27/05/2011 - 08:29h Espetáculo surrealista

Gilles Lapouge – O Estado de S.Paulo

O presidente da França, Nicolas Sarkozy, abriu com grande pompa a Cúpula do G-8, as oito nações mais ricas do planeta, em Deauville, belo e elegante balneário turístico na costa da Normandia. Há dois séculos, Napoleão III adorava frequentá-lo, e sua mulher, Eugénie de Montijo, ali se banhava de maiô guarnecido de grandes saias.

Sarkozy tem motivos para se rejubilar. Normalmente, um outro francês estaria presente nessa cúpula do G-8, Dominique Strauss-Kahn (DSK), o ex-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), cuja presença teria com certeza eclipsado a de Sarkozy.

Mas DSK, depois de uma vertigem inexplicável, teve a ideia, há 10 dias, de violentar uma jovem negra em sua suíte no Hotel Sofitel em Nova York. Num instante, DSK caiu na sarjeta como um boneco desengonçado. Ele desapareceu das telas. E Sarkozy reina sozinho, grandioso e eterno sobre a cúpula do G-8, sobre o “planeta dos ricos”.

Esse “planeta dos ricos” tem uma aparência curiosa. Entre os oito ricos, há seis pobres, depois de excluídos a Rússia e o Canadá.

Examinemos esses pobres: a dívida pública do Japão é de 200% de seu Produto Interno Bruto (PIB), belo desempenho, e seu déficit orçamentário de 10% do PIB. Os Estados Unidos, comprovado colosso, tem uma dívida interna da ordem de 90% do seu PIB e um déficit orçamentário de 9%. Para a Alemanha, essas cifras são de 83% e 3,3%. Para a Inglaterra, 80% e 10%. Na Itália, a dívida pública se avizinha de 119% do PIB e o déficit orçamentário de 4,6%. Na França, as duas cifras são 82% e 7%.

Desastre, portanto. E ainda mais surpreendente quando se comparam esses balanços ridículos com os de países que não fazem parte do clube dos ricos, aqueles chamados de “emergentes” (China, Índia, Brasil, África do Sul) cujas finanças estão mais sadias que as dos países do Norte.

Um exemplo: as reservas cambiais da China somam US$ 3 trilhões. Esses US$ 3 trilhões estão investidos, aliás, em grande parte, em bônus do Tesouro americano.

Deauville é, portanto, um espetáculo surrealista. À mesa dos oito ricos se banqueteiam e peroram oito “mendigos”, enquanto no serviço, no subterrâneo, estão os verdadeiros ricos, a China e países do Sul, que não têm acesso ao banquete.

Estamos num mundo da ilusão, do discurso, da mentira. Os “ricos” fazem como se estivessem no ano de 1920 ou de 1950 quando o resto do planeta morria de fome.

Os oito países de Deauville lembram aristocratas decaídos que continuam a viajar nos carros suntuosos do Orient Express quando, na realidade, mal têm com que pagar uma velha charrete puxada por um burro cambaio.

Mas os países ricos não perderam a pose. Eles seguem em frente com seu número de prestidigitação. Eles são tão bons oradores que os outros, os dito “pobres”, ainda os escutam.

O caso do Fundo Monetário Internacional é, desse ponto de vista, notável. Eis um organismo internacional criado em 1954 e confiado em seguida aos “ricos” que são tão mais inteligentes, para manter o equilíbrio financeiro mundial e ajudar os “países pobres” – os países do Sul – a fecharem suas contas orçamentárias, a pagarem suas dívidas, etc.

Hoje, porém, que os “ricos” estão “pobres”, seria lógico que a direção do FMI não coubesse aos europeus, como ocorre há 60 anos em nome de uma tradição não escrita, mas aos novos países ricos, aos emergentes.

E o que acreditam que ocorrerá? Acham que o FMI vai para um indiano, um mexicano, um ruictro? Absolutamente. Ele retornará a um europeu (quase certamente à ministra das Finanças da França, Christine Lagarde). Por quê? Como vou saber? / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

24/04/2011 - 08:57h Perspectivas ruins na Europa, EUA e Japão

Para o economista Barry Eichengreen, a Europa tem consolidação fiscal sem crescimento, o contrário dos EUA

Fernando Dantas – O Estado de S.Paulo

RIO

Para o economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia, em Berkeley, “a Europa tem consolidação fiscal sem crescimento, enquanto os Estados Unidos têm crescimento sem consolidação fiscal, o que quer dizer que as perspectivas para ambos são problemáticas”.

Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a dívida pública bruta dos países da zona do euro saltou de 66% do PIB em 2007, antes da crise global, para 87% em 2011.

A Alemanha, porém, o principal motor da Europa, já entrou há um bom tempo em clima de austeridade fiscal, e deve reduzir o déficit público de 3,3% do PIB em 2010 para 2,4% em 2011, segundo projeção do FMI. Na região do euro como um todo, o déficit projetado para este ano pelo FMI é de 4,4% do PIB, depois de ter ficado acima de 6% em 2009 e 2010.

Mas há problemas muito sérios na Europa, como a situação periclitante da dívida pública em pequenos países como Portugal, Grécia e Irlanda, que – segundo a previsão de muitos analistas – podem acabar caminhando para a reestruturação, o nome elegante para um calote parcial que se tenta fazer ordenadamente. Como muitos bancos dos países centrais da zona do euro são credores da dívida pública da periferia problemática, novas rodadas de turbulências e pioras no cenário fiscal do continente não estão descartadas.

O Reino Unido, por sua vez, que está fora do euro, teve uma das mais dramáticas deteriorações das finanças públicas na crise global. A dívida pública bruta quase dobrou como proporção do PIB, saindo de 44% em 2007 para 83% em 2011. Diferentemente dos Estados Unidos, porém, o Reino Unido já está partindo firme para um drástico ajuste fiscal. O déficit público, que ficou acima de 10% do PIB em 2009 e 2010, está projetado pelo FMI para cair para 5% até 2013, e para 1,3% até 2016.

Caso à parte. O Japão, finalmente, é um caso à parte. A dívida pública bruta continua a crescer, e de níveis já colossais: de 188% do PIB em 2007 para uma projeção de 229% em 2011. Segundo o FMI, bate em 250% do PIB em 2016. O déficit público, que está acima de 9,5% do PIB desde 2009, chega a 2016 ainda no nível muito alto de 7,4%.

Mesmo já tendo saído do Olimpo do AAA há muitos anos, e tendo sofrido em 2011 novos rebaixamentos de rating pelas principais agências, Standard & Poor”s e Moody”s, o Japão também não deu até hoje o menor sinal de fuga de investidores (que, no caso, são quase todos nacionais) do financiamento da sua dívida pública.

Segundo Eichengreen, boa parte dos títulos da dívida japonesa está nas mãos do próprio governo do país, por meio de fundos de pensão e contas especiais. Além disso, o Japão tem uma alta taxa de poupança, e os japoneses tradicionalmente investem o que poupam no próprio país.

Mas ele faz um alerta em relação à relativa tranquilidade de financiamento do Japão ao longo de todos esses anos: “Só porque isso foi verdade no passado não significa que será verdade no futuro – o caso japonês é o que mais me preocupa.”

Rombo

87%
do PIB é quanto a dívida bruta dos países da zona do euro deve atingir em 2011, segundo o FMI

4,4%
do PIB é o déficit projetado pelo FMI para a zona do euro este ano

229%
do PIB é a dívida pública bruta do Japão este ano, pelas projeções do FMI. Em 2007, era 188%

28/09/2010 - 09:53h Emergentes superam países ricos até 2015, diz o Banco Mundial

Estudo: Países em desenvolvimento terão peso maior na economia mundial e vão puxar crescimento global

Alex Ribeiro | VALOR

De Washington

Os países emergentes terão um peso maior do que os desenvolvidos na economia mundial antes de 2015, mostra um estudo divulgado ontem pelo Banco Mundial. A tese básica por trás das projeções é que, embora não tenham se descolado completamente dos países desenvolvidos, cujas economias estão estagnadas, os emergentes seguirão uma trajetória de forte crescimento nos próximos anos.

Em 2009, os países emergentes (incluindo economias em desenvolvimento) respondiam por 46% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, e os desenvolvidos, por 54%. Em 2015, as economias emergentes terão uma fatia de 52% do PIB mundial, e os desenvolvidos, de 48%.

Os dados foram apresentados ontem pelo Banco Mundial em seu livro “O Dia Depois de Amanhã”, que toma como base dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). A virada começa em 2013, quando os desenvolvidos terão 50% do PIB mundial, e se completa em 2014, quando já responderão pela maior parte da economia mundial, com 51%.

“Os países emergentes surgiram para resgatar a economia mundial”, afirma um dos autores do livro, o brasileiro Otaviano Canuto, que é vice-presidente de redução de pobreza e gerenciamento econômico do Banco Mundial e foi secretário de assuntos internacionais do Ministério da Fazenda no primeiro mandato do presidente Lula.

