06/09/2009 - 16:48h As faces de Barenboim

Seis DVDs e um volume de ensaios que discute a relação entre arte e sociedade ajudam a compreender a importância múltipla do maestro e pianista argentino

 

http://community.post-gazette.com/cfs-filesystemfile.ashx/__key/CommunityServer.Components.UserFiles/00.00.00.21.65/Barenboim.jpg

João Marcos Coelho – O Estado SP

 


Quando comemorou com um recital no Teatro Colón, em Buenos Aires, nove anos atrás, seus 50 anos de carreira, Daniel Barenboim foi objeto de um belo documentário chamado Múltiplas Identidades. Essas são as mais adequadas palavras para se definir este artista de gênio. Embora restrito ao universo do intérprete, seu talento é tão precoce e marcante quanto o de Mozart ou Korngold, duas das maiores crianças prodígios da história da música. Excede tanto ao piano quanto na regência sinfônica e de ópera. Mas também é magnífico e empenhado na execução de música contemporânea. Em dezembro do ano passado, numa série de concertos comemorativos da passagem dos 100 anos de Elliott Carter no Carnegie Hall, em Nova York, ele regeu obras do norte-americano com o compositor centenário na plateia.

Aos 67 anos, Barenboim de fato parece um dínamo, capaz de tocar a Orquestra Staakskapelle de Berlim e a West-Eastern Divan e continuar fazendo recitais solos e música de câmara. E, ainda por cima, encontra tempo para leituras filosóficas e para se engajar nas principais questões políticas de seu tempo. E mais: escreve livros interessantes e consistentes, como A Música Desperta o Tempo, que a Martins lança agora no Brasil (leia abaixo).

O volume e o ritmo dos lançamentos podem levar um desavisado a supor que deve haver ao menos uns três ou quatro Barenboins. O mais importante é a manutenção de um nível altíssimo de qualidade em tudo o que ele faz. Por isso, é maravilhoso podermos ter em lançamentos nacionais uma penca de vídeos que fornecem um retrato aproximado do seu incrível talento: a Music Brokers acaba de distribuir seis DVDs simultaneamente no mercado brasileiro.

É um retrato completo. Proponho um roteiro para ordenar sua entrada neste universo musical tão magnífico. Comecemos com Beethoven. Em dois DVDs, você pode assistir à integral dos cinco concertos para piano. Ele pilota o piano e rege a sua Staatskapelle. Outros pianistas já fizeram isso, só que nos concertos de Mozart. Em Beethoven o desafio é muito maior, e não enfrentado até agora por ninguém. Exceto Daniel. Ele é preciso: expressivo, perfeito ao instrumento. Com a cabeça, dá simplesmente todas as entradas e comunica com expressões faciais as exigências de dinâmica e fraseado. Impressionante.

Agora siga para o segundo DVD, onde ele rege sua originalíssima West-Eastern Orchestra, formada pouco mais de dez anos atrás em parceria com o grande intelectual Edward Said. Projeto visionário, congrega jovens músicos de todo o Oriente Médio: judeus e egípcios, palestinos e jordanianos, iranianos e sírios dividem estantes, numa prefiguração filosófico musical da solução que Barenboim-Said preconizam como única saída para o conflito no Oriente Médio – seus povos precisam assumir que integram todos uma mesma cultura, uma civilização. O concerto foi realizado numa paisagem de sonho, o palácio de Alhambra, ao ar livre, em Granada, na Espanha, em abril de 2006. Empenhadas interpretações dos jovens da West-Eastern Divan em repertórios tradicionais como Beethoven (abertura Leonora nº 3) e a primeira sinfonia de Brahms.

Também gravado em 2006, mas no mês de dezembro, no Mann Auditorium em Tel-Aviv,o DVD do concerto de comemoração dos 70 anos da Filarmônica de Israel traz o pianista Daniel Barenboim como sua atração máxima, numa vigorosa leitura do primeiro concerto para piano de Brahms. Na regência, Zubin Mehta.

Deixei para o final, de propósito, o DVD que mostra de modo mais cristalino os notáveis atributos do Daniel regente, um concerto em 2000, quando ele ainda era titular da Sinfônica de Chicago, na Trienal de Música Contemporânea de Colônia, na Alemanha. A orquestra norte-americana e a Filarmônica de Berlim encomendaram a Pierre Boulez a versão sinfônica das Notations I-IV. O ciclo das Notations foi iniciado em 1945. As primeiras quatro partes foram originalmente escritas para piano-solo, mas são ouvidas aqui em sua posterior versão orquestral. Barenboim rege de cor e consegue nos fazer gostar da música arisca de Boulez. As duas peças seguintes constituem motivo para interpretações de referência: La Mer, de Debussy, e El Sombrero de Três Picos, do espanhol Manuel de Falla. Pena que a interessantíssima conversa entre Barenboim e Boulez não tenha legendas em português (o áudio é em inglês). Porque ela vale a pena. Boulez, orgulhoso, diz que “hoje parte da obra de Schoenberg já é aceita, o que não acontecia 40 anos atrás” – argumento válido quando o intérprete é alguém da estatura de Barenboim.

Sua raiz portenha surge inteira num festivo concerto gravado ao vivo no Colón de Buenos Aires em 31 de dezembro de 2006. O DVD Tango Argentina traz de tudo, de Gardel a Piazzolla, com a Orquestra Filarmônica de Buenos Aires, a orquestra típica de Leopoldo Federico, os bailarinos Mora Godoy & Junior Cervila, e a regência de Daniel.

O maior problema que este pacote de DVDs Barenboim pode provocar por aqui é a vontade desesperada de ouvir e assistir a mais performances deste músico de múltiplas e geniais habilidades. Prepare, então, seu bolso. A EMI Classics lançou em 2007 uma caixa com seis DVDs – em quatro, a integral das 32 sonatas de Beethoven em recitais realizados em Berlim no ano anterior; nos restantes, seis master classes do músico com jovens pianistas que nos ajudam a compreender de modo novo este que é, sem dúvida, um dos maiores monumentos pianísticos de todos os tempos.

E, por fim, foi lançado na semana passada o DVD Sommernachtskonzert Schönbrunn 2009. Trata-se do tradicional concerto de verão da Filarmônica de Viena, realizado em 4 de junho, ao ar livre, nos jardins do Palácio de Schönbrunn. No repertório anunciado, a célebre Pequena Serenata Noturna, de Mozart, Noites nos Jardins da Espanha, de De Falla, e hits populares de Mussorgsky e dos Strauss, naturalmente. Aos 66 anos, Barenboim parece não ter a menor vontade de ralentar esse ritmo alucinante. Melhor para nós.

