30/08/2009 - 16:12h Um ano depois, Brasil passa no teste e sai da crise maior do que entrou

Para especialistas, avanço do País e de outros emergentes é uma das características do mundo pós-crise

Fernando Dantas – O Estado SP


O Brasil saiu da turbulência global maior do que entrou. Às vésperas do mês em que se completa um ano da crise iniciada com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro, o otimismo com o País tornou-se consensual. “O fato de que o Brasil passou tão bem pela crise tinha mesmo de instilar confiança”, diz Kenneth Rogoff, da Universidade Harvard, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para Jim O’Neill, do Goldman Sachs, e criador da expressão Bric (o grupo de grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China), “o Brasil passou por essa crise extremamente bem, e pode crescer a um ritmo de 5% nos próximos anos”.

O crescimento de importância do Brasil e de outras economias emergentes é uma das características do novo mundo surgido com a crise econômica. Para comentar essa e várias outras mudanças, o Estado ouviu oito grandes economistas estrangeiros e brasileiros: Rogoff; O’Neill; Barry Einchengreen, da Universidade de Berkeley; José Alexandre Scheinkman, de Princeton; Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central (BC) e sócio gestor do Gávea Investimentos; Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA e codiretor do Instituto de Estudo de Políticas Econômicas – Casa das Garças (Iepe/CdG); Affonso Celso Pastore, consultor e ex-presidente do BC; e Ilan Goldfajn, economista-chefe do Itaú Unibanco.

Pastore observa que a recessão no Brasil foi curta, de apenas dois trimestres, comparada a quatro em países como Estados Unidos, Alemanha e França. Goldfajn nota que há os países que estão saindo da recessão no segundo trimestre e os que estão saindo no terceiro – o Brasil está entre os primeiros, com várias nações asiáticas. “Mesmo no primeiro trimestre, se olhar mês contra mês, há números fortes de crescimento no Brasil”, acrescenta.

Para Goldfajn, a crise foi um teste de estresse para diversos países, no qual alguns passaram, outros não, alguns tiveram nota boa e outros nota ruim. “Acho que o Brasil tirou nota boa, e agora está todo mundo olhando e dizendo ‘esse cara é bom’”, diz Goldfajn.

Uma das principais razões para o sucesso do Brasil em enfrentar a crise, segundo Pastore, é que ela pegou o País com o regime macroeconômico adequado – câmbio flutuante, bom nível de reservas, inflação controlada, superávit primário, dívida pública desdolarizada e caindo em proporção ao Produto Interno Bruto (PIB). Essa solidez combinou-se com o sistema financeiro capitalizado, pouco alavancado, que estava proibido pela regulação de operar com os ativos perigosos, como os títulos estruturados no mercado americano de hipotecas subprime. “Uma das lições da crise é que países que tinham uma abordagem equilibrada da regulação do mercado financeiro, como Brasil, Austrália, Canadá , não tiveram crise bancária”, diz O’Neill.

A política anticíclica, baseada em corte de impostos e ampliação de gastos públicos, também ajudou, embora esta segunda parte seja criticada pelos efeitos de médio prazo. Para Pastore, os aumentos do funcionalismo e do Bolsa-Família tiveram efeitos contracíclicos, mas “por coincidência”, já que foram decididos antes da crise. “O defeito é que, se fosse política contracíclica mesmo, teria de expandir gastos transitórios, e não permanentes.”

Para a maioria dos economistas, o aumento dos gastos públicos correntes reduz o espaço do investimento, e impede que o Brasil cresça a um ritmo ainda mais forte do que os 4% a 5% que estão sendo previstos. “Não é nem preciso dizer que há um monte de coisas que o Brasil poderia fazer para crescer mais rápido”, comenta Rogoff.

De qualquer forma, o sucesso diante da crise jogou o Brasil no radar dos investidores. “À medida que continuarmos a crescer mais que o mundo, é natural que o País receba um aporte muito grande de investimentos estrangeiros diretos”, diz Pastore, acrescentando que eles aumentaram, mesmo com recessão e queda de lucros nos países que sediam as empresas que investem no Brasil.

A contrapartida dos fluxos de capital é o câmbio valorizado e o déficit em conta corrente, o que significa que o mundo está financiando o Brasil para consumir muito (o que implica poupar pouco) e investir ao mesmo tempo. Segundo Goldfajn, os brasileiros serão um dos povos convocados, junto com os asiáticos, a preencher o espaço deixado pelo fim da exuberância do consumidor americano, atolado em dívidas e necessitado de reconstruir seu patrimônio.

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”Não foi o fim do mundo que se prenunciava em dezembro”

Reação global de governos impede crise pior; papel da China se torna vital para retomada

Fernando Dantas – O Estado SP

A crise global não foi tão ruim quanto parecia no pior momento, entre o fim do último trimestre de 2008 e o primeiro de 2009. “Não foi o fim do mundo que se prenunciava em janeiro e dezembro, porque a reação dos governos foi do tamanho da crise”, diz Edmar Bacha, consultor sênior do Itaú BBA, comentando os maciços pacotes fiscais e a política monetária expansionista convencional (corte de juros) e não convencional (injeção de dinheiro na economia pela compra de títulos em poder do mercado) das principais economias do mundo.

