Advertências valem, mas agora há governo
Análise
Celso Ming – O Estado SP
As advertências de Nouriel Roubini têm de ser levadas em conta. O grande reparo que se pode fazer a elas é o de que não está dando a devida importância à condução de corações e mentes pelos dirigentes políticos.
Se houve um elemento novo nesta crise foi a percepção de que a motivação das pessoas e, mais do que isso, a capacidade das autoridades em conduzir o processo cumpre papel decisivo. O futuro das pessoas não está abandonado ao sabor de forças irracionais.
Ficou bem mais difícil, por exemplo, enfrentar a crise a partir do momento em que prevaleceu o pânico e as pessoas perderam a capacidade de tomar decisões com um mínimo de racionalidade. O derretimento de um grande número de patrimônios pessoais e familiares foi, em grande parte fruto do efeito manada e não da irresponsabilidade dos senhores de Wall Street. E, no entanto, num segundo momento, quando o pânico foi embora, ficou bem mais fácil procurar por saídas.
Em outras palavras, a principal percepção pós-crise é a de que agora tem governo. Se falhou no início de tudo, quando deixou que as bolhas se formassem e, em seguida, estourassem, num segundo momento, o governo não se omitiu, tomou decisões difíceis e passou um mínimo de segurança que não existiu em setembro de 2008.
Há, sim, razões técnicas para acreditar que a recuperação será mais demorada e sujeita a recaídas, como diz Roubini, mas já não há mais lugar para uma situação em que toda a sociedade se considere desamparada, à beira de uma catástrofe. E isso muda muita coisa.
Muda, por exemplo, a avaliação que as pessoas fazem agora dos ativos. Ninguém mais espera que seu patrimônio vire pó. Ele perdeu valor, sim. Mas é valor recuperável, como mostra o comportamento das bolsas e até do mercado imobiliário.
Muda também a visão sobre os bancos. Tão cedo eles não voltarão às irresponsabilidades de antes. Ninguém mais espera que um grande banco afunde e arraste um montão de contas bancárias junto com ele.
Jin Lee / Bloomberg News Foto Destaque

Nouriel Roubini: crescimento “anêmico” e “abaixo da tendência”
Roubini alerta para ”duplo mergulho”
Em artigo, economista aponta risco de que, depois de ligeira melhora, economia volte a mergulhar em uma crise
Patrícia Campos Mello, WASHINGTON – O Estado SP
O economista Nouriel Roubini, um dos primeiros a prever a crise financeira, acredita que o risco de recaída da economia mundial está crescendo. “A recuperação provavelmente será anêmica e há um grande risco de termos uma recessão ?duplo mergulho?”, afirma Roubini em artigo no Financial Times de domingo. Para ele, aumentaram as chances de um “duplo mergulho”, ou recessão em W – ou seja, depois de uma ligeira melhora, a economia voltaria a mergulhar em uma crise.
Roubini cita Brasil, Austrália, Alemanha, França, Japão, China e Índia como países onde a recuperação já começou. Mas ele acha que a recuperação será “anêmica por pelo menos dois anos”. Para o economista, o mundo vive apenas dois trimestres de rápido crescimento movido pela reposição de estoques e recuperação de produção.
“O nível de emprego ainda está caindo rapidamente nos EUA e outros lugares, e isso é má notícia para demanda, resultados de bancos, e também para a qualificação dos trabalhadores, um fator essencial para o crescimento da produtividade a longo prazo”, diz Roubini.
O economista acredita que esta é uma crise de solvência, e não apenas de liquidez. Segundo ele, “o processo de desendividamento ainda não começou, porque os prejuízos nas instituições financeiras foram socializados e transferidos para o balanço dos governos”. “Isso restringe a capacidade dos bancos de emprestar, dos lares de gastar e das empresas de investir.”
Além disso, nos países com déficit em conta corrente, como os EUA, os consumidores precisam cortar os gastos e poupar muito mais – mas esses mesmos consumidores estão endividados e sofreram perdas com a queda nos preços dos imóveis.
O sistema financeiro, apesar da injeção de recursos, continua muito danificado, diz Roubini. “A maioria do sistema financeiro não bancário desapareceu, os bancos tradicionais esperam prejuízo de trilhões de dólares por causa de calote em empréstimos e estão seriamente subcapitalizados.”
O crescimento da dívida dos governos, por sua vez, ameaça a disponibilidade de crédito para o setor privado. “E os efeitos do estímulo vão acabar até o início do ano que vem, exigindo mais investimento privado para sustentar o crescimento.”
Para Roubini, o principal motivo para uma recessão em W são os riscos na chamada estratégia de saída da maciça expansão fiscal e afrouxamento monetário adotados pelos governos contra a crise. Com ou sem estratégia de saída, os países terão problemas. Se os formuladores de políticas levarem a sério os déficits do orçamento e elevarem impostos, reduzirem gastos e enxugarem liquidez, vão sabotar a recuperação e jogar a economia em estagdeflação (recessão e deflação). Mas, se mantiverem os déficits do orçamento, as expectativas de inflação vão subir, a remuneração dos títulos do governo vai aumentar e as taxas de juros vão acabar nas alturas, levando a uma estagflação.
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NOURIEL ROUBINI – ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP
A ECONOMIA mundial está começando a se recuperar da pior recessão e crise financeira desde a Grande Depressão. No quarto trimestre de 2008 e nos primeiros três meses de 2009, o ritmo de contração na maioria das economias avançadas era semelhante à queda livre do PIB que os países registraram nos estágios iniciais da Depressão. No entanto, no final do ano passado, as autoridades econômicas, que até aquele momento estavam agindo tardiamente, enfim começaram a usar a maioria das armas disponíveis em seus arsenais.
Os esforços deram frutos, e a queda livre da atividade econômica se atenuou. Existem agora três questões em aberto quanto às perspectivas. Quando a recessão mundial vai acabar? Que forma tomará a recuperação econômica? Existem riscos de recaída?
Quanto à primeira questão, parece que a economia mundial chegará ao fim da queda no segundo semestre de 2009. Em muitas economias avançadas (Espanha, Estados Unidos, Itália, Reino Unido e em alguns países da zona do euro) e em alguns emergentes (principalmente na Europa), a recessão não se encerrará formalmente antes do final do ano, já que os brotos verdes da recuperação ainda estão cercados de ervas daninhas. Em algumas outras economias avançadas (Alemanha, Austrália, França e Japão) e na maioria dos mercados emergentes (China, Índia, Brasil e outras partes da Ásia e América Latina), a recuperação já começou.
Quanto à segunda questão, o debate se trava entre aqueles -a maioria do consenso econômico- que antecipam uma recuperação em forma de V, com rápida retomada de crescimento, e aqueles -como eu- segundo os quais a recuperação será em U e se manterá anêmica e abaixo da tendência por ao menos dois anos, após um par de trimestres de rápido crescimento alimentado por reposição de estoques e recuperação da produção ante os níveis quase tão desfavoráveis quanto os da Grande Depressão.
Existem diversos argumentos que apontam para uma recuperação fraca e em forma de U. O emprego continua a cair acentuadamente nos Estados Unidos e em vários mercados -em economias avançadas, o desemprego estará acima dos 10% em 2010. Isso é má notícia não só em termos de demanda e prejuízos bancários mas também em termos de capacitação profissional, um fator chave para o crescimento da produtividade em longo prazo.
Segundo, temos uma crise de solvência, e não apenas de liquidez, mas ainda não começou uma redução real no endividamento, porque os prejuízos das instituições financeiras foram socializados e transferidos aos balanços dos governos. Isso limita a capacidade de empréstimo das instituições financeiras, a capacidade de gasto dos domicílios e a capacidade de investimento das empresas.
Terceiro, nos países que operam com deficit em conta corrente, os consumidores precisam começar a cortar gastos e poupar mais, em um momento em que as pessoas endividadas enfrentam um choque de patrimônio causado pela queda nos preços das casas e dos mercados de ações e pela retração na renda e no emprego.
Quarto, o sistema financeiro -a despeito do apoio das autoridades- continua severamente danificado. A maior parte do sistema bancário paralelo desapareceu, e os bancos tradicionais estão sobrecarregados com trilhões de dólares em prejuízos inesperados com empréstimos e títulos, enquanto ainda se mantêm perigosamente subcapitalizados.
Quinto, os lucros fracos (causados por dívidas elevadas e riscos de inadimplência, crescimento baixo e persistentes pressões deflacionárias sobre as margens de ganhos empresariais) restringirão a disposição das companhias de produzir, contratar trabalhadores e investir.
Sexto, o endividamento do setor público por meio do acúmulo de pesados deficits fiscais ameaça dificultar a recuperação nos gastos do setor privado. Os efeitos das políticas de estímulo, além disso, se dissiparão no começo do ano que vem, o que vai requerer maior demanda privada para sustentar o crescimento.
Sétimo, a redução nos desequilíbrios mundiais implica em que os deficits em conta corrente de economias perdulárias, como a dos EUA, vão reduzir os superávits das economias que poupam em excesso (Japão, Alemanha, China e outros emergentes). Mas, caso a demanda interna não se expanda rapidamente o bastante nos países superavitários, resultará em recuperação mais lenta do mundo.
Recessão em forma de W
Também existem duas razões para que exista risco ascendente de uma recessão de duplo mergulho, em forma de W. Para começar, existem riscos associados às estratégias de saída para o grande relaxamento da política monetária e de estímulo fiscal: as autoridades serão criticadas por agir e também por não agir. Caso decidam levar a sério os grandes deficits fiscais e decretem aumento de impostos, corte de gastos e redução da liquidez excessiva, poderão solapar a recuperação e levar a economia a uma estagdeflação (recessão e deflação).
Mas, caso mantenham grandes deficits orçamentários, os ativistas dos mercados de títulos públicos punirão as autoridades econômicas. As pressões inflacionárias subirão, os rendimentos dos títulos públicos de longo prazo terão de subir e as taxas de empréstimo dispararão, gerando estagflação.
Outro motivo para temer uma recessão de duplo mergulho é que os preços de petróleo, energia e alimentos agora estão subindo mais rápido do que os fundamentos econômicos justificam e podem ser propelidos a alta ainda maior pela liquidez excessiva em busca de ativos e pela demanda especulativa.
No ano passado, o petróleo a US$ 145 por barril marcou um ponto de inflexão para a economia mundial, ao criar termos negativos de comércio internacional e um choque na renda disponível para as economias importadoras da commodity. A economia mundial não suportaria outro choque contrativo caso especulação semelhante conduza o preço do petróleo a um rápido retorno para a marca dos US$ 100.
Em resumo, a recuperação deve ser anêmica e abaixo da tendência nas economias avançadas e existe forte risco de uma recessão de duplo mergulho.
O autor é professor de Economia na Escola Stein de Administração de Empresas na Universidade de Nova York.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
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Jin Lee / Bloomberg News Foto Destaque

Nouriel Roubini: crescimento “anêmico” e “abaixo da tendência”
Shamim Adam, Bloomberg News, de Cingapura – VALOR
Nouriel Roubini, o professor da Universidade de Nova York que previu a crise financeira, disse que a probabilidade de um segundo surto de recessão está aumentando, devido às possíveis consequências negativas do fim do incentivo monetário e fiscal mundial.
A economia mundial vai chegar ao seu ponto mínimo, a partir do qual começa a melhorar, neste segundo semestre do ano, escreveu Roubini em comentário publicado ontem pelo jornal “Financial Times”. A recessão dos EUA, Reino Unido e alguns países europeus não terá “acabado formalmente” antes do final deste ano, enquanto a recuperação de países como China, França, Alemanha, Austrália e Japão já começou, disse.