“Eles [os emergentes] são a nova locomotiva que puxa o crescimento global, enquanto os países de alta renda continuam estagnados.”

O livro do Banco Mundial afirma que algumas partes do mundo em desenvolvimento, sobretudo a Ásia, têm perspectivas de crescimento mais fortes que outras, mas não é feita nenhuma análise mostrando o desempenho de cada um dos países.

Um exame dos dados do FMI feito pelo Valor, no entanto, mostra que a China e, em menor grau, a India serão responsáveis por uma boa parte desse aumento do peso dos emergentes na economia mundial. O peso do Brasil ficará praticamente inalterado. Em 2009, a China respondia por 11% da economia mundial e, até 2015, sua fatia será de 17%. A participação da India sobe de 5% para 6% no período, enquanto que a do Brasil fica praticamente estável em 2,9%.

No primeiro capítulo do livro, Canuto faz uma releitura da tese do “descolamento” dos países emergentes em relação aos desenvolvidos. A conclusão é que as economias emergentes não estão imunes ao que acontece nos desenvolvidos, mas eles têm boas perspectivas de crescimento devido a fatores como alta capacidade para levantar capitais para bancar investimentos.

No início da atual crise econômica, na virada de 2007 para 2008, alguns economistas acreditavam que as economias emergentes poderiam passar ilesas pelas turbulências que então afetavam os países desenvolvidos. Mas a quebra do banco Lehman Brothers, em fins de 2009, fez com que os emergentes também fossem afetados.

A recuperação dos emergentes, porém, foi relativamente rápida. Pelos cálculos do Banco Mundial, os emergentes vão crescer 6,1% em 2010, 5,9% em 2011 e 6,1% em 2012, enquanto as economias desenvolvidas vão ter expansão respectivamente de 2,3%, 2,4% e 2,6%, em virtude de problemas como alto desemprego e endividamento do governo e das famílias.

A grande questão, aponta Canuto no estudo, é se os países emergentes irão funcionar como um motor autônomo do crescimento mundial, seguindo adiante sem se contaminar pelo fraco desempenho das economias desenvolvidas.

Para o economista do Banco Mundial, os emergentes entraram em uma tendência de forte crescimento. Os seus governos e empresas têm dívidas mais baixa e, por isso, conseguem se alavancar mais por meio de empréstimos para financiar sua expansão. Os emergentes também estão em um patamar tecnológico mais baixo, e podem queimar etapas absorvendo tecnologias dos países desenvolvidos. Outro motor do crescimento são os largos contingentes de mão-de-obra no campo e em setores informais que podem ser deslocados para setores mais produtivos da economia.

Leia o estudo no site do Banco Mundial: www.worldbank.org

12/03/2010 - 09:45h Brasil se sai bem na comparação com desenvolvidos

Foto Destaque

De São Paulo e do Rio – VALOR

O Brasil se saiu razoavelmente bem na comparação com o desempenho de outros países, mesmo com a queda de 0,2% do Produto Interno Bruto (PIB). Se ficou bem abaixo da alta de 8,7% da China e dos 6,8% alcançados pela Índia, os dois principais motores da economia global, o resultado brasileiro superou com folga o dos países desenvolvidos, que estiveram no epicentro da crise agravada pela quebra do Lehman Brothers, em setembro de 2008. Os EUA viram o PIB encolher 2,4%, enquanto o Reino Unido amargou um tombo de 4,9%, a Alemanha, de 5% e o Japão, de 5,1%.

“Comparado com os outros países, o Brasil teve uma queda muito pequena, que a gente considera praticamente nula. União Europeia, Estados Unidos, México e outros tiveram uma queda no volume do PIB bem mais expressiva que o Brasil”, resumiu Rebeca Palis, gerente de contas trimestrais do IBGE.

Entre os países que fazem parte do Bric (o grupo formado por Brasil, Rússia, Índia e China), a Rússia teve de longe o pior desempenho, registrando um tombo de 7,9% no ano passado. O tombo dos preços do petróleo em relação a 2008 derrubou o PIB russo. O México, que tem a economia fortemente ligada à dos EUA, também tomou um tombo feio, com o PIB encolhendo 6,5% no ano passado. O desempenho do Brasil chegou a superar até mesmo o de alguns países asiáticos, que normalmente crescem rápido, como a Tailândia, cujo PIB encolheu 2,3% em 2009.

O Brasil se sai bem melhor na fotografia quando se compara o resultado do quarto trimestre de 2009. A alta de 2% em relação ao terceiro trimestre, feito o ajuste sazonal, equivale a um crescimento anualizado de 8,4%. É um número bastante expressivo, não muito inferior aos 10% registrados pela China e até mesmo superior aos 6% obtidos pela Índia no período.

Nessa base de comparação, vários países desenvolvidos mostraram reação, indicando que a economia global se recupera, ainda que a passos não muito rápidos. Os EUA, por exemplo, tiveram uma expansão de 5,9% do PIB no quarto trimestre do ano passado, ritmo não muito distante dos 5% observados no Canadá. No Japão, o aumento foi de 4,9%

Na Europa, porém, a situação ainda é bastante preocupante. A zona do euro, por exemplo, teve crescimento anualizado de apenas 0,5% nos últimos três meses de 2009 em relação aos três meses anteriores. A economia europeia vive uma crise grave, por causa do temor de um calote da Grécia e das dificuldades fiscais de países como Espanha, Irlanda, Itália e Portugal.

Segundo previsões do J.P. Morgan, o Brasil deve registrar uma das maiores taxas de crescimento do mundo em 2010. O banco projeta alta de 6,2% para o PIB brasileiro neste ano, ritmo de expansão que só deve ser ultrapassado por alguns países asiáticos. Segundo o J.P. Morgan, a economia da China deve avançar 10%, a Índia, 8%, e Taiwan, 7%. Para os EUA, a expectativa do banco é de uma alta de 3,4%. (SL e RR)

25/01/2010 - 13:39h A história invertida

Afonso Celso Pastore e Maria Cristina Pinotti – VALOR

Decorrido mais de um ano desde o início da crise nos EUA, o desemprego persiste em 10% da força de trabalho; continuam elevados os níveis de capacidade ociosa na indústria; e o consumo das famílias mantém-se deprimido, com o aumento da poupança sendo usado tanto para reconstruir a riqueza destruída com a queda dos preços das casas e das ações, quanto para reduzir o endividamento excessivo dos consumidores.

Na Inglaterra, a queda do PIB é bem maior e a recessão mais longa do que nos EUA, apesar dos estímulos expansionistas derivados da forte depreciação da libra. No passado a Inglaterra optou por explorar suas vantagens comparativas, especializando-se na intermediação financeira, e por isso tornou-se muito mais vulnerável ao choque atual, cujo epicentro localiza-se exatamente no sistema financeiro.

Para os países da Zona do Euro não há a opção da depreciação cambial. Países com economias deprimidas, como Grécia, Espanha e Portugal, não só não podem depreciar suas moedas como são obrigados a enfrentar a forte valorização do euro frente o dólar e a libra, fruto de diferenças na intensidade do uso da política monetária na Europa de um lado e nos EUA e Inglaterra, de outro.

A Europa sofre as consequências da sua adesão a uma união monetária, que trouxe benefícios, mas carrega o custo de não ser uma área monetária ótima, porque não tem a suficiente mobilidade de mão de obra nem a capacidade de coordenar expansões e contrações fiscais nos países deprimidos e em crescimento. Isso torna os países-membros vítimas dos choques assimétricos que afetam a região como um todo. A sua limitação no uso de instrumentos é agravada pelo fato de que o BCE não tem a flexibilidade do Federal Reserve e do Bank of England, e os tesouros de grande parte dos países não podem seguir políticas fiscais expansionistas, devido aos elevados graus de endividamento público, levando alguns à beira de um default.

Enquanto isso os países emergentes crescem a taxas robustas, deixando perplexos os observadores dos últimos 20 anos de história, que relata um padrão inverso ao atual, com a ocorrência de crises nos países emergentes e crescimento acelerado nos industrializados. Esse não é o enredo de uma peça teatral discorrendo sobre eventos impossíveis, mas sim uma ocorrência no mundo real. O crescimento acelerado da China já traz preocupação com a inflação, cujo risco é agravado pelos efeitos inflacionários da elevação dos preços internacionais de commodities, que devido ao regime de câmbio fixo migram integralmente para seus preços aos consumidores. A Índia também cresce aceleradamente. Há alguns anos aquele país abandonou a ideia falsa de que o planejamento central era uma alternativa superior às decisões do mercado, convertendo-se à tirania do sistema de preços, encontrando um caminho para o desenvolvimento acelerado. O Brasil realizou importantes alterações no seu regime macroeconômico, tornando-se menos vulnerável a choques externos, graduando-se para sustentar taxas de crescimento do PIB maiores do que a média dos últimos 20 anos.

