02/04/2009 - 09:52h Estupor no andar de cima, desesperança no debaixo

Antonio Prado – VALOR
Foram muitas as reações das elites mundiais ao colapso dos mercados financeiros. Todas com o mesmo tom de surpresa em relação à súbita falência da confiança nas instituições e nos instrumentos financeiros que movimentaram, com tanto vigor e exuberância, o frenesi dos capitais desenfreados nas últimas décadas.
Sua Majestade, a Rainha Elizabeth II do Reino Unido, em visita a London School of Economics, perguntou por que não fora alertada sobre eventos tão perturbadores. Por sua vez, Sua Excelência, o primeiro-ministro de Itália, com menos elegância, mandou a OCDE calar-se em suas previsões sobre a queda do PIB em 2009, pois que também não haviam previsto a iminência da crise. O ex- presidente do Federal Reserve, o banco central dos EUA, senhor Alan Greenspan, revelou-se em estado de estupor com a calamitosa falha dos mecanismos de autorregulação dos mercados.
A verdade é que os alertas não foram poucos e realizados por economistas de alta estirpe. O mesmo Greenspan lançou o anátema da exuberância irracional, talvez acreditando demais em sua capacidade de influenciar as expectativas racionais de uma turba furiosa na busca de bônus de performance. O economista Nouriel Roubini, assíduo frequentador do Fórum Econômico Mundial, em Davos, Suíça, ganhou o apelido de Mr. Doom, Senhor Calamidade, por suas reiteradas previsões de que o cassino iria desmoronar. A lista internacional e doméstica de analistas preocupados com a desregulação dos mercados financeiros e de capitais é longa. O fato é que a turma que diz que a ressaca será forte no dia seguinte nunca será ouvida por aqueles já embriagados por um whiskey que parece de primeira.
Mas, se o juízo competente foi tido como inoportuno, onde estavam as instituições de regulação do sistema? Nos EUA, o que fez o Federal Reserve? Um gigantesco castelo de cartas, formado de todos os tipos de instrumentos financeiros exóticos, prosperou a sua revelia e nada foi feito. Um verdadeiro sistema bancário paralelo, “shadow banking” em inglês, absorvia trilhões de dólares, sem nenhuma supervisão e adoção do mínimo de regras de prudência bancária. Alavancaram uma catástrofe planetária.
Como é possível, em um complexo e bem informado sistema financeiro, golpes de estelionatários tão antigos quanto o aplicado pelo Sr. Madoff crescerem a ponto de tragarem US$ 50 bilhões? Não foi detectado por nenhuma instituição? O mercado foi acometido pela cegueira dos caçadores de tesouros? Os investidores não calcularam que era muita rentabilidade para pouco risco? Esse golpe é tão antigo e recorrente que só pode ser aplicado em ambientes tomados por um espírito de vale-tudo. Puni-lo com 150 anos de prisão soa como uma prestação de contas tardia e pouco convincente. Onde estavam as autoridades reguladoras?
Estavam desregulando o mercado financeiro americano. Vendendo ao planeta e, principalmente, aos emergentes as virtudes do mercado autorregulado. O capital livre de amarras levaria todos ao paraíso do crescimento e da prosperidade. Como não houve distribuição de renda relevante durante as últimas décadas nos países livres dos penduricalhos da regulação, alguns espertos chegaram ao paraíso dos bônus de final de ano e outros foram pegos no sobre-endividamento em cartões de crédito de várias bandeiras.
E o FMI, sempre zeloso de suas receitas de ajuste estrutural, como não alertou aos países membros que uma tempestade perfeita estava no horizonte? Como não percebeu que em um mundo com US$ 65 trilhões de PIB não se poderia valorizar US$ 650 trilhões em ativos financeiros indefinidamente?
Nesse momento, é óbvio que a autorregulação dos mercados é mais um mito requentado pela ideologia liberal, que não deu certo. A classificação de risco pelas agências privadas, tanto em relação à saúde das instituições, bancos de investimentos, seguradoras, fundos de hedge e bancos comerciais, como também dos produtos financeiros específicos, está com a credibilidade comprometida. Ativos tidos como de baixo risco tornaram-se tóxicos em poucos dias.
As empresas de auditoria, que passaram por maus momentos com a quebra da Nasdaq em 2001, voltaram a um silêncio sepulcral. Os conselhos de administração das grandes empresas revelaram-se pouco efetivos e até incidentes de pressão sobre conselheiros mais zelosos e, preocupados com os riscos das estratégias corporativas, vieram a público.
É evidente que o esforço para evitar um colapso sistêmico financeiro de proporções planetárias não envolve apenas a derrama de trilhões de dólares nos bancos e economias intoxicadas, mas também o resgate da confiança nas instituições de regulação públicas e privadas e a defesa de valores sociais empoeirados desde a avassaladora hegemonia dos aventureiros das finanças alavancadas. Trabalho, emprego, distribuição de renda, produção e solidariedade social.
A ideia de que todos estamos no mesmo barco é sedutora. No entanto, é justo que os contribuintes de última instância, os assalariados e pequenos produtores, se perguntem por que esse espírito surge apenas no momento de socializar os prejuízos. Por que até há pouco era coisa considerada antiga, resquício das dores do pós II Guerra, já de muito superadas? É justo e correto que reivindiquem contrapartidas sociais nesse soerguimento das economias.
