22/10/2009 - 22:00h Boa noite
Humoresque N° 7, de Dvorak – Itzhak Perlman, violino; Yo-Yo Ma, violoncelo. Regente: Seiji Ozawa
- Luis Favre
Humoresque N° 7, de Dvorak – Itzhak Perlman, violino; Yo-Yo Ma, violoncelo. Regente: Seiji Ozawa
Lua de prata no céu profundo
a tua luz vê terras distantes,
viajas por todo o vasto mundo,
vês as moradas humanas.
Lua detém-te por um momento,
diz-me onde está o meu bem amado
Diz-lhe lua prateada no céu
que o estreito em meus braços,
que por um instante, ao menos
se recorde de mim em seus sonhos,
Que por um instante, ao menos,
se recorde de mim em seus sonhos,
Ilumina a sua longínqua morada,
diz-lhe quem o está aqui esperando !
Ilumina a sua longínqua morada,
diz-lhe quem o está aqui esperando !
Se sonha comigo
que esta lembrança o acorde !
Lua, não desapareças, não desapareças !
Apresentação de quinta-feira do maestro húngaro à frente da Osesp está entre os concertos mais notáveis deste ano
Lauro Machado Coelho – O Estado SP
A segunda apresentação do maestro Gábor Ötvös, na quinta, confirmou o acerto da política iniciada pelo maestro Neschling, na Osesp, de enquadrar, com duas obras conhecidas e populares, uma importante peça pouco conhecida do público. Assim, pilares do repertório, de Prokófiev e Dvorák, acompanharam o Concerto para Viola op. póst. de Béla Bartók, admiravelmente executado pelo violista chileno Roberto Díaz.
É difícil saber o que seria o Concerto para Viola, se Bartók o tivesse podido terminar. Quando ele morreu, em 26 de setembro de 1945, a peça ainda não estava orquestrada, e Tibor Serly, o seu aluno predileto, a terminou. Mas a linha do solista – que Béla discutira com o violista inglês William Primrose, que encomendara o concerto – estava virtualmente pronta. E a ela, a esta a sonoridade encorpada do instrumento de Díaz deu um relevo excepcional. Desde a exposição do primeiro tema, no Allegro moderato, manteve a proeminência da viola, mesmo quando a orquestra se adensa, fazendo soar, após a magnífica cadência, o belo solo de fagote que opera a transição para o Adagio religioso.
Na melodia estaticamente meditativa desse movimento de forma ternária, que Díaz plasmou com contida emoção, está o epicentro dessa perturbadora música, escrita por um homem que sabe que está morrendo e, nela, faz sua última declaração de crença na vida – traduzida na seção central, Allegretto, de que Díaz extraiu todo o efeito virtuosístico. O Finale: Allegro vivace é o movimento mais sumário, e talvez tivesse sido mais extenso, se Bartók tivesse podido revê-lo. Mas em seu moto perpétuo, de intenso sabor húngaro, a que Díaz imprimiu o impulso rítmico que torna a música de Bartók inconfundível, está a despedida da terra que nunca mais veria.
Ao acompanhá-lo, Ötvös e a Osesp se empenharam – ao mesmo tempo que abriam todo o espaço para o discurso da viola -, em explorar o que a escrita orquestral tem de melhor, em especial os momentos que nos trazem à mente ecos do Concerto para Orquestra, última peça orquestral de Bartók. Ouvindo essa grande despedida da vida, entendemos por que, momentos antes de entrar em coma, Béla disse ao médico: “O mais triste é que estou indo embora com a bagagem cheia.”
E ouvir Roberto Díaz dar, no extra – o movimento Rapidíssimo da terceira sonata de Hindemith para viola-solo – uma demonstração da soberba escola de instrumento que tem, impõe a pergunta: por que Tortelier, que é um reconhecido bom intérprete de Hindemith, não traz de volta, no futuro, para tocar aqui Der Schwanendreher, para viola e orquestra?