Teriam os países emergentes em geral, e particularmente o Brasil, descoberto a fórmula mágica do crescimento econômico acelerado e sustentável? Será que é correta a afirmação do megainvestidor Mark Mobius no Financial Times, de que os mercados emergentes entraram em um “secular bull trend” caminhando em uma trajetória positiva que se manterá “secularmente?”

Falemos apenas do Brasil. Todas as alterações no regime de política econômica dos últimos anos permitiram que o país entrasse em uma rota de crescimento econômico mais acelerado. Nisso os governos FHC e Lula têm méritos inegáveis. Mas será que o desempenho de nossa economia no período posterior à atual crise deriva apenas das virtudes do nosso governo? Ou será que a reação dos países industrializados à crise, provocando uma enorme expansão da liquidez mundial, criou um conjunto excepcionalmente favorável de circunstâncias que permitiu ao Brasil acelerar transitoriamente o seu crescimento?

Bernanke aprendeu com os erros do Federal Reserve na crise de 1929, e vem expandindo fortemente a liquidez. Isso provoca um aumento no apetite ao risco, levando a uma forte valorização dos preços dos ativos – ações e commodities entre eles – e empurra um forte fluxo de capitais para os mercados emergentes. A economia brasileira beneficiou-se desses ingressos, abrindo o espaço para que o governo expandisse os gastos públicos e trouxesse a taxa de juros para os menores níveis dos últimos anos, ao lado da expansão do crédito.

Esses movimentos expandiram fortemente a demanda doméstica – o consumo das famílias e os investimentos – provocando a aceleração do crescimento do PIB. Mas a demanda crescendo acima do PIB foi também a força que gerou a elevação do déficit nas contas correntes. Os ingressos de capitais valorizaram o real, o que reduziu a inflação – e a taxa de juros – adicionando nova rodada de estímulos ao crescimento da demanda. Finalmente, é essa mesma expansão de liquidez internacional que provocou, junto com o crescimento econômico acelerado da China, a elevação dos preços internacionais de commodities, que impediu que a valorização do câmbio real no Brasil afetasse mais fortemente as exportações.

Ocorre que esse conjunto de circunstâncias não se manterá para sempre. Daqui a pouco, talvez já em 2011, os Estados Unidos começarão a retornar ao normal, e ainda que a elevação da sua taxa básica de juros seja suave e gradual, o fluxo de capitais não será empurrado para os emergentes na mesma intensidade que o faz hoje. Para sustentar o atual crescimento do consumo das famílias e dos investimentos em capital fixo, o Brasil vem aumentando seus déficits em contas correntes, que só são factíveis, sem provocar uma depreciação cambial, porque existem esses ingressos abundantes de capitais. A redução desses ingressos impedirá déficits mais elevados, o que não somente depreciará o câmbio, com os inevitáveis efeitos inflacionários, como também reduzirá a expansão da demanda total doméstica, e em particular o consumo das famílias e os investimentos. O mundo nos dá transitoriamente um presente. Mas apenas transitoriamente!

Quanto mais estímulos o governo der ao crescimento da demanda, maior será a sua popularidade, e maior o déficit nas contas correntes. Esse é o benefício a curto prazo. A prazo mais longo enfrentaremos contrações do consumo e dos investimentos. Os ciclos econômicos não foram eliminados. Quanto menos surfarmos a onda dessa conjuntura internacional favorável, que é transitória, menores serão os custos a serem pagos nos próximos anos.

Affonso Celso Pastore e Maria Cristina Pinotti são economistas e escrevem mensalmente às segundas.

22/01/2010 - 11:34h Estudo aponta o Brasil como a 5ª economia do mundo em 2013

Brasil_olho

Relatório da Price mostra ainda que, até 2030, 5 das 10 maiores potências serão países hoje tido como emergentes


Andrei Netto, correspondente em Paris – O Estado SP

O Brasil será a quinta maior economia do mundo já em 2013, pelos cálculos da PricewaterhouseCoopers, divulgados ontem, em Londres. Até lá, o País terá ultrapassado gigantes como Alemanha, Reino Unido e França. Os prognósticos econômicos indicam ainda que até 2020 o Produto Interno Bruto (PIB) do grupo de sete maiores emergentes – chamado E-7 e formado por China, Índia, Brasil, Rússia, México, Indonésia e Turquia – será maior do que o do G-7. Cinco das 10 maiores economias, até 2030, serão países hoje tidos como emergentes.

O relatório leva em consideração o ritmo de crescimento e a valorização média das moedas de cada país para traçar perspectivas de médio e longo prazos. Para a PriceewaterhouseCoopers, E-7 e G-7 terão pesos equivalentes por volta de 2019. A diferença de riquezas vem caindo – em 2000, o PIB dos sete países mais ricos do mundo era o dobro dos países hoje considerados emergentes pela consultoria – e, este ano, deve sofrer sua maior redução: 35%. Após a ultrapassagem, a distância seguirá aumentando: em 2030, o E-7 será 30% mais rico que Estados Unidos, Canadá, Japão, Alemanha, França, Reino Unido e Itália (G-7).

“Em 2030, nossas projeções sugerem que o top 10 global do ranking de PIB terá a liderança da China, seguida dos Estados Unidos, Índia, Japão, Brasil, Rússia, Alemanha, México, França e Reino Unido”, afirmou o relatório, assinado pelo diretor de Macroeconomia da PwC, John Hawksworth. Nesse horizonte, as 10 maiores economias serão, pela ordem: China, Estados Unidos, Índia, Japão, Brasil, Rússia, Alemanha, México, França e Reino Unido.

Entre os reposicionamentos, três chamam mais atenção: a China, que ultrapassa os EUA, a Índia, superando o Japão, e o Brasil deixando para trás todos os gigantes europeus. Outra constatação do estudo é que a economia indiana crescerá mais rápido que a chinesa na década de 20. “A influência do E-7 já é enorme e esta análise mostra que a questão não é se o E-7 ultrapassará o G-7, mas quando”, explicou Ian Powell, economista da PwC.

Para Powell, as mudanças econômicas já resultam em uma nova geopolítica. “O G-7 já foi expandido para G-20 como o fórum-chave para decisões de economia global.”

De acordo com a PwC, o Brasil contará com o crescimento e a exposição internacionais obtidas com a Copa do Mundo de 2014 e com a Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro. Já a Rússia conta com superpoderes na área de energia e a Índia, graças a seu crescimento demográfico, passará a crescer mais que a China.

As estimativas da PwC são ainda mais otimistas sobre a performance dos países em desenvolvimento do que as feitas por Jim O”Neill, chefe de pesquisa em Economia Global do banco de investimentos americano Goldman Sachs e autor do acrônimo Bric, sigla com a qual destacou a emergência de Brasil, Rússia, Índia e China na década passada.

Segundo O”Neill afirmara em novembro do ano passado, a China superará os Estados Unidos em 2027. Sua previsão anterior, feita há sete anos, indicava que a ultrapassagem aconteceria em 2041.

20/01/2010 - 14:02h Bric cresce, mas ainda falta peso para liderar

Nova ordem: Bloco emergente ainda não tem demanda o suficiente para tomar o bastão da economia global

Alan Beattie, Financial Times – VALOR

Coloque um jaguar, um urso, um tigre e um panda juntos e você pode fazer um belo espetáculo, mas não terá uma vida tranquila.

O grupo Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) tornou-se uma sigla de referência à ascensão dos mercados emergentes na economia mundial. E, após uma década excepcional, o Bric teve uma crise predominantemente “boa”, da qual está saindo rapidamente.

O Goldman Sachs, que inventou a sigla, avalia que a China pode se tornar, disparada, a maior economia do mundo antes de 2030. Coletivamente, as economias do Bric superar até 2032 a produção do G-7 (grupo dos sete países mais ricos do mundo), que vem dominando a gestão da economia global.

Os países do Bric já têm uma fatia do comércio mundial maior que a dos EUA. A China, provável maior exportador mundial de bens em 2009, foi complementada por exportações de software e serviços de back-office indiano, petróleo e gás russo e pela predominância numa série de commodities agrícolas dos supercompetitivos agricultores brasileiros.

Apesar de as bolsas em países do G-7 estarem se esforçando para se manter em alta nos últimos cinco anos ou mais, os preços das ações no Bric, embora com queda acentuada e rápida recuperação durante a crise financeira mundial, terminaram a década em patamar mais que o dobro de seu nível em 2005. Surgiram índices de ações do Bric; fundos focados no Bric têm surgido para que os investidores neles apostem seus recursos.

