09/11/2009 - 09:22h ”Não deixem mercado ditar o câmbio”

Ganhador do Nobel em 2001, Spence defende controle de capital e fala do novo documento da Comissão do Crescimento

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Fernando Dantas – O Estado SP

Para Michael Spence, Prêmio Nobel de Economia, o Brasil não deveria deixar os mercados, “como o seu histórico recente de fazer tudo errado”, determinar livremente o valor do real. Ele defende mecanismos de controle de entradas de capital para evitar a sobrevalorização cambial.

Spence, que ganhou seu Nobel em 2001, junto com Joseph Stiglitz e George Akerlof, está à frente da chamada Comissão do Crescimento (Growth Commission), um painel de economistas do mundo todo (incluindo o brasileiro Edmar Bacha) que elaborou um relatório de recomendações para países emergentes sobre como obter o crescimento rápido e sustentado por longos períodos. O relatório foi divulgado em junho de 2008, logo antes da crise, e foi visto como uma versão flexibilizada do Consenso de Washington, combinando crença nos mercados com maior destaque ao papel do Estado.

Agora, a Comissão acaba de divulgar um novo documento, que atualiza o relatório à luz das lições da crise global. O novo relatório recomenda que os países emergentes garantam parte do mercado financeiro para as instituições nacionais, e que sejam restritivos em relação aos produtos financeiros complexos que deflagraram a crise no mundo desenvolvido. A seguir, a entrevista:

Como o sr. vê a questão da sobrevalorização cambial em alguns países, como o Brasil, na saída da crise?

Todos os países em desenvolvimento que tiveram alto crescimento, sustentado por um longo período, administraram as suas moedas em alguma medida. Especialmente num ambiente volátil como o atual, faz todo o sentido fazer algum julgamento sobre quais são os níveis razoáveis. É claro que se pode exagerar, mas não acho que a coisa mais sensata a se fazer seja apenas ficar sentado e deixar os mercados de capitais, com o seu histórico recente de fazer tudo errado, valorizarem a sua moeda. Há várias formas de se intervir: pode-se tributar os fluxos de capital, com taxas que caiam se o dinheiro permanecer algum tempo, e pode-se aumentar as reservas e investir no exterior, invertendo o fluxo de capitais, como a China faz.

E o que há de ruim na valorização?

Basicamente, reduz-se o crescimento. No caso brasileiro, acho que um dos maiores desafios é manter os recentes avanços no mercado de trabalho para pessoas que são pobres. Uma boa parte do crescimento dos países em desenvolvimento deriva de empregar em melhores postos de trabalho pessoas que estão em atividades de produtividade muito baixa. Num país com a renda do Brasil, boa parte disso se dá em setores que atendem o mercado doméstico, mas o setor exportador ainda é suficientemente importante para que se deva tomar cuidado com oscilações muito fortes da moeda. Porque, se os investidores tiverem a sensação de que o câmbio é muito volátil, adiciona-se mais um risco e se desincentiva o investimento.

Quais são as novas recomendações para o setor financeiro dos países emergentes?

Em primeiro lugar, apesar de ser bom que um país tenha instituições estrangeiras no seu setor financeiro, o que se viu nessa crise é que essas instituições basicamente obedecem ao governo e ao banco central dos seus próprios países. Assim, se tiverem uma presença grande demais num determinado país, elas não atuarão como parceiras do governo local, da mesma forma que as instituições nacionais o farão, na hora em que o país implementa sua estratégia para lidar com a crise. A segunda recomendação é que nós realmente não conhecemos aqueles ativos complexos que levaram à crise nos países ricos, e que deve-se ir devagar com eles. Uma fator positivo dos países em desenvolvimento nessa crise é que a presença desses ativos complicados era quase nenhuma, desprezível. Foi uma coisa boa que eu manteria.

O sr. teme que a crise leve à rejeição do modelo de crescimento baseado na abertura para os mercados globais, defendido nos relatórios da Comissão do Crescimento?

Bem, a nossa visão foi de que houve uma enorme falha nos sistemas financeiros dos países avançados. De fato, ela poderia ser interpretada como uma falha mais ampla dos mercados e do capitalismo, e nos preocupamos com isso. Mas eu não acho que, entre os maiores e mais bem-sucedidos países em desenvolvimento, vá haver uma grande mudança na orientação da política econômica. Esses países hoje têm um entendimento bem profundo sobre a importância do dinamismo do setor privado para puxar o crescimento, e sobre o papel do governo de garantir um ambiente estável para que aquilo ocorra. Eu suspeito que, se houver erros desse tipo, é mais provável que eles aconteçam em países pobres, nos quais o modelo de crescimento não está muito bem estabelecido ainda e onde a política e a economia política são menos estáveis.

Por que esses países são mais vulneráveis?

Porque eles realmente não têm os mecanismos de defesa e as vantagens que países como o Brasil têm, como um governo que pode gastar mais dinheiro, esquemas de redistribuição de renda, um banco central altamente competente, um setor privado vibrante. Eu acho que Brasil, China e Índia terão uma recuperação muito boa, mas estou mais preocupado com alguns dos países menores e mais pobres.

Qual o risco de um retorno do protecionismo no mundo pós-crise?

É uma reação compreensível. Quando você diz aos cidadãos de um país que vai haver um grande déficit público, e que os filhos deles vão pagar no futuro por isso, as pessoas podem até concordar, mas desde que os benefícios do impulso fiscal retornem para o próprio país, e não se transformem em importações. Um dos grandes desafios pós-crise, portanto, é o de evitar que isso aconteça. O G-20, que se tornou uma grande voz de coordenação de políticas econômicas, posicionou-se contra o protecionismo, o que é muito bom. Outro problema é que os países vão disputar “market-share” (parcelas de mercado) nessa saída da crise. Há um déficit muito grande na demanda agregada global, porque o consumidor americano está poupando mais, por causa das finanças familiares deterioradas. Assim, as estratégias de crescimento de todo mundo não podem dar resultado ao mesmo tempo. Nesse jogo de ganhar market-share, Brasil, China e Índia devem se dar muito bem. Mas outros países, menos bem sucedidos, podem apelar para o protecionismo. Dessa forma, recuperar a demanda agregada global também evita o protecionismo.

27/10/2009 - 11:25h FMI deveria ajudar o Brasil a enfrentar fluxo de capitais

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Mundo precisa de uma abordagem menos doutrinária sobre capital estrangeiro, e discutir o IOF sobre remessas sinalizaria que o Fundo pode facilitar essa mudança

ARVIND SUBRAMANIAN E JOHN WILLIAMSON DO “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

A ação brasileira ao impor um tributo sobre certas formas de fluxo de capital estrangeiro, a fim de controlar a alta da moeda do país, tem grande importância, prática e simbólica.
O valor simbólico está no fato de que a decisão sinaliza o fim da era em que os mercados emergentes viviam enamorados dos financiamentos estrangeiros e na expressão de uma disposição de agir para moderar fluxos de capital externo. Em termos práticos, a importância está na ampliação do arsenal de que os países podem dispor para moderar o superaquecimento de suas economias. O caso serve como boa ilustração do tipo de medida que as autoridades econômicas podem usar para deter um superaquecimento incipiente nos preços dos ativos.
A resposta do FMI (Fundo Monetário Internacional) à medida foi cálida ou até ligeiramente negativa. Um importante dirigente da instituição afirmou que “esse tipo de imposto oferece alguma margem de manobra, mas nem tanto, e por isso os governos não deveriam se sentir tentados a postergar ajustes mais fundamentais. Em segundo lugar, implementar esse tipo de taxa é muito complexo, porque ela precisa ser aplicada a todos os possíveis instrumentos financeiros”; ele acrescentou que esse tipo de imposto se havia provado “poroso” em diversos países.
A resposta é decepcionante não porque esteja errada, mas porque reflete que a abordagem intelectual do FMI quanto à globalização das finanças continua a mesma. Essa abordagem sempre envolveu desaprovação implícita a esse tipo de medida, por meio de apelos aos países para que tomem medidas complementares (melhor governança empresarial, reforço de regulamentações financeiras etc.), a fim de preservar influxos estrangeiros, que o FMI vê como sacrossantos.
Para os países de mercado emergente, o problema vem sendo o de que nem sempre é fácil implementar medidas como essas em curto prazo, de modo que a questão prática premente do que fazer quanto aos influxos excessivos persiste, e não há muita orientação do FMI quanto a respostas.
Taxas sobre os fluxos de capital têm seus problemas, mas isso não é argumento contra elas. Nenhuma pessoa sensata acredita que taxas não devam ser impostas porque podem ser, e serão, sonegadas. Em lugar disso, seria necessário procurar as melhores maneiras de ordenar essas medidas (a base deveria ser o preço ou a quantidade?
Que espécie de influxo deve ser visado preferencialmente, para títulos de dívida ou de capital? Qual é a duração mais efetiva para essas limitações? Quando elas devem ser retiradas?), de modo a que os benefícios sejam maximizados, e os riscos, minimizados.
Em lugar de continuar recebendo medidas como essa com um banho de água fria, o FMI deveria considerar que elas oferecem uma oportunidade intelectual. Deveria continuar a apoiar os países em sua busca de fluxos de capital mais abertos, como objetivo estrutural, de longo prazo. Mas também é preciso que reconheça que surtos de alta no fluxo de capitais podem representar um sério desafio macroeconômico, capaz de requerer resposta cíclica diferenciada.
Para os mercados emergentes, o arsenal de medidas de política econômica contra crises futuras precisa abarcar medidas de restrição em forma contracíclica do crescimento de crédito e do endividamento, especialmente as altas no influxo de capital. O motivo mais importante para que o FMI leve a sério a medida tomada pelo Brasil se refere a ideologia e narrativa.
Se a crise mundial deriva, em parte, de um sistema de crenças que elevava de maneira indevida o status das finanças, o FMI contribuiu, de forma explícita ou implícita, para que fosse santificado o capital estrangeiro. Isso impôs um custo pesado, e subestimado, aos países de mercado emergente: caso tomassem medidas de restrição ao fluxo de capital, corriam o risco de ser vistos como avessos ao livre mercado e imprudentes em suas políticas econômicas.
Ao reconhecer que, em certos casos, limitações sensatas aos fluxos podem ser uma resposta de política econômica pragmática e razoável, o Fundo eliminaria o estigma de aversão ao livre mercado que ações como as empreendidas pelo Brasil correm o risco de sofrer.
De fato, o medo desse estigma fica evidente na recente medida brasileira: as magnitudes são pequenas, e o Brasil vem se esforçando por enfatizar a natureza temporária das limitações e as duas coisas fazem com que o mercado leve a medida menos a sério, o que prejudica sua eficiência.
Caso o estigma não existisse, o imposto sobre o fluxo poderia ter sido definido de forma melhor e aplicado com mais confiança, a fim de garantir sua efetividade. O mundo precisa de uma abordagem menos doutrinária quanto aos influxos de capital estrangeiro. Ajudar o Brasil em sua decisão, em lugar de divulgar uma resposta negativa, sinalizaria que o FMI está desempenhando papel construtivo para facilitar essa mudança.

ARVIND SUBRAMANIAN e JOHN WILLIAMSON são pesquisadores sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

09/10/2009 - 08:38h Brasil é o que mais subiu em ranking de finanças globais

País supera Estados Unidos e Reino Unido em classificação de estabilidade do sistema financeiro

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Gustavo Chacra, CORRESPONDENTE NOVA YORK – O Estado SP

A economia brasileira foi a que mais evoluiu no ranking de desenvolvimento financeiro elaborado pelo World Economic Forum (WEF), que teve como principal responsável o professor da Universidade de Nova York Nouriel Roubini, considerado o guru da atual crise global, pelo acerto em suas previsões.

Na apresentação do relatório ontem em Nova York, Roubini e demais economistas da entidade destacaram o exemplo positivo do Brasil como sinal de que os emergentes ganham força nas finanças mundiais. Já os americanos e as economias desenvolvidas teriam sido os principais perdedores na crise. Em outra classificação da entidade, que mede a estabilidade do sistema financeiro, o Brasil supera os EUA e o Reino Unido.

Subindo seis posições no ranking de desenvolvimento financeiro, o Brasil ocupa a 34ª posição e tem 3,46 pontos numa escala estabelecida pelo WEF. O Reino Unido, em primeiro lugar, tem 5,28. Já a Venezuela, em último, 2,52. De 55 economias pesquisadas, a brasileira conquistou mais pontos: 0,18.

Com algumas poucas exceções, como a Austrália, os países desenvolvidos apresentaram fortes quedas no índice. Os EUA, que deixaram o topo da lista para ocupar o terceiro lugar, apresentou acentuada redução de 0,73 pontos. A medição leva em conta 120 variáveis, atribuindo pesos ao ambiente de negócios e institucional, estabilidade financeira e a dimensão do mercado de capitais.

“Os países em desenvolvimento exibiram bom resultado no pilar de estabilidade financeira do índice. Esse resultado se deve ao aprendizado em erros de crises do passado, apesar de, para alguns, isso se dever à relativa falta de complexidade e de integração global de seus sistemas financeiros”, disse Roubini.

O Brasil, apesar da evolução no ranking geral de desenvolvimento financeiro e da excelente classificação no ranking de estabilidade financeira, obteve desempenho fraco em outros “pilares”. O ambiente institucional brasileiro está apenas na 42ª colocação. Na área de ambiente de negócios, o Brasil se situa em posição ainda pior – 47ª -, atrás de países como o Egito, a Argentina e a Colômbia. No acesso a serviços financeiros não bancários, o Brasil ocupa o 15º lugar, enquanto na área bancária está na 34ª. O estudo aconselha o governo brasileiro a melhorar também nas áreas legal e regulatória, e também ressalta o desrespeito a contratos no País.

Os Estados Unidos – país que mais pontos perdeu no ranking deste ano ante o do ano passado – enfrentam problemas na área de estabilidade financeira, ocupando uma medíocre 38ª colocação. O país apenas se mantém na terceira colocação porque apresenta desempenho positivo nos outros setores, especialmente o de intermediação financeira.

07/07/2009 - 08:59h A retomada econômica e os iates de luxo

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Gilles Lapouge * – O Estado SP

Não se sabe se a retomada econômica é para hoje ou amanhã. Alguns políticos acham que ela se aproxima, mas os melhores especialistas da Europa, reunidos em Aix, jogaram um balde de água gelada nos otimistas: em um ano, o desemprego aumentou 40% nos países ricos. De 2007 a 2010, esses países terão 26 milhões de desempregados a mais. Como esperar uma retomada diante disso?

Mas o economista Olivier Jay destaca três “boas notícias”: os Estados Unidos, a China e o Brasil. Na sua opinião, os EUA já estão saindo do precipício, mas parece que ele é o único que pensa assim. As duas outras boas notícias são mais fundamentadas: a China resiste. “E o Brasil é a grande surpresa”, diz. “Sua economia se sustenta graças à combinação de um rigor orçamentário e uma política social-democrata de apoio à renda”.

Dentro de um mês, vai se realizar em Cannes a 32ª feira de iates de luxo. É um dos eventos mais seletos das fortunas mundiais. Luxo, esbanjamento, insolência e frivolidade se comprimem no cais de Cannes.

Mas será que os bilionários vão se precipitar a Cannes, como ocorre sempre? Chegou-se a temer que ela seria anulada, pois o mercado de barcos de luxo despencou de 50% para 60% em 2009.

Mas, após muita hesitação, o Salão vai ser aberto na data prevista. Só que, pela primeira vez, os bilionários se fazem de rogados. Houve duas hecatombes no círculo dessa gente riquíssima. Os primeiros a serem atingidos pela crise foram os russos e ucranianos. Portanto, nada de russos este ano. Há alguns anos eles eram os principais interessados, e competiam pela compra do barco mais incrível.

No lugar deles, os organizadores estão de olho nos italianos e nos franceses. O que prova a que ponto chegou o pessimismo. Claro que na França e na Itália, como na Rússia, nos Estados Unidos e no Brasil, existem fortunas fabulosas. Mas este ano, os ricaços estão se escondendo. E compreende-se: há seis meses os luxuosos patrões franceses estão despedindo muitos dos seus empregados, fechando ou transferindo suas fábricas, pedindo ajuda do Estado. Seria chocante se, ao mesmo tempo, fossem vistos na esplanada de Cannes comprando iates de marajás.

Acredita-se, assim, que o Salão será menos frenético. Certamente lá poderão ser vistos belíssimos iates. Mas no geral a principal atração do evento é o desfile de bilionários em visita a esses fabulosos barcos. Ocorre que neste ano eles estão receosos. Mesmo se comprarem um barco, o farão às escondidas. Estão discretos, tímidos. É o cúmulo! A organização do Salão em Cannes já preveniu oficialmente: “este ano será impossível vê-los. Eles chegarão de helicóptero ao ponto mais próximo do pontão. Visitarão o barco que pretendem comprar e em seguida partirão”. Talvez até alguns desses compradores se disfarcem de mendigos, para não serem linchados.

É o mundo ao reverso: quando alguém adquire um barco de 200 milhões, é para deixar claro que pertence ao “jet set” planetário. Mas que prazer terá em desembolsar esse dinheiro, se não vai conseguir provocar inveja nos amigos?

