16/04/2009 - 11:54h “Agora o Brasil joga em outro escalão, tem um papel global, está na mesa de negociações mundiais e tem uma voz importante nas discussões centrais da humanidade”

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”Cúpula deve marcar estreia do Lula estadista”

Para analista, Trinidad e Tobago é a primeira reunião latina na qual o papel do Brasil irá além das questões regionais

 

Patrícia Campos Mello – O Estado SP

 

O presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, estreia na sexta-feira, na Cúpula das Américas, seu novo status de “estadista internacional” em um fórum latino-americano, diz Moisés Naím, editor-chefe da revista Foreign Policy e influente analista da região. Segundo Naím, o “eixo de Lula” e o “eixo de Hugo” (do presidente venezuelano, Hugo Chávez) vão se encontrar na cúpula em meio a uma grande reorientação geopolítica. Abaixo, trechos da entrevista concedida ao Estado por telefone:

Como Obama cumprirá sua promessa de mudar a mensagem para a região?

Podemos olhar para o que Obama fez na Turquia, onde ele admitiu que os EUA têm sido uma nação arrogante, que não atuava no mundo da forma mais construtiva. Ele pode seguir a mesma linha para a América Latina, admitindo que a região não tem sido prioridade para os EUA. Na Turquia, ele disse que os EUA não estão nem nunca estiveram em guerra contra o Islã. Em Trinidad e Tobago, ele pode dizer que os EUA não estão em guerra contra ninguém, e se limitam a querer países democráticos na região. Não queremos dominá-los, não queremos impor nossas opiniões e vamos respeitar seus processos eleitorais, desde que seus líderes sejam eleitos de forma democrática, ele poderia dizer.

Nesse contexto, o sr. acha que Obama tentará uma aproximação com Chávez durante a cúpula?

Uma das grandes perguntas é que tipo de espetáculo para a mídia Chávez montará. Chávez e seus colegas do mesmo eixo vão se encontrar em Caracas e irão juntos para a cúpula – Daniel Ortega da Nicarágua, Rafael Correa do Equador, Evo Morales da Bolívia, talvez Fernando Lugo do Paraguai e os presidentes de Honduras e da República Dominicana. Chávez não se pode dar o luxo de ir à cúpula e não ser o centro das atenções. Na ONU, ele falou sobre George W. Bush e o cheiro de enxofre, depois houve o bate-boca com o rei da Espanha, em toda reunião ele faz algo.

Mas não será mais difícil fazer isso com um presidente americano menos polarizador?

Será difícil confrontar Obama pessoalmente, mas ele pode confrontar o império. Recentemente, Chávez esteve no Irã e censurou a presidente chilena, Michelle Bachelet, por ter convidado (o vice-presidente americano) Joe Biden e (o premiê britânico) Gordon Brown para a cúpula dos governos progressistas. Ele provavelmente não se referiráa Obama, mas criticará o imperialismo.

Há espaço para que Lula seja um mediador entre Obama e Chávez?

Agora o Brasil joga em outro escalão, tem um papel global, está na mesa de negociações mundiais e tem uma voz importante nas discussões centrais da humanidade, como mudança climática, crise econômica, luta contra pobreza e até proliferação nuclear. Lula assumiu esse papel recentemente e está mais confiante. Agora que o país está indo bem, ele assumiu mais o papel de estadista internacional.

Essa seria a primeira cúpula da região em que o Brasil desempenharia um papel global?

Sim. E é importante lembrar que o eixo de Lula não tem uma relação de confronto com Chávez. Eles deixam Chávez fazer o que quer, mas não prestam muita atenção. Todas as iniciativas que Chávez propôs, Lula apoiou entusiasticamente e não executou nenhuma. Eles assinam acordos, se abraçam, sorriem, e nada acontece. O Brasil apoiou todos os planos grandiosos do Chávez – Oleoduto Transcontinental, Banco do Sul -, mas nenhum saiu do papel. Enquanto Lula deixa que Chávez lide com Nicarágua, Paraguai e outros, ele se reúne com China, Índia, África do Sul, criando uma poderosa coalizão global.

O que uma mudança na política americana para Cuba significaria para a região?