Assim, num momento em que o mundo emerge de recessão, será essa a hora de transformação, de mudança decisiva no centro de gravidade da economia mundial e de sua governança? Será esse um ponto de inflexão, como foi a Segunda Guerra Mundial, quando os confiantes EUA prevaleceram sobre as debilitadas e endividadas economias europeias e refizeram a arquitetura financeira mundial? E, no curtíssimo prazo, estarão os consumidores do Bric efetivamente à altura da tarefa de reequilibrar a economia mundial, suplantando os consumidores americanos?

A resposta mais provável é: ainda não. Não só o Bric é um grupo tão díspar que torna quase qualquer generalização problemática, como a China, membro esmagadoramente dominante do quarteto, parece ainda abraçada a um modelo econômico dependente da demanda de outro países.

“As denominadas economias emergentes, mesmo algumas como Bangladesh, são sem dúvida atores em nível mundial”, diz Jean-Pierre Lehmann, professor de economia política no IMD, na Suíça. “Mas não vejo um grande cataclismo nos próximos 10 anos, nem o centro das finanças claramente se deslocando para o oriente.”

Como um grupo de garotos ou uma gangue de rua, os países do Bric quase poderiam ter sido escolhidos por suas diferentes capacitações, e não por suas semelhanças. O tamanho da China e sua abertura ao comércio lhe proporcionam tanto poderio econômico quanto o do resto reunido. Markus Jaeger, do Deutsche Bank, chama o país, um hipercompetitivo exportador de manufaturas, de “o panda de 800 quilos na sala”. A Índia, com a mesma dimensão populacional, porém mais pobre e economicamente mais insular, é predominantemente visível aos olhos de investidores e parceiros comerciais devido à sua produção de software e prestação de serviços empresariais. O Brasil, apesar do êxito de um punhado de indústrias, continua a ser um dos exportadores agrícolas mais eficientes do mundo; a Rússia, após tentativas débeis de diversificação, essencialmente vende apenas petróleo e gás.

A história do rápido progresso é familiar, mas ainda assim dramática. Uma década atrás, só um desses países obtivera “grau de investimento”, agora isso vale para todos. Apenas 12 anos atrás, um default da dívida russa e uma crise cambial brasileira abalaram a economia mundial; agora, eles acumularam grandes reservas cambiais.

O Bric contribuiu para cerca de metade do crescimento mundial entre 2000 e 2008, acréscimo nitidamente superior ao da década anterior. Mas, junto com esse crescimento surgiu um grande desequilíbrio na economia global.

O modelo de crescimento chinês, baseado em pesado investimento e exportações, criou enormes superávits em conta corrente em todo o leste asiático, associado a um déficit americano em conta corrente. E, apesar de ter feito sua parte para manter o crescimento econômico durante a crise, a China está longe de ter passado a se concentrar na demanda de seus consumidores, mudança que um verdadeiro motor do crescimento mundial teria realizado.

Com grande estardalhaço, Pequim anunciou um pacote de estímulo de US$ 585 bilhões em novembro de 2008 e afrouxou o crédito bancário. Mas sua capacidade de criar crescimento auto-sustentado era suspeita. Em vez de distribuir dinheiro aos consumidores para fazê-los gastar – decisão que poderia ter estimulado as importações – grande parcela do estímulo foi para o velho favorito: investimentos fixos. “Se a demanda mundial não se recuperar a tempo, ou se as medidas de estímulo não insuflarem espíritos animais, a China vai acabar criando excesso de capacidade”, disse Jäger.

Razeen Sally, um especialista em comércio na London School of Economics, diz: “As intervenções chinesas tiveram o efeito de reforçar os problemas e desequilíbrios atuais. Veremos muito excesso de capacidade exportadora orientada para setores como siderurgia exatamente no momento errado”.

A reancoragem do yuan ao dólar em 2008, após um período de três anos quando permitiu-se que a moeda subisse aos poucos, também em nada contribuiu para mudar o foco da economia chinesa – de exportações para atendimento da demanda do consumidor interno. O efeito dessa decisão é multiplicado pela imitação de muitos países emergentes, que estão impedindo a valorização de suas próprias moedas para não perder competitividade diante da China.

De fato, embora a queda mundial na demanda do consumidor tenha reduzido o nível absoluto do superávit chinês em conta corrente durante a crise – diminuiu o número de navios que transportam brinquedos e iPods despachados de Shenzhen e Xangai -, a China continuou a ganhar participação de mercado no exterior. O Fundo Monetário Internacional e outros analistas consideram que o aparente reequilíbrio da economia mundial no ano passado é temporário. Quando a demanda se recuperar, o mesmo acontecerá com as exportações chinesas, juntamente com os superávits e déficits.

Apesar de bolsões de gastança, se algo podemos afirmar é que nesta década a China tornou-se menos, e não mais, uma economia de consumidores. Sua taxa de total de poupança cresceu ao longo da década. Embora grande parte desse aumento reflita a poupança das empresas, a poupança das famílias também cresceu, e, para início de conversa, uma parcela maior da renda nacional foi para as empresas – e não para os consumidores.

Uma pesquisa feita no ano passado pelo McKinsey Global Institute corrobora o que muitos economistas vem discutindo há bastante tempo: que a falta de uma rede de seguridade social é uma das principais razões pelas quais as famílias chinesas poupam. As três principais razões apontadas foram: necessidades educacionais, de segurança em caso de doença e para cuidar dos pais. Não será possível mudar rapidamente fatores estruturais como esses. Também não será possível mudá-los simplesmente deixando o yuan valorizar.

Quanto aos outros países do Bric, cuja taxa média de crescimento é mais lenta que a da China, provavelmente não produzirão um impacto significativo sobre a demanda mundial por algum tempo. Embora o crescimento no Brasil e na Índia tenha se sustentado bem durante a crise, o primeiro é uma economia relativamente madura, com menor margem para crescimento rápido; o segundo tem um desempenho insatisfatório, um problema crônico em suas finanças públicas, e uma taxa de poupança ainda maior que a chinesa. Já a Rússia, cuja economia contraiu fortemente durante a recessão mundial, continua a depender dos preços do petróleo.

Uma década de crescimento rápido não é suficiente para que os países do Bric se apoderem do bastão da liderança econômica mundial dos EUA e da Europa Ocidental. O grupo (ou alguns de seus países) pode ter surpreendido o mundo com seu progresso nos últimos 10 anos. Mas é preciso uma melhora qualitativa, assim como mais crescimento, para consolidar essa mudança de poder.

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Divergências dificultam ação política em conjunto

Financial Times – VALOR

Na balança da governança global, os Bric estão se tornando cada vez mais pesados. E, à medida que aumentava seu peso econômico, os países foram ficando cada vez mais ousados para impor sua vontade em disputas políticas.

Mas, apesar de isso ser benéfico para a legitimidade política das instituições envolvidas, particularmente do Fundo Monetário Internacional (FMI), não se presta necessariamente a processos decisórios suaves e ágeis.

Os chefes de governo dos Bric se encontraram pela primeira vez em Iekaterinburgo, na Rússia, no ano passado, e se reunirão novamente no Brasil no fim do ano. Ministros e autoridades do alto escalão têm se encontrado à margem de outras reuniões, como as conferências do FMI e do G-20, desde 2008.

“Toda vez que houver uma reunião importante, agora haverá uma reunião dos Bric antes”, diz uma autoridade de um país Bric. Pedidos do Tesouro dos EUA para encontros de alto escalão com ministros dos Bric confirmam a importância do grupo, diz a fonte.

No entanto, à parte o prolongado debate sobre a concessão de mais votos aos países em desenvolvimento no FMI, ficou comprovado que é difícil chegar a um acordo sobre um conjunto considerável de assuntos em torno dos quais os díspares países Bric tenham os mesmos interesses.

Eles já precisaram abandonar o tema das taxas de câmbio. É consenso no Brasil, como nos EUA, que a moeda depreciada da China está roubando mercados de exportação das companhias brasileiras. “Estamos sendo afetados pela política cambial da China, não só em outros mercados, mas dentro da nossa própria economia”, diz Roberto Abdenur, ex-embaixador brasileiro nos EUA.

Tampouco há um modelo único de gestão econômica que os Bric adotam e queiram disseminar. Na verdade, há vasto e crescente contraste entre, digamos, as iniciativas voltadas para uma economia de mercado social-democrata no Brasil, respaldadas por ortodoxia fiscal, e a intervenção politizada cada vez mais autoritária na Rússia.

Agrupamentos semelhantes de países em desenvolvimento em outros contextos frequentemente têm lutado para elevar a sua posição para além de um denominador comum, ou para impedir que algum membro particularmente poderoso dite o tom.

Na rodada Doha de negociações sobre comércio global da OMC, onde Índia e Brasil têm participado num grupo de negociação estratégico, eles lutaram para elaborar uma posição de negociação abrangente. Os interesses do Brasil, na condição de exportador agrícola altamente competitivo, se chocaram com o desejo da Índia de proteger seus pequenos agricultores.

