03/06/2009 - 15:42h Autismo é o preço da inteligência


Descobridor da estrutura do DNA diz que genes da alta cognição se relacionam com doença mental

James Watson admite que hipótese é “especulativa”, mas um outro grupo de pesquisa propôs mecanismo para explicar possível elo

Odd Andersen – 20.maio.2005/France Presse
james_watson.jpg
Biólogo norte-americano James Watson, descobridor do DNA, no Museu de Ciências de Londres

 

CLAUDIO ANGELO ENVIADO ESPECIAL A COLD SPRING HARBOR (EUA) – FOLHA SP

James Watson, descobridor da estrutura do DNA, pai da biologia molecular e polemista profissional, tem uma nova teoria para explicar a suposta genética da inteligência. Os genes que predisporiam algumas pessoas a habilidades intelectuais elevadas seriam os mesmos que disparam doenças como autismo e esquizofrenia.

Coincidentemente, é essa a hipótese que um grupo de pesquisadores da Universidade do Colorado está desenvolvendo. Os dados foram apresentados na semana passada nos Estados Unidos, logo depois de Watson ter delineado suas ideias.

“Isso é muito especulativo. Não posso provar”, admitiu à Folha o biólogo, de 81 anos. Mas a inteligência, continuou, é rara porque casais inteligentes têm probabilidade mais alta de terem filhos com problemas. “E esses genes tendem a ser eliminados pela seleção natural.”

Watson apresentou sua tese durante o 74º Simpósio de Cold Spring Harbor sobre Biologia Quantitativa, organizado pelo laboratório do qual ele era chanceler -até ser demovido do posto no fim de 2007 por ter feito comentários racistas.

Longe de se retratar pelo episódio, Watson ainda sugeriu, durante sua apresentação, que outro motivo pelo qual a inteligência é rara é que “as pessoas inteligentes pagam por dizerem a verdade. Sei disso por experiência pessoal”.

Autorreferência

O cientista começou a desenvolver sua hipótese depois de ter sido o primeiro ser humano a ter o genoma sequenciado.
“Fiquei assustado, descobri que tinha mutações em três genes ligados ao reparo do DNA”.

Esses genes, como o BRCA 1 e o BRCA2, entram em ação para corrigir danos causados durante a replicação do DNA ou por uma agressão do ambiente, como radiação. Mutações neles estão ligadas ao câncer.

“Pessoas com essas mutações tendem a ter filhos especiais”, disse. Watson tem um filho esquizofrênico.

Os mutantes são mais inteligentes que a média e têm menos filhos -e, de acordo com Watson, têm problemas para se relacionar com as outras pessoas. Veja os cientistas.

Supostamente, os genes da inteligência seriam eliminados pela seleção natural. “Mas por que eles não somem e a humanidade não fica mais estúpida?”

Elementar, afirma Watson. As sociedades que têm indivíduos com alta cognição, como Einstein e Darwin, se beneficiam. O processo evitaria o expurgo da inteligência -e da esquizofrenia- do “pool” genético dessas populações.

Faca de dois gumes

Menos especulativa é a ligação entre cognição e doenças mentais feita pelo grupo de James Sikela (Universidade do Colorado). Ele e seus colegas descobriram uma correlação entre o alto número de cópias de um gene numa certa região do DNA humano e o desenvolvimento do cérebro. Essa região, dizem outros estudos, estaria também implicada com autismo e esquizofrenia.

Os pesquisadores identificaram que uma região instável do genoma chamada 1q21.1 concentrava um número alto de cópias de um gene chamado DUF1220. “A relação de causa e efeito não está provada, mas nós relatamos uma correlação” entre o aumento do número de cópias desse gene na linhagem humana e o aumento do cérebro, disse Sikela à Folha.

Essa instabilidade é “uma faca de dois gumes”. “Ela teria permitido mais cópias do DUF1220 e, portanto, teria sido retida na evolução. Por outro lado, essa instabilidade não é precisa, e pode gerar um embaralhamento deletério de sequências. É por isso que os vários estudos recentes que têm relacionado variação no número de cópias na região 1q21.1 no autismo e na esquizofrenia chamaram nossa atenção: isso se encaixa na ideia de que os indivíduos com essas doenças são o preço que a nossa espécie paga pelo mecanismo que permitiu e permite a geração de mais cópias da DUF1220.”

Sikela disse que Watson não sabia de seus dados e que o mecanismo sugerido por ele é diferente. “Mas, em teoria, outras regiões do genoma poderiam se encaixar no modelo.”

26/05/2009 - 15:45h Os opostos se atraem

Diferenças no DNA desempenham um importante papel na atração dos casais

O Globo

opostos_dna.jpg

08/03/2009 - 15:29h Males da infância

+Marcelo Leite – FOLHA SP


O ser humano carrega marcas químicas indeléveis pela vida

O biólogo Sidarta Ribeiro, chefe da tropa do Instituto Internacional de Neurociência de Natal (RN), costuma dar uma palestra sobre Freud e a neurobiologia que deixa torcidos os narizes tanto de psicanalistas quanto de biólogos. O ponto alto é uma relação de pesquisas recentes para mostrar que Freud atirava no que via e às vezes acertava no que não podia ver. Faltava-lhe a mira telescópica da biologia molecular.
Ribeiro terá de aumentar a lista para incluir um trabalho revelador de Patrick McGowan. O estudo da universidade canadense McGill, na última edição do periódico científico “Nature Neuroscience”, focaliza um mecanismo que ajuda a entender como, de modo concreto e não por meio de vagas “pulsões”, experiências da infância conformam a base do comportamento do adulto.
McGowan não trabalhou com genes, que alguns desinformados ainda supõem conter todo o destino de uma pessoa escrito em código cifrado de DNA. Deu preferência para um dispositivo químico (metilação) que silencia genes, ou seja, impede que eles sejam usados pelas células. Fez essa escolha a partir de pesquisas com ratos apontando que era um mecanismo importante para gravar no cérebro efeitos de vivências infantis.
Ninguém sabe se roedores têm complexo de Édipo, mas já se conhece bem o resultado de lambidas frequentes das ratas sobre seus filhotes. Eles se tornam mais resistentes ao estresse, característica que mantêm até a vida adulta. E esta resposta tem a ver com hormônios glicocorticóides, como o cortisol (conhecido como o “hormônio do estresse”).
No foco da pesquisa canadense estava a metilação do gene NR3C1, mordaça bioquímica que atrapalha a comunicação desses hormônios. Seguindo a pista dos ratos, a equipe de McGowan levantou a hipótese de que seres humanos maltratados na infância -por abuso sexual, espancamentos etc.- apresentariam o mesmo padrão de silenciamento. Acertaram na mosca do alvo invisível para Freud.
Como não dá para fazer com gente viva os experimentos infligidos a roedores, o grupo da McGill recorreu a cadáveres. Mais exatamente, cadáveres de suicidas, divididos em dois grupos: com e sem história documentada de abusos na infância.
Para controle, examinaram também a metilação do gene NR3C1 no cérebro de pessoas que tivessem morrido de modo repentino. O resultado esperado era que o padrão de silenciamento de glicocorticóides entre suicidas maltratados na infância fosse mais intenso do que entre os outros suicidas ou entre não-suicidas. Não deu outra.
McGowan mostrou que, assim como acontece com ratos, seres humanos carregam para a vida adulta marcas indeléveis do que os entes queridos lhes fazem (ou deixam de fazer).
É óbvio que devem existir muitos outros mecanismos do gênero em ação, como alerta Steven Hyman, da Universidade Harvard, no mesmo número da “Nature Neuroscience”. Para entendê-los, “será necessária a profundidade ilustrada pela linha de pesquisa que culminou no trabalho de McGowan et al., mas também uma amplitude muito maior, e então [teremos] os meios para elucidar o número estonteante de interações gene-gene e gene-ambiente que estão por trás de quem somos e do que fazemos”.
O inconsciente molecular, por assim dizer -de cuja compreensão não nos encontramos tão mais próximos assim do que estava Freud quando escreveu, em 1895, seu “Projeto para uma Psicologia Científica”.


