Apesar disso, economista elogia trabalho do BC durante a crise
Ricardo Leopoldo – O Estado SP
O ex-presidente do Banco Central (BC) Affonso Celso Pastore disse que o atual presidente da autoridade monetária, Henrique Meirelles, precisa ser um pouco mais consistente na comunicação, a fim de coordenar de forma eficiente as expectativas de mercado, especialmente as relacionadas às decisões de política monetária.
“Ele (Meirelles) tem de vir a público e deixar muito claro que está defendendo certos pontos de vista que ajudam o mercado a entender a sinalização. Se há um erro que o presidente do Banco Central está cometendo, é esse. As outras ações são todas acertadas”, comentou Pastore, em entrevista concedida ontem à Agência Estado.
Segundo Pastore, as pressões políticas emanadas de setores do governo para que os juros baixem com maior vigor fazem com que Meirelles se comunique com dois públicos: um deles é o mercado e o outro é composto por integrantes do governo que desejam uma política monetária mais flexível.
Na avaliação de Pastore, foi correta e adotada por critérios técnicos a decisão da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de cortar os juros em 1 ponto porcentual, para 9,25% ao ano. A ata do encontro do BC, que será divulgada hoje, na expectativa dele, não mostrará nenhum otimismo com a recuperação da economia.
Pastore defende que o BC explique que “o hiato do produto está grande, que essa é uma força desinflacionária e que o investimento está baixo, o que freia a demanda”. O ex-presidente do Banco Central acredita que, como a inflação está sob controle, há espaço para os juros caírem pelo menos mais 0,50 ponto na próxima reunião, prevista para julho.
Ele prevê que o PIB deve registrar uma retração de 0,5% a 1% neste ano, mas voltará a crescer no quarto trimestre de 2009 a uma taxa anualizada de 3,5%. Em função do baixo vigor da recuperação do nível de atividade, ele defende que o juro efetivo deve ficar abaixo do juro de equilíbrio por um bom período, talvez até um ano. Para 2010, ele espera uma expansão do PIB de 3,5%.
O ex-presidente do BC diz que respeita o excelente trabalho que a equipe de Meirelles tem feito durante a crise. “O Brasil tem de usar políticas contracíclicas, porque está enfrentando uma crise de demanda. O BC reagiu baixando a taxa de juros, reduziu os compulsórios e criou o Fundo Garantidor de Crédito.” Com isso, diz ele, o crédito está voltando gradativamente. “Se a recessão do primeiro e segundo trimestres está se encerrando, isso se deve muito, se não quase exclusivamente, às políticas contracíclicas adotadas pelo BC.”
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Cristiano Romero – VALOR
Nos primeiros quatro meses do ano, a Ásia se tornou o principal mercado das exportações brasileiras, desbancando a União Europeia (UE), a América Latina (AL) e os Estados Unidos. Mais importante do que a diversificação do comércio do Brasil com o mundo, a mudança mostra que há sinais promissores de recuperação na China, principal responsável pelo aumento das vendas brasileiras para aquele continente. Se a boa suspeita se confirmar, o país, favorecido pela demanda asiática, poderá experimentar um relativo descolamento e sair mais cedo da crise atual.
O setor exportador é o que mais tem sofrido com a turbulência mundial. De janeiro a abril, as exportações do Brasil, calculadas pela média diária, caíram 16,5% em relação ao mesmo período de 2008. A corrente de comércio – a soma de exportações e importações – recuou 19,5%. A boa notícia é que a China, no mesmo período, aumentou de 6,5% para 12,9% a sua participação nas exportações brasileiras – o salto de todo o continente asiático foi de 16,1% para 24,8%.
Na contramão desse movimento, a participação das outras regiões nas exportações nacionais encolheu no primeiro quadrimestre – na UE, de 25,1% para 23,1%; na AL, de 26,6% para 21,3%; e nos EUA, de 14,4% para 11,3%. Essa reviravolta poderia não significar muita coisa, apenas uma acomodação das participações relativas de cada mercado em função da crise, mas o fato é que as vendas do Brasil para a China estão crescendo, em plena crise, a uma taxa acelerada – 62,66% de janeiro a março.
“O que os números do comércio exterior brasileiro e os próprios indicadores chineses parecem sugerir é que, de fato, a Ásia está voltando a respirar”, diz o economista Luiz Guilherme Schymura, diretor do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da FGV. “Se isso é verdade, esse sopro de vida deve paulatinamente insuflar a atividade econômica também nos grandes fornecedores de matérias-primas e produtos básicos para os asiáticos, como o Brasil e outros países da AL.”
O PMI da China (sigla em inglês para Índice de Compra dos Gerentes, um indicador que mede o nível de atividade industrial baseado em cinco itens – novas encomendas, níveis de estoque, produção, entregas do fornecedor e mercado de trabalho) superou em março a marca dos 50 pontos, o que indica expansão. Na prática, voltou aos níveis de meados de 2008, ou seja, aos patamares anteriores ao início da fase mais aguda da crise .
A economista Mônica de Bolle, da Galanto Consultoria, calcula que o PMI global também está se recuperando – o fundo do poço foi registrado em dezembro de 2008, quando o índice caiu abaixo de 35 pontos -, mas continua longe dos 50 pontos. “A reação chinesa parece estar liderando a reação global. Mesmo que a autossustentação chinesa não seja capaz de gerar a resposta global que todos gostariam, alguns países poderão ser mais beneficiados do que outros”, diz ela.
Quando colocaram em prática um megapacote fiscal para atenuar os efeitos da crise, os chineses mudaram a composição de sua demanda, diminuindo a participação do investimento em bens manufaturados, que utiliza bens de capital importados de outras nações asiáticas, como a Coreia. Em compensação, eles aumentaram a importância do investimento público, que demanda insumos, como o aço, para obras de infraestrutura. Isso beneficia o Brasil. “É mais uma razão para o momento auspicioso brasileiro”, comenta a economista da Galanto.
Embora o governo tenha adotado inúmeras medidas também para apoiar as exportações, a China está tentando reduzir a dependência do mercado externo para crescer. As exportações estão sofrendo os efeitos da crise. Em abril, caíram 22,6% em relação ao mesmo mês de 2008, a sexta queda consecutiva – as importações recuaram 23%. Por outro lado, a taxa de investimento da economia cresceu 30,5% de janeiro a abril.
Na próxima Carta do Ibre, Schymura tratará da possibilidade de descolamento do Brasil na fase seguinte da crise mundial. Ele lembra que havia, antes da quebra do banco Lehman Brothers, em setembro, um certo descolamento das principais economias emergentes em relação aos países ricos. A razão para isso é que o recente boom global foi puxado em grande medida pelos emergentes.
Os emergentes foram responsáveis, de 2000 a 2007, por 85% do aumento do consumo mundial de petróleo. A área mais dinâmica dessa expansão foi a Ásia – a China respondeu, sozinha, por 37% do crescimento. Quando se observa o avanço do comércio mundial no mesmo período, constata-se que os países da OCDE – o clube das economias mais ricas – foram responsáveis por 56% do seu incremento. Parte desse número, no entanto, explica Schymura, é explicada pela intensificação das transações internas na UE. A China contribuiu, no período observado, com 13% da alta do comércio e os EUA, com 5%.
Houve também mudanças na forma como o mundo cresceu. Enquanto nas décadas anteriores, os países desenvolvidos, representados pela OCDE, respondiam por até 80% do produto mundial, entre 2000 e 2007 a participação foi bem menor – 47%. Na crise, a OCDE começou a desacelerar bem antes da quebra do Lehman, enquanto os países emergentes, embora já estivessem começando a tirar o pé do acelerador, por causa das pressões inflacionárias, só sentiram o fardo da turbulência depois de setembro de 2008, quando houve grande perturbação no mercado financeiro internacional.
“Não parece haver dúvida, portanto, que havia um descolamento relativo do mundo emergente em relação aos países ricos no período pré-Lehman”, observa Schymura. No momento seguinte, como se sabe, não houve mais descolamento. A grande questão agora, diz Schymura, é saber se, passado o momento mais agudo da crise, os emergentes retornarão ao padrão anterior ou seguirão amarrados ao desempenho da OCDE.
Talvez, seja cedo para apostar no cenário mais otimista, mas os sinais vindos do comércio exterior e de alguns indicadores da economia chinesa justificam uma esperança cautelosa.
Cristiano Romero é repórter especial e escreve às quartas-feiras.
E-mail cristiano.romero@valor.com.br
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Amir Khair* – O Estado SP
Um dos pontos centrais no combate à crise é a defesa da produção e de empregos. Todos os países estão procedendo assim, inclusive os EUA, com o pacote de Obama. Para tanto, devem ser ampliadas despesas com investimentos e custeios do setor público. Aí surge o problema. De onde sairão recursos extras se a crise também atinge a arrecadação? No caso dos países desenvolvidos, através do aumento do endividamento. Alguns trilhões de dólares turbinaram as dívidas desses países. No caso do Brasil, através da redução de despesas com juros, do uso do Fundo Soberano de R$ 14 bilhões e, se necessário, do aumento do endividamento.
A crise internacional causou quedas nas exportações dos países, agravadas pelo protecionismo. Parte desse excedente é direcionada para mercados internos que, com a queda dos preços internacionais e do consumo, fizeram despencar a inflação. O Brasil não foi exceção. A cada semana o Focus reduz previsões sobre a inflação de 2009. No dia 20 último, já estava em 4,4%, abaixo da meta de 4,5%. Abriu-se espaço para queda maior da Selic. Prevê-se que, ao fim do semestre, ela caia abaixo de 10%. Caso isso ocorra, as despesas com juros do setor público, que atingiram R$ 165,5 bilhões em 2008, podem cair para R$ 135 bilhões neste ano, com economia de R$ 30 bilhões (1% do PIB) que serviria para reduzir o resultado primário. Essa redução não afetará o resultado nominal (resultado primário menos juros) das contas públicas, que está no melhor nível da série histórica com um déficit de 1,6% do PIB em 2008.
Se for preciso, há folga para o aumento do endividamento do setor público, pois a relação dívida-PIB é de 36%, abaixo do nível dos desenvolvidos, que ultrapassa 60%. Embora seja desejável a continuidade do estímulo às exportações, com reduções tributárias, oferta de crédito e redução de custos de logística, a melhor política para ativar a economia é estimular o consumo interno.
Se as políticas públicas se voltarem para populações de rendas médias e baixas, o retorno para a economia será veloz e eficaz, pelo estímulo à demanda. O País tem potencial de consumo não explorado pela desigualdade de renda que, se reduzida, formaria um círculo virtuoso, pelo acesso a possibilidades de consumo, demandas por aumento de produção, investimento e empregos.
Vários poderão ser os estímulos ao consumo: maior oferta de crédito com redução das taxas de juros, desonerações tributárias e tarifárias – especialmente para a população de média e baixa rendas – aumentos no salário mínimo, programas de distribuição de renda, inflação baixa… A expansão do crédito já ocorre, mas as taxas de juros estão altas. Para baixá-las, além da redução da Selic e da maior concorrência imposta ao setor privado bancário pelo Banco do Brasil e pela Caixa, outras medidas podem ser usadas em função dos juros cobrados pelos bancos: reduções seletivas de depósitos compulsórios dos bancos no Banco Central; tributação progressiva sobre lucros; e limites à aquisição de títulos públicos.
É imenso o arsenal de medidas à disposição do Conselho Monetário Nacional para reduzir juros bancários. Ele aprovou na quinta-feira um programa que poderá atingir mais de R$ 100 bilhões para normalizar empréstimos concedidos por bancos pequenos autorizados a emitir Certificado de Depósito Bancário Especial com garantia de até R$ 20 milhões contra perdas, em caso de quebra do banco, oferecendo mais segurança que a garantia atual, de até R$ 60 mil. Aprovou novos limites para operações de crédito da população de baixa renda e de microempreendedores, de R$ 3 mil para R$ 5 mil. Tais medidas podem dar fôlego ao crédito às micro, pequenas e médias empresas e à população de baixa renda.
O programa de construção de moradias lançado pelo governo pode ajudar a reduzir o custo de moradia para os beneficiários e estimular o setor imobiliário, forte empregador de mão de obra.
A Petrobrás poderia reduzir os preços do diesel, que impactam custos do transporte, do gás de cozinha e da gasolina. Os preços da gasolina e do diesel estão 50% acima do nível internacional. A redução teria impactos na inflação, contribuindo para mais queda da Selic, com ganhos fiscais para o governo federal e, possivelmente, compensando a Petrobrás pelo maior volume de vendas.
Governos municipais e estaduais podem adotar medidas que aumentem o poder aquisitivo da população, como baratear transporte coletivo, alimentação, gás, água e medicamentos.
Políticas que aproximam produtores e consumidores de alimentos e reduzem custos de intermediação têm demonstrado sua eficácia e podem contribuir para a expansão do consumo.
É de grande complexidade o enfrentamento da crise e não existem respostas mágicas e previsões certeiras. O fomento ao debate é oportuno, diante da expectativa de que um conjunto ágil, articulado e coordenado de políticas seja implantado. Alguns passos foram dados, mas estão aquém do que pode ser feito para uma ativação maior da economia.
*Amir Khair, mestre em Finanças Públicas pela FGV, é consultor
A partir desta edição, o jornalista Ribamar Oliveira deixa de escrever às segundas neste espaço.
Tags: Bancos, Comercio, consumo, demanda, Divida, empregos, inflação, Juros, mercado interno, Mercados, PIB, protecionismo, Renda, Selic
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Recuo nas exportações supera as projeções e agrava crise em países como Japão, Itália, México e Argentina
Jamil Chade, GENEBRA – O Estado SP
Pelo menos um quinto do valor do comércio mundial pode desaparecer em 2009, na maior contração em décadas nas exportações. Nesta semana, um dos principais institutos de pesquisa sobre o comércio no planeta – o Escritório de Análise de Política Econômica da Holanda – publicará suas novas previsões. Os dados obtidos com exclusividade pelo Estado, que estavam sendo guardados em sigilo, revelam que a queda prevista é de 10% em volume de cargas e de 22,5% em valores.
Em portos de todo o mundo, a queda já está sendo sentida. Em janeiro, China, Japão, Alemanha, Coreia do Sul, Cingapura, Itália, México, Argentina e outros pilares das exportações mundiais já tiveram, em janeiro, retração recorde das vendas. O tema vai estar na agenda do G-20, que se reúne no início de abril em Londres.
“A queda será enorme e bem maior do que tínhamos previsto”, disse Wim Suyker, um dos autores do levantamento do instituto holandês. “Havíamos feito uma previsão. Mas, diante dos últimos números, nossa indicação é de que o volume do comércio cairá em 10% e, em valores, mais de 22%.” O Escritório de Análise produz os dados a cada três meses, e é usado como fonte para previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da União Europeia (UE).
