Além de vitória de Obama, pesquisas apontam grande vitória na Câmara e maioria à prova de oposição no Senado
Marília Martins Correspondente O Globo
NOVA YORK. A contar pelas pesquisas, a noite de 4 de novembro pode ser a maior festa do Partido Democrata nos últimos 30 anos. Tanto assim que muitos republicanos já fazem campanha alertando os eleitores sobre o perigo de se ter um só partido no poder. O alerta leva em conta não só uma vitória de Barack Obama, mas também a conquista de uma grande maioria democrata no Congresso, o que, segundo eles, deixaria o presidente sem uma oposição efetiva, como ocorreu na tripla vitória democrata em 1976.
O Senado tem hoje 49 republicanos, 49 democratas e dois políticos independentes que votam com os democratas. Já na Câmara dos Representantes, a maioria é mais confortável: são 235 democratas e 199 republicanos.
No Senado, das cem cadeiras, 35 estão em disputa. Destas, 23 são controladas por republicanos.
Segundo as sondagens, os democratas são favoritos para tomar sete vagas atualmente republicanas, tendo boas chances em outras três disputas.
— É difícil, mas o vento está a nosso favor. Não posso prometer mais oito senadores democratas, mas vou ficar muito animado se conseguirmos chegar a 57. Não temos maioria assim desde 1979 — avaliou o senador Chuck Schumer, coordenador da campanha para o Senado.
Partido de Obama pode atingir 60 cadeiras no Senado Em três estados — Colorado, Novo México e Virgínia — a conquista de vagas republicanas por democratas é considerada certa. Em outros quatro (Alasca, C a r o l i n a d o N o r t e , N e w Hampshire e Oregon), colegas de Obama são favoritos.
Caso vença estas sete eleições, o Partido Democrata passaria a ter 56 senadores. Somando os dois independentes normalmente aliados, o número subiria para 58. Um destes dois senadores, no entanto, é Joe Lieberman, candidato a vice de Al Gore em 2000, mas que agora apóia John McCain.
Isso torna as eleições em três estados ainda mais decisivas.
Em Minnesota, Geórgia e Kentucky o final da corrida eleitoral é considerado imprevisível. No caso de vitórias em dois destes estados, a legenda atingiria o “mágico” número 60, contando com uma volta de Lieberman.
Segundo as regras, um conjunto de 41 senadores pode, na prática, bloquear qualquer votação.
A manobra é chamada de filibuster.
Antes de um projeto ser votado, a discussão parlamentar deve ser oficialmente encerrada.
Uma minoria de pelo menos 41 senadores pode votar por “continuar debatendo” o projeto, e isso pode continuar indefinidamente, impedindo a votação. Só este ano, os republicanos já fizeram isso 95 vezes.
Na Câmara dos Representantes, que será completamente “renovada” (as eleições nos EUA ocorrem a cada dois anos), os democratas também tendem a conquistar uma maioria ainda maior. Na tradição política americana, o atual congressista tem imensa vantagem sobre seu concorrente.
O partido de Obama não apenas deve manter praticamente todas as suas cadeiras, como pode tomar dos republicanos até 12 vagas de deputado.
Líder republicano no Senado pode perder eleição Além de amargar uma ampla derrota, os republicanos correm o risco de perder alguns de seus representantes mais ativos no Congresso.
No Alasca, estado da candidata a vice Sarah Palin, o senador Ted Stevens pode perder a vaga para o prefeito de Anchorage, Mark Begich. Stevens é o senador republicano há mais tempo no Capitólio, tendo 40 anos de Washington. Mas esta semana ele foi condenado por corrupção e falsidade ideológica. Mesmo que seja eleito ele poderá ser expulso do Senado.
John Sununu, o atuante senador de New Hampshire, também está atrás da ex-governadora Jeanne Shaheem nas pesquisas.
Mas o caso mais alarmante para o partido é o de Mitch McConnell, do Kentucky. Ele é o líder da legenda no Senado e enfrenta uma dura disputa com o milionário Bruce Lunsford.
— Uma vitória democrata no Congresso levaria a impostos elevados, renegociação unilateral de tratados comerciais e a ameaças à segurança nacional — alertou McCain, ontem.
Qualquer que seja o resultado, porém, o maior desafio do próximo Congresso será abrir espaço para mudanças políticas com um orçamento já comprometido, um déficit federal de cerca de US$ 1 trilhão, e em meio à crise econômica. Por isto, já se comenta que, mesmo com vitória esmagadora dos democratas, haverá um período de difíceis negociações entre o novo presidente e o Legislativo, já que há muitas divisões internas.
Muitos analistas acreditam que a maioria democrata vai ser um amálgama de três grupos. O primeiro deles é o dos “esquerdistas clássicos”, apoiados pelas centrais sindicais, que defendem a regulação do mercado, protecionismo e ressalvas nos tratados de livre comércio. A segunda facção é a dos “blue dogs”, conservadores quando o tema é equilíbrio fiscal. Um dos líderes dessa bancada é Mike Ross, de Arkansas, que estima que o grupo vai passar de 49 para 61 na Câmara. O terceiro grupo é o dos “pragmáticos”, que inclui boa parte da liderança do partido que prioriza realizar o programa do partido nas áreas de saúde e energia.