04/11/2009 - 19:27h Canções de um caminhante


Gustav Mahler (1860-1911)
Lieder eines fahrenden Gesellen (Songs of a Wayfarer)
Lieder cycle for voice and orchestra

Dietrich Fischer-Dieskau, baritono
NHK Symphony Orchestra
Paul Kletzki, regente
(Salle Pleyel, Paris, 1960 ao vivo)

m a h l e r
(1860-1911)

Gustav Mahler nasceu em Kalist (Boêmia) a 7 de junho de 1860. De modesta família judaica, freqüentou durante alguns anos a escola secundária e iniciou em 1875, no Conservatório de Viena, o estudo da música. Em 1880 escreveu a obra coral A canção triste, que tornou conhecido o seu nome.

Foi regente em teatros de pequenas cidades de província e, em 1887, em Leipzig, onde terminou a composição de sua primeira sinfonia. Em 1888 foi nomeado diretor da ópera de Budapeste e em 1891 regente da ópera de Hamburgo, onde suas encenações tiveram muito sucesso.

Em 1897, depois de ter se convertido ao catolicismo, foi nomeado diretor da Ópera Imperial em Viena e eleito regente dos concertos filarmônicos. Os anos seguintes foram um período de sucessos muito grandes, mas também de intrigas contra ele, inclusive da parte da orquestra, que não suportava os inúmeros ensaios a que o regente a submeteu.

Em 1907, Mahler foi forçado a demitir-se. Contratado pela Ópera Metropolitana em Nova Iorque, também foi muito aplaudido. Gravemente doente, do coração e dos nervos, voltou para Viena só para morrer, fato que ocorreu em 18 de maio de 1911.

Mahler foi regente de orquestra da mais alta categoria. Alguns consideram-no o maior regente de todos os tempos, pela dedicação fanática ao trabalho de ensaios e pela fidelidade, no entanto intensamente pessoal, da interpretação das obras. Ajudado por um elenco de grandes cantores e por excelentes cenógrafos, conseguiu representações de perfeição inédita das obras de Mozart e Wagner. As óperas de mestres menores foram apresentadas de tal maneira que pareciam novas obras-primas.

A fama de Mahler como regente eclipsou de longe, durante sua vida, a fama de suas próprias obras sinfônicas. Foram executadas com freqüência, mas sem muito sucesso, rejeitadas pelos conservadores. No entanto, é como compositor que Mahler atingiu a categoria de grande artista.

Em 1885 escreveu Mahler, para textos em estilo popular que ele próprio tinha redigido, as Canções de um caminhante, para uma voz e orquestra, de romantismo intenso quase mórbido. A Sinfonia n.º 1 em ré menor é denominada Titânica, não por ser ‘titânica’, mas conforme o título de um romance de Jean Paul. Ainda é muito romântica, wagneriana e bruckneriana, mas o conteúdo emocional já é outro, obra de um músico intelectualizado e angustiado.

As Canções da cornucópia de um garoto (1888-1899) têm, como textos, canções populares da coleção de Arnin e Brentano. É característica a síntese de melodias que parecem folclóricas, e de um acompanhamento orquestral requintado. Obra-prima é, enfim, a Sinfonia n.º 2 em dó menor (1894), com coro, que manifesta a profunda angústia religiosa do compositor. O ouvinte moderno pensaria em Unamuno.

Seguiram-se, como se fosse alcançada a redenção, a Sinfonia n.º 3 e n.º 4 em sol maior (1900), esta última com um solo com texto de canção popular infantil sobre o céu. Mas são, outra vez, terrivelmente sombrios as Canções sobre a morte da criança (1905), em que Mahler parece ter pressentido a morte, um ano depois, do seu filhinho.

A série das últimas obras começa com a Sinfonia n.º 6 em lá menor (1906), tecnicamente a mais complexa das obras orquestrais do mestre. Enfim, a Sinfonia n.º 8 em mi bemol maior (1907) não é a maior, mas a mais impressionante das obras de Mahler. Foi denominada ‘a sinfonia dos mil’, por que a execução exige várias orquestras e coros, mais de mil figuras. Não é propriamente uma sinfonia, mas antes uma gigantesca cantata. Servem como textos o hino Veni creator spiritus e o coro final da segunda parte do Fausto de Goethe. Nem todos acham que o resultado justifica os colossais recursos exigidos.