MARCELO LEITE é autor da coletânea de colunas “Ciência – Use com Cuidado” (Editora da Unicamp, 2008) e do livro de ficção infanto-juvenil “Fogo Verde” (Editora Ática, 2009), sobre biocombustíveis e florestas. Blog: Ciência em Dia ( cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br ). E-mail: cienciaemdia.folha@uol.com.br

08/02/2009 - 11:24h Darwin 200 anos depois

http://g.virbcdn.com/cdnImages/resize_510x1500/Image-66769-1106830-darwinday.jpg

Herton Escobar – O Estado SP

“No futuro distante, vejo campos abertos para pesquisas muito mais importantes. A psicologia será baseada num novo fundamento, baseado na necessária aquisição de cada poder e capacidade mental via gradação. Luz será lançada sobre a origem do homem e sua história.”

Charles Darwin, em A Origem das Espécies, 1859

Na semana em que Charles Darwin completaria 200 anos, a atual crise financeira-econômica mundial oferece um cenário ideal para estudar o legado do grande naturalista. Assim como o asteroide que caiu sobre a Terra há 65 milhões de anos alterou radicalmente o clima do planeta, levando os dinossauros à extinção e permitindo a ascensão dos mamíferos (até então pequenos animais noturnos que viviam à sombra dos grandes répteis), o colapso de Wall Street detonou uma sequência de eventos que alteram profundamente o ambiente econômico mundial.

Empresas, bancos e modelos de negócios que não conseguirem se adaptar às novas condições correm o risco de desaparecer da face da Terra, tal qual os dinossauros. Alguns gigantes do setor financeiro já foram extintos. Novos negócios sustentáveis, antes sufocados pelo ambiente especulativo e de consumo desenfreado, agora têm uma chance para florescer, tal qual os pequenos mamíferos do cretáceo.

Esse é o princípio da evolução por seleção natural, descoberto por Darwin em meados do século 19, após sua viagem de volta ao mundo a bordo do H.M.S. Beagle e publicado em 1859, no livro A Origem das Espécies – para muitos, a obra mais importante da história da ciência. Darwin enxergou algo fundamental e revolucionário sobre o funcionamento da natureza: um mecanismo pelo qual espécies podem evoluir, diferenciar-se e originar novas espécies por meio de forças exclusivamente biológicas, sem necessidade de intervenção divina ou atos sobrenaturais. Um mecanismo tão poderoso que, como Darwin bem previu, abriu caminho para novos – e polêmicos – campos de estudo a respeito da existência humana.

Que o homem evoluiu de um ancestral comum com os primatas já é uma certeza científica universal, confirmada por um batalhão de informações genéticas produzidas desde a descoberta do DNA. Mas será que a espécie humana ainda está evoluindo? E até que ponto a seleção natural poderia explicar não apenas a evolução de características físicas do ser humano, como a postura ereta e o cérebro grande, mas também de características comportamentais, como o altruísmo, o egoísmo, o racismo ou uma propensão à infidelidade conjugal? Essas são algumas das perguntas darwinianas com as quais cientistas e filósofos de um “futuro distante” se digladiam no presente.

BASE CIENTÍFICA

O primeiro passo de Darwin para chegar a sua teoria foi perceber que todos os indivíduos – inclusive os membros de uma mesma espécie – são anatomicamente e fisiologicamente diferentes entre si. Alguns nascem com pernas um pouco mais longas, com a visão um pouco mais aguçada, com antenas mais sensíveis ou com a capacidade de digerir alimentos melhor do que seus pais e irmãos.

Se alguma dessas características calha de ser vantajosa no ambiente em que aquele organismo vive – por exemplo, a capacidade de viver mais tempo sem água em um ecossistema árido ou uma coloração de asa que se camufla melhor com a cor da casca de uma árvore -, esse indivíduo terá melhores chances de sobreviver e, consequentemente, de deixar descendentes com características genéticas iguais às dele para compor as geração futuras (chamada seleção positiva). Já os indivíduos menos adaptados sofrem o efeito contrário: em média, vivem menos e deixam menos descendentes (seleção negativa).

Deixe a seleção natural agir por tempo suficiente e as variedades menos aptas tenderão a desaparecer da população, substituídas pelos descendentes das variedades mais bem adaptadas. É o que Darwin chamou de “luta pela sobrevivência”, mas que ficou conhecido pelo apelativo (e enganoso) título de “a lei do mais forte”. Novas espécies surgem quando uma variedade se separa da população original e segue um caminho evolutivo diferente, tal como as linhagens do homem e do chimpanzé divergiram de um ancestral comum.

Quando as condições ambientais mudam, as espécies precisam mudar também. Características que eram benéficas ou irrelevantes podem se tornar deletérias e vice-versa. É um processo contínuo, porém lento e gradual, que pode levar de algumas dezenas a muitos milhões de anos, e por isso é tão difícil de ser observado diretamente. Em um evento extremo, como a queda de um asteroide ou a explosão de uma crise financeira global, porém, a seleção atua de maneira óbvia e implacável. No lugar de um bando de répteis gigantes, pode-se acabar com um bando de mamíferos pequenos e peludos.

UNIVERSALIDADE

Por mais polêmica que ainda seja do ponto de vista religioso, a teoria da evolução por seleção natural é hoje um pilar central das ciências biológicas, tão indispensável para explicar o desenvolvimento de uma joaninha quanto a resistência de bactérias a antibióticos ou a resposta de uma floresta ao efeitos do aquecimento global. Como disse o geneticista ucraniano Theodosius Dobzhansky, em 1973: “Nada na biologia faz sentido, a não ser sob a luz da evolução.”

“O que está implícito nessa frase é que a biologia só se consolidou como ciência após a teoria da evolução”, diz o biólogo Diogo Meyer, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. “Antes havia apenas o estudo dos seres vivos; não havia uma teoria que integrasse tudo numa ciência comum. Hoje sabemos que os processos que moldam o genoma de uma bactéria e de um elefante são parte da mesma família.”

A analogia sobre a crise financeira serve para mostrar que as teorias de Darwin – agrupadas no que se convencionou chamar de “darwinismo” – foram mais longe ainda: extrapolaram os limites da biologia e colonizaram outras áreas da ciência, influenciando várias esferas do pensamento humano.

Mais até do que uma analogia, a evolução por seleção natural é um elemento crucial da teoria econômica moderna, segundo o economista José Eli da Veiga. “A ideia é que qualquer sistema evolutivo obedece às leis do darwinismo. E a economia é certamente um sistema evolutivo”, afirma Veiga, professor da Faculdade de Economia e Administração da USP. “Um economista que não entende Darwin é um economista totalmente ultrapassado.”

Visto por uma ótica puramente evolucionista, vale a pena perguntar: ao financiar a salvação de empresas que, de outra forma, iriam à falência, estariam os governos indo contra a seleção natural? Vale a pena salvar os dinossauros?

“Darwin fez uma teoria biológica, mas construiu uma linha de raciocínio tão abstrata que acabou transcendendo a biologia”, diz o pesquisador Charbel El-Hani, coordenador do Grupo de Pesquisa em História, Filosofia e Ensino de Ciências Biológicas da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

SOCIOBIOLOGIA

No que se aplica à evolução de plantas, besouros, peixes e sabiás, a teoria de Darwin já é ponto pacífico na ciência. É quando se tenta aplicar a seleção natural aos seres humanos que a coisa fica complicada. Darwin desenhou uma árvore da vida na qual o homem é um galho tal como outro qualquer – uma espécie dotada de inteligência superior, porém gerada pelos mesmos mecanismos de diferenciação e seleção que produziram as plantas, besouros, peixes e sabiás. “Devo inferir por analogia que, provavelmente, todos os seres orgânicos que já viveram nesta Terra descenderam de uma única forma primordial, na qual a vida foi soprada pela primeira vez”, escreveu Darwin, no capítulo final de A Origem das Espécies.

Ele poderia ter deixado o ser humano fora dessa história, mas não deixou. As semelhanças entre os homens e os primatas já eram óbvias demais para serem ignoradas, mesmo no século 19, antes da genômica. A mera sugestão de que o Homo sapiens era uma forma evoluída de macaco e não um ser especial criado por Deus foi suficiente para detonar uma batalha entre ciência e religião que persiste até os dias de hoje. Darwin até tentou ficar de fora dessa briga no início, deixando o tema de fora de A Origem das Espécies (”Luz será lançada sobre a origem do homem e sua história” é a única referência que ele faz à espécie humana no texto). Mais tarde, porém, publicaria um livro específico sobre o assunto, chamado A Origem do Homem e a Seleção Sexual, de 1871.

A versão mais moderna desse debate se dá no campo da “sociobiologia”, uma ciência controversa que busca integrar conceitos biológicos ao estudo do comportamento humano. Umas de suas disciplinas, como previu Darwin, é a chamada “psicologia evolutiva”.

