06/05/2009 - 11:27h Na contramao de Serra, o tucano Beto Richa afirma: “Minha Casa, Minha Vida” é um programa bom para todo mundo. Não há quem perca aderindo”

Municípios: Prefeito mais popular de capital, tucano atuará na mediação da disputa interna na legenda


Richa vê benefícios apartidários no projeto habitacional

Ivonaldo Alexandre/Valor

Beto Richa (PSDB) prefeito de Curitiba

Marli Lima e Maria Cristina Fernandes, de Curitiba  – Valor

Ivonaldo Alexandre/Valor
Beto Richa, prefeito de Curitiba: Eleito em 1º turno com 77% dos votos, tornou-se o prefeito mais popular com 82% de ótimo e bom

Dos detentores de cargos majoritários representativos no PSDB, o prefeito de Curitiba, Carlos Alberto Richa, tucano recordista de votos é hoje o mais bem avaliado administrador de capital. Eleito com 77% dos votos no primeiro turno, chegou a 82% de ótimo e bom pelo último Datafolha de março.

A carreira em ascensão num partido que tem desacelerado a conquista de postos majoritários sob o governo Luiz Inácio Lula da Silva não impediu que o prefeito fosse o primeiro, de capital, a assinar convênio com a Caixa Econômica Federal para projetos conjuntos no âmbito do programa nacional de habitação “Minha Casa, Minha Vida”. O prefeito orgulha-se das parcerias com o governo federal, as únicas, em âmbito federativo, já que o governador do Paraná, Roberto Requião (PMDB), paralisou todos os convênios entre o Estado e a capital.

Não teme que sua adesão a uma das principais vitrines da campanha da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que contrasta com as reticências dos tucanos paulistas, dê fôlego à adversária e a seus aliados locais. “É um programa bom para todo mundo. Não há quem perca aderindo”, diz.

É com o aval de tucano em ascensão com bom trânsito federal que Richa se prepara para ter mais presença nas negociações internas de seu partido com vistas à sucessão presidencial de 2010.

Discreto e contemporizador, Richa circula por cidades do interior, interessado em viabilizar sua candidatura ao governo do Estado, com a mesma desenvoltura com que tem frequentado reuniões na capital paulista com vistas a traçar estratégias que visem à unidade do partido em 2010.

No gabinete de cores vivas – uma em cada parede – herdadas do ex-prefeito Rafael Greca, hoje aliado do governador Roberto Requião, com quem Richa tem diferenças, recebeu recentemente o governador José Serra. Ao lado de sua mesa, exibe uma foto em que aparecem o governador paulista ao lado de seu pai, José Richa, governador do Estado falecido em 2003 e um dos fundadores do partido, na fracassada campanha do prefeito ao governo do Paraná, em 2002 .

Richa está ciente do favoritismo do governador paulista na sucessão de Lula, mas tem bom relacionamento com Aécio (com quem também tem foto no gabinete) e planeja fazer uma visita ao colega em breve. “Para ver no que posso ajudar”, diz. Durante a campanha de 2008, tanto Serra como Aécio fizeram questão de dar apoio pessoalmente a Beto, participando de eventos de sua campanha eleitoral.

Engenheiro civil, 43 anos, o prefeito tem três filhos. O mais velho, Marcello, está com 23 anos e conclui Direito este ano. Ensaia os primeiros passos para virar político com o entusiasmo da mãe e o ceticismo do pai. Casado com Fernanda, neta do fundador do banco Bamerindus, Avelino Vieira, o tucano nasceu em Londrina, Norte do Paraná.

Começou na política em 1994, elegendo-se deputado estadual, foi reconduzido à Assembléia em 1998 e, em 2000 foi eleito vice-prefeito de Curitiba na chapa de Cássio Taniguchi, do então PFL, e da linhagem marcada pelas intervenções urbanas de Jaime Lerner. Derrotado em 2002 por Requião para o governo do Estado, elegeu-se em 2004 a prefeito de Curitiba, derrotando o candidato do PT, Ângelo Vanhoni, com 55% dos votos válidos.