A grande obra-prima de Mahler é a Canção da terra (1908), cantata sinfônica sobre textos de Li T’ai Po e outros poetas chineses, na tradução alemã de Hans Bethge. Mahler foi homem de grande cultura literária e filosófica, e de uma intensa predileção pela música autenticamente popular, folclórica. Em sua alma lutaram uma permanente angústia religiosa e dúvidas torturante de intelectual. Tudo isso se manifesta na Canção da terra, que termina com uma comovente canção de despedida para sempre.

Mahler ainda escreveu, depois, a Sinfonia n.º 9 (1910) e a Sinfonia n.º 10 que ficou incompleta, obras de crise em que o compositor se aproxima das fronteiras do sistema tonal.

A grandeza de Mahler como compositor só foi reconhecida depois de sua morte, graças aos esforços de dois regentes que impuseram ao público suas obras: seu discípulo Bruno Walter e o holandês Willem Mengelberg. Seguiu-se curto período de eclipse, quando os nazistas proibiram a execução das obras do mestre de origem judaica. Hoje é Mahler incluído entre os grandes da música, no mundo inteiro.

Fonte Classicos do IG

02/06/2009 - 19:49h Im Abendrot

Dietrich Fischer-Dieskau acompanhado por Hartmut Höll. Lied de Franz Schubert

17/03/2009 - 20:07h A viagem de inverno. Sonho de primavera

Frühlingstraum (Sonho de primavera) de Die Winterreise (A viagem de inverno), Franz Schubert. Dietrich Fischer-Dieskau, barítono e Alfred Brendel ao piano


Dream of Springtime

I dream’t of bright flowers
Such as blossom in May;
I dreamt of green meadows,
And the merry calling of birds.

And when the cocks crew,
My eyes did awake.
Then it was cold and dark
On the rooftops the ravens croaked.

On the window panes
Who had been painting flowers?
You laugh, of course, at the dreamer
Who has seen flowers in winter.

I dreamt of love for love,
I dreamt of a fair maiden;
Of hearts and kisses,
Of bliss and ecstasy.

And when the cocks crew,
My heart did awake;
Now I sit here all lonely
A-nursing my dream.

I close my eyes again,
My heart still beats as warmly.
When will you be green,
You, leaves on the window panes?
When will I hold my darling in my arms?


Rêve de Printemps

Je rêvais de fleurs multicolores
Comme elles fleurissent au mois de mai,
Je rêvais de vertes prairies
Et du chant joyeux des oiseaux.

Et quand les coqs chantèrent,
Mes yeux se sont réveillés,
Il faisait froid et sombre,
Les corbeaux croassaient sur les toits !

Mais là sur les vitres,
Qui donc a peint ces fleurs ?
Vous riez, bien sûr, du dormeur
Qui a cru voir des fleurs en hiver !

Je rêvais d’amours partagées,
D’une fille jeune et belle,
De coeur et de baisers,
De plaisirs et de béatitudes.

Et quand les coqs chantèrent
Mon coeur s’est réveillé ;
Et maintenant me voilà assis seul
A songer encore à mon rêve.

Je ferme à nouveau les yeux
Et mon coeur bat toujours aussi fort.
Quand donc verdiront ces fleurs de givre?
Quand donc, tiendrai-je mon amour dans mes bras?


Frühlingstraum

Ich träumte von bunten Blumen,
So wie sie wohl blühen im Mai;
Ich träumte von grünen Wiesen,
Von lustigem Vogelgeschrei.

Und als die Hähne krähten,
Da ward mein Auge wach;
Da war es kalt und finster,
Es schrieen die Raben vom Dach.

Doch an den Fensterscheiben,
Wer malte die Blätter da?
Ihr lacht wohl über den Träumer,
Der Blumen im Winter sah?

Ich traümte von Lieb’ um Liebe,
Von einer schönen Maid,
Von Herzen und von Küssen,
Von Wonne und Seligkeit.

Und als die Hähne krähten,
Da ward mein Herze wach;
Nun sitz ich hier alleine
Und denke dem Traume nach.

Die Augen schließ ich wieder,
Noch schlägt das Herz so warm.
Wann grünt ihr Blätter am Fenster?
Wann halt’ ich mein Liebchen im Arm?

