09/11/2009 - 16:58h O Muro

Marcelo Leite – 8/11/2009

Paula e Ana (no banco de trás) com soldado oriental na “Faixa da Morte” do Muro (Foto: Claudia Kober)



Hoje faz 20 anos que o Muro de Berlim começou a cair. Ainda não chegou de todo ao chão. A história tem um ritmo às vezes difícil de suportar.

Basta viajar a Berlim, como fiz em julho depois de 13 anos de ausência. Quem não for cego vai notar – em meio a toda a exibição de glamour arquitetônico – os guetos de desolação pessoal e desajuste. Não faltam solitários e casais de meia idade esperando passar o tempo em bancos de praças de concreto com mato crescendo entre as rachaduras, um sanduíche vagabundo na mão, ou a garrafa.

A Queda do Muro, maiusculizada, não pode contudo deixar de ser comemorada e rememorada por quem já antes, mesmo que de esquerda, abominava as práticas soviéticas (e chinesas, por falar nisso). Era uma farsa que se acabava.

Talvez a maior farsa de todas se encenasse na Alemanha Oriental, com seu nome ridículo: República Democrática Alemã. A única coisa que abundava ali era falta de liberdade. Todo mundo vigiava todo mundo, parente contra parente, amigo desconfiando de amigo. Um encrave provinciano em que todos falavam uma língua de filósofos mas que se presta tão bem a enunciar ordens para cães.

Cada um que tenha nascido antes de 1970 extrairá da Queda do Muro suas próprias lições. As minhas se resumem a um alerta contra o entusiasmo em política. Daquele momento histórico prenhe de júbilo e euforia a memória preferiu reter mais cenas constrangedoras do que esperançosas.

As filas de alemães orientais para coletar seu Begrüßungsgeld, um troco que a rica Alemanha Ocidental dava de presente para os primos pobres que atravessavam pela primeira vez a fronteira, antes da reunificação em 3 de outubro de 1990.

Em 1º de julho do mesmo ano, dia da unificação monetária, a multidão reunida na Alexanderplatz erguendo notas de cem marcos no ar, como troféus. Quatro anos depois, veria pela TV cenas similares com o lançamento do real no Brasil.

Numa visita a fábricas fechadas em Bitterfeld – a Cubatão alemã-oriental -, ex-gerentes comunistas, ou gerentes ex-comunistas, fazendo rapapés para os novos patrões ocidentais enquanto afastavam às cotoveladas os jornalistas.

Soldados soviéticos com rostos infantis e asiáticos, no domingo de folga em Potsdam, posando para fotos ao lado de Mercedes-Benz e de turistas tão embasbacados com seus quepes monumentais quanto eles com os carrões.

Berlinenses ocidentais resmungando – ou hostilizando abertamente – os poloneses e ciganos romenos que invadiram a cidade nos primeiros meses de 1990 e passavam como gafanhotos pelos supermercados, esvaziando prateleiras de leite e de sabão em pó.

A história acontecia diante dos olhos, mas seus trabalhos, como na guerra, tinham um quê de mesquinho, sujo, pedestre. Era uma rendição em câmera lenta, inescapável e necessária, mas abjeta.

Pessoas que só haviam aderido ao socialismo por imposição ou oportunismo se livravam dele com um duplo rancor – contra o capataz comunista que fingia pagá-los enquanto fingiam trabalhar e contra os ricaços ocidentais que fingiam abraçá-los enquantro troçavam deles pelas costas.

Foi isso que testemunhei durante seis meses, de março a setembro de 1990, enquanto morei em Berlim Ocidental, como correspondente da Folha. A maior parte do Muro ainda estava lá, nos pedaços que qualquer passante podia descascar com formões e marretas alugados. Mas também nas cabeças, mais duras.

O governo democrata-cristão de Lothar de Maizière, encarregado de apagar a luz da RDA, se esforçava por manter as aparências de dignidade. Não era uma derrocada, mas uma nação que soberanamente se lançava nos braços de um país-irmão, de igual para igual. A seu lado, uma doutora em física e porta-voz não muito loquaz ouvia tudo e aprendia, sem a vocação de De Maizière para o rodapé da história: Angela Merkel.

Dos briefings quase diários de Merkel sobre a negociação do tratado de reunificação seguia para o Centro Internacional de Imprensa. Não havia internet, nem telefones celulares, apenas máquinas de escrever, fax e telex. Sendo esta a ligação mais barata, era opção obrigatória naqueles tempos de Plano Collor.

Funcionárias uniformizadas e monoglotas (quando muito connheciam rudimentos de russo) recebiam o texto em qualquer língua e o transcreviam de graça, com eficiência prussiana, em fitas perfuradas, que depois seria empregadas para transmitir com rapidez a reportagem para o Brasil. Aos poucos, elas foram desaparecendo, engolidas na implosão da burocracia. Ao final, sentava e escrevia os textos diretamente na máquina de telex, em ligação direta com o Brasil.

Tudo ruía lentamente, como o Estado socialista, sob o peso da própria inoperância. O centro de imprensa ficava em Berlin-Mitte, na banda oriental, para onde seguia diariamente de carro saindo de Charlottenburg (bairro de Berlim Ocidental que abriga a famosa avenida Ku’Damm). Nas primeiras semanas, sendo estrangeiro, só podia cruzar a fronteira pelo Checkpoint Charlie, na Friedrichstraße.

Os guardas de fronteira alemães-orientais eram de início minuciosos e rudes, ciosos da reputação de atirar para matar. Verificavam o visto no passaporte e examinavam a parte debaixo do veículo com espelhos. Mandavam invariavelmente abrir o porta-malas do Corolla 1982.

Começaram então, imperceptivelmente, a relaxar. Um esquecia o espelho; noutro dia era o porta-malas. Lá por julho ou agosto o agente de gravata desfeita só acenava com a mão de dentro da cabina, como um guarda de trânsito ordenando que a história se acelerasse.

Não dava para passar mais depressa. O recinto estava cheio de obstáculos, barreiras e meandros. A história, como ensinam os livros de Stephen Jay Gould sobre evolução, se faz com o material disponível.

Sempre dá para mudar, mas não muito, nem necessariamente na direção almejada. Acaso e passado têm um peso enorme. Progresso é uma outra história, na qual foi bom deixar de acreditar.

Escrito por Marcelo Leite

30/10/2009 - 20:55h Mais où sont les putes d’antan ?

Agnès Giard

Filles de joie, pierreuses, lorettes, filles à soldats, marmites, filles publiques, hétaïres, radeuses, catins, péripatéticiennes, horizontales, grues, boucanières, paillasses, morues, gotons, pouffiasses, amazones, professionnelles, filles soumises, tapins, fleurs de macadam, belles de nuit, asphalteuses, marchandes d’amour, turfeuses, ménesses ou gagneuses… La plupart des noms qui désignaient les prostituées ne sont plus en usage de nos jours. On dit “pute”, et voilà tout. Il n’y en a pourtant pas moins qu’avant, peut-être même plus, mais il est devenu si mal vu de s’en “payer” une qu’on préfère passer ça sous silence. Aujourd’hui à Paris, une exposition rend hommage à ces femmes que le tout-Paris fréquentait gaiement jusque dans les années 40, dans des maisons closes de luxe classées par les guides touristiques au rang de “must-see”.

Expo-fev-06

Le “Chabanais”, le “One Two Two”, le “Sphinx” et tant d’autres: les maisons closes furent les hauts lieux du Paris de la Belle Époque et des Années folles. Univers de luxe et de volupté, de kitsch et de mondanités, ces maisons reflétaient un art de vivre et d’aimer nourri de tous les désirs et de toutes les excentricités.” La galerie Au Bonheur du Jour (située juste en face de l’illustre N°12 de la rue Chabanais, dont la loi Marthe Richard ferma les portes en 1946) vous invite à “redécouvrir ces mondes disparus, sur le mode d’une promenade coquine et nostalgique dans ces lieux mythiques, dont les somptueux décors faisaient voyager les filles et leurs clients de l’Inde au Japon, de la Chine à Venise. Elle permettra aux collectionneurs et amoureux des maisons d’illusion de découvrir et d’acquérir une collection unique de photographies signées Brassai, André Zucca, Atget, Gaston Paris, Doisneau, etc.

L’exposition dévoile l’intérieur du célèbre bordel du 30 de la rue Lepic (maison spécialisée dans les fessées), du 9 rue de Navarin (très connu pour ses fantaisies sado-masochistes) mais aussi de bordels masculins. Les photos de Tableaux vivants (reconstitutions de scènes érotiques par des prostituées) jouxtent celles de lingeries du fameux catalogue DIANA-SLIP, 1932, destiné aux maisons luxueuses. Des peintures réalisées pour orner les alcôves côtoient des objets inattendus: la canne-cravache du One Two Two portant le nom de la fouetteuse «Flora», une poignée de porte de bordel 1900 en bronze, un heurtoir de maison close pour hommes, une dague de défense, une ceinture de chasteté et une curieuse “visionneuse enfermant des «mirages», ainsi que des cravaches, badines et plaques décoratives en bois sculpté”.

Toutes ces photos, dessins, peintures et curiosités, illustrent la vie quotidienne dans ces maisons, scènes vénéneuses des amours tarifés, mais aussi théâtre d’une vie sociale brillante où le champagne coulait à flots, entre le frou-frou des élégantes et le va-et-vient des messieurs et le ballet des tenancières”. Créatrice de la galerie Au Bonheur du Jour, Nicole Canet fait elle-même figure d’œuvre d’art au milieu de ses collections érotiques. Cette ancienne danseuse de cabaret, reconvertie dans les curiosa, amasse depuis près de 30 ans les témoignages les plus extravagants de la vie sexuelle de nos arrière-grands-parents… Elle adore dévoiler ses trésors. Sa galerie est d’ailleurs aménagée en boudoir. On y entre comme dans un appartement de cocotte, saisi par le parfum qui imbibe les tentures et les toiles, les lourds catalogues reliés et les jolis meubles à bibelots, avec l’impression de faire un bond spatio-temporel en arrière. Ça fait rêver.

Bien malgré elles, les prostituées ont toujours fait rêver. En 2002, Régine Desforge rappelle que leur présence continue de hanter certains quartiers: il y a dans le Marais, “une rue au joli nom bien trompeur, la rue du Petit-Musc, qui en porta un autre avant que la morale bourgeoise ne s’en offusquât. C’était, au XIVe siècle, une petite artère où les prostituées exerçaient leur métier; d’où son nom d’alors, la Pute-y-muse…”. Le nom est joli, mais qu’on ne s’y trompe pas. Il cache une réalité souvent atroce. Les femmes qui se livrent à la prostitution sont –dans leur immense majorité– des esclaves sexuelles privées de tous les droits et contraintes de subir le martyre. “A Rome, rappelle Régine Desforge, les filles publiques portaient une mitre et une toge ouverte sur le devant. Leurs vêtements étaient jaunes, couleur de la honte et de la folie.” Dans l’occident chrétien, la prostituée reste un objet de répulsion.

Même le XIXe siècle, qui donne aux prostituées un statut de quasi-stars (les demi-mondaines deviennent des héroïnes d’opéras et de livres), les maintient cependant au rang de serpillères spermatiques. C’est “le siècle qui a le plus défendu la vertu, la féminité accomplie, et le plus institué la prostitution, avec les maisons closes, explique Bruno Remaury, anthropologue et auteur du Beau sexe faible. La féminité est toujours vue comme ambivalente: à la fois sublime, accomplie, parfaite; et malsaine, inquiétante, maléfique. Tout homme riche peut entretenir une femme destinée à son plaisir. Il a donc réellement à sa disposition les deux faces de la féminité: l’épouse vertueuse et la courtisane.” A la première échoit la mission de procréer de beaux enfants sains. A la seconde… celle de purger l’homme. “Le XIXe a de l’hérédité une vision primaire: on considère qu’un bandit aura des enfants bandits. Ainsi, la prostitution a du bon, au sens où, comme un évier, elle fait s’écouler les descendances bâtardes et dégénérées.

Voilà donc à quoi servaient les prostituées des bordels. Marthe Richard savait de quel enfer il s’agissait quand elle réclama la fermeture des maisons closes. Ancienne prostituée, avant de devenir conseillère de Paris à la Libération, elle déposa en 1945 un projet de loi prévoyant leur suppression. La loi fut adoptée le 9 avril 1946. Depuis, les femmes/les hommes qui s’adonnent à la prostitution n’ont plus que le trottoir pour lieu de travail. Ou leur clavier d’ordinateur. Avant, enfermées dans des maisons capitonnées, ils/elles faisaient rêver. Maintenant, jeté(e)s par la loi Marthe Richard dans la rue ou sur internet, ce sont des travailleuses du sexe. Leurs conditions de vie sont toujours aussi précaires. Sous prétexte d’améliorer leur sort, la loi n’a fait que les rendre invisibles. Les voilà maintenant vouées à la semi-clandestinité, à l’ombre, à la honte, au déni et au silence. On appelle ça le progrès.

Exposition Maisons Closes, du 28 octobre au 31 janvier 2010.
“Bordels de femmes. Bordels d’hommes. 1860-1946.”

Galerie au Bonheur du jour : 11 rue Chabanais – 75002 Paris. Tél. : 01 42 96 58 64.
Du mardi au samedi 14H30-19H30

Un livre Maisons closes 1860-1946 : 328 pages, 400 illustrations, couverture reliée, 17 rubriques et 5 sous-rubriques, avec les textes, et leur traduction en anglais. 1500 exemplaires dont 50 hors commerce dédicacés. Editions Nicole Canet.

Fonte Les 400 culs

Agnès Giard: Journaliste spécialisée dans les contre-cultures, le Japon et l’art déviant, correspondante pendant neuf ans de la revue japonaise S & M Sniper, je suis l’auteur du livre d’art Fetish Mode (éd. Wailea, Tokyo, 2003), (éd. Cherche-Midi, Paris 2004), L’Imaginaire érotique au Japon (éd. Albin Michel, Paris 2006), le Dictionnaire de l’Amour et du Plaisir au Japon (éd. Glénat, 2008), et Les Objets du désir au Japon (éd. Glénat, 2009).

Mon site personnel est : AgnesGiard.com


30/10/2009 - 19:00h Vida Xpress 1.0: Pasó una noche

Cristina Civale

Como les prometí cuando terminé la serie de Cuentos alcohólicos -a mediados de noviembre ya en librerías y recibirán la invitación a la presentación-, en noviembre me proponía arrancar con la serie de relatos Vida Xpress, un conjunto de cuentos breves acerca de encuentros efímeros.

Aquí va la primera entrega:



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Noche estrellada, Van Gogh

Pasó una noche

Espiar. Pretender ser como alguna de ellas. Meterse en los baños de los clubes, discos y bares y permanecer más de lo que el retoque del rimel o del gloss demanden. No uno, dos, tres segundos… Largos quince minutos y estirarlos a como dé lugar a media hora. El lapso perfecto. Y tomar nota con los ojos, envidiar y copiar. Quizá excitarse. Sentir el latido entre las piernas que produce la indescifrable belleza ajena. ¿Qué es? ¿El gesto ardiente de un lápiz recorriendo el contorno de los labios? ¿La mano grácil que con una esponja diminuta transmite purpurina en las mejillas? ¿La manos seguras que levantan los pechos y los acomodan como la raya de una cola en el medio de un escote? ¿La insinuación del pubis bajo una minifalda? ¿Los ojos estrellados que se miran con lascivia frente al espejo, deleitándose de sí? ¿La mirada de satisfacción de la armonía conseguida? ¿La cabeza que en un gesto lento y salvaje sacude la cabellera? ¿El cuello que chorrea esa gota casi invisible de sudor? Todo. Cada parte. Cada pequeño momento. La sensualidad ahora intangible de la belleza que espío y no rozo. No todavía. ¿Qué más?

¿El encuentro atrevido de dos cuerpos iguales que unen sus lenguas en un beso fugaz, travieso y apasionado? ¿La palma de la amiga o de la desconocida tocando en una caricia disimulada ese bretel que asoma en una parte inoportuna del hombro y esas miradas que se cruzan, cómplices, quién sabe para qué complicidad? ¿El aliento que no huelo y que destila gin, cigarrillos, tictacs de menta y lujuria en forma de burbuja? También.

Seguir espiando desde el cubículo privado, con la puerta ligeramente entornada o con los pies cargados sobre los bordes del inodoro. Achicando el cuerpo para que apenas asome, con la mayor discreción, la menor parte de la cabeza que permita al ojo entender la construcción de la belleza.

El interior-noche disco no tiene estaciones. No hay primavera ni otoño. Ni invierno ni verano. La estación es la temperatura de la noche misma, el calor exacerbado –frío, caliente, tibio- de los cuerpos que marchan a exhibirse con sus mejores atributos, naturales o impostados, para luego rozarse con otros cuerpos y otros atributos para cualquier fin. No importa cuál.