Estimativas do FMI apontam que a queda em volumes poderá ser de 5% no comércio mundial em 2009. Mas admite que esse número pode ser bem maior. Na Organização Mundial do Comércio (OMC), o diretor-geral Pascal Lamy promete divulgar seus novos números até o dia 31. A previsão, já considerada superada, aponta para uma queda de 3% em volumes. Já o presidente do Banco Mundial, Robert Zoellick, estima que a queda nas exportações é a maior em 80 anos.
“A crise não surgiu no comércio. Mas há uma paralisia de um sistema inteiro de finanças e investimentos, o que está contaminando o fluxo de comércio”, disse Heiner Flassbeck, economista-chefe da Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento (Unctad).
Segundo os especialistas holandeses, três fatores estão levando à queda sem precedentes do comércio. A primeira é a falta de crédito para exportações. Segundo o Banco Central, a redução média mundial foi de mais de 50%, afetando principalmente países emergentes.
O segundo fator é a queda da demanda nos três pilares da economia mundial. Nos Estados Unidos, Europa e Japão, a queda no consumo está levando a uma redução drástica das importações. O resultado é uma queda nas vendas dos países emergentes.
Para completar, a queda nos preços das commodities está levando a uma redução na renda dos exportadores. No último trimestre de 2008, a queda média dos preços das commodities foi de 74%, segundo Suyker. “Essa queda pode continuar nos próximos meses.” Por enquanto, medidas protecionistas dos governos não estão tendo impacto direto no comércio. Mas o temor é de que, com o aprofundamento da recessão, as barreiras se proliferem para salvar empregos em diferentes países.
Mas a realidade é que a queda já está sendo sentida. No quarto trimestre do ano, o recuo em valores chegou a 22%. Para o instituto holandês, a redução é “sem precedentes” em um só trimestre. Só as vendas americanas caíram em 36% naquele período.
Em janeiro, os dados de vários países mostram quedas profundas. No segundo maior exportador do planeta, a China, a queda foi de 25% em relação a um ano antes, depois de já ter sofrido outra queda de 24% em dezembro. A redução ainda fez encolher o superávit do país, pressionando o governo a incentivar o comércio doméstico. Hoje, o superávit está em US$ 4,8 bilhões, um oitavo do valor anterior. O recorde havia sido obtido em novembro, quando o superávit atingiu US$ 40 bilhões.
Para lidar com a queda, a China retirou impostos à exportação e ainda deixou de forçar uma valorização do yuan – 30% da produção chinesa tem como destino o mercado internacional. O governo já fala em 20 milhões de desempregados desde o início da crise. Só na província de Guangdong, a queda de exportações já obrigou 20 mil empresas a fecharem as portas.
No Japão, a queda das exportações em janeiro foi de 46%, ante 60% em Taiwan e 32% na Coreia. Em Hong Kong, caiu 22% e nas Filipinas, 41%.
Na América Latina, a queda nos preços de commodities teve impacto profundo. Países com amplo comércio com os EUA são os que mais sofrem. No México, a queda nas exportações chegou a 31,5% em janeiro. Só para os EUA caiu 50%. No Chile, a queda no preço do cobre contribuiu para derrubar as vendas em 37% no mês.
Para o secretário-geral da Conferência da ONU para o Desenvolvimento e Comércio, Supachai Panitchpakdi, a queda nas exportações se transformou na imagem mais clara da recessão hoje no mundo. Ele alerta, porém, que será difícil convencer consumidores a voltar a comprar. “Na Ásia, a reação normal será a de guardar dinheiro. Não adianta dizer que terão de gastar mais e, assim, retomar o comércio. Isso é quase um tema cultural.”
No G-20, americanos e ingleses apresentarão propostas de crédito para o comércio. Já a Comissão da ONU para estudar estratégias contra a crise sugere que países ricos abram seus mercados imediatamente aos produtos das economias mais pobres, como forma de ajudá-las a superar a crise. “Precisamos criar uma nova demanda”, disse Joseph Stiglitz, economista e chefe da comissão. Sua avaliação é oposta à de Supachai.
Tags: Bancos, barreiras, Comercio, commodities, consumo, crédito, crise, demanda, emergentes, emprego, EUA, Europa, exportações, finanças, FMI, importações, impostos, Internacional, investimentos, Mercados, OMC, ONU, recessão, Stiglitz, UNCTAD, Zoellick
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“Concedei-nos, Senhor, Serenidade necessária, para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos e Sabedoria para distinguirmos umas das outras.” – Reihold Niebuhr
Marcio Garcia – VALOR
O Banco Central reduziu a taxa Selic em 1,5 ponto percentual, para 11,25% ao ano, a mais baixa até agora registrada. Apesar disso, houve, mais uma vez, as manifestações de praxe culpando o BC por todos os males da economia, agora agravados com a crise. Mas a decisão também surpreendeu positivamente muitos dos que atribuem ao Copom uma atávica vontade de manter juros anormalmente elevados. A decisão unânime do Copom mostrou que o mesmo soube reagir adequadamente com base nas informações novas sobre a queda do nível de atividade e o repasse limitado da depreciação cambial à inflação.
Fossem as informações hoje disponíveis já conhecidas na ocasião das últimas reuniões, é possível que o Copom tivesse deixado a taxa Selic cair mais rápido. Análise da conjuntura econômica competente é insumo fundamental para a política monetária, e o Copom debruça-se sobre todos os dados conhecidos pelo público, bem como sobre aqueles aos quais apenas a autoridade monetária tem acesso. Mas não é possível prever sempre com precisão e, frente aos riscos mutuamente exclusivos de ficar um pouco “atrás da curva” ou deixar as expectativas inflacionárias saírem de controle, o BC deve atribuir sempre maior peso ao segundo risco. O mandato legal do BC é cumprir as metas para a inflação definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).
De qualquer forma, uma eventual aceleração na queda dos juros não teria impedido a economia brasileira de ser afetada pela crise mundial. É um erro atribuir à política monetária a desaceleração da economia brasileira a partir do 4º trimestre de 2008. É preciso entender o que a política monetária pode fazer para mitigar os efeitos recessivos da crise e não ter ilusões quanto ao seu potencial.
Alguns analistas acham que se o BC tivesse cortado os juros já no 4º trimestre, poderia ter contido a queda do investimento, revertendo as expectativas recessivas. Talvez até pudesse ter ajudado, mas o efeito seria mínimo. Afinal, frente ao agravamento da crise mundial e à brusca queda dos preços das commodities, com grande retração das nossas exportações, seria difícil que juros menores reavivassem os “ânimos vitais” (animal spirits) dos empresários. Seja como for, a Selic tem pouca relevância para o investimento no Brasil, e a TJLP já está, há muito tempo, bastante baixa (6,25% ao ano). Quanto ao consumo das famílias, a retração dos bancos – reduzindo prazos, cancelando rolagens e aumentando spreads – teria feito grande estrago de todo jeito. Juros mais baixos teriam ajudado marginalmente, mas não revertido o efeito da crise mundial.
Houve manifestações após a decisão do Copom defendendo que o BC deveria, agora, focar exclusivamente em evitar a recessão, deixando de lado a inflação, que não constituiria mais risco. O BC jamais poderia fazer isso. Tem, por dever de ofício, que analisar ambos os riscos, dando prioridade à inflação. Piores foram declarações de próceres do PSDB incitando o presidente da República a intervir na condução da política monetária. É estranho e deplorável que o partido que, no poder, derrotou a hiperinflação e construiu o sistema de metas para inflação, agora pareça empenhado em desmontá-lo.
A Alemanha, que viveu uma hiperinflação nos longínquos anos 20, é conhecida por sua ojeriza à inflação e consequente conservadorismo, até hoje, quanto à política monetária. Já, no Brasil, que só tardiamente venceu a hiperinflação com o Plano Real, é comum se ouvir, ou ler, que a ameaça inflacionária é um bicho papão inventado pelo BC para justificar seu fascínio por juros altos. Muitos economistas defenderam no passado a ideia que uma pequena inflação era boa, pois ajudava a financiar o crescimento da economia. Outros tiveram participação ativa em colocar o país no caminho da hiperinflação, ao adotarem combate inflacionário via pretenso aumento da oferta em vez de redução de demanda. Essas mesmas pessoas, hoje, ridicularizam a política monetária que conseguiu, a duras penas, corrigir o desastroso resultado hiperinflacionário de seus erros.
O gráfico mostra que o sistema de metas para a inflação vem funcionando bem, recorrendo a uma medida da credibilidade da política monetária. No gráfico, mostra-se a meta para a inflação nos 12 meses seguintes, obtida via interpolação das metas anuais fixadas pelo CMN (linha preta). É mostrada, também, a média das expectativas do mercado financeiro, coletadas pelo BC, para a inflação nos 12 meses seguintes (linha cinza). A diferença entre a expectativa e a meta é uma medida de credibilidade do controle inflacionário. A série “hiato de credibilidade” (em formato de área) mede exatamente isso. O gráfico contém, também, a série da taxa Selic (linha pontilhada). Vê-se que a expectativa inflacionária subiu muito além da meta ao final de 2002, forçando a modificação da mesma, além da alta dos juros. Após esse episódio, as expectativas têm oscilado em torno da meta, consolidando a credibilidade da política monetária. A taxa Selic tem sido elevada e reduzida em torno de uma tendência de queda em médio prazo, de forma a fazer as expectativas de inflação, e a própria inflação, convergirem para a meta.
Clique no gráfico para ampliar

Em suma, a taxa Selic deve continuar a cair para ajudar a mitigar a recessão, mas não a evitará; o poder de arrasto da parada brusca de fluxos de capitais e da queda da demanda externa é muito grande. Em qualquer caso, a baixa dos juros não deveria colocar em risco o sucesso na obtenção da meta para inflação. A política monetária brasileira vem cumprindo satisfatoriamente seu papel e não precisa nem deve ser alterada.
Marcio G. P. Garcia, PhD. por Stanford, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, escreve neste espaço uma sexta-feira a cada mês.
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Banco Mundial prevê a maior queda em 80 anos
Jamil Chade, GENEBRA – O Estado SP
O comércio mundial terá em 2009 a maior queda em 80 anos, segundo estimativas do Banco Mundial. Para o secretário-geral da Conferência da ONU para Comércio e Desenvolvimento, Supachai Panitchpakdi, essa queda será de pelo menos 10%, chegando a 17% no pior dos cenários.
Ontem, o governo alemão declarou que as exportações em janeiro caíram 20%. Berlim é o maior exportador do mundo e sofre com a recessão generalizada. Em dezembro, já havia verificado queda de 7%, o suficiente para provocar uma retração de 2% no Produto Interno Bruto (PIB) do país. Já o Reino Unido verificou queda de 15% nas exportações para fora da Europa.
A Organização Mundial do Comércio (OMC) prevê que a redução das exportações no mundo será de 3%. Mas, no dia 31 de março, deve rever os números. “O número será feio”, antecipou Patrick Loew, economista-chefe da OMC. Para Supachai, que já ocupou o cargo de diretor-geral da OMC, o número da entidade já está “amplamente superado”. “Temos países importantes que tiveram quedas de mais de 20%.”
Pelos menos dois fatores têm impactado o comércio: a queda nas linhas de crédito aos países emergentes, que foi reduzida em 50%, e a queda na demanda, com a recessão nas maiores economias do mundo.
Isso se reflete em recuo generalizada das exportações. Na Ásia, plataformas de exportações sofrem um colapso. Na Coreia do Sul, as exportações despencaram 33% em janeiro. Em Cingapura, 35%, e, em Taiwan, mais de 43%. No Japão, a queda foi de quase 46% em janeiro. Na China, é a maior desde 1979, com 29%.
ABERTURA
O Brasil não quer esperar uma retomada do processo de negociação na OMC para lutar contra o protecionismo. Na reunião do G-20 (grupo dos 20 países mais industrializados), em abril, o governo quer uma declaração contra a imposição de barreiras. Mas acredita que a moratória declarada pelo G-20 de não impor medidas protecionistas não tem credibilidade.
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Ricardo Balthazar, de Washington – VALOR
Usineiros brasileiros sugeriram ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que proponha ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, a criação de mecanismos capazes de aprofundar a cooperação entre os dois países na área energética e aumentar as vendas de etanol do Brasil para o cobiçado mercado americano, onde o produto enfrenta barreiras para entrar.
Representantes do setor estiveram nos últimos dias com ministros e o próprio Lula, num esforço para assegurar que o tema entre na conversa que ele terá com Obama sábado, na Casa Branca. Diplomatas envolvidos com os preparativos da reunião esperam que o assunto seja discutido, mas duvidam que o encontro, que será o primeiro contato pessoal dos dois presidentes, produza avanços nessa área.
O Brasil e os EUA assinaram há dois anos um memorando de entendimentos para promover o uso de combustíveis alternativos como o etanol em alguns países do Caribe e ampliar a demanda mundial pelo produto. Mas o acordo não produziu até hoje benefícios para os usineiros brasileiros e isso acabou gerando enorme frustração na indústria.
O Brasil vendeu no ano passado 1,7 bilhão de litros de álcool para os EUA, o equivalente a pouco mais de 5% do consumo americano e 7% da capacidade de produção brasileira. Os usineiros acham que teriam condições de dobrar suas exportações para os EUA se fossem removidas as tarifas que o país cobra do etanol importado atualmente.
“Tem álcool sobrando no mundo inteiro hoje e o Brasil poderia ajudar os americanos a aumentar o consumo de biocombustíveis, complementando a produção das usinas americanas”, disse o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, que chegou a Washington na terça-feira para manter contatos com o governo e o Congresso.
A crise econômica internacional atingiu em cheio a indústria de etanol dos EUA. Pelo menos 23 usinas fecharam nos últimos meses e investimentos na expansão do setor foram suspensos, gerando dúvidas sobre sua capacidade de aumentar a produção de combustível no ritmo necessário para cumprir metas de consumo estabelecidas pela legislação para os próximos anos.
Muitas usinas brasileiras também estão enfrentando dificuldades financeiras, mas o álcool do Brasil, onde o combustível é extraído da cana-de-açúcar, é mais competitivo do que o produzido nos EUA, onde as usinas usam o milho como matéria-prima. A principal tarifa cobrada pelos americanos nas importações de álcool do Brasil vence em dezembro de 2010, mas pode ser renovada pelo Congresso.
Na campanha eleitoral do ano passado, Obama defendeu em várias ocasiões a manutenção dos incentivos que protegem a indústria americana. Mas de lá para cá o setor perdeu parte do apoio que tinha no Congresso por causa da preocupação crescente com o impacto da expansão dos biocombustíveis sobre o meio ambiente e os preços dos alimentos no mundo inteiro.
