01/10/2009 - 16:02h Em Honduras, com carinho

Sitio de Sergio Leo

Um dos jornalistas que respeito e por quem tenho enorme carinho é o Fabiano Maisonnave, da Folha. cara novo, batalhador, competentíssimo e boa praça. Sério e bem humorado, está hospedado, por esses dias, na embaixada do Brasil em Tegucigalpa.

Ele gosta de blogues, lê vários, inclusive este Sítio, com o qual já colaborou com dicas. Começou o dele (AQUI), já que está naquele tipo de cobertura importante mas cheia de horas vazias. Começou o blogue com uma brincadeira dizendo detestar blogues e blogueiros e já apareceu retardado baixando o malho nele por isso, na caixa de comentários.

Piores são os descerebrados que aparecem por lá em defesa do golpe de Honduras e repetindo mal digeridos os sofismas dos que, querendo criticar o Itamaraty pela atuação em Honduras, inventam teses sem sustentação, como a de que foi o Brasil (não a existência de um golpe de Estado) que acirrou o clima político em Tegucigalpa.

O Brasil tem recebido apoio mundial pelo papel que desempenha em Honduras, e pode sair prestigiado desse imbroglio todo. Escrevo isso para que me cobrem depois.

Entre os raciocínios mais disparatados dos críticos está o de que o Brasil, ao agir como agiu, perdeu a capacidade de mediar a crise, a liderança do processo. Demétrio Magnoli diz coisa assim no Estadão e nO Globo de hoje. O Brasil nunca esteve na mediação, nem a pediu, muito menos na liderança do processo. Se estivesse, seria criticado duramente e com razão pelos que lamentam nos jornais a perda dessa “isenção para mediar”.

O Brasil, como repetiu o Celso Amorim no Senado, apoia a ação da OEA e especialmente do mediador Óscar Arias (cujo nome, pronunciado muito rapidamente, provocava ataques de riso no Senado, terça-feira passada). Há um plano, já aceito pelo Zé Laya, que prevê a reintegração ao poder do presidente deposto pelo golpe, que teria de formar um goevrno de coalizão e presidir as eleições, após as quais sairia do governo, desistindo de propor referendos sobre eleições ou sobre Assembleias nacionais Constituintes.

É um plano de paz sensato, só recusado pelos golpistas hondurenhos (que começam a fraquejar, dividir-se; os apressados defensores dos golpistas ainda vão morder a língua).

Anotem aí: a crise em Honduras aproxima-se de bom fim. Mas não tem problema não. A turma que ontem defendia o golpe em Tegicugalpa conseguiu um bom motivo para mudar de assunto sem trocar de alvo: no meio disso tudo, o Amorim, em uma decisão estranha e mal explicada, acaba de se filiar ao PT.

Amorim no PT. Bom assunto para tomar o lugar, nas manifestações conservadoras, do vergonhoso apoio a um golpe na América Central. Aí o pessoal pode até nem comentar caso haja paz em Honduras e o governo brasileiro seja elogiado lá fora pela atuação na crise.

17/09/2009 - 15:41h De baixo para cima

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Luis Fernando Verissimo – O Estado SP

Especulei aqui se o certo não seria chamar de pós-sal, em vez de pré-sal, o lugar de onde sairá o bendito óleo, já que as brocas virão de cima para baixo, e recebi correções de todos os lados. Quem adivinharia que entre 17 leitores houvesse tantos entendidos em geologia, em contraste com a minha completa ignorância? A explicação mais autorizada e simpática veio de um geólogo profissional, Guilherme Estrella, diretor de Exploração e Produção da Petróleo Brasileiro S.A. Segundo ele, os geólogos têm uma lógica peculiar. Estudam a história do planeta de baixo para cima, pela sedimentação das suas rochas empilhadas ininterruptamente através do que chamam de tempo geológico. As brocas retrocedem no tempo geológico. O que está por baixo é mais velho do que o que está por cima, por isso é pré. Pós-sal é tudo que está acima da camada de sal, inclusive você, eu e os peixinhos. Entendi.

DEMÔNIO
Há dias a CNN mostrou uma mãe americana chorando, preocupada com o que iria acontecer com seus filhos. E o que iria acontecer com seus filhos era terem que ouvir pela TV um discurso do presidente Barack Obama dirigido a estudantes do ensino básico de todo o país, no primeiro dia do ano escolar. Barack recomendaria a todos que fossem bons alunos e tomassem o seu leite, mas a direita histérica criou a expectativa de que ele aproveitaria a oportunidade para doutrinar as crianças sobre os seus programas nazicomunistas, talvez até recorrendo à hipnose. Muitas escolas se recusaram a mostrar a preleção presidencial. A mãe entrevistada pela CNN estava apavorada com o que o demônio negro de fala mansa poderia fazer com a mente dos seus filhos.

A demonização do Obama se deve em grande parte à sua intenção de criar um sistema universal de saúde pública como os que já existem em todos os países civilizados do mundo (e mesmo semicivilizados, não vamos citar nomes), para garantir assistência médica aos mais de 50 milhões de americanos que hoje não têm proteção alguma. As seguradoras, indústrias farmacêuticas e empresas hospitalares que já tinham liquidado com um plano similar do Clinton mobilizaram-se de novo, com a colaboração da imprensa conservadora, de políticos reacionários e de almas simples como a mãe apavorada, e transformaram a ameaça aos seus lucros numa guerra ideológica. Ainda é incerto se o Baraca conseguirá ver seu plano, ou uma versão chocha do mesmo, aprovado. Ou se chegará ao fim do seu mandato, nesse clima.

Dias depois da mãe chorosa a mesma CNN mostrou um pastor do Sul dos Estados Unidos declarando que rezava para Obama morrer de câncer e ir para o Inferno. E a congregação dizendo “Amém!”

23/08/2009 - 12:21h Truque conhecido

por Luis Fernando Veríssimo 

crônica

Blog de Noblat

Baraca em apuros. A direita lunática americana o bombardeia. Já o chamaram de um nazista pior do que Hitler, pois está levando o país para o comunismo. Há um movimento, os “birthers” – de “birth”, nascimento – alegando que Obama nasceu no Quênia, que o registro do seu nascimento no Havaí é falso, que portanto ele não nasceu em território americano e não pode ser presidente. E, inevitável: surgem histórias sobre a sua suposta bissexualidade.

A reação a um novo presidente, negro, eleito para mudar, com uma plataforma progressista e cuja vitória deixou o partido adversário destroçado, era previsível. Com os republicanos sem força e sem líderes, os lunáticos assumiram. Hoje se diz que o líder de fato da oposição é Rush Limbaugh, cujo programa de rádio em cadeia tem um público estimado de 15 milhões de pessoas, todos, supõe-se, reacionários furiosos como ele. Foi Limbaugh que lançou o epíteto de Hitler bolchevique.

Se a reação a Obama era esperada mesmo que ele não cumprisse metade do que prometia como candidato e seu programa progressista não fosse tão progressista assim – como não está sendo – a virulência inédita da oposição, e os apuros do Baraca, têm uma causa específica. Ele propôs uma reforma do sistema de seguro de saúde do país, no que seria sua primeira grande legislação social – e a coisa mais “progressista” do seu governo até agora. Pra quê.

Os Estados Unidos são o único dos países industrializados que não tem um sistema universal de assistência médica garantida. Bill Clinton tentou corrigir isso mas não aguentou a reação dos mesmos lóbis que agora alimentam a rejeição a Obama e atiçam os lunáticos, chamando a reforma de um primeiro passo para o socialismo. Obama empunhou a bandeira largada por Clinton mas parece não estar sabendo carregá-la. Seu plano é confuso, sua atuação em sua defesa é hesitante – e a feras não largam do seu pé.

Especula-se que os lóbis (grandes seguradoras, indústria farmacêutica, empresas hospitalares e de previdência privada) vencerão de novo, ou que Obama só conseguirá uma reforma aguada. Os debates públicos sobre a questão têm sido violentos. Lendo e ouvindo o que dizem por lá não se pode deixar de admirar a maneira como interesses particulares conseguem transformar ameaças ao seu poder – no caso americano, o direito elementar de todos a assistência assegurada – em ameaça ideológica e guerra pela alma de uma nação, passando pela demonização de um governo. Um truque que conhecemos bem.

19/05/2009 - 10:29h A udenização do PSDB

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do blog por um novo Brasil

Cláudio Gonçalves Couto – VALOR

Certa feita, o ex-governador Leonel Brizola disse que “o PT é a UDN de macacão”. Essa frase não se explicava apenas pela notória destreza verbal do caudilho gaúcho e pela histórica rivalidade de seu trabalhismo decadente com o obreirismo emergente do PT. Ela também se justificava pela crítica à postura de oposicionismo contumaz e desleal, associada a um empedernido moralismo, que marcava o partido de Lula na época em que a conquista do governo federal ainda se encontrava algo distante. Chegava-se ao ponto de que mesmo nos estados e municípios em que o partido conquistava governos, certos petistas reivindicavam que se fizessem “governos de oposição” à administração federal do dia – priorizando a desestabilização dos adversários no plano nacional em detrimento da condução de sua própria administração.

Poder-se-ia concordar com Brizola e notar neste traço uma real semelhança com a velha UDN. Afinal, o partido de Magalhães Pinto, Milton Campos e, sobretudo, Carlos Lacerda, não poupava esforços na desestabilização de seus adversários varguistas no governo federal – em particular o próprio Vargas, levado ao suicídio. Mas a orientação para o oposicionismo contumaz do PT – afora o mesmíssimo oportunismo na busca do poder – provinha de uma matriz ideológica distinta daquela da UDN. Tinha a ver com um vezo revolucionário de matriz socialista, difusamente marxista, que coloca em segundo plano a democracia dita burguesa na busca dos objetivos políticos. Já os udenistas se nutriam num elitismo liberal-conservador (mais conservador do que liberal, aliás), que também dava pouca importância à democracia, tendo na desestabilização conspiratória de seus adversários um método para alcançar o poder. Talvez nada represente melhor essa estratégia de oposicionismo desleal da antiga UDN do que a frase de Lacerda dirigida aos recém-eleitos Juscelino Kubitschek e João Goulart: “Esses homens não podem tomar posse, não devem tomar posse, nem tomarão posse.”

Mas a UDN e suas lideranças não atuavam de forma isolada nesta sua estratégia de oposicionismo desleal. Elas contavam com a sustentação política de setores da sociedade que se identificavam com sua perspectiva elitista liberal-conservadora. Para esses setores, Vargas e o favorecimento dos setores mais pobres da população por meio de políticas sociais eram anátemas: cumpria extirpar a eles e às práticas imorais de trato da coisa pública que supostamente lhes acompanhariam. Mas essa não era tarefa das mais fáceis, de modo que apesar da participação de alguns udenistas em governos de herdeiros do varguismo (e mesmo do próprio Vargas) entre 1945 e 1960, a UDN como tal não conseguia entrever como tarefa fácil a sua chegada ao poder. Para piorar, quando a UDN parece finalmente chegar ao poder pelas mãos de Jânio Quadros (um “udenista novo” nos termos de Sílvio Tendler), a experiência não dura mais do que sete conturbados meses.

Foi essa constante frustração na busca do poder nacional que alimentou o oposicionismo contumaz, a desqualificação virulenta dos adversários e a conspiração golpista que, ao fim e ao cabo, se consumou em 1964. Tudo isto fez com que o udenismo entrasse para a história como o sinônimo de um hipocritamente moralista conservadorismo social, descompromissado de qualquer lealdade democrática. Se é possível identificar hoje algum partido que seja legitimamente herdeiro da tradição udenista, este certamente não é o PT (apesar da frase de Brizola), pelas profundas diferenças históricas, organizacionais, ideológicas e sociais da agremiação. Seria, na verdade, o PFL, hoje rebatizado de DEM – já que o PDS, hoje PP, mal é um arremedo do que outrora foi a ARENA, partido oficial do regime que Tancredo Neves denominou como “Estado Novo da UDN”.

O DEM bem que tenta viabilizar-se como o ocupante do espaço principal à direita de nosso espectro político partidário. Logrou inclusive alguns sucessos nessa empreitada: sua recente repaginação, adotando novo nome, rejuvenescendo suas lideranças nacionais e capitaneando uma importante derrota do governo num tema caro ao liberalismo-conservador – a redução de impostos (na votação da CPMF). Todavia, o partido tem perdido força nas disputas estaduais e não conta com um nome nacional que pudesse entrar de forma competitiva na disputa presidencial. Tem-se visto irremediavelmente a reboque de seu parceiro mais ao centro, o PSDB, mesmo onde obteve importante vitória eleitoral – em São Paulo. Com isto e com o declínio das lideranças e partidos conservadores mais tradicionais, que sucumbiram ao fisiologismo rasteiro, tornando-se inclusive base de sustentação do governo Lula, o eleitorado mais consistentemente conservador viu-se órfão. E fez sua opção mais de forma negativa que positiva.

Se há um sentimento que tem animado o espírito político conservador hoje no Brasil, este é o do antipetismo (e uma variante sua, o antilulismo). E nenhuma outra agremiação tem incorporado melhor este papel de anti-PT e anti-Lula do que o PSDB (com a sugestiva exceção mineira). Ao tornar-se estuário deste conservadorismo social e político, os tucanos têm adotado – sobretudo na cena nacional – um discurso e uma postura cada vez mais conservadores e elitistas. É a forma encontrada de reter o novo eleitor – esse direitista “tucano novo”. O curioso disto é que talvez nenhum partido seja mais próximo do PT em sua origem histórica e no perfil de seus formuladores do que o PSDB. Mas a disputa eleitoral da democracia prega peças: ela força os partidos para onde os eleitores estão. Isto talvez explique o processo de udenização pelo qual passam os tucanos.

Cláudio Gonçalves Couto é cientista político, professor da PUC-SP e da FGV-SP.
E-mail claudio.couto@pucsp.br

17/03/2009 - 14:21h Crise convulsiona classe média no bloco europeu

Segmento social é a principal vítima da recessão econômica em quase todos os países

Inquietação política pode se agravar, caso programas de estímulo não sejam vistos como favoráveis ao cidadão comum, diz diretor da OIT

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JOHN THORNHILL – “FINANCIAL TIMES” – FOLHA SP

A economia está causando convulsões políticas na Europa. Na Islândia e na Letônia, os governos caíram; greves ou protestos irromperam na Grécia, na Irlanda, na França, na Alemanha, no Reino Unido, na Ucrânia e na Bulgária. Os tumultos financeiros abalaram até mesmo os baluartes mais distantes do continente: a ilha francesa de Guadalupe, no Caribe, sofreu greves violentas, enquanto a Rússia teve de enviar policiais de avião para a distante e gélida Vladivostok, a fim de conter protestos de rua.
O surto de inquietação não era esperado no continente. Muitos europeus imaginavam que seriam poupados dos piores efeitos de um desastre gerado nos subúrbios dos EUA.
Mas a crise se espalhou. Na semana passada, os ministros das Finanças da União Europeia revisaram para baixo projeções já desanimadoras para o PIB do bloco e estimaram que a recessão vá perdurar até 2010.
À medida que os governos fazem ações muitas vezes impopulares para salvar suas economias, cresce a raiva, como resultado do desemprego cada vez mais alto, das restrições aos aumentos de salários, dos resgates aos bancos devastados e das quedas nos valores das residências e dos fundos de pensão.
Juan Somavia, diretor-geral da OIT (Organização Internacional do Trabalho), diz que a inquietação social pode se agravar caso os planos de estímulo não sejam vistos como benéficos aos cidadãos comuns, alegando que “há uma sensação de que banqueiros recebem bilhões, e o povo, trocados”.
Por enquanto, é impossível prever os efeitos políticos do terremoto econômico em curso.
A esquerda deveria ser a beneficiária natural. Porém, líderes sindicais recordam, em tom pressago, que foi a extrema direita, e não a esquerda moderada, que ganhou o poder em boa parte da Europa nos anos 30, na última catástrofe capitalista.
Observadores como o sociólogo francês Emmanuel Todd preveem o fim da democracia, ou ao menos sua erosão significativa, com os líderes da direita populista, como o premiê italiano, Silvio Berlusconi, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, tornando-se mais demagógicos e autoritários. Outros preveem uma reversão ao nacionalismo e ao protecionismo.