A Sinfonia nº 1 em ré maior op. 25 “Clássica”, de Serguêi Prokófiev, com que o programa foi aberto, foi realizada por Ötvös e a Osesp com uma transparência de texturas e elegância de fraseado que se deliciou com o transbordante bom humor dessa peça. E mais: eles a tocaram de modo a fazer sentir que, ao retomar o modelo clássico, Prokófiev permanece russo dos pés à cabeça – é como se Iósif Haydn tivesse nascido em Sontsóvka, em 1891.
O título da sempre estimada Sinfonia nº 9 em Mi Menor op. 95 “Do Novo Mundo” fica mais claro, se nos lembramos do título em inglês ”From the New World”. Não é uma sinfonia “sobre a América”, mas a obra nostálgica de um homem que, longe de casa, sente saudades de seu país e conta nos dedos os minutos que faltam para voltar a vê-lo. Ötvös teve isso sempre em mente, ao levar a Osesp neste passeio pela última sinfonia do compositor checo.
O tema cíclico de sabor boêmio, que estará presente em toda a sinfonia, e o ritmo de polca que marca o segundo tema do Adagio-allegro molto, criam o clima da obra. Mas foi no Largo que o corne inglês de Natan Albuquerque Jr., a flauta e o o oboé de Jéssica Dalsant e Arcádio Minczuk, ou o violino de Cláudio Cruz, recriaram toda a magia das citações de temas americanos que se entrelaçam, contrastando com a exuberância dos ritmos de dança da Europa central com que se constrói o Scherzo molto vivace seguinte. Tratamento de vigorosa liberdade rítmica foi o que Ötvös deu à canção americana sobre os “Três ratinhos cegos”, envolta numa roupagem wagneriana – que, apesar da ligação do compositor com Brahms – é prova da sua liberdade e independência de espírito.
Ouvir Ötvös tocando Dvorák, mostrou quanto ele compartilha a crença bartokiana de que a música – Béla fez pesquisas não só do folclore húngaro, mas também do eslovaco, romeno, checo e até do árabe – poderia, numa época de grandes conflitos, ser o elo de solidariedade entre os homens. Lição mais do que nunca atual, quando vemos intelectuais do porte de Edward Said e Daniel Barenboim recorrerem à música, como uma forma de reaproximação no conturbado Oriente Médio. Todas essas reflexões nos levam a crer que esta apresentação de Gábor Ötvös coloca-se entre os concertos mais notáveis a que pudemos assistir este ano.
Serviço
Osesp. Sala São Paulo (1.484 lugares). Praça Júlio Prestes, s/n.º, tel. 3223-3966. Hoje, 16h30, R$ 30 a R$ 104
Rostropovich – Concerto para Violoncelo de Dvorak. Regente: Carlo Maria Giulini e a Orquestra Filarmônica de Londres
Lua de prata no céu profundo
a tua luz vê terras distantes,
viajas por todo o vasto mundo,
vês as moradas humanas.
Lua detém-te por um momento,
diz-me onde está o meu bem amado
Diz-lhe lua prateada no céu
que o estreito em meus braços,
que por um instante, ao menos
se recorde de mim em seus sonhos,
Que por um instante, ao menos,
se recorde de mim em seus sonhos,
Ilumina a sua longínqua morada,
diz-lhe quem o está aqui esperando !
Ilumina a sua longínqua morada,
diz-lhe quem o está aqui esperando !
Se sonha comigo
que esta lembrança o acorde !
Lua, não desapareças, não desapareças !
Fonte
Sinfonia N° 9, chamada de Novo Mundo de Antonin Dvorak. Filarmônica de Viena dirigida por Herbert von Karajan.
4to. movimento
Concerto para Violoncelo de Dvorak: Rostropovich 1° Parte
Concerto para Violoncelo de Dvorak : Rostropovich 2° Parte

Violoncelista Antonio Meneses e o pianista Menahem Pressler lançam álbum com as sonatas de Beethoven e as tocam ao vivo no festival Folle Journée, que começa hoje no Rio
João Luiz Sampaio – O Estado de São Paulo
E o violoncelo jamais foi o mesmo. ‘Antes das sonatas de Beethoven, não existia nada igual escrito para o instrumento’, diz o violoncelista Antonio Meneses. Não por acaso, elas são presença constante no repertório dos artistas, que no palco ou no estúdio se dedicam a uma vida inteira de interpretações. E o músico pernambucano não foge à regra. Acaba de gravar as cinco sonatas ao lado do pianista Menahem Pressler (lançamento nacional pelo selo Clássicos) e, no sábado e domingo, as interpreta no Rio, parte da programação do festival Folle Journée, que começa hoje e até o fim de semana ocupa 7 palcos da cidade com 48 concertos.
