23/03/2009 - 09:32h Marolinhas e tsunamis

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Maria Cristina Pinotti e Affonso Celso Pastore – VALOR

Há muito pouco tempo o Banco Central era criticado pela excessiva acumulação de reservas. Para acomodar os efeitos de choques externos, o país precisa de um estoque confortável de reservas, mas desde o momento em que atingiu perto de US$ 100 bilhões, perguntava-se se o nível ótimo de reservas já não teria sido ultrapassado.

O argumento baseava-se na comparação entre custos e benefícios marginais da acumulação de reservas. O custo marginal de esterilizar seus efeitos monetários é igual à taxa de juros, que é alta no Brasil, e acreditava-se que o benefício marginal declinaria com o estoque de reservas, sendo menor quando estas já chegaram a US$ 100 ou US$ 150 bilhões, do que quando eram de apenas US$ 30 ou US$ 40 bilhões. As opiniões divergiam quanto ao tamanho do estoque de reservas a partir do qual o custo marginal excederia o benefício marginal, mas levantava-se a suspeita de que com reservas acima de US$ 100 bilhões aquela fronteira já teria sido ultrapassada. A experiência mostra que esse argumento subestimava os benefícios associados a um estoque maior de reservas internacionais. Por quê?

Primeiro, porque foi predominantemente a acumulação de reservas que derrubou os prêmios de risco dos títulos de dívida soberana, levando o Brasil à categoria de grau de investimento. Com isso, caíram as taxas de juros dos empréstimos externos tomados pelo governo e por empresas privadas, o que é de extrema importância diante do fato de que, no processo de crescimento, o Brasil é estruturalmente deficitário nas contas correntes. Como as poupanças são baixas, o crescimento da taxa de investimentos, que acelera o crescimento econômico, inexoravelmente gera déficits nas contas correntes, que são financiados em parte por empréstimos externos. Essa queda no custo dos empréstimos induziu uma taxa de investimentos um pouco maior do que ocorreria caso os prêmios de risco não tivessem despencado. Reservas maiores, naquele período, provocaram um crescimento econômico um pouco mais veloz.

Mas os benefícios foram ainda maiores depois de instalada a crise internacional. Se o Brasil fosse pego por esta crise sem reservas, teria que rapidamente ajustar as suas contas correntes, reduzindo o déficit com uma combinação de depreciação cambial e de políticas monetária e fiscal contracionistas, que reduzissem a demanda total doméstica. Lembremos que o excesso da demanda total doméstica sobre o PIB nada mais é do que o próprio déficit nas contas correntes. A experiência histórica nos mostra que, sempre que o Brasil foi preso nessa armadilha, teve que tolerar fortes depreciações cambiais ao lado de grandes elevações de taxa de juros. Invariavelmente, estes movimentos levavam à queda do consumo das famílias e da formação bruta de capital fixo, provocando recessões profundas. Esta é a história do que ocorreu com o Brasil na crise da Rússia, em 1998, na crise do default da Argentina, em 2001. É também a história da economia brasileira quando a crise de confiança na transição do governo FHC para o governo Lula produziu uma parada brusca de ingressos de capitais.

A existência de um nível elevado de reservas permite utilizá-las para parcialmente cobrir a queda do financiamento externo ao balanço de pagamentos. Diante da magnitude do atual choque externo, isto não é suficiente para impedir que o déficit nas contas correntes tenha que declinar, mas permite que caia menos do que cairia se não existisse um estoque elevado de reservas internacionais. Ou seja, é menor a pressão para reduzir o consumo e a formação bruta de capital fixo, e com isso colhe-se uma menor desaceleração no crescimento do PIB. O Brasil não escapará de uma queda no PIB em 2009, mas esta queda será muito menor do que na maioria dos países, invertendo um comportamento que até muito recentemente era a “regra” no capítulo das respostas da economia brasileira aos choques externos, segundo o qual “marolinhas” ocorridas no resto do mundo transformavam-se em “tsunamis” no Brasil.

A outra lição desta crise vem do comportamento da taxa cambial. Até muito recentemente o Banco Central era criticado por permitir uma valorização “excessiva” do real. A previsão era de que, ao menor choque externo, o Brasil conheceria uma crise cambial. Era de novo a “marolinha” gerando um “tsunami”, com a “megadepreciação” do real levando às mesmas consequências suportadas pelo país em choques anteriores. O real de fato se desvalorizou, porém menos do que o indicado por aquelas análises alarmantes. Foi, por outro lado, uma depreciação que mudou fundamentalmente os preços relativos entre bens domésticos e internacionais, com efeitos praticamente nulos sobre o nível geral de preços. Em parte este “milagre” foi produzido pela desaceleração da demanda no Brasil, gerada pela crise internacional, e não por qualquer aperto na política monetária. Pelo contrário, o BC vem imprimindo um ciclo agressivo de redução da taxa de juros, tanto que as taxas reais de juros de mercado já caíram para perto de 5% ao ano! Este comportamento derivou em larga medida do estoque elevado das reservas internacionais.

Mas a política fiscal deu também a sua contribuição, provocando um ajuste que permite ao governo atual colocar em ação políticas contracíclicas que, esperamos, fiquem dentro dos limites da prudência. Quando a dívida pública tinha uma elevada parcela dolarizada, a depreciação cambial elevava a relação dívida/PIB, o que exigia cortes de gastos e aumentos de tributos, elevando o superávit primário. A esta força contracionista somava-se a política monetária também contracionista, necessária para dissipar os efeitos inflacionários da grande depreciação cambial. Atualmente, a dívida pública não é dolarizada e a depreciação cambial, além de ser menor, não altera a dinâmica da dívida. Esta foi uma conquista da austeridade fiscal, que qualificou o governo a utilizar políticas contracíclicas.

Até aqui tudo bem! Mas à medida que passa o tempo e os efeitos negativos da desaceleração econômica se fizerem sentir, na contramão do exigido pelo calendário eleitoral, a tentação de usar mais as políticas contracíclicas tende a aumentar. É preciso ficar sempre alerta com o exagero! A tentativa de fazer com que um “tsunami” no resto do mundo vire uma “marolinha” no Brasil pode fazer com que, no futuro, novas “marolinhas” no resto do mundo virem “tsunamis” no Brasil.

Affonso Celso Pastore e Maria Cristina Pinotti são economistas e escrevem mensalmente no VALOR, às segundas.

17/03/2009 - 10:37h Para seu criador, Bric pode ser ampliado

Leo Pinheiro/Valor

Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs e o responsável pela criação do termo Bric: o consumo interno nos países do Bric está agora contribuindo significativamente mais do que os EUA

Iván Rothkegel, The Wall Street Journal, de Nova York – VALOR

Nos últimos anos, Bric tornou-se uma das palavras da moda do mundo financeiro. A sigla para Brasil, Rússia, Índia e China passou a representar o ápice do reequilíbrio de forças econômicas da globalização. Nos próximos 50 anos, esses países iriam se tornar grandes potências mundiais e a economia global não seria dominada apenas por Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão.

A pior crise que o mundo presenciou desde a Grande Depressão, contudo, está batendo pesado nos Brics e o “Wall Street Journal Americas” considerou que seria o momento oportuno para revisitar o conceito. O Bric ainda é válido ou, assim como a previsão de que o barril de petróleo chegaria a US$ 250, é outro símbolo dos excessos do mundo dos investimentos antes do colapso do Lehman Brothers?

Para obter as respostas, conversamos com Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs e o homem que cunhou o termo. Sua resposta: o conceito é tão válido como nunca, embora possa ser expandido para incluir países como o México ou Indonésia ou excluir outros, como a Rússia. A seguir, trechos editados da entrevista, feita em 26 de fevereiro:

WSJ:Como o sr. chegou ao conceito?

O´Neill: Até 2001, eu era um dos diretores de pesquisa econômica da Goldman Sachs mundialmente. E minha maior especialidade era como economista-chefe de câmbio. No fim dos anos 90, passei a ficar mais interessado na China e na questão cambial chinesa. Então esse é o primeiro aspecto. Mas muito mais importante nesse contexto (foi que) por volta de 11 de setembro (de 2001) me tornei o único diretor de pesquisa econômica mundial para a Goldman Sachs. Então eu precisava buscar aquilo que seria a minha marca. O cara que dividia o posto comigo antes, Gavin Davis, era um pensador econômico excepcionalmente poderoso e estava no cargo antes de eu chegar. Ele liderou a análise cíclica do G7 nos anos 80 e isso é um dos motivos por que a Goldman se tornou tão bem conhecida. E então eu estava pensando: ‘Como posso fazer algo que tenha o mesmo impacto para nossa firma e nossos clientes?’ Isso era o que estava na minha cabeça. Tudo aconteceu mais ou menos ao mesmo tempo, quando houve o 11 de setembro, e eu acho que a verdadeira lição do 11/9 para mim, além do horror, foi uma mensagem de que a globalização tinha de ser diferente. Se eu combinasse aquilo com meu fascínio já forte pela China, foi isso que me levou a sonhar com a expressão Bric.

WSJ: Por que Bric?

O´Neill: Escrevi um artigo em novembro de 2001 chamado ‘O mundo precisa de melhores Brics (soa como a palavra ‘tijolo’, em inglês) econômicos’. É porque três desses países, menos o Brasil, tinham algo fundamentalmente bem diferente começando a acontecer nos anos 90 e potencialmente no futuro. No caso da Rússia era o fim da União Soviética. No da China era a adoção da economia de mercado. No da Índia era o boom mundial de tecnologia. E então, com grandes populações nesses três lugares-chave, minha visão era que com a globalização esses três países iam ser participantes importantes. A grande coisa que coincidiu com isso foi o aparecimento de Lula na cena (internacionalmente). E se você lembrar em 2000, 2001 as pessoas achavam que depois da desvalorização na Argentina o Brasil ia ser um desastre sob Lula. A coisa que chamou minha atenção no Brasil, e foi completamente subestimada por todo mundo, foi a introdução das metas de inflação (em 1999). Quando vi isso, pensei ‘pera aí, não são apenas esses três países que serão muito diferentes, se o Brasil for tratar a meta de inflação de maneira séria, o Brasil será diferente’. E pensei, sabe, que o Brasil deveria estar lá também. É um país de 160 milhões de pessoas, talvez chegando a 200 milhões. O Brasil, se mantiver a inflação sob controle, vai ser uma das maiores economias do mundo.

WSJ: Por que Bric e não MRIC, com o México em vez do Brasil?

O´Neill: Em retrospecto, a coisa que realmente deu um grande impulso ao Bric foi, dois anos depois, quando fizemos nossa primeira análise de 2050 e mostramos que os quatro países juntos poderiam ser maiores que o G7 em 2036. Então, depois de dois anos em que (o Bric) se tornou algo enorme, e com muitas pessoas perguntando por que não México, por que não Turquia, escrevemos um grande estudo dizendo como os Brics são sólidos e analisamos por que os próximos 11 países em população não estavam lá. Dos 11, para ser honesto, um deles, o México, tem provavelmente justificativas para ser incluído. Por isso muitas vezes brinco com as pessoas que talvez eu devesse ter chamado BRICM, com um M de México.

WSJ: O conceito pode ser expandido?

O´Neill: Conceitualmente, acho que sim. Digo, por volta de 2005, quando escrevemos um estudo sobre como os Brics eram sólidos, sugeri que o que realmente constitui um Bric (…) é o seguinte: um país do mundo emergente que tenha o potencial de ter pelo menos 3% do PIB mundial. Isso significa que, se algum dos atuais quatro Brics não puder realizar seu potencial, talvez ele não devesse (estar lá). Mas também significa que o México tem definitivamente esse potencial e levanta a possibilidade de que países com grandes populações, como a Indonésia, também possam.

WSJ: O sr. acha que, ao longo do tempo, as pessoas começaram a usar o conceito de uma maneira diferente da que o sr. pretendia?

O´Neill: Às vezes. Em 2007 em particular eu estava preocupado que toda a coisa do Bric estava virando uma febre insustentável no mundo do investimento. Muitas pessoas estavam elaborando fundos Bric. Um banco criou um Brict com um T de Turquia no fim etc. etc. E as pessoas estavam colocando dinheiro em fundos Bric em 2007, embora a relação entre preço e estimativa de lucro por ação da China e da Índia fossem mais que o dobro da dos EUA. E isso era claramente, como dissemos na época, insensato.

WSJ: O sr. acha que os Brics, como estão, formam um conceito sustentável?

O´Neill: Decididamente. Muita gente tola colocou dinheiro em fundos Bric em 2007 e 2008 e perdeu dinheiro. As pessoas não deveriam se esquecer que, desde que introduzimos a sigla, o índice Bric MSCI ainda está em alta de algo como 120%, enquanto o S&P 500 está em baixa de uns 20%. Ou seja, são apenas as pessoas que compraram essas coisas quando elas estavam extremamente caras que perderam dinheiro. Nunca presumimos que nos próximos 30 anos, mais ou menos, esses países sustentariam taxas de crescimento próximas das que vinham crescendo, com a exceção do Brasil. Nossa premissa para o crescimento chinês é de 5,8%. Nos primeiros sete anos da sigla Bric, a China cresceu quase ao dobro do que presumimos. Por isso, a grande desaceleração da China não ameaça nem um pouco sua parte no sonho do Bric.

WSJ:E suponho que ao fim do período o sr. leva em conta um crescimento muito mais lento para a China.

O´Neill: Entre 2011 e 2050, ou seja, descartando esta década, temos o seguinte: 4,3% para o Brasil, 5,2% para a China, 6,3% para a Índia e 2,8% para a Rússia. A China vai crescer mais que isso este ano! Quando você olha para o pensamento da moda atual, as pessoas acham que o descasamento não aconteceu. Se você olha para o consumo interno, há evidências bem claras de que, embora tenha desacelerado um pouco, o consumo interno nos países do Bric está agora contribuindo significativamente mais do que os EUA, e o tem feito há três anos, para o crescimento global. Por isso, não acho que, até agora, esta crise tenha ameaçado nem um pouco o conceito do Bric. Deixe-me acrescentar um ponto controverso. Acho que o fato de os Brics serem sólidos vai ajudar a tirar os EUA desta bagunça porque vai permitir que as exportações americanas se recuperem e sejam uma parte importante do futuro da economia americana.

WSJ: O fenômeno Bric foi associado com um boom em commodities liderado pela China e pela Índia. Agora, quando a poeira assentar, o que vai acontecer com esse boom de commodities? Como os Brics vão lidar com isso?