A crise pelo menos teve esse efeito estranho, mas talvez saudável: criou um novo modelo de bilionário: o bilionário recatado.

29/06/2009 - 10:59h Os fantasmas que rondam Arthur Virgílio

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Empréstimos de Agaciel a senadores ampliam crise

Gabinete de Arthur Virgílio confirma que pediu dinheiro ao ex-diretor-geral da Casa

Tucano tem sido o principal crítico de Agaciel e Sarney; bancadas de PSDB e DEM vão decidir se pedem o afastamento do presidente

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA – Folha SP

Ameaças do ex-diretor-geral do Senado Agaciel Maia de revelar empréstimos concedidos a senadores e definições de aliados sobre o apoio ao presidente José Sarney (PMDB-AP) vão contaminar ainda mais a crise na Casa numa semana que será decisiva para os dois.
Principal crítico de ambos desde o início da crise, o líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), terá de explicar um empréstimo que recebeu de Agaciel. As bancadas tucana e do DEM vão decidir amanhã se pedem o afastamento de Sarney do cargo.
Subchefe do gabinete de Virgílio, Carlos Homero Vieira Nina confirmou ontem que pediu dinheiro a Agaciel para ajudar o líder tucano a pagar uma conta de hotel em Paris, em 2003, conforme revelou a revista “IstoÉ” deste final de semana.
“O Arthur estava com um problema no cartão de crédito. Era fim de semana, então eu procurei o Agaciel, que é, ou era, um grande amigo meu”, disse Nina à Folha. “Podem ter sido uns R$ 10 mil, mas não eram US$ 10 mil [como informou a revista]“, completou.
De acordo com a revista, o dinheiro não foi pago. O assessor do líder tucano nega. “Eu fiz uma vaquinha e paguei na mesma semana”, disse. Vieira Nina não soube precisar se avisou o senador que o dinheiro depositado na conta dele era de Agaciel. “Não lembro, mas imagino que eu tenha dito sim.”
Vieira Nina também admitiu que três filhos seus foram funcionários do gabinete do tucano. Virgílio afirmou que irá representar contra si próprio no Conselho de Ética.
A Folha apurou que outros senadores também já tomaram empréstimos de Agaciel. Apesar de dizer publicamente que não ameaça e não chantageia ninguém, o ex-diretor tem enviado recados por interlocutores que poderá começar a revelar outros casos parecidos com o do líder do PSDB.
Ao discursar em favor de Tião Viana (PT-AC), que perdeu a eleição para a presidência do Senado para Sarney em fevereiro, Virgílio defendeu a saída de Agaciel da Direção Geral, posto que exercia desde 1995, quando foi nomeado por Sarney. O tucano citou na ocasião que uma secretária de Agaciel tinha um automóvel BMW.
Em março, Agaciel foi demitido, após a Folha revelar que ele escondeu da Justiça uma mansão avaliada em R$ 5 milhões. Foi revelado também que, a pedido do então diretor-geral, o Senado gastou R$ 6,2 milhões para pagar horas extras no recesso parlamentar. Agaciel e seu grupo passaram a creditar aos tucanos e a Tião Viana a origem das denúncias.
Em seguida, o petista teve que explicar por que emprestou um telefone celular do Senado para a filha viajar para o México. A conta custou R$ 14 mil. Em abril, quando foi revelado que Tasso Jereissati (PSDB-CE) usou sua cota de passagem aérea para fretar jatinhos particulares, o tucano culpou diretamente Agaciel.

Processo administrativo

Na quarta-feira, deverá ser confirmada a abertura de um processo administrativo contra o ex-diretor-geral, o que poderá resultar na sua demissão. Agaciel é o principal acusado de produzir atos secretos na Casa. A comissão de sindicância que apura o caso deverá entregar o seu relatório final. O Ministério Público Federal também abriu um inquérito relativo ao tema.
Amigo de Agaciel e padrinho de casamento de sua filha, Sarney também enfrentará dias de tensão. O DEM e o PSDB decidem amanhã suas posições em relação à situação de Sarney.
As duas bancadas questionam o fato de um neto de Sarney ser dono de uma corretora que atuou no mercado de crédito consignado do Senado. Para o DEM, o caso é parecido com o do ex-diretor de Recursos Humanos João Carlos Zoghbi, cujos filhos eram donos ocultos de uma corretora que também operava no Senado.
“Não podemos ter dois pesos e duas medidas”, disse o líder do DEM José Agripino.

27/05/2009 - 11:03h País recebe US$ 5,7 bilhões em investimentos estrangeiros

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Dinheiro para a produção entrou entre abril e 26 de maio; ingresso de investimento financeiro também cresceu

 

Sérgio Gobetti, BRASÍLIA – O Estado SP

 


Em menos de dois meses, o Brasil já absorveu cerca de US$ 9 bilhões do mercado internacional para investimentos produtivos e especulativos, refletindo os bons ventos que voltaram a rondar a economia brasileira e que estão por trás da recente melhoria dos indicadores financeiros, como bolsa de valores e taxa de câmbio.

Em abril, os investimentos estrangeiros diretos (IED) somaram US$ 3,4 bilhões, número comparável aos que eram registrados no ano passado, antes do agravamento da crise internacional. Os investimentos em ações trouxeram outros US$ 630 milhões. Em maio, os dados parciais são ainda mais expressivos: US$ 2,5 bilhões entraram no país para IED e nada menos do que US$ 2,3 bilhões foram para a bolsa até o dia 26.

Os investimentos de renda fixa também estão crescendo neste mês, rendendo outros US$ 811 milhões de ingressos líquidos. Os bons fundamentos macroeconômicos do país estariam, segundo o governo, por trás desse movimento.

“Mais do que a quantidade, a qualidade dos ingressos é positiva, pois são investimentos de longo prazo, que denotam interesse efetivo no País”, disse o chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes.

Para analistas do mercado, entretanto, o afluxo de capital estrangeiro pode revelar interesses mais imediatistas, que levam os investidores a preferir o Brasil a outros países emergentes. Os exportadores também se preocupam com o crescimento da entrada de recursos do exterior, já que eles tem levado à valorização do real, que torna menos competitivos os produtos brasileiros no mercado externo.

O clima de confiança também fez crescer os investimentos brasileiros no exterior, que somaram US$ 2,8 bilhões em abril, depois de sucessivos meses de retiradas líquidas. Nesse caso, entretanto, a saída de dólares afeta negativamente o balanço de pagamentos.

No cômputo geral do fluxo de dólares, o Brasil registrou um ingresso líquido de US$ 4,5 bilhões entre abril e maio, invertendo tendência anterior de perda. Somente em maio, na parcial do dia 26, o saldo positivo do chamado fluxo cambial chega a US$ 3,1 bilhões.

Das reservas internacionais mantidas pelo BC, o valor líquido em caixa somava US$ 190,5 bilhões no final de abril. O estoque de operações em linhas com compromisso de recompra totalizava US$ 4 bilhões, enquanto o de empréstimos em moeda estrangeira somava US$ 6,7 bilhões.

NÚMEROS

US$ 4,5 bilhões
foi o ingresso líquido de dólares registrado pelo Banco Central, pelo fluxo cambiam, entre abril e maio

US$ 3,1 bilhões
é o resultado do fluxo cambial até o dia 26 de maio, segundo o BC

US$ 190,5 bi
eram as reservas internacionais do BC em abril

25/03/2009 - 14:06h Plano dos EUA é “roubo” para o contribuinte, diz Prêmio Nobel

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Joseph Stiglitz

DA REUTERS – Folha SP

O plano do governo americano para se livrar dos ativos “tóxicos” dos bancos é um “roubo” ao contribuinte dos EUA, por expô-lo a risco excessivo, e dificilmente irá funcionar enquanto a economia continuar enfraquecida, disse o Prêmio Nobel de Economia Joseph Stiglitz.
“O plano do [secretário do Tesouro, Timothy] Geithner, está repleto de falhas”, disse em Hong Kong. Para Stiglitz, o plano apresentado anteontem por Geithner para retirar até US$ 1 trilhão em ativos problemáticos dos balanços do bancos oferece “incentivos perversos”.
Segundo ele, o governo dos EUA está usando o contribuinte como garantia caso esses ativos se desvalorizem, ao mesmo tempo em que cede a possível alta, ou lucros em potencial, para os investidores privados.
“De forma bem sincera, isso equivale a um roubo do povo americano. Eu não acredito que isso vá funcionar porque acredito que haverá muita revolta contra colocar tantas perdas sobre os ombros dos contribuintes americanos.”
Mesmo que o plano limpe os balanços dos bancos de gigantescas dívidas “tóxicas”, as preocupações com o cenário econômico podem fazer com que as instituições continuem a não se mostrar dispostas a novos empréstimos, ao mesmo tempo em que as perspectivas de uma maior carga tributária para pagar os planos de estímulo do governo podem afetar ainda mais os consumidores americanos, disse Stiglitz.
Alguns legisladores republicanos também demonstraram preocupação com os incentivos oferecidos pelo governo, que pode dar aos investidores privados quase 93% dos fundos para comprar ativos problemáticos. Mas o presidente dos EUA, Barack Obama, disse que o plano é fundamental para a recuperação da economia.
Stiglitz, que é professor da Universidade Columbia e ex-economista-chefe do Banco Mundial, também pediu que os líderes do G20 se comprometam na reunião da semana que vem a fornecer mais recursos aos países em desenvolvimento e disse que a China deve ter mais poder no FMI.

17/03/2009 - 10:37h Para seu criador, Bric pode ser ampliado

Leo Pinheiro/Valor

Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs e o responsável pela criação do termo Bric: o consumo interno nos países do Bric está agora contribuindo significativamente mais do que os EUA

Iván Rothkegel, The Wall Street Journal, de Nova York – VALOR

Nos últimos anos, Bric tornou-se uma das palavras da moda do mundo financeiro. A sigla para Brasil, Rússia, Índia e China passou a representar o ápice do reequilíbrio de forças econômicas da globalização. Nos próximos 50 anos, esses países iriam se tornar grandes potências mundiais e a economia global não seria dominada apenas por Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão.

A pior crise que o mundo presenciou desde a Grande Depressão, contudo, está batendo pesado nos Brics e o “Wall Street Journal Americas” considerou que seria o momento oportuno para revisitar o conceito. O Bric ainda é válido ou, assim como a previsão de que o barril de petróleo chegaria a US$ 250, é outro símbolo dos excessos do mundo dos investimentos antes do colapso do Lehman Brothers?

Para obter as respostas, conversamos com Jim O´Neill, diretor de análise econômica global da Goldman Sachs e o homem que cunhou o termo. Sua resposta: o conceito é tão válido como nunca, embora possa ser expandido para incluir países como o México ou Indonésia ou excluir outros, como a Rússia. A seguir, trechos editados da entrevista, feita em 26 de fevereiro:

WSJ:Como o sr. chegou ao conceito?

O´Neill: Até 2001, eu era um dos diretores de pesquisa econômica da Goldman Sachs mundialmente. E minha maior especialidade era como economista-chefe de câmbio. No fim dos anos 90, passei a ficar mais interessado na China e na questão cambial chinesa. Então esse é o primeiro aspecto. Mas muito mais importante nesse contexto (foi que) por volta de 11 de setembro (de 2001) me tornei o único diretor de pesquisa econômica mundial para a Goldman Sachs. Então eu precisava buscar aquilo que seria a minha marca. O cara que dividia o posto comigo antes, Gavin Davis, era um pensador econômico excepcionalmente poderoso e estava no cargo antes de eu chegar. Ele liderou a análise cíclica do G7 nos anos 80 e isso é um dos motivos por que a Goldman se tornou tão bem conhecida. E então eu estava pensando: ‘Como posso fazer algo que tenha o mesmo impacto para nossa firma e nossos clientes?’ Isso era o que estava na minha cabeça. Tudo aconteceu mais ou menos ao mesmo tempo, quando houve o 11 de setembro, e eu acho que a verdadeira lição do 11/9 para mim, além do horror, foi uma mensagem de que a globalização tinha de ser diferente. Se eu combinasse aquilo com meu fascínio já forte pela China, foi isso que me levou a sonhar com a expressão Bric.

WSJ: Por que Bric?

O´Neill: Escrevi um artigo em novembro de 2001 chamado ‘O mundo precisa de melhores Brics (soa como a palavra ‘tijolo’, em inglês) econômicos’. É porque três desses países, menos o Brasil, tinham algo fundamentalmente bem diferente começando a acontecer nos anos 90 e potencialmente no futuro. No caso da Rússia era o fim da União Soviética. No da China era a adoção da economia de mercado. No da Índia era o boom mundial de tecnologia. E então, com grandes populações nesses três lugares-chave, minha visão era que com a globalização esses três países iam ser participantes importantes. A grande coisa que coincidiu com isso foi o aparecimento de Lula na cena (internacionalmente). E se você lembrar em 2000, 2001 as pessoas achavam que depois da desvalorização na Argentina o Brasil ia ser um desastre sob Lula. A coisa que chamou minha atenção no Brasil, e foi completamente subestimada por todo mundo, foi a introdução das metas de inflação (em 1999). Quando vi isso, pensei ‘pera aí, não são apenas esses três países que serão muito diferentes, se o Brasil for tratar a meta de inflação de maneira séria, o Brasil será diferente’. E pensei, sabe, que o Brasil deveria estar lá também. É um país de 160 milhões de pessoas, talvez chegando a 200 milhões. O Brasil, se mantiver a inflação sob controle, vai ser uma das maiores economias do mundo.

WSJ: Por que Bric e não MRIC, com o México em vez do Brasil?

O´Neill: Em retrospecto, a coisa que realmente deu um grande impulso ao Bric foi, dois anos depois, quando fizemos nossa primeira análise de 2050 e mostramos que os quatro países juntos poderiam ser maiores que o G7 em 2036. Então, depois de dois anos em que (o Bric) se tornou algo enorme, e com muitas pessoas perguntando por que não México, por que não Turquia, escrevemos um grande estudo dizendo como os Brics são sólidos e analisamos por que os próximos 11 países em população não estavam lá. Dos 11, para ser honesto, um deles, o México, tem provavelmente justificativas para ser incluído. Por isso muitas vezes brinco com as pessoas que talvez eu devesse ter chamado BRICM, com um M de México.

WSJ: O conceito pode ser expandido?

O´Neill: Conceitualmente, acho que sim. Digo, por volta de 2005, quando escrevemos um estudo sobre como os Brics eram sólidos, sugeri que o que realmente constitui um Bric (…) é o seguinte: um país do mundo emergente que tenha o potencial de ter pelo menos 3% do PIB mundial. Isso significa que, se algum dos atuais quatro Brics não puder realizar seu potencial, talvez ele não devesse (estar lá). Mas também significa que o México tem definitivamente esse potencial e levanta a possibilidade de que países com grandes populações, como a Indonésia, também possam.

WSJ: O sr. acha que, ao longo do tempo, as pessoas começaram a usar o conceito de uma maneira diferente da que o sr. pretendia?

O´Neill: Às vezes. Em 2007 em particular eu estava preocupado que toda a coisa do Bric estava virando uma febre insustentável no mundo do investimento. Muitas pessoas estavam elaborando fundos Bric. Um banco criou um Brict com um T de Turquia no fim etc. etc. E as pessoas estavam colocando dinheiro em fundos Bric em 2007, embora a relação entre preço e estimativa de lucro por ação da China e da Índia fossem mais que o dobro da dos EUA. E isso era claramente, como dissemos na época, insensato.

WSJ: O sr. acha que os Brics, como estão, formam um conceito sustentável?

O´Neill: Decididamente. Muita gente tola colocou dinheiro em fundos Bric em 2007 e 2008 e perdeu dinheiro. As pessoas não deveriam se esquecer que, desde que introduzimos a sigla, o índice Bric MSCI ainda está em alta de algo como 120%, enquanto o S&P 500 está em baixa de uns 20%. Ou seja, são apenas as pessoas que compraram essas coisas quando elas estavam extremamente caras que perderam dinheiro. Nunca presumimos que nos próximos 30 anos, mais ou menos, esses países sustentariam taxas de crescimento próximas das que vinham crescendo, com a exceção do Brasil. Nossa premissa para o crescimento chinês é de 5,8%. Nos primeiros sete anos da sigla Bric, a China cresceu quase ao dobro do que presumimos. Por isso, a grande desaceleração da China não ameaça nem um pouco sua parte no sonho do Bric.

WSJ:E suponho que ao fim do período o sr. leva em conta um crescimento muito mais lento para a China.

O´Neill: Entre 2011 e 2050, ou seja, descartando esta década, temos o seguinte: 4,3% para o Brasil, 5,2% para a China, 6,3% para a Índia e 2,8% para a Rússia. A China vai crescer mais que isso este ano! Quando você olha para o pensamento da moda atual, as pessoas acham que o descasamento não aconteceu. Se você olha para o consumo interno, há evidências bem claras de que, embora tenha desacelerado um pouco, o consumo interno nos países do Bric está agora contribuindo significativamente mais do que os EUA, e o tem feito há três anos, para o crescimento global. Por isso, não acho que, até agora, esta crise tenha ameaçado nem um pouco o conceito do Bric. Deixe-me acrescentar um ponto controverso. Acho que o fato de os Brics serem sólidos vai ajudar a tirar os EUA desta bagunça porque vai permitir que as exportações americanas se recuperem e sejam uma parte importante do futuro da economia americana.