Eu acho que é uma tragédia, mas a cúpula pode ser distorcida pelo excesso de atenção a Cuba ou para os Castros. Cuba é simbolicamente importante, mas estrategicamente é irrelevante. Para a vida de 99,9% dos latino-americanos, mudanças na política de envio de recursos e visitas a Cuba são irrelevantes. Muito mais importante é garantir que um país como o Brasil continue estável, que os mercados de crédito sejam abertos, que o Banco Interamericano de Desenvolvimento tenha recursos para a região. Essas são questões importantes.

17/03/2009 - 10:52h EUA e Brasil em lua-de-mel, mas sem álcool

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foto de capa do caderno especial do jornal Valor
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Patrick Brock, The Wall Street Journal, de Nova York – VALOR

Numa reunião na Câmara de Comércio de Nova York, em 2 de novembro de 1863, o pastor James Cooley Fletcher se desdobrou para convencer os empresários locais sobre a importância de estreitar os laços com o Brasil, segundo registro de um jornal da época. Acompanhado dos diplomatas brasileiros Joaquim de Azambuja e Luis Fleury, que traziam uma elogiosa carta da Câmara de Comércio do Rio de Janeiro, Fletcher, um entusiasmado brasilianista, celebrava o início da primeira rota direta de vapores entre as duas principais cidades das jovens nações, Rio de Janeiro e Nova York.

Da pequena frota de vapores subsidiados pelos governos dos dois países, as relações comerciais entre o Brasil e os Estados Unidos evoluíram desde então para uma balança comercial de pouco mais US$ 53 bilhões em 2008, com saldo positivo de US$ 1,8 bilhão para o Brasil. O diálogo transnacional também passou para esferas muito mais altas e hoje o Brasil é considerado pelos EUA como um importante parceiro no desenvolvimento de relações multilaterais, dizem especialistas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi apenas o terceiro chefe de Estado a ser recebido pelo presidente americano Barack Obama, e o primeiro da América Latina, em um encontro sábado na Casa Branca.

Não há nenhum Fletcher hoje pressionando o governo americano a melhorar o relacionamento com o Brasil, mas o momento atual é favorável, segundo vários especialistas. Embora ainda ocorram embates sobre questões comerciais, há boas perspectivas de cooperação em áreas como combate ao tráfico de drogas, mudanças climáticas e relações multilaterais. O governo Obama também tem sinalizado um posicionamento mais flexível em relação a Cuba, o que provavelmente agradaria o governo Lula. Além disso, o Brasil é visto como um país que desfruta de boas relações na América Latina de maneira geral, o que pode ajudá-lo a servir de ponte para um novo diálogo entre os EUA e a região, dizem os especialistas. Após uma reunião com Lula sábado, Obama disse que pretende usar o relacionamento com o Brasil para reforçar os laços com a América Latina.

É claro que a grandiosidade da crise econômica nos EUA e no mundo, e os conflitos no Iraque e no Afeganistão podem dificultar que o governo de Obama dê prioridade à América Latina em sua agenda internacional num futuro próximo, diz o cientista político Riordan Roett, da Universidade Johns Hopkins. “A atitude atual é benigna, mas a escalada da violência no México, fruto da guerra contra o narcotráfico, o policiamento da fronteira com esse país e os efeitos da queda nas remessas de imigrantes devem ganhar mais destaque na agenda do governo Obama” em se tratando de relações com a América Latina, diz Roett, que recebeu em 2000 a medalha da Ordem de Rio Branco das mãos de Fernando Henrique Cardoso.

O convite de Obama para Lula visitar Washington também é um bom sinal, diz Roett, para quem a cooperação entre os dois países no contexto atual é muito mais abrangente do que as questões bilaterais, especialmente com o papel preponderante do Brasil na construção de mecanismos multilaterais. “Se Obama quiser ativar a Rodada Doha, vai precisar do Brasil.” Brasil e EUA se reúnem novamente no início de abril, na conferência do G-20 em Londres, e em 17 de abril para a V Cúpula das Américas, em Port of Spain, Trinidad e Tobago.

Segundo Luiz Alberto Moniz Bandeira, professor aposentado de política exterior do Brasil da Universidade de Brasília, os dois países “não podem deixar de se considerar, (pois) são as duas maiores massas geográficas, demográficas e econômicas do continente”. Moniz aponta também a diminuição na importância dos EUA para as exportações brasileiras, que passaram a ser dominadas pela União Europeia e países emergentes. “O Brasil quer se aproximar dos EUA apenas na medida em que os EUA queiram se aproximar do Brasil”, diz Moniz.