Hoje, mesmo um observador relativamente pessimista, como Kenneth Rogoff, de Harvard, prevê que o mundo deve se estabilizar num crescimento em torno 4%, menos que o ritmo próximo de 5% dos anos anteriores à crise, mas já claramente fora da recessão. Ele ressalva que a atual recuperação “não é normal, com o sistema todo na UTI, o sistema bancário bancado pelo governo, e o mercado residencial se estabilizando apenas por causa dos grandes subsídios às hipotecas.”

Barry Eichengreen, da Universidade Berkeley, é outro que mostra ceticismo quanto ao vigor da recuperação mundial. “A mudança mais importante na economia pós-crise é o grande endividamento nos países industriais avançados, que tornará as finanças públicas restritivas, criando um ambiente inamistoso para o investimento, e que não é bom para o crescimento.” Ele se refere à necessidade que os governos dos países ricos terão de aumentar impostos e cortar gastos para contrabalançar o enorme crescimento da dívida pública na esteira dos grandes déficits fiscais da política contracíclica.

Um ponto crucial para sustentar a recuperação global é a capacidade da China de insuflar a demanda global. Para Rogoff, “a mudança número um do mundo pós-crise é que o consumidor americano, o combustível da economia mundial no último quarto de século, provavelmente será menos energético nos próximos cinco a dez anos.”

A grande questão, hoje, é saber se o recuo do superendividado consumidor americano pode ser compensado pelo avanço do consumo na China e em outros países emergentes asiáticos, e até no Brasil.

Para Rogoff, “a demanda dos mercados emergentes vai substituir a dos EUA, mas isso não acontecerá de um dia para o outro.” Essa mudança, ele continua, exige uma grande reestruturação da economia chinesa, que ainda está voltada para as exportações, e não para expandir o consumo interno.

Jim O’Neill, do Goldman Sachs, discorda: “Essa crise talvez tenha sido necessária, porque forçou a China a fazer uma transição para o crescimento puxada pela demanda interna. Isso era exatamente o que o mundo precisava para evitar a crise, e é o que mundo precisa para sair da crise.”

Para O’Neill, os dados da expansão de consumo da China são muito claros. As vendas de varejo saltaram 15,2% em julho e, nos últimos dois anos, convertidas em dólares, apresentam um avanço maior do que o recuo no consumo americano. Em relação ao setor externo, o economista inglês diz que tentou apostar recentemente, com membros da equipe econômica do governo britânico, que a China terá déficit comercial nos próximos dois anos. “Mas agora nós achamos que é possível que isso aconteça nos próximos 12 meses. Desde abril, o crescimento das importações chinesas é muito mais forte que o das exportações.”

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Crise mudou mapa da globalização

Mudança ocorreu tanto no comércio quanto nos investimentos e nas relações de poder de órgãos internacionais

Jamil Chade – O Estado SP

Os fluxos de investimentos mudaram de direção, a China se transformou no maior exportador do planeta e organizações consideradas como pilares das decisões internacionais hoje são questionadas e até substituídas. Em 12 meses, a crise acelerou processos de profunda mudança na geografia da globalização e uma incipiente nova relação de poder entre países.

No campo comercial, a maior novidade foi a transformação da China na maior exportadora do mundo. Por uma margem mínima, superou a Alemanha, que liderava desde 2003. A China exportou US$ 521,7 bilhões em seis meses, ante US$ 521,6 bilhões da Alemanha. Os americanos estão na terceira colocação.

A China já vinha subindo no ranking mundial. Mas a crise na Europa acelerou sua nova posição. Em 2002, a China era a quinta maior exportadora, com vendas anuais de US$ 325 bilhões, US$ 200 bilhões abaixo do que o país vendeu apenas nos últimos seis meses. Em 1997, a China era apenas a 16ª maior exportadora, com US$ 24,5 bilhões em vendas.

Nos últimos anos, dezenas de medidas foram adotadas contra os produtos chineses, que são hoje os mais afetados por medidas restritivas. Uma delas foi adotada pelo Brasil no início do ano para barrar a entrada de produtos siderúrgicos.

A crise ainda redesenhou o mapa dos principais destinos das exportações de vários países, inclusive o do Brasil. Neste ano, a China superou os EUA como o principal comprador de bens brasileiros. Além disso, passou a ser o maior fornecedor de produtos à Europa, acabando com 50 anos de relação comercial privilegiada entre europeus e americanos.

Em junho, as importações americanas estavam 34,5% abaixo dos níveis de junho de 2008. No ano passado, os Estados Unidos foram os maiores importadores do planeta, consumindo mais de 12% de tudo o que o mundo exporta.

No setor de investimentos, a crise também mudou a estratégia de multinacionais e coloca os países emergentes no centro da internacionalização. Levantamento com mais de 240 multinacionais elaborado pela ONU deixou claro que não há um risco de “desglobalização” da produção. O processo de internacionalização será retomado, mesmo mais lentamente. E será direcionado de forma cada vez mais clara aos emergentes.

