09/05/2008 - 15:53h O pior da crise passou para quem?

VINICIUS TORRES FREIRE

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Lobby mundial de bancos quer ajuda do governo americano e Congresso dos EUA aprova um “ProCasa” e PIB desliza no zero


ALAN GREENSPAN teria dito ontem que o pior da crise de crédito americana já passou, segundo a agência Reuters. Não se sabe bem por qual motivo, Greenspan queria manter sua palestra em segredo. Jornalistas que quisessem comparecer ao evento não deveriam noticiá-lo. Greenspan teria contado ainda outro segredo pé-de-chinelo, ou de polichinelo: que é muito improvável que o preço dos imóveis pare de cair nos EUA neste ano -a queda do valor das casas foi um dos detonadores da crise financeira.
Ainda ontem, o diretor-gerente da associação mundial de bancos e similares (o Institute of International Finance), Charles Dallara, dizia que é “prematuro” afirmar que o pior da crise de crédito passou, pois o mercado de imóveis nos EUA continua a piorar -os preços ainda caem. Hum. Se os preços caem, mais gente desiste de pagar a prestação da casa (a dívida fica maior que o valor do bem). Se menos gente paga, mais prejuízo para bancos e cia.
Os deputados americanos aprovaram ontem um “ProCasa”, pacote de US$ 300 bilhões para ajudar pessoas que devem perder suas casas, para auxiliar quem queira comprar uma e para dar algum tutu a cidades falidas pela crise. US$ 300 bilhões equivalem a mais de um quarto do PIB brasileiro. Se o pacote passar no Senado, George Bush diz que veta.
Dallara, aquele da associação mundial de bancos, defende que o governo americano intervenha de modo a impedir que mais americanos percam suas casas devido à falta de pagamento da prestação. Defende, pois, algo assim parecido com o pacote aprovado pelos deputados americanos, o que Bush quer vetar.
“Na minha opinião, até que [a crise imobiliária] se estabilize, seja por meio das próprias forças de mercado ou por meio de alguma intervenção do governo americano -e isto parece uma possibilidade-, não acho que possamos estar confiantes de que o pior já passou”, disse Dallara. O lobby da banca mundial defende, pois, a intervenção do governo americano num mercado falido.
Sim, apesar das coisas feias que as crises provocam, o mundo fica um lugar politicamente divertido quando há sururu econômico. As frases sobre o “o pior da crise já passou” têm mesmo muito de diversão -de motivo para escárnio e de manobra diversionista. O “pior da crise já passou” ou passaram o pior da crise para alguém?
Os EUA pararam de criar empregos. A economia, que dizem idioticamente estar “crescendo mais que o esperado”, cresceu menos de 0,3% no último semestre. Ou seja, “passaram” a crise adiante, para quem ficou sem casa e sem emprego. O presidente do Merrill Lynch, John Thain, por exemplo, dava ontem mais um exemplo do que significa esse coro da “crise já passou”.
Disse que bancos de investimento (como o dele) não anunciariam mais perdas brutais como as dos últimos nove meses. Mas os bancos que lidam com consumidores comuns vão sofrer, pois as pessoas vão deixar de pagar o cartão de crédito e coisas assim: “Acho que a combinação de preços de casas em queda, preços de comida e energia em alta e desemprego maior vai resultar numa retração do consumidor americano, o que vai atrapalhar a economia pelos próximos seis, doze meses”. Hum.

vinit@uol.com.br

20/04/2008 - 07:24h O cretinismo moral do FMI

VINICIUS TORRES FREIRE

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Falido, incapaz de prever crises, de um amoralismo sinistro e histórico, Fundo agora se permite dar lições de moral