Maior vítima
Países diferentes estão respondendo de formas diferentes à crise. Mas um traço comum a quase todos é que a classe média é a principal vítima da recessão. Mesmo antes da crise, sociólogos falavam sobre o surgimento de “sociedades-ampulheta” na Europa -a globalização afastando mais e mais vencedores de perdedores.
“A classe média está encolhendo agora, ao menos na Alemanha. Essa é uma situação completamente nova para o país”, afirma Stefan Hradil, sociólogo alemão. A análise também vale para o Reino Unido, onde a mídia destacou os problemas da “classe calada”, formada por profissionais antes seguros de si que agora enfrentam dificuldades financeiras.
O momento político mais explosivo talvez surja quando os europeus tiverem de pagar a conta pelos pacotes de resgate atuais. Os governos só conseguirão reequilibrar as finanças públicas caso cortem os gastos e aumentem os impostos sobre a classe média já sufocada.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

03/03/2009 - 14:21h A nova direita

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MARCOS NOBRE – FOLHA SP

NÃO FAZ MUITO tempo, a esquerda tinha conseguido estabelecer alguns sólidos pontos de partida do debate político. Aplicar pena de prisão não diminui a criminalidade, porque o crime não é apenas ação de um indivíduo, mas falha de toda uma sociedade. O desemprego não é culpa do desempregado, mas de um sistema econômico que produz injustiça. O progresso material só significa progresso social e político se houver uma justa e solidária distribuição da riqueza. E por aí vai.
Essas posições foram desafiadas e derrotadas. Nos últimos 30 anos, enquanto movimentos e grupos sociais reivindicavam mais liberdade, uma esquerda tradicional respondeu de maneira tradicional: liberdade só com igualdade primeiro. Recusou-se a ver que havia ali um problema real, que a promoção da igualdade não produz automaticamente pessoas autônomas. Ao invés de aceitar o desafio de pensar uma nova relação entre liberdade e igualdade, boa parte da esquerda perdeu-se em discussões bizantinas como a das causas da queda do decrépito bloco soviético.
Enquanto isso, a direita se apresentou em nova roupagem, como paladino da liberdade e mãe da democracia -quando se sabe que a democracia de massas foi em larga medida uma conquista do movimento operário contra a direita, que entrava em pânico só de pensar no voto universal secreto. A nova direita ocupou um a um os espaços disponíveis nos meios de comunicação de massa e na esfera pública, em um combate cotidiano contra as teses de esquerda então dominantes. Venceu e transformou a sua vitória em poder institucional.
O resultado foi uma guinada nos pontos de partida do debate político. O que se pede hoje de todos os lados é mais prisão, mais responsabilização dos indivíduos, mais progresso material puro e simples. E por aí vai. É nisso que consiste a atual hegemonia da direita.
A nova direita vê a forma atual da democracia como imutável, como o “fim da história”. Avalia toda tentativa da esquerda de transformar a democracia como um ataque à liberdade. Mas, ao mesmo tempo, não vê problema em aceitar -como fez a Folha a propósito da ditadura militar brasileira- o revisionismo histórico e gradações no autoritarismo.
A atual crise econômica pode alterar esse quadro. Esse é o maior temor da nova direita hegemônica. Mas isso só tem chance de acontecer se a esquerda for capaz de fazer o combate de ideias no espaço público sem continuar a pressupor que seus pontos de partida seguem inquestionáveis. Convencer pessoas que já estão convencidas é puro conformismo.

nobre.a2 uol.com.br
MARCOS NOBRE escreve às terças-feiras nesta coluna.

01/02/2009 - 13:01h ”Do exílio ninguém regressa”

O argentino Tomás Eloy Martínez tenta com Purgatório recuperar o que o desterro lhe tirou

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Soledad Gallego-Diaz, EL PAÍS – O Estado SP

 


O purgatório, segundo a doutrina da Igreja Católica, é o processo de purificação necessário antes de se entrar no reino dos céus e passa pela dor de não desfrutar a presença de Deus, a ausência, a perda do bem extraordinário que é a contemplação do amor e do ente querido. Purgatorio é, nesse sentido, o melhor título possível para o mais recente romance do escritor argentino Tomás Eloy Martínez (Tucumán, 1934): a história de uma perda e de um exílio. Sua personagem, Emilia Dupuy, procura, durante 30 anos, seu marido detido pelos militares argentinos e desaparecido. Um dia ela o encontra num pub dos Estados Unidos: o tempo não passou para ele. “Quando você volta ao lar do qual partiu, pensa que fechou o círculo, mas percebe que sua viagem foi só de ida. Do exílio ninguém regressa”, escreve o narrador da história. Mas Emilia não acredita nele.

Seu romance é uma história terrível de perda.

Pensei muito na dor das pessoas que perderam alguém, mas, sobretudo, na dor maiúscula que significa não ver esse alguém morto. A constatação da morte é, pelo menos, uma forma de consolo. O limbo ou o purgatório de não saber o que foi feito do ser amado, onde ele está, se está morto, ou se está perguntando por você em outro lugar, é desesperador. De fato, já se fala disso na tragédia grega, quando Antígona não consegue enterrar seu irmão.

Durante a época da ditadura militar desapareceram cerca de 30 mil argentinos. Esse sentimento de perda, que é tão opressivo no romance, acomete qualquer argentino de sua geração?

Em meu caso, fui expulso de meu país pouco antes da ditadura. A motivação que me levou a escrever este livro é, precisamente, a interrupção de uma vida pelo exílio. Há dez anos de minha vida que se foram para sempre e que são irrecuperáveis. Pensei em recuperá-los mediante a escrita. A privação dos afetos é terrível. Por alguma razão, os gregos já pensavam no exílio como um castigo equivalente à morte. Eles o arrancam de seus afetos, de seus filhos, de sua vida profissional. Eles o obrigam a ser outro. E nessa “alteridade” você se perde.

Chama a atenção que suas duas personagens, Emilia e Simón, sejam precisamente cartógrafos.

Não sei bem por que, mas me preocupa há algum tempo a ideia do mapa e da semelhança entre o mapa e o romance. A escrita do romance e a realização dos mapas são, ambas, invenções da realidade, imaginações. No princípio, os seres humanos, quando não sabiam em que terra estavam pisando, imaginavam o mundo e lhe punham nomes a seu critério.

Mas, ao mesmo tempo, os mapas existem para que as pessoas não se percam, para que alguém não desapareça.

Exatamente.

A personagem de Emilia está perdida, mas encontra Simón pela formidável intensidade de seu amor. O amor é o único sentimento capaz de desencadear tanta força?

É sobretudo a ansiedade de recuperar o amor que não se viveu, que nos converte em outro ser. Como eu digo, o impulso inicial que me moveu a escrever este livro foi tratar de recuperar, mediante a escrita e a imaginação, o que o exílio me tirou. A escrita e a imaginação têm um poder maiúsculo, um poder que tratei de medir com a escrita deste romance. A ideia original era narrar a vida cotidiana dos argentinos, não os campos de concentração, não os tormentos, não as mortes horrendas, e sim a mediocridade da vida cotidiana. Sobretudo, algo que me perturbava, estando fora por tanto tempo, como não se reage, como se olha para outro lado? As ditaduras não são possíveis sem uma cumplicidade coletiva; uma certa forma de resignação ou de cumplicidade coletiva. A fonte dessa cumplicidade, acredito, é a ignorância. O grande recurso dos autoritarismos é obrigá-lo a ignorar, a que só saiba o que eles querem que saiba.

A primeira coisa que as autoridades israelenses fizeram antes de invadir Gaza foi impedir a presença de jornalistas.

Sim. E outra coisa importante. Aqui, se você denunciava o que via, o regime o denegria imediatamente como “antiargentino” e como tal o condenava. Agora, se você publica fora de Israel alguma coisa sobre o que sucede em Israel, podem muito bem chamá-lo de antissemita. Quando Israel levantou o muro, que me pareceu contrário a toda tradição da perseguição aos judeus, publiquei um artigo em La Nación, dizendo que era uma barbaridade, uma forma lenta de morte, e você não imagina a quantidade de vozes que se ergueram aqui para me acusar de antissemita.

Uma personagem que me parece interessante é a de Dupuy, o pai de Emilia. Ele não é um homem que está louco, mas que é, basicamente, um sem-vergonha.

Isso mesmo. Um canalha. Ele tem um ideal de extrema direita, militar, a ideia de construir um país sobre a ideia de “Deus, Pátria e Lar”, a espada e a Igreja, a união das armas com a fé e tudo isso misturado com a corrupção que afeta os pressupostamente incorruptíveis e se revela avassaladora. É esse também o tema de outro romance meu, O Voo da Rainha. Neste caso, é um jornalista incorruptível, que, em seu empenho em lutar contra a corrupção, se corrompe.

É tão fácil se corromper?

Se você não tem uma estrutura moral muito sólida e a corrupção não o repugna por princípio ou por vergonha, então, sim, suponho que a corrupção é uma tentação muito importante. Ela assume formas às vezes imprevisíveis. Aqui se veem infinitas formas de corrupção, inclusive você pode se converter em um corrupto sem ter consciência disso. A corrupção não é somente corrupção do dinheiro. A corrupção no jornalismo, por exemplo, é a sedução do poder, fazê-lo acreditar que você pode derrubar um ministro ou ter alguma influência maior.

Um episódio curioso no romance é o momento em que Dupuy pai visita Orson Welles para lhe propor que faça um documentário sobre os campeonatos mundiais de futebol. Cheguei a acreditar que fosse uma história possível.

Assim se criam as personagens. Conheci Orson Welles tal como Dupuy o conhece, na última tourada de Antonio Bievenida, em Toledo. Eu era um jornalista e ele estava muito envolvido na cerimônia de apartar os touros, opinando como se fosse um especialista. Eu me contive e não lhe perguntei sobre o Quixote, que ele havia deixado pelo meio. Admiro muito Welles, para mim ele é eticamente muito valioso. Pareceu-me que se o episódio não tivesse verossimilhança não poderia ter força e pus-me a estudar Welles, de modo que quando Dupuy o visita, eu sabia onde ele estava, o que fazia. Descobri que nessa época Orson Welles emprestou sua voz a um filme que se chama Genocídio, e me pareceu interessante devolver-lhe a homenagem.

Com relação à personagem de Emilia, às vezes é desesperador o tempo que ela demora para se dar conta do que se passou com seu marido, apesar das muitas pessoas que lhe contam.

Ela o explica num dado momento: “Se Simón está morto, então meu pai é um assassino e minha mãe, uma cúmplice.” E sobre a morte de seu marido, que já seria uma carga suficiente para ela, pois é a esperança que a mantém viva, teria que somar a culpa por esses antepassados assombrosos. Emilia é um reflexo, ou uma metáfora, embora a palavra me pareça um pouco presunçosa, da sociedade argentina em geral, à qual estão ocorrendo as coisas diante de seus olhos e ela não os vê. Prefere esperar que ocorram milagres. Mas Emilia não espera passivamente, porque procura de todos os modos.

A história de amor, que é tão importante no romance, seria possível pensá-la igual se a desaparecida fosse ela e Simón quem a procura?

Creio que o gênero masculino não tem, em geral, a mesma força passional e a mesma tenacidade que as mulheres têm. Por algum motivo, são As Mães da Plaza de Mayo e não Os Pais da Plaza de Mayo. Embora os maridos acompanhem o símbolo da busca e da espera, foram as mulheres que bateram de frente com a ditadura.

Seu romance tem muitas leituras possíveis: é uma história de amor, mas também um romance político, mas também um romance metafísico… É um romance sem medo.

Sem medo das consequências. Caminhar sobre uma corda bamba sem cair. Nesses temas a gente pensa qual é o limite e até onde posso avançar, e quanto mais livre você se sente, mais seguro se sente e melhor avança. De todos os meus livros, este foi o que escrevi mais rapidamente, me deixando levar.

O senhor acredita que algo que existiu um dia existe para sempre?

Um ser que existiu persiste por intermédio da memória. Por isso, o livro insiste em que a identidade de cada um de nós está nas recordações. Não só nas recordações que se tem, mas nas recordações que se deixa. Por isso o céu e o inferno são suas boas e suas más ações, aquilo que você deixou e o que permanece na memória dos outros.

TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK

FLUÊNCIA NARRATIVA E BASES HISTÓRICAS MARCAM SUA FICÇÃO

CONTRA O PODER: A experiência com a ditadura militar argentina resultou em marca na militância e na ficção de Tomás Eloy Martínez, nascido na província de Tucumán, em 1934. Formado em literatura e especializado em Jorge Luis Borges, Eloy Martínez atuou como repórter na Argentina e na França, tendo iniciado a carreira jornalística como crítico de cinema. Durante o seu exílio, ele ajudou a fundar periódicos importantes como El Diario (Venezuela) e Siglo 21 (México). Ele criou o suplemento literário Primer Plano para o jornal Página/12, de Buenos Aires. Desde 1995, ele dirige o Programa de Estudos Latino-americanos da Rutgers University, em Nova Jersey. Marcados pela fluência narrativa e tramados em bases históricas, seus romances abordam, de modo geral, os efeitos do exercício do poder, visto sob um olhar cético, por vezes cáustico. Cinco de seus livros estão em catálogo: O Voo da Rainha (Objetiva), O Cantor de Tango, A Mão do Amo, O Romance de Perón, Santa Evita (todos Companhia das Letras).

27/01/2009 - 15:54h Quinta-feira de fortes greves na França

10/11/2008 - 16:00h Casamento gay, esquerda e caretice


Paul Sakuma/Associated Press

blog Folha na Sucessão de Bush

Vi muita gente argumentar que o sinal de vitória sobre o conservadorismo dado pela eleição de Barack Obama teria sido manchado pela derrota do casamento gay na Califórnia, na Flórida e em outros Estados.

De fato, tudo indica que os mesmos eleitores negros e latinos que votaram maciçamente em Obama também votaram em sua maioria contra o casamento gay _mas note-se, não contra a união civil de homossexuais, que continuará existindo nesses Estados, nem a favor de muitos projetos submetidos a referendo ou plebiscito que visavam restringir o direito ao aborto e que foram derrotados.

Eu acho esse raciocínio furado por dois motivos.

Em primeiro lugar, porque casamento gay nunca foi o sinal básico da diferença entre direita e esquerda em nenhuma parte. Como diz um clássico do italiano Norberto Bobbio, e como ensina a história, a diferença entre direita e esquerda é dada pela valorização de um mínimo de igualdade e justiça social como requisito para o desenvolvimento de uma sociedade verdadeiramente democrática.

Nos Estados Unidos, cuja tradição política vem dos filósofos liberais do século 18, essa valorização da igualdade é expressada no eufemismo, tantas vezes repetido por Obama em seus discursos, da “igualdade de oportunidades”. Isso é traduzido, entre outras coisas, na defesa de um sistema de impostos mais progressivo para “espalhar a riqueza”, na frase do presidente eleito a Joe, o encanador que foi tão atacada pela campanha de McCain como sinal de “socialismo”.