WSJ: O fenômeno Bric foi associado com um boom em commodities liderado pela China e pela Índia. Agora, quando a poeira assentar, o que vai acontecer com esse boom de commodities? Como os Brics vão lidar com isso?

O´Neill: De certa maneira, a Índia tem lidado com ela particularmente bem porque a alta dos preços das commodities não era boa para o país. Você está certo, especialmente no caso do Brasil, claro, que as pessoas associam o Bric com commodities. Rússia e Brasil são ambos grandes produtores de commodities e China e Índia são ambos grandes importadores de commodities. A grande alta dos preços de commodities, que se pode argumentar ter sido causada pela China crescendo 12% durante uns três anos, foi realmente boa para Rússia e Brasil, mas na verdade bastante ruim para a Índia, e eu diria que uma possível surpresa este ano, caso consigamos parar a deterioração da crise de crédito, é que a Índia pode se sair muito melhor mais cedo do que as pessoas pensam. O declínio nos preços das commodities é um grande fator positivo para a Índia.

WSJ: Mas é um grande fator negativo para Rússia e Brasil.

O´Neill: Argumentei durante três anos que não seria possível realmente dizer se Rússia e Brasil justificariam seu status de Bric até que passassem por um períodos de preços de commodities fracos.

WSJ: Então este é um teste maior para Brasil e Rússia do que para Índia e China?

O´Neill: Este não é nenhum teste para China e Índia. É decididamente um teste para Rússia e Brasil. E é um bom teste.

WSJ: Eles passarão?

O´Neill: Acho que a evidência no Brasil já é sim. A estrutura macroeconômica de melhores práticas que Lula adotou sete anos atrás está (…) demonstrando que o Brasil pode lidar com essa crise. O Brasil dos anos 70 aos 90 estaria tão ruim quanto a Rússia. Não estou certo de que a Rússia possa enfrentá-la e temo que não possa. Até agora, esta crise está demonstrando que a Rússia é dependente demais de commodities.

WSJ: Quando o sr. fala sobre o Brasil conseguindo enfrentar, o que quer dizer?

O´Neill: A moeda enfraqueceu, o mercado acionário enfraqueceu, mas diferentemente de crises brasileiras passadas eles não tiveram de aumentar as taxas de juros para conter a saída de capital, o que é um sinal muito poderoso.

WSJ: Já vimos a China tirar proveito de algumas oportunidades de compra para conseguir acesso a alguns recursos nacionais. O sr. acha que as empresas brasileiras podem ir ao ataque também?

O´Neill: Em minha experiência nos mercados financeiros, e esta é provavelmente a sexta crise que enfrento, o que define a longevidade e o sucesso das pessoas e empresas é como elas transformam uma crise numa oportunidade. É uma coisa muito difícil de fazer. Não dá para ignorar ou minimizar os problemas desta crise, mas ao mesmo tempo o melhor momento para expandir é perto do fim de uma crise.

WSJ: O sr. acha que estamos perto do fim da crise?

O´Neill: Desenvolvemos um indicador da crise em outubro, depois que o Lehman quebrou, que consiste numa série de diferentes variáveis do mercado monetário. Este indicador está agora (26 de fevereiro) de volta ao nível de quando o Bear Stearns quebrou. Isso me sugere que, embora estejamos obviamente numa recessão mundial muito severa, a crise financeira está mais perto do fim que do começo.

WSJ:No Brasil, por exemplo, há números contraditórios. Algumas pessoas estão assustadas com os números da produção industrial, mas houve listas de espera para a compra de alguns carros depois que o governo ofereceu alguns incentivos.

O´Neill: A psicologia dos mercados financeiros será sempre a mesma. De algumas maneiras a comunidade de investimento financeiro é realmente estúpida. As pessoas estão sempre assustadas quando não deviam e estão sempre empolgadas quando deviam estar assustadas. Por que as pessoas estavam comprando fundos de ações do Bric no começo de 2008, quando a valoração das empresas chinesas era o dobro das americanas? Em segundo lugar, a produção industrial estava realmente fraca no Brasil? É a mesma coisa em qualquer país do mundo. Mas todos esses dados não deveriam surpreender as pessoas, porque refletem o fato de que o sistema financeiro mundial parou em outubro. Por isso o que você tem de olhar realmente é para o consumidor. Se as pessoas estão começando a gastar um pouco mais em lugares como o Brasil, e ouvi a mesma coisa na China, isso é realmente importante.

WSJ: Mas as coisas ainda parecem bem feias. A produção está caindo em todas as partes, os EUA não fecharam ainda um plano coerente para lidar com os bancos…

O´Neill: Não digo que a crise econômica tenha acabado, o que estou dizendo é que a intensidade da crise financeira está mais próxima do fim.

WSJ: E o mercado financeiro antecipa a economia real.

O´Neill: Sim. Isso sugere para mim que em seis meses os números de produção industrial serão melhores. Não no mês que vem, em seis meses. A chave para isso tudo é a China. Se a China for melhor no segundo semestre deste ano, o que eu fortemente acho que acontecerá, então todo o caso do Bric vai voltar a ficar muito popular bem rapidamente.

17/03/2009 - 09:41h Brasil capta recursos, mas América Latina tem saques

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Por Eduardo Campos, Valor Online, de São Paulo

Os fundos de ações voltados para a América Latina marcaram a segunda semana seguida de perda de recursos. No acumulado do ano até a o dia 11 de março, no entanto, essas carteiras ainda registram captação líquida de US$ 773 milhões. O total pode não parecer muito, mas, quando comparado a igual período do ano passado, a cifra ganha outra proporção. Naquele período, o resultado era negativo em US$ 1,4 bilhão.

Ainda entre os emergentes, segundo números da EPFR Global, consultoria que acompanha a movimentação dos fundos globalmente, houve ingresso de US$ 92 milhões nos fundos de ações dedicados à Ásia (sem contar com o Japão) na semana encerrada no dia 11. Já a categoria dos diversificados Mercados Emergentes Globais (GEM, na sigla em inglês) registraram captação de US$ 340 milhões no período. No acumulado do ano, os fundos da Ásia marcam saques líquidos de US$ 1,74 bilhão, enquanto os GEMs apresentam entradas de US$ 1,62 bilhão.

Os mercados emergentes da Europa, Oriente Médio e África (EMEA, na sigla em inglês) voltaram a ser alvo de saques dos investidores na semana encerrada no dia 11. No ano, a categoria já perdeu US$ 1,26 bilhão.

Na avaliação por país, os fundos de ações voltados ao Brasil e para o México receberam dinheiro novo, assim como as aplicações destinadas à China. Já as carteiras que apostam na Rússia marcaram a quarta semana consecutiva de retiradas.

Segundo o diretor-gerente da consultoria, Brad Durham, os mercados emergentes têm mostrado maior resistência em termos de fluxo de recursos desde o começo do ano se comparados a seus pares desenvolvidos. Uma explicação seria a crença de que esses países apresentam um melhor perfil fiscal quando comparados aos países de centro.

Embora os resgates tenham predominado em fundos de ações durante a segunda semana de março, a EPFR Global afirma que já foi possível perceber alguma melhora no apetite por risco. Isso porque os “money market funds”, categoria que reúne carteiras de curto prazo e de baixo risco, registraram saídas de US$ 381 milhões.

Pela quarta semana seguida, todos os grandes grupo voltados aos países desenvolvidos perderam dinheiro. Os fundos de ações voltados para os Estados Unidos registraram resgates pela sexta semana consecutiva. Mas esse quadro já pode ter mudado, pois o Dow Jones, principal índice de ações do país fechou a semana encerrada no dia 11 com valorização de 9%.

Na Europa, a retirada de recursos continuou em meio às perspectivas de piora adicional no quadro econômico e maior dificuldade em arquitetar um trabalho de recuperação envolvendo todas as nações da região. No Japão, a saída de dinheiro somou US$ 456 milhões, elevando o total perdido no ano para cima dos US$ 2 bilhões.

Entre os fundos setoriais, o grupo finanças teve a melhor performance semanal entre as nove categorias acompanhadas. No período, as carteiras receberam mais de US$ 200 milhões.

Dinheiro novo também foi enviado na semana do dia 11 para os fundos de tecnologia e energia, de acordo com os dados da consultoria. Commodities e imóveis/construção também receberam aportes. “Isso pode ser interpretado como um posicionamento para uma retomada no crescimento ou uma forma de proteção contra um cenário de inflação”, disse o analista-sênior da EPFR Global, Cameron Brandt, em comunicado.

24/02/2009 - 10:55h A morte do segredo bancário suíço

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Gilles Lapouge* O Estado SP

A Suíça tremula. Zurique se alarma. Os belos bancos, elegantes, silenciosos de Basileia e Berna estão ofegantes. Poderia se dizer que eles estão assistindo na penumbra a uma morte ou estão velando um moribundo. Esse moribundo, que talvez acabe mesmo morrendo, é o segredo bancário suíço.

O ataque veio dos Estados Unidos, em acordo com o presidente Obama. O primeiro tiro de advertência foi dado na quarta-feira. A UBS – União de Bancos Suíços, gigantesca instituição bancária suíça – viu-se obrigada a fornecer os nomes de 250 clientes americanos por ela ajudados para fraudar o fisco. O banco protestou, mas os americanos ameaçaram retirar a sua licença nos Estados Unidos. Os suíços, então, passaram os nomes. E a vida bancária foi retomada, tranquilamente.

Mas, no fim da semana, o ataque foi retomado. Desta vez os americanos golpearam forte, exigindo que a UBS forneça o nome dos seus 52.000 clientes titulares de contas ilegais. O banco protestou. A Suíça está temerosa. O partido de extrema-direita, UDC (União Democrática do Centro), que detém um terço das cadeiras no Parlamento Federal, propõe que “o segredo bancário seja inscrito e ancorado pela Constituição federal”.

Mas como resistir? A União de Bancos Suíços não pode perder sua licença nos EUA, pois é nesse país que aufere um terço dos seus benefícios.

Um dos pilares da Suíça está sendo sacudido. O segredo bancário suíço não é coisa recente. Esse dogma foi proclamado por uma lei de 1934, embora já existisse desde 1714. No início do século 19, o escritor francês Chateaubriand escreveu que “neutros nas grandes revoluções nos Estados que os rodeavam, os suíços enriqueceram à custa da desgraça alheia e fundaram os bancos em cima das calamidades humanas”.

Acabar com o segredo bancário será uma catástrofe econômica. Para Hans Rudolf Merz, presidente da Confederação Helvética, uma falência da União de Bancos Suíços custaria 300 bilhões de francos suíços ou 201 milhões.

E não se trata apenas do UBS. Toda a rede bancária do país funciona da mesma maneira. O historiador suíço Jean Ziegler, que há mais de 30 anos denuncia a imoralidade helvética, estima que os banqueiros do país, amparados no segredo bancário, “fazem frutificar três trilhões de dólares de fortunas privadas estrangeiras, sendo que os ativos estrangeiros chamados institucionais, como os fundos de pensão, são nitidamente minoritários”.

Ziegler acrescenta ainda que “se calcula em 27% a parte da Suíça no conjunto dos mercados financeiros ‘offshore’ do mundo, bem à frente de Luxemburgo, Caribe ou o extremo Oriente”. Na Suíça, um pequeno país de 8 milhões de habitantes, 107 mil pessoas trabalham em bancos.

“O manejo do dinheiro na Suíça”, diz Ziegler, “se reveste de um caráter sacramental. Guardar, recolher, contar, especular e ocultar o dinheiro, são todos atos que se revestem de uma majestade ontológica, que nenhuma palavra deve macular e se realizam em silêncio e recolhimento”.

Mas agora surge um outro perigo, depois desse duro golpe dos americanos. Na minicúpula europeia que se realizou em Berlim, em preparação ao encontro do G-20 em Londres, França, Alemanha e Inglaterra (o que foi inesperado) chegaram a um acordo no sentido de sancionar os paraísos fiscais. “Precisamos de uma lista daqueles que recusam a cooperação internacional”, vociferou a chanceler Angela Merkel.

No domingo, o encarregado do departamento do Tesouro britânico, Alistair Darling, apelou aos suíços para se ajustarem às leis fiscais e bancárias europeias. Vale observar, contudo, que a Suíça não foi convidada para participar do G-20 de Londres, quando serão debatidas as sanções a serem adotadas contra os paraísos fiscais.

Há muito tempo se deseja o fim do segredo bancário. Mas até agora, em razão da prosperidade econômica mundial, todas as tentativas eram abortadas. Hoje, estamos em crise. “Viva a crise!”

Barack Obama, quando era senador, denunciou com perseverança a imoralidade desses “remansos de paz para o dinheiro corrompido”. Hoje ele é presidente. É preciso acrescentar que os Estados Unidos têm muitos defeitos, mas a fraude fiscal sempre foi considerada um dos crimes mais graves no país. Nos anos 30, os americanos conseguiram laçar Al Capone. Sob que pretexto? Fraude fiscal.

* Correspondente em Paris

31/01/2009 - 10:31h ”Estamos no Bolsa-Família 2.0”

Economista defende efeito do benefício contra desigualdade e diz que seu aumento pode compensar contração do crédito

 

Wilson Tosta – O Estado SP

 

 

http://veja.abril.com.br/idade/exclusivo/bolsa_familia/imagens/bolsa_familia.gif

O economista Marcelo Néri, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), afirma que a expansão do Bolsa-Família anunciada esta semana pelo governo federal poderá ajudar no combate à crise econômica entre os mais pobres. Para ele, ao expandir a distribuição de dinheiro em setores em que é mais alta a propensão para gastá-lo, a iniciativa, além de combater a pobreza, estimulará a economia, compensando em parte a redução do crédito. “Essa é uma medida adequada”, diz ele, por e-mail, de Washington. Néri destaca o efeito “direto e potente” do programa sobre a redução da desigualdade no País, mas reconhece que, nas pesquisas sobre o Bolsa-Família, a hipótese de que gere acomodação nos beneficiários não foi afastada.

Expandir o Bolsa-Família é uma escolha correta?

O que se pode dizer é que não existe programa de transferência de renda no Brasil mais bem focalizado que o Bolsa-Família e seus antecessores. Por exemplo, cada real gasto no Bolsa-Família tem 2,5 vezes mais chances de chegar ao pobre que cada real gasto com o reajuste do salário mínimo na Previdência. Além disso, agora o mundo está keynesiano, no sentido de que a falta de demanda agregada é o que tem de ser combatido. Essa opção implica não só combater a pobreza, mas destinar recursos para onde a propensão de gastar o dinheiro é mais alta. Ainda tem um bônus, você injeta moeda onde ela é mais escassa, gerando um efeito lubrificador na demanda, que compensa em parte o efeito da contração de crédito.

Foi correto o critério adotado, aumentar em R$ 17 o teto de renda per capita dos possíveis beneficiários?

Você está incluindo os mais pobres que não estavam no programa. Esses R$ 17 reais a mais levam os valores do critério muito próximos da nossa linha de miséria calculada pela FGV há anos (exceto que a nossa varia pelo custo de vida entre regiões R$ 142 em São Paulo, mas R$ 134 na média no Brasil). Logo, eu não poderia ser contra esse número cabalístico.

Não seria mais correto investir o dinheiro em ajudar quem já está no programa a não precisar mais dele?

O menor custo hoje para aliviar totalmente a pobreza no Brasil é de R$ 21,3 bilhões no ano. Isso é quanto custaria para completar a renda de cada brasileiro até a linha de R$ 134 reais/mês. Agora, transferências de renda têm forte efeito no curto prazo, é preciso de ações estruturais que aumentem a capacidade dos pobres gerarem sua própria renda a prazo mais longo. Mas talvez o que se queira agora seja um efeito de curto prazo em época de crise.

O Bolsa-Família não pode estimular a acomodação?

O programa pode levar à acomodação. Alguns estudos anteriores rejeitaram esse efeito no Brasil e no México. Nos nossos últimos estudos, estamos achando efeitos desse tipo. Ainda é prematuro afirmar, mas nós não conseguimos rejeitar a hipótese de que que há efeito-preguiça derivado do Bolsa-Família. Nossos resultados quantitativos estão em linha com relatos que escuto da população mais sofrida. Por exemplo, “se eu conseguir um emprego formal, eu sou excluído do programa, então eu não busco emprego formal”. Isso preocupa e precisamos de desenho mais arrojado para combater essa e outras limitações.

Quais são os efeitos do Bolsa-Família na redução da desigualdade?

No que tange a redução da desigualdade de renda o efeito é direto e potente. Cerca de 40% da inédita queda da desigualdade ocorrida a partir de 2001 se dá pelo efeito Bolsa-Família. Há impactos positivos sobre os beneficiários do programa, como aumento da matrícula de 3 pontos de porcentagem e na frequência escolar. Agora a extensão recente das condicionalidades educacionais até a faixa de 17 anos é promissora, pois só 74,5% destes estão na escola.

