Nova ordem: Bloco emergente ainda não tem demanda o suficiente para tomar o bastão da economia global
Alan Beattie, Financial Times – VALOR
Coloque um jaguar, um urso, um tigre e um panda juntos e você pode fazer um belo espetáculo, mas não terá uma vida tranquila.
O grupo Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) tornou-se uma sigla de referência à ascensão dos mercados emergentes na economia mundial. E, após uma década excepcional, o Bric teve uma crise predominantemente “boa”, da qual está saindo rapidamente.
O Goldman Sachs, que inventou a sigla, avalia que a China pode se tornar, disparada, a maior economia do mundo antes de 2030. Coletivamente, as economias do Bric superar até 2032 a produção do G-7 (grupo dos sete países mais ricos do mundo), que vem dominando a gestão da economia global.
Os países do Bric já têm uma fatia do comércio mundial maior que a dos EUA. A China, provável maior exportador mundial de bens em 2009, foi complementada por exportações de software e serviços de back-office indiano, petróleo e gás russo e pela predominância numa série de commodities agrícolas dos supercompetitivos agricultores brasileiros.
Apesar de as bolsas em países do G-7 estarem se esforçando para se manter em alta nos últimos cinco anos ou mais, os preços das ações no Bric, embora com queda acentuada e rápida recuperação durante a crise financeira mundial, terminaram a década em patamar mais que o dobro de seu nível em 2005. Surgiram índices de ações do Bric; fundos focados no Bric têm surgido para que os investidores neles apostem seus recursos.
Assim, num momento em que o mundo emerge de recessão, será essa a hora de transformação, de mudança decisiva no centro de gravidade da economia mundial e de sua governança? Será esse um ponto de inflexão, como foi a Segunda Guerra Mundial, quando os confiantes EUA prevaleceram sobre as debilitadas e endividadas economias europeias e refizeram a arquitetura financeira mundial? E, no curtíssimo prazo, estarão os consumidores do Bric efetivamente à altura da tarefa de reequilibrar a economia mundial, suplantando os consumidores americanos?
A resposta mais provável é: ainda não. Não só o Bric é um grupo tão díspar que torna quase qualquer generalização problemática, como a China, membro esmagadoramente dominante do quarteto, parece ainda abraçada a um modelo econômico dependente da demanda de outro países.
“As denominadas economias emergentes, mesmo algumas como Bangladesh, são sem dúvida atores em nível mundial”, diz Jean-Pierre Lehmann, professor de economia política no IMD, na Suíça. “Mas não vejo um grande cataclismo nos próximos 10 anos, nem o centro das finanças claramente se deslocando para o oriente.”
Como um grupo de garotos ou uma gangue de rua, os países do Bric quase poderiam ter sido escolhidos por suas diferentes capacitações, e não por suas semelhanças. O tamanho da China e sua abertura ao comércio lhe proporcionam tanto poderio econômico quanto o do resto reunido. Markus Jaeger, do Deutsche Bank, chama o país, um hipercompetitivo exportador de manufaturas, de “o panda de 800 quilos na sala”. A Índia, com a mesma dimensão populacional, porém mais pobre e economicamente mais insular, é predominantemente visível aos olhos de investidores e parceiros comerciais devido à sua produção de software e prestação de serviços empresariais. O Brasil, apesar do êxito de um punhado de indústrias, continua a ser um dos exportadores agrícolas mais eficientes do mundo; a Rússia, após tentativas débeis de diversificação, essencialmente vende apenas petróleo e gás.
A história do rápido progresso é familiar, mas ainda assim dramática. Uma década atrás, só um desses países obtivera “grau de investimento”, agora isso vale para todos. Apenas 12 anos atrás, um default da dívida russa e uma crise cambial brasileira abalaram a economia mundial; agora, eles acumularam grandes reservas cambiais.
O Bric contribuiu para cerca de metade do crescimento mundial entre 2000 e 2008, acréscimo nitidamente superior ao da década anterior. Mas, junto com esse crescimento surgiu um grande desequilíbrio na economia global.