Ahora mismo estoy espiando. Todavía no llego al baño. Aguardo a mi presa en el salón principal del bar icónico de la noche under, en la esquina mítica y caliente de Godoy Cruz y Güemes. Al fin, ella llega, una ella elegida al azar. La sigo. Desciendo al subsuelo por la escalera estrecha. Me arrastra el perfume que emana de su cuello, allí mismo distingo un tatuaje que reproduce una flor imprecisa. No se qué me inquieta más, si el olor agrio o la flor que no reconozco. Pero me dejo llevar. Apenas bajo la escalera, a la izquierda, dos puertas sin distintivos conducen a los baños. Sigo el cuello, sigo el olor que atraviesa sin titubear la puerta que no dice nada. Me escabullo en el espacio. Es diminuto. Otros cuerpos se baten contra una mesada pequeña y dos lavabos. Las cabezas se mezclan buscando el espejo inmenso. Decido seguir a mi presa, no la miro más que a ella. El cabello largo y negro, de un negro-azul, se alza sobre la nuca en un peinado sin nombre, envuelto por un palito de comida japonesa. Bajo el cuello del tatuaje, más piel. Piel desnuda. Luego de acomodarse el pelo con la inutilidad de un gesto que es excusa para volver a mirarse –estoy segura que ya lo hizo en otros espejos de otros bares- y aprobarse, abre su bolso pequeño y espío ahora del cuello para abajo siguiendo la línea marcada de su espinazo brutalmente marcado por una delgadez que apremia. Hambre, el mío.

Me topo con su cola dura y redonda y bajo hacia las piernas largas y distingo un vello que se insinúa, ese desequilibro: un error, un defecto en la construcción. Ese pequeño desliz acelera mis latidos. Quiero agacharme y arrancarlo con mis dientes para que todo sea perfecto pero me contengo. El cuello se va con su pierna con vello. Y yo me quedo, turbada, perdida en el perfume que todavía huelo o creo o imagino. Quedan otras pero no puedo concentrarme. Me aturden sus susurros.

Estoy embrujada por la imagen de cabello negro-azul, tatuaje y pierna defectuosa. Me obligo y miro, escruto escondida en el cubículo, el único. Hay una cerradura rota. Aprovecho y pego el ojo. Tengo un plano medio de tres cuerpos que se miran. Llega el beso imaginado. Más breve de lo debido, más juguetón, mas amistoso. Un beso consuelo de bocas que buscan otros placeres que allí no encuentran. Ya no late nada en mí. No hay belleza en el gesto falso. Añoro con una exageración que reconozco la presa uno, la primera, la del azar y salgo del baño.

La encuentro en la barra rodeada de dos hombres que le hablan, rifándosela. Ella sonríe con su boca de labios delgados, excesivamente blancos, como de diseño, salidos de la imaginación de las sonrisas hiperbleeching de Hollywood.

Por fin apura su trago transparente –¿gin, vodka, agua?- se despega de los hombres y regresa, como en un rito inevitable, al baño desde cuya puerta me agazapo y espero.

Entra. Entro. Me reconoce y me sonríe con los labios apretados. Estamos solas. En un gesto mecánico trabo la puerta. Ella está entretenida, ahora, con el cinturón que le sostiene la falda breve. Me aproximo y rozo su entrepierna con mi pubis. Allí no hay nada especular. Hay otra cosa. Estaba segura, sólo tenía que comprobarlo, que mi cuerpo tocara el de ella y me lo confirmase. Ella no me dice nada. Me vuelve a mirar y me regala uno sonrisa de labios abiertos.
Las más bella de las bellas de esa noche.

Este relato salió publicado en la revista Ñ, el 24 de octubre de 2009

Publicado por Cristina Civale en Civilización & Barbarie

19/10/2009 - 16:34h Maçã verde

LÚCIA GUIMARÃES – NOVA YORK – O ESTADO SP

A moça do caixa me fez a pergunta antes de dar o troco e, em segundos, quase regredi à menina insegura do Colégio Santa Úrsula. Você precisa de sacola? “Não, Madre Superiora, quer dizer, não, é claro, cabe tudo na minha bolsa.”

Espera aí, não estava eu na maior rede de farmácias do país? A que mantém as lojas iluminadas à noite, o ar condicionado ou o aquecimento a toda? A corporação gigantesca estava patrulhando minhas pegadas de carbono?

No meu bairro, tradicionalmente democrata e politicamente correto, a mudança cultural é evidente.

Nos últimos anos, quando via um grupo de policiais na esquina, concluía, aos bocejos, que o banco havia sofrido mais um assalto relâmpago – geralmente um drogado solitário, fingindo ter uma arma sob a camiseta, levava o conteúdo de um caixa.

Na semana passada, dobrei a esquina e notei que a presença policial tinha atraído muita gente. Era horário de saída de um jardim de infância e as mães fotografavam a cena com seus celulares. Um caminhão de lixo havia estacionado e seu motorista muito nervoso confabulava com os policiais, que evitavam o olhar do público. E com razão. O inspetor municipal tinha surpreendido o dono da barraca de frutas e legumes ocupando mais espaço na calçada do que o permitido pela licença. E começou a despejar caixas e caixas de alimentos que foram devorados pelo caminhão de lixo. Um grupo de mulheres começou a gritar e chamou a polícia. Algumas discavam para as redações dos canais de TV locais. Saí fotografando, é claro, como alguém que imita os modos dos outros convidados num jantar de cerimônia. Uma desconhecida se aproximou de mim e disse: “Eu tenho um blog sobre comida orgânica, você me manda suas fotos? Nós vamos criar o maior caso.” Cada novo pedestre que perguntava o motivo da comoção ouvia um discurso ainda mais exaltado sobre o desperdício imperdoável.

Os Estados Unidos com menos de 5% da população mundial, consomem um quarto dos recursos de energia do planeta. Mas a cidade para onde me mudei, na década de 80, agora parece querer se penitenciar.

E como estamos num país fundado por puritanos, o ambientalismo vem com fortes doses de censura e culpa.

Numa festa de aniversário recente, notei um par de olhos fixos em mim enquanto lavava a louça. Em anos anteriores, a dona da casa me agradecia e dizia aos convidados ela ajuda sempre. Desta vez, a minha anfitriã não queria a minha ajuda. Explicou que era preciso enxaguar a louça no bacia colocada na pia e só abrir a torneira na hora de tirar o sabão. A crise de abastecimento é na Costa Oeste, pensei comigo mesma, enquanto aderia ao novos tempos.

Um comediante popular do canal HBO lidera uma campanha contra o golfe. Não porque seja um esporte cujo tédio desafia a minha compreensão. Mas porque os gramados consomem uma quantidade pornográfica de água em regiões secas.

Como ninguém há de se declarar contra o meio ambiente, a etiqueta ecologicamente correta, às vezes, desafia o bom senso. O prefeito Bloomberg prometeu designar 80 quilômetros de ciclovias por ano. Aplausos.

Mas já me juntei às estatísticas crescentes de atropelados por bicicletas. Enquanto esperava o roxo da perna desaparecer, comecei a ler sobre os acidentes em blogs e, só quando um executivo em sua bicicleta luxuosa matou um homeless no Central Park, pedalando a 60 km por hora, o desatino começou a ser mais bem documentado pela imprensa. Como trocar o carro pelo pedal é “do bem”, demoraram a entender que ignorar regras do tráfego urbano não é.

O virtuosismo ambientalista oferece um desafio especial neste país, em que o consumo é responsável por 70% da economia. Aqui se inventou a noção de shopping, comprar, como um fim e não um meio, uma atividade semelhante a jogar futebol ou ir ao cinema.

Na calçada da minha rua, em dias de coleta, dezenas de sacos de lixo selecionado por material para reciclagem convivem com mobília em perfeitas condições, já que o custo da mão de obra de transporte para vender ou doar equivale a comprar uma peça nova.

Nesta capital americana do consumismo, a experiência de assistir ao documentário No Impact Man é especial. O escritor Colin Beavan, autor do livro homônimo, recém-lançado com o filme, decidiu submeter sua família, mulher e filha de 2 anos a um ano de redução radical de suas pegadas de carbono. Passou os primeiros 6 meses sem eletricidade, subia e descia os nove andares de seu prédio no Village com a pequena Isabella nos ombros. Eles não andavam de carro, não faziam compras, só consumiam comida local e produtos de limpeza sem substâncias tóxicas. A experiência quase acabou com o casamento e Beavan foi acusado de atrair o ridículo para a causa ambientalista. Mas, ao servir de cobaia para um estilo de vida sustentável para o planeta a insustentável para a saúde mental da maioria, a família protagonizou uma narrativa fascinante. Ao contrário do zelo ecológico que frequentemente não se distingue de outros extremismos, Colin Beavan deixou pegadas de humanidade no caminho cheio de obstáculos de onde não podemos voltar.

01/10/2009 - 19:05h Depois da Guerra

por Samantha Abreu

Depois da guerra, eu tento voltar a mim mesma.
Um combatente em retirada, que entra pelo portão de uma casa que não é mais sua, embora ainda lhe pertença. As pessoas dali ainda têm o seu sangue, mas acostumaram-se à sua ausência. Os lençóis já não o reconhecem, os colarinhos e coisas não mais têm o seu cheiro.
Ele mesmo, soldado vencido, já não se encontra mais em si. Não se acha, mesmo quando vasculha, apressado, as gavetas do peito e da própria cabeça. Não reconhece suas novas cicatrizes, não lhe parece familiar a textura da pele nem os calos nas mãos. É alguém que, no cansaço da luta, se fragmentou em mortos e feridos, e mudou na velocidade do disparo de cada bala.
Sou eu esse guerreiro.
Sou eu que reapareço, trazendo comigo pedaços de corpos e almas que não me pertencem, mas agora fazem parte da unidade necessária para que eu me recomponha e, no devido tempo, retorne ao meu campo de batalha.
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veja depois de ler:
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Gerado por Samantha Abreu. Fonte Blog Versos de falópio

21/09/2009 - 12:20h Desconfiança coletiva

Lúcia Guimarães, NOVA YORK – O Estado SP

Uma nova pesquisa revelou que quase dois terços dos americanos desconfiam das notícias divulgadas por jornalistas. É o índice de credibilidade mais baixo desde que o Pew Research Center começou a fazer a pesquisa, em 1985.

O resultado é assustador ao fim de um ano cheio de acontecimentos marcantes – o crash de setembro, a pior crise econômica desde a Grande Depressão, a eleição de Barack Obama. Foi um período histórico que poderia restaurar parte do prestígio da mídia jornalística. Mas os números da pesquisa mostram que a suspeita de desinformação só aumenta.

Entre as estatísticas sombrias: 74% das 1.506 pessoas ouvidas durante a pesquisa, em julho passado, acreditam que a mídia noticia fatos de cunho social ou político sob o prisma do preconceito ideológico. O racha partidário também cresceu, com republicanos habitualmente mais confiantes na cobertura da Fox de Rupert Murdoch e democratas mais dispostos a acreditar na CNN e na MSNBC, esta francamente pró-Obama.

Posso continuar a desfiar o rosário de más notícias sobre o meu ofício, mas faço uma pausa para uma ausência notável na pesquisa. Não houve distinção entre mídias. E, como sabemos, “mídia” engloba conglomerados de tentáculos planetários como também um neonazista com educação primária blogando de cuecas nos cafundós do Estado de Montana.

Convenhamos que há uma diferença expressiva, mesmo considerando que Rupert Murdoch, o planetário, emprega gente como Rush Limbaugh e Glenn Beck, apresentadores de talk shows que desafiam qualquer parâmetro de ética. E por falar no energúmeno Beck, sua cara ocupa, esta semana, um território cobiçado, um dos centímetros quadrados mais valorizados da mídia tradicional. A capa da edição americana da revista Time.

Talvez a Time tenha fornecido involuntariamente uma explicação parcial para os resultados abismais da pesquisa do Pew Center. A capa é bombástica, como se espera, mas a foto escolhida, Beck com a língua de fora, revela mais sobre o dilema da mídia tradicional do que sobre o retratado. O título é Homem Louco: Glenn Beck Faz Mal à América?.

A pergunta é retórica, não respondo pelos outros, mas vou levar para o terreno pessoal: o que me faz mal é não poder mais contar com a maturidade de uma revista de circulação nacional, fundada há 86 anos.

Ao humanizar Beck com uma foto brincalhona, a Time já embarca emasculada na tarefa de conferir o efeito nefasto do circo de extrema direita. Ao definir Beck, notório por acusar Obama de racista, como um “talentoso empresário da angústia no mercado quente dos brancos”, a revista não detecta apenas o óbvio: que Beck fatura o temor branco num país onde as minorias raciais serão maioria em 2042 – ou antes, se as projeções do próximo censo voltarem a antecipar a transformação demográfica.

A reportagem fala de um protesto recente em Washington citando fontes liberais (nos Estados Unidos, liberal é à esquerda) e fontes conservadoras e, assim, dá o tiro no próprio pé. O fato requer a muleta do prisma ideológico para ser noticiado. A intenção da revista, imagino, é parecer equilibrada. Mas o resultado sugere o desespero de uma indústria ameaçada, tentando ser tudo para todos. A polarização política da mídia produziu o que o saudoso Nelson Rodrigues poderia ter batizado de o idiota da subjetividade.

Se vamos em frente com esta forma de editorializar o mundo, logo será sensato citar a Teoria da Evolução como uma conspiração liberal.

O crescente ateísmo do público em relação à atividade que já foi definida como o Quarto Poder parece coincidir com o esforço para sobreviver à transformação econômica. Na continuação da curva descendente, a receita de publicidade dos jornais americanos caiu 29% na primeira metade do ano.

A crise de identidade do jornalismo era inevitável diante do choque provocado pela internet. Mas concordo com quem acha que a internet atingiu uma indústria já enfraquecida por outra erosão: a perda da convicção na própria singularidade, da noção de que reportagem e fabricação de sapatos são atividades com retornos econômicos e propósitos distintos.

Além de inviabilizar as formas tradicionais de sustento da indústria, a internet mudou a hierarquia de consumo da notícia. Um sintoma evidente foi a percepção do blog caseiro como um bolchevismo, uma vanguarda para fazer justiça ao tzarismo corporativo do jornalista profissional. Sabemos onde o bolchevismo foi desaguar. Ainda atravessamos a incerteza da descentralização da notícia.

Quem pode ser contra a democratização do acesso à informação? Mas a perda da confiança do público na mídia jornalística é cria da possibilidade de todos falarem ao mesmo tempo.

Na Grécia Antiga, os mensageiros tinham proteção para ser portadores de notícias, mesmo as que desagradavam aos poderosos.

Ao se comportar como um mensageiro intimidado pela ira do destinatário, a mídia contribui para a desconfiança ilustrada pela pesquisa do Pew Center.

13/06/2009 - 16:00h Ciúmes, ela?

por Helena Celestino – Blog prosa Online – portal O Globo

As duas vidas de Catherine M.

Ciúmes, ela? Depois de criar um choque entre os bem pensantes da França, ao descrever com extrema crueza sua movimentada e pouco convencional vida sexual, Catherine Millet surpreende de novo ao relatar com a mesma profusão de detalhes sua descida aos infernos do ciúme quando descobre que o marido tinha aventuras com outras mulheres. Catherine é aquela diretora da mais importante revista francesa de arte, a “Art Press”, que escolheu abandonar o pedestal reservado à respeitadíssima especialista em Salvador Dali e Yves Klein para contar num livro, em tom lacônico e distanciado, sua entrega a um número incalculável de mãos e pênis de homens anônimos, encontrados ao acaso em estacionamentos, nas sombras do Bois de Bologne, ou em estações de trem parisienses. Seu relato de orgias e surubas virou um best-seller, “A vida sexual de Catherine M.” (Ediouro), que vendeu 2,5 milhões de exemplares em 47 países — o mais recente lançamento foi na Albânia e o próximo será no Líbano, um país árabe.  Sete anos e muitas polêmicas depois, ela reaparece agora num novo livro, “A outra vida de Catherine M.” —- lançado no Brasil pela Agir — como uma tigresa disposta a usar as garras para manter jovens rivais distante de seu marido. A mesma mulher que oferece o corpo a quem puder lhe dar prazer, conta, sem nenhum pudor, como durante três anos vasculhou o computador e as gavetas do companheiro com uma obsessão de mulher fiel, disposta a tudo para manter seu casamento de quase 30 anos com o escritor Jacques Henric. Enquanto investiga a vida paralela do marido, perde-se em crises de angústia, taquicardias e cenas cheias de lágrimas, num enredo distante da utopia do amor livre, até então aceito como dogma pelo casal, desde o encontro dos dois nos libertários anos 70.  A autora (ao lado, em foto de divulgação) estará no Brasil em julho participando da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Pelo que a senhora conta, “A vida sexual de Catherine M.” foi uma maneira de sair da crise de ciúmes. Foi isto?
Na verdade, quando comecei a escrever estava tão fragilizada que não tinha segurança sobre o que estava fazendo. E também não tinha confiança de que sairia da crise. Retrospectivamente, ao escrever “A outra vida de Catherine M.” (cujo título original é “Dia de sofrimento”), percebi que isto tinha acontecido.

