos no tapete embalados pelos artifícios de Sherazade, nas estantes da biblioteca, no chão dos clássicos, no último sebo, nos saraus…

Como disse, perdoaria tudo. Tudo menos encontrá-lo ali, naquele motel, àquelas horas da madrugada, sozinho. Com um livro nas mãos.

Vássia Silveira é jornalista e editora do site Ana e Suas Mulheres. Escreve o blogue Gavetas e Janelas e assina uma coluna semanal de crônicas no Nariz de Cera.

Fonte escritoras suicidas

13/03/2009 - 18:50h Ao ventre da alma

Marília Trindade Barboza

As fotos andavam escondidas, fora da vista, sumidas, para evitar lembranças, sofrimento, esperança. Pois foi só tocá-las e voltou tudo, memórias saídas do escuro, como pedras preciosas sobre negro veludo. Aliás, mesmo sem fotos, você volta. A verdade é que nunca se foi. Eu saio, ensaio; mudo de casa, crio asa; mudo de cidade, que maldade; mudo de país, não estou feliz. Só não mudo de você, por quê? Cansei de fingir que sou dura, que não sofro, que curei. Não vai passar, eu sei. Sou, para sempre, rainha de um só rei.

Sabe por quê? A capacidade de ser feliz que senti ao seu lado foi algo tão violento que é impossível esquecer…ou substituir. Fui tão completa, tão preenchida, tão total que chegava a doer. Não faltava nada, eu não queria mais nada além de respirar…você. Respirar o ar que você expirava, beber a água que você suava, comer…não, nem era preciso comer nada além da sua presença. Eu me alimentei de você.

Talvez tenha ido com sede demais ao pote. Antropofagia? Quem sabe? A capacidade de um sagitariano se arremessar sobre o que ama é absolutamente indescritível!!! Se arremessar da montanha, se jogar no espaço, virar bicho, virar ave, virar deus. Fazer milagre, beber vinagre e achar que é vinho. Que é champanhe francês!!!

Vivi ao seu lado o dia mais feliz da minha vida — meu Deus, quantos são os seres humanos que sabem qual foi o dia mais feliz de suas vidas? O dia em que eu quis morrer, pois sabia que nada haveria de mais importante e de profundo em minha existência do que aquele momento.

Estado de graça… como sei o que é isso!!! Chegar pertinho da morte. Mais um pouquinho, você vai, sucumbe, não resiste, o coração pára. A felicidade plena pode ser letal. Naquele instante, naquela cidade, naquele quarto de hotel, soube claramente que o meu momento era aquele. E as realizações anteriores, que pareciam tão efetivas, tão integrais? Viraram pó! Na hora. Em silêncio, falei com Deus e pedi: “Senhor Deus, me mata agora, ou vou correr, o resto da vida, atrás desse momento”. Deus não me atendeu. Sobrevivi. E é o que faço, ainda hoje.

Enquanto durou, que entrega! Com totalidade. Feito mãe parideira, gente ou bicho (há diferença, quando se trata de mãe?) que, apesar do amor e do medo, abre as pernas e, aos gritos de dor e êxtase, joga o filho no mundo. Que nem peito materno que se entrega, sem lascívia, à boca da cria. Igual à ingênua freirinha que renuncia ao amor do homem e se oferece ao orgasmo divino. Ou como língua que, sensualmente gelada, continua se dando ao sorvete. Um ser se doando a outro sem qualquer restrição. “Toma, faz o que quiser. Usa e abusa. Pode até jogar fora. É tudo seu”.

A plenitude se desfez no éter, antes de se completar o ciclo. Fui colhida pela morte. Não a minha não a sua. A morte da minha crença na nossa capacidade de ser feliz. O pé na terra. A falta de relacionamento entre a terra e o pé. Você se foi e me levou consigo: vísceras, órgãos vitais, neurônios, metros cúbicos de ar, litros de sangue. Matéria orgânica que, se fosse encaminhada a um teste de laboratório para se descobrir a que tipo de ser pertencia, gente ou bicho, possivelmente o resultado seria: ameba…

Costumo sorrir em silêncio dessa literatura, a séria ou a leviana, sobre a completude da mulher. Essa gente não sabe de nada! Bastava olhar pra você que eu gozava até com os fios do cabelo. Com seu discreto estrabismo. Com essa pele morna e lisa que eu não cansava de acariciar. A boca…não era uma boca, era o paraíso. A voz, os abraços, os dengos. Orgasmos múltiplos. Põe múltiplos nisso! Infinitesimais… Cristalizados nas tais fotos que, hoje, escondo com medo de sofrer. Está tudo ali, no meu olhar pra você, cadela olhando o dono com unção. Momentos que deveriam ter-se cristalizado num filho nosso. O mundo merecia esse filho, fruto de uma cama feita para ser a origem do mundo. Era a cama que o criador quis dar ao homem e ele não teve competência para perceber. A cama e a mesa. Como gostávamos de comer, em todos os sentidos possíveis, tudo farto, suficiente, prazeroso. Tudo com tesão.

Será que pra você a dose foi forte demais? Excedeu suas forças, sua capacidade, seu momento de vida? Às vezes, penso que sim. Só eu estava pronta. Você, não. Mas eu precisava entender o porquê. Para mim, foi tudo na medida certinha. Se o seu número fosse o mesmo, aquele instante não teria sido apagado da história da humanidade. Talvez eu não tivesse percebido algumas nuances. Lembro-me que, quando nos amávamos como loucos, às vezes você se feria. A fricção de nossos corpos esfolava o seu. Quem sabe sua alma também se ralava? Meu corpo ficava pleno, saudável, exultava. Em mim, ele e a alma estavam prontos, íntegros, confiantes.