Os governos de todo o mundo prometeram cerca de US$ 2 trilhões em medidas de incentivo em meio à recessão global, a pior desde a Grande Depressão, iniciada em 1929. O presidente do Federal Reserve, Ben S. Bernanke, e outras autoridades mundiais de política monetária advertiram que a recuperação tende a ser tímida, numa indicação de que eles não vão eliminar em breve todas as medidas de estímulo inoculadas no sistema financeiro.
“Há riscos associados às estratégias de retirada do enorme abrandamento monetário e fiscal”, escreveu Roubini. “As autoridades serão amaldiçoadas se fizerem e serão amaldiçoadas se não fizerem.”
Os funcionários graduados dos governos e BCs deverão minar a recuperação e reconduzir suas economias à “estagdeflação” se elevarem impostos, reduzirem os gastos e enxugarem o excesso de liquidez em seus sistemas a fim de diminuir os déficits públicos, disse Roubini. Ele define a “estagdeflação” como recessão com deflação.
Os que mantêm grandes déficits públicos serão punidos por patrulheiros do mercado de bônus, com a alta das expectativas inflacionárias e dos rendimentos dos bônus governamentais de longo prazo e o aumento significativo do custo do dinheiro, escreveu ele. Isso, por sua vez, levará à estagflação, afirmou o economista.
Roubini atualmente prevê uma recuperação em U, em que o crescimento será “anêmico e ficará abaixo da tendência por pelo menos alguns anos”, disse. Uma recuperação mundial plena em relação à recessão atual deverá levar dois anos ou mais, disse o prêmio Nobel Paul Krugman, no início do mês.
A alta do desemprego, um sistema financeiro mundial ainda “severamente deteriorado” e uma lucratividade corporativa fraca estão entre os motivos pelos quais qualquer recuperação não será em forma de V, disse Roubini.
“Persistem desgastes em muitos mercados financeiros de todo o mundo”, disse Bernanke em discurso pronunciado na última sexta-feira em Jackson Hole. “A recuperação da economia tende a ser relativamente lenta de início, com uma queda apenas gradual do desemprego em relação a seus altos níveis.”
Os preços dos combustíveis e alimentos também estão aumentando mais rápido que o justificável pelos fundamentos econômicos. Isso deverá também elevar o risco de um novo surto de recessão, escreveu Roubini, acrescentando que eles poderão ser puxados por transações especulativas.
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Na Alemanha, produtos têm hoje o mesmo valor de maio de 2007
Gustavo Chacra – O Estado SP
Os bancos centrais de países desenvolvidos começam a enfrentar o risco de a deflação se intensificar nos próximos meses, com recordes sendo anunciados nos Estados Unidos e na Europa. Na sua maior queda em seis décadas, o índice de preços ao consumidor da Alemanha despencou 7,8% em julho em relação ao mesmo mês no ano passado. Na variação mensal, a diminuição foi de 1,5%.
Segundo o Escritório Federal de Estatísticas, os produtos alemães têm hoje o mesmo valor de maio de 2007. Os preços para o consumidor na Alemanha registraram a sua primeira baixa desde a reunificação do país, em 1990, ao caírem 0,5%. A redução é dois décimos menor do que a média da zona do euro.
Do outro lado do Atlântico, o índice de preços ao consumidor americano também atingiu o seu menor nível desde 1950, ao se reduzirem 2,1% em julho, quando comparado ao mesmo mês no ano passado – em relação a junho, a inflação se manteve estável -, de acordo com dados do Departamento do Trabalho divulgados na semana passada. Assim como na Alemanha, os piores números vieram do setor produtivo, com uma redução de 6,8% nos preços desde julho de 2008, e 0,9% em junho .
A deflação tem como principal causa a redução nos preços da área energética, especialmente do barril do petróleo – apesar da elevação de ontem, que não está embutida no índice -, ao longo do último ano. Na Alemanha, a deflação anual é de 3,6% quando não se leva em conta os preços deste setor.
O Fed (banco central dos EUA) indicou que não existe risco de inflação por enquanto, o que eliminaria a necessidade de elevar os juros, evitando uma possível estagflação (inflação e recessão simultaneamente). O problema, segundo dizem alguns economistas, é que, com a deflação, há pouca margem de manobra para o Fed. Os juros já estão próximos de zero e o risco seria de um círculo vicioso como no Japão dos anos 1990.
A saída seria o aumento da demanda para o fim da deflação. Por enquanto, os sinais não indicam que isso venha ocorrendo. Ao contrário, o índice de confiança dos consumidores está em queda nos Estados Unidos por três motivos – elevado desemprego (9,4%), endividamento e maior propensão a poupar em vez de consumir.
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Bloomberg – VALOR
O Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman disse que o mundo atravessa um “colapso mundial coordenado”, cuja aparência “é pior na Europa e no Japão” do que nos Estados Unidos.
“O que começou como uma recessão relativamente branda” nos EUA “se tornou uma queda vertical”, disse Krugman em evento realizado em Bruxelas. “Esta é uma crise que está afetando gravemente a indústria de transformação.”
Krugman, que defendeu o aumento dos incentivos fiscais, disse que os instrumentos convencionais dos BCs não são suficientes para revitalizar o crescimento da economia. O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, e o do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA), Ben S. Bernanke, “não conseguem empregar suas ferramentas convencionais para enfrentar o colapso” econômico, disse o economista, da Universidade de Princeton.
Para o BCE, “toda a base intelectual do euro repousa na hipótese de que a política monetária pode, por si só, dar conta do recado”, disse Krugman. “O BCE ainda não cortou tudo o que podia (em termos de juros), mas ficarei surpreso se não acabar fazendo isso.”
“Trichet ainda está dizendo que não há risco de deflação na Europa, afirmação que, na minha opinião, expressa um estranho excesso de autoconfiança”, disse Krugman.
“Os Estados Unidos não estão fazendo o suficiente para combater a crise e a Europa está fazendo um pouco menos da metade do realizado pelos Estados Unidos”, disse Krugman. “Corremos um grave perigo.”
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Paul Krugman, The New York Times*
Estou preocupado com a Europa. Na verdade, estou preocupado com o mundo todo – não existem refúgios a salvo dessa tormenta econômica global. Mas a situação da Europa preocupa-me mais do que a dos Estados Unidos.
Não vou repetir a velha queixa americana de que, na Europa, os impostos são muito altos e os benefícios muito generosos. Os enormes programas de bem-estar social não são a causa da atual crise. São um fator atenuante.
O perigo claro e presente vem de uma direção diferente: é o fracasso do continente em responder eficazmente à crise financeira. A Europa carece de uma política fiscal e monetária. Enfrenta uma crise no mínimo tão severa quanto os EUA, porém está fazendo muito menos.
No aspecto fiscal, a comparação com os EUA é assombrosa.
Para muitos economistas, eu inclusive, o plano de estímulo do governo Obama era muito tímido diante da gravidade da crise. Mas as medidas adotadas pelos EUA fazem parecer insignificante qualquer coisa que os europeus estejam fazendo.
A diferença em termos de política monetária é igualmente assombrosa. O Banco Central Europeu (BCE) tem se mostrado muito menos dinâmico do que o Federal Reserve; tem demorado para cortar as taxas de juros (elevou em julho do ano passado) e evitou adotar medidas vigorosas para desbloquear os mercados de crédito.
A única coisa que pesa em favor da Europa é exatamente aquilo pelo qual é mais criticada: o porte e a generosidade dos seus programas de bem-estar social, que atuam como amortecedor do impacto dessa retração econômica.
E isso não é pouco. O auxílio-desemprego e a assistência à saúde garantida asseguram que, pelo menos até agora, não se veja na Europa o sofrimento humano tão nítido como nos EUA. Esses programas também vão ajudar a sustentar os gastos nessa crise. Contudo, esses “estabilizadores automáticos” não são substituto de uma ação positiva.
Por que a Europa não está conseguindo enfrentar a crise? Em parte por causa de uma liderança medíocre. As autoridades dos bancos europeus, que se omitiram quanto à profundidade da crise, ainda parecem estranhamente complacentes. E para ouvir alguma coisa nos EUA que seja comparável aos ataques ignorantes do ministro das Finanças da Alemanha, você deve ouvir os republicanos.
Mas há um problema mais profundo: a integração monetária e econômica da Europa avançou muito mais do que as suas instituições políticas. As economias de muitas nações estão tão estreitamente ligadas quanto as economias de muitos Estados, nos EUA, – e a maior parte da Europa compartilha uma moeda comum. Mas, ao contrário dos EUA, a Europa não tem instituições que cubram todo o continente, necessárias para lidar com uma crise com essa envergadura.
Essa é uma importante razão da ausência de uma uma ação fiscal. Não existe nenhum governo em posição de assumir a responsabilidade pela economia europeia como um todo. Em vez disso, o que há são governos nacionais, cada um relutando em acumular enormes dívidas para financiar um plano de estímulo que poderia levar muitos, senão a maior parte, dos seus benefícios para os eleitores em outros países.
Você poderia pensar então que a política monetária é mais convincente. Afinal, apesar de não existir um governo europeu, há um BCE. Mas ele não é como o Fed, que pode se permitir correr riscos porque tem o suporte de um governo nacional unitário.
Em outras palavras, a Europa vem se revelando estruturalmente fraca num período de crise. A maior dúvida é o que vai ocorrer com aquelas economias europeias que prosperaram tanto na fase do dinheiro fácil dos últimos anos, particularmente a Espanha.
Durante grande parte da década passada, a Espanha foi a Flórida da Europa, com uma economia animada por um enorme boom especulativo imobiliário. Como na Flórida, esse boom transformou-se em um fiasco. A Espanha agora precisa encontrar novas fontes de renda e emprego.
No passado, o país teria procurado ser competitivo desvalorizando sua moeda. Mas agora a sua moeda é o Euro – e o único meio de avançar parece ser pelo doloroso processo de corte de salários. O que seria difícil nos melhores tempos, mas será incrivelmente doloroso se, como parece provável, a economia europeia como um todo entrar numa depressão e se encaminhar para uma deflação nos próximos anos.
Isso significa que a Europa errou ao se tornar tão estreitamente integrada? E, especialmente, que a criação do Euro foi um equívoco? Talvez.
Mas a Europa ainda pode mostrar para os céticos que eles estão errados, se os seus políticos começarem a mostrar mais liderança.
Mostrarão?
*Paul Krugman é articulista
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Economista defende maior intervenção dos governos para combater a crise
Para ele, Brasil está em melhores condições na crise, deve elevar gasto público e ao mesmo tempo se comprometer com reformas
SÉRGIO MALBERGIER – FOLHA SP
EDITOR DE DINHEIRO
O Brasil é uma “vítima acidental” da crise econômica global, que ainda vai piorar, evoluindo para uma “recessão global severa”. A opinião é do economista mais badalado destes tempos econômicos sombrios, o turco-americano Nouriel Roubini, em São Paulo para disputadas palestras.
“O Brasil está em condições muito melhores hoje”, pondera Roubini, que ganhou a alcunha de “Mr. Doom” (Sr. Apocalipse) por causa das previsões catastrofistas que vem fazendo, com precisão muito acima da média nesta era de incertezas.
Em evento ontem em São Paulo do BTG, a nova empresa de investimentos de André Esteves e Persio Arida, ele disse que o Brasil deve ter neste ano um crescimento próximo de zero ou, mais provavelmente, “ligeiramente negativo”.
Embora ressalte que a situação brasileira é menos desconfortável que a de vizinhos como Venezuela e Argentina e que ainda existe “bastante espaço” para corte de juros por aqui, diz que o país enfrenta “problemas [externos] sobre os quais não tem controle”. E adverte que o governo brasileiro, com os problemas históricos do país, não deveria apenas elevar seus gastos para combater a crise, mas ao mesmo tempo se comprometer com “reformas estruturais” para reduzir a burocracia, o custo da mão-de-obra e o peso dos impostos sobre a atividade econômica, além de melhorar a infraestrutura física.