‘Mozart escreveu sonatas para violino, Bocherini e Vivaldi escreveram peças para violoncelo, mas não há nada que se equipare à importância que Beethoven dá ao instrumento’, diz Meneses. ‘A intensidade dessas peças não é o único aspecto a ser considerado. Ao longo delas, escritas durante enorme período da vida do compositor, fica clara a maneira como ele ganha familiaridade com o violoncelo, dando voz cada vez mais pessoal a ele’, completa Pressler. As sonatas não servem apenas para evidenciar o gênio de Beethoven – podem também revelar o talento de dois intérpretes e, mais importante, a maneira como dialogam sobre o palco. E aí, não dá para duvidar – Meneses vive o melhor momento de sua carreira.
No seu caminho até aqui, Pressler foi figura fundamental. O pianista americano é um dos criadores do Trio Beaux-Arts, que completou recentemente 50 anos de atividade. Sem abrir mão da carreira de solista – no fim de semana ele atuou em concertos da Sinfônica Brasileira, no Rio -, ele dedicou a vida artística a explorar as sutilezas da música de câmara, na qual o objetivo a ser alcançado é a união honesta e direta de artistas diferentes em torno de uma meta musical comum. Nos anos 90, a formação original do Beaux-Arts se desfez e Pressler saiu em busca de substitutos. Encontrou Meneses e, mais tarde, o violinista Daniel Hope. Além da atuação no trio, que está encerrando suas atividades, Pressler e o brasileiro têm viajado o mundo tocando em duo. O pianista se refere a Meneses como um intérprete sensível, ‘um grande músico’. E o violoncelista dá a medida da influência do mestre ao falar sobre como sua interpretação das sonatas mudou ao longo dos anos. ‘Quando aprendi essas peças, pode-se dizer que as aprendi como violoncelista, do ponto de vista do violoncelo. Interpretando-as com o Menahem, a visão é mais ampla, passei a ver as sonatas como música de câmara. A técnica, claro, é fundamental para atingir objetivos musicais. Mas com Pressler o que acontece é uma conversa entre instrumentos e o verdadeiro objetivo é mostrar ao público a partitura na sua totalidade, como uma só voz e não como duas vozes separadas’, diz.
E o que diz essa voz? Pressler propõe uma leitura interessante, segundo a qual é preciso pensar o que motivava Beethoven a compor. ‘Beethoven compreendia o sofrimento do homem. Era um humanista, acreditava na igualdade entre todos e na possibilidade de diálogo e entendimento. Quando ouvimos suas sinfonias, em especial as do fim de sua carreira, como a Nona, o vemos falando com a humanidade como um todo – é como se sua música construísse um grande edifício de um novo mundo e convidasse as pessoas a habitá-lo. Nas sonatas, no entanto, ele não fala com as massas. Aqui, seu interlocutor é o indivíduo. Ele reproduz uma enorme gama de emoções nessa partitura, sem jamais deixar surgir uma oposição entre clareza e sensibilidade e perder de foco sua mensagem de diálogo.’ Na conversa do Estado com Meneses, surge a interpretação de Pressler. Ele concorda? ‘Nunca falamos disso mas, desde já, não vejo a hora de chegar ao Rio para discutir essa idéia com ele.’

Nas sonatas, a revelação de um gênio
Para Pressler e Meneses, elas mostram papel de Beethoven na história ocidental
João Luiz Sampaio – OESP
As sonatas para violoncelo foram escritas ao longo de 20 anos. Dessa forma, acompanham a trajetória de Beethoven – e a evolução do seu poder criativo. ‘As duas primeiras sonatas são do início da sua carreira, o violoncelo ainda tem uma participação tímida. Já na terceira sonata, no entanto, que faz parte do chamado período médio do compositor, já está presente o diálogo entre os dois instrumentos, o que vai desaguar na última sonata, em que se pode dizer que ele atinge uma certa perfeição na atribuição de vozes aos instrumentos’, diz Meneses.