O´Neill: De certa maneira, a Índia tem lidado com ela particularmente bem porque a alta dos preços das commodities não era boa para o país. Você está certo, especialmente no caso do Brasil, claro, que as pessoas associam o Bric com commodities. Rússia e Brasil são ambos grandes produtores de commodities e China e Índia são ambos grandes importadores de commodities. A grande alta dos preços de commodities, que se pode argumentar ter sido causada pela China crescendo 12% durante uns três anos, foi realmente boa para Rússia e Brasil, mas na verdade bastante ruim para a Índia, e eu diria que uma possível surpresa este ano, caso consigamos parar a deterioração da crise de crédito, é que a Índia pode se sair muito melhor mais cedo do que as pessoas pensam. O declínio nos preços das commodities é um grande fator positivo para a Índia.

WSJ: Mas é um grande fator negativo para Rússia e Brasil.

O´Neill: Argumentei durante três anos que não seria possível realmente dizer se Rússia e Brasil justificariam seu status de Bric até que passassem por um períodos de preços de commodities fracos.

WSJ: Então este é um teste maior para Brasil e Rússia do que para Índia e China?

O´Neill: Este não é nenhum teste para China e Índia. É decididamente um teste para Rússia e Brasil. E é um bom teste.

WSJ: Eles passarão?

O´Neill: Acho que a evidência no Brasil já é sim. A estrutura macroeconômica de melhores práticas que Lula adotou sete anos atrás está (…) demonstrando que o Brasil pode lidar com essa crise. O Brasil dos anos 70 aos 90 estaria tão ruim quanto a Rússia. Não estou certo de que a Rússia possa enfrentá-la e temo que não possa. Até agora, esta crise está demonstrando que a Rússia é dependente demais de commodities.

WSJ: Quando o sr. fala sobre o Brasil conseguindo enfrentar, o que quer dizer?

O´Neill: A moeda enfraqueceu, o mercado acionário enfraqueceu, mas diferentemente de crises brasileiras passadas eles não tiveram de aumentar as taxas de juros para conter a saída de capital, o que é um sinal muito poderoso.

WSJ: Já vimos a China tirar proveito de algumas oportunidades de compra para conseguir acesso a alguns recursos nacionais. O sr. acha que as empresas brasileiras podem ir ao ataque também?

O´Neill: Em minha experiência nos mercados financeiros, e esta é provavelmente a sexta crise que enfrento, o que define a longevidade e o sucesso das pessoas e empresas é como elas transformam uma crise numa oportunidade. É uma coisa muito difícil de fazer. Não dá para ignorar ou minimizar os problemas desta crise, mas ao mesmo tempo o melhor momento para expandir é perto do fim de uma crise.

WSJ: O sr. acha que estamos perto do fim da crise?

O´Neill: Desenvolvemos um indicador da crise em outubro, depois que o Lehman quebrou, que consiste numa série de diferentes variáveis do mercado monetário. Este indicador está agora (26 de fevereiro) de volta ao nível de quando o Bear Stearns quebrou. Isso me sugere que, embora estejamos obviamente numa recessão mundial muito severa, a crise financeira está mais perto do fim que do começo.

WSJ:No Brasil, por exemplo, há números contraditórios. Algumas pessoas estão assustadas com os números da produção industrial, mas houve listas de espera para a compra de alguns carros depois que o governo ofereceu alguns incentivos.

O´Neill: A psicologia dos mercados financeiros será sempre a mesma. De algumas maneiras a comunidade de investimento financeiro é realmente estúpida. As pessoas estão sempre assustadas quando não deviam e estão sempre empolgadas quando deviam estar assustadas. Por que as pessoas estavam comprando fundos de ações do Bric no começo de 2008, quando a valoração das empresas chinesas era o dobro das americanas? Em segundo lugar, a produção industrial estava realmente fraca no Brasil? É a mesma coisa em qualquer país do mundo. Mas todos esses dados não deveriam surpreender as pessoas, porque refletem o fato de que o sistema financeiro mundial parou em outubro. Por isso o que você tem de olhar realmente é para o consumidor. Se as pessoas estão começando a gastar um pouco mais em lugares como o Brasil, e ouvi a mesma coisa na China, isso é realmente importante.

WSJ: Mas as coisas ainda parecem bem feias. A produção está caindo em todas as partes, os EUA não fecharam ainda um plano coerente para lidar com os bancos…

O´Neill: Não digo que a crise econômica tenha acabado, o que estou dizendo é que a intensidade da crise financeira está mais próxima do fim.

WSJ: E o mercado financeiro antecipa a economia real.

O´Neill: Sim. Isso sugere para mim que em seis meses os números de produção industrial serão melhores. Não no mês que vem, em seis meses. A chave para isso tudo é a China. Se a China for melhor no segundo semestre deste ano, o que eu fortemente acho que acontecerá, então todo o caso do Bric vai voltar a ficar muito popular bem rapidamente.

14/03/2009 - 10:34h Comércio reage e cresce 1,4% em janeiro

Liquidações ajudam, mas é cedo para falar em recuperação, diz IBGE

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Jacqueline Farid – O Estado SP

O desempenho do comércio varejista surpreendeu em janeiro e trouxe um pouco de alívio ao fim de uma semana de notícias ruins na economia. As vendas do setor cresceram 1,4% ante dezembro, contrariando previsões de queda. Em relação a janeiro do ano passado, houve alta de 6%. Hiper e supermercados e móveis e eletrodomésticos garantiram os resultados.

Os analistas de mercado financeiro esperavam, em média, recuo 0,1% nas vendas em relação ao mês anterior. O técnico da coordenação de comércio e serviços do IBGE, Reinaldo Pereira, atribuiu a boa surpresa às promoções de início de ano para esvaziar estoques, mas citou também a continuidade de aumento da massa salarial e as iniciativas governamentais para incentivar o consumo, como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para automóveis e a nova tabela do Imposto de Renda.

Segundo Pereira, a crise elevou a quantidade de mercadoria armazenada nas lojas no último trimestre, o que levou a liquidações mais agressivas em janeiro. Até as vendas de bens duráveis como móveis e eletrodomésticos, que vinham registrando queda por causa da restrição de crédito, subiram 7,1% em janeiro em comparação a dezembro.

Apesar do desempenho positivo, Pereira ressaltou que houve perda de ritmo na expansão do varejo, revelada na comparação anual. Segundo ele, a alta de 6% ante janeiro de 2008 representou a menor expansão, para o primeiro mês do ano, desde janeiro de 2004. Em igual mês, o setor cresceu 11,8%, o melhor resultado da série iniciada em 2001. Ele disse que essa base de comparação elevada influenciou a desaceleração do crescimento em janeiro de 2009, mas houve também influência da crise. “Sem a crise, a perda de ritmo não seria tão forte.”

O chefe do departamento de economia da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Carlos Thadeu de Freitas, também credita os bons resultados de janeiro às promoções. “Os estoques estavam altos, ainda é cedo para dizer que a tendência de desaceleração vai mudar.”

A analista da Tendências Consultoria, Mariana Oliveira, também alerta que seria precipitado comemorar qualquer blindagem do varejo à crise. Ela considera que os dados de janeiro mostram que o comércio teve “fôlego surpreendente”, mas “seria prematuro afirmar que o comércio voltou a uma trajetória consistente de crescimento elevado”. Ela não descarta recuos nos próximos meses.

Segundo Mariana, os resultados de janeiro levaram a Tendências a colocar um viés positivo na projeção de aumento de 3,1% nas vendas do varejo este ano. Em 2008, as vendas cresceram 9,1%.

13/03/2009 - 11:42h Os limites do possível

“Concedei-nos, Senhor, Serenidade necessária, para aceitar as coisas que não podemos modificar, Coragem para modificar aquelas que podemos e Sabedoria para distinguirmos umas das outras.” – Reihold Niebuhr

Marcio Garcia – VALOR

O Banco Central reduziu a taxa Selic em 1,5 ponto percentual, para 11,25% ao ano, a mais baixa até agora registrada. Apesar disso, houve, mais uma vez, as manifestações de praxe culpando o BC por todos os males da economia, agora agravados com a crise. Mas a decisão também surpreendeu positivamente muitos dos que atribuem ao Copom uma atávica vontade de manter juros anormalmente elevados. A decisão unânime do Copom mostrou que o mesmo soube reagir adequadamente com base nas informações novas sobre a queda do nível de atividade e o repasse limitado da depreciação cambial à inflação.

Fossem as informações hoje disponíveis já conhecidas na ocasião das últimas reuniões, é possível que o Copom tivesse deixado a taxa Selic cair mais rápido. Análise da conjuntura econômica competente é insumo fundamental para a política monetária, e o Copom debruça-se sobre todos os dados conhecidos pelo público, bem como sobre aqueles aos quais apenas a autoridade monetária tem acesso. Mas não é possível prever sempre com precisão e, frente aos riscos mutuamente exclusivos de ficar um pouco “atrás da curva” ou deixar as expectativas inflacionárias saírem de controle, o BC deve atribuir sempre maior peso ao segundo risco. O mandato legal do BC é cumprir as metas para a inflação definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

De qualquer forma, uma eventual aceleração na queda dos juros não teria impedido a economia brasileira de ser afetada pela crise mundial. É um erro atribuir à política monetária a desaceleração da economia brasileira a partir do 4º trimestre de 2008. É preciso entender o que a política monetária pode fazer para mitigar os efeitos recessivos da crise e não ter ilusões quanto ao seu potencial.

Alguns analistas acham que se o BC tivesse cortado os juros já no 4º trimestre, poderia ter contido a queda do investimento, revertendo as expectativas recessivas. Talvez até pudesse ter ajudado, mas o efeito seria mínimo. Afinal, frente ao agravamento da crise mundial e à brusca queda dos preços das commodities, com grande retração das nossas exportações, seria difícil que juros menores reavivassem os “ânimos vitais” (animal spirits) dos empresários. Seja como for, a Selic tem pouca relevância para o investimento no Brasil, e a TJLP já está, há muito tempo, bastante baixa (6,25% ao ano). Quanto ao consumo das famílias, a retração dos bancos – reduzindo prazos, cancelando rolagens e aumentando spreads – teria feito grande estrago de todo jeito. Juros mais baixos teriam ajudado marginalmente, mas não revertido o efeito da crise mundial.

Houve manifestações após a decisão do Copom defendendo que o BC deveria, agora, focar exclusivamente em evitar a recessão, deixando de lado a inflação, que não constituiria mais risco. O BC jamais poderia fazer isso. Tem, por dever de ofício, que analisar ambos os riscos, dando prioridade à inflação. Piores foram declarações de próceres do PSDB incitando o presidente da República a intervir na condução da política monetária. É estranho e deplorável que o partido que, no poder, derrotou a hiperinflação e construiu o sistema de metas para inflação, agora pareça empenhado em desmontá-lo.

A Alemanha, que viveu uma hiperinflação nos longínquos anos 20, é conhecida por sua ojeriza à inflação e consequente conservadorismo, até hoje, quanto à política monetária. Já, no Brasil, que só tardiamente venceu a hiperinflação com o Plano Real, é comum se ouvir, ou ler, que a ameaça inflacionária é um bicho papão inventado pelo BC para justificar seu fascínio por juros altos. Muitos economistas defenderam no passado a ideia que uma pequena inflação era boa, pois ajudava a financiar o crescimento da economia. Outros tiveram participação ativa em colocar o país no caminho da hiperinflação, ao adotarem combate inflacionário via pretenso aumento da oferta em vez de redução de demanda. Essas mesmas pessoas, hoje, ridicularizam a política monetária que conseguiu, a duras penas, corrigir o desastroso resultado hiperinflacionário de seus erros.

O gráfico mostra que o sistema de metas para a inflação vem funcionando bem, recorrendo a uma medida da credibilidade da política monetária. No gráfico, mostra-se a meta para a inflação nos 12 meses seguintes, obtida via interpolação das metas anuais fixadas pelo CMN (linha preta). É mostrada, também, a média das expectativas do mercado financeiro, coletadas pelo BC, para a inflação nos 12 meses seguintes (linha cinza). A diferença entre a expectativa e a meta é uma medida de credibilidade do controle inflacionário. A série “hiato de credibilidade” (em formato de área) mede exatamente isso. O gráfico contém, também, a série da taxa Selic (linha pontilhada). Vê-se que a expectativa inflacionária subiu muito além da meta ao final de 2002, forçando a modificação da mesma, além da alta dos juros. Após esse episódio, as expectativas têm oscilado em torno da meta, consolidando a credibilidade da política monetária. A taxa Selic tem sido elevada e reduzida em torno de uma tendência de queda em médio prazo, de forma a fazer as expectativas de inflação, e a própria inflação, convergirem para a meta.

 

Clique no gráfico para ampliar
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Em suma, a taxa Selic deve continuar a cair para ajudar a mitigar a recessão, mas não a evitará; o poder de arrasto da parada brusca de fluxos de capitais e da queda da demanda externa é muito grande. Em qualquer caso, a baixa dos juros não deveria colocar em risco o sucesso na obtenção da meta para inflação. A política monetária brasileira vem cumprindo satisfatoriamente seu papel e não precisa nem deve ser alterada.

Marcio G. P. Garcia, PhD. por Stanford, professor do Departamento de Economia da PUC-Rio, escreve neste espaço uma sexta-feira a cada mês.

11/03/2009 - 11:08h A crise e a política econômica

Cristiano Romero – VALOR

Se alguém ainda acredita que o Brasil foi atingido apenas por uma marolinha da crise mundial, é bom dar uma olhada nos números do Produto Interno Bruto (PIB) no último trimestre de 2008. Uma boa imagem para retratar o que aconteceu é a do atleta que, correndo uma maratona, acelerou o passo nas últimas voltas, aproximou-se dos primeiros colocados, mas, repentinamente, escorregou e levou um tombo. O acidente não foi capaz de debilitá-lo de forma definitiva, mas ele ainda não sabe quando voltará a correr como antes.

No trimestre anterior ao do desastre, o PIB brasileiro cresceu, quando comparado ao mesmo período de 2007, 6,8% em termos anualizados. Entre outubro e dezembro, expandiu-se apenas 1,3% em relação ao último trimestre do ano anterior. Foi uma desaceleração brutal. Ainda assim, o resultado não foi capaz de tirar o brilho do desempenho de 2008, quando a economia cresceu, pelo segundo ano consecutivo, acima de 5%.

Está claro, portanto, que o que derrubou o PIB brasileiro nos últimos meses foi exclusivamente a crise financeira internacional, apontada por muitos analistas como a mais grave desde a Grande Depressão, de 1929. Não fosse a crise, o Brasil poderia ter fechado 2008 com a maior taxa de crescimento em duas décadas. E o melhor: com a inflação sob controle (dentro do intervalo de variação previsto no regime de metas).