Roubini defende mais gastos estatais contra a crise, “a única demanda que cresce hoje no mundo”, mas lamenta o fato de que as ações oficiais estejam sempre “atrás da curva”, apenas reagindo aos problemas. Isso, para ele, será insuficiente para tirar as economias do caminho da catástrofe. “É preciso agir antes”, afirma.
Roubini acha ainda tímido o pacote fiscal do governo americano, já superando US$ 800 bilhões, pois só cerca de US$ 200 bilhões serão gastos no curto prazo. E mais tímido ainda o da Europa, criticando a resistência de sua maior economia, a Alemanha, em elevar gastos.
Ele critica também o socorro aos bancos na forma atual e diz que talvez, “infelizmente, sejam necessárias estatizações temporárias”. Rechaça que a maior economia do planeta seja a única culpada pela crise e aponta para Reino Unido, Austrália, Espanha, Irlanda, países bálticos, Cingapura e outros como responsáveis por bolhas financeiras e/ou habitacionais, na raiz dos problemas globais.
Diz ainda que há países hoje em situação pior que os EUA, citando Japão, Alemanha, Coreia do Sul, o sul e o leste da Europa. E que a China está rodando com crescimento zero ou mesmo negativo na comparação de trimestre contra trimestre anterior. “Antes se dizia que, quando os EUA espirravam, o mundo pegava gripe. Os EUA estão com pneumonia.”
Ele acredita que, se os governos não atuarem com mais eficiência contra o “ciclo vicioso” da economia, coisas muito piores podem acontecer, como uma deflação global após “gasto excessivo na expansão da produção, que agora encontra a contração da demanda”.
Resumindo seu receituário, Roubini recomenda mais gasto fiscal, ação mais agressiva no resgate aos bancos e dobrar os recursos do FMI para socorrer países emergentes.
“Ainda é possível evitar o pior”, diz, com otimismo inesperado diante de sua fama. “Se fizermos tudo certo, teremos uma recuperação lenta no ano que vem”, prevê Roubini. “Se não, depressão global”, conclui, voltando ao estilo apocalíptico.
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*Amir Khair – O Estado SP
Quaisquer que sejam os desdobramentos da crise internacional, é quase certo prever a queda nas exportações dos países, em razão de medidas protecionistas, queda de preços das commodities e dos preços internacionais, em geral, pelo acirramento da concorrência e a diminuição da demanda interna de cada país.
Impactada pela redução de exportações, parcela dos produtos será direcionada para o mercado interno dos países, que junto com os fatores acima poderá gerar um processo de deflação nos países desenvolvidos e redução da inflação nas economias emergentes.
No caso brasileiro, embora seja desejável a continuidade do estímulo às exportações, mediante reduções tributárias, oferta de crédito e redução de custos de logística, é necessário que o País adote medidas para estimular o consumo interno como motor de arranque e caminho para a ativação da economia. Dispomos de um grande potencial de consumo, não explorado por causa da má distribuição de renda. A possibilidade de consumo pelo acesso a maior renda geraria compras no comércio, demandas por aumento da produção, investimento e geração de empregos, podendo formar, então, um círculo virtuoso.
Vários poderão ser os estímulos ao consumo: maior oferta de crédito com redução das taxas de juros, desonerações tributárias e tarifárias (transporte coletivo, energia elétrica, gás, água e telefone), especialmente dirigidas à população de média e de baixa rendas, aumentos no salário mínimo, programas de distribuição de renda e inflação baixa, entre outros.
A expansão do crédito já está ocorrendo, mas ainda as taxas de juros estão elevadas. A injeção de recursos aos bancos – da ordem de R$ 100 bilhões – realizada pelo Banco Central, pela redução dos depósitos compulsórios, pouco serviu para aumentar a oferta de crédito dos bancos privados, que preferiram investir em compras de títulos do governo federal atraídos pela alta taxa de juros básicos (Selic).
Indo na direção correta, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal elevaram substancialmente a oferta de crédito e, com isso, registraram fortes lucros.
Outras medidas podem induzir o aumento da oferta de crédito e o rebaixamento de juros pelo setor bancário. Além da redução da Selic, duas podem ser destacadas: reduções adicionais seletivas de depósitos compulsórios, de acordo com as taxas de juros praticadas e a implantação, pelo governo, do cadastro positivo de clientes, ainda dependendo de aprovação pelo Congresso Nacional. O arsenal de medidas de que dispõem o Conselho Monetário Nacional, o Ministério da Fazenda e o Banco Central é considerável.
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), caso cumpra parte significativa de suas metas, terá forte impacto para reativar a economia, ao gerar empregos, com melhorias na infraestrutura e redução de custos de logística.
A Petrobrás poderia reduzir os preços do diesel, que impacta os custos do transporte coletivo e de cargas, do gás de cozinha – que pesa no orçamento familiar das populações de baixa renda – e da gasolina, que atinge a classe média. Em geral os preços dos combustíveis, especialmente da gasolina e do diesel, estão 50% acima do nível internacional.
Governos municipais e estaduais podem implantar medidas de políticas públicas que resultam em aumento do poder aquisitivo da população, tais como o barateamento do transporte coletivo, da alimentação, do gás, da energia elétrica, da água e de medicamentos, itens que constituem parte importante das despesas familiares da população de rendas média e baixa.
Políticas de abastecimento que aproximam produtores e consumidores e reduzem custos de intermediação têm demonstrado sua eficácia em vários municípios brasileiros e podem contribuir para a expansão do consumo popular e impactar positivamente as condições de vida da população.
É de grande complexidade o enfrentamento desta crise e não existem respostas mágicas e previsões certeiras. O fomento ao debate é desejável e oportuno, diante da expectativa de que um conjunto ágil, articulado e coordenado de políticas seja implantado.
*Amir Khair, mestre em Finanças Públicas, é consultor
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Após anos de crescimento alto, puxado por abundância de crédito, desemprego explode no país
Adoção do euro limita ação do governo; empresários querem reforma trabalhista e economistas preveem retomada lenta e dolorosa
VICTOR MALLET DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP
Quando um dos maiores clubes de futebol de um país tão fanático pelo esporte quanto é a Espanha deixa de pagar seus jogadores, é um aviso de que algo pode estar drasticamente errado em uma das economias mais bem sucedidas na Europa.
David Villa é um dos jogadores do Valencia cujo último salário está atrasado por tempo indeterminado pelo clube, fortemente endividado. Villa é apenas mais um entre o número crescente de vítimas, ricas e pobres, de um mergulho na recessão que se encaminha para ser uma das piores da Europa.
As tensões estão começando a se manifestar na sociedade espanhola, normalmente tranquila e tolerante. Vendedores de rua e africanos residentes no país fizeram duas manifestações neste mês em Lavapiés, em Madri, protestando contra o alegado racismo e as investidas policiais; subsequentemente, veio à tona que a polícia da capital recebeu cotas semanais de imigrantes ilegais que deve prender. Em Andaluzia, no sul, milhares de imigrantes sem comida ou abrigo invadiram cidades procurando em vão trabalhos na colheita de azeitonas já tomados por espanhóis.
Guindastes estão parados em obras na costa espanhola e nas periferias. Muitas lojas pequenas no centro de Madri fecharam. Um dono de construtora arruinado é acusado de cinco assaltos a bancos.
“Não vamos ter uma recessão. Vamos ter uma depressão, como nos anos 1930″, diz o economista Lorenzo Bernaldo de Quirós, presidente da Freemarket International Consulting. Quirós é um dos analistas mais pessimistas, mas se justifica apontando previsões quase consensuais: o desemprego atingindo 19% até o final do ano (contra mais de 14%, ou 3,3 milhões de pessoas, hoje); um déficit orçamentário de ao menos 6,5% do PIB; contração econômica de 3% ou mais em 2009, e, possivelmente, uma deflação. “Somado à crise financeira, este é o quadro perfeito para definir uma depressão”, conclui.
Essa depressão pode atingir a economia espanhola -uma das dez maiores do planeta e a quarta da zona do euro- com tanta gravidade que pode fazê-la perder muitos dos ganhos conquistados na década passada desde a adoção do euro.
Até a chegada da crise global, a Espanha tinha desempenho elogiável. Seu retorno à democracia e à prosperidade após uma guerra civil e a ditadura Franco é, afinal, uma das grandes histórias de sucesso da Europa do pós-guerra. Nos dez anos terminados em 2006, o crescimento real chegou à média anual de 3,7%, contra 2,1% na zona do euro. O PIB per capital subiu para mais de 90% da média dos 15 principais países ocidentais da União Europeia.
Essa expansão ajudou a gerar mais de 5 milhões de empregos e a atrair mais imigrantes, como proporção relativa à população, que qualquer outro país da Europa. A construção civil, financiada pelo crédito fácil, foi o motor principal da economia durante uma década -e aí está a origem das dificuldades. Como nos EUA e no Reino Unido, a bolha imobiliária se rompeu, com grande força.
Estimados 1 milhão de casas e apartamentos recém-construídos estão desocupados. A construção residencial -que respondeu diretamente por 7,5% do PIB em 2006- está quase parando. O lobby que representa 14 grandes construtoras anunciou que não iniciou a construção de uma única casa nova em dezembro e só 135 em todo o quarto trimestre de 2008. “Durante 15 anos, o padrão de crescimento da economia espanhola foi baseada em mercados financeiros com alto grau de liquidez – e liquidez barata”, diz Rafael Doménech, economista-chefe para a Europa do banco espanhol BBVA. “Foi ótimo para a economia espanhola que as famílias e as empresas usassem essa liquidez para aumentar sua dívida.”
E foi o que elas fizeram. A dívida do setor privado dobrou em uma década, chegando a 120% do PIB. Com boa parte do crédito vindo de aposentados alemães e outros poupadores, através de títulos de crédito espanhóis avalizados por hipotecas, o déficit de conta corrente chegou a mais de 10% do PIB. Com o novo ambiente dos mercados financeiros, diz Doménech, “não podemos esperar usar o mesmo modelo de crescimento dos últimos dez anos”.
Teoricamente, a Espanha poderia substituir a atividade da construção com o aumento da produção em outros setores. O país é uma das economias mais abertas do mundo, e suas empresas nos setores de moda, energia renovável, infraestrutura e bancos têm sido investidores externos e exportadores ativos. Mas outras economias não estão em condições de assumir o lugar da construção. A indústria automotiva espanhola, responsável por um quinto das exportações do país e 6% de seu PIB, está lutando para fazer frente à queda na demanda doméstica e externa. O turismo, que movimenta 50 bilhões, caiu 3% no ano passado -a primeira queda anual desde 97.
O premiê socialista José Luis Rodríguez Zapatero seguiu o mesmo caminho que outros líderes na crise, anunciando uma enxurrada de planos de gastos governamentais, numa tentativa de combater o aumento do desemprego e evitar uma depressão prolongada. Miguel Sebastián, seu ministro da Indústria, vem flertando com o protecionismo -embora negue a acusação-, lançando uma campanha de “compre produtos espanhóis”.
Mas não há certeza alguma de que as medidas de gastos -algumas anunciadas apesar das objeções do ministro das Finanças e ex-responsável pela restrição fiscal, Pedro Solbes- terão os efeitos desejados. O que é certo é que a margem fiscal de manobra do governo, com o déficit orçamentário projetado já sendo mais que o dobro do teto de 3% do PIB permitido pela UE, é fortemente limitada. Embora a dívida pública acumulada ainda seja relativamente modesta, a deterioração das finanças públicas levou a agência de classificação Standard & Poor’s, no mês passado, a tirar da Espanha sua classificação AAA.
Em crises anteriores, a Espanha simplesmente desvalorizou a peseta para aumentar a competitividade das exportações e atrair investimentos -o caminho seguido agora pelo Reino Unido-, mas uma desvalorização unilateral deixou de ser uma opção possível para um membro da zona do euro.