Os conservadores nos Estados Unidos valorizam sobretudo as chamadas “liberdades negativas”, o direito das pessoas de não serem importunadas por governos ou outros, em detrimento das “liberdades positivas”, entre elas os direitos à educação, à saúde, ao emprego. Claro que também os conservadores são os primeiros a minar as liberdades individuais que dizem prezar quando o alvo é o inimigo, seja ele “comunista” (lembrem-se do macartismo) ou “terrorista” (lembrem-se do Ato Patriótico sob Bush).

Foram os conservadores americanos que inventaram, nas “guerras culturais” a partir de Richard Nixon, que a diferença entre direita e esquerda eram os chamados “valores morais”. Com isso, tiraram o foco das mudanças que viriam a implantar na estrutura básica da sociedade, no sentido de redução das oportunidades (ou da igualdade). Hoje, os Estados Unidos têm a sociedade mais desigual entre os países ricos.

Nesse sentido, a vitória de Obama foi sim um repúdio ao conservadorismo que desde Ronald Reagan vem pregando que, se você beneficiar o topo da pirâmide econômica, a riqueza vai automaticamente se espalhar para a base, sem que sejam necessários um governo ou uma coletividade trabalhando para que isso aconteça.

Em segundo lugar, eu acho muito questionável a idéia de que os gays que querem se casar no papel estão sendo intrinsecamente “progressistas”.

Se por um lado há a idéia de igualdade de direitos, por outro eles só estão reivindicando o direito de ser conservadores, de terem a “aprovação” da sociedade.

Eu ainda sou do tempo em que casar no papel era sinal de caretice. Estou casada de fato há 20 anos com um homem que amo, tenho dois filhos quase adultos lindos, e nunca tive paciência para ir ao cartório. Nunca achei que esse ritual valesse um minuto da minha vida.

Escrito por Claudia Antunes

08/11/2008 - 15:23h O racismo ordinário do buffone

Sem pedido de desculpas a Obama


Berlusconi chama de imbecil quem criticou frase sobre o presidente eleito

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Rogério Daflon – O Globo

O primeiro-ministro da Itália, Silvio Berlusconi, preferiu manter a polêmica acesa a fazer qualquer autocrítica em relação à sua frase após a vitória de Barack Obama nas urnas. O empresário e político — que declarara que o presidente eleito americano é “jovem, bonito e bronzeado” — se irritou anteontem diante das críticas ao fim da cúpula informal de chefes de Estado e governo da União Européia (UE), em Bruxelas.

— Todos (que o criticaram) deveriam estar numa lista de imbecis — disse ele, que, em seguida, foi indagado por um jornalista se pediria desculpa a Obama. — Você (que fez a pergunta) também deveria estar na lista de imbecis.

Em Roma, manifestantes protestaram contra a frase do premier. Em Chicago, o coordenador da campanha, David Axelrod, decidiu não se pronunciar sobre o assunto, e à noite, o governo italiano anunciou que Berlusconi teve “uma longa e cordial conversa telefônica” com Obama.

Jornalista austríaco faz declaração racista. Ao menos o político italiano pôde dizer que estava brincando.

Já o jornalista austríaco Klaus Emmerich, de 80 anos, nem isso. Ele falou a sério ao criticar a chegada de Obama à Casa Branca. Em transmissão ao vivo de TV sobre a vitória do democrata, Emmerich afirmou que não gostaria de ver o mundo ocidental “liderado por um homem negro”. Emmerich — excorrespondente da TV estatal ORF nos EUA —disse que os americanos ainda são racistas e que devem “estar muito mal se mandam um negro e uma mulher negra muito atraente para a Casa Branca”. Sem baixar o tom, o jornalista emendou, por fim, dizendo-se “curioso para ver como reagirá a América branca.

Seria como se o próximo chanceler (austríaco) fosse um turco; ninguém na Áustria gostaria”.

A estatal ORF condenou as declarações do jornalista. Para Francisco Carlos Teixeira, professor de história da UFRJ, manifestações racistas contra Obama não vão parar por aí: — No caso austríaco, é algo que não surpreende. Naquele país, o Partido da Liberdade é neonazista, e metade da Áustria vota nesse pessoal.

Teixeira disse que também não a vê a frase de Berlusconi como algo inesperado: — A frase mostra uma não aceitação à cor de Obama. Há que se lembrar que Berlusconi está à frente de uma coalizão de direita, com o Partido da Frente Nacional, herdeiro do Partido Nacional Fascista Italiano.

O professor prevê também manifestações racistas em algumas regiões dos EUA.

— Na análise do mapa eleitoral, vê-se forte rejeição a Obama onde houve grande imigração da região da Europa Central. São pequenos fazendeiros e produtores que vivem entre os Grandes Lagos e Golfo do México. E se vê a mesma coisa em alguns estados do Sul ainda com forte sentimento racista — observou Teixeira, ressaltando que Obama fez a a campanha como presidente de todos os americanos.

— Embora a estratégia tenha sido bem-sucedida, ele vai sofrer mais manifestações. Porque o racismo não é um problema social, mas cultural.

06/11/2008 - 14:24h Apagar os símbolos

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Apagar os símbolos, para desmoralizar a esperança. Esta parece ser a lógica de certos articulistas de direita no Brasil, para os quais a convergência no imaginário popular entre Lula e Obama é fonte de perigo.

Dora Kramer nos brinda hoje com um resumo quase perfeito desse pensamento político. Para a articulista:

“Diante de tão farta e variada oferta de interpretações sobre os simbolismos da eleição de Barack Obama, mais fácil é saber o que não terá significado algum no decorrer do mandato do presidente eleito dos Estados Unidos.

A explicação ele mesmo forneceu quando teve desde o início da jornada o tirocínio de dar à cor da pele o molde de uma quase irrelevância. Na saudação pós-vitória, seguiu indiferente enquanto o mundo insistia em lhe pregar ao peito a divisa de “primeiro presidente negro dos Estados Unidos”.

É dele, evidente, o título: o senador democrata é negro, foi eleito presidente e, antes dele, apenas americanos de pele branca tinham chegado à Casa Branca.

Ponto, parágrafo e encerra-se aí a questão, cuja importância objetiva é parecida com a influência concreta que a profissão de torneiro mecânico exerce sobre as atividades de Luiz Inácio da Silva como presidente da República do Brasil.”

Dora confundiu a eleição de Obama com a do prefeito Celso Pitta e a do Lula com a de um acidente de percurso.

A cor de Obama e a profissão de Lula são um concentrado do movimento histórico que os levou, diria através de longos anos que precederam até a seus próprios nascimentos, a serem eleitos presidentes dos seus respectivos países .

Ambos foram eleitos pela maioria esmagadora da população, de todas as classes e credos, mas unificados pelo anseio de mudança em favor das maiorias exploradas e excluídas por séculos.

Lula construiu sua trajetória na ação sindical e na fundação de um partido de esquerda, identificado com a luta contra a desigualdade social e pela democracia.

Obama foi escolhido como candidato por ser o homem certo, no lugar certo, com disse ontem o editorial do jornal Le Monde. Ou seja, por encarnar a esperança de responder à crise econômica levando em conta os interesses dos assalariados, das classes médias, das minorias raciais ou étnicas.

Ele pode encarnar esta esperança por uma conjunção de fatores, dentre os quais foi essencial a luta de anos contra o racismo e em favor da igualdade, levada à frente pelo movimento negro americano.

Um outro fator é também a experiência histórica do povo com o “New Deal” de Franklin Roosevelt atualizado com o impacto da crise atual. Outro fator essencial foi a decadência presidida por Bush e o esgotamento da cartilha neoliberal iniciada com os anos Reagan. A “herança maldita” deixada para o sucessor.

Quem não percebe que a “ousadia” de eleger um negro presidente dos Estados-Unidos traduz uma vontade de mudança de fundo?

A “cor” aqui aparece como atributo positivo, ou seja sinônimo que a mudança é para valer e isto demonstra que essas aspirações não se contentarão com pouco.

Claro que Obama soube, como Lula também, mostrar que ele pode encarnar a mudança sem o conflito e a divisão, unificando os americanos e não atiçando os conflitos.

Para Obama, como para Lula, isto era um suposto “handicap” intransponível, estampado na “cor” de um e na “profissão” do outro. A “rejeição” definitiva. Mas o que em tempos “normais”, onde os preconceitos veiculados por anos (com a contribuição da mídia, entre outros), são aceitos como verdades eternas, nos momentos históricos das viradas acabam galvanizando a aspiração à mudança. A cor de Obama e o trabalhador Lula simbolizam a idéia que a mudança será para valer ou eles trairiam sua “essência”.

A articulista não parece entender é que os movimentos sociais sempre acabam se reconhecendo em símbolos, imagens, bandeiras ou palavra-de-ordem. Mas não são os símbolos os que geram o movimento, eles são puxados pela máquina social em movimento. Esse símbolos podem frustrar as expectativas, o que não anula o papel que cumprem como expressão dos anseios da maioria do seu povo.

O temor de Dora Kramer é que se considere que a vitória de Obama e Lula são “exemplos de que o triunfo dos oprimidos sobre os opressores é possível, como se a evolução dos costumes, as mudanças do mundo não fossem parte de um processo natural da civilização”.

Processo natural uma ova. Como diz alguém, foi necessário que Rosa Parks ficasse sentada, para que Luther King começasse a andar e Obama chegasse lá, concluindo uma primeira e grandiosa caminhada.

A “evolução dos costumes” passou por lutas sofridas das mulheres pelo direito ao voto, dos negros por leis igualitárias, de operarios por direito à greve e organização sindical. Não existe processo natural da civilização, ou o nazismo era o destino natural da civilização alemã no século XX?

Para os negros está na cara do presidente que nunca antes na história desse país a esperança da igualdade será tão levada em conta. Para os pobres e os trabalhadores no Brasil é o símbolo que proclama: sim, podemos!

Para o mundo a vitória de Obama significa: Black is beautiful and also the hope of change!

Luis Favre

04/11/2008 - 11:11h Subserviências

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A jornalista Dora Kramer, na sua coluna de hoje no Estadão, acusa o prefeito eleito de Belo Horizonte, Márcio Lacerda, de “subserviência”. O motivo é a afirmação de Lacerda caracterizando a coligação de José Serra em São Paulo, de “centro-direita”.

Diferentemente do prefeito de São Paulo, que como todos sabem é um político com brilho e personalidade própria, que nunca manifestou qualquer “subserviência” para com seu “grande comandante”, o de BH e Eduardo Paes, de Rio, não podem manifestar uma opinião política tão manifestamente ultrajante.

Onde se viu tratar de “centro-direita” a aliança demo-tucana pro-Serra?

Políticos despojados até do rótulo de políticos, administradores que agem para serem bons administradores, defendendo os interesses de todos, acima dos partidos, serem etiquetados como… partidários e acima de “direita”? (centro ainda tudo bem, mas a etiqueta vem com “centro-direita”, aí é demais).

O curioso é que não é avançada nenhuma argumentação contra. Vejam o que Dora Kramer escreve:

“Marionete

Os prefeitos eleitos do Rio e Belo Horizonte andam precisando de um bom amigo que lhes informe a diferença entre a fidelidade e a subserviência desmedida.

Para se eleger, Eduardo Paes seguiu a cartilha do governador Sérgio Cabral; correu literalmente atrás de uma palavra amiga do presidente Lula, foi humilhado por Marisa Letícia, pegou na mão de quem antes jamais pegaria.

Depois de eleito, Márcio Lacerda já se fez duas vezes porta-voz de provocações ao governador de São Paulo, José Serra: comparou em tom pejorativo a tendência paulista de “centro-direita” à ação mineira de “centro esquerda” e acusou a existência de “apoio financeiro vindo de São Paulo” na campanha de seu adversário, Leonardo Quintão.

Compreende-se que ambos sejam gratos aos governadores de seus Estados, sem os quais nem sonhariam em chegar à frente das respectivas prefeituras.

Mas, considerando que provocações e bajulações são atos pessoais e intransferíveis, o prestador de serviços corre riscos. Um deles é perder o respeito do público; outro é contratar inutilmente inimigos para o dia de amanhã.”

Ainda bem, volto a repetir, que Kassab não corre esse risco. Ele até ganha mais respeito do público quando declara, como ontem, que “o clamor dos cidadãos pedia para Serra deixar a prefeitura” no meio do mandato e que o “grande comandante” fará o “trabalho de preenchimento de cargos será coordenado pelo governador Serra. Ele é o líder. Então caberá a ele indicar os candidatos às outras vagas, para governador, vice-governador, senador…Quando existe uma aliança, a aliança faz o papel dos diversos partidos.” (entrevista de Kassab ao Correio Braziliense).

Democracia nas decisões e manifestação clara de independência que não merecem qualquer porém da mídia, muito chocada com o rótulo estampado por Márcio Lacerda na testa do grande comandante de Kassab, o de “centro-direita”.

Luis Favre

03/11/2008 - 18:02h Mistificação

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Em entrevista publicada hoje no Correio Braziliense, Gilberto Kassab voltou a criticar a campanha de Marta Suplicy. Os argumentos da crítica merecem uma reflexão política e põe luz sobre um aspecto muito escamoteado no debate político hoje.

Segundo Kassab: “A adversária perdeu tempo em não fazer campanha. Dizer que eu sou da turma do Pitta não é fazer campanha e não sei porque usaram isso se tentaram em 2004 e já não havia dado certo. Porque essas coisas não funcionam quando não são verdade. Fazer campanha é comparar o que ela fez com o que eu fiz para ver quem fez mais e melhor. Comparar as propostas dela com as minhas, é isso que o eleitor quer saber. Na medida em que ela ficou preocupada com outras questões, ela deixou de fazer campanha. Foi uma campanha errática, totalmente equivocada.”

“Quando fui vereador, deputado estadual, federal, a imprensa me acompanhava. Não tinha muita visibilidade na opinião pública, mas as pessoas conversam entre si e sabem o que é verdade. O PT perdeu tempo com uma campanha equivocada. Eu sou eu. Minha única missão é ser um bom prefeito. Eu não consigo enxergar nada além de ser bom prefeito. Não consigo. Porque, se eu for um bom prefeito, tenho um rumo na minha vida. Se eu não for, tenho outro rumo. O bom prefeito é o caminho do respeito, da credibilidade, da estima que as pessoas vão ter por mim. Se eu for um mau prefeito, vai ser um caminho contrário a todos esses adjetivos. Se daqui a quatro anos estiver na mesma posição, e eu gosto da vida pública, gosto do que faço, evidentemente vou ter oportunidade de começar outras missões com o mesmo respeito.” (Correio Braziliense 3/11/2008).

Vou deixar de lado a apresentação inverídica feita por Kassab. Marta defendeu propostas e o balanço de sua gestão. Foi a primeira e a única candidata a apresentar uma plataforma de governo com metas e proposta orçamentária. Kassab atacou Marta e defendeu seu balanço. A situação geral favoreceu a reeleição dos atuais prefeitos.

Mas, na afirmação de Kassab tem mais. Perceba-se que para Kassab é um erro insistir na trajetória partidária e política do adversário. O adequado é comparar administração e o resumo: “ser um bom prefeito” é o supra-sumo do lugar comum.

Mas para que servem então os partidos, os programas, os militantes e as idéias?

Esta abordagem me relembrou um artigo escrito recentemente por Idelber Avilar (A Onda Verde e a substituição da política pela moral) abordando as eleições municipais de Rio de Janeiro e a campanha de Gabeira.