O que as notas podem ensinar sobre questões políticas e sociais

Em A Música Desperta o Tempo, intérprete deixa clara a sua crença na capacidade artística de transformação da realidade

João Luiz Sampaio


Há duas vertentes na produção intelectual de Daniel Barenboim que dialogam entre si e ao mesmo tempo reivindicam vida própria. Em seu site, o artista escreve longos ensaios nos quais se coloca perante questões que vão desde a filosofia de Espinoza até os conflitos no Oriente Médio e a defesa da criação de um Estado palestino. Já em seus livros, o que lemos é uma tentativa de estabelecer uma relação simbiótica entre música e sociedade, sem, contudo, atribuir a ela, diz o maestro e pianista, qualquer conotação política.Assista trechos de dois dos DVDs

É esse o caso de A Música Desperta o Tempo, que a Martins lança no Brasil (tradução de Eni Rodrigues e Irene Aron, 168 págs., R$ 34,90). No primeiro ensaio, Barenboim nos conduz ao longo de uma série de conceitos musicais e o modo como podem nos ensinar sobre a vida. “A música não é separada do mundo; ela pode nos ajudar a esquecer e, ao mesmo tempo, a compreender nós mesmos. (…) Os jovens que experimentam o sentimento da paixão pela primeira vez e perdem todo o senso de disciplina podem observar, por intermédio da música, como paixão e disciplina podem coexistir (…). Afinal, o que talvez seja a lição mais difícil para o ser humano – aprender a viver com disciplina ainda que com paixão – transparece (…) em cada frase musical.”

Não há em passagens como essa conotação política óbvia. Adiante, porém, quando discute conceitos de interpretação musical e tenta aplicá-los à realidade geopolítica, a questão se embaralha. Força e intensidade, por exemplo, serviriam tanto à busca por uma versão aprofundada de uma obra musical quanto para as negociações – como entre israelenses e palestinos. Força é tocar alto; é agressão. Intensidade é descobrir relações; é dialogar. Essas ideias ganham mais significado quando levamos em consideração o projeto, dele com o intelectual palestino Edward W. Said, da criação de uma orquestra (tema de outro ensaio) com músicos de origem judaica e árabe para apresentações, seminários e grupos de estudo. Segundo Barenboim, a proposta é mostrar a possibilidade de convivência. Mas há, claro, uma conotação política em passagens assim.

De qualquer forma, podemos encontrar um meio-termo. Muitos comentaristas veem em colocações como essa ingenuidade ou, no pior dos casos, um quê panfletário. Talvez não seja necessário ir tão longe. Barenboim em seu livro mostra isso claramente: acredita no poder intrínseco, estético, da arte. Ao mesmo tempo, vê a interpretação musical como a discussão de uma ideia. Toda ideia é política? Para Barenboim, ideias são simplesmente necessárias.

23/02/2009 - 15:50h Todos os talentos de Jacques Prévert

A exposição Paris la Belle, na França, e o lançamento em DVD, no Brasil, de Trágico Amanhecer resgatam um artista de gênio

http://ariffart.club.fr/oupropo/images/prevert.jpghttp://djamilaz.unblog.fr/files/2007/02/prevert2.gif

Luiz Carlos Merten – O Estado SP

Cidade-luz, Paris é a Meca e a Medina dos cinéfilos, que nela encontram, permanentemente, ciclos de filmes e autores que não podem ser rastreados com tanta facilidade em nenhum outro lugar do mundo. Mas Paris não é só uma festa de cinema. Se você quer saber o que ocorre no mundo do design e das artes visuais deve seguir de olho na capital francesa. O Centro Charles Pompidou, o Beaubourg, dedica uma grande mostra – até março – ao arquiteto e designer Ron Arad. Só para ver os móveis que ele cria – verdadeiras obras de arte, mas fica a dúvida se são também confortáveis – já valeria a pena ir à França, mas Paris, encerrada a grande retrospectiva Picasso et les Maitres, no Grand Palais, agora sedia, até dia 28, no Hôtel de Ville, a mais completa exposição sobre Jacques Prévert feita na França.

Paris la Belle. O título vem de um curta que Jacques realizou em parceria com o irmão Pierrre, em 1928, Paris Express, e que foi rebatizado como Paris la Belle, ao ser resgatado, em 1960. Houve outras grandes exposições sobre o artista, antes, mas elas privilegiavam partes de sua obra – as colagens, as fotografias. N.T. Binh, crítico e historiador – autor de uma acurada análise da obra de Joseph L. Mankiewicz na coleção Cahiers du Cinéma – e Eugénie Bachelot-Prévert, neta de Jacques, coassinam a curadoria do evento que revela a multiplicidade dos talentos do grande artista. Se há um artista multimídia, é ele. Homem de teatro, cinema, poeta, autor infantil, pintor, compositor, deixou uma notável contribuição em cada uma dessas mídias. Eugénie sonhava com essa exposição há dois anos, quando se completaram 30 anos da morte de seu avô, em 1977. A falta de patrocínio, na época, inviabilizou o projeto, mas ela teve a sorte de encontrar N.T. Binh, que organizara em 2006, no Hôtel de Ville – a Prefeitura de Paris -, o evento Paris no Cinema e tinha cacife para propor outra grande mostra. Binh propôs Prévert. Por quê? No catálogo da exposição, ele explica singelamente – “Porque Prévert foi sempre um artista identificado com os parisienses…”

O próprio prefeito de Paris, Betrand Deanoë, escreve, na abertura do catálogo, que, durante toda a sua vida, Jacques Prévert estabeleceu (e manteve…) uma excepcional cumplicidade com a capital francesa. Conhecedor das passagens mais secretas dos Grands Boulevards, amigo dos operários, dos pintores de Montmartre e dos escritores de Saint-Germain-des-Près, Prévert cravou a essência de sua poesia no coração de Paris e de seus habitantes. A questão é que não existe um Prévert, mas vários, compondo o itinerário de um artista que foi engajado – e libertário – como poucos. N. T. Binh sustenta que, durante toda a sua vida, Prévert não fez outra coisa senão tentar reencontrar a Paris de sua infância. A exposição estabelece etapas do percurso – a infância, próxima dos Jardins de Luxemburgo; a juventude, quando ele se liga aos surrealistas, integrando a república ‘boullionnante’ da Rua Chateu (Castelo).