Em entrevista coletiva em 25 de fevereiro, logo após se reunir em Washington com Hillary Clinton, o chanceler Celso Amorim disse que uma prioridade para reativar as negociações multilaterais para o comércio mundial é a confirmação pelo Congresso do indicado para o cargo de representante comercial dos EUA, Ron Kirk. A nomeação ainda está pendente, enquanto pesam sobre Kirk questões relativas a sua declaração de renda.

“O diálogo entre os dois governos realmente evoluiu nos últimos anos e acredito que o governo Obama continuará desenvolvendo isso”, diz Julia E. Sweig, diretora de estudos latino-americanos do Council on Foreign Relations, um centro de pesquisas que tem sede em Nova York e se descreve como não-partidário e independente. A política comercial entre os dois países, contudo, ainda “não foi bem resolvida”. Embora haja muito interesse no Brasil, diz Sweig, especialmente em relação às recentes descobertas petrolíferas e à indústria do etanol, a falta de conhecimento aprofundado sobre o país pode ser um obstáculo para as relações entre os dois países. “O pessoal da política exterior (do governo Obama) está preocupado com México, Cuba e, em terceiro lugar, o Brasil. Mas ainda existe um grande déficit de conhecimento sobre o Brasil e como dialogar com o país em meio à classe política em Washington”, diz.

Questões comerciais também se interpõem entre os dois países. Um dos pontos de debate é a tarifa de US$ 0,14 por litro de álcool combustível importado do Brasil nos EUA. Ela foi mantida na legislação agrícola aprovada em 2008 e está em vigor até o fim de 2010. A demanda por álcool combustível nos EUA vem crescendo, mas o país tem sua própria produção, à base de milho, e os produtores locais têm bastante influência em Washington.

“Barack Obama quer expandir a produção de energia renovável na América Latina de uma maneira que promova a auto-suficiência e crie mais mercados para fabricantes e produtores americanos de biocombustíveis”, diz o plano para a América Latina divulgado ano passado pelo então candidato. Obama reafirmou sua posição ao dizer após a reunião com Lula que o etanol é um “tema tenso” entre os dois países, que não vai mudar de um dia para o outro.

Joel Velasco, representante-chefe para a América do Norte da União da Indústria de Cana-de-Açúcar do Brasil (Unica), tem esperança de que políticos contrários à tarifação apresentem novas emendas que modifiquem a legislação agrícola. Velasco diz que os senadores e deputados das regiões costeiras tendem a apoiar a redução da tarifa, já que não produzem etanol e geralmente são obrigados a pagar mais caro pelo produto. Ele cita como favoráveis à redução da tarifa os senadores republicanos Richard Lugar e Judd Gregg.

Representantes dos senadores confirmaram que eles apoiam a redução da tarifa, mas disseram que no momento não há planos de introduzir nova legislação. Gregg chegou a apresentar em junho do ano passado um projeto de lei para reduzir a tarifa para US$ 0,12 por litro, sob o argumento de que a medida baixaria o preço da gasolina – na época o barril de petróleo estava acima de US$ 140, enquanto agora flutua na casa dos US$ 40. O projeto acabou morrendo no Congresso.

Gregg tinha sido indicado para ocupar a Secretaria de Comércio, um cargo que vem rendendo dor de cabeça a Obama, mas acabou desistindo sob a alegação de que havia “diferenças irresolúveis” com a política do novo presidente. O cargo em questão ainda está vago e Obama indicou recentemente o ex-governador do Estado de Washington Gary Locke, que aguarda confirmação.

16/03/2009 - 13:19h O antiamericanismo do governo Lula

Sergio Leo – VALOR

A alegria quase adolescente com que as autoridades brasileiras falam da aproximação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Barack Obama desmoraliza um dos mais frequentes lugares-comuns nas críticas à política externa do governo, a acusação de antiamericanismo. Quando se trata da relação comercial Brasil-EUA, os críticos têm até (reduzida) base real para reprovações contra Lula e assessores, mas o chavão foi esquecido neste fim de semana. Parte das atenções para o encontro entre Lula e Obama se concentrou em uma tolice, as tarifas dos EUA contra o etanol brasileiro.