Paralelamente, empresários do Fórum Brasil-EUA de Altos Executivos, grupo que representa vários setores com negócios nos dois países, planejam enviar a Lula e Obama até amanhã uma carta para cobrar seu empenho nas negociações de um acordo que elimine a dupla tributação das empresas que têm atividades nos dois países, uma antiga reivindicação do setor privado.
Brasil e EUA discutem esse assunto há vários anos e recentemente assinaram um acordo para troca de informações na área tributária, considerado um passo preliminar para a discussão de um tratado mais abrangente. Mas o acordo empacou no Congresso brasileiro, por causa do incômodo gerado em setores da indústria nacional pelo grau de acesso exigido pelas autoridades americanas às informações que o fisco brasileiro tem sobre elas.
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04/03/2009 - 08:57h
Resumo
Capa do jornal O Estado de São Paulo: um resumo significativo sobre o impacto da crise econômica


No Brasil, vendas reagem e fábricas adotam hora extra
Queda de 4,5% no número de unidades vendidas foi menor do que analistas e empresas esperavam
Ao contrário de mercados internacionais, as vendas de veículos no Brasil apresentaram pequena recuperação em fevereiro e, no bimestre, a queda é de 4,5% em relação ao mesmo período do ano passado, com 396,8 mil unidades vendidas. Diante de resultados menos pessimistas do que os previstos, as montadoras estão tendo de recorrer a horas extras e suspensão de dispensas temporárias para dar conta da demanda.
A Volkswagen convocou 7 mil funcionários – quase a totalidade do quadro da produção – para jornada extra neste sábado na fábrica de São Bernardo do Campo (SP). Na Fiat em Betim (MG), 12 mil funcionários vão trabalhar nos próximos três sábados para repor feriados. Cerca de 440 funcionários da Renault em São José dos Pinhais (PR)voltarão ao trabalho dia 23. Eles fazem parte do grupo de 844 pessoas com contratos suspensos até maio.
Com a necessidade de produzir mais, até para evitar filas de espera de alguns modelos, a ação das montadoras puxa a das autopeças. Nos últimos meses, várias fabricantes fizeram acordos de redução de jornada e agora estão voltando atrás.
Na região do ABC paulista, a Fiamm, fabricante de buzinas, cancelou a semana reduzida de trabalho três meses antes do previsto. Os 168 trabalhadores retomaram a jornada normal de cinco dias na segunda-feira. A medida visa a normalizar a produção, segundo informou a empresa ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Os 160 trabalhadores da Polistampo, que faz peças para portas, voltaram uma semana antes do previsto à jornada normal de trabalho.
A Volkswagen não comentou a razão das horas extras. A Fiat informou que pretende ampliar a produção diária de 2,6 mil para 3 mil veículos.
Marcelo Cioffi, da consultoria PricewaterhouseCoopers, avalia que o mercado brasileiro “não está tão ruim quanto se esperava”. Mas acha também que pode ser um movimento por parte das montadoras de garantir estoques para as vendas de março, último mês de redução do IPI. É provável que haja uma correria às lojas, “uma antecipação de compras”. As empresas, nos bastidores, tentam convencer o governo a manter o benefício.
NÚMEROS
396,8 mil
unidades foram vendidas em janeiro e fevereiro
7 mil
funcionários da Volkswagen foram convocados para trabalhar sábado. Na Fiat, 12 mil vão trabalhar nos próximos 3 sábados

Venda de carros cai até 53% nos EUA, o nível mais baixo em 30 anos
Especialistas falam em ‘depressão automotiva’ nos EUA; na Europa, a GM diz que pode ficar sem caixa em abril
Agências internacionais, NOVA YORK
A venda de automóveis das principais montadoras nos Estados Unidos em fevereiro caiu mais de 40% na comparação com igual período do ano passado. Apesar de oferecerem descontos bastante agressivos, o desempenho das montadoras registraram o nível mais baixo em quase 30 anos.
Na General Motors, que vem sobrevivendo graças a uma ajuda governamental de US$ 13,4 bilhões, a queda nas vendas foi de 52,9%. A Ford teve redução de 48% e a Chrysler, que também ganhou uma sobrevida com uma ajuda de US$ 4 bilhões em dezembro, viu suas vendas caírem 44%.
Maior montadora do mundo em vendas, a japonesa Toyota vendeu 37,3% a menos. Honda e Nissan anunciaram queda de 38% e 37%, respectivamente, enquanto a alemã BMW informou uma redução de 34,7%.
“Estamos vivendo uma depressão automotiva”, afirmou o analista da Standard & Poor?s Efraim Levy. “Consumidores temerosos de perder o emprego e assistindo a uma queda no valor de suas casas e de seus ativos em bolsa estão muito receosos de fazer compras grandes e não essenciais.”
Na Europa, o cenário também não é animador. Na Espanha, o número de registros de veículos caiu 48,8%, o pior desempenho para um mês de fevereiro na história do país. Na França – um dos países que havia resistido melhor à crise do setor em 2008 -, o recuo foi de 13,1%.
A retração da demanda na Europa já ameaça as subsidiárias da GM, que empregam 300 mil pessoas. “A GM Europa poderá ficar sem caixa lá para abril ou maio. Só uma ajuda governamental poderia evitar a perda de 300 mil postos de trabalho”, alertou o vice-presidente mundial de operações da GM, Fritz Henderson. O executivo pleiteia uma ajuda de US$ 4,2 bilhões, que seria usada para financiar a separação das subsidiárias Opel e Vauxhall.
No entanto, o apelo não parece sensibilizar os líderes europeus. Depois de uma reunião com o presidente executivo da GM Europa, Carl-Peter Forster, o ministro das Finanças da Alemanha, Peer Steinbrueck, declarou que ainda não está convencido de que a Opel tenha pela frente um “futuro sustentável”. Os governos da Suécia e da Grã-Bretanha, sede das subsidiárias Saab e Vauxhall, estão igualmente relutantes.
Os números negativos divulgados ontem alimentam os temores de que as montadoras não conseguirão obter a recuperação esperada para o segundo semestre deste ano nos EUA, com a qual as companhias vinham contando para desacelerar sua erosão financeira.
Para se qualificarem a receber mais US$ 21,6 bilhões do governo, além dos US$ 17,4 bilhões que já receberam, GM e Chrysler têm até o fim deste mês para demonstrar que estão tendo sucesso nos planos de reestruturação. Caso elas não sejam convincentes, não apenas não receberão mais recursos do governo como terão de devolver aquilo que receberam.
As duas montadoras insistem que terão condições de recuperar a lucratividade e, a partir de 2012, poderão começar a pagar os empréstimos recebidos. Entretanto, para isso, precisam aumentar consideravelmente as vendas este ano.
As empresas também tentam estabilizar suas operações com a queda da produção. A GM e a Ford, que ainda não precisou de ajuda financeira, já declararam que a produção no segundo trimestre deve ser reduzida em mais de 30%, ante o mesmo período de 2008.
“Diante de um cenário econômico frágil, temos de ficar atentos para perceber os indícios de que as condições estão se deteriorando”, afirmou a economista sênior da Ford nos EUA, Emily Kolinski Morris. “Isso quer dizer que não atingimos ainda o fundo do poço. Pode ser que o fundo tenha sido atingido em fevereiro, mas não há nenhuma âncora no horizonte econômico que nos permita ser conclusivos em relação a isso.”
Nem mesmo descontos de mais de US$ 5 mil, que se tornaram comuns nas últimas semanas, estão atraindo os consumidores americanos. E os poucos que ainda estão em busca de um carro novo esbarram na falta de crédito. Pensando nesse tipo de cliente, a Toyota pediu ontem em Tóquio um empréstimo emergencial de US$ 2 bilhões do governo japonês para financiar a compra de carros nos EUA.
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*Amir Khair – O Estado SP
Quaisquer que sejam os desdobramentos da crise internacional, é quase certo prever a queda nas exportações dos países, em razão de medidas protecionistas, queda de preços das commodities e dos preços internacionais, em geral, pelo acirramento da concorrência e a diminuição da demanda interna de cada país.
Impactada pela redução de exportações, parcela dos produtos será direcionada para o mercado interno dos países, que junto com os fatores acima poderá gerar um processo de deflação nos países desenvolvidos e redução da inflação nas economias emergentes.
No caso brasileiro, embora seja desejável a continuidade do estímulo às exportações, mediante reduções tributárias, oferta de crédito e redução de custos de logística, é necessário que o País adote medidas para estimular o consumo interno como motor de arranque e caminho para a ativação da economia. Dispomos de um grande potencial de consumo, não explorado por causa da má distribuição de renda. A possibilidade de consumo pelo acesso a maior renda geraria compras no comércio, demandas por aumento da produção, investimento e geração de empregos, podendo formar, então, um círculo virtuoso.
Vários poderão ser os estímulos ao consumo: maior oferta de crédito com redução das taxas de juros, desonerações tributárias e tarifárias (transporte coletivo, energia elétrica, gás, água e telefone), especialmente dirigidas à população de média e de baixa rendas, aumentos no salário mínimo, programas de distribuição de renda e inflação baixa, entre outros.
A expansão do crédito já está ocorrendo, mas ainda as taxas de juros estão elevadas. A injeção de recursos aos bancos – da ordem de R$ 100 bilhões – realizada pelo Banco Central, pela redução dos depósitos compulsórios, pouco serviu para aumentar a oferta de crédito dos bancos privados, que preferiram investir em compras de títulos do governo federal atraídos pela alta taxa de juros básicos (Selic).
Indo na direção correta, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal elevaram substancialmente a oferta de crédito e, com isso, registraram fortes lucros.
Outras medidas podem induzir o aumento da oferta de crédito e o rebaixamento de juros pelo setor bancário. Além da redução da Selic, duas podem ser destacadas: reduções adicionais seletivas de depósitos compulsórios, de acordo com as taxas de juros praticadas e a implantação, pelo governo, do cadastro positivo de clientes, ainda dependendo de aprovação pelo Congresso Nacional. O arsenal de medidas de que dispõem o Conselho Monetário Nacional, o Ministério da Fazenda e o Banco Central é considerável.
O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), caso cumpra parte significativa de suas metas, terá forte impacto para reativar a economia, ao gerar empregos, com melhorias na infraestrutura e redução de custos de logística.
A Petrobrás poderia reduzir os preços do diesel, que impacta os custos do transporte coletivo e de cargas, do gás de cozinha – que pesa no orçamento familiar das populações de baixa renda – e da gasolina, que atinge a classe média. Em geral os preços dos combustíveis, especialmente da gasolina e do diesel, estão 50% acima do nível internacional.
Governos municipais e estaduais podem implantar medidas de políticas públicas que resultam em aumento do poder aquisitivo da população, tais como o barateamento do transporte coletivo, da alimentação, do gás, da energia elétrica, da água e de medicamentos, itens que constituem parte importante das despesas familiares da população de rendas média e baixa.
Políticas de abastecimento que aproximam produtores e consumidores e reduzem custos de intermediação têm demonstrado sua eficácia em vários municípios brasileiros e podem contribuir para a expansão do consumo popular e impactar positivamente as condições de vida da população.
É de grande complexidade o enfrentamento desta crise e não existem respostas mágicas e previsões certeiras. O fomento ao debate é desejável e oportuno, diante da expectativa de que um conjunto ágil, articulado e coordenado de políticas seja implantado.
*Amir Khair, mestre em Finanças Públicas, é consultor
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Alberto Tamer* – O Estado SP
Déficit ou depressão. Eis a questão. O que é melhor para os Estados Unidos e para o mundo, gastar mais do que arrecada para tirar a economia da recessão que só se agrava, ou guardar dinheiro nos cofres do Tesouro, por precaução? Enfrentar o presente ou prevenir o futuro?
Estas são as perguntas que políticos e economistas excessivamente ortodoxos, quase sempre desligados da realidade, estão fazendo. A crítica: os governos que aceitam déficit maior no momento, estão se endividando e sacrificando gerações futuras. A resposta: e qual seria o destino dessas gerações se as economias americana e mundial entrarem em depressão por alguns anos? Não seria melhor gastar mais o que não tem,se endividando, e evitar o desemprego em massa que já está aí? Será possível que já se esqueceram da tragédia dos anos 30, quando a fome e a miséria se instalaram no mundo?
A OPÇÃO CERTA DOS EUA
Obama escolheu a opção certa ao anunciar corajosamente um déficit de US$ 1,75 trilhão, mesmo consciente de que representa12,3% do PIB. É muito, é grave? É, sim. É muito grave. Mas a outra opção, o avanço rápido para a depressão seria pior para os EUA e para o mundo, incluindo nós. Seria o caos por muitos anos. Será que ninguém mais se lembra da tragédia de desemprego, fome e miséria da década de 1930?
Todos, absolutamente todos os indicadores dos últimos meses, das últimas semanas, dos últimos dias são mais assustadores do que esse déficit. Se o governo executar os projetos já aprovados, se vierem com urgência outros mais, como Obama já anunciou, a economia americana poderá crescer 1,2% neste ano (foi 1,1% no ano passado) e 3,1% no próximo. O déficit cairia para US$ 533 bilhões em 2013. São muito otimistas, afirmam alguns. Será? Talvez não, porque a nova equipe tem se mostrado transparente e responsável. A previsão é cautelosa. Parte de uma retomada gradual e lenta no decorrer dos próximos quatro anos.
É realista, também, porque desta vez a injeção maciça de recursos está sendo encaminhada para setores que geram produção, emprego, demanda e crescimento.
Os recursos que irão provocar o déficit atacam de frente o desemprego que já chega a quase 3 milhões de pessoas. Os recursos socorrem mutuários e famílias endividadas, abrem caminho para sair da recessão talvez ainda neste ano. E o mundo irá atrás porque é o mercado interno americano que absorve as suas exportações. Quase US$ 2 trilhões por ano.
PODE HAVER RECUPERAÇÃO
Bush e sua equipe econômica não tiveram tempo ou não quiseram fazer nada disso. Obama rompeu essa política que se revelou desastrosa. Busca com energia e sentido de urgência o fim do túnel. E há luz porque a economia americana ainda é suficientemente forte para voltar a crescer carregando as outras consigo.
E não me digam, por favor, que estou exagerando. Basta ver que a economia da zona do Euro afundou mais na recessão porque suas exportações para os EUA despencaram. E ela afunda ainda mais na recessão.
A China também está sendo seriamente atingida porque 19% das suas exportações de US$ 1,2 trilhão se destinam para os EUA. Mesmo livre da crise financeira, não vai crescer mais de 6% neste ano em confronto com 11% dos anteriores.
A recessão começou nos EUA e eles são os únicos que nos podem tirar dela. E, pelo menos até agora, Obama está tentando fazer isso. Acertou ao optar por um déficit o gigantesco para evitar a depressão. E é por isso que deve ser seguido pelos países desenvolvidos que mergulham na recessão.