É justo e necessário que os países emergentes, que fizeram imensos sacrifícios para organizar suas economias arruinadas pela estagnação prolongada, hiperinflações e crises políticas e sociais, queiram uma voz mais efetiva nas instituições multilaterais. É justo que não aceitem pagar pela aventura alheia e que queiram defender seu crescimento econômico, sua capacidade de geração de emprego e de inclusão social.
Se é verdade que os ricos estão perplexos com suas perdas, mais verdade é que os pobres pagam um preço que não se contabiliza em dinheiro, mas em perda de esperança.
Antônio Prado é doutor em política econômica pelo IE-Unicamp, professor do Departamento de Economia da PUC-SP (licenciado). Atualmente é chefe do Departamento de Relações com o Governo na presidência do BNDES e docente no IRBr do Ministério das Relações Exteriores do Brasil.
31/03/2009 - 15:33h Capitalismo anglo-americano em julgamento
Anglo-American Capitalism on Trial
By JOHN F. BURNS and LANDON THOMAS Jr. – The New York Times
Published: March 28, 2009
LONDON — Sitting in a gilded upper room at 10 Downing Street last week listening to Prime Minister Gordon Brown outline his ambitions for reforming the world economy had something of an out-of-this-world feeling. With Mr. Brown seated beneath a 16th-century oil painting of Queen Elizabeth I, it was tempting to imagine for a moment that Britain was again rising grandly to the challenges of the age, in the way of Good Queen Bess.
The occasion was a briefing for reporters on the Group of 20 summit meeting to be held Thursday at a conference center in the London docklands, close to the historic City of London, Britain’s financial hub. Mr. Brown was intense, and prolific with facts. He was also visibly exhausted, hours before leaving on a five-day, 20,000-mile trip to Europe, the United States and Latin America before the conference.
The event for which he was preparing is as weighty as any London has hosted in decades. It will be attended by President Obama and the leaders of 21 other nations, including Europe’s wealthiest countries and Russia, China, and India. Organizers say that those attending generate 80 percent of the world’s wealth, making the gathering a potential powerhouse for global reform.
The meeting is too short — a single day — to make more than a start on fixing the weaknesses in the international financial system that contributed to the current crisis. But it will help determine the extent to which the economic model shaped largely by Britain and America after World War II — call it Anglo-American capitalism — survives as the touchstone for economic growth worldwide.
For Mr. Brown, it is a make-or-break moment. His government faces an election within 14 months that current polls suggest could bring a crashing end to more than 12 years of Labor rule. While Mr. Obama will be judged in time on how well he can negotiate America’s way out of the financial crisis, Mr. Brown carries the added burden of having overseen Britain’s economy as chancellor of the exchequer for a decade before becoming prime minister in 2007. From that comes a belief, common in Britain, that he is one of those mainly responsible for the country’s current woes.
Partly because of the heavy burden of government debt built up during his stewardship, and the uncurbed recklessness of the country’s banks, Britain’s recession is already the harshest in Western Europe. The Brown government has committed tens of billions to the recapitalization of Britain’s banks and a raft of stimulus measures, pushing its budget deficit to levels unknown sinde World War II without any sign yet that the economy’s plunge has been slowed.
But Mr. Brown has a plan, set out at the briefing. His goal at the G-20 meeting is to make a start on reforming, and eventually saving in more regulated form, the model of the Anglo-American free-market system. It is a plan that Mr. Brown hopes will give Canary Wharf a place in history somewhat like Bretton Woods, the New Hampshire resort where, in July 1944, the United States and Britain led other nations in creating the International Monetary Fund, the first of a group of international organizations that became the pillars of the postwar international system.
In many ways, the new order was the legacy of Franklin D. Roosevelt and Winston Churchill, embodying the common beliefs in freedom that had bound the wartime alliance, as they had infused the wider bonds between what Churchill called “the English-speaking peoples” since the flowering of liberal thought in the 17th and 18th centuries.
Just as Roosevelt and Churchill shared that bond, so, now, do Mr. Obama and Mr. Brown. Both men, reacting to events on Wall Street, in the City and in other financial centers, have spoken, with unaccustomed asperity, of the greed and irresponsibility of bankers, hedge-fund managers and others who, the two men have as much as said, have betrayed the system and come close to wrecking it.
Now, the conviction that the system must be rebuilt to curb future excesses forms a starting point for the reforms that will come under discussion in London. Like Mr. Brown’s, President Obama’s message to his own compatriots has focused on ways of revitalizing the system, often to the exasperation of those among their supporters who would favor more radical measures.
Even as both men have embarked on enormous increases in public-sector spending, they have maintained that solutions to the crisis lie in reawakening the markets and recapitalizing the banks, rather than having the government take them over, and in placing financial institutions under closer supervision rather than tearing at the system’s foundations. And both, when they respond to public anger at the private sector, have seemed more geared to managing that anger than stoking it.
Still, Mr. Brown may not have strengthened Washington’s confidence in him as a partner with his habit of tailoring his remarks to popular predilections on opposite sides of the Atlantic. In New York and Washington, he has been lionized for his pathfinding decision last fall to recapitalize Britain’s banks, a step later followed by the Bush and Obama administrations. He has responded by emphasizing Britain’s close ties to America, and the two countries’ responsibility to lead in reforming the system they gave the world. He frequently mentions his summer vacations on Cape Cod.
But at home, and on his visits to Continental Europe, the prime minister seems, as often as not, to cast America as the villain. In response to a wave of opposition demands that he apologize for his failings as chancellor of the exchequer, he has insisted that Britain’s financial woes, and the world’s, came “from America,” as though Britain was as much a victim as it was a perpetrator of its ills through the venality of its own financial institutions and its failures of regulatory oversight.