Etanol não é besteira, nem o esforço brasileiro para derrubar as barreiras dos Estados Unidos contra qualquer produto brasileiro, especialmente commodity tão simbólica. Mas medir os resultados do primeiro encontro dos presidentes por decisões que possam adotar em relação à tarifa do álcool é um exercício de quem ignora a natureza e funcionamento do poder nos EUA.

Não será na Casa Branca que se decidirão mudanças relevantes na política comercial americana nessa questão. É no Capitólio, o Congresso dos EUA. Que, aliás, rejeitou na semana passada a tentativa feita por Obama de reduzir os subsídios pesados à agricultura, que distorcem o comércio e prejudicam países competitivos como o Brasil.

Curiosamente, o blogue da Casa Branca contraria o noticiário que, no Brasil, insinuou uma aparente relutância de Obama em reduzir a tarifa aplicada sobre o etanol brasileiro nos EUA. O texto do governo americano fala do tom “positivo e otimista” de Obama, que limitou-se a dizer o óbvio – a questão do etanol não se resolve do dia para a noite – e disse acreditar que essa fonte de atrito se eliminará com o tempo, à medida em que os dois governos aprofundarem a troca de “ideias, comércio, intercâmbio no setor de biocombustível”. Esse último comentário foi ignorado no relato de jornais brasileiros.

Entre os queixumes com ar de despeito feitos sobre a bem-sucedida visita de Lula a Obama, uma crítica é relevante: como notou o presidente do Diálogo Interamericano, Peter Hakim, Lula poderia ter aproveitado a oportunidade para contatos com os importantes presidentes das comissões do Congresso, tão essenciais para o futuro das questões de interesse brasileiro quanto o chefe do Executivo americano.

Lula, que hoje fala a empresários, limitou os encontros extra-agenda a uma conversa com um velho conhecido, John Sweeney, presidente da AFL-CIO, principal organização sindical do país. Visita importante: a AFL-CIO move parte do insistente lobby protecionista americano. Não há registro, porém, que Lula tenha tentado converter Sweeney para a campanha de livre-mercado hoje em moda no Planalto.

O embaixador do Brasil em Washington, Antônio Patriota, considera a questão levantada por Hakim um “falso problema”, já que a viagem, desde o convite, no primeiro contato telefônico entre os dois presidentes, à definição da data – que se ajustou à agenda de Obama – tinha uma característica diferente da visita de Estado, onde, aí sim, sem nenhuma distorção no protocolo, caberiam encontros de Lula com líderes no Congresso americano. “Essa crítica está fora de foco; e o Brasil não pode ser visto apenas pela perspectiva interamericana”, reage Patriota.

De fato, o Brasil, para os EUA tem uma dimensão hemisférica e outra mundial. A tradição é dar ênfase à relação dos EUA com o Brasil no plano do chamado Hemisfério Ocidental. Nesse plano, o encontro deu sinais importantes. Primeiro deles: como definiu a revista “Time”, na edição desta semana, Lula firmou-se como a “melhor aposta” para aproximar o governo Obama da esquerda que governa boa parte dos países do continente. Lula teve aval do venezuelano Hugo Chávez para levar sinais de paz à Casa Branca. Mais discreto, o boliviano Evo Morales indicou a Lula que gostaria de encontrar-se com Obama às margens da reunião da Cúpula das Américas, em abril, onde o Brasil será ator de destaque.

Também notável foi o anúncio feito por Lula de que o Brasil promoverá a formação de uma instituição sul-americana para cuidar, sem participação dos EUA, do combate a drogas no continente. Tarefa inadiável e complicada. Na Bolívia, por exemplo, a receita com o gás natural tende a cair, deixando sem muitas opções de renda a economia do país. Vale lembrar que o presidente da República, lá, fez questão de manter, depois de eleito, o posto de presidente do sindicato de cultivadores de coca.

Como nota o embaixador brasileiro nos EUA, porém, a dimensão do Brasil se expandiu para além do continente, e também nesse aspecto é um avanço importante a abertura de um canal direto com o governo Obama, para discutir as soluções em discussão para a crise econômica global. É difícil imaginar que o secretário do Tesouro, Thomas Geithner, vá consultar o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ou o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, para decidir os próximos passos a tomar na crise; mas a criação de um regime de contatos regulares entre as duas equipes econômicas tem o potencial de aumentar em muito a qualidade do processo decisório e a esfera de ação das autoridades brasileiras.