Pressler lembra que essa evolução não é apenas da utilização do violoncelo ou mesmo do compositor – faz parte também da história da música ocidental. ‘Essa evolução representa o caminho que começa no classicismo de Haydn e Mozart e termina no início do romantismo. Perceber isso é começar a entender a proporção do gênio e da importância de Beethoven’, diz o pianista.
Sobre as apresentações no Rio, Meneses chama atenção para as diferenças entre a gravação e o concerto ao vivo. ‘Gravar uma obra tem pouco a ver com a execução ao vivo. Mas, depois de gravá-la e estudar nossa própria interpretação nos mínimos detalhes, escolhendo versões e decidindo refazer passagens, você ganha uma familiaridade muito grande com ela. Então, quando você volta ao palco, se sente cada vez mais íntimo daquela obra’, afirma.
A boa nova é que, depois das sonatas, Meneses já tem uma série de projetos preparados. Está na Europa terminando de gravar em DVD as sonatas de Vivaldi; depois dos concertos no Rio, vem a São Paulo, onde grava com a Sinfônica do Estado o concerto de Dvorak; no segundo semestre, grava, também para DVD, as suítes de Bach. E, ainda este ano, lança novo disco, desta vez com a pianista Celina Svrinsk, gravado em março. ‘Nós escolhemos uma seleção de obras da primeira metade do século 20. Entre os brasileiros, tocamos Villa-Lobos e Camargo Guarnieri; e, entre os europeus, Nadia Boulanger e Bohuslav Martinu. A idéia não era fazer um disco dedicado a um só autor, como eu tenho feito, mas, sim, gravar um programa que poderia ser feito no palco, em um recital. Mas há um ponto em comum entre esses autores e é a presença de Paris, cidade que foi importante para a formação de Villa, Guarnieri e Martinu e na qual Nadia Boulanger trabalhou toda a sua carreira como professora e incentivadora.’
Festival promove 48 concertos de hoje a domingo
João Luiz Sampaio – O Estado de São Paulo
FESTA: Criada nos anos 90 em Nantes, na França, a Folle Journée surgiu com a proposta de celebrar a música e levá-la a um novo público. Seu formato é simples de descrever, difícil de colocar em prática: uma série de concertos curtos e com ingressos a preços baixos espalhados por diversos palcos da cidade, de preferência próximos uns dos outros, guiados por um tema que proponha às platéias relações entre compositores e/ou obras. O festival, idealizado por René Martin, chegou ao Rio no ano passado, por intermédio da produtora brasileira Helena Floresta. Agora, em sua segunda edição, já ganhou mais dois dias e um número maior de concertos – serão 48, ao todo, de hoje até domingo. O tema deste ano é Beethoven. Quais os destaques da programação? É difícil escolher. Mas, além de seleções das sinfonias e dos concertos para piano, seria interessante acompanhar as séries integrais que serão apresentadas – as dos quartetos de cordas, dos trios com piano, as 32 sonatas para piano, as dez sonatas para violino e as cinco sonatas para violoncelo. É uma opção, até pela raridade que é ouvir integrais por aqui. A outra opção pode ser seguir os artistas preferidos – e a lista de intérpretes é especial: além de Meneses e Pressler, estarão presentes nomes como Alexander Kniazev (violoncelo), Andrei Korobeinikov , Abdel Raman el Bacha, Eduardo Monteiro e Boris Berezovsky (piano), Dmitri Mahkti n e Daniel Guedes (violino), Mauricio Freire (flauta), Phillipe Doyle (trompa), entre outros. Entre os conjuntos, estão a Orquestra da Sociedade Bachiana Brasileira (Ricardo Rocha , maestro), a Orquestra Sinfônica do Teatro Municipal do Rio de Janeiro (Silvio Viegas), a Orquestra Sinfônica Nacional (Ligia Amadio ), a OSB Jovem (Marcos Arakaki), o Quarteto Ysaÿe , o Quinteto Villa-Lobos e o Trio Wanderer. A programação completa da Folle Journée e a lista de palcos em que será realizada podem ser encontradas no site www.riofollejourne.com/2008.
