08/05/2009 - 11:09h Para os investidores o Brasil é um porto seguro

Tesouro capta mais US$ 750 mi no exterior

Oferta era de US$ 500 milhões, mas demanda foi maior

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Renata Veríssimo e Fabio Graner – O Estado SP

Aproveitando o maior apetite dos investidores internacionais pelo risco, o Tesouro Nacional realizou ontem mais uma emissão de títulos de dívida externa com vencimento em 2019. Foi a segunda venda desses papéis brasileiros no ano. A oferta inicial de títulos foi de US$ 500 milhões, mas, diante da demanda “muitas vezes” maior que a oferta, o Tesouro colocou no total US$ 750 milhões.

Além do volume acima do inicialmente projetado, o Tesouro vai pagar menos juros para os investidores que compraram os papéis. A taxa de retorno dos títulos ficou em 5,80% ao ano, ante 6,127% anuais da emissão realizada em janeiro. Naquele mês, o mercado teve um período de relativa euforia em decorrência da posse do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e o Tesouro aproveitou a oportunidade para acessar o mercado externo, em uma operação que na ocasião foi considerada um sucesso pelo governo.

A venda de ontem teve um spread (diferença em relação ao papel americano de prazo semelhante) de 2,52 pontos porcentuais, ante 3,70 pontos porcentuais da emissão do mesmo título em janeiro. Essa diferença a menor, na avaliação do Tesouro, decorre da combinação de maior taxa dos títulos americanos com o menor juro pago pelo Brasil.

Segundo o Tesouro, o objetivo da reabertura do Global 2019 foi melhorar a estrutura da dívida externa, aproveitando as melhores condições do mercado. “A emissão teve caráter eminentemente qualitativo”, informou uma fonte. O Tesouro considera que um volume mínimo adequado para um papel ter liquidez no mercado é de US$ 2 bilhões. O Global 2019 conta, com a emissão de ontem, com um total de US$ 1,75 bilhão, o que indica que uma nova reabertura pode acontecer no futuro.

O Tesouro também divulgou que já tem a maior parte dos dólares necessários para o pagamento dos vencimentos da dívida externa este ano. Segundo o Plano Anual de Financiamento (PAF), o montante a vencer em 2009 é de R$ 16,1 bilhões.

O órgão destacou ainda que o Brasil tem conseguido colocar seus papéis no mercado com custo menor do que o de outros países emergentes.

Lembrou que a Colômbia emitiu US$ 1 bilhão em abril em papéis de 10 anos com a taxa de retorno (Yield) de 7,375% ao ano. Segundo outra fonte, os fundamentos econômicos do País deram flexibilidade para que o governo acesse o mercado somente nos melhores momentos, sem ter de captar recursos a qualquer custo.

O Tesouro anunciou ainda a possibilidade de emitir adicionalmente até US$ 37,5 milhões do Global 2019 no mercado asiático. Essa decisão seria tomada na noite de ontem e anunciada hoje.

NÚMEROS

US$ 500 milhões foi a oferta inicial de títulos da dívida pública externa feita pelo Tesouro Nacional para captação no mercado externo.

US$ 750 milhões foi quanto o Tesouro acabou emitindo, em razão da grande demanda.

5,8% é a taxa de juros que será paga pelo Brasil no vencimento dos títulos, em 2019

6,127% é a taxa de retorno da operação anterior

12/03/2008 - 13:11h Tesouro faz coro com BC e destaca vulnerabilidade externa menor

O jornal VALOR publica artigo sobre documento do Tesouro Nacional sobre dívida e vulnerabilidade externa do Brasil. Acrescentei ao artigo do VALOR os dois quadros iniciais que constam do documento do Tesouro. O Tesouro, apoiado em consistentes dados da economia do país, mostra o que escrevemos neste blog sobre o significado do fim da dívida externa anunciado pelo Banco Central.