O que levou o país ao seu melhor momento em quase 30 anos foi uma política persistente de estabilização iniciada em 1994, com o lançamento do Plano Real, aperfeiçoada em 1999, com a adoção do tripé superávit primário-câmbio flutuante-metas para inflação, e fortalecida em 2003, com a decisão do governo Lula de incrementar o esforço primário. A severa crise internacional, que reduziu fortemente a demanda externa e secou as fontes de financiamento, interrompeu o ciclo de crescimento da economia brasileira, mas não a desorganizou nem colocou em xeque o modelo adotado há dez anos.

Apesar da gravidade da crise, e ao contrário das turbulências anteriores, o Brasil não quebrou. Além disso, diferentemente de algumas nações emergentes, o país dispõe hoje de vários instrumentos, e os está utilizando, para enfrentar as dificuldades. Abandonar, a essa altura, o modelo escolhido e testado ao longo de uma década seria colocar em risco a construção institucional que, antes da crise, acelerou o crescimento. Por incrível que pareça, há, no governo, quem defenda mudança de rumo, mas, justiça seja feita, fora também – ontem, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, instou o presidente Lula a intervir no BC.

O diretor de Estudos Macroeconômicos do Ipea, João Sicsú, propôs que o Comitê de Política Monetária do BC (Copom) promova um corte significativo da taxa básica de juros (Selic) – ele não deixa sua proposição muito clara, porque, na verdade, recomenda que a taxa caia 5,75 pontos percentuais gradativamente até outubro, mas também sugere que se faça isso de uma só tacada, na reunião de hoje do Copom. Sicsú sustenta que a redução da Selic geraria economia fiscal em 2009 de algo entre R$ 30 bilhões (se a queda da Selic for gradual) e R$ 43 bilhões (se for imediata). Com isso, o governo manteria um dos componentes da demanda funcionando – o gasto público.

O cálculo foi feito sobre a parcela da dívida pública indexada à Selic. Não se levou em conta o que aconteceria com o restante da dívida e também com a inflação (em 11 páginas da nota técnica, a palavra não aparece uma só vez), na hipótese de uma redução imediata dos juros na magnitude sugerida por Sicsú. O corte da taxa Selic provocaria a deterioração imediata das expectativas de inflação. No momento em que isso acontecesse, a inflação implícita nos papéis indexados a índices de preços subiria. No momento em que o Tesouro fosse renovar essa parcela da dívida, o custo de rolagem aumentaria. Nos papéis prefixados, a curva de juros empinaria, porque haveria expectativa de inflação mais alta.

Hoje, registre-se, a curva de juros está flat para negativa, porque o mercado está projetando juros cadentes. As incertezas, que surgiriam em função do movimento sugerido por Sicsú, elevariam os prêmios de risco embutidos na dívida, contribuindo também para aumentar seu custo.

Sicsú trata a despesa oficial com juros como um gasto discricionário, algo que se decide fazer ou não. No texto, o diretor do Ipea diz que a despesa com juros “tem uma capacidade aproximadamente nula de gerar empregos e renda”, ao contrário dos investimentos em infraestrutura e dos gastos sociais. O sujeito que ganha dinheiro comprando títulos públicos, alega Sicsú, já tem “suas necessidades de consumo satisfeitas”. O que ele apura é transformado em poupança ou é gasto em “produtos importados que não geram empregos no país” – ora, se o sujeito que lucra emprestando ao governo tem sua “necessidade de consumo já satisfeita”, por que ele, quando torra os caraminguás, opta por comprar produtos estrangeiros?

Sicsú alega que a redução da Selic, neste momento de crise, estimularia de forma modesta o aumento dos gastos privados, mas teria efeitos fiscais importantes. “Cortar gastos sociais, correntes ou de investimento significa reduzir a demanda da economia e reduzir ainda mais as possibilidades de crescimento”, afirma.

Por trás da argumentação do diretor da Ipea está o conceito de dominância fiscal, segundo o qual, a definição dos juros pelo BC deve ser guiada por questões de natureza fiscal. Desde 1999, só houve um momento em que o Copom agiu desse maneira – em 2002, mas naquele momento a crise era genuinamente brasileira e o Estado caminhava para a insolvência. Nos anos seguintes, o país se livrou dessa armadilha e a taxa de juros voltou a ser calibrada apenas para controlar a inflação.

Neste momento, em todo o mundo, os bancos centrais estão derrubando os juros para tentar livrar suas economias da depressão. O BC brasileiro está no mesmo caminho. Há grande chance de promover uma forte queda da Selic nesta e nas próximas reuniões, sem descuidar, porém, da inflação. O modelo segue funcionando.

Cristiano Romeroé repórter especial e escreve às quartas-feiras.

11/03/2009 - 09:35h AL vê esvair cenário de recuperação rápida

México puxa a fila das vítimas na AL

Cerca de 80% das vendas externas são para os EUA e a queda no petróleo derrubou a receita de exportação

Marcos de Moura e Souza e Rodrigo Uchoa, de São Paulo – VALOR

A América Latina sentiu o golpe e as previsões de recuperação em relação à crise mundial já se alongaram para depois de 2010.

As economias mais abertas da região estão registrando contração acima da esperada, com forte queda da produção industrial e das exportações. Mesmo os países considerados mais preparados para enfrentar a crise, como o Chile, já veem evaporar as previsões de recuperação rápida.

Segundo a Cepal, órgão da ONU para América Latina e Caribe, a retomada do crescimento na região, antes prevista para o segundo semestre de 2009, não pode ser esperada agora “nem para o segundo semestre de 2010″.

No caso do Chile, a pesquisa mensal feita pelo BC do país com economistas, acadêmicos, consultores e executivos mostra que a expectativa deles em relação ao crescimento vem piorando paulatinamente. E, para o primeiro trimestre deste ano, eles esperam uma contração de 1,1%. Tomás Flores, um dos consultados, diz que todo este ano será bem negativo.

Em janeiro, os analistas consultados pelo BC esperavam que o Chile fechasse 2009 com crescimento de 5%. Agora, a mediana das estimativas é de crescimento de 1,2% – e há um número significativo de economistas que espera contração ou crescimento nulo.

O impacto na produção industrial tem sido maior do que esperado, dizem os analistas chilenos.

O México é outro que mostra fragilidade, principalmente porque cerca de 80% de suas vendas externas são para o EUA e porque a queda dos preços do petróleo derrubou a receitas com exportação.

“Das principais economias da região, o México é a que terá mais dificuldades de conseguir registrar crescimento este ano”, disse Jurgen Weller, especialista em Assuntos Econômicos da Divisão de Desenvolvimento Econômico da Cepal. A maioria dos países menores da América Central e Caribe – dada a forte dependência em relação aos EUA – também vai pelo caminho de desaceleração ou retração, a exemplo do México, diz ele.

No quarto trimestre, a segunda maior latino-americana encolheu 2,7% em relação ao terceiro trimestre. Foi uma retração menor do que a do Brasil, mas, por ter uma economia mais aberta que a brasileira, o panorama mexicano é mais sombrio, dizem os analistas. As exportações representam cerca de 30% do PIB do México, assim como no Chile, diz Alberto Ramos, economista da Goldman Sachs para a América Latina. “No Brasil, a economia mais fechada da região, o peso das exportações no PIB é de cerca de 12%.” Num momento de crise global isso pode ser uma virtude, mas num momento de recuperação geral, o país tende a demorar para voltar a crescer.

Ramos, que também vê o México como a economia da região mais exposta à crise, coloca Venezuela, Equador e, em menor grau, a Argentina na posição de países que têm adotado políticas heteredoxas, pouco atraentes aos investidores ou que não souberam aproveitar o boom das commodities para encher o caixa para momentos de desaceleração.

Na visão do analista da Goldman Sachs, Chile, Peru e Colômbia ainda são os países que mostram maior capacidade de enfrentar o cenário adverso. Os três são países que com manejo macroeconômico mais sólido que os vizinhos, diz Ramos. “O Brasil está mais perto desse grupo, embora pudesse ter feito mais para deter o crescimento sucessivo dos gastos correntes nos últimos quatro anos.”

Ramos lembra que o governo da presidente chilena, Michelle Bachelet, poupou o equivalente a 22% do PIB nos últimos três anos. O país registrou superávit fiscal de 5,2% do PIB em 2008 deverá ter neste ano um déficit de 4%. “O governo conseguirá financiar esse déficit com a economia que fez.”

Entretanto, segundo Rodrigo De Faro, economista da Universidade do Chile, o impacto nas exportações tem sido muito maior do que esperado. “Se a recuperação mundial não vier em 2010, não haverá como driblar a crise.”

As exportações do Chile caíram 41,7% nesses dois primeiros meses do ano, sendo que a baixa nas importações foi de 29%.

10/03/2009 - 10:24h PIB cresce 5,1% em 2008, apesar de cair no 4º trimestre

AE – Agencia Estado

RIO – A economia brasileira cresceu 5,1% em todo o ano passado, mas registrou forte desaceleração no quarto trimestre, quando o Produto Interno Bruto (PIB) caiu 3,6% em relação ao terceiro trimestre. Na comparação com o último trimestre de 2007, o PIB do quarto trimestre do ano passado subiu 1,3%.

Por setores, o PIB da indústria apresentou queda de 7,4% no período entre outubro e dezembro de 2008 em relação ao trimestre anterior. No mesmo período de comparação, o PIB da agropecuária recuou 0,5% e o PIB do setor de serviços teve contração de 0,4%. Em relação ao último trimestre de 2007, o PIB da indústria caiu 2,1%; o da agropecuária subiu 2,2% e o PIB de serviços teve alta de 2,5%.

Os números foram divulgados hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. O PIB é a soma das riquezas produzidas pelo País. Os números do quarto trimestre já mostraram os efeitos da crise financeira internacional na economia brasileira. A crise se agravou após a quebra do banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers, em meados de setembro de 2008.

09/03/2009 - 09:02h A queixa do governo

Ribamar Oliveira – O Estado SP

O Palácio do Planalto considera que o Brasil está sendo vítima de tratamento discriminatório por parte de alguns analistas. Alega que enquanto os governos de quase todos os países do mundo aumentam os seus gastos e o endividamento para evitar uma recessão ainda pior, um número considerável de economistas critica a idéia do governo brasileiro de reduzir o superávit primário deste ano para executar uma política fiscal que diminua os efeitos da crise.

”Os Estados Unidos projetam déficit nominal superior a 12% do PIB (Produto Interno Bruto) para o atual ano fiscal e ninguém critica. Aqui, falamos em reduzir um pouco o superávit primário e tem gente que acha que é o fim do mundo”, disse uma autoridade a este colunista. A mesma fonte lembrou que o déficit nominal do setor público brasileiro ficou em 2% do PIB no período de 12 meses terminado em janeiro deste ano, último dado do Banco Central (BC).

A avaliação feita pelo governo é que o mundo está em uma situação de excepcionalidade, sofrendo os efeitos da maior crise econômica depois da 2ª Guerra Mundial e não se pode, portanto, adotar os mesmos critérios na avaliação da política fiscal que se tinha antes. ”Mudou o paradigma”, disse a mesma fonte. ”O mundo vive uma situação excepcional e ela precisa ser enfrentada como tal”, observou.

A desaceleração da economia está afetando fortemente as receitas tributárias do governo federal, dos Estados e dos municípios. No caso federal, a queda da arrecadação este ano poderá superar R$ 30 bilhões em relação ao programado no Orçamento de 2009, estimam os técnicos.

O governo alega que a maior parte das despesas orçamentárias é obrigatória e não pode ser cortada por causa de dispositivos legais ou constitucionais, como é o caso dos salários do funcionalismo e das despesas previdenciárias. Como a receita vai cair muito, o corte teria que ser feito, portanto, nos investimentos. É isso o que o governo quer evitar, pois entende que a medida agravaria a crise. Para fechar as suas contas, a opção do governo é, portanto, reduzir o superávit primário.

Os críticos do governo argumentam que as despesas obrigatórias, com salários e Previdência, foram infladas por decisões imprevidentes do Palácio do Planalto, como os aumentos generalizados concedidos pelo presidente Lula aos servidores, e pela política de elevação continuada do valor real do salário mínimo. Essas decisões teriam sido adotadas, segundo os críticos, na perspectiva de que a economia continuaria crescendo 5% ao ano, mesmo com os sinais da crise internacional já presentes no horizonte.

No momento, a equipe econômica tenta encontrar um valor para o superávit primário que permita que a dívida pública líquida continue caindo em proporção ao PIB ou, na pior das hipóteses, fique estável. A equação é complexa porque existem três variáveis difíceis de serem previstas. A primeira delas é saber quanto a economia crescerá este ano. O PIB é o denominador da equação. Se ele crescer pouco ou cair, o valor do superávit terá que ser maior para que a dívida líquida continue em queda ou se estabilize.

Outra variável é a taxa de câmbio. Como o Brasil é credor líquido em dólar, ou seja, os seus ativos em dólares são maiores do que as suas dívidas nessa moeda, se o real continuar se desvalorizando ao longo deste ano, a dívida líquida cairá. Os técnicos acreditam que a taxa de câmbio manterá o atual patamar, em torno de R$ 2,30 por dólar. Com isso, o efeito do câmbio sobre a dívida será neutro.

Resta a questão dos juros. Para cada ponto porcentual de queda da Selic (a taxa básica de juro), o BC estima que a dívida líquida cai 0,25% do PIB. O ex-ministro da Fazenda Delfim Netto, um dos conselheiros informais do presidente Lula, estima que se a taxa de juro real (descontada a inflação) for reduzida para 6% ao ano, a dívida líquida cairá como proporção do PIB mesmo se o superávit primário do setor público for reduzido de 3,8% para 2,8% do PIB. A queda ocorrerá, segundo Delfim, mesmo que o PIB este ano encolha 1%. Se o juro real ficar em 7%, ele acredita que a dívida líquida será estabilizada em proporção do PIB. Hoje, a Selic real está acima de 7,5%.

Delfim ironiza aqueles que manifestam preocupação com a queda do superávit primário. ”A melhor coisa que os ”mercadistas” deveriam fazer é ficar quietinhos, pois eles venderam ilusões esses anos todos e nós estamos vendo onde foi parar a economia mundial”, disse o ex-ministro, em conversa com este colunista, numa referência aos economistas de linha mais conservadora. Para ele, o BC deveria reduzir a Selic em dois pontos porcentuais esta semana.

07/03/2009 - 11:36h Devagar demais

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Celso Ming, O Estado SP

celso.ming@grupoestado.com.br

A queda da produção industrial em janeiro foi mais profunda do que vinha sendo esperado pelos analistas e isso terá importantes consequências sobre o comportamento da economia.