Por que decidiu se expor outra vez em um livro?
Logo depois de “A vida sexual” dei muitas entrevistas e participei de muitos encontros com o público. E todo o tempo vinha a pergunta: mas se você tem essa vida sexual livre, você não conhece o ciúme? E eu era obrigada a reconhecer que sim, eu conhecia o ciúme. Nas semanas que se seguiram à publicação de “A vida sexual” decidi que, por honestidade com o público, eu contaria que tinha vivido uma crise terrível de ciúme.

Mas passaram-se sete anos entre um livro e outro…
Primeiro, eu viajei por mais de três anos por causa de “A vida sexual de Catherine M.” E depois eu queria um refresco, estava cansada de falar sobre isso. Escrevi um livro (que não foi traduzido em português) sobre Salvador Dali como escritor, que me exigiu alguns anos de trabalho.

É mais difícil contar a vida sexual ou falar do seu ciúme?
Falar do ciúme é muito mais difícil, claro. Por diferentes razões, “A outra vida de Catherine M.” me obrigou a rememorar sentimentos extremamente dolorosos. Ao contrário, “A vida sexual” me fez voltar aos bons momentos, era escrever sobre boas lembranças. Sempre falei livremente e sem nenhuma inibição da minha vida sexual e do meu corpo. Mas falar de sentimentos nunca foi fácil para mim. Ao contrário do que muita gente pensou ao ler meu livro, eu não sou exibicionista… Mas não escondia nada sobre a minha vida sexual, no meio profissional muita gente sabia. Para mim, era uma maneira natural de levar a vida.

Os livros “confessionais”, digamos, mudaram a sua vida?
Não mudaram muito. No meio artístico, então, não mudou nada: nem a relação com meus colaboradores próximos — que não necessariamente sabiam o que acontecia — nem com os artistas de uma maneira geral. Acho que o mundo artístico hoje é o mais liberal de todos, é um universo em que a liberdade é completa. Podemos nos permitir coisas que seriam chocantes entre as pessoas do (mundo do) cinema ou entre escritores. Nas obras de arte, expostas nas galerias, há coisas da mesma natureza do que as contadas no meu livro (risos). De uma maneira geral, as reações foram positivas: imagino que as pessoas acharam engraçado ver que eu tinha virado um personagem midiático. Criou-se uma simpatia maior em torno de mim.

Como “A outra vida de Catherine M.” foi recebido?
As críticas na França foram ainda melhores, foram muito positivas. Na verdade, todas as críticas iam no sentido de que, finalmente, eu me confirmava como escritora. Isso foi uma surpresa. O outro livro não era mal escrito, mas não era isso que interessava às pessoas. Para os críticos foi um pouco como se aquela mulher, que fez as pessoas falarem tanto dela, finalmente tivesse virado uma escritora.

A linguagem de “A vida sexual…” é muito mais crua do que a de “A outra vida…”. Foi um efeito procurado?
São dois livros muito diferentes. “A outra vida de Catherine M.” é mais bem escrito, primeiro porque eu já tinha uma experiência anterior de escrever um livro no qual falava de mim. As frases são mais longas, mais torneadas. E também porque a dificuldade que eu tinha para contar a dor, a complexidade dos meus sentimentos, me fazia pensar mais. A natureza do que eu tinha para contar me obrigava a mudar a forma de escrever.

A senhora disse que o francês é a língua do sexo. O que achou das traduções, ao ler o seu livro em outras línguas?
Eu e muitos outros escritores já falamos isso. Existem muitas palavras para falar de sexo, de órgãos sexuais, de sedução. Conversei com alguns tradutores e foi interessante, porque a gente percebe as diferentes percepções do vocabulário do sexo nas diferentes línguas. A gente vê que em algumas línguas, para designar os órgãos sexuais ou a bunda, por exemplo, existem muitas palavras. Ou, ao contrário, muito poucas palavras. Algumas são empregadas de uma maneira banal em francês mas, em inglês, por exemplo, viram uma obscenidade terrível.

O surpreendente no seu livro sobre o ciúme é que a senhora vigia o seu companheiro com uma obsessão de mulher fiel. Para os leitores que conhecem “A vida sexual de Catherine M.” foi uma surpresa?
Acho que não foi muito surpreendente. Mesmo se a maioria das pessoas não tem uma vida sexual livre como a minha, não são muitas as que escapam do ciúme. A liberação sexual, como sonhávamos nos anos 60 e 70, era uma utopia. Todos os que viveram essa época são conscientes disso: a sexualidade completamente livre que imaginávamos, com a realização completa dos nossos desejos, sem entrar em conflito com o cônjuge, era uma utopia. Aqui, na França, ao lerem “A outra vida de Catherine M.”, muitos disseram: “ah, finalmente, descobrimos que ela é normal”.

Ou seja, caiu o mito Catherine M.
As pessoas pensam que eu era um monstro sem sentimentos. Voilà, não sou. O fato de ter e assumir uma sexualidade livre não me impede de cair na armadilha horrorosa do ciúme e não imuniza ninguém contra a dor que o acompanha.

Lendo seus livros sobre arte e os textos “confessionais” parece que existem duas Catherine Millet. Há uma relação entre o olhar de crítica de arte e relato de Catherine M.?
Acho que a crítica ensinou-me a ser mais descritiva do que introspectiva. Para falar de um sentimento não vou procurar explicações profundas na minha vida passada, na minha infância. Eu vou procurar simplesmente descrever como se manifesta esse sentimento, o que ele me fez dizer, como ele age sobre o meu corpo ou sobre a minha vida. É um paradoxo, mas quando eu trabalho prefiro ficar na superfície. Escrevo como se eu estivesse descrevendo uma escultura.

Bataille e Sade são autores que a inspiraram?
Não. Claro que eu li isso, faz parte da cultura da minha geração. Mas a lógica do Bataille é a da transgressão e tudo o que contei sobre a minha vida sexual não entra nessa lógica. Claro que o tema me interessa, mas não faz parte das minhas experiências. Jamais transgredi os tabus sociais, nem o tabu do incesto, nem os tabus religiosos. Acho que não existe sociedade sem tabus fundamentais. Nunca estive na posição de transgressora.

A artista francesa Sophie Calle também vem ao Brasil para a Flip.Tanto a senhora quanto ela partem de histórias pessoais em livros e/ou trabalhos de arte. Existe proximidade entre as duas?
Não acho muito, não. Podemos pensar nisso porque ela se revela nas suas obras. Mas acho que ela está mais no pathos do que eu. Eu conto as histórias como se elas não me pertencessem mais . Sophie, para falar de um momento de crise, por exemplo, faz isso de um ponto de vista crítico. Acho que estamos em terrenos diferentes.

Como a crítica de arte vê o trabalho de Sophie?
Eu respeito, mas não é o tipo de coisa que me interessa. Eu jamais escrevi sobre ela ou sobre seu trabalho, por exemplo. Vou ver as exposições, mas não somos amigas.

O que a senhora espera dessa viagem ao Brasil e da participação na Flip?
A única coisa que me disseram é que vou debater sobre a questão do tabu (ela vai conversar com a psicanalista Maria Rita Kehl no domingo, dia 5, às 11h30m). Ainda não sei sobre o que vou falar…

12/06/2009 - 19:34h Avessos e reversos

 daniela dias

 

Dossiê

 

Eu sou uma mocinha. Mo-ci-nha. Adoro perfumes, cores, bebês e flores.

Mas me interessa igualmente o que me é diferente. O lado obscuro de tudo. Eu sou uma mocinha. Menina. Mas me atrai conhecer o avesso. Entendê-lo.

Por isso coleciono almas. Olho nos olhos, observo o entorno, busco desgasto derreto de cansaço. Vou até o fim.

Eu sou menina. Eu sou menino. Eu sou um espectro. Uma abelha. Uma agulha. Uma fagulha.

Uma história de dois lados.

 

 

No corpo de um

 

Maria olhou para Reinaldo. Ele estava morto. E ela estava pura.

Reinaldo olhou para Maria. Ela estava morta e ele estava puro.

Riobaldo olhou a ambos. E ele estava vivo.

 

 

Daniela Dias (São Paulo-SP, 1982). Jornalista, mantém o blogue Quimerópolis, onde coloca seus avessos e reversos. Fonte Escritoras Suicidas

12/06/2009 - 09:24h Ueba! Namora com o saci!

http://blogs.diariodonordeste.com.br/roberto/wp-content/uploads/2008/11/saci.jpg

JOSÉ SIMÃO – FOLHA SP

É o melhor namorado do mundo! Quando ele te der um pé na bunda, quem cai é ele!

BUEMBA! BUEMBA! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República! Direto do País da Piada Pronta!
É hoje! Dia dos Namorados! Vai dar overbooking em motel! Por isso que eu recomendo o drive-thru do MacDonalds: entra, pede um hambúrguer, dá uma rapidinha e sai. MacRapidinha Feliz.
E lembre-se: amor começa em motel e termina em pensão. E você sabe como fazer para tua namorada continuar gritando depois da transa? Limpa o pingolim na cortina. Rarará! Feliz Dia dos Namorados!
E a namorada do ano foi a Suzana Vieira, que namora um mágico! Imagino a mágica que ele vai fazer no Dia dos Namorados: eles transam e aí ela some. Rarará! Transa Mágica! E Dia dos Namorados tem que ser cafona. E Fernando Pessoa já dizia: todas as cartas de amor são ridículas!
E a minha primeira namorada foi uma Mulher Gorila. Daquelas de circo. Que na Bahia chamam de Mulher GOLIRA! E uma amiga disse que o primeiro namorado dela foi um pastor. Um pastor alemão. Rarará! E uma outra quer passar o Dia dos Namorados em estado de coma. COMA-ME PELO AMOR DE DEUS. E uma outra ainda quer ter orgasmos múltiplos COM ECO. Pro prédio inteiro saber que ela tem namorado. Senão não tem graça!
E o melhor namorado do mundo é o saci. Porque quando ele te der um pé na bunda, quem cai é ele. Aliás, sabe o que o saci falou pra sacia? FICA DE TRÊS! Rarará!
E a recomendação de todo ano: se o teu namorado te trair não se atire pela janela! Você tem chifres e não asas! E você sabe quando o namoro tá indo pro brejo? Quando engole muito sapo e come pouca perereca! Rarará! É mole? É mole, mas sobe. Ou, como disse aquele outro: é mole, mas trisca pra ver que acontece!
Antitucanês Reloaded, a Missão. Continuo com a minha heroica e mesopotâmica campanha Morte ao Tucanês. Acabo de receber mais um exemplo irado de antitucanês. É que aqui em Sampa tem uma boate perfeita pro Dia dos Namorados chamada BAKANAL! Perfeito para um momento romântico a dois. Dois de cada lado. Dois por minuto. Rarará! Mais direto impossível. Viva o antitucanês. Viva o Brasil.
E atenção! Cartilha do Lula. O Orélio do Lula. Mais um verbete pro óbvio lulante. Hoje não tem. Porque o Lula tá dando umas bitocas na galega. Rarará! O lulês é mais fácil que o ingrêis.
Nóis sofre, mas nóis goza.
Hoje só amanhã!
Que eu vou pingar o meu colírio alucinógeno.
simao@uol.com.br

05/06/2009 - 19:18h Acorrentados

Paulo Mendes Campos

Quem coleciona selos para o filho do amigo; quem acorda de madrugada e estremece no desgosto de si mesmo ao lembrar que há muitos anos feriu a quem amava; quem chora no cinema ao ver o reencontro de pai e filho; quem segura sem temor uma lagartixa e lhe faz com os dedos uma carícia; quem se detém no caminho para ver melhor a flor silvestre; quem se ri das próprias rugas; quem decide aplicar-se ao estudo de uma língua morta depois de um fracasso sentimental; quem procura na cidade os traços da cidade que passou; quem se deixa tocar pelo símbolo da porta fechada; quem costura roupa para os lázaros; quem envia bonecas às filhas dos lázaros; quem diz a uma visita pouco familiar: Meu pai só gostava desta cadeira; quem manda livros aos presidiários; quem se comove ao ver passar de cabeça branca aquele ou aquela, mestre ou mestra, que foi a fera do colégio; quem escolhe na venda verdura fresca para o canário; quem se lembra todos os dias do amigo morto; quem jamais negligencia os ritos da amizade; quem guarda, se lhe deram de presente, o isqueiro que não mais funciona; quem, não tendo o hábito de beber, liga o telefone internacional no segundo uísque a fim de conversar com amigo ou amiga; quem coleciona pedras, garrafas e galhos ressequidos; quem passa mais de dez minutos a fazer mágicas para as crianças; quem guarda as cartas do noivado com uma fita; quem sabe construir uma boa fogueira; quem entra em delicado transe diante dos velhos troncos, dos musgos e dos liquens; quem procura decifrar no desenho da madeira o hieróglifo da existência; quem não se acanha de achar o pôr-do-sol uma perfeição; quem se desata em sorriso à visão de uma cascata ; quem leva a sério os transatlânticos que passam; quem visita sozinho os lugares onde já foi feliz ou infeliz; quem de repente liberta os pássaros do viveiro; quem sente pena da pessoa amada e não sabe explicar o motivo; quem julga adivinhar o pensamento do cavalo; todos eles são presidiários da ternura e andarão por toda a parte acorrentados, atados aos pequenos amores da armadilha terrestre.

Texto extraído do livro “O Anjo Bêbado”, Editora Sabiá – Rio de Janeiro, 1969, pág. 105. Fonte Releituras

02/06/2009 - 17:29h Mato pra todo lado e animais soltos

Ah, os argentinos

 

 

Um dia me mudo para Buenos Aires. E acho que se o Lula fizesse o mesmo seria bem feliz. “O que há com os brasileiros que viajam? Todos se queixam do Lula!” me pergunta um taxista perplexo que, como a maioria dos argentinos que conheço, diz francamente sentir inveja da qualidade do governo brasileiro e da cena política do país. Pra você ver como estão nossos vizinhos.

(aliás, descobri finalmente por que o idelber defende o governo Cristina Kirchner. Ele considera o Página 12 o supra-sumo do jornalismo sul-americano, e foi nesse jornal que li um de seus melhores articulistas defender a tese de que o Hugo Chávez não contou nada aos Kirchner quando os visitou semanas antes de nacionalizar a Techint, um grupo ítalo-argentino, cuja estatização provocou umas notas débeis de protesto da Casa Rosada)

Visto de fora, o Brasil é o que é: uma grande potência e um dos países com instituições mais modernas do mundo. Me ufano desse país. E aqui leio, rindo, os analistas desesperados dizendo que a política externa é um fracasso proque não conseguiu emplacar a Ellen Gracie no órgão de solução de controvérsias da OMC nem garantir o empreguinho em Paris aos brasileiros que queriam o cargo de direção na Unesco.

Janto com o emblemático Jorge Castro, e com jornalistas, e participo de um momento mágico na história da América Latina: a um canto da mesa, eu, o Alexandre Pinheiro e o Ariel Palácios descobrimos, surpresos, que somos todos brasileiros que odeiam futebol. Há esperança paraa civlização. Ainda que eu desconfie do Ariel, ele sabe quem disputou a final das útlimas copas. Eu só sei sobre a de 1982, em que saí às ruas com uma camisa da Itália. Como ia advinhar que a seleção ia perder logo da squadra azzurra??

Bom, em Buenos Aires, apesar de ter recebido reduzida contribuição, de poucos e bons frequentadores deste blogue, até não fiz feio. E aproveitei parte do que disse lá na coluna do Valor, mas isso deixo para um argentino boa praça contar AQUI. Sim, chamei as Galerias Pacifico de Shopping Pacífico na coluna, mas quequiá, é quase a mesma coisa.

E, nessas mesmas Galerias Pacífico (o Atheneo está uma porcaria, acho que sacrificaram as estantes de livro para investir na lanchonete para os turistas que vão lá sacar fotos e falar alto em portugues), encontrei preciosidades, a começar pela espécie inecistente no Brasil: o vendedor de livros quelivros.

Fico sabendo, por uma dessas avis rara do Cone Sul, que existe uma coletânea dos artigos jornalísticos do Roberto Arlt, o cara que influenciou uma parte grande dos autores atuais argentinos, com quem já brinquei neste sítio, e que se costuma contrapor a Jorge Luis Borges, um o intelectual erudito e de texto elaborado; o outro politizado, popular e de texto reto.

Já faz parte da biblioteca, “Cronicas en el Mundo“, com um livro inacreditável do Ricardo Piglia, “Crítica y Ficcion“, de quem descobri que terei de chupar páginas inteiras quando estiver falando na OFFFlip, em julho, dois livros do Martin Kogan, por influência do idelber, e um do Bolaño. Tem mais um de um autor uruguaio, de quem falarei em breve por aqui.
E volto a postar, que está uma vergonha o Sítio, mato pra todo lado.

30/05/2009 - 18:46h Ler

W. H. Auden

O livro é um espelho: se um asno o contempla,
não se pode esperar que reflita um apóstolo.

C. G. Lichtenberg

Só se lê bem aquilo que é lido com algum propósito pessoal.
Pode ser até com a intenção de adquirir poder.
Pode ser até mesmo com ódio do autor.