16/03/2009 - 19:41h A Viagem de Inverno

Gute Nacht (boa noite) faz parte das canções de Schubert, Die Winterreise (A viagem de inverno), com poemas de Müller. O baritono Dietrich Fischer-Dieskau e acompanhado ao piano por Alfred Brendel


Winterreise op. 89 (1827) de Franz Schubert

Os textos de Die Winterreise de Wilhelm Müller que Franz Schubert musicou em 1827, um ano antes da sua morte, são um espelho do mito de Wanderer cujos demónios nos conduzem às regiões mais profundas e frias do ser. Influenciado pela literatura grega e romana, o folclore, a ópera e o drama alemães, e a poesia inglesa e alemã do século XIX, Müller escreve este ciclo de poemas entre 1822 e 1824 o ano da morte de Byron.

Die Winterreise caracteriza-se pelo imaginário romântico e pelos arquétipos empregues em que o mito de Wanderer e da viagem de inverno, temas favoritos dos românticos, traçam uma longa história desde as civilizações mais antigas. A linguagem empregue pelo poeta, a sua apreciação da música, do teatro e das artes visuais, assim como da tradição romântica inglesa e alemã do século XIX, forma um solo fértil para a criação de Die Winterreise. Das várias influências que sofreu, destacamos a poesia mística de Blake, de onde Müller absorveu a ideia de uma psyche humana dividida, o espectro de uma jornada através da vida ao encontro da sua sombra, a emanação, associação que traz tristeza e consequentemente o espírito criativo. Para Müller os poemas são concebidos para serem cantados, afirmando no seu diário em 1815: “eu não posso nem tocar nem cantar, no entanto, quando escrevo versos, canto e toco. Produzindo melodias, as minhas canções podem ser mais agradáveis. Mas coragem! Talvez exista um espírito iluminado algures que possa ouvir as tonalidades das palavras e trazer-mas de volta”. Este espírito iluminado foi Schubert que musicou do autor não só Die Winterreise como Die schöne Müllerin.

Schubert começa a trabalhar neste ciclo de canções sem conhecer a totalidade dos poemas de Müller. Este facto faz com que utilizando a última ordenação de Muller, rompa com a estrutura musical entretanto elaborada. Frequentemente tido como autobiográfico este ciclo deve ser percebido como uma forte articulação psicológica e em sentido metafórico. Winterreise é um sonho, uma visão da viagem que Wanderer efectua através da mente e do coração até às profundezas da alma. A acção situa-se na psyche humana; Wanderer transcende-se a si próprio utilizando elementos da natureza como símbolos de verdades inquestionáveis. Através de Winterreise, assim como de toda a literatura romântica, a natureza espelha o homem. As progressões musicais e metafísicas revelam-se manifestações de viagens psicológicas.

Nestas canções, Schubert traduz várias emoções tanto físicas como psicológicas, nomeadamente o batimento cardíaco presente na interação entre piano e voz assim como nas variações de tempi de Der stürmische Morgen, no galope de Die Post, na languidez de Einsamkeit e na magnificência de Wasserflut e Das Wirtshaus. O desejo domina em Die Wetterfahme; o pessimismo em Gefror’ne Tränen; a violência, a angustia e a agitação em Rückblick; a dúvida em Auf dem Flusse; a resignação em Das Wirtshaus; o desespero em Der stürmische Morgen; o cinismo em Mut; a tristeza em Der Leiermann; a premonição em Die Krähe e a ansiedade em Die Post. Os recursos técnicos e estilísticos empregues, nomeadamente a modulação, a constante mudança de modo e tonalidade, e a repetição de melodias folclóricas traduzem o espírito de Wanderer. O ciclo termina com uma interrogação cuja resposta é um dado existencial.

A música de Schubert, descrevendo e traduzindo fielmente o mito, as emoções e os sentimentos, confere-lhe um dramatismo e uma força peculiares, sendo um exemplo de perfeição na forma como o compositor os visualiza e transforma em realidades sonoras. Traduzidas por estruturas musicais, melodias, harmonias, ritmos, timbres e texturas de uma beleza e profundidade únicas, estas canções revelam a vivência humana e o que de mais profundo existe no ser humano. Nas canções que compõem o ciclo notamos ainda a preponderância do ritmo dáctilo, o ritmo da morte. Encontramos a tristeza e o desespero de Schubert, a profundidade dos seus sentimentos e emoções, no protagonista da acção.

A simplicidade da escrita realça a natureza dos sentimentos expressos. Como uma imagem pintada, este ciclo de canções transcende-se na música do compositor e na cor branca do gelo e da neve, a página vazia onde se escreve o futuro.

Helena Santana

publicada por CASA das ARTES