Ao assumir a prefeitura, desfez-se de grande parte da equipe de Taniguchi e chamou para trabalhar ao seu lado alguns antigos colaboradores do pai. Sua campanha foi coordenada por outro tucano histórico, Euclides Scalco, ex-presidente da Itaipu binacional, e um de seus principais conselheiros políticos.

A oposição o acusa de conduzir uma administração menos inovadora do que a de predecessores, como Lerner. Transformada em cidade modelo, Curitiba já estaria padecendo de problemas comuns às grandes metrópoles, como trânsito e periferia inchada. As acusações não ecoam na popularidade recorde.

Richa acredita que a campanha presidencial do PSDB deve ser movida pelas alternativas à crise econômica. Ainda crê numa chapa que reúna Serra e Aécio na disputa presidencial

O prefeito diz que o PSDB terá que se desfazer das dubiedades que marcam a imagem da legenda para assumir um discurso que reconheça os avanços do governo Lula e proponha ir além.

Contemporâneo do governador de Minas, Aécio Neves, apenas seis anos mais velho que o prefeito, Richa também divide com o mineiro a condição de mantenedor de uma herança política familiar, mas não comunga do discurso antipaulista que prospera em Minas. Descrê que esse embate venha a prosperar no PSDB. – “Temos muita proximidade com os paulistas. A própria fundação do PSDB, teve uma grande contribuição original do meu pai, mas foi liderada pelos tucanos de São Paulo”.

26/11/2008 - 11:40h PT: reflexões de Gleisi Hoffman

Por onde o PT se renova

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Rosângela Bittar – VALOR

Aguerrido, como se sabe, no presente, mesmo sem muitas opções à escolha, o PT, ao contrário de seus principais adversários, preocupa-se, sim, com o futuro, e tem permitido que novas lideranças, insinuadas nas duas últimas eleições majoritárias, desenvolvam suas chances. Exemplo puro desta situação é o da paranaense Gleisi Hoffman, 43 anos, dois filhos, duas campanhas eleitorais – candidata a senadora, teve 2,3 milhões de votos (começou com 2%) quando o vencedor ganhou com 2,5 milhões, e candidata a prefeita de Curitiba, recebeu 18% porcento dos votos – é atualmente presidente do PT do Paraná.

Vestida com elegância clássica, bastante articulada e pensamento organizado para o perfil do meio em que vem galgando degraus, Gleisi, depois de transitar dois dias em Brasília para contatos no governo e no partido, exibiu, docemente mas firme, uma avaliação resumida e realista sobre a política, tal como praticada no seu Estado e no seu partido, mostrando como vê o futuro e as tarefas mais urgentes.

“Não estou pensando em mim ou em 2012, o foco é 2010, para construirmos um bom palanque para a Dilma no Paraná”, afirma, referindo-se ao objetivo imediato, a candidatura da ministra chefe da Casa Civil a presidente da República, com apoio do presidente Lula. Neste palanque a que se refere há, para governador do Estado, dois nomes também em processo de construção. Um, Jorge Samek, presidente de Itaipu Binacional, e o outro o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, seu marido. Não está definido qual deles será o candidato do PT nem as alianças que serão firmadas com outros partidos para as demais candidaturas, mas é o trabalho a partir de agora

“Vamos fortalecer o projeto local com a consciência de que precisamos dar muita atenção ao projeto nacional”, assinala, indicando qual é a sua expectativa política, no momento: “Ter feito o Presidente da República, ter mudado tanto o país, e não conseguir manter isto”…Não pode, subentende-se de suas reticências.

Há algo com que Gleisi convivia mal, uma estranheza imposta a uma técnica formada na política pela prática eleitoral, mas que agora, como presidente do partido, terá que enfrentar, além de procurar formas de mudar as regras não escritas de que não gosta: a articulação política, interna, no PT, e com partidos aliados. “Estas articulações são conversações sem nenhum resultado concreto, articulações abstratas, e a vida está correndo”, traduz. Se há algo que a mobiliza é o desejo de levar a vida real para a política, interferir de forma direta no seu conteúdo. Destaca, por exemplo, que recentemente o Paraná registrou o assassinato brutal de cinco meninas, e o assunto ficou confinado à segurança. “Temos que trazer isso para a política, não adianta ficar só na polícia”.