E O BRASIL?
Aqui nós estamos em situação melhor, mas desconfortável. Em janeiro, tínhamos ainda um superávit primário de 3,58% do PIB. Não é mal, mesmo estando um pouco abaixo da meta do governo de 3,8%. Mas há um sinal de aviso. Ele vem recuando mais rapidamente nos últimos meses. Em dezembro, anualizado, estava em 4%. Uma parte pode ser devido a gastos do governo que não foram controlados, mas outra decorre dos investimentos e redução de impostos destinados a sustentar a economia e enfrentar a recessão. Temos, portanto, um espaço ainda para continuar agindo sem que se agrave o risco de cair novamente nos déficits fiscais do passado.
EUROPA DE NOVO…
Aqui surge a União Europeia relutando de novo. Os países membros são punidos se tiverem déficit superior a 3% do PIB. Isso é coisa do passado. Estão proibidos, também, de terem um endividamento acima de 60% do PIB. A punição é a expulsão da zona do euro. Só que sete países já ultrapassaram esses limites, por enquanto, inclusive a Alemanha. Se as regras forem cumpridas, a zona do Euro simplesmente desaparece… Mesmo assim, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia insistem em mantê-las, apesar de um aprofundamento semanal na recessão.
Os planos de estímulo à economia somente agora estão aparecendo, mas, com exceção da Grã-Bretanha, estão atrasados e poderiam ter sido úteis há cinco meses. Agora, não. Estão superados pelo agravamento da recessão que os governantes europeus, como Bush, só içaram olhando acontecer.
*E-mail: at@attglobal.net
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Autos e alimentos melhoram em janeiro, mas vários setores pioram
Fernando Dantas – O Estado SP
No momento em que a Embraer demite 20% da sua força de trabalho e a angústia em relação à economia em 2009 se intensifica, outra ameaça paira sobre a tênue retomada da indústria brasileira iniciada em janeiro. A recuperação (projetada pelos indicadores antecedentes), após a queda brusca nos três últimos meses de 2008, parece ser bastante desigual entre os setores, com vários deles podendo apresentar resultados ainda muito ruins. “É difícil dizer que o vale (pior momento) já passou”, diz Jander Medeiros, analista de consumo da JGP Investimentos, empresa de gestão de recursos.
O Índice de Situação Atual da Fundação Getúlio Vargas (FGV), componente do Índice de Confiança da Indústria que melhor mede a avaliação das empresas sobre a demanda a cada momento, teve quedas expressivas de dezembro para janeiro em importantes setores industriais: 4,4% em material elétrico e de comunicações; 8,3% no mobiliário; e 14,3% em vestuário e calçados.
Esses resultados foram contrabalançados pela alta em setores como produtos alimentares e material de transporte (que inclui a indústria automobilística), que tiveram altas no Índice de Situação Atual de respectivamente 10,3% e 4,6% em janeiro.
O problema, porém, para vários analistas, é que o setor automotivo pode estar se recuperando por causa de uma queda muito forte no fim do ano passado. O bom desempenho dos alimentos, por sua vez, é compatível com a atual fase da contração econômica, que ainda está mais concentrada nos produtos dependentes de crédito.
“Quando desagreguei o resultado por setores, fiquei mais preocupado porque o índice mostra que há segmentos nobres de consumo, como eletrônicos, mobiliário e vestuário, que ainda têm quedas muito significativas”, diz Vagner Ardeo, vice-diretor do Instituto Brasileiro de Economia, da FGV no Rio.
Bráulio Borges, da LCA Consultoria, está mais otimista. Ele nota que a indústria automobilística é responsável, direta ou indiretamente, por 25% da produção industrial, afetando segmentos como siderurgia, petroquímica, etc. “É um poder de influência muito grande, e essa recuperação é um bom sinal para economia como um todo”, diz.
Um ponto comum nas análises é que o setor automobilístico foi o que pisou com mais força no freio no último trimestre do ano passado, exagerando a dose e provocando a reaceleração em janeiro. “A fábrica da Ford na Bahia, por exemplo, praticamente não operou em dezembro”, observa Borges.
Outros setores de bens duráveis, porém, como eletrodomésticos e móveis, não tiveram freada tão drástica. “Eles ainda têm de se preocupar em reduzir os estoques antes de aumentar a produção”, acrescenta.
Medeiros, da JGP, nota que fator determinante no desempenho dos setores é a dependência ou não do crédito (exceto a indústria automobilística, com sua dinâmica particular). Nos alimentos, que não têm vínculo com crédito, o bom momento se reflete no desempenho de empresas como Wal-Mart, que manteve planos de investimento de R$ 1,5 bilhão, e do Pão de Açúcar, que retomou projetos. O aumento real do salário mínimo também deve ajudar.
Outro segmento que vai bem, acrescenta o analista, é o de cosméticos. Assim como os alimentos, são produtos que podem ter a demanda até ampliada num primeiro momento de retração, à medida que o consumidor corta bens duráveis mais caros. “A pessoa não comprou presente de Natal, mas dá uma melhoradinha na ceia”, resume Ardeo, do Ibre.
Uma preocupação, porém, é que esses setores sejam mais afetados no momento em que o pior da crise se transferir do crédito para o emprego, como parecem indicar os recentes resultados sobre mercado de trabalho do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged). John Welch, economista global do Itaú, porém, acha que a queda da inflação pode poupar o setor de alimentos de um ajuste mais drástico.
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Espera para levar um modelo popular pode passar de 30 dias em revendas em SP
Falta de carros para pronta entrega também atingiu o setor de veículos novos, devido à queda na produção e ao aumento da demanda
DO “AGORA” e FOLHA SP
A fila de espera para comprar um carro popular chegou ao setor de usados na capital e pode passar de 30 dias para os consumidores à procura dos modelos mais disputados. Os modelos flex 1.0 fabricados entre os anos 2005 e 2008 são os que mais faltam nos estoques das concessionárias. Os quatro portas também são disputados.
Em cinco concessionárias consultadas ontem, os usados em falta são Celta, Ford Ka, Palio, Fiesta, Corsa Sedan, Gol e Fox. Clientes que têm exigências quanto a cor, modelo e quilometragem podem esperar mais de um mês.
Nas 45 lojas da Chevrolet na Grande SP, os usados mais procurados são Celta, Ford Ka e o Fiat Palio 1.0.
A espera média de 25 dias para diversos populares novos reduziu a oferta de usados, já que quem vai trocar de carro espera pelo novo para deixar o usado na loja. Além disso, a queda dos preços também fez com que muitos consumidores desistissem da venda do carro.
Para o gerente regional de vendas da GM, Rodrigo Rumi, a desvalorização dos usados acompanhou os preços dos novos, que, desde dezembro, têm redução e isenção de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados).
Segundo gerentes de concessionárias, só neste mês os donos de veículos estão voltando a negociar a venda dos usados. “Passado o impacto da desvalorização, os clientes perceberam que há uma nova realidade de preços”, diz Cesar A. Del Negro, supervisor de vendas da Anhembi, da Chevrolet.
Segundo a Anauto-SP (associação dos auto-shoppings), as vendas em fevereiro estão em recuperação.
Segundo a GM, os novos se desvalorizaram em até R$ 2.000, e os usados, em até R$ 4.000. Na Ford Highway, da Vila Prudente (zona leste), o Ka 2007 caiu de R$ 21 mil para R$ 18.500. Segundo o gerente da Fiat Amazonas Sumaré, em Perdizes, o estoque de usados caiu de 230 carros em fevereiro de 2008 para 80 neste mês. Para a Fenabrave (federação de veículos), a falta será normalizada com a regularização da entrega dos novos.
Carros novos
Por conta da queda na produção e do aumento nas vendas no começo deste ano, as concessionárias sentiram também a falta de carros novos para pronta entrega.
O problema afetou especialmente modelos populares, como o Fiat Uno, o Fiat Palio e o Ford Ka, os três na lista dos dez mais vendidos.
A falta de modelos foi consequência do corte de 54% na produção das montadoras em dezembro passado em relação ao mesmo mês de 2007. Por outro lado, a demanda por veículos ganhou fôlego na passagem de 2007 para 2008 com a queda no IPI e a oferta de crédito.
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DO ENVIADO ESPECIAL A FLORIANÓPOLIS – FOLHA SP
DA REPORTAGEM LOCAL
Com a redução do IPI e a retomada da oferta de crédito, o mercado está voltando ao patamar do ano passado. Nos primeiros 45 dias deste ano, foram vendidos 301,5 mil automóveis e comerciais leves no país, apenas 500 a menos do que no mesmo período de 2008.
“Esse resultado mostra que 2009 deve ser um ano bom, mas o segundo trimestre será crítico para a indústria automobilística. Quem está comprando agora está antecipando a compra”, afirmou Jaime Ardila, presidente da General Motors do Brasil, na apresentação do Vectra Next Edition, ontem. Ardila diz acreditar que a redução do IPI, prevista para terminar em 31 de março, não deverá ser prorrogada. “As montadoras e a Anfavea [associação dos fabricantes de veículos] estão pressionando o governo, mas ele não deve ceder.”
Para aproveitar o período de vigência do IPI reduzido, as montadoras planejam aumentar a produção e os estoques em março. O que não significa manter o quadro de funcionários das fábricas. “As montadoras devem mesmo aproveitar para produzir mais agora, enquanto o IPI está baixo. É claro que quem ousa pode ganhar ou perder. Mas o fato é que já temos demanda”, avalia o consultor André Beer, ex-presidente da Anfavea.
Para o presidente da GM, outras medidas precisam ser tomadas para estimular o mercado. “Uma delas é a redução da taxa Selic. O Banco Central tem fôlego para reduzi-la para 10% ao ano. O governo também poderia retomar gradualmente a cobrança do IPI.”
Enquanto isso não acontece, as financeiras aumentam o crédito e reduzem as taxas. Antes da crise, os juros para planos de 60 meses variavam de 1,3% a 1,4% ao mês.
“Chegaram a 1,9% [ao mês] em novembro, e hoje estão em 1,7%. Se estivessem entre 1,4% e 1,5% [ao mês], seriam mais atrativos para o consumidor”, diz Ardila.
Joinville
Apesar dos efeitos da crise global, a GM afirma que não irá cancelar os projetos e os investimentos no país, apesar de ter prorrogado em seis meses as obras para a construção de uma nova fábrica de motores em Joinville (SC). “As fortes chuvas que caíram na região atrapalharam os serviços de terraplanagem”, justifica Ardila. A inauguração agora está prevista para o início de 2010, após um investimento de US$ 200 milhões (R$ 454 milhões).
Essa quantia, porém, não faz parte dos US$ 13,4 bilhões emprestados à GM americana em dezembro. “O plano de reestruturação apresentado pela GM dos EUA não inclui o Brasil”, finaliza Ardila.
Fenabrave
Na primeira quinzena deste mês, as vendas de automóveis e comerciais leves cresceram 7,43% em relação ao mesmo período de 2008, de acordo com a Fenabrave (Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores). Até anteontem, foram vendidas 109.258 unidades, volume 15,56% maior do que o registrado no mesmo período de janeiro passado. (FELIPE NÓBREGA E PAULO DE ARAUJO)
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E.S. Browning, The Wall Street Journal – VALOR
Eles podem não aparecer em importantes referências mundiais como as bolsas de valores americanas, mas o fato é que começam a surgir alguns pequenos sinais de otimismo nos mercados financeiros.
Os preços de algumas commodities começam a subir, assim como as bolsas de países exportadores de commodities como o Brasil. Alguns investidores voltaram a comprar títulos de dívida corporativa, com empresas fortes emitindo novos papéis, ainda que preços e rendimento não estejam de volta ao normal.
Os investidores chamam isso de aposta na reflação, ou a crença de que os líderes mundiais terão sucesso no combate à depressão e à deflação e gradualmente levarão o mundo de volta ao crescimento econômico. Alguns preveem que a inflação volte a subir no fim deste ano.
O preço do cobre subiu 5% no mercado futuro este ano e está 17% acima do nível mais baixo que alcançou no fim de 2008. Os futuros do estanho subiram 7% em 2009. O Ibovespa subiu 5% este ano, enquanto na Coréia do Sul o principal índice está em alta de 3%.
No entanto, o otimismo parece mais uma marola do que uma onda de verdade, e muitos descrentes acreditam que vai acabar mal. Os ganhos são localizados.
O mercado acionário de Hong Kong caiu 8% em 2009. Os futuros de petróleo e milho já caíram 7% este ano. Alguns mercados, como as bolsas de valores dos Estados Unidos, já devolveram a maior parte dos ganhos que tiveram desde o fim do ano passado. Este foi um dos piores janeiros da história do mercado acionário americano.
Muitos investidores ainda temem que a recente recuperação seja apenas um outro respiro antes que os mercados caiam para pisos ainda mais baixos.
Poucos estão entrando nos mercados com os dois pés, apesar de alguns otimistas estarem gradualmente aumentando seus investimentos em ações, títulos de empresas, commodities e outros ativos de maior risco. Eles dizem que recuperações duradouras às vezes acontecem dessa maneira, com pequenos ganhos aqui e ali.
Os ganhos refletem a esperança de que a economia mundial se recupere mais para o fim do ano, com países em desenvolvimento como China e Brasil recuperando-se antes dos EUA, Europa ou Japão.
Algumas pessoas estão gradualmente tirando dinheiro dos títulos do Tesouro dos EUA, considerados um porto seguro e cuja demanda foi tão alta que o rendimento encolheu para os menores patamares em décadas, reflexo da alta de suas cotações. Muitos ainda querem a segurança dos treasurys, de modo que os preços continuam altos e os rendimentos, baixos. Mas, à medida que alguns investidores voltaram a fazer investimentos mais arriscados, as cotações dos papéis do Tesouro americano caíram um pouco, puxando o rendimento do título de dez anos para 2,8% na sexta-feira passada, ante 2,1% em 18 de dezembro.
Os céticos alegam que os mercados tiveram várias recuperações temporárias no ano passado, para então cair de novo, à medida que a profundidade dos problemas da economia global se tornava mais evidente. Os pessimistas consideram a mais recente recuperação de aplicações de maior risco como “pulo de gato morto”, ou uma breve alta seguida de mais quedas. A frase é parte do jargão de Wall Street e quer dizer que mesmo um gato morto irá quicar se cair muito.
“Se você for um ágil trader de curto prazo, pode tentar aproveitar isso”, diz David Kotok, presidente da empresa de administração de recuros Cumberland Advisors, de Vineland, no Estado americano de Nova Jersey. Mas outros “podem ser sugados pelo pulo do gato morto”. Kotok não aumentou sua exposição a ações de empresas americanas ou à maioria das commodities, embora tenha expandido levemente os investimentos em ouro e prata, que podem dar um bom retorno quando a dívida pública cresce e o governo injeta dinheiro na economia.