Após o rompimento com os surrealistas, Prévert produz para o teatro, escrevendo textos engajados para o grupo Outubro. Os anos 30 foram de muita agitação social na França. Prévert, que visitou a Rússia em 1933, voltou militante de causas radicais. Os operários da Citröen preparavam uma greve para hoje à tarde e lhe pediam um texto – ele o produzia num piscar de olhos. O Prévert dramaturgo vira roteirista de cinema, associando-se a Marcel Carné numa memorável série de filmes que instala a tendência do chamado ‘realismo poético’. O maior desses filmes, O Boulevard do Crime (Les Enfants du Paradis, de 1945) foi considerado numa pesquisa, há cerca de dez anos, como a obra-prima de toda a história do cinema francês, mas a parceria Carné-Prévert inclui outros filmes, como Trágico Amanhecer (Le Jour Se Lève, de 1939), com a dupla clássica Jean Gabin/Arlétty, que acaba de sair em DVD.

Como as coisas ocorrem por ciclos na obra de Prévert, em 1946, ele começa a se afastar do cinema, orientando-se para a poesia (com Paroles) e a canção. É muito interessante assistir aos trechos de filmes e aos clipes que mapeiam o Prévert roteirista e letrista. Ele produziu letras para Edith Piaf, Yves Montand, Juliette Gréco e Nat King Cole. Os três últimos apresentam suas diferentes versões de Feuilles Mortes. Para o espectador brasileiro, é um choque ver a musa do existencialismo cantar Folhas Mortas. Juliette Gréco foi o modelo de Maysa. Existem ainda o Prévert autor infantil, o pintor das colagens e o retratista. Amigo de Juan Miró, Pablo Picasso e Alexander Calder, Jacques brincava com Picasso e dizia que ele era um grande cineasta, embora não soubesse filmar. Picasso retrucava que ele era um grande pintor, mesmo sem saber pintar (nem desenhar). Suas colagens são de uma riqueza – e uma criatividade e um humor – extraordinários. O legado da exposição é que Prévert não se fixou em rótulos nem dogmas. Foi libertário de si mesmo. Criou-se, por isso, um verbo. O diretor Jean-Pierre Jeunet conta que, enquanto escrevia O Fabuloso Destino de Amélie Poulain, ao dar-se conta de que algumas coisas simplesmente não iriam funcionar, ele pedia à sua roteirista, Guillaume Laurant – “Aqui, nós precisamos prévertizar.”

Juliette Greco

Yves Montand – Les feuilles mortes

12/12/2008 - 18:48h Madonna, um cardeal e… o pecado

Ela chega hoje ao Rio, depois que igreja condenou a ‘luxúria’ do show no Chile

madonna2.jpg

Jotabê Medeiros – O Estado SP

Chega hoje ao Rio em um jato particular o maior e mais rentável negócio do show biz na atualidade, a cantora e agitadora comportamental Madonna, de 50 anos. Após seus dois shows para cerca de 140 mil pessoas no Estádio Nacional de Santiago, Chile, Madonna já reuniu até agora mais de 400 mil pessoas na América do Sul – foram 262 mil na Argentina e serão mais 350 mil pessoas no Brasil, um número recorde para uma única turnê na região, quase 800 mil pessoas.

Só para se ter uma idéia: a arrecadação da turnê de Madonna no Chile rendeu US$ 10 milhões, o dobro do que o U2 arrecadou em 2006. O primeiro show no Maracanã será o 54º da cantora nessa turnê, e quando ela estiver encerrando do 58º, no Estádio do Morumbi, terá faturado mais de US$ 260 milhões, a mais bem paga turnê da história – feito que coloca a empresa Live Nation numa posição ímpar no mundo musical, após as contratações das turnês de Madonna, Jay-Z e U2.

No Rio, a cantora poderá estar pela primeira vez desfilando acompanhada, segundo fortes rumores, de seu novo namorado, o jogador de beisebol Alex Rodriguez, o A-Rod, de 33 anos, do New York Yankees. Ela também está viajando acompanhada dos filhos, Lourdes Maria, Rocco e David Banda, que é adotivo.

Madonna provoca também efeitos colaterais: no Chile, a polícia prendeu na terça em Renca quatro sujeitos com 13 quilos de maconha, que estavam sendo levados para serem comercializados durante o show da cantora. Políticos, jogadores de futebol, prefeitos, governadores, presidentes: todos querem estar perto de Madonna. Estavam no Estádio Nacional o tenista Fernando Gonzalez, o prefeito Pablo Zalaquett, os deputados Fulvio Rossi e Marcelo Dias, entre outros.

Mas nem todo mundo esteve em êxtase: anteontem, o cardeal emérito de Santiago, Jorge Medina, acusou Madonna de provocar um “entusiasmo louco”, um “entusiasmo de luxúria”, condenando a pecaminosa agitação que a cantora provoca. Medina (que fez o pronunciamento durante uma missa em homenagem ao general Pinochet, de triste memória) deve se referir ao sexo casual que Madonna simula com sua guitarra (fumando um cigarro imaginário depois), ou à masturbação de mentirinha que ela encena, com a mão por dentro do shorts, ou a cópula de brinquedo que faz no chão com um bailarino.

Madonna imaginou seu show como um quarto de espelhos, no qual suas múltiplas personas criadas durante 25 anos de show biz se estilhaçam, são destruídas e depois são reorganizadas como num passe de mágica. Os quatro shows de Buenos Aires foram filmados por Nick Wickham, e o resultado vai virar um DVD (não está definido de Wickham também não estará trabalhando no Brasil.)

16/11/2008 - 15:05h House em Havana

O diretor cubano Tomás Piard fala de seu filme “o viajante imóvel”, sobre o romance “Paradiso”, de Lezama Lima, e diz que a juventude “revolucionária” do país assiste aos enlatados norte-americanos


Cuba não tem uma economia sólida; nos acostumamos a ter o Estado nos provendo e perdemos o espírito do que é trabalho

http://www.aldia.cu/imagenes/noticias/viajero1.jpg

MALU DELGADO – FOLHA SP

DE LONDRES

A transição em Cuba -ou a ausência dela- sob o olhar do cineasta cubano Tomás Piard, 60, é elucidativa. Piard lançou em Cuba seu novo filme, “El Viajero Inmóvil” (O Viajante Imóvel), sobre a vida de José Lezama Lima, autor de “Paradiso” (1966), um dos principais romances do século 20. O filme, como Piard esclarece, não é nenhuma pretensa adaptação do romance de Lezama, mas sim uma homenagem a ele -a quem o cineasta chama de “pai espiritual”.