Paul Valéry

 

Os interesses do escritor e do leitor jamais são os mesmos e se ocasionalmente chegam a coincidir, trata-se de mero acaso.

No que tange ao desempenho do escritor, a maioria dos leitores adota critérios diferenciados: o leitor pode trair o escritor quanto desejar, mas o escritor não pode jamais, em hipótese alguma, trair o leitor.

Ler é traduzir, pois a experiência de cada pessoa com o texto é exclusiva. Um mau leitor é como um mau tradutor: interpreta literalmente quando deveria parafrasear, e adota a paráfrase quando deveria interpretar literalmente. Para aprendermos a ler de uma forma mais crítica, a erudição, embora bastante útil é menos importante que o instinto; há grandes eruditos que, como tradutores, mostram-se fracos.

Com freqüência enriquecemos com a leitura de um livro percorrendo caminhos diferentes daqueles que o autor previu, mas (uma vez ultrapassada a infância) tal enriquecimento ocorrerá apenas se tomarmos consciência desta discrepância.

Enquanto leitores, a maioria de nós, até certo ponto, é como aqueles moleques que desenham bigodes nos rostos das modelos fotografadas em anúncios.

Um sinal de que um livro tem valor literário é que o mesmo aceita diversas leituras. Em contrapartida, a prova de que a pornografia não tem valor literário é que, se tentarmos uma leitura por um ângulo que não seja o de estímulo sexual, por exemplo, se tentarmos abordar o texto como veículo de liberação psicológica das fantasias sexuais do autor, chegaremos a bocejar de tanto tédio.

Embora uma obra literária permita leituras diversas, o número de tais leituras é finito e pode ser organizado em ordem hierárquica; algumas leituras são obviamente mais “verdadeiras” que outras; algumas, duvidosas; algumas certamente falsas; e outras, como quem lê um romance de trás para frente, absurdas. É justamente por isso que, para uma ilha deserta, devemos levar um bom dicionário, em lugar da maior obra-prima literária que se possa imaginar, pois em relação ao leitor, o dicionário é totalmente passivo e pode legitimamente ser objeto de um número infinito de leituras possíveis.

Não podemos ler um escritor principiante da mesma forma que lemos o último livro de um autor já consagrado. Com relação a um escritor principiante, nossa tendência é perceber apenas as qualidades ou os defeitos e, mesmo que possamos enxergar a ambos, somos incapazes de perceber as devidas inter-relações. No caso de um autor consagrado, se é que ainda conseguimos ler sua obra, sabemos que não é possível apreciar as qualidades que nele admiramos sem tolerar-lhe os defeitos deploráveis. Além disso, nosso julgamento sobre um escritor renomado nunca é meramente estético. A despeito de qualquer mérito literário, um novo livro de tal escritor possui para nós um valor histórico, tratando-se de obra de autoria de um indivíduo pelo qual há muito nos interessamos. Tal autor não é apenas um poeta ou um romancista; é também um personagem em nossa biografia.

Um poeta não é capaz de ler a poesia de outro poeta, nem um romancista lê o trabalho de outro romancista, sem comparar a obra daquele com a sua. A avaliação que faz, à medida que lê a obra alheia, é expressada através de interjeições do tipo: “Meu Deus! Meu pai! Minha mãe!”

Em literatura, a vulgaridade é preferível à nulidade, assim como o vinho do porto é preferível à água destilada.

Bom gosto é mais uma questão de discriminação que de exclusão, e quando por razões de bom gosto somos levados a excluir, isso é feito com pesar, não com prazer.

No processo de seleção do que se lê, o prazer não constitui absolutamente um valor crítico infalível; contudo, é menos falível.

A leitura de uma criança é comandada pelo prazer, embora seu gosto não tenha capacidade discriminadora. A criança não consegue distinguir, por exemplo, entre o prazer estético e o prazer de aprender ou de sonhar acordada. Na adolescência damo-nos conta de que há diversos tipos de prazer, alguns dos quais não podem ser sentidos simultaneamente, e precisamos do auxílio de outras pessoas no processo de definição desses prazeres. No que tange a questões de gosto relativas à comida e à literatura, por exemplo, o adolescente busca um preceptor em cuja autoridade possa confiar. O jovem passa a comer ou a ler aquilo que o preceptor recomenda e inevitavelmente há ocasiões em que tem de enganar a si próprio; finge, por exemplo, que gosta de azeitonas ou de Guerra e Paz mais do que de fato gosta. Entre os 20 e os 40 anos vivemos o processo da descoberta do que somos, processo esse que envolve a percepção da diferença entre as limitações acidentais, as quais temos o dever de superar, e as limitações necessárias da nossa própria natureza, as quais não podemos superar impunemente. Poucos de nós chegam a tal percepção sem cometerem erros, sem tentar nos tornar mais universais do que nos é permissível. É exatamente durante esse período que um escritor pode facilmente ser desviado por outro escritor ou por alguma ideologia. Quando alguém na faixa dos 20 aos 40 anos diz com respeito a uma obra de arte: “Eu sei do que gosto”; está na verdade dizendo: “Não tenho um gosto pessoal mas aceito o gosto do meu meio cultural”; isto porque entre os 20 e os 40 anos a indicação mais precisa de que um indivíduo possui um gosto autêntico e pessoal é a própria incerteza a respeito do assunto. Após os 40 anos, caso não tenhamos perdido totalmente a autenticidade, o prazer pode voltar a funcionar como funcionava quando éramos crianças: como valor crítico que determina o que devemos ler.

Embora o prazer que obtemos da apreciação de obras-de-arte não deva ser confundido com outros tipos de prazer, ele está relacionado com todos os tipos pelo simples fato de constituir um prazer nosso e não de outra pessoa. Todas as avaliações estéticas e morais que fazemos, não importa quanto nos empenhemos em ser objetivos, são por um lado uma racionalização e por outro uma ação disciplinar imposta sobre nossas aspirações subjetivas. Enquanto um indivíduo escreve poesia ou ficção, seu sonho do que constitui o Éden é assunto que somente diz respeito a si próprio mas, no momento em que o mesmo passa a escrever crítica literária, por questões de honestidade deve descrever seu Éden para os leitores, de maneira que os mesmos tenham condições de julgar as avaliações do crítico. Com efeito, passo a responder um questionário, por mim mesmo elaborado, que fornece as informações que eu mesmo gostaria de ter antes de ler o trabalho de outros críticos.

W. H. Auden nasceu em York, Inglaterra, em 1907. Mudou-se para Birmingham na infância e estudou no Christ’s Church, em Oxford. Quando jovem, era influenciado pelas poesias de Thomas Hardy, Robert Frost, William Blake e Emily Dickinson.

Em 1928, Auden publicou seu primeiro livro de versos e sua coleção “Poemas”, publicada em 1930, o que o colocou no topo da nova geração de poetas. Era admirado pela sua técnica e habilidade em escrever poemas em todas as formas imagináveis, pela incorporação em suas obras de elementos cultura popular e eventos atuais e também por seu vasto intelecto. Sua poesia freqüentemente reconta, literal ou metaforicamente, uma jornada ou aventura, e suas viagens acabaram servindo como rico material para seus versos.

Visitou a Alemanha, China, serviu na guerra civil espanhola e em 1939 mudou-se para os Estados Unidos, tornando-se, mais tarde, cidadão americano. Manteve um relacionamento aberto com Chester Kallman, nada fazendo para ocultar sua homossexualidade.

Suas crenças mudaram muito entre o período de sua jovem carreira na Inglaterra (onde era adepto do socialismo e da psicanálise Freudiana) e sua fase posterior, na América, quando sua principal preocupação passou a ser o cristianismo e a teologia do protestantismo.

Auden era também dramaturgo, editor e ensaísta. Considerado o maior poeta inglês do século XX, seu trabalho influenciou as gerações seguintes, dos dois lados do Atlântico.

Foi Chancellor da Academia de Poetas Americanos de 1954 a 1973 e dividiu a segunda parte da sua vida nas residências de Nova York e Áustria. Faleceu em Viena, em 1973.

”Quando o processo histórico se interrompe… quando a necessidade se associa ao horror e a liberdade ao tédio, a hora é boa para se abrir um bar.” A citação de W. H. Auden pareceu apropriada a Antônio Callado para usar como epígrafe de seu livro “Bar Don Juan”, lançado em 1971.

Poesia:

Poems (1930)
The Orators prose and verse (1932)
Look, Stranger! in America: On This Island (1936)
Spain (1937)
Another Time (1940)
The Double Man (1941)
The Quest (1941)
For the Time Being (1944)
The Sea and the Mirror (1944)
Collected Poetry (1945)
The Age of Anxiety: A Baroque Eclogue (1947)
Collected Shorter Poems 1930-1944 (1950)
Nones (1952)
The Shield of Achilles (1955)
The Old Man’s Road (1956)
Selected Poetry (1956)
Homage to Clio (1960)
About the House About the House (1965)
Collected Shorter Poems 1927-1957 (1966)
Collected Longer Poems (1968)
City without Walls (1969)
Academic Graffiti (1971)
Epistle to a Godson (1972)
Thank You, Fog: Last Poems (1974)
Selected Poems (1979)
Collected Poems (1991)

Prosa:

Letters from Iceland (1937) com L. MacNiece.
Journey to a War (1939) com C. Isherwood.
Enchaféd Flood (1950)
The Dyer’s Hand (1962)
Selected Essays (1964)
Forewords and Afterwords (1973)

Antologia:

Selected Poems, por Gunnar Ekelöf (1972)

Drama:

Paid On Both Sides (1928)
The Dance of Death (1933)
The Dog Beneath the Skin: or, Where is Francis? (1935) com C. Isherwood.
The Ascent of F.6 (1936) com C. Isherwood.
On the Frontier (1938)


Ensaio publicado no livro “A mão do artista”, Editora Siciliano – São Paulo, 1993, pág.400, tradução de José Roberto O’Shea. Extraído da Revista Bibliográfica e Cultural, primorosa publicação da Oficina do Livro Rubens Borba de Morais, dezembro de 2002, pág. 3. Fonte Releituras

25/05/2009 - 16:43h Duas bolas, por favor…..

Danuza Leão – Folha SP

Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa, contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido.

Uma só!!

Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa!

Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação.

O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano.

A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade.

A gente sai pra jantar, mas come pouco.

Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons.

Conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de ‘fácil’).

Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta.

Quer beijar aquele cara 20 anos mais novo, mas tem medo de fazer papel ridículo.

Tem vontade de ficar em casa vendo um DVD, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar !!

E por aí vai.

Tantos deveres, tanta preocupação em ‘acertar’, tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação…

Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão…

Às vezes dá vontade de fazer tudo ‘errado’.

Deixar de lado a régua,o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos.

Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito.

Recusar prazeres incompletos e meias porções.

Até Santo Agostinho, que foi santo, uma vez se rebelou e disse uma frase mais ou menos assim:

‘Deus, dai-me continência e castidade, mas não agora’…

Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.

Um dia a gente cria juízo.

Um dia.

Não tem que ser agora.

Por isso, garçom, por favor, me traga:
cinco bolas de sorvete de chocolate, um sofá pra eu ver 10 episódios do ‘Law and Order’, uma caixa de trufas bem maciase o Richard Gere, nu, embrulhado pra presente. OK?

Não necessariamente nessa ordem.

Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago…….

18/05/2009 - 18:49h O primeiro dia

Miguel Sousa Tavares

O que o acordou foi o silêncio. Primeiro, o do despertador que não tocou à hora combinada todas as manhãs. Depois, o de outra respiração, que devia ouvir e não ouvia. Estendeu a mão para o quente do outro lado da cama e encontrou o frio. Apalpou e encontrou vazio. Então, sim, despertou completamente.

Um prenúncio de tragédia desceu por ele abaixo, como um arrepio. O que acabara de se lembrar era que não acordara só por acaso ou por acidente: aquele era o primeiro dia, a primeira manhã da sua separação — o primeiro de quantos dias? — em que acordaria sempre sozinho, com metade da cama fria, metade do ar por respirar.

Era Abril, sábado e chovia. Sentado na cama, lembrou-se das instruções que dera a si mesmo para aquela manhã: fazer peito forte à desgraça. Nada é inteiramente bom, mas nada é inteiramente mau – pensou. Posso ler à noite até me apetecer sem me mandarem apagar a luz, posso dormir atravessado na cama, posso-me livrar daquele rol de cobertores com o qual ela me esmagava, fizesse sol, chuva ou frio, porque as mulheres são mais friorentas que eu sei lá, posso usar a casa-de-banho todo o tempo que quiser, posso espalhar as roupas, os jornais e os papéis pelo quarto à vontade e até – oh, suprema liberdade — posso fumar à noite na cama.

Levantou-se para se olhar ao espelho da casa-de-banho. Sorriu à sua própria imagem, ensaiou-a calma, tranquila, confiante. Imaginou mentalmente o texto que poderia redigir sobre si mesmo para a secção de anúncios pessoais do jornal: “Divorciado, 40 anos, bom aspecto, licenciado, rendimento médio-alto, casa própria e espaçosa, desportos, ar livre, terno e com sentido de humor”. Mulheres compatíveis? Deus do céu, dezenas delas! Sou um partidão — concluiu para o espelho.

Calmo, tranquilo e confiante, passou aos outros aposentos da casa para dar uma vista de olhos ao resultado da partilha dos móveis, aliás feita sem grandes problemas, como é próprio de gente civilizada. Por alto, entre o living, o hall, o escritório, a cozinha, o quarto de casal e as duas casas-de-banho, estimou nuns setecentos contos o preço da reposição das coisas em falta. Mais metade dos livros e dos CD’s, quase todas as fotografias dos últimos dez anos das suas vidas e algumas outras coisas cujo verdadeiro valor era o vazio que encontrava se olhasse para o lugar onde elas costumavam estar.

“Até agora vou-me aguentando”, considerou ele. Entre perdas e danos e a certeza adquirida de que nada dura para sempre, restavam-lhe várias razões e objectos e sentimentos para olhar em frente sem um sobressalto.

Enquanto fazia, com um prazer insuspeitado, o seu primeiro pequeno-almoço de homem só, passou à fase seguinte do que chamara o “plano de sobrevivência”: desfolhar a agenda de telefones em busca de amigos igualmente sós com quem fazer “programas de homens” ou de antigas namoradas, que se tinham separado ultimamente ou outras que achava acessíveis mas que nunca tivera a coragem e a oportunidade de aproximar. A primeira desilusão foi com os amigos: de A a Z, realizou que só tinha dois amigos sem mulher e, para agravar as coisas, com nenhum deles lhe apetecia sair e entrar numa de “anda daí e mostra-me lá como é o mundo lá fora”. Quanto às mulheres que julgava sortables, sempre eram cinco, mas o resultado foi quase patético. Duas já não moravam naqueles telefones, outra tinha-se casado entretanto, e o marido estava ao lado a ouvir a conversa, o que o deixou completamente idiota a inventar pretextos absurdos para o telefonema. Do número da quarta atendeu uma criancinha e ele desligou e foi só na última da lista que finalmente teve sorte: sim, a Joana morava ali, era ela própria ao telefone. Não, não estava casada nem, pelo que, esforçadamente, percebeu, tinha namorado. Sim, ok, por que não irem jantar logo, para falar do projecto que ele tinha e onde ela poderia caber. “Ah, a tua mulher não vem? Separados? Não, não sabia. Recente? Pois, essas coisas são tão chatas, mas ainda bem que reages e tens projectos novos e tudo! Ok, às oito e meia vens-me buscar”. Ele teria desligado quase em êxtase, não fosse a frase final dela, à despedida, que o deixou verdadeiramente abalado. “Olha, vais-me achar uma grande diferença. A idade não perdoa a ninguém, não é?”

Enfim, sempre era um date. O primeiro, certamente, de uma longa lista. O que interessa se for um flop — achas que ias encontrar uma mulher super logo ao virar da esquina? É preciso é entrar no circuito, pá, começar a sair, a ser visto, fazer com que as pessoas saibam que estás disponível. O resto vem por arrasto.

Passeou-se pela casa, pensativo, fumando o primeiro cigarro do dia. De repente lembrou-se que ainda não tinha visto o quarto do filho. A cama e a escrivaninha tinham ido, assim como praticamente todos os brinquedos. Sobrava um boneco de peluche, três ou quatro carrinhos semi-partidos, uns legos e um quadro para fazer desenhos, com os respectivos marcadores, pousados, à espera de uma mão de criança. A mesa-de-cabeceira ficara e parecia absurda no meio do quarto, sem a cama nem os outros móveis, com um retrato dele e do filho numa praia do Algarve, sorrindo, abraçados um ao outro. Sem saber porquê, sentou-se no chão encostado à parede, muito devagar, a olhar para a fotografia. Duas grossas lágrimas escorregaram-lhe pela cara abaixo e caíram na madeira do chão, entre as pernas. Foi só então que ele percebeu que estava a chorar.

