29/12/2010 - 09:46h Ajuste fiscal? Sim, mas não apenas em 2011

Mansueto Almeida – O Estado de S.Paulo

Este final de ano termina com uma promessa ousada do novo governo quanto à necessidade de um choque fiscal já para 2011, o que parece ser resultado de algo que se tornou consensual: a velocidade do crescimento do gasto público, nos últimos dois anos, foi muito rápida e não diminuiu no pós-crise.

Ao longo dos dez primeiros meses de 2009, o crescimento do gasto público não financeiro do governo federal foi de R$ 65 bilhões e, neste ano, foi de R$ 76,1 bilhões (excluindo a capitalização da Petrobrás). Uma boa notícia é que o investimento público da União vem mostrando um bom crescimento, com expansão de R$ 12 bilhões até outubro. Mas mesmo se descontássemos toda a alta do investimento, o crescimento da despesa não financeira do governo federal seria de R$ 64 bilhões – quase igual para o mesmo período de 2009.

Assim, dado que o Brasil precisa aumentar a taxa de investimento público (além do privado) e controlar a expansão da demanda, seria imperioso um forte ajuste fiscal, ou melhor, um choque fiscal já em 2011. No entanto, dada a estrutura atual dos gastos não fiscais no Pais, seria prudente aumentar o esforço fiscal, ainda que de forma gradual, em quatro anos, em vez de tentar um grande ajuste fiscal apenas em 2011.

Pelos seguintes motivos: primeiro, nos dois anos de crescimento do resultado primário, 1999 e 2003, coincidentemente anos do início de novos mandatos, o aumento planejado do superávit primário veio, em grande parte, de uma forte queda do investimento público. Em 1999, o investimento público foi cortado em 33% e, em 2003, o corte foi ainda maior, 50%.

O Brasil já está com o cronograma de investimento público atrasado nos portos, aeroportos e rodovias. Assim, em vez de cortar esses investimentos, seria recomendável cortar as demais despesas, o que exigirá uma agenda de reforma fiscal não para um, mas para os próximos quatro anos.

Em segundo lugar, o espaço para se fazer ajuste fiscal em cima do corte de custeio é pequeno no curto prazo, mas grande em quatro anos. O gasto de custeio total (GND-3), em 2009, foi de R$ 510,9 bilhões. Quando se retiram dessa conta os gastos com Loas, Bolsa-Família, seguro-desemprego e PIS/Pasep (R$ 59,4 bilhões), previdência (R$ 217,4 bilhões), repartição de receita (R$ 122,4 bilhões), o custeio da função saúde e educação (R$ 61,2 bilhões), sobram apenas R$ 50,4 bilhões. A quantia corresponde a 1,60% do PIB de 2009, de uma despesa total deste ano que foi de R$ 572,2 bilhões – ou 18,20% do PIB. Reduzir o custeio exigirá redução não só de despesas com manutenção da máquina pública, mas também das despesas obrigatórias e INSS. Vale lembrar que o importante nem sempre são cortes nominais na despesa, mas controlar o seu crescimento para que o seu peso no PIB seja decrescente.

Terceiro: seria bom que, dessa vez, ao contrário de 1999 e 2003, o ajuste fiscal viesse do corte das despesas, sem o uso de artifícios contábeis. Em 1999, do aumento programado do superávit primário em 1,1 ponto porcentual do PIB, a maior parcela veio do crescimento da carga tributária em 0,9% do PIB e, em 2003, mais da metade do crescimento do primário veio da alta do saldo dos “restos a pagar processados” – investimentos efetuados no exercício, mas que deixaram para ser pagos no ano seguinte. Nos últimos dois anos , o Tesouro abusou de truques contábeis no calculo do superávit primário e seria ruim continuar fazendo o mesmo. O ajuste fiscal tem que ser real, e não baseado em truques contábeis.

Em resumo, a agenda de reforma fiscal terá que olhar para os próximos quatro anos, controlar o crescimento do salário mínimo real (que impacta o crescimento das contas do INSS, Loas e seguro-desemprego), o reajuste dos funcionários públicos e também o custeio. O novo governo deveria se comprometer com uma trajetória de aumento da poupança pública para elevar a capacidade de investimento do setor público ao longo de todo o próximo governo. Não apenas em 2011.