O raciocínio básico da sociobiologia é o de que, se o comportamento dos animais resulta de processos evolutivos, e os seres humanos são animais que evoluíram como todos os outros, então seu comportamento social deve ser, também, influenciado por processos biológicos – e não apenas culturais.

O tema é extremamente polêmico entre biólogos, antropólogos e sociólogos. “Não há nada no ser humano que não seja explicado por leis biológicas”, diz o biólogo Mário de Pinna, vice-diretor do Museu de Zoologia da USP. “A cultura tem origem biológica e, sendo assim, está sujeita também às leis da evolução.” Para ele, o ser humano continua a ser moldado pela seleção natural, tanto culturalmente quanto biologicamente. “Evolução nada mais é do que uma mudança na frequência de genes ou suas combinações ao longo do tempo numa população”, afirma Pinna. “Se você morre sem deixar filhos, geneticamente, é como se você nunca tivesse existido. Isso é seleção.”

O geneticista Sérgio Pena, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), discorda. “A evolução humana, do ponto de vista biológico, acabou”, diz. “Temos uma cultura que vai diretamente contra a seleção natural. Temos a medicina: pessoas que deveriam morrer não morrem.” Hoje, segundo Pena, a única seleção relevante é a cultural. “Evoluímos tanto que um dos produtos da nossa própria evolução é uma nova maneira de evoluir”, diz. “Tomamos as rédeas do nosso próprio destino como espécie.”

O dilema, segundo a antropóloga Gláucia Silva, da Universidade Federal Fluminense (UFF), surge de uma separação equivocada entre homem e natureza, enraizada nas culturas ocidentais. “Os seres humanos são radicalmente distintos de todos os outros animais, mas não deixam de ser animais”, afirma ela. A sociobiologia, segundo Gláucia, tem o mérito de tentar reconstruir essa unidade – porém, sem oferecer respostas satisfatórias, reduzindo tudo a uma questão genética. “Os sociobiólogos não sabem nada de antropologia social. Eles têm respostas tão simples que dá vontade de rir.”

Gláucia defende a tese de que a espécie humana continua a evoluir biologicamente – “Basta estar vivo para ser passivo de seleção”, diz ela -, mas que o comportamento social humano não tem nenhuma relação com isso. Nem mesmo o comportamento sexual. “Os seres humanos não têm instinto sexual”, diz a antropóloga. “A regulação da nossa atividade sexual é 100% cultural.”

As discordâncias mostram que a obra de Darwin está longe de virar história e que muitas das questões levantadas por ele continuam tão importantes no século 21 quanto eram no século 19. “É realmente notável que um naturalista daquela época pudesse fazer perguntas que permanecem relevantes tanto tempo depois”, diz o ecólogo Thomas Lewinsohn, da Universidade Estadual de Campinas.

Ele discorda de outros cientistas que prefeririam abandonar o título “teoria” e apresentar a evolução por seleção natural como um “fato” consumado. “Chamar uma teoria de fato é como transformá-la num fóssil”, diz. “A palavra de Darwin não é uma palavra sagrada, que não pode ser questionada. É uma teoria viva, em constante desenvolvimento, que pode e deve ser sempre reexaminada.”

30/11/2008 - 17:51h Criacionismo no Mackenzie

http://www.passeiweb.com/saiba_mais/voce_sabia/imagens/darwin_evolucao_2.jpg

+ Marcelo Leite – FOLHA SP

Colégio prega idéia de origem religiosa em aula de ciências

O Instituto Presbiteriano Mackenzie abrange uma universidade e uma escola das mais tradicionais de São Paulo. Só na unidade paulistana do colégio há mais de 1.800 alunos. Seu campus no quarteirão ladeado pela avenida da Consolação e pela rua Maria Antônia é um ponto de referência na cidade.

Talvez poucos se dêem conta de que se trata de um estabelecimento confessional de ensino. Isso está bem explícito no nome da instituição, porém. Agora o Colégio Mackenzie é também, oficialmente, criacionista.

Criacionismo é a doutrina segundo a qual Deus criou o mundo com todas as espécies que existem hoje. Isso contradiz a explicação darwinista para a diversidade biológica, fruto da evolução por seleção natural. Inúmeras observações comprovam postulados centrais do darwinismo, como a ascendência comum (todas as espécies provêm de um ancestral único).

O fato de o DNA ser a molécula da hereditariedade em todas elas é a melhor prova desse princípio. Os primeiros seres vivos da Terra “inventaram” essa maneira de transmitir características de uma geração a outra, há cerca de 4 bilhões de anos, e ela se perpetuou desde então.
A direção do Mackenzie não nega os avanços da biologia trazidos pelo darwinismo, mas acredita que é preciso opor-lhe o contraditório. Em outras palavras: ensinar a seus alunos que há outra explicação, de fundo religioso, para a origem das espécies.

Quase 200 anos depois de Charles Darwin (1809-1882) e 150 após a publicação de sua grande obra, “Origem das Espécies”, os educadores do Mackenzie aceitam só o que chamam de “microevolução” (organismos se adaptam a novas condições do meio).

Não, porém, a “macroevolução” (tal adaptação não seria suficiente para originar novas espécies, em verdade criadas por Deus).

A doutrina criacionista não é apresentada somente nas aulas de religião, mas igualmente nas de ciências. Em 2008 foi usada nos três primeiros anos do ensino fundamental 1, ainda em fase piloto, uma série de apostilas traduzidas e adaptadas de material da Associação Internacional de Escolas Cristãs (ACSI, na abreviação em inglês), com sede no Colorado, nos Estados Unidos.

A coleção utilizada com crianças de 6 a 9 anos se chama Crescer em Sabedoria. Na capa do volume do terceiro ano estava estampado “Ciências – Projeto Inteligente”.

É uma alusão ao argumento do “design inteligente”: a natureza é tão complexa e os organismos tão perfeitos que só o desígnio de um arquiteto (Deus) pode ter sido responsável por sua criação. “Quando Deus formou a Terra, criou primeiro o ambiente. Criou elementos não vivos, como o ar, a água e o solo. Depois, Deus criou os seres vivos para morarem nesse ambiente”, afirma-se na pág. 10. O item 2.1 do volume se chama “O plano de Deus para os ambientes”.

Pode ser lido na pág. 17: “Deus projetou as cores e as formas de cada animal e o colocou em um ambiente que era perfeito para eles [sic]. Quando um animal usa suas cores ou formas para se esconder em seu ambiente, dizemos que ele está camuflado”.

A direção do Mackenzie justifica a omissão da evolução por seleção natural, nessa apostila de ciências, dizendo que se trata de conteúdo previsto apenas para o ensino fundamental 2. Além disso, o material da fase piloto de 2008 foi revisto e a ênfase religiosa, atenuada, mas não excluída.
Darwin, todavia, continua de fora.

Só uma dúzia de pais reclamou.

MARCELO LEITE é autor de “Ciência – Use com Cuidado” (Editora da Unicamp, 2008) e de “Brasil, Paisagens Naturais -Espaço, Sociedade e Biodiversidade nos Grandes Biomas Brasileiros” (Editora Ática, 2007). Blog: Ciência em Dia (cienciaemdia.folha.blog.uol.com.br).
E-mail: cienciaemdia.folha@uol.com.br

14/09/2008 - 10:26h Musculação fortalece o cérebro

Estudos mostram que exercícios físicos melhoram o funcionamento dos neurônios

pilates_bola.jpg

Antônio Marinho – O Globo

Ter um corpo com músculos definidos é sinal de inteligência. Pesquisas americanas indicam que os exercícios de força associados a treinamento aeróbio ativam os neurônios e retardam o envelhecimento do cérebro. Um dos motivos é que a atividade física estimula genes que regulam o órgão. Os dados foram apresentados este fim de semana no III Congresso Brasileiro de Nutrição Esportiva Funcional e IV Congresso Internacional de Nutrição Clínica Funcional, na sede da Fecomércio, em São Paulo. Especialistas discutiram ainda como usar os alimentos para prevenir e controlar desequilíbrios do organismo.

De acordo com estudos, a prática de exercícios aumenta a oxigenação no cérebro. Este é apenas um dos benefícios da malhação.

Segundo o pesquisador Michael Colgan, do American College of Sports Medicine e da British Society for Nutritional Medicine, o esforço produz novas mitocôndrias, organela responsável pela produção de energia.