A pesquisa mostrou que as multinacionais continuarão a investir no exterior para a internacionalização de suas vendas, produção e compra de ativos. Tanto em países emergentes como nos ricos, o levantamento indica que a crise está dando um incentivo extra para as empresas buscarem novos mercados, além de novos locais de produção para reduzir custos.

A tendência de uma maior atenção aos emergentes já vinha ocorrendo nos últimos dez anos. Em 1998, os países em desenvolvimento tinham 8% dos fluxos de investimentos, ante 13% em 2007. A tendência é de que a taxa aumente até 2011.

A preferência será pela Ásia, pelo tamanho do mercado e acesso a trabalhadores mais baratos. Cinco dos 15 maiores destinos de investimentos estarão na Ásia até 2011. Os países que formam o Bric – Brasil, Rússia, Índia e China – ocupam agora quatro dos cinco primeiros lugares preferidos para investimentos até 2011 e dividem as preferências com os americanos.

Em termos gerais, porém, o mundo ainda verá uma queda de investimentos em 2009 de cerca de 50%, ante 2008. Os mais afetados serão os países ricos, com redução de 60%. Mas os emergentes mostrarão certa resistência, com queda de apenas 25%. Em 2008, o mundo já sofreu queda de 15% nos investimentos, depois de atingir recorde de US$ 1,9 trilhão em 2007.

Outro sinal de mudança no mapa da globalização é a iniciativa de alguns países de reduzir sua dependência em relação ao dólar e acelerar a compra de papéis emitidos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). A decisão de Brasil, China e Rússia de se tornarem credores do FMI promove uma pequena revolução no mercado. Parte da estratégia dos emergentes é mostrar que têm como ser credores e, portanto, têm direito a uma maior voz em entidades como o FMI e o Banco Mundial.

O debate sobre os grupos e instituições financeiras ainda deixa alguns na defensiva. É o caso de Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne os países ricos e por anos tentou atrair os emergentes. Para Gurría, o mundo passará a viver em nova relação entre instituições e diferentes grupos de países, como o G-8 ou o G-20. “Cada grupo precisa de seu espaço. Hoje, o mundo é das redes, do network. E assim é que podemos imaginar uma nova configuração de países.”

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29/08/2009 - 12:12h Deficit salvou o mundo de cair em crise econômica pior

Nos EUA, dívida pública preocupa a longo prazo, mas cenário não chega a ser catastrófico; problema maior é político e diz respeito à qualidade dos gastos

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PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” – FOLHA SP

Temos novas projeções orçamentárias que mostram um deficit cumulativo de US$ 9 trilhões ao longo dos próximos 10 anos. De acordo com muitos comentaristas, é um número apavorante e requer medidas drásticas que envolvem, especialmente, o cancelamento dos esforços de estímulo à economia e o abandono da proposta de reforma do sistema de saúde no país.
A verdade é mais complicada e menos assustadora. No momento, o deficit está na verdade ajudando a economia, já que salvou os Estados Unidos e outras grandes economias do mundo de uma queda ainda mais profunda. A perspectiva de longo prazo é preocupante, mas não se pode dizer catastrófica.
A única causa real de preocupação é política. Os Estados Unidos serão capazes de enfrentar suas dívidas se os políticos de ambos os partidos se provarem dispostos a demonstrar um mínimo de maturidade. Será que preciso dizer mais?
Comecemos pelos efeitos do deficit deste ano.
Existem dois motivos principais para a disparada do deficit. O primeiro é que a recessão gerou tanto queda acentuada na receita tributária quanto elevação nos gastos com seguro-desemprego e outros programas de proteção aos cidadãos. Segundo, houve pesados desembolsos no resgate às instituições financeiras. Estes são computados como parte do deficit, embora o governo esteja adquirindo ativos no processo e, no futuro, deva receber de volta ao menos uma parte do que gastou.
O que isso nos informa é que no momento é bom manter um deficit. Considerem o que teria acontecido caso o governo dos Estados Unidos e os de outras nações do mundo tivessem tentando equilibrar seus orçamentos, como fizeram no início dos anos 30. É uma ideia assustadora. Caso os governos tivessem elevado os impostos ou cortado os gastos diante da crise, caso tivessem se recusado a resgatar as instituições financeiras, poderíamos facilmente ter assistido a uma versão renovada da Grande Depressão.
Como eu afirmei, o deficit salvou o mundo.

Gastos maiores
Na verdade, seria melhor para nós que os governos se dispusessem a aumentar seus gastos ainda mais pelos próximos dois anos. A projeção oficial da Casa Branca mostra uma nação condenada a um longo purgatório, com a persistência de desemprego alto por anos. Se tudo isso se provar correto e temo que seja inevitável, deveríamos estar fazendo mais, e não menos, para sustentar a atividade da economia.
Mas e quanto a todas essas dívidas que estamos acumulando? Elas são um problema, mas é necessário manter a perspectiva. Os economistas normalmente avaliam a sustentabilidade das dívidas nacionais observando a relação entre seu valor e o PIB (Produto Interno Bruto). E embora US$ 9 trilhões sejam uma soma imensa, nós também temos uma economia imensa, o que significa que as coisas são menos assustadoras do que seria de imaginar.
Eis uma maneira de considerar: estamos diante de uma alta de cerca de 40% na relação entre a dívida e o PIB. Os juros reais sobre essas dívidas adicionais (é necessário subtrair a inflação) serão de provavelmente 1% do PIB, ou 5% da receita federal. Não parece um fardo esmagador.
É claro que isso presume que o crédito do governo dos Estados Unidos continuará a ser bom, de modo a que o país possa continuar captando recursos a taxas de juros relativamente baixas. Até agora, isso continua verdade. A despeito da perspectiva de grande deficit, o governo continua capaz de captar fundos a uma taxa de juros de menos de 3,5%, baixa sob os padrões históricos. As pessoas que fazem apostas com dinheiro real não parecem preocupadas com a solvência dos Estados Unidos.

