17/08/2008 - 14:30h Café: de vilão da saúde a herói do bem-estar

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Análise internacional dos estudos já publicados absolve completamente a cafeína das acusações de fazer mal

Antônio Marinho - O Globo

O café é uma das bebidas mais consumidas no mundo. Consumidores, entretanto, se mostram preocupados com os efeitos da bebida sobre a saúde, especialmente porque estudos contraditórios sobre benefícios e riscos da substância são publicados a cada mês. Agora, o Centro para Ciências de Interesse Público dos EUA fez uma extensa revisão dos mais importantes estudos divulgados. A cafeína foi absolvida, de acordo com uma reportagem publicada pelo jornal “New York Times”. Abaixo, os principais pontos da análise:

HIDRATAÇÃO: Bebidas com cafeína sempre foram apontadas como diuréticas. Mas estudos recentes sustentam que o consumo de até 550 miligramas de cafeína não produz mais urina do que o consumo equivalente de outra bebida.
Somente acima desse valor, a substância é diurética.

PROBLEMAS CARDÍACOS: Pacientes cardíacos, sobretudo os que apresentam pressão alta, são normalmente orientados a evitar o café, um conhecido estimulante.
Mas uma análise feita a partir de dez estudos, reunindo, ao todo, 400 mil pessoas, não constatou aumento de problemas cardíacos entre os que tomavam café diariamente — com ou sem cafeína.

HIPERTENSÃO: O café provoca um leve e temporário aumento da pressão sangüínea.
Mas estudos feitos com 155 mil pessoas que tomavam café diariamente ao longo de dez anos não revelaram uma maior propensão ao desenvolvimento de hipertensão.

CÂNCER: Uma revisão internacional, reunindo 66 estudos sobre a relação entre câncer e consumo de café, foi feita no ano passado. Os cientistas concluíram que o consumo de café tinha pouco ou nenhum efeito sobre o risco de desenvolver câncer de pâncreas ou rins. Outro estudo, com 59 mil mulheres, não encontrou relação alguma entre o consumo de cafeína e o câncer de mama.

PERDA ÓSSEA: Embora alguns estudos tenham relacionado o consumo de cafeína com perda óssea e fraturas, análises fisiológicas revelaram uma redução muito leve na absorção de cálcio. Os efeitos observados poderiam estar relacionados ao baixo consumo de leite e derivados. A análise revela que a redução na absorção do cálcio seria compensada com duas colheres de leite.

PERDA DE PESO: Apesar de a cafeína acelerar o metabolismo — 100 miligramas queimariam de 75 a 100 calorias extras por dia — nenhum outro efeito de controle de peso a longo prazo foi comprovado.
Estudo com 58 mil pessoas acompanhadas por 12 anos mostrou que elas, na verdade ganharam peso, embora os médicos não saibam explicar a aparente contradição.

BENEFÍCIOS À SAÚDE: Provavelmente, o mais importante efeito da cafeína é sua capacidade de melhorar o humor e a performance física e mental. O consumo de 200 miligramas (o volume contido em cerca de 30 mililitros de café comum) acentua a sensação de bem-estar e deixa a pessoa mais alerta e sociável, segundo relatos de consumidores. Volumes muito altos podem gerar ansiedade.
Estudos recentes mostraram ainda uma redução de 30% no risco de desenvolver Parkinson e de 28% para diabetes do tipo 2.

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Fruto é rico em minerais e antioxidantes
Crianças que tomam café têm melhor rendimento em sala

Antônio Marinho - O Globo
O café, puro ou misturado ao leite, é um dos melhores alimentos para se manter saudável, segundo o cientista brasileiro Darcy Roberto Lima, um dos maiores pesquisadores do assunto. Ele diz que além de cafeína, um estimulante natural, a infusão do fruto tem pelo menos cinco compostos altamente benéficos ao organismo humano.

Segundo o médico, o café é rico em vitamina B3 (a niacina, que participa na síntese de hormônios e é essencial para o crescimento) e ácido clorogênico, importante antioxidante ainda mais potente que o reverastrol, encontrado nas uvas. O fruto ou a bebida oferece também boa quantidade de potássio, ferro e zinco.

— Recomendo até quatro xícaras de café ao dia. A bebida contém mais minerais que produtos isotônicos artificiais e águas minerais. Além disso, o aroma do café — um dos mais fortes — tem importante função na melhora do humor e na sensação de bem-estar — diz o professor de neurologia na UFRJ, autor de seis livros sobre o fruto e coordenador científico do site “Café e Saúde”: http://www.cafeesaude.com.br.

Estudo quer recuperar aroma natural Seja qual for a forma de preparo do café, quente ou gelado, ele é benéfico para a saúde, segundo Darcy, que faz parte do Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café, coordenado pela Embrapa Café: — Estamos fazendo estudos com o acréscimo de café com leite na merenda escolar de alunos. Há evidências de que esta bebida ajuda a melhorar o rendimento e atenção em sala de aula.

Pesquisas epidemiológicas indicam que o consumo regular de três a quatro xícaras ao dia, teria efeito profilático na depressão (e até no suicídio) e no consumo de álcool, de acordo com cientistas.

— Há pesquisas em instituições como os Alcoólicos Anônimos mostrando que dependentes químicos que tomam café apresentam menos recaídas — conta Darcy, lembrando que o consumo em excesso é prejudicial, assim como o de qualquer outro produto, especialmente por pessoas com com arritmias, hipertensão arterial, úlcera, síndrome do pânico, entre outros distúrbios.

A Embrapa Agroindústria de Alimentos, em parceria com a Coppe (UFRJ) e o Consórcio Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento do Café, está desenvolvendo estudo para recuperar a essência natural do aroma de café, que se perde no processo produtivo. Ela é livre de solventes e aditivos, e poderá ser usada na indústria de alimentos, na melhora da qualidade do café solúvel, e na produção de cosméticos.

10/08/2008 - 10:51h Virar à esquerda para crescer

*JOSEPH E. STIGLITZ - O Globo

A imagem “http://www.themorningsidepost.com/images/2007/09/27/stiglitz.jpg” contém erros e não pode ser exibida.Tanto a esquerda como a direita dizem defender o crescimento econômico. Então, para os eleitores, trata-se apenas de escolher entre equipes gerenciais alternativas? Quem dera fosse tão fácil. Parte do problema se refere ao papel da sorte. A economia americana, nos anos 90, foi abençoada por baixos preços da energia, alta taxa de inovação e uma China a oferecer cada vez mais produtos de boa qualidade a preços decrescentes, tudo combinando para resultar em inflação baixa e rápido crescimento.

O presidente Clinton e o então presidente do Fed (banco central), Alan Greenspan, merecem pouco crédito por isso — embora, a bem da verdade, tenham evitado políticas que pusessem tudo a perder. Em contraste, os problemas que enfrentamos hoje — altos preços de energia e alimentos e um sistema financeiro a desmoronar — foram, em grande parte, causados por políticas erradas.

Há grandes diferenças entre estratégias de crescimento, o que torna altamente prováveis resultados também diferentes. A primeira se refere à forma em que o crescimento é concebido.

Ele não é apenas a ampliação do Produto Interno Bruto. Precisa ser sustentável: crescimento com degradação ambiental, com consumo baseado em endividamento ou exploração de recursos naturais escassos, sem reinvestimento dos rendimentos, não é sustentável.

O crescimento deve ser inclusivo; pelo menos a maioria dos cidadãos deve ser beneficiada. Truques econômicos não funcionam: um aumento do PIB pode até piorar a situação da maioria dos cidadãos. O crescimento recente dos EUA não foi nem economicamente sustentável nem inclusivo. A maioria dos americanos está pior hoje do que há sete anos.

Mas não há um compromisso entre desigualdade e crescimento.

Os governos podem estimular o crescimento via aumento da inclusão.

O maior recurso de um país é seu povo.

É essencial assegurar que todos possam desenvolver seu potencial, o que requer oportunidades educacionais para todos.

Uma economia moderna requer também assumir riscos.

As pessoas ficam mais propensas a assumir riscos se houver uma boa rede de proteção. Se não houver, elas podem pedir proteção contra a competição estrangeira. Proteção social é mais eficiente que protecionismo.

Fracasso na promoção da solidariedade social pode ter outros custos, entre os quais os necessários para proteger a propriedade privada e manter encarcerados os criminosos.