Nas negociações sobre o clima em Copenhague, em dezembro, a China foi amplamente acusada de bloquear um acordo que teria servido os interesses de muitos países em desenvolvimento.

Pradeep Mehta, secretário-geral da Cuts International, um centro de pesquisa acadêmica em Jaipur (Índia), diz: “É cada vez mais evidente que as principais divisões deverão ser entre os [países] desenvolvidos e os [países] em desenvolvimento, e que a China será líder do mundo em desenvolvimento”.

Na diplomacia, assim como na economia, o poder exercido pelos países dos Bric poderá acabar pendendo nitidamente na direção dos desejos de Pequim.

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Um termo atraente por trás de um desafio global

Martin Wolf, Financial Times – VALOR

A invenção dos Brics por Jim O´Neill, do Goldman Sachs, foi um golpe de marketing de gênio. Mas terá relevância analítica? Minha resposta é: não e sim.

Não, pois as quatro economias praticamente nada têm em comum, à parte o fato de nenhum país ser de alta renda.

Sim, pois a noção captura uma realidade da nossa era, que é de crescimento sustentado para “fechar distâncias” por vastas partes do mundo em desenvolvimento.

China e Índia são de longe os países mais populosos do mundo, com 1,34 bilhão e 1,18 bilhão de habitantes em meados de 2009, respectivamente. Os EUA, terceiro colocado, têm 308 milhões. Pelos padrões dos gigantes asiáticos, o Brasil (193 milhões), e a Rússia (142 milhões) são minúsculos.

A China é atualmente a “fábrica do mundo”, um colosso com investimento e crescimento elevados, dotada de uma poderosa posição competitiva em bens industriais.

A economia do país também é muito mais aberta que a da Índia: em 2006, ano anterior à eclosão da crise financeira, a parcela do comércio de mercadorias em relação ao PIB da China foi de 67%, ante 32% para a Índia. A Índia é relativamente mais forte em serviços intensivos em mão-de-obra qualificada: o quociente do comércio em serviços em relação ao PIB foi de 15%, contra 7% para a China.

O Brasil tem uma economia muito mais fechada que esses dois gigantes asiáticos, com um índice de exportação de mercadorias em relação ao PIB de meros 22% em 2006 e índice de exportação de serviços de 5% do PIB. Metade de suas exportações foram alimentos e matérias-primas. Quanto à Rússia, em 2006, os produtos industriais representaram menos de um quin-to das exportações. O país é exportador de combustíveis e minérios.

No entanto, é no tamanho, dinamismo e impacto que as diferenças são mais acentuadas. De acordo com Angus Maddison, o historiador da Economia, a parcela da China na produção mundial pelo poder de paridade de compra (PPP) aumentou de 8% em 1980 para 17% em 2006. Mas então, a parcela da China na produção dos Brics foi de 61%, uma alta na comparação com os 42% de 1990.

Nem Brasil ou Rússia obtiveram um aumento substancial nas suas parcelas do PIB mundial ao longo desse período. Mesmo a ascensão da Índia foi modesta – um aumento, de 4% em 1990, para 6% em 2006. A história, portanto, tem se resumido à ascensão das duas gigantes asiáticas e, especialmente, da China. Mas “IC” teria sido um termo muito menos atraente.

No entanto, a noção dos Bric efetivamente captura a realidade de um deslocamento do poder, dos antigos países desenvolvidos, especialmente Europa Ocidental e Japão, para os “países emergentes”. A crise financeira acelerou essa mudança.

A China, acima de tudo, e também a Índia, até certo ponto, sobreviveram ilesos à crise. Em 2009, de acordo com a mediana das projeções de dezembro, a economia da China cresceu 8,5%, e a da Índia, 6,6%. Mas a do Brasil estagnou, e a da Rússia encolheu 7,9%. Para 2010, as projeções são de crescimento de 9,6% na China, 7,7% na Índia, 5,1% no Brasil e 4,1% na Rússia.

No entanto, será que esses países podem transmitir dinamismo ao mundo como um todo? A resposta, à primeira vista, parece ser sim. Até 2008, o PIB combinado dos Bric, em dólar, já representava 60% do PIB dos EUA e 14% do número global, com a China gerando metade desse total.

O Goldman Sachs afirma que os Bric contribuíram com quase 30% para o crescimento global, em dólar, entre 2000 e 2008, e com 45% desde o começo da crise, em 2007.

Isso, sem dúvida, se intensificará com o tempo. No entanto, a quase totalidade desse crescimento ocorrerá dentro desses países. O estímulo líquido à demanda conferido ao resto do mundo depende de uma queda nos superávits dos seus saldos comerciais ou de um aumento nos seus déficits.

A China é, mais uma vez, o único Bric capaz de chegar a tanto.

Mesmo assim, o estímulo líquido transmitido entre 2008 e 2009 foi de menos de 0,2% do PIB do resto do mundo.

Apesar disso, os Bric, e acima de tudo a China, deverão desempenhar um papel importante na geração de um crescimento mais equilibrado na demanda por toda a economia global.

Este é um dos muitos desafios que a nova engrenagem de formulação de políticas do mundo deverá equacionar. Se a atenção prestada ao conceito dos Bric conseguir fazer as autoridades se concentrarem nessa tarefa, terá valido a pena.

01/01/2010 - 13:42h Hora de apostar

celso_mingCelso Ming – O Estado SP

Nada de olhar pelo retrovisor; a hora é de olhar pelo para-brisa dianteiro.

E, como tantas vezes na vida, nem tudo se enxerga bem, especialmente numa manhã de bruma.

Apesar disso, dá para dizer que 2010 tem tudo para ser um bom ano econômico, o que já é bem melhor do que aconteceu no final de 2008, ainda no auge da crise, quando se tentava vislumbrar o que aconteceria em 2009. Há um ano, sim, é que as perspectivas eram dramáticas, mas tudo acabou saindo melhor do que se previa.

Desta vez, o que se pode dizer é que, apesar dos riscos que se anteveem, há bem mais confiança em relação ao desempenho econômico em 2010.

Este é o último ano do mandato Lula e, mais que tudo, um ano eleitoral. Pela primeira vez na história recente do Brasil, as pesquisas de opinião mostram que o presidente Lula arrebata mais aprovação do que em qualquer ano de seu governo. Em compensação, não há parâmetros para antever o desempenho da candidata oficial à sucessão, a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, porque até agora ela não participou de nenhuma eleição. Essa circunstância, por si só, vai exigir que o governo federal mostre ainda mais serviço do que normalmente deveria mostrar num ano eleitoral. É consideração que desemboca em duas vertentes, uma boa e outra ruim. A vertente boa é a de que a economia tende a ser ainda mais turbinada, com obras públicas e decisões que deverão puxar pelo consumo. A prorrogação da redução ou até mesmo a isenção de IPI para os setores de veículos, aparelhos domésticos, móveis e materiais de construção dá uma boa ideia do que é isso. A vertente ruim é a de que aumentam os riscos de que as excessivas despesas públicas aprofundem ainda mais a deterioração da administração fiscal e obriguem o Banco Central a puxar pelos freios monetários (alta dos juros).

Mas, risco por risco, o risco mais alto é o comportamento da economia internacional. A recuperação a partir do segundo trimestre do ano passado não inspira confiança porque vem ocorrendo com aumento do desemprego, o que, por si só, levanta dúvidas sobre a sua sustentabilidade.

Não há clareza sobre os desdobramentos da crise financeira, a maior desde os anos 30. Por enquanto, a impressionante intervenção dos governos conseguiu evitar o colapso. Mas o volume de recursos que hoje circula pelos mercados é bem maior do que os recursos que havia lá por 2003 e 2004, os mesmos que foram responsabilizados por criar as bolhas que estouraram em 2008.

O risco de que apareçam novas bolhas nos mercados de commodities e de petróleo e nos ativos de risco parece elevado. Mais cedo ou mais tarde, os bancos centrais dos países ricos serão chamados a enxugar dos mercados esses recursos para desinflar as eventuais bolhas. Mas se arriscarão a tolher a recuperação econômica e a criação de empregos.

Os governos centrais dos países ricos estão atolados em dívidas. Boa pergunta consiste em saber se essa deterioração fiscal não vai solapar o já insatisfatório nível de confiança que paira sobre as até agora conhecidas como moedas fortes.

Em todo o caso, apesar dos riscos, a hora é de apostar. Quem ficar parado à espera da eliminação das incertezas estará sujeito a ficar para trás.

Confira

Blindagem ? As fortes reservas internacionais do Brasil contribuíram para aumentar a resistência da economia à crise externa. As compras de dólares pelo Banco Central em 2009 se transformaram em fator extra de atração de moeda estrangeira.

