09/06/2009 - 11:22h Um cénario inquietante para Europa
Vitória do populismo, radicalismo e eurocéticos
Gilles Lapouge* – O Estado SP
Nenhuma surpresa. Os conservadores triunfaram nestas eleições europeias em quase todos os 27 países-membros. Mas esse resultado é paradoxal.
A crise financeira, que teve origem nos bancos americanos, não levou à condenação do liberalismo econômico pregado pela direita, de Ronald Reagan e Margaret Thatcher a Angela Merkel e Nicolas Sarkozy. Isso porque, há seis meses, os governos de direita reagem com inteligência e brio. Sacudidos pela crise, aplicaram remédios dignos de intervencionistas de esquerda. Hoje, não se sabe mais em que partido se oculta o “liberalismo” econômico.
O resultado nos ensina que a fé na Europa vacila, o que é mostrado por dois índices. O primeiro é o nível sem precedente de abstenção: 60% dos cidadãos europeus não se preocuparam em sair de casa para votar.
O segundo é o avanço da extrema direita e eurocéticos (os que não acreditam no bloco ou querem destruí-lo). O caso mais espantoso é o da Grã-Bretanha, onde o Partido Trabalhista só reuniu 15,3% dos votos. Uma derrota tão amarga que a pergunta é se o premiê Gordon Brown conseguirá sobreviver.
Quem se beneficiou da queda trabalhista foi a direita e os eurocéticos. O Partido Conservador, adversário tradicional dos trabalhistas, ficou em primeiro ao arrebanhar 28,6% dos votos. Mas o partido de Brown não conseguiu nem o segundo lugar; foi derrotado pelo Partido da Independência Britânico (UKIP), que obteve 17,4% dos votos. O UKIP exige simplesmente a saída do país da União Europeia (UE).
Outro caso inquietante é o da Holanda, onde o Partido para a Liberdade (PVV), liderado por Geet Wilders, seduziu 17% dos cidadãos, ficando próximo do governista Partido Democrata-Cristão. O líder do PVV, um tribuno da direita mais primitiva, urra contra os imigrantes e contra a UE, a quem culpa por abrir as portas da Europa para as hordas do Terceiro Mundo.
Wilders seduziu com um discurso rudimentar. Afirmou que o Alcorão é um “livro fascista” e foi processado por incitação ao ódio. Mas isso não o perturbou. Para ele, “as pessoas estão fartas da Europa como se apresenta hoje, uma imensa Europa, com a possível entrada da Turquia, para a qual os holandeses já contribuíram com bilhões”.
Mais do que um grande sucesso dos conservadores e um recuo geral dos socialistas, as eleições nos mostram cenários muito inquietantes: o avanço do populismo, a consolidação da direita radical e, sobretudo, o florescimento tumultuoso das formações antieuropeias.
* Gilles Lapouge é correspondente em Paris