Estima-se que, dentro de poucos anos, os EUA terão mais gente trabalhando em segurança do que em educação.

Um ano na prisão pode custar mais do que um ano em Harvard. O custo de manter encarcerados 2 milhões de americanos — uma das maiores taxas do mundo — deve ser subtraído do PIB, ao invés de adicionado.

Uma segunda grande diferença entre esquerda e direita diz respeito ao papel do Estado no desenvolvimento.

A esquerda entende ser vital que o Estado proveja infra-estrutura e educação, desenvolva tecnologia e até mesmo atue como empreendedor.

O governo assentou as bases da internet e da moderna revolução da biotecnologia. No século XIX, a pesquisa em universidades que recebiam apoio governamental possibilitou a revolução na agricultura.

O governo levou os avanços a milhões de fazendeiros americanos. Empréstimos para pequenos negócios foram cruciais na criação de novos negócios e também de novas indústrias.

A diferença final pode parecer estranha: a esquerda agora entende o mercado e o papel que ele pode e deve ter na economia. A direita, especialmente nos EUA, não. A nova direita, tipificada pela administração Bush-Cheney, é realmente o velho corporativismo em disfarce novo. Ela acredita num Estado forte, com poderes executivos robustos, usados em defesa de interesses estabelecidos e com pouca atenção aos princípios do mercado. A lista de exemplos é longa e inclui subsídios para grandes fazendeiros, tarifas para proteger a indústria siderúrgica e, mais recentemente, megaoperações de salvamento de Bear Sterns, Fannie Mae e Freddie Mac. Mas a inconsistência entre retórica e realidade vem de longe: o protecionismo cresceu nos anos Reagan, inclusive com a imposição da chamada restrição voluntária das exportações de carros japoneses.

Em contraste, a nova esquerda está tentando fazer o mercado funcionar.

Mercados livres não funcionam adequadamente por si mesmos — uma conclusão corroborada pela atual debacle financeira. Defensores do mercado algumas vezes admitem que eles falham, até desastrosamente, mas alegam que têm a propriedade de se autocorrigirem. Durante a Grande Depressão, argumentos similares foram ouvidos: o governo não tem de fazer coisa alguma porque o mercado restabeleceria o pleno emprego a longo prazo. Mas, como John Maynard Keynes disse, a longo prazo todos estaremos mortos.

O mercado não é autocorretivo num período de tempo relevante. Nenhum governo pode ficar sentado assistindo a um país cair na recessão ou na depressão, mesmo quando causadas por excesso de gula de banqueiros ou por avaliação equivocada do risco pelo mercado financeiro ou por agências de classificação. Mas, se são os governos que vão pagar a conta da economia no hospital, devem fazer de tudo para tornar menos provável a internação.

O mantra da direita sobre desregulamentação dos mercados estava errado, e agora pagamos o preço.

Que, em termos de perda de produção, será alto — talvez mais de US$ 1,5 trilhão apenas nos EUA.

A direita costuma alegar seu parentesco com Adam Smith, mas enquanto Smith reconhecia o poder do mercado, reconhecia também suas limitações.

Mesmo em sua época, empresários descobriram que podiam elevar mais facilmente os lucros conspirando para aumentar preços do que produzindo de forma mais eficiente mercadorias inovativas. Poderosas leis antitruste são necessárias.

É fácil dar uma festa. Por uns momentos, todo mundo pode sentir-se bem. Já promover o crescimento sustentável é muito mais difícil. Hoje, em contraste com a direita, a esquerda tem uma agenda coerente — que não oferece só mais crescimento, mas também justiça social. Para os eleitores, deveria ser uma fácil escolha.

*JOSEPH E. STIGLITZ é economista e foi Prêmio Nobel de Economia em 2001

18/07/2008 - 09:54h De volta a 1929

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS - FOLHA SP

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O dinheiro público tem que ser mobilizado para evitar o pior; a ação fiscal para lidar com a crise de hipotecas já vem tarde

TENHO ACOMPANHADO de perto a crise bancária norte-americana e as discussões sobre o acerto ou não das ações tomadas até agora pelas autoridades responsáveis. As atenções estiveram centradas no Fed, principalmente depois do recente resgate do banco de investimentos Bear Stearns. O segmento ultraliberal dos formadores de opinião não poupou adjetivos para condenar essa operação. Mesmo entre membros do governo Bush, foram muitas as críticas azedas contra essa aplicação do dinheiro público. Um jornalista importante do “Financial Times” chegou a decretar o fim do liberalismo e, em seguida, quase tomou uma forte dose de cicuta.
Nesta última semana, mais um evento obrigou o governo americano a propor o resgate bilionário de duas instituições semipúblicas -Fannie Mae e Freddie Mac- e que estavam sendo vítimas de especulações violentas no mercado acionário de Wall Street. Duas novidades devem ser mencionadas nesse novo caso: a primeira é que a proposta veio agora da própria Casa Branca; a segunda é que as cifras envolvidas estão na casa dos trilhões de dólares, e não mais na dos bilhões, como na crise do Bear Stearns.
Esse movimento do executivo foi importante na medida em que tirou do isolamento o presidente do Fed, responsável direto e quase solitário pela decisão de resgate daquele banco. O secretário do Tesouro havia dado declarações ambíguas sobre o comportamento de Ben Bernanke.
Agora, pressionado pelo tamanho das duas instituições federais de refinanciamento de hipotecas, ele foi obrigado a assumir a proposta de injeção de dinheiro público para salvá-las de um colapso iminente.
Essa medida também foi recebida com violentas críticas pelos mesmos defensores extremados do liberalismo, inclusive vários senadores da linha dura do Partido Republicano.
Para esses, o único caminho possível para punir os irresponsáveis seria o da perda total dos recursos investidos. Mesmo que para isso fosse necessário arrastar o mundo todo para a depressão econômica. Esquecem esses senadores, entretanto, que, entre os investidores nos papéis emitidos por essas empresas, estão países como a China e os grandes produtores de petróleo do Oriente Médio. As estatísticas oficiais mostram que mais de US$ 1,2 trilhão das reservas externas desses países está investido em títulos das chamadas agências federais, como a Fannie Mae e a Freddie Mac. O que aconteceria aos norte-americanos, inclusive aqueles que esses políticos ultraliberais pretendem defender, se houvesse a falência dessas empresas e uma fuga do dólar como moeda de reserva?
Mais uma vez voltamos a discutir temas que sinceramente pensava terem sido esclarecidos pelas quebras de instituições financeiras em 1929/ 1933. Mas a semente do liberalismo religioso ainda está bem presente entre nós. Mas não adianta espernear quando uma crise bancária atinge dimensão sistêmica; o chamado dinheiro público tem que ser mobilizado para evitar o pior. Nesses momentos, quanto mais cedo os governos se moverem, menores serão os custos. A ação fiscal para lidar com a crise no mercado de hipotecas já vem tarde. Deveria ter sido tomada há alguns meses, substituindo a devolução de impostos que estamos vendo agora.
Incrível a falta que um entendimento correto do pensamento keynesiano faz nesses momentos.


LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 64, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo FHC).

lcmb2@terra.com.br

14/07/2008 - 11:09h EUA tentam salvar financiadoras de hipotecas

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Fed e Tesouro anunciam pacote para resgatar Fannie Mae e Freddie Mac e evitar colapso do mercado financeiro

O GLOBO

WASHINGTON e LOS ANGELES. O Tesouro dos EUA e o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) anunciaram ontem um pacote de ajuda para salvar da insolvência Fannie Mae e Freddie Mac, duas gigantes do setor de financiamento de hipotecas para casa própria. A medida visa a restituir a confiança nas duas firmas e evitar um potencial desastre no mercado financeiro global. Numa decisão que pode representar uma escalada na exposição dos contribuintes americanos, o Fed disse que as duas firmas poderão recorrer a recursos emergenciais da instituição a taxas baixas.

Paralelamente, o Tesouro anunciou que vai aumentar temporariamente a linha de crédito para as empresas e até mesmo, se necessário, comprar participação nos dois grupos.

O anúncio do Fed evocou sua atuação para salvar o banco de investimento Bear Stearns em março, quando permitiu o acesso de bancos de investimentos a seus recursos emergenciais pela primeira vez desde a Grande Depressão.