Arnaldo Galvão, de Brasília – VALOR

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Seguindo os passos do Banco Central (BC), o Tesouro divulgou documento que ressalta a redução da vulnerabilidade externa do país. Os principais avanços, de acordo com essa análise, são a relação entre dívida externa e Produto Interno Bruto (PIB), que chegou a 14,9% em janeiro, o fluxo de investimentos estrangeiros que alcançou patamar recorde e o fato de o mercado de capitais do Brasil ser o maior entre os dos países emergentes se for considerado o valor em mercado. Em 21 de fevereiro, o BC já tinha divulgado relatório exaltando que, pela primeira vez, o Brasil é credor externo líquido porque seus ativos em moeda estrangeira são maiores que os respectivos passivos.

O gerente adjunto de Relacionamento Institucional da Dívida Pública do Tesouro, André Proite, informou que o documento divulgado ontem já estava concluído desde a semana passada, mas aguardava a aprovação do secretário Arno Augustin. Portanto, segundo suas explicações, a divulgação não teve relação com as notícias, também publicadas ontem, sobre as preocupações do governo quanto à valorização do real. O Valor publicou que estão sendo preparadas medidas nesse sentido. “Foi uma infeliz coincidência, mera casualidade”, garantiu.

Na visão de Proite, o documento do Tesouro procurou aproveitar o momento para ressaltar a importância de alguns indicadores relevantes para as agências de classificação de risco que não tinham sido devidamente abordados pelo BC. De acordo com essa interpretação, é muito otimista a comparação dos indicadores do Brasil com os de países que já têm o grau de investimento.

 

 

A redução da vulnerabilidade, segundo o Tesouro, veio com a redução da dívida externa pública e privada, com o dinamismo do setor exportador que permitiu expressivos superávits comerciais, o que colaborou para a entrada de divisas, e com o acúmulo de reservas internacionais que reduziu a volatilidade cambial. Apesar desses progressos, o peso do câmbio valorizado sobre as exportações e as projeções de maiores déficits em transações correntes assustam o governo. Tanto que está sendo preparado um pacote cambial.

A dívida externa total passou de US$ 214,9 bilhões, em 2003, para US$ 196,2 bilhões, em janeiro de 2008. A dívida de longo e médio prazos teve redução maior, passando de US$ 194,7 bilhões (2003) para US$ 158,1 bilhões (2008). O crescimento do PIB e a forte valorização cambial também fizeram com que a relação entre dívida externa e PIB tivesse queda de 41,8% (dezembro de 2002) para 14,9% (janeiro de 2008).

A “robustez” do setor exportador, para o Tesouro, é clara. A conta de juros da dívida externa brasileira alcançou, em 2007, 9,5% da receita das exportações. Em 2001, eram 28%. E a proporção da dívida externa em relação às exportações tem caído desde 1999. Naquele ano, a dívida era quase cinco vezes maior que as receitas de exportações, mas foi de 1,2 vezes em dezembro do ano passado.

Mesmo tendo que carregar uma moeda valorizada, o dinamismo do setor exportador pode ser comprovado, segundo o Tesouro, pela diversificação dos produtos embarcados e pela maior variação dos destinos. O destaque, para o governo, foi a redução relativa das exportações aos EUA, principal de destino dos produtos, quando comparado com os outros parceiros. Por outro lado, o país não é “estritamente dependente” do comércio de commodities, cujas cotações internacionais subiram e também contribuíram fortemente para a entrada de divisas.

Além do “excelente” desempenho exportador, o Tesouro ressalta o recente aumento das outras fontes de recursos da conta corrente, como serviços, rendas e transferências unilaterais. A soma dessas fontes é chamada receitas de conta corrente ou CAR (current account receipts) que é, segundo o documento, indicador mais amplo de solvência externa.

Considerando apenas o setor público, o Brasil passou a ter posição credora desde janeiro de 2007, quando a dívida externa dessa esfera era de US$ 88,7 bilhões com reservas de US$ 91,1 bilhões. Entre 2002 e janeiro de 2008, as reservas internacionais aumentaram 574%, indo de R$ 27,8 bilhões para R$ 180,3 bilhões. De acordo com o documento, o acúmulo de reservas também é relevante para analisar o valor mensal das importações. No Brasil, as reservas cobriam, em 2001, seis meses de importação. Mas em 2007, elas eram equivalentes a 18 meses de importação. Isso considerando também uma entrada de bens muito superior – US$ 120,6 bilhões em 2007 – contra US$ 55,6 bilhões em 2001.