Para fabricar mais mitocôndrias, o cérebro acaba estimulando a formação de neurônios, a neurogênese.

— Antes se dizia que isso era impossível, que as pessoas nasciam com certo número de neurônios e eles morreriam com os anos. Hoje sabemos que o cérebro cria novas células o tempo todo — diz Colgan, autor de livros sobre o tema, como “Save your brain” (Salve o seu cérebro), ainda não lançado no Brasil.

É por essa razão que o foco da pesquisa em atividade física tem sido quais genes ela regula e como eles afetam a expressão de DNA, a síntese de RNA, entre outras reações.

— Não se trata apenas de oxigenar o cérebro, mas como os exercícios afetam a base de nosso código genético e a sua expressão — afirma Colgan.

Malhação, portanto, é um dos melhores combustíveis para os neurônios. Se a pessoa tem pouca massa muscular tem dificuldade em oxidar as gorduras.

— Quando se perde músculos, há aumento de peso e maior risco de doenças, como diabetes, síndrome metabólica, problemas cardiovasculares, mal de Alzheimer e outros males crônicos. Os músculos são os principais órgãos capazes de oxidar a gordura.

cerebro.jpg

Má nutrição afeta a libido e causa impotência

Colgan recomenda o equilíbrio nas séries para obter mais vantagens. Os músculos têm duas fibras básicas: a de contração rápida, que oxida carboidratos, e a lenta, que oxida gorduras. Exercícios aeróbicos, como caminhada, corrida, ciclismo e natação, aumentam o número de fibras de contração lenta.

Já exercícios de força aumentam a massa muscular e o número de fibras de contração rápida, de explosão. Estas ajudam a queimar os açúcares (carboidratos). Se a pessoa pratica muito exercício de força, perde fibras lentas. Ao exagerar no treino aeróbico, perde massa muscular.

Outros estudos confirmam a teoria de que exercício físico é bom para o cérebro. Pesquisa realizada com 138 voluntários na Universidade de Melbourne, na Austrália, e publicada no “Journal of the American Medical Association”, indicou que a atividade física melhora a função cognitiva de pessoas acima de 50 anos e com leve falha de memória.

Porém, só malhar é pouco. Colgan e especialistas reunidos no congresso recomendam a nutrição funcional, que visa a recuperar o equilíbrio bioquímico nas células. A partir de uma boa história clínica, de exames laboratoriais, mapeamento genético e polimorfismo enzimático — quando necessários — é possível traçar o perfil nutricional de cada um. Os exames são feitos no exterior, principalmente nos Estados Unidos, por meio de laboratórios conveniados no Brasil (cobram a partir de R$ 800). Há testes que avaliam a hipersensibilidade a nutrientes, numa lista de 94 a 270 alimentos.

Essa hipersensibilidade muitas vezes é responsável por doenças crônicas, alergias, fibromialgia, obesidade, hiperatividade e até depressão e demência. A idéia da nutrição funcional é regular os desequilíbrios orgânicos de acordo com a individualidade bioquímica e controlar o estresse oxidativo.

Nem sempre é necessário se submeter a exames caros para descobrir isso. O mineralograma, por exemplo, muito usado em medicina ortomolecular não é reconhecido pelo Conselho Federal de Medicina e só mostra a contaminação por metais tóxicos.

— Não há exame específico que aponte a necessidade exata de nutrientes em cada organismo.

O acompanhamento clínico permite observar a reação do organismo a determinados alimentos. Isto leva tempo e requer adesão do paciente. Até o aspecto das unhas revela deficiência ou excesso de nutrientes.

Há pessoas com testes laboratoriais normais que se sentem mal, o que pode ser causado por nutrição inadequada — diz Valéria Paschoal, diretora da VP Consultoria Nutricional e organizadora do Congresso de Nutrição Clínica Funcional.

Má nutrição afeta até a vida sexual. Valéria explica que a disfunção erétil e a frigidez ou falta de desejo sexual podem piorar ou serem desencadeadas por falta de nutrientes que produzem óxido nítrico, como alimentos ricos em arginina (soja e oleaginosas, por exemplo) que melhoram o fluxo de sangue.

Fontes de resveratrol, como chocolate amargo, suco de uva e vinho (sem excessos) e magnésio, encontrado em vegetais de folhas escuras, frutos do mar e peixes, são outros bons alimentos para produzir o óxido nítrico.

A frigidez na mulher pode estar associada à deficiência de zinco, que atua em hormônios. Mas a nutricionista lembra que um alimento bom para uma pessoa, pode fazer mal a outra.

— As dietas que focam apenas na contagem de calorias e açúcares não fazem mais sentido. É preciso escolher os alimentos de acordo com as características individuais. Até as queixas menos graves, como cansaço e falta de ânimo, são resultado de um estresse oxidativo por do desequilíbrio nutricional — diz Valéria.

Receitas para vida saudável

Nos dois congressos de nutrição especialistas discutiram ainda o uso de nutrientes no controle do estresse, no bem-estar físico e mental, na prevenção do envelhecimento precoce e em tratamentos de beleza

CORPO EM FORMA: Para o organismo funcionar bem é preciso consumir 54 nutrientes variados todos os dias, e muita gente não segue esta recomendação, segundo o pesquisador Michael Colgan.

Uma parcela grande da população ingere pouca quantidade necessária de todas as vitaminas e minerais. Por isso, a Academia Nacional de Ciências dos EUA e o Instituto de Medicina recomendam que a maioria dos americanos tome suplementos vitamínicos diariamente. Esses suplementos também devem ser usados pelas crianças e por mulheres durante a gravidez.

http://cache02.stormap.sapo.pt/fotostore01/fotos//90/50/6e/1723151_PU0pl.jpegMENOS ESTRESSE: O estresse físico e emocional causa desequilíbrio hormonal e gera um processo chamado fadiga adrenal, no qual as glândulas supra-renais funcionam mal. Hábitos alimentares e dieta inadequada pioram a situação, segundo a nutricionista Patrícia Davidson. Ela recomenda evitar produtos industrializados e com agrotóxicos, consumo exagerado de adoçantes (têm alta carga tóxica e não auxiliam a supra-renal a produzir hormônios), baixo consumo de alimentos ricos em vitamina C e de gorduras (deve-se evitar as saturadas) — os hormônios da suprarenal são obtidos a partir de colesterol —; pouco consumo de vitaminas do complexo B (principalmente B5 que ajuda na produção de hormônios e está presente em cereais integrais e leguminosas) e de alimentos ricos em magnésio (encontrado em maior quantidade em cereais integrais, leguminosas, folhas verdes escuras), importante para produzir os hormônios adrenais. Deve-se evitar abuso de carboidratos de alto índice glicêmico (pão francês, biscoito, massas, açúcar, arroz branco, batata, mel e doces) que elevam rapidamente a glicose e causam perda de energia. O álcool reduz a capacidade de o fígado lidar com as toxinas, fazendo com que elas permaneçam no sistema e levem ao acúmulo de gordura no coração e ao enfraquecimento do sistema imunológico. Para aliviar o estresse, Patrícia recomenda alimentos como aipo, gengibre e grãos integrais, que auxiliam na absorção de nutrientes, reduzem a liberação de hormônios estressantes e melhoram a concentração.

http://eyoga.uol.com.br/imagens/materia/semente-de-linhaca.jpgPLANTAS ANTIOXIDANTES: Uma maneira de neutralizar o dano oxidativo é fazer dieta rica em fitoquímicos com propriedades antioxidantes, encontrados em vegetais. A nutricionista e bioquímica Lucyanna Kalluf explica que o alho, por exemplo, previne o envelhecimento cerebral e a demência por ser rico em fitoquímicos antioxidantes. O chá verde tem potencial antiinflamatório e anticâncer graças ao componente EGCG. Ela destaca ainda a linhaça, que tem alto teor de lignanas que agem no equilíbrio dos receptores hormonais e diminuem a agregação de placas.