Então… A explicação para o fim de tudo foi tão completamente sem explicação… Não foi? Achava que nada poderia acabar conosco. Hoje, admito que um discreto e eventual desequilíbrio na emoção de ambos, que nem percebíamos, pudesse ter a força de um vírus mortal… O meu “nós” se confundia com a vida. Quando acabou, morri…Você continua vivo?

Esta pessoa que escreve, fala, trabalha, se relaciona com o mundo é apenas uma sobrevivente, um egum, um zumbi. Espírito recolhido às esferas celestiais — ou às cavernas do inferno, sei lá — o corpo ficou por aí, destituído da alegria essencial, do prazer. Na juventude, se impasses ou dubiedades exigiam-me decisão, minha mãe alertava: “Sua alma, sua palma”. Corri o risco, mãe.

Borboleta perdida no túnel do tempo, reentranhei, regredi, sou lagarta outra vez. Recolhida, como feto, ao ventre da alma. Com a minha história presa na mão fortemente fechada.

(in “Os Passos da Paixão”, no prelo)

Marília Trindade Barboza da Silva nasceu na cidade do Rio de Janeiro, no bairro de Vila Isabel. Formada em Letras e Direito, é Mestre em Lingüística e Doutora em Ciência Política. Especialista em Cultura Popular, autora de mais de 15 livros, vários deles consagrados pela crítica especializada (biografias de Pixinguinha, Cartola, Paulo da Portela, Silas de Oliveira, Caymmi, Luperce Miranda, Carlos Cachaça etc.), de ensaios sobre localidades do Rio, como a Mangueira e os subúrbios de Madureira e Irajá, ou ainda o Vale do Rio Paraíba, berço da cultura afro-descendente. Produziu discos, documentários em vídeo e shows, dirigiu espetáculos musicais.É compositora (parceira dos violonistas João de Aquino e Daniel Júnior e dos compositores Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Nelson Sargento, Argemiro Patrocínio, entre outros).

Atuou no magistério em todos os níveis, tendo sido professora no Colégio Pedro II, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, da PUC, da Universidade Gama Filho e da Universidade Santa Úrsula, além dos colégios Santo Ignácio, Santa Úrsula e várias Escolas Municipais e Colégios Estaduais do Rio de Janeiro.

Em 1988, produziu com o jornalista José Alberto Braga a Exposição “500 Anos de Brasil, Mostra de Humor Luso-Brasileiro”, Cascais-RJ, de maio a julho de 2000, exibida também nas cidades de Recife, Brasília, Piracicaba, São Paulo, Belo Horizonte, e no Museu Nacional da Imprensa, no Porto, em Portugal, com a participação de Ziraldo, Millôr Fernandes, Aroeira, Lailson, Chico e Paulo Caruso e Jaguar (pelo Brasil), além dos 7 maiores cartunistas de Portugal. No mesmo ano, também em Portugal, promoveu o primeiro encontro entre os sambistas das localidades de Sacavém, Sesimbra, Ovar e Funchal, visando a criação da 1ª Liga das escolas de samba portuguesas.
Novamente com o jornalista José Alberto Braga, organizou o 1º Desfile Conjunto das Escolas de Samba Portuguesas, quando o Embaixador José Aparecido de Oliveira promoveu a 1ª Cimeira dos Países de Língua Portuguesa, em 1994.

Desenvolve trabalho de pesquisa das raízes das músicas portuguesa, africana e brasileira (Projeto Reflexões Lusófonas) em parceria com pesquisadores de diversos países da CPLP – Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Por cinco vezes, obteve 1º lugar em Concurso Nacional de Monografias, realizados pela Funarte, além do Prêmio Nacional da Cultura, do MinC, a Medalha Pedro Ernesto, da Câmara Municipal/RJ, em 2001, e a Medalha Tiradentes, da A.L.E.R.J, em 2003.

Bibliografia:

Filho de Ogum Bexiguento – com Arthur Loureiro de Oliveira Filho, Edições MEC/FUNARTE, 1979, 209 páginas, Menção Honrosa no Concurso Nacional de Monografias, RJ (Biografia de Pixinguinha); 2ª Edição Editora Gryphus, 1997;

Paulo da Portela, traço de União entre duas culturas – com Lygia Santos, Edições Mec/Funarte, 1980, 243 páginas, 1º lugar no Concurso Nacional de Monografias, RJ (estudo sobre a formação das escolas de samba) 2ª Edição FUNARTE, 1994;

Silas de Oliveira, do Jongo ao samba-enredo – Com Arthur de Oliveira, Edições Mec/Funarte, 1981, 145 páginas, 1º lugar no Concurso de Monografias do Projeto Lúcio Rangel, RJ;

Fala, Mangueira – Com Arthur de Oliveira e Carlos Cachaça, Livraria José Olympio Editora, 1981, 165 páginas, RJ;

Cartola, os Tempos Idos – Com Arthur de Oliveira, Edições Mec/Funarte, 1983, 220 páginas, 1º lugar no Concurso de Monografias do Instituto Nacional de Música, FUNARTE, RJ – 6ª Edição Editora Gryphus, 2008;

Caymmi, som-imagem-magia – Com Vera de Alencar, Edição Fundação Emílio Odebrecht, 221 páginas, apresentação Jorge Amado, RJ;

Pelos Caminhos do Choro, in Notas Musicais Cariocas, Editora Vozes, 156 páginas, 1986, RJ;

Alvorada, um Tributo a Carlos Cachaça, Edições Mec/Ibac, 1989, 108 páginas, RJ;

João Cândido, o Almirante Negro (com Martinho da Vila, Arthur de Oliveira, Aldir Blanc e Ricardo Cravo Albin), Editora Gryphus, 250 páginas, 2000, RJ;

Luperce Miranda, o Paganini do Bandolim – Prêmio de Bolsa de Pesquisa na FUNARTE, DaFonseca Comunicação, 255 páginas, RJ, 2005;

Previdência Social Brasileira – Com Arthur de Oliveira, Dataprev, MPAS, 1980, 70 páginas, RJ;

Inflação, indexação e Correção Cambial – Políticas alternativas e dificuldades institucionais – Tese de conclusão do Curso da Escola Superior de Guerra, ESG, 1985, 90 páginas, RJ;

Consciência Negra – Contextualização e análise dos Depoimentos de Grande Othelo, Haroldo Costa e Zezé Motta – MIS Editorial, janeiro/2002;

Carnaval, desenhos de Lorenzo Matotti (texto e coordenação editorial) , Casa 21, 2004, 70 páginas, RJ;

Outras edições:

Música Popular Brasileira – de Cabral à atualidade – MIS Editorial,– acompanha CD Duplo, 182 páginas, RJ, janeiro/2001- 2ª edição em 2008, pela Editora Planeta/Lisboa.