Amigos? Não. Tomás Piard se encontrou com Lezama uma única vez, numa exibição de cinema em Havana, quando era estudante. Ambos iriam assistir a “As Noites de Cabíria” (1957), de Federico Fellini. Talvez a duradoura identificação de Piard com a história de Lezama -que nunca deixou a ilha- seja reflexo de uma certa simbiose com a história da Cuba que “transcende”, “e não a Cuba que vendem aos turistas”, explica o diretor cubano.

Após uma espécie de “exílio” cultural na Galícia por três anos, negociado pelo governo cubano após ter feito um filme considerado “imoral”, Piard considera que lançar seu último filme em Londres, patrocinado pelo Instituto Cubano de Arte e Indústria Cinematográfica (Icaic), é um claro sinal dos tão esperados novos tempos em Cuba.

O país que os turistas não vêem tem uma péssima qualidade educacional e um sistema de saúde flagrantemente falido -os dois pilares da Revolução de 1959. Vive entre a divergência praticamente diária e explícita entre Fidel e Raúl Castro. Alimenta uma geração de jovens com seriados norte-americanos como “Lost”, “House” e “CSI Miami”. É o país com uma massa de revolucionários ressentidos, mas ao mesmo tempo incapazes de criticar abertamente Fidel Castro. Para Piard, um revolucionário, Fidel cometeu “erros”, mas com as melhores intenções.

Um marciano, diz ter absoluta certeza de que “a Aids é uma doença fabricada em laboratório pelos EUA”. Um transcendente, que se emociona com a eleição de Barack Obama e, sobretudo, por tê-la assistido longe do controle midiático de Cuba. Um artista assustado com a globalização e que quase decreta o fim do cinema.

FOLHA – “O Viajante Imóvel” começa com uma frase de Lao Tsé [sábio taoísta]: “Quando mais distante se vai, menos se aprende”. O sr. pensa da mesma forma?
TOMÁS PIARD
– Do ponto de vista de Lezama Lima, sim. Porque Lezama viajava por intermédio das suas leituras, da cultura da humanidade. E, assim, difundia valores extraordinários da cultura humana à cultura cubana. Nelson Pereira dos Santos, por exemplo, quando fez “Vidas Secas”, fez algo de valor universal. Ou seja, quanto mais se apegar à sua terra, honestamente, artisticamente, mais essa obra terá transcendência universal. Foi o que aconteceu com “Paradiso”.

FOLHA – É essa transcendência que busca em suas obras?
PIARD
– Sim, sou ambicioso. Por quê? Porque é muito provável que eu não o alcance, mas se sou ambicioso terei a oportunidade de chegar ao mais alto ponto possível. Nunca entenderei os diretores de cinema que dizem: estou fazendo um filme que “não é nada de outro mundo”. Não consigo fazer isso. Cada filme, para mim, é uma obra de grande transcendência artística, sobretudo após a morte do meu filho. A dor parte. O ponto de partida de grandes obras humanas é a dor, não a alegria, a felicidade. A perda do meu filho foi a coisa de mais importante que vivi e me deu coragem e impulso para fazer obras que transcenderam as outras que fizera.

FOLHA – Quando a arte transcende, não é preciso ir tão longe?
PIARD
– É que tudo o que é necessário está dentro de mim. Você é que precisa ser capaz de descobrir. E precisamos lutar para que a globalização não destrua isso.

FOLHA – Em Cuba não se pode ver cinema latino-americano?
PIARD
– Cuba não tem dinheiro para comprar filmes. Em Cuba, todos os filmes são em DVD. Com os países com os quais temos relações diplomáticas e comerciais podemos tentar o direito de exibição. Na TV, às quartas-feiras, passam-se filmes latino-americanos. Mas não se estréiam filmes estrangeiros normalmente em Cuba porque temos que pagar os direitos e, quase sempre, os direitos são norte-americanos. A televisão de Cuba é norte-americana, porque o resto da programação da TV é norte-americana. É um paradoxo, mas fazemos isso porque não temos produção nacional suficiente para preencher todo o espaço da programação. É contraditório, porque os jovens “revolucionários”, por exemplo, estão assistindo aos filmes norte-americanos. E eles também assistem a “Lost”, “House”, “CSI”, todos os seriados norte-americanos recentes. As produções norte-americanas são todas DVDs piratas.

FOLHA – Como imagina usar sua arte para mostrar o que se passa hoje em Cuba para o resto do mundo?
PIARD
– “O Viajante Imóvel” é uma mensagem apenas para os cubanos. Meu objetivo era mostrar aos cubanos o romance de Lezama Lima, que é conhecido em qualquer lugar do mundo, menos pelos cubanos.

FOLHA – O sr. disse, em uma palestra para estudantes, que, quando começou a trabalhar com cinema em Cuba, rechaçava os filmes americanos e procurava refúgio nos russos. Agora, diante do que se passa em Cuba e com a nova realidade do mundo, qual é sua definição de cinema e como sua mente processa os filmes no resto do mundo, especialmente com a globalização?
PIARD
– Infelizmente, o cinema americano tem monopolizado todas as salas de cinema do mundo, inclusive as cubanas. Ou seja, praticamente nós não assistimos a produções de outros lugares. Somado a isso, os grandes autores do cinema estão morrendo. E creio que não há nenhum diretor de cinema de relevo mundial que esteja hoje à altura de Antonioni, Fellini, Bergman e Bertolucci -ainda que ele não seja o que foi no início da sua carreira. Há Wim Wenders, Theo Angelopoulos na Grécia e outros, mas não o que existiu antes.