O informe do Tesouro também destaca o aumento da participação de não residentes na dívida interna, mas o governo estuda acabar com a isenção do Imposto de Renda sobre esses ganhos de capital para barrar parte da entrada de dólares.

O documento ainda procura demonstrar que o país está muito próximo de ter investimentos recomendados pelas agências de risco. A dívida externa líquida brasileira era, em 2004, próxima a 117% das receitas de conta corrente (CAR), nível muito acima da mediana dos países com nota BBB (21%). Como o Brasil tornou-se credor externo líquido, a previsão para este ano é a de relação negativa (6,5%) entre dívida externa líquida e CAR. Esse patamar é melhor que a mediana dos países BBB (12%).

26/02/2008 - 07:52h Sem riscos

celso_ming1.jpgpor Celso Ming – O Estado de São Paulo

Na semana passada, a balança comercial brasileira apontou o primeiro déficit (importações maiores do que exportações) em uma semana. É um número relativamente pequeno (US$ 81 milhões) que, no entanto, chegou a disparar algumas luzes amarelas, como se alguma coisa de errado estivesse acontecendo nas contas externas, justamente onde a economia vai dando espetáculo.

O ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, tomou a iniciativa de explicar que se trata de um fato episódico sem capacidade de definir tendência. Desde o terceiro trimestre de 2007, os analistas esperam déficit nas contas correntes que, além do comércio, contabiliza os serviços e as transferências unilaterais. O Banco Central (BC) espera resultado negativo de US$ 3,5 bilhões, enquanto o mercado, auscultado pelo próprio BC (Pesquisa Focus), trabalha com déficit de US$ 7,9 bilhões.

Mas, na balança comercial, a expectativa tanto do BC como do mercado é de superávit mais baixo do que os US$ 40 bilhões registrados em 2007, mas, ainda assim, um forte superávit, de US$ 30 bilhões.

Há alguns anos os críticos da atual política macroeconômica vêm advertindo que a valorização do real conduzirá inexoravelmente ao déficit comercial, porque desestimula exportações, na medida em que deixa o produto brasileiro mais caro em moeda estrangeira, e estimula importações ao baratear em reais o produto estrangeiro.

Não é o que está ocorrendo. As exportações avançam neste ano em ritmo mais forte do que em 2007. Estão crescendo a 22,4% ao ano, tomado este número como medida de crescimento da média por dia útil. No ano passado inteiro, aumentaram 16,6%.

A diferença está em que as importações crescem com ainda maior vigor, nada menos que 51,2% nas primeiras oito semanas do ano, quando comparadas a igual período do ano anterior.

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22/02/2008 - 15:09h “Um Brasil diferente…” caiu do céu, arrogância tucana não tem limite

LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

Folha de São Paulo

Um Brasil diferente…

O ajuste das contas externas pode ser comparado ao 1º estágio de foguete que pode nos levar ao desenvolvimento

O BANCO Central nos informou nesta semana que um evento extraordinário ocorreu no ultimo mês de janeiro. Pela primeira vez, o Brasil tem reservas cambiais superiores à sua divida externa total. Em outras palavras, nossos compromissos em dólares, privados e públicos, são menores -o BC estima em US$ 4 bilhões- do que os ativos brasileiros no exterior. Embora essa situação estivesse prevista por quem acompanha as estatísticas quase dia a dia, a sua confirmação me causa um sentimento estranho. Como nossa economia mudou nesta última década!

Antes de fazer um juízo de valores sobre essa nova situação, quero deixar bem clara uma posição que defendo há algum tempo: a fragilidade externa de nossa economia foi a causa principal de nossos problemas econômicos que ocorreram a partir da segunda metade dos anos 70 do século passado. Por isso a informação divulgada pelo Banco Central, apesar de já esperada havia tempos, tem uma importância tão grande.