Para Idelber: “Os partidos políticos estão tão estraçalhados no Rio de Janeiro que foi possível que um candidato apresentasse como virtude ética o plano de costurar o segundo turno e depois governar sem conversar com os partidos (entendendo-se aqui suas lideranças, candidatos a prefeito no primeiro turno, vereadores eleitos etc.). A proposta não era inédita, mas a compreensão dela como superioridade moral o era. Gabeira se propôs a conversar “com o eleitorado” dos outros candidatos diretamente, sem mediação.”

O comum denominador de Kassab e Gabeira, além de serem ambos candidatos apoiados por José Serra, é de fornecer um discurso que procura expressar a vontade dos cidadãos por fora e acima dos partidos. Trata-se da “ética”, no caso uma ética da mentira, para cavalgar no sentimento reacionário da classe média, escamoteando do público que ele está sendo objeto de uma manipulação partidária.

Não se trata de invenção ou novidade brasileira, mas de uma longa tradição reacionária da direita e, na Europa, da direita mais extrema. Nos dias de hoje é o discurso e a postura típica de Berlusconi, por exemplo.

O sistema da democracia parlamentar, da representação dos cidadãos nas instituições do poder público, por médio de partidos políticos, comportou inúmeros “inconvenientes”. Um deles é a “lentidão” do trabalho legislativo com suas negociações e barganhas, as vezes com negociatas escusas. A política, os partidos e até o sistema de representação democrática aparecem, para certos setores sociais, como expressão de impotência e de divisão, onde deveria prevalecer o interesse comum e a união.

Os “escândalos” políticos e a procura da ética acima dos interesses sociais, servem de para-vento a ação política dos fariseus e encontram eco na aspiração pequeno-burguesa ao reconhecimento “individual”, oposto ao coletivo. Ele percebe sua situação como fruto legitimo de seu esforço e trabalho, não como produto dos interesses sociais em disputa na sociedade e seus desdobramentos em conquistas econômicas e sociais.

Este sentimento é que é explorado e manipulado por aqueles que procuram esconder seus interesses e seus objetivos políticos por trás do “mantra” reacionário e udenista que a mídia estimula como expressão do progresso.

O escândalo chamado de “mensalão” foi instrumentalizado para atiçar esse movimento político nas classes médias, procurando encaminhá-lo contra o governo Lula, além do próprio PT. Um esquema irregular de financiamento partidário utilizado por todos os partidos políticos no Brasil e no mundo, no vácuo de uma legislação que não assume plenamente a função dos partidos como decorrentes do orçamento nacional, foi utilizado para tentar questionar a validade da existência de um único partido: o PT. De golpe, os outros como que ganharam uma certa “virgindade”, à condição de ficarem fantasiados e pouco visíveis.

O passo atual é erigir em “novidade” velhas raposas e pseudos vestais mídiaticos e travestir-los de renovação da política acima dos partidarismos, pois os partidos “todos se valem”. Eis a “moda” que traduz o sentimento de certos setores das classes médias e que procuram nos apresentar como avanço. Ela será o porta-estandarte do centro-direita na sua tentativa de reconquistar o governo em 2010.

25/10/2008 - 17:59h O racismo e a crise na Europa

La prima manifestazione nazionale del Pd a Roma (Ansa)
manifestantes italianos contra o racismo e contra Berlusconi

“Segundo uma nova pesquisa do instituto americano Pew Research Centre, a rejeição a judeus e muçulmanos cresceu em quase todos os países da Europa, exceto Reino Unido. Na Espanha, campeão de anti-semitismo, 46% das pessoas admitem ter opinião negativa dos judeus e 52% dos muçulmanos, o dobro de 2005.
Outros países também apresentaram altas, inclusive na Alemanha, onde a rejeição aos muçulmanos chegou a 50%, e aos judeus a 25%.
Na Áustria opiniões como esses fortaleceram a extrema direita, que ganhou 29% dos votos nas eleições gerais de setembro. O significado político do resultado foi ofuscado pela morte de seu líder mais conhecido, Jörg Haider. Mas a mensagem das urnas foi de que um terço dos austríacos quer dar um aperto nos imigrantes.
Em muitos sentidos, tais sentimentos já moldam o discurso e a ação dos políticos europeus. Sob a Presidência da França, a União Européia aprovou na semana passada um pacto que endurece a política migratória do bloco.” (Fonte Folha de São Paulo)

24/10/2008 - 10:19h “Pragmatismo despolitiza as campanhas”

 Heloisa Magalhães, do Rio – VALOR

 Renato Lessa: “O PT tem teto em SPaulo.
Só ganhou com o apoio de Covas”
. Nelson Perez/Valor


“A política está sendo varrida . Existe uma cultura há anos no Brasil repetindo a idéia de que o bom candidato é aquele que responde a problemas práticos. Esquerda e direita acabaram. O eleitor pensa nas questões práticas, escola do filho, transporte e esgoto”, diz o cientista político Renato Lessa.

Ele critica o cenário que levou ao que atribuiu a um certo “enfado” com relação aos políticos e critica a “tendência crescente do eleitor pragmático, aquele que vota com foco na administração o que, na sua avaliação, vem se repetido à exaustão em todos os níveis do Executivo.

O professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj) diz que neste universo do voto racional, “outra coisa terrível é a idéia de que esse eleitor vota no candidato que é amigo do prefeito, governador e do presidente”. diz. E frisa que há tendência de um corte deste processo com a provável vitória de Gilberto Kassab, em São Paulo, e a disputa acirrada no Rio e Belo Horizonte, mostrando o questionamento do eleitor à força do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dos governadores Sérgio Cabral e Aécio Neves

Em conversa com o Valor, o professor falou do perfil do eleitor que cresceu mas pouco se politizou depois do golpe de 1964.

Abaixo os principais trechos da entrevista:

Valor: As prefeituras hoje com mais recursos financeiros permitindo maiores realizações estão influenciando a reeleição? O eleitor está cada vez mais deixando a política de lado?

Renato Lessa: Primeiro, acho que se trata de uma hipótese com tinturas mitológicas, que por todo o Brasil os prefeitos que tiveram mais dinheiro foram bem avaliados e o eleitor votou neles. Não acredito que as coisas funcionam desse jeito. Política é mais complicada. E também não acredito que exista um eleitor médio. Tenho colegas que acreditam nessas ficções estatísticas. Eu acredito em eleitores reais. E os casos são diferentes. A mesma motivação que podem levar os eleitores de Salvador (João Henrique, PMDB) a reeleger um prefeito não são necessariamente as mesmas motivações que levam os paulistas a reeleger o (Gilberto) Kassab (DEM), embora em ambos os casos você tenha um prefeito bem avaliado. Há fatores locais que não podem deixar de ser levados em conta porque as eleições não são coordenadas nacionalmente.

Valor: Mas o senhor concorda que os eleitores estão partindo para o voto mais pragmático?

Lessa: A hipótese do eleitor pragmático está posta. Merece algum tipo de atenção. Pode também estar decantando na cabeça do eleitor a maneira correta de votar diante de um certo enfado com relação a questões de política. Há décadas vem sendo repetido que política é uma coisa ruim, horrorosa, que só interessa a gente corrupta e que tem relações escusas. Então política é tudo aquilo de que devemos nos afastar e a gestão é tudo aquilo que devemos apreciar.

Valor: Mas ao mesmo tempo o número de candidatos a cada eleição só cresce…

Lessa: No Brasil, dois em cada três brasileiros votam. É um eleitorado imenso. São 138 milhões de eleitores para 183 milhões de habitantes. Na última, foram 350 mil candidatos a vereador, 17 mil a 18 mil para prefeito. O tamanho disso não é brincadeira de dois em dois anos temos uma multidão incalculável que se mobiliza e vai às urnas. Esse eleitorado teve dois piques de crescimento na fabricação de um eleitor mas despolitizado. Depois do golpe de 64, foram dois momentos de expansão forte. O eleitorado disparou mais de 180%. É uma coisa extraordinária que é um caso de crescimento eleitoral sem política. Foi a única ditadura do mundo com aumento exponencial do eleitorado.

Valor: Por que cresceu tanto?

Lessa: A população cresceu mas entre as razões estão o aumento da alfabetização e da urbanização. E aumentou nesse eleitorado o número imenso de eleitores desqualificados em termos educacionais, com os analfabetos funcionais que entraram nisso. Outro espasmo se deu depois da Nova República.

Valor: E a redemocratização de 1988?

Lessa: Se pegarmos a Carta de 1998 duas grandes novidades institucionais vamos ver uma mudança de papeis. Uma é do Ministério Público e do Judiciário. O MP deixou de de ter as funções tradicionais do promotor, acusador e passou a defensor da cidadania. E a partir daí toda uma difusão de uma ideologia, uma mentalidade, um imaginário de que os brasileiros são portadores de direitos.

Valor: Foi a busca dos cidadãos em fazer prevalecer seus direitos que diferenciou as instituições?

Lessa: Os direitos dos brasileiros não são expressos através dos partidos. E não é apenas porque o Legislativo está asfixiado e insulado pelas medidas provisórias do Executivo. O eleitor hoje vai buscar os direitos no Judiciário. O Congresso hoje é um conjunto de pessoas eleitas que ficam à disposição do presidente para fazer maiorias, para compor maiorias de governo, muito distante da população aqui em baixo. E a população está aprendendo, cada vez, a mobilizar o Judiciário e o sistema de Justiça para defender suas causas.

Valor: O senhor fala em um eleitor focado em questões práticas. A candidatura Gabeira, no Rio, se enquadra neste perfil?

Lessa: O Gabeira nessa eleição no Rio está tentando animar a questão da grande política. O Rio é uma cidade global, uma das maiores metrópoles do mundo, não pode ser pensada como um problema local tem a ver com o pais e o mundo. A candidatura dele é teste interessante para ver se há espaço na cidade do Rio para quem se apresenta de uma maneira mais politizada no sentido mais amplo. Diz que vai pensar a cidade, as milícias ilegais, o meio ambiente. Contrapõe o estilo completamente asséptico sem política, do gestor, do prefeitinho da Barra (função que foi ocupada pelo opositor a Gaberia, Eduardo Paes, do PMDB, no início da trajetória política) contra a idéia que uma cidade dessa complexidade tem que ter estadista.

Valor: Em São Paulo não está sendo posto em questão a capacidade de Lula tranferir voto?

Lessa: O que está acontecendo em São Paulo é o que sempre aconteceu. Não está acontecendo nada novo. O PT em São Paulo tem o que a Marta (Suplicy) tem. Não é que Kassab é o administrador bem sucedido e admirado. É que o PT tem teto eleitoral. A Marta só ganhou quando disputou com o (Paulo) Maluf. Só ganhou quando Mario Covas desembarcou do consultório médico, quando estava proibido de sair, e foi fazer campanha para ela, colocou o PSDB ao seu lado. Marta com Covas ganhou do Maluf, mas sozinha não ganhou do (José) Serra e não ganha do Kassab. É questão do tamanho eleitoral que o PT tem em São Paulo. É imenso mas é menor do que a metade. Pode até existir transferência de voto em tese, mas em São Paulo o que está acontecendo é a repetição de um padrão eleitoral que está consolidado.

Valor: E para presidente da República, transfere?

Lessa: Depende muito, é totalmente circunstancial. Depende de quem é a pessoa e de quem é o inimigo. Não há uma teoria geral. Mario Covas transferiu para Marta porque o inimigo era o Maluf. (Leonel Brizola) transferiu voto no Rio para Lula quando o inimigo era (Fernando) Collor. Se o candidato que disputasse contra Lula fosse Mario Covas ou Ulysses Guimarães dava para transferir aquela quantidade toda de votos? Não sei, a ver. É muito circunstancial.

Valor: O que sai dessa eleição agora já permite projetar a tendência do quadro partidário para 2010?

Lessa: Tendência para 2010 é complicado mas força é algo a considerar. É força partidária para disputar eleições que virão. Três grandes partidos PT, PSDB e PMDB. Pegando a distribuição de votos nas cidades com mais de 200 mil votos no primeiro turno esses três partidos são os campeões. Mais abaixo vem o DEM. Nas 80 cidades maiores, o DEM teve desempenho quase de pequeno partido, ficou lá em baixo. Perdeu as lideranças e o palanque. O partido foi comido no interior pelo PT que entrou nos grotões e o PSDB se consolida como o principal partido de oposição. Mesmo com a vitória do Kassab, em São Paulo, ninguém vai acreditar que será uma vitória do DEM. Os três maiores partidos com escala nacional são o PMDB, PSDB e PT tem base e densidade eleitoral. O Lula não sai enfraquecido. Há uma teoria que com uma derrota da Marta elimina a Dilma (Rousseff). Eu não entendi essa dialética.

23/10/2008 - 10:15h O que está em jogo nas eleições municipais

Expansão do transporte público e CEU em toda a rede municipal: instrumentos de integração social

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O Grupo Abril organizou uma sabatina com Marta sobre educação. Um debate de extrema importância pois a educação é um elemento central para o progresso social e a redução das desigualdade.

Segundo o jornal O Globo um diálogo significativo aconteceu durante o evento entre Roberto Civita, presidente do Grupo Abril, e Marta.

O empresário queria saber porque Marta fazia propostas apenas para as classes menos favorecidas, deixando de lado a maioria da população de São Paulo.

- Para você ficar vivo, respondeu Marta.

Marta não se estendeu e Civita não fez mais perguntas, diz O Globo que acrescenta, “mas a ex-ministra do Turismo sugeriu que, sem políticas sociais, os pobres poderiam fazer uma revolução:

- Você sabe do que eu estou falando. Não ficariam nem as paredes”, completou Marta.

Este diálogo é um resumo concentrado do que está em jogo nestas eleições municipais e também das eleições de 2010.

Basta ler os dois post precedentes aqui no blog para entender o abismo político que separa as alternativas presentes na disputa municipal de domingo.

São Paulo é uma das cidades mais desiguais do mundo, segundo relatório da ONU (Ver País tem as cidades mais desiguais do mundo). Violência e criminalidade são os resultados palpáveis dessa realidade. A redução da desigualdade tem efeito direto na redução da violência, mas tem efeito direto também na economia e na saúde da população.

Educação e formação profissional, integrando ensino com cultura e lazer, contribui conjuntamente para reduzir a criminalidade e para melhorar a produtividade e a expansão das empresas e do mercado. Transporte público de qualidade, economiza tempo, reduz poluição e reverte em melhor qualidade de vida e maior produtividade para a economia. Só para ficar em dois exemplos.

Significativamente, na sabatina do Grupo Abril, no dia anterior com a participação de Kassab, o candidato do PFL declarou que os CEU não serão sua prioridade. Como constatou o jornal AGORA SP (ver Kassab vai abandonar o CEU), Kassab vai acabar com os CEU e nenhum a mais será construído.

Para Marta a construção dos CEU’s e sua expansão, construindo mais 20, além de concluir os que não foram feitos por Kassab, visa a criar a Rede CEU municipal permitindo que todas as crianças da rede pública municipal tenham acesso, combinando assim ensino, cultura e esporte com integração à comunidade.

Os demo-tucanos sempre foram contra o projeto do CEU. Fizeram alguns pressionados pela população e como cálculo eleitoral, para manipular o eleitorado. Convictos que já conseguiram este resultado, assumem agora sem escrúpulos seu verdadeiro programa de regressão social.

Manipulação por parte da direita e ilusões na propaganda do liberais por parte das classes trabalhadoras não são novidade, nem aqui, nem no resto do mundo.

As eleições municipais no país mostram que São Paulo não é o Brasil, mas para a direita será a ponta de lança para tentar retomar o poder.

As classes menos favorecidas que se cuidem, estão avisadas.