Escolas de Samba de Portugal, o Tripé Afro-Luso-Brasileiro – brevemente pela Editora Planeta/Lisboa.

Os Passos da Paixão – Contos – No prelo

Em preparo:

Coisa de Preto – iorubás e bantos na formação musical do Rio de Janeiro

A Cartilha do Afro-descendente

Cartola, de A a Z

Dona Ivone Lara, a primeira dama do Samba

Martinho, da Vila, da Cidade e da Serra

Fonte Releitura

21/11/2008 - 17:52h “Os Irmãos Karamabloch”

CARLOS HEITOR CONY


Escreveu mais do que a história de sua família. Fez a primeira parte de sua autobiografia

FAMÍLIA DE 17 PESSOAS chegou ao Rio de Janeiro em 1922, na terceira classe do “Re d’Italia”. Eram ucranianos, genericamente russos, mas, sobretudo, judeus. O patriarca, Joseph Bloch, tivera uma gráfica em Kiev, chegara a imprimir o dinheiro do efêmero governo de Kerenski. Decidira tentar inicialmente os Estados Unidos, mas a cota de imigrantes para aquele país estava fechada, a alternativa foi vir para o Brasil.
Este não foi o início dos Blochs.
Antes da viagem, já se podia falar numa “saga”, com lances que um dos descendentes do clã acaba de lançar: “Os Irmãos Karamabloch” (Companhia das Letras, 344 págs., R$ 48).
Para levantar a sua história, Arnaldo pesquisou durante sete anos, foi a Jitomir e Kiev, entrevistou muita gente e foi testemunha da etapa final de um império da comunicação que teve ascensão e queda -como, de resto, todos os outros impérios tiveram e terão.
O assunto era bom e vasto. Muitos o tentaram, mas desanimaram por um motivo ou outro. Uma biografia tradicional, com princípio, meio e fim, na linguagem correta e oficial para este gênero de livro, com obediência da ordem cronológica e sem assumir deliberadamente a lenda e a história, não daria o resultado que Arnaldo Bloch conseguiu. Antes de mais nada, ele usou a linguagem e a técnica do romance -gênero no qual estreou, com “Amanhã a Loucura”, e continuou com “Talkshow”.
O charme do livro é que o narrador funciona como personagem da trama, recurso que Proust e outros memorialistas também usaram.
Evidente que o foco principal é dedicado aos três Blochs que Otto Lara Resende, frasista famoso, que também é personagem do livro, chamou de “Irmãos Karamabloch”.
Ou seja, os filhos do patriarca: Boris, Arnaldo e Adolpho. As filhas de Joseph funcionam, na narrativa, como o coro das tragédias gregas: comentam a ação, sugerem e sofrem, de certa forma, as conseqüências.
Uma noite dos anos 80, Leonardo e Iná, pais de Arnaldo, trouxeram o rebento para jantar em minha casa, trazendo também o Rodian, um setter que era parente da minha Mila.
Naquela época, Arnaldo estava numa encruzilhada vocacional: por gosto e influência de sua geração, queria se dedicar à música -e era bem dotado para isso. Sentia apelos pela literatura e pelo jornalismo, mas, se dependesse dele, naquela ocasião, seria um músico, intérprete ou compositor.
O pai não era contra, mas preferia que Arnaldo fosse escritor. Daí que me pediu para conversar com o filho. Conversa vai, conversa vem, Arnaldo saiu lá de casa levando alguns livros que lhe indiquei, inclusive um de Balzac, “Grandeza e decadência de César Biroteau”. Levou também Kafka, Goethe e outros.
Mais tarde, após ocupar diversos cargos na empresa da família, foi para “O Globo”, onde, hoje, assina uma crônica semanal e faz reportagens especiais. Um dia, me procurou com os originais de seu primeiro romance, que seria publicado pela Nova Fronteira e que hoje tem uma edição de bolso. Depois veio o segundo, já na Companhia das Letras, que apostou em Arnaldo e patrocinou sua ida a Kiev.
Foi longa a escritura do livro, mais romance do que biografia, embora seja as duas coisas. Basta citar o princípio e o fim da ação: o pai de Arnaldo no salão escuro do apartamento, olhando em silêncio a praia de Copacabana. Cena que se repete ao final, fazendo da ação principal um enorme flashback, em que misérias e grandezas compõem um movimentado gran guignol que lembra Dostoiévski em alguns momentos, em outros o Máximo Gorki de “Os Pequenos Burgueses”.
A figura de Abrascha, que se tornaria Adolpho e que na opinião do tio Jorge “nem era para ter nascido”, ocupa grande parte do primeiro plano da narrativa. Com suas contradições, a compulsão pelos grandes gestos e a submissão aos momentos de cólera, nem sempre justa, fazem dele um dos personagens mais polêmicos, que encantou e provocou ódios de duas gerações de jornalistas e banqueiros.
Por isso mesmo, o livro do seu sobrinho-neto só podia ser escrito como Arnaldo o fez. Sem elogio e sem censura. Não funcionou como o biógrafo preocupado com o rigor histórico e a opinião da crítica. Escreveu mais do que a história de sua família. Fez a primeira parte de sua possível autobiografia.