Uma série de deprimentes dados econômicos e resultados de empresas levou a Média Industrial Dow Jones a cair 8,8% no mês passado, o maior declínio em janeiro em 113 anos de história.
Mas mesmo na Dow houve um sinal de que os investidores não perderam a esperança. Nas últimas semanas, o índice conseguiu se recuperar toda vez que caiu para a faixa dos 8.000 pontos. Ele testou esse patamar outra vez na sexta-feira passada, quando fechou a 8.000,26 pontos. Os investidores ainda não têm muita esperança quanto às ações americanas, mas muitos acreditam que vão escapar de novos grandes problemas.
“Espero que tenhamos passado o pior”, disse William Hackney, diretor de investimentos do Atlanta Capital Management, empresa de administração de recursos de Atlanta. As bolsas já caíram tanto que “as notícias econômicas não precisam ser boas, elas só precisam ser menos ruins. Devemos chegar a uma posição nos próximos seis meses de pelo menos frear a queda e talvez até voltar a subir um pouco”.
No fim do ano passado, os administradores de um dos fundos de pensão com os quais ele trabalha decidiram suspender totalmente a compra de ações, mesmo que isso implicasse deixar os investimentos em renda variável abaixo do nível que haviam estabelecido. Agora eles decidiram voltar a esse patamar e comprar ações de novo.
Eles não estão adotando uma posição agressivamente otimista em relação a ações, e sim se reequilibrando a partir de uma posição extremamente pessimista.
Muitos, no entanto, temem que ainda seja muito cedo para alimentar esperanças.
Os sinais de recuperação econômica, mesmo nos países em desenvolvimento, ainda não são amplos o suficiente para aplacar as preocupações de Jeff Schappe, diretor de investimentos da BB & T Asset Management, de Raleigh, Carolina do Norete.
Depois de um breve período de otimismo no primeiro semestre do ano passado, Schappe reduziu de 65% para 60% a alocação em ações. Desde então, diz, tem se segurado para evitar cortar ainda mais a exposição a ações.
“Nosso lema agora é de que esta não é a hora de ser herói”, diz Schappe. Ele está comprando títulos corporativos de alta qualidade, mas não papéis de grau especulativo. Está alertando os clientes a se concentrar principalmente em papéis de empresas com balanços fortes, como Wal-Mart Stores, McDonald’s e algumas farmacêuticas.
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Fernando Lopes e Mônica Scaramuzzo, de São Paulo – VALOR
Com forte influência dos chamados fundamentos, todas as oito principais commodities agrícolas negociadas pelo Brasil no mercado internacional encerraram o mês de janeiro com preços médios superiores aos de dezembro de 2009.
Tal “alinhamento positivo”, exposto por cálculos do Valor Data baseados nas médias mensais dos contratos futuros de segunda posição de entrega (normalmente os de maior liquidez) transacionados nas bolsas de Chicago (soja, milho e trigo) e Nova York (açúcar, café, cacau, suco de laranja e algodão), não era visto desde junho de 2008, em plena inflação global dos alimentos.
Ainda que o nervosismo nos mercados mundiais tenha sido muitas vezes exacerbado pelas notícias de desaceleração econômica tanto em países desenvolvidos quanto em emergentes em janeiro, provocando movimentações financeiras que ajudaram a influenciar as commodities, o resultado não foi negativo para as cotações como muitos analistas temiam no fim de dezembro, em meio a um cenário de muitas incertezas.
Tragadas pelo aprofundamento da crise americana a partir de setembro, as cotações internacionais dos produtos agrícolas registraram queda ab-rupta até o fim do ano passado. Especialistas já alertavam que as relações de oferta e demanda não justificavam tamanha desvalorização, apesar da tendência de desaceleração. Com os fundamentos em geral “altistas” do mês passado, houve espaço para correções.
Vinícius Ito, analista da Newedge, corretora baseada em Nova York, lembra que um forte movimento de desova de posições por parte de investidores até o fim de 2008 colaborou sobremaneira para as fortes quedas observadas. Em janeiro, diz, muitos deles renovaram as apostas, fortalecidas pelos fundamentos.
No caso dos grãos negociados em Chicago, pesaram as quedas de produção na América do Sul por causa da seca, principalmente na Argentina, e o aquecimento da demanda de países consumidores importantes como a China, que decidiu recompor seus estoques com os preços mais em conta do que nos três primeiros trimestres do ano passado.
Nesse cenário, as cotações da soja foram as que mais subiram. Segundo o Valor Data, a média de janeiro atingiu US$ 9,9745 por bushel, 14,29% acima que a média de dezembro. A valorização do trigo, por sua vez, chegou a 9,49% na mesma comparação, e o bushel foi negociado, em média, por US$ 6,0168. O preço médio do milho subiu 7,11%, para US$ 4,0179 por bushel.
Ito acredita que, se depender apenas dos fundamentos, as cotações dos grãos poderão se estabilizar em torno desses patamares. Pelo critério dos preços médios, soja e milho estavam em baixa em Chicago desde julho de 2008; o trigo, desde agosto.
Não foram muito diferentes as equações que definiram as cotações das chamadas “soft commodities” em Nova York em janeiro. Os fundamentos prevaleceram também para esses produtos. “Se fizermos uma análise do mercado, nada efetivamente mudou muito. O mercado de crédito continua limitado, ainda sem fluir como deveria. A volatilidade também se manteve em janeiro e o dólar ficou mais firme, o que ajuda a pressionar as cotações”, explicou Rodrigo Costa, da Newedge.
No entanto, os preços das commodities fecharam firmes em janeiro, respaldados pelos fundamentos já conhecidos de cada commodity. Nenhum fator novo modificou o rumo do açúcar, café, suco, algodão e cacau. Para o açúcar, os preços refletem o primeiro déficit global depois de três anos de superávit mundial. A média de janeiro atingiu 12,62 centavos de dólar por libra-peso, 6,41% acima que a média de dezembro.
No café, a menor colheita no Brasil em 2009, resultado da bianualidade da safra (produtividade baixa a cada dois anos) também tem dado sustentação aos preços. O grão acumulou valorização de 7,22% em janeiro, com preços médios de US$ 1,1871 por libra-peso. A queda da produtividade dos países da América Central também tem ajudado a dar suporte às cotações.
As previsões de geadas sobre os pomares da Flórida, segundo maior produtor mundial de suco de laranja, embora não tenham ainda provocado danos às regiões produtoras dos EUA, deram sustentação ao produto no mês passado. Os riscos de estragos não se concretizaram, mas foram suficientes para elevar os preços do suco, que em janeiro acumularam alta de 2,61%, com preços médios de 76,88 centavos de dólar por libra-peso.
O algodão também subiu, apesar da baixa demanda global por têxteis. Segundo Fernando Martins, da Newedge, a menor área plantada para a pluma nos EUA sustentou as cotações. No mês o produto acumula alta de 8,68%, com preço médio de 49,57 centavos de dólar. O cacau subiu 6,06% no mês, negociado a US$ 2.591,20 a tonelada, por conta dos problemas na produção na Costa do Marfim e Gana e atraso da chegada da amêndoa até os portos.
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Economista defende efeito do benefício contra desigualdade e diz que seu aumento pode compensar contração do crédito
Wilson Tosta – O Estado SP
O economista Marcelo Néri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que a expansão do Bolsa-Família anunciada esta semana pelo governo federal poderá ajudar no combate à crise econômica entre os mais pobres. Para ele, ao expandir a distribuição de dinheiro em setores em que é mais alta a propensão para gastá-lo, a iniciativa, além de combater a pobreza, estimulará a economia, compensando em parte a redução do crédito. “Essa é uma medida adequada”, diz ele, por e-mail, de Washington. Néri destaca o efeito “direto e potente” do programa sobre a redução da desigualdade no País, mas reconhece que, nas pesquisas sobre o Bolsa-Família, a hipótese de que gere acomodação nos beneficiários não foi afastada.
Expandir o Bolsa-Família é uma escolha correta?
O que se pode dizer é que não existe programa de transferência de renda no Brasil mais bem focalizado que o Bolsa-Família e seus antecessores. Por exemplo, cada real gasto no Bolsa-Família tem 2,5 vezes mais chances de chegar ao pobre que cada real gasto com o reajuste do salário mínimo na Previdência. Além disso, agora o mundo está keynesiano, no sentido de que a falta de demanda agregada é o que tem de ser combatido. Essa opção implica não só combater a pobreza, mas destinar recursos para onde a propensão de gastar o dinheiro é mais alta. Ainda tem um bônus, você injeta moeda onde ela é mais escassa, gerando um efeito lubrificador na demanda, que compensa em parte o efeito da contração de crédito.
Foi correto o critério adotado, aumentar em R$ 17 o teto de renda per capita dos possíveis beneficiários?
Você está incluindo os mais pobres que não estavam no programa. Esses R$ 17 reais a mais levam os valores do critério muito próximos da nossa linha de miséria calculada pela FGV há anos (exceto que a nossa varia pelo custo de vida entre regiões R$ 142 em São Paulo, mas R$ 134 na média no Brasil). Logo, eu não poderia ser contra esse número cabalístico.
Não seria mais correto investir o dinheiro em ajudar quem já está no programa a não precisar mais dele?
O menor custo hoje para aliviar totalmente a pobreza no Brasil é de R$ 21,3 bilhões no ano. Isso é quanto custaria para completar a renda de cada brasileiro até a linha de R$ 134 reais/mês. Agora, transferências de renda têm forte efeito no curto prazo, é preciso de ações estruturais que aumentem a capacidade dos pobres gerarem sua própria renda a prazo mais longo. Mas talvez o que se queira agora seja um efeito de curto prazo em época de crise.
O Bolsa-Família não pode estimular a acomodação?
O programa pode levar à acomodação. Alguns estudos anteriores rejeitaram esse efeito no Brasil e no México. Nos nossos últimos estudos, estamos achando efeitos desse tipo. Ainda é prematuro afirmar, mas nós não conseguimos rejeitar a hipótese de que que há efeito-preguiça derivado do Bolsa-Família. Nossos resultados quantitativos estão em linha com relatos que escuto da população mais sofrida. Por exemplo, “se eu conseguir um emprego formal, eu sou excluído do programa, então eu não busco emprego formal”. Isso preocupa e precisamos de desenho mais arrojado para combater essa e outras limitações.
Quais são os efeitos do Bolsa-Família na redução da desigualdade?
No que tange a redução da desigualdade de renda o efeito é direto e potente. Cerca de 40% da inédita queda da desigualdade ocorrida a partir de 2001 se dá pelo efeito Bolsa-Família. Há impactos positivos sobre os beneficiários do programa, como aumento da matrícula de 3 pontos de porcentagem e na frequência escolar. Agora a extensão recente das condicionalidades educacionais até a faixa de 17 anos é promissora, pois só 74,5% destes estão na escola.
Se o programa tem resultados benéficos, a que atribuir as reações contrárias, a grita contra ele e contra sua ampliação?
Há uma grita interna, mas de natureza diferente daquela que houve contra os programas Fome Zero ou Primeiro Emprego, do qual participei desde a primeira hora. Esses programas caíram pois eram mal desenhados. Já o Bolsa-Familia foi criticado por alguns desde seu nascimento, mas hoje ainda não só se expande no Brasil, como em outras partes, inclusive nações desenvolvidas, vide o programa em Nova York. O programa nasceu forte e vai evoluindo ao longo do tempo. Estamos já no Bolsa-Família 2.0.
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EDUARDO CUCOLO da Folha Online, em Brasília
O Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) decidiu hoje reduzir a taxa básica de juros em 1 pontos, de 13,75% ao ano para 12,75% ao ano. Trata-se do maior corte de juros promovido pelo BC desde dezembro de 2003, quando a Selic caiu de 17,5% a.a para 16,5% ao ano.
A decisão do BC ocorre em um momento de forte desaceleração da economia brasileira e em meio à pressão feita por empresários, sindicatos e por membros do próprio governo. O corte está dentro das previsões mais “otimistas” do mercado e do setor produtivo.
Arte Folha Online
A taxa Selic está agora abaixo do patamar em que estava até o dia 10 de setembro do ano passado (13% a.a.), data em que o BC aumentou os juros pela última vez, poucos dias antes do estouro da crise econômica. Apesar da queda, os juros reais brasileiros permanecem como os maiores do planeta, à frenta da Hungria.
A maioria dos economistas já esperava uma queda entre 0,5 ponto percentual e 1,0 ponto percentual. Na reunião de dezembro, quando decidiu manter os juros inalterados, o BC havia informado que parte da sua diretoria já pensava em realizar um corte.
Depois disso, uma sequência de dados negativos sobre emprego, produção industrial e vendas do comércio reforçou as apostas na queda dos juros. Além disso, os principais índices de preços mostraram queda na inflação ou até deflação, o que abriu espaço para um corte maior.
Mesmo com a chegada da crise ao Brasil, refletida principalmente na falta de crédito e queda da demanda, a instituição vinha optando por manter a Selic inalterada desde setembro do ano passado, temendo os impactos da alta do dólar sobre os preços no país. Esse movimento foi compensado, no entanto, pela queda na cotação de vários produtos, como alimentos e petróleo no mercado internacional.
Previsões para o ano
Trata-se da primeira das oito reuniões do Copom neste ano. Agora, os diretores do BC só voltam a se reunir nos dias 10 e 11 de março. Até lá, já será conhecido o PIB (Produto Interno Bruto, soma das riquezas produzidas no país) do último trimestre de 2008, que deve mostrar o tamanho do impacto da crise no país.
De acordo com a pesquisa Focus, realizada pelo BC com o mercado financeiro, os economistas esperam agora uma sequência de novos cortes nos juros: para 12,50% em março; 11,75% em abril; 11,50% em junho; e 11,25% em julho. Depois disso, a taxa só voltaria a cair em 2010, para 11% ao ano.
Mesmo prevendo queda nos juros neste ano, o mercado financeiro aposta que o BC conseguirá trazer a inflação para o centro da meta, que é de 4,5%, devido à desaceleração da economia, que deve crescer apenas 2% neste ano, segundo a pesquisa Focus do BC.
Lula
Segundo reportagem da Folha desta quarta-feira, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, se reuniu anteontem com o presidente Lula para lhe dizer que os juros cairiam hoje, mas ressaltou que o principal problema ainda é o “spread” cobrado pelos bancos privados.
O “spread” é a diferença entre o custo de captação dos bancos e os juros que eles cobram dos seus clientes. Desde setembro, mesmo com a Selic inalterada, o spread subiu, influenciado pela falta de crédito no mercado.