Luis Favre

14/10/2008 - 13:59h A mídia amanheceu virgem

COMERCIAL 30”
QUEM É O KASSAB?

“- Você sabe mesmo quem é o Kassab?
Sabe de onde ele veio?
Qual a história do seu partido?
De quem foi secretário e braço direito?
De quem esteve sempre ao lado, desde que começou na política?
Se já teve problemas com a justiça?
Se melhorou de vida depois da política?
É casado? Tem filhos?
Já que ele não informa nada, não é mais prudente se informar melhor sobre ele?

Pra decidir certo,
é preciso conhecer bem.”

Este comercial provocou a maior campanha da mídia brasileira em favor do respeito a vida privada dos políticos e a maior campanha em favor da tolerância e contra o preconceito.

Nunca antes na história do Brasil a mídia reagiu com tanta ênfase para evitar que um figura pública, no caso Kassab, tivesse sua vida pessoal e sua opção sexual, respeitada.

A mídia fez bem. Mas, porque ela só faz bem quando se trata de políticos que ela defende?

Vocês imaginaram se essa mesma reação tivesse se manifestado quando os ataques violentos e diretos a vida privada, a família, aos filhos e aos irmãos, assim como contra ele mesmo, foram lançados nessa mesma mídia, contra Lula? Como o ar da política estaria mais puro.

Vocês imaginam qual seria a “rejeição” da Marta se a mídia, com o mesmo vigor e a mesma energia, tivesse defendido o respeito a nossa vida privada?

Mas, no nosso caso, foi a mídia que durante 8 anos invadiu permanentemente nossa vida privada e nossas opções pessoais.

Será que a mídia está arrependida e procura corrigir a injustiça feita com a Marta, evitando uma injustiça com Kassab?

Não. Toda a experiência do comportamento da mídia nos últimos anos mostra que as únicas vidas privadas que ela sempre “respeitou”, que sempre protegeu e que nunca explorou são a vida pessoal e privada dos representantes da direita.

A vida pessoal de Lula foi massacrada pela mídia, a de FHC não. A da Marta foi jogada as feras do preconceito, do machismo e da xenofobia, a dos “coronéis” do nordeste não. Ilustres personagens da tucanagem tem suas vidas pessoais resguardadas, enquanto outros tem as suas permanentemente expostas para explorar o ódio.

Na minha opinião o motivo pela qual a mídia decidiu falar da opção sexual, em relação ao comercial, foi para evitar que a trajetória de Kassab no que ela importa ao povo de São Paulo, fique oculta até o segundo turno da eleição.

Eles querem evitar que o povo de São Paulo se pergunte: quem é Kassab? o que ele fez por São Paulo? quais são suas idéias, seu partido, sua história?

O barulho feito sobre a vida pessoal visa a evitar que este questionamento prossiga. Por isso eles ficam repetindo uma única pergunta: no que, que ele seja casado ou tenha filhos muda o político? Para responder: “Olha a baixaria”.

E todas as outras perguntas? interferem? o povo de São Paulo deveria prestar atenção? Ou só deveria se ater ao que a propaganda diz que o homem fez? Quem ele é, não conta?

O fato da Marta ser uma pessoa transparente, não importa? É uma qualidade, quando comparada a dissimulação, ou é um defeito?

Ou essa transparência só serve para poder, sem escrúpulos, invadir em permanência sua vida privada, atacar sua imagem e a da sua família?

Eu teria preferido o comercial assim, para evitar a manipulação que a mídia tem feito.
“- Você sabe mesmo quem é o Kassab?
Sabe de onde ele veio?
Qual a história do seu partido?
De quem foi secretário e braço direito?
De quem esteve sempre ao lado, desde que começou na política?
Se já teve problemas com a justiça?
Se melhorou de vida depois da política?

Já que ele não informa nada, não é mais prudente se informar melhor sobre ele?”

Eu sempre me insurgi contra a campanha que os jornais Folha e Estadão fizeram e fazem da vida familiar, pessoal e privada de Marta. Por isso também sou contra da mídia aproveitar a pergunta sobre se Kassab é casado, tem filhos, para propagar insinuações sobre a vida privada de Kassab. Como sempre, para a mídia, o “gancho” que ela utiliza como escudo para expor a vida privada, é o erro ou a ma fé de outros. Mas a campanha é ela que faz, com a hipocrisia que a caracteriza e sua identificação política notória.

Luis Favre

Leia a seguir os argumentos que o jornal O Globo, em editorial, apresentou para tratar destas questões de vida pública e vida privada, em 1989, reproduzido pelo Blog de Azenha

O DIREITO DE SABER

 

O povo brasileiro não está acostumado a ver desnudar-se a seus olhos a vida particular dos homens públicos.

O povo brasileiro também não está acostumado à prática da Democracia.

A prática da Democracia recomenda que o povo saiba tudo o que for possível saber sobre seus homens públicos, para poder julgar melhor na hora de elegê-los.

Nos Estados Unidos, por exemplo, com freqüência homens públicos vêem truncada a carreira pela revelação de fatos desabonadores do seu comportamento privado. Não raro, a simples divulgação de tais fatos os dissuade de continuarem a pleitear a preferência do eleitor. Um nebuloso acidente de carro em que morreu uma secretária que o acompanhava barrou, provavelmente para sempre, a brilhante caminhada do senador Ted Kennedy para a Casa Branca – para lembrar apenas o mais escandaloso desses tropeços. Coisa parecida aconteceu com o senador Gary Hart; por divulgar-se uma relação que comprometia o seu casamento, ele nem sequer pôde apresentar-se à Convenção do Partido Democrata, na última eleição americana.

Na presente campanha, ninguém negará que, em todo o seu desenrolar, houve uma obsessiva preocupação dos responsáveis pelo programa do horário eleitoral gratuito da Frente Brasil Popular de esquadrinhar o passado do candidato Fernando Collor de Mello. Não apenas a sua atividade anterior em cargos públicos, mas sua infância e adolescência, suas relações de família, seus casamentos, suas amizades. Presume-se que tenham divulgado tudo de que dispunham a respeito.

O adversário vinha agindo de modo diferente. A estratégia dos propagandistas de Collor não incluía a intromissão no passado de Luís Inácio Lula da Silva nem como líder sindical nem muito menos remontou aos seus tempos de operário-torneiro, tão insistentemente lembrados pelo candidato do PT.

Até que anteontem à noite surgiu nas telas, no horário do PRN, a figura da ex-mulher de Lula, Miriam Cordeiro, acusando o candidato de ter tentado induzi-la a abortar uma  criança filha de ambos, para isso oferecendo-lhe dinheiro, e também de alimentar preconceitos contra a raça negra.

A primeira reação do público terá sido de choque, a segunda é a discussão do direito de trazer-se a público o que, quase por toda parte, se classificava imediatamente de ‘baixaria’.

É chocante mesmo, lamentável que o confronto desça a esse nível, mas nem por isso deve-se deixar de perguntar se é verdadeiro. E se for verdadeiro, cabe indagar se o eleitor deve ou não receber um testemunho que concorre para aprofundar o seu conhecimento sobre aquela personalidade que lhe pede o voto para eleger-se Presidente da República, o mais alto posto da Nação.

É de esperar que o debate desta noite não se macule por excessos no confronto democrático, e que se concentre na discussão dos problemas nacionais.

Mas a acusação está no ar. Houve distorção? Ou aconteceu tal como narra a personagem apresentada no vídeo? Não cabe submeter o caso a inquérito. A sensibilidade do eleitor poderá ajudá-lo a discernir onde está a verdade – e se ela deve influenciar-lhe o voto, domingo próximo, quando estiver consultando apenas a sua consciência.

EDITORIAL PUBLICADO EM O GLOBO NO DIA 14 DE DEZEMBRO DE 1989, QUINTA-FEIRA, DATA EM QUE LULA E COLLOR TRAVARAM O DEBATE FINAL ANTES DO SEGUNDO TURNO, EM 17/12/89

06/09/2008 - 20:07h Municipais: uma onda em favor do governo federal

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A nova rodada de pesquisas Datafolha, assim como as últimas do IBOPE e de outros institutos, permitem estabelecer um panorama geral da situação eleitoral no país, a um mês do escrutino municipal.

Virou lugar comum destacar que às eleições municipais respondem a uma lógica local. Mas, sem perder essa característica, o voto em 2008 reflete com maior peso esse dado local, pelo fato que a oposição desertou completamente do ataque ao governo Lula, abandonando nas suas campanhas qualquer conteúdo oposicionista.

Ao mesmo tempo que a oposição foge do confronto político federal, o que ela não fez em 2004, a avaliação positiva do governo Lula tem favorecido, sem lugar a dúvidas, os candidatos identificados com a base de apoio do presidente. Não é por outro motivo que Aécio Neves, amparado no acordo com o prefeito de BH, Fernando Pimentel, propulsa Marcio Lacerda ao topo das preferências eleitorais na capital mineira e procura se projetar no plano nacional como eventual presidenciavel surfando nas suas “boas relações” com Lula.

Interessante também é a evolução do eleitorado da capital paulista. Os tucanos foram vitoriosos aqui, nas eleições municipais de 2004, no primeiro e no segundo turno. Ganharam as eleições estaduais no primeiro turno de 2006 e foram vitóriosos no primeiro e no segundo turno das presidenciais com Alckmin. A única vez em que o PT venceu contra um candidato tucano foi na eleição presidencial de 2002 quando Marta era prefeita e Lula derrotou Serra no primiero e no segundo turno.

Agora, até quase finais de julho o candidato do PSDB, Geraldo Alckmin, aparecia empatado com Marta no primeiro turno e vitorioso nas simulações do segundo turno. A situação mudou depois e ele aparece hoje com apenas a metade dos votos de Marta no primeiro turno e empatado no segundo. O favoritismo tucano, amparado nas máquinas Estadual e municipal, na identificação de uma boa parte da elite empresarial com o PSDB, no apoio dos principais veículos de informação e no conservadorismo de um setor das classes médias, está diminuindo.

Hoje as relações das forças eleitorais na cidade de São Paulo estão mais equilibradas e mesmo contando com as mesmas bases de apoio, o favoritismo tucano já não é tão evidente. É bom lembrar que nas únicas duas vezes em que o PT ganhou eleições municipais em São Paulo, primeiro com Erundina e em 2000, com Marta, o confronto decisivo não foi com os tucanos. No primeiro caso, quando não tinha dois turnos, um terço dos votos foram suficientes para Erundina vencer Maluf (hoje PP) e Leiva (PMDB). No caso de Marta em 2000, sua vitória contra Maluf contou com o apoio de Mário Covas e do PSDB (mesmo assim Maluf obteve 42% no segundo turno).

Voltando ao plano nacional, com exceção de Curitiba, em nenhuma capital os tucanos estão relativamente tranqüilos. Em alguns casos até se apresentam respaldando o presidente Lula, como em Salvador. Em outros enfrentam divisão, como na manifestação do vice-governador tucano de Espírito Santo que apóia publicamente o candidato do PT João Coser em Vitória.

Em 2000 uma “onda vermelha” venceu em várias capitais antecipando e propulsando o movimento que levaria Lula à presidência em 2002. O PSDB e os partidos aliados ao governo FHC mantinham a maioria nas capitais, mas o impacto político da “onda vermelha” foi indiscutivel. Politicamente as eleições municipais de 2000 foram uma derrota dos tucanos e uma vitória importante do PT e da esquerda.

Em 2004 os resultados, com as derrotas significativas do PT em São Paulo e Porto Alegre, significaram um golpe político sério, porém sem mudar substancialmente as relações de forças eleitorais. Mas permitiram a oposição se sentir com asas para tentar desestabilizar o governo federal, o que fizeram em 2005 e até a reeleição de Lula em 2006.

É bom não esquecer também que mesmo com a vitória esmagadora de Lula no país em 2006, o PSDB conquistou no primeiro turno o governo estadual com José Serra, vitorioso no Estado e na cidade. Além de ganhar o governo estadual em Rio Grande do Sul, Alagoas, Minas Gerais etc.

A derrota dos tucanos nas eleições presidenciais em 2006 e as vitórias obtidas na luta contra a desigualdade social, na melhora da renda, do emprego, das oportunidades de estudos e na expansão da economia, levaram ao contexto favorável atual.

Por tudo isso, paradoxalmente, é em São Paulo que a disputa será mais difícil e onde vai se concentrar o fogo dos que procuram preservar o tucanato como força hegemonica no Estado e na cidade.

Aqui a eleição será decidida voto a voto e os que torcendo pela vitória de Marta, esperam que ela se faça sem o engajamento militante de todos os torcedores, estão imbuídos de ilusões e deveriam começar a se mexer e a participar ativamente na campanha.

Luis Favre

05/09/2008 - 10:41h O mapa das eleições municipais em São Paulo

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PSDB e PT brigam por 10% de indecisos

Paulo Totti – VALOR

Não é esta a primeira vez que Marta Suplicy (PT) e Geraldo Alckmin (PSDB) são adversários na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Isso já aconteceu em 2000, quando Marta teve 34,4% dos votos e passou para o segundo turno. O desempenho de Alckmin foi tão discreto que nem seus próprios eleitores (17,26%) recordarão que o então vice-governador de Mário Covas chegou em terceiro. Quem logrou classificar-se para uma derrota no turno final foi outro reincidente na eleição de agora, Paulo Maluf (PP, ex-PPB), com 17,4% – 7,5 mil votos a mais que Alckmin.

Marta Teresa Suplicy – os sobrenomes Matarazzo e Smith Vasconcelos não constam do registro no TRE – teve sua maior votação no primeiro turno, 41,94%, na 375ª Zona Eleitoral – São Mateus, no extremo leste da cidade, região que o instituto de pesquisas Datafolha considera Leste 2. Marta foi a mais votada em 2000 também nos bairros de Sapopemba (41,21%) na Leste 1, Itaim Paulista (40,02%) Leste 2 e Grajaú (39,66%), Sul 2. Paulo Salim Maluf – herdeiro dos votos de Jânio Quadros e também de Adhemar de Barros, curiosa aliança da vassoura com a gazua ainda não explicada pela ciência política – conseguiu sua maior votação, 23,04%, na 260ª Zona Eleitoral – Ipiranga e Sacomã, Sul 1. Apesar de não ter sido o primeiro, Maluf foi igualmente bem votado na Vila Maria (20,47%, Norte 1) e Tatuapé (20,23%, Leste 1).

Geraldo José Rodrigues Alckmin Filho, na mesma eleição, teve sua maior votação, 36,08% na 5ª Zona Eleitoral – Jardim Paulista, Cerqueira César, Vila Olímpia (Oeste). Outras boas votações de Alckmin: 33,32% em Pinheiros, Alto de Pinheiros, Jardim América, Vila Ida, Vila Madalena (Oeste); 27,37% em Perdizes (Oeste) e 27,15% na Vila Mariana (Sul 1).

Oito anos depois, pouco mudou. Marta e o PT continuam imbatíveis a Leste e ao Sul. Alckmin e o PSDB são os campeões de votos na região Oeste. Maluf perdeu poder, prestígio e votos. Seus eleitores migraram visivelmente para o PSDB e o PFL, hoje DEM, mas, nesta undécima participação sua em eleições diretas, ainda tem influência – não mais que 10% dos votos – numa faixa que corta verticalmente o centro do mapa de São Paulo, juntando bairros da região Norte, Vila Maria, Santana, Tucuruvi, com a do Sul próximo – Ipiranga – e da Leste 1 – Penha, Tatuapé -, região que, por ser um reduto de Jânio Quadros em suas disputas com o então MDB na década de 80, levou o politicólogo Antônio Flávio Pierucci a publicar respeitada análise do quadro eleitoral com o título “A direita mora do outro lado da cidade”.