13/11/2008 - 17:06h Homem de sentimentos fortes

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Jornalista americano Eric Lax fala de seu biografado, resumindo 36 anos de entrevistas com o cineasta

Antonio Gonçalves Filho – O Estado SP

 

 

Iniciado em 1971, o livro Conversas com Woody Allen (Cosac Naify, 512 págs., R$ 65) do jornalista norte-americano Eric Lax, cobre metade da vida do mais engraçado cineasta dos EUA, que abandonou o trem de Fellini para pegar o vagão de Bergman e embarcar no chamado cinema “sério”, ao filmar, em 1978, o hoje clássico Interiores, seu rito de passagem. Woody Allen, diretor de Vicky Cristina Barcelona, que estréia amanhã, em São Paulo, confirma em sua entrevista, publicada na página ao lado, que é a pessoa menos indicada para falar de seus filmes. E também que não faz o mínimo esforço para acabar com a fama de anti-social.

Apenas uma pessoa, o jornalista Eric Lax, seu biógrafo, parece capaz de arrancar dele declarações que joguem alguma luz sobre esse autor que pouco se importa com o público, chegando a usar como título de trabalho de um seus mais badalados filme, Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa) a palavra Anedonia (que significa incapacidade de sentir prazer). Lax, em sua entrevista exclusiva ao Estado, garante que, apesar do título exótico, Allen não é uma pessoa indiferente. “Na realidade, é um homem de sentimentos fortes, embora controlado”, define o jornalista.

Lax diz que todas as entrevistas foram editadas sem cortes, embora admita ter aceitado sugestões de Allen e inserido alguns esclarecimentos para que suas declarações não parecessem ininteligíveis como as de Casey Stengel, o treinador do New York Yankees.

O título original de Annie Hall (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), era Anhedonia (Anedonia), que significa a incapacidade de sentir prazer, algo muito próximo à imagem que se tem de Woody Allen, considerando seus filmes. Você classificaria seu biografado de indiferente?

Como muitas pessoas engraçadas, Woody tem uma visão melancólica da vida. Não diria que é indiferente. Na realidade, é um homem de sentimentos fortes, embora controlado. Ele não se permite sentimentos extremos de euforia ou infelicidade. Ao contrário, move-se dentro de uma faixa estreita de emoção, que o protege e permite que se concentre em seu trabalho. Nunca encontrei em minha vida alguém tão disciplinado. Não importa como se sinta, ele se obriga todos os dias a escrever e a estudar clarineta. Essa disciplina é uma das razões de sua prolífica produção.

Entre os filmes favoritos de Woody Allen estão A Rosa Púrpura do Cairo, Match Point e Maridos e Esposas. E você, quais são os filmes que considera os mais reveladores de sua personalidade?

Todos os três filmes citados representam parte da filosofia pessoal de Woody. A Rosa Púrpura do Cairo trata da diferença entre a fantasia, como mostrada nos filmes vistos pela personagem de Mia Farrow, Cecília, e a realidade. Seria maravilhoso se o galã saísse da tela e Cecília pudesse fugir com ele, mas isso é apenas um sonho. A realidade é que Cecília vive em plena Depressão americana dos anos 1930 e é casada com um um homem egoísta e rude. Já Match Point traduz sua desconfiança de que não há nenhum Deus olhando por nós para nos recompensar ou punir. Se escolhemos matar alguém e não formos pegos pela polícia, então podemos seguir em frente. Woody argumentaria, contudo, que, mesmo diante de um universo indiferente, devemos agir dentro da lei, porque isso dá satisfação pessoal e, se assim não fosse, seria o caos. Ele diria: faça o bem, mesmo que não receba nenhuma recompensa. Mas fazer o bem por conta própria é provavelmente mais difícil do que por conta de uma ameaça religiosa. O Sonho de Cassandra, creio, é uma espécie de conclusão de Match Point: alguém comete um crime, mas sua consciência não o deixa em paz.

Alguns críticos ficaram frustrados com as poucas revelações da vida pessoal de Allen em seu livro. Por que evitou perguntas pessoais em seu livro?

Escrevi uma biografia de Woody há 17 anos e publiquei uma edição atualizada quando ele e Soon Yi Previn se casaram. Esse livro está cheio de detalhes da vida pessoal de Woody. Já Conversas com Woody Allen não é uma biografia, mas um olhar sobre a evolução do artista nos últimos 36 anos. Versa sobre um diretor e sua obra. Concluímos, ele e eu, que seria melhor organizá-lo do jeito que está, acompanhando ano a ano essa produção, do que esperar para rememorar fatos que aconteceram, 20, 30 ou 50 anos antes. Este livro é como um álbum em que cada conversa foi registrada na época, sem modificações, permitindo que o leitor possa imaginar como Woody se sentia, por exemplo, nos anos 1970, quando começou.

Quando você o conheceu, em 1971, Woody disse que havia algo de imaturo, de segunda classe, na comédia, quando comparada ao drama. Em sua opinião, o que fez, então, o diretor escolher o primeiro gênero em sua estréia?

Ele era realmente bom na comédia e foi assim que construiu sua carreira. Esperava que os estúdios, depois que ele tivesse feito um nome como cômico, financiassem seus dramas, o que, de fato, acabou acontecendo.

Depois da biografia de Woody Allen, você publicou alguns outros livros no gênero, entre eles as vidas de Humphrey Bogart e Paul Newman. O que é mais difícil: escrever sobre um ídolo morto ou um autor vivo?

A biografia de uma pessoa viva é, por definição, incompleta e ninguém, incluindo aí o biografado, sabe o que acontecerá no futuro. Então, podem acontecer reviravoltas que venham a desmenti-la. Se o sujeito está morto, então o escritor tem as entrevistas e documentos para trabalhar e a história pode ser vista como um todo. Woody jamais reclamou de nenhuma revelação que tenha feito sobre sua vida, mesmo a de que casou virgem, aos 20 anos. Verifiquei pelo menos duas vezes cada informação sobre sua vida.