Ela marca o fim de uma época de crises constantes, crescimento medíocre e altamente instável, estagnação da renda da população e piora da distribuição de renda por conta da inflação elevada. Embora um grande número de economistas justifique o martírio dos últimos 30 anos a partir de várias outras distorções em nosso sistema econômico -pequena abertura para o exterior, riscos de natureza jurídica, sistema tributário irracional entre outros-, fica claro hoje que a fraqueza de nossa moeda era a mãe de todos os problemas que enfrentamos.

Não digo que, resolvida essa questão -e ela está hoje resolvida dentro de um horizonte de tempo longo-, os outros problemas que herdamos do passado desaparecerão. Mas afirmo, com convicção, que, sem resolver a questão externa, não havia mecanismos para enfrentar -e vencer- esses outros desafios.

Muitos vão certamente contra-argumentar -e tentar jogar água fria no meu entusiasmo- com afirmações como a de ser um absurdo um país como o Brasil ter uma posição credora externa. Nós precisaríamos de poupança vinda de fora para financiar nosso desenvolvimento. Essa afirmação poderia estar correta em um mundo econômico diferente do atual. Mas a experiência das últimas décadas mostra que os países em desenvolvimento que obtiveram maior sucesso em termos de crescimento foram, na maior parte dos casos, os que mantiveram a conta corrente em equilíbrio ou até superavitária.

O ajuste das contas externas é um presente, um efeito colateral do crescimento asiático, que elevou nossos termos de troca. Pode ser comparado ao primeiro estágio de um foguete que pode nos levar ao desenvolvimento. Mas esse primeiro estágio é apenas condição necessária, não suficiente, para que o Brasil consolide um novo patamar de desenvolvimento. Os próximos estágios não cairão do céu. O país precisará construí-los com firme ação do setor privado e do Estado, este como indutor do desenvolvimento.

Isso demanda investimento colossal em educação, saúde e infra-estrutura, áreas com escasso progresso no que depende da ação estatal. Implica que o governo deixe de ser um peso morto e busque aumentar sua produtividade. Implica reformas estruturais em diversas áreas.

A boa notícia é que temos algum tempo para construir essas condições. A má notícia é que não será o governo Lula, por absoluta inépcia, a fazer o que é preciso.


LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS, 64, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo FHC).lcmb2@terra.com.br

22/02/2008 - 14:05h Uma comemoração e um mea-culpa, de Zé Dirceu

do Blog de José Dirceu

Crítico duro, insistente, quase diário, de aspectos da política…

Crítico duro, insistente, quase diário, de aspectos da política econômica, principalmente dos juros altos, quero hoje trazer, de público, meus cumprimentos ao governo, ao atual e ao ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega e Antônio Palocci, ao presidente do Banco Central, Henrique Meirelles e aos integrantes de suas equipes por esse feito extraordinário de, pela primeira vez na história, transformar o Brasil de país devedor em país credor.

Quero chamar a atenção dos meus leitores e companheiros para o fato acima – primeiro para a importância dele, depois para o quanto há de diferença entre o momento atual que vivemos depois de 5 anos de governo do PT em comparação com os 8 anos anteriores de governo tucano.

(…)

Realço a importância e a comparação porque isso só confirma o que eu e muitos outros petistas e integrantes do governo dizemos: essa história de que não mudou nada e que o governo do PT sempre segue as mesmas políticas – particularmente a econômica – do governo tucano é uma balela.

Eu sempre disse, isso só interessa à oposição, a eles tucanos. É por esta razão que há pouco, em propaganda veiculada na mídia, associaram o governo petista a xerox. Veja, se querem fixar na opinião pública esta idéia de que seguimos a política deles, PSDB, é uma coisa que só a eles interessa. Hoje fica provado que a diferença entre um governo do PT e um governo tucano, é como a da água para o vinho.

Abri este comentário, o primeiro do blog, hoje, fazendo Justiça aos que critiquei muitas vezes. Faço isto sempre que reconheço ser minha obrigação. A partir de agora, espero que os tucanos e a oposição, em geral, façam o mesmo.