Speaking to the European Parliament last week before flying to New York, he flattered legislators by saying that “we in Europe are uniquely placed to lead the world” in meeting the challenges of remaking the world’s economic system, not only because the union’s 500 million people constitute “the greatest and biggest single market in the world,” but because of European moral sensibilities. Without mentioning the United States, he implied that the moral contagion that has afflicted market economies ran counter to a common European belief that “liberty, economic progress and social justice advance together, or not at all.”
As chancellor, Mr. Brown celebrated the “light touch” regulation of the City of London under which American banks and investment houses flocked to build up their London operations. He appeared, to his critics on Labor’s left, to have accepted a Faustian deal under which the unbridled excesses of the City were tolerated because they generated windfall tax revenues that allowed Labor to splurge on public sector spending.
But in Strasbourg, France, the prime minister seemed to fall back on his roots as the son of a Scottish preacher, and as a student politician of the radical left, focusing on the demons that detractors believe are inherent in the capitalist system. Europe, he told the legislators, had learned the truth that “riches are of value only when they enrich not just some communities, but all.” He added: “As we have discovered to our cost, the problem of unbridled free markets in an unsupervised marketplace is that they can reduce all relationships to transactions, all motivations to self-interest, all sense of value to consumer choice and all sense of worth to a price tag.”
If the implication was that Gordon Gekko-style greed was an American contagion, Mr. Brown is far from alone in Europe. Among some of those who worked through the boom years in the City of London, the moment when matters began to get out of hand under the international financial architecture that began to take shape at Bretton Woods can be dated to the collapse of the Soviet Union. One result, these people now say, was an American triumphalism that translated, in the financial world, to the kind of free-for-all Mr. Brown spoke about in Strasbourg.
Not that London needed encouragement. The Big Bang that liberated financial institutions in the City had come in 1986, sweeping away the cobwebbed traditions of centuries and putting London, at last, in a position to compete with, and in some cases outmatch, Wall Street’s most aggressive practices. The genteel if not downright sleepy practices of post-imperial Britain gave way to what one British banker from that era described as the end of Anglo-American capitalism, and the beginning of a more virulent “American-Anglo” form.
“We were star struck — the American way had become more glamorous,” said George G. Blakey, a stockbroker who has written a book on the history of the London Stock Exchange. “This was the beginning of globalization, and this new American culture swept away everything I had been accustomed to.”
Now, a wave of voices around the world would like a new Big Bang to sweep away the Bretton Woods template and the era of Anglo-American dominance it ushered in. Prime Minister Vladimir Putin of Russia has suggested as much, to nobody’s great surprise, and even France’s otherwise pro-American president, Nicolas Sarkozy, has said the “Anglo-Saxon” presumption of dominance should be abandoned.
Against this background, what the British and American leaders will be attempting at the G-20 conference, along with their partners from around the world, will be to begin building a new global financial system that curbs the rampant and often conscienceless free-marketeering of the past 20 years with a new sense of accountability and restraint, but without extinguishing the spirit of enterprise that arrived in America with the Pilgrims who landed at Plymouth Rock.
It is a task some have likened to rebuilding an aircraft in midflight, and on its success may depend the future well-being of much of the world’s population of 6.5 billion, not to mention the fragile political prospects of Mr. Brown.
31/03/2009 - 12:17h Podem não ser todos brancos, nem de olhos azuis, mas para o New York Times é o “Capitalismo de Fala inglesa em julgamento”

No artigo embaixo, Paul Krugman, prêmio nobel de economia e articulista do New York Times, investe contra a soberbia norte-americana na conduta das finanças do mundo. Para ele “os EUA de hoje se parecem com o Bernie Madoff das economias: durante muitos anos, eles foram respeitados, admirados até, mas acabaram se revelando ter sido uma fraude o tempo todo”.
Ele menciona um recente artigo publicado no New York Times que tinha como título “Capitalismo de Fala Inglesa em Julgamento”. Para Krugman, mesmo que também existam responsáveis da crise em países que falam outras línguas, não espanta uma manchete como essa, vista a particular responsabilidade do sistema anglo-saxão de desregulação na dimensão e profundidade da crise atual.
Aparentemente, nos Estados-Unidos, nenhum jornal escreveu contra o “racismo” do The New York Times. Ninguém atacou a discriminação, nem reproduziu fotos de líderes de países com outras línguas, igualmente responsáveis do sistema “fraudulento” de gestão financeira (por exemplo Berlusconi na Itália ou Chirac, na França).
É verdade que os de Fala Inglesa, nem todos de pele branca e olhos azuis, tampouco podem ser coletivamente responsabilizados pela crise. LF
19/01/2009 - 11:28h Obama e o PT
O título acima é do artigo de Fernando Rodrigues na Folha de hoje. No artigo o jornalista crítica um excesso de otimismo por parte do PT em relação a Obama.
Acusado de não enxergar a realidade e de compartilhar com os demais políticos brasileiros uma visão atávica, maniqueísta, dos cenários externos; o jornalista considera que o PT reduz as questões à dicotomia do bem contra o mal. O partido prefere o autoengano e “beira o delírio” por escrever que “(Obama) “indicou claramente a necessidade de iniciar um novo ciclo histórico e sepultar uma era de fundamentalismo neoliberal”. Este é o conteúdo do razoamento exposto por Fernando Rodrigues.
Talvez o jornalista esteja certo sobre o grau de esperança, ou ilusão para alguns, que o PT compartilha com a maioria esmagadora dos norte-americanos. Mas o PT não diz, como pretende Fernando Rodrigues, que Obama “romperá com os cânones do livre mercado”.