Se o programa tem resultados benéficos, a que atribuir as reações contrárias, a grita contra ele e contra sua ampliação?

Há uma grita interna, mas de natureza diferente daquela que houve contra os programas Fome Zero ou Primeiro Emprego, do qual participei desde a primeira hora. Esses programas caíram pois eram mal desenhados. Já o Bolsa-Familia foi criticado por alguns desde seu nascimento, mas hoje ainda não só se expande no Brasil, como em outras partes, inclusive nações desenvolvidas, vide o programa em Nova York. O programa nasceu forte e vai evoluindo ao longo do tempo. Estamos já no Bolsa-Família 2.0.

27/01/2009 - 10:03h Lula quer que crédito oficial gere empregos

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Paulo de Tarso Lyra, de Brasília – VALOR

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu ontem, durante o programa Café com o Presidente, que os empréstimos feitos por bancos públicos sejam condicionados à geração de empregos. Segundo o presidente, isso é o que “conta para a distribuição de riqueza e para a melhoria de vida das pessoas”. Lula lembrou que, apesar do mau resultado do emprego em dezembro, o país terminou o ano com um saldo positivo de 1,460 milhão de novos empregos. “Precisamos nos preparar para evitar que em 2009 a gente tenha um nível de desemprego grande”, disse ele.

“Vamos cuidar para que os empréstimos dos bancos públicos, seja BNDES, Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, BNB e Basa, quando eles fizerem os empréstimos ou créditos, que isso esteja ligado à geração de postos de trabalho, porque é o que conta para a distribuição de riqueza e para a melhoria de vida das pessoas”, declarou Lula.

Lula também destacou as duas medidas anunciadas na semana passada como importantes na tentativa do governo de amenizar os impactos da crise internacional: o aporte de R$ 100 bilhões para o BNDES e o novo plano de investimentos de R$ 174 bilhões da Petrobras pelo período de 2009 a 2013.

“A Petrobras tem grandes investimentos, sobretudo na área de exploração do pré-sal. A quantidade de navios que ela tem que contratar, a quantidade de sondas, a quantidade de plataformas, a quantidade de barcos de apoio são extremamente importantes para o projeto de desenvolvimento do Brasil.” Quanto à injeção de recursos do Tesouro no BNDES, Lula acredita que ele vai ajudar as empresas que tomavam dinheiro emprestado em dólar e passaram dificuldades pela escassez de crédito internacional.

23/01/2009 - 10:31h Governo “turbina” BNDES e diz que irá fiscalizar demissões. Projetos terão de manter empregos, afirma Mantega


Injeção recorde de recursos dará ao banco mais R$ 100 bi neste ano; no total, BNDES terá R$ 166 bi para empréstimos às empresas

De acordo com o ministro Mantega, não poderá haver demissão de funcionários nos projetos beneficiados com recursos da instituição

Alan Marques/Folha Imagem

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, durante entrevista ontem, em Brasília

JULIANA ROCHA – FOLHA SP

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

O governo liberou ontem mais R$ 100 bilhões para o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) financiar empresas neste ano, ao mesmo tempo que determinou que não poderá haver demissão de funcionários nos projetos beneficiados com recursos da instituição. Esta foi a maior injeção de recursos já feita no banco de desenvolvimento. O valor equivale a 10% da dívida do setor público.
“Estamos determinando que o BNDES explicite qual é a geração de emprego de cada um desses projetos. Cada projeto que será financiado com esse dinheiro vai explicitar quantos empregos a mais estão sendo criados. Portanto, há nossa preocupação explícita com a manutenção ou a elevação do nível de emprego”, afirmou.
Com os novos recursos, que virão do Tesouro Nacional, a capacidade do banco de emprestar para as empresas passou para R$ 166 bilhões, 82,4% a mais do disponível em 2008. No ano passado, quando o desembolso bateu recorde, foram liberados R$ 91 bilhões.
“A medida vai garantir todo o crédito necessário para investimentos no país em 2009″, afirmou o ministro da Fazenda, Guido Mantega. No ano passado, o Tesouro já havia repassado R$ 27,5 bilhões ao BNDES.
Ele ressaltou que, com este novo orçamento, o BNDES poderá atender também às empresas que ainda não fizeram pedidos de crédito no banco. Ele citou o exemplo de companhias que planejavam captar dinheiro no exterior e, por causa do fechamento do mercado de crédito internacional, suspenderam os projetos.

Petrobras
Mantega afirma que a crise não vai inibir os planos de investimentos dos empresários. Mesmo com a redução da demanda no país, ele acredita que os projetos estão mantidos. “Não há desistências significativas de projetos no BNDES. As empresas estão mantendo os projetos. Haverá recursos suficientes para viabilizar esses investimentos”, disse.
Ele ressaltou que uma das prioridades do BNDES será a Petrobras, mas não informou, porém, quanto dos R$ 166 bilhões será destinado à empresa. Em 2008, o governo derrubou a medida que limitava a possibilidade de a estatal do petróleo tomar empréstimos no país, o que inclui o BNDES.
Outros setores citados por ele como foco de atenção do banco são os de energia elétrica, gás, infraestrutura e a parte privada do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Engenharia financeira
Segundo Mantega, uma parte do dinheiro virá do excedente de caixa do Tesouro -chamado no jargão técnico de superávit financeiro. A outra parte virá de uma emissão de títulos públicos no exterior.
O ministro afirmou que o repasse para o BNDES será considerado nas contas do governo como empréstimo. Portanto, não haverá impacto na dívida líquida quando o Tesouro emitir títulos no exterior. Na dívida bruta, no entanto, esse valor estará contabilizado. O uso do superávit financeiro reduz, também, a capacidade do governo de abater sua dívida.
Ele disse, ainda, que o BNDES não precisa do dinheiro de uma vez só, já que estará pagando juros ao Tesouro.
Mesmo sem divulgar qual parcela dos recursos sairá de cada fonte, o Ministério da Fazenda definiu os juros que o BNDES terá que pagar ao Tesouro pelo “empréstimo”. Será cobrada uma taxa de 8,75% sobre 70% dos recursos. Sobre os outros 30% dos recursos serão cobrados a mesma taxa de captação internacional do Tesouro. Na última emissão de títulos, o Tesouro vendeu papéis com juros de 6,19% ao ano.
A Folha apurou que o governo vai aceitar como garantia participações na BNDESPar- o braço de investimentos do banco, que tem ações, por exemplo, da Vale. 

 

***

Projetos terão de manter empregos, afirma Mantega

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA – FOLHA SP

O ministro Guido Mantega (Fazenda) determinou, ontem, que os desembolsos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) estejam condicionados à manutenção do emprego nos projetos beneficiados pelo banco público. Ele admitiu que essa condição já existe nos contratos do banco, mas a partir de agora será fiscalizada.
Reportagem da Folha de ontem mostrou que setores beneficiados com recursos do BNDES em 2008 estiveram entre os que mais demitiram em novembro e dezembro, quando foram fechadas 654 mil vagas no mercado formal. O setor de alimentos e bebidas, recordista de demissões, foi o que mais tomou crédito -R$ 8,6 bilhões.
O governo ainda não sabe o que fazer caso a empresa decida demitir. Mantega reconheceu que ainda não foi decidido quais serão as punições para as empresas. Ele disse, também, que o governo não poderá exigir que a empresa mantenha os trabalhadores em outras áreas em que o dinheiro do BNDES não tenha sido usado.
“Não adianta colocar medida coercitiva. Dizer que quem desempregar vai ser expulso do paraíso, colocado no inferno. Mas esse recurso para investimento do BNDES é condicionado, sim, à geração de emprego. Isso é fácil de fiscalizar.”
Mantega questionou a reportagem da Folha sobre as demissões e o desembolso do BNDES. Ele disse que é preciso ver se as empresas que desempregaram são as mesmas que tomaram empréstimos do banco. O desembolso de recursos por empresa, no entanto, é protegido por sigilo bancário.

“Empresas exageraram”
O ministro Carlos Lupi (Trabalho) também declarou que o alvo das punições são apenas os projetos beneficiados com recursos públicos. “Não posso impedir o direito da empresa de demitir”, disse, acrescentando que algumas empresas “exageraram na dose” de demissões em dezembro e precisarão recontratar em março, para quando ele espera o reaquecimento do mercado de trabalho.
“Alguns setores se aproveitaram da crise para sair demitindo e aumentar suas margens de lucro”, criticou. Lupi voltou a afirmar que empresas beneficiadas com recursos públicos precisam ter contrapartidas de geração de emprego.
Ontem foi editada portaria nomeando os representantes do governo, trabalhadores e empresas que participarão do grupo para monitorar a aplicação dos recursos do FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador) e do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) e o cumprimento de objetivos sociais.
Segundo Lupi, o grupo trabalhará cruzando os dados de concessão de crédito com os de demissões, fornecidos pelo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados).
O ministro destacou que duas resoluções do Codefat (Conselho Deliberativo do FAT) já exigem a geração imediata de emprego e renda por conta da aplicação dos recursos do fundo em projetos do setor privado. Entre as penalidades previstas, de acordo com ele, estão o aumento da taxa de juros cobrada e a antecipação do pagamento da dívida.
Em breve, disse Lupi, sua pasta deverá anunciar um conjunto de medidas para formulação de políticas públicas de emprego. Questionado se entre elas estará a ampliação do seguro-desemprego, respondeu que sim, sem dar detalhes. JULIANNA SOFIA E JULIANA ROCHA).

 

***

Empresariado critica barreiras para não demitir

PAULO DE ARAUJO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
DENYSE GODOY
DA REPORTAGEM LOCAL

A classe empresarial rebateu com duras críticas a proposta do governo de vincular os empréstimos do BNDES à garantia de manutenção de empregos nas empresas. Para o presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Paulo Skaf, o BNDES “não faz nenhum favor” quando empresta. “O banco cobra juros, e a taxas muito altas se compararmos com outros países”, disse ele. Skaf, no entanto, evitou entrar em detalhes sobre a determinação do ministro da Fazenda, Guido Mantega, de condicionar os desembolsos do banco de fomento à manutenção de postos de trabalho. “O fato é que ninguém recebe dinheiro [do BNDES] de graça. E, quando o empresário executa um projeto financiado pelo banco, ele naturalmente está investindo e gerando empregos”, disse o presidente da Fiesp. De acordo com ele, os juros cobrados pelo BNDES, embora mais baixos em relação ao praticado internamente, são altos na comparação com outros países. “Há países em que os juros para financiar investimentos são negativos”, disse.
O presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), deputado Armando Monteiro Neto (PTB-PE), chamou de “exercício demagógico” a ideia de vincular o crédito do BNDES à manutenção dos empregos nas empresas.
“Não é realista dizer “eu lhe forneço dinheiro e você assume tal compromisso [não demitir]. A demissão é um último recurso. Tudo o que violenta a lógica do mercado acaba sendo artificial”, disse Monteiro. “O que segura o emprego é o crescimento econômico.”
O presidente da CNI afirmou ainda que o desemprego na indústria ainda deve aumentar no primeiro trimestre deste ano, mas a situação deve começar a se equilibrar a partir do segundo trimestre.
“Ainda teremos um agravamento. Mas acho que no segundo trimestre a queda do emprego vai estancar”, disse o presidente da CNI, após participar de reunião na Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro) ontem.
De acordo com o presidente da Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção), Aguinaldo Diniz Filho, metade dos empréstimos recebidos pelo setor em 2008 veio do BNDES. A indústria tomou R$ 1,2 bilhão no banco no ano passado e foi a segunda colocada na lista dos setores que mais demitiram no final do ano, com um total de 29 mil vagas formais extintas. “O que gera empregos é o mercado, é a demanda. O que acontece se a demanda for para baixo e essa crise levar a uma situação pior?”, questionou.

Sindicato Saudando a medida do governo como uma “boa notícia”, Artur Henrique, presidente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), disse que os sindicatos também se encarregarão de fiscalizar o uso de financiamento do governo pelas empresas. Comparando as informações sobre liberação de crédito com os números de dispensas, pretendem pressionar as companhias e avisar o governo quanto a eventual inobservância das regras.


Colaborou ANDRÉ ZAHAR , da Sucursal do Rio

23/01/2009 - 09:55h Estatização, a única saída para os bancos?

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O Banco de Inglaterra em Londres. foto: Toby Melville/Reuters

Célia de Gouvêa Franco – VALOR

O que os governos dos países mais duramente afetados pela crise financeira devem fazer com os bancos? Nacionalizar todo o sistema? Estatizar imediatamente os bancos que estão às vias de quebrar? Ou deixar as instituições mal administradas irem à lona porque o custo de intervir seria muito alto para os contribuintes e tiraria dinheiro de prioridades como fazer as economias voltar a se expandir? Ou ainda optar por continuar a fazer o que estão fazendo: injetar dinheiro nos bancos e adicionalmente aumentar a regulamentação.

À parte a questão do emprego (ou, mais apropriadamente, do desemprego), dificilmente haverá tema econômico que atraia no momento mais atenção internacional do que o futuro do sistema bancário e como tirá-lo do emaranhado de problemas que travam a concessão de crédito, com graves implicações para o crescimento dos países. Está claro que a primeira rodada de ajuda governamental aos bancos, anunciada depois de setembro, não foi e não é suficiente para salvar os bancos e resgatar as empresas que dependem de empréstimos para o dia-a-dia dos seus negócios e para investir. Sem uma solução para os bancos, aumenta exponencialmente o risco de uma depressão.

Políticos, economistas, empresários, bancários e banqueiros querem dar sua opinião, defender e criticar o aumento da participação do Estado no setor financeiro, propor alternativas ao controle estatal ou apoiar sua ampliação. Neste ponto, gostaria de abrir um parênteses para uma observação pessoal – passados quatro meses desde a eclosão da fase mais aguda desta crise financeira brutal, continuo surpresa com a rapidez com que a discussão sobre o papel do governo na economia voltou ao centro dos fóruns e embates depois de décadas em que o assunto era considerada carta totalmente fora do baralho do debate econômico. Por ora, o foco é a estatização de bancos, mas há quem creia que existe espaço para uma ampliação do debate para outros segmentos.

Uma simples consulta a sites de discussão acadêmica e a blogs de prestigiados comentaristas das principais publicações econômicas do mundo mostra a importância do tema hoje e a polêmica que provoca entre economistas dos mais variados matizes e dos dois lados do Atlântico.

Abrigado sob o guarda-chuva do “Financial Times”, Willem Buiter, professor da London School of Economics e ex-economista-chefe do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento, dedica seus dois artigos desta semana a analisar a possibilidade do governo de Sua Majestade a Rainha Elizabeth II encampar os bancos do Reino Unido. Os títulos dos dois comentários (encontráveis em http://blogs.ft.com/maverecon/) não poderiam ser mais claros: “Tempo para que os bancos passem ao controle público total” e “O governo britânico consegue impedir que o sistema bancário do país suma pelo esgoto sem arriscar uma crise da dívida soberana?”

Especialista em instituições financeiras, com formação em Cambridge e Yale, Buiter não mede palavras ao prever que no espaço de um ano todos os principais bancos de varejo inglês, incluindo os mais conhecidos dos brasileiros, como o HSBC e o Barclays, acabarão sob controle (temporário) do setor público, uma profecia que pareceria uma alucinação desvairada poucos meses atrás. E mais: na sua opinião, esses bancos hoje atuam como zumbis – têm capital suficiente para se manter, mas pouco fazem do que se espera que bancos façam, empréstimos. É compreensível que eles se mantenham retraídos quanto à concessão de crédito em épocas de crise, mas predominaria um comando ainda mais severo do que a simples cautela, em parte porque a expectativa de entrada do governo em bancos, como acionista minoritário, estaria aumentando o medo da insolvência. Bancos que têm o governo como sócio querem se livrar dele o mais rapidamente possível e buscarão operações com o menor risco possível.

Nesse cenário, Buiter defende que o governo britânico assuma integralmente todos os bancos – e a partir daí ele explica, em um dos seus artigos, toda uma proposta detalhada sobre o qua aconteceria com o sistema bancário do Reino Unido, incluindo a sugestão de que sejam demitidos os altos executivos e membros dos conselhos, sem a concessão de benesses. O grau de detalhamento do seu plano mostra como o debate sobre a estatização dos bancos avançou de forma acelerada nas últimas semanas.

Essa mesma sensação de que está se aproximando o dia em que haverá consenso sobre a nacionalização do sistema bancário permeia um artigo do economista Luigi Zingales, professor da Universidade de Chicago, intitulado “Sim, nós podemos, Mr. Geithner” (em uma referência tanto ao mote da campanha à presidência de Barack Obama, quanto ao seu secretário de Tesouro, Tim Geithner. (http://www.voxeu.org/index.php?q=node/2807). De formação muito diferente da de Buiter, Zingales propõe medidas para o governo americano muito semelhantes ao plano apresentado por Buiter para o Banco da Inglaterra.

Curiosamente, Zingales começa o tópico específico sobre o sistema financeiro com um alerta: Geither deveria lembrar que o que é melhor para os bancos não é necessariamente o que é melhor para os Estados Unidos.