13/11/2009 - 14:15h EUA decaem, mas China ainda não é páreo

Nova ordem: Analistas creem na emergência de um mundo multipolar, mas não na débâcle total americana

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John Plender, Financial Times – VALOR

Com o presidente Barack Obama iniciando uma viagem por capitais asiáticas, a suposição corrente no Ocidente é de que ele vai se encontrar com líderes de países tidos como parceiros inferiores aos EUA. Mas, a realidade é mais complexa. Em meio aos escombros da crise financeira, a posição dos EUA de superpotência e líder da economia mundial parece cada vez mais ameaçada.

Em especial, quando ele chegar a Pequim, no domingo, nada conseguirá disfarçar o fato de que Obama estará fazendo uma visita ao maior credor de seu país.

Aqueles que ficam satisfeitos com o desconforto dos EUA observam que esse colosso econômico global carrega o maior endividamento internacional do mundo e vem sendo abalado por uma moeda em desvalorização. É consenso geral que a China é a principal beneficiária de uma débâcle financeira e uma séria desafiante à hegemonia dos EUA.

Como o poder econômico frequentemente anda de mãos dadas com o poderio militar, essa mudança no poder econômico, juntamente com a fraqueza recente do dólar, vem sendo proclamada como um prenúncio do declínio americano. Esse clima é descrito de maneira primorosa por Fareed Zakaria em seu mais recente livro de sucesso, “The Post-American World And The Rise Of The Rest” (”O Mundo Pós-Americano”, Companhia das Letras). Assim veio a referência de Obama, em seu discurso de posse, de “um enfraquecimento da confiança em nosso país; um temor incômodo de que o declínio da América é inevitável, de que a próxima geração terá que reduzir suas esperanças”.

Paul Volcker, ex-presidente do Federal Reserve (Fed) e conselheiro do presidente, declarou em uma entrevista recente à PBS, a rede de televisão pública dos EUA, que a ascensão dos mercados emergentes é “simbólica da menor posição dominante relativa dos EUA, não só na economia, mas também na liderança intelectual e de outras formas”.

Os bancos centrais dos países em desenvolvimento estão esfregando sal nas feridas do gigante enfermo. O Reserve Bank da Índia juntou-se, na semana passada, aos bancos centrais de China, Rússia, México e Filipinas na decisão de aumentar suas reservas em ouro, em detrimento dos títulos denominados em dólar. Um verdadeiro coro de formuladores de políticas de países que estão com superávit em conta corrente declarou que a posição do dólar como moeda de reserva é insustentável.

A essa altura, é importante lembrar que já estivemos aí antes. No fim da década de 80, Paul Kennedy, da Yale University, chocou o mundo com sua afirmação, em “The Rise And Fall Of The Great Powers” (”Ascensão e Queda das Grandes Potências”, Ed. Campus), de que “a única resposta à questão cada vez mais discutida da capacidade dos EUA de preservar ou não sua atual posição é ‘não’”.

Esse veredito pessimista surgiu na época do crash do mercado de ações, em 1987, quando houve uma preocupação contínua com os déficits gêmeos dos EUA e os déficits em conta corrente. O país havia se tornado um devedor internacional pela primeira vez e dependia crescentemente da entrada de capital europeu e japonês. Um Japão extremamente confiante estava em ascensão. O sentimento de decadência chegou perto da histeria nos EUA quando empresas japonesas compraram o Rockefeller Center, em Nova York, a Columbia Pictures, em Hollywood, e o campo de golfe de Pebble Beach, na Califórnia. “Quem é o dono da América?”, exigiu saber a ABC News.

De certa forma, a tese do professor Kennedy estava certa. Com a China, a Índia e os outros mercados emergentes alcançando o mundo desenvolvido, os EUA deverão sofrer um declínio econômico relativo, na forma de uma parcela menor do PIB mundial, mesmo com o país crescendo mais do que a maioria das grandes economias desenvolvidas e ainda sendo a maior economia do mundo em termos absolutos.

A globalização e a liberalização doméstica estão dando a esses países em desenvolvimento a chance de obter uma participação no PIB mundial proporcional ao seu tamanho na história. O desempenho econômico da China antes de 1978 era, afinal de contas, uma aberração vista a partir de uma perspectiva de séculos.

Em um estudo sobre as maiores economias, Angus Maddison, da Universidade de Groningen, calcula que a a participação da China no PIB mundial em 1820, antes de a Revolução Industrial na Europa ganhar força, era de mais de 30%, o que é bem mais do que a participação atual dos EUA. Assim, um retorno a algo mais normal pode estar a caminho.

Mas a tese de Kennedy parecia errada ao sugerir que os EUA talvez tivessem ampliado demais o seu império, ao ponto de não conseguirem mais administrá-lo, como aconteceu com a Espanha no século XVII e o Reino Unido no século XX. O caso mais óbvio de incapacidade de administração da década de 80 foi na verdade a União Soviética, que entrou em colapso, enquanto os EUA foram bem-sucedidos logo depois no restabelecimento de seu equilíbrio orçamentário, durante o governo Clinton, sem um recuo integral em seus compromissos internacionais.

Enquanto isso, o desafio econômico japonês perdeu o passo com o estouro das bolhas imobiliária e acionária, e o país se viu ameaçado pela deflação. O pânico da mídia americana com a invasão japonesa se mostrou um indicador perfeito, ainda que involuntário, de um ponto de virada.

A questão agora é se a tese da incapacidade de administração do império estava errada ou era simplesmente prematura. Mesmo assim, prever os períodos de ascensão e queda de nações e economias é uma coisa notoriamente difícil. Charles Kindleberger, o falecido historiador econômico, foi um dos muitos que acreditavam que a vitalidade nacional se movimentava em um ciclo de vida. Entre as causas internas do declínio identificadas por ele, estavam o aumento do consumo, a queda da poupança, a resistência à tributação, a desigualdade, a corrupção, grandes endividamentos e as finanças se tornarem mais dominantes na economia do que a indústria.

Mesmo que isso bata com as atuais circunstâncias, é preciso observar que muitas dessas coisas também estavam presentes nos EUA em 1929, quando a crise financeira coincidiu com a longa transição da hegemonia econômica do Reino Unido para os EUA. Quando Kindleberger escreveu “World Economic Primacy 1500-1990″, em 1996, ele acreditava que os EUA estavam decaindo. Mas ele não tinha ideia de qual país provavelmente surgiria como a próxima potência econômica mundial, e tinha a China apenas como “azarão” para o posto.

O argumento mais poderoso de apoio à hipótese da decadência envolve o que o professor Kennedy chamava de “tarefa antiga de relacionar as intenções nacionais às finalidades nacionais”. Como há uma correlação significativa de longo prazo entre a capacidade produtiva e a capacidade de aumentar as receitas, e o poderio militar, muita coisa depende da sustentabilidade da política fiscal. Aqui, os prognósticos não são bons para os EUA.

Sob as pressões gêmeas da crise financeira e do problema de longo prazo do envelhecimento dos “baby boomers”, as projeções oficiais apontam para déficits orçamentários numa escala sem precedentes. O Peterson Institute for International Economics, de Washington, estima que, depois de chegar perto de US$ 1,5 trilhão no ano fiscal corrente – mais de três vezes o recorde anterior -, o déficit provavelmente ficará perto de US$ 1 trilhão ao ano até 2020 ou além.

Da perspectiva do fluxo de recursos que entra na economia, a contrapartida desses déficits será em grande parte encontrada na conta corrente do balanço de pagamentos. Aqui, o instituto calcula que o déficit em conta corrente poderá subir de um recorde anterior de 6% do PIB para surpreendentes 15% ou mais até 2030, o equivalente a mais de US$ 5 trilhões por ano. Ele avalia que a dívida externa subirá dos atuais US$ 3,5 trilhões para até US$ 50 trilhões, ou 140% do PIB, no mesmo período.

Esses números representam um desafio assustador para o governo Obama e uma ameaça evidente ao dólar, uma vez que há um volume muito grande de reservas em dólares em mãos estrangeiras. O Fundo Monetário Internacional (FMI) estima que, do fim de 2000 até metade de 2009, as reservas internacionais subiram de US$ 1,9 trilhão para US$ 6,8 trilhões, dos quais US$ 2,3 trilhões estão sendo mantidos pela China. Mais de 60% dessas reservas estão em dólares.

A retórica chinesa recente, que inclui um pedido para a substituição do dólar como principal moeda de reserva do mundo por direitos especiais de saque (uma unidade contábil usada pelo FMI no trato com seus membros), sugere uma perda preocupante de confiança nas políticas monetária e fiscal dos EUA. Ao mesmo tempo, Fred Bergsten, diretor do Peterson Institute, afirma que agora é interesse dos EUA reduzir o papel do dólar e encorajar um fluxo maior de reservas para o euro, o yuan e os direitos especiais de saque (SDR, na sigla em inglês).