O que os petistas consideram, assim como 99% dos jornalistas e artigos escritos na imprensa brasileira e mundial, é que Obama (e a crise) vão fechar uma era iniciada com Reagan e aprofundada por Bush, onde o fundamentalismo neoliberal fez da desregulação o credo central da política econômica nos Estados-Unidos e no mundo.
Dito com as palavras de Paul Krugman: “O fracasso da política monetária na crise atual mostra que Keynes estava certo. E o pensamento keynesiano está por trás do programa de Obama para a economia.” (caderno The New York Times da Folha SP de hoje).
O Prêmio Nobel de economia não pensa que Obama romperá com o livre mercado, mas sim com a ideia que o mercado resolverá -se liberado das interferências do Estado- as “negatividades” do capitalismo. Para Krugman, a era Obama coincide com um retorno da ação reguladora e intervencionista do Estado, condição sine qua non para a reconstrução da economia americana e mundial.
Ilusão?
A revista BussinesWeek, em artigo de John Carey e Theo Francis (ver aqui Setor empresarial americano espera uma nova era de regulamentação), disse com relação a Obama e seu governo:
“O fato de o governo democrata que assume amanhã o poder estar defendendo controles mais rigorosos sobre o setor privado não surpreende. Mas, desta vez, o retorno do pêndulo não é puramente ideológico. Só em 2008 houve o derretimento financeiro, brinquedos contaminados com chumbo, aeronaves com registros de inspeção duvidosos e vegetais contaminados com salmonela, entre outros casos que afetaram empresas tanto grandes como pequenas. “Há evidente percepção no país de que a era de desregulamentação prejudicou os EUA”, diz David Michaels, diretor de saúde ambiental na Faculdade de Saúde Pública, da Universidade George Washington.
Agora que os ventos da política sugerem mudanças inevitáveis, muitas empresas declaram apoiar maior rigor na regulamentação. A nova mentalidade em Washington, diz William Morin, diretor de assuntos governamentais na Applied Materials, fabricante de semicondutores em Santa Clara, Califórnia, ‘é a diferença entre as pessoas que querem fazer o governo funcionar e um pessoal que via o governo como sendo o problema’.”
Delírio?
Penso que não. Uma visão apenas lúcida sobre o significado político da vitória de Obama e sua relação com a profundidade da crise econômica.
Obama estará plenamente à altura do desafio? Poderá agir apesar da oposição Republicana no congresso? fará concessões? recuará em algumas questões? Tudo isto dependerá das relações de força políticas, sociais e das pressões de lobbys poderosos.
A resposta a estas e a outras questões relacionadas ao curso inevitavelmente sinuoso que assumirá a política de Obama, não está escrita nas estrelas, mesmo as vermelhas.
A simpatia do PT por Obama faz parte de uma identificação do partido com às posições favoráveis à regulamentação e ao carácter redistributivo que deve assumir o Estado e contrárias as pregações neoliberais, assumidas pelo programa de Obama. Isto não significa, evidentemente, endossar toda sua política, seja interna ou externa, diplomática ou comercial.
Palestinos e PT
Pulando de Obama para o Oriente Médio, Fernando Rodrigues considera que a visão “atávica” opera não só fazendo de Obama a incarnação do bem, mas também é extensiva à simpatia do PT pelos palestinos. Novamente, vale a pena ser precisos.
Tenho uma enorme simpatia pelos palestinos e não penso estar renegando minha condição de judeu fazendo esta afirmação. Os judeus vitimas de persecução e do antissemitismo só podem ter simpatia pelo direito dos palestinos a existir como nação livre e independente. O que os petistas defenderam sempre (e não deveria ser esquecido pelos petistas) é que este direito não pode implicar, nem visar, a destruição do Estado de Israel e do direito dos israelenses a viverem em paz. Por isso o PT nunca transferiu suas simpatias pelos palestinos, para os integristas do Hamas, nem para os atentados suicidas visando civis. Condenar o Hamas, seu integrismo apoiado no fanatismo religioso, não é para o PT renegar suas simpatias pelo sofrimento e pela luta do povo palestino.
Mas essa simpatia pelo justo direito dos palestinos a um Estado exige, sim, condenar sem meias palavras a política de força militar, de bombardeio de populações indefesas, de muros vergonhosos, de asfixia desumana, como a que o governo de Israel pratica depois que abandonou o processo iniciado com os acordos de Oslo. Criticando assim, o PT estará manifestando não só sua simpatia pelo povo palestino, mas uma verdadeira empatia com o povo de Israel que vê a paz almejada, cada vez mais distante, pois a política belicista de seu governo alimenta o fanatismo reacionário do Hamas.
Luis Favre

FERNANDO RODRIGUES
Obama e o PT
BRASÍLIA - Barack Obama toma posse amanhã e a onda obamista parece ter contaminado os petistas. Logo depois da vitória do democrata na eleição presidencial dos EUA, o PT ofereceu uma análise no boletim distribuído pela sigla na Câmara dos Deputados.
Foi um relato do deputado petista Nilson Mourão, do Acre, enviado aos EUA para assistir ao processo eleitoral. O acreano não é propriamente uma estrela do establishment do PT, mas sua avaliação é um denominador comum na legenda.
Em texto benevolente com o norte-americano, Mourão pontifica: “Barack Obama tem luz própria, carisma, simpatia, competência, liderança, qualidades que se manifestam em 16 meses de campanha. Ele não é um “produto bem vendido” nem uma “criatura” da mídia”.