Allen reconheceu que você é uma das poucas pessoas que realmente o conhecem bem. O que o fez mudar de idéia a seu respeito, considerando que sua primeira entrevista com ele foi um desastre?

Conversas correm bem quando ambos estão confortáveis. Ele era uma pessoa muito tímida na primeira vez que nos vimos e eu estava mais nervoso do que deveria, então trocamos apenas algumas palavras. As respostas dele foram sucintas e pensei que nunca mais nos veríamos. Mas não. Ele me telefonou, fizemos uma nova entrevista e as coisas melhoraram, a ponto de sermos amigos desde então.

Nas entrevistas, Woody Allen mostra-se autodepreciativo, embora bastante honesto, mas evita explicar seu lado anti-social. Por que ele nunca vai a festas em sua homenagem e recusa receber prêmios?

Creio que sua timidez crônica seja a resposta. Ele não suporta fazer conversas tolas e detesta prêmios em geral. Diz que os prêmios, de certa forma, prejudicam o artista, argumentando que, se você aceita um prêmio, aceita também a opinião de quem o deu e terá de aceitá-la novamente se essas mesmas pessoas decidirem que seu filme seguinte é um fiasco. Para ele, a platéia-alvo de seus filme é ele mesmo, embora, claro, fique muito feliz quando um filme como Match Point, que é talvez aquele que mais o agrada, faz sucesso junto ao público e tenha ressonância crítica.

Seu livro, como disse, é um álbum que contempla metade da vida de Woody Allen. Além de sexo e sua admiração por filmes europeus, qual é o tema mais freqüente das conversas entre vocês?

Esportes, livros e crianças, além da seus filmes, que ocupam boa parte dessas conversas.

Woody Allen tem algum projeto irrealizado, algo ambicioso que ainda pretende fazer?

Sim, ele gostaria de fazer um filme chamado American Jazz, sobre o desenvolvimento do jazz.

Allen já pensou em escrever a autobiografia, como disse em algumas entrevistas, o que leva automaticamente à pergunta: ele não autorizou a publicação de alguma passagem de seu livro?

Posso garantir que as entrevistas foram publicadas na íntegra, sem edição, em todos os países onde o livro foi lançado. No Brasil, inclusive.

05/11/2008 - 19:30h Já era

Site Releituras

Vivi Fernandes de Lima

Era pra ser um poema de despedida,
mas cadê vontade?
Era pra ter sido uma noite sem bebida,
mas cadê coragem?
Era pra eu esquecer o teu cheiro,
mas ele é tão bom…
Era pra eu não reconhecer a tua voz,
mas eu ainda me arrepio!
Era pra eu ficar em paz,
mas você é muito atento.
Era pra eu não querer te ver nunca mais,
mas nunca mais é muito tempo.

Vivi Fernandes de Lima nasceu em Belford Roxo (RJ). É jornalista e mãe do João. Escreve poesia desde criança, crônicas desde a adolescência e contos desde os 20 e poucos. Em 2002, venceu o Prêmio Carioquinha de Literatura Infantil, promovido pela prefeitura do Rio, com o livro “Cinzão, o gato fujão”. No mesmo ano, teve poemas musicados por Ivan Lins, Leandro Braga e Edmundo Souto. De lá pra cá, vem se preparando para tirar livros da gaveta e pagar contas.
E-mail: vivif7@gmail.com

31/07/2008 - 14:27h Recuperação de dor nas costas é mais difícil que o previsto

A imagem “http://www.mfotografia.com/foto/0297.jpg” contém erros e não pode ser exibida.

AMARÍLIS LAGE e JULLIANE SILVEIRA – Folha de S.Paulo

Raymundo, Patrícia e Viviane têm um problema em comum: a dor nas costas. E é muito provável que você se junte a eles nesse grupo. Afinal, segundo estimativas da Organização Mundial da Saúde, 85% da população vai viver ao menos um episódio de dor nas costas ao longo da vida. E, prepare-se, porque, para esses bilhões de pessoas, as notícias não são boas.

Um estudo publicado neste mês no “British Medical Journal” mostrou que a recuperação das lombalgias (dores lombares) é muito mais longa do que o previsto pelas atuais orientações médicas.

Os pesquisadores, liderados por Christopher Maher, do George Institute, na Austrália, acompanharam 973 pacientes nesse país. Pelas diretrizes, o esperado era que 90% deles se recuperassem em até seis semanas. O resultado: um terço continuava a sentir dor um ano após o início do problema -a dor nas costas passa a ser considerada crônica após três meses.

Eduardo Knapp/Folha Imagem
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O bailarino Raymundo Costa, 50, integrante da Cia. 2 do Balé da Cidade, sofre com os movimentos repetitivos que executa

E, para quem chegou a esse estágio, a perspectiva de tratamento também não é das melhores. “The Spine Journal”, uma das principais publicações destinadas ao assunto, dedicou sua primeira edição deste ano à avaliação das opções de tratamento para lombalgia crônica. O problema, segundo os autores, já começa na hora em que o paciente decide buscar ajuda. A quem recorrer: acupunturistas, reumatologistas, massagistas, ortopedistas, quiropraxistas?

A variedade de tratamentos é ainda maior. A publicação reuniu pesquisas sobre aproximadamente 200 opções –o que foi chamado de uma seleção “simplificada”. A lista inclui mais de 60 remédios (de antiinflamatórios a antidepressivos), 32 terapias manuais, 20 programas de exercícios, 26 modalidades físicas passivas, nove terapias educacionais e psicológicas, mais de 20 tipos de injeção, além de procedimentos cirúrgicos, abordagens de medicina alternativa e diversos produtos como cintas e cadeiras especiais.