CÉREBRO SAUDÁVEL: O cientista Colgan diz que existem cerca de 20 nutrientes essenciais na prevenção do mal de Alzheimer. Os mais importantes são o ácido glicólico, o aminoácido L-carnitina, o ácido retinóico e a acetilcisteína. Deve-se consultar nutricionista ou médico para saber como consumir essas substâncias de forma saudável.

http://www.cienciapt.info/pt/images/stories/noticias/Saude/not9806.jpgREJUVENESCIMENTO: A nutrição influencia diretamente a saúde da pele, ao modular a síntese do colágeno e de hormônios. Segundo a nutricionista Eliane Tagliari, a recomendação diária deve ser de acordo com individualidade bioquímica de cada um, mas há nutrientes com um papel mais importante, como silício, selênio, coenzima Q10, ácido alfalipóico, quercetina, resveratrol, silimarina, magnésio, cálcio e complexo B. Mesmo os idosos podem se beneficiar, quando melhoram a absorção desses nutrientes através da recuperação da flora intestinal e da produção de enzimas digestivas. Uma boa hidratação é fundamental.

05/09/2008 - 15:15h Tumores usam rede de genes para matar

Uma representação de molécula de DNA
genoma_cancer.jpg

Mapa detalhado de tumor de cérebro mostra 60 mutações ativas na doença, o que afasta ainda mais esperança de cura

Estudo internacional com participação da USP sugere, no entanto, que ataque ao mal pode ser feito mirando grupos de reações celulares

EDUARDO GERAQUE – FOLHA SP

DA REPORTAGEM LOCAL

Todos os caminhos levam ao câncer. O mais detalhado mapa genético do glioblastoma (tumor agressivo que ataca o cérebro), publicado hoje, revela que a doença pode brotar de pelo menos 60 mutações genéticas -o que torna, em princípio, muito mais árdua a tarefa de derrotar o problema.

Para dar uma idéia do desafio, a principal droga existente hoje contra esse tipo de tumor, que é incurável e mata em poucos meses, atua em uma única mutação. É o Glivec, que já foi chamado de “revolução” no tratamento da doença.

Toda essa complexidade do câncer também apareceu no mapa dos tumores de pâncreas, onde pelo menos 63 alterações de genes disparam a proliferação de células malignas.

Os dois estudos, que investigaram 20.661 genes de 46 pacientes, estão publicados no periódico científico “Science”. A Faculdade de Medicina da USP participou do trabalho sobre o câncer de cérebro.

“Agora, muito por causa do avanço tecnológico, eles conseguiram olhar para a genética dos tumores em uma escala muito mais detalhada”, disse Sandro de Souza, pesquisador do Instituto Ludwig de São Paulo, que não participou das pesquisas. Os dois grupos principais que assinam os trabalhos são do Centro de Câncer Johns Hopkins Kimmel (EUA).

De acordo com Bert Vogelstein, co-autor dos trabalhos, os mapas genéticos devem mudar a visão que se tem do câncer.

“Os dados sugerem que talvez não devamos mais olhar os genes individuais, mas sim focar a maneira como esses genes operam”, disse o cientista.

Nova abordagem

A boa notícia do estudo pode estar exatamente nos caminhos genéticos usados para deflagrar o tumor. Se no caso do câncer de pâncreas ocorrem mutações em 63 genes, o número de vias usadas por essas alterações -ou seja, as cascatas bioquímicas por meio das quais cada gene defeituoso adoece a célula- está ao redor de 12.

Algumas dessas vias são comuns, como a regulação da apoptose, o “suicídio” cometido por células anormais.

Isso tem implicações importantes no desenho de novos tratamentos contra o câncer, concorda Souza, que também trabalha em seu laboratório garimpado alterações genéticas relacionadas com vários tipos de tumores humanos.

Os mapas também revelaram que alguns genes individuais ainda podem ajudar os cientistas. É o caso do IDH1, presente no glioblastoma- tumor que ataca as células glias, responsáveis, entre outras coisas, pela sustentação dos neurônios.

A pesquisa mostrou que os portadores de mutação no IDH1 que desenvolveram a doença tiveram uma sobrevida maior sobre os que não tinham a mutação. E essa alteração genética também aparece com mais freqüência em indivíduos jovens, ao redor dos 33 anos.

Todos esses mapas genéticos tumorais – os mesmos grupos apresentaram no ano passado o detalhamento genético do câncer de cólon e de mama- serão cada vez mais freqüentes daqui para frente, afirma Souza.

“As máquinas de seqüenciamento genético utilizadas agora são bastante potentes.”

Segundo Souza, um desses supercomputadores pode seqüenciar todo o genoma humano em apenas um ou dois dias.

“Todo o seqüenciamento do Projeto Genoma do Câncer [do Brasil] demorou ao redor de dois anos. Com uma dessas máquinas usadas agora seria possível gerar os mesmos resultados em menos de dez dias.”

05/04/2008 - 04:27h Argentina pune casal que criou bebê de desaparecidos

sampallo.JPG
María Eugenia Sampallo muestra las fotos de sus padres desaparecidos durante la dictadura

Jovem foi registrada como filha e iniciou processo

Folha de São Paulo

A Justiça argentina condenou a, respectivamente, oito e sete anos de prisão, Osvaldo Rivas e María Cristina Gómez Pinto, casal que, em 1978, se apropriou da filha de dois dissidentes desaparecidos nos porões da última ditadura militar argentina (1976-1983).

Rivas e Gómez foram processados por iniciativa da própria filha adotiva, María Eugenia Sampallo, 30. Foi a primeira vez que um julgamento deste tipo foi iniciado pela própria pessoa apropriada.
A Justiça também condenou o capitão da reserva Enrique José Berthier -responsável por seqüestrar Sampallo e entregá-la a Rivas e Gómez- a dez anos de prisão.

A decisão do Tribunal Federal Oral de Buenos Aires é a primeira a condenar pessoas que adotaram bebês roubados de dissidentes mortos ou desaparecidos durante a ditadura. Antes, só militares responsáveis pela entrega dos bebês já haviam sido condenados.

A acusação pedia a condenação do casal e de Berthier por 25 anos, sentença máxima, sob as acusações de retenção ilegal de Sampallo e de falsificação da certidão de nascimento dela. Gómez foi absolvida da segunda imputação.

Sampallo descobriu sua identidade real em 2001, quando, após ser localizada pelas Avós da Praça de Maio, um exame de DNA revelou que ela era filha de Leonardo Sampallo e Mirta Barragán, seqüestrados em dezembro de 1977 pela ditadura argentina. Em fevereiro do ano seguinte, Barragán deu à luz no cativeiro. Em maio do mesmo ano, a menina foi entregue por Berthier ao casal que a criaria. Já os pais biológicos estão desaparecidos até hoje.

“Eles não são meus pais. São meus seqüestradores. Não tenho nenhum tipo de ligação emocional com eles”, disse Sampallo, em entrevista recente. “Estes são meus pais”, completou, em lágrimas, segurando uma foto dos desaparecidos.

As Avós da Praça de Maio, grupo dedicado à recuperação de filhos de desaparecidos durante a ditadura, calculam que 500 bebês tenham sido roubados e entregues a casais como filhos adotivos. Desde a sua criação, o grupo já ajudou a identificar 77 jovens criados nessas circunstâncias.

Em sessões anteriores do julgamento, Sampallo havia dito que o objetivo de seu processo era que “a sociedade deixe de aceitar que se roubem filhos de outras pessoas”. Sobre aqueles que a criaram como filha por 19 anos, quando abandonou a casa já sob a suspeita de ser filha de desaparecidos, Sampallo disse: “Não guardei lembranças relacionadas a Rivas e Gómez como pais, porque prefiro não me lembrar disso”.

Desde 2005, quando a Corte Suprema de Justiça anulou as leis de anistia do governo Raúl Alfonsín (1983-1989), foram reabertas na Argentina mais de 800 causas contra integrantes da ditadura.

A sentença de ontem soma-se a outras simbólicas como a que no ano passado condenou à prisão perpétua o padre Christian von Wernich por participação em torturas e assassinatos -foi a primeira condenação deste tipo contra um membro da Igreja Católica.

Com agências internacionais

25/03/2008 - 04:54h Clones contra Parkinson

Cientistas usam células-embrionárias para tratar o mal com êxito

Steve Connor Do Independent* – O Globo

Cientistas deram um passo importante para alcançar a cura do mal de Parkinson. Estudo realizado nos Estados Unidos demonstrou que é possível tratar esta doença degenerativa do cérebro com células obtidas de embriões clonados.
Os pesquisadores do Memorial Sloan-Kettering Center, em Nova York, fizeram a experiência com camundongos e acreditam que a descoberta é uma evidência significativa de que a técnica será útil em seres humanos que sofrem não apenas de Parkinson, mas de uma série de outras doenças incuráveis.
Eles comprovaram que o transplante de neurônios obtidos de embriões clonados, a partir de células retiradas da pele da própria cobaia, é eficaz contra o mal de Parkinson. O processo é conhecido como clonagem terapêutica.
— É algo excitante. Pela primeira vez, foram criadas a partir do próprio indivíduo células-tronco embrionárias com potencial de tratamento para doença de Parkinson — disse Kieran Breen, diretor de pesquisa da Sociedade de Doentes de Parkinson, organização que representa 120 mil pacientes no Reino Unido.