Outro exemplo de quem reconhece ser a articulação política seu papel, mas pretende reinventá-la, é a questão agrícola. “O Paraná é um estado agrícola, o futuro da economia e da solução da crise está no agronegócio. Enfrentamos problemas sérios, como a crise do álcool, temos grandes produtores no Paraná, precisamos dar respostas”.

Gleisi se volta também para seu partido, o PT, que, segundo identifica, sofre um vácuo no planejamento do futuro. “Éramos um partido de esquerda, ganhamos as eleições em um país continental, passamos a administrar com uma coalizão de forças que não tinham a mesma visão dos problemas, isto gerou uma crise no partido. Quando nos preparávamos para viver este debate, veio outra crise, a do mensalão, e gastamos nossa energia nisto em vez de discutir os grandes temas. Chegou a reeleição do presidente, e nós não paramos para pensar”.

Afastando o conformismo com o que está posto, Gleisi dá indicações de que vai mudar, a começar do discurso. Política substantiva, não usa adjetivos para o governo, para a oposição, nem mesmo para os adversários locais. A análise é objetiva: “Beto (Richa) fez mais que (Cássio) Tanigushi, capitalizou bem os investimentos federais e nós não conseguimos capitalizar para o PT”. Ou: “As pessoas estavam indiferentes, não estavam querendo discutir política e não conseguimos politizar a campanha”. Richa, do PSDB, foi reeleito com quase 80% dos votos no primeiro turno, e Gleisi diz que, quem via a campanha de perto, imaginava que a disputa estava equilibrada. As pessoas me cercavam e diziam: ‘Estou em dúvida, gosto muito de você, mas gosto muito do Beto, por que te colocaram nisso logo agora?’ Na campanha para o Senado, Gleisi viajou todo o Estado, saiu mais conhecida mas com idéias mais diluídas. Na campanha municipal acredita ter sido possível expor melhor as idéias e explicar quem é, de onde veio e para onde quer ir.

Militante do PT desde 1989, Gleisi, formada em Direito, Administração Financeira e Gestão Pública, fez sua carreira, em alguns momentos, de forma paralela à de Paulo Bernardo. Foi Secretária de Reforma do Estado no Mato Grosso do Sul quando ele assumiu lá a Secretaria da Fazenda. Em outra fase, transferiram-se para Londrina, onde Paulo Bernardo foi Secretário de Fazenda e, ao deixar o governo para ser candidato a deputado, Gleisi se viu compatibilizada a assumir a Secretaria de Administração e Gestão. No Congresso, em Brasília, onde viveram outro período, trabalhou com Orçamento, área em que permaneceu quando integrou a equipe de transição para o governo Lula. Foi, no primeiro mandato do presidente, Diretora Financeira de Itaipu, de onde saiu para as recentes candidaturas.

Hoje, é presidente do PT no Paraná, e tem muitos planos. “Estamos fazendo uma intervenção política conjuntural. Isto nunca foi do PT”. Seu desafio é levar o partido à reflexão sobre seu papel meio a campanhas, eleições e sucessão. “Esta análise é que aproximará o partido da sociedade”. O que acha mais que necessário, principalmente em se tratando de um estado conservador, berço do MST onde, até por isto, o PT ainda inspira alta rejeição e onde, em 2006, o popularíssimo Lula foi derrotado no primeiro turno e só conseguiu empatar com seu adversário no segundo.

Rosângela Bittar é chefe da Redação, em Brasília. Escreve às quartas-feiras

E-mail rosangela.bittar@valor.com.br

04/09/2008 - 10:52h Greve por salário paralisa montadoras

Trabalhadores aprovando estado de greve no pátio da Ford

Cibelle Bouças – VALOR

Na segunda-feira, 8 mil metalúrgicos do Paraná que trabalham nas montadoras Volkswagen, Renault e Nissan fizeram uma paralisação de 24 horas em resposta à falta de uma nova contraproposta de reajuste salarial pelas empresas, prazo que foi estendido em 48 horas e, na ausência de uma nova oferta das montadoras, será convertida em greve por tempo indeterminado. Ontem, no Estado de São Paulo, 14,2 mil metalúrgicos fizeram paralisação de 24 horas em cinco fábricas, para forçar as indústrias a reverem suas propostas de reajuste salarial, cuja data-base é setembro – em um dos casos, com ameaça de greve por tempo indeterminado, dependendo da proposta feita pelas indústrias.