Uma oferta que, de acordo com a revista, remete a um verdadeiro “supermercado” para dor nas costas.

Não bastasse a confusão que esse excesso de opções poderia causar, a conclusão dos pesquisadores é que as evidências científicas são limitadas, tratamentos que nunca foram submetidos a testes são apresentados como chances de cura e, quando as pesquisas mostram que determinado procedimento gera apenas um benefício mínimo, ele não é descartado.

“O problema é que nós não entendemos as lombalgias muito bem. Até o momento, quase todos os tratamentos são voltados para os sintomas, e não para a causa. Para a maioria das pessoas, a causa da dor nas costas nunca é estabelecida e o diagnóstico da estrutura que causa a dor não é possível. Assim que nós pudermos definir o que causa o problema, poderemos desenvolver estratégias para preveni-lo ou tratá-lo de forma mais efetiva”, disse à Folha o pesquisador Christopher Maher, do George Institute, responsável pela pesquisa.

Eduardo Knapp/Folha Imagem
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Dentista Patrícia Kalina sofre de dores na coluna devido às posturas expecificas a que tem de se submeter durante seu trabalho

Uma barreira para que esse avanço ocorra, porém, é que a dor nas costas não é um tema prioritário para as agências de pesquisa, afirma Maher. “É muito difícil convencê-las a financiar pesquisas sobre lombalgias, embora esse seja um problema que custe bilhões de dólares por ano.”

Do médico à benzedeira

É nesse cenário que quem sofre com dor nas costas inicia a sua saga –que pode durar semanas, meses ou anos. No método de tentativa e erro, pacientes e profissionais de saúde vão descartando opção por opção na busca da cura.

“A maioria dos pacientes que chegam ao ambulatório já passou por muitos profissionais e experimentou diversos tratamentos. Tomou remédios, fez massagens, submeteu-se a sessões de acupuntura, tomou fitoterápicos. Cansadas e com dor, as pessoas procuram até benzedeiras”, conta o fisiatra Carlos Alexandrino de Brito, coordenador da Escola de Postura da divisão de medicina de reabilitação do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo).

Para ele, os pacientes muitas vezes recorrem a essas opções porque não receberam o apoio dos médicos que os atenderam: “Como a dor nas costas atinge muita gente, os médicos desvalorizam o problema”.

“São poucos os que querem se dedicar a essa área, e o assunto vira até piada. Muitos profissionais não entendem o prejuízo financeiro, social e psicológico que a dor nas costas traz. Em vez de avaliar o paciente de forma adequada, receitam um remédio para tratar a dor –e não a sua causa”, afirma Brito.

Um risco, de acordo com o fisiatra, é que uma abordagem superficial acabe deixando passar problemas graves que também podem gerar dores na região das costas, como alguns tumores, alterações cardiovasculares, processos reumáticos e problemas gástricos.

26/06/2008 - 19:26h Brasil caipira

Zuenir Ventura – O Globo

zuenir.jpgQuando a gente viaja por algumas regiões, como tenho feito, nota que um novo “mapa” do Brasil está sendo redesenhado.

Ele é chamado de “Brasil rural”, “sertanejo” ou, com um certo desprezo preconceituoso, de “Brasil caipira”. A economia já é capaz de mostrá-lo com números e dados, e um jornal estrangeiro disse que ele está trocando nossos estereótipos: “O país do carnaval, do samba, do futebol, do café e da caipirinha já tem outro símbolo por bandeira: a cana-de-açúcar.” Só falta um daqueles mergulhos do repórter José Casado e uma das sacações de Roberto DaMatta para revelar o que uma crônica impressionista como esta não consegue: as dimensões antropológicas e culturais do fenômeno.

Esse mundo do “interior” (o “centro” somos nós, claro) não tem nada a ver com os hábitos da época de jeca-tatu e nem com a proposta hippie de volta nostálgica (“quero uma casa no campo”). Ele está conectado com a cidade, dispõe de uma oferta cultural variada e pratica um consumo eclético. Há uma elite que acessa a internet, vê filmes em DVD, compra livros e freqüenta restaurantes sofisticados.

Numa noite ouvi em Ribeirão Preto a multidão na praça cantando orgulhosa “Romaria”, com Renato Teixeira (“Sou caipira, pirapora”), e dois dias depois, em Goiânia, assisti a um show de Bossa Nova num teatro de 800 lugares, superlotado. Miele, Leni Andrade, Fernanda Takai, Toquinho, quase não precisaram cantar. O público fazia por eles, inclusive quando eram 74 versos, como em “Aquarela” (“Numa folha qualquer/eu desenho um sol amarelo”).

Ver o teatro inteiro entoar a música, e Toquinho, o autor com Vinícius, acompanhar apenas com gestos, foi um espetáculo à parte. As pessoas riam das histórias de Miele sobre Bossa Nova com a intimidade de quem morasse em Ipanema ou Leblon.

No dia seguinte, lendo num jornal local que “a carne brasileira alimentará o mundo”, aprendi que as nossas exportações de “proteína vermelha” para 150 países saltaram em dez anos de 370 mil toneladas para 1,5 milhão. Almoçando com jovens professores, pude discutir questões da atualidade artística e cultural. O nosso etnocentrismo metido a besta se surpreende com isso, e às vezes tem vontade de dizer “que pena”, quando a menina linda de minissaia, parecendo saída de uma novela urbana da Globo, pronuncia “voilrta” e “poirlta”.

De noite, falei num auditório de mil lugares para alunos do Colégio Visão. Mais de duas horas não foram suficientes para atender à curiosidade insaciável daqueles adolescentes que queriam saber tudo sobre 1968, o país, a juventude, o jornalismo, a nova ordem mundial e, acreditem, a política.

Não sei no que vai dar esse novo ciclo do açúcar e da carne, mas vale a pena desviar um pouco o olhar do Sul-Maravilha e prestar atenção no “Brasil caipira”. Há vida inteligente, além de rica, fora do eixo Rio-São Paulo.