Resta das acusações de antiamericanismo contra o governo brasileiro a constatação de que, desde os anúncios de parceria estratégica, ainda no governo Bush, pouco andaram os grupos de trabalho criados ou o comemorado Fórum de Altos Executivos Brasil-EUA; e os interesses estritamente bilaterais perderam espaço na agenda em Brasília.

Baseada em evidências como a delicada economia do México, maior parceiro americano no continente, e a recusa americana em aprovar até hoje acordos de livre comércio já assinados com parceiros fiéis como a Colômbia, há uma convicção no governo brasileiro de que as diferenças essenciais de interesse entre os dois países recomendam certo descolamento da agenda americana. Se os mecanismos de parceria criados com o governo dos EUA forem postos em funcionamento desta vez, o governo poderá argumentar mais facilmente que suas ações não são guiadas por preconceitos ideológicos, mas por frio e saudável pragmatismo.

Sergio Leo é repórter especial e escreve às segundas-feiras

E-mail sergio.leo@valor.com.br

15/03/2009 - 09:38h Lula encontra Obama e anuncia ação conjunta para cúpula do G20

Brasil e EUA vão constituir grupo com objetivo de apresentar plano na reunião que discutirá saídas para a crise

 

Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP

 


Os presidentes Barack Obama e Luiz Inácio Lula da Silva vão constituir um grupo formado por Estados Unidos e Brasil para apresentar um plano de ação na reunião do G20, que vai discutir saídas para a crise mundial no dia 2 de abril, em Londres. “Foi muito importante a proposta de Obama para constituirmos um grupo Brasil-EUA para preparar um trabalho conjunto na reunião do G20″, disse Lula ontem, em entrevista coletiva, após o encontro que teve com o presidente americano na Casa Branca.

Segundo Lula, o grupo vai unir Brasil e Estados Unidos para debater que tipo de regulamentação financeira será necessária, como serão reconstituídos os fluxos de crédito internacional e como aportar mais recursos em instituições multilaterais para financiar os países em desenvolvimento.

Apesar de declarar a aliança com os EUA para o G20, Lula mostrou ter algumas divergências em relação à abordagem americana e voltou a dizer que os EUA são os maiores responsáveis pela crise financeira global. “A crise econômica surgiu no coração dos países ricos, eles têm a responsabilidade de achar saídas. Os Estados Unidos sabem que têm mais responsabilidade”, declarou.

Lula, Obama e suas comitivas se reuniram por quase duas horas para discutir a crise econômica mundial, o problema do protecionismo, biocombustíveis e as relações dos Estados Unidos na América Latina.

A comitiva de Lula chegou às 10h56 à Casa Branca, para o encontro que começou pontualmente às 11h. Ele foi o primeiro presidente latino-americano a se encontrar com o novo presidente americano.

No lado brasileiro, participaram da reunião a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), o ministro Celso Amorim (Relações Exteriores), o embaixador Antonio Patriota, o assessor para Assuntos Internacionais Marco Aurélio Garcia e a chefe de gabinete de Amorim, Maria Laura. No lado americano, James Steinberg, subsecretário de Estado; general James Jones, titular no Conselho de Segurança Nacional; Thomas Donilon, vice no Conselho; Dan Restrepo, assessor para assuntos de Hemisfério Ocidental do Conselho de Segurança Nacional; e Larry Summers, presidente do Conselho de Assessores Econômicos.

Lula comemorou a união com os EUA para encontrar soluções anticrise, mas manifestou ter posições diferentes das apresentadas até agora pelo governo americano. Ele defendeu, por exemplo, a nacionalização dos bancos como parte da solução da crise. “Aqui nos Estados Unidos falar a palavra estatização, nacionalização, é uma coisa difícil, mas concretamente precisamos fazer o dinheiro voltar ao mercado”, disse. “Se o povo não acredita no atual sistema financeiro, quem pode dar solução se não o Estado?” Ele também fez uma crítica aos resgates dos bancos. “A solução da crise não é a gente ficar dando dinheiro para os bancos.”

Na frente de Obama, Lula também se disse preocupado com o fato de os Estados Unidos estarem aumentando muito seu endividamento e reduzindo o crédito disponível para os países emergentes. “Isso terá de ser discutido no G20.”

