15/11/2008 - 18:00h Da secessão… à consagração
Abraham Obama, painel do artista Ron English, em Boston, sobrepõe as imagens de Abraham Lincoln e Barack Obama

Eleições de Lincoln, em 1860, e de Obama, em 2008, mostram um Sul dos EUA ainda avesso à mudança

Flávio Henrique Lino – O Globo
Ambos têm nomes bíblicos e vieram de famílias de classe média.
Ambos foram os primeiros a chegar à Casa Branca nascidos em estados fora do corpo histórico principal do país e fizeram carreira política no Illinois. Ambos pegaram uma nação em crise profunda e marcaram época com sua eleição. Ambos libertaram os negros americanos — um de grilhões reais; o outro, de grilhões mentais. Numa dessas curiosas ironias da História, são muitas as semelhanças que traçam uma linha do tempo direta entre Abraham Lincoln e Barack Obama. Uma delas, no entanto, chama a atenção por transcender a mera coincidência. Quase um século e meio decorridos desde que Lincoln tornou-se o primeiro republicano eleito presidente, em 1860, e Obama, o primeiro negro, em 2008, tanto um quanto o outro foram rejeitados pelo Sul dos Estados Unidos, num recorte regional de votos que delimita não somente diferenças geográficas, mas, sobretudo, de mentalidades.
Nos 11 estados que declararam a secessão após a eleição de Lincoln e formaram os Estados Confederados da América, baluarte da escravidão nos EUA, Obama ganhou somente em três: Virgínia, Carolina do Norte e Flórida. Um desempenho certamente melhor que o de Lincoln, cujo nome sequer apareceu nas cédulas de nove dos dez estados sulistas que decidiam por voto direto seus delegados ao Colégio Eleitoral, tamanha a rejeição local às suas propostas em favor da limitação da servidão dos negros. No único em que concorreu — Virgínia, onde teve 1,1% dos votos — a derrota avassaladora sinalizou o caminho para o confronto inevitável entre duas visões de mundo diametralmente opostas, levando Norte e Sul dos Estados Unidos ao mais sangrento conflito já travado no continente. A Guerra Civil Americana cavou, no rastro de 600 mil mortes, um fosso ainda hoje intransponível entre as duas regiões, muito depois de os canhões silenciarem em 1865.
— Nosso país foi invadido e derrotado. Há 143 anos estamos sob ocupação — enfatizou ao GLOBO, da Carolina do Norte, o presidente da Sociedade Confederada da América, Craig Maus, tratando o Sul como nação e usando um tom amargurado como se a guerra tivesse terminado dias atrás. — Só queremos ser deixados em paz pelo governo federal.
Obama só venceu em 228 de 1.104 condados do Sul
Contado em votos, o desempenho do “abençoado” Barack, cujo nome é a versão africana do hebraico Baruch, foi infinitamente melhor que a de seu antecessor longínquo, também batizado numa referência bíblica, ao patriarca do povo judeu. O negro Obama foi escolhido por 18 milhões de eleitores dentro dos limites da antiga Confederação, contra os 20 milhões que votaram em seu adversário, o branco John McCain. Já Lincoln teve ínfimos 18.915 votos, de um total de 856.461.
Mas, se por um lado foi surpreendente a expressiva votação do senador que se tornou o primeiro presidente não nascido nos EUA continentais (Obama é havaiano), em pelo menos um aspecto sua performance pouco difere da do exdeputado nascido no Kentucky, o primeiro não originário da matriz das 13 colônias a chegar ao poder supremo no país: em número de condados.
Lincoln levou apenas 2 dos 996 que formavam o Sul em sua época, enquanto Obama coloriu de azul somente 228 dos 1.104 em que a antiga Confederação está hoje dividida. Mesmo nos três estados sulistas que viraram as costas à História e deram a vitória ao filho da África no voto popular, ele passou longe de aproximar-se do número de condados que apoiaram o rival filho do patriciado branco. Ou seja, a reviravolta histórica foi garantida nas grandes cidades, mais populosas e arejadas culturalmente e mais antenadas com o espírito do século XXI; porém, nos rincões do Sul profundo, onde a vida cotidiana ainda deita raízes no passado, predominam atitudes e valores que remontam ao século XIX.
— Esta eleição foi igual a qualquer outra, e não vejo significado histórico nela. A cor e a origem do candidato não afetam nossas decisões.
Aliás, a guerra civil não foi por causa da escravidão, mas sim por causa dos impostos — garantiu Maus, que não quis revelar em quem votou. — Prefiro não falar nisso. Não faz qualquer diferença.
Seus vizinhos na pequena Mooresville, no entanto, claramente optaram por John McCain, cuja campanha se baseou fortemente na acusação de que Obama ia aumentar os impostos. No condado de Iredell, onde fica a cidadezinha de 19 mil habitantes na Carolina do Norte, o republicano bateu o democrata — embora Obama tenha vencido no estado — por 61,9% dos votos a 37,5%.
Uma tendência que o colunista Harold Meyerson, do “Washington Post”, apontou como o caminho do partido de George W. Bush neste início de século XXI: “Nas duas últimas eleições, os republicanos se enfraqueceram em todos os lugares, exceto no Sul branco rural — a região que permanece a menos educada e a menos diversificada”.
Em Mooresville, cujo prefeito — reeleito em 2007 — é republicano, 81% dos habitantes são brancos, e o resto se divide entre negros (14%) e outras etnias, segundo o Censo de 2000.
Vitória de um negro seria sinal de novos ventos
Apesar de tudo, a eleição de Obama pode já ser o sinal de que algo está mudando, mesmo no recalcitrante Sul. Os próximos quatro anos vão mostrar se os EUA realmente ingressaram na era pós-racial, como o agora presidente eleito pregou incessantemente durante a campanha.
— Pode haver algum desconforto de alguns, e bastante desconforto de outros com a vitória de Obama, mas acho que estamos prontos aqui no Sul para esperar e ver — acredita a professora Andrea Simpson, do Departamento de Ciência Política da Universidade de Richmond, na Virgínia, ela própria negra e eleitora democrata. — Ele já mostrou que tudo é possível e que as atitudes raciais estão mudando. Se fizer bem seu trabalho, mais pessoas vão começar a se modificar.


