FOLHA – O momento é novo em Cuba e agora há várias expectativas em relação à política externa norte-americana, com a eleição de Barack Obama. O sr. vê alguma conexão entre esse momento cubano e a eleição norte-americana?
PIARD
– Não creio que possa ser feita uma conexão. Em Cuba são feitos esforços; esse filme, por exemplo, é um esforço [de transição], mas a vida política, econômica e social cubana está toda paralisada. Fidel Castro não é o presidente, mas está presidente. Há coisas que Raúl Castro tenta fazer para mudar a situação de Cuba, mas Fidel, que publica diariamente suas reflexões, às vezes o contradiz. O país foi vítima de dois furacões enormes. O país está arrasado, destruído. Casas, indústrias e escolas foram destruídas. E Cuba não tem uma economia sólida. Não há produção. Nós nos acostumamos a ter o Estado nos provendo e, por isso, perdemos o espírito do que é o trabalho. E só o trabalho pode criar riquezas e dar estabilidade econômica.

FOLHA – Há em Cuba um visível confronto de idéias entre a sociedade que participou da revolução e os jovens, que querem outro regime?
PIARD
– Há sim um confronto. Parte quer que se mantenha o espírito da revolução, mas as novas gerações não têm nenhum compromisso com a realidade histórica que se passou há 50 anos. Os jovens pensam de outra maneira. No entanto, ao longo de todos esses anos, Cuba criou um espírito de “não opinião”. Ninguém quer pensar, porque isso pode prejudicá-lo. Fidel pensa por todos nós. Creio que Fidel pense com a melhor intenção para com o povo, mas que cometeu muitos erros econômicos e destruiu a economia de Cuba gradualmente.

FOLHA – Como a sua geração se sente em relação ao atual momento de Cuba, já que esses ideais da revolução provavelmente nortearam sua vida e sua carreira?
PIARD
– Sinto muita dor. Eu me recordo dos meus pais, que, como toda uma geração, deram o melhor da sua vida pelo triunfo da revolução e para que a vida do povo cubano melhorasse. E o que aconteceu depois? Vivemos hoje na maior miséria que se pode imaginar. Criou-se uma idéia de que vivemos o melhor dos mundos em Cuba. Não é assim. E as melhores coisas que tivemos na revolução, que são a educação e a saúde, também estão destruídas. Esses eram os dois pilares da revolução. Hoje em dia, além de todos os desastres, isso também está arrasado.

FOLHA – Por quê?
PIARD
– No caso da educação, os professores não ganham quase nenhum dinheiro, não se sentem estimulados.

FOLHA – E com a saúde?
PIARD
– Os médicos estão deixando Cuba. Também ganham muito mal e percebem que podem trabalhar na Venezuela ou em qualquer outro lugar, e a vida deles melhora. Em Cuba, então, não temos mais médicos.

FOLHA – Como o sr. aspira a ter liberdade de criação e produção num país que não é livre?
PIARD
– Pelas metáforas. A diferença é que eu, agora, não toco na realidade diretamente. Por exemplo, um dos temas que mais me interessam é o da família, da desintegração da família enquanto um núcleo essencial da sociedade. Em Cuba, todas as famílias estão desgarradas. Há pessoas que foram para outros países ou, mesmo na ilha, muitos membros vivem em outras Províncias. Neste meu último filme, por exemplo, há um símbolo muito importante do que é a agregação da família: a comida, o jantar, a mesa. Ou seja, a família se senta junta para comer. Quando isso acontece, existe a família.

FOLHA – O sr. conhece algo do cinema brasileiro?
PIARD
– Creio que uma proposta da magnitude de Nelson Pereira dos Santos, de Glauber Rocha e de Rui Guerra não existe no momento. “Memórias do Cárcere” [de Nelson Pereira dos Santos] é algo excepcional que não se verá todo dia. Vi recentemente “Central do Brasil”, de Walter Salles, que é muito bom. E gosto muito também de “Diários de Motocicleta”, apesar de achar que idealiza muito Che Guevara. O personagem que não é o protagonista é muito mais sólido. Mas Salles é um bom diretor. Ah, e tem também aquele dos meninos, como se chama? “Cidade de Deus”!

FOLHA – O que achou da vitória de Barack Obama nos Estados Unidos?
PIARD
– Me emocionei muito. E me emocionei sobretudo por poder tê-la visto fora de Cuba, porque lá os meios de comunicação manipulam tudo.

04/06/2008 - 15:50h Conversa de mestres

Violoncelista Antonio Meneses e o pianista Menahem Pressler lançam álbum com as sonatas de Beethoven e as tocam ao vivo no festival Folle Journée, que começa hoje no Rio

João Luiz Sampaio – O Estado de São Paulo

E o violoncelo jamais foi o mesmo. ‘Antes das sonatas de Beethoven, não existia nada igual escrito para o instrumento’, diz o violoncelista Antonio Meneses. Não por acaso, elas são presença constante no repertório dos artistas, que no palco ou no estúdio se dedicam a uma vida inteira de interpretações. E o músico pernambucano não foge à regra. Acaba de gravar as cinco sonatas ao lado do pianista Menahem Pressler (lançamento nacional pelo selo Clássicos) e, no sábado e domingo, as interpreta no Rio, parte da programação do festival Folle Journée, que começa hoje e até o fim de semana ocupa 7 palcos da cidade com 48 concertos.

‘Mozart escreveu sonatas para violino, Bocherini e Vivaldi escreveram peças para violoncelo, mas não há nada que se equipare à importância que Beethoven dá ao instrumento’, diz Meneses. ‘A intensidade dessas peças não é o único aspecto a ser considerado. Ao longo delas, escritas durante enorme período da vida do compositor, fica clara a maneira como ele ganha familiaridade com o violoncelo, dando voz cada vez mais pessoal a ele’, completa Pressler. As sonatas não servem apenas para evidenciar o gênio de Beethoven – podem também revelar o talento de dois intérpretes e, mais importante, a maneira como dialogam sobre o palco. E aí, não dá para duvidar – Meneses vive o melhor momento de sua carreira.

No seu caminho até aqui, Pressler foi figura fundamental. O pianista americano é um dos criadores do Trio Beaux-Arts, que completou recentemente 50 anos de atividade. Sem abrir mão da carreira de solista – no fim de semana ele atuou em concertos da Sinfônica Brasileira, no Rio -, ele dedicou a vida artística a explorar as sutilezas da música de câmara, na qual o objetivo a ser alcançado é a união honesta e direta de artistas diferentes em torno de uma meta musical comum. Nos anos 90, a formação original do Beaux-Arts se desfez e Pressler saiu em busca de substitutos. Encontrou Meneses e, mais tarde, o violinista Daniel Hope. Além da atuação no trio, que está encerrando suas atividades, Pressler e o brasileiro têm viajado o mundo tocando em duo. O pianista se refere a Meneses como um intérprete sensível, ‘um grande músico’. E o violoncelista dá a medida da influência do mestre ao falar sobre como sua interpretação das sonatas mudou ao longo dos anos. ‘Quando aprendi essas peças, pode-se dizer que as aprendi como violoncelista, do ponto de vista do violoncelo. Interpretando-as com o Menahem, a visão é mais ampla, passei a ver as sonatas como música de câmara. A técnica, claro, é fundamental para atingir objetivos musicais. Mas com Pressler o que acontece é uma conversa entre instrumentos e o verdadeiro objetivo é mostrar ao público a partitura na sua totalidade, como uma só voz e não como duas vozes separadas’, diz.