FRACASSADO E incompetente como zelador da finança mundial, o FMI agora se dá ares de porteiro da moralidade, de Fundo Moralizante Internacional.
Seu diretor, Dominique Strauss-Kahn, diz que produzir biocombustíveis é um “problema moral”, pois fabricar álcool e biodiesel esfomeia ainda mais os famélicos da terra.
O FMI quer limpar sua barra com essa demagogia farisaica, assim como tem feito o Banco Mundial, seu primo-irmão. Agregou-se à campanha de alguns governos ricos, múltis produtoras de comida industrializada, ambientalistas reacionários e de barnabés da ONU contra biocombustíveis. Os ricos “comovem-se” com a fome, mas o que oferecem em ajuda para alimentar pobres equivale a cerca de um centésimo da renda que transferem para seus agricultores subsidiados e protegidos.
Inepto e balofo, o FMI cobriu-se de ridículo extremo ao praticamente falir, pois o fundo monetário do planeta não soube programar seus gastos e receitas. Como sempre, continua incapaz de perceber crises financeiras até mesmo quando estas estouram diante de suas fuças.
Pouco antes da crise da Ásia, em texto de abril de 1997, dizia que “não havia sinais de tensões e desequilíbrios” que antecedem recessões (na época, o jornal britânico “Financial Times” publicou um título sobre tal relatório que ficaria famoso: “FMI vê o mundo cor-de-rosa”).
Meses antes do estouro da crise imobiliária americana, em abril de 2007, o FMI dizia enormidades desta espécie em seu “Relatório de Estabilidade Financeira Global”: “Essas fragilidades estão circunscritas a certas áreas do mercado “subprime” (…) e provavelmente não constituem uma séria ameaça sistêmica.
Testes de estresse feitos por bancos de investimento mostram que, mesmo em cenários de queda nacional e sem precedentes históricos dos preços de imóveis, a maioria dos investidores expostos às hipotecas “subprime” por meio de derivativos não sofrerá perdas”. Capítulo 1, página 7.
Inverta-se tudo que o FMI escrevera em abril de 2007 e teremos uma descrição do que ocorreu a partir de agosto de 2007. Note-se, ainda, que o Fundo lambia botas de estudos realizados pelos próprios interessados em camuflar o rolo imobiliário, os bancos de investimento, que só não foram mais à lona nesta crise graças à mãe de todos os programas de seguro financeiro subsidiado, os empréstimos camaradas do Fed. Nem se mencione, de resto, que o Fundo sempre foi benevolente com as farras financeiras de quem o financia, os EUA, na maior parte.
Além de incompetente, o agora Fundo Moralizante Internacional sempre foi de um amoralismo sinistro, indiferente a sofrimentos, amigo de ditadores liberalizantes e adepto de golpes de Estado. Durante a crise asiática, deu as suas receitas invariáveis e, portanto, ruinosas, sem jamais se importar com “timing” e contextos socioeconômicos e políticos. Levou a Indonésia a cortar subsídios para alimentos. O preço do arroz mais que triplicou e houve protestos sangrentos, com centenas de mortos. A fome então não era um “problema moral”. Na época, o país era tiranizado por Suharto, ditador, assassino e ladrão que saqueara o país por três décadas. Mas ruim mesmo era o subsídio do arroz.


vinit@uol.com.br

18/03/2008 - 07:44h Na bacia das almas

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Celso Ming – O Estado de São Paulo

Não se sabe o que provocou mais o estrago de ontem nos mercados, se o afundamento do Bear Stearns ou se as decisões extraordinárias e heterodoxas do maior banco central do mundo, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano).

O Bear foi arrematado na bacia das almas pelo JP Morgan por US$ 2 por ação, a mesma que, no início de maio do ano passado, era cotada a US$ 156. O mercado entendeu como um banco pode virar pó em um par de dias e temeu que este possa ser o fim de um punhado deles. (Veja a tabela e o Confira.) Como sempre nessas ocasiões, deixou o medo comandar seus movimentos.

O Fed não está mais lendo manual de procedimentos. Partiu para o tudo ou nada, sem olhar para prejuízos colaterais nem para aqueles que ainda resmungam que todo “proer” é imoral. Seu objetivo é conter a epidemia.

Nesse fim de semana, criou uma linha especial de crédito de seis meses – renovável sabe-se lá por quanto tempo mais – para bancos de investimento, instituições que estão de fora de seu guarda-chuva institucional. E anunciou a decisão na noite de domingo, antes da abertura dos mercados da Ásia, mostrando que está olhando para muito além do seu território. Como garantia da nova linha de crédito, vai aceitar títulos hipotecários, cujo preço de mercado seu próprio presidente, Ben Bernanke, não tem condições de avaliar, conforme reconhece.