Amanhã, o presidente deve se reunir com os dirigentes de bancos públicos e privados para cobrar uma redução do “spread”.
Tags: alimentos, Bancos, copom, crédito, crise, deflação, demanda, desaceleração, dólar, emprego, empresários, inflação, Internacional, Juros, Lula, Meirelles, Mercados, PIB, Selic, sindicatos
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Ribamar Oliveira, O Estado SP
email: ribamar.oliveira@grupoestado.com.br
As previsões dos economistas são tão díspares que as pessoas não conseguem formar uma opinião clara sobre o que vai acontecer com as economias mundial e brasileira este ano. Isto significa apenas que o grau de incerteza sobre as principais variáveis econômicas também é muito grande até mesmo para eles. Além disso, é difícil avaliar qual será o efeito final das ações dos diversos governos sobre a atividade econômica e se elas serão suficientes para amenizar a recessão dos países desenvolvidos.
Para se ter uma ideia das divergências, o último relatório de inflação do Banco Central (BC), divulgado em meados do mês passado, estima que os investimentos estrangeiros diretos (IED) no Brasil em 2009 ficarão em torno de US$ 30 bilhões. As previsões das principais instituições financeiras do País, captadas pelo último boletim Focus, divulgado pelo próprio BC, calculam que estes investimentos ficarão em torno de US$ 21,5 bilhões. A diferença entre as previsões é expressiva, de US$ 8,5 bilhões.
O valor do IED é uma variável importante porque o País precisa saber como irá financiar o seu déficit em conta corrente este ano. Essa conta registra todas as operações comerciais e de serviços do Brasil com o exterior e ela está sendo deficitária nos últimos anos. A previsão tanto do BC quanto das instituições financeiras é que a conta corrente registrará um déficit em torno de US$ 25 bilhões em 2009.
Se o IED for menor do que estima o BC, o País terá que procurar outra forma de financiar o seu déficit em conta corrente. Como os bancos internacionais retraíram os seus créditos e a aversão ao risco dos investidores aumentou, a necessidade de recursos externos do Brasil pressionará a taxa de câmbio, com o dólar subindo mais ainda, o que poderá ser um limitador importante do crescimento brasileiro e um complicador ao controle da inflação.
Qualquer análise sobre as perspectivas brasileiras este ano, no entanto, precisa partir da constatação de que o Brasil não tem problemas estruturais graves. Ou seja, as impressões digitais do País não estão na atual crise internacional. Os bancos brasileiros não apresentaram problemas de solvência e o consumo das famílias cresceu muito até o terceiro trimestre de 2008. Em outras palavras, ao contrário dos Estados Unidos, do Japão e da Europa, a questão que se coloca no Brasil não é de falta de demanda.
É preciso ter clareza que os problemas que o Brasil enfrentará este ano decorrerão, basicamente, da redução da demanda mundial por commodities agrícolas e minerais e da retração da oferta de crédito por parte dos bancos internacionais. O mundo vai crescer menos, demandar menos produtos brasileiros e ter menor liquidez financeira. Por causa desse cenário, o País terá que sustentar o seu crescimento na demanda interna.
Todas as ações que o governo Lula adotou até agora são no sentido de normalizar a liquidez do mercado financeiro, manter o crédito e sustentar a demanda interna. Para melhorar a liquidez, o governo já tinha reduzido em R$ 98 bilhões, até o dia 15 de dezembro, os depósitos que os bancos são obrigados a recolher ao BC. Com o objetivo de dar liquidez em moeda estrangeira, o BC tinha injetado US$ 53,4 bilhões no mercado interno.
O governo supriu com linhas de financiamento alguns setores chaves da economia como o automobilístico, o agrícola e a construção civil e garantiu crédito de capital de giro às empresas por meio dos bancos estatais. Por último, o governo promoveu desonerações tributárias, como a redução do Imposto sobre Produtos Industriais (IPI) na aquisição de veículos novos, a redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) no crédito ao consumidor e a diminuição do Imposto de Renda para a classe média.
Em fevereiro, nova medida de estímulo ao consumo entrará em vigor com o aumento do salário mínimo. Pelo acordo fechado com as centrais sindicais, o governo Lula concederá um aumento real de 5,7% ao piso salarial (além da correção da inflação do período pelo INPC). Isto representará uma injeção de cerca de R$ 5,5 bilhões no mercado ao longo do ano, em termos reais, apenas por conta do pagamento de benefícios previdenciários e assistenciais a 17,2 milhões de pessoas que recebem o salário mínimo.
O aumento beneficiará também cerca de 7,2 milhões de trabalhadores ativos que ganham o piso salarial. Além disso, as despesas do governo serão elevadas em mais R$ 20 bilhões por conta dos aumentos e reestruturações de carreiras concedidas ao funcionalismo público ao longo de 2008. O governo Lula pretende ainda aumentar os seus gastos com investimentos, por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), e do Fundo Soberano do Brasil (FSB), que dispõe de R$ 14,2 bilhões.
Os estímulos fiscais e creditícios que o governo está concedendo amenizarão os efeitos da crise internacional sobre o Brasil. O limitador do crescimento será o déficit em conta corrente e a incapacidade de financiá-lo no mercado, o que poderá ter efeito negativo sobre o câmbio e a inflação. Há outro dado preocupante que a ação do governo não reverterá. A previsão do BC é de aumento dos investimentos totais na economia de apenas 4,4% este ano, o que coloca em xeque a capacidade do Brasil continuar crescendo a taxas elevadas e sem inflação nos próximos anos.
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Antônio Delfim Netto: economista; para Delfim, a crise está fora da economia: ‘Seria uma crise de expectativa, de crença, de confiança’
Roberval Angelo Schincariol e Roger Marzochi, AGÊNCIA ESTADO
Para o economista Antônio Delfim Netto, o que fará a diferença na economia do tão temido ano de 2009 é a sensibilidade do brasileiro. E, para ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é a encarnação do otimismo. “Lula é o maior economista do Brasil”, diz Delfim, na seguinte entrevista, concedida no dia 10 de dezembro, em seu escritório, em São Paulo.
Qual a avaliação que o sr. faz sobre os impactos da crise financeira no Brasil em 2009?
Você está em um ambiente complicado e é claro que o Brasil vai pagar o preço de fazer parte do mundo, como tem os benefícios. O Brasil usou a expansão que houve no mundo. E eu estou convencido de que essa crise é, simplesmente, a própria crise de 2001 consertada pelos economistas. Teve a crise em 2001, que foi a crise do pontocom, que explodiu, e apareceu aquela patifaria da Enron. E como é que os economistas resolveram essa crise? Fornecendo liquidez e permitindo que toda a imaginação do sistema financeiro se exercitasse plenamente, com a ideia de que o sistema tinha em si uma moralidade ínsita. Portanto, ninguém precisa se preocupar porque é tudo gente correta, que não vai fazer nada de patifaria…
O sr. avalia que hoje, então, houve o estouro da bolha da moralidade?
Não, a moralidade já explodiu na Enron. E o que o governo foi fazendo? O Fed e o Tesouro americano passando a grosa, permitindo que você fizesse um curto-circuito aqui, outro lá. Quando o (Henry) Paulson (secretário do Tesouro) tomou posse, em 2006, ele declarou: “Eu vim para acabar com o resto de regulação que está perturbando o crescimento.” Em 2006! A crise já estava explodindo! Então, você está diante de um fato: os economistas são capazes de produzir uma crise, mas não podem resolvê-la. A crise está fora da economia.
Seria uma crise de expectativa?
Seria uma crise de expectativa, de crença, de confiança. Qual é a origem da sociedade? Está no velho Platão, antes do Aristóteles. Para a coisa funcionar, tem de ter possibilidade de trocar o meu trabalho com outro. E tem de ter uma moeda. Nós estávamos produzindo milho. Eu vivia pobre, você também. Mas eu produzia o meu, você produzia o teu. Mas chegamos a um acordo. Eu vou produzir o milho e você vai fazer um buraco aí até conseguir água, depois a gente irriga o milho, vai dobrar a produção e vamos viver melhor. Esse é o progresso. Está no Adam Smith. Divisão do trabalho. Isso exige que eu confie que, enquanto eu estiver produzindo o milho, você esteja fazendo o buraco. Então, a confiança precede a sociedade. Ela é o cimento, o fator catalítico que faz funcionar a sociedade.
Na atual crise, o BC agiu no tempo certo?
A ação do BC foi no tempo próprio, com alguns pecadilhos. Em lugar nenhum do mundo o BC diz: “Eu vou dar dinheiro para banco grande comprar banco pequeno.” Muito menos vou dar dinheiro para banco público, porque aqui você tem dois problemas graves: a higidez de um banco não depende nem da sua propriedade nem do seu tamanho. O banco público não é muito mais seguro que nenhum banco privado. Mas por uma simples razão: porque banco, por definição, é quebrável.
Quando o sr. diz que o BC não deveria ter dito que o dinheiro era para comprar bancos pequenos, deveria ter dado o dinheiro sem dizer…
Não, deveria ter feito as coisas já de uma vez! Não deveria usar a técnica do conta-gotas. Quando se faz um sistema no qual eu compro a carteira do outro, estou levantando dúvidas sobre essa carteira. É como ter um dinossauro Rex de boca aberta e tem uma galinha que eu estou espantando para a boca do dinossauro.
Mas o sr. não avalia que a crise financeira será tão forte no Brasil como está sendo para o resto do mundo?
A crise americana vem vindo desde o começo de 2007. No Brasil, não. É uma crise datada. Vinha se desarrumando e, quando o Paulson faz a barbeiragem no Lehman, desaba tudo. Ou seja, ele matou o fator catalítico, que era a confiança. E no Brasil ocorreu uma função descontínua. É uma crise de confiança que atingiu os bancos lá fora.
Mas houve uma queda na concessão de crédito no Brasil.
Você imagina uma coisa. Chega um grande banqueiro brasileiro no Waldorf-Astoria e encontra com o homem do Citi, na sua importância, para dizer: “Eu ainda não cortei o crédito lá.” O homem do Citi diz: “Esse sujeito não faz parte do nosso clube.” Agora, nenhum deles fez patifaria aqui, nem sei se por virtude. É que aqui tinha formas de ter retorno muito mais seguro e mais alto que com a patifaria.
Com juros?
Então, nós já tínhamos a mais alta taxa e fizemos o maior aumento do mundo. Quando o mundo inteiro reduziu, nós continuamos insistindo na mesma política. Isso tudo, que era um defeito enorme, agora as pessoas dizem que foi uma clarividência. É como aquele francês, para quem ofereceram a Brigitte Bardot. Só que hoje ela está com 80 anos!
Se o senhor fosse o presidente do BC, qual seria a taxa ideal de juros?
O Brasil não tem nenhuma razão para ter a maior taxa de juro do mundo. A taxa de equilíbrio é 3%, 3,5%, como é no mundo todo. Com inflação de 5%, poderíamos rodar com 8% nominal. Mas tudo isso é absolutamente irrelevante porque o BC nem tem mecanismo para fazer esse negócio. Então, vamos pensar onde paramos. Paramos por uma questão psicológica. O Lula é o único economista que presta no Brasil porque é o único que está falando a verdade. A intuição dele mostra o seguinte: nós estamos interrompendo o circuito econômico porque, se você não comprar o carro, porque tem medo de ficar desempregado, é certo que você vai ficar desempregado, porque a Volkswagen não faz o carro por medo que não vai ter demanda. E o banqueiro, no final, que pensa que está salvo, ele também vai morrer junto com o sistema.
É como o sr. já comentou que, ao pregar a morte do crédito, os banqueiros acabam se “suicidando”?
Eles se suicidam porque não têm outro remédio. Porque nenhum banco é seguro! E aqui é que vem a segunda crítica à política do BC. Quando ele diz que está dando dinheiro para o Banco do Brasil, para a Caixa Econômica pra fazer isso ou aquilo, está dizendo o quê? Esses bancos são mais seguros. Isso tudo é um equívoco monumental.
Como o sr. mede a expectativa hoje?
O Lula, com todas as críticas… As pessoas ficam furiosas com o Lula. Porque há, na verdade, um preconceito enorme. A vantagem do Lula é não ter um curso superior.
É uma vantagem?
Sim, não é um prejuízo. Senão ele estava igualzinho aos de curso superior aí dizendo “tá tudo perdido!”, “estamos perdidos!”, ” ’sifu’ para todos nós!”. Então, o que acontece? É uma atitude ingênua, mas que corresponde a uma realidade. O fator principal é restabelecer aquilo que é o cimento da sociedade, que é a confiança.
E quanto disso pode se refletir no crescimento do Brasil?
Qualquer número é um chute. A minha convicção é a seguinte: quando o Brasil cresce? Cresce quando cresce mais que o mundo.
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Alberto Tamer – O Estado SP
É Natal, é dia de paz, é dia para ser feliz. Nada de notícias desagradáveis que perturbem a nossa festa familiar. Nada dos números sombrios que povoam a coluna desde outubro.
Mas será mesmo possível ficar tranqüilo com a recessão que fustiga o mundo? Sim. É só olhar para o que ocorre lá fora e o que ocorre aqui, no Brasil.
Nos Estados Unidos, na Europa, no Japão, na Rússia, na Finlândia, em todo o Leste Eurpeu, tudo vai mal. Economias entram em recessão, o comércio entre os países definha, o desemprego aumenta de forma assustadora. Ninguém confia em ninguém porque ninguém sabe o que vai acontecer num futuro que já está aí.
Aqui, sem dúvida alguma, o quadro é outro. E vejam bem que nem usei o advérbio “ainda”, que geralmente levanta restrições.
Sim, estamos indo até bem em meio à tempestade que pressagia furacões selvagens que arrasam as economias mais sólidas.
Quem afirma isso, agora, não é mais o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sempre otimista, ou seus ministros, mas o Banco Central. Sim, o Banco Central realista que conseguiu manter-se isento na onda de afirmações e desmentidos sobre a invulnerabilidade da economia nacional. Ele foi sempre muito severo, sempre disse e agiu como tinha de agir, não mentiu nem uma vez.
Pelo contrário, desdisse a todos no governo que, com suas previsões ligeiras, incluindo as do Lula, classificavam como marola as ondas gigantescas que se formavam lá fora. E agora desdiz, mais uma vez, ao prever um crescimento menor do que o governo projeta para 2009.
Sempre pediu, pregou e agiu com realismo.
Pois é, o Banco Central que está dizendo agora que nossa economia será afetada, sim, vai crescer menos, mas está conseguindo reagir bem. Nós e a China. Ninguém mais.
Nós podemos crescer 2,3%, ao contrário do que afirma o governo, mas os outros beiram crescimento zero.