O risco de greve de cunho nacional – estratégia adotada pela última vez pela categoria em 2001 e substituída em anos recentes pelas chamadas greves-pipoca, localizadas e de curta duração – parece ter voltado a rondar as montadoras. Não existe um acordo entre Conlutas, Intersindical, Central Única dos Trabalhadores (CUT) e Força Sindical para criar um movimento de paralisação unificado mas, individualmente, essas lideranças sindicais seguem a mesma estratégia. E um ponto que deve preocupar as montadoras: a paralisação feita ontem na Mercedes-Benz de São Bernardo do Campo (SP) por 3 mil metalúrgicos com indicativo de greve por tempo indeterminado pode estimular a disseminação do movimento no ABC Paulista, que não passa por uma greve por reajuste salarial desde 2003.

“Com a paralisação, os trabalhadores estão mandando um recado. A intensidade dos protestos só vai aumentar se não houver avanço nas negociações”, disse Moisés Selerges, diretor-executivo do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. A paralisação na Mercedes foi feita em desagravo à proposta do Sindicato dos Fabricantes de Veículos Automotores (Sinfavea) de aumento de 1,25 ponto percentual sobre a inflação – menos da metade do reajuste acordado em 2007 e aquém do pedido dos metalúrgicos neste ano, de 5% de ganho real.

Na manhã de hoje, sindicalistas realizam assembléias na porta das fábricas da Volkswagen, Ford e Scania para discutir a possibilidade de paralisações nessas montadoras. Ontem, a Mercedes deixou de produzir 150 veículos e, no fim de semana, outros 400 deixarão de ser fabricados, já que os trabalhadores decidiram paralisar os três turnos extras implantados no fim de semana, para a acelerar a produção das linhas 2009. No fim de semana, 9 mil metalúrgicos da montadora deixarão de trabalhar em São Bernardo do Campo.

As greves ocorrem no primeiro momento do ano em que a euforia crescente trouxe sinais de acomodação. De janeiro a julho, as montadoras produziram 2,01 milhões de veículos, volume 21,8% superior ao de igual período do ano passado. Em licenciamentos (vendas internas), o aumento chegou a 30%, também na comparação com os primeiros oito meses de 2007. Depois desse forte avanço, contudo, as vendas de agosto mostraram um crescimento mais tímido em comparação com o mesmo mês de 2007, de 4,05%. A indústria já esperava índices menores (por causa da base de comparação mais forte), mas o resultado veio abaixo do esperado e, junto com o aumento de estoques (com a média de veículos disponíveis para venda passando de 216 mil para 250 mil unidades), acendeu sinais de alerta no setor.

Enquanto os metalúrgicos miram os resultados até julho para ancorar seu pedido de aumento real de 5%, as montadoras usam agosto e as recorrentes notícias de que o governo pode adotar medidas para conter o financiamento de automóveis para justificar a cautela e oferecer 0,5% de aumento real. Neste ano, ao contrário de outros momentos, os metalúrgicos têm a seu favor a recuperação do emprego. Dados da Anfavea mostram que, em julho, as montadoras estavam empregando 129,4 mil metalúrgicos, número 13% superior ao de igual mês de 2007.

No Paraná, por conta da paralisação iniciada segunda-feira, a Volkswagen-Audi deixou de produzir cerca de 1,7 mil automóveis. Na Renault, a perda foi de 1,6 mil veículos, segundo o Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Curitiba. Uma unidade da Volvo ficou parada por 24 horas e voltou a operar terça-feira, à espera de uma nova proposta até hoje. “Se não houver proposta, o movimento vai se encaminhar para a greve por tempo indeterminado a partir de quinta-feira [hoje]“, afirmou Sérgio Butka, presidente do sindicato.