E o que diz essa voz? Pressler propõe uma leitura interessante, segundo a qual é preciso pensar o que motivava Beethoven a compor. ‘Beethoven compreendia o sofrimento do homem. Era um humanista, acreditava na igualdade entre todos e na possibilidade de diálogo e entendimento. Quando ouvimos suas sinfonias, em especial as do fim de sua carreira, como a Nona, o vemos falando com a humanidade como um todo – é como se sua música construísse um grande edifício de um novo mundo e convidasse as pessoas a habitá-lo. Nas sonatas, no entanto, ele não fala com as massas. Aqui, seu interlocutor é o indivíduo. Ele reproduz uma enorme gama de emoções nessa partitura, sem jamais deixar surgir uma oposição entre clareza e sensibilidade e perder de foco sua mensagem de diálogo.’ Na conversa do Estado com Meneses, surge a interpretação de Pressler. Ele concorda? ‘Nunca falamos disso mas, desde já, não vejo a hora de chegar ao Rio para discutir essa idéia com ele.’

Nas sonatas, a revelação de um gênio

Para Pressler e Meneses, elas mostram papel de Beethoven na história ocidental

João Luiz Sampaio – OESP

As sonatas para violoncelo foram escritas ao longo de 20 anos. Dessa forma, acompanham a trajetória de Beethoven – e a evolução do seu poder criativo. ‘As duas primeiras sonatas são do início da sua carreira, o violoncelo ainda tem uma participação tímida. Já na terceira sonata, no entanto, que faz parte do chamado período médio do compositor, já está presente o diálogo entre os dois instrumentos, o que vai desaguar na última sonata, em que se pode dizer que ele atinge uma certa perfeição na atribuição de vozes aos instrumentos’, diz Meneses.

Pressler lembra que essa evolução não é apenas da utilização do violoncelo ou mesmo do compositor – faz parte também da história da música ocidental. ‘Essa evolução representa o caminho que começa no classicismo de Haydn e Mozart e termina no início do romantismo. Perceber isso é começar a entender a proporção do gênio e da importância de Beethoven’, diz o pianista.

Sobre as apresentações no Rio, Meneses chama atenção para as diferenças entre a gravação e o concerto ao vivo. ‘Gravar uma obra tem pouco a ver com a execução ao vivo. Mas, depois de gravá-la e estudar nossa própria interpretação nos mínimos detalhes, escolhendo versões e decidindo refazer passagens, você ganha uma familiaridade muito grande com ela. Então, quando você volta ao palco, se sente cada vez mais íntimo daquela obra’, afirma.

A boa nova é que, depois das sonatas, Meneses já tem uma série de projetos preparados. Está na Europa terminando de gravar em DVD as sonatas de Vivaldi; depois dos concertos no Rio, vem a São Paulo, onde grava com a Sinfônica do Estado o concerto de Dvorak; no segundo semestre, grava, também para DVD, as suítes de Bach. E, ainda este ano, lança novo disco, desta vez com a pianista Celina Svrinsk, gravado em março. ‘Nós escolhemos uma seleção de obras da primeira metade do século 20. Entre os brasileiros, tocamos Villa-Lobos e Camargo Guarnieri; e, entre os europeus, Nadia Boulanger e Bohuslav Martinu. A idéia não era fazer um disco dedicado a um só autor, como eu tenho feito, mas, sim, gravar um programa que poderia ser feito no palco, em um recital. Mas há um ponto em comum entre esses autores e é a presença de Paris, cidade que foi importante para a formação de Villa, Guarnieri e Martinu e na qual Nadia Boulanger trabalhou toda a sua carreira como professora e incentivadora.’

Festival promove 48 concertos de hoje a domingo

João Luiz Sampaio – O Estado de São Paulo

FESTA: Criada nos anos 90 em Nantes, na França, a Folle Journée surgiu com a proposta de celebrar a música e levá-la a um novo público. Seu formato é simples de descrever, difícil de colocar em prática: uma série de concertos curtos e com ingressos a preços baixos espalhados por diversos palcos da cidade, de preferência próximos uns dos outros, guiados por um tema que proponha às platéias relações entre compositores e/ou obras. O festival, idealizado por René Martin, chegou ao Rio no ano passado, por intermédio da produtora brasileira Helena Floresta. Agora, em sua segunda edição, já ganhou mais dois dias e um número maior de concertos – serão 48, ao todo, de hoje até domingo. O tema deste ano é Beethoven. Quais os destaques da programação? É difícil escolher. Mas, além de seleções das sinfonias e dos concertos para piano, seria interessante acompanhar as séries integrais que serão apresentadas – as dos quartetos de cordas, dos trios com piano, as 32 sonatas para piano, as dez sonatas para violino e as cinco sonatas para violoncelo. É uma opção, até pela raridade que é ouvir integrais por aqui. A outra opção pode ser seguir os artistas preferidos – e a lista de intérpretes é especial: além de Meneses e Pressler, estarão presentes nomes como Alexander Kniazev (violoncelo), Andrei Korobeinikov , Abdel Raman el Bacha, Eduardo Monteiro e Boris Berezovsky (piano), Dmitri Mahkti n e Daniel Guedes (violino), Mauricio Freire (flauta), Phillipe Doyle (trompa), entre outros. Entre os conjuntos, estão a Orquestra da Sociedade Bachiana Brasileira (Ricardo Rocha , maestro), a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (Silvio Viegas), a Orquestra Sinfônica Nacional (Ligia Amadio ), a OSB Jovem (Marcos Arakaki), o Quarteto Ysaÿe , o Quinteto Villa-Lobos e o Trio Wanderer. A programação completa da Folle Journée e a lista de palcos em que será realizada podem ser encontradas no site www.riofollejourne.com/2008.