MEMBRO DA DIRETORIA DE ESTUDOS SETORIAIS E INOVAÇÃO DO INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA)

04/05/2010 - 11:52h As contas públicas não são o que dizem por aí

Cuidado com os “agregadores”

3 de maio de 2010

José Paulo Kupfer – Blog do Estadão

Desconfie, quando se está falando de contas públicas, das análises baseadas apenas em dados agregados. Ao misturar alhos com bugalhos, elas podem conduzir a erros de avaliação e a diagnósticos que distorcem a realidade.

As análises a partir do resultado das contas públicas do primeiro trimestre de 2010, divulgado semana passada, como em tantas outras ocasiões, padeceram desse mal já crônico. “Março apresentou o pior resultado da série e o primeiro déficit primário desde o seu início, um resultado que seria pior ainda não fosse o superávit primário de estados e municípios”, cantaram os “agregadores”.

O diagnóstico a que chegaram é o de que as contas públicas mostram uma tendência muito preocupante: os gastos públicos avançam em ritmo superior ao das receitas, com o agravante de essas crescem como nunca.

Daí para concluir que o governo – e, no caso, o governo federal – está fazendo e desfazendo, em ano eleitoral, não foi nem um passo. A idéia subjacente é a de que aumentam em proporções descontroladas a contratação de pessoal, a remuneração da “turma” e as despesas da “máquina”.

Quando, porém, se olham os dados desagregados, a visão que se tem é bem outra. Esse é o exercício honesto que o economista Amir Khair, experiente especialista em contas públicas, faz todo santo mês. O que Amir observou, ao examinar cada item de março e do primeiro trimestre, em resumo, foi o seguinte:

“A piora de resultados ocorreu na esfera dos estados e municípios devido a uma elevação anormal nas despesas com juros. A despesa de custeio do governo central cresceu neste trimestre em relação ao de 2009 em valores nominais 15,9%, abaixo do crescimento da receita líquida (receita total menos transferências a estados e municípios) que foi de 17%.”

A despesa total (custeio mais investimentos) registrou alta de 19,3%, ficando, de fato, um pouco acima das receitas. Mas, aí, o impacto mais forte veio dos investimentos, tão reclamados justamente pelos “agregadores”, com um aumento de 116% no trimestre sobre o mesmo trimestre de 2009. Os gastos de custeio subiram, no primeiro trimestre deste ano sobre o mesmo período do ano passado, 15,9%, abaixo do crescimento das receitas.

O grande vilão e suspeito de sempre, as despesas de custeio com “pessoal e encargos”, no primeiro trimestre deste ano, em relação ao primeiro trimestre de 2009, avançaram 7%. Comparado com as projeções para a inflação em 2010, é uma expansão mais do que moderada, muito longe do descabelamento que provoca.

Deveriam chamar mais a atenção as contas de juros dos estados e municípios. Elas cresceram, no acumulado de janeiro a março de 2010, três vezes o montante do mesmo período de 2009.

O resumo sereno da história, analisando como se deve, é que as contas públicas, se não se encontram no melhor dos mundos, estão longe do descontrole que as costumeiras avaliações descabeladas querem fazer entender.

27/04/2010 - 10:47h Carta do Ibre: Dois mitos das contas públicas

26-Abr-2010

A evolução das contas públicas é um tema quase que permanente do debate econômico no Brasil. Uma das razões para isso é que, ao longo de sucessivos governos, de forças políticas diversas, manteve-se a tendência de crescimento das despesas públicas acima do produto nacional e de ajustes fiscais baseados mais em aumento de receita do que na redução dos gastos. Em consequência, houve um aumento quase contínuo da carga tributária. Essa aparente indisciplina fiscal permanece como um ponto de fragilidade no marco de um desempenho macroeconômico que, em linhas gerais, é bastante positivo. Por isso, parece compreensível que as contas públicas estejam sempre na pauta de discussão.

O debate, porém, tornou-se um pouco repetitivo, talvez até, em parte, pela poderosa inércia política que condiciona a gestão do setor público no Brasil. Como não há reação às demandas de reformulação da política fiscal oriundas dos especialistas em contas públicas, estes passaram, algumas vezes, a assumir o papel de arautos de uma mensagem só, enunciando e reenunciando, de forma um pouco automática, sempre os mesmos diagnósticos e críticas. O efeito disso, por sua vez, foi o de anestesiar a sociedade para a importância da questão, já que a sensação geral é a de que nada muda — nem o comportamento do governo, tampouco as críticas.