O relato do petista acreano aproxima-se do delírio ao afirmar que Obama “indicou claramente a necessidade de iniciar um novo ciclo histórico e sepultar uma era de fundamentalismo neoliberal”. Não há a evidência de que o norte-americano romperá com os cânones do livre mercado. Como escreveu o festejado comentarista da CNN Fareed Zakaria, “o novo presidente dos EUA será julgado pela habilidade de salvar o capitalismo”.
Mas a análise produzida por Nilson Mourão não é inútil. Expõe uma dificuldade atávica dos políticos brasileiros -não só os do PT- para entender com alguma sofisticação o cenário externo. Comportam-se como se tudo fosse um jogo do bem contra o mal. No caso da faixa de Gaza, é nítida a simpatia dos petistas pelos palestinos -como Lula torcia para os guerrilheiros vietcongues no início dos anos 70.
Daqui a alguns meses, petistas em peso constatarão a sobrevivência do capitalismo. O PT então poderá ficar indignado com o companheiro Obama. Faz parte. Mas só não enxerga hoje a realidade quem prefere se entregar ao autoengano.
27/11/2008 - 09:30h Menos Estado e má repartição da riqueza: as razões da crise global

*Marcio Pochmann – VALOR
A crise econômico-financeira mal iniciou e já produz resultados nefastos que podem superar os de 1929. Somente nos primeiros nove meses de 2008, as bolsas de valores sofreram baixas superiores a 25%, sendo que, para alguns países, com queda acima da verificada nos Estados Unidos e na Inglaterra durante a Depressão de 1929. Parece não terem sido ainda mais profundas por força de uma ampla coordenação mundial de intervenções governamentais, com transferências significativas de recursos públicos aos setores atingidos e com maior poder de pressão. Da mesma forma, prevalece uma intensa articulação política de países, como no caso do G-20, que busca novas brechas para a reversão dos equívocos provocados pela desregulamentação neoliberal e pelos artificiais avanços da financeirização sem fundamentação na produção de riqueza.
Desde o final da década de 1970, quando se tornou dominante a visão do Estado apresentado como obstáculo ao desenvolvimento, a liberalização da economia tomou força somente comparável ao ideário governamental do século 19. Naquela época de predomínio inglês, o capitalismo operava praticamente sem a presença de grandes empresas, apoiado na diversidade de micro e pequenos empreendimentos sem capacidade de impor seus preços a partir da somatória de custos mais margem de lucro. Bem diferente do que vem ocorrendo desde o último quartel do século 20, que demarca o longo processo de esvaziamento dos Estados Unidos enquanto centro dinâmico produtivo e financeiro do mundo. Assim como também aponta para a insuficiência da governança mundial operada a partir do sistema ONU (Organizações das Nações Unidas), por meio de agências multilaterais como Banco Mundial, Fundo Monetário Internacional, entre outras.
De um lado, o peso dos EUA na economia mundial reduziu-se significativamente, com a transferência de parcela do seu setor produtivo para outros países decorrentes da perda de competitividade das empresas e das políticas de enfraquecimento do Estado e do sistema de atenção à produção e emprego. Mesmo assim, os ideólogos do neoliberalismo continuaram a estimular a crença de que seria possível viver como país eternamente super rico num quadro geral de empobrecimento relativo, com consumo superior a 20% da capacidade anual de produção de bens e serviços e o endividamento 3,5 vezes maior que a renda nacional.
O próprio estopim da crise financeira terminou indicando o quanto a opção pela redução do Estado se mostrou inadequada para substituir as políticas sociais por forças exclusivas do mercado. No caso da habitação para os segmentos de baixa renda, por exemplo, o esvaziamento de políticas sociais específicas estimulou o setor privado americano a operar irresponsavelmente, emprestando em longo prazo a quem tinha oportunidade negada de acesso a empregos e remunerações decentes. A mesma situação se reproduziu às famílias levadas a acreditarem exclusivamente nos fundos previdenciários privatizados frente ao atual registro de quedas significativas no valor patrimonial, capaz de inviabilizar benefícios adequados de pensões e aposentadorias.
De outro lado, o papel quase simbólico atual das agências multilaterais construídas no final da Segunda Guerra Mundial, quando os países eram maiores, em geral, que suas empresas. Nos dias de hoje, as corporações transnacionais tornaram-se superiores ao produto anual de países, sendo o mundo, por isso, governado pelo poder privado de não mais do que 500 grandes grupos econômicos. As três maiores delas possuem faturamento anual superior ao PIB do Brasil, considerado o décimo mais rico do planeta, enquanto o faturamento das cinqüenta grandes corporações do mundo supera o PIB de mais de uma centena de países. Se consideradas somente as famílias enriquecidas pelo processo disfuncional de governança pública do mundo, observa-se que apenas um reduzidíssimo conjunto de menos de 1,2 mil bilionários chega a se apropriar de renda equivalente a da metade da população adulta do planeta.
O caráter privado da desregulação mundial termina por gerar situações inaceitáveis, como as atuais crises alimentar e climática. Com o abandono das políticas de segurança alimentar desenvolvidas no segundo após-guerra, que geralmente buscavam operar estoques reguladores e garantia de renda ao campo, as grandes corporações transnacionais do agronegócio sentiram-se estimuladas a estabelecerem preços inicialmente inferiores aos dos produtores tradicionais. A queda nos preços alimentares durou pouco, porém se mostrou suficiente para que houvesse o maior empobrecimento, quando não a falência dos pequenos agricultores, bem como o aprofundamento da dependência externa de tecnologia (defensivos e fertilizantes agrícolas). Nos dias de hoje, o comportamento dos preços dos alimentos pouco atende aos produtores, mas fundamentalmente às grandes corporações mundiais.