Artistas imprimem olhar original sobre as obras

Pianista e violoncelista conseguem a façanha de se impor perante as versões disponíveis das sonatas

Crítica João Marcos Coelho – O Estado de São Paulo

Quando o violoncelo entoa sozinho, de maneira extremamente doce, o primeiro tema do ‘Allegro ma non tanto’ da Sonata Opus 69, em lá maior, parece o início de uma fuga, que no entanto aborta; em seguida, entra o piano, que retoma a frase de modo denso, tocando em oitavas e dá a deixa para a cadência do violoncelo, que fecha este curtíssimo episódio de abertura. Pronto. Beethoven decretava aqui o início de um gênero, o da sonata para violoncelo e piano. Pela primeira vez na história da música, o instrumento de cordas de timbre mais eloqüente e afim à voz humana adquiria status igual ao do piano. Corria o ano de 1808.

link
Ouça entrevista de Meneses som

Pouco mais de dez anos antes, ele brincara com a forma ao oferecer as duas sonatas, opus 5, para o rei-violoncelista da Prússia, Frederico Guilherme II. Este mantinha em sua corte o violoncelista Jean-Pierre Duport, que encantou Beethoven por seu cantabile e sonoridade tanto nos agudos como nos graves e trocou muitas figurinhas com o compositor sobre as possibilidades técnicas do instrumento, o que certamente contribuiu para a incrivelmente nova sonata opus 69 de anos mais tarde.

Em 1815/16, as duas sonatas finais – opus 102 – desempenharam um papel de experimentação tão importante quanto os últimos quartetos e as sonatas para piano na construção do estilo mais radical do compositor. Michel Frey, mestre de capela de Mannheim, escreveu, quando ouviu Czerny e Linke tocando uma das sonatas do opus 102: ‘É tão original que ninguém pode compreendê-la na primeira audição’.

Os sábios dedos de Menahem Pressler, curtidos em mais de meio século de prática de música de câmara, unem-se à maturidade plena de Antonio Meneses como violoncelista, conquistada na última década de convivência no Beaux Arts Trio, para nos levar, de modo encantador, por este fascinante passeio musical em direção ao novo, que transformou o status do violoncelo.

Este ciclo é um dos mais gravados da história do disco. Vale, portanto, lembrar as mais famosas e recentes. Entre as primeiras estão as de Rostropovich/Richter, Fournier/Gulda e Fournier/Kempff. E, entre os registros recentes, estão o holandês Pieter Wispelwey com Dejan Lazic e os húngaros Miklós Perpenyi e András Schiff.

Forte concorrência, como se vê. Mas me arrisco a dizer que nenhum deles exibe a intimidade que esbanjam Meneses e Pressler. Não há excessos nem arroubos (como em Rostropovich/Richter ou Perényi/Schiff) ou parcimônia excessiva (uma das causas do quase-desequilíbrio da maravilhosa versão Fournier/Gulda). Talvez a performance de Fournier com Kempff seja a única a comungar a mesma visão global que possuem Meneses e Pressler.

Para ficar somente nas gravações recentes, a calma precisa dos dois contrasta com a dos demais. Não há vontade nem necessidade de apressar demais os andamentos. Perényi e Wispelwey soam sempre mais acelerados. No opus 69, por exemplo, a sonata ganha uma virtuosidade excessiva, que jamais foi a meta de Beethoven. Em vez disso, Meneses e Pressler ocupam-se da lapidação das frases, costuram com carinho a dinâmica e a agógica. É só por isso – como se fosse pouco – que esta gravação impõe-se. Tem identidade. Imprime marcas originais. Fazer isso em Beethoven é quase sobre-humano. Mas Meneses e Pressler conseguiram a façanha.

05/03/2008 - 15:32h West Side Story, no DVD gravado por Leonard Bernstein

Partitura para não seguir regras, como seu compositor

DVD com gravação feita nos anos 1980 por Leonard Bernstein oferece olhar sobre o processo criativo do maestro americano

João Luiz Sampaio – O Estado de São Paulo

Bernstein / Carreras / Te Kanawa - Bernstein Conducts West Side Story / Te Kanawa, Carreras CD O compositor e maestro Leonard Bernstein (1918-1990) fez uma gravação de West Side Story – e apenas décadas após escrever o musical, em meados dos anos 80. Reuniu um elenco estelar – a soprano Kiri Te Kanawa e o tenor José Carreras, queridinhos do cenário operístico da época, a meio-soprano Tatiana Trotyanos, grande nome da ópera americana, e um jovem revelação, o barítono Kurt Ollman. O registro histórico tem face dupla: de um lado, o CD; de outro, o making-of das gravações. Ambos fazem parte de uma edição especial lançada no final do ano passado pelo selo alemão Deutsche Grammophon para marcar os 50 anos da estréia do musical (há também edições individuais dos dois produtos, todas elas importadas).

Não há muito a dizer sobre as vozes, além de ressaltar o modo especial como se combinam na recriação dessa música – Bernstein conta que, quando escrevia o musical, ouviu diversas vezes de Jerome Robbins e Stephen Sondheim que não escrevesse uma ópera; seu prazer secreto, revela, foi criar linhas de canto que se prestassem também à impostação lírica para, um dia, gravar o musical com cantores de ópera. O mais interessante, porém, é o DVD com o making-of da gravação, com curiosidades e lances para deixar qualquer melômano feliz: Bernstein se desentende com Carreras que, por sua vez, se aborrece e deixa o estúdio xingando algo em espanhol; reclama dos produtores, demonstra seu nervosismo quando um dos microfones falha e ele é obrigado a refazer um dos takes das Danças Sinfônicas; elogia Kiri, irritando as colegas; e por aí vai.

Dos momentos curiosos o que sobra, porém, é a própria personalidade de Bernstein. O gênio difícil sempre foi componente importante da imagem que o maestro e compositor vendeu ao mundo musical. Mais do que isso. Os auto-elogios, as auto-referências, as mudanças de humor – e a percepção de que todos esses elementos sugeriam uma mística em torno de si mesmo – mostram uma personalidade forte, e hábil, que escorregou para a música e permitiu ao compositor ser uma voz dissonante entre as escolas e tendências que pautaram a produção musical do século 20. Se Bernstein seguiu alguma escola, foi nela reitor, professor e aluno rebelde. E, nesse contexto, West Side Story, na apropriação que faz da cultura americana, na mistura de gêneros e na qualidade da escrita, seria a nota dez que garantiria ao artista formar-se como o grande nome da música americana do período.