“A contínua vitalidade (das duas empresas) é importante para manter a confiança e estabilidade do nosso sistema e mercados financeiros. Assim, precisamos agir para responder à presente situação, enquanto nos preparamos para uma estrutura regulatória mais forte”, disse o secretário do Tesouro, Henry Paulson, em um comunicado lido ontem por ele nas escadarias da sede do Tesouro.

Uma alta fonte da instituição disse que as medidas anunciadas por Paulson ainda precisam ser aprovadas pelo Congresso, mas expressou confiança de que terão sinal verde dos parlamentares ainda esta semana. Charles Schumer, senador democrata por Nova York, elogiou o pacote e disse que deverá reavivar a confiança do investidor em Fannie Mae e Freddie Mac.

As duas firmas são privadas, com um grupo de acionistas, mas recebem subsídios do governo.

Com a crise financeira, as ações das duas gigantes se desvalorizaram fortemente.

IndyMac sofre intervenção após declarar insolvência O diretor-executivo da Fannie Mae, Daniel Mudd, disse em uma nota que a firma tem reservas suficientes para atravessar a crise, além de acesso a financiamento do mercado. Mesmo assim, ele disse que poder acessar os recursos emergenciais postos à disposição pelo Fed e o Tesouro ajudará a reconstruir a confiança do mercado.

As duas empresas compram hipotecas de mutuários e as revendem em pacotes garantidos pelo Tesouro, gerando novos fundos que tornam os mercados de hipotecas mais líquidos. Fannie Mae e Freddie Mac têm papel fundamental no mercado de habitação dos EUA e muitos temem que uma insolvência teria conseqüências nefastas no mercado financeiro.

O clima de tensão no setor cresceu no sábado, após o anúncio de que o banco IndyMac fora declarado insolvente e sofrera intervenção de autoridades federais. O IndyMac é a segunda instituição financeira a quebrar na esteira da crise no setor de hipotecas.

O Escritório Supervisor de Caixas de Poupança (OTS, da sigla em inglês) anunciou ter transferido as operações do IndyMac à Corporação Federal Garantidora de Depósitos (FDIC, da sigla em inglês), depois de considerar que o banco não tinha como fazer frente à demanda de saque dos clientes, que se viram limitados a retirar pequenas quantidades.

13/07/2008 - 18:09h A cura pelo sexo

Estudos mostram ganhos para longevidade, defesas naturais e forma física

Dan Roberts Do Independent - O Globo

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Melhorar a auto-estima é uma das mais citadas razões pelas quais as pessoas fazem sexo, segundo um estudo da Universidade do Texas publicado na “Archives of Sexual Behavior”. O resultado não surpreendeu Julia Cole, autora de “How to have great sex for the rest of your life” (Como ter sexo bom pelo resto da vida). Ela está convencida de que uma vida sexual saudável com a pessoa amada faz maravilhas pelo amor próprio.

— Depois de uma sessão de sexo, o corpo libera endorfinas, conhecidas como “as drogas da felicidade” porque melhoram nosso humor — afirmou. — Do ponto de vista físico, a sensação é similar à que sentimos depois de uma boa sessão de ginástica ou natação.

Mas se você faz sexo com alguém que ama, se sente mais acolhido e isso promove a auto-estima.

Quando o sexo é bom, cientistas dizem que ele promove uma melhora na percepção da própria imagem corporal, bem como uma redução da ansiedade e da incidência de problemas psiquiátricos, depressão e suicídio.

Indicado para dores do corpo e da alma

Um estudo com homens de quatro diferentes culturas revelou que a satisfação sexual está relacionada ao aumento da freqüência dos encontros e inversamente ligada à depressão. Durante o orgasmo, o corpo produz oxitocina, um hormônio ligado a diversos efeitos positivos tanto físicos quanto psicológicos.

Um dos maiores é o impacto benéfico no sono.

— Não há dúvida que sexo é relaxante e ajuda a combater a insônia — afirmou David Delvin, especialista em medicina sexual. — Muitas pessoas usam o sexo como um auxílio para adormecer. E isso está ligado à liberação da oxitocina, que é um sedativo natural.

Um dos principais benefícios do sexo à saúde é o impacto positivo na forma de lidar com estresse.

Num estudo publicado na “Biological Psychology”, 24 mulheres e 22 homens mantiveram registros diários de sua atividade sexual. Os pesquisadores os submeteram a situações de estresse, como falar em público ou fazer contas em voz alta.

Os que tinham feito sexo se saíram melhor nas situações estressantes do que os demais.

Segundo Julia Cole, isso pode ser explicado pelo efeito tranqüilizador dos carinhos do parceiro.

— Muitas pesquisas já mostraram que o toque tem um efeito calmante natural nos seres humanos, seja relacionado ao sexo ou não. E, claro, se o carinho for feito por alguém de quem se gosta, o efeito calmante será dobrado.

Além da óbvia sensação prazerosa de ser tocado ou acarinhado, há um efeito bioquímico de redução do efeito do cortisol, o hormônio secretado quando estamos sob estresse.

Fazer sexo uma ou duas vezes por semana está relacionado também a maiores níveis de um anticorpo chamado imunoglobulina A, ou IgA, capaz de proteger contra resfriados e outras infecções.

Cientistas da Universidade de Wilkes testaram os níveis de IgA em 112 estudantes que registraram a freqüência de sua atividade sexual.

O grupo que fazia sexo com mais freqüência apresentava maiores índices de IgA do que os que não tinham relações ou faziam sexo menos de uma vez por semana.

A terapeuta sexual Paula Hall acredita que o impacto positivo do sexo no bem-estar ajuda a aprimorar o sistema imunológico.

— Todos os benefícios psicológicos têm um impacto em sua saúde física. O sistema imunológico é um exemplo — afirmou. — Quanto mais saudáveis estivermos psicológica e emocionalmente, mais saudáveis estaremos fisicamente.

Ejaculações freqüentes podem reduzir o risco de homens desenvolverem câncer de próstata em idade avançada, de acordo com um estudo publicado na revista “British Journal of Urology International”.

Ao rastrear a vida de homens com câncer e compará-los a outros da mesma idade sem a doença, os cientistas constataram que aqueles que ejaculavam pelo menos cinco vezes por semana na juventude tiveram o risco de desenvolver o tumor reduzido em um terço.

— Há fortes indícios de que homens que se masturbam regularmente têm menos chances de ter câncer de próstata — afirmou Delvin.

A freqüência do número de relações sexuais também está relacionada à menor incidência de problemas de ereção. Médicos finlandeses estudaram quase mil homens com idades entre 55 e 75 anos e descobriram que os que faziam sexo com mais freqüência eram os que corriam menos risco de desenvolver problemas de ereção.

Os resultados estão na edição deste mês da revista médica “The American Journal of Medicine”.

Após avaliar a saúde sexual de 989 homens, os pesquisadores viram que, entre os que diziam fazer sexo menos de uma vez por semana, a incidência de disfunção era dobrada.

A conclusão foi obtida após levar em conta outros fatores ligados ao problema, como idade, doenças crônicas, obesidade e fumo.

Fazer sexo e ter orgasmos com freqüência é uma das principais formas de aumentar a intimidade entre um casal e garantir uma relação saudável a longo prazo — o que já foi relacionado em muitos estudos a uma maior expectativa de vida. E o responsável por isso é, novamente, a oxitocina.

— Ele é liberado por pessoas que estão em relações seguras ou longas, bem como durante o contato sexual — afirma Julia Cole. — Esse efeito de ligação é uma das razões pelas quais as pessoas continuam a fazer sexo mesmo quando já não são mais férteis.

A atividade sexual, como qualquer outro exercício, queima calorias e gordura. Trinta minutos de sexo intenso queima pelo menos 85 calorias. Pode não parecer muito, mas é cumulativo — 42 sessões de meia hora queimam 3.570 calorias, o que é suficiente para perder cerca de meio quilo.

— Sexo queima calorias, é comparável a um exercício moderado — garante Delvin.

E é muito mais divertido.