O modelo de crescimento chinês, baseado em pesado investimento e exportações, criou enormes superávits em conta corrente em todo o leste asiático, associado a um déficit americano em conta corrente. E, apesar de ter feito sua parte para manter o crescimento econômico durante a crise, a China está longe de ter passado a se concentrar na demanda de seus consumidores, mudança que um verdadeiro motor do crescimento mundial teria realizado.
Com grande estardalhaço, Pequim anunciou um pacote de estímulo de US$ 585 bilhões em novembro de 2008 e afrouxou o crédito bancário. Mas sua capacidade de criar crescimento auto-sustentado era suspeita. Em vez de distribuir dinheiro aos consumidores para fazê-los gastar – decisão que poderia ter estimulado as importações – grande parcela do estímulo foi para o velho favorito: investimentos fixos. “Se a demanda mundial não se recuperar a tempo, ou se as medidas de estímulo não insuflarem espíritos animais, a China vai acabar criando excesso de capacidade”, disse Jäger.
Razeen Sally, um especialista em comércio na London School of Economics, diz: “As intervenções chinesas tiveram o efeito de reforçar os problemas e desequilíbrios atuais. Veremos muito excesso de capacidade exportadora orientada para setores como siderurgia exatamente no momento errado”.
A reancoragem do yuan ao dólar em 2008, após um período de três anos quando permitiu-se que a moeda subisse aos poucos, também em nada contribuiu para mudar o foco da economia chinesa – de exportações para atendimento da demanda do consumidor interno. O efeito dessa decisão é multiplicado pela imitação de muitos países emergentes, que estão impedindo a valorização de suas próprias moedas para não perder competitividade diante da China.
De fato, embora a queda mundial na demanda do consumidor tenha reduzido o nível absoluto do superávit chinês em conta corrente durante a crise – diminuiu o número de navios que transportam brinquedos e iPods despachados de Shenzhen e Xangai -, a China continuou a ganhar participação de mercado no exterior. O Fundo Monetário Internacional e outros analistas consideram que o aparente reequilíbrio da economia mundial no ano passado é temporário. Quando a demanda se recuperar, o mesmo acontecerá com as exportações chinesas, juntamente com os superávits e déficits.
Apesar de bolsões de gastança, se algo podemos afirmar é que nesta década a China tornou-se menos, e não mais, uma economia de consumidores. Sua taxa de total de poupança cresceu ao longo da década. Embora grande parte desse aumento reflita a poupança das empresas, a poupança das famílias também cresceu, e, para início de conversa, uma parcela maior da renda nacional foi para as empresas – e não para os consumidores.
Uma pesquisa feita no ano passado pelo McKinsey Global Institute corrobora o que muitos economistas vem discutindo há bastante tempo: que a falta de uma rede de seguridade social é uma das principais razões pelas quais as famílias chinesas poupam. As três principais razões apontadas foram: necessidades educacionais, de segurança em caso de doença e para cuidar dos pais. Não será possível mudar rapidamente fatores estruturais como esses. Também não será possível mudá-los simplesmente deixando o yuan valorizar.
Quanto aos outros países do Bric, cuja taxa média de crescimento é mais lenta que a da China, provavelmente não produzirão um impacto significativo sobre a demanda mundial por algum tempo. Embora o crescimento no Brasil e na Índia tenha se sustentado bem durante a crise, o primeiro é uma economia relativamente madura, com menor margem para crescimento rápido; o segundo tem um desempenho insatisfatório, um problema crônico em suas finanças públicas, e uma taxa de poupança ainda maior que a chinesa. Já a Rússia, cuja economia contraiu fortemente durante a recessão mundial, continua a depender dos preços do petróleo.
Uma década de crescimento rápido não é suficiente para que os países do Bric se apoderem do bastão da liderança econômica mundial dos EUA e da Europa Ocidental. O grupo (ou alguns de seus países) pode ter surpreendido o mundo com seu progresso nos últimos 10 anos. Mas é preciso uma melhora qualitativa, assim como mais crescimento, para consolidar essa mudança de poder.