No interior paulista, a estratégia dos sindicatos está concentrada nas greves-pipoca. Ontem, na região de Campinas, metalúrgicos das montadoras Honda (3.500), Toyota (1.900) e Mercedes Benz (800) realizaram paralisação de 24 horas. “Nos últimos anos, adotamos a greve-pipoca como estratégia. Estoura aqui e ali e logo todos voltam a trabalhar. Mas passou a ser importante ampliar esse movimento porque os empresários estão muito resistentes a aceitar as propostas dos metalúrgicos”, afirmou Eliezer Mariano da Cunha, diretor do sindicato de Campinas.

Na segunda-feira, a metalúrgica Wirex Cable, do setor de eletroeletrônicos, ficou parada. Ontem, foi a vez dos 5 mil metalúrgicos da General Motors. A paralisação afetou a produção de 950 a 1 mil veículos. Hoje, disse Vivaldo Moreira Araújo, diretor do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, outras empresas terão sua atividade parada sem aviso prévio. “Cada dia será uma fábrica. E se o patronato não melhorar a proposta, não vamos ter outra opção que não seja a greve por tempo indeterminado”, afirmou Moreira. Os metalúrgicos do interior de São Paulo pedem aumento real de 9,17% e garantia de gatilho salarial quando a inflação atingir 3% em 12 meses. A última proposta feita pelo Sinfavea foi de 1,25% de aumento real. Procurada, a assessoria de imprensa da entidade informou que não comenta detalhes das discussões com os trabalhadores.

03/07/2008 - 20:40h A exposição “Magnum 60 Anos” é exibida em Curitiba

© Foto de Marc Riboud.

Depois de passar pelo Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e Brasília, chegou a Curitiba, na Galeria da Caixa, a exposição “Magnum 60 Anos”, que é uma amostragem das seis décadas de existência da mítica agência Magnum, cujas lentes dos fotógrafos registraram os grandes fatos que marcaram a segunda metade do Século 20 no mundo. Composta por imagens do arquivo da agência, “Magnum 60 Anos” apresenta 50 fotografias coloridas e em preto-e-branco. A curadoria é de João Kulcsár. Uma verdadeira geração de ouro do fotojornalismo, composta por Henri Cartier-Bresson, Robert Capa, David “Chim” Seymour e George Rodger, foi a responsável pela fundação da Magnum, em 1947. Organizada como uma cooperativa, a agência permitia aos seus membros liberdade e independência, direito aos negativos, direito à assinatura e direito à edição do próprio ensaio fotográfico. A agência mantém até hoje um arquivo com mais de um milhão de imagens em preto-e-branco e cor. A Magnum já publicou mais de 100 livros de fotografia e realizou mais de 120 exposições no mundo. Magnum 60 Anos. Galeria da Caixa. End.: R. Conselheiro Laurindo, 280 – Edifício Sede II. Até 20 de julho. Fonte: Portal Photos.

Images&Visions

07/04/2008 - 07:57h Cidade que foi modelo tem recorde de carros por habitante

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Ponto de ônibus em Curitiba

VALOR – Marli Lima, de Curitiba

Cidade referência em mobilidade urbana, Curitiba terá um intenso debate sobre o tema na campanha municipal. A cidade inovou em soluções para o transporte público e exportou idéias para outros municípios brasileiros e até para o exterior. Mas, nos últimos meses, convive com engarrafamentos e reclamações tanto de usuários de ônibus como daqueles que transitam de automóvel. Obras ajudam a complicar o tráfego no centro e não dão a certeza de que a situação irá melhorar no futuro, quando estiverem concluídas. Por isso, os pré-candidatos ao cargo ocupado pelo tucano Beto Richa preparam suas propostas para que a capital do Paraná “descongestione”.

A implantação de linhas de metrô voltará a ser debatida ao lado de outras soluções. “Nos últimos quatro anos não foi feita uma única obra estrutural em Curitiba”, comenta o pré-candidato do PMDB e reitor da Universidade Federal do Paraná, Carlos Augusto Moreira Júnior. Diz que o metrô é necessário, mas, se não houver dinheiro para fazê-lo, é preciso melhorar o transporte de superfície. “Era previsível o colapso e não foi feito o dever de casa”, afirma. Para o presidente do PMDB municipal, Doático Santos, faltam trincheiras (pequenos túneis) e viadutos.