São várias as causas dessa derrubada. Uma delas é a queda das exportações de manufaturados que se seguiu ao aprofundamento da recessão nos países ricos. Os números até fevereiro indicam que, neste início de ano, as exportações de produtos industrializados vêm se retraindo quase 30%.

Outra é a atitude mais conservadora do consumidor, que preferiu adiar suas compras para quando houver mais clareza sobre o futuro do seu emprego, e isso obriga a indústria a reduzir o giro de suas máquinas.

Mas o fator mais relevante na redução da produção industrial foi o estancamento do crédito externo. O fechamento do mercado internacional para a tomada de recursos empurrou as grandes empresas brasileiras, que até então se abasteciam de crédito em moeda estrangeira, para o mais disputado mercado interno de crédito. À medida que um maior número de interessados se enfiou debaixo do mesmo cobertor, mais pernas ficaram sobrando para fora. Assim, a insuficiência de crédito concorreu para estancar a produção industrial.

O impacto imediato já atingiu o desempenho do PIB, em proporção que ainda se desconhece. Se a produção industrial acumulada em 12 meses terminados em janeiro cresceu apenas 1%, e se o ano já começa com uma queda na atividade industrial de quase 31% (veja o gráfico), a recuperação nos próximos meses terá de ser muito forte para garantir um avanço do PIB em 2009 superior a 1%.

O outro impacto deverá acontecer na política monetária (política de juros) conduzida pelo Banco Central. Alguns analistas vêm afirmando que a forte desaceleração econômica e o aumento do desemprego são suficientemente altos para justificar uma redução até superior a 1,5% nos juros básicos (Selic), a serem fixados quarta-feira pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central. Com isso, fica a impressão de que o Copom passou a definir os juros pela variação da atividade econômica e pelo tamanho do desemprego, critérios diferentes dos estabelecidos por lei. Não é verdade. O Banco Central continua calibrando os juros com o único objetivo de empurrar a inflação para dentro da meta, que é de 4,5% em 2009.

O que se pode dizer é que o encolhimento do crédito determinado pelo jogo externo reduz substancialmente a eficiência de uma das principais correias de transmissão pelas quais o Banco Central conduz sua política de juros. Isso significa que pode aumentar a oferta de dinheiro na economia (reduzir os juros) sem perigo de produzir mais inflação.

Um a um, os analistas estão deitando suas apostas para definir o tamanho do corte dos juros nesta quarta-feira. A partir dos números que apontaram a deterioração do desempenho industrial, cresceu o número dos que preveem uma tesourada nos juros de 1,5%.

Mas o Banco Central, sempre tão conservador, olha para outros fatores, como, por exemplo, para o impacto inflacionário da alta do dólar, e pode manter o corte definido em janeiro, de apenas 1%, ou, quem sabe, não passar de um corte de 1,25%.

Confira

Dia D – Nesta terça-feira sai o PIB do quarto trimestre de 2008. Foi quando a produção industrial despencou.

O PIB de um trimestre sempre arrasta o PIB do período seguinte. Quanto mais baixo o ano começar, tanto mais difícil será a recuperação. Os especialistas já apontavam para todo este ano um crescimento do PIB inferior a 1,5%.

O principal impacto de um desempenho insatisfatório do PIB neste ano será político. Menos arrecadação deixa menos recursos para o governo gastar num período eleitoral complicado, porque o PMDB está cobrando cada vez mais caro.

06/03/2009 - 09:49h Indústria tem recuperação localizada

 

Silvia Costanti / Valor

Fernando Pimentel, diretor-superintendente da Abit: “Os estoques já acabaram no varejo e é hora da reposição”

Sergio Lamucci, Sergio Bueno e Vanessa Jurgenfeld, de São Paulo, Porto Alegre e Florianópolis – VALOR

Os impactos da crise financeira sobre a atividade industrial foram díspares em fevereiro. Segmentos cuja demanda está ligada à renda da população, como calçadistas e têxteis, já sentiram claramente uma recuperação de encomendas e consideram que a pior fase da crise passou. Para empresas e setores cuja produção é alimentada por crédito ou investimento, as realidades são distintas. Ao mesmo tempo em que grandes usinas siderúrgicas desligam alto-fornos, fabricantes de máquinas e equipamentos, como Randon e Marcopolo, já sentiram uma melhora nas encomendas em fevereiro e março. Mesmo as empresas e setores que relatam uma recuperação em fevereiro e neste começo de março, contudo, indicam queda de produção em relação ao mesmo período do ano passado.

Hoje o IBGE divulga o resultado da produção industrial de janeiro. Os analistas esperam forte crescimento em relação a dezembro de 2008, feito o ajuste sazonal. A LCA Consultores projeta alta de 9,2%. Na comparação com janeiro do ano passado, contudo, a estimativa é de recuo de 10,2%. O Santander aposta em crescimento de 11% sobre dezembro e queda de 9,5% em relação janeiro de 2008.

Entre os indicadores já conhecidos, venda de automóveis e consumo de energia indicam que fevereiro voltou a crescer sobre janeiro. O licenciamento de automóveis e comerciais leves atingiu a média diária de 10,9 mil unidades, mais que os 10,1 mil de janeiro deste ano e os 10,4 mil de fevereiro do ano passado, na série com ajuste sazonal calculada pela LCA. O resultado é efeito da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), destacam analistas e empresários do setor. O consumo diário de energia elétrica, por sua vez, atingiu a média de 50,2 MW em fevereiro, 2,7% a mais do que no mês anterior, também na série livre de influências sazonais. Em relação ao mesmo mês de 2008, houve queda de 0,59%.

O setor têxtil brasileiro acredita que o pior da crise já passou e vê sinais de melhora das encomendas nos últimos dias, após um primeiro bimestre fraco. “O varejo retomou os pedidos, está conseguindo girar seus estoques. Ainda vai levar algum tempo para que esse movimento ganhe velocidade, mas há bons indicativos para março”, diz Zeno Fischer, diretor de controladoria e planejamento da Lepper, de Joinville (SC). Indústria de cama, mesa e banho, a Lepper fechou o primeiro bimestre com queda de 10% nas vendas em relação ao igual período de 2008. Em fevereiro, até registrou uma melhora de vendas em relação a janeiro deste ano em torno de 20%, mas as vendas ficaram 10% abaixo do mesmo mês do ano passado. Segundo Fischer, apesar de um começo de ano de vendas em queda, a Lepper projeta crescimento de 10% no faturamento do ano, para R$ 145 milhões em 2009.

Para o diretor-superintendente da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), Fernando Pimentel, há sinais melhores no setor, mas fevereiro foi um período de vendas menores do que igual mês do ano passado. “Mas há um clima de retomada da atividade, os estoques já acabaram no varejo e é hora da reposição. Nossa expectativa é que o pior (da crise) tenha passado”, diz. Na sua avaliação, as empresas do setor não farão mais paradas de ajuste de estoques, e embora exista um crédito ainda caro e restrito, as têxteis poderão ter um desempenho no ano melhor do que outros setores porque as compras de vestuário dependem pouco de crédito.

Na Indústria São Roberto, que atua no segmento de papelão ondulado, as vendas em fevereiro caíram 10% em relação ao mesmo mês do ano passado, uma queda ligeiramente inferior aos 12% registrados em janeiro na comparação com janeiro de 2008. A expectativa do presidente da empresa, Roberto Nicolau Jeha, é de que em março haja uma queda de 5% sobre o mesmo mês de 2008. “Março começou um pouco melhor do que fevereiro”, diz ele, acrescentando que só acredita numa melhora mais consistente no segundo semestre. Jeha diz que a demanda por papelão ondulado caiu menos por parte de empresas de alimentos e produtos de limpeza. No caso das companhias que dependem mais do crédito, como fabricantes de televisores e eletrodomésticos, o tombo foi maior.

O presidente da distribuidora de aço Rio Negro, Carlos Loureiro, diz que houve uma melhora na demanda por parte da indústria automobilística, beneficiada pela redução do IPI para veículos. Segundo ele, montadoras e empresas de autopeças voltaram a comprar com mais força, o que ajudou um pouco nas vendas de fevereiro e continua a auxiliar nas de março. “Mas não houve melhora nos outros segmentos”, diz ele, dizendo que continua fraca a procura por parte de empresas de máquinas agrícolas, rodoviárias e equipamentos para infraestrutura.

A indústria calçadista iniciou o ano com cenários distintos no mercado interno e nas exportações. As vendas domésticas arrancaram bem, turbinadas em alguns casos por descontos e aumentos de prazos de pagamento. Os fabricantes aguardam a reposição dos estoques dos lojistas, em maio, para confirmar a tendência. As exportações recuaram 23,9% no primeiro bimestre em comparação com igual período de 2008, para
US$ 280,6 milhões, mas o setor espera algum crescimento em 2009, impulsionado pela desvalorização do real, após a queda em volume e faturamento no ano passado.

Segundo o diretor comercial da gaúcha Piccadilly, Marlon Martins, em janeiro e fevereiro a empresa aumentou prazos de pagamento em 30 dias e concedeu descontos de 5% a 15% em algumas linhas para estimular os negócios no mercado interno. O resultado foi um aumento de três vezes no volume de vendas em fevereiro na comparação com janeiro, para mais de 600 mil pares. Em relação ao mesmo período de 2008, a alta foi de 2,5 vezes, informa o executivo.

No mercado externo, o recuo das vendas apontado pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex) no bimestre deveu-se à demora na reposição dos estoques dos importadores em função da desaceleração econômica na América do Norte e Europa, avalia o diretor da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), Ricardo Wirth. “Não esperávamos uma queda tão alta, mas não chegou a ser surpreendente.” Em fevereiro, as exportações renderam US$ 138 milhões, 3,3% a menos do que em janeiro e 29,3% abaixo do mesmo mês de 2008. Para o empresário, março ainda será um mês de “transição” entre as encomendas das coleções de verão e de inverno para o hemisfério norte.

Alguns setores e empresas ainda não sentiram recuperação da atividade, como a Usiminas e a CSN. A primeira anunciou que vai paralisar, a partir de segunda-feira e por tempo indeterminado, o alto-forno n 1 da usina de Cubatão na Baixada Santista. A CSN, que também produz aços planos, vai paralisar por 40 dias o alto-forno n 2, que responde por 40% da produção da usina de Volta Redonda (RJ). O presidente da Usiminas, Marco Antônio Castello Branco, justificou a decisão pela falta de sinais mais consistentes de demanda para o segundo trimestre.

Por outro lado, a Marcopolo, maior fabricante brasileira de carrocerias para ônibus, após fechar o primeiro bimestre com vendas 10% menores, sentiu recuperação em março. A Randon, que produz implementos agrícolas, também espera retomada das vendas.

04/03/2009 - 09:30h Desoneração para compra de carro vai continuar

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/images/cp04032009.jpg

Anúncio sobre IPI só ocorrerá no fim do mês

No entendimento do governo, se consumidor souber com antecedência da prorrogação do incentivo, poderá adiar compra de carro

Apesar da queda na receita com o imposto, Planalto avalia que medida ajudou a impedir uma crise de maior proporção no setor

KENNEDY ALENCAR – FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O governo federal decidiu prorrogar por mais três meses, do início de abril ao final de junho, a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) cobrado na venda de veículos. Segundo a Folha apurou, o presidente Lula está convencido de que essa foi uma das medidas que deram certo no combate aos efeitos negativos da crise econômica global.
A prorrogação do incentivo, que vigoraria até o dia 31, ocorre em meio à queda na arrecadação e ao aumento dos gastos oficiais em razão da desaceleração econômica, movimento que já comprometeu o relativo equilíbrio fiscal que o governo Lula vinha mantendo.
Adotado em dezembro para estimular as vendas no setor automotivo, o incentivo tinha renúncia fiscal estimada em R$ 1,35 bilhão no período de quatro meses. Com a redução, a arrecadação de IPI sobre veículos teve queda de 91% em janeiro ante igual período de 2008 e de 88,56% sobre dezembro.
A cúpula do governo avalia que esse é um efeito pequeno sobre a arrecadação se comparado à possibilidade de demissões no setor de veículos, caso não tivesse adotado a medida.
Uma queda muito forte nas vendas também afetaria a arrecadação. Logo, o preço da renúncia fiscal seria menor do que arrecadar menos IPI com um setor simbólico em crise.
Nas palavras de um ministro, como a cadeia produtiva do setor automobilístico é longa (emprega muita gente), o anúncio de demissões poderia gerar um efeito psicológico negativo para a economia. Ele citou como exemplo a recente demissão de 4.000 trabalhadores da Embraer. Na indústria automobilística, seria um número bem maior.
A Folha apurou que o governo vai esperar até o final do mês para anunciar a prorrogação da isenção do IPI e que não deverá confirmar a decisão até o último momento. Assim, evita uma queda nos números do mercado neste mês. Afinal, a medida tem caráter de “promoção” por tempo limitado. Se o consumidor souber agora que poderá comprar em abril nas mesmas condições, poderá esperar um pouco mais.
A redução do IPI ajudou na recuperação da venda de veículos, que teve alta de 0,15% em fevereiro ante o mesmo período do ano passado. Na comparação mensal, as vendas cresceram em dezembro (184 mil unidades), em janeiro (189 mil) e em fevereiro (191 mil).
A redução em dezembro fez com que o IPI de carros populares, de 1.000 cilindradas, caísse de 7% para zero. A medida também beneficiou veículos entre 1.000 e 2.000 cilindradas (veja quadro ao lado).
Além da redução de impostos, o governo também aumentou a oferta de crédito para o financiamento de veículos por meio do Banco do Brasil.
A avaliação do Planalto é que essa medida ajudou a evitar uma crise de grandes proporções no setor. Como o governo acredita que o segundo trimestre ainda sofrerá efeitos negativos da crise, a prorrogação do IPI faz parte da estratégia de comunicação do Planalto, que prega que o Brasil deverá sofrer menos do que outros países nesta crise.
Pesa ainda a favor da decisão de prorrogação do IPI a pressão das centrais sindicais, com forte presença na indústria automobilística. Não está definido se haverá eventual contrapartida das empresas. Sindicalistas têm defendido que o governo cobre a manutenção de empregos em troca de medidas setoriais de incentivo, como a redução do IPI sobre veículos.