Afinal, suas figuras mais representativas, fundadores do PSDB, muitas delas ainda hoje aí, e na ativa, ganharam muitas eleições nos anos 70 e 80 tendo como bandeira a crítica à dívida externa, extremamente aumentada pela ditadura militar, parte dela para obras faraônicas, exatamente o que embasava os ataques de seus adversários. Nós, do PT, acabamos com o problema tucanos!

Leia a integra do artigo no Blog de Zé Dirceu

22/02/2008 - 13:23h O BC de esquerda

O Filtro, de Thomas Traumann
Época

Em um encontro em novembro com líderes do Movimento Sem Terra, o presidente Lula reagiu com uma blague às críticas contra a política econômica do governo. “Quem está mais à esquerda nesse governo é o [Henrique] Meirelles”, disse Lula, para as risadas gerais. A ironia do episódio é que ontem o Banco Central do conservador Meirelles anunciou um velho sonho das esquerdas: a dívida externa brasileira está zerada. Lógico, sem os métodos defendidos pelo MST.

Numa ação hipotética, o governo do Brasil pode usar as reservas para quitar todos os compromissos estatais e privados e ainda ficar com US$ 4,3 bilhões de troco. É óbvio que o anúncio de ontem tem mais efeito simbólico do que prático, mas ele é emblemático de quanto tem sido duradouro e sem sobressalto o rumo da política monetária do governo. Em 2002, as reservas cambiais eram de US$ 16,3 bilhões. Hoje passam de US$ 184 bilhões. Aproveitando a maré alta da liquidez da economia mundial, o governo Lula antecipou o pagamento da dívida com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e resgatou antes do vencimento vários títulos que foram emitidos na renegociação da dívida externa brasileira de 1994. Nos últimos anos, o BC montou uma política agresiva de acúmulo de reservas, ajudado em muito pela desvalorização do dólar no mercado mundial.

O Globo traz um bom memorial da transformação do discurso dos vários governos brasileiros em relação à dívida. Da frase de Tancredo Neves, em1985 (“Não pagaremos a dívida dívida com a fome dos brasileiros”), passando pela moratório no governo Sarney.

Ao colunista Guilherme Barros, da Folha, Carlos Langoni, presidente do Banco Central em 1982, lembra que um navio da Petrobras com óleo chegou a ficar retido na Arábia Saudita. O governo saudita não aceitou um cheque do Banco do Brasil em pagamento. Langoni foi obrigado a transferir reservas do Banco Central para o Banco Central da Arábia Saudita. “Ele só aceitavam reservas contra reservas”, diz Langoni. “Na época, fiquei noites e noites sem dormir. Hoje [ontem] vou dormir tranqüilo”, lembra.

O colunisra Celso Ming, de O Estado, é o único a lembrar que a comemoração pode durar pouco. “Se for confirmada a compra da mineradora suíça Xstrata pela Vale, negócio que implicará tomada de empréstimos em moeda estrangeira, a dívida externa total voltará a aumentar em cerca de US$ 50 bilhões. Assim, as reservas teriam de crescer pelo menos mais US$ 46 bilhões para que o Brasil voltasse à condição de credor externo líquido”, escreve.

Quase todos os jornais destacam que o anúncio do Banco Central poderá facilitar a elevação do Brasil à condição de ‘grau de investimento’. É uma discussão menor, como explicou a O Globo o ex-diretor do Banco Central, Alexandre Schwartzman: “Eles já sabem do processo pelo qual vínhamos passando. É como cruzar a linha do Equador: não interessa se você está a cem metros antes ou depois dela. O que importa é o caminho percorrido até lá”. Isso sem contar que hoje é mais fácil essas agências que calculam o risco dos países _ como a Austin Rating, Standart & Poor’s e Fitch _ quebrarem do que o Brasil.