Quase todos os executivos, economistas ortodoxos e políticos da oposição de direita concluem que a única maneira de a Espanha emergir da crise mais forte -ou sobreviver a ela dentro dos limites da zona do euro- é aumentar sua produtividade e competitividade, adotando reformas estruturais. O que querem dizer é que empregados possam ser contratados e demitidos mais facilmente, a um custo menor, e que os salários sejam definidos por empresas, não por setores.
Na semana passada, o presidente do Banco Central, Miguel Angel Fernández Ordóñez, irritou o governo ao descrever a reforma trabalhista como a medida “mais importante” contra o desemprego.
Enquanto isso, o fim da alta performance econômica deixa a dúvida: será que o país poderá retomá-la ao final da crise global? Para os economistas, a construção foi uma parte tão importante que a recuperação inevitavelmente será lenta. “A economia espanhola levará cerca de sete anos para crescer a 3% ao ano novamente”, diz Bernardo Quirós. “Os espanhóis perderão metade de sua riqueza. É horrível.”
Tradução de CLARA ALLAIN
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Paul Krugman * – O Estado SP
Uma coisa não muito engraçada ocorreu no caminho da recuperação econômica. Nas duas últimas semanas, o que deveria ter sido um debate extremamente sério sobre como salvar uma economia em situação desesperadora, se transformou num teatro político trivial com republicanos despejando todos os velhos clichês sobre gastos perdulários do governo e as maravilhas dos cortes de impostos.
É como se o pavoroso fracasso econômico dos últimos oito anos não houvesse acontecido – e, no entanto, por incrível que pareça, os democratas ficaram na defensiva. Mesmo que um grande pacote de estímulo seja aprovado no Senado, existe um risco concreto de que partes importantes do plano original, em especial a ajuda a governos estaduais e municipais, sejam amputadas.
De alguma maneira, Washington perdeu qualquer senso do que está em jogo – da realidade de que podemos perfeitamente estar caindo num abismo econômico, e que se o fizermos, será muito difícil sair dele.
É difícil exagerar o tamanho das dificuldades econômicas que enfrentamos. A crise começou no setor imobiliário, mas o estouro da bolha imobiliária da era Bush acionou a queda das pedras de dominó não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo.
Os consumidores, com a sua riqueza dizimada e seu otimismo abalado pelo colapso dos preços das moradias e um mercado acionário em queda, cortaram seus gastos e aumentaram fortemente sua poupança – uma boa coisa no longo prazo, mas um golpe enorme na economia neste momento. Os incorporadores de imóveis comerciais, observando a queda dos aluguéis e a escalada dos custos do financiamento, estão cortando seus planos de investimento. Empresas estão cancelando planos para expandir a capacidade por não estarem vendendo o suficiente para usar a capacidade de que dispõem. E as exportações, uma das poucas áreas fortes da economia americana no último par de anos, estão despencando agora na medida em que a crise financeira atinge nossos parceiros comerciais.
Enquanto isso, nossa linha principal de defesa contra recessões – a capacidade habitual do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de amparar a economia cortando taxas de juros – já foi ultrapassada. O Fed cortou as taxas que controla basicamente a zero, mas a economia continua em queda livre.
Não é de surpreender, portanto, que a maioria das projeções econômicas advirtam que na falta de uma ação governamental estaremos a caminho de uma recessão profunda e prolongada. Alguns analistas privados preveem um desemprego de dois dígitos. O Escritório de Orçamento do Congresso está um pouco mais otimista, mas ainda assim seu diretor advertiu recentemente que “na falta de uma mudança na política fiscal… o déficit na produção nacional em relação aos níveis potenciais será o maior – em duração e profundidade – desde a Depressão dos anos 30″.
O pior de tudo é a possibilidade de que a economia se veja, como aconteceu nos anos 30, presa numa prolongada armadilha deflacionária.
Já estamos mais perto de uma deflação que em qualquer ponto desde a Grande Depressão. Em particular, o setor privado está experimentando cortes generalizados de salários pela primeira vez desde os anos 30, e haverá muito mais disso se a economia continuar se debilitando.
Como assinalou o grande economista americano Irving Fischer, há quase 80 anos, a deflação, uma vez iniciada, tende a se autoalimentar. À medida que as receitas em dólar caem em face de uma economia deprimida, o peso da dívida se torna mais difícil de suportar, enquanto a expectativa de novas quedas de preços desestimula os gastos com investimento. Esses efeitos de deflação deprimem ainda mais a economia, provocando mais deflação, e assim sucessivamente.
E armadilhas deflacionárias podem durar muito tempo. O Japão teve uma “década perdida” de deflação e estagnação nos anos 90 – e a única coisa que permitiu que o Japão escapasse de sua armadilha foi um boom global que intensificou as exportações do país.
Quem salvará os Estados Unidos de uma armadilha parecida agora que o mundo todo está em retração ao mesmo tempo? Será que o plano econômico de Obama, se aprovado, garantirá que os Estados Unidos não tenham sua década perdida?
Não necessariamente: alguns economistas, eu inclusive, acham que o plano é insuficiente e deveria ser substancialmente maior. Mas o plano de Obama certamente melhoraria nossa sorte. E é por isso que os esforços de republicanos para tornar o plano menor e menos eficaz – para transformá-lo em pouco mais que outra rodada de cortes de impostos ao estilo Bush – são tão destrutivos.
O que Barack Obama deveria fazer então? Eu me incluo entre os que acham que o presidente cometeu um grande erro em sua atitude inicial, de que suas tentativas de transcender o partidarismo terminaram fortalecendo políticos que recebem ordens de marcha de Rush Limbaugh. O que importa agora, porém, é o que ele fará em seguida.
Já é hora de o presidente Barack Obama partir para a ofensiva. Ele precisa, sobretudo, não se esquivar de assinalar que os que se colocam no caminho do seu plano em nome de uma filosofia econômica desacreditada, estão colocando em risco o futuro da nação. A economia americana está à beira da catástrofe, e boa parte do Partido Republicano está tentando empurrá-la por sobre essa beira.
*Paul Krugman é articulista
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E.S. Browning, The Wall Street Journal – VALOR
Eles podem não aparecer em importantes referências mundiais como as bolsas de valores americanas, mas o fato é que começam a surgir alguns pequenos sinais de otimismo nos mercados financeiros.
Os preços de algumas commodities começam a subir, assim como as bolsas de países exportadores de commodities como o Brasil. Alguns investidores voltaram a comprar títulos de dívida corporativa, com empresas fortes emitindo novos papéis, ainda que preços e rendimento não estejam de volta ao normal.
Os investidores chamam isso de aposta na reflação, ou a crença de que os líderes mundiais terão sucesso no combate à depressão e à deflação e gradualmente levarão o mundo de volta ao crescimento econômico. Alguns preveem que a inflação volte a subir no fim deste ano.
O preço do cobre subiu 5% no mercado futuro este ano e está 17% acima do nível mais baixo que alcançou no fim de 2008. Os futuros do estanho subiram 7% em 2009. O Ibovespa subiu 5% este ano, enquanto na Coréia do Sul o principal índice está em alta de 3%.
No entanto, o otimismo parece mais uma marola do que uma onda de verdade, e muitos descrentes acreditam que vai acabar mal. Os ganhos são localizados.
O mercado acionário de Hong Kong caiu 8% em 2009. Os futuros de petróleo e milho já caíram 7% este ano. Alguns mercados, como as bolsas de valores dos Estados Unidos, já devolveram a maior parte dos ganhos que tiveram desde o fim do ano passado. Este foi um dos piores janeiros da história do mercado acionário americano.
Muitos investidores ainda temem que a recente recuperação seja apenas um outro respiro antes que os mercados caiam para pisos ainda mais baixos.
Poucos estão entrando nos mercados com os dois pés, apesar de alguns otimistas estarem gradualmente aumentando seus investimentos em ações, títulos de empresas, commodities e outros ativos de maior risco. Eles dizem que recuperações duradouras às vezes acontecem dessa maneira, com pequenos ganhos aqui e ali.
Os ganhos refletem a esperança de que a economia mundial se recupere mais para o fim do ano, com países em desenvolvimento como China e Brasil recuperando-se antes dos EUA, Europa ou Japão.
Algumas pessoas estão gradualmente tirando dinheiro dos títulos do Tesouro dos EUA, considerados um porto seguro e cuja demanda foi tão alta que o rendimento encolheu para os menores patamares em décadas, reflexo da alta de suas cotações. Muitos ainda querem a segurança dos treasurys, de modo que os preços continuam altos e os rendimentos, baixos. Mas, à medida que alguns investidores voltaram a fazer investimentos mais arriscados, as cotações dos papéis do Tesouro americano caíram um pouco, puxando o rendimento do título de dez anos para 2,8% na sexta-feira passada, ante 2,1% em 18 de dezembro.
Os céticos alegam que os mercados tiveram várias recuperações temporárias no ano passado, para então cair de novo, à medida que a profundidade dos problemas da economia global se tornava mais evidente. Os pessimistas consideram a mais recente recuperação de aplicações de maior risco como “pulo de gato morto”, ou uma breve alta seguida de mais quedas. A frase é parte do jargão de Wall Street e quer dizer que mesmo um gato morto irá quicar se cair muito.
“Se você for um ágil trader de curto prazo, pode tentar aproveitar isso”, diz David Kotok, presidente da empresa de administração de recuros Cumberland Advisors, de Vineland, no Estado americano de Nova Jersey. Mas outros “podem ser sugados pelo pulo do gato morto”. Kotok não aumentou sua exposição a ações de empresas americanas ou à maioria das commodities, embora tenha expandido levemente os investimentos em ouro e prata, que podem dar um bom retorno quando a dívida pública cresce e o governo injeta dinheiro na economia.
Uma série de deprimentes dados econômicos e resultados de empresas levou a Média Industrial Dow Jones a cair 8,8% no mês passado, o maior declínio em janeiro em 113 anos de história.
Mas mesmo na Dow houve um sinal de que os investidores não perderam a esperança. Nas últimas semanas, o índice conseguiu se recuperar toda vez que caiu para a faixa dos 8.000 pontos. Ele testou esse patamar outra vez na sexta-feira passada, quando fechou a 8.000,26 pontos. Os investidores ainda não têm muita esperança quanto às ações americanas, mas muitos acreditam que vão escapar de novos grandes problemas.
“Espero que tenhamos passado o pior”, disse William Hackney, diretor de investimentos do Atlanta Capital Management, empresa de administração de recursos de Atlanta. As bolsas já caíram tanto que “as notícias econômicas não precisam ser boas, elas só precisam ser menos ruins. Devemos chegar a uma posição nos próximos seis meses de pelo menos frear a queda e talvez até voltar a subir um pouco”.
No fim do ano passado, os administradores de um dos fundos de pensão com os quais ele trabalha decidiram suspender totalmente a compra de ações, mesmo que isso implicasse deixar os investimentos em renda variável abaixo do nível que haviam estabelecido. Agora eles decidiram voltar a esse patamar e comprar ações de novo.
Eles não estão adotando uma posição agressivamente otimista em relação a ações, e sim se reequilibrando a partir de uma posição extremamente pessimista.
Muitos, no entanto, temem que ainda seja muito cedo para alimentar esperanças.
Os sinais de recuperação econômica, mesmo nos países em desenvolvimento, ainda não são amplos o suficiente para aplacar as preocupações de Jeff Schappe, diretor de investimentos da BB & T Asset Management, de Raleigh, Carolina do Norete.
Depois de um breve período de otimismo no primeiro semestre do ano passado, Schappe reduziu de 65% para 60% a alocação em ações. Desde então, diz, tem se segurado para evitar cortar ainda mais a exposição a ações.
“Nosso lema agora é de que esta não é a hora de ser herói”, diz Schappe. Ele está comprando títulos corporativos de alta qualidade, mas não papéis de grau especulativo. Está alertando os clientes a se concentrar principalmente em papéis de empresas com balanços fortes, como Wal-Mart Stores, McDonald’s e algumas farmacêuticas.