O relatório do último trimestre do Banco Central não chega a ser otimista, mas afasta qualquer pessimismo prematuro. Não foi um ano festivo, mas não foi também trágico. Tivemos três trimestres bons e estamos tendo um quarto apenas regular. É isso o que dizem os técnicos do Banco Central.
2,2 MILHÕES DE EMPREGOS
Afinal, foram criados no País, 2,2 milhões de empregos até novembro, enquanto nos Estados Unidos estão perdendo quase 2 milhões.
Aqui, foram fechadas 40 mil vagas em novembro. Nos Estados Unidos, foram 550 mil só em um mês.O mercado interno lá e na Europa recua há meses jogando a economia na recessão. Aqui, ainda está aquecido. Sei que comparações como essa não adiantam muito, mas revelam que temos, neste momento, uma economia mais resistente.
Tudo indica que vamos ser menos feridos pela crise que se alastra mundo afora, mas podemos evitar a recessão.
ESPÍRITO DE NATAL? NÃO
Talvez o leitor mais crítico possa achar que estou contaminado pelo espírito de Natal, que vejo tudo sob o olhar das estrelas que iluminam o presépio de Jesus. Sei que encontram, nas entrelinhas, algumas contradições com colunas anteriores, mas estou sendo sincero com vocês.
Nosso Natal será um Natal mais feliz se compararmos com outros que o mundo está vivendo, imerso no desemprego crescente, na recessão. Posso afirmar que está sendo um bom Natal. Há sombras que se aproximam, mas estamos preparados para que não escureçam tanto nosso futuro.
Pode parecer pouco, mas é muito.
FELIZ NATAL, LEITOR AMIGO!
Por isso, leitor, estou tranqüilo ao dizer que há riscos sim, mas estamos bem, muito mesmo se pensarmos como poderíamos estar, se nada tivesse sido feito.
Não vou dizer que estamos bem porque poderíamos estar pior. Não, não.
Estamos bem porque você, leitor, vem sustentando a demanda interna, e você, empresário, investe menos, mas não deixou de investir. Há cautela, sim, mas há confiança também em que, juntos, vamos superar o que pode vir. Confiança em que poderemos enfrentar esta crise e nos sairmos bem.
Por isso, leitor amigo e fiel, que tem me acompanhado nestes 15 anos de coluna pelos caminhos de Londres, Paris, Genebra, Bruxelas, estou tranqüilo ao desejar a você e à sua familia,muita paz e alegria neste Natal em que se renovam a fé e a esperança no nosso futuro, no futuro do Brasil.
Seja Feliz , meu amigo.
Muito feliz.
*E-mail: at@attglobal.net
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Em consonância com estratégias semelhantes adotada pelos governos do Japão e dos países da Europa, de prevenção e reação ao aprofundamento da recessão, o governo Lula anunciou na semana passada um conjunto de medidas de vigência imediata, que se resumem na redução de impostos e na promoção dos investimentos, para evitar o desemprego e estimular o consumo. Outras providências virão se a situação o exigir.
Essa é, provavelmente, a primeira vez na história do Brasil em que medidas preventivas destinadas a sustentar a atividade econômica contemplam diretamente os trabalhadores. Visam à manutenção do poder aquisitivo, por meio da redução do Imposto sobre a Renda, do salário e do emprego, a retomada da produção e o restabelecimento dos fluxos de crédito, sem falar da preservação da rede de proteção social, que atende, entre outros programas, os beneficiários do Bolsa-Família.
O ineditismo da iniciativa não passou despercebido pela grande imprensa e por seus colunistas, em geral inclinados a desqualificar, por preconceito, tudo o que emana do Palácio do Planalto. Desta vez, porém, sem deixar de apequenar o feito tanto quanto possível, chegou-se a admitir num gesto irônico que “o presidente Lula descobriu o crédito como instrumento de ação política”, ou que “parece estar havendo agora mais realismo na equipe econômica”… “caminho pragmático que agora começa a trilhar”.
São, em geral, avaliações que intentam reduzir o programa anti-recessão a uma iniciativa de caráter imediatista e gerencial, que teria sido inspirado ao acaso das circunstâncias politiqueiras, como um súbito lampejo oportunista que se tivesse abatido sobre a cabeça do presidente ou de algum de seus ministros. Como a sugerir que, mesmo de um governo do qual nada se espera, pode ocorrer, como a um relógio parado, que dê a hora certa duas vezes por dia.
Tudo isso para não reconhecer que nada há de improvisação no conjunto de medidas anunciadas. Com tal relutância, não se compreenderão os fundamentos de sua motivação nem o alcance de suas implicações. Sob o risco de manter a sociedade privada de seu significado, não se pode passar por cima de seu aspecto novidadeiro, para interpretá-las como mera extensão do receituário a que esteve sujeita a condução da política econômica em passado recente. O receituário do governo FHC, por diferenças doutrinárias, nada tem de aproveitável nas atuais circunstâncias, ao contrário: só serviria para agravar ainda mais o problema.
A cartilha fundamentalista, que manteve o governo FHC passivo diante da crise social gerada pelo seu programa de estabilização, privaria os seus operadores de enxergar o caminho de saída – a necessidade de intervenção do Estado no estímulo à demanda agregada, à retomada dos investimentos e do emprego. A propósito, certamente não é por acaso que os autores do livro virtual “Como reagir à Crise – Políticas Econômicas para o Brasil”, lançado na semana passada por um grupo de economistas que desenharam e implementaram o programa neoliberal tucano, não dedicam um único capítulo ao impacto da crise sobre o emprego e a renda dos trabalhadores. Entre os autores, o ex-ministro da Economia, Pedro Malan, e o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga. Para assegurar o pleno emprego, diziam eles, bastaria confiar na capacidade do mercado de se auto-regular e de restabelecer espontaneamente a confiança dos investidores. O resultado foram oito anos de estagnação e desemprego, o pior período da história econômica brasileira para os trabalhadores.
O que há de novo no governo Lula é que, assim como os governos do Japão e dos países europeus, ele não se conforma em deixar de lado os instrumentos que lhe são postos à disposição pelo Estado para debelar a crise, em vez de se submeter à passividade gerencial dos fundamentalistas. O livre mercado, deixado a seu suposto automatismo, somente leva a crises recorrentes de acumulação, à concentração da renda e à exclusão social.
O que há de novo, a inspirar a estratégia de resposta à crise, é o restabelecimento da Política na condução dos assuntos do Estado, como instituição capaz de promover a necessária acomodação dos interesses conflitantes, num ambiente democrático de participação e deliberação. Não se trata, pois, de restringir o sentido das medidas a um suposto oportunismo do político Lula – de “ter descoberto o crédito como instrumento de ação política”-, e sim de reconhecer que foi a reinstitucionalização da Política que tornou possível ao governo recorrer ao crédito para estimular a atividade econômica.
Com o restabelecimento da Política em seu papel de pactuar conflitos de interesses, estamos diante de um novo horizonte de valores, construído a partir de uma concepção integral da cidadania, sustentada por sujeitos políticos conscientes, autônomos e ativos. Sob o enfoque da cidadania consagrada nos termos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, cabe ao Estado não apenas assegurar o direito à liberdade individual e à iniciativa privada, mas também prover o acesso aos direitos sociais, o que lhe confere a responsabilidade de desempenhar um papel estratégico no fortalecimento da democracia. Pois, como está inscrito na Constituição Federal e como mostrou o Prêmio Nobel de Economia Amartya Sen, a democracia somente é sustentável se assentada também na realização e defesa dos direitos sociais, ou seja, na eqüidade.
Longe de se constituir em investida oportunista, o conjunto consistente de medidas anti-recessão apresenta-se a nós, do Partido dos Trabalhadores – sem exclusão de demais partidos da base aliada -, e certamente a toda sociedade como uma aplicação natural dos princípios e diretrizes que conformam a dimensão da sustentabilidade.
Em termos elementares, a sustentabilidade é sinônimo de estabilidade, permanência no tempo, duração, reiteração. A estabilidade democrática estará em perigo sempre que o Estado e os governos se omitirem na promoção do bem-estar e da melhoria das condições sociais dos grupos mais vulneráveis. Inversamente, a democracia se fortalecerá sempre que a estratégia de crescimento econômico estiver associada à realização dos direitos sociais e à participação popular. São esses os fundamentos que inspiram a estratégia de resposta à crise – e que nada têm de imediatismo oportunista ou de improvisação.
Como parte da estratégia de desenvolvimento sustentável, que caracteriza o modo petista de governar, são medidas que se orientam pelos princípios da prevenção, precaução, participação, compensação e compromisso com a melhoria contínua, entre outros. A implementação de tal estratégia implica mudança nas relações de poder, como pré-condição e como resultado da incorporação da participação popular nos processos de decisão. É dizer que o propósito que orienta o governo na definição das medidas destinadas a atenuar os efeitos negativos da crise é indissociável de seu compromisso de manutenção do bem-estar social e do fortalecimento da democracia.
Eis a diferença de qualidade, que o preconceito não permite enxergar.
Rui Falcão, 65 anos, advogado e jornalista, é deputado estadual pelo Partido dos Trabalhadores. Foi deputado federal, presidente do PT e secretário de governo na gestão Marta Suplicy.
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Alberto Tamer – O Estado SP
Brasil, Japão e Europa decidiram, na semana que passou, reduzir impostos e aumentar investimentos para evitar o desemprego, estimular o consumo e enfrentar a recessão. Eles, que têm um PIB somado de US$ 18 trilhões, vão gastar US$ 550 bilhões. Somados ao que a China já está aplicando, são mais de US$ 1 trilhão. Faltam apenas os Estados Unidos, onde Bush ainda se enrola na crise financeira e se recusa a estimular a demanda interna, mesmo com o apelo de Obama, ninguém sabe por quê.
Nós, que ainda estamos crescendo e somos pequenos, anunciamos um pouco mais de US$ 2 bilhões no pacote fiscal de quinta-feira. É compreensível. Eles já vinham desacelerando há muito e estão em recessão, que só agora nos ameaça.
Importante é que todos, asiáticos, europeus e emergentes, decidiram passar da fase inicial de socorrer o sistema financeiro para a segunda fase, decisiva: o incentivo à demanda para recuperar a economia. Estão fazendo isso pelo aumento da demanda, que havia recuado por causa da retração do crédito e da reação do consumidor, preocupado com um futuro incerto.
AINDA HÁ TEMPO
Aqui, ainda há ânimo e, pela primeira vez, consciência do perigo; lá, só agora acordaram – discutem o estímulo há meses – e são poucas as esperanças de retomada no curto prazo. Muitos economistas consideram 2009 um ano perdido para europeus e americanos. Nós ainda podemos recuperá-lo com algum crescimento se o governo mantiver a linha agora anunciada de reduzir impostos, realizar obras de resultado rápido sobre o emprego, como as previstas no setor imobiliário, e promover e incentivar financiamentos a custo menor e prazo maior. Pelo pacote anunciado na quinta-feira, este foi o caminho que decidiu seguir. Deixou de lado ilusões de que estamos suficientemente fortes para sair ilesos da recessão que assola a economia mundial. A maior desde a depressão de 1929.
Parece que está havendo agora mais realismo na equipe econômica. Ela rejeitou a tese dos economistas ortodoxos, que pregavam cautela com maiores gastos como medida para sustentar o crescimento, temiam graves problemas cambiais decorrentes de déficits nas contas externas e até mesmo inflação.
O programa anunciado é o sinal de que o governo escolheu o caminho certo: primeiro evitar o pior para depois enfrentar os desafios. Se não evitarmos a recessão, tudo estará perdido.
AGORA, SIM
Lula, que, para não assustar,exagerava com um otimismo que todos sabiam vazio, mudou seu discurso na quinta-feira. Não parecia o mesmo. Surpreendeu com pronunciamento realista que se aproximava do pessimismo. Foi duro, não mediu palavras, após ouvir líderes empresariais em Brasília para saber o que está acontecendo em seus setores e avaliar as proporções da crise. Confirmou o que já se sabia: a situação é por demais séria para esperar antes de agir.
“Logo no inicio do ano teremos uma paradeira e possibilidade de demissão”, afirmou. No seu estilo, disse que “se a gente permitir que a economia pare, estamos desgraçados”. Anunciou a redução de impostos para empresas e contribuintes. Foi mais longe: “Acho que a gente deveria zerar os impostos sobre investimentos, mesmo que seja temporário. Em época de crise, não vamos agir como se as coisas estivessem normais.” Ou seja, temos uma crise grave,vamos cortar impostos, estimular investimentos, financiar a demanda, tudo isso ainda neste ano. E ele espera que o Banco Central reduza os juros. Resumindo: estamos mal e o governo não pretende deixar piorar.
PACOTE GERA CONFIANÇA
O pacote fiscal foi bem recebido pelos economistas. Alguns falavam que ainda havia necessidade de restabelecer a confiança do consumidor. Acho que não entenderam. Afinal, esse é um dos méritos das medidas: mostrar aos assalariados que o governo vai cobrar menos impostos – caso único, acredito, na história do Brasil, e isso de quem lutou ferreamente pela CPMF; que vai fixar regras para levar o sistema financeiro a oferecer mais crédito com juro menor e prazo maior; que o pacote será ampliado ainda neste ano, com mais desoneração tributária sobre bens de consumo. Dessa vez não são apenas palavras e promessas que circularam em Brasília por tantos meses. São fatos. As medidas entram em vigor em duas semanas e meia, 1º de janeiro. Temos de admitir que nunca se viu nada como isso antes, talvez porque também antes nunca enfrentamos uma crise como esta.
ESTÁ CERTO, MAS É O COMEÇO
Vai dar certo? Tudo indica que sim, desde que o governo persista nesse caminho pragmático que agora começa a trilhar. O pacote oferece muito, se for aplicado rigidamente, sem desvios, sem atrasos, e seguido por outras medidas, todas no mesmo sentido. Proporciona maior poder aquisitivo por meio de menos imposto sobre a renda e o salário; maior garantia de emprego, com a retomada da produção; mais crédito, com o retorno da liquidez do sistema.
E ele traz a esperança de que, se for executado à risca e em tempo, poderemos evitar a recessão e sofrer menos com a desaceleração econômica. Mas ninguém se iluda: é apenas o o início de um longo caminho no ano que se inicia. Agora, vamos confiar e esquecer este 2008 que não termina nunca…
*E-mail: at@attglobal.net
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Governo corta imposto de veículos novos para estimular vendas
Edna Simão e Vicente Nunes – Correio Braziliense
A indústria automobilística, que vinha crescendo a um ritmo impressionante de 30% ao ano até o estouro da crise internacional, pediu ajuda e o governo atendeu. A partir de hoje, todos os carros zero com motores de até 2 mil cilindradas (2.0) pagarão 50% menos de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). A medida, segundo o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem como objetivo estimular a demanda por automóveis e evitar um brusca desaceleração da economia brasileira em 2009.