Administrável
Os números explicam o motivo. De acordo com as projeções da Casa Branca, em 2019 a dívida federal líquida dos Estados Unidos será de cerca de 70% do PIB. Não é um bom número, mas fica em uma faixa que se provou historicamente administrável para os países avançados, mesmo aqueles que tenham governos relativamente fracos. No começo dos anos 90, a Bélgica país profundamente dividido em linhas idiomáticas, tinha dívida de 118% do PIB, enquanto a Itália, que afinal de contas é a Itália, tinha dívida líquida de 114% do PIB. Nenhum dos dois países enfrentou uma crise financeira.
Assim, será que existe algo com que devamos nos preocupar? Sim, mas os perigos são políticos e não econômicos.
Como afirmei, essas projeções para os próximos 10 anos não são tão más quanto algumas pessoas vêm dizendo. Em prazo realmente longo, porém, o governo dos Estados Unidos enfrentará grandes problemas a menos que realize algumas mudanças importantes. É preciso, especialmente, conter o crescimento dos gastos com os programas federais de saúde Medicare e Medicaid.
Isso não deveria ser difícil no contexto de uma reforma geral da saúde. Afinal, os Estados Unidos gastam muito mais com a saúde do que outros países avançados, sem apresentar resultados melhores, de modo que deveríamos ser capazes de obter melhor custo benefício em nosso sistema.
Mas isso não acontecerá, é claro, se até mesmo as mais modestas tentativas de melhorar o sistema forem objeto de esforços demagógicos de parte dos conservadores, para retratá-las como uma forma de “desligar os aparelhos da vovó”.
Assim, não se incomode com o deficit deste ano; na verdade precisamos elevar a dívida federal no momento, e precisaremos continuar a fazê-lo até que a economia esteja solidamente a caminho da recuperação. E as dívidas adicionais devem ser administráveis. Se estamos enfrentando a possibilidade de um problema, não é porque a economia seja incapaz de aceitar dívidas adicionais. Em lugar disso, é a política, estúpido.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

27/05/2009 - 11:49h ”Não estou preocupado com o déficit ou a dívida pública”

James K. Galbraith: professor de economia da Universidade Texas;

Para o economista, que é filho de John Kenneth Galbraith, sem gastos do governo, a economia dos EUA se desintegraria

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Luciana Xavier, AGÊNCIA ESTADO


O governo dos Estados Unidos deve continuar gastando para estabilizar a economia, disse ontem o economista americano James K. Galbraith – filho do renomado John Kenneth Galbraith e professor da Universidade Texas -, em entrevista à AE Broadcast Ao Vivo, por telefone, de Austin, Texas. “Não estou preocupado com o déficit ou a dívida pública”, disse. “Sem esses gastos, a economia iria se desintegrar.” Sua preocupação é com a transferência das perdas do sistema bancário para o governo, sem nada significativo em troca. “Isso é muito, muito sério.” Para ele, a China poderá se recuperar mais rapidamente e, com isso, o Brasil deve ser beneficiado.

Está mais fácil ter uma visão geral da crise?

Talvez. Temos alguma noção de quão violenta e profunda é esta crise, numa escala que não víamos desde os anos 30.

O índice de confiança do consumidor atingiu em maio o maior nível em oito meses. O sr. reconhece sinais consistentes de recuperação da economia dos Estados Unidos?

Não dou muito peso a indicadores de confiança do consumidor. Mas acho que tivemos liquidação de inventários, que puxaram os estoques para baixo. Então, haverá algum reavivamento da produção. E temos enormes quantias do orçamento sendo destinadas às famílias e isso também está ajudando muito.

Como sr. vê a situação do sistema bancário no momento? Os testes de estresse mostraram a real condição dos bancos?

Os testes não mostraram a real condição dos bancos. Eles foram elaborados para dar segurança ao público. Não foram testes de estresse, como é feito no senso normal da prática regulatória. Mas está claro que o governo está colocando seu peso por trás das instituições bancárias. Desse ponto de vista, se você quer saber se os bancos vão sobreviver, acho que a resposta é sim. Simplesmente porque suas perdas serão absorvidas pelo contribuinte, com o passar do tempo.

Com relação ao déficit e à dívida pública dos EUA. O sr. disse em um artigo que eles podem, devem e vão subir com a crise. Por quê?