O outro lado, obviamente, era o que ficava logo ali, depois da Sé, a caminho das zonas Norte e Leste. A esquerda era o MDB, de Orestes Quércia e ainda de Fernando Henrique Cardoso, e, na época, freqüentava um triângulo com vértices nas Universidades (USP, PUC, Mackenzie). O MDB, depois PMDB, ainda sustentou por anos a disputa pelo voto na periferia, mas, nessas regiões, perdeu algum terreno para o PSDB e maciçamente para o PT. Hoje, o PSDB consolidou o domínio em bairros como Pinheiros, Perdizes, Jardins. Não é que a direita se tenha mudado para este lado da cidade, dirão petistas que ainda se consideram esquerdistas. Este lado da cidade é que marchou, pelo menos, para a centro-direita. Dados oficiais mostram que José Serra, em 2004 para prefeito, alcançou nessa espécie de Vilaboim ampliada mais de 55% dos votos no primeiro turno. E se espalhou, com 45% a 55% dos votos, por Norte 1, Leste 1 e Sul 1. Números semelhantes, mesmo derrotado, o PT registrou em 2004 numa espessa franja de eleitores que ocupa toda região Sul 2, a densamente povoada região Leste 2 e a porção Perus/Anhanguera da região Norte 2 (em 1996, eleição de Celso Pitta, o PT salpicava de vermelho apenas dois subdistritos da Leste 2).

A disputa passou a ser, figurativamente, entre a Vilaboim e a Capela do Socorro. Vilaboim é a agradável pracinha de Higienópolis, em cuja vizinhança moram tucanos históricos como Fernando Henrique Cardoso e Paulo Renato Souza, ex-ministro da Educação e hoje deputado federal. O eleitor típico do PSDB mora numa “Vilaboim ampliada”, que pode ser Higienópolis e também Moema ou Alto Pinheiros. Ganha mais de 10 salários mínimos por mês e tem educação superior completa. Já o eleitor típico, que há três eleições vota no PT e parte agora para sua quarta manifestação de fidelidade, tem menos de seis anos de educação formal, ganha dois salários mínimos mensais e mora numa “Capela do Socorro ampliada”, que pode ser um conjunto habitacional da Cidade Dutra, ou uma casa-geminada-de-banheiro-único-e-laje-aguardando-ampliação-para-segundo-piso no Jardim Irene, região Sul 2. Aqui Fernando Henrique e Paulo Renato são pouco conhecidos e nada influentes. A Zona Sul se orgulha de Cafu, o lateral direito da seleção pentacampeã de futebol, nascido no Jardim Irene, mas a influência política é da família Tatto. A família, com experiência de atuação entre os sem-terra no interior do Rio Grande do Sul, instalou-se na região da Capela do Socorro e ligou-se à igreja e ao PT de São Paulo. Hoje nada acontece na política da Zona Sul ou na vida interna do PT da capital sem a concordância do deputado federal Jilmar Tatto, do deputado estadual Ênio Tatto e do vereador Arselino Tatto.

Nesta campanha, Marta Suplicy chegou à Cidade Dutra e à Vila São José, na 280ª Zona Eleitoral, para uma protocolar caminhada pelas ruas de comércio, abraços e apertos de mão de moradores que, somados os dois eventos, não durariam mais de 45 minutos. Os Tatto haviam mobilizado uma multidão para recebê-la, no meio da tarde de uma quarta-feira, dia de trabalho. Na Vila São José, Marta teve de transformar a visita em comício, subiu no carro de som e discursou ao lado dos Tatto e – cortesia da família – outros candidatos a vereador do PT e até do PCdoB e do PSB. Nas eleições municipais perdidas de 2004 e nas presidenciais vencidas de 2006 (Em São Paulo as presidencias não foram vencidas pelo PT – NDLF), o PT teve mais de 60% na Vila São José. “Vamos ter mais de 80 agora, e levar Marta à vitória já no primeiro turno”, conclamou do alto do carro de som – o seu carro de som -o vereador Tatto. Na pracinha triangular José Boerner Roschel da Vila São José, mais de mil pessoas aplaudiam. Duzentas delas traziam bandeiras com o nome e o 13.696 de Arselino Tatto, candidato à reeleição.

A campanha de Geraldo Alckmin tem algumas deficiências marcantes. A principal delas é a falta de doadores e, até agora, a ausência do governador Serra nos palanques e na TV – a primeira deficiência, comenta-se, seria uma provável conseqüência da segunda. Mas falta também uma família Tatto para arrebanhar “militantes” – pagos evidentemente, pois desde a eleição da prefeita Luiza Erundina, em 1988, mesmo no PT, não há mais quem tabalhe de graça em eleição -, embandeirar as esquinas e criar um clima de “já ganhou”, verdadeiro ou artificial.

De eleição em eleição, o PT cresce a partir da periferia. Em 1996, só tinha mais de 45% dos votos em São Mateus

Em Tremembé, esquina das avenidas Coronel Sezefredo Fagundes e Professora Maria Amália, numa tarde em que o bairro receberia a visita de Alckmin, apareceu um velho e grande ônibus com o letreiro “Família Cerciari” e faixas de “Paulo Cerciari, Vereador, 45.111″, estacionou perto do Sobradinho dos Drinks e ficou ali, parado, sem fazer qualquer barulho. A família Cerciari foi embora quando veio a notícia de que Alckmin desistira da visita porque adeptos de Maluf, com quatro kombis, uma bateria de oito (bons) ritmistas e dezenas de bandeiras “São Paulo tem pressa, Maluf, 11″ já ocupavam as calçadas na confluência das duas avenidas. Permaneceu no local, por mais alguns minutos a torcida organizada “Aníbal, 45.601″, do ex-subprefeito de Jaçanã, Aníbal de Freitas Filho. São as 60 moças de Aníbal com suas bandeiras amarelas, transportadas em seis camionetas, a presença mais constante nas aparições de Alckmin no Centro e na região Norte da cidade (no acompanhamento de Alckmin, mais fiéis e interessados que os tucanos parecem ser os candidatos a vereador do PTB, como Robson Tuma, “homem de respeito, 14.040″, com suas nove reluzentes kombis). As moças de Aníbal recebem ajuda de custo para alimentação, transporte e um salário mínimo para acompanhar a agenda do candidato a vereador o mês inteiro (esta é a remuneração padrão da mão-de-obra menos qualificada da campanha de rua). Como Alckmin não apareceu para os ambicionados eleitores – apenas passou de carro pela esquina – as garotas do Aníbal também foram embora, rebolando na cadência do samba da bandinha que esperava a chegada de Maluf. Uma das coordenadoras de Aníbal se aproximou de outro coordenador e gritou-lhe no ouvido: “Ânimo, ânimo”. E ria. Dava a impressão de que o fazia literalmente entre aspas, repetindo recomendação de algum coordenador de coordenadores.

Dois dias depois, Alckmin acordou cedo e às 6h30 já estava na esquina da rua Monsenhor Andrade e Henrique Dias, no bairro do Brás, à entrada do maior camelódromo do Brasil, o Shopping Popular da Madrugada. É um terreno da antiga Rede Ferroviária Federal alugada a uma empresa, a GSA, que administra o funcionamento entre duas da manhã e seis da tarde de um aglomerado de 4,7 mil bancas dedicadas à venda de produtos populares – praticamente tudo, à exceção visível de bebidas alcoólicas e eletroeletrônicos. Cada banca mede dois metros por um e é atendida, no mínimo, por duas pessoas: 9,4 mil eleitores diretos, fora as famílias. Atrás do shopping há um estacionamento que recebe em média 300 ônibus por noite – 400 na época de Natal. Existem até alojamentos no shopping para hospedar os motoristas de ônibus que antes iam para o Paraguai, mas desde 2005 preferem viajar até São Paulo transportando milhares de sacoleiros de todo o país.

Alckmin chegou sem paletó, protegido do frio da madrugada por uma camiseta por baixo da camisa social, e foi colhendo informações dos administradores do shopping. Seus acompanhantes eram poucos e também poucos os candidatos a vereador e cabos eleitorais. Somados, chegavam a 12. No labirinto de bancas, uma colada a outra, com um corredor exíguo, mais estreito que os caminhos do Mercado Modelo de Salvador, luzes todas acesas pois não se vê o sol nascer sobre o teto de plástico das tendas, Alckmin vai cumprimentando vendedores e fregueses – estes, em sua quase totalidade eleitores de outras cidades e Estados – e fazendo perguntas. Com seu característico apertar do lábio inferior com a arcada dentária superior, o candidato quer saber tudo, o valor do aluguel (R$ 220 o metro quadrado), o horário de funcionamento, onde moram. E despede-se: “Parabéns, você é uma guerreira”. “Até mais, bons negócios”. Mas o clima não é exatamente o de campanha eleitoral, está tudo muito certinho, comportado, até que um dos acompanhantes de Alckmin, de óculos, bigodes grisalhos, paletó sem gravata, grita: “Olha o governador que vai ser prefeito. Geraldo Alckmin!”. Quem sacode a monotonia é o deputado federal Antônio Carlos Pannunzio, vindo de Brasília e Sorocaba para ajudar na campanha. Quatro mocinhas da comitiva começam a entoar “Geraldo, Geraldo”. E um outro acompanhante grita: “45″. A visita acaba com um funcionário da GSA informando o ex-governador de que o único político que até agora se interessou pela sorte dos vendedores do shopping é Agnaldo Timóteo, vereador pelo PR. O cantor apóia Gilberto Kassab.

Mapas organizados pelos cientistas políticos Fernando Limongi e Lara Mesquita, da Universidade de São Paulo (USP) e do Cebrap, mostram a geografia do voto e a evolução do PT no município de São Paulo. Se Maluf está presente em quase todas as disputas travadas em São Paulo nos últimos 20 anos – até daquela, em 1996, de que não participou mas mandou votar em Celso Pitta como se este fosse seu bastante procurador – o Partido dos Trabalhadores é o que sempre concorreu à prefeitura nesse período e, desde que há segundo turno, é o único jamais ausente no “play off” eleitoral.

O início da atual campanha de rua e da propaganda pela TV surpreendeu 80% dos eleitores já definidos em sua simpatia. A campanha se faz com o objetivo de não permitir o êxodo dos eleitores já conquistados, fiéis como se pertencessem a uma torcida de clube de futebol, e de conquistar os cerca de 11% indefinidos que, ao afinal se definirem, ditarão o vencedor. Se os indecisos forem 10%, 5,1% deles farão a diferença. E 10% são exatos 819 mil eleitores.

“Não é exagero dizer que em eleição polarizada a disputa durante a campanha é em torno de 10% dos votos. O problema é que a linha que divide o PT do PSDB concentra muita gente e, portanto, um leve deslocamento pode trazer mais do que 10% dos eleitores”, diz o cientista político Fernando Limongi.

Estas eleições têm uma característica singular: os partidos concorrem com seus principais nomes. Marta, Alckmin, Gilberto Kassab, Maluf, os candidatos mais competitivos, são os que realmente reúnem a maioria de votos em suas correntes. Não foi assim, por exemplo, na eleição presidencial de 2006, quando Alckmin foi o escolhido do PSDB naquele famoso jantar do restaurante Massimo, apesar de Serra ser o favorito nas pesquisas. Agora, não. Alckmin e Marta são os melhores nomes que PSDB e PT têm no momento em São Paulo. E o prefeito Kassab, desconhecido até suceder Serra há dois anos, é o que mais bem representa a sua corrente política, o DEM, embora ele não enfatize, e o eleitor não perceba, que sua origem é o PFL.

Mas Kassab é a novidade deste pleito. Sua presença confunde os analistas e permite que a realidade resista à teoria. E esta, traduzida, indica que a dicotomia PT/PSDB é um fatalismo. Marta, apontam as pesquisas, avança da periferia – Aldo Rebelo, o vice de Marta e deputado do PCdoB, diria que isso lembra a tática de Mao Tsé-Tung – e derrota o Centro (e o Oeste) em primeiro turno. Mas, no segundo, haveria outro determinismo histórico, PSDB e DEM se uniriam como estiveram unidos nos últimos pleitos e comemorariam a vitória.

No momento, Marta e Alckmin estão empatados nas pesquisas de segundo turno. Se Alckmin, porém, superar seu “déficit de entusiasmo” ou Kassab ultrapassá-lo (hipótese mais remota), impulsionado pelo maior tempo na TV e pelo exercício do próprio cargo de prefeito, a derrota do PT pode se configurar.

As pesquisas, aliás, já sugerem essa convergência: eleitores de Alckmin e Kassab se inclinam para o candidato antipetista que as urnas indicarem para o segundo turno, independentemente da briga na cúpula entre Alckmin e Kassab, Aécio Neves e José Serra.

Segundo o Datafolha, na região Sul, 37% dos eleitores votariam em Alckmin contra Marta no segundo turno, e 35% em Kassab (Marta, 54% e 56% respectivamente).

Na Norte, 51% em Alckmin e 47% em Kassab (Marta, 40% e 44%). Na Leste, Alckmin, 46% e Kassab, 39% (Marta, 47% e 51%).

Na Oeste, Alckmin, 64% e Kassab, 54% (Marta, 32% e 35%). Centro, Alckmin 48%, Kassab, 65% e Marta, 42% e 32%, se enfrentar Alckmin ou Kassab.

27/08/2008 - 09:59h Contra argumentos não há fatos

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Luiz Weis – O Estado de São Paulo

Entra eleição, sai eleição – e duas lendas continuam inabaláveis. Uma é a de que o horário gratuito é uma enganação. Outra é a de que o eleitor não dá a mínima para os partidos. A persistência desses clichês, apesar do acúmulo de evidências em contrário, parece dar razão aos que acham que, sendo as mentalidades o que são, o ditado certo é o que põe de ponta-cabeça a forma original: contra argumentos não há fatos.

No caso da propaganda no rádio e na TV, os fatos conhecidos não batem com a visão preconcebida – ou preconceituosa – de que ela afeta perversamente o voto popular, ao mistificar um público tosco o bastante, em geral, para aceitar pelo valor de face as patranhas que os marqueteiros lhe infligem. Isso, segue o raciocínio, quando o eleitor lhes dá trela, em vez de fazer qualquer outra coisa naquele período, o que seria, afinal, a atitude da grande maioria.

Na realidade, parcela do eleitorado suficientemente ampla para fazer diferença, porque repassa as suas impressões aos desligados, conta com o horário político para balizar as suas decisões e não se deixa levar por pirotecnias de imagem – acostumada que está a identificá-las na programação normal. Além disso, as pesquisas para uso interno das campanhas indicam que a audiência quer menos blablablá e mais propostas terra-a-terra, um sinal eloqüente de amadurecimento.

Quando atendido, o espectador considera que o candidato se dirige a ele diretamente, presta atenção no que ouve e faz comparações – o que o induz a manter ou mudar a sua intenção de voto, se é que já tinha. O horário gratuito, pois, é uma fonte decisiva de informações. A sua influência, para ficar no aqui e agora, ficou nítida no primeiro levantamento do Datafolha depois do início da atual temporada, na última terça-feira. O maior exemplo foi a reviravolta dos números em Belo Horizonte.

Até então, para surpresa de muita gente, as prévias ali eram lideradas pela obscura candidata do PCdoB, Jô Moraes, com 20% dos apoios. Márcio Lacerda, do PSB, candidato do governador tucano Aécio Neves e do prefeito petista Fernando Pimentel, era pouco mais do que um zé-ninguém, com 6% das preferências. Na pesquisa feita na quinta e na sexta-feira passadas, Jô perdeu a dianteira para Lacerda, que avançou olímpicos 15 pontos, depois de ser exibido ao lado de seus populares patronos e de dizer a que vem.