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Divergências dificultam ação política em conjunto
Financial Times – VALOR
Na balança da governança global, os Bric estão se tornando cada vez mais pesados. E, à medida que aumentava seu peso econômico, os países foram ficando cada vez mais ousados para impor sua vontade em disputas políticas.
Mas, apesar de isso ser benéfico para a legitimidade política das instituições envolvidas, particularmente do Fundo Monetário Internacional (FMI), não se presta necessariamente a processos decisórios suaves e ágeis.
Os chefes de governo dos Bric se encontraram pela primeira vez em Iekaterinburgo, na Rússia, no ano passado, e se reunirão novamente no Brasil no fim do ano. Ministros e autoridades do alto escalão têm se encontrado à margem de outras reuniões, como as conferências do FMI e do G-20, desde 2008.
“Toda vez que houver uma reunião importante, agora haverá uma reunião dos Bric antes”, diz uma autoridade de um país Bric. Pedidos do Tesouro dos EUA para encontros de alto escalão com ministros dos Bric confirmam a importância do grupo, diz a fonte.
No entanto, à parte o prolongado debate sobre a concessão de mais votos aos países em desenvolvimento no FMI, ficou comprovado que é difícil chegar a um acordo sobre um conjunto considerável de assuntos em torno dos quais os díspares países Bric tenham os mesmos interesses.
Eles já precisaram abandonar o tema das taxas de câmbio. É consenso no Brasil, como nos EUA, que a moeda depreciada da China está roubando mercados de exportação das companhias brasileiras. “Estamos sendo afetados pela política cambial da China, não só em outros mercados, mas dentro da nossa própria economia”, diz Roberto Abdenur, ex-embaixador brasileiro nos EUA.
Tampouco há um modelo único de gestão econômica que os Bric adotam e queiram disseminar. Na verdade, há vasto e crescente contraste entre, digamos, as iniciativas voltadas para uma economia de mercado social-democrata no Brasil, respaldadas por ortodoxia fiscal, e a intervenção politizada cada vez mais autoritária na Rússia.
Agrupamentos semelhantes de países em desenvolvimento em outros contextos frequentemente têm lutado para elevar a sua posição para além de um denominador comum, ou para impedir que algum membro particularmente poderoso dite o tom.
Na rodada Doha de negociações sobre comércio global da OMC, onde Índia e Brasil têm participado num grupo de negociação estratégico, eles lutaram para elaborar uma posição de negociação abrangente. Os interesses do Brasil, na condição de exportador agrícola altamente competitivo, se chocaram com o desejo da Índia de proteger seus pequenos agricultores.
Nas negociações sobre o clima em Copenhague, em dezembro, a China foi amplamente acusada de bloquear um acordo que teria servido os interesses de muitos países em desenvolvimento.
Pradeep Mehta, secretário-geral da Cuts International, um centro de pesquisa acadêmica em Jaipur (Índia), diz: “É cada vez mais evidente que as principais divisões deverão ser entre os [países] desenvolvidos e os [países] em desenvolvimento, e que a China será líder do mundo em desenvolvimento”.
Na diplomacia, assim como na economia, o poder exercido pelos países dos Bric poderá acabar pendendo nitidamente na direção dos desejos de Pequim.
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Um termo atraente por trás de um desafio global
Martin Wolf, Financial Times – VALOR
A invenção dos Brics por Jim O´Neill, do Goldman Sachs, foi um golpe de marketing de gênio. Mas terá relevância analítica? Minha resposta é: não e sim.
Não, pois as quatro economias praticamente nada têm em comum, à parte o fato de nenhum país ser de alta renda.
Sim, pois a noção captura uma realidade da nossa era, que é de crescimento sustentado para “fechar distâncias” por vastas partes do mundo em desenvolvimento.