É muito importante, quando o setor privado está em colapso, que o setor público gaste, reduza os ganhos com impostos e aumente as despesas, de modo a pôr dinheiro no bolso do setor privado, ajudando a estabilizar o nível total da atividade. Então, desse ponto de vista, não estou preocupado com o déficit ou a dívida pública. É positivo que isso esteja ocorrendo, pois, sem esses gastos, a economia iria se desintegrar. Mas estou, sim, preocupado que estejamos fazendo uso improdutivo dos recursos fiscais, da dívida pública, simplesmente transferindo as perdas do sistema bancário para as contas do governo, sem nada significativo em troca. Vamos terminar com o sistema bancário sem reformas e muitos dos problemas que nos trouxeram para esta última crise, sem solução. Não vejo nenhum avanço e isso é muito, muito sério.

O que deve ser feito?

Eu iria me dirigir de modo mais duro aos principais bancos que fizeram jogos mais perigosos, aqueles que foram os maiores responsáveis por essa crise e tiveram mais perdas com o subprime. Pediria uma extensa auditoria de seus balanços. Iria avaliar seus ativos e pedir que suas perdas fossem colocadas na contabilidade da instituição, no lugar de simplesmente serem removidas para essas parcerias público-privadas, que vão sobrar, nos final das contas, para o contribuinte.

O sr. disse que não está preocupado com o aumento do déficit e da dívida dos EUA. Não vê problema caso os EUA venham a perder o rating soberano AAA?

As agências de rating, que falharam de modo escandaloso ao tentar entender o mercado de hipotecas subprime, não devem ser levadas a sério agora, no que se refere a entender como a dívida publica dos EUA funciona. Não há absolutamente razão, não há como os Estados Unidos, que nunca tiveram default em 50 anos, terem agora default da dívida em dólares. Enquanto houver eletricidade fazendo os computadores no Departamento do Tesouro funcionar, isso não vai acontecer. É realmente um tipo de exercício tolo de economia convencional, as agencias de rating falarem sobre rebaixamento do rating soberano dos Estados Unidos.

Como o sr. vê o papel dos mercados emergentes nesta crise, especialmente Brasil e China?

O Brasil, em certo grau, não foi tão fortemente afetado pela crise como outros países. Em parte pelo caráter do equilíbrio de seu comércio exterior e em parte por não ter tido sua economia muita afetada, uma vez que não tinha hipotecas subprime no seu sistema financeiro. Já a China foi muito afetada por causa da queda das exportações, queda de demanda do mercado americano e também porque havia uma enorme bolha imobiliária nas maiores cidades, que entrou em colapso. Mas acho que a economia chinesa vai se recuperar razoavelmente mais cedo, pois o governo se moveu agressivamente para gerar demanda doméstica. E também porque o setor de exportações vai reagir tão logo os inventários dos Estados Unidos comecem a ser refeitos.

Essa recuperação na China beneficiará o Brasil?

Claro que sim. Se houver uma recuperação, os efeitos nos países produtores de commodities devem ser sentidos mais cedo.

Que mudanças a crise trará para a economia dos EUA e do mundo?

Acho que vai reforçar o entendimento da necessidade de novas estruturas de condução da economia mundial, incluindo as estruturas financeiras, de modo que ajudem a proteger países de diferentes partes do mundo de governos ruins e de choques ocorridos em outros lugares. Acho que temos visto esse processo acontecendo na Ásia e América Latina e creio que esse movimento será reforçado.

19/05/2009 - 13:22h Não é hora de parar esse trem

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Roosevelt satirizado por usar o gasto público para enfrentar a recessão em 1938

Alan Blinder, THE NEW YORK TIMES*

Contrariamente ao que se pode ter ouvido de alguns profetas do Apocalipse, 2009 não é 1930 redux. O que devemos evitar é que 2010 ou 2011 vire outro 1936. Realisticamente, é pequeno o risco de a economia estar caminhando para uma repetição da Grande Depressão – quando o Produto Interno Bruto real dos Estados Unidos caiu 27% e o desemprego subiu para 25%. O que temos já é bastante ruim: a pior recessão desde a década de 30. Mas, a menos que nossos líderes se comportem de maneira incrivelmente estúpida, não repetiremos o trágico escorregão para o abismo de 1930 a 1933.

Basicamente, por duas razões. A primeira é que a economia tem muitas salvaguardas que não existiam naquela época – como o seguro-desemprego, a Previdência Social e a garantia de depósitos bancários, para citar apenas três. Esses programas servem como redes de segurança que amortecem a queda. Embora não sejam suficientemente fortes para impedir recessões, devem bastar para evitar outra depressão.

A razão mais importante é que o presidente Barack Obama, o secretário do Tesouro Timothy F. Geithner e o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) Ben S. Bernanke não são Herbert Hoover, Andrew Mellon e Eugene Meyer (Quem é esse? Meyer foi o presidente do Fed de setembro de 1930 a maio de 1933.)

Em nítido contraste com o pessoal do laissez-faire que governou o poleiro em 1930 e 1931, os dirigentes econômicos de hoje não estão esperando a economia periclitante se endireitar. Deram vários passos extraordinários – e estão prontos para dar outros se for preciso. Essa é a boa notícia. Mas, mesmo que uma outra depressão seja quase impossível, ainda existe o perigo de que o próximo ano, ou o ano seguinte, possa se transformar em 1936. Vamos explicar.