Da mesma forma, o mundo continua a insistir na continuidade do modelo de produção e consumo assentado na profunda degradação ambiental. A consciência de sua insustentabilidade não vem acompanhada da produção e difusão de tecnologias limpas e renováveis, justamente porque isso implica rever a hierarquia do mundo organizada a partir da desregulação operado pelas grandes corporações transnacionais.
Resumidamente, a contenção do papel do Estado por quase três décadas foi acompanhado por inquestionável processo de concentração brutal da renda e riqueza mundial. A liberalização das economias enfraqueceu o poder dos trabalhadores na barganha pela maior participação dos salários na renda dos países. Em geral, a parcela salarial dos trabalhadores caiu quase 20 pontos percentuais no PIB, de mais de 70% para um pouco acima dos 50% nos países avançados nos últimos trinta anos. Nos países não desenvolvidos, a queda também se generalizou de acima dos 50% para abaixo dos 40% do PIB desde o final da década de 1970. Com o esvaziamento do Estado, as políticas sociais foram abandonando gradualmente a perspectiva da universalização para aderirem à lógica da focalização, tão defendidas até pouco tempo por agencias multilaterais como Bird e FMI. Percebe-se, hoje, como se mostraram incapazes de sustentar o padrão de bem estar social compatível com o grau de avanço econômico dos países. O resultado não poderia ser outro: desigualdade e o quadro geral de relativa regressão socioeconômica.
Mesmo que apresente característica distinta da Depressão de 1929, a crise econômico-financeira atual tende a demandar remédios muito parecidos. Ou seja, o maior fortalecimento do papel do Estado regulador em novas bases, bem como a desconcentração da renda e riqueza no mundo. Tudo isso, no entanto, não deveria ser estabelecido exclusivamente no âmbito nacional, mas, crescentemente no plano supranacional, por ser capaz de por em marcha uma nova ordem mundial comprometida com prosperidade compatível tanto com a justiça social como a sustentabilidade ambiental do planeta.
Marcio Pochmann, professor licenciado do Instituto de Economia (IE) e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). É presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). Escreve mensalmente às quintas.
09/11/2008 - 10:49h Pivôs
VERISSIMO – O GLOBO
O golfe, o tênis e as corridas de Fórmula-1 eram atividades típicas de brancos. Até pouco tempo não se concebia um negro num country club a não ser como carregador de tacos ou, com raras exceções (como Arthur Ashe há alguns anos), numa quadra de tênis a não ser como gandula, ou que nome tenha aquela garotada que junta as bolas. E um negro chegar a campeão de Fórmula-1 era tão inimaginável como um dia um negro chegar a presidente dos Estados Unidos. Hoje, Tiger Woods é o melhor golfista do mundo e, dizem alguns, de todos os tempos, as irmãs Venus e Serena arrasam nas quadras de tênis e Lewis Hamilton acaba de ganhar o campeonato de Fórmula-1 do ano. Quer dizer — estava claro que ia dar Obama.
Já se disse que as eleições presidenciais americanas são tão importantes que todo o mundo deveria votar nelas. Alguns foram mais longe e, depois da reeleição de Bush, disseram que todo o mundo deveria votar nas eleições presidenciais americanas, menos os americanos. Mas a eleição de Obama os redimiu. Ele certamente vai entrar na lista dos presidentes “pivotais” que nos últimos 80 anos redirecionaram a História dos Estados Unidos, nem sempre para o lado certo, pelas suas personalidades ou pelas suas ações. A começar por Franklin Roosevelt, cuja situação, ao tomar posse na Presidência do país mergulhado numa crise econômica cujo epicentro também era Wall Street, mais se parece com a de Obama, hoje, e que também inspirou a nação a mudar para se salvar. Outro “pivô” histórico foi Kennedy, que tem em comum com Obama o fato de se destacar mais pelo impalpável — carisma, fotogenia etc. — do que por competência provada, e por também ter vencido um preconceito supostamente irreversível contra uma minoria, no caso os católicos, para chegar aonde chegou. De Kennedy hoje se diz que teve mais fulgor do que substância, ou que lhe faltou tempo para ser um presidente que correspondesse à sua imagem de juventude e novidade. Mas, durante o pouco tempo que teve, a imagem eletrizou o país. Do mesmo jeito, a importância simbólica da eleição de Obama talvez seja a sua única importância, mas já é o suficiente para fazer história.
Outro “pivotal” foi Ronald Reagan, que se elegeu dizendo que o governo não era a solução, era parte do problema, a frase que inaugurou a era de desregulação e permissividade que deu na crise de agora, e que, com todo o mundo financeiro dependendo da ação de governos para solucionar seus problemas, ganhou uma ironia amarga. Com este pivô o Obama não tem nada a ver
21/10/2008 - 07:52h Clareza e alguma ousadia

Antonio Delfim Netto – VALOR
As condições básicas que devem guiar nossa política social e econômica são as seguintes: 1) daqui a uma geração, em 2030, seremos 240 milhões de habitantes, com 160 milhões entre 15 e 65 anos, aos quais teremos de garantir empregos decentes; e 2) nossa expectativa de vida ao nascer deverá ser muito parecida com 79/80 anos, o que aumentará o número de pessoas com idade maior do que 65 anos, às quais teremos de dar uma aposentadoria decente.