Bancos bem capitalizados são um ingrediente essencial para o país, diz Zingales, e resolver a crise do setor é essencial e urgente. Mas a melhor solução não seria simplesmente colocar mais dinheiro nos bancos. Por causa do custo elevadíssimo para os contribuintes e também porque seria a semente para uma nova crise. Para ele, a atual crise nasceu com a solução dada pela seção de Nova York do Fed (o banco central dos EUA) no caso do Long Term Capital Management há dez anos. De acordo com ele, até agora, todo o dinheiro aplicado por Washington no sistema bancário não minorou o problema do setor produtivo – as empresas continuam com dificuldades para levantar financiamentos.

Célia de Gouvêa Franco é secretária de redação. A titular da coluna é Claudia Safatle.

E-mail celia.franco@valor.com.br

23/01/2009 - 09:28h De como a especulação sem limites quebrou até os especuladores

Reuters

Pânico atinge países emergentes, como a Argentina: para Krugman, será preciso realizar uma recapitalização maior e mais ampla dos bancos e afirmar com mais firmeza o controle do governo, algo que estará mais próximo da plena estatização temporária de uma parcela significativa do sistema financeiro

 

José Roberto Campos, de São Paulo – VALOR

Os poderosos bancos americanos foram dizimados pela farra com os empréstimos “subprime” e o mundo agora caminha rumo à recessão. Como foi possível que créditos irresponsáveis concedidos na periferia do sistema imobiliário americano – clientes que não obteriam crédito em situações normais – se tornassem tão destrutivos a ponto de ameaçarem a economia global? Já vimos isso antes, lembra o economista Paul Krugman, Nobel de 2008, em seu novo livro “A Crise de 2008 e a Economia da Depressão” (Editora Campus/Elsevier). Houve circunstâncias parecidas e alguns dos mesmos atores na crise mexicana de 1995, no vendaval que se abateu sobre Coréia do Sul, Malásia, Tailândia e Indonésia em 1997, na crise russa de 2008, nos fins traumáticos dos sistemas cambiais de Brasil e Argentina e no pânico com a quebra do fundo de hedge americano LTCM, em 1998.

Heterodoxo e pragmático, Krugman reescreveu partes de seu livro de 1999, em que aborda essas crises, e atualizou-o até o mergulho na insolvência dos grandes bancos americanos. Ao longo do tempo, há uma continuidade em todos os desastres econômicos recentes, e alguns padrões de comportamento repetidos em países muitos distintos entre si. “Parcela considerável do aumento da globalização financeira decorre de investimentos de instituições financeiras altamente alavancadas, que faziam vários tipos de apostas transfronteiriças arriscadas”, escreve Krugman. “Quando as coisas davam errado nos Estados Unidos, esses investimentos transfronteiriços atuavam como ‘mecanismos de transmissão’, pelo qual uma crise que eclodiu no mercado habitacional dos Estados Unidos desencadeou sucessivas outras no exterior.”

Um número grande de instituições financeiras, como bancos de investimentos e fundos de hedge, não era regulado por ninguém e reuniu tamanho poder e apetite por risco que se tornou um fator global de desestabilização das economias. Depois que elas semearam o pânico em países emergentes, implodiram junto com apostas excessivas na bolha de imóveis. É ilustrativa a descrição do poder de fogo atual dessas instituições traçado por Timothy Gethner, ex-presidente do Federal Reserve de Nova York e indicado para secretário do Tesouro do presidente Barack Obama, citado por Krugman. No início de 2007, conta, havia US$ 2,2 trilhões em coisas exóticas como “asset-backed commercial papers conduits”, “structured investment vehicles”, “auction-rate preferred securities”, “tender options bonds” e “variable rate demand notes”. Os ativos dos fundos de hedge eram de US$ 1,8 trilhão e os dos cinco maiores bancos de investimento, US$ 4 trilhões. Já os cinco maiores bancos comerciais detinham US$ 6 trilhões.

“A crise, em boa parte, não envolveu problemas com instituições desregulamentadas, que assumiram novos riscos. Ao contrário, girou em torno de riscos assumidos por instituições que, para começar, nunca foram regulamentadas.” Elas tinham tanto cacife financeiro quanto os bancões comerciais sob a vigilância do Federal Reserve, e uma ousadia que chegava quase que fatalmente à imprudência.

A história da atual recessão começa então com o estouro da bolha habitacional, que, para Krugman, deverá destruir US$ 8 trilhões em riquezas – US$ 7 trilhões de perdas para os donos dos imóveis e US$ 1 trilhão para os investidores. Esse trilhão de dólares é o rabo que acabou balançando o cachorro. Espalhados em títulos tóxicos pelo resto do mundo, forçaram uma espiral de vendas para cobrir posições e prejuízos que derrubou os preços de praticamente todos os ativos, em todos os mercados, em todo o mundo – e, casualmente, quebraram até a Islândia.

Uma retrospectiva das crises anteriores e das idéias na moda mostram como isso se tornou possível. A crença nos poderes mágicos do mercado levou os economistas a quase decretar o fim dos ciclos econômicos. O presidente do Fed, o todo-poderoso Alan Greenspan, que reinou de 1987 a 2006, e que “conseguira substituir a bolha de ações pela bolha habitacional”, disse em 2004 que o sistema bancário estava mais “resiliente”, uma afirmação só menos temerária que a do secretário do Tesouro de George Bush, Henry Paulson, que afirmou a mesma coisa em 2007, quando os bancos estavam caindo no abismo.

A mesma crença impulsionou a desregulamentação, que escancarou os mercados a investidores audazes e aventureiros, especialmente aos fundos de hedge, que, como qualifica bem Krugman, não buscam hedge e sim seu oposto, “extrair o máximo das flutuações de mercado”. O irmão gêmeo da desregulamentação foi o “risco moral”, a percepção, que se tornou verdadeira, de que qualquer estripulia financeira que desse errado seria consertada com dinheiro público, desde que fosse suficientemente grande para isso.

O crescente poder de fogo de instituições financeiras alavancadas patrocinou o “pânico auto-realizável”, que vitimou, por exemplo, os países asiáticos em 1997. Essas economias eram vulneráveis, diz Krugman, mas “não em razão do capitalismo de compadres, nem de políticas públicas que, sem dúvida, eram consideradas inadequadas”. Essa fragilidade aumentou com a abertura de seus mercados financeiros, pelo fato de, “na verdade, se tornarem melhores economias de mercado, não piores”, avalia.

Krugman considera que os US$ 700 bilhões do programa de alívio de ativos problemáticos são pouco para levantar os bancos, que poderão não estar dispostos a emprestar o dinheiro que recebem como ajuda. A recapitalização deverá ser maior e mais ampla, com maior controle do governo, “algo mais próximo da plena estatização temporária de parcela significativa do sistema financeiro”.

Ele acha que os gastos públicos são a melhor forma de estímulo econômico, superior às isenções fiscais. As vantagens: o dinheiro é realmente gasto, e não poupado, e, depois, com obras públicas “algo de valor seria construído”. A receita de um pragmático como ele é fazer tudo o que for preciso para reverter a crise, sem amarras ideológicas. Depois de afastado o perigo, deve-se consertar a bagunça. Sua posição sobre a reforma do sistema financeiro é igualmente simples. “Qualquer coisa que necessite de socorro durante a crise financeira, por desempenhar papel essencial no sistema financeiro, deve ser submetida à regulamentação, quando a crise tiver sido superada, para que não envolva riscos excessivos”, explica.

Conceitualmente, a economia da depressão parece um termo amplo demais, que abarca fenômenos distintos. Krugman a define a partir de falhas no lado da demanda da economia como “fator limitativo inequívoco à prosperidade econômica em boa parte do mundo”. Mas, pelo menos em alguns aspectos essenciais, as crises descritas surgiram durante um dos períodos de maior prosperidade da economia mundial, quando a demanda brotava em todos os lados, regada a crédito farto. A história de Tailândia, Malásia, Indonésia e Coréia é a de países bem-sucedidos, pelo menos pelo padrão das taxas de crescimento econômico.

Krugman chega a oscilar em seu diagnóstico, em geral muito preciso. A vulnerabilidade das economias da Ásia, do México e Brasil ao “pânico auto-realizável” torna-se quase inexplicável. Em um momento, acumular dívidas em moeda estrangeira é um dos principais suspeitos da catástrofe. Em outros, como no caso da Ásia, a repentina, e quase imotivada, é perda de confiança nos mercados que dá o sinal para o colapso. E chega a ser obscura a ligação entre a crise argentina e mexicana e a hecatombe atual dos bancos internacionais. “Sinto-me tentado a afirmar que essa crise não se assemelha a nada que tenhamos visto antes”, confessa. “Porém, eu seria mais exato se afirmasse que ela se parece com qualquer outra que já presenciamos em diferentes épocas, só que agora é como se todas estivessem acontecendo de uma vez, ao mesmo tempo.” A primeira hipótese, também bastante sugestiva, bem que poderia resultar em um outro ótimo livro de Paul Krugman.

23/01/2009 - 09:10h Sem grandes ilusões

Anna Carolina Negri / Valor

Krugman: “No curto prazo, estou muito nervoso. Espero estar errado, mas acho que provavelmente vamos ter um plano de recuperação da economia nos próximos meses que será insuficiente”

Por Robinson Borges, de São Paulo – VALOR

A esperança não venceu o medo do economista americano Paul Krugman. Considerado um dos mais severos críticos do governo de George W. Bush, o vencedor do Prêmio Nobel de Economia do ano passado diz se sentir aliviado com a mudança na Casa Branca, mas confessa estar intranqüilo com o cenário que se desenha para a economia americana. “Na verdade, no curto prazo, estou muito nervoso. Não acho que, mesmo com o novo governo, que está quase pronto para fazer o que é necessário, isso vá ocorrer”, disse Krugman em entrevista concedida anteontem ao Valor. “Espero estar errado sobre isso, mas acho que provavelmente vamos ter um plano de recuperação da economia nos próximos meses que será insuficiente, mais uma vez”, prosseguiu o célebere colunista do “New York Times”.

Árduo defensor de mais regulação dos mercados e de gastos públicos intensos, Krugman considera que as propostas divulgadas pela equipe econômica do recém-empossado presidente Barack Obama são tímidos para enfrentar a dimensão da crise atual. “Todas as soluções apresentadas me parecem meias medidas”, criticou o professor de Princeton. “O pacote fiscal parece limitar o avanço do desemprego, mas não preveni-lo. O plano de socorro aos bancos parece que serve para evitar catástrofes, mas não é suficiente para recuperar o sistema.”

Em sua perspectiva, os efeitos colaterais da crise atual serão terríveis: “O PIB dos EUA vai começar a crescer um pouco no fim do ano, mas o desemprego deve continuar muito alto nos próximos dois ou três anos. Provavelmente, o desemprego vai começar a cair no ano que vem, mas permanecerá alto.”

AP

Barack Obama na terça-feira, a caminho da posse: “O problema é a dimensão da crise que ele tem de enfrentar. Isso significa que a celebração não deve durar muito, especialmente do lado econômico”, afirma Krugman

 

De linhagem progressista, há tempos Krugman dá sinais do seu temor sobre o perigo dos excessos cometidos pelo mercado. Há dez anos, ele acendeu o farol amarelo da academia quando lançou um livro com o provocativo título “O Retorno da Grande Depressão”. Em menos de 200 páginas, ele analisava as crises internacionais que assolaram a América Latina e Ásia na década de 90 e advertia: a dramática queda da atividade econômica dos países emergentes não era um fenômeno isolado. Ao contrário do que pregavam seus colegas ortodoxos, argumentava que havia uma exagerada confiança nas políticas macroenconômicas, e que elas não seriam capazes de banir o fantasma da grande depressão da economia global. Krugman enxergava nos episódios dos países emergentes o presságio “funesto de que os problemas da depressão não haviam desaparecido”.

Uma década depois, com um Prêmio Nobel nas mãos e a maior recessão econômica nos EUA desde a Grande Depressão na cabeça, Krugman encontrou uma boa oportunidade para relançar o livro com uma edição revista e atualizada. Rebatizado de “A Crise de 2008 e a Depressão Econômica” (Campus/Elsevier), o título com prefácio do economista André Lara Resende chega às livrarias na próxima semana com um inevitável tom profético. “Tive um pouco desse sentimento de ‘não avisei?’ No entanto, gastei os últimos dez anos me preocupando com a crise que enfrentamos hoje. É importante ver que isso tudo não é completamente sem precedentes, que é possível observar as lições do Japão, da Argentina e da Ásia”, disse Krugman.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Depois de oito anos criticando severamente o ex-presidente George W. Bush, como o sr. se sente agora que a Casa Branca é ocupada por Barack Obama?

Paul Krugman: É um grande alívio. Do ponto de vista político, nossa democracia sobreviveu aos oito anos de Bush. Agora temos pessoas muito inteligentes no novo governo, o que é uma boa coisa. O problema é a dimensão da crise que Obama tem de enfrentar. Isso significa que a celebração não deve durar muito, especialmente do lado econômico, mas não apenas nesse aspecto. Há muitos outros a serem contornados. Não estou tão otimista quanto gostaria de estar.

Valor: A esperança não venceu seu medo?

Krugman: Na verdade, no curto prazo, estou muito nervoso. Não acho que, mesmo com o novo governo, que está quase pronto para fazer o que é necessário, isso vá ocorrer. Espero estar errado sobre isso, mas acho que provavelmente vamos ter um plano de recuperação da economia nos próximos meses que será insuficiente, mais uma vez. Mas, no final das contas, vamos fazer o que é necessário. Enquanto isso, seremos extremamente afortunados se escaparmos de uma taxa de desemprego de 9% ou mais nos Estados Unidos… Não sei como dizer isso… Todas as soluções apresentadas me parecem meias medidas. O pacote fiscal parece limitar o avanço do desemprego, mas não preveni-lo. O plano de socorro aos bancos parece que serve para evitar catástrofes, mas não é suficiente para recuperar o sistema.

Valor:
É uma questão de dose, isto é, seria preciso pôr mais dinheiro, ou está se fazendo a coisa errada?

Krugman: A escala dos planos é menor e muito distante das necessidades reais. A injeção de US$ 350 bilhões no setor financeiro, que para muita gente é muito dinheiro, não é. O valor necessário de injeção de capital no sistema bancário no curto prazo seria de US$ 1 trilhão. A perda do valor de ativos problemáticos ao longo dos últimos meses basicamente superou o dinheiro que estamos injetando. Também temos um problema: é muito difícil injetar capital em bancos fundamentalmente insolventes. E agora parece que este é o caso. Certamente, estou analisando grandes bancos como o Citigroup. Não está claro como os compradores de ações podem fazer seu trabalho nessas circunstâncias, porque me parece que um banco exige algo muito mais radical para ser salvo. O problema da crise é que ela é tão grande que o que se assemelha a uma grande resposta, na verdade, se transforma em uma resposta insuficiente.

Valor: O sr. já disse que o governo americano teme a palavra nacionalização. Seria essa uma solução para o problema dos bancos?

Krugman: Acho que, no final das contas, é a única alternativa disponível. Há muitos problemas com a nacionalização dos bancos, e temos de entender que ninguém quer ver o governo administrando o sistema bancário. Mas, se você observar a situação das maiores instituições financeiras, é muito difícil ver como podem continuar funcionando sem uma aquisição total. Elas não estão numa posição de cobrir todas as suas perdas para continuar. Se não houver uma nacionalização, isso significa que essas perdas ficarão para os acionistas. Não vejo uma saída e eu não estou feliz com a perspectiva.

Valor:
Uma das razões para que as propostas de socorro de Barack Obama sejam “tímidas”, segundo qualificação do sr., não é seu temor de aumentar o déficit? Ele não deve ter esse medo?

Krugman: Há uma preocupação real com isso, obviamente. Estamos falando dos Estados Unidos e de um grande déficit. Se alguém dissesse que vamos ter um pacote de US$ 3 trilhões, até eu diria: “Meu Deus, eu não sei se temos condições de gastar isso.” Mas acho que podemos gastar US$ 1 trilhão. No entanto, na verdade, não sei se esse é o problema real para a expansão do plano. Acho que isso ocorre por causa de uma combinação de fatores, como a dificuldade em lidar com projetos a serem pagos no futuro e a precaução dos políticos. Eles realmente não querem ter um plano de US$ 1 trilhão. Acho que o que limita o plano de Obama é a precaução política.

Valor: Quanto tempo o sr. avalia que durará esta recessão?

Krugman: Acho que o PIB dos Estados Unidos vai começar a crescer um pouco no fim do ano, mas o desemprego deve continuar muito alto nos próximos dois ou três anos. Provavelmente, o desemprego vai começar a cair no ano que vem, mas permanecerá alto.

Valor: O sr. parece não gostar da expressão “problemas estruturais” e parece não achar que eles tenham de entrar na receita para combater problemas graves e imediatos, como a crise atual. Mas há quem diga que os Estados Unidos gastam demais e a China, de menos, e que o esquema de países emergentes financiarem o déficit americano com enormes reservas está na raiz dos desequilíbrios atuais. Como consertar isso?