Artistas imprimem olhar original sobre as obras
Pianista e violoncelista conseguem a façanha de se impor perante as versões disponíveis das sonatas
Crítica João Marcos Coelho – O Estado de São Paulo
Quando o violoncelo entoa sozinho, de maneira extremamente doce, o primeiro tema do ‘Allegro ma non tanto’ da Sonata Opus 69, em lá maior, parece o início de uma fuga, que no entanto aborta; em seguida, entra o piano, que retoma a frase de modo denso, tocando em oitavas e dá a deixa para a cadência do violoncelo, que fecha este curtíssimo episódio de abertura. Pronto. Beethoven decretava aqui o início de um gênero, o da sonata para violoncelo e piano. Pela primeira vez na história da música, o instrumento de cordas de timbre mais eloqüente e afim à voz humana adquiria status igual ao do piano. Corria o ano de 1808.
Pouco mais de dez anos antes, ele brincara com a forma ao oferecer as duas sonatas, opus 5, para o rei-violoncelista da Prússia, Frederico Guilherme II. Este mantinha em sua corte o violoncelista Jean-Pierre Duport, que encantou Beethoven por seu cantabile e sonoridade tanto nos agudos como nos graves e trocou muitas figurinhas com o compositor sobre as possibilidades técnicas do instrumento, o que certamente contribuiu para a incrivelmente nova sonata opus 69 de anos mais tarde.
Em 1815/16, as duas sonatas finais – opus 102 – desempenharam um papel de experimentação tão importante quanto os últimos quartetos e as sonatas para piano na construção do estilo mais radical do compositor. Michel Frey, mestre de capela de Mannheim, escreveu, quando ouviu Czerny e Linke tocando uma das sonatas do opus 102: ‘É tão original que ninguém pode compreendê-la na primeira audição’.
Os sábios dedos de Menahem Pressler, curtidos em mais de meio século de prática de música de câmara, unem-se à maturidade plena de Antonio Meneses como violoncelista, conquistada na última década de convivência no Beaux Arts Trio, para nos levar, de modo encantador, por este fascinante passeio musical em direção ao novo, que transformou o status do violoncelo.
Este ciclo é um dos mais gravados da história do disco. Vale, portanto, lembrar as mais famosas e recentes. Entre as primeiras estão as de Rostropovich/Richter, Fournier/Gulda e Fournier/Kempff. E, entre os registros recentes, estão o holandês Pieter Wispelwey com Dejan Lazic e os húngaros Miklós Perpenyi e András Schiff.
Forte concorrência, como se vê. Mas me arrisco a dizer que nenhum deles exibe a intimidade que esbanjam Meneses e Pressler. Não há excessos nem arroubos (como em Rostropovich/Richter ou Perényi/Schiff) ou parcimônia excessiva (uma das causas do quase-desequilíbrio da maravilhosa versão Fournier/Gulda). Talvez a performance de Fournier com Kempff seja a única a comungar a mesma visão global que possuem Meneses e Pressler.
Para ficar somente nas gravações recentes, a calma precisa dos dois contrasta com a dos demais. Não há vontade nem necessidade de apressar demais os andamentos. Perényi e Wispelwey soam sempre mais acelerados. No opus 69, por exemplo, a sonata ganha uma virtuosidade excessiva, que jamais foi a meta de Beethoven. Em vez disso, Meneses e Pressler ocupam-se da lapidação das frases, costuram com carinho a dinâmica e a agógica. É só por isso – como se fosse pouco – que esta gravação impõe-se. Tem identidade. Imprime marcas originais. Fazer isso em Beethoven é quase sobre-humano. Mas Meneses e Pressler conseguiram a façanha.
Ópera Rusalka, de A. Dvorak. Renee Fleming na Ópera Bastilha, Paris, 2001.
New World Symphony by Antonin Dvorak. Wiener Philharmoniker. Herbert von Karajan, conductor