(foi mantida a grafia original)


Miguel Sousa Tavares
nasceu no Porto, Portugal. Abandonou a advocacia pelo jornalismo, até se entregar à escrita literária. Colunista do jornal Público e da revista Máxima, é comentarista da Rádio e Televisão de Portugal (RTP). Jornalista famoso e controvertido, é dono de opiniões fortes, trava polêmicas em vários campos: política, literatura, esportes e outros. Seu primeiro livro lançado no Brasil foi “Equador”, que obteve enorme receptividade entre o público leitor. O autor é filho da grande poeta portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen, falecida em 2004.

Obras:

Equador
Anos Perdidos
Não te Deixarei Morrer, David Crockett
Sul – Viagens
Sahara – A república da areia
O Segredo do Rio
Um Nómada no Oásis
O Dia dos Prodígios
Rio das Flores

Texto extraído do livro “Não te deixarei morrer, David Crockett”, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2005, pág. 23. Fonte Releituras

12/05/2009 - 16:38h Mentiras Valium

por Marcelo A. Moreno

¿Cómo andás?

-Bien, muy bien.

Esa quizá sea la más común, la más inofensiva de las mentiras que solemos pronunciar.

-¿O querés que te cuente?-, suele ser la ironía criolla que acompaña la candorosa y reiterada afirmación.

Hace poco un estudio de la Universidad inglesa de Southampton sostenía que una persona sana dispara un promedio de tres mentiras cada diez minutos de conversación.

Y otro estudio, esta vez de la universidad de Penn, Estados Unidos, afirma que el 98% de los menores les miente a sus padres. ¿Cómo se compagina esta práctica incesante con el hecho de que el 98% exactamente sostuvo en el curso de la investigación que la mentira es mala? Simplemente porque aprenden a mentir. ¿De quiénes? De sus padres.

Pero una investigación más, esta vez de la universidad de Pensilvania, casi ensalza la mentira: “Nuestro cerebro tiene que hacer un trabajo extra cuando va a engañar: se activan zonas que desempeñan un papel especial en la atención y la concentración, además de otra área responsable de vigilar errores”. En suma: mentir presume un esfuerzo y hasta cierto estrés intelectual.

Y se macanea por conveniencia -un relevamiento en España asegura que el 72% de las empresas detectan mentiras en los currículums de los que se candidatean con el fin de entrar en ellas-, para eludir responsabilidades, para no cargar con una vergüenza o una culpa, para mandarse la parte, para demostrar presuntas importancias o habilidades, hasta por deporte se miente.

Así, da la impresión de que vivimos en un mundo mucho más de ficciones que de realidades.

Un amigo psicoanalista lo explica: “Contar no sólo a los demás sino a uno mismo una historia propia inventada en gran parte tiene la ventaja de tranquilizar nuestras conciencias”.

“La verdad suele ser dolorosa, lacerante incluso y muchas veces nos deja muy mal parados. Si rememoramos en serio el pasado, el ejercicio nos puede llenar de culpa, de remordimiento por cosas que hicimos o que dejamos de hacer”, concluye.

Recordar sin “mejoras” ni adornos implica hacerse cargo. Entonces fabulamos otra realidad, que de tanto repetirla a otros, terminamos, confundidos, casi creyéndola. Dormimos mejor si nos suponemos mucho más buenos, justos, leales y, paradójicamente, sinceros de lo que realmente somos.

Mentirse a sí mismo, me asegura el psicoanalista, tiene como gran ventaja la de colocarnos en el papel de héroes de la película.

Pero también nos consuela con potentes anteojeras de ciertos sinsabores que no queremos ver ni de lejos.

Podemos imaginar, por ejemplo, que nuestra mujer, en el fondo, es buena y nos quiere; que nuestros hijos, a pesar de que lo disimulan con éxito, son muy inteligentes; que, en comparación con tantos desgraciados, nos va bastante bien en la vida y así sucesivamente, urdiendo un mapa ficticio en el cual logramos vivir conformes y confortablemente.

Es que la magia del autoengaño nos permite alucinarnos rubios, altos y esbeltos cuando la agreste realidad tiende a indicarnos otros paisajes.

Eso explicaría también ciertos engaños masivos que a esta altura de la historia del conocimiento parecen asombrosos: desde los OVNIS hasta las siempre infalibles predicciones astrológicas, que son consultadas por millones y millones de personas en los medios de medio mundo aunque sea medio en broma.

La semana que pasó, un gurú más o menos célebre, Brian Weiss, visitó Buenos Aires y dio una charla en un lujoso hotel por la cual cobró 120 dólares la entrada. Las localidades se agotaron. Un millar de personas sin demasiados inconvenientes de dinero colmó el salón, entre ellas no pocos famosos ¿Y sobre qué versó el poderoso caballero? Sobre las reencarnaciones. Las pasadas, por cierto; respecto de las futuras, aún no se anima.

Y eso por no hablar de otras creencias -mucho más elaboradas y extendidas- sobre energías incomprobables e inexperimentables pero que allí están, rebosantes de devotos.

Los argentinos estamos bien entrenados en la cuestión. Y más, en tiempos electorales. Una vez tuvimos un ministro que nos aseguró que el que apostaba al dólar, perdía. Y ahora, mes a mes mes, nos enteramos casi sin asombro de las cifras tan autorizadas del INDEC.

(Publicado en la columna Disparador de Clarín el domingo 10 de mayo del 2009)

10/05/2009 - 18:39h Mãe

(Crônica dedicada ao Dia das Mães,
embora com o final inadequado, ainda que autêntico.)

 

Rubem Braga

O menino e seu amiguinho brincavam nas primeiras espumas; o pai fumava um cigarro na praia, batendo papo com um amigo. E o mundo era inocente, na manhã de sol.

Foi então que chegou a Mãe (esta crônica é modesta contribuição ao Dia das Mães), muito elegante em seu short, e mais ainda em seu maiô. Trouxe óculos escuros, uma esteirinha para se esticar, óleo para a pele, revista para ler, pente para se pentear — e trouxe seu coração de Mãe que imediatamente se pôs aflito achando que o menino estava muito longe e o mar estava muito forte.

Depois de fingir três vezes não ouvir seu nome gritado pelo pai, o garoto saiu do mar resmungando, mas logo voltou a se interessar pela alegria da vida, batendo bola com o amigo. Então a Mãe começou a folhear a revista mundana — “que vestido horroroso o da Marieta neste coquetel” — “que presente de casamento vamos dar à Lúcia? tem de ser uma coisa boa” — e outros pequenos assuntos sociais foram aflorados numa conversa preguiçosa. Mas de repente:

— Cadê Joãozinho?

O outro menino, interpelado, informou que Joãozinho tinha ido em casa apanhar uma bola maior.

— Meu Deus, esse menino atravessando a rua sozinho! Vai lá, João, para atravessar com ele, pelo menos na volta!

O pai (fica em minúscula; o Dia é da Mãe) achou que não era preciso:

— O menino tem OITO anos, Maria!

— OITO anos, não, oito anos, uma criança. Se todo dia morre gente grande atropelada, que dirá um menino distraído como esse!

E erguendo-se olhava os carros que passavam, todos guiados por assassinos (em potencial) de seu filhinho.

— Bem, eu vou lá só para você não ficar assustada.

Talvez a sombra do medo tivesse ganho também o coração do pai; mas quando ele se levantou e calçou a alpercata para atravessar os vinte metros de areia fofa e escaldante que o separavam da calçada, o garoto apareceu correndo alegremente com uma bola vermelha na mão, e a paz voltou a reinar sobre a face da praia.

Agora o amigo do casal estava contando pequenos escândalos de uma festa a que fora na véspera, e o casal ouvia, muito interessado — “mas a Niquinha com o coronel? não é possível!” — quando a Mãe se ergueu de repente:

— E o Joãozinho?

Os três olharam em todas as direções, sem resultado. O marido, muito calmo — “deve estar por aí”, a Mãe gradativamente nervosa — “mas por aí, onde?” — o amigo otimista, mas levemente apreensivo. Havia cinco ou seis meninos dentro da água, nenhum era o Joãozinho. Na areia havia outros. Um deles, de costas, cavava um buraco com as mãos, longe.

— Joãozinho!

O pai levantou-se, foi lá, não era. Mas conseguiu encontrar o amigo do filho e perguntou por ele.

— Não sei, eu estava catando conchas, ele estava catando comigo, depois ele sumiu.

A Mãe, que viera correndo, interpelou novamente o amigo do filho. “Mas sumiu como? para onde? entrou na água? não sabe? mas que menino pateta!” O garoto, com cara de bobo, e assustado com o interrogatório, se afastava, mas a Mãe foi segurá-lo pelo braço: “Mas diga, menino, ele entrou no mar? como é que você não viu, você não estava com ele? hein? ele entrou no mar?”.

— Acho que entrou… ou então foi-se embora.

De pé, lábios trêmulos, a Mãe olhava para um lado e outro, apertando bem os olhos míopes para examinar todas as crianças em volta. Todos os meninos de oito anos se parecem na praia, com seus corpinhos queimados e suas cabecinhas castanhas. E como ela queria que cada um fosse seu filho, durante um segundo cada um daqueles meninos era o seu filho, exatamente ele, enfim — mas um gesto, um pequeno movimento de cabeça, e deixava de ser. Correu para um lado e outro. De súbito ficou parada olhando o mar, olhando com tanto ódio e medo (lembrava-se muito bem da história acontecida dois a três anos antes, um menino estava na praia com os pais, eles se distraíram um instante, o menino estava brincando no rasinho, o mar o levou, o corpinho só apareceu cinco dias depois, aqui nesta pr aia mesmo!) — deu um grito para as ondas e espumas — “Joãozinho!”.

Banhistas distraídos foram interrogados — se viram algum menino entrando no mar — o pai e o amigo partiram para um lado e outro da praia, a Mãe ficou ali, trêmula, nada mais existia para ela, sua casa e família, o marido, os bailes, os Nunes, tudo era ridículo e odioso, toda essa gente estúpida na praia que não sabia de seu filho, todos eram culpados — “Joãozinho !” — ela mesma não tinha mais nome nem era mulher, era um bicho ferido, trêmulo, mas terrível, traído no mais essencial de seu ser, cheia de pânico e de ódio, capaz de tudo — “Joãozinho !” — ele apareceu bem perto, trazendo na mão um sorvete que fora comprar. Quase jogou longe o sorvete do menino com um tapa, mandou que ele ficasse sentado ali, se saísse um passo iria ver, ia apanhar muito, menino desgraçado!

O pai e o amigo voltaram a sentar, o menino riscava a areia com o dedo grande do pé, e quando sentiu que a tempestade estava passando fez o comentário em voz baixa, a cabeça curva, mas os olhos erguidos na direção dos pais:

— Mãe é chaaata…

Maio, 1953


Rubem Braga é considerado o melhor cronista brasileiro de todos os tempos.

Texto extraído do livro “A Cidade e a Roça”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1964, pág. 57.

Saiba tudo sobre o autor e sua obra em “Biografias”. Fonte Releituras

09/05/2009 - 18:48h O amor acaba

Por Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.

Texto extraído do livro “O amor acaba”, Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro. Fonte Releituras

Ilustração: Eleonora Goretkin

Eleonora Goretkin é uma artista bastante criativa. Tem trabalhos em diversas áreas das artes, tais como pintura, ilustração de livros, gráficos e artes comerciais, além de escritora e compositora de músicas para crianças. Bacharel em artes visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal de Rio de Janeiro, vive nos EUA desde 1993.

07/05/2009 - 18:08h “Lamentamos comunicar-lhe que seu livro…”

Umberto Eco

UMBERTO ECO propõe aqui uma brincadeira: algumas obras, hoje consagradas, são submetidas a um hipotético editor. E, analisadas em “fichas de leitura”, são, finalmente, recusadas. Esta é uma experiência pela qual todo escritor novo, em qualquer parte do mundo, já passou: mandar seus originais para uma grande editora, ficar esperando um contrato ou pelo menos uma proposta e, de repente, receber uma carta muito amável assinada pelo editor. Nessa carta. ele é informado de que certamente seu livro tem qualidades, de que provavelmente seu livro fará sucesso e de que infelizmente seu livro não será publicado.

ANÔNIMO

A BíBLIA

Devo confessar que quando comecei a ler os originais, e durante as primeiras páginas, senti-me entusiasmado. Ali há ação pura e tudo o mais que o leitor de hoje exige de uma obra de evasão: sexo (muitíssimo), com adultério, sodomia, homicídio, incesto, guerras, etc.

O episódio de Sodoma e Gomorra, com os travestis que pretendem violar os anjos, é digno de Rabelais; as histórias de Noé são o mais puro Emilio Salgari; a fuga do Egito é uma história que, mais cedo ou mais tarde, acabará sendo filmada… Em resumo, trata-se do verdadeiro roman-fleuve bem estruturado, que não economiza efeitos, pleno de imaginação com aquela dose de messianismo que agrada, sem chegar ao trágico.

Mais adiante, no entanto, percebi que se trata, na verdade, de uma antologia de vários autores, com muitos, excessivos, trechos do poesia, alguns francamente lamentáveis e aborrecidos, choradeira sem pé nem cabeça.

O resultado é um feto monstruoso que corre o risco de não agradar a ninguém, porque tem de tudo. Além disso, será cansativo estabelecer a questão dos direitos de tão diferentes autores, a menos que o representante de todos eles se encarregue da tarefa. Mas nem no índice encontrei o nome desse representante, como se houvesse da parte dos autores interesse em manter seu nome oculto.

Talvez fosse possível publicar separadamente os primeiros cinco livros. Aí estaríamos pisando em terreno firme. Com o título: Os Desesperados do Mar Vermelho.

HOMERO

A ODISSÉIA

Pessoalmente, o livro me agrada. A história tem beleza, é apaixonante, cheia de aventuras. Tem a dose exata de amor, fidelidade e de escapadas adulterinas (multo boa a figura de Calipso, uma típica devoradora de homens); tem, inclusive, um momento “lolitico”, na melhor linha nabokoviana, com uma ninfeta chamada Nausicaa: no episódio, o autor se permite algumas ousadias, mas em momento nenhum incorre em excessos. O conjunto é excitante. As cenas merecem figurar ao lado das melhores já produzidas no gênero western: a luta é violenta, a cena do arco explora, até as últimas possibilidades, o potencial literário de suspense.

Que mais poderia dizer? Leio essa de um sopro, melhor que o primeiro livro do autor, excessivamente estático em sua insistência de permanecer no mesmo lugar, cansativo pela exuberância de acontecimentos (na terceira batalha e no décimo duelo, o leitor já entendeu todo o mecanismo). Ademais, a história de Aquiles e Patrocio, com seu fio latente de homossexualidade, nos transmite um certo desagrado. Ao contrário, neste segundo livro, tudo caminha maravilhosamente; até o tom é mais sereno: pensado mas não reflexivo. Depois, a montagem, o jogo de flash-backs, o encadeamento das histórias! Em suma, muita categoria. De fato, esse Homero tem talento.

Talento demais, seria o caso de dizer… Chego a me perguntar se tudo ali será farinha do mesmo saco. Sabe-se como é: escrevendo, escrevendo, a gente melhora (quem sabe se o terceiro livro será um estouro). Mas o que me faz vacilar (e, afinal, me leva a opinar negativamente) é a confusão que pode resultar da questão de direitos.

Antes de tudo, é impossível localizar o autor. Os que o conhecem dizem que, de toda maneira, seria inútil discutir com ele as pequenas modificações que deviam ser introduzidas no texto, pois é cego como uma toupeira e, em mais de uma ocasião, deu provas de ser incapaz sequer de escrever. Dizem que tinha seus originais na memória, mas que não estava muito seguro do que havia escrito, alegando que o copista havia introduzido interpolações na obra. Terá ele sido o autor ou apenas um testa-de-ferro?

DANTE

A DIVINA COMÉDIA

O trabalho de Alighieri, embora de um típico escritor de fim de semana que, na vida sindical, está filiado ao órgão de classe dos farmacêuticos, demonstra indubitavelmente, certo talento técnico e notável “alento” narrativo. A obra (em florentino vu!gar) compõe-se de quase 100 cantos em tercetos rimados e se constitui em leitura agradável e interessante. Gosto, principalmente. de suas descrições de astronomia e certos juízos concisos e densos, que faz com freqüência, sobre teologia. Mais inteligível e popular é a terceira parte do livro, que diz respeito a assuntos mais do gosto da maioria, e que concernem aos interesses cotidianos do possível leitor (assuntos tais como a salvação, a visão beatifica, a devoção à Virgem Maria). Obscura e caprichosa é a primeira parte, com passagens de baixo erotismo, violência e trechos francamente grosseiros. Esta é uma das poucas contra-indicações para superar esse primeiro “canto”, o qual, quanto à criatividade, não diz mais do que já foi dito por milhares de manuais sobre o outro mundo.

DIDEROT

A RELIGIOSA

Confesso que não cheguei a folhear os manuscritos, mas acredito que um critico deve saber, até de olhos fechados, o que deve e o que não deve ler. Conheço esse Diderot: redige enciclopédias e agora tem em mãos um projeto de obra em não sei quantos volumes, que provavelmente jamais será editada. Anda por toda parte procurando desenhistas capazes de copiar o mecanismo de um relógio, ou as minúcias de uma tapeçaria de Gobelin, e levará à falência seu editor. Não creio que se trate do homem indicado para escrever algo divertido numa narrativa, especialmente para uma coleção como a nossa, na qual sempre incluímos coisas delicadas, um pouquinho picantes, como Restif de la Bretonne.