O parágrafo acima mostra o quanto os mais poderosos bancos centrais são vulneráveis. Fundos de hedge (como o Carlyle Capital), bancos de investimento (como o Bear) e companhias de crédito imobiliário (como o Northern Rock) podem provocar terremotos no sistema financeiro, mas não estão sob a tutela de bancos centrais.

O mercado funciona como um só rolo planetário. E, no entanto, a supervisão das finanças globais continua puramente paroquial. Apesar disso, o presidente da Comissão Européia, o português José Manuel Durão Barroso, reafirmou ontem sua convicção de que os bancos centrais saberão devolver a estabilidade dos mercados.

A capacidade de atuação do Fed parece próxima do limite sem que as duas pontas principais da megaencrenca tenham sido amarradas. Os mutuários estão devolvendo seus imóveis porque seu valor hoje é cada vez mais baixo do que o financiamento levantado para comprá-los, e não há remédio para isso. O investidor que forneceu recursos para o crédito hipotecário exige seu dinheiro de volta. Mas ele está aplicado em imóveis e tem de 20 a 30 anos para voltar. Também não há remédio para isso. Por enquanto, a cobertura contra os estragos provocados pela crise atinge apenas o segmento que está no meio do negócio: os bancos.

Parece cada vez mais inevitável a intervenção do Tesouro americano, como ocorreu na crise do crédito imobiliário em 1998. O presidente Bush está informado disso, mas ontem saiu da reunião com sua assessoria econômica na Casa Branca afirmando apenas que está atento e que os bancos americanos são sólidos.

Enquanto isso, o dólar vai derretendo nos mercados.

CONFIRA

Superalavancagem – O consultor Carlos Coradi analisou o último balanço anual (do exercício de 2006) do Bear Stearns e viu o seguinte: o banco tinha um patrimônio de US$ 12 bilhões, mas ativos de US$ 350 bilhões. Uma alavancagem de 29 vezes.

Entre esses ativos, US$ 43 bilhões correspondiam a hipotecas equivalentes a quase quatro vezes o seu patrimônio.

As receitas líquidas do Bear em 2006 alcançaram US$ 9,2 bilhões. No entanto, apenas na rubrica Compensações e Benefícios para seus funcionários foram distribuídos US$ 4,3 bilhões, ou 40% do total.

12/03/2008 - 12:17h Só resta orar?

Um leilão de cenários assustadores

MARTIN WOLF DO “FINANCIAL TIMES”

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QUAL É o lance quanto aos prejuízos do setor financeiro com a crise do setor de crédito imobiliário de risco (”subprime”) dos EUA? Há lances para os US$ 100 bilhões sugeridos por Ben Bernanke, presidente do Fed (BC dos EUA), em julho? E que tal os US$ 500 bilhões do Goldman Sachs? Ah, temos um lance de entre US$ 1 trilhão e US$ 2 trilhões do economista Nouriel Roubini, da Universidade de Nova York. Alguém mais?

É fácil ser cínico quanto ao leilão de prognósticos assustadores a que temos assistido. Mas não podemos ignorá-los.

Em minha coluna de 27 de fevereiro, analisei as implicações de um prejuízo agregado de US$ 1 trilhão no setor financeiro. O número acompanha as estimativas do professor Roubini e de George Magnus, do UBS. Concluí que até mesmo esse montante seria administrável, se bem que não de modo indolor, para uma economia tão grande e um governo com histórico de crédito tão positivo quanto o dos EUA. Roubini diz que descartei sem muito alarde a possibilidade de que os problemas tenham sido ainda piores. Agora, ele argumenta que os prejuízos financeiros podem ter atingido US$ 3 trilhões.

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24/02/2008 - 09:17h ‘O Brasil de hoje está melhor que o México em 2000′

O Estado de São Paulo

Para ele, País já merecia o grau de investimento, conceito dado por agências de risco a países com chance remota de dar calote

Distante da maioria absoluta dos brasileiros, o assunto grau de investimento é uma obsessão no governo e no mercado financeiro. Em português, essa expressão significa que a chance de o emissor de um título de dívida dar um calote é muito baixa. Quem concede a honraria é um tipo de empresa chamada de agência de classificação de risco. No caso de um país, a obtenção desse selo de qualidade, espécie de ISO 9000 do mundo das finanças, abre as portas para o ingresso de trilhões de dólares e euros.