De seu fundo, em 1933, até 1936, o PIB avançou espetacularmente (ainda que de uma base muito baixa), com um crescimento médio de quase 11% ao ano. Mas aí, tanto o Fed como a administração de Franklin D. Roosevelt inverteram o curso.

No verão de 1936, o Fed observou o grande volume de reservas excedentes acumulado no sistema bancário, concluiu que essa montanha de liquidez poderia alimentar a inflação futura e começou a esvaziá-la. Esse endurecimento da política monetária prosseguiu em 1937, numa economia fraca que estava mal preparada para ele.

Por volta da mesma época, Roosevelt viu o que pareciam ser déficits orçamentários enormes, concluiu que era hora de colocar em ordem a casa fiscal e começou a aumentar impostos e reduzir despesas. Esse endurecimento transformou o orçamento federal de um déficit de 3,8% do PIB em 1936 num superávit de 0,2% do PIB em 1937 – uma virada de 4 pontos porcentuais em um único ano. (Hoje, uma virada desse porte significaria quase US$ 600 bilhões).

Assim, tanto a política monetária quanto a fiscal fizeram uma reviravolta abrupta em 1936 e 1937, e as consequências foram tão previsíveis como trágicas. A economia americana, que vinha saindo rapidamente do porão de 1933 a 1936, foi rudemente empurrada de novo escada abaixo, e os EUA experimentaram a chamada recessão dentro da depressão. O PIB encolheu 3,4% de 1937 a 1938; o declínio total durante a recessão, que durou de meados de 1937 a meados de 1938, foi maior.

A moral da história deveria ser clara: mudar prematuramente políticas fiscais e monetárias – de forte aceleração para uma freada violenta – pode ser perigoso para a economia.

Mas aprendemos um bocado desde os anos 1930, não é? Talvez não. Os ecos de 1936 estão sendo ouvidos agora, antes de a recessão corrente atingir o fundo. Quem estiver atento, sabe que alguns críticos do Fed estão soando alarmes sobre o estoque de reservas excedentes que criou – mais de US$ 775 bilhões na última contagem. O que está incomodando os críticos é exatamente o que incitou o Fed à ação em 1936: a vasta acumulação de dinheiro acabará sendo inflacionária.

No lado fiscal, muitos críticos de Obama se queixam ruidosamente dos enormes déficits orçamentários federais. Tentem ignorar, se puderem, a pura hipocrisia de muitos congressistas republicanos que, sem nunca terem dado um pio sobre os enormes déficits do presidente George W. Bush, de repente viraram modelos de probidade orçamentária. Mas sejam quais forem os motivos, as preocupações dos falcões do déficit de hoje lembram assustadoramente o Roosevelt de 1936 e 1937.

Felizmente, Bernanke é um estudioso atento da Grande Depressão e não permitirá que o Fed repita os erros de 1936-37. Mas seus críticos, tanto dentro como fora do Fed, já estão marcando suas políticas como perigosamente inflacionárias.

Da mesma maneira, espero e acredito em que Obama não se transformará do Roosevelt perdulário de 1933 no Roosevelt “falcão do déficit” de 1936 – ao menos até que a economia volte a um terreno sólido. Isso posto, um grupo crescente de falcões do orçamento já está mostrando as garras. Eles terão o seu dia – mas, por favor, ainda não.

Para evitar uma repetição dos desastres de 1936-37, tanto o Fed como nossas autoridades eleitas precisam manter o curso. Mark Twain explicou certa vez que, embora a história não se repita, ela com frequência rima. Não queremos nenhuma rima neste momento.

*Alan S. Blinder é professor de economia e administração pública na Universidade de Princeton e ex-vice-presidente do Fed. Tem sido consultor de vários políticos democratas.

22/04/2009 - 09:42h ”Moeda global reflete a ascensão do resto do mundo”

Joseph Stiglitz: economista; para Stiglitz, a proposta de criação de uma nova moeda é sinal do declínio do dólar, que começou durante o governo Bush

 

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Nathan Gardels, GLOBAL VIEWPOINT NETWORK – O Estado SP

 


O economista Joseph Stiglitz , Prêmio Nobel de Economia em 2001, vê no movimento para substituir o dólar por uma nova moeda global uma transferência de poder para a “ascensão do resto” do mundo. A seguir, os principais trechos da entrevista de Stiglitz :

O ex-secretário do Tesouro Henry Paulson argumentou que uma das principais dinâmicas da bolha do crédito foi a maciça disponibilidade de liquidez chinesa para os EUA mediante o investimento de suas reservas em dólares em títulos do governo americano. Isso manteve baixas as taxas de juros de longo prazo, tornando o crédito fácil e também impelindo os investidores a buscar rendimento em instrumentos mais exóticos. O sr. concorda?