O horário eleitoral também propeliu a candidatura do petista João da Costa, no Recife. Em São Paulo, mudou a relação de forças entre o ex-governador Geraldo Alckmin e o prefeito Gilberto Kassab, do DEM. A diferença entre eles caiu de 21 para 10 pontos (Marta passou para 41%, ou 17 pontos acima do tucano). O peso do horário gratuito – com os acertos da mensagem de Marta, a nova visibilidade de Kassab e a desorientação da propaganda de Alckmin – parece inegável.

As pesquisas também confirmam o outro fato que, para o senso comum, simplesmente não existe: a influência partidária nas escolhas eleitorais. Não é por acaso que a região paulistana onde o predomínio da ex-prefeita alcança seu maior nível – o extremo sul – seja um forte reduto petista. Já se tornou uma referência, a propósito, o estudo Partidos e distribuição espacial dos votos na cidade de São Paulo, dos cientistas políticos Argelina Figueiredo, Fernando Limongi, Maria Paula Ferreira e Paulo Henrique da Silva, do Cebrap.

Debulhando as eleições entre 1994 e 2000, os pesquisadores verificaram que as bases geográficas dos partidos mais votados na capital – PSDB, PT e PPB – são claramente delimitadas. O primeiro tem o seu forte nas áreas centrais e de maior renda; o segundo, nas zonas mais pobres, em especial no leste; e o terceiro, nos bairros tradicionais de classe média baixa. Além disso, o desempenho das três legendas tende a se repetir nas eleições municipais, estaduais e federais, para o Legislativo e o Executivo.

A distribuição do voto por regiões, exprimindo preferências políticas que se relacionam com o perfil social da maioria dos seus moradores, “significa que cada partido conta com um capital de votos nessas regiões que, embora longe de garantir seu êxito eleitoral, constitui uma base de apoio sólida que lhe dá viabilidade em qualquer disputa eleitoral”, apontam os cientistas. A associação entre votações em diferentes eleições “é mais alta no partido mais fortemente organizado, o PT, e mais baixa no mais dependente de liderança individual (Paulo Maluf), o PPB”.

Outro estudo na mesma linha, As eleições municipais em São Paulo: 1985-2004, de Fernando Limongi e Lara Mesquita, trata dos nexos entre as estratégias dos partidos e as mudanças nas preferências dos eleitores. O trabalho comprova que a distribuição dessas preferências pode ser conhecida ou estimada com algum grau de certeza – e que “o eleitorado paulistano tem apresentado considerável estabilidade em suas opções” -, o que dificilmente aconteceria se as vinculações partidárias dos candidatos não contassem na hora do voto.

Claro que o estilo que cada político projeta pode fazer diferença. “Maluf construiu a reputação de um candidato obstinado, aguerrido e radical”, observam os autores. “A estratégia surtiu efeito, garantindo para o seu partido o controle sobre o eleitorado de direita.” O mesmo se aplica à imagem que os principais partidos querem passar ao público. “Não foi outra a estratégia perseguida pelo PT para conquistar o voto até então controlado pelo PMDB”, escrevem.

É sugestiva a constatação de que, analisando em conjunto as seis eleições no período pesquisado, “a direita e a esquerda foram as grandes vencedoras. O centro, representado inicialmente pelo PMDB e depois pelo PSDB, é o mais fraco dos competidores”. Em suma, o voto do paulistano é político-partidário, por menos que aceitem admiti-lo os defensores da ficção de que as pessoas votam em pessoas e os partidos pouco ou nada significam.

Luiz Weis é jornalista

LF -Sobre este tema ver também meu post Ondas e fundamentos

25/08/2008 - 17:48h Ondas e fundamentos

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Desde a re-democratização e as suas primeiras eleições em 1982, foi se configurando na cidade de São Paulo três grandes eleitorados. A cada pleito eleitoral esses três setores disputam a hegemonia entre si, com uma constância que surpreende o analista superficial.

Esses três segmentos eleitorais começaram a sofrer uma mudança com a introdução do sistema eleitoral majoritário a dois turnos, o que reforça a tendência já presente nas democracias à bi-polarização da vida política. Mesmo assim, na cidade de São Paulo esses três segmentos eleitorais permeam a vida eleitoral desde 1982 até agora.

Inicialmente os setores hegemônicos foram constituídos pelo centro-esquerda peemdebista e a direita populista (janista e malufista). O terceiro segmento, muito pequeno, foi ocupado pela esquerda na criação do PT.

Como o sistema eleitoral proporcional não exigia maiorias absolutas para vencer, a divisão nestes três segmentos do eleitorado permitiu a vitória de Jânio e depois, uma primeira vitória do PT com Erundina.

Desde aquele momento, foi a evolução interna entre os diversos segmentos do eleitorado e a relação de forças entre eles a que levou a um ou outro desfecho nas eleições na cidade (municipais, estaduais ou federais).

Globalmente o campo da direita populista majoritário em 1982 com Jânio, e ainda majoritário com Maluf até levar a vitória de Pitta em 1996, começou a desfiar depois. A evolução do centro-esquerda peemdebista-tucano para um pragmatismo de centro-direita o transformou no principal receptáculo do debilitamento da direita populista, ao mesmo tempo que permitiu ao PT ocupar plenamente sua vocação social-democrata, de força de centro-esquerda. Como isto não foi produto de um processo linear, as relações de força eleitorais expressavam isto de maneira muito fluida, porém persistente.

Mesmo vencendo as eleições em 2000, por exemplo, a maioria em favor de Marta e do PT só foi possível no segundo turno pelo apoio de Mário Covas à Marta. O grosso do eleitorado de Alckmin no primeiro turno, na época candidato do PSDB, foi para Maluf no segundo turno, mas uma importante fração votou na Marta, que ganhou com 58% dos votos válidos contra 42% de Maluf (que no primeiro turno tinha obtido pouco mais de 15%).

Depois o processo só reforçou o campo do centro-direita tucano e parcialmente também o campo petista, em detrimento do malufismo. Isto permitiu em 2002 a vitória de Lula, mesmo que por pequena margem na cidade, na medida em que se fechava o ciclo do PSDB no governo federal e se consolidava a implantação do PT em São Paulo. Mas o PSDB emergia, com a vitória ao governo de Estado e com um bom resultado na cidade, como a força hegemônica no centro e na direita do espectro político.

As eleições de 2004 e de 2006 confirmaram está situação reforçando eleitoralmente o PSDB em São Paulo, sem porém eliminar completamente a direita populista que preserva um pequeno e importante eleitorado.

A está altura da analise é bom insistir que não existem categorias estancas entre os três segmentos eleitorais, nem sociológicas, mesmo que os setores mais pobres sejam o destaque do eleitorado do PT e que a burguesia e as altas camadas médias se identifique claramente com o PSDB. Uma parte do eleitorado de classe média oscila entre o PSDB e o PT, outra parte oscila entre os tucanos e a direita populista, é têm eleitores pobres em todas as candidaturas, evidentemente.

Os contornos mudam a cada eleição determinados pela conjuntura concreta e a intervenção das forças políticas e sociais nessa conjuntura.

Na situação atual persiste o fenômeno aqui analisado. A novidade é por conta de dois fatores novos, coincidentes no tempo: um, a ampla base de apoio no eleitorado nacional à política e à figura do presidente Lula, do PT; e o segundo é a novidade da disputa interna no campo do centro e centro-direita (hegemonizado pelo PSDB) com repercussões diretas na cidade de São Paulo com duas candidaturas, Kassab e Alckmin. A conjunção de ambos processos, aliados ao carisma e popularidade de Marta é a que constitui o tripé que sustenta a possibilidade de uma vitória da candidatura de centro-esquerda. Utilizo essas etiquetas de propósito, porque contrariamente ao mito de que o voto no Brasil não é ideológico, o eleitorado acaba agrupado sim, nos espectros ideológicos, seja de esquerda ou de direita com suas variantes.

Mas, apesar da crise no campo do centro-direita, não existe nenhum automatismo nesse desfecho. A vitória de Marta é possível, ela não é automática.

Primeiro, porque esses setores, mesmo divididos, contam com uma ampla base de sustentação eleitoral. Segundo, porque contam com uma amplíssima base de sustentação social e política nos diferentes mecanismos de poder: Estado, prefeitura, associações, mídia, instituições, ideológicas e culturais etc. Terceiro, porque souberam preservar esse apoio em São Paulo, com sustentação eleitoral incluso em setores médios e populares, disputando o eleitorado com o PT. Por último, porque serão pressionados a se unirem para enfrentar Marta, mesmo se essa união será limitada no tempo e apenas formal.

Por isso me parece essencial insistir na campanha, no nosso perfil de oposição aos demo-tucanos em seu conjunto e utilizar o momento para ampliar a receptividade às propostas do PT para a cidade, conjugadas com a ação do governo federal. Isto permitiu captar uma pequena parcela de eleitores que no primeiro turno não votaram no PT, nem em 2004, nem em 2006 e que aparecem nas duas últimas pesquisas inclinados a votar na Marta.

Esses eleitores vão ainda flutuar bastante, como ondas, e provocarão oscilações nas intenções de voto de todos os principais candidatos, até o desfecho do segundo turno. Mas é com eles que pacientemente o diálogo deverá ser preservado e aprofundado para conquistar no final seu voto, decisivo para a vitória. LF

25/08/2008 - 17:24h A opinião de Ricardo Noblat

Eleições – Quem sobe, quem cai

Blog de Noblat

Os resultados das pesquisas de intenção de voto do Instituto Datafolha divulgados no último fim de semana pouco ou nada têm a ver com os efeitos da primeira semana de propaganda eleitoral no rádio e na televisão dos candidatos a prefeito de algumas das capitais do país.

A atenção do brasileiro estava voltada para as olimpíadas de Pequim.

O período de 42 dias de propaganda eleitoral foi inaugurado na última terça-feira dia 19. Nos dias 21 e 22, o Datafolha entrevistou entre 800 a 1.200 eleitores em Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife.

Até então apenas dois programas de candidatos a prefeito haviam ido ao ar – embora não devam ser desprezadas eventuais conseqüências dos comerciais veiculados diariamente a respeito deles e que pegam os eleitores desprevenidos. São peças de propaganda mais eficientes do que os programas.

Mas não foram os comerciais que provocaram as mudanças no quadro eleitoral registradas pelo Datafolha. A exceção fica por conta de Curitiba onde nada mudou. Candidato à reeleição, o prefeito Beto Richa (PSDB) coleciona 70% das intenções de voto.

No Rio, o favoritismo de Marcelo Crivella (PRB) está cada vez mais a perigo. Crivella caiu no Datafolha de 24% das intenções de voto no final de julho para 20%. Eduardo Paes (PMDB) saiu de 13% para 17%. Jandira Feghali (PC do B) empacou em 15%. Qualquer um dos dois será capaz de derrotar Crivella no segundo turno.

O que explica no Recife o salto espetacular dado por João da Costa (PT)?

Em julho, ele tinha 22% das intenções de voto, atrás de Mendonça Filho (DEM) com 30%. Foi para 37%. Mendonça caiu para 26%. Cadoca (PSC) despencou de 22% para 13%.

O tempo decorrido desde julho parece ter sido suficiente para o eleitor identificar João da Costa como o candidato da esquerda. Sim, ainda existe essa história de direita e esquerda no Recife. Cerca de 30% dos eleitores votam na esquerda. Outros 30% na direita. Os demais decidem as eleições.

Nos idos de 60, quando ainda se votava em separado para prefeito e vice-prefeito, Recife elegeu Pelópidas da Silva, pela esquerda. O vice dele, Miguel Arraes, perdeu para Augusto Lucena, apoiado pela direita.

Até um dia desses, João da Costa era um desconhecido secretário do prefeito João Paulo (PT). Os estrategistas de sua campanha imaginavam que ele atingiria o patamar dos 30% depois de duas semanas de propaganda eleitoral.

Subestimaram o fato de que João da Costa dispõe de três poderosos padrinhos: Lula, aprovado por 74% dos recifenses; o prefeito João Paulo, por 61%, e o governador Eduardo Campos (PSB) por 52%. Está em Belo Horizonte, contudo, o caso mais exemplar de pura e simples transferência de votos.

Quem é Márcio Lacerda (PSB), candidato a prefeito?

É um empresário que jamais disputou uma eleição. Filiou-se ao PSB só para ser candidato. Subiu de 6% das intenções de voto em julho para os atuais 21%, ultrapassando Jô Moraes (PC do B) que tem 17%.

A administração do governador Aécio Neves (PSDB) é considerada ótima ou boa por 86% dos habitantes de Belo Horizonte. A do prefeito Fernando Pimentel (PT), por 76%. Os dois apóiam Lacerda, que tem 12 minutos diários de comerciais no rádio e na televisão contra dois minutos de Jô.

Quase 95% dos mineiros estão convencidos de que Aécio sucederá Lula em 2010. Fazer o quê? Lacerda na cabeça.

A essa altura, o que o PSDB poderá fazer para evitar o desastre anunciado em São Paulo?

É cedo para falar em desastre ali? Talvez não. Marta Suplicy (PT) continua em ascensão – dessa vez passou de 36% na pesquisa de julho para 41%. Geraldo Alckmin (PSDB) continua caindo – tinha 32% das intenções de voto, agora tem 24%. O prefeito Gilberto Kassab (DEM) foi de 11% para 14%. Paulo Maluf (PP) está com 8% ou 9%. A divisão do PSDB entre Alckmin e Kassab desorientou o eleitorado do partido.

A culpa é de quem? Ora, de Alckmin.

O governador José Serra, a bancada de vereadores do PSDB, secretários municipais e subprefeitos estavam dispostos a apoiar a reeleição de Kassab. Seria o natural. Kassab é Serra na prefeitura.

Aí o filhinho mimado de Pindamonhangaba bateu com o pé e anunciou: “Sou candidato”. Capaz de perder uma eleição para não perder a elegância, o PSDB engoliu a seco a decisão de Alckmin e bovinamente tomou o caminho do matadouro.

Como consertar a situação? E tem conserto?

24/08/2008 - 10:31h Abominação no circo das eleições

Emissoras de TV e grupos conservadores fazem a festa com lançamento do panfleto mentiroso The Obama NationThe Obama Nation: Leftist Politics and the Cult of Personality A imagem “http://readwritenow.files.wordpress.com/2008/03/obama_sc_04_01_2007-731285.jpg?w=318&h=470” contém erros e não pode ser exibida.

Caio Blinder – O Estado de São Paulo

No sentido mais estrito de uma resenha literária, não há muito o que dizer sobre The Obama Nation. Dando o troco no trocadilho infame do título do livro do autor Jerome Corsi sobre o candidato democrata, trata-se de uma abominação O material lançado dias antes da convenção partidária que irá coroar Barack Obama é um pegajoso ataque político. Corsi compilou tudo de desfavorável já publicado sobre Obama (em geral na Internet), inclusive mentiras, rumores desacreditados e distorções com o objetivo transparente de alertar sobre as idéias, questionar o patriotismo e avacalhar a vida pessoal do candidato.

Corsi já esteve lá. Há quatro anos foi co-autor de um livro que manchou a reputação heróica na guerra do Vietnã do então candidato democrata John Kerry. O livro talvez tenha contribuído para a derrota de Kerry contra George W. Bush, aquele que se safou de combate no sudeste asiático. Corsi não esconde o desejo de repetir o feito, ou seja, impedir uma vitória de Obama em novembro. E começa pela capa. Há uma foto de um Obama com um jeito reflexivo, enigmático e, mais sintomaticamente, sinistro.