Na visão do deputado estadual Osmar Bertoldi, pré-candidato pelo DEM, “é preciso trazer para o transporte de massa quem tem carro”. Segundo o democrata, viadutos e trincheiras só transferem o problema para a esquina seguinte. Conciliar moradia com trabalho próximo e dar preferência ao pedestre com calçadas e iluminação de qualidade, para que ele deixe o carro na garagem, são algumas de suas sugestões. Também cita rotas estruturais para bicicletas, a extensão de ciclovias a terminais de ônibus e a necessidade de pesquisar a origem e o destino das pessoas para oferecer a elas conforto e rapidez no sistema público.

A implantação do metrô será uma das bandeiras do pré-candidato do PSC, o deputado federal Ratinho Júnior. “Não se concebe o aumento das frotas convencionais de transporte coletivo, especialmente em um município de vanguarda como Curitiba, quando há alternativa mais avançada”, disse, recentemente, em discurso em Brasília.

A pré-candidata do PT, Gleisi Hoffmann, diz que faltou planejamento nos últimos anos e que a abertura e alargamento de ruas não resolverá o problema. “Nós nos deparamos com os mesmos problemas de outras metrópoles”, afirma. Para ela, o metrô é uma das soluções, mas por ser demorado, a administração precisa de imediato tornar atraente o transporte público.

O prefeito Beto Richa ainda não oficializou a candidatura à reeleição e, nos últimos dias, viu crescer o número de críticas ao trânsito e ao transporte. Seu braço direito na área de Urbanismo, o diretor-presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano, Augusto Canto Neto, defende que tanto o sistema viário como o transporte coletivo têm recebido o maior volume de investimentos na atual gestão. Segundo ele, de janeiro de 2007 até agora, dos R$ 250 milhões em obras, R$ 195 milhões foram destinadas a essas áreas.

“O planeta sofre com o excesso de carros nas ruas”, argumenta Canto Neto. Cita, entre as medidas adotadas recentemente para uma das mais motorizadas cidades do país, o estímulo ao uso consciente do carro, carona solidária, restrições a estacionamentos no centro e criação de binários (vias paralelas com tráfego em sentidos opostos).

Canto Neto promete outras melhorias, como o desalinhamento de estações que ficam em canaletas de ônibus, para permitir ultrapassagem. A intenção é fazer a velocidade média subir de 15 km/h para 24 km/h. Veículos batizados de “ligeirões” entrarão nessas vias para levar quem vai do centro aos bairros, sem paradas. O metrô também deverá sair do papel em 2009 e sua construção levará de seis a oito anos.

Segundo a prefeitura, o congelamento da tarifa de ônibus por três anos e o atual preço de R$ 1,90 ajudou a reduzir a queda de usuários. Em uma década, a redução foi de 18%, e nos últimos três anos 11% teriam sido recuperados. Após protestos e sugestões de ciclistas, também está em estudo um projeto que resultará na instalação de bicicletários com serviços de locação.

31/03/2008 - 04:13h José Carreras, o mito e o homem

Tenor espanhol fez o que pôde em apresentação em Curitiba, mas problemas técnicos evidenciaram problemas na voz

João Luiz Sampaio, CURITIBA – O ESTADO DE SÃO PAULO

O tenor espanhol José Carreras não precisou cantar uma só nota para conquistar a platéia presente a seu concerto na noite de sábado, em Curitiba. Bastou entrar no palco para ser ovacionado pelas mais de duas mil pessoas que estiveram no Teatro Positivo – ali estava uma das vozes mais belas da segunda metade do século 20, representante daquele punhado raro de artistas líricos cuja fama extravasa o mundo da ópera. Duas horas de música depois, no entanto, fica um gostinho melancólico nos ouvidos – o que vale mais, afinal: o mito ou o homem?