SADE

JUSTlNE

O manuscrito estava em meio a um monte de coisas que eu devia ver esta semana, e, para ser sincero, não o li todo. Limitei-me a abri-lo três vezes, ao acaso, em três lugares diferentes, e vocês sabem que para um olho experimentado isso é mais que o bastante.

Bem, da primeira vez encontrei uma avalanche de páginas de filosofia da natureza com divagações sobre a crueldade e a luta pela sobrevIvência, sobre a reprodução dos vegetais e a evolução das espécies animais. Da segunda vez, deparei com pelo menos 15 páginas sobre o conceito de prazer, sobre os sentidos e a imaginação, e mais coisas desse gênero. Da terceira vez, outras 20 páginas sobre as relações de submissão entre o homem e a mulher, nos diferentes países do mundo… Acho que isso basta. Não estamos procurando uma obra de filosofia; o público, hoje, quer sexo e mais sexo. Não importa a maneira como ele venha temperado.

CERVANTES

DOM QUIXOTE

O livro, nem sempre inteligível, é a história de um gentil homem espanhol e de seu criado, os quais vão pelo mundo perseguindo sonhos de cavalaria. Esse Dom Quixote é um tanto louco (sua figura é magnificamente concebida: de fato, Cervantes sabe narrar), enquanto seu criado é um simplório (dotado de certo e rude bom senso), com o qual o leitor logo se identifica, quando ele procura desmistificar as fantasias de seu amo. Até aqui o argumento, que se desdobra com alguns bons efeitos e com freqüentes episódios divertidos, parece bem. Mas a observação que quero fazer vai além de um juízo pessoal sobre a obra.

Em nossa bem sucedida coleção econômica Os Fatos da Vida, publicamos, com êxito notável, obras como Amadis de Gaula, A Lenda do Graal, O Romance de Tristão, etc. Agora temos opção de editar Reis da França, do mocinho de Barberino, livro que para mim será o grande êxito do ano. Pois bem, se nos decidirmos por Cervantes, poremos em circulação um livro que, não obstante ser muito bem feito, atirará no lixo o publicado até agora, fazendo esses outros romances parecerem coisa de idiota. Compreendo a liberdade de expressão, o clima de rebeldia e tudo o mais, mas não podemos nos prejudicar a nós mesmos. A última coisa que desejo é que, buscando novidades a qualquer preço, acabemos por comprometer uma linha editorial que até agora foi popular, moral e também rendosa. Recusar.

PROUST

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO

Trata-se,sem mais nem menos, de uma obra comprometida, talvez muito grande; mas é possível vendê-la através de uma série de livros de bolso.

Tal como está é impraticável. Falta nela um trabalho vigoroso de depuração. Toda pontuação, por exemplo, terá de sofrer uma completa revisão. Os períodos são muito cansativos e há alguns que chegam a ocupar uma página. Com um bom trabalho de revisão que os reduza a dois ou três linhas cada, com uma melhor utilização do ponto e do parágrafo, a obra teria muito a ganhar. Se o autor não concordar, o melhor será não editá-lo.

KAFKA

O PROCESSO

Não é mau essa livrinho; é policial, com momentos a Hitchcock: por exemplo, o homicídio final, passagem de público certo.

Parece, no entanto, que o autor o escreveu sob censura. Que significam essas alusões obscuras, essa falta de nomes, de pessoas, de lugares? De que crime acusam o personagem, afinal? Se esses pontos puderem ser esclarecidos, tornando a história mais concreta, a ação se tornaria mais límpida e mais certo o suspense.

Esses escritores jovens acreditam fazer “poesia”, pois dizem “um homem”, em vez de dizer “o senhor tal, a tal hora, em tal lugar”.

Em síntese: se é possível fazer essas modificações, bem; caso contrário, devolver os origInais.

JOYCE

FINNEGANS WAKE

Por favor, recomende à redação que tenha mais cuidado quando me envia os livros. Leio inglês e me mandam um livro escrito em sei lá que diabo da idioma. Em separado, estou devolvendo o volume.

 

 

UMBERTO ECO (1932), escritor, filósofo e lingüista italiano, nasceu em Alessandria, região de Piemonte, Itália. Como professor na Universidade de Bolonha, desenvolveu uma sólido conhecimento na área de semiótica, sendo hoje o titular dessa cadeira. É, também, diretor da Escola Superior de Ciências Humanas daquela universidade. Ensaísta de renome mundial, dedicou-se também a temas como estética, filosofia da linguagem, teoria da literatura e da arte e sociologia da cultura, é considerado por muitos o maior intelectual vivo do planeta. Autor de artigos de opinião nos jornais Espresso e La Repubblica, estreou como romancista com “O Nome da Rosa”, em 1980.

Depois do imenso sucesso colhido na Itália e em todo o mundo, escreveu “O Pêndulo de Foucault” (1988), “A Ilha do Dia Anterior” (1994) e “Baudolino” (2000).

Entre suas obras ensaísticas destacam-se “Obra Aberta” (1962), “Apocalípticos e Integrados” (1964), “A Estrutura Ausente” (1968), “As Formas do Conteúdo” (1971), “Tratado Geral de Semiótica” (1975), “Seis Passeios pelos Bosques da Ficção” (1994) e “Sobre a Literatura” (2003).

Seus textos jornalísticos estão reunidos em “Diário Mínimo” (1963), “O Segundo Diário Mínimo” (1990) e “A Coruja de Minerva” (2000).


Texto extraído da Revista Status, nº 1, de 1975, pág. 88, uma gentileza de João Antônio Bührer, o grande amigo do Releituras. Fonte Releituras

04/05/2009 - 19:09h A palavra

Pablo Neruda

… Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam … Prosterno-me diante delas… Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as … Amo tanto as palavras … As inesperadas … As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem … Vocábulos amados … Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho … Persigo algumas palavras … São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema … Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas … E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as … Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda … Tudo está na palavra … Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu … Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que ,se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes … São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada … Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos … Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas .Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras*, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca. mais,se viu no mundo … Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas… Por onde passavam a terra ficava arrasada… Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes… o idioma. Saímos perdendo… Saímos ganhando… Levaram o ouro e nos deixaram o ouro… Levaram tudo e nos deixaram tudo… Deixaram-nos as palavras.

*Butifarra: espécie de chouriço ou lingüiça feita principalmente na Catalunha, Valência e Baleares. (N. da T.)

Pablo Neruda, pseudônimo de Neftalí Ricardo Reyes Basoalto, nasceu a 12 de julho de 1904, em Parral, no Chile. Prêmio Nobel de Literatura em 1971, sua poesia transpira em sua primeira fase o romantismo extremo de Walt Whitman. Depois vieram a experiência surrealista, influência de André Breton, e uma fase curta bastante hermética. Marxista e revolucionário, cantou as angústias da Espanha de 1936 e a condição dos povos latino-americanos e seus movimentos libertários. Diplomata desde cedo, foi cônsul na Espanha de 1934 a 1938 e no México. Desenvolveu intensa vida pública entre 1921 e 1940, tendo escrito entre outras as seguintes obras: “La canción de la fiesta”, “Crepusculario”, “Veinte poemas de amor y una canción desesperada”, “Tentativa del hombre infinito”, “Residencia en la tierra” e “Oda a Stalingrado”. Indicado à Presidência da República do Chile, em 1969, renuncia à honra em favor de Salvador Allende. Participa da campanha e, eleito Allende, é nomeado embaixador do Chile na França. Outras obras do autor: “Canto General”, “Odas elementales”, “La uvas y el viento”, “Nuevas odas elementales”, “Libro tercero de las odas”, “Geografía Infructuosa” e “Memorias (Confieso que he vivido — Memorias)”. Morreu a 23 de setembro de 1973 em Santiago do Chile, oito dias após a queda do Governo da Unidade Popular e da morte de Salvador Allende.


Do livro “Confesso que Vivi — Memórias”, Difel — Difusão Editorial — Rio de Janeiro, 1978, pág. 51, traduzido por Olga Savary, extraímos o texto acima. Fonte Releituras

02/05/2009 - 19:26h Cartas a um jovem poeta


(Primeira carta)

Rainer Maria Rilke

Paris, 17 de fevereiro de 1903

Prezadíssimo Senhor,

Sua carta alcançou-me apenas há poucos dias. Quero agradecer-lhe a grande e amável confiança. Pouco mais posso fazer. Não posso entrar em considerações acerca da feição de seus versos, pois sou alheio a toda e qualquer intenção crítica. Não há nada menos apropriado para tocar numa obra de arte do que palavras de crítica, que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes. As coisas estão longe de ser todas tão tangíveis e dizívies quanto se nos pretenderia fazer crer; a maior parte dos acontecimentos é inexprimível e ocorre num espaço em que nenhuma palavra nunca pisou. Menos suscetíveis de expressão do que qualquer outra coisa são as obras de arte, — seres misteriosos cuja vida perdura, ao lado da nossa, efêmera.

Depois de feito este reparo, dir-lhe-ei ainda que seus versos não possuem feição própria, somente acenos discretos e velados de personalidade. É o que sinto com a maior clareza no último poema Minha alma. Aí, algo de peculiar procura expressão e forma. No belo poema A Leopardi talvez uma espécie de parentesco com esse grande solitário esteja apontando. No entanto, as poesias nada têm ainda de próprio e de independente, nem mesmo a última, nem mesmo a dirigida a Leopardi. Sua amável carta que as acompanha não deixou de me explicar certa insuficiência que senti ao ler seus versos sem que a pudesse definir explicitamente. Pergunta se os seus versos são bons. Pergunta-o a mim, depois de o ter perguntado a outras pessoas. Manda-os a periódicos, compara-os com outras poesias e inquieta-se quando suas tentativas são recusadas por um ou outro redator. Pois bem — usando da licença que me deu de aconselhá-lo — peço-lhe que deixe tudo isso. O senhor está olhando para fora, e é justamente o que menos deveria fazer neste momento. Ninguém o pode aconselhar ou ajudar, — ninguém. Não há senão um caminho. Procure entrar em si mesmo. Investigue o motivo que o manda escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever? Isto acima de tudo: pergunte a si mesmo na hora mais tranqüila de sua noite: “Sou mesmo forçado a escrever?” Escave dentro de si uma resposta profunda. Se for afirmativa, se puder contestar àquela pergunta severa por um forte e simples “sou”, então construa a sua vida de acordo com esta necessidade. Sua vida, até em sua hora mais indiferente e anódina, deverá tornar-se o sinal e o testemunho de tal pressão. Aproxime-se então da natureza. Depois procure, como se fosse o primeiro homem, dizer o que vê, vive, ama e perde. Não escreva poesias de amor. Evite de início as formas usais e demasiado comuns: são essas as mais difíceis, pois precisa-se de uma força grande e amadurecida para se produzir algo de pessoal num domínio em que sobram tradições boas, algumas brilhantes. Eis por que deve fugir dos motivos gerais para aqueles que a sua própria existência cotidiana lhe oferece; relate suas mágoas e seus desejos, seus pensamentos passageiros, sua fé em qualquer beleza — relate tudo isto com íntima e humilde sinceridade. Utilize, para se exprimir, as coisas do seu ambiente, as imagens dos seus sonhos e os objetos de sua lembrança. Se a própria existência cotidiana lhe parecer pobre, não a acuse. Acuse a si mesmo, diga consigo que não é bastante poeta para extrair as suas riquezas. Para o criador, com efeito, não há pobreza nem lugar mesquinho e indiferente. Mesmo que se encontrasse numa prisão, cujas paredes impedissem todos os ruídos do mundo de chegar aos seus ouvidos, não lhe ficaria sempre sua infância, esta esplêndida e régia riqueza, esse tesouro de recordações? Volte a atenção para ela. Procure soerguer as sensações submersas deste longínquo passado: sua personalidade há de reforçar-se, sua solidão há de alargar-se e transformar-se numa habitação entre o lusco e fusco diante do qual o ruído dos outros passa longe, sem nela penetrar. Se depois desta volta para dentro, deste ensimesmar-se, brotarem versos, não mais pensará em perguntar seja a quem for se são bons. Nem tão pouco tentará interessar as revistas por esses seus trabalhos, pois há de ver neles sua querida propriedade natural, um pedaço e uma voz de sua vida. Uma obra de arte é boa quando nasceu por necessidade. Neste caráter de origem está o seu critério, — o único existente. Também, meu prezado Senhor, não lhe posso dar outro conselho fora deste: entrar em si e examinar as profundidades de onde jorra sua vida; na fonte desta é que encontrará resposta à questão de saber se deve criar. Aceite-a tal como se lhe apresentar à primeira vista sem procurar interpretá-la. Talvez venha significar que o Senhor é chamado a ser um artista. Nesse caso aceite o destino e carregue-o com seu peso e a sua grandeza, sem nunca se preocupar com recompensa que possa vir de fora. O criador, com efeito, deve ser um mundo para si mesmo e encontrar tudo em si e nessa natureza a que se aliou.

Mas talvez se dê o caso de, após essa decida em si mesmo e em seu âmago solitário, ter o Senhor de renunciar a se tornar poeta. (Basta como já disse, sentir que se poderia viver sem escrever para não mais se ter o direito de fazê-lo). Mesmo assim, o exame de sua consciência que lhe peço não terá sido inútil. Sua vida, a partir desse momento, há de encontrar caminhos próprios. Que sejam bons, ricos e largos é o que lhe desejo, muito mais do que lhe posso exprimir.

Que mais lhe devo dizer? Parece-me que tudo foi acentuado segundo convinha. Afinal de contas, queria apenas sugerir-lhe que se deixasse chegar com discrição e gravidade ao termo de sua evolução. Nada a poderia perturbar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa.

Foi com alegria que encontrei em sua carta o nome do professor Horacek; guardo por este amável sábio uma grande estima e uma gratidão que desafia os anos. Fale-lhe, por favor, neste meu sentimento. É bondade dele lembrar-se ainda de mim; e eu sei apreciá-la.

Restituo-lhe ao mesmo tempo os versos que me veio confiar amigavelmente. Agradeço-lhe mais uma vez a grandeza e a cordialidade de sua confiança. Procurei por meio desta resposta sincera, feita o melhor que pude, tornar-me um pouco mais digno dela do que realmente sou, em minha qualidade de estranho.

Com todo o devotamento e toda a simpatia,

Rainer Maria Rilke nasceu em Praga no dia 4 de dezembro de 1875. Depois de viver uma infância solitária e cheia de conflitos emocionais, estudou nas universidades de Praga, Munique e Berlim. Suas primeiras obras publicadas foram poemas de amor, intitulados Vida e canções (1894). Em 1897, Rilke conheceu Lou Andreas-Salomé, a filha de um general russo, e dois anos depois viajava com ela para seu país natal. Inspirado pelas dimensões e pela beleza da paisagem como também pela profundidade espiritual das pessoas que conheceu, Rilke passou a acreditar que Deus estava presente em todas as coisas. Estes sentimentos encontraram expressão poética em Histórias do bom Deus (1900). Depois de 1900, Rilke eliminou de sua poesia o lirismo vago que em parte lhe haviam inspirado os simbolistas franceses, e, em seu lugar, adotou um estilo preciso e concreto, que podemos perceber em O livro das horas (1905), que consta de três partes: O livro da vida monástica, O livro da peregrinação e O livro da pobreza e da morte. Esta obra o consolidou como um grande poeta por sua variedade e riqueza de metáforas, e por suas reflexões um pouco místicas sobre as coisas.

Em Paris, em 1902, Rilke conheceu o escultor Auguste Rodin e foi seu secretário de 1905 a 1906. Rodin ensinou o poeta a contemplar a obra de arte como uma atividade religiosa e a fazer versos tão consistentes e completos como se fossem esculturas. Os poemas deste período apareceram em Novos poemas (2 volumes, 1907-1908). Até o início da I Guerra Mundial, o autor viveu em Paris de onde realizou viagens pela Europa e pelo norte da África. De 1910 a 1912 viveu no castelo de Duíno, próximo a Trieste (agora na Itália), e ali escreveu os poemas que formam A vida de Maria (1913). Logo após iniciou a primeira redação das Elegias de Duíno (1923), obra esta em que já se percebe uma certa aproximação dos conceitos filosóficos existenciais de Soren Kierkegaard.

Em sua obra em prosa mais importante, Os cadernos de Malte Laurids Brigge (1910), novela iniciada em Roma no ano de 1904, empregou imagens corrosivas para transmitir as reações que a vida em Paris provocava em um jovem escritor muito parecido com ele mesmo.