03/03/2009 - 12:02h “Subprime” eram só uma pequena fração do problema

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A vingança do excedente de poupança

PAUL KRUGMAN DO “NEW YORK TIMES”  - FOLHA SP

LEMBRAM-SE dos bons e velhos dias, quando costumávamos falar sobre a “crise do subprime” e havia até quem dissesse que a crise poderia ser “contida”? Ah, a nostalgia!
Hoje, sabemos que os empréstimos hipotecários de risco (”subprime”) eram só uma pequena fração do problema. Até os maus créditos habitacionais, em termos mais amplos, eram apenas parte do que houve de errado. Vivemos em um mundo de devedores problemáticos, de incorporadores de shoppings nos EUA às economias “milagrosas” da Europa, e novos tipos de títulos problemáticos de dívida não param de surgir.
Como aconteceu essa crise mundial da dívida? Por que ela se espalhou tanto? A resposta, eu sugeriria, pode ser encontrada em um discurso pronunciado quatro anos atrás por Ben Bernanke, hoje presidente do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA). Na época, Bernanke estava tentando reconfortar o mercado. Mas o que disse então ainda assim serviu de prenúncio ao colapso que se seguiria.
O discurso, intitulado “o excedente mundial de poupança e o déficit dos EUA em conta corrente”, oferecia uma explicação nova para a rápida ascensão do déficit comercial americano no início do século 21. As causas, argumentava Bernanke, estavam não nos EUA mas na Ásia.
Na metade dos anos 90, ele argumentou, as economias emergentes da Ásia eram grandes importadoras de capital, tomando empréstimos no exterior a fim de financiar seu desenvolvimento. Mas, depois da crise financeira asiática de 1997/8 (que parecia muito grave, mas hoje soa trivial, comparada aos atuais acontecimentos), esses países começaram a se proteger ao acumular imensas reservas de ativos estrangeiros; na prática, exportavam capital ao restante do mundo.
O resultado foi um planeta com muito capital barato à procura de algum destino.

Dinheiro nos EUA
A maioria desse dinheiro terminou nos EUA -daí o imenso déficit comercial do país, já que déficits comerciais são o avesso da moeda dos fluxos de capital. Mas, como Bernanke corretamente apontou, também houve forte fluxo de dinheiro para outros países. Entre eles, merecem menção especial alguns poucos países europeus de menor porte que, ainda que tenham registrado fluxos brutos inferiores aos acumulados pelo mercado americano, receberam mais capital em proporção à dimensão de suas economias.
Ainda assim, boa parte do excedente mundial de poupança veio parar nos EUA. Por quê?
Bernanke mencionou “a profundidade e a sofisticação dos mercados financeiros do país (que, entre outras coisas, permitem aos domicílios acesso fácil ao patrimônio imobiliário)”. Profundidade, sim. Mas sofisticação? Bem, seria possível dizer que os banqueiros americanos, estimulados por um quarto de século de desregulamentação, lideraram o mundo em termos da descoberta de formas sofisticadas de enriquecer ao iludir os investidores.
E sistemas financeiros muito abertos e frouxamente regulamentados caracterizavam muitos dos demais recipientes de grande fluxos de capital. Isso pode explicar a correlação quase sobrenatural entre os elogios dos conservadores três anos atrás e o atual desastre econômico. “As reformas fizeram da Islândia um tigre nórdico”, dizia estudo do Cato Institute.
“Como a Irlanda se transformou no tigre céltico” era o título de artigo da Heritage Foundation. “O milagre econômico estoniano” servia de título a outra avaliação. Os três países estão em profunda crise, agora.

Ilusão de riqueza
Por algum tempo, o fluxo de capital criou uma ilusão de riqueza nesses países, da mesma maneira que o fez para os proprietários de imóveis americanos: os preços dos ativos estavam em alta, as moedas eram fortes e tudo parecia bem. Mas bolhas sempre estouram, mais cedo ou mais tarde, e os milagres econômicos de ontem são as economias-problema de hoje, nações cujos ativos evaporaram mas cujas dívidas são muito reais. E essas dívidas são um fardo especialmente pesado porque a maioria dos empréstimos era denominada em moedas de outros países.
O dano tampouco se confina aos devedores originais. Nos EUA, a bolha da habitação ocorreu principalmente ao longo das duas costas, mas, quando ela estourou, a demanda por bens industrializados, especialmente automóveis, entrou em colapso e isso teve custo terrível para o coração industrial do país. De maneira semelhante, as bolhas europeias ocorreram principalmente nas periferias do continente, mas a produção industrial da Alemanha -que jamais passou por uma bolha financeira e é o coração industrial da Europa- está caindo rapidamente, graças a queda profunda nas exportações.
Se você quer saber de onde veio a crise financeira, pense no assunto assim: estamos assistindo à vingança do excedente.
E o excedente de poupança continua lá. De fato, agora se tornou ainda maior, porque os consumidores empobrecidos redescobriram as virtudes da parcimônia, e o boom imobiliário mundial, que oferecia um veículo para o investimento do excesso de poupança, transformou-se em contração mundial.
Uma maneira de observar a situação global agora é compreender que estamos sofrendo de um paradoxo de poupança: em todo o mundo, os montantes economizados excedem o total que as empresas estão dispostas a investir. E o resultado é uma desaceleração mundial que causa perdas a todos.
Portanto, foi assim que essa confusão começou. E ainda estamos tentando descobrir como sair dela.


PAUL KRUGMAN , economista, é colunista do “New York Times” e professor na Universidade Princeton (EUA).Tradução de PAULO MIGLIACCI

03/03/2009 - 10:59h Crise golpeia indústria do etanol nos EUA

http://3.bp.blogspot.com/_iSrbcL_BPVY/SFMBRSSEFOI/AAAAAAAAA1Q/gUp1FcjZsCs/s200/corn%2Bethanol.jpghttp://1.bp.blogspot.com/_2c6c5OwUiZQ/SGBZkW1p_SI/AAAAAAAAAAc/uYtSKTkoTBc/s400/ethanol.jpg

Ricardo Balthazar, de San Antonio (EUA) – VALOR

A crise econômica internacional atirou a indústria de etanol dos Estados Unidos numa encruzilhada, interrompendo a expansão vertiginosa observada nos últimos três anos e alimentando dúvidas sobre sua capacidade de sobrevivência sem mudanças nas políticas governamentais que estimulam a produção de biocombustíveis no país.

Pelo menos 23 usinas americanas fecharam as portas nos últimos meses. Instalações capazes de processar 6,4 bilhões de litros de álcool por ano tornaram-se ociosas, o equivalente a um quarto da produção anual das destilarias brasileiras. Uma das maiores empresas do setor, a VeraSun, pediu concordata e pôs à venda cinco das suas 16 usinas.

O consumo de combustíveis está caindo nos EUA, porque as pessoas estão dirigindo seus carros com menos frequência para economizar e enfrentar a recessão. Isso reduziu a demanda por etanol, que as refinarias americanas usam principalmente como aditivo na composição da gasolina. A capacidade instalada nas usinas do país é hoje mais do que suficiente para atender às necessidades das refinarias.

A desaceleração da economia mundial também causou uma queda acentuada dos preços do petróleo no mercado internacional, tornando a gasolina mais barata que o etanol nos EUA e reduzindo o interesse das refinarias pelo combustível alternativo. As refinarias agora têm adquirido apenas o volume mínimo de álcool necessário para cumprir exigências da legislação.

As cotações do etanol no mercado americano caíram 46% desde o pico alcançado em meados do ano passado, de acordo com o economista John Urbanchuk, um veterano consultor da indústria. O milho usado como matéria-prima para fazer etanol nos EUA também ficou mais barato, mas seus preços continuam em níveis historicamente elevados, encarecendo os custos das usinas.

Isso tem comprimido as margens de lucro da indústria, tornando especialmente vulneráveis empresas como a VeraSun, que se endividaram bastante nos últimos anos para aumentar sua capacidade de produção. Investidores que no passado recente apostaram alto no setor agora pensam duas vezes antes de sacar o talão de cheques.

Até grandes grupos como a Archer Daniels Midland (ADM) foram afetados. Suas usinas têm condições de produzir 4 bilhões de litros de etanol por ano e tiveram um prejuízo de US$ 111 milhões no último trimestre. A perda anulou quase todos os ganhos obtidos pela ADM com adoçantes e outros produtos derivados do milho que ela também vende.

“Fomos golpeados por uma tempestade perfeita, uma combinação perversa de fatores adversos”, diz Bob Dinneen, presidente da Associação dos Combustíveis Renováveis (RFA, na sigla em inglês), organização que defende os interesses das usinas americanas e realizou na semana passada uma conferência para avaliar o estado da indústria.

Os Estados Unidos produziram 34 bilhões de litros de etanol no ano passado. As metas fixadas pela legislação americana determinam que as refinarias ampliem o consumo para 40 bilhões de litros neste ano, o dobro do que elas consumiram em 2006. Será difícil cumprir a meta se a economia demorar para se recuperar e os motoristas mantiverem seus carros parados nas garagens.

Ao contrário do que ocorre no Brasil, onde os postos de distribuição vendem álcool e gasolina separadamente e boa parte da frota de automóveis foi projetada para rodar com os dois tipos de combustível, nos EUA não existe a infraestrutura necessária para fazer isso e poucos carros têm motores bicombustíveis, o que restringe o potencial de expansão das usinas americanas.

A indústria está pressionando o governo e o Congresso a autorizar a venda de gasolina com concentrações de álcool maiores do que a permitida pela legislação atual, o que poderia ampliar rapidamente a demanda por etanol no mercado americano. Hoje, a mistura do álcool à gasolina é limitada a 10% nos EUA. As usinas gostariam de ver o limite elevado para perto de 15%.

O problema é que as montadoras de automóveis e os fabricantes de motores resistem a essa mudança. O governo tem feito testes para avaliar o desempenho de vários motores com diferentes misturas de gasolina e álcool. Resultados preliminares sugerem que alguns motores funcionariam mal com concentrações de álcool superiores a 10% e outros romperiam limites estabelecidos pelas leis ambientais para emissão de poluentes.

As montadoras temem ser soterradas por uma avalanche de processos judiciais se a mudança for aprovada. “Precisamos nos proteger contra as ações que virão se os consumidores forem forçados a usar um combustível para o qual os motores de seus carros não foram projetados”, afirma Mark Maher, um executivo da General Motors que acompanha os testes em andamento.

As dificuldades da indústria dos EUA sugerem que o Brasil continuará enfrentando barreiras se quiser exportar volumes maiores de álcool para o cobiçado mercado americano. As tarifas que protegem o setor nos EUA encarecem o etanol importado das usinas brasileiras, que extraem o combustível da cana-de-açúcar e são mais competitivas que as destilarias americanas.

O Brasil vendeu mais de 2 bilhões de litros de etanol para os EUA em 2006. Como o petróleo estava em alta nessa época e as usinas americanas ainda não conseguiam suprir sozinhas a demanda interna, os produtores brasileiros conseguiram fazer bons negócios mesmo pagando as tarifas. No ano passado, os americanos consumiram muito mais etanol do que em 2006, mas o Brasil exportou para os EUA apenas 1,7 bilhão de litros.

23/02/2009 - 09:26h Nem todo mundo está afundando

http://www.atribunamt.com.br/wp-content/images/imagens_do_dia/16-12-07/Construcao%20civil%20-%2011-10-07.jpghttp://www.tudook.com/brasil/lang1/images/brasil-turismo.jpg

Ribamar Oliveira O Estado SP

Todos os dados econômicos relativos a dezembro do ano passado e a janeiro deste ano indicam que a crise internacional atingiu de forma mais dura, até agora, o setor industrial brasileiro. É importante observar que alguns ramos de atividade foram menos atingidos e outros até mesmo estão crescendo de forma expressiva, como é o caso do turismo interno, que avançou 20% de outubro de 2008 a janeiro. A indústria da construção civil e o setor de serviços também estão em expansão, embora em ritmo mais lento.

A massa salarial e a renda dos trabalhadores ainda estavam em crescimento até o mês passado, o que aparentemente explica os impactos diferenciados da crise na economia brasileira. O aumento da massa salarial e do rendimento não apenas sustentou a atividade de alguns setores, mas impediu uma queda mais expressiva da arrecadação tributária federal.

Para se ter uma ideia, a receita do Imposto de Renda sobre rendimentos do trabalho subiu 23% em janeiro, em termos reais (descontada a inflação), em comparação com o mesmo mês de 2008. A arrecadação do Imposto de Renda das pessoas jurídicas que declaram pelo lucro presumido cresceu 6,64% em janeiro, em termos reais, em comparação com igual mês do ano passado.

O coordenador geral de Estudo, Previsão e Análise da Receita Federal, Marcelo Lettieri, disse que o crescimento da arrecadação com base no lucro presumido é a melhor indicação de que a rentabilidade das empresas brasileiras ainda não foi afetada pela crise. Mas a arrecadação de janeiro refletiu a situação econômica de dezembro de 2008, ou seja, a receita do mês passado é relativa aos fatos geradores de dezembro passado. É provável que a rentabilidade das empresas piore com o desdobramento da crise, com reflexos negativos sobre a arrecadação.

Em dezembro, enquanto os setores de metalurgia, de eletricidade, de extração mineral, de fabricação de veículos automotores e de transporte terrestre apresentaram queda expressiva de arrecadação (em um deles, chegou a cair 55,4%), em outros ramos de atividade a receita tributária aumentou.

No setor de captação, tratamento e distribuição de água, por exemplo, a receita tributária cresceu 70,1% em janeiro em comparação com o mesmo mês do ano passado. Houve expansão também na construção de edifícios, no comércio atacadista (exceto automóveis) e nas áreas de seguro, resseguro, previdência complementar e plano de saúde. A Secretaria da Receita Federal do Brasil (SRFB) identificou um aumento de 60,6% na arrecadação do setor de obras de infraestrutura, o que, em parte, resultaria do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Em janeiro deste ano, o nível de emprego formal (com carteira assinada) apresentou uma queda de 0,32% em relação ao estoque do mês anterior, significando uma perda de 101.748 vagas, segundo os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). O IBGE apontou que o contingente de desempregados cresceu 20,6% em janeiro em relação a dezembro de 2008. No mês passado, o número total de desempregados subiu 323 mil nas seis principais regiões metropolitanas do País, segundo o IBGE.

Os dados do Caged mostram, no entanto, que alguns setores apresentaram resultados favoráveis no mês de janeiro. No ramo da construção civil, por exemplo, 11.324 postos de trabalho foram criados, quase a mesma quantidade de postos criados em janeiro do ano passado (11.708). O setor de serviços criou 2.452 novas vagas, enquanto na administração pública houve expansão de 2.234 postos.

No setor industrial ocorreu uma verdadeira tragédia. A indústria de transformação fechou 55.130 postos de trabalho em janeiro, segundo o Caged. O comércio fechou 50.781 vagas, mas, neste caso, as demissões se concentraram mais nos chamados trabalhadores temporários – aqueles contratados em decorrência das festas de fim de ano. De qualquer forma, a demissão deles resultou da desaceleração econômica, pois se a atividade estivesse em expansão os temporários poderiam ser efetivados.