Krugman: Também é uma preocupação, mas não acho que deva ganhar centralidade na crise atual. Poderia argumentar que esses desequilíbrios têm muito a ver com as bolhas, mas, mesmo assim, não vejo como esses desequilíbrios façam diferenças fundamentais na estratégia de recuperação da economia. Precisamos salvar o sistema financeiro e expandir a demanda em todos os lugares. Isso não tem a ver com o desequilíbrio dos Estados Unidos com a China. Trata-se apenas de um pedaço da foto.

Valor: No livro, o sr. analisa diversas outras crises econômicas, passando pelas da Argentina, do México, da Rússia, da Ásia e chega até as bolhas da internet e da habitação nos Estados Unidos. Quais são os pontos de conexão entre todas elas?

Krugman: Há dois aspectos que unem todas essas crises. Um deles é que, de uma forma ou de outra, em todas houve um colapso financeiro, que envolve problemas com instituições, essencialmente problemas bancários. Não falo de bancos segundo o modelo tradicional, mas de bancos numa versão moderna, algo mais complexo. O segundo ponto é que, nesses episódios, os instrumentos simples de política fiscal e monetária não funcionaram. O que quero dizer quando trato de depressão econômica é justamente a incapacidade das ferramentas-padrão, que não servem para nos tirar da crise. Outra coisa é que há, por exemplo, uma similaridade reconhecível entre a forma como a crise na Rússia em 1998 levou a uma crise do real brasileiro e a forma como a crise da habitação americana atual levou a um problema na Islândia.

Valor: O sr. diz que a depressão econômica ocorre quando a política monetária perde seu poder de ação e as taxas básicas de juro são próximas de zero. Nesses casos, planos de socorro seriam fundamentais para estimular a economia. No Brasil, entretanto, nós temos as taxas de juros mais altas do mundo. O sr. acha que sua redução seria suficiente para mitigar o impacto da atual crise econômica? Isso significaria que a depressão econômica não chegou aqui?

Krugman: Vocês têm um diferente tipo de depressão, embora não seja tão severa quanto em outros lugares. Há duas razões para que você considere que a política monetária não está funcionando. Uma é aquela em que a taxa básica de juros é igual a zero, caso dos Estados Unidos hoje. Nessas condições, não há nada mais que você possa fazer. A outra é aquela em que você não corta a taxa de juros porque tem medo da desvalorização de sua moeda. Isso teria efeitos financeiros severos, por causa da dívida externa. O Brasil tem um pouco do segundo problema, mas não muito. O Brasil tem um dos casos menos ruins no cenário mundial. Não tenho lido muito sobre o Brasil ultimamente, mas me lembro que, quando o real se desvalorizou, em 1999, havia um temor generalizado de que seria uma catástrofe, como a da Indonésia, no ano anterior, e mesmo como a da Argentina, três anos depois. Na verdade, a desvalorização de 1999 não foi tão ruim porque o Brasil não tinha tanta dívida denominada em dólar nem estava tão frágil do ponto de vista financeiro como os outros. Hoje, o Brasil está numa situação melhor do que os países do Leste da Europa, que contam com empréstimos do exterior para abastecer suas economias emergentes. Eles têm muitas dívidas em euro e por isso não podem desvalorizar suas moedas. Estão numa armadilha por causa do estouro da bolha.

Valor: É isso o que sr. chama de mãe de todas as crises cambiais? E no Brasil, que desde que o Lehman Brothers quebrou, em setembro, o real se desvalorizou mais ou menos 25%?

Krugman: O Brasil não é o pior caso no momento. A queda da moeda brasileira não está criando o mesmo tipo de crise que outras desvalorizações. O Brasil é um país exportador de commodity [a queda das commodities é um dos fatores que explicam a expressiva desvalorização do real]. A crise de moeda realmente horrível é a da periferia européia, como já disse. Vemos países como Rússia, Estônia, Hungria, Ucrânia, Estônia, Polônia, Lituânia. Todos sofrem de crises cambiais. São crises como a da Argentina em 2002, mas de uma forma muito pior. O cenário pode se agravar, mas ainda há muitas peças de dominó para cair. Não vemos uma queda de impacto nas moedas dos Bálcãs. Só começamos a ver a severidade da crise no sudeste europeu. Claro que o problema do setor bancário está se tornando mais grave. Ainda estamos no meio da crise.

Valor: Voltando um pouco, o sr. acha que a redução das taxas de juros deve ser o principal mecanismo para o Brasil enfrentar a crise?

Krugman: Certamente haveria um efeito de expansão. Compreendo que o Brasil também tem inflação e que as coisas não são fáceis. Mas diria que o Brasil não é um caso clássico de país com depressão econômica. Vocês não são o Japão nem a Argentina, os dois tipos mais representativos de depressão econômica. Vocês devem se considerar felizardos por isso.

Valor: O sr. disse, numa entrevista recente, que saber o que ocorria na economia do G-7, grupo dos sete países mais ricos do mundo, na época da faculdade, era suficiente para entender a economia mundial. Mas hoje o cenário é diferente. As economias emergentes têm importância no mercado global. Como o sr. avalia que será a composição de forças no futuro, mesmo com a crise?

Krugman: Sim, hoje todos falamos dos Brics [Brasil, Rússia, Índia e China]. De alguma forma, o que ocorre agora são alguns ecos dos anos 30, quando um canal importante entrou em recessão, como ocorreu com os Estados Unidos na Grande Depressão, e essa recessão levou ao colapso das rendas dos países em desenvolvimento. O que vemos hoje é um colapso no comércio mundial, um dos pontos principais desta crise. E os países emergentes são centrais no comércio mundial. Realmente, estamos numa crise global. A China é uma preocupação especial, uma vez que se tornou um dos principais mercados. É uma das questões que me preocupam no momento. Estamos cautelosos ao observar essas economias emergentes. Como você disse antes, saber apenas o que ocorria nos países ricos era suficiente, mas agora os Brics são parte da história.

Valor: Em seu livro, fica bem claro que o sr. considera que os mecanismos de mercado têm limitações. O texto, de alguma maneira, procura provar isso com esta crise e outras tantas nas última décadas. Como o sr. acha que será o desenho do capitalismo a partir de agora?

Krugman: Estamos muito distantes de dizer que estamos nos despedindo do capitalismo. A forma como observo esta crise é que tivemos meio século, a partir da Grande Depressão, sem crises financeiras severas. Tivemos tempos ruins, mas nada comparado com o que vivemos nos anos 90 e, sobretudo, agora. Aquilo ocorreu por causa de um sistema bancário regulado e de um número razoável de controles. Eles não eram perfeitos, mas eram suficientes para manter o mundo como um lugar mais calmo. Podemos fazer isso novamente. O mundo está mais complicado, os controles terão de ser mais extensivos, a cooperação internacional terá de ser mais importante agora do que era no passado. Mas a história sugere que é possível moderar o capitalismo. Temos de voltar àquele modo tradicional, mas de forma atualizada para o século XXI.

Valor: Como escreveu o livro em 1999 e muito dos alertas registrados ali podem ser, de alguma forma, confirmados agora, o sr. teve uma sensação do tipo “não avisei?”, ao relançar o livro?

Krugman: Tive um pouco desse sentimento de “não avisei?”, sim. No entanto, gastei os últimos dez anos me preocupando com a crise que enfrentamos hoje. O importante é ver que isso tudo não é completamente sem precedentes, que é possível observar as lições do Japão, da Argentina e da Ásia.

13/01/2009 - 12:44h Ideias para Obama

Paul Krugman*, The New York Times – O Estado SP

krugman1.jpgNa semana passada, o presidente eleito, Barack Obama, respondeu aos críticos do seu plano, que acham que não vai ajudar a economia. Obama disse querer ouvir opiniões sobre “como desembolsar dinheiro de modo eficiente e efetivo para relançar a economia”. Ok, darei a minha – embora, como explicarei rapidamente, a metáfora do “relançar a economia” seja parte do problema.

Em primeiro lugar, Obama deve jogar no lixo a proposta de cortar US$ 150 bilhões em impostos de empresas, o que vai ajudar muito pouco a economia. Teoricamente, ele estaria descartando reduzir impostos nas folhas de pagamento, embora eu saiba que foi promessa de campanha.

http://www.kpcinema.com/timrocks/images/barack-obama-caricature.gifO dinheiro não desperdiçado em cortes de impostos inúteis pode dar um pouco mais de alívio aos americanos em dificuldade – aumentando benefícios a desempregados, expandindo o Medicaid e mais. E por que não começar já com os subsídios às seguradoras – talvez de US$ 100 bilhões ou mais por ano -, que serão essenciais se chegarmos à assistência médica universal? E, sobretudo, Obama precisa ampliar o plano. Para saber por que, considere o novo relatório da própria equipe econômica do presidente eleito.

No sábado, Christina Romer, futura chefe do Conselho de Assessores Econômicos, e Jared Bernstein, chefe da equipe de economistas que vai assessorar o vice-presidente, apresentaram seus cálculos. É um estudo sensato e intelectualmente honesto, mudança bem-vinda após da matemática confusa dos últimos oito anos. Mas o relatório também mostrou que o plano está muito aquém do que a economia necessita.

Para os autores, o plano de Obama terá impacto máximo no quarto trimestre de 2010. Sem o plano, o desemprego nesse semestre teria atingido a cifra catastrófica de 8,8%. Contudo, mesmo com o plano, estaria em 7%, nível próximo do atual.

Depois de 2010, segundo o estudo, os efeitos desse plano rapidamente enfraqueceriam. O trabalho de promover a recuperação total da economia, contudo, ficaria incompleto; no último trimestre de 2011, o desemprego ainda estaria em 6,3%.

Mas a previsão econômica é uma ciência inexata, para dizer o mínimo, e as coisas podem ser melhores do que relatórios preveem. Mas também pode haver uma piora. No próprio relatório se admite que “alguns especialistas em previsões econômicas antecipam taxas de desemprego de até 11%, na falta de uma ação”. E eu concordo com Lawrence Summers, outro membro da equipe de Obama, quando declarou recentemente que “nesta crise, a ameaça maior é fazer muito pouco em vez de fazer em demasia”. Infelizmente, esse princípio não se refletiu no plano apresentado.

Então, como Obama pode fazer mais? Incluindo muito mais investimento público no seu plano – o que vai ser possível se a perspectiva for mais ampla.

Em seu relatório, Romer e Bernstein reconhecem que “um dólar em infraestrutura é mais eficaz na criação de empregos do que um dólar aplicado em redução de imposto”. Mas afirmam que “há limite no quanto o investimento governamental pode ser aplicado eficazmente num curto espaço de tempo”.

Mas por que esse espaço de tempo tem de ser curto? Até onde sei, os assessores de Obama se concentraram em projetos que possam dar maior impulso à criação de empregos nos próximos dois anos. Mas, como o desemprego deve permanecer num nível alto além desses dois anos, esse plano deveria abranger também projetos de investimento com prazo mais longo.

E você deve ter em mente que, apesar de o projeto ter seu máximo efeito em, digamos, 2011, ele pode dar suporte econômico importante em anos anteriores. Contudo, Obama não deveria esperar até que se comprove que um plano de prazo mais longo é necessário? Não. Neste exato momento, a parte do plano de investimento está limitada pela escassez de projetos que podem ser implementados rapidamente. E mais investimentos são previstos para 2010 e 2011, se Obama der o sinal verde já. Mas, se ele esperar muito tempo para decidir, a oportunidade será perdida.

E mais uma coisa: mesmo com a implantação do plano Obama, o relatório de Romer e Bernstein prevê uma média de desemprego de 7,3% nos próximos três anos. Um índice assustador, alto o bastante para se tornar um verdadeiro risco de a economia americana se ver também presa na armadilha deflacionária, como o Japão.

Portanto, meu conselho para a equipe Obama é riscar do plano os cortes de impostos para as empresas e, mais importante, procurar eliminar a ameaça de realizar muito pouco, fazendo mais. E o caminho para fazer mais é deixar de falar em relançar a economia e considerar mais as possibilidades de investimentos pelo governo.

*O autor é Prêmio Nobel de Economia

06/01/2009 - 09:08h Combatendo a depressão

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Paul Krugman* – O Estado SP

“Se não agirmos com agilidade e coragem, é possível que o declínio econômico seja muito mais profundo”, disse o presidente eleito, Barack Obama, no mais recente pronunciamento semanal. Se perguntar a minha opinião, eu diria que ele não foi suficientemente enfático.

O fato é que os últimos dados econômicos têm sido assustadores não apenas nos Estados Unidos, mas em todo o mundo. Não fiquemos nas meias palavras: a situação se parece muito com o início de uma segunda Grande Depressão. Será que seremos capazes de agir “com agilidade e coragem” suficientes para evitar que isso aconteça?

Não se esperava que nos encontrássemos nessa situação. Durante muitos anos, a maioria dos economistas acreditou ser fácil evitar outra Grande Depressão. Em 2003, Robert Lucas, da Universidade de Chicago, declarou, perante a Associação Econômica Americana: “O problema central da prevenção das depressões foi resolvido, no seu aspecto prático, e de fato acredito que a solução se mantenha por muitas décadas”.

Milton Friedman, em especial, convenceu muitos economistas de que o Federal Reserve (Fed) poderia ter interrompido a evolução da Depressão simplesmente oferecendo aos bancos mais liquidez. Ben Bernanke, presidente do Fed, desculpou-se diante de Friedman: “Você tem razão, a responsabilidade foi nossa. Mas, graças a você, isso não se repetirá.”

Entretanto, parece que evitar depressões não é tão fácil. Sob o comando de Bernanke, o Fed andou oferecendo liquidez como um bombeiro tentando apagar um grande incêndio e o dinheiro disponível tem aumentado rapidamente. Ainda assim, o crédito continua difícil e a economia, em queda livre. A afirmação de Friedman de que a política monetária teria evitado a Grande Depressão foi uma tentativa de refutar a análise de John Maynard Keynes de que a política monetária é ineficaz sob condições de depressão e a política fiscal – gastos deficitários em larga escala do governo – é necessária para combater o desemprego em massa.

O fracasso da política monetária na crise atual mostra que Keynes tinha acertado da primeira vez. E o pensamento keynesiano está por trás dos planos de Obama para o resgate da economia. Mas esses planos podem se revelar difíceis de vender aos políticos. Os noticiários dizem que os democratas esperam aprovar um plano econômico com amplo apoio bipartidário. Boa sorte para eles. Na verdade, as atitudes vaidosas dos políticos começaram a se revelar, com as lideranças republicanas preparando barricadas contra a legislação do estímulo econômico, enquanto posam de campeões da cuidadosa deliberação – uma piada de mau gosto, levando-se em consideração o comportamento do partido nos últimos oito anos.

Depois de décadas declarando que o governo é o problema, não a solução, para não falar na vituperação tanto da economia keynesiana quanto do New Deal, a maioria dos republicanos não vai aceitar a necessidade de uma solução para a crise econômica ao estilo de Franklin Roosevelt, envolvendo imensos gastos governamentais. No entanto, o maior problema de Obama será, provavelmente, a exigência de muitos políticos de provas de que os benefícios dos gastos públicos justificariam o custo, um fardo jamais imposto sobre os cortes de impostos.

Trata-se de um problema com o qual Keynes estava familiarizado: a oferta de dinheiro tende a enfrentar menos objeções do que os planos de investimento público, “o qual, por não ser um desperdício completo, costuma ser julgado com base em princípios rígidos do ?mundo dos negócios?”. O que se perde em tais debates é o argumento chave: que, sob as condições atuais, um impulso nos gastos públicos empregaria americanos e movimentaria dinheiro que permaneceria ocioso.

Tudo isso me deixa preocupado com as perspectivas do plano de Obama. Estou certo de que o congresso vai aprovar um plano, mas temo que seja atrasado ou tenha as dimensões reduzidas. E Obama está coberto de razão: precisamos realmente agir com agilidade.

*É Nobel de Economia 2008

04/01/2009 - 12:22h Lula e BC não aceitam o ‘’seja o que Deus quiser” por juro menor

Temor da volta da inflação alta, por causa do dólar caro, ainda ronda o Planalto e Meirelles

 

Rui Nogueira e Vera Rosa, BRASÍLIA – O Estado SP

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A primeira reunião de 2009 do Comitê de Política Monetária (Copom), marcada para os próximos dias 20 e 21, já tem um roteiro técnico e político definido. Pela avaliação dos economistas do Banco Central (BC), o governo “está ganhando a batalha das expectativas” e, “o mais provável”, é que haja mesmo um corte de pelo menos 0,25 ponto porcentual na Selic que está hoje em 13,75%. Mas a decisão de reduzir a taxa básica de juros vai depender explicitamente dos números da economia e dos preços, seguindo o pacto político anti-inflação existente entre o presidente do BC, Henrique Meirelles, e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em uma conversa recente, a equipe econômica e o Planalto selaram um acordo traduzido nesta frase: “Não será na base do seja o que Deus quiser”. A frase veio à tona diante da discussão sobre fazer um corte de juros no início deste ano para “sinalizar” a manutenção da política de crescimento econômico, mostrando aos investidores que o País trabalhará para não entrar em recessão.