Estratégia para evitar problema de rejeição

 Para Breen, a terapia com célulastronco embrionárias é uma grande esperança para regeneração do cérebro.
E há chance de cura, permitindo que as pessoas recuperem sua autonomia ao se verem livres dos sintomas da doença. Cientistas britânicos planejam ampliar a pesquisa de clonagem terapêutica realizada nos EUA, incluindo o uso de embriões humanos híbridos (o óvulo é de animal) em procedimentos.
O trabalho foi publicado na revista científica “Nature Medicine”. A clonagem terapêutica também é conhecida como transferência nuclear. O DNA de uma célula de um doador é inserido num óvulo do qual foi extraído o núcleo. A célula é estimulada a se transformar num embrião. Este se desenvolve até o estágio de blastocisto, quando as células-tronco embrionárias (que originam todos os órgãos) podem ser extraídas. As células-tronco embrionárias são estimuladas a se diferenciar em laboratório. No caso, os pesquisadores conseguiram obter células do cérebro.
Como a informação genética das células obtidas são do próprio doador, não há rejeição, ou seja, elas não são atacadas pelo sistema imunológico depois de um transplante. No laboratório, americanos e japoneses liderados por Lorenz Studer, estudaram camundongos que sofriam de mal de Parkinson, que se caracteriza pela morte de certos neurônios que fabricam o neurotransmissor dopamina.
Células da pele da cauda desses animais foram raspadas e clonadas usando óvulos de camundongos que tiveram o núcleo removido.

Tratamento levou ao fim dos sintomas

 As células-tronco obtidas dos embriões clonados foram retiradas e cultivadas em laboratório para formar neurônios produtores de dopamina.
Depois elas foram transplantadas de volta ao cérebro dos camundongos doentes, e eles apresentaram melhora significativa numa série de experimentos.
Studer produziu 187 diferentes linhagens de células-tronco embrionárias a partir de 24 camundongos com Parkinson. A principal conclusão foi de que não houve sinais de rejeição, porque o tecido transplantado com células cerebrais foi da mesma cobaia que forneceu a célula de pele para gerar o embrião clonado.
Para Robin Lovell-Badge, do Conselho de Pesquisa Médica do Reino Unido, o estudo de Studer forneceu mais evidências de que a clonagem terapêutica tem potencial tratamento de graves doenças do cérebro.
— Os autores foram capazes também de testar várias linhas de célulasembrionárias correspondentes a cada um dos camundongos. A maioria parecia funcionar bem. Isto é muito animador, uma vez que indica que a técnica de clonagem é um método suficientemente sólido para reprogramar células de volta a um estado embrionário precoce — disse.
Um dos próximos passos será repetir a experiência com macacos. Isto permitirá melhores testes de segurança e de recuperação de funções.
Alguns cientistas tentam a cura do Parkinson com células cerebrais de cadáveres e fetos abortados. Mas pesquisadores argumentam que a clonagem seria mais eficaz.
— Nosso estudo mostrou que o tecido geneticamente coincidente funciona melhor — disse Viviane Tabar, do Sloan-Kettering. 

07/03/2008 - 09:51h Galileu motiva nova briga com a Igreja

Cientistas foram impedidos de coletar DNA

galileo.jpgMais de 360 anos depois de sua morte, o físico e astrônomo Galileu Galilei volta a ser motivo de polêmica entre a Igreja Católica e a ciência. O cientista que desafiou a teoria vigente de que a Terra era o centro do Universo e foi obrigado a renegar suas próprias idéias para não ser condenado à morte pela Inquisição é novamente pivô de uma briga que envolve religião e pesquisas científicas.

Pesquisadores italianos, liderados pelo professor Paulo Galluzzi, diretor do Instituto e Museu de História e Ciência, em Florença, querem exumar o seu corpo. Mas a Igreja é contra o projeto, e alega desrespeito.
Um dos objetivos da exumação é fazer exames de DNA para descobrir a causa da cegueira que acometia o cientista.

Pesquisadores querem também confirmar se o corpo com o qual Galileu divide seu túmulo é o da filha, a freira Maria Celeste.

Ele viveu de 1564 a 1642, e entrou em choque com autoridades da Igreja Católica ao afirmar que a Terra girava em torno do Sol (a teoria heliocêntrica, que contrariava o geocentrismo).

Por causa de suas afirmações e publicações, ele foi acusado de heresia e condenado a renunciar publicamente às suas idéias e à prisão por tempo indeterminado. A pena foi substituída por confinamento em casa, onde ele morreu. Os corpos estão enterrados na Basílica da Santa Cruz, em Florença.

Fonte O Globo

11/02/2008 - 08:32h Tumores evoluem para resistir a drogas

Brasileiro radicado no Reino Unido detecta seleção natural agindo em “tempo real” para mudar genes de câncer de mama

Quimioterápico causa uma mutação benéfica à célula doente, que se espalha entre as células; estudo saiu on-line na revista “Nature”

RAFAEL GARCIA
DA REPORTAGEM LOCAL – FOLHA DE SÃO PAULO

“Nada em biologia faz sentido a não ser sob a luz da evolução.” Quando o biólogo russo-americano Theodosius Dobzhansky (1900-1975) cunhou essa frase, estava se referindo ao princípio subjacente a tudo o que é vivo, mas não estava dizendo necessariamente que o mesmo tipo de lógica se aplicaria especificamente à busca de tratamentos contra o câncer.

Essa surpresa foi algo com que o patologista brasileiro Jorge Reis-Filho, 32, se deparou. Tentando entender como tumores adquirem resistência a drogas quimioterápicas, a equipe liderada pelo cientista no Centro Breakthrough de Pesquisa em Câncer de Mama, de Londres, descobriu como um tipo de tumor “evolui”. Atacado por um remédio, o câncer pode se adaptar por meio da seleção natural a um ambiente que em tese lhe seria hostil.

A descoberta teve participação de outra equipe, liderada pelo bioquímico Alan Ashworth. Os cientistas mostraram que o câncer de mama causado por uma mutação no gene BRCA2 -um dos tipos mais comuns de variedades hereditárias dessa doença- pode desenvolver tolerância a medicamentos modernos, que atacam o DNA do tumor.

(mais…)

16/10/2007 - 18:38h "ÇA S’APPELLE LES DROITS DE L’HOMME"

Bayrou prêt à signer avec la gauche un recours devant le Conseil constitutionnel

Le Monde

‘avais indiqué dès dimanche au Zénith que je signerai le recours au Conseil constitutionnel”, a indiqué, mardi 16 octobre, François Bayrou, président de l’UDF-MoDem, confirmant ainsi qu’il s’associerait au recours que compte déposer la gauche devant le Conseil constitutionnel une fois le projet de loi sur l’immigration adopté, en raison de la disposition sur les tests ADN.

“J’espère que beaucoup d’autres le signeront, tous ceux qui ont indiqué que cette disposition pose un problème de conscience et de valeurs pour la société française”
, a ajouté le député des Pyrénées-Atlantiques. “Ce genre de texte met en cause des choses beaucoup plus profondes que les clivages politiques. C’est pourquoi je signerai, si j’en ai la possibilité, le recours”, a-t-il ajouté alors que la commission mixte parlementaire a maintenu, mardi, l’amendement ADN tel que l’a voté le Sénat.

“ÇA S’APPELLE LES DROITS DE L’HOMME”

De son côté, l’UMP François Goulard, qui avait participé au meeting de la gauche dimanche au Zénith, s’est vivement fait rappeler à l’ordre mardi par le premier ministre. François Fillon a en effet tancé le député du Morbihan, lors de la réunion heddomadaire du groupe UMP de l’Assemblée nationale, à laquelle ce dernier n’a pas pris part, ont rapporté plusieurs députés ayant assisté à la réunion.

Le député “villepiniste”, qui avait soutenu la candidature de François Bayrou lors de l’élection présidentielle, a également très fortement critiqué l’amendement permettant le recours aux tests ADN dans le cadre du regroupement familial. “Il y a des choses qui nous dépassent, qui appartiennent à tous les Français, à tous les hommes et femmes de cette planète : ça s’appelle les droits de l’homme”, avait-il fait valoir dimanche pour expliquer sa présence à la tribune d’un meeting organisé par Libération et Charlie Hebdo contre les tests ADN.