Sim e não. É verdade que a poupança chinesa estava fluindo em massa para os EUA e, obviamente, as taxas de juros nos EUA foram afetadas, mas de maneira nenhuma determinadas por isso. O alto nível geral de liquidez poderia ter sido desfeito pelo Fed (o banco central dos EUA), que tem autoridade sobre as taxas de juros. Ele poderia ter elevado as taxas para desacelerar a bolha causada pela expansão do crédito fácil. Em geral, acumulação de poupança é uma bênção, não um problema. Ter dinheiro barato é base para um forte crescimento econômico. O problema é que o sistema financeiro americano não fez o que supostamente devia fazer, que é gerenciar o risco e alocar capital para fins produtivos. Nós desperdiçamos essa bênção e agora estamos pagando o preço. Mas é um absurdo culpar os chineses.

Entre os muitos desafios do presidente Barack Obama, o mais abrangente não será corrigir esse desequilíbrio em poupança e consumo entre os EUA e a China?

Numa economia globalmente integrada, o maior desafio é garantir que haja uma demanda agregada global adequada, alcançada mediante gastos, quando países como China sentem que precisam acumular níveis altos de reservas em dólar para se proteger contra a volatilidade internacional da moeda. Afinal, o acúmulo de reservas da China é uma consequência dos equívocos do Fundo Monetário Internacional (FMI) na condução da crise financeira asiática há cerca de uma década. Se os países sabem que não podem confiar no FMI para ajudá-los, sua melhor defesa é criar uma almofada de reservas própria. Em período de avanço da recessão global, uma ênfase excessiva na poupança em países superavitários, como a China, pode frustrar as perspectivas de crescimento global.

Preocupados com o valor de suas bilionárias posses em dólares no momento em que os déficits americanos aumentam e desponta a ameaça de uma inflação mais adiante, os chineses propuseram uma nova moeda de reserva global baseada numa cesta de moedas. Uma nova moeda como essa seria um bom mecanismo para desfazer o desequilíbrio com um pouso suave em vez de um crash do dólar, o que prejudicaria tanto os chineses como os americanos?

A proposta de uma nova moeda de reserva global – ou Direitos Especiais de Saque (SDR, na sigla em inglês) – é uma boa ideia por muitas razões. Sim, para os chineses ela por si amorteceria alguma queda no valor do dólar porque faria parte de uma cesta de outras moedas, incluindo o iene e o euro. Mas uma nova cesta de moedas de reserva estimularia a demanda agregada global reduzindo enormemente o medo da volatilidade cambial que, como eu disse, foi o que levou países como a China a colocarem de lado tanto dinheiro em reservas em vez de gastá-lo. Há outros benefícios. Em matéria de uma economia sólida, o bem-estar do mundo não deveria depender da gestão de uma única moeda. O risco cambial seria diversificado mediante uma unidade de reserva de cesta, criando estabilidade e confiança por toda parte.

O que significaria para os EUA se o dólar fosse substituído por uma nova moeda global?

Isso seria de grande interesse dos EUA no longo prazo porque ajudaria a “desfinancializar” a economia americana.

Em sua cúpula em Londres recentemente, os líderes do G-20 decidiram criar US$ 250 bilhões em novos SDR. Esse é um passo importante para criar uma nova moeda de reserva global?

Acho que sim. A questão é a rapidez com que isso acontece. Em minha opinião, porém, o FMI não é o melhor lugar de onde lançar essa moeda a menos que ele se torne uma instituição mais justa e equilibrada que represente a economia mundial real e não as potências pós-Segunda Guerra Mundial, dominadas pelos Estados Unidos. Os países do Leste Asiático, o Brasil e outros precisam ter uma influência muito maior. Por exemplo, dos US$ 250 bilhões em SDRs consignados, somente US$ 19 bilhões foram alocados para países em desenvolvimento. Assim, a ideia de SDR maior é boa. A instituição é falha.

Mesmo assim, o fato de os chineses proporem uma nova moeda SDR global e o G-20 ter dado o passo para sua criação, seguramente, marcará uma mudança de poder no mundo?

Sem dúvida, é um reconhecimento da realidade de um mundo multipolar que requer o avanço para um sistema de governança multilateral. A transferência de poder começou há vários anos, na época da administração Bush, quando o dólar ficou muito volátil e começou a declinar. É aí que a China mudou de acumular quase 100% de suas reservas em dólares para 75%. Alguns países saíram completamente do dólar. O dólar, apesar de todas as intenções e propósitos, perdeu seu status especial de reserva e as pessoas estão começando a falar de uma abordagem de portfólio, ou cesta, como um estoque de riqueza em vez do dólar. O impulso existente hoje por trás da ideia de uma nova moeda de reserva global reflete, de fato, a ascensão do resto (do mundo) na política e na economia mundiais, liderado pela China.

22/03/2009 - 11:30h Europeus têm rede de proteção contra crise

Mesmo com desemprego, exemplos mostram que sistema atenua tombo

 

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Andrei Netto e Jamil Chade, PARIS e GENEBRA – O Estado SP

 


A recusa da Europa em redobrar esforços em programas de resgate da economia, como defende a administração de Barack Obama nos Estados Unidos, se deve à confiança dos governos da União Europeia no capitalismo de bem-estar social, que age de forma automática em tempos de crise. Exemplos concretos demonstram que, embora a turbulência global tenha efeitos duros na atividade econômica, a qualidade de vida da maioria dos desempregados pela crise foi preservada.