Meirelles tem dito ao presidente da República que o BC está comprometido com a política antirecessão, mas os dois têm concordado que o “pior dos mundos” seria o País conseguir manter a taxa de desemprego sob controle e segurar o poder de compra da sociedade, mas ver a demanda cair por causa dos preços altos. A “sinalização” do corte na Selic, disse na sexta-feira uma fonte da equipe econômica ao Estado, não pode desprezar, por exemplo, “eventuais sinais de repasse da alta do dólar aos preços das mercadorias brasileiras”. Desprezar isso, explicou a fonte, seria adotar a tal política do “seja o que Deus quiser” com a inflação.

“EVITANDO REPASSES”

O “mais provável” é que haja mesmo o corte no primeiro Copom porque os números objetivamente apontam o tal controle de expectativas. “Estamos notando que a indústria e o comércio estão evitando os repasses do dólar por entender que o consumidor vai deixar de comprar se isso acontecer”, disse uma fonte do Banco Central. “Até agora tem sido isso, mas vamos monitorar”, advertiu, lembrando, a favor da redução da Selic, que o relatório de inflação do BC divulgado no final do ano trouxe uma expectativa de inflação do mercado para 2009 em torno de 4,7%, ante uma meta oficial que, no centro, prevê inflação de 4,5%. “As expectativas parecem ajustadas”, disse.

No Planalto, o presidente Lula não esconde que espera mesmo que o primeiro Copom do ano reduza os juros. Ele tem dito que não vê motivos para a manutenção dos juros em patamar elevado num momento de queda da inflação. A ordem, porém, é para que os ministros não estiquem a polêmica.Nos bastidores do governo, o comentário é que, quando muitos começam a reivindicar tesourada nos juros, o BC sempre adota posição mais cautelosa, para mostrar independência.

Preocupado em sustentar o ritmo de atividade econômica, Lula também deteminou à equipe econômica que não promova cortes nos programas sociais e mantenha a previsão de reajuste do salário mínimo para R$ 465, já que esse dinheiro vai direto para o consumo. O governo avalia que políticas sociais, como o Bolsa-Família não têm nada de assistencialistas: ao contrário, injetam recursos na economia e fazem a roda girar.

02/01/2009 - 11:12h ”Economista produz crise, mas não sabe resolvê-la”

Antônio Delfim Netto: economista; para Delfim, a crise está fora da economia: ‘Seria uma crise de expectativa, de crença, de confiança’

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Roberval Angelo Schincariol e Roger Marzochi, AGÊNCIA ESTADO

Para o economista Antônio Delfim Netto, o que fará a diferença na economia do tão temido ano de 2009 é a sensibilidade do brasileiro. E, para ele, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é a encarnação do otimismo. “Lula é o maior economista do Brasil”, diz Delfim, na seguinte entrevista, concedida no dia 10 de dezembro, em seu escritório, em São Paulo.

Qual a avaliação que o sr. faz sobre os impactos da crise financeira no Brasil em 2009?

Você está em um ambiente complicado e é claro que o Brasil vai pagar o preço de fazer parte do mundo, como tem os benefícios. O Brasil usou a expansão que houve no mundo. E eu estou convencido de que essa crise é, simplesmente, a própria crise de 2001 consertada pelos economistas. Teve a crise em 2001, que foi a crise do pontocom, que explodiu, e apareceu aquela patifaria da Enron. E como é que os economistas resolveram essa crise? Fornecendo liquidez e permitindo que toda a imaginação do sistema financeiro se exercitasse plenamente, com a ideia de que o sistema tinha em si uma moralidade ínsita. Portanto, ninguém precisa se preocupar porque é tudo gente correta, que não vai fazer nada de patifaria…

O sr. avalia que hoje, então, houve o estouro da bolha da moralidade?

Não, a moralidade já explodiu na Enron. E o que o governo foi fazendo? O Fed e o Tesouro americano passando a grosa, permitindo que você fizesse um curto-circuito aqui, outro lá. Quando o (Henry) Paulson (secretário do Tesouro) tomou posse, em 2006, ele declarou: “Eu vim para acabar com o resto de regulação que está perturbando o crescimento.” Em 2006! A crise já estava explodindo! Então, você está diante de um fato: os economistas são capazes de produzir uma crise, mas não podem resolvê-la. A crise está fora da economia.

Seria uma crise de expectativa?

Seria uma crise de expectativa, de crença, de confiança. Qual é a origem da sociedade? Está no velho Platão, antes do Aristóteles. Para a coisa funcionar, tem de ter possibilidade de trocar o meu trabalho com outro. E tem de ter uma moeda. Nós estávamos produzindo milho. Eu vivia pobre, você também. Mas eu produzia o meu, você produzia o teu. Mas chegamos a um acordo. Eu vou produzir o milho e você vai fazer um buraco aí até conseguir água, depois a gente irriga o milho, vai dobrar a produção e vamos viver melhor. Esse é o progresso. Está no Adam Smith. Divisão do trabalho. Isso exige que eu confie que, enquanto eu estiver produzindo o milho, você esteja fazendo o buraco. Então, a confiança precede a sociedade. Ela é o cimento, o fator catalítico que faz funcionar a sociedade.

Na atual crise, o BC agiu no tempo certo?

A ação do BC foi no tempo próprio, com alguns pecadilhos. Em lugar nenhum do mundo o BC diz: “Eu vou dar dinheiro para banco grande comprar banco pequeno.” Muito menos vou dar dinheiro para banco público, porque aqui você tem dois problemas graves: a higidez de um banco não depende nem da sua propriedade nem do seu tamanho. O banco público não é muito mais seguro que nenhum banco privado. Mas por uma simples razão: porque banco, por definição, é quebrável.

Quando o sr. diz que o BC não deveria ter dito que o dinheiro era para comprar bancos pequenos, deveria ter dado o dinheiro sem dizer…

Não, deveria ter feito as coisas já de uma vez! Não deveria usar a técnica do conta-gotas. Quando se faz um sistema no qual eu compro a carteira do outro, estou levantando dúvidas sobre essa carteira. É como ter um dinossauro Rex de boca aberta e tem uma galinha que eu estou espantando para a boca do dinossauro.

Mas o sr. não avalia que a crise financeira será tão forte no Brasil como está sendo para o resto do mundo?

A crise americana vem vindo desde o começo de 2007. No Brasil, não. É uma crise datada. Vinha se desarrumando e, quando o Paulson faz a barbeiragem no Lehman, desaba tudo. Ou seja, ele matou o fator catalítico, que era a confiança. E no Brasil ocorreu uma função descontínua. É uma crise de confiança que atingiu os bancos lá fora.

Mas houve uma queda na concessão de crédito no Brasil.

Você imagina uma coisa. Chega um grande banqueiro brasileiro no Waldorf-Astoria e encontra com o homem do Citi, na sua importância, para dizer: “Eu ainda não cortei o crédito lá.” O homem do Citi diz: “Esse sujeito não faz parte do nosso clube.” Agora, nenhum deles fez patifaria aqui, nem sei se por virtude. É que aqui tinha formas de ter retorno muito mais seguro e mais alto que com a patifaria.

Com juros?

Então, nós já tínhamos a mais alta taxa e fizemos o maior aumento do mundo. Quando o mundo inteiro reduziu, nós continuamos insistindo na mesma política. Isso tudo, que era um defeito enorme, agora as pessoas dizem que foi uma clarividência. É como aquele francês, para quem ofereceram a Brigitte Bardot. Só que hoje ela está com 80 anos!

Se o senhor fosse o presidente do BC, qual seria a taxa ideal de juros?

O Brasil não tem nenhuma razão para ter a maior taxa de juro do mundo. A taxa de equilíbrio é 3%, 3,5%, como é no mundo todo. Com inflação de 5%, poderíamos rodar com 8% nominal. Mas tudo isso é absolutamente irrelevante porque o BC nem tem mecanismo para fazer esse negócio. Então, vamos pensar onde paramos. Paramos por uma questão psicológica. O Lula é o único economista que presta no Brasil porque é o único que está falando a verdade. A intuição dele mostra o seguinte: nós estamos interrompendo o circuito econômico porque, se você não comprar o carro, porque tem medo de ficar desempregado, é certo que você vai ficar desempregado, porque a Volkswagen não faz o carro por medo que não vai ter demanda. E o banqueiro, no final, que pensa que está salvo, ele também vai morrer junto com o sistema.

É como o sr. já comentou que, ao pregar a morte do crédito, os banqueiros acabam se “suicidando”?

Eles se suicidam porque não têm outro remédio. Porque nenhum banco é seguro! E aqui é que vem a segunda crítica à política do BC. Quando ele diz que está dando dinheiro para o Banco do Brasil, para a Caixa Econômica pra fazer isso ou aquilo, está dizendo o quê? Esses bancos são mais seguros. Isso tudo é um equívoco monumental.

Como o sr. mede a expectativa hoje?

O Lula, com todas as críticas… As pessoas ficam furiosas com o Lula. Porque há, na verdade, um preconceito enorme. A vantagem do Lula é não ter um curso superior.

É uma vantagem?

Sim, não é um prejuízo. Senão ele estava igualzinho aos de curso superior aí dizendo “tá tudo perdido!”, “estamos perdidos!”, ” ’sifu’ para todos nós!”. Então, o que acontece? É uma atitude ingênua, mas que corresponde a uma realidade. O fator principal é restabelecer aquilo que é o cimento da sociedade, que é a confiança.

E quanto disso pode se refletir no crescimento do Brasil?

Qualquer número é um chute. A minha convicção é a seguinte: quando o Brasil cresce? Cresce quando cresce mais que o mundo.

18/12/2008 - 10:43h BC americano vai mal, o nosso vai bem

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Alberto Tamer * – O Estado SP

Juro praticamente zero nos Estados Unidos. O Federal Reserve (Fed, obanco central americano) está nu, segurando tangas esfarrapadas que não encobrem nada.Acabou a munição monetária para animar a economia entorpecida.

Ao contrário do nosso Banco Central, que tem muita bala, mas ainda hesita em se despir, só lhe resta agora criar e inundar o mercado com uma enxurrada de dólares e garantir dívidas de retorno duvidoso. Corre o risco de afogar-se lá na frente, quando a economia retomar o rumo e a inflação voltar. Mas esse é um problema que vai surgir no futuro. Não incomoda nem um pouco agora. Primeiro, é preciso não se afogar no mar turbulento.Depois, navegar.

DÓLARES E DÓLARES TAMBÉM

E é isso o que o Federal Reserve já vem fazendo: mais de US$ 1 trilhão, desde setembro. E sabe que terá de dobrar. É o gesto heróico do dinheiro fácil para situações dramáticas. O último tiro que, mesmo assim, corre o risco de errar, pois o alvo está nublado.

Vai inflacionar? Por enquanto, não. Agora, é evitar a depressão. A inflaçao está recuando, menos 1,7% agora, com a desacelaração da demanda e a queda das commodities agrícolas e o petróleo.Grandes lojas de departamentos tradicionais estão oferecendo 50% de desconto para compras acima de US$ 250. Ou seja, a metade do preço e nem assim as vendas reagiram na véspera das festas de fim de ano.

O consumidor está cauteloso, teme perder o emprego ou ver reduzido o seu salário. O que ele ganha com a queda dos preços não afasta a insegurança no trabalho. Afinal, milhares já estão sendo despedidos e tentando encontrar um novo emprego.

Pela primeira vez que se tem memória, o índice de poupança dos americanos, que era zero, está registrando alguns pontos acima de traço.

O JOGO DO ESPERA

Está todo mundo esperando Barack Obama – o presidente eleito dos Estados Unidos -, que espera Henry Paulson – o secretário americano do Tesouro-, que espera Obama… que sonha em tirar férias nas praias do Havaí.

O resultado é soma zero. E ninguém faz nada. Todo mundo espera o dia 20 de janeiro, tão próximo, mas ainda tão distante. E, enquanto isso, a economia americana afunda à espera de um Obama, aflito e desencantado com o fim do governo de George W. Bush.

O Congresso tem um novo pacote pronto de US$ 600 bilhões, mas Bush nem quer falar dele.Também deve estar sonhando com as maravilhosas praias havaianas.

BRASIL ATÉ ESNOBA

Aqui, mesmo num cenário mais ameno, o governo já está adotando as medidas que os Estados Unidos e a Europa adiam, mesmo estando em recessão.

O governo já aprovou medidas que reduzem os impostos dos bens de consumo, dos bens duráveis e não-duráveis, injetam vultosas quantias de recursos nos bancos para levá-los a financiar as empresas e a emprestar mais. Além disso, o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal entraram ativamente no mercado, municiados por recursos do Estado. Uma boa parte das exportações estão sendo financiadas pelas instituições do governo.

Nós nos antecipamos a eles, prevendo o que já está vindo.

Por que essa diferença de reação? Primeiro, deve-se à agilidade do BC de prever e preparar-se para absorver os efeitos da falta de crédito externo. Henrique Meirelles e seus técnicos mostraram grande competência e maturidade. Segundo, foi mais fácil para o BC e o governo brasileiro reagirem porque não tínhamos os terríveis desafios dos bancos europeus e americanos. Direta (EUA) e indiretamente (Europa), eles sofreram os efeitos da imprudência e ganância, do subprime imobiliário. Aqui, se houver, quando muito, pode ser subprime no financiamento de carros e motos. Não há como comparar.

Outro fator positivo, já conhecido do leitor desta coluna, crescíamos ainda, com os demais emergentes, enquanto eles afundavam. Demoraram para agir por incompetência (zona do euro) ou imprudência das autoridades monetárias. Isso foi agravado pelo vendaval destruidor da desvalorização dos ativos imobiliários, que ainda persiste.

MAS CUIDADO

A nossa situação mais favorável tem bases frágeis, um mercado interno suscetível e forte retração, principalmente, em caso de desemprego. Eles têm vários pilares de sustentação, nós apenas um. Eles têm economias maduras de US$ 28 trilhões somados, 50% do PIB, e um mercado interno e externo bem formado. Nós, com US$ 1,3 trilhão, representamos apenas 2,3%. Mais ainda, daquele valor, mais de 60% são representados pelo mercado interno. Dependemos pouco do comércio exterior.

No entanto, o que é às vezes apontado com uma vantagem, menos dependência externa, torna-se uma desvantagem considerado o relativamente baixo poder aquisitivo dos brasileiros e a fragilidade de um mercado interno ainda incipiente. Ele está sendo sustentado mais pelo crédito do que pela renda.

Essa é a nossa fragilidade em relação aos outros.

Os Estados Unidos podem renascer com um empurrão fiscal porque partem de uma base sólida. Nós vamos precisar muito mais empurrões, de um governo que tem recursos limitados.

Estamos até bem em relação a eles, mas não tanto em relação a nós mesmos e aos nossos desafios.

*E- mail: at@attglobal.net

11/12/2008 - 08:35h PIB de 6,8% nos prepara para o que virá

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Alberto Tamer* – O Estado SP

O excelente crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) no terceiro trimestre, surpreendentes 6,8%,mostra que o Brasil armazenou força para enfrentar a crise que só ganhou proporções inesperadas a partir de outubro. Ele nós dá mais espaço para nos prepararmos diante de tudo que ainda está por vir.

Pode parecer contraditório, mas esse mesmo resultado nos deve levar a ficar mais alerta, mesmo porque não incorpora os assustadores acontecimentos dos últimos dois meses, que levaram a economia mundial à recessão.

Se há razão para comemorar, há mais ainda para preocupar. Estranho, mas é assim. Tudo piorou lá fora, faltam recursos para nos financiar e mercado. Nada de projeções fáceis, pois há ainda uma enorme carga negativa a carregar e é no mínimo ingênuo acreditar que a economia mundial vai recuperar-se nos próximos meses.

GOVERNO REALISTA

Nesse sentido, a reação da equipe econômica do governo foi realista. Não houve festas, além dos discursos populares do presidente que, na verdade, significam pouco. A economia crescerá 5%, neste ano, mas essa taxa não se repetirá no último trimestre do ano e muito menos em 2009.

Bem mais importante, o governo prepara-se para aprovar e anunciar, a qualquer momento, um pacote de medidas de redução de impostos para estimular a produção industrial, o comércio e a demanda. Essa redução abrangeria o Imposto de Renda das classes média e menos favorecidas, porque são as que ainda podem consumir mais, e de impostos sobre produtos industrializados, reduzindo seus preços.

ARRECADAÇÃO MENOR? NÃO.

Isso mostra que a equipe econômica decidiu antecipar-se ao que virá e a aprovar as medidas que tardavam. Sei que haverá sempre o argumento de que corte de imposto significa menor arrecadação – e o governo vai precisar de mais dinheiro para investir. Mas não é bem assim; seguramente essa queda da arrecadação será bem maior se a economia afundar na recessão. O certo é perder agora um pouco para não ter que perder muito mais depois. Aí, sim, a recessão seria inevitável.

Sem esse realismo, sem a concretização antecipada de medidas que visem criar produção, emprego e demanda, decididamente,não poderemos evitar que a onda recessiva que invade o mundo no derrube. Tudo o que incentive a produção, a criação de emprego, a renda e a demanda é urgente hoje.