“Pour un gouvernement qui prône l’ouverture, pour un président de la République qui a répété qu’il aimerait qu’il y ait davantage d’ouverture, je ne vois pas comment on peut s’étonner qu’un membre de l’UMP aille avec des gens dont il ne partage pas les idées”, a répondu, mardi, François Goulard.

11/10/2007 - 14:57h Esquerda e direita

VERISSIMO

O Globo

O DNA é de esquerda ou de direita? Ele fornece argumentos para todos. Prova que todos nascem com o mesmo sistema de códigos genéticos, e portanto são iguais — ponto para a esquerda —, mas que cada indivíduo tem uma senha diferente, ponto para a direita, se bem que não necessariamente para os racistas. Na velha questão biologia x cultura, o DNA dá razão a quem diz que características adquiridas não são hereditárias, nenhuma experiência cultural afeta os genes transmitidos e a Humanidade não ficará mais virtuosa — muito menos socialista — com o tempo. Mas a própria descoberta do DNA e todas as projeções do que se tornaram possíveis com a manipulação do material genético mostram como o ser humano pode, sim, interferir na sua própria evolução, e como existe nele uma determinação inata para o auto-aperfeiçoamento. Parafraseando Marx: os cientistas sempre se preocuparam em compreender o ser humano, agora devem tratar de mudá-lo. Biologia não é, afinal, destino. Ao mesmo tempo a eugenia é uma ciência com má reputação. Seu apogeu anterior foi nos experimentos nazistas durante a guerra, e o significado de “aperfeiçoamento” é uma questão aberta. Uma pessoa “melhora” tornando-se mais bem preparada, pela aparência, a capacidade física e o espírito empreendedor, para as competições da vida ou mais tolerante com a variedade humana? A indefinição ideológica dos nossos genes é apenas mais um numa longa lista de paradoxos que nos dividem.

É “de esquerda” ser a favor do aborto e contra a pena de morte, enquanto direitistas defendem o direito do feto à vida, porque é sagrada, e ao mesmo tempo o direito do Estado de tirá-la, embora não gostem que o Estado interfira em outras áreas. A direita valoriza o indivíduo acima da sociedade, que seria uma abstração, mas aceita a desigualdade social, ou o sacrifício de muitos indivíduos pelo sucesso de poucos, como natural. A esquerda muitas vezes atribui a um estado impessoal ou a um líder superpersonalizado a incongruente realização de um humanismo igualitário. Etcetera, etcetera. E, aparentemente, o DNA não vai nos dizer se estamos condenados a ser contraditórios de uma maneira ou de outra, para sempre. Era só o que nos faltava, o DNA ser do centrão.

Feliz é a mosca, que tem mais ou menos a nossa estrutura genética, mas absolutamente nenhum interesse nas suas implicações.

10/10/2007 - 17:47h Tests ADN : une "idée honteuse" pour Enrico Macias

Par La rédaction du Post

Le chanteur “espère” que son “ami” Nicolas Sarkozy reviendra sur les tests ADN pour les migrants et salue la “courageuse” Fadela Amara.

“D’abord, je considère que les gens qui viennent vivre en France ne doivent pas être traités dès le départ comme des délinquants”, affirme le chanteur qui se déclare l’”ami” du président de la République.

Quand Enrico Macias chantait au gros meeting de campagne de Nicolas Sarkozy, à Bercy.|AFP/DOMINIQUE FAGET

Quand Enrico Macias chantait au gros meeting de campagne de Nicolas Sarkozy, à Bercy.

AFP/DOMINIQUE FAGET

“J’ai chanté ‘Enfants de tous les pays’, je suis pour la fraternité entre toutes les races, les origines, les religions”, souligne le chanteur, qui “ne voit pas de différence entre un immigré et un citoyen français”.

“C’est vrai” qu’il y a des fraudes dans les procédures de regroupement familial, reconnaît-il, “mais il faut avant tout respecter la personne humaine. Or, ces tests ADN ne la respectent pas.”

L’amendement est destiné aux étrangers qui veulent faire venir leurs enfants en France : s’il y a un “doute sérieux” sur le fait qu’ils sont bien leurs descendants, les parents peuvent passer un test génétique pour le prouver et obtenir le regroupement.

Enrico Macias salue la position “courageuse” de Fadela Amara, la secrétaire d’Etat qui déclenché un tollé en jugeant “dégueulasse” “l’instrumentalisation” de l’immigration.

S’il réitère son soutien à Nicolas Sarkozy,
“un homme hors du commun”, le chanteur “espère que son témoignage contribuera à faire annuler cette politique qui (lui) rappelle des temps de notre histoire très douloureux, où on stigmatisait des gens parce qu’ils étaient juifs”.

Au même moment, François Fillon riposte fort contre la gauche qui l’avait attaqué pour avoir qualifié les tests ADN de “détail” du projet de loi. Et Dominique de Villepin s’engouffre dans la brêche ouverte par la gauche.

Enrico Macias va-t-il venir au concert anti-tests ADN ? Les signataires de la pétition “Touche pas à mon ADN” organisent un concert dimanche 14 octobre, au Zénith de Paris ? Il y aura Tyken Jah Fakoly, Soprano, Benabar, Stomy Bugsy, les Têtes raides, mais aussi deux François : Hollande et Léotard.

05/10/2007 - 18:13h Editorial du Le Monde: Haine des autres, haine de soi, par Eric Fottorino

En adoptant aux petites heures de vendredi le projet de loi Hortefeux sur la maîtrise de l’immigration, et en particulier l’amendement revu et corrigé, mais finalement maintenu dans son principe, du recours aux tests ADN pour les candidats au regroupement familial, les sénateurs, après les députés, ont fini d’esquisser le visage le plus inquiétant de la France. S’il advenait que ce texte soit maintenu au sortir de la commission mixte paritaire prévue le 16 octobre, alors il faudra acter que notre pays a fait litière de son histoire et de sa géographie au détriment des étrangers.

 

Admettre que la famille ne vaut que par le lien biologique établi entre ses membres, considérer que seul le sang donne son sens et sa validation à la stricte parenté entre une mère et ses enfants, c’est nier la différence des autres. C’est nier l’existence de cultures singulières ou fermer les yeux sur les drames de contrées à fléaux qui font qu’un enfant peut ne pas être élevé par sa mère. Que des demi-frères ou demi-soeurs peuvent être des fils et des filles à part entière dans le coeur d’une femme qui ne les a pas enfantés.

Il n’est que de lire les réactions blessées de nombre de responsables africains pour mesurer combien cette tentative dommageable de tri dans les familles, outre la suspicion de fraude a priori qu’elle suggère, risque de couper la France de ses meilleurs amis. Réservée aux étrangers, la traque de l’enfant illégitime n’est pas seulement contraire au droit fixé par la loi de bioéthique, qui limite la recherche de la signature génétique à des fins médicales ou judiciaires. Il y a de la haine dans cette course à l’ADN, de la haine des autres, de la haine de soi. On ne se respecte pas quand on manque ainsi d’humanité. A gauche, mais aussi à droite, des voix s’élèvent contre cet amendement, se mêlant aux voix des Eglises et du Conseil national d’éthique. On aimerait que la représentation nationale les entende. Sauf à miser sur le Conseil constitutionnel pour préserver notre législation de repoussantes dérives.

Eric Fottorino pour Le Monde

03/10/2007 - 23:35h Senado francês autoriza testes de DNA para imigrantes

da France Presse, em Paris

O Senado francês aprovou na noite desta quarta-feira uma versão da polêmica lei que autoriza a realização de testes de DNA em imigrantes que alegam ter parentes vivendo na França.

A comissão de Leis introduziu duas alterações fundamentais no projeto apresentado pelo governo francês: os testes deverão ser realizados nas mães e após solicitação do Tribunal de Alta Instância de Nantes.

O novo texto determina que o teste de DNA busque uma filiação declarada com a mãe do candidato à imigração, para evitar que supostos pais descubram não ser os biológicos do requerente.

A ação deverá ser encaminhada ao Tribunal de Alta Instância de Nantes e não aos agentes diplomáticos, que deverão solicitar as provas aos candidatos à imigração.