21/05/2008 - 11:36h Projeto de felicidade leva à insatisfação, afirma Contardo

Sabatina / Contardo Calligaris

Em sabatina, o psicanalista , escritor e colunista da Folha diferencia “perdedores’ e “infelizes’ e comenta depressão em jovens

O PROJETO DE SERMOS felizes é profundamente errado, concebido para nos manter na insatisfação, requisito da sociedade de consumo. A afirmação é do psicanalista Contardo Calligaris, 59, colunista da Folha, sabatinado ontem pela manhã num Teatro Folha lotado, em SP. Entrevistado pelos jornalistas da Folha Marcos Augusto Gonçalves, Cleusa Turra, Marcos Flamínio Peres e Ivan Finotti, Contardo falou de remédios (”Lexotan acho legal”), relação de pais e filhos (”os adultos deveriam parar de pedir para que jovens sejam felizes”) e o valor da solidão (”Não sou gregário. Coletividade grande, tenho alergia”).

FELICIDADE
O verdadeiro perdedor é aquele que, na última hora, olhando para trás, vai ter a impressão de que desperdiçou a sua corrida. O que ele acumulou, tudo isso me parece bastante acessório. Para mim, o perdedor é aquele que não conseguiu viver sua vida com toda a intensidade que ela merece. O que não tem nada a ver com felicidade. O projeto de sermos felizes é profundamente errado, concebido para nos manter na insatisfação, o que é absolutamente necessário na sociedade de consumo. O ganhador é quem teve uma alta qualidade de experiência, seja qual for, que tenha sido intensamente. A felicidade, eu sou contra. Sexo não é felicidade, é alegria.

REMÉDIO X ANÁLISE
Lexotan eu acho legal. Primeiro, porque eu não estou nada convencido de que haja qualquer oposição de fundo real entre a psiquiatria, ou a neuroquímica, e a psicanálise, ou as terapias pela palavra de modo geral. As pesquisas que existem dizem não somente isso mas que, enquanto intervenções, elas se fortalecem. Usar antidepressivos ajuda as pessoas diagnosticadas com depressão em 36% dos casos. A psicoterapia pela palavra também ajuda as pessoas em 33%, 34% dos casos. As duas coisas juntas, por uma razão misteriosa, se fortalecem e ajudam 64%, 65% das pessoas. Segundo, existe uma questão de fundo: sou materialista. Acredito que o afeto, a emoção ou o pensamento tenha ou deva ter algum dia uma descrição neuroquímica absolutamente apropriada.

ABUSO DE REMÉDIOS
Não tenho nada contra o uso de medicamentos, mas tenho bastante contra o uso indiscriminado de psicotrópicos, sobretudo no caso da depressão. Acho que os antidepressivos têm de ser prescritos num caso de depressão, e não simplesmente porque o cara não está feliz. Há uma certa tendência nessa direção. E pior ainda no caso da adolescência e da infância, em que o uso de psicotrópicos está se tornando um caso muito sério. Porque os pais não agüentam nem um pouco a infelicidade dos filhos, seja qual for a idade deles. Existe uma intervenção neuroquímica cada vez maior em adolescentes. Na infância e na adolescência, a gente vive momentos alegres e tristes. E uma das razões pelas quais a gente faz filhos é para que eles encenem uma felicidade que não temos. Se o cara não sorri, pílula. Sou contra isso.

ADOLESCENTE
A adolescência de fato, como uma idade separada da vida, é recente, pós-Segunda Guerra, quando os adultos começam a criar uma fase da vida específica à qual atribuem algumas características como rebeldia, insubordinação. O que sobrou de desejo de sair daquele cenário de “american beauty” [beleza americana], de desejo de aventura, foi pendurado nas costas dos adolescentes. Eles é que se encarregariam da nossa rebeldia, nossa vontade de sermos outros, de realizar sonhos que não conseguimos nem confessar a nós mesmos. Os adolescentes se encarregaram disso muito bem, até porque são excelentes intérpretes do desejo dos adultos.

DEPRESSÃO EM JOVENS
A vida deles [crianças e adolescentes] não é engraçada. Não acho uma idade legal: essa é uma visão idealizada dos adultos. A infância e a adolescência são épocas muito problemáticas da vida. Na infância, estamos longe de corresponder fisicamente e simbolicamente ao que a gente deseja; a palavra da gente é atropelada. Na adolescência, é pior ainda. São épocas de extremo conflito interno, definição identitária, descoberta de fantasias e orientação sexuais. Eu acho que os adultos deveriam parar de pedir para que os jovens sejam felizes, porque isso só serve à vontade que eles têm de ver nas crianças um espetáculo de felicidade.

SEXO NA VELHICE
Há um imaginário social de que a pessoa a partir de certa idade deveria estar acima disso, dessas “baixarias”. Durante décadas, a idéia era de que a menopausa era fim não da fecundidade, e sim da feminilidade. Eu fui treinado muito bem. Tive uma avó que adorava. E que, aos 70, 75 anos, ainda era cantada na rua. Uma vez, ela estava sentada no cinema comigo, e vi que chegou um cara e sentou ao lado dela. Achei estranho porque tinha outros lugares. De repente, ela levanta xingando o cara, me pega pela mão e troca de fileira. Ele havia colocado a mão na minha avó, o que demonstra que aos 75 anos rola. E que ela era muito bonita.

SÓ OU ACOMPANHADO?
Não me coloquei essa pergunta de forma radical, mas, de alguma forma, é uma questão que está ali o tempo inteiro. A gente tem sempre momentos em que precisa de uma certa solidão, de recolhimento interior. Sempre vivi com alguém, mas não sou gregário. Coletividade grande, tenho uma alergia séria. Situação gregária é qualquer situação em que o grupo me manda fazer coisas que não são exatamente as que quero fazer. Quando o grupo ameaça a minha individualidade.

MAIO DE 68
Eu militava na esquerda italiana. Tinha mais contato com a contracultura norte-americana do que com a cultura política européia, porque estava casado com uma norte-americana e ia ao país com freqüência. O que mais importava era a revolução na maneira de pensar e de se relacionar, era a utopia concreta, que estava na maneira de conviver de quem militava em 68. E essa utopia eu acho que vingou. Foi a única verdadeira revolução do século 20, ou a única de sucesso.

20 ANOS DE BRASIL
Vejo mudanças concretas enormes no Brasil de 1986 até hoje. Cheguei a um país onde aconteciam coisas completamente inéditas para mim. As pessoas, por exemplo, compravam linhas telefônicas para investimento. Era um negócio estranhíssimo. Mas nunca achei o país provinciano. Nem naquela época. Especialmente SP, que é uma das cidades menos provincianas do mundo. Muito menos do que Paris e, num certo sentido, menos provinciana do que Nova York. E certamente menos do que uma cidade italiana.


Assista a vídeo com íntegra da sabatina

20/04/2008 - 13:20h Perder peso por uma questão de sobrevivência

Médicos e pacientes discutem os prós e contras do tratamento clínico e da cirurgia para curar obesidade grave

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Antônio Marinho - O Globo

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Aos 18 anos, Leila de Morais era magra. Dez anos depois, devido à compulsão alimentar, o seu peso havia triplicado, e ela chegou a 174kg. Hoje, aos 35 anos, e seis meses depois de se submeter a operação de redução de estômago, está com 120kg. Sua meta são 74kg. Sônia Fortunato Gonçalves também encarou o bisturi para não morrer.
Há duas semanas, entrou num hospital com 167kg e começa a emagrecer. Elas sofrem de obesidade mórbida, quando o índice de massa corpórea (IMC) está acima de 40kg/metro quadrado e há doenças associadas.
Leila e Sônia têm uma certeza: se antes de engordar tanto tivessem recebido atendimento multidisciplinar, com médico, nutricionista, psicólogo e profissional de educação física, não precisariam da operação.
No caso delas, a operação, chamada bariátrica, foi a última saída. Recurso que os 40 mil obesos mórbidos do Rio estão longe de conseguir. A situação é mais grave porque em todo o estado apenas o Hospital de Ipanema (média de uma cirurgia por semana) e o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ (média de uma por mês), oferecem o procedimento na rede pública. A fila é de quatro mil pacientes em cada unidade.
Tem gente que espera até seis anos pela chance, como Sônia.
Faltam recursos humanos e financeiros, além de infra-estrutura, para atender o crescente número de casos de obesos mórbidos, e muitos morrem na fila.
Na rede privada, só a cirurgia bariátrica custa de R$ 20 mil a R$ 30 mil, fora gastos com o pósoperatório, que requer visitas mensais a endocrinologista, nutricionista e psicólogo. Dois anos depois da operação, mais gastos com cirurgias plásticas.