China e Índia são de longe os países mais populosos do mundo, com 1,34 bilhão e 1,18 bilhão de habitantes em meados de 2009, respectivamente. Os EUA, terceiro colocado, têm 308 milhões. Pelos padrões dos gigantes asiáticos, o Brasil (193 milhões), e a Rússia (142 milhões) são minúsculos.
A China é atualmente a “fábrica do mundo”, um colosso com investimento e crescimento elevados, dotada de uma poderosa posição competitiva em bens industriais.
A economia do país também é muito mais aberta que a da Índia: em 2006, ano anterior à eclosão da crise financeira, a parcela do comércio de mercadorias em relação ao PIB da China foi de 67%, ante 32% para a Índia. A Índia é relativamente mais forte em serviços intensivos em mão-de-obra qualificada: o quociente do comércio em serviços em relação ao PIB foi de 15%, contra 7% para a China.
O Brasil tem uma economia muito mais fechada que esses dois gigantes asiáticos, com um índice de exportação de mercadorias em relação ao PIB de meros 22% em 2006 e índice de exportação de serviços de 5% do PIB. Metade de suas exportações foram alimentos e matérias-primas. Quanto à Rússia, em 2006, os produtos industriais representaram menos de um quin-to das exportações. O país é exportador de combustíveis e minérios.
No entanto, é no tamanho, dinamismo e impacto que as diferenças são mais acentuadas. De acordo com Angus Maddison, o historiador da Economia, a parcela da China na produção mundial pelo poder de paridade de compra (PPP) aumentou de 8% em 1980 para 17% em 2006. Mas então, a parcela da China na produção dos Brics foi de 61%, uma alta na comparação com os 42% de 1990.
Nem Brasil ou Rússia obtiveram um aumento substancial nas suas parcelas do PIB mundial ao longo desse período. Mesmo a ascensão da Índia foi modesta – um aumento, de 4% em 1990, para 6% em 2006. A história, portanto, tem se resumido à ascensão das duas gigantes asiáticas e, especialmente, da China. Mas “IC” teria sido um termo muito menos atraente.
No entanto, a noção dos Bric efetivamente captura a realidade de um deslocamento do poder, dos antigos países desenvolvidos, especialmente Europa Ocidental e Japão, para os “países emergentes”. A crise financeira acelerou essa mudança.
A China, acima de tudo, e também a Índia, até certo ponto, sobreviveram ilesos à crise. Em 2009, de acordo com a mediana das projeções de dezembro, a economia da China cresceu 8,5%, e a da Índia, 6,6%. Mas a do Brasil estagnou, e a da Rússia encolheu 7,9%. Para 2010, as projeções são de crescimento de 9,6% na China, 7,7% na Índia, 5,1% no Brasil e 4,1% na Rússia.
No entanto, será que esses países podem transmitir dinamismo ao mundo como um todo? A resposta, à primeira vista, parece ser sim. Até 2008, o PIB combinado dos Bric, em dólar, já representava 60% do PIB dos EUA e 14% do número global, com a China gerando metade desse total.
O Goldman Sachs afirma que os Bric contribuíram com quase 30% para o crescimento global, em dólar, entre 2000 e 2008, e com 45% desde o começo da crise, em 2007.
Isso, sem dúvida, se intensificará com o tempo. No entanto, a quase totalidade desse crescimento ocorrerá dentro desses países. O estímulo líquido à demanda conferido ao resto do mundo depende de uma queda nos superávits dos seus saldos comerciais ou de um aumento nos seus déficits.
A China é, mais uma vez, o único Bric capaz de chegar a tanto.
Mesmo assim, o estímulo líquido transmitido entre 2008 e 2009 foi de menos de 0,2% do PIB do resto do mundo.
Apesar disso, os Bric, e acima de tudo a China, deverão desempenhar um papel importante na geração de um crescimento mais equilibrado na demanda por toda a economia global.
Este é um dos muitos desafios que a nova engrenagem de formulação de políticas do mundo deverá equacionar. Se a atenção prestada ao conceito dos Bric conseguir fazer as autoridades se concentrarem nessa tarefa, terá valido a pena.