De uns tempos para cá, contudo, têm surgido novas abordagens da questão fiscal que, de certa forma, avançam em relação aos diagnósticos tradicionais. São ideias que podem contribuir para, provocativamente, recolocar para a sociedade a crucial questão das características do Estado que os brasileiros desejam ter. Esta Carta apresenta duas dessas abordagens que, na verdade, são críticas a dois grandes mitos do debate sobre as contas públicas no Brasil. O primeiro diz respeito à possibilidade de melhora do desempenho fiscal com um “choque de gestão” que ataque as ineficiências do Estado brasileiro, e venha a gerar uma substancial economia das despesas de custeio da máquina pública. O segundo mito é apontar, como único motivo do baixo investimento do governo federal, os recursos limitados liberados para esse fim, uma vez que o grosso da receita pública seria direcionado para os gastos correntes.

Evolução

Para analisar a questão do custeio, é oportuno detalhar a evolução da despesa pública na última década. De 1999 a 2009, o gasto público federal real, deflacionado pelo IPCA do IBGE, cresceu a uma taxa média de 7,3% ao ano. Com isso, subiu de 14,1% para 18,3% do PIB no período. Não resta dúvida de que essa é uma trajetória de expansão significativa da despesa pública. Um exercício simples ilustra esse ponto. Se o gasto em 2009 correspondesse a 14,1% do PIB, ainda assim ele poderia ter se expandido a um ritmo real de R$ 16 bilhões por ano.

Não basta, porém, mostrar que a despesa aumentou fortemente para deduzir que essa expansão foi extravagante e irresponsável. É preciso, neste ponto, analisar as características do crescimento do gasto.

As contas fiscais divulgadas todos os meses pelo Tesouro Nacional não são, em princípio, muito elucidativas para esse fim. Basicamente, as despesas são classificadas como pessoal e encargos sociais, custeio e capital, transferências do Tesouro ao Banco Central e despesas do Banco Central. A conta de custeio e capital, por sua vez, é subdividida em quatro outras: despesas do FAT, subsídios e subvenções econômicas, benefícios assistenciais (Lei Orgânica de Assistência Social [LOAS] e Renda Mensal Vitalícia) e outras despesas de custeio e capital (OCC).

A rubrica OCC, em particular, é um “saco de gatos”, o que dificulta o trabalho de avaliar as diretrizes e as tendências básicas da despesa pública a partir da análise de sua evolução. Dentro dela encontram-se gastos sociais importantes, como os recursos do Bolsa-Família, as despesas do Ministério da Saúde com o Fundo Nacional de Saúde (FNS) e os gastos do Ministério da Educação com o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), que financia o programa nacional do livro didático, e o transporte e a alimentação escolar, entre outros itens ligados à educação. Dessa forma, despesas em importantes tarefas-fim do Estado, como o Sistema Único de Saúde (SUS) ou a merenda escolar, aparecem misturadas com passagens aéreas ou compras de material de consumo.

Esse e outros problemas de interpretação das contas públicas podem ser contornados com a introdução de um conceito de “custeio restrito”, que expurga dos gastos de custeio as seguintes contas: gastos com aposentadorias, reformas e pensões; gastos sociais (incluindo o Bolsa-família); despesas de benefício mensal ao deficiente e ao idoso; outros benefícios assistenciais; outros benefícios de natureza social (PIS/
PASEP e seguro-desemprego); outros auxílios de custeio dos Ministérios da Educação e da Saúde, abrangendo o FNDE e o FNS; e distribuição de receitas.

Divisão

Feito esse ajuste, é possível decompor o crescimento total de 4,3 pontos porcentuais do PIB da despesa pública federal não financeira entre 1999 e 2009: 1,7 ponto porcentual do PIB foi devido à rubrica do INSS; 1,3 de gastos sociais; 0,6 de investimento; 0,6 de custeio de saúde e educação; e 0,4 de pessoal. Essa soma, porém, dá 4,6 pontos porcentuais. Chega-se aos 4,3 acrescentando a queda de 0,3 ponto porcentual do custeio restrito, que saiu de 2,1% do PIB em 1999 para 1,8% em 2009.