Pacientes operados recuperam parte do peso

Quem chega ao hospital do Fundão não encontra vaga. O serviço atende apenas 50 pessoas.
Rosimeire Lima da Silva, diretora da ONG Grupo de Resgate à Auto-Estima e Cidadania do Obeso (Graco), encaminha pacientes ao HUCFF e recebe pelo menos 400 obesos por mês, na sede da Penha.

— No Fundão, eles fazem inscrição e aguardam, sofrendo com as doenças associadas à obesidade. Vivem na esperança de serem chamados. A previsão é de ser operado em quatro a cinco anos. E o HUCFF não opera ninguém acima de 160 quilos.
No Graco temos indivíduos com mais de 200kg. — diz Rosimeire, operada em 2001.
Ela, que tem 1,60m, chegou a pesar 145kg, reduziu para 65kg e agora pesa 74kg, afirma que o melhor é investir na prevenção da obesidade e tratar de forma eficaz as pessoas com IMC acima de 30 (doença moderada) para evitar que cheguem à morbidade.
A cirurgia é de alto risco e o pós-operatório exige muito comprometimento do paciente.
Existe muita desinformação a respeito da cirurgia bariátrica e de suas complicações. O obeso mórbido terá que se cuidar pelo resto da vida.

— Conheço pessoas que operam e acham que isso resolverá todos os seus problemas, e que elas não precisarão mais de dieta, médico e psicólogo. Resultado: engordam novamente. Já vi casos de pacientes que não tinham indicação para a cirurgia e que poderiam ter insistido em emagrecer apenas com o tratamento clínico, mas passaram a comer mais e abandonaram remédios só para preencher os critérios cirúrgicos — conta.

Tratamento multidisciplinar pode evitar o bisturi

Ela acredita que o bom tratamento clínico, com médicos, nutricionistas, psicólogos, professores de educação física e outros profissionais resolveria a maioria dos casos de obesidade, antes que a cirurgia seja inevitável.

Mas admite que isso é difícil porque a maioria dos gordinhos não recebe cuidado multidisciplinar.

Além disso, eles fazem dietas malucas, se entopem de fórmulas à base de anfetaminas e são sedentários. Sem falar nos casos de depressão e de compulsão alimentar.

Antônio Augusto Peixoto de Souza, coordenador do programa de cirurgia bariátrica (Prociba) do HUCFF, diz que a cirurgia deve indicada na falha do tratamento clínico.

— O tratamento é malfeito.

No Brasil, há abuso de anfetaminas.

Uma pessoa com IMC acima de 40 tem limitações para exercícios. Muitos obesos não conseguem fazer a própria higiene nem locomover-se. Entre os mais pobres, as dificuldades são maiores. A obesidade deve ser vista como problema de saúde pública — diz.

O cirurgião Marco Antônio Leite, coordenador do programa de cirurgia bariátrica do Hospital de Ipanema, concorda.

A taxa de obesidade mórbida chega a 5% no Rio. Enquanto o Rio tem dois centros capacitados, em São Paulo são 20. Ele acha que deveria haver maior atenção e investimentos dos governos federal, estadual e municipal na área: — Estudo na “The New England Journal of Medicine” com homens de 25 anos a 40 anos mostrou que os obesos mórbidos tinham 12 vezes mais chances de morrer do que indivíduos com peso normal. E a cirurgia elimina doenças associadas, como diabetes, hipertensão e apnéia do sono.

Para Márcio Mancini, presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica, antes de buscar a cirurgia é preciso fazer pelo menos um ano de acompanhamento clínico com consulta mensal a endocrinologista e nutricionista.

— Se não responde ao tratamento ou responde mas recupera peso e preenche os critérios para cirurgia, deve-se pensar na operação. Uma vez indicada, a triagem precisa ser rigorosa, inclusive com avaliação psicológica. A cirurgia é o último recurso e tem índice de mortalidade de 0,5% a 1%. A maioria recupera, a longo prazo, de 10% a 20% do peso perdido.

Só traz benefícios quando bem indicada e a pessoa segue à risca as recomendações no pós-operatório — diz.

Walmir Coutinho, professor do curso de pós-graduação em endocrinologia na PUC-Rio, diz que a cirurgia é um avanço.

O resultado ruim acontece em casos mal selecionados.

— Há pessoas que perdem bastante peso sem a operação.

Tive paciente que perdeu 20 quilos e atingiu, no seu caso, um resultado tão bom quanto o da cirurgia bariátrica.

Mas para a maioria dos obesos mórbidos isso é muito difícil — comenta.

A americana Carolyn Clancy, diretora da Agência de Saúde e Pesquisa de Qualidade dos EUA, afirma que 7% das pessoas que passaram pela cirurgia precisam ser internadas novamente por conta de complicações.

Quatro em cada dez pessoas podem ter problemas seis meses após a cirurgia.

Ilustração de Fernando Botero

13/04/2008 - 05:33h Vamos deixar de correr assustados

O Estado de São Paulo - Shannon Brownlee*

esports.gifEu me senti um pouco sem fôlego outro dia, subindo uma colina. Uma ponta de preocupação alojou-se por instantes em minha mente. Aos 50 e poucos anos de idade, estou numa forma bastante satisfatória. Não fumo. Caminho vários quilômetros quase todos os dias, e ainda consigo vencer minha amiga de 40 e tantos no tênis. Não sou exatamente uma candidata a um ataque cardíaco. Mas ainda assim, tenho ouvido todas essas histórias de mulheres como eu - as sem nenhum fator de risco de doenças do coração -, que foram subitamente atingidas por um ataque cardíaco.

Talvez você tenha tido as mesmas preocupações - imaginado se alguma fisgadinha era azia ou um ataque, se aquela horrível dor de cabeça era causada por tensão ou por um derrame. Quase todo o mundo que conheço que atingiu a meia-idade gasta uma certa quantidade de tempo preocupando-se com esse ou aquele distúrbio. Meu marido, meus amigos e eu costumávamos falar de política, ciência, religião, filhos. Agora, nenhum jantar está completo sem pelo menos alguns minutos de discussão sobre níveis de colesterol, os méritos de andar versus correr ou se roncar é ou não um sinal de apnéia.

Não é que estivéssemos realmente doentes. Claro, duas pessoas de nosso grupo sofrem de hipertensão, e uma amiga querida tem uma doença crônica grave. Cada um de nós conhece pelo menos uma pessoa da nossa idade que morreu de câncer ou enfarte. Como jornalista da área médica, encontrei muitas pessoas que sofrem terrivelmente de doenças debilitantes ou mortais, e sei que quase todos nós acabaremos topando com uma enfermidade grave.

Mas a maioria dos meus amigos e eu, como a maioria dos americanos de meia-idade, somos uma turma bastante saudável. Se eu perguntasse a meus amigos quanto tempo eles planejam viver, aposto que responderiam como muitos entrevistados de uma recente pesquisa da UPI, que concluiu que a maioria dos americanos acredita que passará dos 80 anos. Não é que temamos correr um perigo iminente de morte, mas achamos que precisamos estar hipervigilantes em relação às doenças para postergá-las ao máximo.

AFLIÇÃO

É isso que me preocupa. Por estar constantemente lembrando que devemos estar sempre à espreita de possíveis doenças, os médicos e a mídia têm feito muitos se sentirem mais aflitos. Não tenho certeza se essas advertências têm nos tornado mais saudáveis, mas decididamente têm arruinado nossa sensação de bem-estar. A gente se preocupa com qualquer dorzinha ou mal-estar, fica atormentado com o menor sinal de tristeza num adolescente, pensando ser um sintoma de depressão clínica.

Mas, ao encararmos tantos aspectos comuns da experiência humana como doenças tratáveis, podemos estar conferindo à medicina mais poderes do que ela merece. Pense em todas as mensagens que recebemos constantemente do mundo médico e da mídia: “Vigie seu peso.” “Verifique seu colesterol.” “Conheça os sinais da iminência de um derrame.” “Durma mais ou você sofrerá um acidente de carro.” “Essa mancha na suas costas? Pode ser um melanoma.” “Está se sentindo constipado? Talvez seja câncer de ovário.” “Faça exames.”