Por Thomas Traumann

22/02/2008 - 11:31h Governo Lula livra Brasil da dívida externa

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Ontem, comentando a notícia sobre o fim da dívida externa (As reservas superam o montante da dívida externa, tanto pública como privada, zerando virtualmente a dívida externa), errei quando disse que não seria manchete dos jornais hoje. Foi manchete sim, contrariamente ao que eu afirmei. Pensei que a mídia evitaria chamar a atenção para um fato que tem um valor imenso e que reforça os acertos do governo Lula. Me enganei e hoje todos os jornais comportam o tema com manchete de capa.

Mas se a notícia não foi escamoteada, o conteúdo dos artigos mostra que minha inquietude não era vã. Os principais jornais evitam dizer claramente o que esta aqui no título: Governo Lula acabou com a dívida externa brasileira.

Não que o processo de redução do endividamento externo tenha começado só em 2003. Porém foi uma decisão do presidente Lula pagar anticipadamente o empréstimo que FHC tinha feito com o FMI em 2002 e também de aumentar as reservas do Banco Central comprando dólares, assim como de assegurar um superavit primário consistente. Como reconhece Carlos Langoni, diretor do Centro de Economia Mundial da Fundação Getulio Vargas (FGV) e ex-presidente do BC, “o fim da dívida externa brasileira servirá de atalho para o grau de investimento. Para ele, a “política acertada” de composição de reservas nos últimos anos foi essencial: — O Brasil será o segundo país emergente do mundo, atrás só da China, a continuar atraindo investimento de longo prazo com força, mesmo com a crise financeira.” (O Globo).

Já em outra matéria, vejam como O Globo apresenta esta vitória do governo Lula: “A dívida externa foi solucionada com o pragmatismo e a ortodoxia usados no combate à inflação. A bandeira contra a dívida externa ficou para trás. E o fato é celebrado justamente no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente que um dia foi líder sindical e que bradou contra a dívida externa a ponto de o seu partido ter proposto auditoria, moratória e até plebiscito para saber se o país deveria, ou não, pagá-la.
Nenhuma medida radical foi tomada. Não houve mágica.

Houve, sim, um longo caminho de renegociações, troca de títulos e, mais recentemente, de grande acumulação de reservas internacionais, com a compra oportunista pelo Banco Central de dólares que se espalhavam em abundância pelo mercado brasileiro, com o avanço das exportações. Inchavase as reservas e impediase a queda exagerada do dólar. Tudo isso permitiu, sem heterodoxia e sem passe de mágica, espantar o fantasma do endividamento.

Quase duzentos anos depois, os sustos com as idas periódicas do país ao Fundo Monetário Internacional (FMI) sumiram. No lugar, apareceu um Brasil que foi, sim, ao FMI no fim de 2005, mas para antecipar o pagamento de sua dívida de US$ 15 bilhões, contraída meses antes de o presidente Lula assumir a condução do país.” (O Globo, “O fantasma não assusta mais”).

O fato é celebrado, como por acaso, durante o governo Lula, mas o mérito não é dele. A dívida com o FMI parece que foi ele que fez e não FHC e o PSDB-PFL.

Nenhuma menção é feita a “Carta ao povo Brasileiro” que norteu a campanha eleitoral que levou Lula à presidência em 2002. Nenhuma menção é feita ao fato que o conjunto das privatizações realizadas durante o governo FHC não reduziram em quase nada nosso endividamento externo. Nada é dito sobre o fato que a sobre-valorização do real provocou uma situação de agravamento da economia nacional e que a dívida externa atingiu seu pico em 1999-2000, com FHC. Nada, enfim, sobre o fato que as crises que tinham o Brasil como epicentro, obrigando a recorrer ao FMI para evitar à quebra do país, eram produto de uma política liberal-tucana e do grau do endividamento. Que o seu correlato foi o maior aumento da carga tributária do Brasil desde o começo de sua história econômica.

Os fato são estes: No final de 2002, as reservas do Brasil estavam em US$ 16,3 bilhões, e a dívida externa líquida era de US$ 165 bilhões. Hoje o Brasil têm uma “folga” de US$ 4 bi, ou seja a dívida externa está virtualmente zerada.