15/06/2008 - 19:00h Verissimo

Crônica

O Globo

Rir ou não rir

verissimo.jpgCasal de judeus americanos em visita a Israel entra num clube noturno de Tel Aviv onde se apresenta um cômico local. As piadas do cômico fazem grande sucesso com o público e quem ri mais do que todos é o americano.

Sua mulher estranha. As piadas são em hebraico. O marido não sabe hebraico. Por que está rindo tanto?

— Por que não? — responde o marido. — Eu confio nesta gente!

Dependendo do jornal que você lê, e às vezes do analista num mesmo jornal, o otimismo com a situação do Brasil se justifica, é um delírio ou é um embuste. Poucas vezes na nossa história recente entender o que se passa dependeu tanto da predisposição, ou do preconceito, de cada um. A economia do país raramente esteve tão bem, nunca se comprou tanto carro e casa própria, estamos finalmente a caminho de ter um bendito mercado para sustentar nosso desenvolvimento — ou a caminho do caos. Você decide. Os números não provam nada, ou provam tudo, o que dá no mesmo. Uma correta avaliação é improvável, já que os profissionais da avaliação se contradizem. Os fatos não influem muito na decisão de ser otimista ou catastrófico.

Ou seja: saber hebraico é secundário. Para rir ou não rir das piadas, basta confiar ou não confiar em quem está rindo.

FOFOCA

Com Barack Obama definido como candidato dos democratas à Casa Branca, espera-se para qualquer momento não um atentado contra ele mas uma fofoca sexual, que nos Estados Unidos também costuma ser uma arma. Em países latinos as revelações sexuais não têm o mesmo efeito, portanto não têm o mesmo risco político.

A filha que o Mitterrand tinha com sua amante foi motivo apenas de curiosidade, e de afetuosa surpresa com um pecado menor do velho, e não prejudicaria sua carreira política mesmo se tivesse aparecido antes. E o boato de que o Chirac era amante da Claudia Cardinale só aumentou sua reputação. No Brasil existe um imenso lençol subterrâneo, se este é o termo, de indiscrições conhecidas do poder que nunca vêm à superfície. Tipo todo o mundo sabe mas ninguém publica.

O que é saudável, já que a vida particular do político só é relevante quando surgem falhas de caráter que afetarão o nosso bolso, como uma tara por dinheiro público, e qual é o problema de namorar um pouco se ajuda a relaxar e até a governar e legislar melhor, desde que a patroa não fique sabendo? Mas há quem diga que a falta de inconfidências no mercado se deve a uma insuficiência do nosso setor editorial, que ainda não pôde fazer ofertas convincentes.

Quando morreu Buddy, o labrador dos Clinton, talvez o cachorro com mais histórias para contar do mundo, suspeitou-se que o atropelamento se devesse aos rumores de um contrato milionário para publicar um livro seu, título provável “Memórias da Casa Branca, ou Babando no tapete do Salão Oval”. Buddy, presumivelmente, estava presente nos encontros de Clinton com estagiárias para fins não reprodutivos. Inconfidências de assessores, empregados, amantes etc. são um risco constante para dirigentes americanos e ingleses, incluindo até a família real — no caso dos Estados Unidos, os Kennedy.

As revelações podem ser moderadamente embaraçosas (como a da atriz Angie Dickenson, que descreveu seu caso com John Kennedy como “os quinze segundos mais memoráveis da minha vida”) ou podem acabar com reputações para sempre. Do Bush nunca se soube nada, salvo os atos antinaturais que praticou com o país. Do Barack Obama, devem estar catando.

15/06/2008 - 10:40h Abc da pátria

+ Livros – FOLHA DE SÃO PAULO

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ENTRE O IÍDICHE E O INGLÊS, O NOBEL DE LITERATURA ISAAC SINGER REAVALIA SEU PASSADO NAS CRÔNICAS DE “NO TRIBUNAL DE MEU PAI”

CRISTOVÃO TEZZA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Um traço marcante da obra de Isaac Bashevis Singer (1904-1991), escritor judeu nascido na Polônia, e que em 1935 emigraria para os EUA, é o fato de escrever em iídiche -uma língua da família germânica grafada com caracteres hebraicos que, durante séculos, foi o idioma das comunidades judaicas ashkenazis da Europa Central.
Com o Holocausto, o iídiche praticamente desapareceu. Isaac Singer, entretanto, jamais abandonou a língua materna nos mais de 50 anos em que viveu nos EUA, o que cria a singularidade de um autor com “dois originais” -as traduções de Singer, Prêmio Nobel de Literatura de 1978, são feitas a partir do inglês, que por sua vez estabelece o texto “oficial” de sua literatura.
Esse detalhe ilustra um dos aspectos centrais da história do romance -sua linguagem é a confluência e tradução de muitas línguas que são a um tempo códigos e concepções específicas de mundo.

Consciência plurilíngue
E, do ponto de vista biográfico, a vida de Singer, com a infância mergulhada no tenso encontro de línguas, culturas e religiões, pode ser lida como ilustração cristalina do que o teórico russo Mikhail Bakhtin (1895-1975) chamava de “consciência plurilíngue do mundo”. Os textos de “No Tribunal de Meu Pai” são exemplares nesse sentido. Trata-se de um conjunto de crônicas autobiográficas em que a formação do autor é retomada em episódios apresentados mais ou menos em ordem cronológica e que se encerra nos seus 12 anos (quando conhece “uma garota morena com olhos escuros como carvão e um sorriso indescritível”).
O tribunal a que o título faz referência é a instituição judaica do “Bet Din”, o tribunal rabínico. Filho de um rabino de Varsóvia, o futuro escritor passou a infância impregnado de um senso de justiça religiosa em que se atravessam a pobreza, a onipresença da palavra escrita como fonte de referência da “verdade”, a disputa das várias correntes conflitantes que marcam o judaísmo, a consciência de quem está, do ponto de vista político, em lugar nenhum -e, sobretudo, o peso da idéia de lar se confundindo com a idéia de tribunal.
Se nas mãos de Kafka esse último ingrediente daria a síntese aterrorizante que conhecemos em obras como “O Processo” e “O Castelo”, em Isaac Singer -um escritor de raiz substancialmente popular, imerso na oralidade e no humor vivaz, comunitário, do mundo da aldeia- o resultado é outro.
A diferença central talvez seja esta: no mundo das memórias infantis de Isaac Singer, as coisas ainda não estão estratificadas na forma de Estado, não são regulamentos inalterados por mãos humanas.