Há manchetes como essa, da revista Forbes: “Sintomas médicos que você não deve ignorar.” Já o livro Body Signs: From Warning Signs to False Alarms… How to Be Your Own Diagnostic Detective (Sinais emitidos pelo organismo: De sinais de advertência a alarmes Falsos… Como ser seu próprio detetive de diagnóstico), por exemplo, é um compêndio de sintomas que vão desde pele seca a soluços em excesso - tudo pode sinalizar doenças graves. A missão expressa da obra: “alertá-lo, adverti-lo, talvez até assustá-lo para que você vá ao médico.”

A idéia é mesmo assustar as pessoas. Grupos de defesa de pacientes, como a Sociedade Americana do Câncer, há muito acreditam que a forma de melhorar a saúde das pessoas é aumentar a “conscientização” sobre essa ou aquela doença, e a melhor forma de aumentar a conscientização é atemorizar as pessoas para que freqüentem consultórios médicos. Já em 1936, essa entidade usava slogans do tipo “Ninguém está livre de um câncer”, na tentativa de fazer com que as mulheres se submetessem a exames de mama.

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EXAGEROS

Hoje em dia, organizações de defesa de pacientes costumam disparar alarmes sobre a enfermidade que tentam erradicar, seja inflando o número de pessoas afetadas, seja exagerando o perigo. A Fundação Nacional sobre Sono, por exemplo, entidade dedicada a incentivar os americanos a descansar mais, recentemente divulgou uma pesquisa alegando que uma colossal porcentagem - 75% - tem tanta privação de sono que isso está interferindo na vida sexual. É muita gente sonolenta e com pouca atividade sexual, algo bem difícil de acreditar, dado que para o Instituto Nacional de Saúde no máximo 21% da população tem insônia recorrente.

Há poucos anos, ao menos um grupo de defesa de pacientes de câncer de mama andou alegando que a doença deles era a que mais matava as mulheres. Na realidade, morrem muito mais mulheres por doenças cardíacas e câncer de pulmão.

Provocar o medo também interessa às empresas farmacêuticas, que querem que você se preocupe com doenças porque as pessoas preocupadas tendem a consultar mais médicos e a consumir remédios. Acontece que muito do que nós - e nossos médicos - acreditamos saber sobre muitos problemas de saúde foi definido pelos fabricantes de medicamentos e seus especialistas em marketing. Vejamos a “fixação da marca para tratar uma doença”, uma das mais brilhantes e amplamente usadas técnicas de marketing para vender medicamentos. Os fixadores da marca usam “informações” sobre condições médicas para forjar ligações entre a doença e o tratamento na mente tanto dos pacientes quanto dos médicos. Se eles tiverem um medicamento, mas não tiverem uma doença, simplesmente inventam uma doença. Venho denunciando isso há anos.

Um dos melhores exemplos é a “osteopenia”, um diagnóstico que milhões de mulheres da minha idade recebem anualmente. A osteopenia é supostamente a precursora da osteoporose, a perda gradual de massa óssea que ocorre à medida que envelhecemos. A osteoporose avançada pode tornar as mulheres vulneráveis a uma fratura de fêmur, um problema grave se você for idosa e frágil, porque freqüentemente prenuncia uma série de complicações, tais como pneumonia, que pode, em última análise, levar à morte.

Milhões de mulheres são tratadas de osteoporose com medicamentos que podem desacelerar a perda de massa óssea, reduzindo, assim, o risco de fratura no quadril. Ou é isso que diz a lógica. O problema é que a osteoporose e a osteopenia não são realmente doenças.

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PARA AMPLIAR MERCADO

Antes da década de 1990, os médicos decidiam que você tinha osteoporose se fosse idosa e fraturasse um osso. Quando a empresa farmacêutica Merck surgiu com seu medicamento contra perda de massa óssea, o Fosamax, queria um mercado mais amplo do que apenas as idosas pacientes de fraturas. A solução? A empresa ajudou a financiar uma junta de especialistas médicos para definir os critérios para diagnóstico da osteoporose de forma que o diagnóstico fosse feito antes que a paciente quebrasse um osso.

A primeira providência do comitê foi definir a densidade óssea “normal” como sendo a de uma mulher saudável de 30 anos. A seguir, os especialistas escolheram como número mínimo de densidade óssea para provocar a osteoporose um ponto estatístico ligeiramente abaixo da densidade óssea da sua “mulher normal” de 30 anos - um critério que eles mesmos admitiram que foi “um tanto arbitrário”. Por fim, apresentaram uma doença totalmente nova - a osteopenia - representada por uma densidade óssea que se encaixasse entre aquela normal da mulher de 30 anos e a definição arbitrária, criada por eles, de osteoporose.

De repente, 30% das mulheres no período pós-menopausa tinham uma doença que precisava ser tratada com antecedência para prevenir um problema - a fratura do fêmur - que demoraria muitos anos para ocorrer, se ocorresse. Segundo as novas diretrizes, agora milhões de mulheres têm osteopenia, que seus médicos precisam vigiar como falcões para que as pacientes possam ser tratadas antes que progrida para uma osteoporose. A Merck, então, tomou a medida adicional de ajudar os médicos a comprarem scanners Dexa, aparelhos de raio X necessários para esquadrinhar os ossos e conseguir o tão importante diagnóstico.

Além da osteoporose e da osteopenia, os médicos agora querem nos examinar para saber se temos um monte de pré-doenças - e que as empresas farmacêuticas estão felicíssimas em curar. Há a pré-pressão alta e a pré-diabete, que nosso médico supostamente pode diagnosticar mesmo quando nosso nível de açúcar no sangue estiver perfeitamente normal. Se você esteve recentemente num dermatologista, é provável que este tenha removido algumas manchas “pré-cancerosas”. Elas podem muito bem ter sido queratoses actínicas que, apesar de seu nome assustador, quase nunca se tornam uma forma agressiva de câncer de pele.

Remova-as se a má aparência delas incomodar, mas não fique alarmado se não tirá-las.

Depois, vem a mãe de todas as pré-doenças, o colesterol alto, que é, sim, um fator de risco, mas não uma sentença de morte. Mesmo assim, um anúncio horripilante da Pfizer de um medicamento de combate ao colesterol alto, o Lipitor, surgido há alguns anos, usava o cadáver de uma mulher para exortar as mulheres na casa dos 50 anos a verificar seu nível de colesterol. Saiba seus dados clínicos. Pergunte ao seu médico. Tenha medo - tenha muito medo.

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O que está perdido em tudo isso é a crença de que podemos enfrentar a vida, que podemos viver diante de suas permanentes incertezas. Em nosso desejo desesperado de proteção contra a natureza ambígua e invisível da doença, temos permitido que nossos médicos e a indústria farmacêutica transformem tudo em doença, desde a azia até a dor de cabeça.

Queremos respostas mesmo quando elas não existem. Recorremos à medicina para que nos traga alívio das terríveis incógnitas do envelhecimento e suas perdas inevitáveis, mesmo quando as respostas podem ser forjadas para vender remédio. E, agora, estamos tão completamente convencidos do poder da medicina que qualquer um que duvide da sensatez da medicação se arrisca a ser rotulado de “niilista terapêutico”, aquele que rejeita a medicina na sua totalidade. Mas você não pode passar a maior parte da sua carreira fazendo reportagens sobre medicina, como eu passei, e deixar de se maravilhar com muitos prodígios nem de sentir compaixão por aqueles que estão realmente doentes.

Não pretendo monitorar meu colesterol, indubitavelmente, para a consternação do meu médico. Por que me incomodar? Já estou vigiando meu peso, exercito-me regularmente e alimento-me de forma saudável. Não quero tomar medicamentos que oferecem pouca proteção - se alguma - contra ataques cardíacos para pessoas cujo único fator de risco é o colesterol elevado. Se na noite passada eu não consegui dormir oito horas, sempre posso recuperar nesta noite. Meus ossos terão de simplesmente se esfarelar tranqüilamente por conta própria, porque não tenho a mínima intenção de tomar um medicamento cujos benefícios são incertos e cujos riscos são muito reais.

E quanto à ansiedade? Acho que vou cuidar disso desligando a conversa assustadora dos médicos.