Não tem um jornal que mencione que tudo isto foi realizado sem privatizações, sem sacrificar o emprego e a renda do trabalhador, sem hipotecar o crescimento econômico e sem exaurir a riqueza nacional. Não tem um jornal que diga, ao mesmo tempo, que isto custou caro ao país. Que o dinheiro que foi utilizado para conseguir esta vitória faltou para infra-estrutra, para educação, para saúde e para segurança.

É bom lembrar que Lula honrou os compromissos do Brasil e pagou o que os outros contraíram: uma das maiores dívidas externas do planeta, constituída pela combinação de endividamento irresponsável desde a época da ditadura com juros internacionais flutuantes, manipulados em função dos interesses da política do FED norte-americano.

Em lugar disto, vemos muitas referências irônicas ao radicalismo do PT que nos anos 80 pregava a suspensão do pagamento e a auditoria da dívida. Mas muito pouco, ou nada, sobre os 8 anos do governo FHC em relação a esta questão da dívida externa.

Como reconhece o jornal O Estado de São Paulo: “O relatório divulgado ontem pelo Banco Central, segundo o qual o Brasil, pela primeira vez em 508 anos de história, deixa o papel de devedor e ingressa no seleto time dos credores do mercado internacional, é a consolidação de uma virada histórica.”

Para depois acrescentar: ” A explosão dos juros internacionais, que atingiu em cheio as nações mais endividadas, provocou a moratória nos anos 80. Como conseqüência, os investidores se afastaram do Brasil.

Nas décadas seguintes, o que se viu foi disciplina fiscal. O País aprendeu que, para ser atraente aos investidores estrangeiros, precisava melhorar suas finanças. Em troca de pacotes de ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI), teve de economizar mais. Apertou os cintos e conseguiu gerar superávit primário – a economia usada para pagar juros da dívida.”

Vamos lembrar que em 1994 a dívida externa era de US$ 88,2 bilhões e não parou de crescer até atingir em 2000, ou seja ao cabo de 6 anos de governo tucano, a astronômica cifra de US$ 190,3 bilhões de dólares.

Qual foi o superávit primário entre 1994 e 1998, primeiro mandato de FHC?

Qual foi o custo para o Brasil do populismo cambial durante esses anos?

Quanto foi torrado das reservas do BC para permitir assegurar a reeleição de FHC em 1998 e proceder a uma devaluação depois, imposta pela fuga do capital externo?

Sem maniqueismo, pois é verdade que o PT teve que adequar seu discurso e foi mudando de posição entre o radicalismo inicial em 1980 e a postura clara assumida na “Carta ao povo brasileiro” em 2002. Como também é verdade que particularmente nos dois últimos anos de FHC, Malan começou uma ativa política de redução do peso da dívida externa, de superávit primário e de ajuste fiscal.

Mas sem escamotear que o mérito principal desta “virada histórica” é do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, operário metalúrgico e do governo do PT.

Luis Favre

21/02/2008 - 14:19h Reservas superam dívida e Brasil torna-se credor externo pela 1ª vez na história

Esta notícia não será manchete amanhã. Hoje ela está na Folha online.

ANA PAULA RIBEIRO

da Folha Online, em Brasília

O Banco Central estima que as reservas internacionais já superam o total da dívida externa e que, dessa forma, o Brasil tornou-se um credor externo pela primeira vez. Essa condição deve-se à melhora das contas externas desde 2003, segundo análise que consta do boletim “Indicadores de Sustentabilidade Externa do Brasil – Evolução Recente”, divulgado nesta quinta-feira.

“[A dívida líquida externa] passou de US$165,2 bilhões, ao final de 2003, para US$ 4,3 bilhões, estimativa para 2007. No primeiro mês de 2008, já se estima que esse montante se tornará negativo em mais de US$ 4 bilhões, significando que, em termos líquidos, o país passou a credor externo, fato inédito em nossa história econômica”, relata o documento.

A dívida externa total líquida resulta quando se reduz da dívida externa bruta os ativos que o país possui no exterior, que basicamente são as reservas internacionais.

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