É por isso que não podemos matar, apenas por pânico do que ocorre na economia mundial, o “espírito de crescimento” que recuperamos recentemente. É meridianamente claro que tais objetivos não poderão ser atingidos com um crescimento médio do PIB menor do que 5% ao ano, perfeitamente possível quando se examina a nossa história e a quantidade e qualidade de nossos recursos naturais e humanos.
Entre os países emergentes, em particular os outros três Brics (Rússia, Índia e China), é verdade que temos crescido menos. Mas não é menos verdade que somos o único que acertou suas contas com o passado e vive num regime politicamente aberto. Não temos nenhum problema de fronteira com nossos vizinhos (e são dez!). Não temos nenhum encrave étnico, religioso ou lingüístico, enquanto cada um deles tem pelo menos meia dúzia de cada categoria. Desde 1988 temos uma Constituição que, com pequenas generosidades e maiores virtudes, está impondo o respeito às instituições e o pleno funcionamento dos três Poderes (Judiciário, Legislativo e Executivo). Ela garante um sistema democrático pluripartidário, com eleição regular do poder incumbente através do amplo, seguro e eficiente uso do sufrágio universal.
Em que outro daqueles países, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal teria o poder de controlar a tentativa policialesca de construir o “Panopticon”, a máquina de controle universal dos cidadãos? São esses fatos que colocam à nossa disposição a possibilidade de crescer economicamente nos próximos 25 anos, tanto ou mais que qualquer um deles. Não podemos desperdiça-la.
O que pode nos impedir de fazê-lo? Toda a história econômica dos últimos cem anos mostra que só dois fatores podem abortar nosso crescimento: 1) uma crise de energia ou 2) uma crise de financiamento dos déficits em conta corrente. Mas ela mostra, também, que eles sempre resultaram do descuido dos governos e da miopia das políticas públicas, quando esquecem de vê-las uma geração à frente.
Pois bem. Com um primeiro “bônus” que colhemos da expansão mundial, estimulada por uma política monetária permissiva nos países desenvolvidos e o estímulo da exagerada desregulação financeira, nossa situação externa passou da penúria à de relativa folga (em 2002 estávamos “quebrados” e fomos ao FMI e hoje temos US$ 200 bilhões de reserva). Isso garante que, na ausência do “fim do mundo”, poderemos continuar nos próximos dois anos a importar livremente sem problemas de financiamento do déficit em conta corrente. A importação é um fator de produção imprescindível (exatamente como o trabalho e o capital) para a produção competitiva. Em outras palavras, nos próximos dois ou três anos o financiamento do déficit em conta corrente não abortará o crescimento.
E a energia? Tão pouco! Primeiro, porque o governo está mais cuidadoso. Estamos acelerando a solução do gás, construindo hidrelétricas, continuamos a insistir no etanol e no biodiesel e estamos atingindo a auto-suficiência na produção de petróleo. Segundo, porque outro “bônus” que recebemos da natureza (o pré-sal), deve garantir em quatro ou cinco anos, se usado com inteligência e competência, a nossa libertação simultânea (pelo menos por uma geração) dos dois fatores abortivos do crescimento.
No essencial, portanto, o Brasil está preparado para um crescimento médio da ordem de 5% (ou um pouco mais) pelos próximos 25 anos sem graves problemas sociais, políticos ou econômicos. É claro que há muita coisa a fazer e que podemos fazê-las erradas! É importante reconhecer o papel fundamental do Estado-indutor, mas é ainda mais importante impor-lhe eficiência. A relação custo/benefício dos serviços prestados pelo Estado brasileiro é, provavelmente, uma das mais altas do mundo e dificulta nosso crescimento. É preciso, portanto, melhorá-la.
O setor privado respondeu ao longo dos últimos 15 anos com substancial aumento da sua produtividade. Até agora, estimulado pelo alto nível de utilização do capital, ele está investindo fortemente. Qual será a sua resposta se incorporar uma expectativa pessimista com relação à demanda global e à oferta de crédito criadas pelo pânico externo? Consumidores e empresas tentarão aumentar sua liquidez, postergando o consumo e forçando a liquidação dos estoques. A contrapartida de uma redução da produção será, entretanto, um aumento do custo unitário dos salários por unidade de produto (pressão sobre os preços) e uma redução dos lucros que financiam os investimentos.
É preciso, portanto, que o Banco Central, que até aqui tem agido tempestiva e acertadamente para enfrentar os problemas de liquidez interna, introjete esses fatos na sua expectativa de inflação e modere seu apetite de elevação da taxa de juros. Por outro lado, deve aumentar sua vigilância para não permitir que nosso sistema bancário, apenas por “mania de grandeza imitativa”, reduza o crédito interno acima da precaução razoável.
Antonio Delfim Netto é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, Agricultura e Planejamento. Escreve às terças-feiras
E-mail: contatodelfimnetto@terra.com.br
24/08/2007 - 13:36h Hora de reavaliar o movimento de desregulação financeira?