Residiu em Munique durante quase toda a I Guerra Mundial e em 1919 mudou-se para Sierra (Suíça), onde se estabeleceu para o resto de sua vida, salvo algumas visitas ocasionais a Paris e Veneza, concluindo as Elegias de Duíno e escreveu Sonetos a Orfeu (1923). Estas obra são consideradas as mais importantes de sua produção poética. As Elegias representam a morte como uma transformação da vida e uma realidade interior que, junto com a vida, foram uma coisa única. A maioria dos sonetos cantam a vida e a morte como uma experiência cósmica. Rilke morreu no dia 29 de dezembro de 1926 em Valmont (Suíça).

Sua obra, com seu hermetismo, solidão e ociosidade, chegou a um profundo existencialismo e influenciou os escritores dos anos cinqüenta tanto na Europa como na América.

Texto extraído do livro “Cartas a um jovem poeta”, tradução de Paulo Rónai, Editora Globo – Rio de Janeiro, 1995. Fonte Releituras

30/04/2009 - 18:45h Romance

Marcelo Nogueira

Ele marcou um jantar inesperado numa quarta-feira à noite. Pelo tom de voz ao telefone, não seria exatamente romântico. Mesmo assim, na hora marcada, ou uma meia horinha depois da hora marcada, ela apareceu linda, chamando a atenção dos outros clientes do restaurante. O garçom puxou a cadeira. Ela sentou-se, elegante. O marido já estava lá, suando (ele costumava suar muito), parecia nervoso. Sob a luz da vela ao centro da mesa, ela segurou a mão dele e disse:

— Desembucha, Paulo.

Ele limpou o suor no guardanapo de pano, olhou para os lados e pigarreou.

— Dessa vez você foi longe demais.

— O livro?

— Claro. O livro, essa droga desse livro.

— Eu sabia. Você está misturando as coisas, Paulo. Eu sou uma escritora, é a minha profissão, você sabe disso.

— Claro que eu sei, eu sempre admirei o seu talento, foi o que aproximou a gente. Mas era bem diferente naquela época. Você escrevia contos eróticos, lembra? Aquilo, sim. Eu li um deles e pensei: “preciso conhecer essa mulher”.

— Qual foi mesmo?

— “Orgias na escada”.

— Era um conto romântico.

— Eu lia tudo o que você escrevia. Os textos eram picantes, sensuais, não tinha ninguém melhor do que você para descrever uma, uma…

— Paixão?

— Putaria.

— Agora é putaria? Antes você dizia que era arte…

— Mas é arte! Claro que é! O que seria da arte sem a putaria? Inclusive, depois da gente se conhecer, os textos ficaram bem mais ricos. Você descrevia tudo o que a gente fazia, lembra? Teve aquele conto do metrô, o da obra abandonada, o do tanque do leão-marinho…

— Esse foi um dos melhores.

— Aquilo era um fetiche para mim, quando a gente transava era como se todos os seus leitores estivessem olhando. Aí veio o primeiro romance, uma obra-prima.

— “Meu marido insaciável”. Imaginei que você fosse gostar.

— E o seguinte, então: “Um verão em 69”.

— Nossas primeiras férias, em 1993.

— Depois vieram “Quanto mais, melhor”, “O que é possível no Kama Sutra”, “O martírio de um estrado”, tantos que eu nem lembro de todos. O nosso amor estava lá naquelas páginas, de verdade. Os gestos, os toques, os cheiros. Até que, de repente, você vem com aquele livro mentiroso…

— Você tem que entender, aquilo foi quando eu comecei a escrever ficção, eu expliquei isso na época. Era ficção!

— “Broxada em Marte”, Silvia? E desde quando marciano usa meias? Bem na hora do sexo?

— Eram quatro meias! Você nunca usou quatro meias!

— Daí para a frente foi só esculhambação. “O amor já foi melhor”.

— Era um livro filosófico.

— “Decepções amorosas de uma samambaia”. Samambaia! Você podia ter arranjado um disfarce melhor!

— Não era disfarce, era uma planta! Você é muito desconfiado!

— A planta era escritora!

— Mas ela era ruiva, eu sou morena! Não tem nada a ver!

— Eu relevei, aceitei seus argumentos por todos estes anos. Mas esse livro novo eu não vou aceitar!

— Por que não? Você não pode reprimir a arte!

— “O homem do membro pequeno”, não! Aí já é demais!

— É uma metáfora!

— Você não conseguiu me explicar essa metáfora até agora.

— É uma metáfora complexa, cada um entende o que quiser…

— Eu entendi muito bem. Dessa vez você subestimou a minha inteligência! E você que sempre disse que era de um tamanho bom… Eu quero o divórcio!

— Calma, vamos conversar!

— Nada disso! Eu não converso mais com você. Nem uma palavra. Senão depois vem o livro “O homem da conversa chata”. Chega! Acabou! Adeus!

Saiu irritado, esbarrando nos garçons. Ela ficou na mesa atônita, antes de tudo, surpresa com aquela reação. Não imaginava que algum dia o marido pudesse perceber as sutilezas da sua literatura. Pegou o telefone na bolsa e ligou para o seu editor, que era também um amigo.

— Hélio? É a Silvia. Meu marido pediu o divórcio.

— Por causa do livro?

— Foi.

— Eu imaginei que isso pudesse acontecer. Uma pena.

Um instante de silêncio nos dois lados da linha até que ela fala:

— Hélio, cancela o projeto.

— Como? Cancelar? Mas já está tudo encaminhado!

— Cancela. Agora.

— Pensa bem, Silvia! O seu marido já não pediu o divórcio? Para quê cancelar, então? Não vai adiantar nada!

— Eu sei, eu sei, não é isso. É que, depois do que aconteceu, eu prefiro publicar aquele outro, que eu escrevi antes, sabe? Agora dá.

— É verdade, bem pensado, aquele é até melhor do que o novo.

— Eu só quero fazer umas alteraçõezinhas, já faz algum tempo que ele foi escrito.

— E o que eu faço, então? Espero você mandar as mudanças?

— Isso, espera. Quer dizer, por enquanto já pode mudar o título.

— Por quê? Eu gostava tanto de “O amor e o vizinho”.

— Eu também gosto. Mas põe no plural.

E-Mail: mnogueira@fnazca.com.br

Blog: http://www.contosdointervalo.zip.net

Marcelo Nogueira (1974) nasceu em Santos (SP). É formado em propaganda pela FAAP. Redator publicitário, foi o autor de campanhas para “Sustagen Kids” (”mãe, compra brócolis”). Sua crônica, “Primeira Barba”, foi publicada pelo jornal “Folha de São Paulo”.

27/04/2009 - 17:22h Mulheres más

Sandra Saruê


Para Adriana, Kátia, Cláudia, Meori,
Vivian, Karin, Anete e Meire, as amigas

As três. Duas morenas e uma falsa loira. Saíram de casa por volta das 10 de uma noite quente, quase novembro, e pela janela do carro entrava uma brisa morna, relaxante, que sem querer convidava a sair pelas ruas inquietas de São Paulo.

Naquele carro, um Gurgel amarelinho, a mistura de aromas. Amadeirados, doces, cítricos, algo entre Eternity, Anais Anais e Poison. Florais. Três flores de diferentes tipos. Duas morenas jambo e uma loira L’Oréal.

A mais morena de todas era também a mais bonita: cílios compridos, olhos grandes e a boca tão bem desenhada que formava um sorriso, mesmo quando não sorria. A cor do batom e das unhas longas que acariciavam o volante era v-e-r-m-e-l-h-a. Os cabelos lisos e negros caíam-lhe sobre os ombros como uma onda batendo nas rochas de uma orla. Ela, a mais morena, era também a mais deslumbrante.

Sobre a outra morena, quase nada a dizer. Quase. Que não era tão bonita assim. Muito magra, tipo mignon, uma beleza absolutamente comum, daquelas pessoas que se encontram milhões iguais andando pela Praça Ramos, dia de semana, às 5 da tarde. Normal. Olhos castanhos-escuros e os cabelos na mesma cor, levemente ondulados e compridos. Nenhum outro atrativo, ao contrário da loira, bem acomodada no banco de trás.

A. loira tinha a raiz dos cabelos escura. Falsa, assim como Marilyn Monroe. E se Marilyn não era mesmo loira, por que haveria ela de ser? Não era bonita. Apenas um tipo que agrada aos homens. Bunda grande, um pouco mais do que deveria ser, coxas grossas, porém rígidas, conquistadas com suor em salas de academias anônimas. Um rosto bem comum também.

As três assim, juntas, dentro do Gurgel amarelinho, formavam um bonito conjunto com seus tons e roupas novas recém-tiradas das sacolas. Moças de butique e bem produzidas. Não se podia dizer que naquela noite estavam naturais, mas a intenção ao menos era esta. Queriam se divertir, muito além de suas frustrações. Tinham já uma idade em que as desilusões se acumulam mais que a satisfação dos desejos. Eram damas sem donos, que tiveram momentos de encantamento junto a alguém, mas naquela noite tudo estava longe e bem distante daquela brisa morna. Estavam tesas, absortas e queriam se divertir.

A Avenida Paulista, naquela noite em especial, tinha um estranho clima tropical. Quadro vivo ou encenação teatral em que damas e cavalheiros representavam o improviso. Apesar das luzes ofuscantes dos carros e bares dos Jardins sem coqueiros ou praia, o ar ameno, feito maresia, vinha das pessoas e das roupas que usavam. Minissaias, tops, bermudas, camisetas e camisas com motivos florais. Cheiro de flor, jasmim, almíscar, violeta, exalando dos canteiros mais resistentes ao lado dos prédios. As pessoas na rua festejavam como se fosse a primeira noite de verão. Mas não era. Apenas uma massa de ar quente cruzando o Atlântico e atingindo a capital. O calor mais intenso daquele ano. Uma noite tão abafada em São Paulo e elas cruzando a Avenida Paulista em direção à Rua Augusta.

Os carros que emparelhavam com o delas buzinavam, implorando a atenção de qualquer uma das passageiras do Gurgel amarelinho. A morena bonita que dirigia o carro com o vidro aberto era sempre o alvo. Elas riam alto e rebatiam qualquer argumentação. Não queriam nem precisavam de ninguém para se divertir. A alegria estava dentro delas, latente, numa espécie de sono leve mas agitado.

Estavam especialmente bonitas naquela noite. A melhor forma de vingança era estar bem e não precisar deles. Eram doces, sutis e, durante todo o percurso de cantadas criativas ou insólitas, mantinham-se firmes contra as tentativas frustradas dos conquistadores ordinários da Rua Augusta. Embora, no fundo, elas quisessem conhecer alguém especial que não fosse mais uma aventura – era o que mais desejavam na vida. Mas aquela noite era uma espécie de exceção. A espera angustiante por um ser que nunca chegava era também a aflição de pensar que ele podia não existir. Elas, as três, passavam por aquele temor. O de nunca encontrar. O de não existir. O da busca inútil. Pior, de um irreparável conformismo. Tinham uma ansiedade continua que sempre era notada pelo outro sexo como uma vibração negativa. Uma violação da ordem natural das coisas. Era isso que repelia o sexo oposto: a ânsia. Quase sempre era assim. Mas não naquela noite em que estavam tranqüilas como uma garrafa de champanhe: calma por fora e borbulhante por dentro. A paz emergente era o que sem querer atraia os homens dos bares dos Jardins, desesperados e desprezados. E elas, longe de qualquer decepção que ao longo de suas histórias sentimentais pudessem ter sofrido.

A morena que dirigia altiva, com a coluna reta e o olhar agudo, avistou uma vaga em frente de um bar dos Jardins. Mesinhas brancas para fora, chope e pessoas bonitas vestindo roupas coloridas para uma noite muito quente que ainda não era de verão. Estacionou bem e mostrou a um grupo de rapazes atentos a sua capacidade para balizas. As três foram descendo do carro.

Primeiro a morena comum que naquela noite também procurava se diferenciar. Usava um vestido preto justo com duas alças fininhas e um decote profundo nas costas, que modelava o corpo, apesar de sua magreza. Sobre o rosto, fino também, uma maquiagem de tons pêssego e terra, o que suavizava a expressão rude.

Depois da morena comum, quem saiu foi a loira, usando uma calça jeans apertada que fazia a bunda saltar para fora e o estômago se contrair inteiro. A maquiagem era exagerada, tons de roxo e azul que pouco combinavam com a sua palidez. Não estava perfeita, mas no conjunto, parecia razoável. A raiz escura dos cabelos há tempos tingidos era um pequeno detalhe em uma quase loira que tentava ser sensual.

Por último, quem saiu e trancou a porta do carro foi a morena bonita e dela pouco é preciso dizer. Era bonita. Só. Usava um vestidinho branco de cotton-lycra, com renda no colo, feito lingerie, sexy, justo. No rosto, só um batom vermelho, e o resto era a beleza natural de uma mulher morena com traços brasileiros.

Escolheram uma mesa num canto, afastada da agitação. Fizeram o pedido ao garçom, pouco atencioso: afinal, eram três mulheres que bebiam menos que os homens e a taxa de serviço também seria menor. Escolheram um Bloody Mary e dois Hi-Fi. O garçom anotou e torceu a boca, porque elas não pediram nada para comer. Perguntou pela última vez se elas não queriam mais alguma coisa e depois se afastou mal-humorado. Elas nem perceberam a má vontade do garçom, porque naquela noite estavam e se colocavam em um pedestal inatingível. Os olhares que vinham das outras mesas, principalmente de um grupo de rapazes bem próximo, não chegavam a perturbar.Elas riam e conversavam alto para que ninguém tivesse a coragem de abordá-las. E se aquilo era uma tática, não deu muito certo, porque três moços daquele grupo se desvencilharam bravamente da tropa e se dirigiram à mesa delas.

Os três. Um deles, com uma franja castanha e pastosa caindo sobre a testa brilhante de suor, era o mais despachado e foi o primeiro a falar:

— O que as três bonecas fazem sozinhas numa noite tão quente como esta?

“Bonecas?!” Já não era um jeito muito interessante de abordar e eles também já não tinham certeza se a primeira pergunta tinha sido bem colocada. Ou se tinham no mínimo algo que as agradasse, o que, com certeza não era aquele “bonecas?!” E este mesmo rapaz, o da franja caída sobre a testa, inclinou-se e encostou o peito sobre o encosto da cadeira da loira, fazendo um arco com a coluna. Ele era o mais falante, o porta-voz deles, e esperava que aquela primeira pergunta fizesse surtir algum efeito. As três “bonecas?!” entreolharam-se e riram, mas não disseram nada. Então, como se não tivesse entendido muito bem o recado, o rapaz da franja oleosa insistiu:

— Será que nós podemos participar da alegria de vocês?

Desta vez, ele sorriu triunfante e olhou para os outros dois amigos, na expectativa de que a sua segunda frase fosse um pouco mais feliz. Aguardaram uma resposta, que não veio. Mais uma vez elas riram e não responderam: estavam tranqüilas como a garrafa de champanhe.

Certo do insucesso de seu porta-voz, um outro rapaz, o mais baixo e corpulento deles, tentou se manifestar:

— Ha, ha, ha. Também quero rir. A piada foi boa?

Elas não iam responder. Mas a morena bonita, que também era a porta-voz delas, tentou ser direta e delicada:

— Vocês vão nos desculpar, mas é que nós estamos discutindo assuntos íntimos e particulares.

Como se não tivessem assimilado a argumentação dela, o baixinho piscou para os outros dois, que arrastaram três cadeiras e se juntaram à mesa das mulheres. O terceiro rapaz, um pirulão com aproximadamente dois metros de altura, não abria a boca para nada, a não ser fumar e beber. O rapaz da franja, bem acomodado ao lado da loira, arriscou:

— É que nós adoramos assuntos íntimos e particulares. Elas não demonstraram hesitação, apenas conivência ao se olharem mais uma vez e rirem até não poderem mais.

O garçom trouxe as bebidas e modificou a expressão dura do rosto, abrindo um meio sorriso ao ver os novos companheiros. Os três pediram chopes, porção de queijo provolone e filé aperitivo. O garçom se empolgou e passou a atender melhor aquela mesa. Por mais agradáveis que eles se julgassem ser como companhia, a decisão delas naquela noite era irreversível. De tudo elas riam e não acreditavam em nada do que eles diziam. Qualquer gesto deles parecia inútil e patético. Depois de beberem seus drinques, elas passaram a acompanhá-los no chope. A embriaguez das mulheres levava os seis a uma outra esfera, que não era a realidade. E começaram a escrever poesias em guardanapos de papel. E a revelar segredos que não deveriam trair. E a cantar músicas de muito tempo atrás. E a recitar versos da época de escola. E a contar piadas de humor negro sobre pretos, judeus, portugueses, árabes, alemães… E a falar mal da vida dos outros. Elas riam. Eles riam. E aquilo não era suficiente para os três homens que desejavam mais daquela noite quente:

— Vamos para outro lugar — sugeriu o mais baixo e corpulento.

Alteradas pela bebida, apenas riam:

— Minha casa — disse o de franja sebosa. — Tomar um licor.

Elas não se preocupavam em responder. Eram como três flores distintas que encantam pela beleza, enquanto se mantêm distantes pelo silêncio. Tinham também os seus espinhos:

— E então? — insistiu o mais baixo e corpulento.