É difícil fazer um prognóstico para os próximos meses, mas parece inevitável que o aumento do desemprego termine afetando a expansão da massa salarial e o rendimento do trabalhador. O significativo aumento do salário mínimo este ano e uma política fiscal expansionista do governo federal poderão amenizar esse efeito e reduzir o impacto da crise sobre a atividade econômica, principalmente sobre os setores que ainda mostram certo dinamismo.

BC vai mudar a previsão de crescimento

Mesmo que a meta de crescimento econômico este ano para o Palácio do Planalto seja de 4%, é muito provável que o Banco Central (BC), em seu primeiro relatório de inflação de 2009, que será divulgado em março, reduza sua previsão para a expansão da atividade econômica. No seu relatório de dezembro do ano passado, o BC projetou um crescimento de 3,2% para este ano. Nos bastidores, os técnicos já trabalham com 1,5% de expansão. É provável que este seja o número a ser colocado no relatório de inflação de março. Ainda vai ser um bom crescimento, quando se considera que o mundo não crescerá nada.

21/02/2009 - 10:08h Roach prevê contração de 1% na economia global

Para o presidente do Morgan Stanley na Ásia, em 2010 poderá haver expansão de 2,5% a 3%, haverá nova retração no ano seguinte

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Cláudia Trevisan – O Estado SP

A economia global deverá encolher 1% este ano, na primeira queda desde o fim da 2ª Guerra Mundial, enquanto o o crescimento da China ficará em torno de 5,5%, o menor em 19 anos. Essas previsões foram feitas ontem pelo presidente do Morgan Stanley na Ásia, Stephen Roach, célebre por alertar para o potencial devastador dos desequilíbrios globais muito antes de a crise atual ter início.

Para ele, a situação poderá melhorar em 2010, com expansão mundial entre 2,5% a 3%, impulsionada principalmente pelos investimentos em infraestrutura previstos nos pacotes de estímulo de Washington e Pequim.

Mas a economia poderá perder fôlego novamente no ano seguinte. O resultado serão três anos (2009-2011) com crescimento médio mundial de 2%. “Teremos contrações simultâneas em todos os grandes países ricos e recessão ou desaceleração no mundo em desenvolvimento”, disse Roach, durante encontro com um grupo de jornalistas em Pequim.

Segundo ele, a economia chinesa está em pior situação que o crescimento de 6,8% no quarto trimestre de 2008 leva a crer. Na comparação com o trimestre anterior, o ritmo de expansão ficou próximo de zero e deverá permanecer assim no início de 2009, acredita.

Pelo menos desde 2004, o economista sustentava que o modelo de crescimento norte-americano, amparado no consumo e no endividamento excessivos, era insustentável e terminaria em uma severa recessão. Seu cenário demorou a se concretizar, mas seus efeitos se espalharam com rapidez impressionante pelo mundo a partir de setembro de 2008.

“Os consumidores norte-americanos gastaram muito além do que podiam nos últimos 14 anos e o consumo atingiu o recorde de 72% do PIB em 2007″, ressaltou. Agora, Roach espera um período de 3 a 5 anos de “redução significativa” no crescimento do consumo nos Estados Unidos.

Washington e Pequim estarão no centro dos ajustes necessários para a superação da crise, observou o economista. “Os Estados Unidos precisam poupar mais e consumir menos, enquanto a China precisa poupar menos e consumir mais.”

PROTECIONISMO

O grande risco é que a recessão nos Estados Unidos leve o Congresso e o governo a adotarem medidas protecionistas, algo já insinuado na cláusula do pacote de US$ 787 bilhões que exige que o aço e o ferro utilizado em projetos governamentais sejam produzidos nos Estados Unidos. A China reagiu e disse que a medida poderá minar o relacionamento entre os dois países.

Na terça-feira, Roach, em depoimento no Congresso americano, sustentou que medidas protecionistas vão agravar os problemas dos Estados Unidos e do restante do mundo. “Nenhuma relação bilateral é mais importante para o mundo do que a existente entre os Estados Unidos e a China e será trágico se esse relacionamento for prejudicado”, disse Roach.

No Congresso, ele lembrou que a China é o principal financiador do colossal déficit em conta corrente americano e afirmou que Pequim poderia retaliar, se ausentando dos leilões de venda de títulos do Tesouro.

“Essa não é uma consideração trivial para um país que precisa de cerca de US$ 3 bilhões de fluxo de capital a cada dia para financiar seu déficit. Se a China deixar de prover sua parcela de capital para a América, a cotação do dólar poderá despencar e a taxa de juros real de longo prazo, subir.”

No fim de 2009, a China tinha US$ 696,2 bilhões em papéis do Tesouro dos EUA, uma participação de 22,3% na dívida total, de US$ 3,12 trilhões.

16/02/2009 - 08:56h Aumento real do mínimo injeta R$ 21 bi e reduz crise

Aliada à inflação menor, alta real de 6,4% do salário fortalece mercado interno

Setores como alimentos, roupas e fármacos e regiões como Norte, Nordeste e Centro-Oeste devem ser mais beneficiados

PEDRO SOARES – FOLHA SP

DA SUCURSAL DO RIO

Reajustado neste mês em 6,4% em termos reais, o novo salário mínimo de R$ 465 injetará diretamente na economia R$ 21 bilhões pelos cálculos do Ministério do Trabalho e será um importante instrumento de política anticíclica nestes tempos de crise, segundo especialistas. Permitirá, dizem, manter algum dinamismo em setores que dependem da expansão da renda, como o de alimentos.

Para Fábio Romão, economista da LCA, o aumento do mínimo, aliado à inflação menor neste ano, vai sustentar o consumo de alimentos e outros bens semi e não-duráveis (como roupas, calçados e produtos de limpeza e de higiene pessoal) e amortecer o impacto da crise tanto na produção como no emprego. O reajuste real também terá mais peso nas regiões onde a penetração do mínimo é maior, como Norte, Nordeste e Centro-Oeste.

Antes mesmo do aumento total de 12,05% do mínimo, o desempenho dos setores ligados à renda já destoava do resto. De outubro a dezembro, a indústria geral registrou tombo sem precedentes em crises anteriores, de 19,8%. Mas, em alimentos, a queda foi suave -0,7%, a menor dos ramos.

Só registraram expansão bebidas (0,2%), também dependente da renda, e outros veículos automotores (20,1%), por causa da fabricação de aviões encomendados antes da crise, contra queda de 54% na produção de veículos, diz o IBGE.

Isabella Nunes, do IBGE, diz que os ramos ligados à renda já tiveram resultados um pouco melhores nos três últimos meses de 2008 -quando a indústria sentiu, progressivamente, o forte baque da crise.

“A indústria desabou em dezembro, mas a renda ainda sustenta um pouco os não-duráveis.” Em dezembro, a produção da indústria geral caiu 14,5% ante dezembro de 2007 -a maior retração desde 1991. Naquele mês, outro ramo ligado à renda, a indústria farmacêutica, cresceu 11,7%.
Para Nunes, uma eventual estabilidade do mercado de trabalho e o efeito do reajuste do salário mínimo jogarão um papel importante para definir o rumo da economia neste ano.

Já Romão vê o mínimo como um “amortecedor” da crise, mas que não impedirá uma desaceleração do ritmo da atividade. Regionalmente, os Estados do Nordeste já registraram em dezembro resultados “menos ruins”, diz Romão, justamente por causa do maior peso das indústrias de semi e não-duráveis. Tiveram recuos abaixo da média de 14,5% as indústrias de Pernambuco (-6,2%) e Ceará (-3,9%). Goiás registrou expansão -1,1%-, impulsionado pela indústria de alimentos, cujo peso é de 66% no Estado.

“Sentiremos a crise, mas menos que os outros setores. A produção deu pequena desacelerada, mas estamos otimistas. A indústria de alimentos deve crescer 3% no ano, e o aumento real do mínimo ajudará o consumo”, diz Denis Ribeiro, da Abia (Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação).

Segundo Ciro Mortella, presidente da Febrafarma (Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica), o setor ainda não sente o impacto da crise na produção, mas também não deve ficar inume. “Seremos afetados, mas em menor escala.”

Reajuste do mínimo e queda da inflação devem manter rendimento real em alta

DA SUCURSAL DO RIO

O reajuste do salário mínimo e a menor inflação em 2009 -projetada pela LCA em 4,7%, abaixo do IPCA de 5,90% em 2008- devem manter o rendimento real em alta neste ano, segundo Fábio Romão, economista da consultoria. Em dezembro, a renda nas seis maiores regiões metropolitanas do país cresceu 3,6%, menor do que nos meses anteriores. Na média de 2008, subiu 3,4%.
Já o impacto no emprego, diz, será maior na indústria e menos intenso nos serviços, o que deve conferir um desempenho melhor às metrópoles, onde se concentra o setor.
Em dezembro, esse perfil já se delineava. O emprego industrial cresceu 1,5% na região metropolitana de São Paulo, contra uma expansão de 4,5% nos serviços, segundo dados da Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE elaborados pela LCA.
“Para a indústria, o pior momento foi o último trimestre do ano passado. O cenário ainda é ruim, mas tende a se recuperar um pouco. Comércio e serviços vão sentir os efeitos da crise com mais defasagem e com menor intensidade”, diz Romão.
Na pesquisa de emprego e salário na indústria do IBGE, o nível de ocupação se sustentou na maior parte dos setores no quarto trimestre de 2008, mesmo naqueles que lideraram a queda de produção. São os casos de metalurgia básica (7%), máquinas e equipamentos (5,8%), material eletroeletrônico e de comunicações (5,8%) e meios de transporte (4,1%). Todos se desaceleram na comparação com setembro. No último trimestre de 2008, se destacou o emprego na indústria extrativa (3,8%), impulsionada pelo setor de petróleo e gás.
Os ramos intensivos em mão-de-obra e que já vinham com desempenho negativo aprofundaram a tendência de queda no nível de emprego. Os piores desempenhos no quarto trimestre ficaram com fumo (8,3%), têxtil (5,8%), vestuário (8,5%), calçados (7,4%) e madeira (11%), segundo o IBGE.
“No acumulado de 2008, os setores que lideraram a produção, como máquinas e equipamentos e veículos, também foram os que mais geraram empregos, especialmente por causa do bom desempenho até setembro”, afirma Isabella Nunes, gerente da pesquisa de indústria do IBGE.
Os principais impactos positivos no emprego vieram em 2008 de máquinas e equipamentos (10,4%), meios de transporte (8,5%), aparelhos eletrônicos e de comunicações (10,6%) e alimentos (2,3%) -todos com expansão acima da média, de 2,1%. (PS)

saiba mais

43 milhões têm ganho ligado ao mínimo

DA REDAÇÃO

Segundo dados do governo, 42,8 milhões de pessoas têm vencimentos atrelados ao salário mínimo. De acordo com a política do governo Lula de valorização do mínimo, o reajuste deste ano incorporou a variação do PIB de 2007 (5,65%) e do INPC de março de 2007 a janeiro de 2008 (6,40%). Fixado em R$ 465, o piso salarial deste ano incorporou reajuste de 12,05%, ou R$ 50 de acréscimo aos R$ 415 válidos em 2008.
Segundo o Ministério do trabalho, o salário mínimo acumula um reajuste acima da inflação de 46% desde 2003.

12/02/2009 - 08:48h Produção industrial paulista sobe 5,7%

Resultado apontado pela FGV é o primeiro positivo após 3 negativos

http://www.joaopaulo.org.br/images/industria2750_080602131551.jpg

Alessandra Saraiva e Francisco Carlos de Assis – O Estado SP

Após três recuos mensais consecutivos, a produção da indústria paulista deve subir 5,7% em janeiro, na comparação com o mês anterior. É o que mostra o Sinalizador da Produção Industrial (SPI) de São Paulo, divulgado ontem pela FGV. Em dezembro, o sinalizador teve queda de 13,5% em comparação com novembro, na série com ajuste sazonal, enquanto a produção de São Paulo apresentou recuo de 14,9%, de acordo com dados regionais oficiais do IBGE.

Na comparação com janeiro de 2008, o sinalizador recuou 14,9%, variação muito próxima à de dezembro, quando o indicador caiu 14,5% em relação a igual período de 2007.

Segundo o coordenador do indicador, que é fruto de parceria da FGV com a AES, Paulo Picchetti, a retomada da produção pela indústria para recompor os estoques está entre os fatores que levaram ao dado positivo em janeiro, depois da queda acentuada do mês anterior. Ele classifica o e movimento, porém, como algo marginal. “Não podemos nos enganar com este crescimento de 5,7% para depois não sofrer uma rasteira da produção industrial.”

Picchetti reconhece que a indústria, especialmente a do setor de automóveis, interrompeu a produção em dezembro quando se viu às voltas com um nível de estoques indesejável. Agora, o setor opera para se recuperar, mas dentro de um cenário envolto por muitas incertezas.

“É verdade que a indústria, em especial a automotiva, voltou a produzir. Mas temos de deixar claro que o setor como um todo perdeu a referência de qual será daqui para frente o patamar de produção. A indústria está tateando o mercado para tentar encontrar qual será o novo nível de produção e estoque”, diz Picchetti, cauteloso.

As vendas de automóveis que levaram à redução dos estoques nos pátios das montadoras, segundo o coordenador do SPI, foram estimuladas pela redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). Ocorre que a vigência do benefício termina em março. Esse prazo, afirma o economista da FGV, é mais um fator que sustenta as incertezas da indústria quanto ao real nível de produção numa economia afetada pela crise econômica mundial.

“Esta melhora do SPI em janeiro é quase nada porque leva o índice da produção da indústria paulista ao mesmo patamar de 2006, quando o setor iniciou a trajetória de crescimento. Só para se ter uma ideia, no acumulado de 12 meses encerrados em dezembro, o SPI acumulava um crescimento de 5,30%. Em janeiro, esta taxa caiu para 3,10%”, diz Picchetti. Ele lembra que uma desaceleração da Pesquisa Industrial Mensal (PIM) paulista nesta magnitude só se viu em 1996 e 1998, nas crises econômicas da Ásia e da Rússia.

NÚMEROS
14,9 % foi o recuo do Sinalizador da Produção Industrial de SP em janeiro deste ano, em comparação com janeiro de 2008

13,5 % foi a queda do índice em dezembro, em relação a novembro de 2008

10/02/2009 - 12:16h Sinais de melhora

Celso Ming – O Estado SP

celso_ming1.jpgComeçam a se juntar elementos que reforçam a aposta em que o pior da crise financeira para a economia brasileira ficou para trás.