Mesmo assim, a ameaça ao dólar pode estar sendo exagerada. A China está sacudindo as barras da gaiola que ela mesma fez, uma vez que as reservas são uma consequência da intervenção colossal para impedir a valorização de sua moeda. Na verdade, ela está presa ao equivalente econômico da aniquilação mútua descrita pelos teóricos da guerra nuclear durante Guerra Fria. Com as exportações chegando a dois quintos do PIB, convém à China ter os EUA como tomador e gastador de último instância na economia mundial. E ela não pode abandonar o dólar sem reduzir o valor de suas próprias reservas em dólar.

Quanto ao potencial da moeda chinesa de desafiar o papel do dólar de moeda de reserva, isso poderá existir no longuíssimo prazo, mas na ausência de mercados financeiros desenvolvidos e um compromisso muito mais forte de internacionalização do yuan, isso continua sendo muito remoto.

Na verdade, o elemento mais fraco do ponto de vista do declínio dos EUA pode ser as atuais estimativas elevadas da força do desafio chinês. Elas foram elegantemente apontados em um ensaio recente sobre assuntos externos de Josef Joffe, editor adjunto do jornal alemão “Die Zeit”. A China, diz ele, é um lugar onde o resto do mundo essencialmente aluga trabalhadores e espaço de trabalho a preços muito baixos e taxas de câmbio distorcidas. Sua dependência das exportações, além de ser um calcanhar-de-aquiles econômico, tem consequências políticas. Estas incluem 70 mil casos de distúrbio social todos os anos, que não são computados nas previsões lineares de crescimento de que os banqueiros de investimento tanto gostam.

A demografia da China não ajuda: Joffe afirma que a população vai crescer antes de começar a enriquecer. Pelos números do Goldman Sachs, a China terá em 2050 superado os EUA, com um PIB de US$ 45 trilhões, contra os US$ 35 trilhões dos EUA. A idade média nos EUA será, então, a menor entre todas as grandes potências mundiais com exceção da Índia. Na verdade, a população economicamente ativa dos EUA terá crescido cerca de 30%, enquanto que na China haverá queda de 3%.

Junto com a dependência das exportações, isso representa um grande desafio para as autoridades chinesas, num país que é muito pobre. Enquanto isso, os EUA ainda possuem um sistema de ensino superior e de pesquisas sem paralelos. E, em 2008, seu orçamento militar foi de US$ 607 bilhões, representando quase metade dos gastos militares totais no mundo. O orçamento militar da China, frequentemente alardeada como a próxima superpotência, é de menos de um sétimo disso.

Ninguém pode negar as conquistas extraordinárias da China na mais acelerada revolução industrial da história humana. Estamos claramente nos movimentando para um mundo multipolar e um sistema de reserva multimoedas, no qual o poder dos EUA será mais restrito. Mesmo assim, os EUA continuam sendo de longe a mais flexível das grandes economias. A história não se move sobre trilhos – exceto para os marxistas. Se as autoridades dos EUA se mostrarem à altura do desafio fiscal e se os americanos passarem e poupar mais, há todas as chances do país escapar de um declínio significativo e continuar sendo a principal economia e potência militar do mundo por muito tempo ainda.

Isso é um “se” enorme. Mas, para o prazer de muitos, a próxima geração de americanos não vai reduzir suas esperanças e ambições no curto prazo.

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Retranca

China já viveu uma decadência como império


Financial Times – VALOR

A teoria da expansão excessiva dos impérios, lançada por Paul Kennedy em “The Rise And Fall of The Great Powers”, afirma que, se uma proporção grande demais dos recursos do Estado é desviada da criação de riqueza para os gastos militares, o poder nacional vai se enfraquecer no longo prazo. A questão é se um determinado Estado pode conseguir um equilíbrio razoável entre as necessidades básicas de defesa e os recursos econômicos.

A tarefa fica ainda mais difícil quando uma nação está sofrendo um declínio econômico relativo. O professor Kennedy afirmava também que os EUA não conseguiriam preservar sua posição relativa porque “simplesmente a nenhuma sociedade é conferido o direito de continuar permanentemente à frente das outras, uma vez que isso implicaria num congelamento dos padrões diferenciados das taxas de crescimento, dos desenvolvimentos tecnológico e militar, que existem desde tempos imemoriais”.

Ele concluiu que era dever dos estadistas americanos reconhecer essa ampla tendência e administrar o país, de modo que a corrosão relativa da supremacia ocorresse lentamente e tranquilamente, em vez de implementar políticas vantajosas no curto prazo, mas que seriam prejudiciais no longo prazo.

Isso carrega um reflexo notável da observação feita por Robert Temple Armstrong, o ilustre servidor público britânico, que disse na década de 70 que “o negócio do serviço civil é a administração ordeira do declínio”.

A China, embora vista por muitos como a principal beneficiária da potencial exaustão dos EUA, já passou por uma experiência própria de declínio. Até a meta de milênio anterior, ela era tecnologicamente mais avançada que a Europa, com uma agricultura mais eficiente, e a classe dos mandarins não tinha rivais em seu profissionalismo. Mesmo depois que o Ocidente a superou, economica e tecnologicamente, entre os séculos XVI e XVIII, a economia da China ainda era a maior do mundo quando a revolução industrial começou.

No entanto, entre 1820 e 1952, quando a Europa experimentou taxas de crescimento econômico sem precedentes na história, a produtividade per capita da China caiu, enquanto sua participação no PIB mundial despencou de um terço para um vigésimo. A renda per capital caiu de um nível igual ao mundial, para um quarto de média mundial no período*.

Esse desempenho terrível tem sido atribuído a várias causas, incluindo a intervenção colonial estrangeira, distúrbios internos e a inflexibilidade da burocracia diante dos desafios apresentados pelo renascimento do Ocidente.

Todos os números foram extraídos de “Chinese Economic Performance In The Long Run”, de Angus Maddison

29/10/2008 - 17:03h Apertem os cintos

Blog de Paul Krugman

The mother of all currency crises

I invented currency crises. No, really — not the thing itself, of course, but I did publish the first paper in the modern academic literature on the subject, back in 1979. And as I like to say, business has been good ever since.But I never anticipated anything like what’s happening now.I’ve been reading reports from Stephen Jen, a former student of mine who’s now the chief currency strategist at Morgan Stanley. He points out that since the fall of Lehman, we’ve been seeing clear signs of currency crises throughout the world of emerging markets, including Eastern Europe. This time, it’s not an Asian crisis or a Latin American crisis, it’s a global crisis. He adds,

So far,the US financial sector has been the epicentre of the global crisis. I fear that a hard landing in EM assets and economies will become the second epicentre in the coming months, with very damaging feedback effects on the developed world.

Right now I feel like the guy who was told, “Cheer up — things could be worse!” So he cheered up, and sure enough, things got worse.

11/04/2008 - 04:46h Ilusão ou profecia?

O centro e a periferia

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*Por Javier Santiso – VALOR

Os mercados financeiros encontraram um novo conceito com o qual tentam rifar a queda livre dos rendimentos nos países da OCDE. Agora eles falam de desacoplamento para indicar a maior capacidade de resistência das economias emergentes à crise que desponta a partir dos Estados Unidos. Este conceito, porém – em contradição com o de globalização, também defendido pelos mercados financeiros – é insuficiente na hora de tomar o pulso da mudança tectônica que estamos presenciando.

O que estamos vivendo é uma mudança de época e de paradigma que se assemelha a uma grande transformação, para parafrasear o economista húngaro Karl Polanyi. Os equilíbrios e as riquezas dos países estão se redesenhando a grande velocidade com a emergência de novos países, através da China, Índia, Brasil, México, África do Sul e Rússia, para mencionar as economias de ponta, que emergem a partir daquelas que até anteontem eram denominadas países em desenvolvimento.

Esta emergência é o principal evento econômico internacional deste início de milênio. Não se trata de uma espuma passageira, mas de uma onda profunda duradoura. Há 50 anos, as economias da OCDE concentravam 75% do PIB mundial. Agora, sua parcela se aproxima de apenas 55% do PIB mundial. A maior parte do crescimento mundial destes últimos anos se situa nas economias emergentes.

Igualmente, há 40 anos, 100% dos investimentos externos diretos procediam dos países da OCDE; agora, são menos de 85%. Jóias do antigo império britânico, como Corus, Jaguar ou Land Rover, caem umas após as outras nas mãos das antigas colônias das Índias. Há uma década, mais de 70% do comércio mundial estava nas mãos dos países ricos e agora esta proporção é de apenas 60%, e os números continuam apontando para baixo. Em 2007, pela primeira vez, o peso dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) igualou o dos Estados Unidos (21% do total mundial para ambos). Neste mesmo ano, os países emergentes já concentravam 85% da população mundial.