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EDUARDO CUCOLO da Folha Online, em Brasília
O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu hoje reduzir a taxa básica de juros em 1 pontos, de 13,75% ao ano para 12,75% ao ano. Trata-se do maior corte de juros promovido pelo BC desde dezembro de 2003, quando a Selic caiu de 17,5% a.a para 16,5% ao ano.
A decisão do BC ocorre em um momento de forte desaceleração da economia brasileira e em meio à pressão feita por empresários, sindicatos e por membros do próprio governo. O corte está dentro das previsões mais “otimistas” do mercado e do setor produtivo.
Arte Folha Online
A taxa Selic está agora abaixo do patamar em que estava até o dia 10 de setembro do ano passado (13% a.a.), data em que o BC aumentou os juros pela última vez, poucos dias antes do estouro da crise econômica. Apesar da queda, os juros reais brasileiros permanecem como os maiores do planeta, à frenta da Hungria.
A maioria dos economistas já esperava uma queda entre 0,5 ponto percentual e 1,0 ponto percentual. Na reunião de dezembro, quando decidiu manter os juros inalterados, o BC havia informado que parte da sua diretoria já pensava em realizar um corte.
Depois disso, uma sequência de dados negativos sobre emprego, produção industrial e vendas do comércio reforçou as apostas na queda dos juros. Além disso, os principais índices de preços mostraram queda na inflação ou até deflação, o que abriu espaço para um corte maior.
Mesmo com a chegada da crise ao Brasil, refletida principalmente na falta de crédito e queda da demanda, a instituição vinha optando por manter a Selic inalterada desde setembro do ano passado, temendo os impactos da alta do dólar sobre os preços no país. Esse movimento foi compensado, no entanto, pela queda na cotação de vários produtos, como alimentos e petróleo no mercado internacional.
Previsões para o ano
Trata-se da primeira das oito reuniões do Copom neste ano. Agora, os diretores do BC só voltam a se reunir nos dias 10 e 11 de março. Até lá, já será conhecido o PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas produzidas no país) do último trimestre de 2008, que deve mostrar o tamanho do impacto da crise no país.
De acordo com a pesquisa Focus, realizada pelo BC com o mercado financeiro, os economistas esperam agora uma sequência de novos cortes nos juros: para 12,50% em março; 11,75% em abril; 11,50% em junho; e 11,25% em julho. Depois disso, a taxa só voltaria a cair em 2010, para 11% ao ano.
Mesmo prevendo queda nos juros neste ano, o mercado financeiro aposta que o BC conseguirá trazer a inflação para o centro da meta, que é de 4,5%, devido à desaceleração da economia, que deve crescer apenas 2% neste ano, segundo a pesquisa Focus do BC.
Lula
Segundo reportagem da Folha desta quarta-feira, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, se reuniu anteontem com o presidente Lula para lhe dizer que os juros cairiam hoje, mas ressaltou que o principal problema ainda é o “spread” cobrado pelos bancos privados.
O “spread” é a diferença entre o custo de captação dos bancos e os juros que eles cobram dos seus clientes. Desde setembro, mesmo com a Selic inalterada, o spread subiu, influenciado pela falta de crédito no mercado.
Amanhã, o presidente deve se reunir com os dirigentes de bancos públicos e privados para cobrar uma redução do “spread”.
Tags: alimentos, Bancos, copom, crédito, crise, deflação, demanda, desaceleração, dólar, emprego, empresários, inflação, Internacional, Juros, Lula, Meirelles, Mercados, PIB, Selic, sindicatos
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Keynes e Roosevelt
Antonio Delfim Netto – VALOR
As discussões sobre os problemas macroeconômicos são intermináveis. Até hoje, quase 80 anos depois do evento, os economistas discutem qual a “causa” (ou as “causas”) da crise de 1930. E há ainda sérias dúvidas sobre as políticas (ou os acidentes!) que a resolveram. Dúvidas completamente ignoradas por quem procura nelas inspiração para a solução da crise atual. Glamorizou-se posteriormente a solução de 1933 como “keynesiana”. O pequeno problema é que Roosevelt sempre teve pavor do “déficit público”. Como governador do Estado de Nova York, em plena crise (na presidência de Hoover), ele aumentou os impostos para dar ênfase à necessidade de manter o equilíbrio orçamentário…
Para se ter uma idéia da magnitude do problema dos anos 30 nos EUA é conveniente observar o gráfico abaixo, onde se registra o nível do PIB real dos EUA a partir de 1929 (suposto = 100) e a taxa anual de inflação.
Roosevelt fez sua campanha eleitoral com duras críticas ao sistema financeiro e produtivo dos EUA apoiado em números dramáticos. No final de 1932 (ano da eleição) a situação era a seguinte:
1) queda acumulada do PIB (1929/32) – 26%; 2) queda acumulada dos preços (1929/32) – 33%; 3) taxa do desemprego (1932) – 25%.
Para a crise atual as mais dramáticas previsões falam de uma queda do PIB entre 2007 (quando começou a crise) e 2009, da ordem de 2% ou 3%. No primeiro ano da grande crise (1930), o PIB americano caiu 9% e no segundo, mais 6,5% (1931), perfazendo uma queda de 16%! O quadriênio de Hoover é conhecido por sua ortodoxia, pelos equívocos da política monetária, pelo seu respeito irracional ao padrão ouro que o obrigou a aumentar a taxa de juros (em plena recessão!) para impedir a fuga do metal e pelo desastre das medidas protecionistas incorporadas à lei Smoot-Hawley. Esta aumentou as tarifas de importação de quase 1.000 produtos. Não há dúvida que ela produziu uma política protecionista mundial e estimulou um pernicioso “nacionalismo” que reduziu, em quase 2/3, o comércio internacional. Isso acabou restringindo as próprias exportações dos EUA agravando ainda mais o seu problema.
Roosevelt entendeu claramente que, diante da quebra de confiança que interrompera o “circuito econômico” e da perspectiva de continuidade da deflação, precisava de medidas dramáticas. Foi isso que o fez decretar um feriado bancário e o controle do movimento de capitais no primeiro dia do governo. Nos seus famosos “100 primeiros dias”, entupiu o Congresso com os projetos que constituíram o “New Deal”, com duas vertentes: reformar o sistema bancário e introduzir o controle governamental sobre a estrutura produtiva. A primeira ele atendeu com Ato Bancário de 1933 (a lei Glass-Steagall) que separou (vejam só!) os bancos de investimentos dos comerciais, criou o seguro de depósitos, o Fomc (Federal Open Market Commitee) e entregou o controle de todo o sistema ao FED. Foi este, em 1986, que voltou a permitir a confusão entre bancos comerciais e de investimento. E terminou como já sabemos…
A intervenção no sistema produtivo concretizou-se no National Industrial Recovery Act (Nira) de Junho de 1933. Ele criou a National Recovery Administration (NRA) e o Agricultural Adjustment Act (AAA). Numa larga medida estes substituíram o “mercado” por um ensaio de Estado “corporatista” que aliou empresários e trabalhadores na eliminação da concorrência e estimulou o aumento simultâneo de salários e preços (inflação para corrigir expectativa deflacionária como se vê no gráfico). Esse “corporatismo” só foi modificado em meados dos anos 80 do século passado. Suspeito que esta espécie de coordenação pelo Estado tenha mais inspirado Keynes do que resultado de seus conselhos. O ponto importante é que a execução dessas medidas foi acompanhada pela efetiva desvalorização do dólar em abril de 1933. Assim, a quieta ação econômica de Hoover foi radicalmente apagada pela agressiva e mediática política de Roosevelt. E isso mudou a expectativa de deflação e iniciou a volta da confiança que fez trabalhar o “circuito econômico”. Até hoje, com sua reconhecida miopia, a direita americana o considera um “traidor de sua classe e introdutor do socialismo nos EUA”.
A prova que há muito pouco keynesianismo no “New Deal” é que o desemprego se manteve em torno de 15% até 1939, às vésperas da 2ª Guerra Mundial. Quando em 1937 houve um aumento da receita (derivado da recuperação do PIB), a política fiscal foi contracionista (superávit). No mesmo ano o aumento dos meios de pagamentos levou o Fed a subir a taxa de juro, aumentando o depósito compulsório dos bancos (também contracionista). Os dois fatos produziram a pequena recessão de 1938 que se vê no gráfico.
Com Keynes ou sem Keynes (deixem-no em paz!), a lição que sobrou é clara: 1º ) foi a agressiva política de Roosevelt que destruiu a expectativa deflacionária, restabeleceu a confiança e colocou para rodar o circuito econômico; 2º ) os investimentos públicos foram importantes, mas não suficientes para eliminar o desemprego que, entre 1936 e 1939, continuou no nível de 15%; e 3º ) o “corporatismo” induzido pela aliança de empresários (que defendem seus lucros) e sindicatos (que defendem o salário de quem está empregado) para reduzir a competição, provavelmente diminuiu a velocidade da recuperação.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras.
E-mail contatodelfimnetto@terra.com.br
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Plano inclui corte nos spreads; área econômica do banco projeta queda de 3 pontos porcentuais da taxa Selic em 2009
Adriana Fernandes – O Estado SP
A Caixa Econômica Federal prepara uma nova rodada de redução de taxas de juros dos empréstimos aos seus clientes. O pacote com taxas mais baratas, que será anunciado no prazo de 15 dias, vai incluir também um novo corte de spreads bancários (diferença entre o custo de captação e o custo do empréstimo) em alguns produtos oferecidos pelo banco estatal.
A medida faz parte da estratégia de política econômica do governo de estimular a concorrência e reduzir o custo do crédito para as empresas e pessoas físicas com o objetivo de estimular o crescimento econômico este ano. A redução dos juros dos bancos oficiais será complementar ao novo pacote anticrise que o governo prepara para ser anunciado ainda neste mês.
O vice-presidente de Finanças da Caixa, Márcio Percival, antecipou à Agência Estado que os estudos para o cálculo das novas taxas levam em conta cenário de taxa Selic traçado pelo área econômica do banco federal, de 10,75% ao ano no fim de dezembro de 2009.
Esse cenário está condicionado a uma queda de 3 pontos porcentuais da Selic até o fim do ano. A Selic hoje está em 13,75%. “Nós reprecificamos uma nova curva de juros”, disse Percival. “É uma decisão interna da Caixa, que está em linha com a política econômica do governo”, afirmou.
Segundo o vice-presidente, os modelos usados pelo banco para traçar os cenários indicam que há espaço para essa redução maior da Selic. A média do mercado, de acordo com a pesquisa Focus realizado pelo Banco Central com instituições financeiras, é de uma queda menor até dezembro, para 11,75%.
O executivo da Caixa destacou que o IGP-10 de janeiro apresentou deflação e os indicadores mostram queda da inflação, com desaceleração do ritmo da atividade econômica. “Os contratos de DI futuro (juros futuros) derreteram a um nível menor do que em dezembro de 2007″, disse Percival.
Em dezembro, com a diminuição da volatilidade do mercado financeiro, a Caixa já tinha feita uma rodada de queda dos juros, alongamento dos prazos e dos spreads, seguindo a orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que os bancos públicos devem baratear o crédito. A estratégia do governo é usar os bancos oficiais, que respondem por quase 40% do crédito no País, para puxar para baixo as taxas e influenciar as instituições privadas a fazerem o mesmo, diminuindo o custo do dinheiro.
Segundo fontes da equipe econômica, o Banco do Brasil também deve seguir a Caixa. O Banco do Brasil recebeu orientação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, para fazer uma nova rodada de baixa dos seus spreads e taxas. No fim do ano passado, o presidente Lula e a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, se queixaram publicamente das taxas praticadas pelo Banco do Brasil.
Antes de sair de férias, na semana passada, Mantega se reuniu com um grupo de empresários que reclamaram que o crédito continua elevado. Procurado pela Agência Estado, o Banco do Brasil não quis comentar a informação.