*Shannon Brownlee é jornalista e autora do livro Overtreated: Why Too Much Medicine Is Making Us Sicker and Poorer. Artigo originalmente publicado pelo jornal The Washington Post

01/04/2008 - 04:18h A estratégia Dilbert

Objetivo do plano apresentado pelo governo Bush é criar a aparência de que as autoridades respondem à crise, sem na prática fazer nada de substantivo

PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES” - FOLHA DE SÃO PAULO

criseusa.jpgSE VOCÊ já trabalhou para uma grande organização ou, aliás, se você é leitor da tira de quadrinhos “Dilbert”, decerto conhece a “estratégia do organograma”.
Para esconder a falta de idéias práticas sobre o que fazer, dirigentes gostam de promover grande algazarra quando reorganizam as caixinhas e linhas de um organograma informando quem se reporta a quem.
Pronto: você acaba de descobrir o princípio que embasa a nova proposta do governo Bush para a reforma financeira, anunciada formalmente ontem. O objetivo é criar a aparência de que as autoridades estão respondendo à crise atual, sem na prática fazer nada de substantivo.
Os eventos financeiros dos últimos sete meses, e especialmente das últimas semanas, convenceram todo mundo, exceto os mais renitentes, de que o sistema financeiro norte-americano precisa de uma séria reforma. De outra forma, cambalearemos de crise em crise, e as crises se tornarão cada vez mais graves.
Os bancos tradicionais, que oferecem contas a depositantes, operam regulamentados desde os anos 1930, porque a experiência da Grande Depressão demonstrou de que maneira falências de bancos podem ameaçar toda a economia. Instituições que não aceitam depósitos, como o Bear Stearns, no entanto, supostamente não precisavam de regulamentação, porque a “disciplina do mercado” asseguraria que fossem dirigidas de maneira responsável.
Quando a situação ferveu, no entanto, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) não ousou permitir que a disciplina do mercado resolvesse a situação. Em lugar disso, correu em resgate do Bear Stearns, colocando em risco bilhões de dólares dos contribuintes, porque temia que o colapso de uma grande instituição financeira colocasse em risco o sistema financeiro como um todo.
E se protagonistas das finanças como o Bear Stearns vão receber essa espécie de resgate, anteriormente limitada aos bancos que aceitam depósitos, a implicação parece óbvia: eles também devem ser regulamentados como bancos.
Mas o governo Bush passou os últimos sete anos tentando eliminar a fiscalização governamental sobre o setor financeiro. De fato, o novo plano havia sido originalmente concebido como uma forma de “promover um setor de serviços financeiros competitivo, que lidere o mundo e apóie a inovação continuada das finanças”.

Desregulados
Isso é jargão de banqueiro para a eliminação de qualquer regulamentação que possa incomodar os grandes operadores financeiros.
Para reverter o curso agora, e procurar regulamentação mais ampla, o governo teria de recuar com relação à sua ideologia de livre mercado e também teria de encarar o fato de que estava errado. E esse governo nunca, nunca mesmo, admitirá que cometeu um erro.
Por isso, o secretário do Tesouro, Henry Paulson, declara que não acredita que seja justo ou acurado imputar a culpa pelos recentes tumultos à nossa estrutura regulatória.
E, pelo menos de acordo com o sumário do novo plano do governo, a regulamentação certamente parece limitada a instituições que recebam garantias federais explícitas, ou seja, às instituições que já estão regulamentadas e não foram a origem dos atuais problemas.
Quanto aos demais componentes do sistema, o plano insensatamente declara que “a disciplina de mercado é a mais efetiva ferramenta para limitar o risco sistêmico”.
O que significa que o governo nada aprendeu com a crise atual. Mas é preciso, como questão política, que crie a ilusão de estar fazendo alguma coisa.
Assim, o Tesouro anunciou, com grande alarde -e vocês sabem o que virá a seguir-, seu apoio a uma reorganização das caixas do organograma. OCC, OTS e CFTC estão fora; PFRA e CBRA entram na parada. Quem se importa?

Alguma diferença?
Será que reorganizar as caixas fará alguma diferença? Fiquei decepcionado por algumas organizações noticiosas estarem reportando como notícia a história que o governo inventou para encobrir os fatos: a alegação de que a falta de coordenação entre as agências regulatórias foi um fator importante para as atuais dificuldades.
A verdade é que não foi isso o que aconteceu, de maneira alguma. As diversas agências regulatórias de fato se saíram bastante bem quanto à coordenação de suas ações. Infelizmente, elas foram coordenadas na direção errada.
Por exemplo, houve um evento montado para fins de relações públicas em 2003 no qual dirigentes de diversas agências posaram com podadeiras e serras como se estivessem podando e abatendo pilhas de regulamentações bancárias.
A ocasião simbolizava a determinação compartilhada dos funcionários apontados pelo governo Bush quanto a abandonar a fiscalização do mercado por adultos exatamente no momento em que este começava a se comportar de maneira irresponsável.
Oh, e o governo Bush na prática impediu que governos estaduais tentassem proteger famílias contra práticas predatórias de empréstimos. Assim, o plano do governo terá sucesso? Não pergunto se terá sucesso em prevenir futuras crises, já que não é esse o seu propósito. A questão, em lugar disso, é determinar se obterá sucesso em confundir a questão o bastante para bloquear reformas reais.
Esperemos que não. Como eu disse, as crises financeiras norte-americanas vêm crescendo. Uma década atrás, a perturbação nos mercados que se seguiu ao colapso da Long-Term Capital Management foi considerada um evento grave, assustador; mas, comparada à crise atual, não passou de uma sacudidela.
Se não reformarmos o sistema desta vez, a próxima crise poderá ser ainda maior. E eu tenho certeza de que não quero viver uma reprise da década de 1930.
PAUL KRUGMAN , economista, é colunista do “New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA).

Tradução de PAULO MIGLIACCI

25/03/2008 - 04:41h Domando a fera

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Paul Krugman - O Globo

 Estamos, agora, no meio de uma épica crise financeira, que deveria ser o centro do debate eleitoral. Mas não é.
Na verdade, não espero muito de John McCain, que admitiu ter pouco conhecimento sobre economia e negou ter dito isso depois.
Do lado dos democratas, é decepcionante que Barack Obama — em cuja campanha foi destacada sua oposição à guerra do Iraque em contraste com o apoio inicial de Hillary — tenha tentado ganhar alguns pontos sugerindo que a guerra, além de todos seus outros custos, tenha sido responsável por nossos problemas econômicos.
Hillary Clinton não fez, até onde posso dizer, qualquer comentário comparável.
Mas, assim como o senhor Obama, tem permanecido em silêncio sobre a questão chave: a necessidade de reformar nosso sistema financeiro sem controle.
Deixe-me explicar.
Os Estados Unidos saíram da Grande Depressão com uma rede de segurança financeira bastante efetiva, baseada no princípio quid pro quo (isto por aquilo, em português): o governo estava pronto para salvar os bancos se eles enfrentassem problemas, desde que aceitassem uma regulação dos riscos que assumiriam.
Com o tempo, no entanto, boa parte do papel que os bancos tradicionalmente exerciam foi assumido por instituições que não estavam sob regulação — “a sombra do sistema bancário”, que se apóia em arranjos financeiros complexos desenhados para burlar aquela regulação.
Agora, a sombra do sistema bancário está enfrentando o equivalente à onda de corridas bancárias que varreu os Estados Unidos no início dos anos 30. E o governo está correndo para ajudar, com centenas de bilhões.
Diante dos riscos para a economia se o sistema financeiro derreter, essa missão de resgate é justificada. Mas você não precisa ser um economista radical para perceber que o que está acontecendo agora é o quid sem o quo.
Essa lógica vai prevalecer politicamente? Não se o senhor McCain chegar à Casa Branca. Seu principal assessor econômico, o senador Phil Gramm, é um fervoroso defensor da desregulamentação.
Quanto aos democratas, nenhum deles se comprometeu com qualquer reforma financeira.
Agora, a indústria de seguros e de investimentos está colocando dinheiro tanto nas campanhas do senhor Obama quanto da senhora Clinton. E certamente acreditam que terão algo em troca.
Vamos esperar que eles estejam errados.

24/03/2008 - 07:38h O que os EUA têm de fazer ou não diante da crise?