Continuaram sem responder. Riram. Depois caíram numa gargalhada sem fim e o mais alto deles, o que não tinha dito nada a noite inteira, acabou se alterando e elas finalmente ouviram a sua voz de trovão:

— Vocês estão bancando os palhaços — ele disse para os outros dois. — Não estão vendo que elas não querem?

O mais baixo e corpulento e o da franja oleosa ficaram congelados por um instante. Sabiam que a persistência é um dom inerente ao sexo masculino, e o pirulão, um tanto quanto acéfalo, não conhecia as regras daquele jogo. Olharam para ele com impaciência. Uma noite de sábado inteira perdida por uma frase mal empregada. Mas o fato é que ele já tinha soltado as malditas palavras e modificado o clima. Então, o que os outros dois precisavam era apenas juntar os cacos de um vaso que acabava de se quebrar:

— Vocês não querem? — perguntou o da franja escorrida, olhando para elas e curvando a coluna para não ser atingido por uma resposta indesejada.

— Hoje não — respondeu a loira.

— Por que não hoje? Justo hoje? — perguntou o mais baixo.

— Porque é assim que nós queremos — disse a morena bonita, sem entrar em detalhes. Era mesmo a porta-voz das três.

O da franja escorrida não se conformava. A noite mais quente de São Paulo, sábado, e eles voltando da caça sem a presa. O mais baixo e corpulento não se conteve:

— E o telefone? Eu anoto o número. Podem dizer…

Oito meia meia cala a boca e não chateia… Vendi meu telefone para fazer plástica… Telefone tenho sim, esqueci foi o número… Telesp informa: este número de telefone não existe, favor consultar o catálogo telefônico… Telesp informa, 12h 45 minutos… Chamada a cobrar, para aceitá-la continue na linha… Telefone? Aquela coisa cheia de botões com números e um fio comprido atrás? Ainda tão instalaram na nossa cidade não… As respostas eram assim. Estavam embriagadas junto a três seres pedantes e não tinham por que dizer uma palavra com sentido. Não que fosse engraçado, mas o álcool já tinha tornado tudo obscuro & obsceno. Elas tinham uma forte inclinação para o nonsense e eles, para a pieguice & canastrice.

O da franja pastosa escorrida pela testa escondia olhos bonitos, cor de mel, e cílios longos. O mais baixo e corpulento tinha os traços do rosto perfeitos, o nariz reto, os olhos amendoados e a cara tão limpa como “bumbum de nenê”. O pirulão era todo avantajado, inclusive as mãos bonitas com dedos largos. Mãos que pareciam ter sido esculpidas por um artista. Os três tinham também algumas virtudes que só a embriaguez delas podia fazer enxergar. Sagazes observadoras. Nada além disso. Elas não os desejavam porque não era a noite.

Eles tinham ao menos algum encantamento, mas que não preenchia o vazio delas. Um buraco fundo há muito tempo localizado na boca do estômago. Um stand by que fazia delas mulheres difíceis de iludir e ao mesmo tempo frágeis. Os espinhos das três eram como a casca dura que envolve uma fruta muito doce. Nem em seus inconscientes eles saberiam o quanto eram doces aquelas frutas.

Longe dos pensamentos delas, o mais baixo levantou-se num pulo, encolerizado:

— Como vocês podem ser tão más? Não acredito que perdemos uma noite de sábado como esta. Vocês são mulheres más.

— Perderam uma noite mesmo? — perguntou a morena comum que falava pouco.

— Perdemos — disse o mais alto, que também quase não falava.

Os outros dois também levantaram, imitando o gesto do primeiro. Foram arrastando as suas cadeiras para longe e depois se juntaram novamente ao grupo de rapazes.

Elas pediram mais bebidas, queriam beber até enxergar em vez de um, dois. Em vez de três, seis, múltiplos e assim por diante. Tinha de ser o dobro de todas as sensações vividas.

A tristeza delas era tão discreta e cômica que nem se importaram em pagar a conta deles. Ao sinal da morena bonita, o garçom veio com um sorriso de ponta a ponta e dentes imperfeitos. Elas pagaram tudo, inclusive os 10% do amável garçom. A morena bonita bebeu até a última gota do último copo, encerrando a noite, e depois levantou. As três caminharam sem enxergar direito as mesas e as pessoas ao redor que de repente ficaram turvas, como uma lente desfocada.

Entraram e se reposicionaram no Gurgel amarelinho. As duas morenas na frente e a loira atrás.

Voltaram pela Avenida Paulista com o mesmo clima tropical, o que não era normal. As três ainda riam e não sabiam se por isso eram mais felizes que as outras mulheres. Estavam bem, mesmo estando sozinhas, e aquilo também não era normal. Sentiam-se leves como uma pétala solta numa noite quente e de céu claro. Diferente de todas as outras noites de São Paulo. A solidão necessária. Só.

E-Mail: ssarue@terra.com.br

Fonte Releituras

Sandra Saruê  nasceu em São Paulo, em 1968. Publicitária e atriz, lançou seu primeiro livro, “Mulheres más” — com prefácio de Fernando Bonassi — em 2003, pela Editora Celebris – São Paulo, de onde extraímos o texto acima, pág. 26.

24/04/2009 - 19:22h O fenomeno Susan Boyle

A pedido de rafael j. e Sylvia Manzano.

Les Miserables – I dreamed a dream

I dreamed a dream in time gone by,
When hope was high and life, worth living
I dreamed that love would never die,
I dreamed that God would be forgiving
Then I was young and unafraid,
And dreams were made and used and wasted
There was no ransom to be paid,
No song unsung, no wine, untasted


 

CONTARDO CALLIGARIS – FOLHA SP
I love Susan Boyle

O vídeo tem a qualidade de um exemplo moral: sonhar pede coragem, resistência e seriedade

NA TERÇA-FEIRA, eu estava com minha coluna pronta (escrevo entre domingo e segunda) e, ao abrir o jornal, descobri que João Pereira Coutinho, neste mesmo espaço, também tinha-se apaixonado por Susan Boyle.
Tudo bem, não sou ciumento. Mesmo assim, por um momento, pensei escrever, na última hora, outra coluna. Mas, lendo Coutinho, percebi que a gente pode se apaixonar pela mesma pessoa por razões diferentes. Aqui vai.
Em poucos dias, dezenas de milhões de pessoas, pelo mundo afora, assistiram ao vídeo de Susan Boyle cantando “I Dreamed a Dream” (eu sonhei um sonho). Assistiram e choraram lágrimas comovidas.
Acesse a internet e veja uma das versões (por exemplo, www.youtube.com/watch?v=8OcQ9A-5noM). Se quiser mais, assista à entrevista de Susan Boyle à rede americana CBS, durante a qual Boyle canta um trecho da música a capela (watching-tv.ew.com/2009/04/susan-boyle-cbs.html).
Provavelmente, Susan Boyle gravará um CD, e o comprarei. Talvez, um dia, ela venha ao Brasil, e estarei no show, mesmo a preço de cambista. Mas nada disso se comparará com o momento extraordinário registrado no vídeo que está hoje no YouTube. Por quê?
Vamos com calma. Susan Boyle se qualificou nas preliminares para participar de “Britain’s Got Talent” (a Grã-Bretanha tem talento), que é mais uma versão (inglesa) de “American Idol”, o programa de televisão que começou nos EUA e foi repetido em vários países -no Brasil, “Ídolos”, na TV Record. Trata-se, a cada ano, de premiar um cantor ou uma cantora, descobrindo novos talentos.
Na verdade, a seleção para chegar até à final talvez seja o que mais diverte as plateias, nos teatros de gravação ou em casa: o vexame da maioria dos concorrentes funciona como um bálsamo para todas as covardias que nos impedem de correr atrás de nossos sonhos. Algo assim: “Olhe o que aconteceu com quem ousou. Ainda bem que eu não fui!”.
Susan Boyle entrou no palco como uma espécie de anticlímax; ela era tudo o que não se espera de uma aspirante a estrela: quase 48 anos, solteirona, desempregada, vestida (disse um amigo estilista) como a rainha Elizabeth se ela fosse pobre, “gordinha” e “feinha”. Os diminutivos indicam que sua aparência não era extraordinária nem negativamente, mas a tornava transparente: aquela figura papel de parede, de quem ninguém se lembra se ela estava na festa ou não. Para completar, respondendo às perguntas de Simon Cowell (que preside o júri), ela pareceu quase tola e um tanto vulgar, balançando os quadris para dar mostra de sua juventude de espírito.
Quando Susan Boyle anunciou que seu sonho era ser cantora como Elaine Page (a inesquecível Grizabella de “Cats”, em Londres, em 1981), o júri e a plateia não esconderam seu desdém.
Aí Susan Boyle começou a cantar. A performance foi propriamente incrível; por um instante, pensei que Boyle estivesse apenas mexendo os lábios enquanto tocava uma gravação: uma voz forte, limpa, segura e expressiva, fiel às emoções que se alternam ao longo das letras.
Também a música que Susan Boyle escolheu (letras de Alain Boublil) contribuiu para transformar sua performance numa espécie de exemplo moral: fala de um sonho antigo, sonhado quando “a esperança falava alto e a vida valia a pena”, na época em que “os sonhos são criados, usados e desperdiçados”; mas há “tempestades” que “transformam nossos sonhos em vergonha”, e, no fim, em regra, a vida massacra os sonhos que sonhamos. Então, qual é a moral da performance?
Para Coutinho, a moral é que, na vida, não basta se esforçar: é preciso ter sorte. Entendo assim: Susan, até aqui, não teve sorte, a gente se comove porque é tarde demais ou porque, enfim, o destino a encontrou em sua aldeia perdida.
Para mim, a moral é outra. Não sei se Susan teve sorte ou não. Cuidar longamente da mãe doente e cantar com os amigos no karaokê da vila é uma vida que pode valer a pena, talvez mais do que uma vida nas luzes da ribalta. O que me comoveu tem mais a ver com a coragem e a resistência de seu sonho.
Os entrevistadores da CBS perguntaram a Susan Boyle como ela conseguiu se concentrar e cantar, embora percebesse que o júri e a plateia não a levavam a sério e já estavam antecipando a zombaria. Ela respondeu, com simplicidade: “É a gente que tem de se levar à sério”.

ccalligari@uol.com.br

19/04/2009 - 17:06h Antiutopia

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Verissimo – O Estado SP

 


Em inglês eles usam “dystopia” mas em português “distopia” tem outro sentido. Como se chamaria o oposto de Utopia? “Antiutopia” é óbvio, mas serve. A Utopia original, a sociedade perfeita onde tudo dava certo, foi imaginada por Thomas Morus no século 16. Dizem que ele se inspirou nas primeiras notícias do descobrimento do Brasil para inventar seu paraíso racional e situá-lo numa ilha do Atlântico Sul. Um pouco da idealização de Thomas Morus sobrevive no imaginário europeu, como se vê a cada vez que eles fantasiam uma das nossas peculiaridades, seja a alegria de viver, a sensualidade ou o Lula.

Num artigo sobre o pintor Jacques-Louis David reproduzido pela recém-lançada revista serrote, Carlo Ginsburg propõe que a derrubada do Muro de Berlim em 1989 marca o fim do ciclo histórico iniciado com a Revolução Francesa em 1789, exatamente 200 anos antes. A ideia atrai pela simetria simbólica mas a conta não é precisa. A era das revoluções começou antes da queda da Bastilha, com o Iluminismo e com a Revolução Americana (ou, se quiserem uma mais antiga, com a revolução cromwelliana na Inglaterra) e acabou antes da queda do Muro, com o Gorbachev trocando sorrisos com o Reagan. Mas como gostamos de simetria, ainda mais quando ela simplifica a História, nada nos impede de pegar emprestada a data de 1989 para marcar o fim do pensamento utópico e o começo do pensamento antiutópico.

Durante mais de 200 anos de aspiração utópica, a ideia de transformar o ser humano e a sociedade criou maravilhas e horrores quase que em doses iguais: a democracia e o fim das monarquias absolutas (pelo menos no Ocidente), o crescimento dos direitos individuais, o Terror que quase afoga a Revolução Francesa em sangue, a arregimentação social do fascismo, a perversão do socialismo pelo totalitarismo soviético – enfim, tudo anunciado ou mascarado como progresso.

O pensamento antiutópico não começou apenas com a desilusão de utopistas de esquerda com a queda do Muro e o fracasso do sistema soviético. Tem uma raiz apolítica na percepção do que estamos fazendo com o planeta, do que o progresso tem de suicida. Há uma desilusão com o capitalismo também, agravada com a crise atual. A tecnologia não nos salvará, ela é parte do problema. Só ajudará se, como resultado da nossa adaptação à antiutopia que vem por aí, aprendermos a comer telefones celulares e baterias descartadas. Hoje se especula não como aperfeiçoar o ser humano e a sociedade mas como o humano e o social sobreviverão num mundo pós-crise terminal, entregue, literalmente, às feras. Já é grande a literatura antiutopista sobre como será a vida numa sociedade tornada selvagem pela privação e o desespero.

Mas acalmemo-nos. As antiutopias previstas podem ser tão fantasiosas como a Utopia de Thomas Morus. E o Obama não disse que as coisas estão melhorando?

GLORIA

- Bem…

- Mmmm?

- Que barulho é esse?

- É o gerador para a cerca eletrificada, para os holofotes que iluminam o jardim em volta da casa e para o sistema de alarme.

- E esse outro barulho?

- São os cachorros, Gloria.

- E esse?

- É o dos guardas fechando os portões de ferro do condomínio.

- Meu Deus, e esse?

- É o helicóptero que fica sobrevoando a área a noite inteira.

- Com tanto barulho, eu não vou conseguir dormir!

- Eu sei, Gloria. Mas a única maneira de a gente poder dormir descansados é não conseguir dormir.

18/04/2009 - 18:25h O Amor, O Ódio e O Processo

Thiago Pimentel

Eu ainda posso vê-la. Toda encolhida à minha frente, como uma criança insegura. Então eu fito seus olhos, pequenos, e me vejo perdido em meio à imensidão azul que brilha em lágrimas, que são reflexo daquilo que, sendo incompreendido, escorre até o sorriso, tradução máxima do amor, para o qual não há razão nem entendimento.

Repouso uma de minhas mãos nos seus cabelos, curtos e muito finos, que agora deslizam por entre os meus dedos. E também aproximo o meu rosto do seu, face rosada e macia, que de tão suave e sensível, faz que por um momento eu pare de respirar e me perca no perfume que é suor e lágrimas e desejo.

Fecho os olhos para enxergar a pureza do seu coração, e com a minha outra mão ensaio carícias que me saem trêmulas e me fazem perceber que a leveza de um ato assim pode estar um pouco além do que é tangível, e transcende ao nível do que só se toca com os dedos da alma.

Meus sentimentos todos se misturam em um êxtase alucinante e meu coração pára. Pois que sinto seus lábios tocarem os meus…

Já não a posso mais ver. Quem está de pé à minha frente, como uma fera insana, não possui os mesmos olhos pequeninos. Quem eu vejo está perdido em rancor e mágoa, em meio a uma profusão de palavras desconexas e sem brilho, que são reflexo daquilo que, de forma incompreendida, transborda pela boca e se traduz em ódio, sob o qual não há aceitação nem sorrisos.

Sinto de longe estremecerem todas as partes do seu corpo, alvo e muito frio, que outrora se aninhou entre os meus braços. E então afasto meu olhar de sua face avermelhada e áspera, que de tão grave e terrível, faz com que por um momento eu pare de lhe desejar e me encontre no sofrimento que é dor e lágrimas e desespero.

Fecho os olhos para não ver a tristeza em seu coração, e de mãos atadas ensaio palavras que ressoam alquebradas e me fazem descobrir que o limite entre o amor e o ódio é uma linha tênue, e sobrevive latente ou se rompe em fúria do fundo da alma.

Meus sentimentos todos se atropelam em uma confusão esmagadora; meu coração parara há um bom tempo. Foi quando a vi desaparecer pela última vez.

Uma porta que se fecha, uma janela que se abre a alumiar minha amarga e doce conclusão. Sobre as palavras que não puderam ser ditas, das cartas não escritas, aos contos de fada sussurrados na cama ao pé do ouvido… O que mais seria a vida além de um longo e finito processo de amar e ser amado, perder a pessoa amada e se deparar angustiado? Para então se redimir da tristeza e, amando a si próprio, caminhar por entre os brotos que logo serão lindas flores, pois o inverno termina sempre que a primavera chega.

E-mail: tatah1984@hotmail.com

Thiago Pimentel (1984) é mineiro de Belo Horizonte e economista formado pela PUC-Minas. Atualmente não tem residência fixa, percorrendo o mundo em busca de novos conhecimentos e culturas. Tem predileção por formas de vida alternativa e em comunidade. Como amante da literatura encontra no movimento Beat dos Estados Unidos dos anos 1950 sua maior fonte de inspiração para escrever, tendo Jack Kerouac seu maior ídolo. Além de ter forte admiração por autores como Henry David Thoreau e Liev Tolstoi. Possui algumas poesias publicadas em alguns websites.

Fonte Releituras