Sinais escritos
O juiz é um homem de substância simples que tem de resolver questões miúdas do cotidiano, casos de divórcio ou dúvidas sobre a pureza de gansos abatidos. O senso de justiça é uma insegura escolha humana, a partir de alguns poucos sinais escritos, aos quais devemos dar um sentido.
O sentimento de mudança permanente, muito forte -mudança física e mental, política, social e econômica, ao deus-dará entre poloneses, russos, alemães, austríacos naquele sombrio limiar da Primeira Grande Guerra-, vai marcando cada passo da criança atenta, que pouco a pouco percebe o anacronismo da ortodoxia paterna e absorve a perspectiva transformadora de seu irmão mais velho, depois o poder da literatura, num tempo de utopias.
A força documental das crônicas, ao descreverem o mundo desaparecido, é temperada pela perspectiva literária -a história de Isaac Singer é a percepção de um escritor, não o documento frio de um historiador.
Em nenhum momento se perde a perspectiva da criança e a sensação de um mundo a descobrir e inventar; e, em cada crônica, está presente a afirmação absoluta do valor do indivíduo, princípio e fim de todas as dúvidas: “Como era vasto o mundo, e como abundavam nele todo tipo de pessoas e acontecimentos estranhos! (…) E onde estava Deus, de quem tanto se falava em nossa casa? Eu estava maravilhado, encantado, extasiado. Sentia que precisava solucionar esse enigma, sozinho, com meu próprio discernimento”.


CRISTOVÃO TEZZA é autor do romance “O Filho Eterno” (Record) e de “Entre a Prosa e a Poesia – Bakhtin e o Formalismo Russo” (Rocco).NO TRIBUNAL DE MEU PAI
Autor: Isaac Bashevis Singer
Tradução: Alexandre Hubner
Editora: Companhia das Letras (tel. 0/ xx/11/ 3707-3500)
Quanto: R$ 49 (360 págs.)

21/03/2008 - 01:45h Eu rio sim… estou vivendo…

Com Era da inocência, o diretor Denis Arcand mantém o mesmo nível cômico dos seus filmes anteriores, O declínio do Império Americano e Invasões Bárbaras. É uma comédia brilhante, com um timig teatral da melhor qualidade, que conta a história de X, um funcionário público em crise de meia idade e suas fantasias absurdas.

Na Poética de Aristóteles, há algumas boas pistas sobre a estrutura da comédia. Segundo o pragmático filósofo, ela é “a imitação dos homens inferiores” e busca “aquela parte do torpe que é ridículo”, enquanto a “a epopéia e a tragédia concordam somente em serem, ambas, imitações de homens superiores.”

Fazer comédia, portanto, é escarnecer: mostrar o quanto somos risíveis, patéticos, ridículos. “Eu não sou besta pra tirar onda de herói”, já cantava o saudoso roqueiro baiano. E rimos. Rimos de nós mesmos, da nossa própria condição transitória, dos nossos dilemas banais.

Rir é um hábito extremamente saudável, como praticar esportes, fazer sexo ou ver o seu time ser campeão. Milan Kundera, em seu Livro do Riso e do Esquecimento, chega a dizer que riso é o último bastião do oprimido contra o opressor. Você pode me subjugar e cercear os meus direitos, mas eu posso rir da sua cara! Hahaha!

Há quem diga que existem seis ou sete piadas arquetípicas, das quais infinitas outras seriam simples variações. Tais piadas fariam parte do inconsciente coletivo, da gosma mental sobre a qual escreveram Freud, Jung e outros. Desde os tempos dos deuses, heróis e bestas mitológicas, já havia um gaiato que podia até perder a eternidade, mas não perdia uma brincadeira.

O bom humorista não segue regras e postulados e, como um músico experimental, tira do improviso as suas maiores intuições. Mas em um filme como a Era da Inocência podem-se catalogar algumas técnicas sobejamente utilizadas pelos piadistas de todos os continentes, como:

O exagero: técnica mais utilizada por aí, que tende a tornar tudo maior, mais escroto, mais grotesco e mais surreal. É também da pedra fundamental do desenho cômico, a caricatura.

A ironia: esta é mais sofisticada. Quando você diz uma coisa, na verdade está dizendo outra coisa. Sacou? Ou quer que eu desenhe?

O choque de realidades: você fantasia que é o ban-ban-ban, o magnata do petróleo, o intelectual do século, cercado de beldades, sendo devidamente bajulado e idolatrado. A realidade vem e te mostra o zé-ruela feio e burro que você é.

O exercício deliberado do anacronismo: inserir num contexto algo totalmente diverso, como o Papa dançando na boquinha da garrafa ou a Carla Perez lendo Heidegger em alemão.

O pastelão: alguém levando um estabaco ou tomando uma lapada no pé orelha. A mais antiga e bem sucedida forma de fazer rir.

Aquele que não ri é usualmente chamado de enfezado. Ou seja, cheio de fezes. O mau-humor, portanto, seria um fenômeno psicossomático que ocorre em virtude da prisão de ventre. Nessas horas, vale o provérbio aplicado aos futebolistas relapsos: pede pra cagar e sai.

posted by MakNamara