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Alberto Tamer* – O Estado SP
Há sinais de esperança e reina um clima de alívio no mercado internacional nestes primeiros dias do ano. Obama confirmou na terça-feira o seu plano ousado de investimentos de até US$ 800 bilhões. Destes, US$ 300 bilhões só em redução e devolução de impostos. Começa executá-lo assim que assumir e tiver a aprovação do Congresso. Não é mais hora de debater, falar ou discutir, mas de agir com extrema urgência. O mundo ouviu, espera ansioso e vê sua esperança ganhar corpo de realidade.
SEM ACADEMICISMO
Os pronunciamentos de Obama nesta semana mostram que sua equipe e ele rejeitaram definitivamente a proposta de usar a política monetária, juros e injeção de liquidez, para combater a recessão. Paul Krugman, em mais um artigo excelente publicado ontem no Estado, mostra que essa política fracassou (Ver aqui Combatendo a depressão). O Tesouro está inundando o mercado com dólares, o Fed baixou o juro real a zero, os bancos e as instituições financeiras foram abastecidas com vários trilhões de dólares, mas nada disso adiantou até agora. A recessão apenas se aprofunda e ameaça transformar-se em depressão.
Hoje, Paulson e Bernanke reconhecem que erraram ao se concentrar apenas no socorro ao sistema financeiro. O fato é que os números econômicos recentes são assustadores, não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, afirma Krugman. Os bancos não estão emprestando, as empresas e os consumidores não estão gastando. “Não vamos medir palavras: isso se parece muito com o início da 2ª Grande Depressão.” E Krugman é o Prêmio Nobel de Economia deste ano.
É preciso voltar a Keynes. Para ele, a política monetária é ineficaz na depressão. Só a política fiscal – gastos deficitários do governo em grande escala -, pode combater o desemprego em massa, lembra Krugman.
OBAMA ACERTOU
E é exatamente isso o que Obama está fazendo. Na terça-feira, ele admitiu que os Estados Unidos poderão ter déficit orçamentário de US$ 1 trilhão não só em 2009. Não será nada trágico. Eles recebem investimentos externos anuais de US$ 2 trilhões e todos, no mercado americano e no exterior, continuam comprando os velhos títulos do Tesouro e os que estão sendo emitidos também.
A saída é reanimar a economia mundial com gastos públicos maciços. Estados Unidos e China já anunciam planos trilionários em obras e geração de empregos.O medo agora não é mais de inflação, mas de deflação. Se os preços continuarem a cair, a inflação chegará a zero e ninguém mais vai comprar esperando que baixem ainda mais. Aí estaríamos diante de um quadro de deflação e recessão. O pior dos mundos, que deve ser evitado, mesmo com os déficits dos governos.
DESEMPREGO ASSUSTA
Obama enfrenta a oposição do Partido Republicano. Isso é gravíssimo, pode retardar o início do programa de mais um mês com aumento do desemprego, que já está em 6,7% e ameaça passar de 10%. Dados preliminares estimam que só em dezembro foram demitidas 693 mil pessoas. Somados aos mais de 500 mil de novembro, só em dois meses há mais de 1,2 milhão de desempregados. Demissão em massa é o caminho certo para a recessão e a depressão. Espera-se que o Congresso seja mais responsável diante desses e de outros indicadores negativos que vão surgir.
CONFIA EM OBAMA,MAS…
Nestes primeiro dias do ano, ficou evidente que o mundo confia em Obama mas não no Congresso. Tudo depende de Obama e Obama depende do Congresso americano. Pode ser exagero, mas se a recuperação nos Estados Unidos for retardada por alguns meses pela politicalha dos republicanos conservadores e atrasados,o mundo vai pagar um preço muito caro que hoje eles poderiam evitar.
Esse é o grande temor que Krugman expressa em seu artigo. E deveria ser o temor de todos nós.
*Email – at@attglobal.net
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Celso Ming – O Estado SP
O mundo está acostumado a identificar a inflação e a lutar contra ela. Não está acostumado a combater o inimigo oposto, a deflação.
Uma das advertências que, nas últimas semanas, vêm sendo feitas por um número crescente de economistas é a de que os países ricos, especialmente os Estados Unidos, estão fortemente ameaçados pela rara síndrome denominada estagdeflação. É um período em que não só ocorre recessão (queda acentuada da atividade econômica e da renda), mas também deflação (queda relevante dos preços). A propósito veja o Entenda.
Como tanta coisa em Economia, não há causas únicas de deflação. Várias delas se reforçam uma à outra. Em geral, são dois os principais causadores primários de deflação: forte queda dos preços das commodities, especialmente petróleo e alimentos; e retração do consumidor, que provoca grande redução da procura e queda generalizada de preços.
Como a inflação foi sempre uma das principais ameaças da economia, muita gente estranha que o contrário dela, em vez de ser um benefício, possa ser uma grave ameaça.
É que a estagdeflação empurra o sistema produtivo para graves distorções, tanto quanto as provocadas pela inflação. Confira algumas.
(1) Aumento das dívidas – Se os preços caem e os passivos permanecem como estão, a dívida real aumenta. Como, em geral, numa recessão, o desemprego cresce e os salários caem, um aumento da dívida tende a dificultar os pagamentos, o que leva a calotes e inadimplências.
(2) Baixa da arrecadação – A maioria dos impostos é calculada como certa porcentagem cobrada sobre os preços. Assim, se os preços caem, a arrecadação de impostos vai atrás.
Como o setor público (governos) trabalha com despesas relativamente fixas (salários, aposentadorias e contratos), a queda da arrecadação tende a aumentar o déficit público (despesa sem cobertura de receita).
Além disso, como ficou dito, a deflação aumenta os passivos e, quase sempre, o maior deles é o dos tesouros. Isso significa que a deflação tende a dificultar o pagamento das dívidas públicas.
(3) Redução das vendas – A partir do momento em que se forma a percepção de que começou um processo de deflação, o consumidor tende a adiar suas compras, porque vai achar que quanto mais esperar para fechar um negócio, mais barato vai pagar. Quando se generaliza, essa atitude leva ao aumento do encalhe de mercadorias que, no momento seguinte, obriga as empresas a torrarem os estoques de maneira a reduzir as perdas (stop loss).
Por aí se vê, também, que a deflação tende a reduzir as encomendas ao setor produtivo, a aumentar o desemprego, a achatar o salário real e a derrubar os lucros. Radicalizado o processo, os preços das ações tendem a afundar e, com elas, se desvaloriza o patrimônio dos fundos de pensão e das carteiras das famílias.
(4) Trava na política de juros – Outro grave risco é o de que os juros caiam tanto que cheguem às cercanias do zero. A partir daí, a política monetária (política de juros) perde a capacidade de tração. Ou seja, o banco central não pode mais derrubar os juros para fazer a produção andar. E foi desse mal que a economia japonesa sofreu ao longo da década de 90.
Entenda
O que é – Deflação não é aquilo que, por desinformação ou falta de traquejo, os jornais brasileiros às vezes denominam quando usam o termo. Deflação não é queda eventual da inflação, mas queda constante de preços.
Se a inflação foi de 1% no mês 1 e caiu para 0,5% no mês 2, isso não é deflação. É inflação (aumento dos preços), embora mais baixa no mês 2 do que no mês anterior.
Também não é deflação a queda dos preços por um prazo curto, digamos de 1% no mês 1 para 0,3% no mês 2. Ela só ocorre quando a queda acontece por períodos mais longos, de cerca de seis meses ou mais.
Tags: ações, alimentos, aposentadorias, arrecadação, Bancos, Celso Ming, commodities, deflação, desemprego, dívidas, empresas, impostos, inflação, Juros, lucros, petróleo, preços, recessão, Renda, salários, Tesouro
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”Crescimento zero será bom resultado para o Brasil em 2009”
Professor de Harvard diz que País está mais bem preparado para enfrentar a crise, mas não tem como escapar de seus efeitos
Leandro Modé – O Estado SP

O americano Kenneth Rogoff, de 55 anos, é um dos mais respeitados economistas do mundo hoje, o que não significa que seja unanimidade. Suas posições ortodoxas, muitas vezes expressas de uma forma contundente, nem sempre agradam ao interlocutor. Em 2002, quando era economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), envolveu-se em uma polêmica pública com o ex-economista-chefe do Banco Mundial e ganhador do Prêmio Nobel, Joseph Stiglitz. O tema da contenda era globalização. Talvez pelo cargo que tenha ocupado, Rogoff procura manter-se atualizado sobre a economia de vários países. Esse conhecimento dá a ele a certeza de que o mundo está em meio à pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial. Por isso, avisa: o Brasil deve dar-se por satisfeito se não enfrentar recessão em 2009. Rogoff, que hoje leciona na Universidade Harvard, conversou com o Estado, por telefone, durante uma viagem de trem de Boston para Nova York.
Leia a íntegra da entrevista
Em artigo publicado há duas semanas, o sr. disse que o maior problema dos países ricos é a recessão. Por isso, devem deixar os juros em segundo plano. O que dizer de países emergentes, como o Brasil?
Os países emergentes têm muito menos espaço para políticas contracíclicas do que os Estados Unidos e os efeitos da inflação são mais danosos. Nos EUA, a inflação reduz o valor real das dívidas e pode ser parte da solução dos atuais problemas. O Brasil não tem esse problema. Além disso, como a inflação no Brasil já é elevada, o Banco Central está entre a cruz e a espada.
Como assim?
A economia global está apenas entrando na pior recessão desde a Segunda Guerra Mundial. As commodities estão despencando e o mercado de crédito secou. Ou seja, é uma situação extremamente difícil e perigosa. O crescimento no Brasil certamente vai desacelerar. Mas, ao mesmo tempo, a inflação permanece elevada. Isso deixa ao Banco Central um espaço menor para responder como gostaria (à desaceleração). Além disso, o real depreciou-se fortemente. Reduzir a taxa de juros desvaloriza o real à frente. Mas, como os juros estão caindo rapidamente mundo afora, o BC brasileiro acabará reduzindo a taxa.
Quando?
Em breve (risos). Ainda que o Brasil esteja às voltas com preocupações inflacionárias, a economia global enfrenta o risco de deflação. Isso ocorre nos EUA, na China e na Europa. Os preços das commodities estão despencando e a produção industrial está caindo. O Brasil sentirá tudo isso logo. Quaisquer que sejam as pressões inflacionárias, serão revertidas em breve.
O sr. vê risco de recessão no País?
Há grande chance de o Brasil experimentar uma recessão suave. É quase impossível escapar disso, uma vez que se espera uma profunda recessão no mundo. O Brasil vai sofrer como todos os outros, mas não acho que sofrerá mais do que os outros. Todas as mudanças que o Brasil implementou nos últimos anos vão permitir que a reação seja muito melhor do que há 10 anos. É uma situação desastrosa, mas, em termos relativos, o Brasil está melhor do que muitos outros países.
Qual sua projeção para o crescimento do Brasil em 2009?
Crescimento zero será um bom resultado, levando-se em conta o ambiente global.
Mas as pessoas aqui falam algo entre 2% e 3%.
Elas são otimistas. A economia global está afundando muito rapidamente.
Qual o seu cenário principal para a economia mundial em 2009?
Como já disse, será a pior recessão desde a Segunda Guerra, mas nada que se assemelhe à Depressão dos anos 30.
O que o sr. espera especificamente para os EUA?
Uma recessão que dure 2009 inteiro. Em 2010 e 2011, o crescimento ainda permanecerá lento, abaixo de 2%. Os preços das residências continuarão a cair e o desemprego, a subir. Os emergentes também terão uma queda em 2009, mas se recuperarão mais fortemente em 2010 e 2011.
E o PIB (Produto Interno Bruto) americano em 2009?
Crescimento negativo entre 3% e 4%.