O governo francês, que planeja aplicar este dispositivo de maneira experimental por um período máximo de 18 meses, também introduziu uma emenda para que os testes fiquem a cargo do Estado.

Com a iniciativa, o governo pretende aumentar seu controle sobre os processos, especialmente para os candidatos de países que não têm um serviço de registro civil confiável.

26/09/2007 - 13:09h France: L’amendement instaurant des tests ADN pour les étrangers pourrait être supprimé au Sénat

L‘article de loi instaurant le recours à des tests ADN dans le cadre de du projet de loi Hortefeux sur la maîtrise de l’immigration a été supprimé par la commission des lois du Sénat, mercredi 26 septembre.

Pour que les tests ADN disparaissent du projet de loi, cette décision devra être confirmée par les sénateurs, le 2 octobre, lorsque le texte sera examiné en séance publique. L’UMP ne dispose pas de la majorité absolue au Palais du Luxembourg et, aux yeux de nombre de sénateurs, l’amendement va au-delà des principes posés par la loi sur la bioéthique du 6 août 2004.

THIERRY MARIANI “DÉSAVOUÉ”
Jean-Pierre Bel, président du groupe socialiste au Sénat, s’est félicité de cette suppression, votée par 24 voix contre 13, estimant qu’elle est “conforme à la vision” que le PS se fait “de la France, de ses valeurs républicaines”. Les sénateurs socialistes espèrent désormais qu’elle soit confirmée par l’ensemble des sénateurs. Pour Nicole Borvo, présidente du groupe communiste, “le gouvernement et le rapporteur à l’Assemblée nationale” Thierry Mariani, ont “été désavoués”.

L’ancien premier ministre et sénateur de l’UMP, Jean-Pierre Raffarin, ainsi que le haut commissaire aux solidarités actives, Martin Hirsch, avaient estimé que l’article controversé avait de fortes chances d’être supprimé lors de son passage au Sénat. S’exprimant à titre personnel sur France Inter, M. Raffarin avait dit qu’il aurait été été meilleur d’attendre 2009, c’est-à-dire la loi bioéthique, pour cadrer ce dossier”.

Cet amendement avait été adopté mercredi 19 septembre – par 91 voix contre 45 –, après avoir été modifié à la marge par le gouvernement, qui a instauré une période d’expérimentation de deux ans.

19/09/2007 - 18:40h VU D’ALGÉRIE • Sarkozy : populisme et ADN

Courrier international

Le Parlement français examine depuis le 18 septembre un nouveau projet de loi sur l’immigration dont un amendement très controversé vise à autoriser le recours à des tests ADN pour les candidats au regroupement familial. La réaction du quotidien algérien Liberté.
Nicolas Sarkozy et Brice Hortefeux
AFP

Ayant consommé la trêve des cent jours, le nouveau président de la République française éprouve les premiers couacs de ce que Nicolas a appelé la stratégie du “coup d’éclat permanent”. Son ambition de soumettre le fonctionnement de l’Europe aux contraintes de la relance économique de la France a provoqué une succession de mises au point. Il lui reste toujours le facile thème de la Turquie, dont l’entrée dans l’Union européenne n’est de toute manière pas pour demain. Et la question convient bien au racisme doux qui lui assure une bonne part de la sympathie populaire.

Comme il a trouvé une France en bon état social, notamment sur le plan de l’emploi, et les mal-logés n’étant pas syndiqués, la trêve sur ce front peut encore se prolonger. Le projet de réforme des “régimes spéciaux” contribuera à le maintenir en bonne position dans les sondages. Mais ce n’est qu’un volet de son projet de politique sociale, là où il est attendu, malgré les entretiens “préventifs” qu’il a eus avec les responsables.
Jusqu’ici, c’est en dehors de la France et de l’Europe qu’il est allé chercher les ingrédients de sa ligne populiste. La Turquie lui offre le prétexte de se poser en défenseur de la rigueur géographique et tacitement civilisationnelle de l’Europe. En Algérie et au Sénégal, il est venu proclamer son déni de repentir et sa conception d’une responsabilité partagée de la tragédie coloniale. En Libye, il a présenté l’issue d’une péripétie à la Kadhafi comme le fait d’une opération de sauvetage. Au Moyen-Orient, la complexité de la situation demande plus d’engagement aux puissances qui souhaitent y jouer un rôle.

En attendant qu’il atterrisse dans une clairière de la jungle colombienne…
Mais il lui reste le fond, la valeur sûre que constitue la fibre raciste quand elle est conjuguée à l’angoisse de l’incertitude : l’immigration. On l’a vérifié avec le vote des couches populaires et le vote ouvrier à l’élection présidentielle : Sarkozy fait figure de garantie contre le péril des migrations. L’intervention policière contre les sans-papiers en grève de la faim à Lille et le rappel à l’ordre des préfets les moins performants en matière de reconduite à la frontière procèdent de l’entretien de ce sentiment.

Dans cette surenchère sur le délit d’immigration, l’introduction de l’empreinte génétique dans la procédure de regroupement familial. Même dans la lutte contre la grande criminalité, l’usage du test ADN est sélectif. Il a fallu l’argument irrésistible de la protection des enfants contre la récidive pédophile pour l’imposer.
En termes de gravité, l’immigration est classée au second rang des crimes pour justifier ainsi le recours à un moyen coûteux et qui jette l’anathème sur une population étrangère jugée potentiellement faussaire. Si l’on devait génétiquement vérifier toutes les paternités en France, on risque de produire un nombre ingérable de drames. Pourquoi cette plaisanterie inconcevable dans une société qui tient à la paix des ménages s’appliquerait-elle sans souci des risques personnels à la catégorie des immigrés ? C’est au maillon faible de payer le coût de la popularité à tout prix, n’est-ce pas ?

Mustapha Hammouche
Liberté

19/09/2007 - 18:29h Pensar la contemporaneidad: ADN para inmigrantes

Cristina CivaleAhora es Francia la que lanza una medida que nuevamente atenta contra el derecho de las personas, otra vez los inmigrantes, e incluso infringe los establecido por su propio Código Civil.

champs_elysees.JPG

Aquí va la noticia que leí en Le Monde el miércoles pasado y que en los días sucesivos rebotó en importantes medios europeos:

“La mayoría de centro derecha liderada por el presidente Nicolas Sarkozy, la UMP, espera introducir una enmienda a la nueva ley de inmigración que autoriza el recurso al test de ADN para aquellos inmigrantes que demanden una visa por el procedimiento del reagrupamiento familiar.

La medida choca abiertamente con la legislación vigente. Concretamente, con el artículo 16 del Código Civil, que establece que ‘el estudio genético de las características de una persona no puede llevarse a cabo más que con fines médicos o de investigación científica’.

La enmienda presentada por Mariani establece que para la concesión de visados de más de tres meses, ‘en caso de serias dudas sobre la autenticidad del acta de estado civil’, los agentes diplomáticos o consulares puedan “proponer’ al demandante del visado ‘que ejerza, a su costa, la facultad de solicitar la comparación de sus huellas genéticas con el fin de verificar una filiación biológica declarada”.

El coste de esta prueba se estima entre 150 y 250 euros y parece evidente que en muchos de los países de donde proceden los inmigrantes la realización de estas pruebas sería muy problemática.

La enmienda presentada por el diputado de la UMP evita en todo momento establecer que las pruebas de ADN puedan ser obligatorias, pero las asociaciones de ayuda a los refugiados consideran que, de aprobarse, se convertiría en una poderosa arma en manos de las autoridades de inmigración, que podrían aplazar indefinidamente aquellos casos en los que los protagonistas se negaran a someterse a las pruebas.

La medida trata de acelerar el actual procedimiento administrativo y evitar el elevado fraude que se registra en las declaraciones de estado civil.

La oposición socialista considera que la medida no tiene en cuenta a los hijos adoptados e ilegítimos y cuestiona a la administración de los países de origen.

Para las asociaciones que defienden los derechos de los inmigrantes se trata de una medida ‘inadmisible’ que “rompe con el espíritu mismo de la República”.

Entre las otras enmiendas introducidas destinadas a endurecer la emigración se prevé exigir a los candidatos al reagrupamiento familiar que demuestren unos ingresos superiores a 1,3 el salario mínimo, es decir unos 1300 euros mensuales, y crear un fichero biométrico de aquellos emigrantes que aceptan las ayudas de retorno a sus países para evitar que una misma persona las pueda solicitar varias veces”.

¿Será esto el paroxismo de la sociedad de control?