Corsi é venenoso e engenhoso. Ele construiu uma contranarrativa à história pessoal de Obama, que essencialmente impulsionou sua carreira política. Em dois best-sellers autobiográficos e inúmeros discursos, Obama conta sua história de filho de pai negro do Quênia e mãe branca do Kansas, que descobriu sua identidade e, se culminar a jornada na Casa Branca, transcendendo os rancores raciais e sociais, mostrará que o sonho americano está mais vivo do que nunca.

O Obama de Corsi é filho de “polígamo alcoólatra”, a mãe preferia “homens de cor” do Terceiro Mundo para serem seus “parceiros” e o candidato se identifica mais com seu “sangue africano” do que com suas raízes americanas. O livro trata Obama como um ser alienígena, exótico e e extremista. Corsi retoma as distorções sobre “uma extensa educação muçulmana” quando o garoto Barack vivia na Indonésia e insiste que ele é tomado por uma “fúria” negra. Obama não passa de um político maquiavélico e corrupto, com pose de bom moço. Com suas posições radicais de esquerda e alguns sentimentos “antiamericanos”, ele irá dividir o país ainda mais, caso seja eleito.

Sem apresentar evidências, Corsi sugere que Obama possa ainda usar drogas (o candidato admitiu que fez isto na juventude) e divaga que alguém que tentou esconder do público seu hábito de fumante inveterado pode estar escondendo coisas muito piores. Além das infâmias e bobagens, há erros factuais no livro. Alguns menores (Obama menciona sua meia-irmã Maya na autobiografia Sonhos do Meu Pai) e outros mais significativos, como sugerir que o candidato seria a favor da retirada das tropas americanas do Afeganistão. Pelo contrário, ele defende o reforço.

Isto é o de menos em meio aos comentários bizarros e conspiratórios. Corsi faz o possível para não parecer um maluco da Internet (ele se define como repórter sênior do site de extrema direita World Net Daily) e na capa do livro faz questão de exibir suas credenciais acadêmicas: Jerome R. Corsi, Ph.D. (ciências políticas em Harvard). Para quem tiver paciência, são 59 páginas de anotações bibliográficas (no total, o livro tem 364 páginas).

A bizarrice, as tolices conspiratórias e ofensas pessoais fazem parte do currículo do doutor em filosofia Corsi. Ele já escreveu que o papa João Paulo II era “senil”, qualificou o islamismo de “vírus”, definiu John Kerry como “anticristão” e insinuou que Hillary Clinton seria lésbica. Corsi tampouco dá muita colher de chá para os republicanos de George W. Bush. Acusou o presidente de fazer pouco para guarnecer a fronteira sul dos EUA e é um proponente da conspiração da União Norte-Americana, sobre a existência de uma “organização supranacional” que em breve fará a fusão dos EUA, Canadá e México.

Envergonhado, o conservador respeitável Peter Wehner, na revista Commentary, lamenta as diatribes de Corsi. Wehner escreve que o livro é “errado e repelente”. Para Wehner, os ataques contra o candidato democrata devem ser centrados nos méritos de sua filosofia de governo. Mas a abominação está rendendo uma farra no circuito de talk-shows no rádio e televisão.

The Obama Nation foi escrito, publicado e se tornou uma controvertida sensação graças a um modelo de negócios em que poderosas casas editoriais têm pequenas unidades que publicam material combustível de extrema direita. O livro de Corsi foi publicado pela Threshold Editions, uma divisão da Simon & Schuster, sob a supervisão de Mary Matalin, a lendária marqueteira republicana (mulher do também lendário marqueteiro democrata James Carville) e ex-assessora do soturno vice-presidente Dick Cheney.

O modelo funciona bem pois existe uma caixa de ressonância nos talk-shows e o empenho de clubes do livro e grupos conservadores para fazer da obra um best-seller, com a compra antecipada no atacado. E de qualquer forma, o desconto do livro de Corsi é estupendo. O preço de capa é US$ 28. Na Barnes & Noble, eu paguei apenas US$ 17.98 (com imposto). Mesmo assim, foi um custo abominável.

17/08/2008 - 17:51h Por que Marta sobe

Blog Cidadania.com de Eduardo Guimaraes

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Uma amiga do Rio, a leitora, socióloga e professora aposentada Vera Pereira, postou aqui ontem um comentário que me estimulou a escrever este post.


Enfim uma notícia para amenizar minha “deprê” cívica dos últimos dias: Pesquisa Ibope divulgada nesta sexta (15) mostra a candidata Marta Suplicy com 41% das intenções de voto (…). Geraldo Alckmin aparece em segundo com 26%. (…) Pena que eu voto no Rio de Janeiro. Em todo caso, parece que os paulistanos não dão a mínima para a mídia.

Mais ou menos, minha cara professora Vera. Eu não diria que os paulistanos “não dão a mínima para a mídia” e sim que boa parte deles descobriu que é melhor não dar bola a ela, ao menos quando o assunto é política.

Analisem o gráfico que fiz (acima). Percebe-se que, de uma outra pesquisa Ibope – divulgada exatos 30 dias antes da que foi divulgada ontem – para cá, só Marta Suplicy e Ivan Valente, do PSOL, aumentaram suas intenções de voto – todos os outros caíram e Soninha ficou estagnada. Marta disparou no primeiro turno, conforme o gráfico. E, no segundo, já supera Alckmin, ainda que dentro da margem de erro da pesquisa. Aliás, essa tal margem de erro das pesquisas é um caso à parte sobre o qual ainda escreverei.

Hoje, porém, quero oferecer-lhes minha visão sobre por que Marta subiu tanto apesar da revoltante armação que foi a tal “lista suja” da Associação dos Magistrados do Brasil (AMB), explorada de forma desonesta pela mídia e por Gilberto Kassab, que acabou incluído nela quando se descobriu que tinha processo contra si que a AMB, a exemplo do que fez com os processos a que responde Geraldo Alckmin – alguns envolvendo milhões de reais –, desprezou não se sabe por que.

Durante o período da arrancada de Marta (entre 16 de julho e 15 de agosto), a mídia martelou incessantemente a inclusão da ex-prefeita na tal “lista suja” e Kassab chegou a espalhar milhares de panfletos por São Paulo associando a adversária a “corrupção”. Justo Kassab, que permitiu o retorno da máfia dos fiscais do comércio ambulante, que surgiu pela primeira vez quando o atual prefeito era secretário do ex-prefeito Celso Pitta, que dispensa apresentações.

Há que se dar razão à professora Vera. O que parece é que os paulistanos “não dão a mínima” para a mídia. Enquanto esta tratava de alardear a inclusão de Marta numa lista de candidatos nos quais não se deveria votar, ela disparou na preferência do eleitorado da capital paulista.

Porém, como paulistano de cinco gerações posso afirmar que o povo desta cidade sempre deu muita importância à mídia. Esta, só para ficarmos em São Paulo, já elegeu Maluf, Pitta e Serra contra petistas. Porém, à diferença do que aconteceu em 2004, quando Marta, apesar de bem avaliada, perdeu a eleição na cidade, o eleitorado paulistano começa a se definir mais do ponto de vista das classes sociais.

Quero aqui fazer um prognóstico: se Marta vencer a eleição, será com apoio muito maior da periferia paulistana, que abriga as classes sociais que mais perderam com a vitória de Serra sobre a petista há quatro anos.

Uma das maiores perdas da periferia de São Paulo com o governo Serra / Kassab foi no Transporte. A vantagem dos corredores que estava permitindo aos que tomam ônibus viajarem bem mais rápido do que quem viajava de carro foi anulada em prol deste. Os importantes projetos de Marta no social, que perderam importância durante a administração tucano-pefelista, foram sendo todos transformados em programas de fachada.

Pesquisas recentes demonstraram a disparidade de gastos da administração paulistana com os munícipes das regiões “nobres” e com os da periferia. Em alguns casos, gasta-se vinte, trinta vezes mais hoje com os paulistanos dos bairros ricos do que com os dos bairros pobres, isolados, invisíveis, carentes de tudo.

Em 2004, eu conversava com as pessoas mais humildes, aquelas dos bairros afastados, que viajavam horas para chegar em casa e que, graças às iniciativas de Marta, tiveram reduzidas essas viagens a minutos. Tentava explicar àqueles que começaram a ter escolas de qualidade para seus filhos (CÉUS) que deveriam apoiar uma administração que tanto estava fazendo por eles. Mas foi em vão: a mídia paulista vendeu aos paulistanos – inclusive aos pobres – que Serra poderia fazer mais “por ter sido governador” etc.

Os paulistanos, sobretudo os mais pobres, sentiram na carne os efeitos do voto errado. Não que votar em Serra ou em Kassab tenha sido errado pura e simplesmente. Foi errado para os mais pobres, para os habitantes da periferia. Para quem vive nos Jardins, foi certo votar na direita tucano-pefelista, se formos analisar o ato de votar apenas do ponto de vista dos interesses diretos e imediatos dos eleitores.

O preço pago pelos paulistanos mais pobres ao votarem em José Serra e em Gilberto Kassab em 2004 será cobrado de tucanos e pefelês nesta eleição, pois as pessoas parece que estão entendendo que Alckmin, Serra e Kassab são todos a mesma coisa.

É animadora a possibilidade de se punir nas urnas políticos que se elegeram com um discurso social e o abandonaram depois da eleição. São Paulo, a megalópole historicamente conservadora do estado mais conservador da Federação, sempre foi, também, berço de grandes mudanças que ocorreram no país. Seja bem vinda, pois, ao século XXI, São Paulo.

Escrito por Eduardo Guimarães

10/08/2008 - 10:51h Virar à esquerda para crescer

*JOSEPH E. STIGLITZ – O Globo

A imagem “http://www.themorningsidepost.com/images/2007/09/27/stiglitz.jpg” contém erros e não pode ser exibida.Tanto a esquerda como a direita dizem defender o crescimento econômico. Então, para os eleitores, trata-se apenas de escolher entre equipes gerenciais alternativas? Quem dera fosse tão fácil. Parte do problema se refere ao papel da sorte. A economia americana, nos anos 90, foi abençoada por baixos preços da energia, alta taxa de inovação e uma China a oferecer cada vez mais produtos de boa qualidade a preços decrescentes, tudo combinando para resultar em inflação baixa e rápido crescimento.

O presidente Clinton e o então presidente do Fed (banco central), Alan Greenspan, merecem pouco crédito por isso — embora, a bem da verdade, tenham evitado políticas que pusessem tudo a perder. Em contraste, os problemas que enfrentamos hoje — altos preços de energia e alimentos e um sistema financeiro a desmoronar — foram, em grande parte, causados por políticas erradas.

Há grandes diferenças entre estratégias de crescimento, o que torna altamente prováveis resultados também diferentes. A primeira se refere à forma em que o crescimento é concebido.

Ele não é apenas a ampliação do Produto Interno Bruto. Precisa ser sustentável: crescimento com degradação ambiental, com consumo baseado em endividamento ou exploração de recursos naturais escassos, sem reinvestimento dos rendimentos, não é sustentável.

O crescimento deve ser inclusivo; pelo menos a maioria dos cidadãos deve ser beneficiada. Truques econômicos não funcionam: um aumento do PIB pode até piorar a situação da maioria dos cidadãos. O crescimento recente dos EUA não foi nem economicamente sustentável nem inclusivo. A maioria dos americanos está pior hoje do que há sete anos.

Mas não há um compromisso entre desigualdade e crescimento.

Os governos podem estimular o crescimento via aumento da inclusão.

O maior recurso de um país é seu povo.

É essencial assegurar que todos possam desenvolver seu potencial, o que requer oportunidades educacionais para todos.

Uma economia moderna requer também assumir riscos.

As pessoas ficam mais propensas a assumir riscos se houver uma boa rede de proteção. Se não houver, elas podem pedir proteção contra a competição estrangeira. Proteção social é mais eficiente que protecionismo.

Fracasso na promoção da solidariedade social pode ter outros custos, entre os quais os necessários para proteger a propriedade privada e manter encarcerados os criminosos.

Estima-se que, dentro de poucos anos, os EUA terão mais gente trabalhando em segurança do que em educação.

Um ano na prisão pode custar mais do que um ano em Harvard. O custo de manter encarcerados 2 milhões de americanos — uma das maiores taxas do mundo — deve ser subtraído do PIB, ao invés de adicionado.

Uma segunda grande diferença entre esquerda e direita diz respeito ao papel do Estado no desenvolvimento.

A esquerda entende ser vital que o Estado proveja infra-estrutura e educação, desenvolva tecnologia e até mesmo atue como empreendedor.

O governo assentou as bases da internet e da moderna revolução da biotecnologia. No século XIX, a pesquisa em universidades que recebiam apoio governamental possibilitou a revolução na agricultura.

O governo levou os avanços a milhões de fazendeiros americanos. Empréstimos para pequenos negócios foram cruciais na criação de novos negócios e também de novas indústrias.

A diferença final pode parecer estranha: a esquerda agora entende o mercado e o papel que ele pode e deve ter na economia. A direita, especialmente nos EUA, não. A nova direita, tipificada pela administração Bush-Cheney, é realmente o velho corporativismo em disfarce novo. Ela acredita num Estado forte, com poderes executivos robustos, usados em defesa de interesses estabelecidos e com pouca atenção aos princípios do mercado. A lista de exemplos é longa e inclui subsídios para grandes fazendeiros, tarifas para proteger a indústria siderúrgica e, mais recentemente, megaoperações de salvamento de Bear Sterns, Fannie Mae e Freddie Mac. Mas a inconsistência entre retórica e realidade vem de longe: o protecionismo cresceu nos anos Reagan, inclusive com a imposição da chamada restrição voluntária das exportações de carros japoneses.

Em contraste, a nova esquerda está tentando fazer o mercado funcionar.

Mercados livres não funcionam adequadamente por si mesmos — uma conclusão corroborada pela atual debacle financeira. Defensores do mercado algumas vezes admitem que eles falham, até desastrosamente, mas alegam que têm a propriedade de se autocorrigirem. Durante a Grande Depressão, argumentos similares foram ouvidos: o governo não tem de fazer coisa alguma porque o mercado restabeleceria o pleno emprego a longo prazo. Mas, como John Maynard Keynes disse, a longo prazo todos estaremos mortos.

O mercado não é autocorretivo num período de tempo relevante. Nenhum governo pode ficar sentado assistindo a um país cair na recessão ou na depressão, mesmo quando causadas por excesso de gula de banqueiros ou por avaliação equivocada do risco pelo mercado financeiro ou por agências de classificação. Mas, se são os governos que vão pagar a conta da economia no hospital, devem fazer de tudo para tornar menos provável a internação.

O mantra da direita sobre desregulamentação dos mercados estava errado, e agora pagamos o preço.

Que, em termos de perda de produção, será alto — talvez mais de US$ 1,5 trilhão apenas nos EUA.

A direita costuma alegar seu parentesco com Adam Smith, mas enquanto Smith reconhecia o poder do mercado, reconhecia também suas limitações.

Mesmo em sua época, empresários descobriram que podiam elevar mais facilmente os lucros conspirando para aumentar preços do que produzindo de forma mais eficiente mercadorias inovativas. Poderosas leis antitruste são necessárias.

É fácil dar uma festa. Por uns momentos, todo mundo pode sentir-se bem. Já promover o crescimento sustentável é muito mais difícil. Hoje, em contraste com a direita, a esquerda tem uma agenda coerente — que não oferece só mais crescimento, mas também justiça social. Para os eleitores, deveria ser uma fácil escolha.

*JOSEPH E. STIGLITZ é economista e foi Prêmio Nobel de Economia em 2001