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Americana passa ante a financiadora Fannie Mae, em Washington; medidas de ajuda ao setor ainda não saíram do papel

Peter Coy, BusinessWeek - VALOR

Wall Street encheu-se de esperança na semana retrasada. Exultante com as medidas do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) para estancar a crise de crédito, o mercado acionário do país teve seu maior avanço diário em cinco anos, com o índice Dow Jones em alta superior a 400 pontos. Mas as autoridades do Fed são as primeiras a reconhecer que a iniciativa ataca apenas um problema, a falta de liquidez dos grandes bancos. Não faz nada sobre o risco central para a economia dos EUA: a depressão, sem precedentes, no valor dos imóveis residenciais, que drena o patrimônio e a confiança das famílias e deixa o sistema bancário sob enorme pressão.

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23/03/2008 - 08:34h ‘Contágio é uma questão de grau’

jose_julio_senna.jpgENTREVISTA: JOSÉ JÚLIO SENNA; Ex-diretor do Banco Central, autor de Os Parceiros do Rei, sobre o desenvolvimento econômico brasileiro. A crise americana mostrou sua cara feia nos últimos dias. Ela ainda não aterroriza o Brasil, mas o bicho pode pegar num mundo de economias interligadas

Laura Greenhalgh - O Estado de São Paulo

Não faz muito tempo, falar em desmoronamento do mundo financeiro era conversa para apocalípticos. Mentes integradas preferiam reagir com reserva às oscilações do mercado de capitais, mantendo distância da idéia de que já estaria instalada uma recessão americana. Isso até os gráficos resolverem despencar ladeira abaixo, num movimento orquestrado e assustador, no início da semana passada. Viu-se o quinto maior banco de investimentos dos Estados Unidos, o Bear Stearns, ser comprado “na bacia das almas”, como se diz no Brasil, pelo JP Morgan, numa operação de socorro que envolveu o Fed, banco central americano. Contabilizaram-se perdas acumuladas da ordem de US$ 2 trilhões no mercado americano de hipotecas imobiliárias - o que rende a incômoda sensação de como patrimônios podem ser torrados em poucas primaveras. Fora isso, as commodities perderam preço e as bolsas, indomáveis, não deram sossego aos investidores.

Quem não falou, pensou: o mundo está derretendo? Do ponto de vista ambiental, certamente. Do ponto de vista econômico, há um diagnóstico mais complexo a fazer. Não há dúvida de que a crise de crédito americana ficou mais explícita nos últimos dias e não deve ser passageira. E o Brasil com isso?, perguntamo-nos. José Júlio Senna, engenheiro de formação, PhD em economia pela Johns Hopkins University, ex-diretor do Banco Central em 1985, não oferece respostas prontas, mas distribui dados e evidências que fazem pensar: “Num mundo de economias interligadas, o contágio da crise vem. Torna-se apenas uma questão de grau”. Portanto, mesmo que a sensação de derretimento do mundo volte a nos perturbar na próxima semana, a entrevista de Senna ao caderno Aliás nos informa sobre crises anteriores nos EUA, as características da crise atual, os limites de atuação dos bancos centrais e a maneira como os países deverão atravessar um tempo que o próprio Ben Bernanke, presidente do Fed, chamou, anos atrás, de “a era da grande moderação”. OK, mas sujeita a fortes emoções, pelo que estamos presenciando.

Os eventos que sacudiram as bolsas dão voz a intelectuais como Emanuel Wallerstein, que imaginaram o fim da hegemonia americana, a partir do fracasso econômico.

É prematuro tirar conclusões nessa linha. Nem estou seguro de que a economia americana seja, de fato, tão hegemônica. Ela representa 20% do PIB mundial. Certamente é a economia de maior peso, mas daí concluir que é hegemônica, vai uma distância. Com o desenvolvimento humano alcançando outras esquinas do planeta, outras economias se desenvolveram, e está aí a expansão da China, da Índia, de outros países asiáticos. O que se pode afirmar é que as economias, movendo-se em ciclos, às vezes crescem rapidamente, às vezes de modo mais lento, há retrações, expansões, etc. Hoje vemos um movimento descendente da economia americana, abrindo uma crise que deve contagiar outras partes.

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22/03/2008 - 12:17h Atuando como em 1929

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Paul Krugman - O Globo

Se Ben Bernanke conseguir salvar o sistema financeiro do colapso, será — corretamente — elogiado pelo esforço heróico. Mas o que devemos nos perguntar é: como chegamos até aqui? Por que o sistema financeiro precisa de salvação? A resposta é que estamos pagando o preço por uma amnésia intencional. Optamos por esquecer o que aconteceu nos anos 1930 — e, tendo nos recusado a aprender com a História, estamos repetindo-a.

Ao contrário da crença popular, o crash de 1929 não foi o marco da Grande Depressão.

O que transformou uma recessão normal em um colapso ameaçador foi a onda de corrida aos bancos que varreu a América em 1930 e 1931. A crise bancária mostrou que mercados não regulamentados também podem sofrer um colapso catastrófico. Com o passar do tempo, porém, a lição foi esquecida. Estamos reaprendendo, do pior modo.

Os bancos existem porque ajudam a conciliar desejos de poupadores e devedores. Às vezes — com base, freqüentemente, em boatos —, enfrentam corridas, em que muitas pessoas tentam retirar seu dinheiro ao mesmo tempo. E um banco que sofre uma corrida pode quebrar mesmo se o rumor for falso. Pior, as corridas podem ser contagiosas.

Isto, em suma, foi o que aconteceu em 1930-1931. O Congresso, então, tentou garantir que isso nunca mais ocorreria, criando um sistema de regras e garantias para fornecer uma rede de segurança.

E vivemos felizes por um tempo — mas não para sempre.

Wall Street operou sob regras que limitavam o risco, mas também o lucro. Pouco a pouco, libertou-se — em parte, persuadindo políticos a relaxar as regras, mas, sobretudo, criando “um sistema bancário sombrio”, com base em complexos arranjos financeiros para contornar os regulamentos.

Hoje, de fato, estamos atuando como se fosse 1929 — mas agora é 1930.

A atual crise é, basicamente, uma versão atualizada daquela onda de corrida aos bancos.

O resultado é um círculo vicioso de restrição financeira.

O Sr. Bernanke está fazendo o que pode para encerrar esse círculo. Podemos apenas torcer pelo sucesso. Caso contrário, os próximos anos serão muito desagradáveis. Mas, ainda que o Sr. Bernanke resolva, esta não é a maneira de gerir uma economia. É hora de reaprender as lições dos anos 30, e fazer com que o sistema opere, de novo, sob controle.

03/12/2007 - 12:17h ‘Pílula do exercício’ pode ser arma contra depressão, diz estudo

Depressivos ou simplesmente preguiçosos poderão “engolir” exercício físico

Pesquisa identificou gene que age como antidepressivo quando ativado por exercícios.

 

BBC Brasil - BBC

- Uma pesquisa realizada por cientistas americanos sugere que a sensação de felicidade resultante da prática de exercícios físicos poderá, no futuro, ser obtida a partir de um comprimido.

Segundo os especialistas da Universidade de Yale, o medicamento poderá ser mais uma arma na luta contra a depressão.

Para os pesquisadores, a ligação entre exercícios físicos e a melhora do estado emocional já é amplamente conhecida, mas a razão por trás disso ainda não havia sido bem explicada.

Durante testes de laboratório feitos com ratos, os cientistas mostraram por que fazer exercícios regularmente pode ajudar pessoas que sofrem de depressão.

No estudo, publicado na revista científica Nature Medicine, os especialistas se concentraram numa área do cérebro chamada hipocampo - que responde pelo aprendizado, memória e emoções - e normalmente é o alvo dos antidepressivos.

Eles desenvolveram um teste para identificar quais genes nesta região são mais ativados durante a prática de exercícios e destacaram um deles, nomeado de gene VGF.

Ao ser ativado, o VGF produziu uma substância química que funcionou de forma similar a um antidepressivo.

“Ao administrar o VGF, percebemos que ele funciona como um antipdepressivo poderoso e ao inibi-lo, interrompemos ao mesmo tempo os efeitos provocados pelos exercícios induzindo comportamento depressivo nos ratos”, disse Ronald Duman, professor de psiquiatria da Universidade de Yale e líder do estudo.

Os pesquisadores acreditam que o desenvolvimento de um medicamento que teria como base a substância produzida pelo gene poderá ser até “mais eficiente” do que os antidepressivos existentes no mercado.

“Este medicamento poderá ser feito com uma susbtância que já faz parte do corpo humano, o que pode aumentar sua eficácia”, afirmou Duman. BBC Brasil