03/05/2009 - 15:46h Augusto Boal, teatrólogo
obituário
Ricardo Daehn e Tiago Faria – Correio Braziliense
| Paulo de Araújo/CB/D.A Press – 13/3/08 |
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| Augusto Boal em sua última visita a Brasília, em março do ano passado: dinâmica de teatro-fórum |
Referência das artes cênicas brasileiras no mundo, o diretor de teatro, dramaturgo e ensaísta Augusto Boal morreu na madrugada de ontem, aos 78 anos. Fundador do Teatro do Oprimido, sedimentado na encenação como meio de reflexão social e ação política, foi expoente do Teatro de Arena de São Paulo até os anos 1970. Ele sofria de leucemia e morreu de insuficiência respiratória. “Boal é um dos deuses do arquipélago do teatro, um dos mitos da nossa religião. Uma perda irreparável”, lamentou o diretor Aderbal Freire-Filho, que enviou a notícia aos amigos.
Uma forte corrente em favor da candidatura do teatrólogo ao Nobel da Paz, em 2008, com endosso de países como França, Venezuela, Suécia e Guiné-Bissau, referendou ainda mais o valor do autor de mais de 30 publicações, com teorias (difundidas em mais de 70 países) que nutriam a ação de mais de 300 grupos mundo afora. O diretor do Centro de Teatro do Oprimido, porém, não tinha vaidade: “Sou orgulhoso, mas pelo fato de aquilo que comecei ser praticado hoje por centenas de milhares de pessoas no mundo inteiro”. O movimento calcado em princípios pedagógicos de Augusto Boal preza princípios democráticos caros ao artista, que, nos anos 1970, esteve exilado na Argentina. Mecanismo de transformação social, as bases pregadas por ele incitavam a liberdade em cena. “A arte é criativa, ela não pode ser amarrada em coisas preestabelecidas”, defendia.
“Desejamos que a plateia abandone sua prisão, que é a poltrona”, disse Boal ao Correio, por ocasião de uma dinâmica de teatro-fórum com alunos da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e da Universidade de Brasília em março de 2008. Com gênese nos tempos da ditadura, o teatro dele servia como modalidade lúdica, qualificada por questionamentos e pela participação. “Sou um homem da paz. Mas a paz tem um inimigo: a passividade”, sublinhou o teórico, que, na prática, concebia a estética com “a comunicação através dos sentidos”.
O homem de teatro capaz de agrupar 12 mil pessoas numa marcha, como aconteceu em Calcutá (Índia), recebeu grandes homenagens em vida. Uma das mais recentes foi na Maison Fontenoy (em Paris), numa proposta da Unesco em comemoração ao Dia Mundial do Teatro (27 de março). Na capital francesa, ele recebeu o título de Embaixador Mundial do Teatro. Discursos de representantes do Internacional Theatre Institute embalaram os festejos, marcados por exposição de fotos e apresentação da peça O cozinheiro disse para o coelho: vamos preparar o jantar?, criação do filho dele, Julián Boal.
Contestação
Nos palcos, Boal levou ao limite o espírito de contestação. A partir do golpe de 1964, encenou espetáculos de protesto como Opinião, que reuniu Zé Kéti, João do Vale e Nara Leão. O objetivo era plantar a semente de um foco artístico de resistência política. Como consequencia, assinou projetos que aliaram crítica social a invenções de linguagem. Em Arena conta Zumbi (1965), experimentou o “sistema curinga”, em que oito atores se revezavam para interpretar os personagens. A boa repercussão permitiu a produção do também histórico Arena conta Bahia, com Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Tom Zé. Em Arena conta Tiradentes, o diretor abandonou a narrativa linear em prol da conexão livre de fatos e personagens que refletiam o período de repressão.
Apesar de reforçado nos anos de chumbo, o papel protagonista na renovação do teatro brasileiro começou antes. Em 1956, ao entrar para o Teatro de Arena de São Paulo, ajudou a consagrá-lo como uma das principais companhias do país. O sucesso veio rapidamente. Logo na primeira direção (Ratos e homens, de John Steinbeck, de 1956), venceu o prêmio de revelação da Associação Paulista de Críticos de Arte. Ainda que a ligação com temas políticos já aflorasse, seu primeiro texto encenado foi uma comédia de costumes, Marido magro, mulher chata. A pesquisa teatral se aprofundou no sentido de estreitar as relações entre arte e realidade, sempre com a proposta de formar novos dramaturgos. Em 1960, agregou a criação artística à oficina de atores na montagem de Fogo frio, de Benedito Ruy Barbosa, em conjunto com o Teatro Oficina.
Aos 9 anos, Boal já ensaiava peças em casa com os irmãos. Quando decidiu estudar engenharia na Universidade do Brasil (atual UFRJ), aos 18, não abandonou o trabalho com textos para o palco. Nos anos 1950, dividiu a rotina entre estudos acadêmicos na Columbia University (Ph.D em engenharia química) e aulas de dramaturgia na School of Dramatic Artis, com John Gassner. Tratado pelo jornal britânico The Guardian como o “reinventor do teatro político”, Boal manteve-se defensor da liberdade de expressão. “Não me incomodo de perder quando existe um debate ideológico e social. Mas ser derrotado por um Estado armado, com canhões e tanques de guerra, dá uma tristeza enorme”, disse ao Correio em junho de 2007.
Colaborou Nahima Maciel
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