Com essa retração nos EUA, como fica o PIB mundial?
Pode ficar negativo, especialmente se a China desacelerar mais do que se espera. Isso ocorrerá certamente em um ou dois trimestres. Para o ano todo, espero um crescimento na faixa de 1%.
E a China?
A China também está sofrendo. Já esperava que a China poderia crescer no máximo 6% no ano que vem. Agora, não ficaria surpreso se o país crescesse menos ainda do que isso. Temos de cruzar os dedos para que a China não tenha uma ruptura econômico-social, porque isso poderia aprofundar ainda mais a recessão global.
Alguns países estão sofrendo mais que os outros, como, por exemplo, a Hungria e a Rússia. Por quê?
A Hungria teria uma crise financeira de qualquer maneira. Eles tinham um endividamento instável, uma situação fiscal ruim. A Rússia é outro assunto. É basicamente uma economia de commodity (petróleo). O sistema russo não estava preparado para um petróleo a US$ 40. Eles nunca permitiram que a economia se diversificasse. O Brasil, por exemplo, tem uma economia muito mais diversificada.
Qual sua expectativa em relação à administração Barack Obama?
Ele montou uma grande equipe, incluindo (Timothy) Geithner (que será secretário do Tesouro), (Larry) Summers (que será diretor do Conselho Econômico da Casa Branca) e (Paul) Volcker (ex-presidente do BC americano, Fed, indicado para dirigir um conselho destinado a propor soluções para a crise). Por si só, isso já inspira confiança. Obama fará um serviço muito melhor do que (George W.) Bush no que se refere às pessoas se sentirem assistidas, e isso vai melhorar o humor da população. A administração atual já está em férias. Mas não deve haver dúvidas: mesmo os melhores e mais brilhantes não serão capazes de resolver o problema da noite para o dia.
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Une illustration de Damien MacDonald
NOURIEL ROUBINI ESPECIAL PARA O “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP
A ECONOMIA dos EUA e mundial corre o risco de uma severa “estagdeflação”, uma combinação mortífera de estagnação/recessão econômica e deflação.
Uma recessão mundial severa resultará em pressões deflacionárias. A queda na demanda resultará em inflação mais baixa, à medida que as empresas cortem preços para reduzir seus estoques excedentes. A folga nos mercados de trabalho gerada pelo desemprego ajudará a controlar os custos de mão-de-obra e os salários. A folga nos mercados de commodities devido à queda de preços também conduzirá a uma queda acentuada na inflação. Assim, o nível de inflação nas economias avançadas deve rumar ao patamar de 1%, que costuma despertar temores de deflação.
A deflação é perigosa porque resulta em armadilhas de liquidez, de deflação e de deflação de dívidas: as taxas de juros nominais não podem cair abaixo de zero, e com isso a política monetária perde a efetividade. Já estamos vivendo numa armadilha de liquidez, porque a taxa de fundos federais do Federal Reserve (o BC dos EUA) ainda é de 1%, mas a taxa efetiva está perto de zero, porque a instituição inundou o sistema financeiro com liquidez. Além disso, nas deflações a queda nos preços significa que o custo real do capital é elevado a despeito de taxas de juros próximas de zero, e isso resulta em novas quedas no consumo e no investimento. A queda na demanda e nos preços gera um círculo vicioso: a renda e o número de empregos caem, e isso gera novas quedas de demanda e preços (uma armadilha de deflação); e o valor real das dívidas nominais sobe (uma armadilha de deflação de dívida), o que torna os problemas dos devedores mais severos e leva a um risco crescente de inadimplência domiciliar e empresarial, o que exacerba os prejuízos das instituições financeiras com o crédito.
Como a política monetária tradicional está perdendo a efetividade, outras medidas não ortodoxas vêm sendo usadas: oferta maciça de liquidez aos bancos (para superar a perda de liquidez e reduzir o “spread” entre as taxas de juros de curto prazo no mercado e as taxas de juros oficiais) e políticas quase fiscais de resgate a investidores, devedores e credores. E ações políticas “malucas”, ainda menos ortodoxas, tornam-se necessárias para reduzir o crescente “spread” entre as taxas de juros de longo prazo sobre os títulos do governo e as taxas de juros determinadas pela política monetária, bem como o alto “spread” entre as taxas de curto e de longo prazo e os títulos de curto e de longo prazo do governo.
Os bancos centrais são tradicionalmente o emprestador de último recurso, mas agora estão se tornando o primeiro e único recurso, porque os bancos comerciais não estão emprestando. Com o colapso no consumo domiciliar e nos gastos empresariais, os governos em breve se tornarão o último recurso também na ponta dos gastos, e os déficits fiscais dispararão.
A crise financeira já ganhou alcance mundial, porque os elos dos mercados financeiros transmitiram a todo o mundo o choque dos Estados Unidos. As perdas gerais de crédito provavelmente estão próximas de atordoantes US$ 2 trilhões. Assim, a menos que as instituições financeiras sejam rapidamente recapitalizadas pelos governos, a compressão de crédito se tornará ainda mais severa, caso os prejuízos cresçam mais rápido do que a recapitalização.
Mas, com os governos e bancos centrais incorporando aos seus balanços as perdas do setor privado, o déficit fiscal dos Estados Unidos superará o US$ 1 trilhão nos dois próximos anos. O Fed e o Tesouro estão assumindo imensos riscos de crédito, o que coloca em risco a solvência do governo dos Estados Unidos no longo prazo.
Nos próximos meses, o fluxo de notícias sobre resultados empresariais e sobre a macroeconomia será muito pior que o esperado. A compressão de crédito vai se agravar, e a desalavancagem continuará à medida que fundos de “hedge” e outras instituições se virem forçados a vender ativos em mercados desprovidos de liquidez e ainda abalados. Isso gerará uma nova queda em cascata dos preços, a quebra de novas instituições financeiras insolventes e crises financeiras abertas em algumas das economias de mercado emergente.
Ainda não superamos o pior período. 2009 será um ano doloroso de recessão mundial, deflação e falências. Apenas ações políticas muito agressivas e bem coordenadas poderão garantir que a economia mundial se recupere em 2010, em lugar de enfrentar estagnação e deflação prolongadas.
NOURIEL ROUBINI é professor de Economia na Escola Stern de Administração de Empresas, na Universidade de Nova York, e presidente da RGE Monitor, uma consultoria econômica. Tradução de PAULO MIGLIACCI
Tags: ações, Bancos, commodities, consumo, crédito, crise, deflação, demanda, des, dívidas, emergentes, empresas, EUA, FED, inflação, investimentos, Juros, Mercados, preços, recessão, Renda, Roubini, salários, Tesouro
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Ministro diz que taxa de 13,75% ao ano pode ser um trunfo para o Brasil e cobra dos bancos a retomada do crédito
Lu Aiko Otta – O Estado de São Paulo
As taxas de juros estratosféricas do Brasil, em 13,75% ao ano, podem se transformar em um trunfo no ano que vem, quando governos do mundo inteiro lançarão mão de todo tipo de medida para escapar da recessão. “Temos espaço para fazer política monetária”, disse, ao Estado, o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. “Cortar juros muda a cabeça das pessoas.” Ele compara a situação brasileira à dos Estados Unidos, onde a taxa de juros é de 1%. “Eles vão baixar para quanto?” Bernardo revela que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem ouvido queixas sobre a demora da entrada em vigor das medidas anticrise. A seguir, os principais trechos da entrevista.
O governo está satisfeito com a execução das medidas já anunciadas contra a crise?
Estamos convencidos de que estamos fazendo as coisas certas. Mas, de fato, há uma defasagem entre a tomada da decisão, a implementação das medidas e principalmente o efeito na ponta. Quase metade do meu tempo é gasto para ouvir pessoas que relatam problemas. O Guido (Mantega, ministro da Fazenda), deve gastar 90% do tempo com isso. Mas, ao contrário do que ocorre nos países avançados, no Brasil a crise ainda não está espraiada. Temos só alguns indícios.
A queda da venda de automóveis, por exemplo?
Venda de automóveis, exportação de ferro… Mas, por outro lado, as vendas do comércio cresceram 9,4% no ano. Os sinais são contraditórios. A missão do governo é trabalhar para que a desaceleração, que parece estar vindo, seja a menor possível. A orientação do presidente é pôr em marcha uma política anticíclica.
Os srs. estão acompanhando os resultados das políticas do governo na ponta? Temos visto reclamação nos setores de automóveis e no agrícola.
O problema do crédito é geral. Esta semana, conversei com revendedor de automóveis, construtora, cooperativas, pessoal que produz adubo. De maneira geral, o pessoal está reclamando que sumiu o crédito.
O que o presidente Lula está achando da situação?
Ele recebe muita reclamação. Então, cobra de nós. Temos problemas de vários tipos, inclusive operacionais. Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal não têm como aumentar suas operações em 30%, 40% da noite para o dia. Em alguns casos, é problema de funding. O BNDES ultrapassou todas as expectativas de liberação de recursos este ano. Temos de resolver o funding do ano que vem. Não existe uma receita pronta. Vamos continuar zelando pela boa qualidade na política fiscal, fazer política monetária – tem espaço para fazer política monetária, temos uma taxa de juros alta, todo mundo sabe. Mudou o quadro: tínhamos inflação preocupando, mas parece que não temos mais.
Tem espaço para o Banco Central cortar juro? Para este ano, o mercado está achando que não tem mais corte.
O corte de juros vai dar impacto daqui a quatro ou cinco meses, mas muda a cabeça das pessoas, mudam as expectativas. Estou falando com prudência, senão vou levar um puxão de orelhas. A gente tem de respeitar a autonomia do Banco Central. Acho que eles estão vendo tudo isso. Nós temos juros de 13,75%. Os Estados Unidos têm 1%. Eles vão baixar para quanto? Menos 3%?
Mas dizem também que o espaço para corte não é assim tão grande porque, apesar da desaceleração econômica, temos o impacto da alta do dólar nos preços, o que é inflacionário.
O dólar cresceu, mas o preço dos produtos em dólar caiu. É o caso do adubo: estava US$ 1.200,00 a tonelada, agora está US$ 600,00. Então, tem uma compensação. É bom lembrar que os EUA têm ameaça real de deflação e isso vai impactar os preços mundiais.
Que outros setores precisarão de mais ajuda? Na Europa, as grandes companhias estão todas pedindo socorro.
Somos diferentes da Europa e dos Estados Unidos. Lá, eles estão liberando dinheiro para cobrir rombos causados pela falta de regulação e até pela imprevidência. Nós não temos rombo para cobrir. O que temos de ter é liberação de recursos para a economia continuar funcionando. O risco que tem no Brasil é a falta de crédito estrangular o processo de crescimento.
Insisto: que setores precisarão de ajuda?
Quase todo mundo. A construção civil este ano previa um total de financiamentos de R$ 12 bilhões, mas vão passar de R$ 22 bilhões. Temos de resolver isso porque sair de um crescimento vertiginoso para queda é maluquice. As montadoras produziram 25% mais de veículos este ano e venderam quase 28% mais. É um crescimento alucinante. Não dá para manter esse ritmo, mas não podemos deixar cair de tudo.
O crédito ainda está empoçado. Do compulsório liberado para compra de carteiras, R$ 10 bilhões foram devolvidos ao BC. Tem o que fazer para dar mais fluidez a esse dinheiro?
Acho que temos de ter tranqüilidade, paciência e, se precisar, dar uns empurrões. O sistema financeiro tem de cumprir o seu papel. Não é favor, eles ganham dinheiro com isso. Muitas empresas vêm aqui dizer que até o mês passado os bancos estavam correndo atrás delas para emprestar e agora os diretores nem são mais recebidos.
Que empurrões?
O BC tem feito medidas e vai continuar fazendo. Existe uma prudência inerente ao sistema financeiro. E, nesse momento, tem também a perversidade de ficar sentado em cima do dinheiro para ver se o vizinho quebra para comprar barato. Temos de perceber onde há um problema, onde há o outro.