O custeio restrito contém aquelas atividades que tipicamente estão na cabeça do cidadão comum quando este ouve o político inflamado pregar as virtudes do choque de gestão: despesas de escritório, de viagens (passagens e diárias), material de consumo e serviços de consultoria entre outras.

O volume dos gastos de custeio indica que, independentemente do tamanho ser adequado ou não (o que só um estudo muito mais detalhado poderia dizer), ele não é suficientemente inchado para que daí saia o grande ajuste fiscal brasileiro. Afinal, trata-se do único item da despesa pública a cair como porcentual do PIB nos últimos dez anos na classificação proposta, e não parece provável que a máquina do governo possa funcionar adequadamente com despesas de custeio (incluindo trabalho terceirizado) inferiores a 1% do PIB.

Fica claro também, na análise da evolução da despesa desde 1999, que o grosso do crescimento deveu-se ao mandato político democraticamente conferido pela população aos governantes, ao longo de dois governos situados no eixo do centro à centro-esquerda, para que expandissem e fortalecessem o estado de bem-estar social brasileiro. Alguns dos itens que explicam esse crescimento são quase que unanimidades, como os gastos sociais, que mais do que duplicaram, saindo de 0,6% para 1,3% do PIB; ou o custeio de educação e saúde, que dobraram, de 0,7% para 1,4% do PIB.

Outros podem ser mais polêmicos, como o salto das despesas do INSS de 5,5% para 7,2% do PIB, mas sem dúvida nenhuma correspondem ao anseio popular por transferências e garantias de rendas bancadas pelo Estado. É importante destacar também a forte influência da política de valorização do salário mínimo sobre aquela elevação. Na decomposição do aumento dos gastos, a ampliação de 0,4 ponto porcentual nas
despesas de pessoal, de 4,4% para 4,8% do PIB, é a componente responsável por cerca de 10% da expansão total dos gastos.

É evidente, portanto, que o grande salto da despesa pública federal entre 1999 e 2009 não se deveu a uma gastança desenfreada e descontrolada em benefício de pequenos grupos orbitando em torno do Poder Executivo. Ainda existem grandes e aparentemente injustificáveis distorções que merecem reavaliação, como o sistema de pensões absurdamente generoso. De maneira geral, no entanto, o aumento do Estado naquele período correspondeu à implantação de um projeto de sociedade com maiores e relativamente melhores serviços públicos essenciais, e com maciças transferências sociais e previdenciárias para grupos específicos, porém bastante amplos, como idosos, pobres, funcionários públicos e suas respectivas famílias.

Dessa forma, o tão defendido controle do crescimento da despesa pública implica rever, atenuar ou refrear as tendências engendradas por esse popularíssimo modelo — uma constatação pouco alentadora, mas que é um primeiro e vital passo da discussão sobre o Estado que os brasileiros querem.

Investimento

Independentemente do que ocorreu com os demais itens da despesa pública, porém, o baixo nível de investimento federal parece ser uma falha consensualmente apontada pelos observadores das mais distintas correntes econômicas e inclinações políticas. Hoje, o investimento público total no Brasil é proporcionalmente menos da metade do que era na década de 1970, apesar do grande aumento da carga tributária de um período para o outro, de aproximadamente 25% para 35% do PIB.

Não é de espantar, portanto, que, à esquerda e à direita, clame-se pela ampliação do papel do Estado na formação bruta de capital fixo, especialmente nos projetos de infra-estrutura. E o grande limitador, a julgar pela maior parte do que se tem escrito e comentado nos últimos anos, seria o avanço voraz dos gastos correntes sobre as receitas públicas.

De fato, se o governo federal partisse para uma grande ampliação dos seus investimentos, em algum momento ele bateria nos limites de recursos, e se veria obrigado a lidar com alternativas não muito agradáveis, como aumentar impostos ou cortar gastos correntes. Um interessante levantamento de Mansueto de Almeida, economista do IPEA, porém, aponta, claramente, que aquele dia ainda não chegou.
Segundo aquela análise, em muitas obras em que os recursos para a realização dos investimentos já foram autorizados e empenhados, o que limita a execução são diversos entraves, desde os burocráticos e administrativos até questões ligadas à licitação e controle do Tribunal de Contas da União (TCU).