03/11/2007 - 18:32h IPTV: internet está mais perto da TV do futuro do que a TV digital, dizem especialistas

Divulgação / AppleTV, uma das caras que a televisão sobre internet (IPTV) ganha no mercado

Agnes Dantas, O Globo Online RIO – O cenário ideal para a televisão do futuro seria um telespectador livre para assistir a programação que quiser na hora em que decidir e em qualquer lugar – de preferência também no celular -, sem uma grade fixa a seguir e com direito a interagir com outros usuários que tenham gostos em comum. E mais: como acontece no YouTube, o telespectador também pode ser produtor de conteúdo audiovisual. ( Leia mais: sob influência da Web 2.0, TV do futuro deverá ter conteúdo definido pelo espectador )

Diante deste cenário, especialistas defendem: o Brasil está mais perto de alcançar este modelo de televisão do futuro pela chamada TV sobre internet – IPTV – e pelas ofertas de vídeos sob demanda (on demand) do que pela TV digital. ( Leia mais: dez questões mais comuns sobre TV digital ), já que o sinal de internet pode chegar na TV, no computador e até no celular.

- Os vídeos que o espectador encomenda hoje pelo pay-per-view da TV a cabo ou via satélite estão amarrados a uma grade fixa. Se você perder dez minutos, já era. E não dá para parar, nem voltar, nem retomar depois. Isso não é TV do futuro – afirmou Alan Sawyer, co-fundador da consultoria de tecnologias Two Solitudes, um dos especialistas que estiveram no congresso “TV 2.0″, em São Paulo.

Contam a favor da internet o aumento constante no volume de acessos em banda larga no Brasil – já passa dos seis milhões de usuários – e o fato de o país manter a liderança em tempo gasto por mês com a internet – à frente de nove países, entre eles Estados Unidos e Japão. Já a TV digital, argumentam especialistas, inicia as transmissões em dezembro apenas em São Paulo e somente para quem comprar novos televisores ou conversores de sinal – sem a garantia de sinal de TV digital em outros estados antes de meados de 2008. E mobilidade? Ainda são poucos e caros os protótipos de celulares capazes de captar sinais de TV digital.

 

Os vídeos que o espectador encomenda hoje pelo pay-per-view estão amarrados a uma grade fixa. Se perder dez minutos, já era. Isso não é TV do futuro (Alan Sawyer, da Two Solitudes)


- Quando a gente fala em televisão pela internet (IPTV), estamos falando em entregar conteúdo televisivo através da estrutura que já existe na casa das pessoas, que é a rede de banda larga instalada. Os operadores precisam melhorar a qualidade da banda existente, é verdade, mas já estamos na casa deste usuário. Não estamos reinventando a roda – destacou Carlos Watanabe, da Brasil Telecom, que há um ano começou os testes com o serviço de IPTV, “Videon” , que já vende na tela do televisor vídeos sob demanda em Brasília.

Em defesa da IPTV, Watanabe cita um exemplo: no estado do Paraná, uma das áreas cobertas pela operadora, as empresas de cabo e satélite cobrem pouco mais de 20 cidades. A rede de padrão de até 8Mbps de velocidade da BrT atinge pouco mais de 200 municípios.

Já a gigante Warner Bros repete no Brasil a mesma estratégia internacional: usa o computador como canal de distribuição de conteúdo em vídeo (home video). O país é o único da América Latina em que é possível encomendar mais de 50 títulos em vídeo, inclusive lançamentos, via download para o computador com pagamento em reais. Desde julho a marca tem parceria com o portal Eonde ( www.eonde.com.br), conta Carlos Canhestro, diretor de operações Home Video da Warner Bros Brasil. O executivo anuncia novos planos e diz que a chegada da TV digital está confundindo o telespectador.

- Ainda nos primeiros três meses de 2008 devem ser lançados outros dois ou três portais como este de download legal de vídeos no Brasil. É o que eu acredito. Já a chegada da TV digital e dos DVDs de alta definição (HD DVD e Blu-Ray) agora em dezembro vão deixar o usuário muito confuso. O consumidor nem sabe o que vai comprar. Não é o melhor momento para definir uma estratégia agora. Toda a tecnologia precisa de um tempo de maturação, não adianta nada esta ansiedade toda. Já em 2008 vai ser diferente – afirma, com ar de suspense.

O celular também se transforma em um canal viável para a televisão sobre internet. A Claro acumula há dois meses experiência no assunto com o VídeoMaker, que oferece para download vídeos produzidos por usuários – que são remunerados por isso -, e que já possui IPTV com vídeos em streaming de emissoras como CNN e de canais como o Cartoon.

Na opinião de Galileu Vieira, gerente de novas tecnologias da Microsoft, tanto o computador quanto os celulares e os serviços que levam conteúdos da internet para a televisão têm chances de servir de central de ofertas para conteúdos de mais qualidade e interativos. O executivo citou o Windows Media Center, plataforma que chegou ao Brasil com o Windows Vista, em janeiro deste ano, e que é capaz de transformar o computador em uma central de entretenimento que distribui conteúdo digital (vídeos, músicas, fotologs, textos etc) para todos os equipamentos eletrônicos de uma casa via rede IP. E citou o exemplo do console de videogames da Microsoft, Xbox 360, que nos Estados Unidos será o terminal oficial de IPTV da operadora AT&T, por ser capaz de acessar a internet em alta velocidade, de gravar conteúdos e de realizar chamadas de VoIP, como o Skype.

- Por exemplo, nos Estados Unidos os usuários do Xbox Live (serviço online) usam o console para acessar conteúdo de TV sob demanda, ao mesmo tempo em que conversam com os amigos via VoIP, integrado com o Messenger (bate-papo). Pela internet podem comprar episódios de minisséries, alugar filmes e baixar jogos ou conteúdo televisivo em alta definição para assistir na TV plugada ao Xbox. Isso é TV do futuro – descreveu o especialista.

Vieira não confirmou se a Microsoft tem planos de oferecer Xbox Live no Brasil, mas lembrou que, caso haja planos, “ainda estamos dentro do prazo porque, em geral, este anúncio acontece de 12 a 14 meses após o lançamento oficial do console em um país”: o Xbox 360 foi oficialmente lançado pela Microsoft em dezembro de 2006.