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Paul Krugman * – New York Times – O Estado SP
Todos estão falando sobre um novo New Deal, por motivos óbvios. Em 2008, assim como em 1932, uma longa era de predomínio político republicano foi encerrada diante de uma crise econômica e financeira que, aos olhos dos eleitores, ao mesmo tempo desacreditava a ideologia de livre mercado do Partido Republicano e solapava suas alegações de competência. E para aqueles que se situam no lado progressista do espectro político a época atual é de esperança.
Há, no entanto, um outro paralelo entre 2008 e 1932, uma semelhança muito mais perturbadora – o surgimento de um vácuo de poder no ápice da crise. O interregno de 1932-1933 – o longo período entre a eleição e a transição do poder de fato – foi desastroso para a economia americana, ao menos em parte porque a administração que saía não tinha credibilidade, a administração que chegava não tinha autoridade e o abismo ideológico entre ambas era profundo demais para permitir que fossem adotadas medidas coordenadas. E o mesmo está acontecendo agora.
É verdade que o interregno será mais curto desta vez: Franklin Delano Roosevelt só assumiu a presidência em março; Barack Obama vai para a Casa Branca no dia 20 de janeiro. Mas hoje em dia as crises evoluem mais rápido.
Quanta coisa pode dar errado nos dois meses até que Obama preste seu juramento e assuma o cargo? A resposta, infelizmente, é: muita coisa.
Pense no quanto o cenário econômico piorou desde a falência do Lehman Brothers, que aconteceu há apenas dois meses. E o ritmo da deterioração parece estar se acelerando.
Obviamente, estamos metidos na pior crise do mercado de ações desde a Grande Depressão: o índice S&P 500 caiu agora para menos de 50% do seu valor máximo. Outros indicadores são ainda mais perturbadores: o desemprego parece estar aumentando, a produção manufatureira está em queda, a taxa de juros sobre os títulos privados – a qual reflete o temor de inadimplência dos investidores – está aumentando muito, o que quase certamente levará a uma redução considerável nos gastos empresariais. As perspectivas econômicas são hoje muito mais sombrias do que eram há apenas uma ou duas semanas atrás.
Ainda assim, as medidas econômicas, em vez de responder à ameaça, parecem ter saído de férias. Em especial, o pânico dá sinais de ter retornado aos mercados de crédito, mas não parece haver um novo plano de resgate no horizonte. Ao contrário, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, anunciou que nem sequer voltará ao Congresso para buscar a outra metade dos US$ 700 bilhões já aprovados para a realização de resgates financeiros. E o socorro financeiro para a combalida indústria automobilística está sendo atrasado por um impasse político.
O quanto deveríamos nos preocupar com aquilo que parecem ser dois meses de medidas econômicas à deriva? No mínimo, os próximos dois meses vão infligir graves sofrimentos sobre centenas de milhares de americanos, os quais perderão seus empregos, seus lares, ou ambos.
O mais preocupante, no entanto, é a possibilidade de que parte do estrago feito agora seja irreversível. Estou preocupado, em especial, com as duas letras D: Deflação e Detroit.
Quanto à deflação: a “década perdida” japonesa durante os anos 90 ensinou aos economistas que é muito difícil fazer a economia avançar quando as expectativas de inflação se tornam baixas demais (não importa se as pessoas literalmente acreditam que os preços vão cair ou não). No momento observamos uma clara pressão deflacionária sobre a economia americana, e cada mês que se passa sem sinais de recuperação aumenta as chances de nos vermos encalhados durante anos numa armadilha ao estilo japonês.
Quanto a Detroit: Há agora o risco real de que, na ausência de uma rápida ajuda federal, as “Três Grandes” montadoras e as suas redes de fornecedores sejam forçadas à liquidação – ou seja, obrigadas a fechar, demitir todos os seus funcionários e vender seus bens. E, se isto acontecer, será muito difícil trazê-las de volta.
Quem sabe deixar que as empresas montadoras pereçam seja a decisão certa, mesmo que um colapso da indústria automobilística seja um fortíssimo golpe contra uma economia já cambaleante. Mas trata-se de uma decisão que deveria ser tomada com cuidado, com ampla consideração quanto aos seus custos e benefícios – e não uma decisão tomada automaticamente por causa de um impasse político entre democratas – que querem que Paulson use parte daqueles US$ 700 bilhões – e a administração no período do pato manco – que tenta em vez disso obrigar o Congresso a desviar os fundos a partir de um programa de eficiência energética.
Será que as medidas econômicas estão completamente paralisadas de agora até 20 de janeiro? Não, não completamente. Algumas medidas úteis estão sendo tomadas. As agências de empréstimo Fannie Mae e Freddie Mac, por exemplo, adotaram a feliz decisão de paralisar temporariamente as execuções hipotecárias, enquanto o Congresso aprovou uma extensão muito necessária aos benefícios do seguro-desemprego agora que a Casa Branca abandonou a oposição à mesma.
Mas não há nada acontecendo no front das medidas econômicas que seja remotamente proporcional à escala da crise econômica. E é assustador pensar no quanto mais pode dar errado até que Obama assuma a presidência.
* Paul Krugman é articulista
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Mesmo os mais pessimistas dos analistas estrangeiros concordam com a frase acima, pronunciada por Michael Spence, prêmio Nobel de economia. Apesar da crise brava, o Brasil está na boa direção. Incluso os que torcem para isto não ser assim, o fazem em voz baixa. LF
Crise pode durar até uma década
Em evento no Brasil, dois Prêmios Nobel de Economia manifestam pessimismo sobre a recuperação mundial
Fernando Dantas e Daniele Carvalho, RIO – O Estado SP
Dois prêmios Nobel de Economia, Daniel McFaden e Michael Spence, manifestaram ontem pessimismo sobre a capacidade de recuperação da economia americana e global, indicando que as conseqüências da atual crise podem perdurar por uma década. Os economistas participaram do primeiro dia do congresso da sessão latino-americana da Sociedade Econométrica Internacional e da Associação Econômica Latino-americana e Caribenha, no Instituto de Matemática, no Rio. O encontro é organizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Para McFaden, os EUA podem, na pior das hipóteses, crescer regularmente abaixo da média histórica por até dez anos, com níveis altos de desemprego. Ele notou que não há sinais de que possam voltar a funcionar tão cedo os motores do crescimento, o investimento e o consumo.
Já Spence acha possível que EUA e Europa encarem de dois a três anos de recessão. Ele disse que o processo de desalavancagem (redução de dívidas) é demorado. Em relação ao mundo emergente, afirmou que a desaceleração são favas contadas, mas ainda há dúvidas se haverá recessão. Frisou que, para um país de rápido crescimento, como a Índia, cair de um ritmo de 9% para 4% dará a sensação de recessão.
McFaden demonstrou mais otimismo em relação aos países em desenvolvimento, especialmente os Brics (Brasil, Rússia, Índia e China). Para ele, essas nações vão liderar a retomada da economia global. “Os países em desenvolvimento têm apresentado taxa de expansão maior que o resto do mundo e podem continuar apresentando crescimento mesmo durante a fase de recessão internacional”, disse.
Apesar do pessimismo, Spence e McFaden têm esperança de que as medidas de estímulo monetário e fiscal dos EUA e outros países ricos dêem certo e abreviem o período negro da economia global. Para McFaden, o governo americano deve intervir “maciça e decisivamente”, capitalizando instituições financeiras, facilitando o crédito e baixando impostos. Spence defendeu que o governo dos EUA conceda hipotecas subsidiadas diretamente para os mutuários em dificuldades. Eles poderiam trocar os contratos que não conseguem honrar pelas novas hipotecas com condições facilitadas.
Spence mostrou-se preocupado com o que chama de deflação global de ativos (queda de valor de ações, imóveis, títulos). Para ele, o processo, especialmente nos países emergentes, não guarda relação com os fundamentos da economia, mas é causado pela necessidade de repatriação de capital para países ricos recompor balanços em frangalhos de bancos e empresas.
Ele acha fundamental que os fluxos de capitais sejam revertidos, por medidas como o swap de dólares que o Federal Reserve (Fed) concedeu para quatro países emergentes, incluindo o Brasil; a linha especial de liquidez criada pelo FMI; e, a médio prazo, pela possibilidade de países com grandes reservas internacionais financiarem em dólares os emergentes com carência da moeda americana.
Em relação ao Brasil, ambos mostraram moderado otimismo. Para Spence, “o Brasil vem sendo muito bem administrado, tem reservas e uma economia forte”. Já McFaden disse que o País precisa ficar atento às conseqüências que a crise trará ao preço das commodities. Uma das alternativas seria promover investimentos na área de infra-estrutura e em aumento de produtividade.
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Agências internacionais – VALOR
A crise financeira internacional ameaça criar deflação nos países ricos e aprofundar os efeitos da desaceleração econômica. Analistas prevêem deflação no ano que vem e países como EUA e Reino Unido já registram retração ou desaceleração nos preços, aumentando os temores do mercado e forçando cortes de juros.
John Herrmann, presidente da Herrmann Forecasting, de Nova Jersey, disse que “a retração generalizada dos preços nos EUA mostra que a inflação foi contida, e que a deflação está se instaurando”. “Isso dá munição ao Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) para continuar cortando os juros”, concluiu.
Matthew Sharratt, economista do Bank of America de Londres, disse que a inflação ao consumidor no Reino Unido “é agora água passada”. “Ela vai cair para bem menos do que a meta [do Banco da Inglaterra] no ano que vem. Isso abre bastante o caminho para que as taxas de juros passem por uma redução profunda em dezembro.”
O presidente do Banco da Inglaterra [BC britânico], Mervyn King, disse na semana passada que a economia britânica deve estar em recessão e que as autoridades da área monetária vão reduzir o custo do dinheiro o necessário para combater a deflação. O banco prevê que a inflação do país vai desacelerar para menos que o limite inferior fixado pelo governo, de 1%, se o BC não reduzir a taxa referencial de juros a partir de seu nível atual de 3%.
Nos EUA, os preços pagos pelos produtores americanos tiveram em outubro sua maior queda de todos os tempos, num momento em que a economia mundial, que perde fôlego, fez com que a demanda por commodities estancasse. A queda de 2,8%, superior à prevista, seguiu-se à retração de 0,4% verificada em setembro, disse o Departamento do Trabalho.
O núcleo do índice, que exclui elementos como alimentos e combustíveis, subiu 0,4%, o que indica que as quedas dos custos das matérias-primas ainda não chegaram aos outros produtos.
Segundo a mediana de 76 prognósticos captados pela Bloomberg News, os preços no atacado dos EUA cairiam 1,9% em outubro. O acompanhamento do Índice dos Preços ao Produtor pelo Departamento do Trabalho dos EUA remonta a 1947.
A inflação ao consumidor do Reino Unido desacelerou em outubro mais do que o previsto pelos economistas – a maior desaceleração de pelo menos 11 anos. Os preços ao consumidor subiram 4,5% em relação ao mesmo mês do ano passado, comparativamente à alta de 5,2% registrada em setembro, disse o Departamento de Estatística Nacional em Londres. A mediana das projeções captadas em sondagem junto a 27 economistas foi de 4,8%. A taxa agora ultrapassou pelo 13º mês a meta de 2% fixada pelo BC.
O presidente do Banco Central Europeu (BCE), Jean-Claude Trichet, disse ontem que “ainda” não observa tendências de deflação na zona euro. Trichet destacou que os planos de relançamento adotados serão bons “nos países onde há margem de manobra”.
Ele disse que o BCE “reduzirá as taxas de juros se for preciso”.
Anteontem, o Comissário Europeu dos Assuntos Monetários, Joaquín Almunia, havia alertado para o risco de uma possível deflação como consequência da crise econômica internacional.
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