No Orçamento federal de 2008, a dotação autorizada para investimento foi de R$ 54,97 bilhões, reduzido para R$ 53,4 bilhões na etapa da liberação dos chamados “empenhos” pela Secretaria do Orçamento Federal. Mas o investimento efetivamente realizado, isto é, pago, em 2008, foi de apenas R$ 28,3 bilhões, sendo que R$ 18,3 bilhões correspondem aos “restos a pagar” (RAP) de exercícios anteriores. A execução do investimento, portanto, foi de menos de 60% da dotação orçamentária reservada para essa rubrica.

O trabalho de Almeida consistiu em tabular as respostas dos relatórios de avaliação anual do Plano Plurianual de investimentos, que são respondidos pelos gestores dos diversos projetos de investimento
da União. A pergunta relevante é sobre as restrições que interferiram no desempenho das ações de maior impacto de cada programa de inversão. As opções são Orçamentárias, Financeiras, Judiciais, Administrativas, Tecnológicas, Gerenciais, Políticas, Institucionais, Tecnológicas, Licitações, Auditoria, Outras e “Não houve restrições”. Com a tabulação, foi possível avaliar — dentro do grupo dos programas para os quais houve recursos alocados no orçamento para execução — quais teriam sido as principais “travas” para o investimento público federal.

Falhas

O exercício revelou, de forma até certo ponto surpreendente, que as falhas parecem ser mais internas, isto é, relacionadas ao funcionamento da máquina pública, com uma presença relativamente menor dos problemas ligados ao ambiente institucional — isto é, exigências ambientais, auditorias dos tribunais de contas e rigidez dos processos de concorrência. Assim, liderando o ranking, figuraram as restrições administrativas, orçamentárias, financeiras e gerenciais.

Uma análise mais detalhada, porém, sugere que, quando se tomam os maiores programas de investimento, com orçamento anual superior a R$ 1 bilhão, o perfil das restrições muda. Em seis programas desse tipo, incluindo o “Brasil com Todo Gás” (inversões no setor de gás) e o “Desenvolvimento da Infraestrutura Aeroportuária”, as restrições administrativas permanecem no topo, mas a elas juntam-se as ligadas a auditorias e a licitações. As restrições ambientais são pouco citadas, mas isso pode ser explicado pelo fato de que os relatórios só começam a ser feitos a partir do momento em que o projeto se inicia, e as restrições ambientais tipicamente ocorrem antes da realização do investimento. Logo, se existentes, já teriam sido superadas.

Entre as conclusões do trabalho está a de que a questão orçamentária é um problema que aparentemente afeta mais os programas menores, mas não é um fator limitativo ao investimento dos grandes programas, cujos recursos foram autorizados e empenhados na Lei Orçamentária Anual (LOA). Fica claro também que a trava ao investimento público não se limita aos fatores sempre apontados como “vilões” pelo governo, como as licenças ambientais, a fiscalização pelos tribunais de contas e as exigências da Lei 8.666, a das licitações. Na verdade, não é claro que mudanças restritas a esses pontos resolvam o problema da baixa execução dos investimentos orçados. Sem um grande esforço para melhorar a organização da máquina pública, é provável que o governo federal continue a investir ainda menos do que os recursos já diminutos que reserva para esse fim.

27/04/2010 - 10:30h Revisitando mitos das contas públicas


Coluna Econômica –  Luis Nassif

Nos anos 90, o equilíbrio das contas públicas tornou-se um valor nacional. Mas um valor cercado de uma visão enviesada. De um lado, ignorando-se todos os reflexos sobre a dívida pública dos juros altos praticados pelo Banco Central. De outro, tratando toda despesa pública, mesmo as essenciais como se fosse desperdício – quando o grande objetivo da arrecadação dos impostos é a devolução dos recursos na forma de serviços públicos. Finalmente, ao não separar, nas despesas públicas, o que era despesa com pessoal dos recursos devolvidos à população na forma de serviços.

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Nesse jogo retórico entraram vários especialistas em contas públicas, cujo objetivo único não era o de compreender melhor a natureza dos gastos, mas de sempre levantar argumentos que legitimassem o corte de gastos essenciais.

O trabalho “Dois mitos das contas públicas», publicado pelo IBRE (Instituto Brasileiro de Economia), da Fundação Getúlio Vargas do Rio, procurou desmistificar esse jogo – surpreendentemente, aliás, já que a FGV-Rio sempre abrigou esse tipo de pensamento enviesado.

“O efeito disso, por sua vez, foi o de anestesiar a sociedade para a importância da questão, já que a sensação geral é a de que nada muda — nem o comportamento do governo, tampouco as críticas”, constata o trabalho.