6,8% AJUDAM INVESTIMENTOS

Esse crescimento do PIB tem um significado externo ainda pouco ressaltado; ele pode atrair mais investimentos num mundo em que todas as economias recuam. Neste cenário desolador, o Brasil surge, pelo menos por enquanto, como uma oportunidade para as empresas estrangeiras que vêem aqui um mercado interno em expansão. Isso explica a entrada constante de investimento externo que escasseia em outros países. É verdade que isso provavelmente não se repetirá em 2009, pois muitas das empresas visavam também a exportar para um mercado que desacelera e se contrai em 2,5%, de acordo com previsão do Banco Mundial. Ao mesmo tempo, não poderemos manter em 2009 o mesmo ritmo de expansão do mercado interno.

INVESTIMENTOS VITAIS

E é aqui que deveria entrar o governo com um novo plano, um novo pacote de projetos para atrair esses investimentos que tendem a escassear à medida que a recessão se aprofunda e o mercado financeiro luta para sobreviver.

O governo sabe que o Brasil está precisando urgentemente desses investimentos não só para animar a economia, mas para atrair dólares. São dólares simplesmente vitais neste momento em que nossas reservas cambiais começam a ser pressionadas para socorrer a economia e enfrentar a falta de liquidez externa.

SEM PIB, SEM INVESTIMENTO

Este é um desdobramento importante do PIB de 6,8%. Luis Afonso Fernandes Lima, presidente da Sobeet, entidade que congrega as transacionais no Brasil – na verdade as grandes investidoras externas -, afirma à coluna que “o crescimento é fator-chave na atração de investimentos diretos”.

“Não foi por acaso que só até outubro os investimentos estrangeiros diretos (IED) chegam a US$ 34,7 bilhões. Trata-se do maior valor nos primeiros três trimestres do ano em toda a série histórica do Banco Central, iniciada em 1947. Até o mês de outubro, já ultrapassamos o recorde do ano inteiro de 2007, de US$ 34,6 bilhões.” Mas não é só. “No ano todo de 2008 o investimento direto poderá atingir US$ 40 bilhões.” Um resultado que só se explica por esse crescimento de 6,8% do PIB.

“O que mais surpreende nesse resultado excelente é que ocorre em meio ao aumento da aversão global ao risco e à intensificação do ajuste global de liquidez, uma forte contração dos fluxos globais de capitais.”

De acordo com a OCDE, de países que respondem por 86% do IED no mundo, os investimentos diretos mundiais devem retrair-se em 37% neste ano,em relação a 2007. O Brasil está hoje apenas atrás da China, Hong Kong e Rússia entre os países emergentes que receberam esses investimentos em 2007.

Luis Afonso Lima prevê que a situação pode se reverter,com a queda dos preços das commodities e a desaceleração econômica mundial.

Daí a importância de o governo associar, em 2009, os incentivos à demanda interna à execução de projetos que mantenham vivo esse interesse excepcional dos investidores externos pelo Brasil.

O Brasil não estará imune. E justamente em um momento de deterioração do seu saldo em transações correntes. Hoje, 57% desses investimentos se voltam para o mercado externo, para “bens exportáveis”.

*E mail: at@attglobal.net

08/12/2008 - 11:44h Promotoria vai investigar gastos de gabinete

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Cheques usados para sacar dinheiro de verba de operações sigilosas também serão verificados

Marcelo Godoy – O Estado SP

A Promotoria de Justiça da Cidadania vai investigar os gastos com as verbas de operações policiais sigilosas na Secretaria da Segurança Pública. Os promotores querem saber os motivo de setores burocráticos da secretaria terem feito gastos com essas verbas e a razão de o dinheiro de operações ter sido usado para a compra de fuzis para a Polícia Civil, equipamentos para o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), da Polícia Militar, e até para a compra de CDs que foram gravados com dados de criminalidade e distribuídos para a imprensa.

“Esse caso deve ser distribuído para um promotor na terça-feira”, afirmou o promotor Silvio Antônio Marques. Os promotores também devem verificar os cheques da chefia de gabinete da secretaria que foram usados para sacar o dinheiro da verba de operações sigilosas.

O Estado teve acesso a cópias de 119 cheques usados pelo gabinete do secretário em 2004 (gestão Saulo Abreu). Eles mostram que 111 deles têm valores redondos e apenas oito têm valores exatos e quebrados, como o de número 000046, usado para retirar R$ 2.059 da conta 13-0000485-6, da agência 0935 da Nossa Caixa, na Rua da Quitanda, 78/80, no centro de São Paulo. Todos eram nominais e foram sacados no caixa para cobrir despesas de R$ 610 mil por meio de adiantamento.

Os saques foram feitos em duas contas correntes da Nossa Caixa: a de números 13-001143-1, agência 0847 (Avenida Angélica, 2.310), e a 13-000485-6, da agência 0935 (Rua da Quitanda, 78/80). As contas estavam em nome da secretaria e dos ordenadores de despesas nomeados pelo então chefe de gabinete Luiz Hélio da Silva Franco, que ocupou o cargo durante toda a gestão de Saulo Abreu (2002-2006).

Quem efetuava saques era um auxiliar de gabinete, em nome de quem eram feitos os cheques. Trata-se de Carlos Jorge Santana, o Jorginho. A mesma prática se manteve no primeiro ano da gestão de Ronaldo Marzagão, quando o chefe de gabinete era Tadeu Sérgio Pinto de Carvalho. O Estado procurou Luiz Hélio. Pediu que sua cunhada, Elaine Mansano, intermediasse o pedido de entrevista. Recebeu como resposta que ele só falaria depois de saber o que o Estado havia apurado.

Os ordenadores de despesa são funcionários nomeados para cuidar dos gastos das verbas. O principal deles no período foi Marlene da Silva Santos Rocha – ela assina a maioria dos cheques. Assinam ainda esses documentos Djanira Rodrigues da Silva, Mariângela Franca Godinho e José Antônio de Lima.

Entre 4 de fevereiro e 16 daquele mês, foram feitos saques no valor de R$ 39 mil com os cheques 000716, 000718, 000138 e 000139 da agência da Avenida Angélica. Na semana de 14 a 18 de junho, foram retirados R$ 23 mil em quatro cheques – 000024, 000026, 000005 e 000003, da agência da Rua da Quitanda.

O menor valor sacado é R$ 1 mil e o maior foi o cheque 000718, de R$ 25 mil. O recorde de gastos no gabinete em operações reservadas ocorreu em 2004. “A maioria das vezes era feito saque em dinheiro mesmo. Essa verba, como era usada em coisa sigilosa, dificilmente se fazia o pagamento com cheques. Eram coisas que deviam ser pagas em dinheiro, pois se você pagar com cheque, você está comprovando o gasto”, afirmou Elaine Mansano, principal assessora de Saulo. Ela mostrou decisões do Tribunal de Contas do Estado (TCE), dizendo que as contas foram aprovadas e disse que, na época, os gastos em dinheiro deviam ser feitos em no máximo 24 horas após o saque. “Se não, o dinheiro tinha de ser devolvido. Ninguém ficava com o dinheiro na mão.”

07/12/2008 - 11:04h Governo prepara arsenal anticrise

O Estado SP – Brasília

O governo está montando um arsenal de medidas para enfrentar a virada deste ano e o primeiro semestre de 2009, período que ele trata internamente como os “seis meses terríveis” da crise mundial de crédito. A primeira das medidas de curto prazo é um ataque ao spread cobrado pelos bancos nos empréstimos ao setor produtivo. Na avaliação do Planalto e da equipe econômica, o crédito disponível no País, a demanda por esse dinheiro e a solidez do sistema financeiro não justificam as taxas de risco altíssimas (spread) cobradas em cima dos gordos juros já fixados pelo Banco Central na Selic (hoje de 13,75%).

Ministros ouvidos pelo Estado ao longo da semana passada, todos do círculo que discute cotidianamente a crise com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, consideram que os bancos “estão demorando” a baixar os spreads. Para o governo, “o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal têm capacidade de liderar um processo de baixas dos spreads, para que essas taxas de risco voltem aos níveis normais, tanto em valor quanto em prazo”. Juntos, os dois bancos públicos respondem por cerca de 40% do crédito, montante considerado suficiente para influenciar o sistema financeiro.

Além da exorbitância cobrada das pessoas físicas no cheque especial, com taxas que chegam a 188% ao ano, o governo estocou exemplos recentes do que considera spreads despropositais, mesmo em tempo de crise. A Petrobrás quis tomar dinheiro no mercado e lhe foi oferecida uma taxa de 135% acima do CDI. A Caixa emprestou a 108% do CDI.

“Não há justificativa para os bancos receberem dinheiro do compulsório e emprestar a custo tão elevado”, resumiu um ministro ao Estado. Segundo ele, “há consenso” no governo para atacar essas taxas. Procurada, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) não quis se manifestar sobre os planos do governo nem sobre os spreads praticados.

COMPULSÓRIO

A outra decisão é fazer novas liberações de compulsórios, mas impondo aos bancos exigências que sirvam para alimentar a oferta de crédito. O governo ainda tem R$ 160 bilhões de compulsório para liberar, depois de ter disponibilizado R$ 95 bilhões – em outubro, o BC exigiu como contrapartida a compra de carteiras de crédito de instituições financeiras pequenas e médias com problemas de liquidez.

O governo, explicou outro ministro à reportagem, considera “terríveis” os primeiros seis meses de 2009 por entender que as decisões tomadas na virada deste ano para o próximo terão repercussão na saúde da economia para enfrentar o período mais grave da crise. O foco dessas medidas está na decisão de liberar o máximo de crédito ao menor custo possível, para não deixar o setor produtivo sem capital de giro.

BEATRIZ ABREU, JOÃO BOSCO RABELLO, RICARDO GANDOUR E RUI NOGUEIRA


Corte no juro é premissa para ação

Câmbio livre e investimentos completam pilares do governo para tentar amenizar os efeitos da crise no País

Brasília

Além da ação sobre os bancos, para disponibilizar mais crédito, o presidente da República e a equipe econômica estabeleceram três grandes premissas de administração econômica para enfrentar a crise global: a política cambial é intocável, seja qual for a variação do dólar; o governo tem saúde fiscal para bancar os investimentos públicos indutores do crescimento da infra-estrutura; e os juros serão cortados e ajudarão a melhorar o ritmo da produção porque a inflação não é ameaça.

O Banco Central trabalha com uma receita objetiva para o dólar, sob o lema de que “não há meta para o câmbio”, como tem reafirmado o presidente da instituição, Henrique Meirelles. As atuações do Banco Central continuarão baseadas nas situações em que há comprador, mas não há vendedor para a moeda norte-americana. Como o câmbio é flutuante, o banco continuará atuando sobre os nós da “iliquidez”. Um ministro lembrou ao Estado que “os empresários que hoje reclamam do dólar a R$ 2,50 na subida, há algum tempo reclamavam do dólar a R$ 2,50 na descida”.

AGRICULTURA

Na visão da equipe econômica, há um problema localizado na agricultura, e ele está no Centro-Oeste. Na região, a comercialização da produção era feita, quase que integralmente, pelas tradings, que deixaram de operar por causa da freada brutal de empréstimos via linhas internacionais de crédito mais barato. O ganho dessas empresas foi transferido para cobrir prejuízos nas suas matrizes. O governo não adotou nenhuma medida para favorecer as tradings porque são empresas estrangeiras. “E não há razão para socorrer as estrangeiras”, dizem os assessores do presidente. O problema é que os agricultores estão aproveitando a situação para pedir um novo refinanciamento das suas dívidas.

A margem fiscal existente – o superávit primário está em 5,6% do PIB em 12 meses e de 4,53% do PIB no ano – e a certeza de que o País não corre risco inflacionário mantêm em alta no governo a crença de que é possível fazer os investimentos programados na área social e no Plano de Aceleração do Crescimento (PAC). O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) vai disponibilizar uma linha de crédito só para atender às empresas com obras no PAC. O fundo de R$ 10 bilhões, sugerido pela Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústrias de Base (Abdib), não é visto com simpatia pelo governo. “A melhor alternativa é agir via BNDES”, disse um ministro.

FUNDO E EMPREGO

Está mantida, também, a criação do Fundo Soberano do Brasil (FSB) no próximo ano. E o governo ainda conta com 0,5% do PIB deste ano, cerca de R$ 15 bilhões. A estratégia é utilizar o superávit acumulado (fundo soberano) para gastar na crise – a criação do fundo ainda depende da aprovação do Senado. Sem a aprovação, o governo tem de instituir um instrumento que dê respaldo legal à utilização do superávit adicional de 0,5% que forma o FSB.

Nos debates internos, o presidente Lula tem cobrado insistentemente medidas para a manutenção do máximo de emprego possível. Alguns “conselheiros informais” lembram que o governo não deve forçar as empresas a fazer o que não querem.

“As empresas devem receber ajuda do governo para fazer o que elas consideram melhor para a sua saúde administrativa. Quando a crise acabar, elas estarão prontas para empregar novamente e crescer com força”, disse ao Estado um parlamentar que discute os rumos da economia com Lula.

BEATRIZ ABREU, JOÃO BOSCO RABELLO, RICARDO GANDOUR E RUI NOGUEIRA

07/12/2008 - 10:19h Governo PSDB: Verba secreta comprou fuzis e CDs

Especialistas apontam vício orçamentário e falta de licitação

Marcelo Godoy – O Estado SP

http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/images/20060309-dupla.jpgO dinheiro para operações policiais reservadas foi usado para finalidades que não eram sigilosas nem operacionais. Esse seria o caso da compra de equipamentos para o Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), de fuzis para o Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic) sem licitação e até de CDs para divulgar dados de criminalidade. Quem afirma que o dinheiro foi gasto com esses equipamentos é Elaine Ramos Mansano, ex-assessora especial do secretário Saulo Abreu, entrevistada duas vezes pela reportagem.

Quatro professores de Direito ouvidos pelo Estado (Adilson Dallari, Maria Sylvia Zanella Di Pietro, Floriano de Azevedo Marques e Edson Cosac Bortolai) disseram que o uso dessa verba para a compra de materiais que não eram sigilosos nem para operações policiais “é uma irregularidade, um vício na execução orçamentária”. Eles afirmaram que era preciso efetuar a compra por meio de licitação. Elaine, ex-assessora de Saulo, contou, por exemplo, que oficiais da PM teriam comparecido a uma feira de equipamentos de segurança em novembro de 2002, em São Paulo. Entusiasmados com um robô desativador de bombas e a maleta de negociação com microcâmera para crises com reféns (como a que poderia ter sido usada no caso Eloá), os oficiais fizeram o pedido ao gabinete.

“O Luiz Hélio (da Silva Franco, chefe de gabinete na gestão Saulo, de 2002 a 2006) comprou. Era lá, estava na feira. Era comprar ou não. Essas coisas eram para pagar com dinheiro mesmo porque se você pagar com cheque você está comprovando e deixa de ser sigilo.” O dinheiro vivo serviu para o Gate “fazer os testes”. O material foi comprado e exibido à imprensa em 26 de fevereiro de 2003.

O Estado teve acesso a cópias desse tipo de cheque para retirada de dinheiro vivo. Os saques foram feitos em duas contas correntes da Nossa Caixa: números 13-001143-1, agência 0847 (Avenida Angélica, 2.310), e a 13-000485-6, da agência 0935 (Rua da Quitanda, 78/80). As contas estavam em nome da secretaria e dos ordenadores de despesas nomeados por Luiz Hélio, o então chefe de gabinete. O de número 000718 da conta 13-001143- 1 tem o valor de R$ 25 mil.

Quem efetuava os saques era um auxiliar de gabinete, em nome de quem eram feitos os cheques. Trata-se de Carlos Jorge Santana, o Jorginho. Ele também fez isso nos primeiros 15 meses da gestão de Ronaldo Marzagão, quando o chefe de gabinete era Tadeu Sérgio Pinto de Carvalho.

A mesma verba de operações teria abastecido a Coordenadoria de Análise e Planejamento (CAP) com CDs para a gravação de dados de criminalidade distribuídos à imprensa. “Na verdade não é correto isso aí, porque a verba é de operação, mas como o assunto é correlato e era pouco valor, a gente fazia isso”, disse Elaine. No caso dos fuzis, ela conta que o então diretor do Deic, delegado Godofredo Bittencourt, queria adquirir “um ou dois fuzis” que, diz ela, seriam usados “em uma operação”.

O delegado teria tentado fazer uma licitação internacional, como a que o Gate fez recentemente para adquirir equipamentos da empresa Berkana. “Mas ele (Bittencourt) não conseguiu e aí o Luiz Hélio deu o dinheiro e ele comprou”, diz ela. O dinheiro foi sacado da verba de operações, e a compra, segundo a ex-assessora especial, foi feita. “Para a Polícia Civil, algumas vezes a gente comprou armamentos. Esporadicamente.” Ela disse que algumas dessas armas eram de calibres diferentes dos usados pela polícia para operações sigilosas.

Elaine ainda justificou os gastos com a verba de operações policiais dizendo que era usada para cobrir despesas com a escolta de juízes e personalidades ameaçadas. “Outra coisa que tinha muito era proteção ou escolta de juiz. Eles pediam aos montes. E você não vai usar dinheiro da rotina da polícia para isso, né? Então a gente fazia isso para pagar hotel, almoço dos policiais.”