O presidente americano quer ter o Brasil como aliado nas discussões anticrise do G20 em Londres. Os EUA defendem um pacote de estímulo coordenado entre os países do grupo. Já a Europa quer dar prioridade para uma maior regulamentação transacional do sistema financeiro, medida que agrada também ao Brasil. “Não podemos abrir mão de regulamentação financeira e vamos discutir a dimensão dessa regulamentação no G20″, disse Lula. Obama e o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, defendem um aumento substancial dos recursos do FMI para que o fundo possa auxiliar economias em crise, como as do Leste Europeu, e viabilizar um estímulo fiscal global. Os EUA aumentariam sua contribuição para o FMI, mas esperam que outros países, entre eles Brasil, China e Índia, façam o mesmo.

Os dois presidentes se comprometeram a combater o protecionismo, mas jogaram um balde de água fria no avanço do comércio mundial. “Nosso objetivo é que pelo menos não haja retrocesso (no comércio)”, disse Obama, comentando o protecionismo. “Será difícil para nós concluirmos uma série de tratados de comércio em meio a uma crise econômica.” Obama afirmou que a secretária de Estado, Hillary Clinton, e Celso Amorim vão se encontrar para discutir formas de combater o protecionismo.

FRASES

Luiz Inácio Lula da Silva
Presidente do Brasil

“A crise econômica surgiu no coração dos países ricos, eles têm a responsabilidade de achar saídas. Os Estados Unidos sabem que têm mais responsabilidade”

“A solução da crise não é a gente ficar dando dinheiro para os bancos”

Barack Obama
Presidente dos EUA

“Nosso objetivo é que pelo menos não haja retrocesso (no comércio)”

“Será difícil para nós concluirmos uma série de tratados de comércio em meio a uma crise econômica”

THE NEW YORK TIMES

A versão online do jornal reproduziu, com texto de agências de notícias, Lula dizendo que Obama está “convencido” de que o encontro do G20 no mês que vem “pode resolver a crise econômica”. O jornal contou a brincadeira de Lula com Obama quando disse que não gostaria de estar na posição do americano. O texto termina falando do desejo manifestado por Obama de conhecer o Rio de Janeiro.

CLARÍN X

O jornal argentino trouxe a seguinte manchete em sua versão online: “Lula se encontra com Obama e defende que não se perca tempo apontando culpados”. O texto destacou a afirmação do brasileiro sobre a necessidade de os países buscarem uma solução para a crise no encontro do G-20. A reportagem tratou ainda da declaração de Lula sobre a “responsabilidade histórica” de Obama.

EL PAIS

O jornal espanhol destacou declaração de Obama de que os EUA “têm muito a aprender com o Brasil” no campo de energias renováveis. O texto fala do convite de Lula a Obama para que conheça um carro flex quando vier ao Brasil. “Viagem que o presidente americano disse que pretende fazer em breve”, destaca. A reunião, completou o jornal, “foi descontraída e com brincadeiras dos dois lados”.

BBC

O serviço online da inglesa BBC trouxe Lula pedindo a atenção de Obama para os “riscos” do protecionismo. A reportagem informa que o brasileiro defendeu ainda uma ação contra crise no encontro do G-20. O texto destaca que Lula foi um dos primeiros líderes internacionais a visitar Obama na Casa Branca, concluindo: “Um indicativo do crescimento da importância do Brasil na cena internacional.”

18/12/2008 - 06:44h Crítica à presidenta de Chile se alimenta do machismo

PRESIDENTE AO MAR:
GOVERNO CHILENO SAI EM DEFESA DE MERGULHO DE BACHELET

O banho de mar da presidente Michelle Bachelet, 57, fotografada com uma assessora às 6h30 da manhã na Costa do Sauípe (Bahia), onde participou de quatro cúpulas regionais, provocou polêmica no Chile. O Palácio de la Moneda se viu obrigado a sair em defesa da mandatária. O secretário de Governo, Francisco Vidal, lembrou que não havia compromissos oficiais tão cedo. “A presidente se mata de trabalhar pelo Chile. Se ela acorda cedo e está de frente à praia, qual é o mal de dar um mergulho? Um presidente ou uma presidente pode ter vida privada? Seria bom um pouquinho.” O paraguaio Fernando Lugo também foi fotografado andando na praia de short e camiseta, mas não entrou no mar. Fonte Folha SP

EFE
A presidente chilena Michelle Bachelet toma banho de mar na Costa do Sauípe (BA)
A presidente chilena Michelle Bachelet toma banho de mar na Costa do Sauípe (BA)