Fernando Cardim de Carvalho
Jornal Valor
| A reação dos principais mercados financeiros nesta semana, após os repetidos acenos de altas autoridades, especialmente americanas, de que utilizariam os instrumentos que fossem necessários para impedir que as turbulências se agravassem, podem dar ao público em geral uma falsa sensação de segurança e conforto. Não é impossível que os mercados financeiros passem a se comportar de forma mais estável daqui para diante, mas é altamente improvável. As medidas tomadas pelos principais bancos centrais do mundo, especialmente o Federal Reserve e o BCE, foram até certo ponto surpreendentemente inspiradas, contribuindo para desacelerar a degradação do mercado de títulos imobiliários, mas, neste ponto, a probabilidade maior ainda é a de que estejamos vivendo no intervalo de duas ondas de um tsunami, em que a calmaria do mar é apenas temporária. |
| Muitos economistas acreditam que novos problemas virão exatamente porque os bancos centrais intervieram desta vez para conter danos. Para eles, só se aprende pelo sofrimento e, por isso, as crises são profiláticas, ao fazerem com que investidores se conscientizem dos riscos que cercam qualquer oportunidade de investimento e tomem as precauções necessárias. Esses economistas acenam com o fantasma do “risco moral”, isto é, do incentivo perverso que a intervenção pública estaria dando a esses investidores ao protegê-los das conseqüências de seus próprios atos. Postulam que os mercados financeiros são “eficientes” e que, se deixados a si mesmos, funcionariam de forma estável e eficaz. Alguns chegam mesmo a anunciar a próxima crise, porque o governo conteve esta (até agora). |
| Já para outros economistas, mercados financeiros são inerentemente instáveis, propensos a gerar exageros, seja exagerando altas até transformá-las em bolhas especulativas, seja exagerando as quedas, gerando as chamadas crises sistêmicas. Essa instabilidade não resultaria da intervenção pública, nem seria acidental, mas, sim, do fato da vida de que investimentos dependem de expectativas e essas, ao contrário da ficção proposta pelos adeptos das “expectativas racionais”, são influenciadas por fatores subjetivos, como o estado de confiança e o animal spirits de que falava Keynes. Todo investimento implica na aceitação de um risco, muitas vezes incalculável, em troca da perspectiva de um ganho. A avaliação desse risco é inevitavelmente subjetiva, mas sofre também a influência da experiência do investidor. Os investidores que perderam o que tinham na crise das Bolsas brasileiras em 1971 certamente se tornaram instintivamente pessimistas. Já aqueles investidores e operadores americanos que se acostumaram com o longo impulso expansivo dos mercados nos anos 1990, naturalmente foram se tornando sempre mais ousados. A experiência desse período foi a de que não havia como perder dinheiro, por mais exótico que fosse o investimento. |
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Países em desenvolvimento sofrem o impacto da crise porque também tomaram o bonde da desregulação, mas nada têm a ver com sua origem |
| Hyman Minsky certa vez observou que “a estabilidade é desestabilizante”. Por mais cautelosos que sejam os participantes do mercado financeiro, se as precauções tomadas se mostram bem-sucedidas, e perdas são efetivamente evitadas, esses mesmos participantes acabarão por se questionar se não estão perdendo oportunidades de aumentar seus ganhos por excesso de cautela. Quando se chega a esse ponto, os investidores e operadores começam a se expor a riscos sempre maiores e obter ganhos crescentes, tomando posições cada vez mais especulativas. O próprio sistema financeiro permite e incentiva sua própria fragilização, ao acomodar uma alavancagem crescente. Investidores endividam-se para comprar ativos, fazendo o valor destes subir, o que lhes permitirá endividar-se ainda mais para ampliar sua carteira, numa espiral que parece desafiar a lei da gravidade. Imaginar-se que um sistema com essa dinâmica possa convergir espontaneamente para qualquer forma de equilíbrio, para sequer falar de um “equilíbrio eficiente”, exige uma capacidade de auto-ilusão que beira ao delírio. |
| Neste quadro, a intervenção pública deve estar sempre dirigida à contenção de excessos, embora nem sempre isso seja viável. O primeiro instrumento a ser utilizado é a regulação financeira. Não deve surpreender ninguém que turbulências financeiras de maior ou menor gravidade fizeram sua reentrada no cenário mundial exatamente depois que a contra-revolução liberal persuadiu lideranças políticas de vários países a promover a chamada desregulação. As ineficiências de mercados financeiros insuficientemente regulados não são pragas apenas de países em desenvolvimento. A crise atual foi gerada nos Estados Unidos e expandiu-se pelos centros financeiros mais avançados da Europa e da Ásia. Países em desenvolvimento, como o Brasil, sofrem o impacto dessa crise porque também tomaram o bonde da desregulação, mas nada têm a ver com sua origem. Os já lendários fundos de hedge, que levaram o mundo à beira da catástrofe, em 1998, com a crise do LTCM, continuam atuando de forma livre e desimpedida, a ponto de incomodar até líderes conservadores como a primeira-ministra Merkel ou o presidente Sarkozy. |
| Mas mesmo o mais eficaz e rigoroso regime de regulação financeira dificilmente evitará que turbulências assolem o mercado financeiro de tempos em tempos. Neste caso, a segunda família de instrumentos a serem utilizados compõem a chamada rede de segurança, inclusive a assistência de liquidez, amplamente utilizada nos últimos dias nos Estados Unidos e na Europa. Quanto mais deficiente for a regulação, maior será a responsabilidade da rede de segurança em conter os desequilíbrios. |
| Por outro lado, o impacto dessas turbulências em países como o Brasil devem levar também a uma nova reflexão sobre um aspecto importante do processo de desregulação, que foi o desmantelamento dos controles de capitais. O Brasil, com a liberalização da conta de capitais, se expõe aos efeitos dessa crise, com a entrada e saída repentina de capitais tanto de residentes quanto de não-residentes, a troco de nada. A crise, e seus desdobramentos futuros, abrem uma oportunidade de corrigir este erro. |
Fernando Cardim de Carvalho é professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ). E-mail: fjccarvalho@uol.com.br