A expectativa é de que os preços dos veículos caiam pelo menos 7%, reduzindo os estoques que lotam os pátios da montadoras. Um Ford Fiesta 1.0, por exemplo, negociado a R$ 32.900 passará a ser vendido por R$ 30.597 — uma economia de R$ 2.303. Nos cálculos de Mantega, a medida, que vigorará até 31 de março de 2009, reduzirá em R$ 1 bilhão a arrecadação de impostos. Mas isso não preocupa. A avaliação que prevaleceu dentro do governo foi a de que o consumo aquecido será mais do que suficiente para compensar a perda de receitas. “Esperamos que a diminuição de tributos estimule a economia e aumente a demanda. O perigo é não tomar medidas e deixar o nível de atividade cair”, afirmou Mantega.
O pacote de bondades do governo favorece, principalmente, os consumidores de carros populares. O IPI de 7% que incidia sobre os veículos 1.0 foi zerado. Nos automóveis a gasolina com motores até 2.0, a alíquota baixou de 13% para 6,5% e, nos movidos a álcool ou com sistema de combustível flex, o tributo caiu de 11% para 5%. O governo também favoreceu os utilitários. Nas caminhonetes até 1.0, o IPI recuou de 8% para 1%. “A escassez de crédito fez as nossas vendas desabarem e os estoques aumentarem de forma muito rápida”, disse o vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes dos Veículos Automotores (Anfavea) e diretor da Fiat, Antonio Sérgio Martins Mello.
O setor automobilístico é altamente dependente de crédito. Mais de 80% das vendas são feitas por meio de financiamento. Desde outubro, porém, as montadoras e as revendedoras passaram do céu para o inferno, com a venda despencando de uma média de 12 mil veículos por dia para 7 mil/dia. Atualmente, existem mais de 300 mil carros nos parques industriais e o setor já ameaça promover uma onda de demissões. “A decisão de reduzir o IPI para estimular a venda de veículos era necessária, porque a indústria automobilística tem peso relevante no desempenho da economia como um todo, por contar com uma longa cadeia produtiva”, disse o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge.
Ele admitiu, no entanto, que o governo não impôs condições para a concessão dos benefícios, como a garantia de empregos pleiteada pelas centrais sindicais. Nesta semana, representantes dos trabalhadores disseram que continuariam pressionando o governo para que as empresas que estão recebendo ajuda do governo assumam o compromisso de não demitir. “Emprego não é contrapartida. Há um esforço das montadoras para manter o nível do emprego. Mas não há um compromisso firmado nesse sentido”, ressaltou Jorge.
O ministro do Desenvolvimento frisou, porém, que o governo vai acompanhar se a queda do IPI será repassada ao consumidor. Se, por acaso, esse compromisso não for cumprido, as montadoras serão convocadas a dar explicações. “É muito fácil verificar se a redução do IPI está sendo repassada”, assegurou. Mas tal afirmação é vista com desconfiança. Em outros momentos, iniciativas como essa foram adotadas para incentivar as vendas. Contudo, os benefícios ficaram concentrados nos caixas das montadoras.
Segundo o presidente da Anfavea, Jackson Schneider, que participou do encontro de empresários com o presidente Lula, o setor já começa a registrar recuperação das vendas, ainda que o crédito esteja mais caro e o prazo de pagamento, mais curto. Ele destacou ainda que 2008 foi um ano de recordes — de produção e de vendas no mercado interno.
É muito fácil verificar se a redução do IPI está sendo repassada
Miguel Jorge, Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio
Medidas bem recebidas
Luciana Navarro da equipe do Correio
Espera-se que as mudanças anunciadas pelo governo resolvam o drama de montadoras e concessionárias que acumulam carros nos pátios. Mas enquanto isso não surte efeito, as previsões são pessimistas. A Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) refez as previsões para 2009 e aposta em queda de 19% nas vendas em relação a 2008. As estimativas feitas no começo deste ano eram de 20% de expansão. “As medidas são bem-vindas e podem interromper a queda, mas ainda é preciso analisá-las e ver como será o processo de recuperação”, disse o presidente da Fenabrave, Sérgio Reze.
Para o vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e diretor da Fiat, Antonio Sérgio Martins Mello, a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), mesmo que temporária (valerá até 31 de março), é bem-vinda, pois os estoques de carros nos pátios das montadoras estão elevadíssimos. Apesar do socorro do governo, Mello destacou que as empresas automobilísticas não assumiram nenhum compromisso com a manutenção de empregos. “Não houve garantias nesse sentido. O que firmamos foi um compromisso de fazer um esforço para não haver demissões. Só isso”, destacou.
Tags: Anfavea, automóveis, carros, consumo, crédito, crise, demanda, demissões, desaceleração, emprego, empresas, impostos, Indústria, Internacional, IPI, Lula, mantega, Mercados, montadoras, preços, produção, trabalhadores, Tributos, veículos
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Alberto Tamer* – O Estado SP
O excelente crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre, surpreendentes 6,8%,mostra que o Brasil armazenou força para enfrentar a crise que só ganhou proporções inesperadas a partir de outubro. Ele nós dá mais espaço para nos prepararmos diante de tudo que ainda está por vir.
Pode parecer contraditório, mas esse mesmo resultado nos deve levar a ficar mais alerta, mesmo porque não incorpora os assustadores acontecimentos dos últimos dois meses, que levaram a economia mundial à recessão.
Se há razão para comemorar, há mais ainda para preocupar. Estranho, mas é assim. Tudo piorou lá fora, faltam recursos para nos financiar e mercado. Nada de projeções fáceis, pois há ainda uma enorme carga negativa a carregar e é no mínimo ingênuo acreditar que a economia mundial vai recuperar-se nos próximos meses.
GOVERNO REALISTA
Nesse sentido, a reação da equipe econômica do governo foi realista. Não houve festas, além dos discursos populares do presidente que, na verdade, significam pouco. A economia crescerá 5%, neste ano, mas essa taxa não se repetirá no último trimestre do ano e muito menos em 2009.
Bem mais importante, o governo prepara-se para aprovar e anunciar, a qualquer momento, um pacote de medidas de redução de impostos para estimular a produção industrial, o comércio e a demanda. Essa redução abrangeria o Imposto de Renda das classes média e menos favorecidas, porque são as que ainda podem consumir mais, e de impostos sobre produtos industrializados, reduzindo seus preços.
ARRECADAÇÃO MENOR? NÃO.
Isso mostra que a equipe econômica decidiu antecipar-se ao que virá e a aprovar as medidas que tardavam. Sei que haverá sempre o argumento de que corte de imposto significa menor arrecadação – e o governo vai precisar de mais dinheiro para investir. Mas não é bem assim; seguramente essa queda da arrecadação será bem maior se a economia afundar na recessão. O certo é perder agora um pouco para não ter que perder muito mais depois. Aí, sim, a recessão seria inevitável.
Sem esse realismo, sem a concretização antecipada de medidas que visem criar produção, emprego e demanda, decididamente,não poderemos evitar que a onda recessiva que invade o mundo no derrube. Tudo o que incentive a produção, a criação de emprego, a renda e a demanda é urgente hoje.
6,8% AJUDAM INVESTIMENTOS
Esse crescimento do PIB tem um significado externo ainda pouco ressaltado; ele pode atrair mais investimentos num mundo em que todas as economias recuam. Neste cenário desolador, o Brasil surge, pelo menos por enquanto, como uma oportunidade para as empresas estrangeiras que vêem aqui um mercado interno em expansão. Isso explica a entrada constante de investimento externo que escasseia em outros países. É verdade que isso provavelmente não se repetirá em 2009, pois muitas das empresas visavam também a exportar para um mercado que desacelera e se contrai em 2,5%, de acordo com previsão do Banco Mundial. Ao mesmo tempo, não poderemos manter em 2009 o mesmo ritmo de expansão do mercado interno.
INVESTIMENTOS VITAIS
E é aqui que deveria entrar o governo com um novo plano, um novo pacote de projetos para atrair esses investimentos que tendem a escassear à medida que a recessão se aprofunda e o mercado financeiro luta para sobreviver.
O governo sabe que o Brasil está precisando urgentemente desses investimentos não só para animar a economia, mas para atrair dólares. São dólares simplesmente vitais neste momento em que nossas reservas cambiais começam a ser pressionadas para socorrer a economia e enfrentar a falta de liquidez externa.
SEM PIB, SEM INVESTIMENTO
Este é um desdobramento importante do PIB de 6,8%. Luis Afonso Fernandes Lima, presidente da Sobeet, entidade que congrega as transacionais no Brasil – na verdade as grandes investidoras externas -, afirma à coluna que “o crescimento é fator-chave na atração de investimentos diretos”.
“Não foi por acaso que só até outubro os investimentos estrangeiros diretos (IED) chegam a US$ 34,7 bilhões. Trata-se do maior valor nos primeiros três trimestres do ano em toda a série histórica do Banco Central, iniciada em 1947. Até o mês de outubro, já ultrapassamos o recorde do ano inteiro de 2007, de US$ 34,6 bilhões.” Mas não é só. “No ano todo de 2008 o investimento direto poderá atingir US$ 40 bilhões.” Um resultado que só se explica por esse crescimento de 6,8% do PIB.
“O que mais surpreende nesse resultado excelente é que ocorre em meio ao aumento da aversão global ao risco e à intensificação do ajuste global de liquidez, uma forte contração dos fluxos globais de capitais.”
De acordo com a OCDE, de países que respondem por 86% do IED no mundo, os investimentos diretos mundiais devem retrair-se em 37% neste ano,em relação a 2007. O Brasil está hoje apenas atrás da China, Hong Kong e Rússia entre os países emergentes que receberam esses investimentos em 2007.
Luis Afonso Lima prevê que a situação pode se reverter,com a queda dos preços das commodities e a desaceleração econômica mundial.
Daí a importância de o governo associar, em 2009, os incentivos à demanda interna à execução de projetos que mantenham vivo esse interesse excepcional dos investidores externos pelo Brasil.
O Brasil não estará imune. E justamente em um momento de deterioração do seu saldo em transações correntes. Hoje, 57% desses investimentos se voltam para o mercado externo, para “bens exportáveis”.
*E mail: at@attglobal.net
Tags: arrecadação, Bancos, commodities, Crescimento, crise, demanda, dinheiro, emergentes, emprego, IED, impostos, investimentos, Mercados, OCDE, PIB, produção, recessão, Renda, Reservas
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Rua 25 de março, em São Paulo

Ana Paula Grabois, do Rio – VALOR
O consumo das famílias subiu pela vigésima vez seguida no terceiro trimestre e atingiu nível igual ao maior já registrado na série do IBGE, de 7,3%, fortalecido pela massa salarial em alta e pelo crédito. “A massa salarial aumentou e afeta diretamente o consumo das famílias. Isso afeta o desempenho do PIB porque o consumo das famílias corresponde a pouco mais de 60% do PIB”, disse a gerente das Contas Trimestrais do IBGE, Rebeca Palis.
Na avaliação de economistas ouvidos pelo Valor, esse consumo deve sustentar o PIB de 2009. Se os investimentos devem diminuir sensivelmente pelo menos até o fim do primeiro semestre, o consumo de bens não duráveis e semi-duráveis, como alimentos, vestuário e remédios, ditará o crescimento da economia, ainda que em ritmo menor que o de 2008.
As projeções para a alta do PIB ano que vem giram em torno de 2% a 3%. “O que vai segurar a economia em 2009 serão os bens básicos”, disse o economista-chefe da MB Associados, Sérgio Vale. Os bens duráveis, como automóveis e eletrodomésticos, devem ter queda de vendas por conta do receio do consumidor de se endividar sem ter segurança da manutenção do emprego, avalia Vale.
Bráulio Borges, economista-chefe da LCA Consultores, lembra que a massa salarial continuará reforçada pelo aumento real do salário mínimo no ano que vem, indexado ao PIB de 2007, de 5,7%. O mercado de trabalho, ainda que piore, não deve cortar vagas e sim reduzir o nível de contratações visto em 2007 e 2008. “O consumo das famílias vai segurar a economia e o reajuste do salário vai ser muito importante, principalmente no Norte e no Nordeste. E ainda tem as aposentadorias do INSS atreladas ao reajuste do salário mínimo. 2009 vai ser o ano do consumo básico, de bens essenciais e de mais baratos”, avalia.
O consumo do governo, que no terceiro trimestre acelerou-se para uma taxa de 6,4%, também deve contribuir de forma significativa para a manutenção do crescimento da economia em 2009, de acordo com os economistas da MB e da LCA. Sérgio Vale projeta para o próximo ano uma expansão de 4% do consumo, superior à sua expectativa para o PIB, de 2,8%. Para Bráulio Borges, o resultado do terceiro trimestre surpreendeu. “No primeiro trimestre se imaginava que o crescimento forte era por causa do calendário eleitoral, que impedia o comprometimento do Orçamento após o meio do ano. Mas as despesas de Estados e municípios seguiu acelerada e há sinais de que o governo continuará ajudando a aumentar a demanda agregada”, avaliou. Conforme o IBGE, o desempenho no trimestre passado foi influenciado também pelo aumento de obras públicas, entre as quais as do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Do lado da oferta, a produção industrial se mantém como principal fonte de preocupação para o próximo ano. A MB estima para 2009 um crescimento da indústria de 2,4%, menos da metade da variação estimada para este ano (5,5%). Para o quarto trimestre deste ano, a produção industrial deve crescer 1,5% em comparação com igual intervalo de 2007; no terceiro trimestre, o aumento foi de 5,9%. “O crescimento com ajuste sazonal que foi de 0,8% no terceiro, vai se reverter em queda no quarto trimestre”, disse Vale. A LCA projeta queda de 1% em relação ao terceiro trimestre, e aumento de 3% sobre o quarto trimestre do ano passado.
Outro setor que deve sentir de forma forte o efeito da crise é o setor extrativo mineral, por conta da redução no ritmo de extração de minério e petróleo pela Vale e a Petrobras, diz o economista-chefe da MB. Ele estima que no quarto trimestre o setor crescerá 2,2%, após 7,8% no terceiro trimestre. Para 2009 a projeção é de 2,5%, ante 4,8% no ano fechado de 2008.
A área de serviços de intermediação financeira, que no terceiro trimestre cresceu 8,8%, também deve registrar desaceleração considerável, para 1,8% no último trimestre, também sob efeito da crise externa. Fernando Montero, economista-chefe da Convenção Corretora, prevê para o quarto trimestre um crescimento maior, de 5,7%. Ele ponderou que esse setor é influenciado pelo “momentum” e pode apresentar recuperação em 2009 com a retomada da concessão de financiamentos pelas instituições bancárias, caso os sinais de até onde a crise internacional pode chegar se tornem mais claros. (Colaborou CB)
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