Estas mudanças não estão acontecendo de forma abrupta, elas levaram anos para se materializar em equilíbrios completamente diferentes dos que temos presenciado no fim do século XX. A (re)emergência da China, que até meados do século XIX concentrava mais de 30% do PIB mundial, é, sem dúvida, a ponta mais espetacular do iceberg que vem à superfície. Consultorias e bancos de investimento multiplicam as previsões para sondar em que ano a China superará de novo os EUA.

Para a PriceWaterHouseCoopers (PWC) ou o Goldman Sachs, esta data gira em torno de 2025. O economista e historiador Angus Maddison inclusive se atreve a prognosticar um momento mais próximo, em torno do ano de 2015 (ver Angus Maddison, “Chinese Economic Performance in the Long Run” [Desempenho econômico chinês no longo prazo], Paris, Centro de Desenvolvimento da OCDE, 2007). A verdade é que pouco importa a data exata: o que está certo é que a nossa geração presenciará esta mudança tectônica.

Algumas economias do Sudeste Asiático ou do Oriente Médio já ostentam PIB per capita mais elevados que muitos países da OCDE

Para além da China, o que veremos passar será o vagão de todos os emergentes recuperando o tempo perdido. Em meados do nosso século, segundo a PWC, a Índia provavelmente conseguirá representar cerca de 90% da economia dos EUA. Igualmente, em 2050, o Brasil superará o Japão, ao passo que Rússia, México e Indonésia ultrapassarão a Alemanha. O Vietnã, outro país emergente que desponta rapidamente a partir do Sudeste Asiático, também deveria se aproximar da Itália ou da Espanha em torno destas datas. A partir de 2020, a China provavelmente já será o segundo maior mercado de consumo do planeta, algo que deveria continuar despertando o apetite dos operadores do grande varejo e de todas as empresas voltadas aos serviços.

Para além dos números e dos prognósticos, precisaremos reajustar todos os nossos marcos conceituais e paradigmas. As categorias, no passado clássicas, de países da OCDE versus países emergentes, já são questionáveis. A OCDE conta com um punhado de economias emergentes que pertencem ao clube (México, Turquia e Coréia do Sul). Como se fosse pouco, outras, como Chile, Israel e Rússia, por exemplo, estão, desde 2007, em processo de admissão. Algumas economias do Sudeste Asiático ou do Oriente Médio já ostentam PIB per capita mais elevados que muitos países da OCDE.

Por outro lado, economias como Islândia ou Grécia apresentam, nos mercados financeiros, comportamentos de volatilidade ainda recentemente considerados exclusivos dos mercados emergentes. O que estamos presenciando, acima de tudo, é uma descentralização do mundo. Dito de outra forma, o que vivemos agora não é um desacoplamento, mas um realinhamento das riquezas dos países. As relações comerciais, financeiras e industriais entre os países do Sul estão se intensificando a uma grande velocidade. O centro é cada vez menos o centro e a periferia, cada vez menos a periferia. A América Latina e a Ásia estão exportando cada vez mais, assim como a África.

Desde meados desta década, um país como o Brasil mantém mais laços comerciais com os emergentes do que com qualquer outra região do mundo desenvolvido. Na América Latina, o Chile já exporta mais para a Ásia que a qualquer outra região do mundo (35% do total em 2007). Na Ásia, os países da região já fazem a maioria dos seus intercâmbios comerciais entre si (52% do total em 2007). Por décadas, o Ocidente se considerou o centro do mundo. Por décadas, temos celebrado os efeitos da globalização.

O jogo, porém, foi por muito tempo assimétrico. Agora esta assimetria está se dissipando: os vencedores da globalização são também os países do Sul. Talvez nem todos no Ocidente comemorem esta notícia com champanha. É possível que os motivos de comemoração se mantenham ocultos por reações protecionistas. Apesar disso, como diz o filósofo alemão Karl Popper, vale a pena continuar apostando na busca de um mundo melhor. E este que desponta, para as economias emergentes, sem dúvida será.

*Javier Santiso é diretor e economista-chefe do Centro de Desenvolvimento da OCDE.

12/03/2008 - 12:17h Só resta orar?

Um leilão de cenários assustadores

MARTIN WOLF DO “FINANCIAL TIMES”

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QUAL É o lance quanto aos prejuízos do setor financeiro com a crise do setor de crédito imobiliário de risco (”subprime”) dos EUA? Há lances para os US$ 100 bilhões sugeridos por Ben Bernanke, presidente do Fed (BC dos EUA), em julho? E que tal os US$ 500 bilhões do Goldman Sachs? Ah, temos um lance de entre US$ 1 trilhão e US$ 2 trilhões do economista Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York. Alguém mais?

É fácil ser cínico quanto ao leilão de prognósticos assustadores a que temos assistido. Mas não podemos ignorá-los.

Em minha coluna de 27 de fevereiro, analisei as implicações de um prejuízo agregado de US$ 1 trilhão no setor financeiro. O número acompanha as estimativas do professor Roubini e de George Magnus, do UBS. Concluí que até mesmo esse montante seria administrável, se bem que não de modo indolor, para uma economia tão grande e um governo com histórico de crédito tão positivo quanto o dos EUA. Roubini diz que descartei sem muito alarde a possibilidade de que os problemas tenham sido ainda piores. Agora, ele argumenta que os prejuízos financeiros podem ter atingido US$ 3 trilhões.

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11/02/2008 - 09:04h De novo à sombra de Marx

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VALOR

 

Por J. Bradford DeLong

Um século e meio atrás, Karl Marx, a um só tempo sombrio e entusiasmado, previu que o capitalismo moderno que ele via em evolução, seria incapaz de produzir uma distribuição de renda aceitável. A riqueza iria crescer, afirmou Marx, mas beneficiaria poucos, e não a maioria: uma floresta de braços erguidos em busca de trabalho iria tornar-se cada vez mais densa, ao mesmo tempo em que os braços ficariam cada vez mais finos. Essa injustiça provocaria revoltas e revoluções, produzindo um novo sistema – melhor, mais justo, mais próspero e muito mais igualitário.

Desde Marx, economistas vinculados ao establishment têm ganho sua vida explicando pacientemente por que Marx estava errado. Sim, o choque inicial de desequilíbrio que caracterizou a Revolução Industrial foi, e é, associado com desigualdade em rápido crescimento, à medida que oportunidades são abertas à agressividade e empreendedorismo, e à medida que os preços de mercado exigidos por crucial talento escasso atingem altitudes estratosféricas.

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03/02/2008 - 11:06h FMI dá aval a aumento do gasto público para combater a recessão e nos EUA, ‘heterodoxia’ do Fed põe de lado guerra à inflação

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Dominique Strauss-Khann, Diretor-geral do FMI

Interessante estes artigos do Estadão. Como se sabe o jornal não gosta ouvir falar em gasto público, por isso os artigos são um longo porém. Isto não anula a constatação evidente: o déficit fiscal dos EUA é gigante e mesmo assim o FED abaixa os juros e fecha os olhos para um eventual repique da inflação. Para o FMI esse é o caminho, a contra-mão do que sempre apregoaram para os nossos países. É que em ambas situações se trata de ajudar os mesmos, os que dominam a economia mundial: os EUA. Neste caso, até agora, o esforço tem sido insuficiente. Agir para evitar a recessão nos Estados-Unidos é bom para todos, mas é bom não esquecer que alguém vai financiar o déficit e o endividamento norte-americano. O resto do mundo será quem arcará com o ônus. LF

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03/02/2008 - 10:40h O Brasil é o melhor dos Brics

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Em meio à crise dos EUA, pai da sigla destaca confiança de investidores no país

O GLOBO ENTREVISTA
Jim O’Neill

O economista britânico Jim O’Neill ficou famoso por ser o criador da célebre expressão Brics — sigla que resume o crescente poder dos grandes países emergentes, Brasil, Rússia, Índia e China. Chefe de Pesquisas Econômicas Globais do Goldman Sachs, O’Neill está relativamente otimista com a crise nos Estados Unidos e acredita que, para surpresa dos mercados, a economia americana poderá evitar a recessão. Ele é ainda mais otimista em relação ao Brasil. Apesar de reconhecer que o país poderá ser afetado pelo desaquecimento global no seu comércio exterior, já que é grande exportador de commodities, O’Neill garante que, em meio à crise dos EUA, o Brasil é o melhor dos Brics para investir. Em entrevista por telefone ao GLOBO, de seu escritório em Londres, ele alerta que a vitória de um candidato democrata nas eleições americanas pode aumentar o protecionismo comercial nos Estados Unidos, principalmente se o eleito para a Casa Branca for o senador Barack Obama. E critica a rigidez de fóruns multilaterais como FMI e G-7 por não incorporarem os grandes emergentes: “Os Brics respondem por 15% do PIB mundial”.

Luciana Rodrigues

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