Na semana passada, o assunto voltou com força às mesas de operação do mercado. Alguns rumores davam conta de que o País finalmente ascenderia ao paraíso, o que foi prontamente negado pelas agências de risco. Ainda assim, é consenso entre os analistas que o Brasil está perto de obtê-lo – na pior das hipóteses, no primeiro semestre de 2009.

O México já tem essa nota há quase oito anos. Para entender o que o grau de investimento mudou naquele país – um indicativo do que pode ocorrer aqui -, o Estado conversou com o economista-chefe do banco HSBC no México, Jonathan Heath. Aos 53 anos, ele vive o dia-a-dia da economia mexicana há 28 anos. Duas semanas atrás, o banco anunciou que Heath ocupará o recém-criado cargo de economista-chefe para América Latina.

“O HSBC vê seu futuro nos mercados emergentes e está especialmente interessado na América Latina. Por isso, decidiu criar um posto que possa prover uma visão geral da região para nossos clientes”, explica. Sua primeira visita ao Brasil no cargo ocorrerá no início de abril. Sobre o grau de investimento para o Brasil, Heath não tem dúvidas: o País já faz por merecê-lo.

Qual é a grande diferença entre um país considerado grau de investimento e outro que não é?

O país que o conquista entra em um círculo virtuoso. Detê-lo significa poder acessar o mercado externo e tomar dinheiro emprestado a taxas de juros menores. O país utiliza esse dinheiro para pagar dívida (antiga e) mais cara. Assim, vai reduzindo a dívida externa. Tudo isso desemboca em uma melhora da situação fiscal, na medida em que o dinheiro economizado com os juros mais baixos reduz a dívida total do país. Essa situação melhor na área externa se traduz em uma queda da taxa de juros interna. Cria-se, portanto, o círculo virtuoso. É importante ficar claro que não é apenas o governo que se beneficia disso. O setor privado também tem acesso a juros mais baixos para se financiar no exterior.

Quais os benefícios em termos de investimentos no país?

Há muitos fundos de investimentos globais que, por regras, não podem aplicar em países considerados especulativos. Exigem o grau de investimento. O Banco Lehman Brothers, por exemplo, tem um índice de bônus global que é seguido à risca por muitos investidores (uma carteira hipotética que recomenda a aplicação do dinheiro conforme uma ponderação determinada pelo banco). Esse índice não inclui ativos sem grau de investimento. O Brasil, portanto, não está nesse índice.

Quando o México recebeu o grau de investimento?

A primeira agência a conceder foi a Moody’s, em maio de 2000. À época, foi uma surpresa, pois o México estava a dois, três meses de uma eleição na qual o PRI, partido que levava 71 anos no poder, estava ameaçado de perder. Não se sabia se a oposição (que acabou vencendo com Vicente Fox) manteria a economia no mesmo rumo. A Standard and Poor’s e a Fitch esperaram as eleições para se equiparar à Moody’s.

O que o grau de investimento mudou na economia mexicana?

Permitiu ao México equilibrar a inflação. No fim de 1995, a inflação anual mexicana atingiu 52%. A partir de 1996, começou a baixar pouco a pouco. Em meados de 2000, estava ainda perto de dois dígitos (ou seja, acima de 10% ao ano). Quando veio o grau de investimento, a inflação baixou rapidamente e chegou a um dígito.

Muitos aqui acham que o Brasil já merecia ser grau de investimento.

Se compararmos o Brasil de hoje com o México de 2000, o Brasil agora está em melhores condições que o México naquele momento. Portanto, definitivamente, o Brasil já deveria ser grau de investimento. O Brasil é hoje credor líquido do resto do mundo. O México em 2000 não era nem tinha, remotamente, a quantidade de reservas que o Brasil tem hoje. O problema do Brasil é que ainda falta consolidar um pouco a parte das finanças públicas. Segundo as agências de risco, várias reformas ainda estão pendentes, como a fiscal, que permitiria flexibilizar um pouco mais o gasto (público) e, assim, reduzir os tributos. Para mim, são argumentos marginais comparados à “foto maior”. Essa foto mostra que o Brasil tem capacidade de enfrentar seus compromissos de dívida.

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