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O trabalho identifica mudanças importantes na abordagem da questão fiscal, fugindo dos estereótipos criados por economistas como Raul Velloso e Fábio Gimbiagi.

O trabalho busca confrontar dois mitos sobre os gastos públicos: o de que a mera melhoria de gestão seria suficiente para atacar as ineficiências do Estado brasileiro; e o de que o único motivo para o baixo investimento público seja essa ineficiência, já que, segundo essa visão, o grosso da receita pública se destina a gastos correntes.

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O trabalho mostra que “de 1999 a 2009, o gasto público federal real, deflacionado pelo IPCA do IBGE, cresceu a uma taxa média de 7,3% ao ano”, passando de 14,1% para 18,3% do PIB no período. Mas, qual a razão?

O trabalho decorre às contas fiscais divulgadas pelo Tesouro Nacional. Nelas, há uma confusão de dados, especialmente no OCC (Outras Despesas de Custeio e Capital), onde se misturam desde recursos do Bolsa Família até passagens aéreas e compras de material de consumo.

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Para organizar os dados, o trabalho criou o conceito de “custeio restrito”, que tira dos gastos de custeio aqueles que voltam para a sociedade, como aposentadoria, reformas e pensões, gastos sociais etc.

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Decompostos os gastos de custeio, revelou-se um outro panorama para o crescimento de 4,3 pontos percentuais do PIB na despesa pública federal não financeira: 1,7 ponto porcentual do PIB foi do INSS; 1,3 de gastos sociais; 0,6 de investimento; 0,6 de custeio de saúde e educação; e 0,4 de pessoal. O custeio restrito revelou uma queda de 0,3 ponto percentual, caindo de 2,1% para 1,8% do PIB no período.

Há mais dados no trabalho, sobre a demora na execução dos gastos públicos.

Investimento público – 1

O trabalho analisa o baixo investimento público no Brasil, menos da metade do que era nos anos 70, apesar da carga tributária ter saltado de 25% para 35% do PIB. Estudos de Mansuteo de Almeida, do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) mostrou que grande parte da demora de se concretizar investimentos públicos está em entraves burocráticos e administrativos, ainda não resolvidos.

Investimento público – 2

No Orçamento federal de 2008, constata o trabalho, a dotação autorizada para investimento foi de R$ 54,97 bilhões. Mas o investimento efetivamente realizado foi de apenas R$ 28,3 bilhões, dos R$ 18,3 bilhões correspondem aos “restos a pagar” (RAP) de exercícios anteriores. Portanto, a execução do investimento foi de menos de 60% da dotação orçamentária reservada para essa rubrica.

Investimento público – 3

Para entender a razão, o trabalho tabulou as respostas de relatórios de avaliação anual do Plano Plurianual de Investimentos, preenchidos pelos gestores de projetos de investimento. Uma das perguntas é sobre as causas maiores para os atrasos. O balanço revelou que as causas eram muito mais internas, devido a problemas da própria máquina pública, do que razões institucionais, como leis, auditorias etc.

Investimento público – 4

As principais causas foram de ordem administrativa, orçamentária, financeira e gerencial. Mas as restrições dependem do tamanho dos programas. Naqueles com orçamento superior a R$ 1 bilhão, preponderam restrições administrativas, auditorias e licitações. Pouco se falou das restrições ambientais – pelo fato de só aparecerem depois do projeto iniciado ou são resolvidas antes de iniciado o projeto.

Investimento público – 5

Para investimentos menores, o principal fator é orçamentário. A conclusão final do trabalho é sobre a necessidade de um esforço interno para melhorar os processos administrativos do governo. Os efeitos são muito mais visíveis do que meros programas de redução de despesas ou problemas com licenças ambientais, ou problemas de licitação. A melhora ter que ser buscada em todos os níveis.

Brasil deve crescer 6%

O otimismo do mercado em relação à economia brasileira subiu mais um tom. No Boletim Focus do Banco Central, as instituições pesquisadas acham que o PIB avançará 6%, acima da taxa anterior de 5,81% da leitura anterior. A estimativa de produção industrial também aumentou, passando de 9,41% para 9,5%. Além disso, o saldo projetado da balança comercial para o final do ano subiu de US$ 10 bilhões para US$ 12 bilhões.