Carreras surgiu no cenário nos anos 70. Foi logo adotado pelo maestro Herbert Von Karajan – o belo timbre, a técnica refinada, um canto que saboreava cada palavra de personagens como o jovem apaixonado Rodolfo, de La Bohème, um de seus primeiros grandes papéis: enquanto Luciano Pavarotti e Plácido Domingo disputavam o posto de maior tenor da época, Carreras corria por fora. Até que, no fim dos anos 80, foi diagnosticado com leucemia, iniciando uma longa luta contra a doença. Saiu vitorioso e, o destino faz dessas coisas, voltou à cena ao lado justamente de Pavarotti e Domingo, iniciando, em 1990, a série de concertos dos Três Tenores, franquia mais bem-sucedida da história da ópera.

Ao chegar a Curitiba, Carreras falou sobre o projeto. Repetiu aquilo que os três sempre defenderam – o objetivo da iniciativa foi criar, com concertos ao ar livre, quase sempre para multidões, um novo público para a ópera. Quase 20 anos depois do surgimento da série, porém, cabe a pergunta: será que se criou um novo público para a ópera ou, na verdade, se criou um novo gênero, uma mistura de música popular e ópera, com estilos e interpretações próprias emprestadas de uma para a outra, gerando filhotes como Sarah Brightman, Andrea Boccelli, Charlotte Church?

O próprio Carreras, hoje, sobrevive à luz dessa mistura. Longe da ópera, o repertório de sua apresentação em Curitiba foi um mosaico de canções italianas, catalãs, operetas austríacas e espanholas, as chamadas zarzuelas. Individualmente, cada uma delas têm seu encanto: Marechiare, Era de Maggio, Musica Proibita, Chitarra Romana, Granada. Em conjunto, no entanto, formam um programa que esbarra no kitsch, com arranjos sinfônicos bonitos, sim, mas que matam a espontaneidade de sentimentos que, afinal, está na gênese de sua criação.

Carreras, não há dúvida, é um grande artista. Extrai o máximo dessas canções, constrói momentos dramáticos interessantes onde é possível fazê-lo. O belo timbre ainda aparece e é notável a maneira como consegue preservar contrastes na voz, que, se perdeu o brilho nas notais mais agudas, ganhou força nos graves. Mas as falhas no sistema de microfones, duplicando sua voz e causando efeitos incômodos sempre que o cantor se movimentava, se distanciando ou aproximando dos microfones posicionados no chão do palco, eram um lembrete constante de que aquele era um artista longe de seu auge, com problemas de sustentação e emissão. Carreras, por tudo que significou e ainda significa, merecia tratamento melhor por parte da produção do espetáculo.

Ao seu lado, participou do concerto a soprano chilena Veronica Villarroel. É um timbre encantador, espontâneo, bonito mesmo. Couberam a ela os únicos trechos de ópera da noite – entre árias de Adriana Lecouvrer e A Força do Destino, seu melhor momento foi “Un Bel Dì”, de Madame Butterfly. Juntos, ela e Carreras fizeram um dueto muito bonito, “Lippen Schweigen”, da opereta A Viúva Alegre, de Franz Léhar; e o mesmo vale para o dueto da zarzuela El Dúo de la Africana, de Manuel Caballero, com sua complicada mistura de ritmos tradicionais espanhóis. Foram os dois grandes momentos do espetáculo, no que colaborou a atuação da Sinfônica do Paraná, regida por Enrique Ricci, evidenciando a boa acústica do novo teatro.

Como bis, uma homenagem à música brasileira – Carreras cantou Manhã de Carnaval, Veronica escolheu Eu Sei Que Vou Te Amar. Mas a elegante inclusão de músicas brasileiras no programa virou patriotada barata com uma enorme bandeira brasileira descendo no fundo do palco ao som de Aquarela do Brasil, levando a platéia de VIPs e autoridades (aquelas que permaneceram até o final, pelo menos) ao delírio.

A pergunta do começo permanece. O que vale mais: o mito ou o homem? É bem provável que a resposta esteja em algum lugar no meio do caminho, o que a gente chama de realidade. Ou na escolha da emoção – lágrimas, afinal, podem surgir da mais profunda satisfação; ou da melancolia mais nostálgica.