São dados ainda tímidos e condicionados a que a situação externa não se deteriore ou a que não sobrevenha nenhuma surpresa ruim. Mas apontam para a mesma direção e não podem ser desconsiderados.

O primeiro desses elementos veio com os resultados da balança comercial. A última semana de janeiro já mostrara certa recuperação que, no entanto, não reverteu o déficit do mês, o primeiro em oito anos. Mas, na primeira semana de fevereiro, além de parecer mais consistente a reação das exportações, os resultados começam a contar com a chegada das safras aos portos.

Outro dado que reforça a perspectiva de reversão veio com as estatísticas do setor de veículos. O mês de dezembro fora catastrófico; apontara queda da produção de 47% em relação ao mês anterior. Foi quando as montadoras enfrentaram altos estoques e a antecipação de férias coletivas.

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Os números de janeiro ainda são frágeis, especialmente no segmento de caminhões e colheitadeiras, onde nada parece encorajador. Mas no de automóveis já se nota recuperação. Os resultados ficaram longe dos melhores dias de 2008 (veja gráfico), mas mostram reação tanto em produção quanto em vendas. Falta saber se o setor conseguirá andar sem a muleta da redução do IPI.

Novembro e dezembro foram meses devastadores no País. Em dezembro a produção industrial despencou 12,4% em relação a novembro e 14,5% em relação a dezembro de 2007, conforme indicam as estatísticas do IBGE.

Como já foi apontado aqui, esse colapso se deveu a uma confluência negativa de fatores entre os quais teve mais peso a repentina contração tanto do crédito externo quanto do interno que se seguiu à quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, em setembro passado.

Agora se sabe que as autoridades globais já não permitirão que outro banco importante derreta e que tudo está sendo feito para sanear o setor financeiro dos países ricos, ainda não recuperado da trombose global no crédito.

A decisão de não deixar que grandes bancos virem pó é a principal razão pela qual, apesar do aprofundamento da recessão nos países ricos, já não há pânico nos mercados, especialmente agora que enormes pacotes de socorro vão sendo providenciados.

Também se espraia a percepção de que, apesar do baque da já inevitável desaceleração do crescimento em 2009, o Brasil deverá sair melhor dessa crise do que qualquer país rico ou emergente. Seus bancos não estiveram metidos em nenhuma grande encrenca; o volume do crédito já se recuperou do pior, como atesta o presidente do Banco Central; o varejo está melhor, o que demonstra que o mercado interno continua vigoroso; a recuperação da economia chinesa tende a beneficiar as exportações brasileiras; e continuam promissoras as perspectivas do setor de energia (principalmente petróleo), de alimentos e de recursos minerais.

O bom desempenho do mercado de ações no Brasil neste início de ano (veja o Confira) parece refletir o estado geral dos espíritos em relação à economia brasileira. Mas, não custa repetir, o organismo não registra mais febre. Ainda não há segurança de que a infecção tenha sido debelada.

Confira

Volta ao risco – O desempenho do mercado de ações é forte. Neste início de ano (até ontem), o Ibovespa acumula alta de 12,1% e, em fevereiro, de 7,1%. Mas, para voltar ao nível máximo, o Índice Bovespa ainda teria de subir 73%.

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07/02/2009 - 10:32h Brasil é o único que não sofrerá “forte desaceleração” nos próximos 6 meses, prevé OCDE

OCDE prevê piora na economia brasileira

Andrei Netto – O Estado SP

Seis meses depois da explosão da crise do sistema financeiro internacional, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) diagnosticou a “desaceleração” da economia brasileira. A análise, revelada ontem, em Paris, foi feita a partir dos Indicadores Compostos Avançados e revela que as perspectivas econômicas dos países desenvolvidos e emergentes para os próximos seis meses são as piores verificadas desde os anos 1970. Mesmo assim, o Brasil ainda enfrenta uma situação menos grave se comparada a de 34 grandes mercados.

Os Indicadores Compostos Avançados servem para indicar a tendência de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no horizonte de um semestre. De acordo com o levantamento, o Brasil é o único não classificado com avaliação “forte desaceleração” dentre os 35 analisados. Pelo método utilizado, quedas abaixo de 100 pontos são interpretadas como declínio da atividade econômica em um futuro próximo – de quatro a oito meses. Além de ter o melhor indicador (total de 98,8 pontos), o Brasil é país é o que menos perdeu desempenho em 12 meses (-5,4 pontos).

“Está claro que os efeitos da crise financeira global se mostraram com algum atraso no Brasil”, explicou ao Estado, Gyorgy Gyomai, economista da OCDE e autor do relatório. Segundo ele, os indicadores de comércio assinalavam um panorama favorável para o Brasil mesmo quando outros países davam sinais de declínio da atividade. “Os mais recentes eventos, como a evolução das exportações, mostram que a economia brasileira reagiu com atraso e que a crise também afetará o país”, estima. “Não está claro se o declínio da atividade será menos dramático no Brasil ou se ele seguirá com retardo a desaceleração das economias OCDE.”

As estatísticas, relativas a dezembro, também apontaram a perspectiva de aprofundamento da recessão em países industrializados e emergentes. Na zona OCDE, a desaceleração foi de 8,2 pontos em 12 meses, chegando a 92,9 pontos. Na zona euro, a queda foi de 8,2 pontos em relação a 2007, com 93,8 pontos. Nos Estados Unidos, o recuo foi de 9,5 em um ano, com total de 91,3 pontos.

Todas as grandes sete maiores economias – Estados Unidos, Japão, China, Alemanha, França, Reino Unido e Itália – estão em fase de “forte desaceleração” da atividade, segundo a entidade. A maior queda na comparação anual entre os países do G7 foi registrada pela Alemanha, com recuo de 11,8 pontos, para 90,9 em dezembro. O indicador no Japão caiu para 92,2 em dezembro, uma queda de 7,3 pontos em relação ao mesmo período do ano passado.

“Os indicadores compostos avançados para a maior parte dos países da OCDE atingiram níveis jamais vistos desde os anos 1970, no momento dos choques petrolíferos”, diz o texto.

Dentre os demais BRICs – China, com recuo de 14 pontos no ano e total de 87,6 pontos; Índia, com 7,5 pontos e soma de 94,4 pontos; e Rússia, com queda de 17,7 e total de 86,7 pontos – também são classificados como “em forte desaceleração”.

04/02/2009 - 10:27h Estatais aceleram ritmo dos investimentos

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Valor investido em 2008 aumentou 33,2% em relação a 2007 e bateu recorde, chegando a R$ 53,24 bilhões

Ribamar Oliveira, BRASÍLIA – O Estado SP

As empresas estatais federais aceleraram os investimentos no auge da crise internacional. Em novembro e dezembro de 2008, período em que a economia brasileira já estava em franca desaceleração, elas investiram R$ 15,02 bilhões.

Somente o Grupo Petrobrás investiu R$ 12,94 bilhões no período, 86,2% do total do conjunto dessas empresas, de acordo com dados do Departamento de Coordenação e Controle das Empresas Estatais (Dest), órgão do Ministério do Planejamento.

No último bimestre de cada ano, tradicionalmente, ocorre o maior volume dos investimentos das estatais federais. Em novembro e dezembro de 2007, por exemplo, elas investiram R$ 9,29 bilhões, o que representou 23,24% do total do ano.

Em novembro e dezembro de 2008, os investimentos representaram 28,21% do total do ano. Ou seja, houve uma aceleração em relação ao mesmo período de 2007. Essa elevação pode refletir a decisão do governo de utilizar essas empresas para evitar uma contração ainda mais forte da economia, compensando a queda dos investimentos privados.

Em 2008, segundo o Dest, os investimentos executados pelas estatais federais bateram mais um recorde e atingiram R$ 53,24 bilhões, o que representou um aumento de 33,2% em relação a 2007, quando elas aplicaram R$ 39,97 bilhões. O valor efetivamente investido representou 79,1% da dotação total para as 72 empresas do setor produtivo, prevista no Orçamento da União de 2008.

Os dados do Dest mostram que 82,2% dos investimentos das estatais foram realizados com recursos próprios, enquanto apenas 11,2% foram financiados por operações de crédito de longo prazo. Isso indica que o atual estrangulamento do mercado de crédito internacional pode ter um efeito relativamente pequeno nos investimentos das estatais brasileiras este ano.

O Grupo Petrobrás investiu R$ 46,88 bilhões em 2008, um aumento de 35% em relação a 2007. O total investido pelo grupo representou 88,05% do conjunto das estatais do setor produtivo e 85,4% de sua dotação orçamentária para 2008, acima, portanto, da execução média dessas empresas.

Alguns programas relacionados, principalmente, com as áreas de petróleo e energia tiveram uma execução ainda maior. O investimento do programa de pesquisa e desenvolvimento tecnológico nas áreas de petróleo e gás natural, por exemplo, atingiu 96,4% do limite autorizado para o ano; o desenvolvimento tecnológico do setor de energia executou 93,6% do investimento programado; e o programa de oferta de petróleo e gás natural, 93%.


NÚMEROS

R$ 53 bilhões
foi o valor investido pelas estatais federais em 2008

R$ 15 bilhões
foi o valor investido somente em novembro e dezembro

R$ 13 bilhões
foi o investimento da Petrobrás em novembro em dezembro

82% do total
foi com recursos próprios

03/02/2009 - 14:47h China: menor apetite chinês vai tirar US$ 1,5 bi da exportação brasileira

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Menor apetite chinês vai tirar US$ 1,5 bi da exportação brasileira

Raquel Landim, de São Paulo – VALOR

Um dos países mais beneficiados pelo voraz apetite chinês por commodities, o Brasil vai sofrer com a desaceleração do gigante asiático. O país deve perder pelo menos US$ 1,5 bilhão em vendas de apenas três produtos – soja, minério de ferro e petróleo – para os chineses este ano. Especialistas em comércio exterior acreditam que a China está trocando os banquetes de commodities por uma dieta mais equilibrada. Por isso, além desta perda, investimentos futuros com alvo no mercado chinês devem ser bem estudados, dizem os analistas.

Conforme a estimativa do Conselho Brasil-China, as exportações para o país asiático de soja, minério de ferro e petróleo vão cair 12%, de US$ 12,7 bilhões em 2008 para US$ 11,2 bilhões em 2009. Essas commodities representam 77% da pauta de exportação do Brasil para a China. As projeções apontam queda de 19,4% nas vendas de soja para a China em 2009, 46,4% no petróleo, e alta de 13,7% no minério de ferro. O conselho parte da premissa que as exportações serão prejudicadas apenas pela queda de preços, porque os volumes de soja e petróleo vão se manter constantes, enquanto o do minério pode subir 10% graças ao pacote de estímulo fiscal chinês . A hipótese é considerada otimista por outros analistas, para quem a queda das exportações para a China pode ser ainda mais significativa.

“A corrente comercial entre os dois países inevitavelmente vai cair. Vamos enfrentar uma redução substancial em valor com a queda dos preços das commodities, mas o volume dificilmente será afetado”, disse Rodrigo Tavares Maciel, secretário-executivo do conselho. Maurício Moreira Mesquita, economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), discorda e avalia que a tendência é de queda para as exportações brasileiras para a China, não apenas em preço, mas também em volume. “Se a desaceleração da economia chinesa se aprofundar, o impacto para a América Latina vai ser severo”, ponderou.

Em seis anos, os chineses quintuplicaram a compra desses produtos no Brasil. As exportações brasileiras de soja para a China saltaram de US$ 1,3 bilhão em 2003 para US$ 5,3 bilhões em 2008. No minério de ferro, as vendas saíram de US$ 765 milhões para US$ 4,9 bilhões no período. O petróleo – que sequer aparecia entre os principais produtos de exportação para a China em 2003 – rendeu US$ 1,7 bilhão ao país em 2008.

Dois fatores aplacaram a sofreguidão dos chineses por commodities brasileiras: a desaceleração do crescimento da economia do país – provocada pela crise global e pela fraqueza das exportações – e a consolidação da sua indústria pesada. O ritmo de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) da China desacelerou de 13% em 2007 para 9% em 2008 e deve ficar em 8% em 2009 nas expectativas otimistas. A indústria pesada chinesa está contaminada pelo excesso de produção, o que vai exigir a consolidação em empresas maiores e mais competitivas e limitar a construção de novas plantas. A preocupação do país com a poluição também deve desestimular investimentos.

“A posição de exportadores de commodities como o Brasil é mais forte que uma década atrás, mas planos de expansão baseados no ritmo de crescimento dos últimos anos têm que ser revistos”, disse ao Valor Arthur Kroeber, diretor-executivo da Dragonomics, consultoria especializada em economia chinesa, sediada em Pequim. Kroeber avalia que a “chave” é que a demanda da China por commodities brasileiras vai seguir forte, mas a taxa de crescimento será bem menor, derrubando preços.

É o contrário do ciclo que levou as commodities às alturas. Entre 2003 e 2007, o crescimento da China saltou de 8% para 12% e a capacidade da indústria intensiva em recursos naturais aumentou muito. Como resultado, os preços de commodities como soja e petróleo saltaram 115% e 213%, respectivamente, entre 2003 e 2007, mas parte desses ganhos já foi devolvida. Desde 2008, as cotações da soja e do petróleo caíram 20,5% e 58,2%. No minério de ferro, que subiu mais de 70% só no ano passado, as siderúrgicas chinesas e a mineradora brasileira Vale estão travando uma queda-de-braço para definir o preço de 2009. A expectativa é de pelo menos 30% de queda.

O minério de ferro é bom exemplo das mudanças que estão ocorrendo na China e vão atingir o Brasil. Em 2000, a China produzia 100 milhões de toneladas de aço. Graças ao forte crescimento da economia local, chegou a um ritmo anualizado de 570 milhões de toneladas no início de 2008, quatro vezes mais do que em 2000. Preocupado com a inflação, o governo chinês introduziu medidas para desacelerar a economia. Em conjunto com a crise global, as medidas derrubaram a produção de aço para 420 milhões de toneladas no fim de 2008. Os analistas estimam que a China vai seguir produzindo entre 420 milhões e 450 milhões de toneladas de aço por ano, volume acima do de 2000, mas praticamente estável na comparação com o fim de 2008.

A demanda chinesa por soja – outro importante item da pauta de exportação do Brasil pela China – deve ser menos afetada. Para Trevor Houser, pesquisador do Instituto Peterson para Economia Internacional, o consumo de commodities agrícolas não sofre como as metálicas, já que a dieta alimentar da população varia muito menos que os ciclos de investimento. A soja é um produto importante na alimentação chinesa e sua substituição por outros alimentos é complicada. Os preços do grão, porém, devem permanecer baixos por conta da crise financeira, que reduziu a liquidez dos mercados.