O francês Patrick Barbe sintetiza bem o momento econômico da Europa. Em 2006, um ano antes da eclosão da crise do subprime – os créditos imobiliários de alto risco negociados nos Estados Unidos -, o pequeno empresário, hoje com 51 anos, aventurou-se na criação de uma empreiteira. A intenção era explorar o potencial imobiliário de pequenos apartamentos para famílias sem filhos, vendidos por cerca de 60 mil. De acordo com suas estimativas, o negócio deveria movimentar 5 milhões.

Depois de investir 600 mil no negócio e empregar sete funcionários, Barbe viu a bolha imobiliária estourar. O crédito secou e seus planos começaram a afundar. “No Natal passado, eu não tinha mais clientes”, lamenta. Em 25 de fevereiro, menos de três anos depois de criá-la, sua empresa foi liquidada pela Justiça. Os sete funcionários foram demitidos. Ele próprio se enquadrará nos programas de auxílio social da França, se desejar.

“De um dia para o outro, o Estado passou a arcar com os custos do desemprego. Eu preferia ver meus funcionários recebendo salários da minha empresa”, diz Barbe. “Esta crise está destruindo tudo. Ela nos castiga duplamente, porque a iniciativa privada perde força, e o Estado assume a conta.”

Segundo cálculos da Comissão Europeia, os pacotes de estímulo após a falência do banco Lehman Brothers, em setembro, somam 200 milhões. Mas a este valor, argumentam líderes políticos como o presidente da França, Nicolas Sarkozy, e a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, precisam ser adicionados os gastos dos Estados com programas sociais.

Na prática, entre seguros-desemprego, auxílios-moradia – para pagamento de aluguel -, custeio integral dos transportes, programas de renda mínima, bolsas para estímulo à natalidade, saúde e educação gratuitas, o valor investido em meio à atual crise salta para algo entre 3,3% e 4% do Produto Interno Bruto (PIB) da região, de 400 milhões a 485 milhões. É essa injeção de recursos na sociedade que garante qualidade de vida em tempos difíceis.

Raphael Espinoza, PhD em Economia pela Universidade de Oxford e economista do Fundo Monetário Internacional (FMI), vê impacto positivo nos chamados “estabilizadores automáticos” – a designação técnica dos programas sociais. Segundo ele, os planos de auxílio amortizam entre 35% e 40% do impacto da crise na renda das famílias – renda, diga-se, já elevada. Para o todo da economia de um país como a França, segundo a Comissão Europeia, os estabilizadores atenuam 10% da queda do consumo no primeiro ano e 20% no segundo.

O efeito sobre o mercado de trabalho também é significativo, segundo Espinoza. “A cada 1% de PIB perdido pela economia do país, os estabilizadores salvam o equivalente a 20 mil empregos”, explica, ressalvando: “Mas as ferramentas que atenuam a crise também reduzem a capacidade de crescimento em épocas de ciclos econômicos positivos.”

EFEITO COLATERAL

Outro efeito colateral dessas políticas é o desequilíbrio nas contas públicas. Na França, por exemplo, a perspectiva para 2009 aponta déficit de 5,6% do PIB. Mesmo na Alemanha, onde a austeridade é palavra de ordem, o buraco aberto deve chegar a 4%. Isso ocorre porque na Europa o orçamento age como regulador da vida econômica. Quando a atividade se desacelera, o volume de recursos arrecadados com impostos – indexados ao lucro e à renda – cai.

Na prática, a iniciativa privada é poupada, passa a pagar menos taxas e preserva parte da saúde financeira para a retomada econômica. Em contrapartida, o Estado paga a fatura. Os governos abrem mão do equilíbrio fiscal, deixando o déficit público crescer para injetar mais recursos diretamente nas contas bancárias das famílias.

Poucos desempregados do mundo têm o privilégio de contar com um sistema tão generoso quanto o da Suíça. É o que Antonio de Souza, 34 anos, filho de portugueses, acabou de descobrir. Há duas semanas, ele perdeu o emprego numa pequena fábrica de peças para a indústria de relógios. Mas já foi avisado de que receberá 80% do seu salário pelos próximos 11 meses. “A renda não cairá tanto. O problema é mais emocional, por ter sido rejeitado.”

Caso nenhuma oportunidade de trabalho surja nos próximos meses, Souza cairá no sistema de ajuda social. Terá o aluguel coberto pelo governo, além de atendimento em saúde. Para completar, receberá US$ 1 mil por mês em dinheiro e uma bolsa para alimentação.

Segundo o vice-secretário-geral do Departamento de Empregos de Genebra, Bernard Favre, a ideia do sistema suíço é evitar que uma demissão contamine a economia. “Se alguém perde sua renda, vai comprar menos, o que pode gerar mais desemprego.” Para Clemente de Lucia, economista do banco BNP Paribas, o desempregado europeu está em melhor condição do que nos Estados Unidos porque as políticas de bem-estar social amortecem o impacto em tempos de turbulência.