O pacote de estímulo fiscal da China e a recuperação do mercado imobiliário local podem ajudar a sustentar o consumo de aço, cimento e cobre em 2009, evitando uma queda mais brusca da demanda pelo minério de ferro brasileiro. Mas o tamanho do impacto depende da eficácia do pacote, o que divide os analistas. O governo chinês anunciou US$ 586 bilhões em gastos para estimular a economia. Boa parte do investimento será destinado à infraestrutura, à recuperação das áreas afetadas pelo terremoto de Sichuan e à construção de casas populares.

“O declínio da demanda chinesa não será tão forte quanto alguns especulam, mas não é razoável esperar que os preços permaneçam no mesmo patamar dos últimos anos, porque os fundos de investimento inflaram as commodities”, disse Li Gang Liu, economista-chefe do BBVA do departamento de pesquisa econômica da China e ex-funcionário do Banco Central de Hong Kong. Para Houser, o Brasil deve se preocupar mais com o colapso dos preços nos últimos seis meses do que com uma eventual queda de demanda, que levaria à redução do volume exportado. “Os preços devem continuar fracos até que o apetite chinês se recupere, o que ainda pode demorar um ano.”

03/02/2009 - 14:02h China: crise afetou o país, mas pacote oficial pode garantir PIB de 8%

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De São Paulo – VALOR

Com o desenrolar da crise global complicando as previsões, circulam dois números “mágicos” para o crescimento da China em 2009. Os mais otimistas estimam que o Produto Interno Bruto (PIB) vai crescer 8% este ano. Os pessimistas – categoria que inclui muitos bancos internacionais – apostam em “apenas” 5%, um percentual significativo para o restante do mundo, mas modesto para os padrões chineses.

As duas estimativas estão abaixo dos 9% que a China cresceu em 2008 e bem abaixo dos 13% de 2007, mas a magnitude da desaceleração este ano é vital para o Brasil, a América Latina e o mundo. O ritmo do crescimento da economia chinesa será fundamental para determinar a evolução dos preços das commodities e, consequentemente, da balança comercial brasileira.

No centro das discussões sobre o rumo do gigante asiático, está a eficácia do pacote de estímulo fiscal de US$ 586 bilhões do governo e o grau de dependência da economia em relação às exportações. Para seguir crescendo, a China deverá tornar o mercado interno o motor da expansão da sua economia. A dúvida é o quão rapidamente isso pode ser feito.

A crise global já atingiu a China de frente. No quarto trimestre anualizado, o PIB do país cresceu 6,8%. A produção industrial avançou 6,4% entre outubro e dezembro, abaixo dos 16,2% de janeiro a março. É um resultado direto do enfraquecimento das exportações, que caíram 2,2% em novembro e 2,8% em dezembro. No primeiro trimestre de 2008, as exportações da China cresciam 21,2%.

O oito é considerado um número da sorte pelos chineses e se tornou uma espécie de meta informal de crescimento. O assunto é bastante sensível, pois existe uma crença entre os funcionários de Pequim de que um avanço inferior a 7% pode gerar insatisfação e protestos contra o regime comunista.

Arthur Kroeber, diretor-executivo da Dragonomics, estima que o avanço da economia chinesa em 2009 está mais próximo de 8% do que de 5%. “Principalmente porque acredito que existe dinheiro suficiente que pode ser mobilizado para gerar esse crescimento”, disse. Ele citou alguns canais pelos quais os recursos podem fluir: gastos governamentais, sistema bancário local, e empresas estatais.

“A China será severamente atingida pela crise porque se tornou mais dependente da economia global”, disse Li Gang Liu, economista-chefe do BBVA em Hong Kong. Ele reforça, no entanto, que o crescimento de 8% pode ser alcançado com ajuda do pacote de estímulo fiscal, de redução de juros e de um sistema bancário relativamente sólido. Ele calcula que apenas o pacote fiscal pode estimular uma alta de 3% a 5% do PIB.

Os pessimistas – que preveem um avanço próximo de 5% para o PIB da China em 2009 – também dispõem de bons argumentos. Primeiro, que o pacote de estímulo do governo será ineficaz. Segundo, mesmo que o pacote seja bem implementado, a participação do governo na economia da China é muito menor hoje, o que reduz o efeito para o setor privado. E terceiro, o impacto da crise global para a China será muito expressivo.

Para Trevor Houser, pesquisador visitante do Peterson Institutute, o aumento nos gastos do governo chinês deve ajudar o PIB do país a crescer 7%, mas, se isso não ocorrer, alta de 5% é um número realista. Ele acredita que o consumo doméstico e os gastos do governo serão “a esperança da economia” pelos próximos dois a cinco anos, já que a crise global reduzirá significativamente as exportações da China. “O quão rápido Pequim vai conseguir reequilibrar a economia em direção ao mercado interno ainda está para ser visto”, disse.

Maurício Moreira Mesquita, economista do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), tem dúvidas sobre o impacto de mais gastos em infraestrutura em um país que já investe 40% do PIB. Ele disse que as oportunidades de investimento são reduzidas no leste do país, a região onde estão Pequim, Xangai e a província de Guangdong. Os investimentos são necessários no Oeste, mas as externalidades geradas para o restante da economia serão menores. “Existe uma crença de que a China é imune à crise e aos ciclos da economia. Não é”, disse. (RL)

28/01/2009 - 11:15h Carga tributária da União cai, a dos Estados e Municípios sobe

Com a crise, carga federal pode cair a 24,31% do PIB

 

Marcelo Rehder – O Estado SP

 


A crise financeira mundial pode ter levado a um recuo inédito na carga tributária representada pelos impostos e contribuições federais. Segundo estimativas do consultor na área fiscal Amir Khair, a arrecadação federal teria atingido 24,31% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, o que representa queda de 0,05 ponto porcentual em relação aos 24,36% em 2007.

O cálculo leva em conta uma expansão de 5,5% na soma de todas as riquezas produzidas no País, estimada em R$ 2,946 trilhões. Se isso se confirmar, será a primeira vez que a carga tributária da União diminui na série histórica iniciada em 2003, da Secretaria da Receita Federal.

“Houve uma degringolada na arrecadação”, disse o consultor, referindo-se à queda de 6,7% ocorrida nos dois últimos meses de 2008. Parte dessa retração, ele atribui às bondades fiscais promovidas pelo governo, mas o que teria pesado mesmo foi a desaceleração da atividade econômica, devido ao aprofundamento da crise internacional.

Para Khair, a queda na arrecadação reflete não apenas o efeito direto da desaceleração dos negócios, mas também o aumento da inadimplência das empresas. “Quando estão apertadas financeiramente, a primeira coisa que as empresas cortam é o pagamento de tributos”, diz o consultor. “Não existe dados estatísticos, mas todo mundo que trabalha na arrecadação sabe desse efeito.”

Apesar da queda prevista na esfera federal, Khair estima um aumento na carga tributária total, que inclui a arrecadação de Estados e municípios. Pelos seus cálculos, a carga teria atingido 35,15% do PIB, ante 34,79% em 2007. Para esse aumento, os Estados contribuiriam com 0,37 ponto porcentual e os municípios, com 0,04 ponto. Já a contribuição do governo federal, teria sido negativa, de 0,04 ponto. A soma não é exata, porque os números são arredondados.

O crescimento da arrecadação estadual se deve à substituição tributária que tem sido adotada cada vez mais pelos Estados em relação ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).Por este regime, os Estados passam a concentrar a cobrança do ICMS na saída da indústria, que reúne um número muito menor de empresas que o atacado e o varejo, o que facilita a fiscalização e diminui a sonegação de impostos.

De janeiro a novembro, o ICMS, principal fonte de arrecadação dos governos estaduais e maior tributo do País, cresceu 12,7% acima da inflação medida pelo IPCA, superando o crescimento ocorrido no conjunto das receitas da União no mesmo período (9,2%).

27/01/2009 - 11:29h Retrato da crise

Celso Ming – O Estado SP

celso_ming2.jpgAs contas externas, que registram todo o movimento da economia com os demais países ao longo de um período, são as primeiras a sofrerem o impacto de uma crise global. E isso já vai claramente apontado nos números finais de 2008 que ontem o Banco Central divulgou.

O rombo geral em Conta Corrente, onde não é computada a entrada líquida de capitais, foi de US$ 28,3 bilhões, o primeiro déficit em 6 anos.

A desaceleração das exportações junto com a aceleração das importações tiveram lá seu peso. Mas foi decisiva a disparada da remessa de lucros e dividendos para o exterior, que saltou de US$ 22,4 bilhões em 2007 para US$ 33,9 bilhões em 2008. Só nos três últimos meses de 2008 as remessas para fora foram de US$ 21 bilhões.

Não se trata de fuga de capitais, como acontecia a cada crise do passado no Brasil. Desta vez, a principal explicação para essa paulada foi o movimento imposto às filiais das empresas estrangeiras no País: no meio da crise, as matrizes ficaram sem caixa lá fora e obrigaram suas controladas a remeterem de volta suas disponibilidades.

Esse fenômeno é novo no Brasil e não deve se repetir em 2009. Por isso, é perfeitamente plausível contar com um déficit em Conta Corrente até mais baixo neste ano. De todo modo, as projeções sobre esse item são disparatadas. O Banco Central projeta US$ 52 bilhões, volume um pouco maior do que o do ano passado. Mas o mercado, cujos números são aferidos pelo Banco Central na pesquisa semanal Focus, trabalha com metade disso.

O dado mais impressionante é o vigor dos Investimentos Estrangeiros Diretos (IED) que, apenas em dezembro – portanto em plena crise -, injetaram US$ 8,1 bilhões no País, o que totalizou US$ 45,1 bilhões ao longo do ano, o correspondente a 1,78% do PIB, bem mais do que os US$ 30 bilhões projetados pelo Banco Central.

A força dos investimentos estrangeiros tem várias explicações. A primeira é a de que, apesar da crise, o comportamento da economia brasileira é razoável, o que contribui para atrair capitais de longo prazo. Mas começa a influenciar um fator circunstancial. O Brasil é o B de uma sigla que ficou em evidência. Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) foi uma invenção do economista Jim O?Neill, do Goldman Sachs, para caracterizar os quatro emergentes com maior probabilidade de se tornarem ricos em menos de 40 anos. Trata-se de uma sigla fortuita, que nem obedece à ordem alfabética, mas que pegou. O crescente protagonismo em eventos internacionais colaborou para o aumento da percepção de que está chegando a hora de o Brasil deixar de ser o país do futuro para ser o do presente.

Assim, estrategistas dos grandes negócios passaram a enxergar o Brasil como o país que não pode ficar fora de uma carteira de investimentos de longo prazo.

Para 2009, as projeções sobre o IED também são disparatadas, o que não deixa de ser normal, nas circunstâncias. O Banco Central, por exemplo, prevê um IED de US$ 30 bilhões. Mas as expectativas do mercado, medidas pelo Focus, apontam um total 23% menor, de US$ 23 bilhões.

Mas esta é uma crise de comportamento imprevisível. A esta altura, qualquer projeção para contas externas não passa de exercício de futurologia.

CONFIRA

Fim da arbitragem? – Há meses, ninguém mais se queixa de que os especuladores estão tomando empréstimos lá fora e mandando dólares para o Brasil de maneira a tirar proveito dos juros internos.

Os juros no Brasil continuam sendo os mais altos do mundo, os externos caíram para mais perto do zero e a alta do dólar garante, no câmbio, mais reais por dólar trazido para o Brasil.

No entanto, os investimentos em carteira fecharam o ano negativos: saída líquida de US$ 4,3 bilhões. No ano anterior, foram US$ 48,4 bilhões (positivos). Ou seja, na crise a a tal arbitragem sumiu.

27/01/2009 - 09:03h Receita de SP com ICMS cresce 16,8% em dezembro

Sobre este assunto ver também aqui no blog:

1Cortes nos orçamentos estaduais podem não ser necessários. A União e a maioria dos Estados aguardará os resultados do primeiro trimestre

2Governador Serra, só com palavras não se criam empregos

Marta Watanabe, de São Paulo – VALOR

O Estado de São Paulo fechou dezembro com uma arrecadação de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) 16,8% maior em termos nominais em relação ao mesmo período de 2007. O recolhimento total de R$ 6,6 bilhões de ICMS em dezembro é menor que as arrecadações registradas em setembro e outubro de 2008, mas é maior do que o fechado em novembro.

A arrecadação tributária pertencente ao Estado, já descontados os repasses aos municípios, ficou em R$ 5,5 bilhões em dezembro. No mês anterior foi de R$ 5,2 bilhões. O recuo de novembro, explica o secretário da Fazenda, Mauro Ricardo Costa, se deu em função do uso de créditos na aquisição de combustíveis e não em função da atividade econômica. Ele diz que o desempenho da arrecadação em dezembro aponta alta em relação ao ano anterior, embora reflita estabilização e início de desaceleração de crescimento em relação ao recolhimento do decorrer de 2008.

Embora a Fazenda ainda não tenha uma análise de comportamento por setor no recolhimento do imposto, o secretário acredita que parte do recuo deva ser creditada à desaceleração da indústria automobilística. Em 2008, o crescimento nominal do ICMS chegou a 22%. O desempenho de 2008 todo, porém, não foi comprometido. Segundo o secretário, o crescimento estimado era de 21%. O ano fechou em 20,1%. Ainda não há estimativas da arrecadação em janeiro.

Costa lembra que o primeiro mês de 2009 não poderá ser analisado isoladamente, já que o Estado permitiu a todos os setores parcelar em duas vezes o pagamento do ICMS relativo às operações de dezembro. Embora ainda não seja possível mensurar, o secretário adianta que muitas empresas estão optando por pagar o ICMS de uma só vez, o que está gerando até agora arrecadação maior do que a prevista para o mês. O mesmo está acontecendo com o IPVA, tributo devido sobre os veículos. Segundo ele, um número maior de contribuintes tem optado pelo pagamento em cota única. A Fazenda estima que, em 2009, os pagamentos em cota única estão 20% maiores que no ano passado.

O secretário afirma que o comportamento da arrecadação para 2009 é ainda incerto. Ele acredita que a entrada de recursos adicionais poderá vir da substituição tributária, regime que foi ampliado de forma significativa no ano passado, gerando arrecadação extra de cerca de R$ 3 bilhões. A diferença, diz Costa, é que em 2009 o regime ampliado gerará arrecadação no ano cheio e não de forma parcial, como em 2008. Além disso, haverá ampliação da substituição para novos setores, conforme lei aprovada ano passado. Segundo Costa, novos segmentos serão submetidos ao regime entre abril e junho deste ano.